SALVADOR SÁBADO 13/12/2014 3 2 
O roteiro é feito 
pela combinação 
dos poemas com 
conversas sobre a 
obra de Fernando 
Pessoa 
A estrela impactante de Cleonice Berardinelli 
ADALBERTO MEIRELES 
Jornalista 
O que também encanta, além de toda 
adelicadeza,éapresençadeBethânia, 
conduzida por Cleonice no desvão da 
poesiadePessoa.Nãoquedevesseser 
o contrário. 
A professora é uma especialista. 
Masa cantora, dona de interpretações 
memoráveisdopoetaportuguês, pelo 
menos desde o antológico Rosa dos 
Ventos, de 1971, é completa gene-rosidade 
lá fora). 
Em certos momentos parece mes-mo 
partilhar da presença do mestre – cor-rigida, 
Ainda Euclides Neto 
Volto a Euclides Neto, roman-cista, 
ex-prefeito de Ipiaú.Oque 
mais admirar nele? O desarma-doagentepolitico- 
culturaldeto-da 
uma época, criador da Fa-zenda 
do Povo, perseguido e 
preso em1964 e evangelizador 
dos militares que o interroga-ram? 
O empresário rural pre-servador 
da flora e da fauna? O 
advogado defensor gratuito de 
posseiros espoliados? O ficcio-nista, 
autor de Machombon-go? 
Como romancista, ele se en-caixou 
facilmente no pressupos-to 
óbvio, e, no entanto, pouco 
praticado, segundo o qual um 
escritor de ficções deve privile-giar 
temas do seu íntimo co-nhecimento, 
oriundo do desen-volvimento 
do ser ou resultan-tes 
de circunstâncias psicosso-ciais 
que testemunhou ou que 
compartilhou. 
Sente-se que Machombongo 
nos 64 minutos de (o vento 
a aluna premiada com a sorte de 
ensinada, enfim, iluminada pe-la 
pulsa, palpita. Não é texto frio. 
Não é objeto inanimado. Nada 
tem de fantasia, de devaneio. 
Está inserido na forte temática 
brasileira do romance da terra, 
de 1930, de veia nordestina, 
afluente de José Américo de Al-meida, 
Rachel de Queiroz, José 
LinsdoRego, JorgeAmado,Gra-ciliano 
Ramos. O baiano Eucli-des 
o compôs nos anos 1980, a 
partir da experiência pessoal di-reta, 
a partir do envolvimento 
emocional. Conviveu com per-sonagens, 
situações, episódios 
do romance, talvez o mais es-truturado 
e entretecido da sua 
bibliografia de 14 títulos agora 
reeditados pela Ufba. 
Por isso, pela fidelidade aos 
compromissos vivenciais que 
tanto se refletem na escrita, o 
autor convence e comove. Finda 
a leitura, o romance haverá de 
permanecer como documento 
em que se acredita, porque 
emanado da sensibilidade ex-posta. 
AssimacontecetambémemA 
Enxada e a mulher que venceu 
o próprio destino, saga de uma 
roceira que, fazendo da enxada 
o seu sismógrafo, criou família, 
adquiriu propriedades, subiu na 
escala social. Vislumbro aqui 
uma metáfora acerca do ato de 
escrever e de lavrar a terra. A 
enxada euclidiana é o suor ba-nhadopela 
inspiração,oesforço 
rude roçado pela asa efêmera 
dotalento. Fereacrostaduraem 
que vicejam ervas daninhas, e, 
aos poucos, enquanto restam 
forças para puxar o lixo até os 
pés, a pele reaparece—a nua, 
adiáfana,aescurapeledaterra, 
morna como um abraço, ansio-sa 
comolábios abrochados para 
o beijo, quente qual lavra de 
ânsias reprimidas. 
História absurda nos dias de 
hoje, quando o campo se es-vazia 
e as cidades incham? Nem 
tanto. A realidade sempre ava-liza 
enredos que parecem ab-surdos. 
Comoveu-meanos atrás 
o relato jornalístico sobre uma 
sertaneja baiana, Eufrásia: só-siadapersonagemeuclidiana, 
o 
rosto cortadoderugas, elaman-tinha 
os movimentos lestos aos 
75 anos,amava as lavouras, era 
mãe devotada no amanho da 
terra. 
Outra ventura além da con-vivência 
e amizade me foi en-sejada: 
a de editar este Ma-chombongo. 
Estava eu em Ita-buna, 
após longa permanência 
no Sul, quandomeveio àsmãos 
o original do romance. Impres-sionou- 
me a fluência e o en-cadeamento 
das partes e epi-sódios, 
a firmeza do relato, a 
pungência característica de Eu-clides 
disfarçada nas entreli-nhas, 
sempre pronta a cooptar 
o leitor por obra da empatia. 
O romance data de 1986, pu-blicado 
em Itabuna, pois. Era o 
primeiro título da Coleção Ado-nias 
Filho, que infelizmente não 
prosperou por se tratar de pro-jeto 
sem reembolso imediato. 
“Grande romance de histórias 
acontecidas, este Machombon-go”, 
dizia eu nas abas. Acon-tecidas, 
com efeito, dentro dos 
padrões de realismo de um Eu-clides 
Neto comprometido ba-silarmente 
como testemunho a 
dar. 
As personagens eram do seu 
conhecimento, em especial o 
protagonistamaisdestacado— 
misto de produtor de cacau e de 
gado, e também político – um 
arremedo contemporâneo da 
antiga figura de senhor de ba-raço 
e cutelo, todo-poderoso, 
cruel, do qual dependiam mui-tas 
vidas humildes. Em suma, 
personalidade geocêntrica e 
egocêntrica que o romancista 
não chega a retratar de forma 
maniqueísta,emboranasentre-linhasdescarregueoascodoseu 
desagrado. 
Sente-se que 
Machombongo 
pulsa, palpita. 
Não é texto frio. 
Não é objeto 
inanimado 
Hélio Pólvora 
Escritor, membro da Academia 
de Letras da Bahia 
Nada tem de 
fantasia, de 
devaneio. Está 
inserido na forte 
temática do 
romance da terra 
MÚSICA 
Grupo Cultural Arte 
Consciente faz festa 
de lançamento do 
seu primeiro CD 
DA REDAÇÃO 
A organização não-governa-mental 
Grupo Cultural Arte 
Consciente lança hoje o seu pri-meiro 
CD, A Arte Consciente da 
Educação e Cultura naMúsica. O 
evento acontecerá às 16 horas, 
na Praça Euclides da Cunha, Lar-go 
de Saramandaia. 
A programação contará com 
apresentações culturais, como 
do Grupo Capoeira Angola Pal-mares, 
os jovens atletas do Gru-po 
Bom Boxe, além do Grupo 
Circo Alegria. E, para encerrar a 
noite, o show da Banda Mirim 
Arte Consciente. 
Contemplado pelo Edital Se-torialdeMúsicadaSecretariade 
Cultura do Estado, via Centro de 
Culturas Identitárias, o grupo 
musical é composto por crianças 
de 7 a 17 anos e faz parte do 
projeto que atua no bairro de 
Saramandaia com aulas de ar-tes 
e valorização da cultura afro-brasileira. 
CINEMA A professora e a cantora estão 
juntas, no documentário (o vento lá fora) 
YOLANDA SIMÕES ATHERINO 
Rio de Janeiro 
Com direção de Marcio Debel-lian, 
o documentário (o vento lá 
fora) é umretrato do poeta Fer-nando 
Pessoa criado a partir da 
leitura de seus poemas selecio-nados 
pela professora Cleonice 
Berardinelli, 98 anos, e a can-tora 
baiana Maria Bethânia. 
Imortal da Academia Brasi-leira 
de Letras, Cleonice é re-conhecida 
como a maior espe-cialista 
emPessoa no Brasil, en-quanto 
Bethânia popularizou, 
ao longo de quase 50 anos de 
carreira, a obra do poeta em 
shows e discos. 
Apresentada ao público, na 
Flip 2013, no evento Lendo Pes-soa 
à Beira-mar, a leitura deste 
documentário foi filmada pou-cos 
meses depois no estúdio da 
Biscoito Fino, durante dois dias, 
pelo diretor Marcio Debellian. 
No primeiro, as duas grava-ram 
um CD com a leitura com-pleta. 
No segundo, realizarama 
leitura para uma plateia de con-vidados. 
O roteiro do filme é feito pela 
combinação dos poemas com 
conversas sobre a obra de Fer-nando 
Pessoa, ressaltando as-pectos 
da personalidade de seus 
heterônimos Alberto Caeiro, Ál-varo 
de Campos e Ricardo Reis. 
A intimidade entre Cleonice e 
Bethânia é notória no clima de 
interação do documentá-rio. 
Não se sente o tempo 
passar (são 64 minutos ) 
dada a interpretação de 
duas pessoas que são 
apaixonadas pelos poemas 
desse grande autor portu-guês 
do século 20. 
(o vento lá fora) foi fil-mado 
em preto e branco, 
com trilha musical que traz 
Nelson Freire (executando 
Liszt e Schumann), compo-sições 
de Egberto Gismonti 
executadas em flauta e vio-lino, 
e uma pequena partici-pação 
da própria Maria Bethâ-nia 
ao piano. 
O documentário foi exibido 
na mostra Retratos, dentro do 
Festival do Rio, e fez tanto su-cesso 
que estreou também no 
cinema, no Estação Net (Rio de 
Janeiro), e em São Paulo, no 
Caixa de Belas Artes. Ainda não 
há previsão de estreia do filme 
em Salvador. 
Entrevista 
Foi realizada uma pequena en-trevista, 
de cerca de 20 minutos 
no dia 1º de dezembro, na Sala 
Leonel Franca nº 42, no 4º andar 
na PUC Rio. Foram momentos 
prazerosos poder participar 
de um encontro de duas 
pessoas tão interessan-tes 
comoCleoniceBe-rardinelli 
e a ma-ravilhosa 
cantora 
Maria Bethânia fa-lando 
sobre uma 
paixão em co-mum: 
a admira-ção 
pelos poemas 
de Fernando Pes-soa. 
Fernando Pessoa 
foi vários poetas ao 
mesmo tempo. Be-thânia 
comentou 
que, quando ela fa-lou 
com a professora so-bre 
a leitura que fizeram 
nafeiradeParaty, ela per-guntou 
se gostaria de re-gistrar 
isso como um do-cumentário, 
essa leitura de 
Fernando. Paraty também é 
umafesta literária. Fernando foi 
escolhido. 
Sobre a experiência de lidar 
com Fernando Pessoa em um 
meio como o cinema, Cleonice 
Berardinelli afirmou: “Foi uma 
surpresa muito agradável para 
mim.Até porqueas pessoasque 
estão trazendo o cinema para 
mim me agradam imensamen-te. 
São pessoas muito gentis. 
Tem sido tudo muito bom para 
mim.Foi amizade àprimeira vis-ta”. 
JáMariaBethâniaafirmouso-bre 
o que mudou na sua ma-neira 
de ver Fernando Pessoa a 
partir da convivência com Dona 
Cleonice: ”Só aumentou a mi-nha 
admiração. Eu tenho muito 
ele para mim. Fernando, como 
é um poeta que eu gosto, e a 
professora também, fica meio 
nosso. Ela é mestra, foi um co-nhecer 
muito mais amplo. Foi 
umadelícia. Conhecer ele muito 
maior, mais amplo”. 
(O VENTO LÁ FORA), DE MARCIO DEBELLIAN / 
R$ 49 ( CD/DVD) / QUITANDA / BISCOITO FINO 
Depoimento 
exclusivo de Maria 
Bethânia sobre o 
projeto e o poeta 
“Ela(Cleonice)fezoroteirotodo: 
escolheu todos os poemas, foi a 
professora que fez tudo, abso-lutamente 
tudo, o que ela ia 
dizer e o que eu ia falar. Ela fez 
o espetáculo, preparouumaau-la. 
Mas reparei que ela falava 
pouco, menos no momento da 
leitura. Tanto para mim como 
para as outras pessoas que tra-balharam, 
quando ela passava 
de um heterônimo para outro, 
ela falava com tanta intimidade 
que aquilo era tão fácil de você 
aprender. Ela explicava os he-terônimos 
com suas diferenças 
de uma maneira tão rápida e 
deliciosa de se aprender, vamos 
fazer isso para colocar em es-colas 
públicas, para os adoles-centes 
ouvirem. E ela gostou da 
ideia. Fomos para o estúdio e 
fizemoscomimensaalegria.Do-naCleo 
falouquenãoé exagero 
nem mentira que Pessoa é um 
grandepoeta.Elenãoéum,mas 
eleépelomenosquatro,osmais 
importantes.Masultimamente, 
em pesquisas naquele grande 
espólio dele que ficou, estão se 
descobrindo montanhas de 
poemas que não se conheciam 
e alguns atribuídos a outros se-nhores 
com nomes de outras 
pessoas que seriam outros he-terônimos 
de Pessoa, como Ál-varo 
de Campos. Quando me 
perguntam qual o que eu mais 
gosto? É uma pergunta difícil. 
No momento, Álvaro de Cam-pos 
seria, segundo a minha de-finição, 
o divã de Fernando Pes-soa, 
no sentido do divã dos psi-canalistas, 
onde se fala de tudo, 
não precisa nem raciocinar se 
pode ou não falar. Enquanto o 
Alberto Caieiro seria o oposto, 
queédefinidopeloPessoacomo 
sendooúnicoquenãofez curso, 
ele só tinha o primário. Pessoa 
diriaque ébrancoe ele diria que 
é preto. As possibilidades de 
aprendizadosãomuitorestritos, 
masemcompensaçãoquemen-tende 
de natureza é ele”. 
Cleonice 
Berardinelli e Maria 
Bethânia posam 
durante entrevista 
Yolanda Simões Atherino / Divulgação 
Cleonice Berardinelli contracena com... ...Maria Bethânia em (o vento lá fora) 
sabedoria de uma imortal da Aca-demia. 
Com a professora, ela fica sabendo 
que a sa-u-da-de deve ser dita assim, 
compassadamente, em quatro síla-bas, 
e com um leve acento no u. Que 
não pode deixar de levar em conta a 
contração p’ra e a ‘sperança de Onde 
pus a esperança. 
E que os trilhos de um trenzinho de 
brinquedo de uma criança estão na 
origem das “calhas de roda” de Au-topsicografia. 
Barrow-on-Furness. 
Barrow, uma cidade à beira de umrio 
– Furness. 
Fingidor 
O poeta, o fingidor. Seus pseudôni-mos, 
não: heterônimos. São outros 
nomes, outras personalidades para 
expressar outros sentimentos, diz a 
professora. 
Álvaro de Campos é o divã de Fer-nando 
Pessoa, continua. Ricardo Reis, 
opagão,poetaantigoclássico.Alberto 
Caeiro, O Guardador de Rebanhos, 
que são os seus pensamentos. Os poe-mas 
escritos de um jato são a “men-tirinha” 
defensável de Pessoa. 
O filme de Marcio Debellian surge e 
sevai comootítuloqueesvainovento. 
Para além da poesia inestimável de 
Pessoa, para além do perfeccionismo 
de Bethânia. 
Escapa, subitamente,emsuas linhas 
sutis de narrativas, fia-se ao mostrar a 
alegria de menina da cantora, e, acima 
de tudo, revela a estrela impactante de 
Cleonice Berardinelli, 98, que a cada 
minuto parecefestejar, comodizopoe-ta, 
o dia dos seus anos. 
Berardinelli e 
Bethânia gravam 
poemas de 
Pessoa emfilme 
Fotos Divulgação

Pagina 3-7

  • 1.
    SALVADOR SÁBADO 13/12/20143 2 O roteiro é feito pela combinação dos poemas com conversas sobre a obra de Fernando Pessoa A estrela impactante de Cleonice Berardinelli ADALBERTO MEIRELES Jornalista O que também encanta, além de toda adelicadeza,éapresençadeBethânia, conduzida por Cleonice no desvão da poesiadePessoa.Nãoquedevesseser o contrário. A professora é uma especialista. Masa cantora, dona de interpretações memoráveisdopoetaportuguês, pelo menos desde o antológico Rosa dos Ventos, de 1971, é completa gene-rosidade lá fora). Em certos momentos parece mes-mo partilhar da presença do mestre – cor-rigida, Ainda Euclides Neto Volto a Euclides Neto, roman-cista, ex-prefeito de Ipiaú.Oque mais admirar nele? O desarma-doagentepolitico- culturaldeto-da uma época, criador da Fa-zenda do Povo, perseguido e preso em1964 e evangelizador dos militares que o interroga-ram? O empresário rural pre-servador da flora e da fauna? O advogado defensor gratuito de posseiros espoliados? O ficcio-nista, autor de Machombon-go? Como romancista, ele se en-caixou facilmente no pressupos-to óbvio, e, no entanto, pouco praticado, segundo o qual um escritor de ficções deve privile-giar temas do seu íntimo co-nhecimento, oriundo do desen-volvimento do ser ou resultan-tes de circunstâncias psicosso-ciais que testemunhou ou que compartilhou. Sente-se que Machombongo nos 64 minutos de (o vento a aluna premiada com a sorte de ensinada, enfim, iluminada pe-la pulsa, palpita. Não é texto frio. Não é objeto inanimado. Nada tem de fantasia, de devaneio. Está inserido na forte temática brasileira do romance da terra, de 1930, de veia nordestina, afluente de José Américo de Al-meida, Rachel de Queiroz, José LinsdoRego, JorgeAmado,Gra-ciliano Ramos. O baiano Eucli-des o compôs nos anos 1980, a partir da experiência pessoal di-reta, a partir do envolvimento emocional. Conviveu com per-sonagens, situações, episódios do romance, talvez o mais es-truturado e entretecido da sua bibliografia de 14 títulos agora reeditados pela Ufba. Por isso, pela fidelidade aos compromissos vivenciais que tanto se refletem na escrita, o autor convence e comove. Finda a leitura, o romance haverá de permanecer como documento em que se acredita, porque emanado da sensibilidade ex-posta. AssimacontecetambémemA Enxada e a mulher que venceu o próprio destino, saga de uma roceira que, fazendo da enxada o seu sismógrafo, criou família, adquiriu propriedades, subiu na escala social. Vislumbro aqui uma metáfora acerca do ato de escrever e de lavrar a terra. A enxada euclidiana é o suor ba-nhadopela inspiração,oesforço rude roçado pela asa efêmera dotalento. Fereacrostaduraem que vicejam ervas daninhas, e, aos poucos, enquanto restam forças para puxar o lixo até os pés, a pele reaparece—a nua, adiáfana,aescurapeledaterra, morna como um abraço, ansio-sa comolábios abrochados para o beijo, quente qual lavra de ânsias reprimidas. História absurda nos dias de hoje, quando o campo se es-vazia e as cidades incham? Nem tanto. A realidade sempre ava-liza enredos que parecem ab-surdos. Comoveu-meanos atrás o relato jornalístico sobre uma sertaneja baiana, Eufrásia: só-siadapersonagemeuclidiana, o rosto cortadoderugas, elaman-tinha os movimentos lestos aos 75 anos,amava as lavouras, era mãe devotada no amanho da terra. Outra ventura além da con-vivência e amizade me foi en-sejada: a de editar este Ma-chombongo. Estava eu em Ita-buna, após longa permanência no Sul, quandomeveio àsmãos o original do romance. Impres-sionou- me a fluência e o en-cadeamento das partes e epi-sódios, a firmeza do relato, a pungência característica de Eu-clides disfarçada nas entreli-nhas, sempre pronta a cooptar o leitor por obra da empatia. O romance data de 1986, pu-blicado em Itabuna, pois. Era o primeiro título da Coleção Ado-nias Filho, que infelizmente não prosperou por se tratar de pro-jeto sem reembolso imediato. “Grande romance de histórias acontecidas, este Machombon-go”, dizia eu nas abas. Acon-tecidas, com efeito, dentro dos padrões de realismo de um Eu-clides Neto comprometido ba-silarmente como testemunho a dar. As personagens eram do seu conhecimento, em especial o protagonistamaisdestacado— misto de produtor de cacau e de gado, e também político – um arremedo contemporâneo da antiga figura de senhor de ba-raço e cutelo, todo-poderoso, cruel, do qual dependiam mui-tas vidas humildes. Em suma, personalidade geocêntrica e egocêntrica que o romancista não chega a retratar de forma maniqueísta,emboranasentre-linhasdescarregueoascodoseu desagrado. Sente-se que Machombongo pulsa, palpita. Não é texto frio. Não é objeto inanimado Hélio Pólvora Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia Nada tem de fantasia, de devaneio. Está inserido na forte temática do romance da terra MÚSICA Grupo Cultural Arte Consciente faz festa de lançamento do seu primeiro CD DA REDAÇÃO A organização não-governa-mental Grupo Cultural Arte Consciente lança hoje o seu pri-meiro CD, A Arte Consciente da Educação e Cultura naMúsica. O evento acontecerá às 16 horas, na Praça Euclides da Cunha, Lar-go de Saramandaia. A programação contará com apresentações culturais, como do Grupo Capoeira Angola Pal-mares, os jovens atletas do Gru-po Bom Boxe, além do Grupo Circo Alegria. E, para encerrar a noite, o show da Banda Mirim Arte Consciente. Contemplado pelo Edital Se-torialdeMúsicadaSecretariade Cultura do Estado, via Centro de Culturas Identitárias, o grupo musical é composto por crianças de 7 a 17 anos e faz parte do projeto que atua no bairro de Saramandaia com aulas de ar-tes e valorização da cultura afro-brasileira. CINEMA A professora e a cantora estão juntas, no documentário (o vento lá fora) YOLANDA SIMÕES ATHERINO Rio de Janeiro Com direção de Marcio Debel-lian, o documentário (o vento lá fora) é umretrato do poeta Fer-nando Pessoa criado a partir da leitura de seus poemas selecio-nados pela professora Cleonice Berardinelli, 98 anos, e a can-tora baiana Maria Bethânia. Imortal da Academia Brasi-leira de Letras, Cleonice é re-conhecida como a maior espe-cialista emPessoa no Brasil, en-quanto Bethânia popularizou, ao longo de quase 50 anos de carreira, a obra do poeta em shows e discos. Apresentada ao público, na Flip 2013, no evento Lendo Pes-soa à Beira-mar, a leitura deste documentário foi filmada pou-cos meses depois no estúdio da Biscoito Fino, durante dois dias, pelo diretor Marcio Debellian. No primeiro, as duas grava-ram um CD com a leitura com-pleta. No segundo, realizarama leitura para uma plateia de con-vidados. O roteiro do filme é feito pela combinação dos poemas com conversas sobre a obra de Fer-nando Pessoa, ressaltando as-pectos da personalidade de seus heterônimos Alberto Caeiro, Ál-varo de Campos e Ricardo Reis. A intimidade entre Cleonice e Bethânia é notória no clima de interação do documentá-rio. Não se sente o tempo passar (são 64 minutos ) dada a interpretação de duas pessoas que são apaixonadas pelos poemas desse grande autor portu-guês do século 20. (o vento lá fora) foi fil-mado em preto e branco, com trilha musical que traz Nelson Freire (executando Liszt e Schumann), compo-sições de Egberto Gismonti executadas em flauta e vio-lino, e uma pequena partici-pação da própria Maria Bethâ-nia ao piano. O documentário foi exibido na mostra Retratos, dentro do Festival do Rio, e fez tanto su-cesso que estreou também no cinema, no Estação Net (Rio de Janeiro), e em São Paulo, no Caixa de Belas Artes. Ainda não há previsão de estreia do filme em Salvador. Entrevista Foi realizada uma pequena en-trevista, de cerca de 20 minutos no dia 1º de dezembro, na Sala Leonel Franca nº 42, no 4º andar na PUC Rio. Foram momentos prazerosos poder participar de um encontro de duas pessoas tão interessan-tes comoCleoniceBe-rardinelli e a ma-ravilhosa cantora Maria Bethânia fa-lando sobre uma paixão em co-mum: a admira-ção pelos poemas de Fernando Pes-soa. Fernando Pessoa foi vários poetas ao mesmo tempo. Be-thânia comentou que, quando ela fa-lou com a professora so-bre a leitura que fizeram nafeiradeParaty, ela per-guntou se gostaria de re-gistrar isso como um do-cumentário, essa leitura de Fernando. Paraty também é umafesta literária. Fernando foi escolhido. Sobre a experiência de lidar com Fernando Pessoa em um meio como o cinema, Cleonice Berardinelli afirmou: “Foi uma surpresa muito agradável para mim.Até porqueas pessoasque estão trazendo o cinema para mim me agradam imensamen-te. São pessoas muito gentis. Tem sido tudo muito bom para mim.Foi amizade àprimeira vis-ta”. JáMariaBethâniaafirmouso-bre o que mudou na sua ma-neira de ver Fernando Pessoa a partir da convivência com Dona Cleonice: ”Só aumentou a mi-nha admiração. Eu tenho muito ele para mim. Fernando, como é um poeta que eu gosto, e a professora também, fica meio nosso. Ela é mestra, foi um co-nhecer muito mais amplo. Foi umadelícia. Conhecer ele muito maior, mais amplo”. (O VENTO LÁ FORA), DE MARCIO DEBELLIAN / R$ 49 ( CD/DVD) / QUITANDA / BISCOITO FINO Depoimento exclusivo de Maria Bethânia sobre o projeto e o poeta “Ela(Cleonice)fezoroteirotodo: escolheu todos os poemas, foi a professora que fez tudo, abso-lutamente tudo, o que ela ia dizer e o que eu ia falar. Ela fez o espetáculo, preparouumaau-la. Mas reparei que ela falava pouco, menos no momento da leitura. Tanto para mim como para as outras pessoas que tra-balharam, quando ela passava de um heterônimo para outro, ela falava com tanta intimidade que aquilo era tão fácil de você aprender. Ela explicava os he-terônimos com suas diferenças de uma maneira tão rápida e deliciosa de se aprender, vamos fazer isso para colocar em es-colas públicas, para os adoles-centes ouvirem. E ela gostou da ideia. Fomos para o estúdio e fizemoscomimensaalegria.Do-naCleo falouquenãoé exagero nem mentira que Pessoa é um grandepoeta.Elenãoéum,mas eleépelomenosquatro,osmais importantes.Masultimamente, em pesquisas naquele grande espólio dele que ficou, estão se descobrindo montanhas de poemas que não se conheciam e alguns atribuídos a outros se-nhores com nomes de outras pessoas que seriam outros he-terônimos de Pessoa, como Ál-varo de Campos. Quando me perguntam qual o que eu mais gosto? É uma pergunta difícil. No momento, Álvaro de Cam-pos seria, segundo a minha de-finição, o divã de Fernando Pes-soa, no sentido do divã dos psi-canalistas, onde se fala de tudo, não precisa nem raciocinar se pode ou não falar. Enquanto o Alberto Caieiro seria o oposto, queédefinidopeloPessoacomo sendooúnicoquenãofez curso, ele só tinha o primário. Pessoa diriaque ébrancoe ele diria que é preto. As possibilidades de aprendizadosãomuitorestritos, masemcompensaçãoquemen-tende de natureza é ele”. Cleonice Berardinelli e Maria Bethânia posam durante entrevista Yolanda Simões Atherino / Divulgação Cleonice Berardinelli contracena com... ...Maria Bethânia em (o vento lá fora) sabedoria de uma imortal da Aca-demia. Com a professora, ela fica sabendo que a sa-u-da-de deve ser dita assim, compassadamente, em quatro síla-bas, e com um leve acento no u. Que não pode deixar de levar em conta a contração p’ra e a ‘sperança de Onde pus a esperança. E que os trilhos de um trenzinho de brinquedo de uma criança estão na origem das “calhas de roda” de Au-topsicografia. Barrow-on-Furness. Barrow, uma cidade à beira de umrio – Furness. Fingidor O poeta, o fingidor. Seus pseudôni-mos, não: heterônimos. São outros nomes, outras personalidades para expressar outros sentimentos, diz a professora. Álvaro de Campos é o divã de Fer-nando Pessoa, continua. Ricardo Reis, opagão,poetaantigoclássico.Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, que são os seus pensamentos. Os poe-mas escritos de um jato são a “men-tirinha” defensável de Pessoa. O filme de Marcio Debellian surge e sevai comootítuloqueesvainovento. Para além da poesia inestimável de Pessoa, para além do perfeccionismo de Bethânia. Escapa, subitamente,emsuas linhas sutis de narrativas, fia-se ao mostrar a alegria de menina da cantora, e, acima de tudo, revela a estrela impactante de Cleonice Berardinelli, 98, que a cada minuto parecefestejar, comodizopoe-ta, o dia dos seus anos. Berardinelli e Bethânia gravam poemas de Pessoa emfilme Fotos Divulgação