Escola Superior de Educação de Setúbal
                            Licenciatura em Educação Básica


                                    A Revolta das Letras
         Era uma vez um conjunto de 26 letras que formavam uma grande família a que
toda a gente chamava alfabeto. Esta família tinha um trabalho muito importante, e eram
muito boas a realizá-lo. Quando alguém precisava das letras, lá vinham elas, umas vezes
devagar outras vezes depressa, umas vezes pequeninas, outras vezes grandes, umas
vezes atrapalhadas outras vezes ligeirinhas, mas estavam sempre prontas a ajudar quem
queria escrever. Começavam por se juntar em palavras, depois frases e eram capazes de
construir grandes textos e até livros de histórias que as crianças gostavam tanto de ouvir
e ler.
         Durante muito tempo tudo correu bem e as letras eram felizes, porém, certo dia,
os meninos e meninas de Portugal começaram a cansar-se de escrever, achavam que
levava muito tempo e que era cansativo demais, por isso tiveram a ideia de deixar de
escrever as palavras como elas são, faziam abreviaturas, excluíam letras, inventavam
palavras mais pequenas a que davam significados que só elas entendiam, e as amigas
letras começaram a ficar desanimadas. Assim, resolveram reunir-se e discutir a situação.
         - Não percebo o que se passa, agora raramente me usam para escrever – disse o
S tristemente - Será que já não gostam de mim?
         - São é ingratos! Nós sempre fomos tão prestáveis e é assim que nos agradecem.
– Exclamam o C e o H.
         - Não sei porque se queixam tanto, eu até estou muito satisfeito – disse o X –
Tenho imenso trabalho e toda a gente gosta de mim!
         - É, eu concordo – responde o K muito envaidecido – cada vez que uma criança
escreve uma mensagem no telemóvel ou conversa com outros na internet utilizam-me
sempre. Eu estou na moda, sou fixe!
         - Olhem os gabarolas! Então não vêm que a continuar assim as nossas crianças
nunca aprenderão a escrever correctamente? O problema não é elas escreverem desta
maneira entre elas, é fazerem-no até nas aulas, nos testes e nos trabalhos – disse o Q
         - Amigos tenham calma, parem de discutir, temos de encontrar uma solução para
este nosso problema – disse o A pensativamente.
         - Podia-mos tentar conversar com as crianças – acrescenta o E com ar tímido.
         - Boa ideia E! Vamos a isso! – Exclama entusiasticamente o O.




             Língua Portuguesa e Tecnologias de Informação e Comunicação
                                      2009/2010
Escola Superior de Educação de Setúbal
                           Licenciatura em Educação Básica
       Todas as letras se juntaram para irem conversar com as crianças, mas estas nem
ligaram, bem podiam as letras fazer trinta por uma linha que era o mesmo que nada.
       Então, zangadas, as letras convocaram uma greve geral, não iam mais aparecer
quando precisassem delas, tinham ficado muito ofendidas pela maneira como tinham
sido tratadas. Apenas o X e o K continuaram a trabalhar: “Mais vale duas letras boas,
que muitas que não servem para nada”, diziam eles convencidos.
       No princípio as crianças não ligaram à greve, não tinham mesmo dado conta que
algo fora do normal se passava, mas depois começaram a receber testes e trabalhos
negativos porque os professores não gostavam que escrevessem apenas com duas letras,
não se percebia nada, nem ao escreverem umas para as outras se entendiam.
       Finalmente, dando conta da ofensa que fizeram às letras, as crianças foram falar
com elas e pediram-lhes que reconsiderassem e pusessem fim à greve, pois iriam
esforçar-se por não as desrespeitar. Mas as letras ofendidas não as queriam escutar, e
foram o X e o K que intercederam por elas.
       - Amigas, ouçam as crianças, elas estão a ser sinceras. Nós também queremos
que voltem, já não aguentamos tanto trabalho, e não gostamos de estar sempre cobertos
de riscos vermelhos de erros ortográficos. Desculpem por termos sido tão desleais para
com vocês, agora percebemos que separadas não valemos muito, mas juntas fazemos a
diferença.
       - É isso mesmo. A união faz a força! – Disse alegremente o B.
       - Nós perdoamos-vos meninos, a greve acabou. E também prometemos ser mais
tolerantes no futuro – finalizou o A.
       E foi assim que as crianças e as letras se voltaram a entender e até hoje
continuam grandes amigas.



                                                                            Ana Santos




             Língua Portuguesa e Tecnologias de Informação e Comunicação
                                      2009/2010

HistóRia A Revolta Das Letras

  • 1.
    Escola Superior deEducação de Setúbal Licenciatura em Educação Básica A Revolta das Letras Era uma vez um conjunto de 26 letras que formavam uma grande família a que toda a gente chamava alfabeto. Esta família tinha um trabalho muito importante, e eram muito boas a realizá-lo. Quando alguém precisava das letras, lá vinham elas, umas vezes devagar outras vezes depressa, umas vezes pequeninas, outras vezes grandes, umas vezes atrapalhadas outras vezes ligeirinhas, mas estavam sempre prontas a ajudar quem queria escrever. Começavam por se juntar em palavras, depois frases e eram capazes de construir grandes textos e até livros de histórias que as crianças gostavam tanto de ouvir e ler. Durante muito tempo tudo correu bem e as letras eram felizes, porém, certo dia, os meninos e meninas de Portugal começaram a cansar-se de escrever, achavam que levava muito tempo e que era cansativo demais, por isso tiveram a ideia de deixar de escrever as palavras como elas são, faziam abreviaturas, excluíam letras, inventavam palavras mais pequenas a que davam significados que só elas entendiam, e as amigas letras começaram a ficar desanimadas. Assim, resolveram reunir-se e discutir a situação. - Não percebo o que se passa, agora raramente me usam para escrever – disse o S tristemente - Será que já não gostam de mim? - São é ingratos! Nós sempre fomos tão prestáveis e é assim que nos agradecem. – Exclamam o C e o H. - Não sei porque se queixam tanto, eu até estou muito satisfeito – disse o X – Tenho imenso trabalho e toda a gente gosta de mim! - É, eu concordo – responde o K muito envaidecido – cada vez que uma criança escreve uma mensagem no telemóvel ou conversa com outros na internet utilizam-me sempre. Eu estou na moda, sou fixe! - Olhem os gabarolas! Então não vêm que a continuar assim as nossas crianças nunca aprenderão a escrever correctamente? O problema não é elas escreverem desta maneira entre elas, é fazerem-no até nas aulas, nos testes e nos trabalhos – disse o Q - Amigos tenham calma, parem de discutir, temos de encontrar uma solução para este nosso problema – disse o A pensativamente. - Podia-mos tentar conversar com as crianças – acrescenta o E com ar tímido. - Boa ideia E! Vamos a isso! – Exclama entusiasticamente o O. Língua Portuguesa e Tecnologias de Informação e Comunicação 2009/2010
  • 2.
    Escola Superior deEducação de Setúbal Licenciatura em Educação Básica Todas as letras se juntaram para irem conversar com as crianças, mas estas nem ligaram, bem podiam as letras fazer trinta por uma linha que era o mesmo que nada. Então, zangadas, as letras convocaram uma greve geral, não iam mais aparecer quando precisassem delas, tinham ficado muito ofendidas pela maneira como tinham sido tratadas. Apenas o X e o K continuaram a trabalhar: “Mais vale duas letras boas, que muitas que não servem para nada”, diziam eles convencidos. No princípio as crianças não ligaram à greve, não tinham mesmo dado conta que algo fora do normal se passava, mas depois começaram a receber testes e trabalhos negativos porque os professores não gostavam que escrevessem apenas com duas letras, não se percebia nada, nem ao escreverem umas para as outras se entendiam. Finalmente, dando conta da ofensa que fizeram às letras, as crianças foram falar com elas e pediram-lhes que reconsiderassem e pusessem fim à greve, pois iriam esforçar-se por não as desrespeitar. Mas as letras ofendidas não as queriam escutar, e foram o X e o K que intercederam por elas. - Amigas, ouçam as crianças, elas estão a ser sinceras. Nós também queremos que voltem, já não aguentamos tanto trabalho, e não gostamos de estar sempre cobertos de riscos vermelhos de erros ortográficos. Desculpem por termos sido tão desleais para com vocês, agora percebemos que separadas não valemos muito, mas juntas fazemos a diferença. - É isso mesmo. A união faz a força! – Disse alegremente o B. - Nós perdoamos-vos meninos, a greve acabou. E também prometemos ser mais tolerantes no futuro – finalizou o A. E foi assim que as crianças e as letras se voltaram a entender e até hoje continuam grandes amigas. Ana Santos Língua Portuguesa e Tecnologias de Informação e Comunicação 2009/2010