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A posição social do artista no movimento Neo-realista em
Portugal: artigos de Júlio Pomar e Lima de Freitas na
Revista Vértice nas décadas de 40 e 50
Luciane Viana Barros Páscoa1
Resumo:
Os pintores Júlio Pomar e Lima de Freitas participaram do movimento Neo-realista em Portugal não
somente com sua obra plástica, mas com frequentes artigos em que defendiam uma postura do artista
frente aos problemas sociais de seu tempo. Muitos de seus escritos pertencem à Revista Vértice,
especialmente dos anos 40 e 50, fase em que o periódico foi um porta-voz do movimento artístico,
uma das épocas mais duras da ditadura salazarista, a que muitos artistas reagiram buscando a
valorização estética de elemento sociais e humanistas. O resultado disto foi um sentido revolucionário
no âmbito do Estado Novo. As experiências pessoais e poéticas destes artistas foram estimuladas por
uma visão crítica do materialismo histórico.
Palavras-chave: arte portuguesa; neo-realismo; século XX.
O movimento Neo-realista em Portugal despontou a partir de 1935 no âmbito
literário com um artigo de Álvaro Salema publicado no semanário de literatura e crítica
intitulado Gládio. Tratava-se de O antiburguesismo da cultura nova, que se tornou referência
clássica pela atitude pioneira e pelo seu esclarecimento ideológico sobre a concepção de uma
nova «arte social e humanista» (DIAS, 1996, p.59). Em abril de 1939, Álvaro Cunhal já
havia definido sistematicamente o Neo-Realismo artístico nas páginas de O Diabo, vendo nele
a expressão de uma tendência histórica progressista. Afirmou que a arte deveria «exprimir a
realidade viva e humana de uma época», e que «formas novas podem conter um significado
velho e formas velhas, ainda que excepcionalmente podem conter um significado moderno e
progressista»(Idem, p.139). Configurava-se para os neo-realistas que o conteúdo era mais
importante que a forma, e que como artistas, deveriam estar empenhados com os problemas
sociais de seu tempo.
Dentre os artistas surgidos nos anos do pós-guerra e comprometidos com uma arte
que levasse ao povo uma mensagem de solidariedade, estavam Júlio Pomar (n.1926) e Lima
1
Doutora em História Cultural pela Universidade do Porto. É professora do curso de música da UEA, onde
ministras as disciplinas Estética e História da Arte I e II, Filosofia da Arte e Técnicas de Expressão Vocal e
Canto Coral I, II e III.
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de Freitas (1927-1998). Colaboraram freqüentemente com revistas, periódicos e suplementos
literários de arte e cultura, como teóricos ativistas do movimento Neo-realista em Portugal.
Muitos de seus escritos pertenciam à Revista Vértice, especialmente dos anos 40 e 50, fase em
que o periódico foi um porta-voz do movimento artístico, num dos momentos mais duros da
ditadura salazarista, a que muitos artistas reagiram buscando a valorização estética de
elementos sociais e humanistas.
Na obra pictórica de Júlio Pomar, prevaleceram temas que se tornaram ícones do
Neo-Realismo: camponeses na colheita do arroz, proletários, pescadores, o homem e sua
condição, revelando a influência recebida de Abel Salazar2
, dos muralistas mexicanos3
e do
pintor brasileiro Cândido Portinari4
. Lima de Freitas, desenhista minucioso, recuperou uma
tradição formal realista e foi membro do Partido Comunista Português, destacando-se como
um dos artistas mais comprometidos com a causa social. Manteve-se zhdanovista quando no
âmbito dos intelectuais comunistas portugueses surgiu a querela sobre a política soviética e o
realismo socialista.(GONÇALVES, 2001, p.187)
Muitos neo-realistas integraram o Partido Comunista Português, que se
encontrava na clandestinidade. Como a discussão dos princípios e das intenções no
movimento neo-realista não se processaram livremente, mas através das revistas e jornais
artísticos e literários, o momento foi fértil em debates estéticos e políticos. Os artigos de Júlio
Pomar e de Lima de Freitas podem ser apreciados em dois âmbitos: um estético e outro
crítico. No primeiro, os autores defendem sua posição ideológica e seu comprometimento
com os pressupostos teóricos do Neo-realismo; no segundo, atuam como críticos de arte e
mediadores das exposições, sem deixar de lado a intenção de aproximar arte e público. O
objetivo maior era que a arte proporcionasse uma transformação social.
2
Abel Salazar (1889-1946) era médico, professor universitário e cientista. Dividiu seus afazeres com a atuação
de artista-amador, também escrevendo artigos teóricos em que ligava as artes e as ciências a uma causa social.
Gozava de grande prestígio entre os neo-realistas, que consideravam-no uma espécie de precursor. Foi
perseguido por motivos políticos, de vez que abordava em seu discurso temática dedicada às mulheres
trabalhadoras e às questões sociais sufocadas pela orientação do regime ou pelo conservadorismo que o apoiava.
Como resultado disso tornou-se um ícone para os jovens neo-realistas e seu exemplo de homem trabalhador-
artista-intelectual com preocupações humanistas e consciência social parece ter multiplicado inspirações na
atmosfera neo-realista.
3
Nas artes plásticas as influências dos neo-realistas e seus simpatizantes vinham do México através das obras
muralistas de José Clemente Orozco, Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros, e também do Brasil, através do
pintor Cândido Portinari e dos romancistas Jorge Amado e Graciliano Ramos.
4
Cândido Portinari foi de modo geral admirado e bem recebido no meio artístico português, independente de sua
filiação estética, conforme se verifica nas seguintes fontes: PEDRO, A. Cândido Portinari. Mundo Literário, nº
4. Lisboa, 1 de junho de 1946, p.6.; DIONÍSIO, M, Portinari, pintor de camponeses, Vértice, nºs 30 - 35, volume
12. Coimbra, Maio de 1946.; DIONÍSIO, M. Portinari e Ferreira de Castro. Vértice, nº147, volume 15. Coimbra,
dezembro de 1955, p.736-737.; NAMORADO, J. Cândido Portinari, Paris, 1946. Vértice, nº 43, volume 3.
Coimbra, janeiro de 1947, pp. 192-200.
3
Lima de Freitas em seu artigo «O Realismo na Pintura»(FREITAS, 1955, vol.
142, p.387-391), conceituou o termo Realismo, definindo o seu significado na pintura.
Ressaltou inicialmente que existia uma escolha de temas, os temas reais, e nisto residia um
subjetivismo. Exemplificou este conceito com a pintura de paisagem de Brueghel, que
buscava «o drama humano no meio natural» (Idem, p.387). Comparou Corot, Cézanne e
Turner, sobre o modo como estes artistas faziam a pintura de paisagem, provocando em
seguida a pergunta sobre qual deles seria o mais realista, respondendo que cada um é realista a
seu modo, porque nenhum se dissociou da realidade:
A história mostra-nos que cada nova escolha surge segundo circunstâncias
que não são fortuitas. Por vezes, são o fruto de uma lenta preparação, outras
vezes irrompem sem antecedentes artísticos evidentes mas em concordância
com estímulos históricos, de ordem social, técnica e até mesmo política.
Muitas vezes os artistas obreiros de tais inovações são inconscientes e
ignoram os motivos profundos que os levaram a buscar isto em vez daquilo.
Picasso, por exemplo, disse em 1923 que não procurava, encontrava;
embora em 1935 incitasse os jovens a aproveitar as suas investigações.
Outras vezes os artistas são conscientes e conhecem as forças que os
impulsionam; Goya, por exemplo, sabia bem o que queria e em que chão
mergulhava as suas raízes. (Idem, p.388).
Nota-se aqui que Lima de Freitas estabelece uma distinção entre o artista que
está consciente ideologicamente e aquele que se mantém despreocupado. Cabe mencionar que
este confronto ideológico (e com o ideológico) foi assumido pelos neo-realistas, que estavam
fundamentados pelo Marxismo-Leninismo ou pelo Socialismo Marxista, que era bem
diferente do Socialismo Burguês do século XIX, o da Geração de 1870. Este último era
sensível às injustiças sociais e tinha por influência o socialismo de Proudhon, mas seus
integrantes repudiavam qualquer ação revolucionária, e em sua concepção o socialismo
burguês estaria comprometido com o capitalismo. A partir, porém, da instauração do Estado
Novo, as preocupações sociais e políticas erguidas no princípio de século XX acabaram por
demonstrar a fragilidade dos fundamentos ideológicos das forças político-sociais tradicionais
na oposição ao fascismo. Observa-se então que as duas primeiras gerações do modernismo
português estavam desinteressadas dos acontecimentos históricos nacionais ou mundiais,
colocando-se numa posição de alheamento. Foi somente na terceira geração modernista,
nomeadamente a dos neo-realistas, que ficou demonstrada uma preocupação social.
4
Neste momento de crise, urgia que o artista tomasse uma atitude consciente e
que se posicionasse ideologicamente. O não-comprometimento político era mal visto no meio
intelectual, principalmente num momento em que crescia a repressão e a perseguição. O
esforço realizado em direção ao realismo na pintura mostrava duas preocupações por parte do
autor: o afastamento da arte da vida e a valorização excessiva das inovações formais. Lima de
Freitas acreditava na existência de uma arte de tendência anti-realista, que se detinha em
descobertas formais que não possuíam qualquer utilidade. Serviam apenas quando eram
postas em benefício das necessidades humanas:
Só na medida em que as descobertas formais são postas ao serviço de uma
arte generosa e viva é que se mostram úteis, oportunas e às vezes
indispensáveis. Isto não quer dizer que as descobertas formais sejam um
exclusivo da arte não realista, muito pelo contrário: quer somente dizer que
as formas de arte opostas ao realismo também podem proporcionar
descobertas, embora sempre limitadas e particulares. (Idem, 390)
Assim, considerava também que não existiam apenas as descobertas formais:
elas implicavam em introdução de métodos e idéias que ultrapassavam o domínio da forma
pura. No momento em questão, afirmou que todo o esforço em direção ao realismo era difícil,
pois a sociedade estava saindo de um período em que a arte estava distante da vida dos
homens e que agora desejava retomar o contato com eles. Para o autor, o Neo-realismo
artístico absorvia antigas leis e criava novas leis mais gerais e mais amplas: «novas regras
ditadas por necessidades mais vastas, frutos dos novos horizontes da vida humana que a arte
tem de exprimir mergulhando profundamente no nosso tempo, onde o futuro já está contido.»
(Idem, p.391)
As relações entre arte e público e a excessiva valorização da técnica e da forma em
detrimento ao tema e ao conteúdo da obra plástica já inquietavam Lima de Freitas em 1951,
ano em que escreveu o artigo «Caminhos e Crise da Pintura Moderna»(FREITAS, 1951,
vol.11, p.717-724). Considerava que o fenômeno do afastamento entre arte e público no seu
tempo explicava-se por dois fatores: a reclusão do artista e a ignorância do público diante das
novas estéticas.
Para ele, a arte moderna atravessava uma crise profunda que era ocasionada em
parte pela incompreensão do público, que estava alheio às preocupações do artista. Este por
sua vez, isolava-se cada vez mais em sua torre de marfim, passando a criar obras para seu
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exclusivo prazer pessoal. O autor constatou que já havia divergências entre arte e público
desde o final do século XIX:
Esboçou-se com o impressionismo, agravou-se com o fauvismo, o cubismo,
o expressionismo, culminou quiçá com os dadaístas, os surrealistas e
abstracionistas. A história do afastamento recíproco e crescente do público e
da arte moderna é a história da Escola de Paris, dos seus escândalos e das
suas transformações. (Idem, p.718)
A preocupação demasiada com a pesquisa formal levou os artistas da Escola de
Paris a colocarem em segundo plano a «significação do discurso pictural», ou melhor, deixou
de lado o tema na pintura, que para Lima de Freitas sempre foi o traço de união que liga o
artista ao meio em que vive: «Assiste-se pois, à negação e destruição do tema (que os
surrealistas, em especial, reduzem a escombros) e à orientação quase exclusiva para a
investigação técnica, laboratorial» (Ibidem).
Neste sentido, o autor explica que em vários períodos da história da pintura foi
exercida uma investigação técnico-formal. Em seguida ele questiona em que sentido os
artistas modernos são técnicos. Para ele, o exercício puro da técnica era vazio e alienante,
porém, o tema era o veículo do conteúdo:
Todo o esforço anterior para eliminar o tema estava errado, porque extrair
um tema a uma obra de arte e mantê-la como tal, é o mesmo que tirar a vida
a um ser mantendo-o vivo. O que importa não é ressuscitar o tema (ele
nunca morreu); o que importa é tomar consciência da sua necessidade e da
sua importância categórica; é escolhê-lo e amá-lo, realizá-lo com toda
energia, com todo instinto, com toda a lógica. É criá-lo a partir do homem
para o homem; é procurar o homem, numa palavra e para dizer tudo.
(Ibidem)
A aproximação entre arte e público poderia ser efetuada a partir da recuperação do
conteúdo humanista nas obras. Lima de Freitas argumentava que era necessário que o artista
estivesse conectado ao seu tempo. Desse modo, o autor reafirmou alguns princípios teóricos
do Neo-realismo, pois este movimento via o fenômeno literário e artístico como instrumento
de análise e correção de existência do homem social e pretendia que a missão do artista-
6
intelectual fosse cumprida através de uma sintonização ao exterior circundante. (REIS, 1983,
p.59 e 221)
A preocupação de Lima de Freitas com o conteúdo das obras plásticas e seu
comprometimento com temas de cunho social e realista, também estava presente em seus
artigos de crítica. Numa crítica publicada em maio de 1950, o autor traçou o perfil do Salão
da Primavera promovido pela Sociedade Nacional de Belas Artes, marcado por uma
orientação acadêmica e oficial:
Dir-se-ia que os diversos salões eram sempre uma mesma exposição onde
apenas a posição dos quadros tivesse mudado. E na verdade, de repetição se
tratava, pois os pintores habituais nada mais faziam (e fazem ainda) que
servir-se eternamente de meia dúzia de receitas de cozinha, de meia dúzia
de temas, de meia dúzia de efeitos e com esses ingrediente recompor de
cada vez, a mesma papa de sabor garantido e clientela fiel. (FREITAS,
1950, vol 9, p.324)
Apesar da presença da pintura acadêmica, o Salão da Primavera já apresentava um
certo rejuvenescimento para Lima de Freitas. Esta renovação foi atribuída às experiências
«dos que almejam a justa expressão realista de um novo conteúdo humano, as experiências
abstracionistas e surrealistas, as experiências daqueles que, aceitando a influência mais ou
menos autoritária de alguns mestres da Escola de Paris, procuram uma verdade pictórica mais
densa» (Idem). Destacava neste sentido, a obra de Querubim Lapa, Navarro Hogan, Júlio
Pomar, Arlindo Vicente, Mário Dionísio, Avelino Cunhal, Nuno San Payo, Maria Barreira,
Vasco da Conceição, Jorge Vieira e Lagoa Henriques, que com valores, experiências e
responsabilidades diferentes, estavam unidos pela vontade comum de renovar a pintura
portuguesa. Com um humor pungente, estabeleceu o contraste das obras destes jovens artistas
com o que considerava habitual nos salões da Primavera: «marinhas alternando com vasos de
flores, vasos de flores alternando com abóboras, abóboras alternando com retratos de meninas
chics , tudo isso ricamente emoldurado com dourados e trabalhos de talha, e assinados por
nomes cheios de medalhas e menções» (Idem, p.325).
Já em uma crítica da VI Exposição Geral de Artes Plásticas (1951), Lima de
Freitas reservou um alerta para os jovens pintores, escultores e desenhadores: que não
deixassem arrefecer o fogo e a exaltação interior em relação às questões socias e que não
permitissem que o sentimentalismo e o lirismo exacerbado ofuscassem a «realidade brutal e
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impetuosa das coisas e dos homens»(FREITAS, 1951, vol.11, p.319). Um paralelo entre o
conteúdo realista e a função da técnica na obra de arte foi habilmente abordado numa crítica
executada na ocasião da Exposição de Gravura Francesa Contemporânea, realizada no Palácio
Foz em Lisboa, em 1953. O autor questionava o virtuosismo técnico, a experimentação sem
objetivo, e depois perguntava: «Mas onde estão os homens?» (FREITAS, 1953, vol.13,
p.184). A ausência relativa do conteúdo humano o afligia:
Não será descabido, todavia, falar de insatisfação, ao verificar que os
artistas franceses, especialmente os mais novos, andam ainda tão distraídos
dos problemas fundamentais, tão afastados da saída mais provável, mais
razoável, por certo mais difícil, do labirinto que vagueiam. Esse labirinto
tece-se de exclusivas preocupações formais, de ensaios estilísticos, de
originalidade à força, de rebuscamentos fatigantes, do culto cego de certos
mitos.(Idem)
Em reação a uma entrevista de Cândido Portinari transcrita do Jornal de Letras do
Rio de Janeiro para a Revista Vértice em dezembro de 1952 (COCHOFEL, p.692-693), Lima
de Freitas escreveu uma carta aberta ao artista brasileiro em 1953, questionando suas
intenções estéticas. Portinari emitira em entrevista prévia algumas afirmações pouco
convincentes sobre os fundamentos da orientação realista de seu trabalho. Tais declarações
sugeriram uma interpretação contrária ao sentido renovador e social que identificava a sua
obra. Isto causou um choque em Lima de Freitas, que como outros jovens artistas portugueses
neo-realistas, haviam se inspirado na obra de Portinari. Elaborou então as seguintes questões:
(...)o pintor nunca pensa no tema, no significado e no conteúdo?;(...) poderá
um conteúdo realista ser expresso por formas abstratas? Quando pintou os
Retirantes , de onde partiu? De uma concepção abstrata ou a partir do
conhecimento real do drama dos camponeses do Nordeste?; (...) não será
uma proposição metafísica afirmar que quem tem técnica sempre pinta
bem , na medida em que considera a técnica independente do objeto, na
medida em que separa a forma do conteúdo?; (...) não achará Portinari que,
depois da experiência dos muralistas mexicanos, depois de sua própria
experiência, a igualdade Arte Moderna = Escola de Paris tem um sentido
obscuro e limitado?; (...) diz Portinari que queimaria a maioria dos seus
quadros anteriores. Porque renega a atitude realista que os ditou? Ou
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porque, mantendo a mesma atitude realista, considera a sua produção antiga
insuficientemente expressiva dessa atitude? É esta afirmação um passo em
frente no caminho do realismo, ou um passo à retaguarda? (FREITAS,
1953, vol.13, p.372-373)
Para Lima de Freitas, as considerações de Portinari foram impensadas, sem
consciência do impacto que uma atitude descompromissada com o conteúdo ideológico de
suas obras pudesse causar. Neste sentido é possível evocar as palavras elucidativas de Raul
Gomes que, no campo das discussões estéticas do Neo-realismo, fez em 1944 uma distinção
entre o Neo-realismo português e o Neo-realismo brasileiro: a) O Neo-realismo em Portugal
foi produto de um esforço intelectual e teve que se confrontar com uma disciplina rígida e
conservadora, enquanto que o surgimento do Neo-realismo brasileiro teve condições externas
favoráveis para um desabrochar espontâneo. b) Em Portugal, houve a necessidade de
teorização e de conscientização do movimento, que possui a inspiração de escola , que
resultou de uma prévia preparação ideológica de seus cultores, uma literatura de tese. Já o
Neo-realismo no Brasil manifestou-se com uma quase inconsciência ideológica de caráter
sentimental, dada a mencionada espontaneidade. c) Em Portugal, ele surgiu em meio à crise
econômico-social européia, resultante de uma luta de classes de caráter social. O Neo-
realismo brasileiro surgiu num contexto de crise de crescimento sócio-econômico, tornando-
se o porta-voz das manifestações de um novo sistema histórico. (GOMES, 1944, p.261-262)
Diante desta comparação do Neo-realismo literário, é possível traçar um paralelo
com seu desdobramento artístico, e no caso específico de Portinari, deve-se considerar a
possibilidade de uma inconsciência ideológica de caráter sentimental. Vale lembrar que a
posição de Portinari na arte brasileira no início dos anos 50 era bastante controvertida, pois o
artista recebia grande pressão por parte dos artistas e dos críticos ligados ao movimento
concretista. (PÁSCOA, 1997, p.12)5
Júlio Pomar por sua vez também deteve-se na conceituação e no debate sobre a
arte neo-realista. Para ele, o Neo-realismo buscava uma intervenção mais eficaz na realidade,
além de oferecer novas propostas para uma vida melhor. Desse modo, o artista neo-realista
deveria agir como um homem comum, como um militante entre vários que luta por uma
sociedade mais justa. A experiência e o contato com a realidade importavam tanto quanto a
5
O ambiente artístico no Brasil em meados dos anos 50, era dominado pela figura de Cândido Portinari,
consagrado pela crítica a ponto de ser considerado um referencial estético: haviam expressões como
portinarismo e antiportinarismo , que serviam para identificar trabalhos de outros autores naquela época. Os
adeptos do movimento da arte concreta estabeleceram forte oposição à Portinari e ao significado conferido à sua
obra, especificamente a consolidação do modernismo no Brasil.
9
teoria, pois só assim, a arte poderia se tornar uma ferramenta para a construção do futuro.
Reivindicava do artista um posicionamento efetivo e consciente com relação aos problemas
do presente, e é neste sentido que ele efetua uma apreciação inovadora da obra de Abel
Salazar, pelas páginas da Vértice.
Tratando do significado da obra plástica de Abel Salazar num artigo de 1947,
intitulado «Abel Salazar, artista», Júlio Pomar procurou situar o lugar deste personagem no
panorama contemporâneo da arte portuguesa, verificando quais lições se poderia dela
tirar.(POMAR, 1947, vol.3) Logo advertiu que na obra de Abel Salazar não se deparava com
um conjunto coerente, elemento que causou opiniões contraditórias da crítica. Segundo
Pomar, quando uma obra era analisada, deveria-se atentar para as suas raízes, para a intenção
e para o objetivo do artista. Desse modo, ele identificava que na obra de Abel Salazar havia
dois aspectos fundamentais: a necessidade de expressão e de confidência do artista e
comparava sua obra às páginas de um diário, com intempestivos relatos de emoção e de uma
visão íntima do mundo.
Um outro aspecto chamou a atenção de Pomar para o elemento que aproxima Abel
Salazar do Neo-realismo: a vida e a luta do povo. Afirmava que esta não era apenas uma
afinidade temática, mas uma convicção do artista:
Para Abel Salazar o povo não era o modelo, que é sucetível de ser trocado
por outro: era a verdade que tinha de ser dita, não importa como, e por todos
os meios, era a palavra de ordem nascida do contato com a vida despida de
mistificações. Eis o que o faz distanciar-se realmente da toada geral da arte
portuguesa do tempo em que viveu, para o colocar como o anunciador do
encontro e da identificação com o povo, característica fundamental da
jovem pintura. (Idem, p.261)
Para Júlio Pomar, uma obra poderia ser considerada neo-realista na medida em que
representasse o conteúdo humano e suas contradições: «para a arte, não basta a função de
interpretar a vida, mas ela pode e deve ir mais longe, e tornar-se uma arma ao serviço das
forças que a transformarão» (Idem). Para ele, Abel Salazar tinha uma posição inequívoca,
coerente, e esta posição que o ligou ao povo, posteriormente o ligaria à história dos
movimentos artísticos contemporâneos.
Segundo Pomar, o artista não retratava apenas o mundo, ele o fazia com sua carga
ideológica e isto o vinculava ao meio. Este aspecto social da arte foi abordado no artigo
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intitulado «A Escola de Paris e a França Viva», no qual escreveu que «a arte age sempre
como espelho da vida (embora não só como espelho); nela se refletem os combates e as
alianças entre as forças materiais e as forças ideológicas que se sucedem na vida» (POMAR,
1946, vol.3, p.48). Neste sentido, o autor comentou que o artista não poderia assumir uma
posição fora da luta e do tempo, pois os que se diziam imparciais, limitavam-se a disfarçar a
sua real política oportunista. Não havia, portanto, confusão da arte com política, mas a
exigência do papel político do artista com suas obras. Pomar reconheceu que a Escola de Paris
era um produto típico da crise histórica da arte moderna, pela tentativa de se afastar da
realidade:
A arte exprime sempre uma concepção da realidade. Se a realidade é o
centro em torno do qual toda a arte gravita, a proximidade, ou o afastamento
em que estão uma da outra, dá-nos a medida em que a sociedade que a
gerou domina ou se deixa dominar pelos acontecimentos, queda embalada
pelo que já adquiriu, ou se lança convictamente a novas conquistas.(Idem,
p.49)
Júlio Pomar constatou que na primeira metade do século XX, coexistiam diversas
noções de realidade e isso exemplificava a crise da arte moderna, que surgiu em meio à crise
do conceito de progresso e do racionalismo científico-tecnológico impulsionado pela Segunda
Revolução Industrial. Como consequência disso, emergiram várias correntes artísticas que
alimentaram uma aversão pelo real (Cubismo, Surrealismo, Dadaísmo), e desse modo a arte
moderna se limitou num círculo restrito, por ter se afastado do conteúdo humanista.
Segundo o autor, a renovação na arte portuguesa estava firmada sobre o retorno do
conteúdo social: «sobre as experiências particulares de cada um, pode talvez dizer-se que esta
renovação se orienta, de um modo geral, no sentido de uma aproximação, ou de uma
redescoberta do real, na valorização da presença humana» (POMAR, 1953, vol.13, p.504). Os
artistas que Pomar considerava responsáveis pela recuperação do elemento humano na pintura
portuguesa eram: João Navarro Hogan, Augusto Gomes, Querubim Lapa, Lima de Freitas,
Manuel Ribeiro de Pavia, Cipriano Dourado, Rogério Ribeiro, Nuno San Payo e Avelino
Cunhal.
No ensaio crítico sobre o pintor Augusto Gomes (POMAR, 1953, vol.13, p.347-
349), Júlio Pomar consolidava seu ideário estético, ao identificar neste artista uma renovação
pictural derivada de um contato fecundo com a realidade, pela tentativa de integração com seu
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tempo, de travar um contato com sua terra e sua gente: «Pinto gente do povo, sobretudo
mulheres. É o elemento feminino que mais sobressai aqui no Norte. O Norte é, em muito,
feito à custa de mulheres»(Idem, p. 349). A necessidade de renovação na pintura portuguesa
foi tema corrente em outros artigos de Júlio Pomar, tais como as críticas sobre a 5ª Exposição
Geral de Artes Plásticas e a 7ª Exposição Geral de Artes Plásticas (POMAR, 1953, p.327).
Para Júlio Pomar, não era suficiente que os artistas neo-realistas abordassem em
suas obras as dificuldades do cotidiano popular, pois acreditava que era preciso colocar a arte
ao alcance do povo. Neste sentido, Pomar afirmava que o pintor neo-realista deveria optar
pela pintura mural, pois só assim atingiria um número maior de pessoas. Esta seria uma das
tarefas do artista comprometido com o presente. Em ao menos dois artigos publicados na
Revista Mundo Literário (POMAR, 1946, nº24; 1947, nº48), ele argumentava que o público
frequentador das exposições vinha a ser, de um modo geral, o mesmo que lia os romancistas
ou os poetas. Para ele, além da pintura mural, outros meios técnicos de reprodução (a gravura,
por exemplo) deveriam ser reabilitados. Lima de Freitas que também exaltara a pintura mural,
chegava mesmo a considera-la o suporte mais nobre da pintura. Esta valorização do artista
como mediador, é decorrente do materialismo histórico, pois considera-se neste âmbito que a
arte acelera a tomada de consciência (PITA, 2003).
Neste conjunto de artigos de Lima de Freitas e Júlio Pomar, destacam-se a
preocupação com o conteúdo humano na obra de arte - que não é feita apenas de descobertas
formais, e os debates sobre o comprometimento ideológico do artista frente ao seu tempo.
Estes artistas viam-se compelidos a oferecer justificativa de suas escolhas estético-artísticas,
com profundidade ideológica, ao mesmo tempo que desempenharam uma crítica orientadora,
segundo tais elementos neo-realistas.
Referências Bibliográficas:
COCHOFEL, J.J. Uma entrevista com Portinari. Vértice, vol.12, nº 112. Coimbra, dezembro
de 1952.
DIAS, L.A.C. A Imprensa Periódica na Génese do Neo-Realismo (1933-45). In: A
Imprensa Periódica na Génese do Movimento Neo-Realista. Vila Franca de Xira: Museu do
Neo-Realismo, 1996.
DIONÍSIO, M. Portinari, pintor de camponeses, Vértice, nºs 30 - 35, volume 12. Coimbra,
Maio de 1946.
____________ .Portinari e Ferreira de Castro. Vértice, nº147, volume 15. Coimbra, dezembro
de 1955.
12
FREITAS, L. Caminhos e Crise da Pintura Moderna. Vértice, Vol.11, nº99-101. Coimbra:
novembro de 1951/ janeiro de 1952.
____________ .Carta aberta a Portinari. Vértice, vol.13, nº118. Coimbra, junho de 1953.
____________. Exposição de Gravura Francesa Contemporânea. Vértice, vol. 13, nº 118.
Coimbra, junho de 1953.
____________. O Realismo na Pintura. Vértice, vol.15, nº142 Coimbra: Julho de 1955.
___________. Pintura, desenho e escultura na VI Exposição Geral de Artes Plásticas.
Vértice, vol. 11, nº 94. Coimbra, junho de 1951.
____________ .Salão da Primavera. Vértice, vol. IX, nº81. Coimbra, maio de 1950.
GOMES, R. Neo-realismo português e Neo-realismo brasileiro. Seara Nova, nº 872. Lisboa,
29 de abril de 1944. Ano XXIII.
GONÇALVES, R.M.(et.al.). Panorama da Arte Portuguesa no Século XX. Coord.
Fernando Pernes. Porto, Fundação Serralves/Campo das Letras, 2001.
NAMORADO, J. Cândido Portinari, Paris, 1946. Vértice, nº 43, volume 3. Coimbra, janeiro
de 1947.
PÁSCOA, L.V.B. Ivan Serpa: poética e trajetória (1947-1973). São Paulo: Pontifícia
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1983.
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A posição social do artista

  • 1. 1 A posição social do artista no movimento Neo-realista em Portugal: artigos de Júlio Pomar e Lima de Freitas na Revista Vértice nas décadas de 40 e 50 Luciane Viana Barros Páscoa1 Resumo: Os pintores Júlio Pomar e Lima de Freitas participaram do movimento Neo-realista em Portugal não somente com sua obra plástica, mas com frequentes artigos em que defendiam uma postura do artista frente aos problemas sociais de seu tempo. Muitos de seus escritos pertencem à Revista Vértice, especialmente dos anos 40 e 50, fase em que o periódico foi um porta-voz do movimento artístico, uma das épocas mais duras da ditadura salazarista, a que muitos artistas reagiram buscando a valorização estética de elemento sociais e humanistas. O resultado disto foi um sentido revolucionário no âmbito do Estado Novo. As experiências pessoais e poéticas destes artistas foram estimuladas por uma visão crítica do materialismo histórico. Palavras-chave: arte portuguesa; neo-realismo; século XX. O movimento Neo-realista em Portugal despontou a partir de 1935 no âmbito literário com um artigo de Álvaro Salema publicado no semanário de literatura e crítica intitulado Gládio. Tratava-se de O antiburguesismo da cultura nova, que se tornou referência clássica pela atitude pioneira e pelo seu esclarecimento ideológico sobre a concepção de uma nova «arte social e humanista» (DIAS, 1996, p.59). Em abril de 1939, Álvaro Cunhal já havia definido sistematicamente o Neo-Realismo artístico nas páginas de O Diabo, vendo nele a expressão de uma tendência histórica progressista. Afirmou que a arte deveria «exprimir a realidade viva e humana de uma época», e que «formas novas podem conter um significado velho e formas velhas, ainda que excepcionalmente podem conter um significado moderno e progressista»(Idem, p.139). Configurava-se para os neo-realistas que o conteúdo era mais importante que a forma, e que como artistas, deveriam estar empenhados com os problemas sociais de seu tempo. Dentre os artistas surgidos nos anos do pós-guerra e comprometidos com uma arte que levasse ao povo uma mensagem de solidariedade, estavam Júlio Pomar (n.1926) e Lima 1 Doutora em História Cultural pela Universidade do Porto. É professora do curso de música da UEA, onde ministras as disciplinas Estética e História da Arte I e II, Filosofia da Arte e Técnicas de Expressão Vocal e Canto Coral I, II e III.
  • 2. 2 de Freitas (1927-1998). Colaboraram freqüentemente com revistas, periódicos e suplementos literários de arte e cultura, como teóricos ativistas do movimento Neo-realista em Portugal. Muitos de seus escritos pertenciam à Revista Vértice, especialmente dos anos 40 e 50, fase em que o periódico foi um porta-voz do movimento artístico, num dos momentos mais duros da ditadura salazarista, a que muitos artistas reagiram buscando a valorização estética de elementos sociais e humanistas. Na obra pictórica de Júlio Pomar, prevaleceram temas que se tornaram ícones do Neo-Realismo: camponeses na colheita do arroz, proletários, pescadores, o homem e sua condição, revelando a influência recebida de Abel Salazar2 , dos muralistas mexicanos3 e do pintor brasileiro Cândido Portinari4 . Lima de Freitas, desenhista minucioso, recuperou uma tradição formal realista e foi membro do Partido Comunista Português, destacando-se como um dos artistas mais comprometidos com a causa social. Manteve-se zhdanovista quando no âmbito dos intelectuais comunistas portugueses surgiu a querela sobre a política soviética e o realismo socialista.(GONÇALVES, 2001, p.187) Muitos neo-realistas integraram o Partido Comunista Português, que se encontrava na clandestinidade. Como a discussão dos princípios e das intenções no movimento neo-realista não se processaram livremente, mas através das revistas e jornais artísticos e literários, o momento foi fértil em debates estéticos e políticos. Os artigos de Júlio Pomar e de Lima de Freitas podem ser apreciados em dois âmbitos: um estético e outro crítico. No primeiro, os autores defendem sua posição ideológica e seu comprometimento com os pressupostos teóricos do Neo-realismo; no segundo, atuam como críticos de arte e mediadores das exposições, sem deixar de lado a intenção de aproximar arte e público. O objetivo maior era que a arte proporcionasse uma transformação social. 2 Abel Salazar (1889-1946) era médico, professor universitário e cientista. Dividiu seus afazeres com a atuação de artista-amador, também escrevendo artigos teóricos em que ligava as artes e as ciências a uma causa social. Gozava de grande prestígio entre os neo-realistas, que consideravam-no uma espécie de precursor. Foi perseguido por motivos políticos, de vez que abordava em seu discurso temática dedicada às mulheres trabalhadoras e às questões sociais sufocadas pela orientação do regime ou pelo conservadorismo que o apoiava. Como resultado disso tornou-se um ícone para os jovens neo-realistas e seu exemplo de homem trabalhador- artista-intelectual com preocupações humanistas e consciência social parece ter multiplicado inspirações na atmosfera neo-realista. 3 Nas artes plásticas as influências dos neo-realistas e seus simpatizantes vinham do México através das obras muralistas de José Clemente Orozco, Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros, e também do Brasil, através do pintor Cândido Portinari e dos romancistas Jorge Amado e Graciliano Ramos. 4 Cândido Portinari foi de modo geral admirado e bem recebido no meio artístico português, independente de sua filiação estética, conforme se verifica nas seguintes fontes: PEDRO, A. Cândido Portinari. Mundo Literário, nº 4. Lisboa, 1 de junho de 1946, p.6.; DIONÍSIO, M, Portinari, pintor de camponeses, Vértice, nºs 30 - 35, volume 12. Coimbra, Maio de 1946.; DIONÍSIO, M. Portinari e Ferreira de Castro. Vértice, nº147, volume 15. Coimbra, dezembro de 1955, p.736-737.; NAMORADO, J. Cândido Portinari, Paris, 1946. Vértice, nº 43, volume 3. Coimbra, janeiro de 1947, pp. 192-200.
  • 3. 3 Lima de Freitas em seu artigo «O Realismo na Pintura»(FREITAS, 1955, vol. 142, p.387-391), conceituou o termo Realismo, definindo o seu significado na pintura. Ressaltou inicialmente que existia uma escolha de temas, os temas reais, e nisto residia um subjetivismo. Exemplificou este conceito com a pintura de paisagem de Brueghel, que buscava «o drama humano no meio natural» (Idem, p.387). Comparou Corot, Cézanne e Turner, sobre o modo como estes artistas faziam a pintura de paisagem, provocando em seguida a pergunta sobre qual deles seria o mais realista, respondendo que cada um é realista a seu modo, porque nenhum se dissociou da realidade: A história mostra-nos que cada nova escolha surge segundo circunstâncias que não são fortuitas. Por vezes, são o fruto de uma lenta preparação, outras vezes irrompem sem antecedentes artísticos evidentes mas em concordância com estímulos históricos, de ordem social, técnica e até mesmo política. Muitas vezes os artistas obreiros de tais inovações são inconscientes e ignoram os motivos profundos que os levaram a buscar isto em vez daquilo. Picasso, por exemplo, disse em 1923 que não procurava, encontrava; embora em 1935 incitasse os jovens a aproveitar as suas investigações. Outras vezes os artistas são conscientes e conhecem as forças que os impulsionam; Goya, por exemplo, sabia bem o que queria e em que chão mergulhava as suas raízes. (Idem, p.388). Nota-se aqui que Lima de Freitas estabelece uma distinção entre o artista que está consciente ideologicamente e aquele que se mantém despreocupado. Cabe mencionar que este confronto ideológico (e com o ideológico) foi assumido pelos neo-realistas, que estavam fundamentados pelo Marxismo-Leninismo ou pelo Socialismo Marxista, que era bem diferente do Socialismo Burguês do século XIX, o da Geração de 1870. Este último era sensível às injustiças sociais e tinha por influência o socialismo de Proudhon, mas seus integrantes repudiavam qualquer ação revolucionária, e em sua concepção o socialismo burguês estaria comprometido com o capitalismo. A partir, porém, da instauração do Estado Novo, as preocupações sociais e políticas erguidas no princípio de século XX acabaram por demonstrar a fragilidade dos fundamentos ideológicos das forças político-sociais tradicionais na oposição ao fascismo. Observa-se então que as duas primeiras gerações do modernismo português estavam desinteressadas dos acontecimentos históricos nacionais ou mundiais, colocando-se numa posição de alheamento. Foi somente na terceira geração modernista, nomeadamente a dos neo-realistas, que ficou demonstrada uma preocupação social.
  • 4. 4 Neste momento de crise, urgia que o artista tomasse uma atitude consciente e que se posicionasse ideologicamente. O não-comprometimento político era mal visto no meio intelectual, principalmente num momento em que crescia a repressão e a perseguição. O esforço realizado em direção ao realismo na pintura mostrava duas preocupações por parte do autor: o afastamento da arte da vida e a valorização excessiva das inovações formais. Lima de Freitas acreditava na existência de uma arte de tendência anti-realista, que se detinha em descobertas formais que não possuíam qualquer utilidade. Serviam apenas quando eram postas em benefício das necessidades humanas: Só na medida em que as descobertas formais são postas ao serviço de uma arte generosa e viva é que se mostram úteis, oportunas e às vezes indispensáveis. Isto não quer dizer que as descobertas formais sejam um exclusivo da arte não realista, muito pelo contrário: quer somente dizer que as formas de arte opostas ao realismo também podem proporcionar descobertas, embora sempre limitadas e particulares. (Idem, 390) Assim, considerava também que não existiam apenas as descobertas formais: elas implicavam em introdução de métodos e idéias que ultrapassavam o domínio da forma pura. No momento em questão, afirmou que todo o esforço em direção ao realismo era difícil, pois a sociedade estava saindo de um período em que a arte estava distante da vida dos homens e que agora desejava retomar o contato com eles. Para o autor, o Neo-realismo artístico absorvia antigas leis e criava novas leis mais gerais e mais amplas: «novas regras ditadas por necessidades mais vastas, frutos dos novos horizontes da vida humana que a arte tem de exprimir mergulhando profundamente no nosso tempo, onde o futuro já está contido.» (Idem, p.391) As relações entre arte e público e a excessiva valorização da técnica e da forma em detrimento ao tema e ao conteúdo da obra plástica já inquietavam Lima de Freitas em 1951, ano em que escreveu o artigo «Caminhos e Crise da Pintura Moderna»(FREITAS, 1951, vol.11, p.717-724). Considerava que o fenômeno do afastamento entre arte e público no seu tempo explicava-se por dois fatores: a reclusão do artista e a ignorância do público diante das novas estéticas. Para ele, a arte moderna atravessava uma crise profunda que era ocasionada em parte pela incompreensão do público, que estava alheio às preocupações do artista. Este por sua vez, isolava-se cada vez mais em sua torre de marfim, passando a criar obras para seu
  • 5. 5 exclusivo prazer pessoal. O autor constatou que já havia divergências entre arte e público desde o final do século XIX: Esboçou-se com o impressionismo, agravou-se com o fauvismo, o cubismo, o expressionismo, culminou quiçá com os dadaístas, os surrealistas e abstracionistas. A história do afastamento recíproco e crescente do público e da arte moderna é a história da Escola de Paris, dos seus escândalos e das suas transformações. (Idem, p.718) A preocupação demasiada com a pesquisa formal levou os artistas da Escola de Paris a colocarem em segundo plano a «significação do discurso pictural», ou melhor, deixou de lado o tema na pintura, que para Lima de Freitas sempre foi o traço de união que liga o artista ao meio em que vive: «Assiste-se pois, à negação e destruição do tema (que os surrealistas, em especial, reduzem a escombros) e à orientação quase exclusiva para a investigação técnica, laboratorial» (Ibidem). Neste sentido, o autor explica que em vários períodos da história da pintura foi exercida uma investigação técnico-formal. Em seguida ele questiona em que sentido os artistas modernos são técnicos. Para ele, o exercício puro da técnica era vazio e alienante, porém, o tema era o veículo do conteúdo: Todo o esforço anterior para eliminar o tema estava errado, porque extrair um tema a uma obra de arte e mantê-la como tal, é o mesmo que tirar a vida a um ser mantendo-o vivo. O que importa não é ressuscitar o tema (ele nunca morreu); o que importa é tomar consciência da sua necessidade e da sua importância categórica; é escolhê-lo e amá-lo, realizá-lo com toda energia, com todo instinto, com toda a lógica. É criá-lo a partir do homem para o homem; é procurar o homem, numa palavra e para dizer tudo. (Ibidem) A aproximação entre arte e público poderia ser efetuada a partir da recuperação do conteúdo humanista nas obras. Lima de Freitas argumentava que era necessário que o artista estivesse conectado ao seu tempo. Desse modo, o autor reafirmou alguns princípios teóricos do Neo-realismo, pois este movimento via o fenômeno literário e artístico como instrumento de análise e correção de existência do homem social e pretendia que a missão do artista-
  • 6. 6 intelectual fosse cumprida através de uma sintonização ao exterior circundante. (REIS, 1983, p.59 e 221) A preocupação de Lima de Freitas com o conteúdo das obras plásticas e seu comprometimento com temas de cunho social e realista, também estava presente em seus artigos de crítica. Numa crítica publicada em maio de 1950, o autor traçou o perfil do Salão da Primavera promovido pela Sociedade Nacional de Belas Artes, marcado por uma orientação acadêmica e oficial: Dir-se-ia que os diversos salões eram sempre uma mesma exposição onde apenas a posição dos quadros tivesse mudado. E na verdade, de repetição se tratava, pois os pintores habituais nada mais faziam (e fazem ainda) que servir-se eternamente de meia dúzia de receitas de cozinha, de meia dúzia de temas, de meia dúzia de efeitos e com esses ingrediente recompor de cada vez, a mesma papa de sabor garantido e clientela fiel. (FREITAS, 1950, vol 9, p.324) Apesar da presença da pintura acadêmica, o Salão da Primavera já apresentava um certo rejuvenescimento para Lima de Freitas. Esta renovação foi atribuída às experiências «dos que almejam a justa expressão realista de um novo conteúdo humano, as experiências abstracionistas e surrealistas, as experiências daqueles que, aceitando a influência mais ou menos autoritária de alguns mestres da Escola de Paris, procuram uma verdade pictórica mais densa» (Idem). Destacava neste sentido, a obra de Querubim Lapa, Navarro Hogan, Júlio Pomar, Arlindo Vicente, Mário Dionísio, Avelino Cunhal, Nuno San Payo, Maria Barreira, Vasco da Conceição, Jorge Vieira e Lagoa Henriques, que com valores, experiências e responsabilidades diferentes, estavam unidos pela vontade comum de renovar a pintura portuguesa. Com um humor pungente, estabeleceu o contraste das obras destes jovens artistas com o que considerava habitual nos salões da Primavera: «marinhas alternando com vasos de flores, vasos de flores alternando com abóboras, abóboras alternando com retratos de meninas chics , tudo isso ricamente emoldurado com dourados e trabalhos de talha, e assinados por nomes cheios de medalhas e menções» (Idem, p.325). Já em uma crítica da VI Exposição Geral de Artes Plásticas (1951), Lima de Freitas reservou um alerta para os jovens pintores, escultores e desenhadores: que não deixassem arrefecer o fogo e a exaltação interior em relação às questões socias e que não permitissem que o sentimentalismo e o lirismo exacerbado ofuscassem a «realidade brutal e
  • 7. 7 impetuosa das coisas e dos homens»(FREITAS, 1951, vol.11, p.319). Um paralelo entre o conteúdo realista e a função da técnica na obra de arte foi habilmente abordado numa crítica executada na ocasião da Exposição de Gravura Francesa Contemporânea, realizada no Palácio Foz em Lisboa, em 1953. O autor questionava o virtuosismo técnico, a experimentação sem objetivo, e depois perguntava: «Mas onde estão os homens?» (FREITAS, 1953, vol.13, p.184). A ausência relativa do conteúdo humano o afligia: Não será descabido, todavia, falar de insatisfação, ao verificar que os artistas franceses, especialmente os mais novos, andam ainda tão distraídos dos problemas fundamentais, tão afastados da saída mais provável, mais razoável, por certo mais difícil, do labirinto que vagueiam. Esse labirinto tece-se de exclusivas preocupações formais, de ensaios estilísticos, de originalidade à força, de rebuscamentos fatigantes, do culto cego de certos mitos.(Idem) Em reação a uma entrevista de Cândido Portinari transcrita do Jornal de Letras do Rio de Janeiro para a Revista Vértice em dezembro de 1952 (COCHOFEL, p.692-693), Lima de Freitas escreveu uma carta aberta ao artista brasileiro em 1953, questionando suas intenções estéticas. Portinari emitira em entrevista prévia algumas afirmações pouco convincentes sobre os fundamentos da orientação realista de seu trabalho. Tais declarações sugeriram uma interpretação contrária ao sentido renovador e social que identificava a sua obra. Isto causou um choque em Lima de Freitas, que como outros jovens artistas portugueses neo-realistas, haviam se inspirado na obra de Portinari. Elaborou então as seguintes questões: (...)o pintor nunca pensa no tema, no significado e no conteúdo?;(...) poderá um conteúdo realista ser expresso por formas abstratas? Quando pintou os Retirantes , de onde partiu? De uma concepção abstrata ou a partir do conhecimento real do drama dos camponeses do Nordeste?; (...) não será uma proposição metafísica afirmar que quem tem técnica sempre pinta bem , na medida em que considera a técnica independente do objeto, na medida em que separa a forma do conteúdo?; (...) não achará Portinari que, depois da experiência dos muralistas mexicanos, depois de sua própria experiência, a igualdade Arte Moderna = Escola de Paris tem um sentido obscuro e limitado?; (...) diz Portinari que queimaria a maioria dos seus quadros anteriores. Porque renega a atitude realista que os ditou? Ou
  • 8. 8 porque, mantendo a mesma atitude realista, considera a sua produção antiga insuficientemente expressiva dessa atitude? É esta afirmação um passo em frente no caminho do realismo, ou um passo à retaguarda? (FREITAS, 1953, vol.13, p.372-373) Para Lima de Freitas, as considerações de Portinari foram impensadas, sem consciência do impacto que uma atitude descompromissada com o conteúdo ideológico de suas obras pudesse causar. Neste sentido é possível evocar as palavras elucidativas de Raul Gomes que, no campo das discussões estéticas do Neo-realismo, fez em 1944 uma distinção entre o Neo-realismo português e o Neo-realismo brasileiro: a) O Neo-realismo em Portugal foi produto de um esforço intelectual e teve que se confrontar com uma disciplina rígida e conservadora, enquanto que o surgimento do Neo-realismo brasileiro teve condições externas favoráveis para um desabrochar espontâneo. b) Em Portugal, houve a necessidade de teorização e de conscientização do movimento, que possui a inspiração de escola , que resultou de uma prévia preparação ideológica de seus cultores, uma literatura de tese. Já o Neo-realismo no Brasil manifestou-se com uma quase inconsciência ideológica de caráter sentimental, dada a mencionada espontaneidade. c) Em Portugal, ele surgiu em meio à crise econômico-social européia, resultante de uma luta de classes de caráter social. O Neo- realismo brasileiro surgiu num contexto de crise de crescimento sócio-econômico, tornando- se o porta-voz das manifestações de um novo sistema histórico. (GOMES, 1944, p.261-262) Diante desta comparação do Neo-realismo literário, é possível traçar um paralelo com seu desdobramento artístico, e no caso específico de Portinari, deve-se considerar a possibilidade de uma inconsciência ideológica de caráter sentimental. Vale lembrar que a posição de Portinari na arte brasileira no início dos anos 50 era bastante controvertida, pois o artista recebia grande pressão por parte dos artistas e dos críticos ligados ao movimento concretista. (PÁSCOA, 1997, p.12)5 Júlio Pomar por sua vez também deteve-se na conceituação e no debate sobre a arte neo-realista. Para ele, o Neo-realismo buscava uma intervenção mais eficaz na realidade, além de oferecer novas propostas para uma vida melhor. Desse modo, o artista neo-realista deveria agir como um homem comum, como um militante entre vários que luta por uma sociedade mais justa. A experiência e o contato com a realidade importavam tanto quanto a 5 O ambiente artístico no Brasil em meados dos anos 50, era dominado pela figura de Cândido Portinari, consagrado pela crítica a ponto de ser considerado um referencial estético: haviam expressões como portinarismo e antiportinarismo , que serviam para identificar trabalhos de outros autores naquela época. Os adeptos do movimento da arte concreta estabeleceram forte oposição à Portinari e ao significado conferido à sua obra, especificamente a consolidação do modernismo no Brasil.
  • 9. 9 teoria, pois só assim, a arte poderia se tornar uma ferramenta para a construção do futuro. Reivindicava do artista um posicionamento efetivo e consciente com relação aos problemas do presente, e é neste sentido que ele efetua uma apreciação inovadora da obra de Abel Salazar, pelas páginas da Vértice. Tratando do significado da obra plástica de Abel Salazar num artigo de 1947, intitulado «Abel Salazar, artista», Júlio Pomar procurou situar o lugar deste personagem no panorama contemporâneo da arte portuguesa, verificando quais lições se poderia dela tirar.(POMAR, 1947, vol.3) Logo advertiu que na obra de Abel Salazar não se deparava com um conjunto coerente, elemento que causou opiniões contraditórias da crítica. Segundo Pomar, quando uma obra era analisada, deveria-se atentar para as suas raízes, para a intenção e para o objetivo do artista. Desse modo, ele identificava que na obra de Abel Salazar havia dois aspectos fundamentais: a necessidade de expressão e de confidência do artista e comparava sua obra às páginas de um diário, com intempestivos relatos de emoção e de uma visão íntima do mundo. Um outro aspecto chamou a atenção de Pomar para o elemento que aproxima Abel Salazar do Neo-realismo: a vida e a luta do povo. Afirmava que esta não era apenas uma afinidade temática, mas uma convicção do artista: Para Abel Salazar o povo não era o modelo, que é sucetível de ser trocado por outro: era a verdade que tinha de ser dita, não importa como, e por todos os meios, era a palavra de ordem nascida do contato com a vida despida de mistificações. Eis o que o faz distanciar-se realmente da toada geral da arte portuguesa do tempo em que viveu, para o colocar como o anunciador do encontro e da identificação com o povo, característica fundamental da jovem pintura. (Idem, p.261) Para Júlio Pomar, uma obra poderia ser considerada neo-realista na medida em que representasse o conteúdo humano e suas contradições: «para a arte, não basta a função de interpretar a vida, mas ela pode e deve ir mais longe, e tornar-se uma arma ao serviço das forças que a transformarão» (Idem). Para ele, Abel Salazar tinha uma posição inequívoca, coerente, e esta posição que o ligou ao povo, posteriormente o ligaria à história dos movimentos artísticos contemporâneos. Segundo Pomar, o artista não retratava apenas o mundo, ele o fazia com sua carga ideológica e isto o vinculava ao meio. Este aspecto social da arte foi abordado no artigo
  • 10. 10 intitulado «A Escola de Paris e a França Viva», no qual escreveu que «a arte age sempre como espelho da vida (embora não só como espelho); nela se refletem os combates e as alianças entre as forças materiais e as forças ideológicas que se sucedem na vida» (POMAR, 1946, vol.3, p.48). Neste sentido, o autor comentou que o artista não poderia assumir uma posição fora da luta e do tempo, pois os que se diziam imparciais, limitavam-se a disfarçar a sua real política oportunista. Não havia, portanto, confusão da arte com política, mas a exigência do papel político do artista com suas obras. Pomar reconheceu que a Escola de Paris era um produto típico da crise histórica da arte moderna, pela tentativa de se afastar da realidade: A arte exprime sempre uma concepção da realidade. Se a realidade é o centro em torno do qual toda a arte gravita, a proximidade, ou o afastamento em que estão uma da outra, dá-nos a medida em que a sociedade que a gerou domina ou se deixa dominar pelos acontecimentos, queda embalada pelo que já adquiriu, ou se lança convictamente a novas conquistas.(Idem, p.49) Júlio Pomar constatou que na primeira metade do século XX, coexistiam diversas noções de realidade e isso exemplificava a crise da arte moderna, que surgiu em meio à crise do conceito de progresso e do racionalismo científico-tecnológico impulsionado pela Segunda Revolução Industrial. Como consequência disso, emergiram várias correntes artísticas que alimentaram uma aversão pelo real (Cubismo, Surrealismo, Dadaísmo), e desse modo a arte moderna se limitou num círculo restrito, por ter se afastado do conteúdo humanista. Segundo o autor, a renovação na arte portuguesa estava firmada sobre o retorno do conteúdo social: «sobre as experiências particulares de cada um, pode talvez dizer-se que esta renovação se orienta, de um modo geral, no sentido de uma aproximação, ou de uma redescoberta do real, na valorização da presença humana» (POMAR, 1953, vol.13, p.504). Os artistas que Pomar considerava responsáveis pela recuperação do elemento humano na pintura portuguesa eram: João Navarro Hogan, Augusto Gomes, Querubim Lapa, Lima de Freitas, Manuel Ribeiro de Pavia, Cipriano Dourado, Rogério Ribeiro, Nuno San Payo e Avelino Cunhal. No ensaio crítico sobre o pintor Augusto Gomes (POMAR, 1953, vol.13, p.347- 349), Júlio Pomar consolidava seu ideário estético, ao identificar neste artista uma renovação pictural derivada de um contato fecundo com a realidade, pela tentativa de integração com seu
  • 11. 11 tempo, de travar um contato com sua terra e sua gente: «Pinto gente do povo, sobretudo mulheres. É o elemento feminino que mais sobressai aqui no Norte. O Norte é, em muito, feito à custa de mulheres»(Idem, p. 349). A necessidade de renovação na pintura portuguesa foi tema corrente em outros artigos de Júlio Pomar, tais como as críticas sobre a 5ª Exposição Geral de Artes Plásticas e a 7ª Exposição Geral de Artes Plásticas (POMAR, 1953, p.327). Para Júlio Pomar, não era suficiente que os artistas neo-realistas abordassem em suas obras as dificuldades do cotidiano popular, pois acreditava que era preciso colocar a arte ao alcance do povo. Neste sentido, Pomar afirmava que o pintor neo-realista deveria optar pela pintura mural, pois só assim atingiria um número maior de pessoas. Esta seria uma das tarefas do artista comprometido com o presente. Em ao menos dois artigos publicados na Revista Mundo Literário (POMAR, 1946, nº24; 1947, nº48), ele argumentava que o público frequentador das exposições vinha a ser, de um modo geral, o mesmo que lia os romancistas ou os poetas. Para ele, além da pintura mural, outros meios técnicos de reprodução (a gravura, por exemplo) deveriam ser reabilitados. Lima de Freitas que também exaltara a pintura mural, chegava mesmo a considera-la o suporte mais nobre da pintura. Esta valorização do artista como mediador, é decorrente do materialismo histórico, pois considera-se neste âmbito que a arte acelera a tomada de consciência (PITA, 2003). Neste conjunto de artigos de Lima de Freitas e Júlio Pomar, destacam-se a preocupação com o conteúdo humano na obra de arte - que não é feita apenas de descobertas formais, e os debates sobre o comprometimento ideológico do artista frente ao seu tempo. Estes artistas viam-se compelidos a oferecer justificativa de suas escolhas estético-artísticas, com profundidade ideológica, ao mesmo tempo que desempenharam uma crítica orientadora, segundo tais elementos neo-realistas. Referências Bibliográficas: COCHOFEL, J.J. Uma entrevista com Portinari. Vértice, vol.12, nº 112. Coimbra, dezembro de 1952. DIAS, L.A.C. A Imprensa Periódica na Génese do Neo-Realismo (1933-45). In: A Imprensa Periódica na Génese do Movimento Neo-Realista. Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo, 1996. DIONÍSIO, M. Portinari, pintor de camponeses, Vértice, nºs 30 - 35, volume 12. Coimbra, Maio de 1946. ____________ .Portinari e Ferreira de Castro. Vértice, nº147, volume 15. Coimbra, dezembro de 1955.
  • 12. 12 FREITAS, L. Caminhos e Crise da Pintura Moderna. Vértice, Vol.11, nº99-101. Coimbra: novembro de 1951/ janeiro de 1952. ____________ .Carta aberta a Portinari. Vértice, vol.13, nº118. Coimbra, junho de 1953. ____________. Exposição de Gravura Francesa Contemporânea. Vértice, vol. 13, nº 118. Coimbra, junho de 1953. ____________. O Realismo na Pintura. Vértice, vol.15, nº142 Coimbra: Julho de 1955. ___________. Pintura, desenho e escultura na VI Exposição Geral de Artes Plásticas. Vértice, vol. 11, nº 94. Coimbra, junho de 1951. ____________ .Salão da Primavera. Vértice, vol. IX, nº81. Coimbra, maio de 1950. GOMES, R. Neo-realismo português e Neo-realismo brasileiro. Seara Nova, nº 872. Lisboa, 29 de abril de 1944. Ano XXIII. GONÇALVES, R.M.(et.al.). Panorama da Arte Portuguesa no Século XX. Coord. Fernando Pernes. Porto, Fundação Serralves/Campo das Letras, 2001. NAMORADO, J. Cândido Portinari, Paris, 1946. Vértice, nº 43, volume 3. Coimbra, janeiro de 1947. PÁSCOA, L.V.B. Ivan Serpa: poética e trajetória (1947-1973). São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1997. PEDRO, A. Cândido Portinari. Mundo Literário, nº 4. Lisboa, 1 de junho de 1946. PITA, A.P. Mistério, Arte e Música. In: SALAZAR, A. Que é Arte? Porto: Campo das Letras/Casa Museu Abel Salazar, 2003. POMAR, J. V Exposição Geral de Artes Plásticas, Vértice, vol.9, nº 82. Coimbra, junho de 1950. ___________. A 7ª Exposição Geral de Artes Plásticas a pintura. Vértice, vol.13, nº 120. Coimbra, agosto de 1953. __________ . A Arte e as Classes Trabalhadoras. Mundo Literário, nº 24. Lisboa, 19 de outubro de 1946. ___________. Abel Salazar, artista. Vértice, vol.3, nº44. Coimbra, fevereiro e março de 1947. _____________. A Escola de Paris e a França viva. Vértice, vol.3, nº 40/42. Coimbra, dezembro de 1946. _____________ .Augusto Gomes. Vértice, vol.13, nº118. Coimbra, junho de 1953. _____________. O pintor e presente, Seara Nova, nº1015, Lisboa, 11 de janeiro de 1947. _____________ .Realismo e Ação. Mundo Literário, nº 48, Lisboa, 5 de abril de 1947 . REIS, C. O. Discurso Ideológico do Neo-Realismo Português. Coimbra: Livraria Almedina, 1983.
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