375Nutrição Brasil - novembro/dezembro 2013;12(6)
RELATO DE CASO
Doença celíaca: um estudo de caso
em São José de Ubá/RJ
Celiac disease: a case study at São José de Ubá/RJ
Fernanda Moreira Almeida*, Danielle Cristina Guimarães da Silva**
*Acadêmica do Curso de Graduação em Nutrição da Faculdade Redentor / Campus Itaperuna/RJ,
**Docente do Curso de Graduação em Nutrição da Faculdade Redentor / Campus Itaperuna/RJ
Resumo
A doença celíaca (DC) é uma doença inflamatória e autoimune que atinge principalmente o intestino delgado, dimi-
nuindo assim a área de absorção dos nutrientes, por isso o organismo pode ficar mais debilitado para outras patologias. Neste
contexto, o objetivo desta pesquisa foi avaliar os sintomas e melhorias de um paciente pediátrico portador de DC seguindo
dieta isenta de glúten e com participação nutricional durante o tratamento. Para conhecer a história social e dietética do pa-
ciente, foi elaborado um questionário com informações detalhadas sobre seu hábito alimentar. Através deste questionário foi
possível observar alguns hábitos alimentares inadequados. Por meio dos dados antropométricos foi possível classificar o estado
nutricional da criança, que revelou desnutrição. Conclui-se que após o diagnóstico da doença houve uma grande mudança
nos hábitos alimentares do paciente e da família, o que contribuiu para o sucesso no tratamento.
Palavras-chave: alimentos saudáveis, glúten, qualidade de vida.
Abstract
The celiac disease (CD) is an inflammatory autoimmune disease that mainly affects the small intestine, thus decreasing
the area of ​​absorption of nutrients, so the body may become weaker for other pathologies. Ahead of all the concern about
feeding of patients with DC, the objective of this research was to evaluate the symptoms and the improvement of pediatric
patient with CD following a gluten-free diet and nutritional involvement during treatment. To know the dietary and social
history of the patient, a questionnaire was designed with detailed information about eating habits. Through the questionnaire
inadequate alimentary habits were observed. The nutritional status of the child was calculated with anthropometric data,
which showed malnutrition. We conclude that after diagnosis of the disease, there was a significant change in eating habits
of the patient and family, which contributed to the successful treatment
Key-words: healthy foods, gluten, quality of life.
Recebido 31 de maio de 2012; aceito 15 de novembro de 2013
Endereço para correspondência: Danielle Cristina Guimarães da Silva, Rodovia BR 356, nº 25 Cidade Nova Itaperuna
RJ, E-mail: daniellenut@hotmail.com
376 Nutrição Brasil - novembro/dezembro 2013;12(6)
Introdução
A doença celíaca (DC) é uma doença inflamató-
ria e autoimune desencadeada pela ingestão de cereais
(trigo, centeio, cevada e aveia), encontrados em vários
alimentos industrializados. Os pacientes celíacos de-
senvolvem alterações nas características normais do
intestino delgado, como atrofia achatamento ou desa-
parecimento por completo das vilosidades do intestino
delgado que leva diarréia crônica. Essas alterações
diminuem a área de absorção dos nutrientes, levando
a deficiência de macronutrientes e micronutrientes. O
tratamento de maneira incorreta pode levar à desnu-
trição e a doenças malignas [1].
A doença celíaca deixou de ser uma enfermidade
rara e atualmente atinge uma parcela significativa da
população. A prevalência da DC entre os países e
populações européias ou de ancestralidade européia
varia de 0,3% a 1,0%. No Brasil, os dados estatísticos
oficiais são desconhecidos, estima-se que existem 300
mil brasileiros portadores da doença, acometendo
principalmente o sexo feminino. A DC atinge o
maior número de indivíduos de cor branca, porém
no Brasil, devido à miscigenação racial, já foi descrito
em mulatos [2-3].
De acordo com Araújo et al. [3], as semelhanças
dos sintomas da DC com outras doenças podem di-
ficultar o diagnóstico ou oferecer resultados errados.
O diagnóstico da patologia em questão se baseia no
exame clínico, na anamnese detalhada e na avaliação
dos marcadores sorológicos, sendo que o diagnóstico
final deve ser feito por biópsia que irá revelar vilosi-
dades atrofiadas do intestino.
O tratamento requer uma dieta isenta de glúten,
indefinidamente é a única terapêutica eficaz da DC
não complicada, conduzindo, em regra, a melhoria
sintomática em algumas semanas [4].
Um grande passo foi dado a partir do cumpri-
mento da lei Federal nº. 8.543, de dezembro de 1992
na área de vigilância sanitária, que obriga as indústrias
alimentícias a imprimirem em caracteres destacados
uma advertência nos rótulos [3].
Embora seguir uma dieta estritamente isenta de
glúten a princípio possa parecer simples, na prática
evidencia-se uma série de dificuldades na manuten-
ção desta dieta, não somente por parte do paciente,
como também de seus familiares, pois consiste em
uma mudança radical do hábito alimentar, principal-
mente no mundo ocidental. A adesão à dieta isenta
de glúten é variável e difícil. Assim, os conhecimentos
transmitidos pelos nutricionistas constituem fatores
importantes para aumentar o número de pacientes
obedientes à dieta, garantindo desta forma o sucesso
do tratamento. Nesse sentido, justifica-se a realização
de um estudo de caso de paciente portador de DC,
com o objetivo de avaliar a deficiência de nutrientes
causada pela doença e os benefícios de uma intervenção
nutricional para redução dos sintomas.
Material e métodos
Trata-se de uma pesquisa de natureza explicativa,
do tipo estudo de caso clínico, com a duração de 2 me-
ses. O presente trabalho foi realizado com um paciente
pediátrico do sexo masculino, assistido pela Secretaria
de Saúde do município de São José de Ubá/RJ.
Inicialmente, o responsável pelo paciente (mãe)
assinou um Termo de Consentimento Livre e Es-
clarecido o qual informava todos os procedimentos
referentes à pesquisa.
Para conhecer a história social e dietética do
paciente, a responsável foi entrevistada para fornecer
informações detalhadas sobre o hábito alimentar da
criança, por meio da aplicação de um questionário
alimentar que relatou comportamento histórico,
psico-sócio-econômico, histórico clínico, recordatório
alimentar domiciliar habitual e escolar. Com o intui-
to de facilitar as respostas, o questionário continha
alternativas de múltipla escolha, estimulando, caso
fosse necessário, assinalar-se mais de uma alternativa.
O diagnóstico nutricional foi definido por meio
da utilização de avaliação antropométrica e avaliação
bioquímica. Na avaliação antropométrica utilizou-se
balança mecânica de plataforma com capacidade de
150 kg (Welmy) e estadiômetro acoplado a balança
com capacidade de 2 metros. A partir da coleta dos
dados de peso corporal e estatura, calculou-se o Índice
de Massa Corporal (IMC), o qual foi avaliado por meio
dos critérios de classificação da Organização Mundial
de Saúde (OMS) [5]. A partir da idade, valores de peso,
estatura e IMC, classificou-se os indicadores IMC/I
e E/I. A avaliação bioquímica deu-se pela avaliação
dos resultados encontrados nos exames solicitados
que foi utilizado para complementar o diagnóstico
nutricional. Após a análise dos índices antropométricos
e da avaliação bioquímica do paciente, concluiu-se o
diagnóstico nutricional final que subsidiou o estabe-
lecimento das necessidades nutricionais do paciente, o
qual foi calculado com a fórmula do Gasto Energético
Total (GET) [6] foi proposto para estimar a necessi-
dade energética do paciente.
A avaliação dietética de macronutrientes (PTN,
CHO, LIP) e micronutrientes (Fe, Zn, Ca, Vitami-
na A) foi realizada por meio da Tabela Brasileira de
Composição de Alimentos (TACO) [7] e Tabela de
Medidas Caseiras [8].
Todos os resultados da presente pesquisa foram
apresentados sob a forma de tabelas construídas com
377Nutrição Brasil - novembro/dezembro 2013;12(6)
o auxílio do Programa Microsoft Excel (2007) [9],
sendo avaliados de acordo com referência específica
para cada variável.
Discussão e resultados
No início da pesquisa R. O. B. encontrava-se
com 4 anos e 3 meses, peso de 12 kg e altura 1,10 m.
A partir destes dados, foi possível calcular os índices
antropométricos IMC/I e E/I, que revelaram uma
desnutrição e estatura adequada para idade, respecti-
vamente, segundo a Organização Mundial de Saúde
(OMS) [5].
Segundo relatos da mãe da criança, o paciente
realizava 6 refeições diárias, sendo que todas eram feitas
em sua casa, exceto o lanche da tarde, realizado na
escola do município durante a semana, onde cursava o
segundo período do pré-escolar, raramente, as prepara-
ções eram acrescidas de temperos industrializados. Em
relação a análise do recordatório alimentar domiciliar
referido pela mãe, verificou-se erros alimentares. As
refeições e alimentos oferecidos diariamente eram:
desjejum, constituído por leite e mamão, colação
composta por pipoca, banana e angu, o almoço consti-
tuído por arroz, feijão, salada (tomate, alface, cenoura),
oferecia-se dois tipos de proteína, como por exemplo,
ovo frito e asa do frango frita. Após o almoço era ofe-
recido o leite, o jantar era composto basicamente pelas
mesmas preparações do almoço, e na ceia, oferecia-se
canjiquinha, leite e uma porção de fruta.
Segundo publicação do Ministério da Saúde
[10], uma alimentação errada pode levar a desnutrição
na infância, que se expressa no baixo peso, no atraso
no crescimento e desenvolvimento e na maior vulne-
rabilidade às infecções, e maior risco para ocorrência
de futuras doenças crônicas não-transmissíveis (diabe-
tes, doenças coronarianas, osteoporose, hipertensão,
obesidade).
As recomendações nutricionais para crianças de
4 anos segundo Vitolo [11], são 5 porções do grupo
cereais, 3 porções do grupo das hortaliças, 4 porções do
grupo da frutas, 2 porções do grupo da carne, 2 porções
do grupo das leguminosas, 3 porções do grupo do leite
e derivados e açúcares e gorduras com uso moderado.
Para correção dos hábitos alimentares inade-
quados, sugeriu-se o aumento no consumo de carne
vermelha e vísceras, por possuírem elevada biodispo-
nibilidade de ferro, nutriente essencial para se evitar
anemia, além disso, são boas fontes de aminoácidos
essenciais, substâncias químicas que compõem as
proteínas, necessárias para o crescimento e a manu-
tenção do corpo humano, além de conter vitamina
B12. O paciente também foi orientado a aumentar
o consumo de legumes e verduras, que além de se-
rem ricos em nutrientes, auxiliam na prevenção e no
controle da obesidade e, indiretamente, combatem
outras doenças crônicas não transmissíveis (diabetes,
doença cardíacas e alguns tipos de câncer), reduzir o
consumo de carboidratos após o jantar e aumentar o
consumo de carboidratos no desjejum e aumentar o
consumo de frutas, por serem fontes de fibras e mi-
cronutrientes [10].
De acordo com a mãe, R. O. B. até 1 de ano de
vida, não apresentava sintomas característicos da doen-
ça celíaca, somente após esta idade houve a necessidade
de auxílio médico devido aos sintomas frequentes de
diarréia, irritação, vômitos e perda de peso. Lamontag-
ne et al. [12] apontaram em seu estudos que pacientes
celíacos apresentam os seguintes sintomas, pelo menos
duas vezes na semana, após o diagnostico: distensão /
flatulência (37,7%), diarréia (21,6%), dor abdominal
(21,4%), constipação (19,0%), e náusea/ vômitos
(3,5%). Murray et al. [13] indicaram os seguintes per-
centuais para a presença de sintomas grastrointestinais
após o início da dieta isenta de glúten: diarréia (34%),
constipação (30%), dor abdominal (3%), náusea ou
vômitos (9%) e distensão abdominal (4%).
De acordo com Kotze [14], após a adesão à
dieta isenta de glúten, a resposta clínica com o desa-
parecimento dos sintomas é bastante expressiva. Os
defeitos absortivos desaparecem, a diarréia cessa, há
perda de edema e reaparecimento do apetite. Nessa fase
inicia-se recuperação nutricional com ganho de peso,
há uma notável mudança no aspecto do indivíduo,
revelando melhor qualidade de vida. O prognóstico
para os seguidores da dieta sem glúten é considerado
bom. Além disso, não se realizou biópsia intestinal
do paciente para o diagnóstico da patologia, por ser
um método invasivo, sendo assim, o diagnóstico foi
feito somente pela retirada de glúten na alimentação.
Porém, segundo a classificação proposta por Green et
al. [15], a avaliação da histologia intestinal obtida por
biópsia permanece imprescindível para o diagnóstico
da DC de um paciente sob dieta com glúten.
A responsável pelo paciente citou que a bisavó
do paciente morava na Itália, e apresentava sintomas
da doença celíaca como irritabilidade/nervosismo,
diarréia crônica, vômitos, emagrecimento, abdômen
distendido e anemia. Segundo King & Ciclitria [16], a
doença celíaca é fortemente hereditária principalmente
se o indivíduo possui parentesco europeu. Os parentes
dos celíacos são importantes grupos de risco, a preva-
lência da DC para esses familiares pode chegar a 18%
[17]. Baptista [18] alerta para a alta prevalência (10%)
da DC entre parentes de primeiro grau de celíacos.
Após o diagnóstico da doença celíaca, há 3 anos,
R. O. B. segue dieta isenta de glúten, não apresentando
mais sintomas relacionados à doença. A responsável
378 Nutrição Brasil - novembro/dezembro 2013;12(6)
buscar informações sobre a doença e sobre os produtos
alimentícios sem glúten, apesar da grande dificuldade
na aquisição destes, que geralmente apresentam pre-
ços altos. Além disso, a família não possui renda fixa
e habita em local distante dos pontos de venda dos
produtos destinados aos portadores de doença celíaca,
prejudicando a compra destes.
Casemiro [19] encontrou associação entre a fre-
quência de compra de produtos sem glúten em lojas
especializadas e a renda familiar. No mesmo estudo,
quando os participantes foram questionados sobre o
motivo da baixa frequência de compra de produtos
em lojas especializadas, 44% dos celíacos pesquisados
assinalaram o preço dos produtos e 29,4% apontaram
o difícil acesso a essas lojas.
De acordo com a responsável pela criança, o
paciente apresentou sintomas relativos à intolerân-
cia à lactose durante o período que desconhecia ser
portador da doença celíaca, porém, após seguir dieta
isenta de glúten, os sintomas foram cessados. Pesquisa
desenvolvida por Lamontagne et al. [12], mostrou que
30% dos celíacos pesquisados relataram apresentar
outras alergias ou intolerâncias alimentares, sendo
que a mais comum das reações relatadas foi ao leite
(21%). Segundo Thompson et al. [20], 19% dos celí-
acos questionados disseram ser intolerantes à lactose.
Verificou-se que R. O. B. apresentava dificul-
dades em se alimentar fora de casa, devido à grande
restrição alimentar da dieta. Zarcadas et al. [21] iden-
tificaram dificuldades no seguimento da dieta isenta
de glúten pelos celíacos pesquisados e nas mudanças
no estilo de vida, como evitar viajar e comer fora de
casa ou participar de festas de aniversário. Todos esses
fatores têm um impacto negativo na qualidade de vida
dos celíacos.
Em relação à análise dos exames bioquímicos,
a coleta mais recente foi realizada em 30 de abril de
2010. Os valores de referência e os valores encontrados
podem ser visualizados na Tabela I.
Tabela I - Valores de referência e encontrados de
exames bioquímicos de R. O . B.
Dados bioquímicos
Valores de
referência*
Valores en-
contrados
Hemácias (m/mm) 3,6 a 5,0 4,67
Leucócitos (mm) 5,0 a 11,0 7.320
Cálcio (mg/dL) 8,5 a 11,0 9,4
Fósforo (mg/dL) 3,1 a 7,1 4,7
*Fonte: [22]
Observa-se que os valores dos exames bioquí-
micos realizados em 2010 encontram-se dentro dos
parâmetros normais para a faixa etária. A Tabela II
apresenta as necessidades de calorias do paciente.
Tabela II - Cálculo das necessidades de calorias e ma-
cronutrientes de R. O. B., gasto energético total [6].
Proteína
Carboi-
drato
Lipídeo
% 4,3 65,7 30,0
Gramas 13,2 197,4 40,0
kcal 52,8 789,7 360,6
gramas/kg de peso
corporal
1,1 16,0 3,3
GET 1203,1 kcal
Quanto a quantificação do consumo alimen-
tar do paciente, analisado por meio de recordatório
alimentar de 24 horas, foi possível verificar que seu
consumo alimentar se encontra próximo das suas
necessidades energéticas.
De acordo com aTabela II, o consumo alimentar
do macronutriente proteína apresenta-se elevado em
relação às necessidades do paciente descritas na tabela
III. Os valores referentes ao consumo de carboidratos
e lipídeos apresentam-se abaixo das necessidades do
paciente.
Tabela III - Valor Calórico Total (VCT) da dieta do
paciente.
Proteína
Carboi-
drato
Lipídeos
% 12,0 60,0 28,0
Gramas 13,0 188,8 39,0
kcal 156,2 755,3 352,4
gramas/kg de peso
corporal
1,0 15,7 3,25
VCT 1258,9 kcal
De acordo com Vitolo [11], as necessidades de
proteína da criança são maiores do que as do adulto,
e elas também precisam de maior proporção de ami-
noácidos essenciais, que referem 1,1 g/kg de peso, que
são valores facilmente alcançados por meio de dieta,
as fontes de energia devem estar equilibradas entre
carboidratos (CHO) e lipídios (LIP), valores de 55%
a 60% de CHO do valor calórico total da dieta e de
25% a 30% de LIP do valor calórico total da dieta.
A Tabela IV apresenta valores referentes às
recomendações e valores encontrados de alguns
micronutrientes, o cálcio, o ferro, a vitamina A e o
zinco. A partir destes dados, verifica-se que o consu-
mo alimentar de cálcio de R. O. B. foi considerado
adequado. Segundo Vitolo [11], desde a infância, a
ingestão de cálcio é importante, pois, nessa fase, os
ossos e os dentes estão se formando. Produtos lácteos
contribuem com mais de 55% da ingestão de cálcio
da população, os outros alimentos que contribuem
para ingestão diária de cálcio são: os vegetais de fo-
379Nutrição Brasil - novembro/dezembro 2013;12(6)
lhas verdes, leguminosas, tofu, ovos, mariscos, nozes
e castanhas.
Tabela IV - Recomendação de micronutrientes para
criança de 4 até 8 anos de idade [23-24].
Dados de
micronutrientes
Valores de
referência
Valores en-
contrados
Cálcio mg/dia 500 – 800 618,79
Ferro mg/dia 10 8,38
Vitamina A mg/dia 400 669,72
Zinco mg/dia 12 5,81
Em relação ao consumo do micronutriente fer-
ro, observou-se que se encontrava abaixo da ingestão
recomendada no dia. Para Vitolo [11], o suprimento
adequado de ferro é uma das maiores preocupações
quando se discutem as práticas alimentares da infância,
pois sabe-se que a anemia, nesse período, prejudica o
crescimento e o desenvolvido normais.
Foi observada ingestão elevada vitamina A. Vi-
tolo [11] cita que a vitamina A reduz a gravidade das
doenças e a mortalidade nas crianças, devido ao seu
importante papel no sistema imunológico. As crianças
com deficiência de vitamina A são mais suscetíveis à
infecção. É importante destacar que a toxicidade da
vitamina A é antes associada à medicação, e que não
pode ser confundida com a hipercarotenemia, que é
reversível, não-tóxica e causada pelo consumo elevado
de alimentos ricos em caroteno, como a abóbora, o
mamão e a cenoura.
Em relação ao consumo de zinco, foi possível
observar baixa ingestão do mineral. O zinco apresenta
um papel importante no crescimento, construção
e reparação do tecido muscular, na produção de
energia e no estado imunológico. Dietas baixas em
proteínas animal, alta em fibras e dietas vegetarianas,
em particular, são associadas redução na ingestão de
zinco [11].
Segundo Witschi [25], ocorrem possíveis fontes
de erros que podem distorcer as informações sobre in-
gestão alimentar, a percepção do que se come, a memó-
ria do entrevistado, efeitos decorrentes da idade, sexo e
ambiente da entrevista, a própria coleta de dados pode
afetar as informações de ingestão, a variação alimentar
diária, os dias em que são realizadas as entrevistas po-
dem ser mais ou menos representativos que outros, a
habilidade do entrevistador em obter informações e a
disposição em colaborar com a investigação.
Conclusão
A doença celíaca implica em grandes alterações
no estilo de vida dos portadores, por isso a dieta é mui-
to difícil de ser seguida, principalmente por indivíduos
mais jovens. Por meio deste estudo, pode-se observar
que o paciente apresentou melhoras nos sintomas da
doença após seguir uma dieta isenta de glúten. O diag-
nóstico da doença celíaca fez com que ocorresse uma
grande mudança nos hábitos alimentares da família, o
que contribuiu para o sucesso no tratamento.
Diante disso, torna-se imprescindível o acom-
panhamento nutricional em pacientes portadores de
doença celíaca. Ainda hoje a dieta isenta de glúten é o
único tratamento conhecido, portanto, o profissional
nutricionista deve fornecer as orientações necessárias
para que o paciente possa manter a dieta ao longo da
vida, melhorando sua sintomatologia e promovendo
qualidade de vida.
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Doença celíaca nutrição brasil

  • 1.
    375Nutrição Brasil -novembro/dezembro 2013;12(6) RELATO DE CASO Doença celíaca: um estudo de caso em São José de Ubá/RJ Celiac disease: a case study at São José de Ubá/RJ Fernanda Moreira Almeida*, Danielle Cristina Guimarães da Silva** *Acadêmica do Curso de Graduação em Nutrição da Faculdade Redentor / Campus Itaperuna/RJ, **Docente do Curso de Graduação em Nutrição da Faculdade Redentor / Campus Itaperuna/RJ Resumo A doença celíaca (DC) é uma doença inflamatória e autoimune que atinge principalmente o intestino delgado, dimi- nuindo assim a área de absorção dos nutrientes, por isso o organismo pode ficar mais debilitado para outras patologias. Neste contexto, o objetivo desta pesquisa foi avaliar os sintomas e melhorias de um paciente pediátrico portador de DC seguindo dieta isenta de glúten e com participação nutricional durante o tratamento. Para conhecer a história social e dietética do pa- ciente, foi elaborado um questionário com informações detalhadas sobre seu hábito alimentar. Através deste questionário foi possível observar alguns hábitos alimentares inadequados. Por meio dos dados antropométricos foi possível classificar o estado nutricional da criança, que revelou desnutrição. Conclui-se que após o diagnóstico da doença houve uma grande mudança nos hábitos alimentares do paciente e da família, o que contribuiu para o sucesso no tratamento. Palavras-chave: alimentos saudáveis, glúten, qualidade de vida. Abstract The celiac disease (CD) is an inflammatory autoimmune disease that mainly affects the small intestine, thus decreasing the area of ​​absorption of nutrients, so the body may become weaker for other pathologies. Ahead of all the concern about feeding of patients with DC, the objective of this research was to evaluate the symptoms and the improvement of pediatric patient with CD following a gluten-free diet and nutritional involvement during treatment. To know the dietary and social history of the patient, a questionnaire was designed with detailed information about eating habits. Through the questionnaire inadequate alimentary habits were observed. The nutritional status of the child was calculated with anthropometric data, which showed malnutrition. We conclude that after diagnosis of the disease, there was a significant change in eating habits of the patient and family, which contributed to the successful treatment Key-words: healthy foods, gluten, quality of life. Recebido 31 de maio de 2012; aceito 15 de novembro de 2013 Endereço para correspondência: Danielle Cristina Guimarães da Silva, Rodovia BR 356, nº 25 Cidade Nova Itaperuna RJ, E-mail: daniellenut@hotmail.com
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    376 Nutrição Brasil- novembro/dezembro 2013;12(6) Introdução A doença celíaca (DC) é uma doença inflamató- ria e autoimune desencadeada pela ingestão de cereais (trigo, centeio, cevada e aveia), encontrados em vários alimentos industrializados. Os pacientes celíacos de- senvolvem alterações nas características normais do intestino delgado, como atrofia achatamento ou desa- parecimento por completo das vilosidades do intestino delgado que leva diarréia crônica. Essas alterações diminuem a área de absorção dos nutrientes, levando a deficiência de macronutrientes e micronutrientes. O tratamento de maneira incorreta pode levar à desnu- trição e a doenças malignas [1]. A doença celíaca deixou de ser uma enfermidade rara e atualmente atinge uma parcela significativa da população. A prevalência da DC entre os países e populações européias ou de ancestralidade européia varia de 0,3% a 1,0%. No Brasil, os dados estatísticos oficiais são desconhecidos, estima-se que existem 300 mil brasileiros portadores da doença, acometendo principalmente o sexo feminino. A DC atinge o maior número de indivíduos de cor branca, porém no Brasil, devido à miscigenação racial, já foi descrito em mulatos [2-3]. De acordo com Araújo et al. [3], as semelhanças dos sintomas da DC com outras doenças podem di- ficultar o diagnóstico ou oferecer resultados errados. O diagnóstico da patologia em questão se baseia no exame clínico, na anamnese detalhada e na avaliação dos marcadores sorológicos, sendo que o diagnóstico final deve ser feito por biópsia que irá revelar vilosi- dades atrofiadas do intestino. O tratamento requer uma dieta isenta de glúten, indefinidamente é a única terapêutica eficaz da DC não complicada, conduzindo, em regra, a melhoria sintomática em algumas semanas [4]. Um grande passo foi dado a partir do cumpri- mento da lei Federal nº. 8.543, de dezembro de 1992 na área de vigilância sanitária, que obriga as indústrias alimentícias a imprimirem em caracteres destacados uma advertência nos rótulos [3]. Embora seguir uma dieta estritamente isenta de glúten a princípio possa parecer simples, na prática evidencia-se uma série de dificuldades na manuten- ção desta dieta, não somente por parte do paciente, como também de seus familiares, pois consiste em uma mudança radical do hábito alimentar, principal- mente no mundo ocidental. A adesão à dieta isenta de glúten é variável e difícil. Assim, os conhecimentos transmitidos pelos nutricionistas constituem fatores importantes para aumentar o número de pacientes obedientes à dieta, garantindo desta forma o sucesso do tratamento. Nesse sentido, justifica-se a realização de um estudo de caso de paciente portador de DC, com o objetivo de avaliar a deficiência de nutrientes causada pela doença e os benefícios de uma intervenção nutricional para redução dos sintomas. Material e métodos Trata-se de uma pesquisa de natureza explicativa, do tipo estudo de caso clínico, com a duração de 2 me- ses. O presente trabalho foi realizado com um paciente pediátrico do sexo masculino, assistido pela Secretaria de Saúde do município de São José de Ubá/RJ. Inicialmente, o responsável pelo paciente (mãe) assinou um Termo de Consentimento Livre e Es- clarecido o qual informava todos os procedimentos referentes à pesquisa. Para conhecer a história social e dietética do paciente, a responsável foi entrevistada para fornecer informações detalhadas sobre o hábito alimentar da criança, por meio da aplicação de um questionário alimentar que relatou comportamento histórico, psico-sócio-econômico, histórico clínico, recordatório alimentar domiciliar habitual e escolar. Com o intui- to de facilitar as respostas, o questionário continha alternativas de múltipla escolha, estimulando, caso fosse necessário, assinalar-se mais de uma alternativa. O diagnóstico nutricional foi definido por meio da utilização de avaliação antropométrica e avaliação bioquímica. Na avaliação antropométrica utilizou-se balança mecânica de plataforma com capacidade de 150 kg (Welmy) e estadiômetro acoplado a balança com capacidade de 2 metros. A partir da coleta dos dados de peso corporal e estatura, calculou-se o Índice de Massa Corporal (IMC), o qual foi avaliado por meio dos critérios de classificação da Organização Mundial de Saúde (OMS) [5]. A partir da idade, valores de peso, estatura e IMC, classificou-se os indicadores IMC/I e E/I. A avaliação bioquímica deu-se pela avaliação dos resultados encontrados nos exames solicitados que foi utilizado para complementar o diagnóstico nutricional. Após a análise dos índices antropométricos e da avaliação bioquímica do paciente, concluiu-se o diagnóstico nutricional final que subsidiou o estabe- lecimento das necessidades nutricionais do paciente, o qual foi calculado com a fórmula do Gasto Energético Total (GET) [6] foi proposto para estimar a necessi- dade energética do paciente. A avaliação dietética de macronutrientes (PTN, CHO, LIP) e micronutrientes (Fe, Zn, Ca, Vitami- na A) foi realizada por meio da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO) [7] e Tabela de Medidas Caseiras [8]. Todos os resultados da presente pesquisa foram apresentados sob a forma de tabelas construídas com
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    377Nutrição Brasil -novembro/dezembro 2013;12(6) o auxílio do Programa Microsoft Excel (2007) [9], sendo avaliados de acordo com referência específica para cada variável. Discussão e resultados No início da pesquisa R. O. B. encontrava-se com 4 anos e 3 meses, peso de 12 kg e altura 1,10 m. A partir destes dados, foi possível calcular os índices antropométricos IMC/I e E/I, que revelaram uma desnutrição e estatura adequada para idade, respecti- vamente, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) [5]. Segundo relatos da mãe da criança, o paciente realizava 6 refeições diárias, sendo que todas eram feitas em sua casa, exceto o lanche da tarde, realizado na escola do município durante a semana, onde cursava o segundo período do pré-escolar, raramente, as prepara- ções eram acrescidas de temperos industrializados. Em relação a análise do recordatório alimentar domiciliar referido pela mãe, verificou-se erros alimentares. As refeições e alimentos oferecidos diariamente eram: desjejum, constituído por leite e mamão, colação composta por pipoca, banana e angu, o almoço consti- tuído por arroz, feijão, salada (tomate, alface, cenoura), oferecia-se dois tipos de proteína, como por exemplo, ovo frito e asa do frango frita. Após o almoço era ofe- recido o leite, o jantar era composto basicamente pelas mesmas preparações do almoço, e na ceia, oferecia-se canjiquinha, leite e uma porção de fruta. Segundo publicação do Ministério da Saúde [10], uma alimentação errada pode levar a desnutrição na infância, que se expressa no baixo peso, no atraso no crescimento e desenvolvimento e na maior vulne- rabilidade às infecções, e maior risco para ocorrência de futuras doenças crônicas não-transmissíveis (diabe- tes, doenças coronarianas, osteoporose, hipertensão, obesidade). As recomendações nutricionais para crianças de 4 anos segundo Vitolo [11], são 5 porções do grupo cereais, 3 porções do grupo das hortaliças, 4 porções do grupo da frutas, 2 porções do grupo da carne, 2 porções do grupo das leguminosas, 3 porções do grupo do leite e derivados e açúcares e gorduras com uso moderado. Para correção dos hábitos alimentares inade- quados, sugeriu-se o aumento no consumo de carne vermelha e vísceras, por possuírem elevada biodispo- nibilidade de ferro, nutriente essencial para se evitar anemia, além disso, são boas fontes de aminoácidos essenciais, substâncias químicas que compõem as proteínas, necessárias para o crescimento e a manu- tenção do corpo humano, além de conter vitamina B12. O paciente também foi orientado a aumentar o consumo de legumes e verduras, que além de se- rem ricos em nutrientes, auxiliam na prevenção e no controle da obesidade e, indiretamente, combatem outras doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, doença cardíacas e alguns tipos de câncer), reduzir o consumo de carboidratos após o jantar e aumentar o consumo de carboidratos no desjejum e aumentar o consumo de frutas, por serem fontes de fibras e mi- cronutrientes [10]. De acordo com a mãe, R. O. B. até 1 de ano de vida, não apresentava sintomas característicos da doen- ça celíaca, somente após esta idade houve a necessidade de auxílio médico devido aos sintomas frequentes de diarréia, irritação, vômitos e perda de peso. Lamontag- ne et al. [12] apontaram em seu estudos que pacientes celíacos apresentam os seguintes sintomas, pelo menos duas vezes na semana, após o diagnostico: distensão / flatulência (37,7%), diarréia (21,6%), dor abdominal (21,4%), constipação (19,0%), e náusea/ vômitos (3,5%). Murray et al. [13] indicaram os seguintes per- centuais para a presença de sintomas grastrointestinais após o início da dieta isenta de glúten: diarréia (34%), constipação (30%), dor abdominal (3%), náusea ou vômitos (9%) e distensão abdominal (4%). De acordo com Kotze [14], após a adesão à dieta isenta de glúten, a resposta clínica com o desa- parecimento dos sintomas é bastante expressiva. Os defeitos absortivos desaparecem, a diarréia cessa, há perda de edema e reaparecimento do apetite. Nessa fase inicia-se recuperação nutricional com ganho de peso, há uma notável mudança no aspecto do indivíduo, revelando melhor qualidade de vida. O prognóstico para os seguidores da dieta sem glúten é considerado bom. Além disso, não se realizou biópsia intestinal do paciente para o diagnóstico da patologia, por ser um método invasivo, sendo assim, o diagnóstico foi feito somente pela retirada de glúten na alimentação. Porém, segundo a classificação proposta por Green et al. [15], a avaliação da histologia intestinal obtida por biópsia permanece imprescindível para o diagnóstico da DC de um paciente sob dieta com glúten. A responsável pelo paciente citou que a bisavó do paciente morava na Itália, e apresentava sintomas da doença celíaca como irritabilidade/nervosismo, diarréia crônica, vômitos, emagrecimento, abdômen distendido e anemia. Segundo King & Ciclitria [16], a doença celíaca é fortemente hereditária principalmente se o indivíduo possui parentesco europeu. Os parentes dos celíacos são importantes grupos de risco, a preva- lência da DC para esses familiares pode chegar a 18% [17]. Baptista [18] alerta para a alta prevalência (10%) da DC entre parentes de primeiro grau de celíacos. Após o diagnóstico da doença celíaca, há 3 anos, R. O. B. segue dieta isenta de glúten, não apresentando mais sintomas relacionados à doença. A responsável
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    378 Nutrição Brasil- novembro/dezembro 2013;12(6) buscar informações sobre a doença e sobre os produtos alimentícios sem glúten, apesar da grande dificuldade na aquisição destes, que geralmente apresentam pre- ços altos. Além disso, a família não possui renda fixa e habita em local distante dos pontos de venda dos produtos destinados aos portadores de doença celíaca, prejudicando a compra destes. Casemiro [19] encontrou associação entre a fre- quência de compra de produtos sem glúten em lojas especializadas e a renda familiar. No mesmo estudo, quando os participantes foram questionados sobre o motivo da baixa frequência de compra de produtos em lojas especializadas, 44% dos celíacos pesquisados assinalaram o preço dos produtos e 29,4% apontaram o difícil acesso a essas lojas. De acordo com a responsável pela criança, o paciente apresentou sintomas relativos à intolerân- cia à lactose durante o período que desconhecia ser portador da doença celíaca, porém, após seguir dieta isenta de glúten, os sintomas foram cessados. Pesquisa desenvolvida por Lamontagne et al. [12], mostrou que 30% dos celíacos pesquisados relataram apresentar outras alergias ou intolerâncias alimentares, sendo que a mais comum das reações relatadas foi ao leite (21%). Segundo Thompson et al. [20], 19% dos celí- acos questionados disseram ser intolerantes à lactose. Verificou-se que R. O. B. apresentava dificul- dades em se alimentar fora de casa, devido à grande restrição alimentar da dieta. Zarcadas et al. [21] iden- tificaram dificuldades no seguimento da dieta isenta de glúten pelos celíacos pesquisados e nas mudanças no estilo de vida, como evitar viajar e comer fora de casa ou participar de festas de aniversário. Todos esses fatores têm um impacto negativo na qualidade de vida dos celíacos. Em relação à análise dos exames bioquímicos, a coleta mais recente foi realizada em 30 de abril de 2010. Os valores de referência e os valores encontrados podem ser visualizados na Tabela I. Tabela I - Valores de referência e encontrados de exames bioquímicos de R. O . B. Dados bioquímicos Valores de referência* Valores en- contrados Hemácias (m/mm) 3,6 a 5,0 4,67 Leucócitos (mm) 5,0 a 11,0 7.320 Cálcio (mg/dL) 8,5 a 11,0 9,4 Fósforo (mg/dL) 3,1 a 7,1 4,7 *Fonte: [22] Observa-se que os valores dos exames bioquí- micos realizados em 2010 encontram-se dentro dos parâmetros normais para a faixa etária. A Tabela II apresenta as necessidades de calorias do paciente. Tabela II - Cálculo das necessidades de calorias e ma- cronutrientes de R. O. B., gasto energético total [6]. Proteína Carboi- drato Lipídeo % 4,3 65,7 30,0 Gramas 13,2 197,4 40,0 kcal 52,8 789,7 360,6 gramas/kg de peso corporal 1,1 16,0 3,3 GET 1203,1 kcal Quanto a quantificação do consumo alimen- tar do paciente, analisado por meio de recordatório alimentar de 24 horas, foi possível verificar que seu consumo alimentar se encontra próximo das suas necessidades energéticas. De acordo com aTabela II, o consumo alimentar do macronutriente proteína apresenta-se elevado em relação às necessidades do paciente descritas na tabela III. Os valores referentes ao consumo de carboidratos e lipídeos apresentam-se abaixo das necessidades do paciente. Tabela III - Valor Calórico Total (VCT) da dieta do paciente. Proteína Carboi- drato Lipídeos % 12,0 60,0 28,0 Gramas 13,0 188,8 39,0 kcal 156,2 755,3 352,4 gramas/kg de peso corporal 1,0 15,7 3,25 VCT 1258,9 kcal De acordo com Vitolo [11], as necessidades de proteína da criança são maiores do que as do adulto, e elas também precisam de maior proporção de ami- noácidos essenciais, que referem 1,1 g/kg de peso, que são valores facilmente alcançados por meio de dieta, as fontes de energia devem estar equilibradas entre carboidratos (CHO) e lipídios (LIP), valores de 55% a 60% de CHO do valor calórico total da dieta e de 25% a 30% de LIP do valor calórico total da dieta. A Tabela IV apresenta valores referentes às recomendações e valores encontrados de alguns micronutrientes, o cálcio, o ferro, a vitamina A e o zinco. A partir destes dados, verifica-se que o consu- mo alimentar de cálcio de R. O. B. foi considerado adequado. Segundo Vitolo [11], desde a infância, a ingestão de cálcio é importante, pois, nessa fase, os ossos e os dentes estão se formando. Produtos lácteos contribuem com mais de 55% da ingestão de cálcio da população, os outros alimentos que contribuem para ingestão diária de cálcio são: os vegetais de fo-
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    379Nutrição Brasil -novembro/dezembro 2013;12(6) lhas verdes, leguminosas, tofu, ovos, mariscos, nozes e castanhas. Tabela IV - Recomendação de micronutrientes para criança de 4 até 8 anos de idade [23-24]. Dados de micronutrientes Valores de referência Valores en- contrados Cálcio mg/dia 500 – 800 618,79 Ferro mg/dia 10 8,38 Vitamina A mg/dia 400 669,72 Zinco mg/dia 12 5,81 Em relação ao consumo do micronutriente fer- ro, observou-se que se encontrava abaixo da ingestão recomendada no dia. Para Vitolo [11], o suprimento adequado de ferro é uma das maiores preocupações quando se discutem as práticas alimentares da infância, pois sabe-se que a anemia, nesse período, prejudica o crescimento e o desenvolvido normais. Foi observada ingestão elevada vitamina A. Vi- tolo [11] cita que a vitamina A reduz a gravidade das doenças e a mortalidade nas crianças, devido ao seu importante papel no sistema imunológico. As crianças com deficiência de vitamina A são mais suscetíveis à infecção. É importante destacar que a toxicidade da vitamina A é antes associada à medicação, e que não pode ser confundida com a hipercarotenemia, que é reversível, não-tóxica e causada pelo consumo elevado de alimentos ricos em caroteno, como a abóbora, o mamão e a cenoura. Em relação ao consumo de zinco, foi possível observar baixa ingestão do mineral. O zinco apresenta um papel importante no crescimento, construção e reparação do tecido muscular, na produção de energia e no estado imunológico. Dietas baixas em proteínas animal, alta em fibras e dietas vegetarianas, em particular, são associadas redução na ingestão de zinco [11]. Segundo Witschi [25], ocorrem possíveis fontes de erros que podem distorcer as informações sobre in- gestão alimentar, a percepção do que se come, a memó- ria do entrevistado, efeitos decorrentes da idade, sexo e ambiente da entrevista, a própria coleta de dados pode afetar as informações de ingestão, a variação alimentar diária, os dias em que são realizadas as entrevistas po- dem ser mais ou menos representativos que outros, a habilidade do entrevistador em obter informações e a disposição em colaborar com a investigação. Conclusão A doença celíaca implica em grandes alterações no estilo de vida dos portadores, por isso a dieta é mui- to difícil de ser seguida, principalmente por indivíduos mais jovens. Por meio deste estudo, pode-se observar que o paciente apresentou melhoras nos sintomas da doença após seguir uma dieta isenta de glúten. O diag- nóstico da doença celíaca fez com que ocorresse uma grande mudança nos hábitos alimentares da família, o que contribuiu para o sucesso no tratamento. Diante disso, torna-se imprescindível o acom- panhamento nutricional em pacientes portadores de doença celíaca. Ainda hoje a dieta isenta de glúten é o único tratamento conhecido, portanto, o profissional nutricionista deve fornecer as orientações necessárias para que o paciente possa manter a dieta ao longo da vida, melhorando sua sintomatologia e promovendo qualidade de vida. Referências 1. Casellas F, Rodrigo L,Vivancos JL, Riestra S, Pantiga C, Baudet JS. Factors impct health-related quality of life in adults with celiac disease: multicenter study. World J Gastroenterol 2008;14:46-52. 2. Nascimento AR, Mello CA, Esteves AC. Característica da doença celíaca com ênfase no seu tratamento nutri- cional. Nutrição em Pauta 2007;15:46-50. 3. Araújo MC, Araújo WMC, Botelho RBA, Zandonadi RP. 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