Nº 67 - Julho / Setembro de 2018
b o l e t i m d a F R A T E R N I T A S M O V I M E N T O
DESCANSAR: DO DESERTO AO JARDIM
Correspondência dos leitores 3
Breves 3
O peso da palavra... 4
Saudades do passado... 5
Doação de espólio documental de
José Nuno Pereira Pinto 6-7
Do baú da memória 8-9
Encontro de Formação 9
Festas, feiras e festivais 10-11
Espaço à poesia
O pobre doente 12
Hoje a poesia existe 12
Saudade 14
Recortes 13
In Memoriam... ARTUR CUNHA DE OLIVEIRA
No coração da memória 15
Testemunhos 14
“Chegou a hora de nos levantarmos...” 16
C
uras e ensino. Nisto se resume,
mais ou menos, em quadros, a
missão de Jesus e os apóstolos,
enviados dois a dois, com nada para o
caminho, aceitando a hospitalidade do
povo. Os apóstolos ungem com óleo os
enfermos e ensinam. E multidões se-
guem-nos. Eles têm muito trabalho, sem
tempo para descansar, nem sequer para
comer (Mc 6,30-34).
O Jesus de Marcos retira-se repetidas
vezes para o monte ou entra num barco
para que as multidões não O alcancem.
E agora propõe isso mesmo aos seus
Apóstolos: "Vinde, retiremo-nos para um
lugar deserto para descansar um pou-
co."
J
esus chama-os para um local iso-
lado, para um lugar deserto, para
descansar. No entanto, o resulta-
do não é o esperado, pois, em vez do
deserto, esperam-nos multidões com
fome, carecidas de ensino e de pão. A
busca da solidão e da tranquilidade é
cortada pela premência de uma palavra
pedagógica, de um alimento que sacie.
Só depois de os ensinar e alimentar, eles
despedem as pessoas, e Jesus, e ape-
nas Jesus, retira-Se sozinho para o mon-
te para rezar. O episódio não nos diz
nada do que fizeram os apóstolos.
Este evangelho é muito importante para
nós, que vivemos numa sociedade que
é definida como uma "sociedade do can-
saço" (Kuhn), onde experienciamos um
excessivo crescimento e uma pressão
*
(continua na pág. seguinte)
por parte da vida quotidiana. Estamos,
como sociedade, cansados, e esta ofer-
ta de Jesus vem mesmo a calhar: a soli-
dão, a companhia tranquila, a pausa.
Neste evangelho (Mc 6,30-34), Jesus
convida-nos a acompanhá-lo ao deser-
to, para estar com ele. A deixar as tare-
fas e as pessoas e ir com Ele, para o
deserto.
E
m 22 de Julho, recorda-se tam-
bém santa Maria Madalena. Ma-
ria, Apóstola dos Apóstolos, é um
modelo de liderança para a nossa igre-
ja. Pioneira na experiência da Ressur-
reição, anunciadora aos Apóstolos e lí-
der de comunidades. Mulher curada e
discípula, mestra e pioneira da Ressur-
reição.
Mas, não sabemos se os apóstolos da
história anterior conseguem chegar a um
lugar solitário para ficar a sós com Je-
sus (e podemos assumir que não já que,
se o tivessem conseguido, certamente
constaria em textos do Evangelho), pelo
contrário, sim, podemos dizer a partir dos
textos joaninos que Maria é aquela que
conhece Jesus, na solidão e vivo para
sempre.
E com uma originalidade: o lugar, certa-
mente deserto de pessoas, não é um
deserto de areia e secura, mas um po-
mar, um jardim. O jardim é o lugar bíbli-
co do amor, da beleza, da contempla-
ção e, desde o encontro de Cristo res-
suscitado com Madalena, o lugar da vida,
vida plena, a abundância que dura, que
enche.
C
om Maria Madalena, o deserto,
o despovoado torna-se jardim. E
o Evangelho de João apresenta-
no-la, sozinha com o Cristo ressuscita-
do, neste jardim de flores e frutas, jar-
dim do Mestre e da mulher com nome
próprio, pronunciado em voz alta.
Descansar numa sociedade de cansa-
ço pode significar, algo mais do que um
mero afastamento da lufa-lufa. Pode sig-
nificar procurar e encontrar, no meio dos
sinais de morte, Aquele que nos ensina,
o Mestre, e reconhecer-nos a nós mes-
mos, com nosso próprio nome, num vín-
culo profundo com a vida, e a Vida em
abundância.
Paula Depalma
[Teóloga Doutorada, Profesora de Liturgia, Escritora]
TESOURARIA
Pagamento de quotas
Aquotização dos seusAssociados é a exclusiva fonte financeira do Movimento. Por isso, pedimos
o favor de cadaAssociado pagar a sua quota, logo que possível, preferentemente no 1º trimestre
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*Trad. e adaptação deA. Osório de Castro: in: http://feadulta.com/es/buscadoravanzado/item/9905-descan-
sar-del-desierto-al-jardin.html
Descansar: do deserto ao jardim
(conclusão da pág. 1)

(continuação da página 2)
Muito obrigado pelo envio do Nº 66 da vossa
publicação ESPIRAL.
Votos de excelentes actividades para a associa-
ção e de boa saúde, Paz e Bem para todas as
famílias e Amigos(as) que compõe a família
FRATERNITAS.
Abraço fraterno para todos.
† Francisco Senra Coelho
[padresenra@gmail.com] (11 de junho de 2018)
Obrigado, Alberto, pelo ESPIRAL.
É mesmo uma boa partilha crescendo em
espiral, como incenso, à volta de dois temas: o
nosso Encontro anual com a Laudato si' e a
PÁSCOA-VIDA do nosso irmão e amigo
Simão, com belíssimos testemunhos de gente
amiga e crente. Lendo-te sobre ele, também
concluo que muitos convivemos sem nos
conhecermos realmente: que tesouro ali
tínhamos, em vaso de barro como todos, mas só
percetível na sua finura de diamante polido
quando o vaso físico se partiu! Graças a Deus
por ele e Obrigado a quem o amou, dele cuidou
até ao fim e aqui partilhou a riqueza recebida no
convívio com ele!
Apreciei, também, as várias sensibilidades dos
ECOS registados. A VIDA continua...rá!
Bem-hajas pela atenção.
frei menorgado
[lopes.morgado@gmail.com] (11 de junho de 2018)
Estimado Alberto Osório de Castro
Muito agradeço o envio do nº 66 do boletim
Espiral
Pax
O Senhor nos confirme na alegria do serviço ao
Evangelho da Esperança
Cordialmente em Cristo, fonte da Agua viva
† D. José Cordeiro
[djosecordeiro@gmail.com] (14 de junho de 2018)
Obrigado pelo boletim Espiral.
Bom trabalho e saúde.
Zeferino
[zeferinomsantos@gmail.com] (19 de junho de 2018)
Caro Dr. Osório de Castro
Obrigado pelo envio da último Espiral, que só
agora posso agradecer devido a uma ausência
prolongada fora de Lisboa.
Cordiais cumprimentos.
† António Montes Moreira
[montes@ofm.org.pt] (2 de julho de 2018)
 FALECIMENTO: No dia
13 de Julho fomos surpreendi-
doscoma notícia do falecimen-
to, em Madrid, onde se encon-
trava emtrabalho,doLuís Mar-
tins, de 41 anos de idade, filho
dos Associados Bráulio e Ma-
ria José, que vivem emVidago.
Numa situação tão dura e de
profundo sofrimento, só a fé no
b r e v e s . . . Senhor Jesus que vence a mor-
te, pode suavizar a dor e apon-
tar outros horizontes! Aos pais
e demais familiares a certeza
da nossa oração.
 EXPOSIÇÃO: O Alberto
Videira D'ASSUMPÇÃO (Associ-
ado nº 7), membro da Royal
Society ofArts (RSA), de Lon-
dres, mantém, em exposição
permanente trabalhos seus, no
restaurante Cozinha da Sé em
Braga.
Os nossos parabéns!
 LANÇAMENTO DE LI-
VRO: O Augusto Pires da
Mota, presbítero casado, lan-
çou mais um livro seu: “Mis-
são: OGrande Desafio”.Foi no
passado dia 9 de Junho, em
Gulpilhares (V. N. Gaia).
As nossas congratulações!
Não poucas vezes tenho sen-
tido calafrios ao ouvir a palavra
IRMÃO a saltar da minha boca.
Acompanha-a sempre o embara-
ço de uma pergunta: "De onde
me vens? Tens raízes fundas?"
Tenho medo que se estrague
e apodreça. Tenho pavor que se
vulgarize e o muito uso lhe tire
toda a graça…
É que esta palavra IRMÃO é
uma palavra FORTE e habitada.
Habitada de gente, de possibili-
dades, de imprevistos, de ima-
gens. Ela abre aos meus olhos
impensáveis campos de Confi-
ança trabalhados a muitas mãos,
na Fé/Esperança de um Mundo
às direitas. Com ela eu passo por
estreitos caminhos de abraços,
cumplicidades, lágrimas e sorri-
sos. TANTOS!
É que esta é uma palavra
cheia de vitalidade, sempre a fa-
zer-se,a refazer-se e atornarpre-
sentes todos os "E... se?" ditos
jáno degrau de imparáveisaven-
turas. Já deixei de contar os
recomeços entre mãos e mãos,
todas elas agarradas a um mes-
mo fio — a Esperança!
O peso da palavra…
A sua força/dinamismo leva-
-me a entrar numa aldeia chama-
da Betânia — casa do pobre,
onde todo o amor éAmor Irmão
— Maria, Marta, Lázaro.
O eco dela remete-me à Ori-
gem: ao "extraordinariamente
bom" genesíaco de Deus, ao bei-
jo do Princípio e a tudo o que de
mais verdadeiro acontece no co-
ração da gente a ponto de o fa-
zer reNASCER e LEVANTAR.
Que conSanguinidade é esta
que nos compromete até ao mais
fundo dos dias e das decisões?
Que conSanguinidade é esta
que pintada cordoAmor os nos-
sos passos… da cor da Festa os
nossos olhos…?
Glória
(Associada Nº 22)


Quando olvidamos as refe-
rências fundacionais e só nos
balizamos por tempos conside-
rados de "glória", quando não
temos os olhos bem firmes e
apontados ao único paradigma
verdadeiro - Jesus, o rosto hu-
mano de Deus -, só resta reduzir
a igreja a um ritualismo bacoco,
tipo tridentino!...
Parece incrível, mas há o
surgimento de uma nostalgia da
"missa" em latim, olhos postos
no vácuo e não nas pessoas,
cheia de "ritos mágicos" e her-
méticos, costas ao povo("comu-
nidade"?)…
E esta nostalgia tem eco em
órgãos de comunicação social.
Ainda há pouco tempo, o Jornal
de Notícias de 24 de Junho, um
domingo, titulava, na sua pri-
meira página, "Padres anti-Papa
dão missas em latim e de costas
para os fiéis", remetendo para as
páginas 6 e 7, numa secção
intitulada "Primeiro Plano",
acompanhados de imagens, os
artigos de Emília Monteiro so-
bre este tema. E a jornalista re-
fere que as missas em latim da
"Fraternidade Sacerdotal de S.
Pio X" têm cada vez mais adep-
tos que, na zona do grande Por-
to, chegam até a alugar uma sala
num hotel. A revista Visão, na
sua edição de 10 de Março deste
ano, abordava o mesmo assun-
to, mas titulando mais vasto e
preciso como "Descubra a igre-
ja portuguesa anti-papa Francis-
co" (http://visao.sapo.pt/actuali-
dade/sociedade/2018-03-10-
Descubra-a-igreja-portuguesa-
anti-papa-Francisco). E nesta re-
portagem afirma-se que "as mis-
sas em latim regressaram e re-
velam o movimentoconservador
que está a crescer no País. Atra-
em jovens fiéis e sacerdotes que
aprendem o ritual em segredo".
Custa-me que, sem pestane-
jar, se possa afirmar que "foi as-
sim [em latim] que a missa se
celebrou ao longo de dois mil
anos"! Isto é tomar o todo pela
parte e, até, "forçar" Jesus a fa-
lar latim... Mas, sobretudo, arre-
pia-me saber que "está a crescer
o número de sacerdotes, especi-
almente os mais novos, a apren-
der o rito às escondidas e a cele-
brar missas", explica um padre
"que a costuma rezar." Que se-
menteira está a ser feita nos
nossos seminários? O que atrai
sobretudo os jovens?
Por detrás de tudo isto, está
uma visão deturpada de igreja,
ou, melhor uma visão de igreja
que não vem de Jesus, O que Se
manifestoucontra osritualismos
ocos do Judaísmo oficial.
Em que se fixam estes bapti-
zados, estes cristãos? Em Jesus
que Se identifica com os mais
fracos, os mais pobres, os
deserdados? Ou no encontro
com o esotérico, o misterioso, o
arcano?
Penso que, de facto, nos faz
faltaumaevangelização de base,
uma edificação em que Jesus
seja o alicerce, a pedra angular
da Igreja. Não podemos conten-
tar-nos com celebrações em que
as pessoas se nãoconheçam, que
não se sintam membros de um
corpo vivo, de uma comunida-
de.
Procurar o mistério, o ritua-
lismo, ou, pelo contrário, mer-
gulhar no encontro pessoal com
o Salvador presente no outro,
simpático ou não, mas centelha
da luz que vem do alto?
"Vem, Senhor Jesus!" (Ap
20,20)
Alberto Osório
(Associado Nº 20)
Saudades do Passado…
O Dia Internacional dos Ar-
quivos foi comemorado em
Aroucadeforma especial.Acon-
teceu em oito de Junho. Logo de
manhã, algumas crianças estive-
ram na Biblioteca para um pri-
meiro contacto com os livros e
oArquivo. Mas o grandeaconte-
cimento estava reservado para a
tarde. Foi na Sala do Capítulo do
Mosteiro de Arouca. Ambiente
austero, solene, inspirador!
O Dr. Pereira Pinto ia rece-
bendo os convidados. O amigo
dr.Albano Costa delineou o per-
curso académico, literário e pro-
fissional do homenageado.
Constata-se que Pereira Pinto,
desde cedo, andou à volta com
os livros e fez um bonito per-
cursoliterário.Comvárioslivros
publicados e intervenções nos
diversos órgãos de comunicação
social,sempreactuou para escla-
recer eacentuarahistória davida
e pessoas de Arouca.
Esta bela cerimónia foi
enriquecida com interpretações
musicais pelos alunos da Escola
de Música de Arouca.
Uma assembleia atenta
acompanhou toda a cerimónia,
que foi presidida pela dra. Fer-
nanda de Oliveira, em represen-
tação da Presidente da Câmara,
porimpedimento da mesma.En-
tre os muitos amigos do Dr. Pe-
reira Pinto viam-se alguns
conterrâneos, dos quais destaca-
mos a presença amiga e sempre
benvinda do CónegoArnaldo de
Pinho.
A rematar tão simples e pro-
fícuo encontro foi assinado o
auto de entrega do acervo e es-
pólio do dr. Pereira Pinto à Bi-
blioteca Municipal.
Sala do Capítulo do Mosteiro de Arouca: parte da assistência.
(conclui na pág. 7)
Foto:©JornalRodaVivaFoto:©JornalRodaViva
Dr. Albano Costa, fazendo a
apresentação do doador.
Para perpetuar a efeméride, o
autor ofereceu um exemplar do
seu último livro "Da outra Mar-
gem".
Qual o género literário desta
obra? O autor oscila entre ro-
mance, narrativas, memórias…
Qualquer que seja o género as-
sumido, registamos com muito
apreço que "Da outra margem"
nos oferece episódios da vida
quotidiana de um povo. Sempre
ouvimos falar da febre do
volfrâmio e de suas conse-
quências. Pois aqui temos cenas
quenos revelam o drama de toda
a população, muito carecida de
recursos, que aceitavam condi-
DR. PEREIRA PINTO
DOA ESPÓLIO DOCUMENTAL
À BIBLIOTECA DE AROUCA
Momento da assinatura do auto de entrega.

Foto:©JornalRodaViva
ções miseráveis de exploração
extractiva. Outros retratos soci-
ais marcam a narrativa: a emi-
gração para o Brasil, a presença
da P.V.D.E. e suas detenções ar-
bitrárias,asituaçãodemiséria de
caseiros… A igreja está presen-
te,colaboracionista, não fermen-
to — a igreja do tempo! Leitura
muito agradável, apresenta retra-
tos da vida diária, com muitos
pormenores e emoções. Para-
béns ao Dr. Pereira Pinto! Mui-
to Obrigado!
J. Soares
(Associado Nº 72)
página oficial na Internet: http://fraternitasmovimento.blogspot.com NIF: 504 602 136 IBAN: PT50 0033 0000 4521 8426 660 05
1Do Baú da memória é já ne-
cessária muita força para ar-
rancar estórias esquecidas.
Foi isso que me aconteceu, há
dias. Retornei ao final dos anos
sessenta do século passado. Ti-
nham-me solicitado o acompa-
nhamento de quatro pré-finalis-
tas de Teologia que desejavam
fazer um "estágio" pastoral, an-
tes de serem ordenados pres-
bíteros.
Num domingo qualquer, eu e
eles, metemo-nos no meu
"carocha" e fomos a caminho de
Lisboa. Depois de muitas reuni-
ões, a última em casa do arqui-
tecto Nuno Teotónio Pereira, re-
gressámos a casa.
Então, demo-nos conta de que
era domingo e não tínhamos ce-
lebrado a eucaristia.
Apesar de cansados da viagem,
tal como os discípulos de
Emaús, sentámo-nos a uma
mesa redonda queeles tinham na
cozinha. Havia pão e vinho. Ha-
via um pequeno missal com as
leituras dominicais e uma vela.
E havia Fé.
Fizemos as leituras do dia, que
cada um comentou. Demos gra-
ças e partimos o pão entre nós.
Bebemos do vinho. O Senhor
estava no meio de nós. "Ite mis-
sa est".
Eram tempos de primavera con-
ciliar. Eram tempos de mudança
e de esperança. Tempos que nos
faziam regressar aos primeiros
séculos da nossa era e sentir a
presença do ressuscitado, sem
báculos nem mitras, sem frases
construídas e deturpadas por sé-
culos de especulação teológica.
Era ainda primavera.
2Há pouco mais de um mês,
num encontro de antigos
alunos da Universidade de
Comillas(Santander– Espanha),
também foi celebrada a eucaris-
tia. Éramos cerca de trinta parti-
cipantes. Alguns eram presbí-
teros em exercício. Célibes
como manda o "Codex Iuris
Canonici".Alguns outros, acom-
panhados das respectivas espo-
sas, tinham deixado o exercício
e a vida clerical. Não eram
célibes. Como manda o Livro do
Génesis, ("Não é conveniente
que o homem esteja só; vou dar-
-lhe uma auxiliar semelhante a
ele") tinham constituído família.
Outros ainda, que nunca tinham
sido presbíteros, estavam tam-
bém ali em romagem de sauda-
de, companheirismo e amizade
antiga.
Aeucaristia foicelebrada, ao fim
da tarde, numa capela adjacente
ao Turismo Rural, onde estive-
mos instalados durante aqueles
dias. Um dos presbíteros vestiu-
-se a rigor, solenemente, para
presidir. Os demais presbíteros
permaneceram misturados.
O presbítero/presidente assumiu
clericalmente as suas funções,
sem ter em conta a especifici-
dade da situação. Foi pena.
Ritualmente, esteve quase cor-
recto. Apenas algumas altera-
ções significativas foram intro-
duzidas por iniciativa dos outros
participantes. Bebeu sozinho do
vinho e distribuiu formalmente
o pão. Cinquenta e tal anos de-
pois, a invernia pós-conciliar ti-
nha produzido os seus efeitos.
Era mesmo inverno.
3Foi há pouco tempo (quatro
ou cinco anos). Estava em
Oxford e era domingo. Procurei
uma igreja católica. Não encon-
trei. Entrei na mais central.
Anglicana e antiga.
Em quase tudo semelhante à ca-
tólica. Paramentos. Leituras...
A certa altura até achei que esta-
va num templo católico, numa
liturgia católica, apesar de…
E veio a altura da comunhão. O
pão e o vinho eram distribuídos.
Retraí-me e não me aproximei.
DO BAÚ DA MEMÓRIA
ENCONTRO DE FORMAÇÃO
Data: 5 a 7 de Outubro de 2018
Local: Seminário Nª Srª de Fátima – Alfragide
Tema: Os Primeiros Cem Anos do Cristianismo
Orientador: Pastor DIMAS DE ALMEIDA (IGREJA PRESBITERIANA)
Inscrições: Secretariado da Fraternitas até ao dia 25 de Setembro
Os Encontros de Formação fazem parte da programação normal da FRATERNI-
TAS Movimento. São um instrumento indispensável para o crescimento pessoal
e grupal.
Contamos, naturalmente, com todos, pois se trata de um Encontro a nível naci-
onal. Todavia, porque é aberto, pedimos também o favor de o divulgarem e
motivarem amigos e conhecidos para esta iniciativa do nosso Movimento.
Geral: fraternitasmovimento@gmail.com Secretariado: secretariado.fraternitas@gmail.com Direcção: direcao.fraternitas@gmail.com
Achava que não tinha direito.
Foi então que alguém se aproxi-
mou e me convidou.
Escusei-me delicadamente. Ou
covardemente? Não sei.
Não me perguntaram se estava
preparado. Se me havia confes-
sado. Se tinha regularizada a
minha situação conjugal. Se era
de outra confissão religiosa…
Apenas me convidaram.
"Tomai e comei.Tomai e bebei."
Era outono. Havia frutos madu-
ros espalhados pelos campos…
4Que fizemos nós da Ceia do
Senhor?
Um espectáculoparadeslumbrar
e atrair multidões?
Um concerto gigante com mú-
sica a condizer?
Um cerimonial dominical para
cumprir preceito?
Um ritual mágico com genu-
flexões e abluções?
Que fizemos nós da Ceia do Se-
nhor?
Nota final. Escrevi este texto
pensando nas declarações e no
esforço que alguns bispos ale-
mães estão a fazer para que os
casais "interconfessionais" par-
ticipem nas eucaristias celebra-
das nas suas dioceses. Não es-
queço, porém, a renovação ain-
da necessária na Igreja Católica.
Para que seja, de novo, prima-
vera.
Antonino Mendonça
[antonino.mendonca@gmail.com]
(20-07-2018)

Estamos no tempo das ma-
nhãs claras, dos dias solarengos
e com temperaturas agradáveis.
O Alto-Minho é um arraial
contínuo.
Ouvem-se sons dos gaiteiros,
dos bombos, dos cantares ao
desafio e escutam-se as bandas
de música no arraial, que dura
pela noite dentro, executando
lindas partituras onde a música
clássica se mistura com rapsó-
dias.
Há música rock animada e
forte.
Dança-se e fala-se ao amor.
"Teus olhos me guiam, / Tua
alma me aquece; / Teus lábios
me beijam / Meu coração ador-
mece".
Aquando "os santos popula-
res" houve foguetes no ar e sar-
dinha assada e aromas de
manjerico.
Agora, na festa dos padroei-
ros os sons festivos ouvem-se ao
perto e ao longe. Os fogos de
artifício iluminam o céu com
multicores.
Acontece o espectáculo piro-
musical.
Há procissões com estandar-
tes, andores, figurados, devotos
amortalhados cumprindo pro-
messas de horas difíceis.
As comissões, mordomas e
mordomos desfilam com alegria
festiva.
Surgem ramos de flores para
o santo da devoção com muitos
cravos brancos e vermelhos.
Ouvem-se toques festivos
dos sinos nos campanários.
Fazem-se preces sentidas e
desabafos de recordação, ligan-
do o hoje ao ontem, onde os la-
ços antigos se cumprem na tra-
dição. Cada um sente a festa a
seu modo, mas vivendo-a na
coesão social com rituais
integradores.
Há sons e animação com car-
rinhos a dar uma volta…
Há pregõesdefeirantes e pro-
vam-se as farturas.
Ainda há roscas, mas já não
há pirolitos.
Não há as aguadeiras de cân-
taro àcabeça,anunciando:"Olha
a boa limonada."
Agora saboreiam-se outras
bebidas…
Haja alegria que baste, para
quebrar com o quotidiano pesa-
do, pois "tristezas não pagam
dívidas".
É tempo de viver de manhã e
pela noite dentro com um cora-
ção novo em companhia de fa-
miliares e amigos.
A comensalidade é festiva,
saboreando-se a boa comida em
mesas grandes com toalhas lin-
das.
Os aromas cruzam-se com os
paladares, saboreados com o
bom vinho verde. (Como aque-
le que se esconde no pipo detrás
da porta e era reservado para o
dia dos padroeiros).
É a festa da nossa terra.
Assim, de Maio a Setembro,
e que linda é a nossa festa!
De portas a dentro (na Igre-
ja) e portas a fora (no arraial).
E não se esquece a esmola ao
santo, ofertando a dádiva da re-
ciprocidade.
Rogam-se bênçãos para os
dias de trabalho, dos afazeres e
das canseiras.
Masvamos à festa dos padro-
eiros e das romarias.
Não há muito tempo os me-
ses do ano eram referidos pela
celebração do santo.
Assim, o mês de Junho era o
mês de S. João; o mês de Julho
era de S. Bento ou de Santiago;
o mês de Agosto é o de S.
Bartolomeu e da Srª da Agonia;
e o mês de Setembro (o mês das
colheitas) conhecido pela Roma-
ria da Srª da Peneda e S. Miguel.
Recordamos de Pedro Ho-
mem de Mello:
"Quando ouço a concertina,
Reparo e tiro o chapéu;
Não me importava de morrer
Se houvesse disto no céu".
Assim registamos ainda da
nossa poesia:
"Mesmo na frente marcham a
xcvpocompasso,
De fardas novas vai o sol e o dó;
Quando o regente lhe acena com
xcvpoo braço
Logo o trombone faz pó, pó, pó,
xcvpopó, pó, pó".
(Lopes Ribeiro)
FESTAS, FEIRAS E FESTIVAIS
"O fogueteiro é engraçado,
É engraçado tem jeito;
Deita o fogo para o ar
Fica todo satisfeito"
(Popular)
FEIRAS
No tempo de verão realizam-
-se muitas feiras que mobilizam
negociantes, vendedores e por
vezes gado cavalar.
É de referir a feira anual a 12
de Setembro, em Portela de
Alvite, Sistelo, concelho de Ar-
cos de Valdevez. Aí se
transacciona bastante gado cava-
lar sendo de destacar os
garranos.
Como escreve a historiadora
Virgínia Rau "as feiras são uns
dos aspectos mais importantes
da organização económica da
Idade Média. A feira não supõe
só o ponto de contacto periódi-
co entre compradores e vende-
dores, onde se compra, vende,
ou escamba.Supõe também uma
organização especial.
As feiras contribuíram para a
melhoria das relações económi-
cas e jurídicas entre os homens.
As romarias, as peregrina-
ções e todas as festividades reli-
giosasatraiamperegrinosvindos
de longe, e assim essas concen-
trações tornavam-se muitas ve-
zes em centros de troca."
PeloAlto-Minho realizam-se
as feiras com inspiração medie-
val, atraindo muitos forasteiros
que se introduzem no ambiente
secular onde não faltam os
cuspidores de fogo e os
tamborileiros.
FESTIVAIS
Oambiente bucólico doAlto-
-Minho convida a apreciar as
águas cristalinas dos rios que
descem da montanha e correm
para o Atlântico.
Há espaços que convidam a
permanecer ouvindo o murmú-
rio das águas e canto da passa-
rada.
No território minhoto há lo-
cais que convidam para se ouvi-
rem as bandas de rock.
Assim, está muito divulgado
o festival que se realiza na zona
do Taboão, Paredes de Coura,
bem como o festival de Vilar de
Mouros.
Mas em Ponte de Lima, de há
anos a esta parte, há uma inicia-
tiva já de carácter internacional
que é o "Festival de Jardins". No
corrente ano a efeméride tem o
tema: "JARDINS DO CONHECIMEN-
TO".
As festas destacam a impor-
tância do território e do patrimó-
nio, desenvolvendo momentos
culturais significativos nas dinâ-
micas sociais.
Parece-nos oportuno referir o
pensamento de Platão: "Mas os
deuses com pena da humanida-
de — nascida para trabalhar —
estabeleceram a sucessão de fes-
tas repetidas, a fim de recuperá-
-los da fadiga, e deram-lhes as
Musas e Apolo, seu chefe, e
Dionísio, como companheiros
nas suas festas, de forma que,
alimentando-se com os deuses
em companhia festiva, pudes-
sem novamente manter-se de pé
e erectos."
"A festa define-se pela
efervescência,explosão intermi-
tente, o frenesim exaltante, o
sopro poderoso da efervescência
comum, a concentração da soci-
edade, a febre dos instantes cul-
minantes".
A festividade revigora as
energias sociais, de acordo com
o pensamento de Durkheim,
Hubert e Mauss.
A festa faz bem para alegrar
a gente.
O tempo de férias é bom para
fortalecer o convívio familiar e
celebrar a amizade.
No livro do Eclesiastes (Bí-
blia) podemos ler: "Debaixo do
céu há momentos para tudo: um
tempo para morrer, um tempo
para chorare umtempo para rir,
um tempo para se lamentar e um
tempo para dançar".
José Rodrigues Lima
[jrodlima@hotmail.com]

Hoje a poesia existe
nos rostos das crianças,
no sorriso dos jovens,
nos passos dos adultos
já cansados,
no caminho dos que sozinhos
procuram encontrar
outros ainda mais isolados.
Hoje a poesia está
na cor que teima existir
por detrás das nuvens,
nas árvores despidas,
num rio cujas águas
perderam o azul.
Hoje a poesia é:
força, luta, fraqueza,
coragem, desânimo,
amizade, indiferença.
Hoje a poesia tem
a linguagem dos homens,
as suas limitações
e os seus sonhos já desfeitos.
Hoje a poesia é tudo
e é nada,
é o não querer parar.
Hoje a poesia é
a esperança
duma vida a começar.
Helena Alexandre
[jlc.alexandre@gmail.com]
Era tarde... fria e gelada!...
Gemia o vento na solidão calada!...
No céu... só nuvens!... A rua parada!...
A porta do doente estava aberta
porque precisava de ar, quem mais nada tinha!...
Peguei-lhe na mão, gelada como a minha!...
Sentei-me nos jornais velhos,
Amontoados…
Humedecidos…
Amachucados no chão…
…Apodrecidos…
A servir de colchão!...
Eu tremia, sem saber o que dizer!...
Senti o estertor do frio... a voz pesada da solidão...
O cheiro húmido de podridão!...
Mas, quando sorri, sua boca abriu-se… os olhos brilharam,
e as suas encarquilhadas mãos, a minha apertaram!...
Ai, meu Deus! Tremeram até aqueles pobres umbrais!...
Nunca vi tão perto a imagem viva de Cristo,
pregado agora num colchão de jornais!...
Lá fora era tarde... fria e gelada!...
Gemia o vento em canções doridas!...
No céu... só nuvens,... a rua parada,
feita caixão de folhas caídas!...
Eu chorei! Nem sei porquê! Não sabia falar!...
…Esfarrapado, imundo, desfigurado,
aquele doente olhava-me...
Olhava..., mas nada dizia!... Apertava, com a dele,
a mão que, a tremer, eu lhe tinha dado!...
E quando, devagarinho, por ele puxei,
levantou-se..., de repente transformado,... resplandecente,...
iluminando todo o casebre com brilho nunca visto!...
— Ai, meu Deus, — gritei — que é isto?!...
Queria fugir...
Com tanta emoção… só queria gritar!...
— "Sou Eu — disse ele — o teu Cristo,
que aqui sofre para te salvar!...".
E Cristo esfarrapado, doente,
crucificado em jornais velhos,
amachucados, humedecidos, amontoados, ali,
continua gemendo, irmão, à espera também de ti!...
Hoje a poesia existe
O pobre doente
ManuelA.Paiva
(AssociadoNº28)




A razão apresentada por
Jesus, para fundamentar as
suas atitudes, era radical: o
Sábado é para o ser humano
e não o ser humano para o
Sábado. Atacava, assim, o
fundamentalismo religioso
para todos os tempos e
lugares. Deus nunca pode ser
invocado para a infelicidade.
Não se pode louvar a Deus
sem cuidar da libertação, da
cura e da alegria dos afecta-
dos pelo sofrimento.
As atitudes de Jesus, em
relação às prescrições do
Sábado, questionam a nossa
miopia: as leis e os regula-
mentos das Igrejas são para o
ser humano ou é o ser huma-
no para essas leis?
Muitas das controvérsias,
antes, durante e depois do
Vaticano II, esquecem esse
dado elementar. Não são as
leis eclesiásticas que man-
dam no Evangelho de Jesus.
É este que questiona, perma-
nentemente, as leis que
inventamos: fazem bem ou
mal à libertação dos cristãos?
São para fazer desabrochar a
nossa alegria ou para nos
mergulhar na tristeza?
O enunciado de Jesus tem
um alcance filosófico e
teológico muito mais amplo,
diria, universal. Todas as
instituições têm de ser
submetidas a esta interroga-
ção: servem ou atraiçoam o
desenvolvimento humano?
Bento Domingues
in Público (22-07-2018)
NEM NAS FÉRIAS HÁ SOSSEGOO rosto mutilado
de Deus
Paulo prosseguiu:
— Eu não estava a falar do
Deus bome misericordiosono
qual a mãe acredita, mas da-
quele com que os popes nos
ameaçam como se fosse um
cacete, um Deus em nome do
qual se quer forçar toda a gen-
te a submeter-se à vontade
cruel de alguns.
— Não há dúvida, é isso mes-
mo! — gritou Rybine, baten-
do na mesa. — Até Deus eles
nos mudaram; dirigem contra
nós tudo o que têm entre as
mãos! Lembras-te, Pelágia?,
Deus criou o homem à Sua
imagem e semelhança, por-
tanto Ele éparecido como ho-
mem e este é o Seu semelhan-
te. Mas nós, não é com Deus
que nos parecemos, mas com
selvagens.Na igrejamostram-
-nos um espantalho... É pre-
ciso transformar Deus,
purificá-lo! Vestiram-no de
mentiras e de calúnias, muti-
laram-lhe orosto paranosma-
tarem a alma.
M. Gorki,
A Mãe, Inova 1971, pg 61
Açores no coração. No ensino,
na escrita, no jornalismo, como
director do centenário jornal A
UNIÃO, cujo encerramento,
pela Diocese,lhecausouum pro-
fundo desgosto; como autarca,
como Deputado ao Parlamento
Europeu e como participante na
ARTUR CUNHA DE OLIVEIRA
(conclusão da pág. 15)
No Coração da Memória

fundação de alguns serviços no
início do regimeautonómico dos
Açores.
Mais do que tudo isto, o tes-
temunho que me fica é o do seu
amor à família. Sua mulher,
Antonieta, com a dor da perda,
é o testemunho melhor de que a
vida de Cunha de Oliveira ultra-
passou todos os academismos,
toda a ciência e sabedoria para
se traduzir numa só palavra:
amor!
É este Cunha de Oliveira que
semprerecordareie guardarei no
meu coração!
Santos Narciso
[Jornalista, Director-Adjunto dos jornais
"Correio dos Açores" e
"Atlântico Expresso"]
vida é um vago instante
que depressa desaparece sem que o
queiramos!
Foge-nos e bem a queremos agarrar
para isso andamos, mexemo-nos,
rodopiamos num vaivém constante.
Mas se paramos um momento
de novo reparamos
que a vida é apenas um vago instante!
A vida é movimento
que não abranda nem se extingue
nesse vaivém constante
de nós para os outros
dos outros para nós;
é círculo ininterrupto
em que tudo se mistura:
o mal e o bem,
o ódio e o amor,
a guerra e a paz
a tristeza e a alegria.
É algo de mistério,
nem sempre percebido
força que nos foi dada,
ideal em nós concretizado
sem nunca o termos pedido.
A vida é encanto, com sonhos de amizade,
mas é também desilusão,
ficando somente a saudade!
Helena Alexandre
[jlc.alexandre@gmail.com]
Sentimos um misto de dor e de
bem-aventurança na morte das "colunas"
da Fraternitas, como o Artur. Confiamos que
ele nos inspirará desde o Céu, na presença do
Senhor Jesus de Quem tanto falou, escreveu,
a Quem tanto amou e rezou.
Maria José
e Fernando Félix
(Associados Nº 105)

Um Homem Bonito, levado do Espírito!
Há gente que por onde passa não passa em
vão!
O Artur era um desses!
Damos Graças a Deus por o termos conheci-
do e por se ter tornado nosso Irmão na
Consanguinidade do Espírito de Deus!
Glória e Carlos
(Associados Nº 22)


Não! Não vou fazer aqui a
biografia deArtur Cunha de Oli-
veira, meu Professor no Semi-
nário deAngra, nos anos sessen-
ta do século passado e meuAmi-
go de sempre, que morreu no
passado dia 20 de Junho, aos 93
anos. Foi-me pedido um teste-
munho e, embora as minhas pa-
lavras não sejam sequer sombra
do que gostaria de expressar,
deixo aqui esta humilde home-
nagem ao Mestre, ao Amigo e
ao Homem destemido que foi
Cunha de Oliveira.
Sacerdote dispensado, foi
sempreumtestemunho de Fé em
Deus, personificado no "Senhor
Jesus", forma como sempre tra-
tou a Pessoa de Jesus Cristo.
Tiveahonradeapresentar em
Ponta Delgada a sua obra teoló-
gica constituída por vários li-
vros, entre os quais "Crer. Mas
em quê?" "O Rosto Humano de
Deus!" "Jesus e as Mulheres!"
"AMorte do Justo!" "Natal, Ver-
dade, lenda e mito!" "Jesus,
Profeta do Islão e outros ensai-
os".
Todos estes livros são pratos
suculentos de História,Teologia,
Exegese e Hermenêutica, servi-
dos pela paixão de um Homem
que passou a vida a ensinar e a
fazer Pensamento, pouco impor-
tado com status, convenções ou
tradições. Nele sempre foi a in-
teligência ao serviço da convic-
ção!
Em cada livro de Cunha de
Oliveira que leio, sinto-me fas-
cinado com a paixão de apren-
der coisas novas ou melhor,
(re)aprender coisas que vivo e
sinto, dando-lhes um novo sen-
tido que, emnada diminuindo ou
desvirtuando a Fé, simplesmen-
te a coloca na dimensão do pen-
samento, da ciência e da
exegese.
Podemos não concordar com
algumas das conclusões a que
Cunha de Oliveira chega, mas
istonão beliscanada ogostopela
obra e pelo trabalho apresenta-
do, porque um dos grandes mé-
ritos do autor é, precisamente,
esconjurar dogmatismos e ape-
lar à inteligência.
Cunha de Oliveira era, sabia
que era e afirmava ser uma figu-
ra controversa e é neste prisma
que considero que foi um com-
batente, em todo o tempo e em
todas as dimensões, contra aqui-
lo que ele mesmo chamava de
psitacismo cultural e religioso (a
repetição de ideias e frases fei-
tas, sem assimilação e análise
individual).Artur Cunha de Oli-
veira deixa uma marca profun-
da na liberdade do Pensamento,
nosAçores, essencialmente por-
que foi capaz de cortar amarras
com todas as instituições, nome-
adamentecom aIgreja,semnun-
ca as secundarizar, nem deixar
de defender os seus valores. Era
sacerdote dispensado, mas nele
cabiamosafectos queenformam
qualquer um que tenha recebido
o dom da Ordenação presbiteral.
Assim o vi sempre. Nunca dei-
xou de ser o meu Professor, e
amei-o e respeitei-o da mesma
forma como respeito outros dos
meus Professores daquela gran-
de Escola que foi (e é) o Semi-
nário Episcopal de Angra, uns
ainda vivos e outros na minha
memória.
Cunha de Oliveira foi um ci-
dadão do mundo, sempre com os
In Memoriam...
ARTUR CUNHA DE OLIVEIRA
1930 - 2018
20 de Junho
No Coração da Memória
(conclui na pág. 14)
Foto:©PedroMonteiro(CorreiodosAçores)

Rua Dr. Sá Carneiro, 182 - 1º Dtº
3700-254 S. JOÃO DA MADEIRA
e-mail: espiral.fraternitas@gmail.com
boletim de
fr a t er n it a s m o v im en t o
Responsável: Alberto Osório de Castro
Nº 67 - Julho/Setembro de 2018
“CHEGOU A HORA DE NOS LEVANTARMOS..."
Num dos seus livros, a perspicaz pedagoga
italiana Montessori deixou escrita esta pergunta:
«De que serve transmitir conhecimentos, se o de-
senvolvimento total do indivíduo fica para trás?».
Muitos pedagogos, e outros especialistas, já pe-
garam na mesma pergunta e tentaram dar-lhe uma
resposta. Todos parecem de acordo que tal
desequilíbrio é motivado, de facto, pelo avanço
dos conhecimentos, mas a que tem faltado o cor-
respondente avanço do todo global e harmónico
do indivíduo, nas suas vertentes, além de físicas,
tambémpsíquicase espirituais.Esteproblema tem
preocupado muitos psicólogos, muitos psiquia-
tras, muitos sociólogos e também muitos teólo-
gos. Cada um tem dado a sua achega, mas o que
não se tem conseguido é coordená-las, analisá-
las sem preconceitos redutores, e uni-las numa
acção concertada, sem as fronteiras de redutos em
que cada um se julga com a verdade total e exclu-
siva. É preciso que cada um junte ao todo, o seu
pedaço de verdade. Por isso é que A. Machado
escreveu isto: «A tua verdade? Não! A verdade!
Vamos procurá-la juntos. A tua, guarda-a para
ti!».
Se não for assim, continuamos a puxar o co-
bertor só por uma das pontas (seja ela qual for),
resultando sempre que tal cobertor, assim, nunca
desliza certo, sempre encolhido e deformado… E
alguém fica descoberto!... É a imagem daqueles
que desorientamos com os nossos desatinos!
Os nossos jovens sofrem hoje desta deforma-
ção,deste desequilíbrio, porque são arrastadospor
umas pontas, deixando outras para trás. O homem
é um todo global. Assim, ou caminha todo em
equilíbrio, ou fica inane, aos pedaços, pelos ca-
minhos da vida! De facto, o problema tem mais
acuidade no que respeita aos jovens, porque, cada
jovem que se desencaminha, é um pedaço do nos-
so futuro que se perde! Apesar disso, muitos res-
ponsáveis dormitam num sono de indolência e de
incapacidade!...
Paralelamente à pergunta de Montessori, po-
deríamos deixar outra, que já alguém levantou,
como complemento: «Há dois mil anos começou
a era cristã. Mas quando começaremos a ser cris-
tãos?».
Isto morde, amigos, a nossa consciência! Pa-
rece que já é hora de acordarmos para entender os
comportamentos, que muitas vezes condenamos
nos jovens, sem nos apercebermos de que eles
foram instigados pelos nossos desencarnados
ensinamentos, pelos ambientes que a nossa soci-
edade lhes criou, pelas mentalidades enviesadas
que se lhes têm incutido... Quando acordaremos
para mudar?!... A hora já chegou!...
Manuel A. Paiva
(Associado Nº 28)
DIRECÇÃO
Presidente - JORGE da Silva RIBEIRO (Lisboa)
Secretária - URTÉLIA Oliveira L. da SILVA (Coimbra)
Tesoureiro - JOSÉ Alves RODRIGUES (Fiães)
Vogal - JOAQUIM Ferreira SOARES (Serradelo - Raiva)
Vogal - ALBERTO J. M. OSÓRIO de Castro (S. João da
Madeira)
MESA DA ASSEMBLEIA GERAL
Presidente - JOSÉ SERAFIM Alves de Sousa (Lisboa)
Secretária - LUCÍLIA Esteves Martins SOARES (Viseu)
Secretário - BOAVENTURA Santos SILVEIRA (Lavra)
CONSELHO FISCAL
Presidente - FERNANDO Jorge FÉLIX Ferreira (Massamá)
Secretária - MARIA GUILHERMINA Trindade Pereira dos
SANTOS (Lisboa)
Relator - ARMINDO Alberto HENRIQUES (Lisboa)
CORPOS SOCIAIS PARA O QUADRIÉNIO 2018/2022

Espiral 67

  • 1.
    Nº 67 -Julho / Setembro de 2018 b o l e t i m d a F R A T E R N I T A S M O V I M E N T O DESCANSAR: DO DESERTO AO JARDIM Correspondência dos leitores 3 Breves 3 O peso da palavra... 4 Saudades do passado... 5 Doação de espólio documental de José Nuno Pereira Pinto 6-7 Do baú da memória 8-9 Encontro de Formação 9 Festas, feiras e festivais 10-11 Espaço à poesia O pobre doente 12 Hoje a poesia existe 12 Saudade 14 Recortes 13 In Memoriam... ARTUR CUNHA DE OLIVEIRA No coração da memória 15 Testemunhos 14 “Chegou a hora de nos levantarmos...” 16 C uras e ensino. Nisto se resume, mais ou menos, em quadros, a missão de Jesus e os apóstolos, enviados dois a dois, com nada para o caminho, aceitando a hospitalidade do povo. Os apóstolos ungem com óleo os enfermos e ensinam. E multidões se- guem-nos. Eles têm muito trabalho, sem tempo para descansar, nem sequer para comer (Mc 6,30-34). O Jesus de Marcos retira-se repetidas vezes para o monte ou entra num barco para que as multidões não O alcancem. E agora propõe isso mesmo aos seus Apóstolos: "Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto para descansar um pou- co." J esus chama-os para um local iso- lado, para um lugar deserto, para descansar. No entanto, o resulta- do não é o esperado, pois, em vez do deserto, esperam-nos multidões com fome, carecidas de ensino e de pão. A busca da solidão e da tranquilidade é cortada pela premência de uma palavra pedagógica, de um alimento que sacie. Só depois de os ensinar e alimentar, eles despedem as pessoas, e Jesus, e ape- nas Jesus, retira-Se sozinho para o mon- te para rezar. O episódio não nos diz nada do que fizeram os apóstolos. Este evangelho é muito importante para nós, que vivemos numa sociedade que é definida como uma "sociedade do can- saço" (Kuhn), onde experienciamos um excessivo crescimento e uma pressão * (continua na pág. seguinte)
  • 2.
    por parte davida quotidiana. Estamos, como sociedade, cansados, e esta ofer- ta de Jesus vem mesmo a calhar: a soli- dão, a companhia tranquila, a pausa. Neste evangelho (Mc 6,30-34), Jesus convida-nos a acompanhá-lo ao deser- to, para estar com ele. A deixar as tare- fas e as pessoas e ir com Ele, para o deserto. E m 22 de Julho, recorda-se tam- bém santa Maria Madalena. Ma- ria, Apóstola dos Apóstolos, é um modelo de liderança para a nossa igre- ja. Pioneira na experiência da Ressur- reição, anunciadora aos Apóstolos e lí- der de comunidades. Mulher curada e discípula, mestra e pioneira da Ressur- reição. Mas, não sabemos se os apóstolos da história anterior conseguem chegar a um lugar solitário para ficar a sós com Je- sus (e podemos assumir que não já que, se o tivessem conseguido, certamente constaria em textos do Evangelho), pelo contrário, sim, podemos dizer a partir dos textos joaninos que Maria é aquela que conhece Jesus, na solidão e vivo para sempre. E com uma originalidade: o lugar, certa- mente deserto de pessoas, não é um deserto de areia e secura, mas um po- mar, um jardim. O jardim é o lugar bíbli- co do amor, da beleza, da contempla- ção e, desde o encontro de Cristo res- suscitado com Madalena, o lugar da vida, vida plena, a abundância que dura, que enche. C om Maria Madalena, o deserto, o despovoado torna-se jardim. E o Evangelho de João apresenta- no-la, sozinha com o Cristo ressuscita- do, neste jardim de flores e frutas, jar- dim do Mestre e da mulher com nome próprio, pronunciado em voz alta. Descansar numa sociedade de cansa- ço pode significar, algo mais do que um mero afastamento da lufa-lufa. Pode sig- nificar procurar e encontrar, no meio dos sinais de morte, Aquele que nos ensina, o Mestre, e reconhecer-nos a nós mes- mos, com nosso próprio nome, num vín- culo profundo com a vida, e a Vida em abundância. Paula Depalma [Teóloga Doutorada, Profesora de Liturgia, Escritora] TESOURARIA Pagamento de quotas Aquotização dos seusAssociados é a exclusiva fonte financeira do Movimento. Por isso, pedimos o favor de cadaAssociado pagar a sua quota, logo que possível, preferentemente no 1º trimestre de cada ano. Recordamos os valores em vigor: CASAL (30,00€); SINGULAR (20,00€); VIÚVO/A (5,00€). Claro que à generosidade de cada um ninguém deve pôr limites. E o FUNDO DE PARTILHA agradece. Todos osassuntos de tesouraria devem ser endereçados para o tesoureiro JoséAlves Rodrigues Rua Campinho Verde, 15 = 4505-249 FIÃES VFR | Telf: 220 815 616 / Tlmv: 966 404 997 Conta para pagamentos, por depósitos ou por transferências bancárias: IBAN PT50 0033 0000 4521 8426 660 05 (Millennium BCP) *Trad. e adaptação deA. Osório de Castro: in: http://feadulta.com/es/buscadoravanzado/item/9905-descan- sar-del-desierto-al-jardin.html Descansar: do deserto ao jardim (conclusão da pág. 1) 
  • 3.
    (continuação da página2) Muito obrigado pelo envio do Nº 66 da vossa publicação ESPIRAL. Votos de excelentes actividades para a associa- ção e de boa saúde, Paz e Bem para todas as famílias e Amigos(as) que compõe a família FRATERNITAS. Abraço fraterno para todos. † Francisco Senra Coelho [padresenra@gmail.com] (11 de junho de 2018) Obrigado, Alberto, pelo ESPIRAL. É mesmo uma boa partilha crescendo em espiral, como incenso, à volta de dois temas: o nosso Encontro anual com a Laudato si' e a PÁSCOA-VIDA do nosso irmão e amigo Simão, com belíssimos testemunhos de gente amiga e crente. Lendo-te sobre ele, também concluo que muitos convivemos sem nos conhecermos realmente: que tesouro ali tínhamos, em vaso de barro como todos, mas só percetível na sua finura de diamante polido quando o vaso físico se partiu! Graças a Deus por ele e Obrigado a quem o amou, dele cuidou até ao fim e aqui partilhou a riqueza recebida no convívio com ele! Apreciei, também, as várias sensibilidades dos ECOS registados. A VIDA continua...rá! Bem-hajas pela atenção. frei menorgado [lopes.morgado@gmail.com] (11 de junho de 2018) Estimado Alberto Osório de Castro Muito agradeço o envio do nº 66 do boletim Espiral Pax O Senhor nos confirme na alegria do serviço ao Evangelho da Esperança Cordialmente em Cristo, fonte da Agua viva † D. José Cordeiro [djosecordeiro@gmail.com] (14 de junho de 2018) Obrigado pelo boletim Espiral. Bom trabalho e saúde. Zeferino [zeferinomsantos@gmail.com] (19 de junho de 2018) Caro Dr. Osório de Castro Obrigado pelo envio da último Espiral, que só agora posso agradecer devido a uma ausência prolongada fora de Lisboa. Cordiais cumprimentos. † António Montes Moreira [montes@ofm.org.pt] (2 de julho de 2018)  FALECIMENTO: No dia 13 de Julho fomos surpreendi- doscoma notícia do falecimen- to, em Madrid, onde se encon- trava emtrabalho,doLuís Mar- tins, de 41 anos de idade, filho dos Associados Bráulio e Ma- ria José, que vivem emVidago. Numa situação tão dura e de profundo sofrimento, só a fé no b r e v e s . . . Senhor Jesus que vence a mor- te, pode suavizar a dor e apon- tar outros horizontes! Aos pais e demais familiares a certeza da nossa oração.  EXPOSIÇÃO: O Alberto Videira D'ASSUMPÇÃO (Associ- ado nº 7), membro da Royal Society ofArts (RSA), de Lon- dres, mantém, em exposição permanente trabalhos seus, no restaurante Cozinha da Sé em Braga. Os nossos parabéns!  LANÇAMENTO DE LI- VRO: O Augusto Pires da Mota, presbítero casado, lan- çou mais um livro seu: “Mis- são: OGrande Desafio”.Foi no passado dia 9 de Junho, em Gulpilhares (V. N. Gaia). As nossas congratulações!
  • 4.
    Não poucas vezestenho sen- tido calafrios ao ouvir a palavra IRMÃO a saltar da minha boca. Acompanha-a sempre o embara- ço de uma pergunta: "De onde me vens? Tens raízes fundas?" Tenho medo que se estrague e apodreça. Tenho pavor que se vulgarize e o muito uso lhe tire toda a graça… É que esta palavra IRMÃO é uma palavra FORTE e habitada. Habitada de gente, de possibili- dades, de imprevistos, de ima- gens. Ela abre aos meus olhos impensáveis campos de Confi- ança trabalhados a muitas mãos, na Fé/Esperança de um Mundo às direitas. Com ela eu passo por estreitos caminhos de abraços, cumplicidades, lágrimas e sorri- sos. TANTOS! É que esta é uma palavra cheia de vitalidade, sempre a fa- zer-se,a refazer-se e atornarpre- sentes todos os "E... se?" ditos jáno degrau de imparáveisaven- turas. Já deixei de contar os recomeços entre mãos e mãos, todas elas agarradas a um mes- mo fio — a Esperança! O peso da palavra… A sua força/dinamismo leva- -me a entrar numa aldeia chama- da Betânia — casa do pobre, onde todo o amor éAmor Irmão — Maria, Marta, Lázaro. O eco dela remete-me à Ori- gem: ao "extraordinariamente bom" genesíaco de Deus, ao bei- jo do Princípio e a tudo o que de mais verdadeiro acontece no co- ração da gente a ponto de o fa- zer reNASCER e LEVANTAR. Que conSanguinidade é esta que nos compromete até ao mais fundo dos dias e das decisões? Que conSanguinidade é esta que pintada cordoAmor os nos- sos passos… da cor da Festa os nossos olhos…? Glória (Associada Nº 22) 
  • 5.
     Quando olvidamos asrefe- rências fundacionais e só nos balizamos por tempos conside- rados de "glória", quando não temos os olhos bem firmes e apontados ao único paradigma verdadeiro - Jesus, o rosto hu- mano de Deus -, só resta reduzir a igreja a um ritualismo bacoco, tipo tridentino!... Parece incrível, mas há o surgimento de uma nostalgia da "missa" em latim, olhos postos no vácuo e não nas pessoas, cheia de "ritos mágicos" e her- méticos, costas ao povo("comu- nidade"?)… E esta nostalgia tem eco em órgãos de comunicação social. Ainda há pouco tempo, o Jornal de Notícias de 24 de Junho, um domingo, titulava, na sua pri- meira página, "Padres anti-Papa dão missas em latim e de costas para os fiéis", remetendo para as páginas 6 e 7, numa secção intitulada "Primeiro Plano", acompanhados de imagens, os artigos de Emília Monteiro so- bre este tema. E a jornalista re- fere que as missas em latim da "Fraternidade Sacerdotal de S. Pio X" têm cada vez mais adep- tos que, na zona do grande Por- to, chegam até a alugar uma sala num hotel. A revista Visão, na sua edição de 10 de Março deste ano, abordava o mesmo assun- to, mas titulando mais vasto e preciso como "Descubra a igre- ja portuguesa anti-papa Francis- co" (http://visao.sapo.pt/actuali- dade/sociedade/2018-03-10- Descubra-a-igreja-portuguesa- anti-papa-Francisco). E nesta re- portagem afirma-se que "as mis- sas em latim regressaram e re- velam o movimentoconservador que está a crescer no País. Atra- em jovens fiéis e sacerdotes que aprendem o ritual em segredo". Custa-me que, sem pestane- jar, se possa afirmar que "foi as- sim [em latim] que a missa se celebrou ao longo de dois mil anos"! Isto é tomar o todo pela parte e, até, "forçar" Jesus a fa- lar latim... Mas, sobretudo, arre- pia-me saber que "está a crescer o número de sacerdotes, especi- almente os mais novos, a apren- der o rito às escondidas e a cele- brar missas", explica um padre "que a costuma rezar." Que se- menteira está a ser feita nos nossos seminários? O que atrai sobretudo os jovens? Por detrás de tudo isto, está uma visão deturpada de igreja, ou, melhor uma visão de igreja que não vem de Jesus, O que Se manifestoucontra osritualismos ocos do Judaísmo oficial. Em que se fixam estes bapti- zados, estes cristãos? Em Jesus que Se identifica com os mais fracos, os mais pobres, os deserdados? Ou no encontro com o esotérico, o misterioso, o arcano? Penso que, de facto, nos faz faltaumaevangelização de base, uma edificação em que Jesus seja o alicerce, a pedra angular da Igreja. Não podemos conten- tar-nos com celebrações em que as pessoas se nãoconheçam, que não se sintam membros de um corpo vivo, de uma comunida- de. Procurar o mistério, o ritua- lismo, ou, pelo contrário, mer- gulhar no encontro pessoal com o Salvador presente no outro, simpático ou não, mas centelha da luz que vem do alto? "Vem, Senhor Jesus!" (Ap 20,20) Alberto Osório (Associado Nº 20) Saudades do Passado…
  • 6.
    O Dia Internacionaldos Ar- quivos foi comemorado em Aroucadeforma especial.Acon- teceu em oito de Junho. Logo de manhã, algumas crianças estive- ram na Biblioteca para um pri- meiro contacto com os livros e oArquivo. Mas o grandeaconte- cimento estava reservado para a tarde. Foi na Sala do Capítulo do Mosteiro de Arouca. Ambiente austero, solene, inspirador! O Dr. Pereira Pinto ia rece- bendo os convidados. O amigo dr.Albano Costa delineou o per- curso académico, literário e pro- fissional do homenageado. Constata-se que Pereira Pinto, desde cedo, andou à volta com os livros e fez um bonito per- cursoliterário.Comvárioslivros publicados e intervenções nos diversos órgãos de comunicação social,sempreactuou para escla- recer eacentuarahistória davida e pessoas de Arouca. Esta bela cerimónia foi enriquecida com interpretações musicais pelos alunos da Escola de Música de Arouca. Uma assembleia atenta acompanhou toda a cerimónia, que foi presidida pela dra. Fer- nanda de Oliveira, em represen- tação da Presidente da Câmara, porimpedimento da mesma.En- tre os muitos amigos do Dr. Pe- reira Pinto viam-se alguns conterrâneos, dos quais destaca- mos a presença amiga e sempre benvinda do CónegoArnaldo de Pinho. A rematar tão simples e pro- fícuo encontro foi assinado o auto de entrega do acervo e es- pólio do dr. Pereira Pinto à Bi- blioteca Municipal. Sala do Capítulo do Mosteiro de Arouca: parte da assistência. (conclui na pág. 7) Foto:©JornalRodaVivaFoto:©JornalRodaViva Dr. Albano Costa, fazendo a apresentação do doador. Para perpetuar a efeméride, o autor ofereceu um exemplar do
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    seu último livro"Da outra Mar- gem". Qual o género literário desta obra? O autor oscila entre ro- mance, narrativas, memórias… Qualquer que seja o género as- sumido, registamos com muito apreço que "Da outra margem" nos oferece episódios da vida quotidiana de um povo. Sempre ouvimos falar da febre do volfrâmio e de suas conse- quências. Pois aqui temos cenas quenos revelam o drama de toda a população, muito carecida de recursos, que aceitavam condi- DR. PEREIRA PINTO DOA ESPÓLIO DOCUMENTAL À BIBLIOTECA DE AROUCA Momento da assinatura do auto de entrega.  Foto:©JornalRodaViva ções miseráveis de exploração extractiva. Outros retratos soci- ais marcam a narrativa: a emi- gração para o Brasil, a presença da P.V.D.E. e suas detenções ar- bitrárias,asituaçãodemiséria de caseiros… A igreja está presen- te,colaboracionista, não fermen- to — a igreja do tempo! Leitura muito agradável, apresenta retra- tos da vida diária, com muitos pormenores e emoções. Para- béns ao Dr. Pereira Pinto! Mui- to Obrigado! J. Soares (Associado Nº 72)
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    página oficial naInternet: http://fraternitasmovimento.blogspot.com NIF: 504 602 136 IBAN: PT50 0033 0000 4521 8426 660 05 1Do Baú da memória é já ne- cessária muita força para ar- rancar estórias esquecidas. Foi isso que me aconteceu, há dias. Retornei ao final dos anos sessenta do século passado. Ti- nham-me solicitado o acompa- nhamento de quatro pré-finalis- tas de Teologia que desejavam fazer um "estágio" pastoral, an- tes de serem ordenados pres- bíteros. Num domingo qualquer, eu e eles, metemo-nos no meu "carocha" e fomos a caminho de Lisboa. Depois de muitas reuni- ões, a última em casa do arqui- tecto Nuno Teotónio Pereira, re- gressámos a casa. Então, demo-nos conta de que era domingo e não tínhamos ce- lebrado a eucaristia. Apesar de cansados da viagem, tal como os discípulos de Emaús, sentámo-nos a uma mesa redonda queeles tinham na cozinha. Havia pão e vinho. Ha- via um pequeno missal com as leituras dominicais e uma vela. E havia Fé. Fizemos as leituras do dia, que cada um comentou. Demos gra- ças e partimos o pão entre nós. Bebemos do vinho. O Senhor estava no meio de nós. "Ite mis- sa est". Eram tempos de primavera con- ciliar. Eram tempos de mudança e de esperança. Tempos que nos faziam regressar aos primeiros séculos da nossa era e sentir a presença do ressuscitado, sem báculos nem mitras, sem frases construídas e deturpadas por sé- culos de especulação teológica. Era ainda primavera. 2Há pouco mais de um mês, num encontro de antigos alunos da Universidade de Comillas(Santander– Espanha), também foi celebrada a eucaris- tia. Éramos cerca de trinta parti- cipantes. Alguns eram presbí- teros em exercício. Célibes como manda o "Codex Iuris Canonici".Alguns outros, acom- panhados das respectivas espo- sas, tinham deixado o exercício e a vida clerical. Não eram célibes. Como manda o Livro do Génesis, ("Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar- -lhe uma auxiliar semelhante a ele") tinham constituído família. Outros ainda, que nunca tinham sido presbíteros, estavam tam- bém ali em romagem de sauda- de, companheirismo e amizade antiga. Aeucaristia foicelebrada, ao fim da tarde, numa capela adjacente ao Turismo Rural, onde estive- mos instalados durante aqueles dias. Um dos presbíteros vestiu- -se a rigor, solenemente, para presidir. Os demais presbíteros permaneceram misturados. O presbítero/presidente assumiu clericalmente as suas funções, sem ter em conta a especifici- dade da situação. Foi pena. Ritualmente, esteve quase cor- recto. Apenas algumas altera- ções significativas foram intro- duzidas por iniciativa dos outros participantes. Bebeu sozinho do vinho e distribuiu formalmente o pão. Cinquenta e tal anos de- pois, a invernia pós-conciliar ti- nha produzido os seus efeitos. Era mesmo inverno. 3Foi há pouco tempo (quatro ou cinco anos). Estava em Oxford e era domingo. Procurei uma igreja católica. Não encon- trei. Entrei na mais central. Anglicana e antiga. Em quase tudo semelhante à ca- tólica. Paramentos. Leituras... A certa altura até achei que esta- va num templo católico, numa liturgia católica, apesar de… E veio a altura da comunhão. O pão e o vinho eram distribuídos. Retraí-me e não me aproximei. DO BAÚ DA MEMÓRIA
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    ENCONTRO DE FORMAÇÃO Data:5 a 7 de Outubro de 2018 Local: Seminário Nª Srª de Fátima – Alfragide Tema: Os Primeiros Cem Anos do Cristianismo Orientador: Pastor DIMAS DE ALMEIDA (IGREJA PRESBITERIANA) Inscrições: Secretariado da Fraternitas até ao dia 25 de Setembro Os Encontros de Formação fazem parte da programação normal da FRATERNI- TAS Movimento. São um instrumento indispensável para o crescimento pessoal e grupal. Contamos, naturalmente, com todos, pois se trata de um Encontro a nível naci- onal. Todavia, porque é aberto, pedimos também o favor de o divulgarem e motivarem amigos e conhecidos para esta iniciativa do nosso Movimento. Geral: fraternitasmovimento@gmail.com Secretariado: secretariado.fraternitas@gmail.com Direcção: direcao.fraternitas@gmail.com Achava que não tinha direito. Foi então que alguém se aproxi- mou e me convidou. Escusei-me delicadamente. Ou covardemente? Não sei. Não me perguntaram se estava preparado. Se me havia confes- sado. Se tinha regularizada a minha situação conjugal. Se era de outra confissão religiosa… Apenas me convidaram. "Tomai e comei.Tomai e bebei." Era outono. Havia frutos madu- ros espalhados pelos campos… 4Que fizemos nós da Ceia do Senhor? Um espectáculoparadeslumbrar e atrair multidões? Um concerto gigante com mú- sica a condizer? Um cerimonial dominical para cumprir preceito? Um ritual mágico com genu- flexões e abluções? Que fizemos nós da Ceia do Se- nhor? Nota final. Escrevi este texto pensando nas declarações e no esforço que alguns bispos ale- mães estão a fazer para que os casais "interconfessionais" par- ticipem nas eucaristias celebra- das nas suas dioceses. Não es- queço, porém, a renovação ain- da necessária na Igreja Católica. Para que seja, de novo, prima- vera. Antonino Mendonça [antonino.mendonca@gmail.com] (20-07-2018) 
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    Estamos no tempodas ma- nhãs claras, dos dias solarengos e com temperaturas agradáveis. O Alto-Minho é um arraial contínuo. Ouvem-se sons dos gaiteiros, dos bombos, dos cantares ao desafio e escutam-se as bandas de música no arraial, que dura pela noite dentro, executando lindas partituras onde a música clássica se mistura com rapsó- dias. Há música rock animada e forte. Dança-se e fala-se ao amor. "Teus olhos me guiam, / Tua alma me aquece; / Teus lábios me beijam / Meu coração ador- mece". Aquando "os santos popula- res" houve foguetes no ar e sar- dinha assada e aromas de manjerico. Agora, na festa dos padroei- ros os sons festivos ouvem-se ao perto e ao longe. Os fogos de artifício iluminam o céu com multicores. Acontece o espectáculo piro- musical. Há procissões com estandar- tes, andores, figurados, devotos amortalhados cumprindo pro- messas de horas difíceis. As comissões, mordomas e mordomos desfilam com alegria festiva. Surgem ramos de flores para o santo da devoção com muitos cravos brancos e vermelhos. Ouvem-se toques festivos dos sinos nos campanários. Fazem-se preces sentidas e desabafos de recordação, ligan- do o hoje ao ontem, onde os la- ços antigos se cumprem na tra- dição. Cada um sente a festa a seu modo, mas vivendo-a na coesão social com rituais integradores. Há sons e animação com car- rinhos a dar uma volta… Há pregõesdefeirantes e pro- vam-se as farturas. Ainda há roscas, mas já não há pirolitos. Não há as aguadeiras de cân- taro àcabeça,anunciando:"Olha a boa limonada." Agora saboreiam-se outras bebidas… Haja alegria que baste, para quebrar com o quotidiano pesa- do, pois "tristezas não pagam dívidas". É tempo de viver de manhã e pela noite dentro com um cora- ção novo em companhia de fa- miliares e amigos. A comensalidade é festiva, saboreando-se a boa comida em mesas grandes com toalhas lin- das. Os aromas cruzam-se com os paladares, saboreados com o bom vinho verde. (Como aque- le que se esconde no pipo detrás da porta e era reservado para o dia dos padroeiros). É a festa da nossa terra. Assim, de Maio a Setembro, e que linda é a nossa festa! De portas a dentro (na Igre- ja) e portas a fora (no arraial). E não se esquece a esmola ao santo, ofertando a dádiva da re- ciprocidade. Rogam-se bênçãos para os dias de trabalho, dos afazeres e das canseiras. Masvamos à festa dos padro- eiros e das romarias. Não há muito tempo os me- ses do ano eram referidos pela celebração do santo. Assim, o mês de Junho era o mês de S. João; o mês de Julho era de S. Bento ou de Santiago; o mês de Agosto é o de S. Bartolomeu e da Srª da Agonia; e o mês de Setembro (o mês das colheitas) conhecido pela Roma- ria da Srª da Peneda e S. Miguel. Recordamos de Pedro Ho- mem de Mello: "Quando ouço a concertina, Reparo e tiro o chapéu; Não me importava de morrer Se houvesse disto no céu". Assim registamos ainda da nossa poesia: "Mesmo na frente marcham a xcvpocompasso, De fardas novas vai o sol e o dó; Quando o regente lhe acena com xcvpoo braço Logo o trombone faz pó, pó, pó, xcvpopó, pó, pó". (Lopes Ribeiro) FESTAS, FEIRAS E FESTIVAIS
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    "O fogueteiro éengraçado, É engraçado tem jeito; Deita o fogo para o ar Fica todo satisfeito" (Popular) FEIRAS No tempo de verão realizam- -se muitas feiras que mobilizam negociantes, vendedores e por vezes gado cavalar. É de referir a feira anual a 12 de Setembro, em Portela de Alvite, Sistelo, concelho de Ar- cos de Valdevez. Aí se transacciona bastante gado cava- lar sendo de destacar os garranos. Como escreve a historiadora Virgínia Rau "as feiras são uns dos aspectos mais importantes da organização económica da Idade Média. A feira não supõe só o ponto de contacto periódi- co entre compradores e vende- dores, onde se compra, vende, ou escamba.Supõe também uma organização especial. As feiras contribuíram para a melhoria das relações económi- cas e jurídicas entre os homens. As romarias, as peregrina- ções e todas as festividades reli- giosasatraiamperegrinosvindos de longe, e assim essas concen- trações tornavam-se muitas ve- zes em centros de troca." PeloAlto-Minho realizam-se as feiras com inspiração medie- val, atraindo muitos forasteiros que se introduzem no ambiente secular onde não faltam os cuspidores de fogo e os tamborileiros. FESTIVAIS Oambiente bucólico doAlto- -Minho convida a apreciar as águas cristalinas dos rios que descem da montanha e correm para o Atlântico. Há espaços que convidam a permanecer ouvindo o murmú- rio das águas e canto da passa- rada. No território minhoto há lo- cais que convidam para se ouvi- rem as bandas de rock. Assim, está muito divulgado o festival que se realiza na zona do Taboão, Paredes de Coura, bem como o festival de Vilar de Mouros. Mas em Ponte de Lima, de há anos a esta parte, há uma inicia- tiva já de carácter internacional que é o "Festival de Jardins". No corrente ano a efeméride tem o tema: "JARDINS DO CONHECIMEN- TO". As festas destacam a impor- tância do território e do patrimó- nio, desenvolvendo momentos culturais significativos nas dinâ- micas sociais. Parece-nos oportuno referir o pensamento de Platão: "Mas os deuses com pena da humanida- de — nascida para trabalhar — estabeleceram a sucessão de fes- tas repetidas, a fim de recuperá- -los da fadiga, e deram-lhes as Musas e Apolo, seu chefe, e Dionísio, como companheiros nas suas festas, de forma que, alimentando-se com os deuses em companhia festiva, pudes- sem novamente manter-se de pé e erectos." "A festa define-se pela efervescência,explosão intermi- tente, o frenesim exaltante, o sopro poderoso da efervescência comum, a concentração da soci- edade, a febre dos instantes cul- minantes". A festividade revigora as energias sociais, de acordo com o pensamento de Durkheim, Hubert e Mauss. A festa faz bem para alegrar a gente. O tempo de férias é bom para fortalecer o convívio familiar e celebrar a amizade. No livro do Eclesiastes (Bí- blia) podemos ler: "Debaixo do céu há momentos para tudo: um tempo para morrer, um tempo para chorare umtempo para rir, um tempo para se lamentar e um tempo para dançar". José Rodrigues Lima [jrodlima@hotmail.com] 
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    Hoje a poesiaexiste nos rostos das crianças, no sorriso dos jovens, nos passos dos adultos já cansados, no caminho dos que sozinhos procuram encontrar outros ainda mais isolados. Hoje a poesia está na cor que teima existir por detrás das nuvens, nas árvores despidas, num rio cujas águas perderam o azul. Hoje a poesia é: força, luta, fraqueza, coragem, desânimo, amizade, indiferença. Hoje a poesia tem a linguagem dos homens, as suas limitações e os seus sonhos já desfeitos. Hoje a poesia é tudo e é nada, é o não querer parar. Hoje a poesia é a esperança duma vida a começar. Helena Alexandre [jlc.alexandre@gmail.com] Era tarde... fria e gelada!... Gemia o vento na solidão calada!... No céu... só nuvens!... A rua parada!... A porta do doente estava aberta porque precisava de ar, quem mais nada tinha!... Peguei-lhe na mão, gelada como a minha!... Sentei-me nos jornais velhos, Amontoados… Humedecidos… Amachucados no chão… …Apodrecidos… A servir de colchão!... Eu tremia, sem saber o que dizer!... Senti o estertor do frio... a voz pesada da solidão... O cheiro húmido de podridão!... Mas, quando sorri, sua boca abriu-se… os olhos brilharam, e as suas encarquilhadas mãos, a minha apertaram!... Ai, meu Deus! Tremeram até aqueles pobres umbrais!... Nunca vi tão perto a imagem viva de Cristo, pregado agora num colchão de jornais!... Lá fora era tarde... fria e gelada!... Gemia o vento em canções doridas!... No céu... só nuvens,... a rua parada, feita caixão de folhas caídas!... Eu chorei! Nem sei porquê! Não sabia falar!... …Esfarrapado, imundo, desfigurado, aquele doente olhava-me... Olhava..., mas nada dizia!... Apertava, com a dele, a mão que, a tremer, eu lhe tinha dado!... E quando, devagarinho, por ele puxei, levantou-se..., de repente transformado,... resplandecente,... iluminando todo o casebre com brilho nunca visto!... — Ai, meu Deus, — gritei — que é isto?!... Queria fugir... Com tanta emoção… só queria gritar!... — "Sou Eu — disse ele — o teu Cristo, que aqui sofre para te salvar!...". E Cristo esfarrapado, doente, crucificado em jornais velhos, amachucados, humedecidos, amontoados, ali, continua gemendo, irmão, à espera também de ti!... Hoje a poesia existe O pobre doente ManuelA.Paiva (AssociadoNº28)  
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      A razão apresentadapor Jesus, para fundamentar as suas atitudes, era radical: o Sábado é para o ser humano e não o ser humano para o Sábado. Atacava, assim, o fundamentalismo religioso para todos os tempos e lugares. Deus nunca pode ser invocado para a infelicidade. Não se pode louvar a Deus sem cuidar da libertação, da cura e da alegria dos afecta- dos pelo sofrimento. As atitudes de Jesus, em relação às prescrições do Sábado, questionam a nossa miopia: as leis e os regula- mentos das Igrejas são para o ser humano ou é o ser huma- no para essas leis? Muitas das controvérsias, antes, durante e depois do Vaticano II, esquecem esse dado elementar. Não são as leis eclesiásticas que man- dam no Evangelho de Jesus. É este que questiona, perma- nentemente, as leis que inventamos: fazem bem ou mal à libertação dos cristãos? São para fazer desabrochar a nossa alegria ou para nos mergulhar na tristeza? O enunciado de Jesus tem um alcance filosófico e teológico muito mais amplo, diria, universal. Todas as instituições têm de ser submetidas a esta interroga- ção: servem ou atraiçoam o desenvolvimento humano? Bento Domingues in Público (22-07-2018) NEM NAS FÉRIAS HÁ SOSSEGOO rosto mutilado de Deus Paulo prosseguiu: — Eu não estava a falar do Deus bome misericordiosono qual a mãe acredita, mas da- quele com que os popes nos ameaçam como se fosse um cacete, um Deus em nome do qual se quer forçar toda a gen- te a submeter-se à vontade cruel de alguns. — Não há dúvida, é isso mes- mo! — gritou Rybine, baten- do na mesa. — Até Deus eles nos mudaram; dirigem contra nós tudo o que têm entre as mãos! Lembras-te, Pelágia?, Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, por- tanto Ele éparecido como ho- mem e este é o Seu semelhan- te. Mas nós, não é com Deus que nos parecemos, mas com selvagens.Na igrejamostram- -nos um espantalho... É pre- ciso transformar Deus, purificá-lo! Vestiram-no de mentiras e de calúnias, muti- laram-lhe orosto paranosma- tarem a alma. M. Gorki, A Mãe, Inova 1971, pg 61
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    Açores no coração.No ensino, na escrita, no jornalismo, como director do centenário jornal A UNIÃO, cujo encerramento, pela Diocese,lhecausouum pro- fundo desgosto; como autarca, como Deputado ao Parlamento Europeu e como participante na ARTUR CUNHA DE OLIVEIRA (conclusão da pág. 15) No Coração da Memória  fundação de alguns serviços no início do regimeautonómico dos Açores. Mais do que tudo isto, o tes- temunho que me fica é o do seu amor à família. Sua mulher, Antonieta, com a dor da perda, é o testemunho melhor de que a vida de Cunha de Oliveira ultra- passou todos os academismos, toda a ciência e sabedoria para se traduzir numa só palavra: amor! É este Cunha de Oliveira que semprerecordareie guardarei no meu coração! Santos Narciso [Jornalista, Director-Adjunto dos jornais "Correio dos Açores" e "Atlântico Expresso"] vida é um vago instante que depressa desaparece sem que o queiramos! Foge-nos e bem a queremos agarrar para isso andamos, mexemo-nos, rodopiamos num vaivém constante. Mas se paramos um momento de novo reparamos que a vida é apenas um vago instante! A vida é movimento que não abranda nem se extingue nesse vaivém constante de nós para os outros dos outros para nós; é círculo ininterrupto em que tudo se mistura: o mal e o bem, o ódio e o amor, a guerra e a paz a tristeza e a alegria. É algo de mistério, nem sempre percebido força que nos foi dada, ideal em nós concretizado sem nunca o termos pedido. A vida é encanto, com sonhos de amizade, mas é também desilusão, ficando somente a saudade! Helena Alexandre [jlc.alexandre@gmail.com] Sentimos um misto de dor e de bem-aventurança na morte das "colunas" da Fraternitas, como o Artur. Confiamos que ele nos inspirará desde o Céu, na presença do Senhor Jesus de Quem tanto falou, escreveu, a Quem tanto amou e rezou. Maria José e Fernando Félix (Associados Nº 105)  Um Homem Bonito, levado do Espírito! Há gente que por onde passa não passa em vão! O Artur era um desses! Damos Graças a Deus por o termos conheci- do e por se ter tornado nosso Irmão na Consanguinidade do Espírito de Deus! Glória e Carlos (Associados Nº 22)  
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    Não! Não voufazer aqui a biografia deArtur Cunha de Oli- veira, meu Professor no Semi- nário deAngra, nos anos sessen- ta do século passado e meuAmi- go de sempre, que morreu no passado dia 20 de Junho, aos 93 anos. Foi-me pedido um teste- munho e, embora as minhas pa- lavras não sejam sequer sombra do que gostaria de expressar, deixo aqui esta humilde home- nagem ao Mestre, ao Amigo e ao Homem destemido que foi Cunha de Oliveira. Sacerdote dispensado, foi sempreumtestemunho de Fé em Deus, personificado no "Senhor Jesus", forma como sempre tra- tou a Pessoa de Jesus Cristo. Tiveahonradeapresentar em Ponta Delgada a sua obra teoló- gica constituída por vários li- vros, entre os quais "Crer. Mas em quê?" "O Rosto Humano de Deus!" "Jesus e as Mulheres!" "AMorte do Justo!" "Natal, Ver- dade, lenda e mito!" "Jesus, Profeta do Islão e outros ensai- os". Todos estes livros são pratos suculentos de História,Teologia, Exegese e Hermenêutica, servi- dos pela paixão de um Homem que passou a vida a ensinar e a fazer Pensamento, pouco impor- tado com status, convenções ou tradições. Nele sempre foi a in- teligência ao serviço da convic- ção! Em cada livro de Cunha de Oliveira que leio, sinto-me fas- cinado com a paixão de apren- der coisas novas ou melhor, (re)aprender coisas que vivo e sinto, dando-lhes um novo sen- tido que, emnada diminuindo ou desvirtuando a Fé, simplesmen- te a coloca na dimensão do pen- samento, da ciência e da exegese. Podemos não concordar com algumas das conclusões a que Cunha de Oliveira chega, mas istonão beliscanada ogostopela obra e pelo trabalho apresenta- do, porque um dos grandes mé- ritos do autor é, precisamente, esconjurar dogmatismos e ape- lar à inteligência. Cunha de Oliveira era, sabia que era e afirmava ser uma figu- ra controversa e é neste prisma que considero que foi um com- batente, em todo o tempo e em todas as dimensões, contra aqui- lo que ele mesmo chamava de psitacismo cultural e religioso (a repetição de ideias e frases fei- tas, sem assimilação e análise individual).Artur Cunha de Oli- veira deixa uma marca profun- da na liberdade do Pensamento, nosAçores, essencialmente por- que foi capaz de cortar amarras com todas as instituições, nome- adamentecom aIgreja,semnun- ca as secundarizar, nem deixar de defender os seus valores. Era sacerdote dispensado, mas nele cabiamosafectos queenformam qualquer um que tenha recebido o dom da Ordenação presbiteral. Assim o vi sempre. Nunca dei- xou de ser o meu Professor, e amei-o e respeitei-o da mesma forma como respeito outros dos meus Professores daquela gran- de Escola que foi (e é) o Semi- nário Episcopal de Angra, uns ainda vivos e outros na minha memória. Cunha de Oliveira foi um ci- dadão do mundo, sempre com os In Memoriam... ARTUR CUNHA DE OLIVEIRA 1930 - 2018 20 de Junho No Coração da Memória (conclui na pág. 14) Foto:©PedroMonteiro(CorreiodosAçores)
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     Rua Dr. SáCarneiro, 182 - 1º Dtº 3700-254 S. JOÃO DA MADEIRA e-mail: espiral.fraternitas@gmail.com boletim de fr a t er n it a s m o v im en t o Responsável: Alberto Osório de Castro Nº 67 - Julho/Setembro de 2018 “CHEGOU A HORA DE NOS LEVANTARMOS..." Num dos seus livros, a perspicaz pedagoga italiana Montessori deixou escrita esta pergunta: «De que serve transmitir conhecimentos, se o de- senvolvimento total do indivíduo fica para trás?». Muitos pedagogos, e outros especialistas, já pe- garam na mesma pergunta e tentaram dar-lhe uma resposta. Todos parecem de acordo que tal desequilíbrio é motivado, de facto, pelo avanço dos conhecimentos, mas a que tem faltado o cor- respondente avanço do todo global e harmónico do indivíduo, nas suas vertentes, além de físicas, tambémpsíquicase espirituais.Esteproblema tem preocupado muitos psicólogos, muitos psiquia- tras, muitos sociólogos e também muitos teólo- gos. Cada um tem dado a sua achega, mas o que não se tem conseguido é coordená-las, analisá- las sem preconceitos redutores, e uni-las numa acção concertada, sem as fronteiras de redutos em que cada um se julga com a verdade total e exclu- siva. É preciso que cada um junte ao todo, o seu pedaço de verdade. Por isso é que A. Machado escreveu isto: «A tua verdade? Não! A verdade! Vamos procurá-la juntos. A tua, guarda-a para ti!». Se não for assim, continuamos a puxar o co- bertor só por uma das pontas (seja ela qual for), resultando sempre que tal cobertor, assim, nunca desliza certo, sempre encolhido e deformado… E alguém fica descoberto!... É a imagem daqueles que desorientamos com os nossos desatinos! Os nossos jovens sofrem hoje desta deforma- ção,deste desequilíbrio, porque são arrastadospor umas pontas, deixando outras para trás. O homem é um todo global. Assim, ou caminha todo em equilíbrio, ou fica inane, aos pedaços, pelos ca- minhos da vida! De facto, o problema tem mais acuidade no que respeita aos jovens, porque, cada jovem que se desencaminha, é um pedaço do nos- so futuro que se perde! Apesar disso, muitos res- ponsáveis dormitam num sono de indolência e de incapacidade!... Paralelamente à pergunta de Montessori, po- deríamos deixar outra, que já alguém levantou, como complemento: «Há dois mil anos começou a era cristã. Mas quando começaremos a ser cris- tãos?». Isto morde, amigos, a nossa consciência! Pa- rece que já é hora de acordarmos para entender os comportamentos, que muitas vezes condenamos nos jovens, sem nos apercebermos de que eles foram instigados pelos nossos desencarnados ensinamentos, pelos ambientes que a nossa soci- edade lhes criou, pelas mentalidades enviesadas que se lhes têm incutido... Quando acordaremos para mudar?!... A hora já chegou!... Manuel A. Paiva (Associado Nº 28) DIRECÇÃO Presidente - JORGE da Silva RIBEIRO (Lisboa) Secretária - URTÉLIA Oliveira L. da SILVA (Coimbra) Tesoureiro - JOSÉ Alves RODRIGUES (Fiães) Vogal - JOAQUIM Ferreira SOARES (Serradelo - Raiva) Vogal - ALBERTO J. M. OSÓRIO de Castro (S. João da Madeira) MESA DA ASSEMBLEIA GERAL Presidente - JOSÉ SERAFIM Alves de Sousa (Lisboa) Secretária - LUCÍLIA Esteves Martins SOARES (Viseu) Secretário - BOAVENTURA Santos SILVEIRA (Lavra) CONSELHO FISCAL Presidente - FERNANDO Jorge FÉLIX Ferreira (Massamá) Secretária - MARIA GUILHERMINA Trindade Pereira dos SANTOS (Lisboa) Relator - ARMINDO Alberto HENRIQUES (Lisboa) CORPOS SOCIAIS PARA O QUADRIÉNIO 2018/2022