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Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Departamento de Educação - Campus XIV
Colegiado de Letras: Habilitação Língua Inglesa
DÉBORA ARAÚJO DA SILVA FERRAZ
Chegadas e partidas: fidelidade, invisibilidade e influências
interculturais no processo tradutório
Conceição do Coité
2013
DÉBORA ARAÚJO DA SILVA FERRAZ
Chegadas e partidas: fidelidade, invisibilidade e influências
interculturais no processo tradutório
Trabalho de Conclusão de Curso II apresentado ao
Departamento de Educação – Campus XIV, da
Universidade do Estado da Bahia - UNEB, como
requisito avaliativo para obtenção do Grau de
Licenciatura em Letras com Habilitação em Língua
Inglesa.
Orientador: Prof. Raulino Batista Figueiredo Neto
Conceição do Coité
2013
Débora Araújo da Silva Ferraz
Chegadas e partidas: fidelidade, invisibilidade e influências
interculturais no processo tradutório
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao
Departamento de Educação – Campus XIV, da
Universidade do Estado da Bahia - UNEB, como
requisito avaliativo para obtenção do Grau de
Licenciatura em Letras com Habilitação em Língua
Inglesa.
Aprovação em: 11/12/2013
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________
Prof. Orientador: Raulino Batista Figueiredo Neto
Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV
_________________________________________
Profª do TCC: Neila Santana
Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV
________________________________________
Prof.ª Convidado: Fernando Sodré
Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV
Conceição do Coité
2013
Dedico este trabalho a todos os profissionais da
educação, em especial os professores de Língua Inglesa,
que encontrem neste trabalho uma ferramenta de estudo e
também de prática de trabalho, e porque não dizer, uma
metodologia diferente para trabalhar este assunto tão
amplo que é o campo da tradução.
AGRADECIMENTOS
A Deus, autor da vida e fonte de toda sabedoria, pelo seu amor sem
medidas e pelo seu cuidado especial comigo, presente em todas as etapas e
momentos de minha vida. A Ele devo toda sabedoria, minha vida, tudo que
tenho e tudo que sou.
A minha mãe, grande companheira e que tanto me ajudou nesta etapa
tão difícil, minhas irmãs, meus primos, minhas avós e toda a família, pelo
incentivo, disponibilidade e compreensão aos períodos de isolamento e
dedicação aos estudos, por suas orações e todo apoio a mim dispensado,
vocês são essenciais e a base de tudo.
A meu esposo João Netto, meu grande companheiro de todos os
momentos, por sua compreensão e por sempre entender e me apoiar nos
momentos de preocupações e urgências da Universidade e, de modo especial,
meu filho Deodato Netto, razão de meus dias, que nasceu em meio a esta
rotina árdua de minha vida acadêmica, pela distância e pouco tempo
dispendiado a ele, mas que com certeza entenderá futuramente o valor que a
falta de tempo pra ele, terá pra minha formação profissional, amo vocês!
A meu avô Francisco (in memorian) que me deixou um grande legado de
amor e do sentimento amar e ser amado, por todo orgulho que sempre teve em
mim, saudades eternas.
Ao Professor Raulino Batista Figueiredo Neto, meu orientador, que com
muita sabedoria, inteligência, paciência, competência e prazer me ajudou no
desenvolvimento deste trabalho. Sou grata em especial, por, mesmo a
distância, não ter desistido de minha orientação, sempre me ajudar também
com seu carinho e com suas conversas até mesmo de cunho pessoal, que
sempre me colocava para cima em meio aos períodos de baixo astral, por todo
afeto a mim transmitido, muito obrigado!
Aos professores do Campus XIV, especialmente do Curso de Letras com
Habilitação em Língua Inglesa e funcionários deste Colegiado, que de maneira
significativa contribuíram para minha formação profissional e pessoal, e pelos
que com amizade e companheirismo me impulsionavam a seguir adiante em
momentos difíceis.
Aos professores que passaram pelo nosso curso e se tornaram
inesquecíveis, cada um a sua maneira e com suas particularidades: Flávia
Aninger, Paulo de Tarso, Plínio Oliveira, Cristina Carvalho, Letícia Telles,
Edsom Barreto, Irenilza Oliveira, Líbia Gertrudes, Juliana Bastos, Ivana
Libertadoira, Mônica Veloso, Emanoel Nonanto, Fernando Sodré, Neila
Santana, Rita Sacramento, Ludimilia Silva, Anna Karina, Margarete Barbosa e
Raulino Batista, meu carinho, agradecimento e meu muito obrigado.
Aos colegas, que com imenso carinho, ultrapassaram os limites formais
de um grupo com afinidade acadêmica e ensejos profissionais convergentes e
se tornaram grandes amigos, desde os que começaram e desistiram aos que
de maneira descemestralizada passaram por nossa turma e os que
permaneceram e de modo muito especial a minha equipe de trabalho: Láisa
Dioly, Ana Zilá, Kelly Tainan, Deise Lima e Josiélia Oliveira, grandes amigas,
companheiras de todos os momentos e que vitoriosas chegamos juntas a este
grande momento, amo vocês.
Aos amigos, que de maneira especial contribuíram com minha trajetória,
compartilhando do dia a dia, das dificuldades, sorrisos e lágrimas,
preocupações e diversões e que de certa forma também entenderam a
ausência e o período de isolamento, sem estes a vida não teria sentido.
A direção e todos os funcionários do Departamento em especial
Margarete Reis e Railton Baldoino, que passaram pelo Colegiado neste
período e sempre nos prestaram grande apoio em tudo o que foi necessário e
aos colegas de outros semestres, também do Curso de Letras Com Habilitação
em Língua Inglesa, que contribuíram de maneira significativa na realização
deste trabalho.
Sem a curiosidade que move, que me inquieta, que
me insere na busca, não aprendo nem ensino. Me
movo como educador, porque primeiro me movo
como gente.
Paulo Freire
RESUMO
Este trabalho pretende analisar questões como fidelidade, invisibilidade e
influências interculturais no processo tradutório, descrevendo sua execução
mediante observação, para posterior discussão acerca dos elementos
comparativos envolvidos. Tem como objetivos: 1) analisar os procedimentos
usados no trabalho tradutório, no que tange aos conceitos de fidelidade e
invisibilidade; 2) mapear as dificuldades enfrentadas pelo tradutor, no que
concerne a invisibilidade na tradução de textos; 3) discutir os procedimentos
ligados a fidelidade e legibilidade entre o texto traduzido e o texto original; e 4)
apontar as contribuições da interculturalidade na relação entre a língua de
partida e a língua de chegada. Este estudo tem como pressuposto teórico-
metodológico a Pesquisa de cunho etnográfico. Para a análise, foram feitas
observações e comparações acerca das traduções obtidas e a tradução
original, considerando fatores como fidelidade, invisibilidade e influências
interculturais. Os resultados mostram que é impossível para quem traduz
neutralizar-se diante do processo tradutório, tendo em vista que muitas de suas
marcas, vivências e conhecimentos acabam sendo atrelados a estas, bem
como seus desejos e intepretações, inviabilizando a ideia de que a tradução
seja meramente um trabalho transcodificado entre línguas. Trabalhos desta
natureza se constituem como um importante veículo de conhecimento e
reflexão em torno do empreendimento da tradução, na medida em que observa
sua influência no “estar entre línguas”, sendo este um processo que se
materializa quando nos pomos a traduzir.
Palavras-Chave: Tradução. Interculturalidade. Fidelidade e Invisibilidade.
ABSTRACT
This work intends to analyze issues such as fidelity, invisibility and cross-
cultural influences in the Translational process, describing its implementation
through observation, for further discussion about the comparative elements
involved. Aims at: 1) analyzing the procedures used in translational work, with
regard to the concepts of fidelity and invisibility; 2) mapping the difficulties faced
by the translator, regarding the invisibility in translation of texts; 3) discussing
the procedures linked to fidelity and legibility between the translated text and
the original text; and 4) pointing out the contributions of interculturality in the
relationship between the source language and the target language. This study
has as theoretical-methodological assumption of ethnographically research. For
the analysis, comparisons and observations were made about the translations
obtained and the original translation, considering factors such as fidelity,
invisibility and cross-cultural influences. The results show that it is impossible
for anyone who translates neutralize before the Translational process,
considering that many of its brands, experiences and knowledge end up being
linked to these, as well as their desires and interpretations, precludes the idea
that translation is merely a work transcoded between languages. Works of such
nature constitute an important vehicle of knowledge and reflection around the
translation endeavor, to the extent that notes his influence on "being between
languages", this being a process that materializes itself when we translate.
Keywords: Translation. Interculturality. Fidelity and invisibility.
SUMÁRIO
INTRODUCAO 10
1 O TEXTO ORIGINAL REDEFINIDO: PALÍMPSESTO 14
1.1 A QUESTÃO DO AUTOR NO PROCESSO DA TRADUÇÃO 16
1.2 FIDELIDADE, INVISIBILIDADE E LEGIBILIDADE ENTRE 19
O TEXTO TRADUZIDO E O TEXTO ORIGINAL
1.3 AS INFLUÊNCIAS INTERCULTURAIS ENTRE TEXTOS DE 20
PARTIDA E DE CHEGADA
2 METODOLOGIA 25
2.1 MÉTODO 25
2.1.1 Lócus 27
2.1.2 Sujeitos 28
2.1.3 Instrumentos 28
3 ANÁLISE DE DADOS 30
CONSIDERAÇÕES FINAIS 37
REFERENCIAS 40
ANEXOS
10
INTRODUÇÃO
O campo da tradução é laborioso, sobretudo quando o relacionamos, a
questões de “fidelidade” e “legibilidade”, associando-os aos aspectos culturais.
Muitos são os estudiosos que vêm dedicando seus trabalhos aos processos
tradutórios como mediadores das relações interculturais. Nesse sentido vemos
como é constante a busca por um posicionamento unificado quanto à definição
de tradução e, por conseguinte, de uma teoria aceita por todos.
Nas duas últimas décadas, os Estudos de Tradução têm tomado outro
rumo, de forma que a preocupação exclusiva com os aspectos linguísticos vem
dando lugar a problemas de ordem intercultural. Sabemos, hoje, que algo
indispensável à Tradução Intercultural é a influência dos Estudos Culturais, os
quais, embora não constituam nosso objeto de pesquisa, instituem-se como os
meandros constitutivos dos códigos/línguas em jogo, isto é, a cultura e as
relações interculturais decorrentes dessa relação entre línguas-culturas.
Há, em meio a essa multiplicidade teórica, a necessidade de discutir e
comparar abordagens recentes de alguns teóricos de tradução, e de tradutores.
No entorno dos conceitos de tradução vislumbramos dois dos aspectos
fundamentais do processo tradutório, a saber: a noção de “fidelidade” entre o
texto traduzido e o texto de partida, e a “invisibilidade”, elemento que é, para
muitos, o responsável pelo “silenciamento” da voz do tradutor, isto é, pela
despersonalização daquele que traduz1
.
Nesse sentido, o objetivo principal do tradutor deveria ser o de torna-se
o mais “fiel” ao original em sua totalidade ascendendo à “invisibilidade” no texto
traduzido, haja vista que o objetivo fundamental da tradução convencional seria
a “reprodução” do “original” em outro código. Outrossim, entendemos que a
tradução, muito mais do que buscar uma fidelidade desmedida e por vezes
inatingível, deveria centrar-se não mais num processo unicamente
intralinguístico, mas, sim, num processo intercultural, no qual as relações entre
línguas-culturas, se alojam.
1
O posicionamento idealista adotado por alguns autores, não reflete aquilo em que acredito. E
é exatamente isso que está presente em minha escrita (a não conformidade com o ideal
utópico da invisibilidade).
11
Todo texto é único e é, ao mesmo tempo, a tradução de outro texto.
Nenhum texto é completamente original porque a própria língua em sua
essência já é uma tradução (PAZ). No trabalho tradutório, a tentativa de
“transferir o sentido de cada palavra” corresponde a “invisibilidade” do tradutor,
tornando o texto traduzido, uma consequência lógica e “fiel” ao texto original.
No entanto, observações vêm sendo feitas acerca desse ideal de fidelidade, o
que nos permite julgar como inócua a fidelidade utópica aos elementos
linguístico-culturais.
Assim, admitimos que estes elementos não sejam facilmente
transportados de um código para outro, numa mera transposição
intralinguística. Isto posto, entendemos que apesar da impossibilidade da
fidelidade tradutória no que compete aos aspectos idiossincráticos da língua-
cultura de partida e da língua-cultura de chegada, é possível a instauração da
fidelidade estilística, já que esta é representativa da historicidade e da ideologia
presentes na obra do autor da língua-cultura de partida.
Desse modo, entendemos que por se tratar de algo intrínseco ao texto
de partida, a fidelidade estilística, muito mais do que algo desejável, deve
figurar como condição para uma tradução adequada ao público leitor do texto
de chegada. Mediante tais observações, faz-se necessário um estudo sobre o
ideal da fidelidade e da invisibilidade do tradutor, já que segundo o que nos
indica Bohunovsky,
[...] a partir de uma visão essencialista, ou logocêntrica, qualquer
tradução será sempre infiel, em algum nível e para algum leitor,
sempre menor, sempre insatisfeito, em comparação a um original
idealizado e, por isso mesmo, inatingível (BOHUNOVSKY, 2001, p.
04).
No esforço por delinear estas questões e no ensejo de entender tais
processos, verificando elementos como estilo, fluência, legibilidade e cultura
nos processos tradutórios, questiona-se: de que modo é possível estabelecer a
ideia do texto original sem incorrer na invisibilidade/anulação dos elementos
linguístico-culturais apenas encontrados na língua-cultura de partida/chegada?
Partindo da necessidade de responder tal questionamento, procura-se
levar em consideração os objetivos que analisam os procedimentos usados no
12
trabalho tradutório e seus conceitos de fidelidade e invisibilidade, ao mesmo
tempo em que busca-se mapear as dificuldades enfrentadas pelo tradutor,
discutindo os procedimentos ligados à fidelidade e legibilidade entre os textos e
apontando as contribuições da interculturalidade na relação entre a língua-
cultura de partida/chegada.
Assim, este trabalho justifica-se em verificar se os ideiais da fidelidade e
da invisibilidade sempre acarretam a imagem do trabalho tradutório como
imperfeito, incoerente, apresentando as características culturais que o
influenciam, podendo proporcionar à professores e estudantes um
entendimento sobre a questão da fidelidade e do “respeito” ao texto original e
como os aspectos culturais podem influenciar no ato da tradução, contribuindo
assim para uma visão mais ampliada sobre esta questão tão debatida.
Esta pesquisa se estrutura em três capítulos: O teórico, o metodológico
e a análise de dados. O primeiro capítulo aborda a invisibilidade, fidelidade e
interculturalidade dos textos traduzidos com aquilo que os unifica: o
Palimpsesto. Assim, é estabelecendo as inter-relações “palimpsésticas”, isto é,
o "reescrever por cima" que o tradutor empreende o seu ofício, traduzindo o
outro num outro idioma. Em outras palavras, esse tradutor que trouxemos para
a cena é aquele que trai qualquer alvitre de invisibilização e que ,ao mesmo
tempo, torna possível a aceitação/decodificação do texto primeiro (original), no
contexto sociocultural da língua de chegada. Visto por essa perspectiva, o
tradutor é ,em todas as instâncias, o catalisador e, por isso mesmo, (re)
definidor dos signos e sentidos transpostos de uma língua para a outra.
No segundo capítulo, apresenta-se a metodologia que foi utilizada e que
foi realizada através de uma pesquisa de cunho etnográfico com
procedimentos de um Estudo de Caso. A metodologia empreendida visou a
análise dos procedimentos que são utilizados, bem como as influências
culturais de estudantes de diferentes localidades no processo tradutório de um
abstract em inglês, já previamente traduzido pelo autor. Diante disto foram
utilizados instrumentos de observação, questionário e métodos de comparação,
para que no capítulo seguinte, o de análise de dados, pudéssemos sistematizar
as informações, bem como as percepções, mediante todas as comparações,
observações e estudo analítico dos questionários.
13
Esta análise, permitiu entender os processos empregados na tradução,
estabelecendo a ideia do texto original sem incorrer na invisibilidade/anulação
dos elementos linguístico-culturais apenas encontrados na língua de partida.
Assim, foi possível verificar se os ideais da fidelidade e da invisibilidade sempre
acarretam a imagem do trabalho tradutório, como imperfeito, incoerente e
apresentar a questão das características culturais como influência nos
trabalhos de tradução. Na próxima seção discutiremos mais aprofundadamente
a questão do texto original e da escrita/reescrita palimpséstica.
14
1 O TEXTO ORIGINAL REDEFINIDO: PALÍMPSESTO
“Translation is not a matter of words only: it is a matter of making
intelligible a whole culture”. (Anthony Burgess)
Dentre os muitos temas debatidos pelos teóricos da tradução, a
Fidelidade e a Invisibilidade do tradutor tomaram espaço importante nas
discussões, tanto teóricas quanto práticas. Para tanto, podemos associar esses
temas a algo, que mediante sua definição, unifica-os: o Palimpsesto. Segundo
os dicionários, o substantivo masculino palimpsesto, do grego palimpsesto
(“raspado novamente”), refere-se ao “antigo material da escrita, principalmente
o pergaminho, usado, em razão de sua escassez ou alto preço, duas ou três
vezes [...] mediante raspagem do texto anterior (ARROJO, 2003, p. 23)”.
O que se pode reiterar mediante as observações de Arrojo, quando
associamos a tradução de textos ao Palimpsesto, são as inter-relações
estabelecidas e o "reescrever por cima" que o tradutor empreende e ao mesmo
tempo decodifica, no contexto sociocultural da língua de chegada, (re)
definindo signos e sentidos transpostos de uma língua para outra. Um
palimpsesto é um pergaminho onde sua escrita inicial foi raspada para que
outra seja feita, de modo que a leitura da primeira não irá sobrepor a original.
Assim, no sentido figurado, entenderemos por palimpsestos obras que foram
transformadas ou passaram por algum processo de imitação.
Ou seja, nessa leitura refeita não serão reconhecidos os seus territórios,
lamentavelmente, porém, o texto sempre revelará novas possibilidades de
compreensão e de ressignificação, haja vista que quanto mais variados forem
os seus leitores, maior será a profusão palimpséstica. Este meu proposto, não
foge à regra, isto é, sempre será feito dele o mesmo processo de
leitura/releitura até que, na medida em que isto for acontecendo, quem ler por
último, lerá melhor.
Genette (2006) apropria-se desses aspectos, afirmando que “o
hipertexto é, na verdade, o texto originário de um primeiro texto”; essa relação
é estabelecida por processos diretos e imitação. Segundo ele, a Eneida e
15
Ulisses são exemplos de hipertextos oriundos de um mesmo hipotexto2
: a
Odisseia.
A transformação que conduz a Odisséia a Ulisses pode ser descrita
como uma transformação simples, ou direta: aquela que consiste em
transportar a ação da Odisséia para Dublin do século XX. A
transformação que conduz da Odisséia a Eneida é mais complexa e
mais indireta, pois Virgílio não transpõe de Ogígia a Cartago e de
Ítaca ao Lácio, a ação da Odisséia: ele conta uma outra história
completamente diferente, mas, para fazê-lo, se inspira no modelo
estabelecido por Homero na Odisséia, imitando-o (GENETTE, 2006,
p.03).
Nessa conjuntura, a imitação provoca uma constituição prévia de um
modelo que se reproduziu de forma mimética, isto é, idêntica ao texto anterior.
Entendemos que a visibilidade do tradutor está, desde a primeira linha,
associada à obra que traduz, haja vista que nenhum escritor é o autor principal
do texto que escreve, pois cada leitor e/ou tradutor faz uma leitura, uma
interpretação diferente, mediante suas inter-relações com outras traduções e
outros textos, seu contexto social e local, seu conhecimento de mundo, o que
se opõe frontalmente à ideia que dá conta do processo tradutório como se este
fosse uma mera substituição ou, numa visão flagrantemente reducionista, um
transporte de significados de um texto para outro, de uma língua para outra, de
um código para outro:
Portanto, não se sabe ao certo o que o autor passa em sua
mensagem, tendo em vista que só ele sabe defini-la, sendo a
tradução uma “produção ativa de um texto que se assemelha ao
original, mas que mesmo assim o transforma e que sofre intervenção
ativa do tradutor.” (VENUTI, 1995, p.112).
O ato de traduzir não pode ser visto unicamente como transportador de
significados entre línguas, pois muitas vezes, o significado de uma palavra ou
de um texto em sua língua de partida, não poderá ser determinante na outra,
isto só será possível, supostamente, após uma sequência de leituras. Arrojo,
(1996), corrobora com essa consideração, afirmando que neste sentido:
2
Termo sinônimo de subtexto ou texto marginal ao texto principal, normalmente ocupado por
notas de rodapé, posfácio, referências bibliográficas, etc.
16
[...] O que acontece não é uma transferência total de significado,
porque o próprio significado do ‘original’ não é fixo ou estável e
depende do contexto em que ocorre, o texto deixa de ser a
representação ‘fiel’ de um objeto estável e passa a ser uma máquina
de significados em potencial. (ARROJO, 1996, p. 23)
A imagem do texto original, portanto, deixa de parecer-se com vagões,
que meramente contêm uma carga resgatável, que pode ser transportada para
ser a do palimpsesto que aqui proponho.
Desta forma, o palimpsesto passa a ser o texto que foi apagado, mas ao
mesmo tempo resgatado de cada comunidade cultural e de cada época, para
dar lugar à outra escritura (ou interpretação, ou leitura, ou tradução) do mesmo
texto. Assim, como nos ilustrou Genette, com a fábula Odisséia, o que é
possível ter são suas muitas leituras, suas muitas interpretações – seus muitos
palimpsestos. “A tradução, como a leitura, deixa de ser, portanto, uma atividade
que protege os significados originais de um autor, e assume sua condição de
produtora de significados; mesmo porque protegê-los seria impossível”.
(ARROJO, 2006, p. 24).
1.1 A QUESTÃO DO AUTOR NO PROCESSO DA TRADUÇÃO
Muitos teóricos referenciam à questão da intervenção do tradutor no
texto traduzido, pois mesmo que este pretenda manter-se invisível na maioria
das vezes é impossível não deixar suas marcas, seus pensamentos, seu
desejo na escrita, pois “o tradutor, implícita ou explicitamente, impõe ao texto
que traduz os significados inevitavelmente forjados a partir de seus próprios
interesses e circunstâncias”. (ARROJO, 1993, p.81).
Em qualquer tradução das mais simples às mais complexas, haverá a
presença do tempo que foi escrita, da sua trajetória (de quem a traduziu), das
circunstâncias feitas e principalmente dos objetivos e perspectivas (desejos) de
seu realizador. Por si só, a tradução mostra sua originalidade, sendo sempre
uma leitura ou releitura de quem a fez.
Quando um leitor produz um texto, sua interpretação não deve ser
somente sua, da mesma forma que o escritor não é soberano do texto que
escreve. Este ir e vir constante do processo tradutório nos remete uma imagem
17
de transporte, de trânsito, de movimento (aqui pontuo e volto a me remeter à
ação tradutória como um palimpsesto), como assinala Arrojo (1986):
[...] o tradutor traduz, ou seja, transporta a carga de significados dos
textos, porém traduzir não pode ser meramente o transporte, ou
transferência de significados estáveis de uma língua para outra,
porque o próprio significado de uma palavra, ou de um texto, na
língua de partida, somente poderá ser determinado, provisoriamente,
através de uma leitura (ARROJO, 1986, p. 13).
Aquele que traduz, não consegue se eximir daquilo que é feito. É
impossível passar na integra as intenções, os desejos e o universo de um
autor, exatamente porque essas intenções, esses desejos e esse universo
serão de forma inevitável, nossa visão daquilo que possam ter sido. Mesmo
que o tradutor consiga repetir totalmente um determinado texto, esta tradução
feita nunca recuperará seu original; Mais uma vez, de maneira inevitável, será
refeita uma leitura, uma interpretação desse texto “que, por sua vez, será,
sempre, apenas lido e interpretado, e nunca totalmente decifrado ou
controlado” (COUTO; KELLER; MOURA, 2010, p. 07).
Levando-se em conta a questão do autor/tradutor e seu papel no ato
tradutório, em torno de fidelidade, equivalência e o original na tradução, é
quase impossível não falar em traição e no que nos remete este termo tão
pejorativo. Em meados dos anos 80, estudos comprovam que a ideia de
“traição” pressupunha o fato de que a tradução passa pelo tempo, pela cultura
e de que era feita como uma operação matemática, mediada pelos dicionários,
onde essa transposição de palavras seria a tradução perfeita.
Levando em conta que a maioria, das traduções não apresenta esses
aspectos de exatidão matemática, é compreensível o fato de concepções mais
essencialistas relegarem muitas dessas traduções a uma operação duvidosa,
como um trabalho menor. Assim, diante dessa visão, as traduções às quais nos
referimos acabam não preenchendo o requisito da exatidão, da fidedignidade
de que falam os puristas. Desse modo, as traduções nos moldes do que
viemos tratando acabam sendo rotuladas como inexatas, imperfeitas, traidoras.
Curiosamente, e contrariando essa visão, encontramos no romano Cícero
(século I a.C.) um alinhamento à uma compreensão mais aproximada de nossa
proposta. Segundo ele o que pesa no ato tradutório “[...] é tentar ser fiel tanto
18
quanto possível, não reproduzindo palavra por palavra aquilo que não pode ser
transposto para a língua de chegada”. Ainda segundo o famoso orador:
Não traduzi como intérprete, mas como orador, com os mesmos
pensamentos e suas formas bem como com suas figuras, com
palavras adequadas ao nosso costume. Para tanto, não tive
necessidade de traduzir palavra por palavra, mas mantive o gênero
das palavras e sua força. Não considerei, pois, ser mister enumerá-
las ao leitor, mas como que pesá-las. [...] Se, como espero, eu tiver
assim reproduzido os discursos dos dois servindo-me de todos os
seus valores, isto é, com os pensamentos e suas figuras e na ordem
das coisas, buscando as palavras até o ponto em que elas não se
distanciem de nosso uso... (CÍCERO, 1996, p. 38; 40; V, 14; VII, 23).
Nesse sentido, defende-se que a traição não deva ser tratada como um
desrespeito ao texto e ao que foi escrito, mas como uma liberdade e uma
fidedignidade maior ao texto traduzido, de acordo com o contexto no qual foi
feito e de quem a fez. É impossível traduzir sem respeitar o texto original e,
paradoxalmente, sem desrespeitá-lo, no ensejo de lhe captar melhor o espírito
do traduzido.
Dito isto, mesmo que nosso objetivo seja o de manter as intenções
originais de um autor, o que podemos conseguir, somente, é expressar através
de nossa visão, das leituras e dos processos utilizados as intenções deste
autor. Nessa conjuntura, pode-se corroborar que “quando um leitor ‘produz’ um
texto, sua interpretação não pode ser exclusivamente sua, da mesma forma
que o escritor não pode ser o autor soberano do texto que escreve” (ARROJO,
2003, p. 41).
Na tentativa de problematizar a traição e a (in) fidelidade associada à
atividade do tradutor, dialoga-se com a necessidade de ser o mais fiel possível
ao texto original ou às intenções do autor, para isto na lenda de Homero,
norteia-se esta discussão sobre (in) fidelidade como uma questão “homérica”,
ou seja, pautada em uma hipótese que permanece em discussão:
Não se pode afirmar ao certo se Homero existiu de fato, ou, ainda, se
a autoria dos cânones Odisséia e Ilíada devem ser atribuídas a ele,
constituindo, por essa razão, uma lenda. A lenda da tradução ou do
tradutor como infiel e endividado, pode ser analisada
semelhantemente, isto é, como uma missão impossível - questão
homérica de difícil solução -, já que os efeitos das soluções podem
comprometer todo o pensar contemporâneo sobre o que é a tradução
e sua representação, nos mais diferentes contextos, especialmente
19
no da literatura, pois, assim como a Odisséia e a Ilíada de Homero
influenciaram toda a literatura ocidental, também a tradução tem
constituído as diversas literaturas e seus respectivos leitores
(OLHER, 2010, p. 10).
A fidelidade, apesar de sempre questionável, transforma-se num objeto
desejado e idealizado pelo enunciador, na tentativa de que o termo “o mais”
fiel, expresse esse desejo, o da fidelidade plena, mediante à relação que
perpasse entre o possível e o realizável. E é justamente esta situação que nos
acena para a questão intrínseca a qualquer tradução: o estar entre línguas.
Assim, a questão homérica que se apresenta pode ser percebida, na ótica
daquele que enuncia. Isto é, segundo essa perspectiva, o ato tradutório
representaria uma provável imitação do autor, exercício hercúleo, pois
representa uma flagrante ilusão no que diz respeito a uma semelhança plena
de homogeneidade linguístico-cultural.
1.2 FIDELIDADE, INVISIBILIDADE E LEGIBILIDADE ENTRE O TEXTO
TRADUZIDO E O TEXTO ORIGINAL
“Todo ser humano é situado numa comunidade linguística, social,
política e ideológica que o faz escolher entre este ou aquele modo de
reproduzir o texto original” (VENTUROTTI, 2008, p. 24). É inviável pensar que
é cabido traduzir de maneira neutra em qualquer texto, simplesmente porque
não somos pessoas neutras. Para tanto, os conceitos de fidelidade e
invisibilidade pouco se aplicam a trabalhos tradutórios e não são mais
conceitos representantes para as discussões neste campo.
Se o trabalho tradutório se relaciona com o subjetivo e suas concepções
de mundo, conclui-se que cada tradutor é fiel as suas concepções e
individualidades, como sugere Arrojo:
[...] uma transformação: uma transformação de uma língua em outra,
de um texto em outro
3
. Mas, se pensamos a tradução como um
processo de recriação ou transformação, como poderemos falar em
fidelidade? Como poderemos avaliar a qualidade de uma tradução?
(ARROJO, 2003, p. 42).
3
In: DERRIDA, J. apud SPIVAK, G. C. Prefácio do tradutor. In: DERRIDA, J. Of Grammatology.
Baltimore, The Johns Hopkins University, 1980. p. 87.
20
A questão da “fidelidade” na tradução, portanto, é relativa e dificilmente
se conseguirá reproduzir todas as ideias do autor, em um texto a ser traduzido,
da mesma forma, que a tradução seria fiel às convenções estabelecidas
levando-se em consideração as complexidades que aparecem e, dependendo
da comunidade cultural e da época que estão inseridas e foram produzidas.
Em outras palavras, a tradução de um texto, seja ele qual for, será fiel a
nossa concepção, a nossa interpretação e mais uma vez mediada por nossa
vontade, nossos desejos, conhecimento de mundo e o meio ao qual estamos
inseridos. Deste modo, assumimos o papel, traçamos os objetivos, os
propósitos e reavaliamos o que conseguimos entender por fidelidade.
Questionar-se acerca do que traduzir, para quê, para quem, por que, de que
forma, são perguntas importantes para estabelecer uma direção, e redefinir a
tão discutida fidelidade: o tradutor sempre será fiel a si mesmo e às suas
próprias concepções, juízos e crenças.
Para além de uma fidelidade à nossa idéia de tradução, esta, deve
estabelecer, também, uma relação de conformidade/fidelidade aos propósitos
de que lança mão, considerando que o texto fonte está sujeito a inúmeras
interpretações e particularidades de cada leitor, sendo ele mesmo infiel ao
autor do texto.
Assim, existem traduções de obras “originais”, que nunca foram
revisadas e tampouco passaram por quaisquer tipos de modificação. Além
disso, há também inúmeras traduções de um mesmo texto, que foram feitas
por diferentes tradutores, em contextos, espaços e épocas diferentes, e, aqui,
mais uma vez faço menção a influência cultural de cada tradutor. Nessa
conjuntura, “seria impossível que uma tradução de um texto fosse definitiva e
unanimemente aceita por todos, em qualquer época e em qualquer lugar. As
traduções, não podem deixar de ser mortais” (ARROJO, 2003).
1.3 AS INFLUÊNCIAS INTERCULTURAIS ENTRE TEXTOS DE PARTIDA E
DE CHEGADA
21
Outro fator importante a se ressaltar é a questão cultural existente no
campo tradutório. Tânia Carvalhal (2003, p. 219) pondera que “essa concepção
de tradução enquanto ato criativo fez com que ela passasse a ser percebida
como ato de comunicação e de intermediação entre culturas, além de conceder
um outro status ao seu tradutor e a ela própria”. Nesta conjuntura, a principal
função da tradução (e, consequentemente, de quem traduziu) é propiciar a
propagação de um texto longe de sua origem, disseminando e transferindo
para a contemporaneidade, independente de sua língua e da época em que foi
escrita.
Em suma, começa-se a perceber o tradutor como mediador das
peculiaridades culturais provenientes do texto traduzido. É o responsável pelas
trocas entre culturas alimentando sua própria produção e promovendo o
intercâmbio entre as línguas envolvidas no processo. Partindo destas
concepções, no que infere as trocas culturais no processo tradutório remeto-me
novamente à Carvalhal (2003, p. 230) quando acrescenta que “a tradução tem
um papel decisivo na transmissão das influências literárias, pois ela traz
sempre alguma coisa de novo para o sistema literário”.
Nesse sentido, observamos de modo flagrante que a questão da
interculturalidade é algo inescapável para os autores que trabalharam na
execução de processos tradutórios. Ratificando esse posicionamento, Bassnet
(1991, p. 13), afirma: “um dos critérios extralinguísticos que envolvem
certamente a questão da tradução, é o componente cultural”. É a definição de
um texto mediante a culturalidade e seu contexto social, geográfico, ideológico
e cronológico em acordo com quem a traduziu. Para questões como estas,
Faria (2010), corrobora que:
Quando um texto é traduzido para outra língua, porém, outras
variáveis entram em ação: as diferenças culturais, o nível de domínio
da língua de partida por parte de quem traduz a constante evolução
das línguas, além das particularidades e características de cada uma
das línguas em questão etc. (FARIA, 2010, p. 07).
Mediante essas observações, é indispensável reiterar que tanto o leitor
como o tradutor não conseguem ficar distantes de sua tradução, pois
perpassam pela influência de sua(s) própria(s) realidade(s), mediados pelas
22
circunstâncias, concepções e pelo contexto histórico e social nos quais estão
inseridos. A história pessoal e social de cada envolvido será determinante para
o que analisarmos como uma tradução verdadeira. Nesse sentido, “é a história
que dá à luz a verdade, e não a verdade que serve de modelo para a história”
(ARROJO, 2003, p. 43).
Observa-se que os textos e suas traduções sempre divergem, mesmo
quando fazem parte da mesma obra, pois a tradução realizada vincula sua
época de produção, a suas concepções de mundo e realidades vividas. Esse
caráter único do que é escrito está sujeito ao tempo e aos costumes sociais,
que são na maioria das vezes mutáveis, pois em cada período são produzidos
outros significados, novos modelos sociais, que com o tempo, tornam-se
obsoletos, caem no desuso, passando a ser necessário o surgimento e/ou
criação de novos significados que visem referencias novas realidades.
Consequentemente, quando a tradução está posta entre culturas
diferentes, surge uma multiplicidade de fenômenos4
entre elas e o tempo em
que foram elaboradas. Portanto, evidencia-se que esta diferenciação mediada
pela tradução pressupõe que se tenha um ótimo conhecimento de ambas as
línguas envolvidas no processo, que seja um excelente observador de suas
culturas e minuciosidades, e, também que se propicie estratégias ao traduzir,
com um bom planejamento, refletindo também sobre a necessidade de estar
sempre renovando as traduções, como exemplifica Landers:
A tradução de 1629 que Thomas Hobbes fez de Tucídides é
praticamente impossível de ser lida pelo falante moderno de inglês,
pois está repleta dos pronomes thee e thou e de sentenças
complexas e barrocas. A tradução de R. Crawley, de 1874, é muito
mais fácil de compreender, todavia, seu vocabulário um pouco
ultrapassado deixa no ar um cheiro leve de naftalina. Somente a
tradução de 1952 de Rex Warner transmite fluência, precisão e
modernidade, falando a língua contemporânea do leitor de maneira
direta e eficaz. (LANDERS, 2001, p.11)
O autor considera à familiarização do leitor contemporâneo com a língua
utilizada: é um inglês com upgrade. A tradução vem cumprindo seu papel na
época determinada e no tempo estipulado. Pode-se inferir assim, que as
4
Entre os fenômenos no processo tradutório podemos mencionar as questões relacionadas à
idiomaticidade, por exemplo.
23
realizações humanas, que vem pautada por um determinado período da
história, estão sempre à disposição de um tempo ao qual vem sendo expostas,
mudando e transformando, dando sempre que possível uma nova moldagem
de significados, mediadas por questões temporais. Cabe aqui salientar que a
língua e tudo o que lhe envolve está sempre se renovando, se modificando e
se propiciando novos olhares.
De acordo com o que foi apresentado podemos concluir que a tradução
desempenha um papel fundamental e contínuo na integração e intermediação
de culturas, o que contraria uma afirmativa de Ruth Bohunovsky que defende
uma visão tradicional/essencialista, ou seja, “a visão de que o processo de
tradução seria um mero transporte de significados” (BOHUNOVSKY, 2001, p.
52). Neste ponto de vista, a tarefa do tradutor é meramente “transportar” o
significado do texto original, o que comprovaria que este é totalmente incapaz
de interferir, de interpretar de maneira criativa, expondo suas concepções, ao
texto ao qual foi exposto.
A partir destas leituras, acredito ter sido possível evidenciar algumas das
partes mais importantes dos processos que intermediam o ato tradutório,
atividade esta que perpassa por divergentes e contraditórias formas de
ampliação da visão do processo de tradução, desmistificando a suposição de
que seja apenas uma atividade de transferência, transporte ou transcodificação
entre línguas, onde, em concordância com J.C. Catford, há uma “substituição
do material textual de uma língua pelo material textual equivalente em outra
língua”. E, assim, “ele (o texto) passa a ser, na mais simples definição, uma
tentativa de recriação do original” (ARROJO, 1986, p. 41).
Em suma, considera-se então, a tradução como um processo (re)
criativo, influenciável e caracterizado por contextos sócio históricos
transplantados de uma cultura para outra e, por isso mesmo,
recontextualizados, quando da atividade tradutória.
Assim, entendemos o jogo tradutório como estando constitutivamente
associado ao intercâmbio de culturalidades distintas, mas que viabiliza o
entendimento e a apreensão do texto traduzido com seus matizes e
peculiaridades. O trânsito intercultural presente nesse jogo tradutório, ao invés
de implicar no distanciamento sígnico do texto traduzido, lhe serve de esteio
24
para a produção de uma tradução antimimética e, portanto, aberta à ação do
tradutor. Nesse sentido, admitimos que as noções estanques de fidelidade e
invisibilidade, sujeitas ao trânsito entre culturas a que fizemos referência,
precisam ser repensadas e/ou depostas do trabalho tradutório.
25
2 METODOLOGIA
Segundo Demo (2000, p. 161), “o trabalho científico leva o aluno a
aprender melhor e a tornar-se um profissional capaz de usar a pesquisa como
processo permanente de aprender, de renovar sua competência”. Por isso, o
incentivo a pesquisa tanto na universidade quanto em qualquer setor da
sociedade deve ser uma prática constante.
Para tanto, este capítulo apresenta a estrutura de realização deste
trabalho, como pesquisa de cunho etnográfico, destacando o método, o lócus
pesquisado, os sujeitos envolvidos e os instrumentos utilizados em sua
execução.
2.1 MÉTODO
“A investigação é um processo educativo não apenas pelo que se
descobre acerca dos outros, mas pelo que se descobre acerca de
nós mesmos.” (Peter Woods)
Partindo do pressuposto dos processos que levam a tradução, buscando
mapear as dificuldades do tradutor, discutindo e apontando as influências da
interculturalidade, fez-se necessário uma pesquisa de cunho etnográfico para
analisar a problemática deste trabalho, a partir de uma técnica que está
fundamentada numa pesquisa qualitativa, onde “o pesquisador vai a campo
buscando “captar” o fenômeno em estudo a partir das perspectivas das
pessoas nele envolvidas, considerando todos os pontos de vista relevantes.”
(GODOY, 1995, p. 21)
Os estudos de cunho etnográfico provêm de uma técnica das disciplinas
de Antropologia Social, que estudam a vivência direta da realidade de um
objeto, comunidade, espaço, onde estes estejam inseridos, permitindo uma
análise social de seus componentes e do desempenho de suas tarefas numa
dada organização, instância, comunidade, que se propiciem e estejam na
“busca a compreensão das manifestações culturais, do comportamento e da
vida social do homem” (MARCONNI e PRESOTTO, 2007, p. 02).
As pesquisas que se efetuam com o objetivo de realizar estes estudos
resultam numa grande quantidade de vantagens, de informação, através de
26
apontamentos, gravações de áudio e vídeo e um conjunto de objetos que
fazem parte das culturas, que deverá ser gerida com toda a atenção para que a
sua análise e processamento não se prolonguem excessivamente.
Umas das vantagens dos estudos de cunho etnográfico é a ampliação
de visões fornecidas por este, que fornece ao mesmo tempo uma integração
acerca de uma unidade social mais complexa à uma mais simples e
diversificada. Outra vantagem é a capacidade de mostrar situações diárias,
vivenciadas sem complexidade e de maneira bastante natural, sem prejuízo
algum ao item pesquisado.
Nesta conjuntura, a etnografia tem uma proposta voltada para muitos
métodos, que se assemelham ao estudo de caso: com observações (sejam
elas com a participação do observador ou não); entrevistas; análise
documental. A maneira de recolher dados da realidade que o pesquisar se
propôs a observar, na maioria das vezes resume-se em observar, escutar e
anotar fatos, fenômenos e contextualização da realidade estudada.
Especificamente, nas palavras de Vieira e Pereira (2005, p. 227):
As principais técnicas de coleta de informações de que se utiliza o
método etnográfico são as entrevistas em profundidade e a
observação participante. Já para a análise do material coletado, a
análise do discurso dos informantes e a análise de imagens são as
principais técnicas utilizadas. (VIEIRA E PEREIRA, 2005, p.227)
A pesquisa deste trabalho foi realizada entre os alunos do curso de
Letras com Inglês da Universidade do Estado da Bahia, Campus XIV, de
diferentes locais e semestres, analisando as diferentes traduções feitas por
eles de um Abstract já previamente traduzido pelo autor do artigo e assim
verificou-se seu desempenho tradutório mediante o trabalho de tradução,
partindo das influências culturais de cada um. O método utilizado para coleta
da pesquisa foi uma ficha de tradução, onde constou o texto original para ser
traduzido e os dados com nome, semestre cursado e local de origem de cada
estudante.
A análise foi feita mediante observação da forma como os textos foram
traduzidos, os métodos utilizados como apoio e mediante comparação das
traduções obtidas com a original feita pelo autor do artigo, do qual o “Abstract”
27
foi escolhido, observando e analisando dados como fidelidade, legibilidade, (in)
fidelidade e (inter) culturalidade dos estudantes tradutores.
2.1.1 Lócus
O Lócus desta pesquisa é a Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Campus XIV. Esta foi escolhida tendo em vista a proposta deste trabalho e
suas contribuições para futuros professores de língua estrangeira e estudantes.
A Universidade cria um ambiente propício ao estudo, já que neste espaço
encontram-se futuros pesquisadores e docentes que, neste momento,
enquanto estudantes, forma submetidos a esta análise onde posteriormente,
seus resultados poderão contribuir em sua prática.
O Departamento de Educação do Campus XIV da UNEB foi implantado
em 1992 e está localizado na Avenida Luís Eduardo Magalhães, nº. 988, bairro
da Jaqueira, Conceição do Coité. A Universidade conta com 64 Docentes, 26
funcionários e 625 discentes, distribuídos entre seus 04 cursos oferecidos, 04
turma de Comunicação Social, 03 turmas de História, 04 turmas de Língua
Inglesa e 04 turmas de Letras Vernáculas, além de 02 turmas de Pós-
graduação em Literatura Baiana e Linguística.
A Universidade tem uma boa estrutura para atender a demanda dos
cursos, conta com onze salas de aula equipadas, onde cinco destas possuem
projetores extras, guardados no Laboratório de Informática, além de
retroprojetores, aparelhos de TV, aparelho de DVD e micro-sistem portátil,
destinados à utilização durante as aulas. Tem muitos projetos vinculados entre
estes, o Projeto tecnológico Curso de Informática Básica para senhores e
senhoras da terceira idade, vinculada ao projeto Universidade Aberta à
Terceira Idade (UATI) e a coordenação do Projeto Universidade Para Todos.
2.1.2 Sujeitos
Os sujeitos desta pesquisa são os alunos do IV Semestre do Curso de
Letras com Inglês do turno vespertino, na aula da prof.ª Juliana Bastos que
ministra o componente de Produção do texto Oral e Escrita, os do VI Semestre
28
do mesmo curso, noturno, na aula da prof.ª Rita Sacramento que ministra a
disciplina de Estudos Comparativos da Língua Estrangeira e Língua Materna,
03 alunas do VIII Semestre, noturno e 02 alunas recém-formadas.
Na turma do VI Semestre, 12 alunos foram pesquisados e esta se
mostrou bastante agitada durante a aplicação da pesquisa, o que propiciou
uma distração constante e um elevado tempo de conclusão da aplicação da
atividade pesquisada. A professora não se envolveu no momento da pesquisa,
propiciando assim observar e analisar claramente que tudo foi feito unicamente
pelos mesmos sem interferência docente.
No que tange a segunda turma pesquisada, a do IV Semestre, com 15
alunos participantes, esta demonstrou interesse imediato na atividade e sua
execução foi muito mais rápida que na turma anterior. Nesta também por
algumas vezes a professora em sala foi consultada algumas vezes.
Também foram pesquisadas 03 alunas que estão concluindo o VIII
Semestre e 02 alunas recém-conclusas e no exercício da prática docente. Em
todos os casos houve tranquilidade no momento do processo, creditando-se
que não acontecerá nenhum prejuízo a intenção do que será pesquisado.
O objetivo era analisar como a atividade seria realizada, o que foi
consultado e quais as marcas ou influências culturais próprias de cada um
foram deixadas pelos pesquisados. Na análise de dados serão exemplificados
as observações e resultados alcançados mediante a aplicação desta
abordagem.
2.1.3 Instrumentos
Esta pesquisa buscou verificar elementos como estilo, fluência,
legibilidade e cultura nos processos tradutórios empregados. Foram aplicados
31 atividades de tradução de um abstract já previamente traduzido pelo autor e
através da análise destes, constrói-se o arcabouço de sustentação desta
pesquisa no que tange as questões tradutórias.
Por conseguinte, optou-se também pelo método de observação, em
todas as turmas pesquisadas, no ensejo de perceber os métodos utilizados, o
comportamento mediante o ato tradutório e as influências presentes no
29
processo. Esta observação fez-se necessária para possibilitar uma melhor
visualização das ações dos discentes enquanto realizavam o trabalho da
pesquisa e qual o resultado das atividades aplicadas, corroborando com Ludke
e André (1986), quando afirmam que:
Usada como o principal método de investigação ou associada a
outras técnicas de coleta, a observação possibilita um contato
pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado, o que
representa uma série de vantagens. (LÜDKE E ANDRÉ, 1986, p. 26)
As observações foram muito importantes nesta pesquisa, pois se a
investigação não passasse por esse processo seria impossível diagnosticar se
algum método, recurso e/ou colaboração foram utilizadas na execução da
atividade de tradução. Além disso, para dar sustentação a este trabalho,
também foi coletado ao fim de cada tradução, o nome, semestre ao qual
pertencia e a localidade de cada participante, para que assim pudesse ser
analisada a questão das influência intercultural de cada um.
30
3 ANÁLISE DE DADOS
Esta análise é fundamentada na metodologia descrita anteriormente, as
reflexões que serão apresentadas nesta pesquisa são submetidas à análise,
embasada nos pressupostos teóricos levantados no primeiro capítulo deste
trabalho. No que concerne ao procedimento de análise, os dados obtidos na
pesquisa de campo foram interpretados segundo o embasamento teórico
apresentado neste trabalho, objetivando sustentar as conclusões que se
extraem deste estudo.
Por isso, ao longo deste capítulo, podem-se perceber as características
dos sujeitos envolvidos, visando refutar ou confirmar o problema em questão,
analisando os procedimentos usados no trabalho tradutório, no que tange aos
conceitos de fidelidade, invisibilidade e elementos linguístico-culturais dos
participantes desta pesquisa5
.
Assim, optou-se por analisar primeiro as dificuldades enfrentadas pelo
tradutor, em cada grupo, no que concerne a invisibilidade na tradução de
textos, discutindo os procedimentos ligados à fidelidade e legibilidade entre o
texto traduzido e o texto original. Em seguida apontar as contribuições da
interculturalidade na relação entre a língua de partida e a língua de chegada.
No que tange a questão da observação dos procedimentos, iniciada as
atividades de tradução entregues na turma do VI Semestre noturno, pode-se
observar de maneira primordial a insatisfação por parte da maioria ao observar
que se tratava de um trabalho de tradução, mesmo assim mostraram-se
predispostos a começar a atividade. Percebeu-se também, certa dificuldade por
parte da turma em realizar a tradução sem a utilização de algum suporte.
Mesmo tentando ao máximo traduzir o texto proposto, após 10 minutos de
iniciada a atividade alguns alunos já se utilizavam de dicionário.
Após mais um certo tempo, os alunos já demonstravam um desinteresse
em continuar e uma dispersão geral na turma, neste momento cabe colocar
que algumas traduções foram entregues incompletas, pois com tantas
conversas paralelas entre eles, perderam o sentido da atividade.
5
As atividades de tradução aplicadas aos alunos estão nos anexos deste trabalho.
31
Na segunda turma aplicada, a do IV semestre, a turma demonstrou de
imediato interesse na execução da atividade, porém divergindo da turma
anterior, de imediato fizeram uso de dicionários onlines e depois de um certo
tempo deixaram estes, para se utilizarem dos dicionários manuais. O tempo
inteiro pediam ajuda, fizeram em dupla, trio e grupo e solicitaram por varias
vezes o auxílio da professora.
Aqui, cabe salientar, que estes mesmos alunos, enquanto universitários
e posteriormente futuros docentes, ainda se prendem aos mesmos métodos da
educação básica, que trazem os dicionários como os grandes aliados das aulas
de língua estrangeira.
As alunas do VIII semestre e as alunas conclusas executaram as
atividades utilizando unicamente seus conhecimentos, sem intervenção de
outrem e sem utilização de nenhum mecanismo.
Este primeiro momento da observação da aplicação da pesquisa permite
concluir que atividades de tradução não chamam a atenção e nem aguçam o
interesse de estudantes, mesmo de segunda língua, onde o foco maior de
estudo talvez fosse este, tendo em vista as múltiplas visões e a vasta linha de
estudo. Percebe-se ainda porque os dicionários, sejam estes eletrônicos ou
manuais, continuam sendo os fortes aliados das aulas de inglês, tendo em vista
que os futuros docentes ainda se prendem na aprendizagem desta forma,
dificultando assim o entendimento do vocabulário, já que entre línguas há uma
grande disparidade vocabular, gramatical,
A falta de concordância entre distintas disciplinas linguísticas no
âmbito da pedagogia do vocabulário, tal como a ausência de uma
metodologia clara para definir e delimitar a aquisição do mesmo
contribuíram para ignorar os dicionários como ferramentas
indispensáveis na aprendizagem e ensino de línguas estrangeiras
(VAZQUEZ, 2010, p. 109).
Porém é preciso considerar também o fato de que se um estudante
durante uma leitura vê no dicionário um apoio para aprender vocabulário, esse
livro passa a ser uma referência totalmente necessária para a aprendizagem de
uma segunda língua.
No que concerne a questão da fidelidade e invisibilidade dos estudantes
enquanto tradutores, pode-se ratificar os estudos de Arrojo (1986) acerca de
32
textos traduzidos, pois estes tendem sempre a marcar o texto traduzido com os
significados impostos a partir de seus próprios interesses e circunstâncias,
deixando suas marcas, pensamentos e desejos na escrita.
Nenhuma das traduções analisadas refletem na íntegra a original, pois
todos traduzem de acordo a seus próprios conhecimentos, ou mesmo com
auxílio de algum recurso tradutor, está implícito seu conhecimento de mundo e
as circunstâncias do momento da tradução.
Na turma do VI Semestre, algumas pessoas desistiram sem concluir a
atividade, pois estavam tentando traduzir palavra por palavra com auxilio de
dicionários, outros ao entregarem a atividade disseram que tentaram fazer com
suas próprias palavras e seus conhecimentos.
A turma do IV semestre também utilizou de seus próprios conhecimentos
e durante a observação isso foi confirmado, tendo em vista que todos
comentavam estar tentando executar a atividade utilizando de seus
conhecimentos.
As traduções dos alunos do VIII Semestre e das que já concluíram se
aproximam bem da original, porém existem marcas dos tradutores, que são
visíveis ao analisarmos, em seu contexto.
Estas constatações refletem acerca do que foi fundamentado
anteriormente a respeito daquele que traduz, pois este não consegue se eximir
do que é feito, tendo em vista a impossibilidade de passar totalmente suas
intenções, seus desejos e o universo de quem escreveu, pois todas estas
questões serão inevitavelmente sua visão a despeito do que podiam ter sido.
Não é concebível pensar em tradução de maneira neutralizada, sem
envolvimento daquele que traduz, pois estes não são pessoas neutras.
Pode-se concluir nesta parte da ánalise que o contexto tradutório
também pode influenciar nos resultados de uma tradução, pois em todas as
turmas os alunos demonstraram um interesse maior quando foi explicado o
ensejo da pesquisa e a aplicação de seus resultados, como se cada tradutor
quisesse tentar fazer o melhor, por se tratar de uma pesquisa acadêmica,
deixando claro, assim, que a questão da “fidelidade” na tradução, é relativa a
quem traduz como foi fundamentado e dificilmente podera-se-á reproduzir as
33
ideias do autor, do mesmo jeito que esta, sempre será fiel às suas convenções
considerando suas complexidades.
Para esta questão, em outras palavras, a tradução de um texto será
sempre baseada no que acreditamos, na interpretação que fizermos, mediada
por nossas vontades, desejos, conhecimento de mundo e o meio ao qual
estamos inseridos, traçando os objetivos, os propósitos e as reavaliações que
conseguirmos entender por fidelidade.
Para tanto, analiso ainda a questão cultural de cada estudante envolvido
nesta pesquisa, partindo do pressuposto de que quando culturas começam a
interagir, sendo que um grupo não sobreponha o outro e possa-se favorecer a
integração e a convivência, dá-se lugar a interculturalidade.
Essas relações interculturais perpassam pela diversidade, tornando
inevitável o surgimento de alguns conflitos, que na questão textual pode ser
acentuada se predominar o respeito e o diálogo entre texto de partida e texto
de chagada. Em se tratando de um conceito recente, investigado por muitos
pesquisadores da comunicação, da antropologia, da sociologia e até mesmo do
marketing, a interculturalidade busca se distinguir do multiculturalismo da
relação entre culturas.
É inevitável e ao mesmo tempo, é o cume desta analise, a questão
cultural tendo em vista que em todas as atividades de tradução, pode- se
comprovar a intervenção cultural de cada um. Isto é observado a partir do
modo de falar, de costumes diários de cada local, que de maneira implícita e
explícita, os estudantes manifestaram nas traduções.
A pesquisa contou com a participação de estudantes de todas as turmas
envolvidas, de diversos locais, sendo estes 1 de Riachão do Jacuípe, 1 de
Seabra, 1 de Santa Luz, 1 de Salvador, 1 de Retirolândia, 1 de Barrocas, 1 de
Queimadas, 4 de Valente, 7 de Serrinha e 13 de Conceição do Coité, sendo 10
moradores da Sede e 3 da zona rural.
Um ponto desfavorável encontrado nesta pesquisa, diz respeito às
traduções dos moradores da zona rural de Conceição do Coité, pois estas são
as que menos se aproximam da original e todas foram entregues incompletas,
sustentando assim, que talvez ainda seja bastante deficiente o ensino de língua
34
inglesa na zona rural, já que estes não demonstraram interesse na pesquisa e
na língua que estudam.
É preciso admitir que a interculturalidade depende de diversos fatores, e
estes talvez sejam cruciais nesta pesquisa, como é o caso das concepções
culturais, dos obstáculos na comunicação, da necessidade de políticas
governamentais mais fortes nos setores educacionais, das hierarquias e das
diferenças econômicas. Isto posto, pode-se comprovar, pelo fato de que
algumas traduções se distanciam da original por problemas de origem
educacional, ou seja, mesmo concluídas, as marcas de quem as fez estão
presentes, sendo algumas completas, mas “infiéis” ou diferentes da original,
com elementos bastante próximos, como apresenta o gráfico abaixo.
Gráfico 1: Quantitativo de atividades que se aproximaram e distanciaram do texto
original e das incompletas.
Cabe aqui salientar, que o gráfico sintetizou a quantidade de alunos que
traduziram não de maneira igualitária, mas os que mais se aproximaram do
texto original (14 estudantes), os que mais apresentaram infidelidade com
35
relação ao texto original (14 estudantes) e a quantidade de traduções
incompletas em comparação ao texto original (03 estudantes). É importante
também explicitar que alguns dos autores destas traduções, no caso, os
discentes em questão, já fizeram ou fazem curso de língua inglesa, não se
limitando unicamente ao ambiente da Universidade e nem ao que foi aprendido
na educação básica.
Questões culturais também perpassam pelo lugar onde o tradutor está
inserido e seu contato com meios eletrônicos, internet, rádio, televisão, com
forte influência em trabalhos de tradução. Principalmente na turma do IV
Semestre e do VIII, estes meios eletrônicos, contribuem bastante pois em sua
maioria utilizaram-se de iphones, notebooks e tablets como auxílio na
atividade.
É relevante retomar ao capítulo anterior, para confirmar o que foi
apontado por Faria, 2010, acerca de muitas variáveis envolvidas nos processos
de tradução e nas questões culturais, comprovadas nesta pesquisa, pois
quando entram em ação as diferenças culturais, o nível de domínio da língua
de partida, a evolução de ambas as línguas envolvidas no processo e as
particularidades de cada língua e de cada tradutor, fica evidente que é
impossível para quem traduz não deixar suas marcas e suas interpretações
acerca do que foi traduzido.
Na análise das traduções dos alunos de Salvador e Seabra, por
exemplo, marcas de linguagem e expressões são bem evidentes, sendo estas
características destes locais, propiciando comprovar que relações quotidianas ,
cultura, expressões locais e a dinâmica do conhecimento de mundo de cada
um é um fator relevante e de forte influência no que tange a questões textuais e
processos entre línguas.
Assim, como foi citado no primeiro capítulo, quando uma tradução é
colocada entre culturas diversas, surgem muitas divergências entre elas, o
tempo e o espaço em que foram elaboradas, evidenciando-se que esta
diferenciação mediada pela tradução, necessita de um conhecimento amplo
acerca de ambas as línguas envolvidas no processo, de uma excelente
observação de suas culturas e o que de mais minucioso pertencer a estas, até
mesmo as estratégias para o ato tradutório.
36
Portanto, os dados analisados comprovam que os processos que geram
a tradução isentam o tradutor da invisibilidade dos elementos linguístico-
culturais acarretando a impossibilidade de ser fiel, pois as características
culturais influenciam de maneira intensa nestes trabalhos. Desta maneira,
intensifica-se o pressuposto de que qualquer tradução sempre será infiel, já
que de alguma maneira, não será possível estabelecer a ideia do texto original
sem atentar-se a todas estas questões que permeiam o processo tradutório.
37
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo objetivou uma reflexão em torno do empreendimento da
tradução na medida em que tratou de aspectos culturais que podem influenciar
na constituição de uma compreensão menos “engessada” do processo de
transcodificação sígnica envolvido no “estar entre línguas”, processo que se
materializa quando nos pomos a traduzir.
Assim contribuindo para uma visão mais ampliada sobre trabalhos
tradutórios, esta pesquisa buscou propiciar a professores e estudantes uma
reflexão acerca dos ideais da tradução, tratados neste trabalho, como uma
ferramenta de estudo e também de prática de trabalho, e porque não dizer,
uma inovação nas metodologias utilizada, ampliando a multiplicidade de
ensinos deste assunto tão amplo que é o campo da tradução.
Considerando os problemas no ensino de língua inglesa, quanto ao uso
de dicionários como aliado das aulas e as atividades de tradução, seja no
âmbito da educação básica ou na academia, vale salientar que quando
relacionamos estes trabalhos a questões de “fidelidade” e “legibilidade”,
associando-os aos aspectos culturais vemos como é constante a busca por um
ideal de tradução perfeita, sendo esta uma variável não aceitável, já que esta
pesquisa prova que traduzir vai bem além de todas estas questões, pois cada
tradução traz em si as particularidades de quem a fez.
Este trabalho configurou-se como pesquisa qualitativa que permitiu o
conhecimento aproximado da realidade investigada, pois buscou “captar” o
fenômeno em estudo a partir das vivências dos envolvidos. O desafio desta
pesquisa era analisar a possibilidade de estabelecer a ideia do texto original
sem incidir na invisibilidade/anulação dos elementos linguístico-culturais
encontrados somente na língua de partida. Na observância dos objetivos
traçados para os procedimentos usados no trabalho tradutório, no que tange
aos conceitos de fidelidade e invisibilidade, pode-se comprovar a dificuldade
enfrentada pelo tradutor nestas questões, tendo em vista que as questões
culturais se sobrepõem, dificultando a originalidade e discutindo a
impossibilidade de que vivências, marcas, desejos e interpretações de quem
traduz não façam parte do processo.
38
Com os resultados deste trabalho, conclui-se ter sido possível evidenciar
parte do processo ou dos processos que regem o ato tradutório, os quais
envolvem técnicas, tempo, espaço, conhecimento de mundo, sendo esta uma
atividade sempre permeada por divergentes e contraditórias formas de
entendimento e de significação que ampliam a visão de todo o seu processo,
refutando a idéia de que a tradução seja apenas uma atividade de transferência
ou transcodificação de uma língua para outra.
Vale ressaltar que é necessário, em etapas posteriores, retomar esta
pesquisa em um plano mais profundo, no que concerne às estratégias e
consequências das aplicações em certas traduções e os efeitos destas
traduções “infiéis”, no que tange a visão do autor original, pois esta amostra foi
simples, rápida, sucinta e restrita a um grupo de Universitários, com o ensejo
de desconstruir alguns possíveis ideais acerca da “tradução perfeita”.
O descompasso entre semestre letivo da Universidade (UNEB) e alguns
prazos de entrega de trabalhos, comprometem um aprofundamento maior
desta pesquisa, no sentido de ampliá-la a educação básica e a professores de
língua inglesa em atuação, pois em se tratando de uma pesquisa empírica,
teríamos inúmeras formas de análises a serem feitas, o que permitiria um
trabalho de talho contrastivo galgado em um campo mais amplo de estudo para
subsidiar a discussão da temática.
Entretanto, acreditamos que a presente pesquisa poderá contribuir para
futuras reflexões sobre a temática proposta, além de sugerir uma abordagem
de trabalho a futuros professores de língua estrangeira e estudantes, sob a
lógica de quão rica e vasta é a área de estudo da tradução, dialogando com o
universo onde ambos, professores e estudantes, estão inseridos, já que estas
estão permeadas pela interculturalidade e vivências de cada um.
Em suma, todos os conceitos e ideias apresentadas aqui redimensionam
nossa visão acerca do que se conceituava como tradução para uma visão
maior do papel desempenhado pelo tradutor, pelos processos envolvidos em
trabalhos deste tipo, visto que, todo contexto tradutório também ocorre em um
contexto sócio-cultural, já que a língua é a maior ferramenta de comunicação
entre os homens, a tradução garante progressivamente seu status, pois a
39
língua não é estática, sobretudo em tempos de globalização e interação
sociocultural.
40
REFERÊNCIAS
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autonomia: estratégias para o tradutor em formação. Contexto, São Paulo, p.
9-28, 2000.
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Campinas – SP: Papirus, 1995. (Série Prática Pedagógica)
ARROJO, Rosemary. Oficina de tradução: a teoria na prática. São Paulo:
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______. Os Estudos da Tradução na Pós-Modernidade, o reconhecimento da
diferença e a perda da inocência. Cadernos de Tradução, UFSC, n.1, p.53-
70, 1996.
BASSNET, Susan. Translation Studies: Revised Edition. Londres: Routledge,
1991.
BOHUNOVSKY, Ruth. A (im)possiblidade da “invisibilidade” do tradutor e da
sua “fidelidade”: por um diálogo entre a teoria e a prática de tradução.
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CAMPOS, Haroldo de. Da tradução como criação e como crítica. In:
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CARVALHAL, Tânia Franco. Tradução e recepção na prática comparatista.
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COUTO, Juliana; KELLER, Fabiana; MOURA, Magali. A tarefa do tradutor.
Sobre os caminhos e percalços de traduzir Goethe. Universidade Estadual do
Rio de Janeiro – UERJ, 2010. Disponível em:
<http://abrapa.org.br/hotsite/pdf/Arquivo016.pdf>. Acesso em: 27 de Abril de
2013.
CUNHA, Julio Araújo Carneiro da; RIBEIRO, Evandro Marcos Saidel. A
Etnografia como estratégia de pesquisa interdisciplinar para os estudos
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<http://revista.uepb.edu.br/index.php/qualitas/article/viewFile/692/491>. Acesso
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FARIA, Johnwill Costa. A tradução entre a cruz e a espada: Fidelidade versus
Traição. REVELLI – Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-
41
Inhumas. v. 2, n. 1, mar. 2010. p. 87-100. Disponível em:
<www.ueginhumas.com/revelli>. Acesso em: 01 de abril de 2013.
FERRAZ, Débora A. da S., SOUZA, Felipe da Silva. Métodos de tradução na
produção literária. Núcleo de Estudos Interdisciplinares IV. Universidade do
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GENETTE, Gerárd. Palimpsestos: A Literatura de Segunda Mão. Disponível
em:
<http://culturadetravesseiro.blogspot.com.br/2011/05/palimpsestogerardgenette
.html>. Karine Miranda Campos (Blog Texto e Pretexto, 2006). Acesso em: 29
jan. 2013.
GODOY, Arilda Schmidt. Pesquisa qualitativa- Tipos fundamentais. Revista
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Disponível em:
<http://www.producao.ufrgs.br/arquivos/disciplinas/392_pesquisa_qualitativa_g
odoy2.pdf>. Acesso em: 29 de Janeiro de 2013.
GUARISCHI, Rafael Machado. VALENTE, Marcela Iochem. A tradução
intercultural e seus desafios. Revista ALPHA. Patos de Minas: UNIPAM, n. 11,
p. 161-166, ago. 2010.
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Acesso em: 02 de Fevereiro de 2013.
JAUSS, Hans Robert. Pour une esthétique de la réception. Traduit de
l'allemande par Claude Maillard. Paris: Éditions Gallimard, 1990.
LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. 8ª
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São Paulo: E.P.U, 1986.
OLHER, Rose Maria. Original e tradução: relação hierárquica e
institucionalizada. Campinas – SP, 2010. Disponível em:
<http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?view=000770157>. Acesso
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PUENTE, Jorge. A importância da tradução. Disponível em:
<http://www.alexandervieira.com.br/2009/04/importancia-da-traducao.html>.
Acesso em: 26 maio 2012.
VAZQUEZ, Ignacio. O papel do dicionário no ensino e aprendizagem das
línguas. ACTAS DO I EIELP. Univesitat de Barcelona, março de 2010.
Disponível em: http://www.exedrajournal.com/docs/02/09%20-
%20Ignacio%20Vasquez.pdf. Acesso em 10 de Outubro de 2013.
42
VENTUROTTI, Fabiano. A transcriação bíblica em haroldo de campos: a
poética de Gênesis. Revista Desempenho, v. 9, n.1, jun/2008
www.revistadesempenho.org.br. Disponível em:
<http://www.let.unb.br/rd/images/desempenho/200801volume9numero1/04_des
empenho-200802-volume9-numero1_Venturotti.pdf>. Acesso em: 10 de
Outubro de 2013.
VENUTI, Lawrence. A invisibilidade do tradutor. In: Palavra 3. (1995) 111-
134. Tradução de Carolina Alfaro. Rio de Janeiro, 1995. Tradução de: The
translator invisibility: In: Criticism. V XXXVIII, n.2, Spring 1986, Wayne state UP,
pp. 179-212. ________________. Escândalos da Tradução. São Paulo:
EDUSC, 2002
43
Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Departamento de Educação – Campus XIV
Colegiado de Letras/Inglês
Pesquisa do TCC
UM ESTUDO DE CASO SOBRE OS TIPOS DE ERROS ORAIS DE
ALUNOS NOVATOS DE LÍNGUA INGLESA—LE
Thatiany Goularth Carneiro
Marcia Regina Pawlas Carazzai
Resumo: O presente artigo reporta os resultados de um estudo que investigou os
tipos de erros orais que seis aprendizes de língua inglesa mais cometiam. Para tal, foram
gravadas em áudio e transcritas dez aulas de uma turma composta por seis alunos de
nível Novice High, em uma escola de idiomas no interior do estado do Paraná. Os
resultados indicaram que, dos 154 erros identificados, os que mais apareceram foram os
Intralinguais, totalizando 141 erros. Os erros Interlinguais apareceram quatorze vezes e
os erros ambíguos foram os que menos surgiram – somente uma vez. Finalmente, os
erros induzidos apareceram quatro vezes durante as aulas, o que indica que, talvez a
professora deva tomar mais cuidado com o modo de apresentar a língua estrangeira aos
seus alunos.
Abstract: The present article reports on the results of a study that investigated
the most common types of oral errors/mistakes some English language students
committed. To this end, ten classes were recorded in audio and transcribed. The group
observed was composed of six students in Novice High level, at a language school, in
the interior of Paraná. The results indicate that, from 154 identified errors/mistakes, the
intralingual erros/mistakes were the most recurrent ones, in a total of 141. The
interlingual errors/mistakes appeared fourteen times and the ambiguous errors/mistakes
were the least common – appearing only once. Finally, the induced errors appeared four
times during the classes, which indicates that the teacher could pay more attention to the
way she presents the foreign language to her students.
44
Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Departamento de Educação – Campus XIV
Colegiado de Letras/Inglês
Pesquisa Etnográfica para avaliação do TCC
Texto a ser traduzido:
UM ESTUDO DE CASO SOBRE OS TIPOS DE ERROS ORAIS DE
ALUNOS NOVATOS DE LÍNGUA INGLESA—LE
Thatiany Goularth Carneiro
Marcia Regina Pawlas Carazzai
The present article reports on the results of a study that investigated the most
common types of oral errors/mistakes some English language students committed. To
this end, ten classes were recorded in audio and transcribed. The group observed was
composed of six students in Novice High level, at a language school, in the interior of
Paraná. The results indicate that, from 154 identified errors/mistakes, the intralingual
erros/mistakes were the most recurrent ones, in a total of 141. The interlingual
errors/mistakes appeared fourteen times and the ambiguous errors/mistakes were the
least common – appearing only once. Finally, the induced errors appeared four times
during the classes, which indicates that the teacher could pay more attention to the way
she presents the foreign language to her students.
Translation:
______________________________________________________________________
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Aluno: _______________________________________________________________
Localidade: ____________________ Semestre: ________

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Monografia de Débora Araújo da Silva Ferraz

  • 1. Universidade do Estado da Bahia – UNEB Departamento de Educação - Campus XIV Colegiado de Letras: Habilitação Língua Inglesa DÉBORA ARAÚJO DA SILVA FERRAZ Chegadas e partidas: fidelidade, invisibilidade e influências interculturais no processo tradutório Conceição do Coité 2013
  • 2. DÉBORA ARAÚJO DA SILVA FERRAZ Chegadas e partidas: fidelidade, invisibilidade e influências interculturais no processo tradutório Trabalho de Conclusão de Curso II apresentado ao Departamento de Educação – Campus XIV, da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, como requisito avaliativo para obtenção do Grau de Licenciatura em Letras com Habilitação em Língua Inglesa. Orientador: Prof. Raulino Batista Figueiredo Neto Conceição do Coité 2013
  • 3. Débora Araújo da Silva Ferraz Chegadas e partidas: fidelidade, invisibilidade e influências interculturais no processo tradutório Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Educação – Campus XIV, da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, como requisito avaliativo para obtenção do Grau de Licenciatura em Letras com Habilitação em Língua Inglesa. Aprovação em: 11/12/2013 BANCA EXAMINADORA _________________________________________ Prof. Orientador: Raulino Batista Figueiredo Neto Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV _________________________________________ Profª do TCC: Neila Santana Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV ________________________________________ Prof.ª Convidado: Fernando Sodré Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV Conceição do Coité 2013
  • 4. Dedico este trabalho a todos os profissionais da educação, em especial os professores de Língua Inglesa, que encontrem neste trabalho uma ferramenta de estudo e também de prática de trabalho, e porque não dizer, uma metodologia diferente para trabalhar este assunto tão amplo que é o campo da tradução.
  • 5. AGRADECIMENTOS A Deus, autor da vida e fonte de toda sabedoria, pelo seu amor sem medidas e pelo seu cuidado especial comigo, presente em todas as etapas e momentos de minha vida. A Ele devo toda sabedoria, minha vida, tudo que tenho e tudo que sou. A minha mãe, grande companheira e que tanto me ajudou nesta etapa tão difícil, minhas irmãs, meus primos, minhas avós e toda a família, pelo incentivo, disponibilidade e compreensão aos períodos de isolamento e dedicação aos estudos, por suas orações e todo apoio a mim dispensado, vocês são essenciais e a base de tudo. A meu esposo João Netto, meu grande companheiro de todos os momentos, por sua compreensão e por sempre entender e me apoiar nos momentos de preocupações e urgências da Universidade e, de modo especial, meu filho Deodato Netto, razão de meus dias, que nasceu em meio a esta rotina árdua de minha vida acadêmica, pela distância e pouco tempo dispendiado a ele, mas que com certeza entenderá futuramente o valor que a falta de tempo pra ele, terá pra minha formação profissional, amo vocês! A meu avô Francisco (in memorian) que me deixou um grande legado de amor e do sentimento amar e ser amado, por todo orgulho que sempre teve em mim, saudades eternas. Ao Professor Raulino Batista Figueiredo Neto, meu orientador, que com muita sabedoria, inteligência, paciência, competência e prazer me ajudou no desenvolvimento deste trabalho. Sou grata em especial, por, mesmo a distância, não ter desistido de minha orientação, sempre me ajudar também com seu carinho e com suas conversas até mesmo de cunho pessoal, que sempre me colocava para cima em meio aos períodos de baixo astral, por todo afeto a mim transmitido, muito obrigado! Aos professores do Campus XIV, especialmente do Curso de Letras com Habilitação em Língua Inglesa e funcionários deste Colegiado, que de maneira significativa contribuíram para minha formação profissional e pessoal, e pelos que com amizade e companheirismo me impulsionavam a seguir adiante em momentos difíceis.
  • 6. Aos professores que passaram pelo nosso curso e se tornaram inesquecíveis, cada um a sua maneira e com suas particularidades: Flávia Aninger, Paulo de Tarso, Plínio Oliveira, Cristina Carvalho, Letícia Telles, Edsom Barreto, Irenilza Oliveira, Líbia Gertrudes, Juliana Bastos, Ivana Libertadoira, Mônica Veloso, Emanoel Nonanto, Fernando Sodré, Neila Santana, Rita Sacramento, Ludimilia Silva, Anna Karina, Margarete Barbosa e Raulino Batista, meu carinho, agradecimento e meu muito obrigado. Aos colegas, que com imenso carinho, ultrapassaram os limites formais de um grupo com afinidade acadêmica e ensejos profissionais convergentes e se tornaram grandes amigos, desde os que começaram e desistiram aos que de maneira descemestralizada passaram por nossa turma e os que permaneceram e de modo muito especial a minha equipe de trabalho: Láisa Dioly, Ana Zilá, Kelly Tainan, Deise Lima e Josiélia Oliveira, grandes amigas, companheiras de todos os momentos e que vitoriosas chegamos juntas a este grande momento, amo vocês. Aos amigos, que de maneira especial contribuíram com minha trajetória, compartilhando do dia a dia, das dificuldades, sorrisos e lágrimas, preocupações e diversões e que de certa forma também entenderam a ausência e o período de isolamento, sem estes a vida não teria sentido. A direção e todos os funcionários do Departamento em especial Margarete Reis e Railton Baldoino, que passaram pelo Colegiado neste período e sempre nos prestaram grande apoio em tudo o que foi necessário e aos colegas de outros semestres, também do Curso de Letras Com Habilitação em Língua Inglesa, que contribuíram de maneira significativa na realização deste trabalho.
  • 7. Sem a curiosidade que move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino. Me movo como educador, porque primeiro me movo como gente. Paulo Freire
  • 8. RESUMO Este trabalho pretende analisar questões como fidelidade, invisibilidade e influências interculturais no processo tradutório, descrevendo sua execução mediante observação, para posterior discussão acerca dos elementos comparativos envolvidos. Tem como objetivos: 1) analisar os procedimentos usados no trabalho tradutório, no que tange aos conceitos de fidelidade e invisibilidade; 2) mapear as dificuldades enfrentadas pelo tradutor, no que concerne a invisibilidade na tradução de textos; 3) discutir os procedimentos ligados a fidelidade e legibilidade entre o texto traduzido e o texto original; e 4) apontar as contribuições da interculturalidade na relação entre a língua de partida e a língua de chegada. Este estudo tem como pressuposto teórico- metodológico a Pesquisa de cunho etnográfico. Para a análise, foram feitas observações e comparações acerca das traduções obtidas e a tradução original, considerando fatores como fidelidade, invisibilidade e influências interculturais. Os resultados mostram que é impossível para quem traduz neutralizar-se diante do processo tradutório, tendo em vista que muitas de suas marcas, vivências e conhecimentos acabam sendo atrelados a estas, bem como seus desejos e intepretações, inviabilizando a ideia de que a tradução seja meramente um trabalho transcodificado entre línguas. Trabalhos desta natureza se constituem como um importante veículo de conhecimento e reflexão em torno do empreendimento da tradução, na medida em que observa sua influência no “estar entre línguas”, sendo este um processo que se materializa quando nos pomos a traduzir. Palavras-Chave: Tradução. Interculturalidade. Fidelidade e Invisibilidade.
  • 9. ABSTRACT This work intends to analyze issues such as fidelity, invisibility and cross- cultural influences in the Translational process, describing its implementation through observation, for further discussion about the comparative elements involved. Aims at: 1) analyzing the procedures used in translational work, with regard to the concepts of fidelity and invisibility; 2) mapping the difficulties faced by the translator, regarding the invisibility in translation of texts; 3) discussing the procedures linked to fidelity and legibility between the translated text and the original text; and 4) pointing out the contributions of interculturality in the relationship between the source language and the target language. This study has as theoretical-methodological assumption of ethnographically research. For the analysis, comparisons and observations were made about the translations obtained and the original translation, considering factors such as fidelity, invisibility and cross-cultural influences. The results show that it is impossible for anyone who translates neutralize before the Translational process, considering that many of its brands, experiences and knowledge end up being linked to these, as well as their desires and interpretations, precludes the idea that translation is merely a work transcoded between languages. Works of such nature constitute an important vehicle of knowledge and reflection around the translation endeavor, to the extent that notes his influence on "being between languages", this being a process that materializes itself when we translate. Keywords: Translation. Interculturality. Fidelity and invisibility.
  • 10. SUMÁRIO INTRODUCAO 10 1 O TEXTO ORIGINAL REDEFINIDO: PALÍMPSESTO 14 1.1 A QUESTÃO DO AUTOR NO PROCESSO DA TRADUÇÃO 16 1.2 FIDELIDADE, INVISIBILIDADE E LEGIBILIDADE ENTRE 19 O TEXTO TRADUZIDO E O TEXTO ORIGINAL 1.3 AS INFLUÊNCIAS INTERCULTURAIS ENTRE TEXTOS DE 20 PARTIDA E DE CHEGADA 2 METODOLOGIA 25 2.1 MÉTODO 25 2.1.1 Lócus 27 2.1.2 Sujeitos 28 2.1.3 Instrumentos 28 3 ANÁLISE DE DADOS 30 CONSIDERAÇÕES FINAIS 37 REFERENCIAS 40 ANEXOS
  • 11. 10 INTRODUÇÃO O campo da tradução é laborioso, sobretudo quando o relacionamos, a questões de “fidelidade” e “legibilidade”, associando-os aos aspectos culturais. Muitos são os estudiosos que vêm dedicando seus trabalhos aos processos tradutórios como mediadores das relações interculturais. Nesse sentido vemos como é constante a busca por um posicionamento unificado quanto à definição de tradução e, por conseguinte, de uma teoria aceita por todos. Nas duas últimas décadas, os Estudos de Tradução têm tomado outro rumo, de forma que a preocupação exclusiva com os aspectos linguísticos vem dando lugar a problemas de ordem intercultural. Sabemos, hoje, que algo indispensável à Tradução Intercultural é a influência dos Estudos Culturais, os quais, embora não constituam nosso objeto de pesquisa, instituem-se como os meandros constitutivos dos códigos/línguas em jogo, isto é, a cultura e as relações interculturais decorrentes dessa relação entre línguas-culturas. Há, em meio a essa multiplicidade teórica, a necessidade de discutir e comparar abordagens recentes de alguns teóricos de tradução, e de tradutores. No entorno dos conceitos de tradução vislumbramos dois dos aspectos fundamentais do processo tradutório, a saber: a noção de “fidelidade” entre o texto traduzido e o texto de partida, e a “invisibilidade”, elemento que é, para muitos, o responsável pelo “silenciamento” da voz do tradutor, isto é, pela despersonalização daquele que traduz1 . Nesse sentido, o objetivo principal do tradutor deveria ser o de torna-se o mais “fiel” ao original em sua totalidade ascendendo à “invisibilidade” no texto traduzido, haja vista que o objetivo fundamental da tradução convencional seria a “reprodução” do “original” em outro código. Outrossim, entendemos que a tradução, muito mais do que buscar uma fidelidade desmedida e por vezes inatingível, deveria centrar-se não mais num processo unicamente intralinguístico, mas, sim, num processo intercultural, no qual as relações entre línguas-culturas, se alojam. 1 O posicionamento idealista adotado por alguns autores, não reflete aquilo em que acredito. E é exatamente isso que está presente em minha escrita (a não conformidade com o ideal utópico da invisibilidade).
  • 12. 11 Todo texto é único e é, ao mesmo tempo, a tradução de outro texto. Nenhum texto é completamente original porque a própria língua em sua essência já é uma tradução (PAZ). No trabalho tradutório, a tentativa de “transferir o sentido de cada palavra” corresponde a “invisibilidade” do tradutor, tornando o texto traduzido, uma consequência lógica e “fiel” ao texto original. No entanto, observações vêm sendo feitas acerca desse ideal de fidelidade, o que nos permite julgar como inócua a fidelidade utópica aos elementos linguístico-culturais. Assim, admitimos que estes elementos não sejam facilmente transportados de um código para outro, numa mera transposição intralinguística. Isto posto, entendemos que apesar da impossibilidade da fidelidade tradutória no que compete aos aspectos idiossincráticos da língua- cultura de partida e da língua-cultura de chegada, é possível a instauração da fidelidade estilística, já que esta é representativa da historicidade e da ideologia presentes na obra do autor da língua-cultura de partida. Desse modo, entendemos que por se tratar de algo intrínseco ao texto de partida, a fidelidade estilística, muito mais do que algo desejável, deve figurar como condição para uma tradução adequada ao público leitor do texto de chegada. Mediante tais observações, faz-se necessário um estudo sobre o ideal da fidelidade e da invisibilidade do tradutor, já que segundo o que nos indica Bohunovsky, [...] a partir de uma visão essencialista, ou logocêntrica, qualquer tradução será sempre infiel, em algum nível e para algum leitor, sempre menor, sempre insatisfeito, em comparação a um original idealizado e, por isso mesmo, inatingível (BOHUNOVSKY, 2001, p. 04). No esforço por delinear estas questões e no ensejo de entender tais processos, verificando elementos como estilo, fluência, legibilidade e cultura nos processos tradutórios, questiona-se: de que modo é possível estabelecer a ideia do texto original sem incorrer na invisibilidade/anulação dos elementos linguístico-culturais apenas encontrados na língua-cultura de partida/chegada? Partindo da necessidade de responder tal questionamento, procura-se levar em consideração os objetivos que analisam os procedimentos usados no
  • 13. 12 trabalho tradutório e seus conceitos de fidelidade e invisibilidade, ao mesmo tempo em que busca-se mapear as dificuldades enfrentadas pelo tradutor, discutindo os procedimentos ligados à fidelidade e legibilidade entre os textos e apontando as contribuições da interculturalidade na relação entre a língua- cultura de partida/chegada. Assim, este trabalho justifica-se em verificar se os ideiais da fidelidade e da invisibilidade sempre acarretam a imagem do trabalho tradutório como imperfeito, incoerente, apresentando as características culturais que o influenciam, podendo proporcionar à professores e estudantes um entendimento sobre a questão da fidelidade e do “respeito” ao texto original e como os aspectos culturais podem influenciar no ato da tradução, contribuindo assim para uma visão mais ampliada sobre esta questão tão debatida. Esta pesquisa se estrutura em três capítulos: O teórico, o metodológico e a análise de dados. O primeiro capítulo aborda a invisibilidade, fidelidade e interculturalidade dos textos traduzidos com aquilo que os unifica: o Palimpsesto. Assim, é estabelecendo as inter-relações “palimpsésticas”, isto é, o "reescrever por cima" que o tradutor empreende o seu ofício, traduzindo o outro num outro idioma. Em outras palavras, esse tradutor que trouxemos para a cena é aquele que trai qualquer alvitre de invisibilização e que ,ao mesmo tempo, torna possível a aceitação/decodificação do texto primeiro (original), no contexto sociocultural da língua de chegada. Visto por essa perspectiva, o tradutor é ,em todas as instâncias, o catalisador e, por isso mesmo, (re) definidor dos signos e sentidos transpostos de uma língua para a outra. No segundo capítulo, apresenta-se a metodologia que foi utilizada e que foi realizada através de uma pesquisa de cunho etnográfico com procedimentos de um Estudo de Caso. A metodologia empreendida visou a análise dos procedimentos que são utilizados, bem como as influências culturais de estudantes de diferentes localidades no processo tradutório de um abstract em inglês, já previamente traduzido pelo autor. Diante disto foram utilizados instrumentos de observação, questionário e métodos de comparação, para que no capítulo seguinte, o de análise de dados, pudéssemos sistematizar as informações, bem como as percepções, mediante todas as comparações, observações e estudo analítico dos questionários.
  • 14. 13 Esta análise, permitiu entender os processos empregados na tradução, estabelecendo a ideia do texto original sem incorrer na invisibilidade/anulação dos elementos linguístico-culturais apenas encontrados na língua de partida. Assim, foi possível verificar se os ideais da fidelidade e da invisibilidade sempre acarretam a imagem do trabalho tradutório, como imperfeito, incoerente e apresentar a questão das características culturais como influência nos trabalhos de tradução. Na próxima seção discutiremos mais aprofundadamente a questão do texto original e da escrita/reescrita palimpséstica.
  • 15. 14 1 O TEXTO ORIGINAL REDEFINIDO: PALÍMPSESTO “Translation is not a matter of words only: it is a matter of making intelligible a whole culture”. (Anthony Burgess) Dentre os muitos temas debatidos pelos teóricos da tradução, a Fidelidade e a Invisibilidade do tradutor tomaram espaço importante nas discussões, tanto teóricas quanto práticas. Para tanto, podemos associar esses temas a algo, que mediante sua definição, unifica-os: o Palimpsesto. Segundo os dicionários, o substantivo masculino palimpsesto, do grego palimpsesto (“raspado novamente”), refere-se ao “antigo material da escrita, principalmente o pergaminho, usado, em razão de sua escassez ou alto preço, duas ou três vezes [...] mediante raspagem do texto anterior (ARROJO, 2003, p. 23)”. O que se pode reiterar mediante as observações de Arrojo, quando associamos a tradução de textos ao Palimpsesto, são as inter-relações estabelecidas e o "reescrever por cima" que o tradutor empreende e ao mesmo tempo decodifica, no contexto sociocultural da língua de chegada, (re) definindo signos e sentidos transpostos de uma língua para outra. Um palimpsesto é um pergaminho onde sua escrita inicial foi raspada para que outra seja feita, de modo que a leitura da primeira não irá sobrepor a original. Assim, no sentido figurado, entenderemos por palimpsestos obras que foram transformadas ou passaram por algum processo de imitação. Ou seja, nessa leitura refeita não serão reconhecidos os seus territórios, lamentavelmente, porém, o texto sempre revelará novas possibilidades de compreensão e de ressignificação, haja vista que quanto mais variados forem os seus leitores, maior será a profusão palimpséstica. Este meu proposto, não foge à regra, isto é, sempre será feito dele o mesmo processo de leitura/releitura até que, na medida em que isto for acontecendo, quem ler por último, lerá melhor. Genette (2006) apropria-se desses aspectos, afirmando que “o hipertexto é, na verdade, o texto originário de um primeiro texto”; essa relação é estabelecida por processos diretos e imitação. Segundo ele, a Eneida e
  • 16. 15 Ulisses são exemplos de hipertextos oriundos de um mesmo hipotexto2 : a Odisseia. A transformação que conduz a Odisséia a Ulisses pode ser descrita como uma transformação simples, ou direta: aquela que consiste em transportar a ação da Odisséia para Dublin do século XX. A transformação que conduz da Odisséia a Eneida é mais complexa e mais indireta, pois Virgílio não transpõe de Ogígia a Cartago e de Ítaca ao Lácio, a ação da Odisséia: ele conta uma outra história completamente diferente, mas, para fazê-lo, se inspira no modelo estabelecido por Homero na Odisséia, imitando-o (GENETTE, 2006, p.03). Nessa conjuntura, a imitação provoca uma constituição prévia de um modelo que se reproduziu de forma mimética, isto é, idêntica ao texto anterior. Entendemos que a visibilidade do tradutor está, desde a primeira linha, associada à obra que traduz, haja vista que nenhum escritor é o autor principal do texto que escreve, pois cada leitor e/ou tradutor faz uma leitura, uma interpretação diferente, mediante suas inter-relações com outras traduções e outros textos, seu contexto social e local, seu conhecimento de mundo, o que se opõe frontalmente à ideia que dá conta do processo tradutório como se este fosse uma mera substituição ou, numa visão flagrantemente reducionista, um transporte de significados de um texto para outro, de uma língua para outra, de um código para outro: Portanto, não se sabe ao certo o que o autor passa em sua mensagem, tendo em vista que só ele sabe defini-la, sendo a tradução uma “produção ativa de um texto que se assemelha ao original, mas que mesmo assim o transforma e que sofre intervenção ativa do tradutor.” (VENUTI, 1995, p.112). O ato de traduzir não pode ser visto unicamente como transportador de significados entre línguas, pois muitas vezes, o significado de uma palavra ou de um texto em sua língua de partida, não poderá ser determinante na outra, isto só será possível, supostamente, após uma sequência de leituras. Arrojo, (1996), corrobora com essa consideração, afirmando que neste sentido: 2 Termo sinônimo de subtexto ou texto marginal ao texto principal, normalmente ocupado por notas de rodapé, posfácio, referências bibliográficas, etc.
  • 17. 16 [...] O que acontece não é uma transferência total de significado, porque o próprio significado do ‘original’ não é fixo ou estável e depende do contexto em que ocorre, o texto deixa de ser a representação ‘fiel’ de um objeto estável e passa a ser uma máquina de significados em potencial. (ARROJO, 1996, p. 23) A imagem do texto original, portanto, deixa de parecer-se com vagões, que meramente contêm uma carga resgatável, que pode ser transportada para ser a do palimpsesto que aqui proponho. Desta forma, o palimpsesto passa a ser o texto que foi apagado, mas ao mesmo tempo resgatado de cada comunidade cultural e de cada época, para dar lugar à outra escritura (ou interpretação, ou leitura, ou tradução) do mesmo texto. Assim, como nos ilustrou Genette, com a fábula Odisséia, o que é possível ter são suas muitas leituras, suas muitas interpretações – seus muitos palimpsestos. “A tradução, como a leitura, deixa de ser, portanto, uma atividade que protege os significados originais de um autor, e assume sua condição de produtora de significados; mesmo porque protegê-los seria impossível”. (ARROJO, 2006, p. 24). 1.1 A QUESTÃO DO AUTOR NO PROCESSO DA TRADUÇÃO Muitos teóricos referenciam à questão da intervenção do tradutor no texto traduzido, pois mesmo que este pretenda manter-se invisível na maioria das vezes é impossível não deixar suas marcas, seus pensamentos, seu desejo na escrita, pois “o tradutor, implícita ou explicitamente, impõe ao texto que traduz os significados inevitavelmente forjados a partir de seus próprios interesses e circunstâncias”. (ARROJO, 1993, p.81). Em qualquer tradução das mais simples às mais complexas, haverá a presença do tempo que foi escrita, da sua trajetória (de quem a traduziu), das circunstâncias feitas e principalmente dos objetivos e perspectivas (desejos) de seu realizador. Por si só, a tradução mostra sua originalidade, sendo sempre uma leitura ou releitura de quem a fez. Quando um leitor produz um texto, sua interpretação não deve ser somente sua, da mesma forma que o escritor não é soberano do texto que escreve. Este ir e vir constante do processo tradutório nos remete uma imagem
  • 18. 17 de transporte, de trânsito, de movimento (aqui pontuo e volto a me remeter à ação tradutória como um palimpsesto), como assinala Arrojo (1986): [...] o tradutor traduz, ou seja, transporta a carga de significados dos textos, porém traduzir não pode ser meramente o transporte, ou transferência de significados estáveis de uma língua para outra, porque o próprio significado de uma palavra, ou de um texto, na língua de partida, somente poderá ser determinado, provisoriamente, através de uma leitura (ARROJO, 1986, p. 13). Aquele que traduz, não consegue se eximir daquilo que é feito. É impossível passar na integra as intenções, os desejos e o universo de um autor, exatamente porque essas intenções, esses desejos e esse universo serão de forma inevitável, nossa visão daquilo que possam ter sido. Mesmo que o tradutor consiga repetir totalmente um determinado texto, esta tradução feita nunca recuperará seu original; Mais uma vez, de maneira inevitável, será refeita uma leitura, uma interpretação desse texto “que, por sua vez, será, sempre, apenas lido e interpretado, e nunca totalmente decifrado ou controlado” (COUTO; KELLER; MOURA, 2010, p. 07). Levando-se em conta a questão do autor/tradutor e seu papel no ato tradutório, em torno de fidelidade, equivalência e o original na tradução, é quase impossível não falar em traição e no que nos remete este termo tão pejorativo. Em meados dos anos 80, estudos comprovam que a ideia de “traição” pressupunha o fato de que a tradução passa pelo tempo, pela cultura e de que era feita como uma operação matemática, mediada pelos dicionários, onde essa transposição de palavras seria a tradução perfeita. Levando em conta que a maioria, das traduções não apresenta esses aspectos de exatidão matemática, é compreensível o fato de concepções mais essencialistas relegarem muitas dessas traduções a uma operação duvidosa, como um trabalho menor. Assim, diante dessa visão, as traduções às quais nos referimos acabam não preenchendo o requisito da exatidão, da fidedignidade de que falam os puristas. Desse modo, as traduções nos moldes do que viemos tratando acabam sendo rotuladas como inexatas, imperfeitas, traidoras. Curiosamente, e contrariando essa visão, encontramos no romano Cícero (século I a.C.) um alinhamento à uma compreensão mais aproximada de nossa proposta. Segundo ele o que pesa no ato tradutório “[...] é tentar ser fiel tanto
  • 19. 18 quanto possível, não reproduzindo palavra por palavra aquilo que não pode ser transposto para a língua de chegada”. Ainda segundo o famoso orador: Não traduzi como intérprete, mas como orador, com os mesmos pensamentos e suas formas bem como com suas figuras, com palavras adequadas ao nosso costume. Para tanto, não tive necessidade de traduzir palavra por palavra, mas mantive o gênero das palavras e sua força. Não considerei, pois, ser mister enumerá- las ao leitor, mas como que pesá-las. [...] Se, como espero, eu tiver assim reproduzido os discursos dos dois servindo-me de todos os seus valores, isto é, com os pensamentos e suas figuras e na ordem das coisas, buscando as palavras até o ponto em que elas não se distanciem de nosso uso... (CÍCERO, 1996, p. 38; 40; V, 14; VII, 23). Nesse sentido, defende-se que a traição não deva ser tratada como um desrespeito ao texto e ao que foi escrito, mas como uma liberdade e uma fidedignidade maior ao texto traduzido, de acordo com o contexto no qual foi feito e de quem a fez. É impossível traduzir sem respeitar o texto original e, paradoxalmente, sem desrespeitá-lo, no ensejo de lhe captar melhor o espírito do traduzido. Dito isto, mesmo que nosso objetivo seja o de manter as intenções originais de um autor, o que podemos conseguir, somente, é expressar através de nossa visão, das leituras e dos processos utilizados as intenções deste autor. Nessa conjuntura, pode-se corroborar que “quando um leitor ‘produz’ um texto, sua interpretação não pode ser exclusivamente sua, da mesma forma que o escritor não pode ser o autor soberano do texto que escreve” (ARROJO, 2003, p. 41). Na tentativa de problematizar a traição e a (in) fidelidade associada à atividade do tradutor, dialoga-se com a necessidade de ser o mais fiel possível ao texto original ou às intenções do autor, para isto na lenda de Homero, norteia-se esta discussão sobre (in) fidelidade como uma questão “homérica”, ou seja, pautada em uma hipótese que permanece em discussão: Não se pode afirmar ao certo se Homero existiu de fato, ou, ainda, se a autoria dos cânones Odisséia e Ilíada devem ser atribuídas a ele, constituindo, por essa razão, uma lenda. A lenda da tradução ou do tradutor como infiel e endividado, pode ser analisada semelhantemente, isto é, como uma missão impossível - questão homérica de difícil solução -, já que os efeitos das soluções podem comprometer todo o pensar contemporâneo sobre o que é a tradução e sua representação, nos mais diferentes contextos, especialmente
  • 20. 19 no da literatura, pois, assim como a Odisséia e a Ilíada de Homero influenciaram toda a literatura ocidental, também a tradução tem constituído as diversas literaturas e seus respectivos leitores (OLHER, 2010, p. 10). A fidelidade, apesar de sempre questionável, transforma-se num objeto desejado e idealizado pelo enunciador, na tentativa de que o termo “o mais” fiel, expresse esse desejo, o da fidelidade plena, mediante à relação que perpasse entre o possível e o realizável. E é justamente esta situação que nos acena para a questão intrínseca a qualquer tradução: o estar entre línguas. Assim, a questão homérica que se apresenta pode ser percebida, na ótica daquele que enuncia. Isto é, segundo essa perspectiva, o ato tradutório representaria uma provável imitação do autor, exercício hercúleo, pois representa uma flagrante ilusão no que diz respeito a uma semelhança plena de homogeneidade linguístico-cultural. 1.2 FIDELIDADE, INVISIBILIDADE E LEGIBILIDADE ENTRE O TEXTO TRADUZIDO E O TEXTO ORIGINAL “Todo ser humano é situado numa comunidade linguística, social, política e ideológica que o faz escolher entre este ou aquele modo de reproduzir o texto original” (VENTUROTTI, 2008, p. 24). É inviável pensar que é cabido traduzir de maneira neutra em qualquer texto, simplesmente porque não somos pessoas neutras. Para tanto, os conceitos de fidelidade e invisibilidade pouco se aplicam a trabalhos tradutórios e não são mais conceitos representantes para as discussões neste campo. Se o trabalho tradutório se relaciona com o subjetivo e suas concepções de mundo, conclui-se que cada tradutor é fiel as suas concepções e individualidades, como sugere Arrojo: [...] uma transformação: uma transformação de uma língua em outra, de um texto em outro 3 . Mas, se pensamos a tradução como um processo de recriação ou transformação, como poderemos falar em fidelidade? Como poderemos avaliar a qualidade de uma tradução? (ARROJO, 2003, p. 42). 3 In: DERRIDA, J. apud SPIVAK, G. C. Prefácio do tradutor. In: DERRIDA, J. Of Grammatology. Baltimore, The Johns Hopkins University, 1980. p. 87.
  • 21. 20 A questão da “fidelidade” na tradução, portanto, é relativa e dificilmente se conseguirá reproduzir todas as ideias do autor, em um texto a ser traduzido, da mesma forma, que a tradução seria fiel às convenções estabelecidas levando-se em consideração as complexidades que aparecem e, dependendo da comunidade cultural e da época que estão inseridas e foram produzidas. Em outras palavras, a tradução de um texto, seja ele qual for, será fiel a nossa concepção, a nossa interpretação e mais uma vez mediada por nossa vontade, nossos desejos, conhecimento de mundo e o meio ao qual estamos inseridos. Deste modo, assumimos o papel, traçamos os objetivos, os propósitos e reavaliamos o que conseguimos entender por fidelidade. Questionar-se acerca do que traduzir, para quê, para quem, por que, de que forma, são perguntas importantes para estabelecer uma direção, e redefinir a tão discutida fidelidade: o tradutor sempre será fiel a si mesmo e às suas próprias concepções, juízos e crenças. Para além de uma fidelidade à nossa idéia de tradução, esta, deve estabelecer, também, uma relação de conformidade/fidelidade aos propósitos de que lança mão, considerando que o texto fonte está sujeito a inúmeras interpretações e particularidades de cada leitor, sendo ele mesmo infiel ao autor do texto. Assim, existem traduções de obras “originais”, que nunca foram revisadas e tampouco passaram por quaisquer tipos de modificação. Além disso, há também inúmeras traduções de um mesmo texto, que foram feitas por diferentes tradutores, em contextos, espaços e épocas diferentes, e, aqui, mais uma vez faço menção a influência cultural de cada tradutor. Nessa conjuntura, “seria impossível que uma tradução de um texto fosse definitiva e unanimemente aceita por todos, em qualquer época e em qualquer lugar. As traduções, não podem deixar de ser mortais” (ARROJO, 2003). 1.3 AS INFLUÊNCIAS INTERCULTURAIS ENTRE TEXTOS DE PARTIDA E DE CHEGADA
  • 22. 21 Outro fator importante a se ressaltar é a questão cultural existente no campo tradutório. Tânia Carvalhal (2003, p. 219) pondera que “essa concepção de tradução enquanto ato criativo fez com que ela passasse a ser percebida como ato de comunicação e de intermediação entre culturas, além de conceder um outro status ao seu tradutor e a ela própria”. Nesta conjuntura, a principal função da tradução (e, consequentemente, de quem traduziu) é propiciar a propagação de um texto longe de sua origem, disseminando e transferindo para a contemporaneidade, independente de sua língua e da época em que foi escrita. Em suma, começa-se a perceber o tradutor como mediador das peculiaridades culturais provenientes do texto traduzido. É o responsável pelas trocas entre culturas alimentando sua própria produção e promovendo o intercâmbio entre as línguas envolvidas no processo. Partindo destas concepções, no que infere as trocas culturais no processo tradutório remeto-me novamente à Carvalhal (2003, p. 230) quando acrescenta que “a tradução tem um papel decisivo na transmissão das influências literárias, pois ela traz sempre alguma coisa de novo para o sistema literário”. Nesse sentido, observamos de modo flagrante que a questão da interculturalidade é algo inescapável para os autores que trabalharam na execução de processos tradutórios. Ratificando esse posicionamento, Bassnet (1991, p. 13), afirma: “um dos critérios extralinguísticos que envolvem certamente a questão da tradução, é o componente cultural”. É a definição de um texto mediante a culturalidade e seu contexto social, geográfico, ideológico e cronológico em acordo com quem a traduziu. Para questões como estas, Faria (2010), corrobora que: Quando um texto é traduzido para outra língua, porém, outras variáveis entram em ação: as diferenças culturais, o nível de domínio da língua de partida por parte de quem traduz a constante evolução das línguas, além das particularidades e características de cada uma das línguas em questão etc. (FARIA, 2010, p. 07). Mediante essas observações, é indispensável reiterar que tanto o leitor como o tradutor não conseguem ficar distantes de sua tradução, pois perpassam pela influência de sua(s) própria(s) realidade(s), mediados pelas
  • 23. 22 circunstâncias, concepções e pelo contexto histórico e social nos quais estão inseridos. A história pessoal e social de cada envolvido será determinante para o que analisarmos como uma tradução verdadeira. Nesse sentido, “é a história que dá à luz a verdade, e não a verdade que serve de modelo para a história” (ARROJO, 2003, p. 43). Observa-se que os textos e suas traduções sempre divergem, mesmo quando fazem parte da mesma obra, pois a tradução realizada vincula sua época de produção, a suas concepções de mundo e realidades vividas. Esse caráter único do que é escrito está sujeito ao tempo e aos costumes sociais, que são na maioria das vezes mutáveis, pois em cada período são produzidos outros significados, novos modelos sociais, que com o tempo, tornam-se obsoletos, caem no desuso, passando a ser necessário o surgimento e/ou criação de novos significados que visem referencias novas realidades. Consequentemente, quando a tradução está posta entre culturas diferentes, surge uma multiplicidade de fenômenos4 entre elas e o tempo em que foram elaboradas. Portanto, evidencia-se que esta diferenciação mediada pela tradução pressupõe que se tenha um ótimo conhecimento de ambas as línguas envolvidas no processo, que seja um excelente observador de suas culturas e minuciosidades, e, também que se propicie estratégias ao traduzir, com um bom planejamento, refletindo também sobre a necessidade de estar sempre renovando as traduções, como exemplifica Landers: A tradução de 1629 que Thomas Hobbes fez de Tucídides é praticamente impossível de ser lida pelo falante moderno de inglês, pois está repleta dos pronomes thee e thou e de sentenças complexas e barrocas. A tradução de R. Crawley, de 1874, é muito mais fácil de compreender, todavia, seu vocabulário um pouco ultrapassado deixa no ar um cheiro leve de naftalina. Somente a tradução de 1952 de Rex Warner transmite fluência, precisão e modernidade, falando a língua contemporânea do leitor de maneira direta e eficaz. (LANDERS, 2001, p.11) O autor considera à familiarização do leitor contemporâneo com a língua utilizada: é um inglês com upgrade. A tradução vem cumprindo seu papel na época determinada e no tempo estipulado. Pode-se inferir assim, que as 4 Entre os fenômenos no processo tradutório podemos mencionar as questões relacionadas à idiomaticidade, por exemplo.
  • 24. 23 realizações humanas, que vem pautada por um determinado período da história, estão sempre à disposição de um tempo ao qual vem sendo expostas, mudando e transformando, dando sempre que possível uma nova moldagem de significados, mediadas por questões temporais. Cabe aqui salientar que a língua e tudo o que lhe envolve está sempre se renovando, se modificando e se propiciando novos olhares. De acordo com o que foi apresentado podemos concluir que a tradução desempenha um papel fundamental e contínuo na integração e intermediação de culturas, o que contraria uma afirmativa de Ruth Bohunovsky que defende uma visão tradicional/essencialista, ou seja, “a visão de que o processo de tradução seria um mero transporte de significados” (BOHUNOVSKY, 2001, p. 52). Neste ponto de vista, a tarefa do tradutor é meramente “transportar” o significado do texto original, o que comprovaria que este é totalmente incapaz de interferir, de interpretar de maneira criativa, expondo suas concepções, ao texto ao qual foi exposto. A partir destas leituras, acredito ter sido possível evidenciar algumas das partes mais importantes dos processos que intermediam o ato tradutório, atividade esta que perpassa por divergentes e contraditórias formas de ampliação da visão do processo de tradução, desmistificando a suposição de que seja apenas uma atividade de transferência, transporte ou transcodificação entre línguas, onde, em concordância com J.C. Catford, há uma “substituição do material textual de uma língua pelo material textual equivalente em outra língua”. E, assim, “ele (o texto) passa a ser, na mais simples definição, uma tentativa de recriação do original” (ARROJO, 1986, p. 41). Em suma, considera-se então, a tradução como um processo (re) criativo, influenciável e caracterizado por contextos sócio históricos transplantados de uma cultura para outra e, por isso mesmo, recontextualizados, quando da atividade tradutória. Assim, entendemos o jogo tradutório como estando constitutivamente associado ao intercâmbio de culturalidades distintas, mas que viabiliza o entendimento e a apreensão do texto traduzido com seus matizes e peculiaridades. O trânsito intercultural presente nesse jogo tradutório, ao invés de implicar no distanciamento sígnico do texto traduzido, lhe serve de esteio
  • 25. 24 para a produção de uma tradução antimimética e, portanto, aberta à ação do tradutor. Nesse sentido, admitimos que as noções estanques de fidelidade e invisibilidade, sujeitas ao trânsito entre culturas a que fizemos referência, precisam ser repensadas e/ou depostas do trabalho tradutório.
  • 26. 25 2 METODOLOGIA Segundo Demo (2000, p. 161), “o trabalho científico leva o aluno a aprender melhor e a tornar-se um profissional capaz de usar a pesquisa como processo permanente de aprender, de renovar sua competência”. Por isso, o incentivo a pesquisa tanto na universidade quanto em qualquer setor da sociedade deve ser uma prática constante. Para tanto, este capítulo apresenta a estrutura de realização deste trabalho, como pesquisa de cunho etnográfico, destacando o método, o lócus pesquisado, os sujeitos envolvidos e os instrumentos utilizados em sua execução. 2.1 MÉTODO “A investigação é um processo educativo não apenas pelo que se descobre acerca dos outros, mas pelo que se descobre acerca de nós mesmos.” (Peter Woods) Partindo do pressuposto dos processos que levam a tradução, buscando mapear as dificuldades do tradutor, discutindo e apontando as influências da interculturalidade, fez-se necessário uma pesquisa de cunho etnográfico para analisar a problemática deste trabalho, a partir de uma técnica que está fundamentada numa pesquisa qualitativa, onde “o pesquisador vai a campo buscando “captar” o fenômeno em estudo a partir das perspectivas das pessoas nele envolvidas, considerando todos os pontos de vista relevantes.” (GODOY, 1995, p. 21) Os estudos de cunho etnográfico provêm de uma técnica das disciplinas de Antropologia Social, que estudam a vivência direta da realidade de um objeto, comunidade, espaço, onde estes estejam inseridos, permitindo uma análise social de seus componentes e do desempenho de suas tarefas numa dada organização, instância, comunidade, que se propiciem e estejam na “busca a compreensão das manifestações culturais, do comportamento e da vida social do homem” (MARCONNI e PRESOTTO, 2007, p. 02). As pesquisas que se efetuam com o objetivo de realizar estes estudos resultam numa grande quantidade de vantagens, de informação, através de
  • 27. 26 apontamentos, gravações de áudio e vídeo e um conjunto de objetos que fazem parte das culturas, que deverá ser gerida com toda a atenção para que a sua análise e processamento não se prolonguem excessivamente. Umas das vantagens dos estudos de cunho etnográfico é a ampliação de visões fornecidas por este, que fornece ao mesmo tempo uma integração acerca de uma unidade social mais complexa à uma mais simples e diversificada. Outra vantagem é a capacidade de mostrar situações diárias, vivenciadas sem complexidade e de maneira bastante natural, sem prejuízo algum ao item pesquisado. Nesta conjuntura, a etnografia tem uma proposta voltada para muitos métodos, que se assemelham ao estudo de caso: com observações (sejam elas com a participação do observador ou não); entrevistas; análise documental. A maneira de recolher dados da realidade que o pesquisar se propôs a observar, na maioria das vezes resume-se em observar, escutar e anotar fatos, fenômenos e contextualização da realidade estudada. Especificamente, nas palavras de Vieira e Pereira (2005, p. 227): As principais técnicas de coleta de informações de que se utiliza o método etnográfico são as entrevistas em profundidade e a observação participante. Já para a análise do material coletado, a análise do discurso dos informantes e a análise de imagens são as principais técnicas utilizadas. (VIEIRA E PEREIRA, 2005, p.227) A pesquisa deste trabalho foi realizada entre os alunos do curso de Letras com Inglês da Universidade do Estado da Bahia, Campus XIV, de diferentes locais e semestres, analisando as diferentes traduções feitas por eles de um Abstract já previamente traduzido pelo autor do artigo e assim verificou-se seu desempenho tradutório mediante o trabalho de tradução, partindo das influências culturais de cada um. O método utilizado para coleta da pesquisa foi uma ficha de tradução, onde constou o texto original para ser traduzido e os dados com nome, semestre cursado e local de origem de cada estudante. A análise foi feita mediante observação da forma como os textos foram traduzidos, os métodos utilizados como apoio e mediante comparação das traduções obtidas com a original feita pelo autor do artigo, do qual o “Abstract”
  • 28. 27 foi escolhido, observando e analisando dados como fidelidade, legibilidade, (in) fidelidade e (inter) culturalidade dos estudantes tradutores. 2.1.1 Lócus O Lócus desta pesquisa é a Universidade do Estado da Bahia – UNEB Campus XIV. Esta foi escolhida tendo em vista a proposta deste trabalho e suas contribuições para futuros professores de língua estrangeira e estudantes. A Universidade cria um ambiente propício ao estudo, já que neste espaço encontram-se futuros pesquisadores e docentes que, neste momento, enquanto estudantes, forma submetidos a esta análise onde posteriormente, seus resultados poderão contribuir em sua prática. O Departamento de Educação do Campus XIV da UNEB foi implantado em 1992 e está localizado na Avenida Luís Eduardo Magalhães, nº. 988, bairro da Jaqueira, Conceição do Coité. A Universidade conta com 64 Docentes, 26 funcionários e 625 discentes, distribuídos entre seus 04 cursos oferecidos, 04 turma de Comunicação Social, 03 turmas de História, 04 turmas de Língua Inglesa e 04 turmas de Letras Vernáculas, além de 02 turmas de Pós- graduação em Literatura Baiana e Linguística. A Universidade tem uma boa estrutura para atender a demanda dos cursos, conta com onze salas de aula equipadas, onde cinco destas possuem projetores extras, guardados no Laboratório de Informática, além de retroprojetores, aparelhos de TV, aparelho de DVD e micro-sistem portátil, destinados à utilização durante as aulas. Tem muitos projetos vinculados entre estes, o Projeto tecnológico Curso de Informática Básica para senhores e senhoras da terceira idade, vinculada ao projeto Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI) e a coordenação do Projeto Universidade Para Todos. 2.1.2 Sujeitos Os sujeitos desta pesquisa são os alunos do IV Semestre do Curso de Letras com Inglês do turno vespertino, na aula da prof.ª Juliana Bastos que ministra o componente de Produção do texto Oral e Escrita, os do VI Semestre
  • 29. 28 do mesmo curso, noturno, na aula da prof.ª Rita Sacramento que ministra a disciplina de Estudos Comparativos da Língua Estrangeira e Língua Materna, 03 alunas do VIII Semestre, noturno e 02 alunas recém-formadas. Na turma do VI Semestre, 12 alunos foram pesquisados e esta se mostrou bastante agitada durante a aplicação da pesquisa, o que propiciou uma distração constante e um elevado tempo de conclusão da aplicação da atividade pesquisada. A professora não se envolveu no momento da pesquisa, propiciando assim observar e analisar claramente que tudo foi feito unicamente pelos mesmos sem interferência docente. No que tange a segunda turma pesquisada, a do IV Semestre, com 15 alunos participantes, esta demonstrou interesse imediato na atividade e sua execução foi muito mais rápida que na turma anterior. Nesta também por algumas vezes a professora em sala foi consultada algumas vezes. Também foram pesquisadas 03 alunas que estão concluindo o VIII Semestre e 02 alunas recém-conclusas e no exercício da prática docente. Em todos os casos houve tranquilidade no momento do processo, creditando-se que não acontecerá nenhum prejuízo a intenção do que será pesquisado. O objetivo era analisar como a atividade seria realizada, o que foi consultado e quais as marcas ou influências culturais próprias de cada um foram deixadas pelos pesquisados. Na análise de dados serão exemplificados as observações e resultados alcançados mediante a aplicação desta abordagem. 2.1.3 Instrumentos Esta pesquisa buscou verificar elementos como estilo, fluência, legibilidade e cultura nos processos tradutórios empregados. Foram aplicados 31 atividades de tradução de um abstract já previamente traduzido pelo autor e através da análise destes, constrói-se o arcabouço de sustentação desta pesquisa no que tange as questões tradutórias. Por conseguinte, optou-se também pelo método de observação, em todas as turmas pesquisadas, no ensejo de perceber os métodos utilizados, o comportamento mediante o ato tradutório e as influências presentes no
  • 30. 29 processo. Esta observação fez-se necessária para possibilitar uma melhor visualização das ações dos discentes enquanto realizavam o trabalho da pesquisa e qual o resultado das atividades aplicadas, corroborando com Ludke e André (1986), quando afirmam que: Usada como o principal método de investigação ou associada a outras técnicas de coleta, a observação possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado, o que representa uma série de vantagens. (LÜDKE E ANDRÉ, 1986, p. 26) As observações foram muito importantes nesta pesquisa, pois se a investigação não passasse por esse processo seria impossível diagnosticar se algum método, recurso e/ou colaboração foram utilizadas na execução da atividade de tradução. Além disso, para dar sustentação a este trabalho, também foi coletado ao fim de cada tradução, o nome, semestre ao qual pertencia e a localidade de cada participante, para que assim pudesse ser analisada a questão das influência intercultural de cada um.
  • 31. 30 3 ANÁLISE DE DADOS Esta análise é fundamentada na metodologia descrita anteriormente, as reflexões que serão apresentadas nesta pesquisa são submetidas à análise, embasada nos pressupostos teóricos levantados no primeiro capítulo deste trabalho. No que concerne ao procedimento de análise, os dados obtidos na pesquisa de campo foram interpretados segundo o embasamento teórico apresentado neste trabalho, objetivando sustentar as conclusões que se extraem deste estudo. Por isso, ao longo deste capítulo, podem-se perceber as características dos sujeitos envolvidos, visando refutar ou confirmar o problema em questão, analisando os procedimentos usados no trabalho tradutório, no que tange aos conceitos de fidelidade, invisibilidade e elementos linguístico-culturais dos participantes desta pesquisa5 . Assim, optou-se por analisar primeiro as dificuldades enfrentadas pelo tradutor, em cada grupo, no que concerne a invisibilidade na tradução de textos, discutindo os procedimentos ligados à fidelidade e legibilidade entre o texto traduzido e o texto original. Em seguida apontar as contribuições da interculturalidade na relação entre a língua de partida e a língua de chegada. No que tange a questão da observação dos procedimentos, iniciada as atividades de tradução entregues na turma do VI Semestre noturno, pode-se observar de maneira primordial a insatisfação por parte da maioria ao observar que se tratava de um trabalho de tradução, mesmo assim mostraram-se predispostos a começar a atividade. Percebeu-se também, certa dificuldade por parte da turma em realizar a tradução sem a utilização de algum suporte. Mesmo tentando ao máximo traduzir o texto proposto, após 10 minutos de iniciada a atividade alguns alunos já se utilizavam de dicionário. Após mais um certo tempo, os alunos já demonstravam um desinteresse em continuar e uma dispersão geral na turma, neste momento cabe colocar que algumas traduções foram entregues incompletas, pois com tantas conversas paralelas entre eles, perderam o sentido da atividade. 5 As atividades de tradução aplicadas aos alunos estão nos anexos deste trabalho.
  • 32. 31 Na segunda turma aplicada, a do IV semestre, a turma demonstrou de imediato interesse na execução da atividade, porém divergindo da turma anterior, de imediato fizeram uso de dicionários onlines e depois de um certo tempo deixaram estes, para se utilizarem dos dicionários manuais. O tempo inteiro pediam ajuda, fizeram em dupla, trio e grupo e solicitaram por varias vezes o auxílio da professora. Aqui, cabe salientar, que estes mesmos alunos, enquanto universitários e posteriormente futuros docentes, ainda se prendem aos mesmos métodos da educação básica, que trazem os dicionários como os grandes aliados das aulas de língua estrangeira. As alunas do VIII semestre e as alunas conclusas executaram as atividades utilizando unicamente seus conhecimentos, sem intervenção de outrem e sem utilização de nenhum mecanismo. Este primeiro momento da observação da aplicação da pesquisa permite concluir que atividades de tradução não chamam a atenção e nem aguçam o interesse de estudantes, mesmo de segunda língua, onde o foco maior de estudo talvez fosse este, tendo em vista as múltiplas visões e a vasta linha de estudo. Percebe-se ainda porque os dicionários, sejam estes eletrônicos ou manuais, continuam sendo os fortes aliados das aulas de inglês, tendo em vista que os futuros docentes ainda se prendem na aprendizagem desta forma, dificultando assim o entendimento do vocabulário, já que entre línguas há uma grande disparidade vocabular, gramatical, A falta de concordância entre distintas disciplinas linguísticas no âmbito da pedagogia do vocabulário, tal como a ausência de uma metodologia clara para definir e delimitar a aquisição do mesmo contribuíram para ignorar os dicionários como ferramentas indispensáveis na aprendizagem e ensino de línguas estrangeiras (VAZQUEZ, 2010, p. 109). Porém é preciso considerar também o fato de que se um estudante durante uma leitura vê no dicionário um apoio para aprender vocabulário, esse livro passa a ser uma referência totalmente necessária para a aprendizagem de uma segunda língua. No que concerne a questão da fidelidade e invisibilidade dos estudantes enquanto tradutores, pode-se ratificar os estudos de Arrojo (1986) acerca de
  • 33. 32 textos traduzidos, pois estes tendem sempre a marcar o texto traduzido com os significados impostos a partir de seus próprios interesses e circunstâncias, deixando suas marcas, pensamentos e desejos na escrita. Nenhuma das traduções analisadas refletem na íntegra a original, pois todos traduzem de acordo a seus próprios conhecimentos, ou mesmo com auxílio de algum recurso tradutor, está implícito seu conhecimento de mundo e as circunstâncias do momento da tradução. Na turma do VI Semestre, algumas pessoas desistiram sem concluir a atividade, pois estavam tentando traduzir palavra por palavra com auxilio de dicionários, outros ao entregarem a atividade disseram que tentaram fazer com suas próprias palavras e seus conhecimentos. A turma do IV semestre também utilizou de seus próprios conhecimentos e durante a observação isso foi confirmado, tendo em vista que todos comentavam estar tentando executar a atividade utilizando de seus conhecimentos. As traduções dos alunos do VIII Semestre e das que já concluíram se aproximam bem da original, porém existem marcas dos tradutores, que são visíveis ao analisarmos, em seu contexto. Estas constatações refletem acerca do que foi fundamentado anteriormente a respeito daquele que traduz, pois este não consegue se eximir do que é feito, tendo em vista a impossibilidade de passar totalmente suas intenções, seus desejos e o universo de quem escreveu, pois todas estas questões serão inevitavelmente sua visão a despeito do que podiam ter sido. Não é concebível pensar em tradução de maneira neutralizada, sem envolvimento daquele que traduz, pois estes não são pessoas neutras. Pode-se concluir nesta parte da ánalise que o contexto tradutório também pode influenciar nos resultados de uma tradução, pois em todas as turmas os alunos demonstraram um interesse maior quando foi explicado o ensejo da pesquisa e a aplicação de seus resultados, como se cada tradutor quisesse tentar fazer o melhor, por se tratar de uma pesquisa acadêmica, deixando claro, assim, que a questão da “fidelidade” na tradução, é relativa a quem traduz como foi fundamentado e dificilmente podera-se-á reproduzir as
  • 34. 33 ideias do autor, do mesmo jeito que esta, sempre será fiel às suas convenções considerando suas complexidades. Para esta questão, em outras palavras, a tradução de um texto será sempre baseada no que acreditamos, na interpretação que fizermos, mediada por nossas vontades, desejos, conhecimento de mundo e o meio ao qual estamos inseridos, traçando os objetivos, os propósitos e as reavaliações que conseguirmos entender por fidelidade. Para tanto, analiso ainda a questão cultural de cada estudante envolvido nesta pesquisa, partindo do pressuposto de que quando culturas começam a interagir, sendo que um grupo não sobreponha o outro e possa-se favorecer a integração e a convivência, dá-se lugar a interculturalidade. Essas relações interculturais perpassam pela diversidade, tornando inevitável o surgimento de alguns conflitos, que na questão textual pode ser acentuada se predominar o respeito e o diálogo entre texto de partida e texto de chagada. Em se tratando de um conceito recente, investigado por muitos pesquisadores da comunicação, da antropologia, da sociologia e até mesmo do marketing, a interculturalidade busca se distinguir do multiculturalismo da relação entre culturas. É inevitável e ao mesmo tempo, é o cume desta analise, a questão cultural tendo em vista que em todas as atividades de tradução, pode- se comprovar a intervenção cultural de cada um. Isto é observado a partir do modo de falar, de costumes diários de cada local, que de maneira implícita e explícita, os estudantes manifestaram nas traduções. A pesquisa contou com a participação de estudantes de todas as turmas envolvidas, de diversos locais, sendo estes 1 de Riachão do Jacuípe, 1 de Seabra, 1 de Santa Luz, 1 de Salvador, 1 de Retirolândia, 1 de Barrocas, 1 de Queimadas, 4 de Valente, 7 de Serrinha e 13 de Conceição do Coité, sendo 10 moradores da Sede e 3 da zona rural. Um ponto desfavorável encontrado nesta pesquisa, diz respeito às traduções dos moradores da zona rural de Conceição do Coité, pois estas são as que menos se aproximam da original e todas foram entregues incompletas, sustentando assim, que talvez ainda seja bastante deficiente o ensino de língua
  • 35. 34 inglesa na zona rural, já que estes não demonstraram interesse na pesquisa e na língua que estudam. É preciso admitir que a interculturalidade depende de diversos fatores, e estes talvez sejam cruciais nesta pesquisa, como é o caso das concepções culturais, dos obstáculos na comunicação, da necessidade de políticas governamentais mais fortes nos setores educacionais, das hierarquias e das diferenças econômicas. Isto posto, pode-se comprovar, pelo fato de que algumas traduções se distanciam da original por problemas de origem educacional, ou seja, mesmo concluídas, as marcas de quem as fez estão presentes, sendo algumas completas, mas “infiéis” ou diferentes da original, com elementos bastante próximos, como apresenta o gráfico abaixo. Gráfico 1: Quantitativo de atividades que se aproximaram e distanciaram do texto original e das incompletas. Cabe aqui salientar, que o gráfico sintetizou a quantidade de alunos que traduziram não de maneira igualitária, mas os que mais se aproximaram do texto original (14 estudantes), os que mais apresentaram infidelidade com
  • 36. 35 relação ao texto original (14 estudantes) e a quantidade de traduções incompletas em comparação ao texto original (03 estudantes). É importante também explicitar que alguns dos autores destas traduções, no caso, os discentes em questão, já fizeram ou fazem curso de língua inglesa, não se limitando unicamente ao ambiente da Universidade e nem ao que foi aprendido na educação básica. Questões culturais também perpassam pelo lugar onde o tradutor está inserido e seu contato com meios eletrônicos, internet, rádio, televisão, com forte influência em trabalhos de tradução. Principalmente na turma do IV Semestre e do VIII, estes meios eletrônicos, contribuem bastante pois em sua maioria utilizaram-se de iphones, notebooks e tablets como auxílio na atividade. É relevante retomar ao capítulo anterior, para confirmar o que foi apontado por Faria, 2010, acerca de muitas variáveis envolvidas nos processos de tradução e nas questões culturais, comprovadas nesta pesquisa, pois quando entram em ação as diferenças culturais, o nível de domínio da língua de partida, a evolução de ambas as línguas envolvidas no processo e as particularidades de cada língua e de cada tradutor, fica evidente que é impossível para quem traduz não deixar suas marcas e suas interpretações acerca do que foi traduzido. Na análise das traduções dos alunos de Salvador e Seabra, por exemplo, marcas de linguagem e expressões são bem evidentes, sendo estas características destes locais, propiciando comprovar que relações quotidianas , cultura, expressões locais e a dinâmica do conhecimento de mundo de cada um é um fator relevante e de forte influência no que tange a questões textuais e processos entre línguas. Assim, como foi citado no primeiro capítulo, quando uma tradução é colocada entre culturas diversas, surgem muitas divergências entre elas, o tempo e o espaço em que foram elaboradas, evidenciando-se que esta diferenciação mediada pela tradução, necessita de um conhecimento amplo acerca de ambas as línguas envolvidas no processo, de uma excelente observação de suas culturas e o que de mais minucioso pertencer a estas, até mesmo as estratégias para o ato tradutório.
  • 37. 36 Portanto, os dados analisados comprovam que os processos que geram a tradução isentam o tradutor da invisibilidade dos elementos linguístico- culturais acarretando a impossibilidade de ser fiel, pois as características culturais influenciam de maneira intensa nestes trabalhos. Desta maneira, intensifica-se o pressuposto de que qualquer tradução sempre será infiel, já que de alguma maneira, não será possível estabelecer a ideia do texto original sem atentar-se a todas estas questões que permeiam o processo tradutório.
  • 38. 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo objetivou uma reflexão em torno do empreendimento da tradução na medida em que tratou de aspectos culturais que podem influenciar na constituição de uma compreensão menos “engessada” do processo de transcodificação sígnica envolvido no “estar entre línguas”, processo que se materializa quando nos pomos a traduzir. Assim contribuindo para uma visão mais ampliada sobre trabalhos tradutórios, esta pesquisa buscou propiciar a professores e estudantes uma reflexão acerca dos ideais da tradução, tratados neste trabalho, como uma ferramenta de estudo e também de prática de trabalho, e porque não dizer, uma inovação nas metodologias utilizada, ampliando a multiplicidade de ensinos deste assunto tão amplo que é o campo da tradução. Considerando os problemas no ensino de língua inglesa, quanto ao uso de dicionários como aliado das aulas e as atividades de tradução, seja no âmbito da educação básica ou na academia, vale salientar que quando relacionamos estes trabalhos a questões de “fidelidade” e “legibilidade”, associando-os aos aspectos culturais vemos como é constante a busca por um ideal de tradução perfeita, sendo esta uma variável não aceitável, já que esta pesquisa prova que traduzir vai bem além de todas estas questões, pois cada tradução traz em si as particularidades de quem a fez. Este trabalho configurou-se como pesquisa qualitativa que permitiu o conhecimento aproximado da realidade investigada, pois buscou “captar” o fenômeno em estudo a partir das vivências dos envolvidos. O desafio desta pesquisa era analisar a possibilidade de estabelecer a ideia do texto original sem incidir na invisibilidade/anulação dos elementos linguístico-culturais encontrados somente na língua de partida. Na observância dos objetivos traçados para os procedimentos usados no trabalho tradutório, no que tange aos conceitos de fidelidade e invisibilidade, pode-se comprovar a dificuldade enfrentada pelo tradutor nestas questões, tendo em vista que as questões culturais se sobrepõem, dificultando a originalidade e discutindo a impossibilidade de que vivências, marcas, desejos e interpretações de quem traduz não façam parte do processo.
  • 39. 38 Com os resultados deste trabalho, conclui-se ter sido possível evidenciar parte do processo ou dos processos que regem o ato tradutório, os quais envolvem técnicas, tempo, espaço, conhecimento de mundo, sendo esta uma atividade sempre permeada por divergentes e contraditórias formas de entendimento e de significação que ampliam a visão de todo o seu processo, refutando a idéia de que a tradução seja apenas uma atividade de transferência ou transcodificação de uma língua para outra. Vale ressaltar que é necessário, em etapas posteriores, retomar esta pesquisa em um plano mais profundo, no que concerne às estratégias e consequências das aplicações em certas traduções e os efeitos destas traduções “infiéis”, no que tange a visão do autor original, pois esta amostra foi simples, rápida, sucinta e restrita a um grupo de Universitários, com o ensejo de desconstruir alguns possíveis ideais acerca da “tradução perfeita”. O descompasso entre semestre letivo da Universidade (UNEB) e alguns prazos de entrega de trabalhos, comprometem um aprofundamento maior desta pesquisa, no sentido de ampliá-la a educação básica e a professores de língua inglesa em atuação, pois em se tratando de uma pesquisa empírica, teríamos inúmeras formas de análises a serem feitas, o que permitiria um trabalho de talho contrastivo galgado em um campo mais amplo de estudo para subsidiar a discussão da temática. Entretanto, acreditamos que a presente pesquisa poderá contribuir para futuras reflexões sobre a temática proposta, além de sugerir uma abordagem de trabalho a futuros professores de língua estrangeira e estudantes, sob a lógica de quão rica e vasta é a área de estudo da tradução, dialogando com o universo onde ambos, professores e estudantes, estão inseridos, já que estas estão permeadas pela interculturalidade e vivências de cada um. Em suma, todos os conceitos e ideias apresentadas aqui redimensionam nossa visão acerca do que se conceituava como tradução para uma visão maior do papel desempenhado pelo tradutor, pelos processos envolvidos em trabalhos deste tipo, visto que, todo contexto tradutório também ocorre em um contexto sócio-cultural, já que a língua é a maior ferramenta de comunicação entre os homens, a tradução garante progressivamente seu status, pois a
  • 40. 39 língua não é estática, sobretudo em tempos de globalização e interação sociocultural.
  • 41. 40 REFERÊNCIAS ALVES, Fabio; MAGALHAES, Celia; PAGANO, Adriana. Traduzir com autonomia: estratégias para o tradutor em formação. Contexto, São Paulo, p. 9-28, 2000. ANDRE, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. Etnografia da prática escolar. Campinas – SP: Papirus, 1995. (Série Prática Pedagógica) ARROJO, Rosemary. Oficina de tradução: a teoria na prática. São Paulo: Ática, 1986. ______. Os Estudos da Tradução na Pós-Modernidade, o reconhecimento da diferença e a perda da inocência. Cadernos de Tradução, UFSC, n.1, p.53- 70, 1996. BASSNET, Susan. Translation Studies: Revised Edition. Londres: Routledge, 1991. BOHUNOVSKY, Ruth. A (im)possiblidade da “invisibilidade” do tradutor e da sua “fidelidade”: por um diálogo entre a teoria e a prática de tradução. Cadernos de Tradução. Florianópolis: NUT, v.2, n.8, p.51-62, 2001. CAMPOS, Haroldo de. Da tradução como criação e como crítica. In: Metalinguagem & outras metas. São Paulo: Perspectiva, p. 31-48, 2006. CARVALHAL, Tânia Franco. Tradução e recepção na prática comparatista. In: O próprio e o alheio. São Leopoldo: Unisinos, 2003. p. 217-259. CASANOVA, Pascale. A bolsa de valores literários. In: A república mundial das letras. Traduzido do francês por Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade, 2003. COUTO, Juliana; KELLER, Fabiana; MOURA, Magali. A tarefa do tradutor. Sobre os caminhos e percalços de traduzir Goethe. Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, 2010. Disponível em: <http://abrapa.org.br/hotsite/pdf/Arquivo016.pdf>. Acesso em: 27 de Abril de 2013. CUNHA, Julio Araújo Carneiro da; RIBEIRO, Evandro Marcos Saidel. A Etnografia como estratégia de pesquisa interdisciplinar para os estudos organizacionais. Qualit@s Revista Eletrônica. v. 9, n. 2, 2010. Disponível em: <http://revista.uepb.edu.br/index.php/qualitas/article/viewFile/692/491>. Acesso em: 01 de Abril de 2013. FARIA, Johnwill Costa. A tradução entre a cruz e a espada: Fidelidade versus Traição. REVELLI – Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-
  • 42. 41 Inhumas. v. 2, n. 1, mar. 2010. p. 87-100. Disponível em: <www.ueginhumas.com/revelli>. Acesso em: 01 de abril de 2013. FERRAZ, Débora A. da S., SOUZA, Felipe da Silva. Métodos de tradução na produção literária. Núcleo de Estudos Interdisciplinares IV. Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV, 2011. GENETTE, Gerárd. Palimpsestos: A Literatura de Segunda Mão. Disponível em: <http://culturadetravesseiro.blogspot.com.br/2011/05/palimpsestogerardgenette .html>. Karine Miranda Campos (Blog Texto e Pretexto, 2006). Acesso em: 29 jan. 2013. GODOY, Arilda Schmidt. Pesquisa qualitativa- Tipos fundamentais. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v, 35, n.3, p. 20-29, 1995. Disponível em: <http://www.producao.ufrgs.br/arquivos/disciplinas/392_pesquisa_qualitativa_g odoy2.pdf>. Acesso em: 29 de Janeiro de 2013. GUARISCHI, Rafael Machado. VALENTE, Marcela Iochem. A tradução intercultural e seus desafios. Revista ALPHA. Patos de Minas: UNIPAM, n. 11, p. 161-166, ago. 2010. IENSEN, Beatrice S.; SANTOS, Alexandre B. dos; TAVARES, Vinicius M. Estudo de Cunho Etnográfico, estudo_jovens.ppt. Paraná, 2007. Disponível em: <http://people.ufpr.br/~marizalmeida/ensino_e_cultura/estudo_jovens.ppt>. Acesso em: 02 de Fevereiro de 2013. JAUSS, Hans Robert. Pour une esthétique de la réception. Traduit de l'allemande par Claude Maillard. Paris: Éditions Gallimard, 1990. LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. 8ª Ed. São Paulo: E.P.U, 1986. OLHER, Rose Maria. Original e tradução: relação hierárquica e institucionalizada. Campinas – SP, 2010. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?view=000770157>. Acesso em: 20 de Dezembro de 2012. PUENTE, Jorge. A importância da tradução. Disponível em: <http://www.alexandervieira.com.br/2009/04/importancia-da-traducao.html>. Acesso em: 26 maio 2012. VAZQUEZ, Ignacio. O papel do dicionário no ensino e aprendizagem das línguas. ACTAS DO I EIELP. Univesitat de Barcelona, março de 2010. Disponível em: http://www.exedrajournal.com/docs/02/09%20- %20Ignacio%20Vasquez.pdf. Acesso em 10 de Outubro de 2013.
  • 43. 42 VENTUROTTI, Fabiano. A transcriação bíblica em haroldo de campos: a poética de Gênesis. Revista Desempenho, v. 9, n.1, jun/2008 www.revistadesempenho.org.br. Disponível em: <http://www.let.unb.br/rd/images/desempenho/200801volume9numero1/04_des empenho-200802-volume9-numero1_Venturotti.pdf>. Acesso em: 10 de Outubro de 2013. VENUTI, Lawrence. A invisibilidade do tradutor. In: Palavra 3. (1995) 111- 134. Tradução de Carolina Alfaro. Rio de Janeiro, 1995. Tradução de: The translator invisibility: In: Criticism. V XXXVIII, n.2, Spring 1986, Wayne state UP, pp. 179-212. ________________. Escândalos da Tradução. São Paulo: EDUSC, 2002
  • 44. 43 Universidade do Estado da Bahia – UNEB Departamento de Educação – Campus XIV Colegiado de Letras/Inglês Pesquisa do TCC UM ESTUDO DE CASO SOBRE OS TIPOS DE ERROS ORAIS DE ALUNOS NOVATOS DE LÍNGUA INGLESA—LE Thatiany Goularth Carneiro Marcia Regina Pawlas Carazzai Resumo: O presente artigo reporta os resultados de um estudo que investigou os tipos de erros orais que seis aprendizes de língua inglesa mais cometiam. Para tal, foram gravadas em áudio e transcritas dez aulas de uma turma composta por seis alunos de nível Novice High, em uma escola de idiomas no interior do estado do Paraná. Os resultados indicaram que, dos 154 erros identificados, os que mais apareceram foram os Intralinguais, totalizando 141 erros. Os erros Interlinguais apareceram quatorze vezes e os erros ambíguos foram os que menos surgiram – somente uma vez. Finalmente, os erros induzidos apareceram quatro vezes durante as aulas, o que indica que, talvez a professora deva tomar mais cuidado com o modo de apresentar a língua estrangeira aos seus alunos. Abstract: The present article reports on the results of a study that investigated the most common types of oral errors/mistakes some English language students committed. To this end, ten classes were recorded in audio and transcribed. The group observed was composed of six students in Novice High level, at a language school, in the interior of Paraná. The results indicate that, from 154 identified errors/mistakes, the intralingual erros/mistakes were the most recurrent ones, in a total of 141. The interlingual errors/mistakes appeared fourteen times and the ambiguous errors/mistakes were the least common – appearing only once. Finally, the induced errors appeared four times during the classes, which indicates that the teacher could pay more attention to the way she presents the foreign language to her students.
  • 45. 44 Universidade do Estado da Bahia – UNEB Departamento de Educação – Campus XIV Colegiado de Letras/Inglês Pesquisa Etnográfica para avaliação do TCC Texto a ser traduzido: UM ESTUDO DE CASO SOBRE OS TIPOS DE ERROS ORAIS DE ALUNOS NOVATOS DE LÍNGUA INGLESA—LE Thatiany Goularth Carneiro Marcia Regina Pawlas Carazzai The present article reports on the results of a study that investigated the most common types of oral errors/mistakes some English language students committed. To this end, ten classes were recorded in audio and transcribed. The group observed was composed of six students in Novice High level, at a language school, in the interior of Paraná. The results indicate that, from 154 identified errors/mistakes, the intralingual erros/mistakes were the most recurrent ones, in a total of 141. The interlingual errors/mistakes appeared fourteen times and the ambiguous errors/mistakes were the least common – appearing only once. Finally, the induced errors appeared four times during the classes, which indicates that the teacher could pay more attention to the way she presents the foreign language to her students. Translation: ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Aluno: _______________________________________________________________ Localidade: ____________________ Semestre: ________