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                                            convidado
                                                Colunista

                                                             Roberta Sudbrack*




                                                                                                                            ‘‘
             A cozinha brasileira moderna
                Ingredientes locais, pensamento global. Esse foi   eles típicos, do interior ou urbanos, sempre me
             o tema proposto para a minha palestra, pela           encantaram e me desafiaram. Gosto de refletir
             curadoria do Congresso Internacional de Gas-          sobre como revelam aspectos da vida diária, da
             tronomia Gastronomika em San Sebastián, na
             Espanha, do qual participei alguns dias, junto com
                                                                   cultura, das visões de mundo, e tudo isso me faz
                                                                   pensar em como podemos realizar mudanças
                                                                                                                            Como
             um time de peso da gastronomia brasileira, Clau-
             de e Thomas Troisgros, Helena Rizzo, Alex Atala e
                                                                   contemporâneas sem, contudo, lhes retirar os
                                                                   usos centenários.                                        determinado
             Rodrigo Oliveira. Foi a primeira vez que o “time”
             verde e amarelo viajou e mostrou a cara. Um
                                                                      Como determinado ingrediente poderá se ex-
                                                                   pressar com modernidade sem perder a sua                 ingrediente
             público de aproximadamente 800 pessoas cu-            identidade? Sem que o cozinheiro moderno o
             riosas para saber o que vem acontecendo na            transforme em algo que ele não pediu para ser?           poderá se
             gastronomia brasileira prestava atenção às nos-          Ao atribuir uma linguagem cultural mais
             sas falas, aos nossos gestos e ingredientes. Mas,
             sobretudo, olhava atento para a nossa afetividade
                                                                   universal a esses ingredientes do nosso dia a
                                                                   dia — como é a linguagem da alta gastronomia
                                                                                                                            expressar com
             e união. É sabido que os grandes movimentos
             artísticos, e não há como negar o significado
                                                                   — ajudo, assim como os cozinheiros que lá
                                                                   estiveram e outros da minha geração, na cons-            modernidade
             artístico da gastronomia na cultura de cada povo,
             sempre se ancorou na força dessa união. Cada um
                                                                   trução de uma técnica e uma expressão ge-
                                                                   nuinamente brasileira. Além de contribuir para           sem perder a
             sabia exatamente o recado que daria, mas talvez       a valorização do produto brasileiro e para a
             não soubesse que naquele momento estaria es-
             crevendo uma página muito importante da his-
             tória dessa moderna cozinha brasileira. Um mo-
             mento ímpar para a nossa gastronomia e emo-
             cionante para nós cozinheiros.
                Sou avessa ao rótulo de nova cozinha brasileira
             que frequentemente tentam nos enfiar goela abai-
             xo. Não acredito numa nova cozinha, mas numa
             cozinha moderna que busca a preservação da
             nossa herança gastronômica — sem regiona-
             lismos — unindo diversas realidades do popular e
             do erudito para revelar ora nossa condição pro-
             vinciana, ora nossa condição cosmopolita. Essa
             interação entre passado, presente e futuro, que
             esteve presente na minha apresentação e está
             presente no meu trabalho, é que me permite fazer
                                                                   preservação do produtor artesanal e a via-
                                                                   bilidade econômica de seu escoamento. Acre-
                                                                   dito que só assim se constrói uma sólida
                                                                   identidade gastronômica. E esse pensamento
                                                                   me parece essencial para que a gastronomia
                                                                   brasileira continue evoluindo, pois é assim que
                                                                   ela evoluiu e evolui no mundo todo. Conectar é
                                                                   unir as tradições às iniciativas, sem deixar de
                                                                   fora o simbólico, os elementos lúdicos que
                                                                   mexem com todos os sentidos, vinculam as
                                                                   nossas emoções e nos estimulam a experi-
                                                                   mentar e preservar.
                                                                      O recado foi dado, uma nova página de uma
                                                                   gastronomia que ainda tem muito a dizer,
                                                                   evoluir e conquistar foi escrita e, acima de
                                                                   tudo, uma semente foi plantada. Terminei a
                                                                                                                            ‘‘
                                                                                                                            sua identidade?
                                                                                                                            Sem que o
                                                                                                                            cozinheiro
                                                                                                                            moderno o
                                                                                                                            transforme em
                                                                                                                            algo que ele não
                                                                                                                            pediu para ser?
                                                                                                                                               67• REVISTA O GLOBO • 11 DE DEZEMBRO DE 2011




             de cada receita um campo de conhecimento e um         minha palestra ao som do grande João Gil-
             argumento do qual me utilizo para resgatar in-        berto ecoando mansinho no imponente Pa-
             gredientes brasileiros pouco valorizados. Os in-      lácio Kursaal: “Isto aqui ô, ô... é um pouquinho
             gredientes banais do cotidiano brasileiro, sejam      de Brasil iá iá...”
                                                                                                                                                    O
                                                                                                    *RobertaSudbrackéchef

Colunista convidado roberta sudbrack

  • 1.
    Divulgação convidado Colunista Roberta Sudbrack* ‘‘ A cozinha brasileira moderna Ingredientes locais, pensamento global. Esse foi eles típicos, do interior ou urbanos, sempre me o tema proposto para a minha palestra, pela encantaram e me desafiaram. Gosto de refletir curadoria do Congresso Internacional de Gas- sobre como revelam aspectos da vida diária, da tronomia Gastronomika em San Sebastián, na Espanha, do qual participei alguns dias, junto com cultura, das visões de mundo, e tudo isso me faz pensar em como podemos realizar mudanças Como um time de peso da gastronomia brasileira, Clau- de e Thomas Troisgros, Helena Rizzo, Alex Atala e contemporâneas sem, contudo, lhes retirar os usos centenários. determinado Rodrigo Oliveira. Foi a primeira vez que o “time” verde e amarelo viajou e mostrou a cara. Um Como determinado ingrediente poderá se ex- pressar com modernidade sem perder a sua ingrediente público de aproximadamente 800 pessoas cu- identidade? Sem que o cozinheiro moderno o riosas para saber o que vem acontecendo na transforme em algo que ele não pediu para ser? poderá se gastronomia brasileira prestava atenção às nos- Ao atribuir uma linguagem cultural mais sas falas, aos nossos gestos e ingredientes. Mas, sobretudo, olhava atento para a nossa afetividade universal a esses ingredientes do nosso dia a dia — como é a linguagem da alta gastronomia expressar com e união. É sabido que os grandes movimentos artísticos, e não há como negar o significado — ajudo, assim como os cozinheiros que lá estiveram e outros da minha geração, na cons- modernidade artístico da gastronomia na cultura de cada povo, sempre se ancorou na força dessa união. Cada um trução de uma técnica e uma expressão ge- nuinamente brasileira. Além de contribuir para sem perder a sabia exatamente o recado que daria, mas talvez a valorização do produto brasileiro e para a não soubesse que naquele momento estaria es- crevendo uma página muito importante da his- tória dessa moderna cozinha brasileira. Um mo- mento ímpar para a nossa gastronomia e emo- cionante para nós cozinheiros. Sou avessa ao rótulo de nova cozinha brasileira que frequentemente tentam nos enfiar goela abai- xo. Não acredito numa nova cozinha, mas numa cozinha moderna que busca a preservação da nossa herança gastronômica — sem regiona- lismos — unindo diversas realidades do popular e do erudito para revelar ora nossa condição pro- vinciana, ora nossa condição cosmopolita. Essa interação entre passado, presente e futuro, que esteve presente na minha apresentação e está presente no meu trabalho, é que me permite fazer preservação do produtor artesanal e a via- bilidade econômica de seu escoamento. Acre- dito que só assim se constrói uma sólida identidade gastronômica. E esse pensamento me parece essencial para que a gastronomia brasileira continue evoluindo, pois é assim que ela evoluiu e evolui no mundo todo. Conectar é unir as tradições às iniciativas, sem deixar de fora o simbólico, os elementos lúdicos que mexem com todos os sentidos, vinculam as nossas emoções e nos estimulam a experi- mentar e preservar. O recado foi dado, uma nova página de uma gastronomia que ainda tem muito a dizer, evoluir e conquistar foi escrita e, acima de tudo, uma semente foi plantada. Terminei a ‘‘ sua identidade? Sem que o cozinheiro moderno o transforme em algo que ele não pediu para ser? 67• REVISTA O GLOBO • 11 DE DEZEMBRO DE 2011 de cada receita um campo de conhecimento e um minha palestra ao som do grande João Gil- argumento do qual me utilizo para resgatar in- berto ecoando mansinho no imponente Pa- gredientes brasileiros pouco valorizados. Os in- lácio Kursaal: “Isto aqui ô, ô... é um pouquinho gredientes banais do cotidiano brasileiro, sejam de Brasil iá iá...” O *RobertaSudbrackéchef