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08/06/2016 - 05:00
Frustração na Copa faz milho pipoca perder área de
plantio
Por Mariana Caetano
A forte redução no plantio de milho pipoca no Brasil na safra atual (2015/16) deverá enxugar a oferta
doméstica, o que tende a abrir caminho ao aumento das importações e para alta dos preços do produto nas
gôndolas dos supermercados nos próximos meses. O cenário, porém, não beneficia os produtores, mas sim
as indústrias do segmento, que sofreram nos últimos dois anos com estoques cheios depois que o entusiasmo
com o consumo durante a Copa do Mundo foi frustrado.
"Plantei 400 hectares de pipoca este ano, mas há dois anos cheguei a fazer 800 hectares", afirma o agricultor
Claudemir Marafon, de Sapezal, em Mato Grosso, Estado que concentra a produção no país. De acordo com
ele, os preços baixos determinaram a redução do cultivo nesta safra, que já está em fase inicial de colheita.
"O valor está em R$ 40 por saca [de 60 quilos]. Melhorou dos R$ 32 do ano passado, mas ainda não
compensa", diz.
O milho pipoca tem custo de produção semelhante ao do grão
comum, mas sua produtividade é aproximadamente 40% inferior.
Assim, o pipoca precisa valer entre 2 e 2,2 vezes mais que o milho
comum para compensar o cultivo. Há três anos, a relação estava
boa para o agricultor: o pipoca valia mais de três vezes, mas hoje
não chega a duas vezes.
Como a maior parte dos produtores que investe em milho pipoca
no Brasil, Marafon recebe as sementes da empresa para a qual
fornece e já planta sabendo quanto receberá pela saca. Por isso mesmo, não conseguiu aproveitar a reação
nos preços, que ganhou força entre o fim de 2015 e o início deste ano, quando ficaram mais nítidos os sinais
de que poderia faltar pipoca na praça.
Em Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, principal polo de produção nacional, o preço pago ao
produtor não passava de R$ 30 por saca em novembro do ano passado. Atualmente, está na casa dos R$ 50.
"Em 2014, a produção foi muito grande, naquele mito de que em época de Copa do Mundo se come mais
pipoca. O resultado é que foram colhidas 300 mil toneladas naquele ano, para um consumo entre 160 mil e
200 mil toneladas. Um absurdo, aí o mercado despencou", conta Sérgio Stefanelo, considerado o maior
produtor de pipoca do país.
Com armazéns lotados nas indústrias, os preços oferecidos pela pipoca caíram e desencorajaram o cultivo.
No Estado de Mato Grosso, o plantio cobriu 27 ,3 mil hectares em 2015/16, uma queda de 25% ante os 36,4
mil hectares do ciclo passado e de 52% em relação a 2013/14 (56,5 mil), de acordo com estimativa do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não há dados oficiais sobre o plantio total de pipoca no
país, mas cálculos de mercado indicam que mais de 80% da produção nacional venha de Mato Grosso.
O fato é que além da retração no plantio, mudanças na Argentina, grande concorrente na pipoca para
exportação, influenciaram o mercado brasileiro. No fim de 2015, o governo argentino retirou o imposto de
importação do milho comum, o que desestimulou a semeadura de pipoca no país e aumentou a
competitividade do produto brasileiro.
"Parecia de novo que a pipoca seria o pior negócio do mundo, mas o mercado sentiu que a área reduziu e
reagiu", diz Stefanelo. Ele previa plantar 1,6 mil hectares, mas mudou de ideia quando os preços subiram e
fez 4 mil hectares. Stefanelo tem essa flexibilidade porque tem sua própria indústria de beneficiamento. "Ano
passado foi do produtor, este [ano] será da indústria. Ainda assim, o agricultor vai ganhar dinheiro".
Com parcerias em 21 mil hectares entre Mato Grosso e Rio Grande do Sul, a Agrícola Ferrari, considerada a
maior do segmento no país, espera produção de 84 mil toneladas nesta safra. "Devemos exportar 40 mil
toneladas para Oriente Médio, Índia, Rússia e Chile", afirma Vinicius Ferrari, diretor da empresa, sediada em
Passo Fundo (RS). A Ferrari fornece para empresas que empacotam e vendem ao consumidor final. A Ferrari
tem fechado os novos contratos de exportação em US$ 500 por tonelada, acima dos US$ 450 do ano
passado.
Há 17 anos no mercado, a companhia é uma das pioneiras na exportação de pipoca do Brasil, e planta o
dobro da área de sua concorrente Yoki, conforme Ferrari. Procurada, a Yoki limitou-se a informar, por meio
de sua assessoria de imprensa, que "por políticas internas, a General Mills [sua controladora] não abre
informações estratégicas".
Para o diretor da Agrícola Ferrari, como as safras da Argentina e de Mato Grosso já estão definidas, e uma
nova leva de pipoca só chegará ao mercado entre maio e junho do ano que vem, a tendência é de
dificuldades no abastecimento doméstico. "E vai ser violenta a falta, especialmente no primeiro semestre de
2017 . Talvez tenhamos até que importar", prevê.
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Milho pipoca em MT: desenvolvimento de híbridos ainda engatinha no país
08/06/2016 - 05:00
De borboletas a cogumelos
Por Mariana Caetano
Pipoca que estoura em forma de borboleta e enche os olhos pelo tamanho, ou em forma de cogumelo, boa
para caramelizar. O mercado dessa singela iguaria, já consolidado nos EUA, está cada vez mais especializado
também no Brasil. Mesmo assim, o desenvolvimento de híbridos (variedades) desse tipo de milho engatinha
no país e há muita dependência de materiais importados.
A Agrícola Ferrari traz dos EUA as sementes que entrega a produtores parceiros. Desde o início dos anos
2000, a empresa faz "um trabalho de formiguinha"em busca de melhor produtividade, diz o diretor Vinicius
Ferrari. "Todo ano, trazemos no mínimo 20 híbridos dos EUA, e colocamos em canteiros de testes", afirma.
A Pioneer, empresa de sementes da americana DuPont, fez incursões no mercado de pipoca no Brasil, mas o
Instituto Agronômico (IAC), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, hoje
lidera as pesquisas com o o grão no país. Desde a década de 1990, o IAC já lançou quatro híbridos,
combinando genética nacional e do exterior.
Conforme Eduardo Sawazaki, pesquisador à frente dos estudos do IAC, os materiais americanos não se
adaptaram às condições do plantio de verão de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. "Nesses Estados, a colheita
acontece em época de chuvas, e como o pipoca é usado diretamente no consumo, com alta umidade
apodrece muito, prejudica a qualidade", explica. Em Mato Grosso, ao contrário, o cultivo de híbridos dos
EUA tem bom desempenho na safra de inverno (safrinha). "Lá, quando o milho forma o grão, não chove
mais".
Os dois híbridos mais recentes do IAC, lançados em 2014, ainda não estão sendo comercializados. A
expectativa do instituto é que as sementes estejam disponíveis entre a safrinha de 2016/17 e a safra de verão
2017 /18. O foco são os Estados que carecem de híbridos adaptados, mas segundo Sawazaki, esses materiais
"podem ir bem em Mato Grosso também".

Milho Pipoca

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    Imprimir () 08/06/2016 -05:00 Frustração na Copa faz milho pipoca perder área de plantio Por Mariana Caetano A forte redução no plantio de milho pipoca no Brasil na safra atual (2015/16) deverá enxugar a oferta doméstica, o que tende a abrir caminho ao aumento das importações e para alta dos preços do produto nas gôndolas dos supermercados nos próximos meses. O cenário, porém, não beneficia os produtores, mas sim as indústrias do segmento, que sofreram nos últimos dois anos com estoques cheios depois que o entusiasmo com o consumo durante a Copa do Mundo foi frustrado. "Plantei 400 hectares de pipoca este ano, mas há dois anos cheguei a fazer 800 hectares", afirma o agricultor Claudemir Marafon, de Sapezal, em Mato Grosso, Estado que concentra a produção no país. De acordo com ele, os preços baixos determinaram a redução do cultivo nesta safra, que já está em fase inicial de colheita. "O valor está em R$ 40 por saca [de 60 quilos]. Melhorou dos R$ 32 do ano passado, mas ainda não compensa", diz. O milho pipoca tem custo de produção semelhante ao do grão comum, mas sua produtividade é aproximadamente 40% inferior. Assim, o pipoca precisa valer entre 2 e 2,2 vezes mais que o milho comum para compensar o cultivo. Há três anos, a relação estava boa para o agricultor: o pipoca valia mais de três vezes, mas hoje não chega a duas vezes. Como a maior parte dos produtores que investe em milho pipoca no Brasil, Marafon recebe as sementes da empresa para a qual fornece e já planta sabendo quanto receberá pela saca. Por isso mesmo, não conseguiu aproveitar a reação nos preços, que ganhou força entre o fim de 2015 e o início deste ano, quando ficaram mais nítidos os sinais de que poderia faltar pipoca na praça. Em Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, principal polo de produção nacional, o preço pago ao produtor não passava de R$ 30 por saca em novembro do ano passado. Atualmente, está na casa dos R$ 50. "Em 2014, a produção foi muito grande, naquele mito de que em época de Copa do Mundo se come mais pipoca. O resultado é que foram colhidas 300 mil toneladas naquele ano, para um consumo entre 160 mil e 200 mil toneladas. Um absurdo, aí o mercado despencou", conta Sérgio Stefanelo, considerado o maior produtor de pipoca do país. Com armazéns lotados nas indústrias, os preços oferecidos pela pipoca caíram e desencorajaram o cultivo. No Estado de Mato Grosso, o plantio cobriu 27 ,3 mil hectares em 2015/16, uma queda de 25% ante os 36,4 mil hectares do ciclo passado e de 52% em relação a 2013/14 (56,5 mil), de acordo com estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não há dados oficiais sobre o plantio total de pipoca no país, mas cálculos de mercado indicam que mais de 80% da produção nacional venha de Mato Grosso.
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    O fato éque além da retração no plantio, mudanças na Argentina, grande concorrente na pipoca para exportação, influenciaram o mercado brasileiro. No fim de 2015, o governo argentino retirou o imposto de importação do milho comum, o que desestimulou a semeadura de pipoca no país e aumentou a competitividade do produto brasileiro. "Parecia de novo que a pipoca seria o pior negócio do mundo, mas o mercado sentiu que a área reduziu e reagiu", diz Stefanelo. Ele previa plantar 1,6 mil hectares, mas mudou de ideia quando os preços subiram e fez 4 mil hectares. Stefanelo tem essa flexibilidade porque tem sua própria indústria de beneficiamento. "Ano passado foi do produtor, este [ano] será da indústria. Ainda assim, o agricultor vai ganhar dinheiro". Com parcerias em 21 mil hectares entre Mato Grosso e Rio Grande do Sul, a Agrícola Ferrari, considerada a maior do segmento no país, espera produção de 84 mil toneladas nesta safra. "Devemos exportar 40 mil toneladas para Oriente Médio, Índia, Rússia e Chile", afirma Vinicius Ferrari, diretor da empresa, sediada em Passo Fundo (RS). A Ferrari fornece para empresas que empacotam e vendem ao consumidor final. A Ferrari tem fechado os novos contratos de exportação em US$ 500 por tonelada, acima dos US$ 450 do ano passado. Há 17 anos no mercado, a companhia é uma das pioneiras na exportação de pipoca do Brasil, e planta o dobro da área de sua concorrente Yoki, conforme Ferrari. Procurada, a Yoki limitou-se a informar, por meio de sua assessoria de imprensa, que "por políticas internas, a General Mills [sua controladora] não abre informações estratégicas". Para o diretor da Agrícola Ferrari, como as safras da Argentina e de Mato Grosso já estão definidas, e uma nova leva de pipoca só chegará ao mercado entre maio e junho do ano que vem, a tendência é de dificuldades no abastecimento doméstico. "E vai ser violenta a falta, especialmente no primeiro semestre de 2017 . Talvez tenhamos até que importar", prevê.
  • 3.
    Imprimir () Milho pipocaem MT: desenvolvimento de híbridos ainda engatinha no país 08/06/2016 - 05:00 De borboletas a cogumelos Por Mariana Caetano Pipoca que estoura em forma de borboleta e enche os olhos pelo tamanho, ou em forma de cogumelo, boa para caramelizar. O mercado dessa singela iguaria, já consolidado nos EUA, está cada vez mais especializado também no Brasil. Mesmo assim, o desenvolvimento de híbridos (variedades) desse tipo de milho engatinha no país e há muita dependência de materiais importados. A Agrícola Ferrari traz dos EUA as sementes que entrega a produtores parceiros. Desde o início dos anos 2000, a empresa faz "um trabalho de formiguinha"em busca de melhor produtividade, diz o diretor Vinicius Ferrari. "Todo ano, trazemos no mínimo 20 híbridos dos EUA, e colocamos em canteiros de testes", afirma. A Pioneer, empresa de sementes da americana DuPont, fez incursões no mercado de pipoca no Brasil, mas o Instituto Agronômico (IAC), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, hoje lidera as pesquisas com o o grão no país. Desde a década de 1990, o IAC já lançou quatro híbridos, combinando genética nacional e do exterior. Conforme Eduardo Sawazaki, pesquisador à frente dos estudos do IAC, os materiais americanos não se adaptaram às condições do plantio de verão de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. "Nesses Estados, a colheita acontece em época de chuvas, e como o pipoca é usado diretamente no consumo, com alta umidade apodrece muito, prejudica a qualidade", explica. Em Mato Grosso, ao contrário, o cultivo de híbridos dos EUA tem bom desempenho na safra de inverno (safrinha). "Lá, quando o milho forma o grão, não chove mais". Os dois híbridos mais recentes do IAC, lançados em 2014, ainda não estão sendo comercializados. A expectativa do instituto é que as sementes estejam disponíveis entre a safrinha de 2016/17 e a safra de verão 2017 /18. O foco são os Estados que carecem de híbridos adaptados, mas segundo Sawazaki, esses materiais "podem ir bem em Mato Grosso também".