Product: OGlobo PubDate: 10-03-2012 Zone: Nacional Edition: 1 Page: PAGINA_F User: Schinaid Time: 03-09-2012                                    21:42 Color: K




6                                                                                                                                                                                                                                    Sábado, 10 de março de 2012


                                                                                                                  O GLOBO
                                                                                                                           OPINIÃO


                             Hora de acabar com a farra das MPs
        N
                  ão é usual a mais alta Corte da Justiça                 quinta-feira. De então para a frente, precisarão ou de excepcional interesse social”. É o ca-                          que na oposição abria fogo contra a emissão
                   voltar atrás num veredicto de incons-                  ser admitidas por comissão especial mista de     so.                                                                   de MPs por Fernando Henrique Cardoso, edi-
                   titucionalidade. Mas, da maneira co-                   senadores e deputados.                             Passado o susto, é tratar de aproveitá-lo para                      tou 419 delas, nos dois mandatos, contra 365
                   mo aconteceu, poderia ser previsí-                       Se assim não decidisse o Supremo, 560 medi-    se moralizar o uso de MPs. Filho legítimo do de-                      nos também oito anos de poder do adversário
        vel. O curto-circuito ocorreu no julgamento da                    das provisórias poderiam ter o                                 creto-lei da ditadura militar, o ins-                   tucano.
        medida provisória de criação do Instituto Chi-                    mesmo destino, e com os seus                                   trumento surgiu na Constituição                           A tentação de governar sem o Congresso é
        co Mendes, emitida e aprovada sem cumprir ri-                     efeitos revogados, algo impensá-                               de 1988 para o Executivo não per-                       grande no Brasil. E o próprio Legislativo ajuda,
        tos legais, daí ter sido suspensa pelo Supremo                    vel. Seriam atingidas MPs de to-       Congresso tem der agilidade administrativa na                                   na sua leniência. Até os generais demonstra-
        Tribunal Federal, na quarta-feira. Mas poderia                    dos os governos, desde o de Jo-                                redemocratização. A intenção foi                        ram mais pudor no manejo de decretos-lei do
        acontecer em qualquer outro julgamento se-                        sé Sarney. Da administração Fer-       de deixar de ser desvirtuada, e a medida provisó-                               que governos civis nas medidas provisórias.
        melhante, tamanho o acúmulo de irregularida-                      nando Henrique, por exemplo, a                                 ria se converteu em instrumento                           A culpa é democratizada nesta crise, como
        des acumuladas há muito tempo na edição e                         que fixou o salário mínimo de simples cartório de uso excessivo e também des-                                          declarou o ex-ministro e ex-presidente do STF
        tramitação de medidas provisórias.                                2002. Na Era Lula, o Bolsa Família                             cabido, como são as MPs “árvore                         Nelson Jobim: presidentes do Senado, líderes
          Constatado o tamanho do problema institu-                       poderia ser revogado, e o mes-          avalizador do          de Natal”, cheias de pendurica-                         de governos no Congresso e ministros de arti-
        cional criado pelo veredicto, com o surgimen-                     mo aconteceria com Minha Ca-                                   lhos diversos, sobre vários as-                         culação política. Tem-se de aproveitar o mo-
        to de uma enorme zona de insegurança jurídi-                      sa, Minha Vida.                            Executivo           suntos sem relação entre si, uma                        mento e trabalhar para o Congresso deixar de
        ca, não houve saída a não ser o recuo. Por oito                     Embora espantoso, o recuo                                    indiscutível ilegalidade.                               ser cartório carimbador de decisões do Execu-
        a um, o Supremo determinou ao Congresso fa-                       do Supremo tem respaldo em                                       No plano político mais amplo, a                       tivo. Já aprovada no Senado, está na Câmara
        zer o rito processual correto de aprovação da                     lei federal (9.868, de 1999), cu-                              MP passou a servir para o Execu-                        proposta de emenda constitucional do sena-
        MP do Instituto, e, por sete a dois, teve de esta-                jo artigo 27 faculta a Corte a “restringir efei- tivo avançar sobre espaços institucionais do                          dor José Sarney, com algum disciplinamento
        belecer que a decisão passaria a valer apenas                     tos” de declarações de inconstitucionalida-      Congresso. O Planalto começou também a le-                            na apreciação de MPs no Congresso. É preciso
        para medidas provisórias editadas a partir de                     de caso haja “razões de segurança jurídica       gislar, de baixo para cima, sem pruridos. Lula,                       recolocá-la em discussão.



                                     Populismo com prazo de validade
        L
                 íderes populistas frequentemente                         inflação de 30% ao ano, desestímulo à iniciativa  te, processou “El Universo”, principal jornal do                       O paraguaio Fernando Lugo prometeu refor-
                 têm sucesso nas urnas com promes-                        individual, a corrosão das liberdades democrá-    país, seus donos e o editor de opinião por te-                       ma agrária para enfrentar a má distribuição
                 sas demagógicas a eleitores empo-                        ticas. A reeleição de Chávez se tornou mais difí- rem publicado um artigo chamando-o de dita-                          das terras, o que inclui a situação dos brasi-
                 brecidos e desencantados. Porém,                         cil com a doença, mas, mesmo                                    dor. A Justiça, manejada pelo pre-                     guaios — ruralistas brasileiros estabelecidos
        mais dia menos dia, a realidade se impõe e                        são, ele enfrentaria em outubro o                               sidente, acatou sua demanda de                         no país. É óbvio que os interesses envolvidos
        eles se veem diante de cidadãos revolta-                          pleito mais difícil de seus13 anos                              prisão para os acusados e multa                        são mais poderosos que sua promessa, e hoje
        dos. É o que acontece em nações sul-ameri-                        no poder, pois a oposição se             Promessas              de US$ 40 milhões. A reação con-                       Lugo enfrenta a revolta dos sem terra paraguai-
        canas que escolheram líderes desse tipo,                          uniu e lançou candidato único.                                  trária obrigou Correa a “perdoar”                      os, que frequentemente invadem proprieda-
        como a Venezuela de Hugo Chávez, a Bolí-                             O equatoriano Rafael Correa,       funcionam para os acusados.                                                      des de brasiguaios.
        via de Evo Morales, o Equador de Rafael                           discípulo de Chávez, tem um mé-                                   Sua aliança nacionalista com                           Morales, da Bolívia, tornou-se o primeiro in-
        Correa e, em alguns aspectos, o Paraguai de                       rito: acabou com o troca-troca        eleger, mas são           os indígenas entrou em crise em                        dígena a chefiar um governo no país. Foi
        Fernando Lugo e a Argentina dos Kirchner.                         de presidentes no país. Só que o                                2009, principalmente pela políti-                      eleito com a bênção de Chávez e do então
          A questão se torna mais dramática quando                        modelo chavista adotado é sob         desmascaradas ca do governo em relação à mi-                                     presidente Lula, mas seu projeto populista
        se trata de países de menos recursos. Não é o                     medida para se eternizar no po-                                 neração e proteção dos recur-                          logo lhe criou problemas. Para cortar gas-
        caso da Venezuela, com sua imensa riqueza pe-                     der. Eleito, tomou posse em 2007       pela realidade           sos naturais, que contraria seu                        tos públicos, retirou subsídios aos combus-
        trolífera. Ela permitiu a Chávez a construção                     e convocou uma assembleia                                       discurso inicial. A principal or-                      tíveis, gerando um protesto tão forte que te-
        do “socialismo do século XXI”, um projeto ba-                     constituinte que promulgou no-                                  ganização de indígenas realiza                         ve de voltar atrás.
        seado no hiperpresidencialismo, no gigantis-                      va constituição, sendo marcadas                                 uma grande marcha de protesto                            São experiências que mostram o caráter per-
        mo estatal, no assistencialismo. E a contrapar-                   novas eleições em 2009, ganhas por ele. O man-    de 700 quilômetros iniciada quinta-feira na                          nicioso da prática populista. Ela pode até se
        tida é a dilapidação da riqueza do país, a desor-                 dato vai até 2013 com direito à reeleição até     região amazônica do país, devendo chegar a                           sustentar por algum tempo e enganar muitos,
        ganização da economia, o desabastecimento,                        2017. Mas Correa enfrenta problemas. Arrogan-     Quito dia 22.                                                        mas se torna impraticável a longo prazo.




A construção de uma imagem
                                                                                                                                                                                                                                                                     Marcelo
CACÁ DIEGUES                                Mas o cinema brasileiro nunca teve




A
                                          uma história fluente, sempre viveu de
          população precisa se dar con- ciclos que se abriam com grande eufo-
          ta da importância da Lei12.485 ria e, depois de muito pouco tempo, se
          para todos nós brasileiros. Es- fechavam melancolicamente, vítimas
          sa lei, recentemente aprovada de circunstâncias políticas, econômi-
pelo Congresso, trata de conteúdo naci- cas ou institucionais. Foi assim com a
onal nas televisões por assinatura. Mas vasta produção de filmes brasileiros
não se trata de reivindicação corporati- na primeira década do século 20, com
va, benefício exclusivo para a atividade os ciclos regionais dos anos 1920 e 30,
que fabrica esse tipo de produto. Trata- com a chanchada, a Vera Cruz, o Cine-
se de exibir, nas telinhas                              ma Novo, a Embrafilme.
brasileiras, sons e ima-                                  Desde a promulgação
gens do Brasil, num diá-                                da Lei do Audiovisual,
logo com o público que        Se até ministros ainda durante o governo
esteja à altura de nossas                               Itamar Franco, o cinema
criatividade e diversida-       reclamam do             brasileiro vive um novo
de, que seja um espelho                                 período que, passados
de nossos costumes e,             excesso de            20 anos, já podemos des-
ao mesmo tempo, capaz                                   confiar de que não se
de propor novos com-             burocracia,            trata de mais um ciclo,
portamentos para novos                                  mas da inauguração do
tempos.                          imagine nós            cinema como atividade
  Quando          dizemos                               permanente no Brasil.
“sons e imagens”, esta-                                   Isso significa que po-
mos nos referindo a to-                                 demos enfim contar com
da uma família do audiovisual da qual a fabricação regular de uma imagem
o cinema é apenas um avozinho que para o país através de seu cinema.                                     semanais (cerca de dois por cento de                tas brasileiros se unam na defesa des-                 que nem exclua o modesto produtor
gerou descendência luminosa, da tele- Uma imagem que deve ser espelho e                                  toda a duração da semana) da progra-                sa lei. É preciso que a população com-                 independente, que não imponha nem
visão aberta à internet, do DVD à tele- estímulo, descoberta e reflexão, capaz                           mação de cada canal, além de1/3 de ca-              preenda que ela é uma necessidade                      cerceie a liberdade das operadoras e
visão por assinatura. Além dos múlti- de colaborar com a construção de                                   nais nacionais (tipo Canal Brasil) nos              do país como um todo, uma necessi-                     programadoras.
plos novos formatos que ainda vêm nossa identidade. Sendo que a identi-                                  pacotes de cada operadora.                          dade que não atende apenas à corpo-                      Nesta semana, em entrevista na te-
por aí.                                   dade de um povo não se determina pe-                             Contra isso, se insurgem alguns pou-              ração do cinema, mas ao interesse de                   levisão, um político respeitável como
  Poucos sabem que o cinema brasi- la data imutável de seu nascimento no                                 cos insatisfeitos, como a Sky, recorren-            todos. Não estou exagerando: temos                     Aldo Rebelo, liderança proeminente
leiro é um dos mais antigos do mundo. passado, mas pelo futuro do que ele                                do à Justiça para impedir essa reden-               que lutar pela regulamentação e exe-                   do mesmo partido do presidente da
A primeira sessão de cinema se deu no for capaz de construir.                                            ção do nosso audiovisual. Ora, a lei não            cução da Lei 12.485 como fizemos há                    Ancine, alguém que já passou pelos
dia 28 de dezembro de 1895, num café        A Lei 12.485, pela qual tantos luta-                         estupra ninguém, não impede que ca-                 quase dois séculos pela independên-                    cargos mais importantes do Legislati-
de Paris. Em junho do ano seguinte, já ram, inclusive os responsáveis pelo su-                           da canal faça sua programação como                  cia do país. Ou como nos empenha-                      vo e é hoje ministro dos Esportes, re-
se realizavam projeções, aqui mesmo cesso de nossa televisão aberta, repre-                              bem entender, contrate o produto na-                mos, mais recentemente, para livrar                    clamava do que chamou de “excesso
no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, senta a consolidação desse movimen-                                cional que lhe for mais conveniente, es-            o país da ditadura que nos oprimia.                    de burocracia no país”. Se um minis-
as primeiras sessões de cinema na to coletivo, abrindo nossas telinhas                                   tabeleça preços de mercado para es-                   Em contrapartida, é preciso que a                    tro da confiança do governo tem esse
América Latina. Cerca de apenas um àqueles novos sons e imagens, repre-                                  sas operações. Ninguém se mete na vi-               Ancine ouça a todos e que todos cola-                  cuidado, imagine nós que não temos
ano depois, um fotógrafo ítalo-brasi- sentantes de nossa diversidade geo-                                da deles, apenas pedimos licença para               borem com a Ancine para evitar a bu-                   o seu poder.
leiro já estava filmando a entrada da gráfica, étnica, cultural. Essa lei reser-                         ocupar um espaçozinho modesto em                    rocracia que estrangula as leis e as
Baía da Guanabara, realizando assim va, para a exibição do audiovisual naci-                             nossa própria casa.                                 torna ineficazes. É preciso produzir                   CACÁ DIEGUES é cineasta. E-mail:
o primeiro filme sul-americano.           onal independente, três horas e meia                             Não basta que a Ancine e os cineas-               uma regulamentação que não sufo-                       carlosdiegues@luzmagica.com.br.

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Opinião 10 mar 1

  • 1.
    Product: OGlobo PubDate:10-03-2012 Zone: Nacional Edition: 1 Page: PAGINA_F User: Schinaid Time: 03-09-2012 21:42 Color: K 6 Sábado, 10 de março de 2012 O GLOBO OPINIÃO Hora de acabar com a farra das MPs N ão é usual a mais alta Corte da Justiça quinta-feira. De então para a frente, precisarão ou de excepcional interesse social”. É o ca- que na oposição abria fogo contra a emissão voltar atrás num veredicto de incons- ser admitidas por comissão especial mista de so. de MPs por Fernando Henrique Cardoso, edi- titucionalidade. Mas, da maneira co- senadores e deputados. Passado o susto, é tratar de aproveitá-lo para tou 419 delas, nos dois mandatos, contra 365 mo aconteceu, poderia ser previsí- Se assim não decidisse o Supremo, 560 medi- se moralizar o uso de MPs. Filho legítimo do de- nos também oito anos de poder do adversário vel. O curto-circuito ocorreu no julgamento da das provisórias poderiam ter o creto-lei da ditadura militar, o ins- tucano. medida provisória de criação do Instituto Chi- mesmo destino, e com os seus trumento surgiu na Constituição A tentação de governar sem o Congresso é co Mendes, emitida e aprovada sem cumprir ri- efeitos revogados, algo impensá- de 1988 para o Executivo não per- grande no Brasil. E o próprio Legislativo ajuda, tos legais, daí ter sido suspensa pelo Supremo vel. Seriam atingidas MPs de to- Congresso tem der agilidade administrativa na na sua leniência. Até os generais demonstra- Tribunal Federal, na quarta-feira. Mas poderia dos os governos, desde o de Jo- redemocratização. A intenção foi ram mais pudor no manejo de decretos-lei do acontecer em qualquer outro julgamento se- sé Sarney. Da administração Fer- de deixar de ser desvirtuada, e a medida provisó- que governos civis nas medidas provisórias. melhante, tamanho o acúmulo de irregularida- nando Henrique, por exemplo, a ria se converteu em instrumento A culpa é democratizada nesta crise, como des acumuladas há muito tempo na edição e que fixou o salário mínimo de simples cartório de uso excessivo e também des- declarou o ex-ministro e ex-presidente do STF tramitação de medidas provisórias. 2002. Na Era Lula, o Bolsa Família cabido, como são as MPs “árvore Nelson Jobim: presidentes do Senado, líderes Constatado o tamanho do problema institu- poderia ser revogado, e o mes- avalizador do de Natal”, cheias de pendurica- de governos no Congresso e ministros de arti- cional criado pelo veredicto, com o surgimen- mo aconteceria com Minha Ca- lhos diversos, sobre vários as- culação política. Tem-se de aproveitar o mo- to de uma enorme zona de insegurança jurídi- sa, Minha Vida. Executivo suntos sem relação entre si, uma mento e trabalhar para o Congresso deixar de ca, não houve saída a não ser o recuo. Por oito Embora espantoso, o recuo indiscutível ilegalidade. ser cartório carimbador de decisões do Execu- a um, o Supremo determinou ao Congresso fa- do Supremo tem respaldo em No plano político mais amplo, a tivo. Já aprovada no Senado, está na Câmara zer o rito processual correto de aprovação da lei federal (9.868, de 1999), cu- MP passou a servir para o Execu- proposta de emenda constitucional do sena- MP do Instituto, e, por sete a dois, teve de esta- jo artigo 27 faculta a Corte a “restringir efei- tivo avançar sobre espaços institucionais do dor José Sarney, com algum disciplinamento belecer que a decisão passaria a valer apenas tos” de declarações de inconstitucionalida- Congresso. O Planalto começou também a le- na apreciação de MPs no Congresso. É preciso para medidas provisórias editadas a partir de de caso haja “razões de segurança jurídica gislar, de baixo para cima, sem pruridos. Lula, recolocá-la em discussão. Populismo com prazo de validade L íderes populistas frequentemente inflação de 30% ao ano, desestímulo à iniciativa te, processou “El Universo”, principal jornal do O paraguaio Fernando Lugo prometeu refor- têm sucesso nas urnas com promes- individual, a corrosão das liberdades democrá- país, seus donos e o editor de opinião por te- ma agrária para enfrentar a má distribuição sas demagógicas a eleitores empo- ticas. A reeleição de Chávez se tornou mais difí- rem publicado um artigo chamando-o de dita- das terras, o que inclui a situação dos brasi- brecidos e desencantados. Porém, cil com a doença, mas, mesmo dor. A Justiça, manejada pelo pre- guaios — ruralistas brasileiros estabelecidos mais dia menos dia, a realidade se impõe e são, ele enfrentaria em outubro o sidente, acatou sua demanda de no país. É óbvio que os interesses envolvidos eles se veem diante de cidadãos revolta- pleito mais difícil de seus13 anos prisão para os acusados e multa são mais poderosos que sua promessa, e hoje dos. É o que acontece em nações sul-ameri- no poder, pois a oposição se Promessas de US$ 40 milhões. A reação con- Lugo enfrenta a revolta dos sem terra paraguai- canas que escolheram líderes desse tipo, uniu e lançou candidato único. trária obrigou Correa a “perdoar” os, que frequentemente invadem proprieda- como a Venezuela de Hugo Chávez, a Bolí- O equatoriano Rafael Correa, funcionam para os acusados. des de brasiguaios. via de Evo Morales, o Equador de Rafael discípulo de Chávez, tem um mé- Sua aliança nacionalista com Morales, da Bolívia, tornou-se o primeiro in- Correa e, em alguns aspectos, o Paraguai de rito: acabou com o troca-troca eleger, mas são os indígenas entrou em crise em dígena a chefiar um governo no país. Foi Fernando Lugo e a Argentina dos Kirchner. de presidentes no país. Só que o 2009, principalmente pela políti- eleito com a bênção de Chávez e do então A questão se torna mais dramática quando modelo chavista adotado é sob desmascaradas ca do governo em relação à mi- presidente Lula, mas seu projeto populista se trata de países de menos recursos. Não é o medida para se eternizar no po- neração e proteção dos recur- logo lhe criou problemas. Para cortar gas- caso da Venezuela, com sua imensa riqueza pe- der. Eleito, tomou posse em 2007 pela realidade sos naturais, que contraria seu tos públicos, retirou subsídios aos combus- trolífera. Ela permitiu a Chávez a construção e convocou uma assembleia discurso inicial. A principal or- tíveis, gerando um protesto tão forte que te- do “socialismo do século XXI”, um projeto ba- constituinte que promulgou no- ganização de indígenas realiza ve de voltar atrás. seado no hiperpresidencialismo, no gigantis- va constituição, sendo marcadas uma grande marcha de protesto São experiências que mostram o caráter per- mo estatal, no assistencialismo. E a contrapar- novas eleições em 2009, ganhas por ele. O man- de 700 quilômetros iniciada quinta-feira na nicioso da prática populista. Ela pode até se tida é a dilapidação da riqueza do país, a desor- dato vai até 2013 com direito à reeleição até região amazônica do país, devendo chegar a sustentar por algum tempo e enganar muitos, ganização da economia, o desabastecimento, 2017. Mas Correa enfrenta problemas. Arrogan- Quito dia 22. mas se torna impraticável a longo prazo. A construção de uma imagem Marcelo CACÁ DIEGUES Mas o cinema brasileiro nunca teve A uma história fluente, sempre viveu de população precisa se dar con- ciclos que se abriam com grande eufo- ta da importância da Lei12.485 ria e, depois de muito pouco tempo, se para todos nós brasileiros. Es- fechavam melancolicamente, vítimas sa lei, recentemente aprovada de circunstâncias políticas, econômi- pelo Congresso, trata de conteúdo naci- cas ou institucionais. Foi assim com a onal nas televisões por assinatura. Mas vasta produção de filmes brasileiros não se trata de reivindicação corporati- na primeira década do século 20, com va, benefício exclusivo para a atividade os ciclos regionais dos anos 1920 e 30, que fabrica esse tipo de produto. Trata- com a chanchada, a Vera Cruz, o Cine- se de exibir, nas telinhas ma Novo, a Embrafilme. brasileiras, sons e ima- Desde a promulgação gens do Brasil, num diá- da Lei do Audiovisual, logo com o público que Se até ministros ainda durante o governo esteja à altura de nossas Itamar Franco, o cinema criatividade e diversida- reclamam do brasileiro vive um novo de, que seja um espelho período que, passados de nossos costumes e, excesso de 20 anos, já podemos des- ao mesmo tempo, capaz confiar de que não se de propor novos com- burocracia, trata de mais um ciclo, portamentos para novos mas da inauguração do tempos. imagine nós cinema como atividade Quando dizemos permanente no Brasil. “sons e imagens”, esta- Isso significa que po- mos nos referindo a to- demos enfim contar com da uma família do audiovisual da qual a fabricação regular de uma imagem o cinema é apenas um avozinho que para o país através de seu cinema. semanais (cerca de dois por cento de tas brasileiros se unam na defesa des- que nem exclua o modesto produtor gerou descendência luminosa, da tele- Uma imagem que deve ser espelho e toda a duração da semana) da progra- sa lei. É preciso que a população com- independente, que não imponha nem visão aberta à internet, do DVD à tele- estímulo, descoberta e reflexão, capaz mação de cada canal, além de1/3 de ca- preenda que ela é uma necessidade cerceie a liberdade das operadoras e visão por assinatura. Além dos múlti- de colaborar com a construção de nais nacionais (tipo Canal Brasil) nos do país como um todo, uma necessi- programadoras. plos novos formatos que ainda vêm nossa identidade. Sendo que a identi- pacotes de cada operadora. dade que não atende apenas à corpo- Nesta semana, em entrevista na te- por aí. dade de um povo não se determina pe- Contra isso, se insurgem alguns pou- ração do cinema, mas ao interesse de levisão, um político respeitável como Poucos sabem que o cinema brasi- la data imutável de seu nascimento no cos insatisfeitos, como a Sky, recorren- todos. Não estou exagerando: temos Aldo Rebelo, liderança proeminente leiro é um dos mais antigos do mundo. passado, mas pelo futuro do que ele do à Justiça para impedir essa reden- que lutar pela regulamentação e exe- do mesmo partido do presidente da A primeira sessão de cinema se deu no for capaz de construir. ção do nosso audiovisual. Ora, a lei não cução da Lei 12.485 como fizemos há Ancine, alguém que já passou pelos dia 28 de dezembro de 1895, num café A Lei 12.485, pela qual tantos luta- estupra ninguém, não impede que ca- quase dois séculos pela independên- cargos mais importantes do Legislati- de Paris. Em junho do ano seguinte, já ram, inclusive os responsáveis pelo su- da canal faça sua programação como cia do país. Ou como nos empenha- vo e é hoje ministro dos Esportes, re- se realizavam projeções, aqui mesmo cesso de nossa televisão aberta, repre- bem entender, contrate o produto na- mos, mais recentemente, para livrar clamava do que chamou de “excesso no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, senta a consolidação desse movimen- cional que lhe for mais conveniente, es- o país da ditadura que nos oprimia. de burocracia no país”. Se um minis- as primeiras sessões de cinema na to coletivo, abrindo nossas telinhas tabeleça preços de mercado para es- Em contrapartida, é preciso que a tro da confiança do governo tem esse América Latina. Cerca de apenas um àqueles novos sons e imagens, repre- sas operações. Ninguém se mete na vi- Ancine ouça a todos e que todos cola- cuidado, imagine nós que não temos ano depois, um fotógrafo ítalo-brasi- sentantes de nossa diversidade geo- da deles, apenas pedimos licença para borem com a Ancine para evitar a bu- o seu poder. leiro já estava filmando a entrada da gráfica, étnica, cultural. Essa lei reser- ocupar um espaçozinho modesto em rocracia que estrangula as leis e as Baía da Guanabara, realizando assim va, para a exibição do audiovisual naci- nossa própria casa. torna ineficazes. É preciso produzir CACÁ DIEGUES é cineasta. E-mail: o primeiro filme sul-americano. onal independente, três horas e meia Não basta que a Ancine e os cineas- uma regulamentação que não sufo- carlosdiegues@luzmagica.com.br. N ORGA NIZ AÇÕE S GLO B0 FALE COM O GLOBO Presidente: Roberto Irineu Marinho Classifone: (21) 2534-4333 Para assinar: (21) 2534-4315 ou oglobo.com.br/assine Geral e Redação: (21) 2534-5000 Vice-Presidentes: João Roberto Marinho ● José Roberto Marinho AG Ê N C I A O G L O B O P U B L I C I DA D E SUCURSAIS A S S I N AT U R A V E N DA AV U L S A AT E N D I M E N T O OGLOBO DE NOTÍCIAS Noticiário: (21) 2534-4310 Belo Horizonte: Atendimento ao assinante ESTADOS DIAS ÚTEIS DOMINGOS AO L E I T O R é publicado pela Infoglobo Comunicação e Participações S.A. 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