Objetivos Específicos
•	 Aplicaraconceituaçãodelimitesdecrescimentoemestudosdecasoemdiversos
campos do saber na sua relação entre ética, cidadania e sustentabilidade.
Temas
Introdução
1 Hervé Juvin: natureza e cultura são indissociáveis
2 O pensamento de Gilles Lipovetsky: o planeta-consumo
3 Uma nova era cultural: transformação da cultura em negócio e transformação
de negócio em cultura
4 Técnica é dispositivo da cultura-mundo: pode ser boa ou ruim à sociedade
Considerações finais
Referências
Mônica Rodrigues da Costa
Ética, Cidadania e Sustentabilidade
Aula 16
Professor
Por um planeta sustentável II
Senac São Paulo- Todos os Direitos Reservados
Ética, Cidadania e Sustentabilidade
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Introdução
Estudamos hoje a globalização ocidental sob a ótica dos autores Gilles Lipovetsky, que é
professordefilosofiaesociólogofrancês,eHervéJuvin,queéeconomista,ensaístaepresidente
criador da empresa de consultoria Eurogroup Institute, com base no livro desses autores,
escrito a quatro mãos, Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária.
Vemos como a atualidade é complexa: há uma lógica de mercado, de consumo e técnica
que dialoga com questões ambientais, culturais e de produção.
Hervé Juvin fala sobre a relação intrínseca entre a cultura e a natureza e como o uso
irrestrito dos recursos naturais – com sua condição de recursos limitados ou finitos – é uma
ameaça à vida do homem no planeta, já que esgota as fontes vitais, compromete valores e
torna escassos os meios de sobrevivência.
Gilles Lipovetsky reafirma, conforme filósofos como Theodor Adorno e Herbert Marcuse,
que a cultura se torna um valor econômico, entrando no imaginário popular através dos
meios de comunicação e de estratégias de marketing, e traz, incessantemente, novidades e
inúmeras opções que se tornam obsoletas de forma muito rápida. Trata-se de um paradigma
de hiperconsumo alimentado pelas técnicas comunicacionais.
Sobre a técnica, em especial, o sociólogo a apresenta em diversas facetas. Ao mesmo
tempo que ela representa uma ameaça ao meio ambiente, por exemplo, ela também funciona
como um antídoto ou um modo de reduzir os impactos provocados pela lógica mercadológica
e capitalista. Surge, então, a partir desse pensamento, a preocupação com a sustentabilidade
e com o futuro da humanidade.
Gilles Lipovetsky e Hervé Juvin mostram os lados bom e ruim do atual paradigma da
cultura-mundo.  
Boa aula!
1 Hervé Juvin: natureza e cultura são indissociáveis
No livro Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária,
Hervé Juvin, junto com Gilles Lipovetsky, sociólogo e professor de economia,
fala sobre os efeitos da globalização na sociedade atual. Leia entre as páginas
144 a 148 para compreender o texto contextualizador.
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Como vimos anteriormente, o Ocidente funciona sob o paradigma da cultura-mundo,
cujos valores e cultura são guiados pela lógica do mercado.
São muitos os efeitos criados pela globalização e pela cultura-mundo de que fala Hervé
Juvin no capítulo “Cultura e Globalização”.
O economista destaca o modo como a natureza é afetada pelo liberalismo econômico
e, por consequência, como a vida do homem também é abalada – isso porque é por meio
da natureza que obtemos nossos meios de vida e de sobrevivência: alimentos, roupas,
moradia. A exploração desenfreada da natureza gera escassez que, por sua vez, gera crises
e conflitos.
Para Juvin, eliminar a natureza e se distanciar dela também trazem consequências
políticas e morais.
A primeira eliminação a que se consagrou o liberalismo econômico foi a da natureza.
Sentimos na pele os seus efeitos. A crise de 2007 teve início no contexto do aumento
do preço do petróleo, que passou a 150 dólares por barril. A isso se seguiram
rebeliões por causa da fome e da escassez de alimentos. Ainda só nos é dado entrever
as consequências morais e políticas de um mundo apequenado, disperso e calculista,
no qual o suposto predomínio do homem sobre a natureza conduziu a uma espécie
de exílio da natureza humana no campo da experiência e ao fenecimento dos
inumeráveis símbolos fornecidos por ela ao saber coletivo e ao imaginário político e
religioso. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 96).
Hervé Juvin atribui à ruptura do homem com a natureza a causa do desaparecimento de
noções do sagrado, do divino e do repertório dos encantos simbólicos presentes no planeta.
Caminhamos em direção ao estilo dos japoneses, para os quais um vasinho com um
tantinho de água e três cascalhos já bastam para ter contato com a natureza – a nossa
culturaéchamadaatornar-seanossanatureza.Osefeitosresultantesdessaamputação
da realidade impõem-nos uma reflexão. Começamos por sustentar que uma grande
parte de nossas representações imaginárias, que são comuns entre os aruaques,
os venezianos e os asquenazes, vai se extinguindo por causa do distanciamento da
natureza e de nosso alheamento dos fenômenos naturais, que intentamos manipular
continuamente. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 96 e 97).
Desse modo, Hervé Juvin (2012, p. 97) atribui à natureza a condição real da cultura, da
qual construímos arquétipos: “[...] Por meio dos animais, era a cultura da vida e da morte, do
sofrimento e do perdão, de raças e de espécies, era a cultura dos ritmos, das temporadas e
estações, do clima e do acaso”, delineia o economista.
Quando esses figurantes dos serões, em torno da sanfona e das bordadeiras, entoam
um cântico, no centro de Pey-en-Velay – ‘minha terra, eu a trago sempre comigo na
pele... Tu bem sabes, ó minha terra, logo mais, eu voltarei para ti’ –, sem o saber,
cantam o luto de uma ordem milenar da vida e da morte, que, desde o início, esteve
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associada ao gênero humano. O homem é o primeiro dentre os animais a não ter
medo do fogo e que enterra seus mortos. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 99).
Para Hervé Juvin (LIPOVESTSKY, 2012, p. 99), natureza e cultura são indissociáveis.
Assim, defende o autor, do mesmo modo que 2010 foi chamado “o ano da biodiversidade”,
questiona-se quando serão proclamados os anos da “diversidade humana, da recuperação
das culturas, das civilizações e das identidades ameaçadas de extinção, por efeito da agressão
da cultura-mundo”.
Supondo-se que a cultura ainda seja o que sucede com a natureza, na história
da indústria e do engenho humanos, presumindo-se que cultura e natureza se
contraponham como duas margens de um rio em cujas águas singram iniciativas
e sonhos humanos, deve-se concluir que o rio corre fora de seu leito, e que os
pontos de referência deixaram de existir. Isso porque a eliminação da natureza como
natureza – isto é, gratuidade, superabundância, amplitude ilimitada – também é,
irremediavelmente, eliminação da cultura, ou, pelo menos, dessa cultura que era
transfiguração da natureza. Tendo perdido o seu ponto de apoio, ela rodopia agora na
vertigem. Dar forma e conteúdo à natureza é igualmente e pelo mesmo movimento
dar forma e conteúdo à cultura, a outra cultura. O fim da natureza é também (talvez
sobretudo) o da cultura. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 100).
2 O pensamento de Gilles Lipovetsky: o planeta-consumo
No capítulo “O Reino da Hipercultura: Cosmopolitismo e Civilização Ocidental”, do livro
Globalização ocidental: Controvérsia sobre a cultura planetária, Gilles Lipovetsky fala sobre
o fim das fronteiras entre as culturas, afetadas pelo consumo mercantil desmedido. Os bens de
consumo e serviço são produzidos em grande escala, em ritmo acelerado, e trazem constantes
novidades com um grande leque de opções e tipos de produto. Nesse sentido, afirma o autor,
desenvolve-se a cultura do “hiper”, que também é alimentada pelo comércio virtual:
Estamosempresençadeumaculturadehiperconsumismo,alicerçadanumaeconomia
de inspiração pós-fordiana, cujos principais vetores são a multiplicidade de escalas e
opções, a hipersegmentação dos instrumentos de mercado, a aceleração do ritmo
de lançamento de novos produtos, a proliferação da variedade e a protuberância
midiática. Eis uma nova economia de consumo que desempenha a função de hiper
em todas as coisas: sempre mais gigantesca (hipermercados e centros comerciais de
extensão descomunal); sempre mais rápida (comércio on-line); sempre mais créditos
fáceis e endividamento familiar (acarretando esses efeitos calamitosos, como é o caso
da recessão mundial, desencadeada a partir da crise dos subprimes); sempre mais
marcas de alta qualidade, dispêndios em produtos de luxo; em termos mais genéricos,
objetos, modas, viagens, músicas, jogos, parques temáticos, além de comunicação,
imagens, obras de arte, filmes, séries de TV. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 18).
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Para o autor (2012, p. 18), nossas ações e relações, aquilo que experimentamos
diariamente, consistem em uma “relação comercial”.
Cada vez mais é permitida a escolha individual ao homem ocidental, que passa a agir de
modo a comercializar quase tudo integralmente, explica Lipovetsky:
[...] Não apenas de objetos, como também da cultura, da arte, do tempo, da
comunicação, da procriação, da vida e da morte. O capitalismo do hiperconsumo
destaca-se por essa protuberância da esfera mercantil, associada a uma formidável
expansão da lógica consumista da escolha individual, doravante presente em todos os
domínios da vida. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 18).
O sociólogo aponta para uma tendência ao hiperconsumo nas sociedades ocidentais.
Para ele, acontece uma aspiração generalizada nesse sentido. “Em nossos países, até os mais
desprovidos de recursos interiorizaram os valores consumistas e tornaram-se mais ou menos
hiperconsumidores, particularmente de imagens e mídias”, diz Lipovetsky (2012, p. 19).
Uma das facetas apresentadas pelo hiperconsumismo é relacionada pelo autor tanto ao
bem-estar material como à busca da felicidade; do melhor-viver e do aperfeiçoamento da
saúde – impostos como direitos humanos sob um horizonte universal das sociedades.
Apesar disso, o autor fala sobre a impossibilidade de os padrões de consumo serem iguais
para todas as pessoas, já que isso só seria viável se houvesse mais planetas para atender a
demanda de todos na Terra:
Mas, se existe, apesar de tudo, uma dimensão moral no consumismo hipermoderno,
também há algo anárquico, de desarrazoado, de profundamente irresponsável, haja
vista até que ponto o modo de viver daí derivado se mostra devastador do meio
ambiente e impróprio para uma aplicação generalizada ao mundo inteiro. Se os
quase seis bilhões de humanos vivessem como os habitantes dos países ricos, seriam
necessários vários planetas para prover as necessidades de todos. (LIPOVESTSKY,
2012, p. 20).
Daí a importância da prática da sustentabilidade, defende o autor, que apresenta como
relevantes questões como:
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Mesmo propondo um modo ideal sobre como as pessoas devem consumir e as
empresas devem produzir, Lipovetsky apresenta uma realidade amarga no que diz respeito à
sustentabilidade que, para o sociólogo, não freia a sociedade hiperconsumista, mas apenas a
faz atuar de modo mais preocupado com o futuro e com o meio ambiente.
Assim, não é uma rígida economia que vai sendo elaborada, e sim uma economia
ecológica com baixa emissão de carbono que, favorecendo a eficácia energética, seria
capaz de reaquecer a demanda de maneira sustentável. Deixemos de quimeras. Nem
o crescimento da onda verde e tampouco os hábitos de compra ecológicos estão em
condiçõesderefrearacomercializaçãoexponencialdenossosmodosdevida,asformas
do exercício do poder e o gosto por marcas. O mesmo vale dizer da apetência pelas
novidades, inseparável das sociedades desenraizadas de seus vínculos tradicionais,
em cujo contexto o consumo desempenha a função de estímulo existencial ou
compensação perante as misérias da vida. Não se pode abandonar sumariamente a
economia do consumo fútil e supérfluo: um eventual reino do consumidor racional,
cidadão e razoável corre o risco de rapidamente mostrar os seus limites. Permanece,
pois, que o modelo de crescimento sustentável é o único meio disponível para que
se difunda por toda a extensão do planeta o modelo hiperconsumista, livre, porém,
de sua forma primitiva, despreocupada com o futuro e com o meio ambiente.
(LIPOVESTSKY, 2012, p. 21).
3 Uma nova era cultural: transformação da cultura em
negócio e transformação de negócio em cultura
Gilles Lipovetsky fala sobre a tendência de culturalização da economia. Nesse sentido,
marcas atuam hoje de modo a agregar em seus produtos alguns valores estéticos e culturais,
afirma o autor.
Vem surgindo, desse modo, novos conceitos atrelados às marcas, que buscam definir seu
posicionamento no mercado e se destacar, tornando-se diferenciadas.
Ademais, numerosas marcas constroem agora sua identidade com base numa
comunicação fundada em mensagens sensoriais, propostas éticas e compromissos de
respeito ao meio ambiente. As marcas (no intuito de se posicionar e se diferenciar)
passaram a integrar sistematicamente a dimensão estética e narrativa, ética e
criativa, de modo que o imaginário cultural já não pode ser equiparado a um mundo
desinteressado, planando acima do universo da produção. Qualquer grande marca,
nos dias atuais, se pretende ‘cultural’, isto é, um universo de vida, aparência, espírito,
conjunto de valores, relato, visão do mundo. Hoje, as pessoas só se comprometem se
lhes for apresentada uma história. Por isso, a nova era cultural significa igualmente
transformação da cultura em negócio e transformação de negócio em cultura.
Resumindo, a cultura-mundo caminha para uma hibridização entre alta tecnologia e
moda, comércio e estética, tendências e tradições, propaganda e apelo aos sentidos,
gestão de negócios e comunicação narrativa. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 25).
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Assim como a cultura se iguala à economia, ela também se aproxima da moda, explica
Lipovetsky. Os símbolos do cotidiano acabam incorporados pela cultura-mundo. Próxima
da moda, a cultura-mundo passa por processos acelerados de renovação e se volta para a
estetização e para a sedução pelas aparências, afirma o autor.
Para o sociólogo (2012, p. 25), esse fenômeno embaralha nossos referenciais ao mesmo
tempo que “[...] confere um aspecto lúdico às correlações entre coisas e sentidos”. Escreve
o autor: “Com o advento da cultura-mundo, empreende-se a cosmetização hiperbólica
da vida cotidiana mercantilizada. A cultura, portanto, que era o patamar da nobreza e da
profundidade, põe-se a serviço da fugacidade frívola”.
4 Técnica é dispositivo da cultura-mundo: pode ser boa ou
ruim à sociedade
Gilles Lipovetsky (2012, p. 26) apresenta o terceiro dispositivo da cultura-mundo: a ordem
técnico-científica, que se soma ao mercado e ao consumo. Por técnica o autor compreende
“a cultura da eficácia generalizada e ilimitada”:
De fato, fora das vias do tecnicismo exponencial, da utilização otimizada dos meios
disponíveis, da espiral da alta tecnologia, não há saída. Em todo o mundo, o sistema
técnico criado pelo Ocidente é instaurado como um imperativo absoluto, como a
via de acesso ao desenvolvimento e como condição para a construção do futuro.
(LIPOVESTSKY, 2012, p. 25).
Na atualidade, afirma Lipovetsky, países emergentes já conseguem competir com a até
então soberania técnica de países do Ocidente – no campo da informática, da biotecnologia
e da indústria farmacêutica. A China, por exemplo, possui um grande número de publicações
em nanotecnologias e no setor da química que ultrapassam as dos Estados Unidos.
Apesar de o Ocidente ainda estar em primeiro lugar no que tange a alta tecnologia,
Lipovetsky observa uma tendência de mudança nesse quadro em direção ao fim de tal
monopólio. Assim, o autor fala da emergência de uma “universalidade geográfica da sociedade
tecnicista”:
Essa universalidade geográfica da sociedade tecnicista se desdobra na universalidade
que se refere ao seu campo de aplicação. Isso porque o fator técnico se dirige a todos
os aspectos da vida. Ele se apodera de todos os domínios da existência passíveis de
mudança, tanto das imensidades descomunais como do infinitamente minúsculo. No
momento atual, faz-se notar na publicidade, nas formas de lazer, na informação, na
comunicação, assim como na saúde, na sexualidade, nos diversos aspectos da conduta
em relação ao corpo, que também estão em vias de se globalizar. A forma de tomar
banho, de utilizar um xampu ou um creme dental, o critério de escolha do número
de telefone, o modo de clicar sobre o mouse do computador, a preferência por
determinada roupa íntima, a questão da pílula anticoncepcional – por via da Técnica,
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vai-se universalizando uma infinidade de gestos elementares do corpo. (LIPOVESTSKY,
2012, p. 26 e 27).
Por que a técnica é tão importante na cultura-mundo? Para Lipovetsky, a resposta
consiste no fato de que tal instrumental fornece soluções para mazelas como problemas de
saúde e de vida, ou, ainda, de envelhecimento ou de comunicação – tudo pode ser facilitado
pela técnica, que também pode ser ao mesmo tempo causa para problemas ambientais e
solução para eles – ou seja, a técnica pode contribuir para o desenvolvimento sustentável.
Outra faceta da técnica é sua função ordenadora da cultura e sua competência
universalizante. “A técnica vai além da técnica”, conforme explica Lipovetsky:
A Técnica já não é uma simples parte da civilização; tornou-se a própria lógica de
ordenamento de nossas culturas e de todas as dimensões da vida, quer na ordem
econômica ou social, quer na ordem cultural ou individual. Hoje, a Técnica vai além
da técnica, originando uma forma de ser e pensar que reestrutura a reorienta todas
as culturas do mundo. O universo da Técnica se situa além das máquinas. Afigura-se
como a linguagem universal da performance, assim como o aparelhamento intelectual
e cultural que torna possível a utilização das técnicas. É um universalismo técnico
idêntico em todos os lugares, que unifica os modos de agir e viver, que mobiliza
os mesmo símbolos, o mesmo sistema de normas e valores – a saber, a eficácia
instrumental, a racionalidade operacional, a calculabilidade inerente a cada coisa, a
utilização otimizada dos meios a serviço de um fim. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 27).
Apesar da função ordenadora da Técnica (isso mesmo, com letra maiúscula, conforme o
autor), Lipovetsky (2012, p.27) não acredita em seu poder unificador. O sociólogo lembra que
as culturas possuem passado histórico. Surgem, também nesse contexto, “multiplicidades
políticas e culturais” que comprometem a ideia de unificação pela Técnica. Outro dado
comprometedor para a unidade é o fato de as sociedades se fragmentarem e terem diversas
referências como parâmetros. O autor (2012, p.28) ressalta: “A tecnicização do mundo não
garante de modo algum o triunfo final das democracias liberais”.
Lipovetsky diz que a Técnica contribui para a noção de interdependência entre culturas,
bem como torna visíveis os riscos e as catástrofes ambientais provocadas pela ação do homem.
Esse mundo hiperbólico remodelado pela Técnica frequentemente nos deixa
expostos a grandes riscos, a verdadeiras catástrofes globais – poluição atmosférica,
falta de conhecimento sobre os organismos geneticamente modificados (OGM),
dejetos nucleares, aquecimento global, epidemia da vaca louca, esgotamento da
biodiversidade. Riscos diversos, cuja nota característica está em ignorar os limites das
fronteiras nacionais. É com a cultura-mundo tecnicista que se define o sentimento
de fazer parte de um mundo interdependente, assim como a tomada de consciência
sobre a globalidade dos riscos e as relações cosmopolitas. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 28).
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O autor defende que, diante das crises ambientais com que o homem se depara na
atualidade, é sua obrigação incorporar valores como a preservação do meio ambiente,
por exemplo. Assim, para Lipovetsky, do mesmo modo que a ordem técnico-mercantil se
apresenta como uma ameaça, por meio dela as transformações sociais são viabilizadas, e ela
precisa colaborar para um futuro melhor.
Em decorrência da degradação da biosfera e dos riscos mundiais engendrados pela
combinação da Técnica com o capitalismo, desenvolve-se igualmente uma figura típica
da cultura-mundo, que menospreza os obstáculos ou as barreiras nacionais: os valores
ecológicos e seus imperativos de preservar a existência, a longo prazo, da humanidade
numa Terra habitável. Desse ponto de vista, cada um de nós é interpelado, em
todos os recantos do planeta, a promover o crescimento verde, o desenvolvimento
sustentável, novas fontes de energia pura, o consumo ecológico. Essa peça da cultura-
mundo, a exemplo da competição no capitalismo globalizado, se consagra não como
uma escolha voluntária, mas como uma obrigação, uma reação de sobrevivência
perante uma realidade amplamente incontrolável e indesejada. De um lado, nunca a
ordem técnico-mercantil pôde criar tantos riscos extremos e tantos sentimentos de
falta de domínio acerca de nosso próprio destino. De outro, nunca foram tão grandes
as possibilidades de reinventar um novo gênero de desenvolvimento, novos modos de
produção e consumo. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 28 e 29).
Desse modo, Lipovetsky apresenta as duas faces de uma mesma moeda: os temores e
a esperança caminham lado a lado diante do sistema da técnica – que permite ao homem
sonhar com melhorias na sua existência, como o aumento da expectativa de vida, saúde
plena, juventude eternizada, entre outros elementos listados pelo autor.
Apesar de esses desejos não estarem, de acordo com o autor, tão longe do alcance
dos homens, Lipovetsky (2012, p. 29) questiona: “O que se espera senão um acréscimo da
felicidade para os homens?”.
O sociólogo constata que, na atualidade, mesmo com os avanços da técnica, existem
diferenciações entre a solução de infortúnios, a cura de mazelas e a promoção da felicidade
plena, ou seja, a verdadeira alegria não é manipulada em laboratórios ou vendida nas farmácias.
Graças aos “milagres” da Técnica, a expectativa de vida não cessa de crescer. Vive-
se mais e com melhor saúde; o número de nascimentos é controlado; as condições
materiais de existência da maior parte das populações vão experimentando melhoras.
Os sonhos dos modernos, associados às “maravilhas” da Técnica, estão mais vivos do
que nunca, apesar dos novos temores gerados pelo progresso. Todavia, a felicidade
não avança no mesmo compasso. Assim, embora hoje o consumo de energia seja
três vezes maior do que na década de 1960, daí não se deduz que nossa proporção
de felicidade tenha triplicado. Em sentido análogo, numa comparação com as três
últimas décadas, verificamos que o poder de compra das classes médias quase
dobrou na França. Devemos concluir, então, que a felicidade aumentou em dobro?
Em contrapartida, a ansiedade se multiplica, assim como os índices de depressão,
as tentativas de suicídio e as manifestações do sofrimento de viver. Evidentemente,
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a sociedade da Técnica revela-se mais apta a reduzir os grandes infortúnios do que
produzir a alegria de viver. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 29).
Considerações finais
Com base na leitura do livro Globalização Ocidental: controvérsia sobre a cultura
planetária, escrito por Gilles Lipovetsky e Hervé Juvin, concluímos que não é possível unificar
a cultura de um modo simplista, apesar do fenômeno da globalização.
Na visão desses autores, o homem está inserido no paradigma da cultura-mundo, regida
pela lógica do mercado. Assim, ocorre o processo de culturalização da economia: arte, livros,
músicas, programas de TV e diversos outros produtos começam a ser inseridos na lógica
comercial e perdem qualquer outro tipo de valor.
A ordem é a do consumo como forma de satisfação do indivíduo – para curar feridas,
anseios, frustrações. O homem deixou de buscar conforto no sagrado, somente o encontra
por meio das compras.
Aumentamasvariedadesdeprodutoseasopções delazer(sempreassociadasaoconsumo
e ao mercado), mas a felicidade real ainda não foi industrializada e não pode ser vendida.
A tecnologia, somada ao mercado e ao consumo, é outro dispositivo da cultura-mundo. Ao
mesmo tempo que ela contribui para alimentar a cultura-mundo, aumentando a expectativa
de vida do homem, melhorando sua saúde, ampliando o repertório intelectual do indivíduo,
também contribui para a degradação do meio ambiente e para o estímulo de um desejo por
um consumo e por uma busca de satisfação que são momentâneos e efêmeros, como a de
um produto novo à venda nas vitrines das lojas e cuja satisfação dura pouco tempo após sua
aquisição. Sobre isso, ainda é importante ressaltar que o mundo não é capaz de acompanhar
as demandas da sociedade ocidental: se todos tiverem os mesmos padrões de consumo que
os Estados Unidos, por exemplo, esgotam-se rapidamente os recursos do planeta. Por isso é
importante uma profunda compreensão do quadro social, local e global em que se insere o
homem, bem como suas relações com o mercado, o consumo e o meio ambiente.
Por meio da técnica o homem ganha conhecimento da realidade e, por meio do saber,
reafirma o discurso já em andamento que defende um planeta sustentável.
Referências
LIPOVETSKY, Gilles; JUVIN, Hervé. Globalização ocidental: Controvérsia sobre a cultura
planetária. Tradução de Armando Braio Ara. Barueri, São Paulo: Manole, 2012.

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    Objetivos Específicos • Aplicaraconceituaçãodelimitesdecrescimentoemestudosdecasoemdiversos camposdo saber na sua relação entre ética, cidadania e sustentabilidade. Temas Introdução 1 Hervé Juvin: natureza e cultura são indissociáveis 2 O pensamento de Gilles Lipovetsky: o planeta-consumo 3 Uma nova era cultural: transformação da cultura em negócio e transformação de negócio em cultura 4 Técnica é dispositivo da cultura-mundo: pode ser boa ou ruim à sociedade Considerações finais Referências Mônica Rodrigues da Costa Ética, Cidadania e Sustentabilidade Aula 16 Professor Por um planeta sustentável II
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 2 Introdução Estudamos hoje a globalização ocidental sob a ótica dos autores Gilles Lipovetsky, que é professordefilosofiaesociólogofrancês,eHervéJuvin,queéeconomista,ensaístaepresidente criador da empresa de consultoria Eurogroup Institute, com base no livro desses autores, escrito a quatro mãos, Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária. Vemos como a atualidade é complexa: há uma lógica de mercado, de consumo e técnica que dialoga com questões ambientais, culturais e de produção. Hervé Juvin fala sobre a relação intrínseca entre a cultura e a natureza e como o uso irrestrito dos recursos naturais – com sua condição de recursos limitados ou finitos – é uma ameaça à vida do homem no planeta, já que esgota as fontes vitais, compromete valores e torna escassos os meios de sobrevivência. Gilles Lipovetsky reafirma, conforme filósofos como Theodor Adorno e Herbert Marcuse, que a cultura se torna um valor econômico, entrando no imaginário popular através dos meios de comunicação e de estratégias de marketing, e traz, incessantemente, novidades e inúmeras opções que se tornam obsoletas de forma muito rápida. Trata-se de um paradigma de hiperconsumo alimentado pelas técnicas comunicacionais. Sobre a técnica, em especial, o sociólogo a apresenta em diversas facetas. Ao mesmo tempo que ela representa uma ameaça ao meio ambiente, por exemplo, ela também funciona como um antídoto ou um modo de reduzir os impactos provocados pela lógica mercadológica e capitalista. Surge, então, a partir desse pensamento, a preocupação com a sustentabilidade e com o futuro da humanidade. Gilles Lipovetsky e Hervé Juvin mostram os lados bom e ruim do atual paradigma da cultura-mundo. Boa aula! 1 Hervé Juvin: natureza e cultura são indissociáveis No livro Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária, Hervé Juvin, junto com Gilles Lipovetsky, sociólogo e professor de economia, fala sobre os efeitos da globalização na sociedade atual. Leia entre as páginas 144 a 148 para compreender o texto contextualizador.
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 3 Como vimos anteriormente, o Ocidente funciona sob o paradigma da cultura-mundo, cujos valores e cultura são guiados pela lógica do mercado. São muitos os efeitos criados pela globalização e pela cultura-mundo de que fala Hervé Juvin no capítulo “Cultura e Globalização”. O economista destaca o modo como a natureza é afetada pelo liberalismo econômico e, por consequência, como a vida do homem também é abalada – isso porque é por meio da natureza que obtemos nossos meios de vida e de sobrevivência: alimentos, roupas, moradia. A exploração desenfreada da natureza gera escassez que, por sua vez, gera crises e conflitos. Para Juvin, eliminar a natureza e se distanciar dela também trazem consequências políticas e morais. A primeira eliminação a que se consagrou o liberalismo econômico foi a da natureza. Sentimos na pele os seus efeitos. A crise de 2007 teve início no contexto do aumento do preço do petróleo, que passou a 150 dólares por barril. A isso se seguiram rebeliões por causa da fome e da escassez de alimentos. Ainda só nos é dado entrever as consequências morais e políticas de um mundo apequenado, disperso e calculista, no qual o suposto predomínio do homem sobre a natureza conduziu a uma espécie de exílio da natureza humana no campo da experiência e ao fenecimento dos inumeráveis símbolos fornecidos por ela ao saber coletivo e ao imaginário político e religioso. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 96). Hervé Juvin atribui à ruptura do homem com a natureza a causa do desaparecimento de noções do sagrado, do divino e do repertório dos encantos simbólicos presentes no planeta. Caminhamos em direção ao estilo dos japoneses, para os quais um vasinho com um tantinho de água e três cascalhos já bastam para ter contato com a natureza – a nossa culturaéchamadaatornar-seanossanatureza.Osefeitosresultantesdessaamputação da realidade impõem-nos uma reflexão. Começamos por sustentar que uma grande parte de nossas representações imaginárias, que são comuns entre os aruaques, os venezianos e os asquenazes, vai se extinguindo por causa do distanciamento da natureza e de nosso alheamento dos fenômenos naturais, que intentamos manipular continuamente. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 96 e 97). Desse modo, Hervé Juvin (2012, p. 97) atribui à natureza a condição real da cultura, da qual construímos arquétipos: “[...] Por meio dos animais, era a cultura da vida e da morte, do sofrimento e do perdão, de raças e de espécies, era a cultura dos ritmos, das temporadas e estações, do clima e do acaso”, delineia o economista. Quando esses figurantes dos serões, em torno da sanfona e das bordadeiras, entoam um cântico, no centro de Pey-en-Velay – ‘minha terra, eu a trago sempre comigo na pele... Tu bem sabes, ó minha terra, logo mais, eu voltarei para ti’ –, sem o saber, cantam o luto de uma ordem milenar da vida e da morte, que, desde o início, esteve
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 4 associada ao gênero humano. O homem é o primeiro dentre os animais a não ter medo do fogo e que enterra seus mortos. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 99). Para Hervé Juvin (LIPOVESTSKY, 2012, p. 99), natureza e cultura são indissociáveis. Assim, defende o autor, do mesmo modo que 2010 foi chamado “o ano da biodiversidade”, questiona-se quando serão proclamados os anos da “diversidade humana, da recuperação das culturas, das civilizações e das identidades ameaçadas de extinção, por efeito da agressão da cultura-mundo”. Supondo-se que a cultura ainda seja o que sucede com a natureza, na história da indústria e do engenho humanos, presumindo-se que cultura e natureza se contraponham como duas margens de um rio em cujas águas singram iniciativas e sonhos humanos, deve-se concluir que o rio corre fora de seu leito, e que os pontos de referência deixaram de existir. Isso porque a eliminação da natureza como natureza – isto é, gratuidade, superabundância, amplitude ilimitada – também é, irremediavelmente, eliminação da cultura, ou, pelo menos, dessa cultura que era transfiguração da natureza. Tendo perdido o seu ponto de apoio, ela rodopia agora na vertigem. Dar forma e conteúdo à natureza é igualmente e pelo mesmo movimento dar forma e conteúdo à cultura, a outra cultura. O fim da natureza é também (talvez sobretudo) o da cultura. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 100). 2 O pensamento de Gilles Lipovetsky: o planeta-consumo No capítulo “O Reino da Hipercultura: Cosmopolitismo e Civilização Ocidental”, do livro Globalização ocidental: Controvérsia sobre a cultura planetária, Gilles Lipovetsky fala sobre o fim das fronteiras entre as culturas, afetadas pelo consumo mercantil desmedido. Os bens de consumo e serviço são produzidos em grande escala, em ritmo acelerado, e trazem constantes novidades com um grande leque de opções e tipos de produto. Nesse sentido, afirma o autor, desenvolve-se a cultura do “hiper”, que também é alimentada pelo comércio virtual: Estamosempresençadeumaculturadehiperconsumismo,alicerçadanumaeconomia de inspiração pós-fordiana, cujos principais vetores são a multiplicidade de escalas e opções, a hipersegmentação dos instrumentos de mercado, a aceleração do ritmo de lançamento de novos produtos, a proliferação da variedade e a protuberância midiática. Eis uma nova economia de consumo que desempenha a função de hiper em todas as coisas: sempre mais gigantesca (hipermercados e centros comerciais de extensão descomunal); sempre mais rápida (comércio on-line); sempre mais créditos fáceis e endividamento familiar (acarretando esses efeitos calamitosos, como é o caso da recessão mundial, desencadeada a partir da crise dos subprimes); sempre mais marcas de alta qualidade, dispêndios em produtos de luxo; em termos mais genéricos, objetos, modas, viagens, músicas, jogos, parques temáticos, além de comunicação, imagens, obras de arte, filmes, séries de TV. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 18).
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 5 Para o autor (2012, p. 18), nossas ações e relações, aquilo que experimentamos diariamente, consistem em uma “relação comercial”. Cada vez mais é permitida a escolha individual ao homem ocidental, que passa a agir de modo a comercializar quase tudo integralmente, explica Lipovetsky: [...] Não apenas de objetos, como também da cultura, da arte, do tempo, da comunicação, da procriação, da vida e da morte. O capitalismo do hiperconsumo destaca-se por essa protuberância da esfera mercantil, associada a uma formidável expansão da lógica consumista da escolha individual, doravante presente em todos os domínios da vida. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 18). O sociólogo aponta para uma tendência ao hiperconsumo nas sociedades ocidentais. Para ele, acontece uma aspiração generalizada nesse sentido. “Em nossos países, até os mais desprovidos de recursos interiorizaram os valores consumistas e tornaram-se mais ou menos hiperconsumidores, particularmente de imagens e mídias”, diz Lipovetsky (2012, p. 19). Uma das facetas apresentadas pelo hiperconsumismo é relacionada pelo autor tanto ao bem-estar material como à busca da felicidade; do melhor-viver e do aperfeiçoamento da saúde – impostos como direitos humanos sob um horizonte universal das sociedades. Apesar disso, o autor fala sobre a impossibilidade de os padrões de consumo serem iguais para todas as pessoas, já que isso só seria viável se houvesse mais planetas para atender a demanda de todos na Terra: Mas, se existe, apesar de tudo, uma dimensão moral no consumismo hipermoderno, também há algo anárquico, de desarrazoado, de profundamente irresponsável, haja vista até que ponto o modo de viver daí derivado se mostra devastador do meio ambiente e impróprio para uma aplicação generalizada ao mundo inteiro. Se os quase seis bilhões de humanos vivessem como os habitantes dos países ricos, seriam necessários vários planetas para prover as necessidades de todos. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 20). Daí a importância da prática da sustentabilidade, defende o autor, que apresenta como relevantes questões como:
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 6 Mesmo propondo um modo ideal sobre como as pessoas devem consumir e as empresas devem produzir, Lipovetsky apresenta uma realidade amarga no que diz respeito à sustentabilidade que, para o sociólogo, não freia a sociedade hiperconsumista, mas apenas a faz atuar de modo mais preocupado com o futuro e com o meio ambiente. Assim, não é uma rígida economia que vai sendo elaborada, e sim uma economia ecológica com baixa emissão de carbono que, favorecendo a eficácia energética, seria capaz de reaquecer a demanda de maneira sustentável. Deixemos de quimeras. Nem o crescimento da onda verde e tampouco os hábitos de compra ecológicos estão em condiçõesderefrearacomercializaçãoexponencialdenossosmodosdevida,asformas do exercício do poder e o gosto por marcas. O mesmo vale dizer da apetência pelas novidades, inseparável das sociedades desenraizadas de seus vínculos tradicionais, em cujo contexto o consumo desempenha a função de estímulo existencial ou compensação perante as misérias da vida. Não se pode abandonar sumariamente a economia do consumo fútil e supérfluo: um eventual reino do consumidor racional, cidadão e razoável corre o risco de rapidamente mostrar os seus limites. Permanece, pois, que o modelo de crescimento sustentável é o único meio disponível para que se difunda por toda a extensão do planeta o modelo hiperconsumista, livre, porém, de sua forma primitiva, despreocupada com o futuro e com o meio ambiente. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 21). 3 Uma nova era cultural: transformação da cultura em negócio e transformação de negócio em cultura Gilles Lipovetsky fala sobre a tendência de culturalização da economia. Nesse sentido, marcas atuam hoje de modo a agregar em seus produtos alguns valores estéticos e culturais, afirma o autor. Vem surgindo, desse modo, novos conceitos atrelados às marcas, que buscam definir seu posicionamento no mercado e se destacar, tornando-se diferenciadas. Ademais, numerosas marcas constroem agora sua identidade com base numa comunicação fundada em mensagens sensoriais, propostas éticas e compromissos de respeito ao meio ambiente. As marcas (no intuito de se posicionar e se diferenciar) passaram a integrar sistematicamente a dimensão estética e narrativa, ética e criativa, de modo que o imaginário cultural já não pode ser equiparado a um mundo desinteressado, planando acima do universo da produção. Qualquer grande marca, nos dias atuais, se pretende ‘cultural’, isto é, um universo de vida, aparência, espírito, conjunto de valores, relato, visão do mundo. Hoje, as pessoas só se comprometem se lhes for apresentada uma história. Por isso, a nova era cultural significa igualmente transformação da cultura em negócio e transformação de negócio em cultura. Resumindo, a cultura-mundo caminha para uma hibridização entre alta tecnologia e moda, comércio e estética, tendências e tradições, propaganda e apelo aos sentidos, gestão de negócios e comunicação narrativa. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 25).
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 7 Assim como a cultura se iguala à economia, ela também se aproxima da moda, explica Lipovetsky. Os símbolos do cotidiano acabam incorporados pela cultura-mundo. Próxima da moda, a cultura-mundo passa por processos acelerados de renovação e se volta para a estetização e para a sedução pelas aparências, afirma o autor. Para o sociólogo (2012, p. 25), esse fenômeno embaralha nossos referenciais ao mesmo tempo que “[...] confere um aspecto lúdico às correlações entre coisas e sentidos”. Escreve o autor: “Com o advento da cultura-mundo, empreende-se a cosmetização hiperbólica da vida cotidiana mercantilizada. A cultura, portanto, que era o patamar da nobreza e da profundidade, põe-se a serviço da fugacidade frívola”. 4 Técnica é dispositivo da cultura-mundo: pode ser boa ou ruim à sociedade Gilles Lipovetsky (2012, p. 26) apresenta o terceiro dispositivo da cultura-mundo: a ordem técnico-científica, que se soma ao mercado e ao consumo. Por técnica o autor compreende “a cultura da eficácia generalizada e ilimitada”: De fato, fora das vias do tecnicismo exponencial, da utilização otimizada dos meios disponíveis, da espiral da alta tecnologia, não há saída. Em todo o mundo, o sistema técnico criado pelo Ocidente é instaurado como um imperativo absoluto, como a via de acesso ao desenvolvimento e como condição para a construção do futuro. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 25). Na atualidade, afirma Lipovetsky, países emergentes já conseguem competir com a até então soberania técnica de países do Ocidente – no campo da informática, da biotecnologia e da indústria farmacêutica. A China, por exemplo, possui um grande número de publicações em nanotecnologias e no setor da química que ultrapassam as dos Estados Unidos. Apesar de o Ocidente ainda estar em primeiro lugar no que tange a alta tecnologia, Lipovetsky observa uma tendência de mudança nesse quadro em direção ao fim de tal monopólio. Assim, o autor fala da emergência de uma “universalidade geográfica da sociedade tecnicista”: Essa universalidade geográfica da sociedade tecnicista se desdobra na universalidade que se refere ao seu campo de aplicação. Isso porque o fator técnico se dirige a todos os aspectos da vida. Ele se apodera de todos os domínios da existência passíveis de mudança, tanto das imensidades descomunais como do infinitamente minúsculo. No momento atual, faz-se notar na publicidade, nas formas de lazer, na informação, na comunicação, assim como na saúde, na sexualidade, nos diversos aspectos da conduta em relação ao corpo, que também estão em vias de se globalizar. A forma de tomar banho, de utilizar um xampu ou um creme dental, o critério de escolha do número de telefone, o modo de clicar sobre o mouse do computador, a preferência por determinada roupa íntima, a questão da pílula anticoncepcional – por via da Técnica,
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 8 vai-se universalizando uma infinidade de gestos elementares do corpo. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 26 e 27). Por que a técnica é tão importante na cultura-mundo? Para Lipovetsky, a resposta consiste no fato de que tal instrumental fornece soluções para mazelas como problemas de saúde e de vida, ou, ainda, de envelhecimento ou de comunicação – tudo pode ser facilitado pela técnica, que também pode ser ao mesmo tempo causa para problemas ambientais e solução para eles – ou seja, a técnica pode contribuir para o desenvolvimento sustentável. Outra faceta da técnica é sua função ordenadora da cultura e sua competência universalizante. “A técnica vai além da técnica”, conforme explica Lipovetsky: A Técnica já não é uma simples parte da civilização; tornou-se a própria lógica de ordenamento de nossas culturas e de todas as dimensões da vida, quer na ordem econômica ou social, quer na ordem cultural ou individual. Hoje, a Técnica vai além da técnica, originando uma forma de ser e pensar que reestrutura a reorienta todas as culturas do mundo. O universo da Técnica se situa além das máquinas. Afigura-se como a linguagem universal da performance, assim como o aparelhamento intelectual e cultural que torna possível a utilização das técnicas. É um universalismo técnico idêntico em todos os lugares, que unifica os modos de agir e viver, que mobiliza os mesmo símbolos, o mesmo sistema de normas e valores – a saber, a eficácia instrumental, a racionalidade operacional, a calculabilidade inerente a cada coisa, a utilização otimizada dos meios a serviço de um fim. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 27). Apesar da função ordenadora da Técnica (isso mesmo, com letra maiúscula, conforme o autor), Lipovetsky (2012, p.27) não acredita em seu poder unificador. O sociólogo lembra que as culturas possuem passado histórico. Surgem, também nesse contexto, “multiplicidades políticas e culturais” que comprometem a ideia de unificação pela Técnica. Outro dado comprometedor para a unidade é o fato de as sociedades se fragmentarem e terem diversas referências como parâmetros. O autor (2012, p.28) ressalta: “A tecnicização do mundo não garante de modo algum o triunfo final das democracias liberais”. Lipovetsky diz que a Técnica contribui para a noção de interdependência entre culturas, bem como torna visíveis os riscos e as catástrofes ambientais provocadas pela ação do homem. Esse mundo hiperbólico remodelado pela Técnica frequentemente nos deixa expostos a grandes riscos, a verdadeiras catástrofes globais – poluição atmosférica, falta de conhecimento sobre os organismos geneticamente modificados (OGM), dejetos nucleares, aquecimento global, epidemia da vaca louca, esgotamento da biodiversidade. Riscos diversos, cuja nota característica está em ignorar os limites das fronteiras nacionais. É com a cultura-mundo tecnicista que se define o sentimento de fazer parte de um mundo interdependente, assim como a tomada de consciência sobre a globalidade dos riscos e as relações cosmopolitas. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 28).
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 9 O autor defende que, diante das crises ambientais com que o homem se depara na atualidade, é sua obrigação incorporar valores como a preservação do meio ambiente, por exemplo. Assim, para Lipovetsky, do mesmo modo que a ordem técnico-mercantil se apresenta como uma ameaça, por meio dela as transformações sociais são viabilizadas, e ela precisa colaborar para um futuro melhor. Em decorrência da degradação da biosfera e dos riscos mundiais engendrados pela combinação da Técnica com o capitalismo, desenvolve-se igualmente uma figura típica da cultura-mundo, que menospreza os obstáculos ou as barreiras nacionais: os valores ecológicos e seus imperativos de preservar a existência, a longo prazo, da humanidade numa Terra habitável. Desse ponto de vista, cada um de nós é interpelado, em todos os recantos do planeta, a promover o crescimento verde, o desenvolvimento sustentável, novas fontes de energia pura, o consumo ecológico. Essa peça da cultura- mundo, a exemplo da competição no capitalismo globalizado, se consagra não como uma escolha voluntária, mas como uma obrigação, uma reação de sobrevivência perante uma realidade amplamente incontrolável e indesejada. De um lado, nunca a ordem técnico-mercantil pôde criar tantos riscos extremos e tantos sentimentos de falta de domínio acerca de nosso próprio destino. De outro, nunca foram tão grandes as possibilidades de reinventar um novo gênero de desenvolvimento, novos modos de produção e consumo. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 28 e 29). Desse modo, Lipovetsky apresenta as duas faces de uma mesma moeda: os temores e a esperança caminham lado a lado diante do sistema da técnica – que permite ao homem sonhar com melhorias na sua existência, como o aumento da expectativa de vida, saúde plena, juventude eternizada, entre outros elementos listados pelo autor. Apesar de esses desejos não estarem, de acordo com o autor, tão longe do alcance dos homens, Lipovetsky (2012, p. 29) questiona: “O que se espera senão um acréscimo da felicidade para os homens?”. O sociólogo constata que, na atualidade, mesmo com os avanços da técnica, existem diferenciações entre a solução de infortúnios, a cura de mazelas e a promoção da felicidade plena, ou seja, a verdadeira alegria não é manipulada em laboratórios ou vendida nas farmácias. Graças aos “milagres” da Técnica, a expectativa de vida não cessa de crescer. Vive- se mais e com melhor saúde; o número de nascimentos é controlado; as condições materiais de existência da maior parte das populações vão experimentando melhoras. Os sonhos dos modernos, associados às “maravilhas” da Técnica, estão mais vivos do que nunca, apesar dos novos temores gerados pelo progresso. Todavia, a felicidade não avança no mesmo compasso. Assim, embora hoje o consumo de energia seja três vezes maior do que na década de 1960, daí não se deduz que nossa proporção de felicidade tenha triplicado. Em sentido análogo, numa comparação com as três últimas décadas, verificamos que o poder de compra das classes médias quase dobrou na França. Devemos concluir, então, que a felicidade aumentou em dobro? Em contrapartida, a ansiedade se multiplica, assim como os índices de depressão, as tentativas de suicídio e as manifestações do sofrimento de viver. Evidentemente,
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 10 a sociedade da Técnica revela-se mais apta a reduzir os grandes infortúnios do que produzir a alegria de viver. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 29). Considerações finais Com base na leitura do livro Globalização Ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária, escrito por Gilles Lipovetsky e Hervé Juvin, concluímos que não é possível unificar a cultura de um modo simplista, apesar do fenômeno da globalização. Na visão desses autores, o homem está inserido no paradigma da cultura-mundo, regida pela lógica do mercado. Assim, ocorre o processo de culturalização da economia: arte, livros, músicas, programas de TV e diversos outros produtos começam a ser inseridos na lógica comercial e perdem qualquer outro tipo de valor. A ordem é a do consumo como forma de satisfação do indivíduo – para curar feridas, anseios, frustrações. O homem deixou de buscar conforto no sagrado, somente o encontra por meio das compras. Aumentamasvariedadesdeprodutoseasopções delazer(sempreassociadasaoconsumo e ao mercado), mas a felicidade real ainda não foi industrializada e não pode ser vendida. A tecnologia, somada ao mercado e ao consumo, é outro dispositivo da cultura-mundo. Ao mesmo tempo que ela contribui para alimentar a cultura-mundo, aumentando a expectativa de vida do homem, melhorando sua saúde, ampliando o repertório intelectual do indivíduo, também contribui para a degradação do meio ambiente e para o estímulo de um desejo por um consumo e por uma busca de satisfação que são momentâneos e efêmeros, como a de um produto novo à venda nas vitrines das lojas e cuja satisfação dura pouco tempo após sua aquisição. Sobre isso, ainda é importante ressaltar que o mundo não é capaz de acompanhar as demandas da sociedade ocidental: se todos tiverem os mesmos padrões de consumo que os Estados Unidos, por exemplo, esgotam-se rapidamente os recursos do planeta. Por isso é importante uma profunda compreensão do quadro social, local e global em que se insere o homem, bem como suas relações com o mercado, o consumo e o meio ambiente. Por meio da técnica o homem ganha conhecimento da realidade e, por meio do saber, reafirma o discurso já em andamento que defende um planeta sustentável. Referências LIPOVETSKY, Gilles; JUVIN, Hervé. Globalização ocidental: Controvérsia sobre a cultura planetária. Tradução de Armando Braio Ara. Barueri, São Paulo: Manole, 2012.