João Cabral de Melo 
Neto 
3.ª GERAÇÃO DO MODERNISMO NO BRASIL 
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– dois afluentes poéticos: 
poesia-construção 
(preocupação com a 
forma) e poesia-participação 
(preocupação 
social) 
Esta folha branca 
me proscreve o sonho, 
me incita ao verso 
nítido e preciso.
rafabebum.blogspot.com Não a forma encontrada 
como uma concha, perdida 
nos frouxos areais 
como cabelos; 
não a forma obtida 
em lance santo ou raro, 
tiro nas lebres de vidro 
do invisível; 
mas a forma atingida 
como a ponta do novelo 
que a atenção, lenta, 
desenrola, 
aranha; como o mais extremo 
desse fio frágil, que se rompe 
ao peso, sempre, das mãos 
enormes.
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– João Cabral: o poeta-engenheiro 
– linguagem seca, agressiva 
– pratica o antilirismo 
Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.
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E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 
– obra: O Engenheiro, Psicologia da 
Composição, O Cão sem Plumas, O Rio, 
A Educação Pela Pedra
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Uma educação pela pedra: por lições; 
Para aprender da pedra, frequentá-la; 
Captar sua voz inenfática, impessoal 
(pela de dicção ela começa as aulas). 
A lição de moral, sua resistência fria 
Ao que flui e a fluir, a ser maleada; 
A de poética, sua carnadura concreta; 
A de economia, seu adensar-se 
compacta: 
Lições da pedra (de fora para dentro, 
Cartilha muda), para quem soletrá-la. 
Outra educação pela pedra: no Sertão 
(de dentro para fora, e pré-didática). 
No Sertão a pedra não sabe lecionar, 
E se lecionasse, não ensinaria nada; 
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra, 
Uma pedra de nascença, entranha a 
alma.
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– duas imagens: 
a pedra (referência à poesia compacta e à 
aridez do sertão do NE) 
o rio (anseio do sertanejo nordestino)
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Morte e Vida Severina, auto de 
natal pernambucano 
sertão → agreste → zona da mata → litoral 
Trajetória do Severino: 
rio Capibaribe
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Gil Vicente 
Autos: 
– medida velha: versos redondilhos 
– alegorias (representações)
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O meu nome é Severino, 
não tenho outro de pia. (...) 
Mas isso ainda diz pouco: 
há muitos na freguesia (...) 
Severino: alegoria do sertanejo 
E se somos Severinos 
iguais em tudo na vida, 
morremos de morte igual, 
mesma morte severina: 
que é a morte que se morre 
de velhice antes dos trinta, 
de emboscada antes dos vinte, 
de fome um pouco por dia (...) 
Severina: adjetivo neológico
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Morte e Vida Severina, 
auto de natal 
pernambucano 
sertão → agreste → zona da mata → litoral 
Trajetória do Severino: 
rio Capibaribe
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Agreste: 
dois funerais 
(dois Severinos) 
— A quem estais carregando, 
irmãos das almas, 
embrulhado nessa rede? 
dizei que eu saiba. (...) 
— Severino Lavrador, 
irmão das almas, 
Severino Lavrador, 
mas já não lavra. 
uma carpideira
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uma carpideira 
(morte)
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Zona da mata: 
funeral de um lavrador 
— Essa cova em que estás, 
com palmos medida, 
é a cota menor 
que tiraste em vida. 
— é de bom tamanho, 
nem largo nem fundo, 
é a parte que te cabe 
neste latifúndio. 
— Não é cova grande. 
é cova medida, 
é a terra que querias 
ver dividida. (morte)
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Litoral: 
dois coveiros 
carpinteiro José 
— Seu José, mestre 
carpina, 
que diferença faria 
se em vez de continuar 
tomasse a melhor saída: 
a de saltar, numa noite, 
fora da ponte e da vida? 
nascimento de um menino 
vizinhos com presentes 
(morte) 
Estais aí conversando 
em vossa prosa entretida: 
não sabeis que vosso filho 
saltou para dentro da vida? 
(vida)
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Morte e Vida Severina, auto de natal 
pernambucano 
alegoria 
— Severino retirante, 
deixe agora que lhe diga: 
eu não sei bem a resposta 
da pergunta que fazia, 
se não vale mais saltar 
fora da ponte e da vida; 
nem conheço essa resposta, 
se quer mesmo que lhe diga; 
é difícil defender, 
só com palavras, a vida, 
ainda mais quando ela é 
esta que vê, severina; 
mas se responder não pude 
à pergunta que fazia, 
ela, a vida, a respondeu 
com sua presença viva.
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E não há melhor resposta 
que o espetáculo da vida: 
vê-la desfiar seu fio, 
que também se chama vida, 
ver a fábrica que ela mesma, 
teimosamente, se fabrica, 
vê-la brotar como há pouco 
em nova vida explodida; 
mesmo quando é assim 
pequena 
a explosão, como a ocorrida; 
mesmo quando é uma explosão 
como a de há pouco, franzina; 
mesmo quando é a explosão 
de uma vida severina.

João cabral de melo neto

  • 1.
    João Cabral deMelo Neto 3.ª GERAÇÃO DO MODERNISMO NO BRASIL rafabebum.blogspot.com
  • 2.
  • 3.
    rafabebum.blogspot.com – doisafluentes poéticos: poesia-construção (preocupação com a forma) e poesia-participação (preocupação social) Esta folha branca me proscreve o sonho, me incita ao verso nítido e preciso.
  • 4.
    rafabebum.blogspot.com Não aforma encontrada como uma concha, perdida nos frouxos areais como cabelos; não a forma obtida em lance santo ou raro, tiro nas lebres de vidro do invisível; mas a forma atingida como a ponta do novelo que a atenção, lenta, desenrola, aranha; como o mais extremo desse fio frágil, que se rompe ao peso, sempre, das mãos enormes.
  • 5.
    rafabebum.blogspot.com – JoãoCabral: o poeta-engenheiro – linguagem seca, agressiva – pratica o antilirismo Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.
  • 6.
    rafabebum.blogspot.com E seencorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão. – obra: O Engenheiro, Psicologia da Composição, O Cão sem Plumas, O Rio, A Educação Pela Pedra
  • 7.
    rafabebum.blogspot.com Uma educaçãopela pedra: por lições; Para aprender da pedra, frequentá-la; Captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria Ao que flui e a fluir, a ser maleada; A de poética, sua carnadura concreta; A de economia, seu adensar-se compacta: Lições da pedra (de fora para dentro, Cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, E se lecionasse, não ensinaria nada; Lá não se aprende a pedra: lá a pedra, Uma pedra de nascença, entranha a alma.
  • 8.
    rafabebum.blogspot.com – duasimagens: a pedra (referência à poesia compacta e à aridez do sertão do NE) o rio (anseio do sertanejo nordestino)
  • 9.
  • 10.
    rafabebum.blogspot.com Morte eVida Severina, auto de natal pernambucano sertão → agreste → zona da mata → litoral Trajetória do Severino: rio Capibaribe
  • 11.
    rafabebum.blogspot.com Gil Vicente Autos: – medida velha: versos redondilhos – alegorias (representações)
  • 12.
    rafabebum.blogspot.com O meunome é Severino, não tenho outro de pia. (...) Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia (...) Severino: alegoria do sertanejo E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (...) Severina: adjetivo neológico
  • 13.
    rafabebum.blogspot.com Morte eVida Severina, auto de natal pernambucano sertão → agreste → zona da mata → litoral Trajetória do Severino: rio Capibaribe
  • 14.
    rafabebum.blogspot.com Agreste: doisfunerais (dois Severinos) — A quem estais carregando, irmãos das almas, embrulhado nessa rede? dizei que eu saiba. (...) — Severino Lavrador, irmão das almas, Severino Lavrador, mas já não lavra. uma carpideira
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  • 16.
    rafabebum.blogspot.com Zona damata: funeral de um lavrador — Essa cova em que estás, com palmos medida, é a cota menor que tiraste em vida. — é de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe neste latifúndio. — Não é cova grande. é cova medida, é a terra que querias ver dividida. (morte)
  • 17.
    rafabebum.blogspot.com Litoral: doiscoveiros carpinteiro José — Seu José, mestre carpina, que diferença faria se em vez de continuar tomasse a melhor saída: a de saltar, numa noite, fora da ponte e da vida? nascimento de um menino vizinhos com presentes (morte) Estais aí conversando em vossa prosa entretida: não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida? (vida)
  • 18.
    rafabebum.blogspot.com Morte eVida Severina, auto de natal pernambucano alegoria — Severino retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga; é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva.
  • 19.
    rafabebum.blogspot.com E nãohá melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida; mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida; mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida severina.