Objetivos Específicos
•	 Identificar como a globalização cria desigualdades sociais, interfere nas relações
de trabalho e na responsabilização sobre os problemas socioambientais
Temas
Introdução
1 Ideia de cultura-mundo, de Lipovetsky, envolve economia, novas tecnologias
e geopolítica
2 A globalização por Milton Santos: como fábula; como é de fato; e como pode ser
3   Globalização: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a
cognoscibilidade do planeta e a mais-valia globalizada
4 Competitividade, consumo, confusão dos espíritos e globalitarismo
5 A cultura-mundo e o fator econômico no universo cultural
6 Globalização: de sociedade integrada à sociedade individualizada e
ensimesmada
Considerações finais
Referências
Mônica Rodrigues da Costa
Ética, Cidadania e Sustentabilidade
Aula 12
Professor
Globalização I
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Ética, Cidadania e Sustentabilidade
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Introdução
Hoje vamos estudar os conceitos sobre globalização e a emergência de uma cultura-
mundo a partir do pensamento do filósofo francês Gilles Lipovetsky e do doutor em geografia
humana Milton Santos.
Destacamos a importância das tecnologias da informação, do mercado global e de
eventos geopolíticos que influenciam o modo como emerge uma cultura chamada de
cultura-mundo por Lipovetsky. Abordamos, ainda, a apresentação de uma interpretação da
sociedade como uma “aldeia global”, por Milton Santos, que escreveu sobre desigualdades
sociais e globalização.
Ambos os autores apresentam os aspectos positivos e negativos advindos dos processos
de internacionalização das culturas e dos contatos entre uma cultura e outra. O mercado e as
grandes hegemonias, ao que indicam as visões de Lipovetsky e Santos, influenciam no modo
como se dão os processos culturais e o funcionamento da sociedade atual, o que inclui como
as culturas se responsabilizam pelos problemas socioambentais.
Para Lipovetsky, a nova dinâmica mundial envolve um processo de desintegração da
sociedade, que passa a ser individualizada e ensimesmada. Para Milton Santos, o design,
o marketing e a indústria cultural promovem uma globalização com fins mercadológicos e
perversos, que ignoram os direitos do homem, a política ética e a sociedade justa, e priorizam
os valores econômicos.
Milton Santos e Lipovetsky concordam que é possível um novo tipo de globalização,
sendo o uso de ferramentas como a tecnologia da comunicação uma possibilidade para um
novo rumo positivo, da humanidade.
Boa leitura!	
1 Ideia de cultura-mundo, de Lipovetsky, envolve economia,
novas tecnologias e geopolítica
Para entender o texto contextualizador acesse a Biblioteca Digital e leia o
livro Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária, entre as
páginas 08 e 12.
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No capítulo “O reino da hipercultura: cosmopolitismo e civilização ocidental”, do livro
Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária, o filósofo Frances Gilles
Lipovetsky fala sobre a superação do processo de globalização e o desenrolar da segunda etapa
da globalização, que culmina naquilo que ele classifica como “cultura-mundo”. Fenômenos
econômicos, inovações tecnológicas e reviravoltas geopolíticas são concomitantes à realidade
em que se encontra a humanidade, aponta o autor:
A época em que vivemos caracteriza-se por uma onda poderosa e irresistível de
unificação do mundo. Aquilo que em outros lugares se denomina globalização, é
conhecido,naFrança,pelotermomundialização.Trata-sedeumaformidáveldinâmica,
que coincide com a conjunção de fenômenos econômicos (abertura de mercado,
num contexto de capitalismo em escala planetária), inovações tecnológicas (as novas
tecnologias da informação e da comunicação em geral) e reviravoltas geopolíticas
(implosão do império soviético). Embora essa tendência à unificação do mundo não
corresponda a um fenômeno de natureza recente (vivemos numa ‘segunda etapa da
globalização’) nem mesmo a uma realidade acabada, é inegável que representa uma
transformação de ordem geral e profunda, tanto no que diz respeito à organização
quanto no que diz respeito à percepção do nosso universo. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 1).
Para Lipovetsky e Jean Serroy, citado por Lipovetsky (2012, p. 01-02), a cultura-mundo
corresponde a uma espécie de cultura transnacional, ou de “terceiro gênero”, ligada a um
tipo de “capitalismo cultural”, movido pelas indústrias da cultura e da informação.
2 A globalização por Milton Santos: como fábula; como é de
fato; e como pode ser
A ideia de “aldeia global” de que fala o doutor em geografia humana Milton Santos faz
crer que a difusão instantânea de notícias informa as pessoas de fato. O autor se refere a esse
termo como um mito a partir do qual tempo e o espaço são contraídos, como se o mundo
estivesse ao alcance das mãos.
Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar
o planeta, quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. [...] Há uma
busca de uniformidade, a serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna
menos unido, universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimado. (SANTOS,
2005, p. 19).
Já o mundo como ele é, inserido na globalização, é visto por Milton Santos como
“perversidade”. O autor fala do desemprego crescente e crônico, da pobreza aumentada, da
classe média que perde qualidade de vida, do salário médio que tende a baixar, da fome e do
desabrigo generalizados em todos os continentes, da instalação de doenças como o vírus HIV
e da volta de doenças supostamente extintas, da permanência da mortalidade infantil mesmo
com os progressos médicos e da informação. Milton Santos também elenca como perversas
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a educação de qualidade cada vez mais inacessível e o alastramento e aprofundamento dos
males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos e a corrupção.
A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem
relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente
caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são diretamente ou
indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização. (SANTOS, 2005, p. 20).
Por fim, Milton Santos apresenta o aspecto positivo de sua análise sobre a globalização
e mostra o mundo como pode melhorar, sendo possível pensar em uma globalização mais
humana, fazendo uso da mesma unicidade da técnica em que o capital se apoia para a
construção de uma globalização perversa. Isso quer dizer que, do mesmo modo como a
técnica é engrenada no sistema perverso, ela pode ser engrenada num sistema que priorize
os valores políticos e sociais que promovam a cidadania plena.
Graças à informação acontece uma mistura de povos, raças, culturas e gostos em todos
os continentes, que sugere a possibilidade de uma nova história, conforme apresenta Milton
Santos: “Junte-se a esses fatos a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios
técnicos antes exclusivos da cultura de massas, permitindo-lhe exercer sobre essa última uma
verdadeira revanche ou vingança” (SANTOS, 2005, p. 21).
Tendo em vista esse pensamento sobre a globalização, é possível concluir que eventos
como a Primavera Árabe (2010-2012), que derrubou governos autoritários no Oriente Médio,
é uma forma que a população local encontrou de se voltar contra a perversidade do poder
dominante, fazendo uso das tecnologias acessíveis, como a rede social, para manifestar e
cobrar direitos.   
3 Globalização: a unicidade da técnica, a convergência dos
momentos, a cognoscibilidade do planeta e a mais-valia
globalizada
A globalização consiste, de acordo com Milton Santos, no ápice do processo de
internacionalização do mundo capitalista. Os dois elementos a serem levados em conta nesse
processo são o estado das técnicas e o estado da política.
Entre alguns dos fatores elencados por esse autor como contribuintes para explicar a
arquitetura da globalização atual, são a unicidade da técnica e a existência de um motor
único na história, representado pela mais-valia (lucro) globalizada, entre outros.
De acordo com Santos, pela primeira vez, o conjunto de técnicas envolve todo o planeta.
Assim, as pessoas percebem as culturas, o ambiente e um novo significado de planeta, graças
à chegada da técnica da informação, como a cibernética, a informática e a eletrônica. No
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entanto, de acordo com o autor, o sistema técnico é invasor e busca espalhar-se na produção
(trabalho e bens culturais e de consumo) e no território.
Para Milton Santos (2005, p. 26), atores hegemônicos, como empresas globais, funcionam
a partir de fragmentação e podem funcionar em diversos pontos diferentes, graças às técnicas
hegemônicas presentes, ou passíveis de estarem presentes em toda parte; por intermédio de
políticas de empresas e Estados e em ações que podem tanto ser conjuntas como também
feitas separadamente.
Para o autor, o sistema unificado de técnicas, instalado sobre um planeta informado,
permite ações igualmente globais. Com o imperialismo, surgem diversos motores com força
e alcance próprios: o francês, o inglês e o português, por exemplo. Afirma o autor: “Nos
encontramos em um novo patamar de internacionalização, com a mundialização do produto,
do dinheiro, do crédito, da dívida, do consumo, da informação”.
Vale ressaltar que o conceito de mais-valia foi elaborado pelo filósofo
alemão Karl Marx (1818-1883), que explica sobre o lucro obtido pelas empresas
por meio da diferença entre o que é pago ao empregado e o valor cobrado pelo
material produzido por meio dessa mão de obra.
Milton Santos (2005, p. 37) explica que existe uma dupla tirania exercida sobre o mundo
globalizado: a do dinheiro e a da informação. Ele complementa que “ambas, juntas, fornecem
as bases do sistema ideológico que legitima as ações mais características da época e, ao
mesmo tempo, buscam conformar segundo um novo ethos [valores de um povo] as relações
sociais e interpessoais, influenciando o caráter das pessoas”.
Para o autor, a violência do dinheiro é servida pela violência da informação. O dinheiro,
afirma Santos, recria seu fetichismo por meio da ideologia, sendo esta aplicada de modo
generalizado e coisificado. Outro aspecto perverso da globalização é o fato de que, mesmo
com percepções fragmentadas, estabelece-se um discurso único de mundo. A técnica, no
sentido materialista e funcional, acaba sendo mais aceita do que propriamente compreendida.
4 Competitividade, consumo, confusão dos espíritos e
globalitarismo
As novas formas financeiras e de contabilidade nacional resultam no abandono da noção
e do fato da solidariedade, conforme revela Milton Santos, que explica sobre o modo como a
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competitividade conduz os modos como agimos e de que forma o consumo comanda nossa
inação, gerando uma espécie de confusão dos espíritos, que impede a compreensão sobre
nós mesmos, sobre os outros à nossa volta, a sociedade, o país e sobre o mundo. Algumas
consequências das transformações econômicas ocorridas com o processo de globalização são
elencadas pelo autor:
Daí as fragmentações resultantes. Daí a ampliação do desemprego. Daí o abandono
da educação. Daí o desapreço à saúde como um bem individual e social inalienável.
Daí todas as novas formas perversas de sociabilidade que já existem ou estão se
preparando neste país, para fazer dele – ainda mais – um país fragmentado, cujas
diversas parcelas, de modo a assegurar sua sobrevivência imediata, serão jogadas
umas contra as outras e convidadas a uma batalha sem quartel. (SANTOS, 2005, p. 48)
Se Gilles Lipovetsky fala sobre a indústria da cultura e da informação como fatores
atrelados à atual cultura-mundo, ou, cultura transnacional, Santos (2005, p. 48) fala sobre
uma perversidade e sobre a violência da informação por parte de ações hegemônicas que
levam “ao império das fabulações, a percepções fragmentadas e ao discurso único do mundo,
base dos novos totalitarismos – isto é, dos globalitarismos – a que estamos assistindo”.
Para o geógrafo, a informação possui um papel despótico e, embora as condições técnicas
possam permitir uma “ampliação do conhecimento do planeta”, ela é usada principalmente
por uma minoria de atores para seus próprios objetivos.
Assim, as informações são apropriadas por poucos, o que propicia o aparecimento
e o surgimento de desigualdades e, muitas vezes, com propósitos exclusivamente
mercadológicos:“É desse modo que a periferia do sistema capitalista acaba se tornando
ainda mais periférica, seja porque não dispõe totalmente dos novos meios de produção, seja
porque lhe escapa a possibilidade de controle”, diz Santos (2005, p. 39).
O autor fala, ainda, sobre a globalização como fábula: nesse sentido, o conceito de uma
“aldeia global” faz crer que a difusão instantânea de notícias informa as pessoas de fato, mas,
no entanto, Milton Santos vê esse pensamento como um mito, construído de modo a contrair
tempo e espaço, causando a sensação de que o mundo está ao alcance das mãos.“Um mercado
avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta, quando, na
verdade, as diferenças locais são aprofundadas” (SANTOS, p. 19).
Nessa aldeia global a que se refere Milton Santos, os homens estão submetidos a uma
comunicação em escala planetária que não dá conta de promover a comunicação do homem
com seu vizinho.
Enquanto os aspectos locais são muitas vezes deixados de lado, o que se vê é a produção
de símbolos fixos pela cultura de massas, que está a serviço do poder e do mercado, defende
Santos (2005, p. 40): “Numa sociedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que
houve na rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpretação marcada por humores,
visões, preconceitos e interesses das agências”.
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5 A cultura-mundo e o fator econômico no universo cultural
Lipovetsky (2012, p. 02) observa uma “‘inserção’ do econômico no universo cultural,
num emaranhado de influências recíprocas entre base material, organização social e sistema
de valores”. Nessa cultura, que também é chamada de cultura em escala planetária por Gilles
Lipovetsky (2012, p. 02-03), “o mundo produtivo ‘real’ se anuncia como cultural, enquanto o
mundo cultural pleiteia direitos econômicos”.
Lipovetsky fala, ainda, na superabundância de produtos culturais e de informações
de crescimento exagerado, produção acelerada e ávida por novidades de informação e de
comunicação.
Na visão de Santos (2005, p. 18), informações são “fundamentos com alicerces em
imagens e imaginários que, no atual estado de globalização, estariam ao serviço do império
do dinheiro, fundado na economização e na monetarização da vida social e da vida pessoal”.
Gilles Lipovetsky  também menciona, nessa direção, um estado acelerado e hipertrófico
da produção cultural em escala planetária, outro aspecto da cultura-mundo, que diz respeito
a um processo de “desterritorialização e de desorientação” pelo qual passam as sociedades
do planeta. Esse processo é alimentado pela profusão das informações e da comunicação
a partir das novas tecnologias: “Igreja, família, ideologias, política, relação entre os sexos,
consumo, arte, educação, não há domínio que escape ao processo de desterritorialização e
de desorientação” (2012, p. 04), aponta o autor.
Milton Santos (2005, p. 15) mostra algumas causas e efeitos da comunicação sobre
o sentido de territorialidade do homem, como: o aspecto perverso da globalização atual,
“fundada na tirania da informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos
espíritos e na violência estrutural, acarretando o desfalecimento da política do Estado e a
imposição de uma política comandada pelas empresas”.
Anseios de uma humanidade desterritorializada podem ser encontrados na campanha
“My World. The United Nations Global Survey For a Better World” (em tradução livre, Meu
Mundo. Pesquisa Global das Nações Unidas Por Um Mundo Melhor), da Organização das
Nações Unidas (ONU), que convoca todos os cidadãos a opinar e a votar sobre as mudanças
que fariam maior diferença em suas vidas. Trata-se de uma tentativa de ordenar as demandas
globais em um ambiente considerado desordenado por Gilles Lipovetsky.
Entre os tópicos apresentados pela ONU esta o acesso à internet e ao sistema de telefonia,
o acesso à água potável e ao saneamento, o acesso a alimentos e a disponibilidade deles, com
valor nutritivo, o acesso a melhores oportunidades de trabalho, à educação de qualidade,
o auxílio às pessoas que não podem trabalhar, o acesso à energia fixa e constante em casa,
assim como os tópicos relativos à proteção das florestas, rios e oceanos, à proteção contra o
crime e a violência, à liberdade e a ausência de discriminação e perseguição de pessoas ou
grupos, a igualdade entre homens e mulheres, a liberdade política, os melhores transportes
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e vias de transporte, a tomada de ações contra mudanças climáticas, os melhores cuidados
com a saúde e um governo honesto e responsável. A ONU também propõe que os internautas
acrescentem outros itens que possam melhorar seus mundos (ONU, 2013).
Apesar dos esforços das Nações Unidas em escala global, Milton Santos (2005, p. 51)
destaca o despotismo da informação relacionado ao nível alcançado pelo desenvolvimento da
técnica atual, que está nas mãos dos conglomerados onde são criados “objetos carregando uma
ideologia que lhes é entregue pelos homens do marketing e do design ao serviço do mercado”.
Por mais nobre que seja a proposta das Nações Unidas, essa visão global corre o risco de
cair no âmbito da utopia e seus objetivos e resultados podem se tornar um discurso de fábula
dentro da globalização, já que, de acordo com o pensamento de Milton (2005, p. 59), existe
uma perversidade sistêmica e ilógica em termos da relação entre o progresso da indústria,
da ciência e da tecnologia e as mazelas sociais, fruto do espírito competitivo entre empresas
de todo mundo: “Quando os progressos da medicina e da informação deviam autorizar uma
redução substancial dos problemas da saúde, sabemos que 14 milhões de pessoas morrem
todos os dias, antes do quinto ano de vida.”
Nesse sentido, as ações sociais tendem a uma competitividade que, de acordo com
Milton Santos, celebra, entre outras coisas, o egoísmo, a rivalidade banal e a ganância, que
fazem com que as pessoas busquem o sucesso a qualquer custo. Nas mídias, aponta Milton
Santos, opiniões em massa são confirmadas em um movimento de alienação que troca o
debate civilizatório pelo discurso único do mercado.
6 Globalização: de sociedade integrada à sociedade
individualizada e ensimesmada
Gilles Lipovetsky fala sobre a transição de uma sociedade em estado de integração
e identificação entre seus membros para uma sociedade fragilizada, individualizada e
concentrada em si mesma. É forjado, assim, aquilo que ele cita como “cultura transnacional
multipolar”, suscitada pelas novas tecnologias, entre outros fatores:
Os seus princípios organizadores [da civilização] de fundo são o mercado, o
consumismo, o progresso técnico-científico, o individualismo, a indústria cultural
e da comunicação. A combinação desses cinco dispositivos, tão fundamentais
quanto heterogêneos, dá origem ao modelo ideal-típico da cultura-mundo. Do
mesmo modo, lógicas estruturais intentam difundir por todo o planeta uma cultura
comum, objetivos e formas de consumo similares, normas e conteúdos universais,
esquemas de pensamento e de ações sem fronteiras. Conquanto não tenha havido (e,
provavelmente, jamais possa haver) uma unificação mundial, é inegável que o mundo
seja hoje permeado e amplamente reformulado por esses dispositivos forjadores de
uma cultura transnacional multipolar. (LIPOVETSKY, 2012, p. 04).
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Algo que acontece no Brasil, por exemplo, pode repercutir do outro lado do mundo e
vice-versa. A morte de um jovem brasileiro na Austrália em 2012 devido a um incidente com
a polícia local, as taxas de exportação, a estreia de um filme contribuem para despertar a
noção de distância (e da redução da distância) e da “compreensão do tempo e do espaço”
de que fala Lipovetsky, referindo-se à formula proposta por David Harvey na obra Condição
pós-moderna (LOYOLA, 1992, p. 05).
No entanto, Lipovetsky ressalta que as distâncias culturais permanecem, mesmo com
esse fenômeno de espaço-tempo universal: “De certo modo, reduziu-se o espaço enquanto
se acelerou o tempo. Ingressamos na era do espaço-tempo universal, do tempo cibernético
global, embora isso, em nenhuma hipótese (convém dizer logo), signifique a supressão das
distâncias culturais”. (LOYOLA, 1992, p. 05).
É possível estar informado sobre tudo, por conta do desenvolvimento midiático e do
espaço cibernético. Ocorrem então, “interdependências, interconexões e interações” que se
ampliam a partir do processo de contato entre culturas.
Na cultura-mundo atual, existem, conforme Lipovetsky, duas grandes ideologias, a dos
direitos humanos e a da ecologia. Nesse sentido, questões sobre a cidadania e a participação
cidadã, apontadas em aulas anteriores, ajudam a compreender como funciona a sociedade
civil dentro dessa nova etapa da globalização.
De um lado, a nossa época presencia a proliferação das declarações, legislações e
compromissos de ordem internacional, tudo pela proteção do meio ambiente e do
desenvolvimento sustentável. À antiga ânsia de produção indiscriminada contrapõe-
se agora o imperativo de um tecnicismo comedido e ecológico, que leva em conta a
dimensão do planeta como um todo, em nome de toda a humanidade e de seu futuro.
De outro, impõe-se como valor central a ideologia universal dos direitos humanos, com
a diferença de que, na primeira modernidade, eles eram secundários em relação aos
valoresnacionaisourevolucionários.Essanovaconsagraçãoseexprimeespecialmente
na escalada dos movimentos humanitários e das ONGs transnacionais, cujo poder
de intervenção e capacidade de atuação não param de crescer. Essas organizações
de dimensão internacional que defendem causas humanitárias desconhecem as
barreiras das nações e ilustram a expressão altruística e desinteressada da cultura-
mundo universalista. (LOYOLA, 1992, p. 06).
Considerações finais
O que pudemos observar nesta aula é que, apesar da aparente unificação da sociedade
em escala global, a cultura não é estática, sofre constantes mutações, decorrentes das novas
tecnologias de informação e de comunicação, por exemplo.
Domesmomodoemquepodehaveremandamentoumsistemaperversodeglobalização,
autores como Milton Santos acreditam que um novo mundo é viável, podendo passar por
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metamorfoses até chegar a um ideal que se espera dele.
A partir dessas metamorfoses, pode-se pensar na produção local de um entendimento
progressivo do mundo e do lugar, com a produção indígena de imagens, discursos,
filosofias, junto à elaboração de um novo ethos e de novas ideologias e novas crenças
políticas, amparadas na ressurreição da ideia e da prática da solidariedade. (SANTOS,
2005, p. 167).
É importante ressaltar, e Santos nos lembra disso, que o processo de tomada de
consciência não é homogêneo, sendo tal processo uma descoberta individual a partir da
obtenção de uma visão sistêmica do mundo e da sociedade. Essa visão sistêmica garante
às pessoas a possibilidade de observar o mundo e sua história sob uma ótica crítica. Desse
modo, pode ascender, conforme revela o autor, um tipo de apreciação filosófica de nossa
situação ante a comunidade, a nação, o planeta, e o nosso papel como pessoas, que permite
alcançar a ideia de homem integral e cidadão.
Trata-se de um processo que segue em rumo à revalorização do indivíduo para a
renovação qualitativa da espécie humana, um alicerce para uma nova civilização, conforme
aponta Milton Santos.
Referências
My World. The United Nations Global Survey for a Better World. Disponível em: <www.
myworld2015.org/>. Acesso em: 13 mar. 2013.
LIPOVETSKY, G.; JUVIN, H. Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária.
Tradução de Armando Braio Ara. Barueri: Manole, 2012.  
SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal.  Rio
de Janeiro: Record, 2005.

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  • 1.
    Objetivos Específicos • Identificarcomo a globalização cria desigualdades sociais, interfere nas relações de trabalho e na responsabilização sobre os problemas socioambientais Temas Introdução 1 Ideia de cultura-mundo, de Lipovetsky, envolve economia, novas tecnologias e geopolítica 2 A globalização por Milton Santos: como fábula; como é de fato; e como pode ser 3 Globalização: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a mais-valia globalizada 4 Competitividade, consumo, confusão dos espíritos e globalitarismo 5 A cultura-mundo e o fator econômico no universo cultural 6 Globalização: de sociedade integrada à sociedade individualizada e ensimesmada Considerações finais Referências Mônica Rodrigues da Costa Ética, Cidadania e Sustentabilidade Aula 12 Professor Globalização I
  • 2.
    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 2 Introdução Hoje vamos estudar os conceitos sobre globalização e a emergência de uma cultura- mundo a partir do pensamento do filósofo francês Gilles Lipovetsky e do doutor em geografia humana Milton Santos. Destacamos a importância das tecnologias da informação, do mercado global e de eventos geopolíticos que influenciam o modo como emerge uma cultura chamada de cultura-mundo por Lipovetsky. Abordamos, ainda, a apresentação de uma interpretação da sociedade como uma “aldeia global”, por Milton Santos, que escreveu sobre desigualdades sociais e globalização. Ambos os autores apresentam os aspectos positivos e negativos advindos dos processos de internacionalização das culturas e dos contatos entre uma cultura e outra. O mercado e as grandes hegemonias, ao que indicam as visões de Lipovetsky e Santos, influenciam no modo como se dão os processos culturais e o funcionamento da sociedade atual, o que inclui como as culturas se responsabilizam pelos problemas socioambentais. Para Lipovetsky, a nova dinâmica mundial envolve um processo de desintegração da sociedade, que passa a ser individualizada e ensimesmada. Para Milton Santos, o design, o marketing e a indústria cultural promovem uma globalização com fins mercadológicos e perversos, que ignoram os direitos do homem, a política ética e a sociedade justa, e priorizam os valores econômicos. Milton Santos e Lipovetsky concordam que é possível um novo tipo de globalização, sendo o uso de ferramentas como a tecnologia da comunicação uma possibilidade para um novo rumo positivo, da humanidade. Boa leitura! 1 Ideia de cultura-mundo, de Lipovetsky, envolve economia, novas tecnologias e geopolítica Para entender o texto contextualizador acesse a Biblioteca Digital e leia o livro Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária, entre as páginas 08 e 12.
  • 3.
    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 3 No capítulo “O reino da hipercultura: cosmopolitismo e civilização ocidental”, do livro Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária, o filósofo Frances Gilles Lipovetsky fala sobre a superação do processo de globalização e o desenrolar da segunda etapa da globalização, que culmina naquilo que ele classifica como “cultura-mundo”. Fenômenos econômicos, inovações tecnológicas e reviravoltas geopolíticas são concomitantes à realidade em que se encontra a humanidade, aponta o autor: A época em que vivemos caracteriza-se por uma onda poderosa e irresistível de unificação do mundo. Aquilo que em outros lugares se denomina globalização, é conhecido,naFrança,pelotermomundialização.Trata-sedeumaformidáveldinâmica, que coincide com a conjunção de fenômenos econômicos (abertura de mercado, num contexto de capitalismo em escala planetária), inovações tecnológicas (as novas tecnologias da informação e da comunicação em geral) e reviravoltas geopolíticas (implosão do império soviético). Embora essa tendência à unificação do mundo não corresponda a um fenômeno de natureza recente (vivemos numa ‘segunda etapa da globalização’) nem mesmo a uma realidade acabada, é inegável que representa uma transformação de ordem geral e profunda, tanto no que diz respeito à organização quanto no que diz respeito à percepção do nosso universo. (LIPOVESTSKY, 2012, p. 1). Para Lipovetsky e Jean Serroy, citado por Lipovetsky (2012, p. 01-02), a cultura-mundo corresponde a uma espécie de cultura transnacional, ou de “terceiro gênero”, ligada a um tipo de “capitalismo cultural”, movido pelas indústrias da cultura e da informação. 2 A globalização por Milton Santos: como fábula; como é de fato; e como pode ser A ideia de “aldeia global” de que fala o doutor em geografia humana Milton Santos faz crer que a difusão instantânea de notícias informa as pessoas de fato. O autor se refere a esse termo como um mito a partir do qual tempo e o espaço são contraídos, como se o mundo estivesse ao alcance das mãos. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta, quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. [...] Há uma busca de uniformidade, a serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimado. (SANTOS, 2005, p. 19). Já o mundo como ele é, inserido na globalização, é visto por Milton Santos como “perversidade”. O autor fala do desemprego crescente e crônico, da pobreza aumentada, da classe média que perde qualidade de vida, do salário médio que tende a baixar, da fome e do desabrigo generalizados em todos os continentes, da instalação de doenças como o vírus HIV e da volta de doenças supostamente extintas, da permanência da mortalidade infantil mesmo com os progressos médicos e da informação. Milton Santos também elenca como perversas
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 4 a educação de qualidade cada vez mais inacessível e o alastramento e aprofundamento dos males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos e a corrupção. A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são diretamente ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização. (SANTOS, 2005, p. 20). Por fim, Milton Santos apresenta o aspecto positivo de sua análise sobre a globalização e mostra o mundo como pode melhorar, sendo possível pensar em uma globalização mais humana, fazendo uso da mesma unicidade da técnica em que o capital se apoia para a construção de uma globalização perversa. Isso quer dizer que, do mesmo modo como a técnica é engrenada no sistema perverso, ela pode ser engrenada num sistema que priorize os valores políticos e sociais que promovam a cidadania plena. Graças à informação acontece uma mistura de povos, raças, culturas e gostos em todos os continentes, que sugere a possibilidade de uma nova história, conforme apresenta Milton Santos: “Junte-se a esses fatos a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios técnicos antes exclusivos da cultura de massas, permitindo-lhe exercer sobre essa última uma verdadeira revanche ou vingança” (SANTOS, 2005, p. 21). Tendo em vista esse pensamento sobre a globalização, é possível concluir que eventos como a Primavera Árabe (2010-2012), que derrubou governos autoritários no Oriente Médio, é uma forma que a população local encontrou de se voltar contra a perversidade do poder dominante, fazendo uso das tecnologias acessíveis, como a rede social, para manifestar e cobrar direitos. 3 Globalização: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a mais-valia globalizada A globalização consiste, de acordo com Milton Santos, no ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Os dois elementos a serem levados em conta nesse processo são o estado das técnicas e o estado da política. Entre alguns dos fatores elencados por esse autor como contribuintes para explicar a arquitetura da globalização atual, são a unicidade da técnica e a existência de um motor único na história, representado pela mais-valia (lucro) globalizada, entre outros. De acordo com Santos, pela primeira vez, o conjunto de técnicas envolve todo o planeta. Assim, as pessoas percebem as culturas, o ambiente e um novo significado de planeta, graças à chegada da técnica da informação, como a cibernética, a informática e a eletrônica. No
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 5 entanto, de acordo com o autor, o sistema técnico é invasor e busca espalhar-se na produção (trabalho e bens culturais e de consumo) e no território. Para Milton Santos (2005, p. 26), atores hegemônicos, como empresas globais, funcionam a partir de fragmentação e podem funcionar em diversos pontos diferentes, graças às técnicas hegemônicas presentes, ou passíveis de estarem presentes em toda parte; por intermédio de políticas de empresas e Estados e em ações que podem tanto ser conjuntas como também feitas separadamente. Para o autor, o sistema unificado de técnicas, instalado sobre um planeta informado, permite ações igualmente globais. Com o imperialismo, surgem diversos motores com força e alcance próprios: o francês, o inglês e o português, por exemplo. Afirma o autor: “Nos encontramos em um novo patamar de internacionalização, com a mundialização do produto, do dinheiro, do crédito, da dívida, do consumo, da informação”. Vale ressaltar que o conceito de mais-valia foi elaborado pelo filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), que explica sobre o lucro obtido pelas empresas por meio da diferença entre o que é pago ao empregado e o valor cobrado pelo material produzido por meio dessa mão de obra. Milton Santos (2005, p. 37) explica que existe uma dupla tirania exercida sobre o mundo globalizado: a do dinheiro e a da informação. Ele complementa que “ambas, juntas, fornecem as bases do sistema ideológico que legitima as ações mais características da época e, ao mesmo tempo, buscam conformar segundo um novo ethos [valores de um povo] as relações sociais e interpessoais, influenciando o caráter das pessoas”. Para o autor, a violência do dinheiro é servida pela violência da informação. O dinheiro, afirma Santos, recria seu fetichismo por meio da ideologia, sendo esta aplicada de modo generalizado e coisificado. Outro aspecto perverso da globalização é o fato de que, mesmo com percepções fragmentadas, estabelece-se um discurso único de mundo. A técnica, no sentido materialista e funcional, acaba sendo mais aceita do que propriamente compreendida. 4 Competitividade, consumo, confusão dos espíritos e globalitarismo As novas formas financeiras e de contabilidade nacional resultam no abandono da noção e do fato da solidariedade, conforme revela Milton Santos, que explica sobre o modo como a
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 6 competitividade conduz os modos como agimos e de que forma o consumo comanda nossa inação, gerando uma espécie de confusão dos espíritos, que impede a compreensão sobre nós mesmos, sobre os outros à nossa volta, a sociedade, o país e sobre o mundo. Algumas consequências das transformações econômicas ocorridas com o processo de globalização são elencadas pelo autor: Daí as fragmentações resultantes. Daí a ampliação do desemprego. Daí o abandono da educação. Daí o desapreço à saúde como um bem individual e social inalienável. Daí todas as novas formas perversas de sociabilidade que já existem ou estão se preparando neste país, para fazer dele – ainda mais – um país fragmentado, cujas diversas parcelas, de modo a assegurar sua sobrevivência imediata, serão jogadas umas contra as outras e convidadas a uma batalha sem quartel. (SANTOS, 2005, p. 48) Se Gilles Lipovetsky fala sobre a indústria da cultura e da informação como fatores atrelados à atual cultura-mundo, ou, cultura transnacional, Santos (2005, p. 48) fala sobre uma perversidade e sobre a violência da informação por parte de ações hegemônicas que levam “ao império das fabulações, a percepções fragmentadas e ao discurso único do mundo, base dos novos totalitarismos – isto é, dos globalitarismos – a que estamos assistindo”. Para o geógrafo, a informação possui um papel despótico e, embora as condições técnicas possam permitir uma “ampliação do conhecimento do planeta”, ela é usada principalmente por uma minoria de atores para seus próprios objetivos. Assim, as informações são apropriadas por poucos, o que propicia o aparecimento e o surgimento de desigualdades e, muitas vezes, com propósitos exclusivamente mercadológicos:“É desse modo que a periferia do sistema capitalista acaba se tornando ainda mais periférica, seja porque não dispõe totalmente dos novos meios de produção, seja porque lhe escapa a possibilidade de controle”, diz Santos (2005, p. 39). O autor fala, ainda, sobre a globalização como fábula: nesse sentido, o conceito de uma “aldeia global” faz crer que a difusão instantânea de notícias informa as pessoas de fato, mas, no entanto, Milton Santos vê esse pensamento como um mito, construído de modo a contrair tempo e espaço, causando a sensação de que o mundo está ao alcance das mãos.“Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta, quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas” (SANTOS, p. 19). Nessa aldeia global a que se refere Milton Santos, os homens estão submetidos a uma comunicação em escala planetária que não dá conta de promover a comunicação do homem com seu vizinho. Enquanto os aspectos locais são muitas vezes deixados de lado, o que se vê é a produção de símbolos fixos pela cultura de massas, que está a serviço do poder e do mercado, defende Santos (2005, p. 40): “Numa sociedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que houve na rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpretação marcada por humores, visões, preconceitos e interesses das agências”.
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 7 5 A cultura-mundo e o fator econômico no universo cultural Lipovetsky (2012, p. 02) observa uma “‘inserção’ do econômico no universo cultural, num emaranhado de influências recíprocas entre base material, organização social e sistema de valores”. Nessa cultura, que também é chamada de cultura em escala planetária por Gilles Lipovetsky (2012, p. 02-03), “o mundo produtivo ‘real’ se anuncia como cultural, enquanto o mundo cultural pleiteia direitos econômicos”. Lipovetsky fala, ainda, na superabundância de produtos culturais e de informações de crescimento exagerado, produção acelerada e ávida por novidades de informação e de comunicação. Na visão de Santos (2005, p. 18), informações são “fundamentos com alicerces em imagens e imaginários que, no atual estado de globalização, estariam ao serviço do império do dinheiro, fundado na economização e na monetarização da vida social e da vida pessoal”. Gilles Lipovetsky também menciona, nessa direção, um estado acelerado e hipertrófico da produção cultural em escala planetária, outro aspecto da cultura-mundo, que diz respeito a um processo de “desterritorialização e de desorientação” pelo qual passam as sociedades do planeta. Esse processo é alimentado pela profusão das informações e da comunicação a partir das novas tecnologias: “Igreja, família, ideologias, política, relação entre os sexos, consumo, arte, educação, não há domínio que escape ao processo de desterritorialização e de desorientação” (2012, p. 04), aponta o autor. Milton Santos (2005, p. 15) mostra algumas causas e efeitos da comunicação sobre o sentido de territorialidade do homem, como: o aspecto perverso da globalização atual, “fundada na tirania da informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos espíritos e na violência estrutural, acarretando o desfalecimento da política do Estado e a imposição de uma política comandada pelas empresas”. Anseios de uma humanidade desterritorializada podem ser encontrados na campanha “My World. The United Nations Global Survey For a Better World” (em tradução livre, Meu Mundo. Pesquisa Global das Nações Unidas Por Um Mundo Melhor), da Organização das Nações Unidas (ONU), que convoca todos os cidadãos a opinar e a votar sobre as mudanças que fariam maior diferença em suas vidas. Trata-se de uma tentativa de ordenar as demandas globais em um ambiente considerado desordenado por Gilles Lipovetsky. Entre os tópicos apresentados pela ONU esta o acesso à internet e ao sistema de telefonia, o acesso à água potável e ao saneamento, o acesso a alimentos e a disponibilidade deles, com valor nutritivo, o acesso a melhores oportunidades de trabalho, à educação de qualidade, o auxílio às pessoas que não podem trabalhar, o acesso à energia fixa e constante em casa, assim como os tópicos relativos à proteção das florestas, rios e oceanos, à proteção contra o crime e a violência, à liberdade e a ausência de discriminação e perseguição de pessoas ou grupos, a igualdade entre homens e mulheres, a liberdade política, os melhores transportes
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 8 e vias de transporte, a tomada de ações contra mudanças climáticas, os melhores cuidados com a saúde e um governo honesto e responsável. A ONU também propõe que os internautas acrescentem outros itens que possam melhorar seus mundos (ONU, 2013). Apesar dos esforços das Nações Unidas em escala global, Milton Santos (2005, p. 51) destaca o despotismo da informação relacionado ao nível alcançado pelo desenvolvimento da técnica atual, que está nas mãos dos conglomerados onde são criados “objetos carregando uma ideologia que lhes é entregue pelos homens do marketing e do design ao serviço do mercado”. Por mais nobre que seja a proposta das Nações Unidas, essa visão global corre o risco de cair no âmbito da utopia e seus objetivos e resultados podem se tornar um discurso de fábula dentro da globalização, já que, de acordo com o pensamento de Milton (2005, p. 59), existe uma perversidade sistêmica e ilógica em termos da relação entre o progresso da indústria, da ciência e da tecnologia e as mazelas sociais, fruto do espírito competitivo entre empresas de todo mundo: “Quando os progressos da medicina e da informação deviam autorizar uma redução substancial dos problemas da saúde, sabemos que 14 milhões de pessoas morrem todos os dias, antes do quinto ano de vida.” Nesse sentido, as ações sociais tendem a uma competitividade que, de acordo com Milton Santos, celebra, entre outras coisas, o egoísmo, a rivalidade banal e a ganância, que fazem com que as pessoas busquem o sucesso a qualquer custo. Nas mídias, aponta Milton Santos, opiniões em massa são confirmadas em um movimento de alienação que troca o debate civilizatório pelo discurso único do mercado. 6 Globalização: de sociedade integrada à sociedade individualizada e ensimesmada Gilles Lipovetsky fala sobre a transição de uma sociedade em estado de integração e identificação entre seus membros para uma sociedade fragilizada, individualizada e concentrada em si mesma. É forjado, assim, aquilo que ele cita como “cultura transnacional multipolar”, suscitada pelas novas tecnologias, entre outros fatores: Os seus princípios organizadores [da civilização] de fundo são o mercado, o consumismo, o progresso técnico-científico, o individualismo, a indústria cultural e da comunicação. A combinação desses cinco dispositivos, tão fundamentais quanto heterogêneos, dá origem ao modelo ideal-típico da cultura-mundo. Do mesmo modo, lógicas estruturais intentam difundir por todo o planeta uma cultura comum, objetivos e formas de consumo similares, normas e conteúdos universais, esquemas de pensamento e de ações sem fronteiras. Conquanto não tenha havido (e, provavelmente, jamais possa haver) uma unificação mundial, é inegável que o mundo seja hoje permeado e amplamente reformulado por esses dispositivos forjadores de uma cultura transnacional multipolar. (LIPOVETSKY, 2012, p. 04).
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 9 Algo que acontece no Brasil, por exemplo, pode repercutir do outro lado do mundo e vice-versa. A morte de um jovem brasileiro na Austrália em 2012 devido a um incidente com a polícia local, as taxas de exportação, a estreia de um filme contribuem para despertar a noção de distância (e da redução da distância) e da “compreensão do tempo e do espaço” de que fala Lipovetsky, referindo-se à formula proposta por David Harvey na obra Condição pós-moderna (LOYOLA, 1992, p. 05). No entanto, Lipovetsky ressalta que as distâncias culturais permanecem, mesmo com esse fenômeno de espaço-tempo universal: “De certo modo, reduziu-se o espaço enquanto se acelerou o tempo. Ingressamos na era do espaço-tempo universal, do tempo cibernético global, embora isso, em nenhuma hipótese (convém dizer logo), signifique a supressão das distâncias culturais”. (LOYOLA, 1992, p. 05). É possível estar informado sobre tudo, por conta do desenvolvimento midiático e do espaço cibernético. Ocorrem então, “interdependências, interconexões e interações” que se ampliam a partir do processo de contato entre culturas. Na cultura-mundo atual, existem, conforme Lipovetsky, duas grandes ideologias, a dos direitos humanos e a da ecologia. Nesse sentido, questões sobre a cidadania e a participação cidadã, apontadas em aulas anteriores, ajudam a compreender como funciona a sociedade civil dentro dessa nova etapa da globalização. De um lado, a nossa época presencia a proliferação das declarações, legislações e compromissos de ordem internacional, tudo pela proteção do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. À antiga ânsia de produção indiscriminada contrapõe- se agora o imperativo de um tecnicismo comedido e ecológico, que leva em conta a dimensão do planeta como um todo, em nome de toda a humanidade e de seu futuro. De outro, impõe-se como valor central a ideologia universal dos direitos humanos, com a diferença de que, na primeira modernidade, eles eram secundários em relação aos valoresnacionaisourevolucionários.Essanovaconsagraçãoseexprimeespecialmente na escalada dos movimentos humanitários e das ONGs transnacionais, cujo poder de intervenção e capacidade de atuação não param de crescer. Essas organizações de dimensão internacional que defendem causas humanitárias desconhecem as barreiras das nações e ilustram a expressão altruística e desinteressada da cultura- mundo universalista. (LOYOLA, 1992, p. 06). Considerações finais O que pudemos observar nesta aula é que, apesar da aparente unificação da sociedade em escala global, a cultura não é estática, sofre constantes mutações, decorrentes das novas tecnologias de informação e de comunicação, por exemplo. Domesmomodoemquepodehaveremandamentoumsistemaperversodeglobalização, autores como Milton Santos acreditam que um novo mundo é viável, podendo passar por
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    Senac São Paulo-Todos os Direitos Reservados Ética, Cidadania e Sustentabilidade 10 metamorfoses até chegar a um ideal que se espera dele. A partir dessas metamorfoses, pode-se pensar na produção local de um entendimento progressivo do mundo e do lugar, com a produção indígena de imagens, discursos, filosofias, junto à elaboração de um novo ethos e de novas ideologias e novas crenças políticas, amparadas na ressurreição da ideia e da prática da solidariedade. (SANTOS, 2005, p. 167). É importante ressaltar, e Santos nos lembra disso, que o processo de tomada de consciência não é homogêneo, sendo tal processo uma descoberta individual a partir da obtenção de uma visão sistêmica do mundo e da sociedade. Essa visão sistêmica garante às pessoas a possibilidade de observar o mundo e sua história sob uma ótica crítica. Desse modo, pode ascender, conforme revela o autor, um tipo de apreciação filosófica de nossa situação ante a comunidade, a nação, o planeta, e o nosso papel como pessoas, que permite alcançar a ideia de homem integral e cidadão. Trata-se de um processo que segue em rumo à revalorização do indivíduo para a renovação qualitativa da espécie humana, um alicerce para uma nova civilização, conforme aponta Milton Santos. Referências My World. The United Nations Global Survey for a Better World. Disponível em: <www. myworld2015.org/>. Acesso em: 13 mar. 2013. LIPOVETSKY, G.; JUVIN, H. Globalização ocidental: controvérsia sobre a cultura planetária. Tradução de Armando Braio Ara. Barueri: Manole, 2012. SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2005.