Curso de extensão:
Até que a morte nos separe
Adriana Soczek Sampaio
soczeksampaio@yahoo.com.br
Programa do curso
 Aula 1: O processo do morrer
 Aula 2: Cuidados Paliativos
 Aula 3:Falando sobre a morte e o paciente
terminal
 Aula 4: Espiritualidade, morte e luto
Critérios de Avaliação do Curso
 Participação mínima de 80% do curso
 Elaboração de um paper de 3 a 5 páginas
sobre um dos assuntos trabalhados no
curso
Aula 1
O PROCESSO DO
MORRER
O Processo do Morrer
 1. as doenças malignas, o mau prognóstico e a morte;
 2. definição do conceito de morte e sua visão no Ocidente
(segundo Phillip Ariès) e no Oriente;
 3. a ars moriendi e o desejo de boa morte;
 4. as fases do processo de morrer - segundo Kübler-Ross
1. Doenças malignas, mau
prognóstico e morte
 Doenças: estigmas ao longo dos séculos
 Lepra, peste negra, gripe espanhola, tuberculose
 HIV/AIDS
 Câncer
 Outras: cardíacas, renais, Alzheimer, AVC
 Desejo: morte rápida, sem dor e sem sofrimento
Isquemia cardíaca:
 Próprio indivíduo trai seu organismo
 Últimas horas: afogamento, sedação
 circuito que se fecha
 Exames cardíacos, história familiar, padrão de alimentação
e fumo, tipo de personalidade e potencial para mudança,
possibilidade de seguir conselho médico, planos e
esperanças para futuro, sistema de apoio
Velhice:
 Não se pode! Mas...
 Acúmulo de perdas e falhas nos mecanismos do corpo
 Independe de uma enfermidade
 Debilidade dos anos: incapacidade para se sobrepor
 VIDA DE ÊXITOS & REALIZAÇÕES: compensa em
qualidade o que não se pode ampliar em quantidade
A utilidade de viver não está na duração e sim
em seu uso. Viver bastante depende de nossa
vontade e não do número de anos vividos.
(Montaigne)
Alzheimer:
 Degeneração progressiva das células e perda de qualidade
das células nervosas nas porções cerebrais associadas a
funções superiores
 Avança devagar, mas sem paradas
 Entorno afetado: cuidados e vigilância
 Alterações também de personalidade
Não há dignidade neste tipo de morte. É um
ato arbitrário da natureza, atropelamento da
humanidade das suas vítimas.
(Nulland)
HIV/AIDS:
 Crime da natureza, com alcance mundial pelos avanços da
mobilidade humana
 Devasta sistema imunológico que torna-se vulnerável à ação
de infecções e certos tipos de tumores
Morte trágica, traumática, acidental:
 Não serve a objetivo algum posto que a natureza não
necessita de ajuda para manter a ordem
 Suicídio consciente: forma mais brutal de violência
 Outras formas de suicídio: comportamento
autodestrutivo (álcool, drogas, direção perigosa, fumo,
hábitos sexuais não seguros, participação de brigas,
torcidas organizadas, quadrilhas...)
 Afogamento, sufocamentos, acidentes nos meios de
transporte, violência
Câncer:
 Parasita cujas extremidades se ampliam aumentando seu
domínio maligno
 Processo silencioso
 Mais de 150 tipos de CA
 Afeta células em seu processo inicial de maturação – divide
ao acaso e tem capacidade de reprodução infinita
 Energia: reprodução e não na função do órgão invadido
 Não morrem quando deveriam
 Também mata à distância
 Indiretamente mata pela caquexia: utiliza proteína e não
gordura.
 ...não há vitória, pois mata a sua vítima, mas morre com
ela
DOENÇA
CRONICO
EVOLUTIVA
CURA RECIDIVA NÃO RESPOSTA
TRATAMENTO
REINSERÇÃO
SEQUELAS
RECOMEÇO
ESTADO
TERMINAL
ÓBITO
“A morte não é algo que nos
espera no fim. É companheira
silenciosa que nos fala com voz
branda, sem querer aterrorizar,
dizendo sempre a verdade,
convidando à sabedoria”
(Alves, 2002)
2. Definição do conceito de morte e
sua visão no Ocidente e no Oriente
MORTE
 Perda, ruptura, desintegração, degeneração, fascínio,
sedução, grande viagem, entrega, descanso, alívio
 Processo, não confrontação, evento na sequencia de ritmos
da natureza
 Necessária para a ordem do sistema do universo
 Inimigo a ser combatido: doença e não a morte. Esta é
apenas o ponto final quando a batalha está perdida
 Verdade metafísica
 Alves, 2002: menor poder, maior escuta. Maior poder e
técnica, fracasso
 Processo evolutivo, complexa sequencia de eventos
terminativos
 Ayer (2005): dificuldade de determinar quando a vida se
encerra – não reação a estímulos, ausência de movimentos
respiratórios e reflexos, EEG plano
“Mentira vital” (Becker)
“Se estivéssemos conscientes o
tempo todo de nossa morte e do
nosso terror, seríamos incapazes
de agir normalmente, ficaríamos
paralisados”.
Agimos como se fossemos
imortais.
A Morte no Ocidente
1. MORTE DOMADA (Idade Medieval)
 sabe que vai morrer
 Trajetória conhecida
 Esperada no leito = atitude próxima e familiar/pública
 Temor: morte repentina
 Sepulturas na Igrejas
 Churchyards = menos favorecidos / pátio
 Tb lugar de passeio, descanso e oração
 Grande mortalidade = valas coletivas
Cerimonial do moribundo
1. Lamento da vida, evocação triste, mas discreta dos
seres e coisas amadas
2. Perdão dos companheiros que rodeiam o leito
3. Absolvição sacramental
2. MORTE EM SI MESMO
 O que acontecerá depois da morte?
 Temor: julgamento da alma
 ARS MORIENDI: tratados sobre a preparação e a arte de
morrer e renascer
 Testamento: 2 partes
 Fórmulas piedosas: profissão de fé, confissão dos pecados,
recomendações da alma, escolha da sepultura, transmissão dos
desejos em relação aos sobreviventes
 Transmissão de bens
 Uso do preto: horror aos mortos, disfarce; noite, ausência de
cor expressando abandono e tristeza. Indica aos outros que
devem ter respeito
 Medo de ser enterrado vivo (séc. XVII e XVIII) – atrasar os
enterros – velórios de até 48h – pena sobre nariz
Temas macabros
Holbein, Hans. "The Dance of Death."
Woodcut, before 1538. Facsimile,
London, 1892.
3. MORTE DO OUTRO
 Séc XIX: morte romântica
 Bela, sublime repouso, eternidade
 Possibilidade de reunião com ser amado
 desejada
 Forte prevalência crença na vida futura
 Surgimento do espiritismo
 Temor: almas do outro mundo – abrir porta ou janela,
parar relógio, cobrir espelhos
 Preocupação com insalubridade e decretos firmando
espaços e profundidade das covas
4. MORTE INVERTIDA
 Séc. XX – que se esconde, vergonhosa
 Sociedade: expulsa morte para proteger a vida
 Boa morte – repentina – temida
 Morte: não mais fenômeno natural
 Fracasso, impotência, imperícia = ocultada
 Inconveniente = decomposição antes mesmo da morte
 No hospital
 Supressão do luto
 Tempo da morte: cerebral, biológica, celular
 A morte de Ivan Illitch – Tostói
 Condições econômicas, sociais e políticas:
atrasam ou adiantam a morte
 Morrer tornou-se caro – sem igualdade
 Funeral director: empresários que cuidam
dos serviços funerários- família???
 Morte: questão de fato e não de direito –
médico é quem atesta
Medicalização da morte: pretexto de
respeitar a vida, prolongam-se os dias ao preço de
desnecessário sofrimento
Morte séc. XXI – Moritz (2005)
 Ato prolongado
 Evento científico
 Passividade X onipotência
 Pode se tornar um ato profano
 Evento isolado e solitário
 UTI: maior possibilidade de tratamento fútil
A Morte no Oriente – visão pelo
budismo
 Morte: nem deprimente nem excitante. Apenas um fato da
vida.
 Se queremos morrer bem, devemos aprender a viver bem.
 Morrer não é tranquilo se a vida foi cheia de violência ou a
mente foi agitada por emoções como ódio, apego e medo.
 “Na abordagem budista, a vida e a morte são vistas como
um todo, onde a morte é o começo de um novo capítulo da
vida. A morte é um espelho no qual o inteiro significado da
vida é refletido.” (RINPOCHE, p. 29)
 “Para quem se preparou e praticou, a morte não chega
como uma derrota, mas como um triunfo, um coroamento
da vida e o seu mais glorioso instante.’ (RINPOCHE, p. 33)
 “Amanhã ou a próxima vida, o que vem primeiro, nunca se
sabe” – ditado tibetano
 MORTE = mistério. Duas verdades: 1. é absolutamente
certo que um dia morreremos; 2. incerto quando e onde
essa hora irá chegar
 Lei IMUTÁVEL no universo – todas as coisas MUDAM!!!
 “A sociedade moderna é em larga escala um deserto
espiritual em que a maioria imagina que esta vida é tudo o
que existe. Sem qualquer fé autêntica numa vida futura, a
maioria das pessoas vive toda a sua existência destituída
de um sentido supremo” (RINPOCHE, p. 25)
 QUESTÃO:
 Lembro a cada instante que estou morrendo, e todos e tudo ao
meu redor também, e desse modo trato todos os seres a todo
momento de forma compassiva?
3. Ars moriendi e o desejo de boa morte
 AGONIA = grego agon = luta severa
 Suposto protesto do ICS contra partida do espírito
 Dias, semanas, horas = sofrimento moral e perturbação
física
 Endorfina = morfina do organismo = pelo estresse do
avanço da doença – aumento do limiar a dor e reações
emocionais – proteção perigos físicos e emocionais
 Dec. 70: endorfina encontrada nos casos de choque por
grande perda de sangue ou sepse
 UTI = sedação = privação
 Deixa de ser humano e torna-se desafio
 Destituição de autonomia
 Dependência de estranhos – ausência dos entes queridos
 Família: preocupação – desespero - desesperança
 Doença
 Aviso benigno de Deus – parar e pensar no abandono de vida
de pecado
 Hoje: oportunidade única na agitada vida atual para reflexão
interior???
Estudo SUPPORT (1995) – study to understand
prognosis and preferences for outcomes and risk of
treatment
 Coletar informações: pacientes terminais e familiares
 4 anos – 9 mil pacientes – 5 hospitais de ensino EUA
 O que mais causa sofrimento na situação de morte?
 40% dores insuportáveis
 80% fadiga extrema
 55% conscientes até 3 dias antes da morte
 63% dificuldade em tolerar grande sofrimento físico e
emocional referente ao agravamento da doença e ao
estágio final de vida
 20% morreu na UTI – dos que foram e saíram
 76% desconforto
 72% muita sede
 68% sono
 63% ansiedade
 56% dor
 52% raiva
4. Fases do processo de morrer
Elizabeth Kübler-Ross
1. NEGAÇÃO
 “Não, eu não, não pode ser verdade”
 Todo paciente usa negação/parcial
 A maior frequência é no paciente não preparado para a
notícia
 Ideia de morte: considera/abandona
 CHOQUE – NEGAÇÃO – ACEITAÇÃO PARCIAL
 “Como somos todos imortais em nosso inconsciente, é
quase inconcebível reconhecermos que também temos
de enfrentar a morte” (p.47)
 Verificar necessidades do paciente em manter-se assim
e estratégias de enfrentamento
 Deixar negar quanto precise
2. RAIVA
 Revolta, inveja, ressentimento
 Período de mais difícil manejo tanto para família quanto
para a equipe
 Propaga-se em todas as direções
 POR QUE???
 “Um paciente que é respeitado e compreendido, a quem
são dispensados tempo e atenção, logo abaixará a voz e
diminuirá suas exigências irascíveis” (p.57)
 Tolerar a raiva – não é pessoal
3. BARGANHA
 Igualmente útil, tempo curto
 Se Deus não atende aos apelos de ira, deve-se apelar
com calma (?)
 Tentativa de adiamento
 Almejado = prolongamento da vida ou alguns dias sem
dor
 Maioria com Deus e mantidas em segredo
4. DEPRESSÃO
 Novos sintomas, novas hospitalizações, cirurgias – não tem
mais como negar
 Sentimento de grande perda
 Depressão reativa: pode ser encorajado a ver o lado bom
 Depressão preparatória: “quando a depressão é um
instrumento na preparação da perda iminente de todos os
objetos amados, para facilitar o estado de aceitação, o
encorajamento e a confiança não tem razão de ser” (p.93)
 Prestes a perder tudo e todos = exteriorizar seu pesar
“E não é só o mundo que eu perco, não
é só tudo e todos que amo. Eu me
perco a mim mesmo. Zás – e eis que eu
sumi.” (p.129)
5. ACEITAÇÃO
 Tempo + ajuda = tranquila expectativa
 Cansado e fraco, necessidade de cochilar e dormir com
frequência. Não é sono de fuga, necessidade gradual e
crescente de mais horas de sono
 Aceitação NÃO É felicidade
 Família: carece de apoio e compreensão
 Círculo de interesse diminui
 Visitantes: indesejados, não quer conversar
 “Para quem não se perturba diante de quem está
prestes a morrer, estes momentos de silêncio podem
encerrar as comunicações mais significativas” (p.118)
“Quando um homem está morrendo, as
paredes do seu quarto guardam uma
capela e o correto é adentrá-la com
veneração silenciosa, que soa e
reverbera como eco de que aquele que
morre deve ser atendido com reverência,
guardando devido respeito pela vida que
se vai e cuidando de todo possível para
que passe com menor dor e com maior
qualidade possível”.
Nulland

Até que a morte nos separe

  • 1.
    Curso de extensão: Atéque a morte nos separe Adriana Soczek Sampaio soczeksampaio@yahoo.com.br
  • 2.
    Programa do curso Aula 1: O processo do morrer  Aula 2: Cuidados Paliativos  Aula 3:Falando sobre a morte e o paciente terminal  Aula 4: Espiritualidade, morte e luto
  • 3.
    Critérios de Avaliaçãodo Curso  Participação mínima de 80% do curso  Elaboração de um paper de 3 a 5 páginas sobre um dos assuntos trabalhados no curso
  • 4.
  • 5.
    O Processo doMorrer  1. as doenças malignas, o mau prognóstico e a morte;  2. definição do conceito de morte e sua visão no Ocidente (segundo Phillip Ariès) e no Oriente;  3. a ars moriendi e o desejo de boa morte;  4. as fases do processo de morrer - segundo Kübler-Ross
  • 7.
    1. Doenças malignas,mau prognóstico e morte  Doenças: estigmas ao longo dos séculos  Lepra, peste negra, gripe espanhola, tuberculose  HIV/AIDS  Câncer  Outras: cardíacas, renais, Alzheimer, AVC  Desejo: morte rápida, sem dor e sem sofrimento
  • 8.
    Isquemia cardíaca:  Próprioindivíduo trai seu organismo  Últimas horas: afogamento, sedação  circuito que se fecha  Exames cardíacos, história familiar, padrão de alimentação e fumo, tipo de personalidade e potencial para mudança, possibilidade de seguir conselho médico, planos e esperanças para futuro, sistema de apoio
  • 9.
    Velhice:  Não sepode! Mas...  Acúmulo de perdas e falhas nos mecanismos do corpo  Independe de uma enfermidade  Debilidade dos anos: incapacidade para se sobrepor  VIDA DE ÊXITOS & REALIZAÇÕES: compensa em qualidade o que não se pode ampliar em quantidade A utilidade de viver não está na duração e sim em seu uso. Viver bastante depende de nossa vontade e não do número de anos vividos. (Montaigne)
  • 10.
    Alzheimer:  Degeneração progressivadas células e perda de qualidade das células nervosas nas porções cerebrais associadas a funções superiores  Avança devagar, mas sem paradas  Entorno afetado: cuidados e vigilância  Alterações também de personalidade Não há dignidade neste tipo de morte. É um ato arbitrário da natureza, atropelamento da humanidade das suas vítimas. (Nulland)
  • 11.
    HIV/AIDS:  Crime danatureza, com alcance mundial pelos avanços da mobilidade humana  Devasta sistema imunológico que torna-se vulnerável à ação de infecções e certos tipos de tumores
  • 12.
    Morte trágica, traumática,acidental:  Não serve a objetivo algum posto que a natureza não necessita de ajuda para manter a ordem  Suicídio consciente: forma mais brutal de violência  Outras formas de suicídio: comportamento autodestrutivo (álcool, drogas, direção perigosa, fumo, hábitos sexuais não seguros, participação de brigas, torcidas organizadas, quadrilhas...)  Afogamento, sufocamentos, acidentes nos meios de transporte, violência
  • 13.
    Câncer:  Parasita cujasextremidades se ampliam aumentando seu domínio maligno  Processo silencioso  Mais de 150 tipos de CA  Afeta células em seu processo inicial de maturação – divide ao acaso e tem capacidade de reprodução infinita  Energia: reprodução e não na função do órgão invadido  Não morrem quando deveriam  Também mata à distância  Indiretamente mata pela caquexia: utiliza proteína e não gordura.  ...não há vitória, pois mata a sua vítima, mas morre com ela
  • 14.
    DOENÇA CRONICO EVOLUTIVA CURA RECIDIVA NÃORESPOSTA TRATAMENTO REINSERÇÃO SEQUELAS RECOMEÇO ESTADO TERMINAL ÓBITO
  • 15.
    “A morte nãoé algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que nos fala com voz branda, sem querer aterrorizar, dizendo sempre a verdade, convidando à sabedoria” (Alves, 2002) 2. Definição do conceito de morte e sua visão no Ocidente e no Oriente
  • 16.
    MORTE  Perda, ruptura,desintegração, degeneração, fascínio, sedução, grande viagem, entrega, descanso, alívio  Processo, não confrontação, evento na sequencia de ritmos da natureza  Necessária para a ordem do sistema do universo  Inimigo a ser combatido: doença e não a morte. Esta é apenas o ponto final quando a batalha está perdida  Verdade metafísica  Alves, 2002: menor poder, maior escuta. Maior poder e técnica, fracasso  Processo evolutivo, complexa sequencia de eventos terminativos  Ayer (2005): dificuldade de determinar quando a vida se encerra – não reação a estímulos, ausência de movimentos respiratórios e reflexos, EEG plano
  • 17.
    “Mentira vital” (Becker) “Seestivéssemos conscientes o tempo todo de nossa morte e do nosso terror, seríamos incapazes de agir normalmente, ficaríamos paralisados”. Agimos como se fossemos imortais.
  • 24.
    A Morte noOcidente 1. MORTE DOMADA (Idade Medieval)  sabe que vai morrer  Trajetória conhecida  Esperada no leito = atitude próxima e familiar/pública  Temor: morte repentina  Sepulturas na Igrejas  Churchyards = menos favorecidos / pátio  Tb lugar de passeio, descanso e oração  Grande mortalidade = valas coletivas
  • 25.
    Cerimonial do moribundo 1.Lamento da vida, evocação triste, mas discreta dos seres e coisas amadas 2. Perdão dos companheiros que rodeiam o leito 3. Absolvição sacramental
  • 26.
    2. MORTE EMSI MESMO  O que acontecerá depois da morte?  Temor: julgamento da alma  ARS MORIENDI: tratados sobre a preparação e a arte de morrer e renascer  Testamento: 2 partes  Fórmulas piedosas: profissão de fé, confissão dos pecados, recomendações da alma, escolha da sepultura, transmissão dos desejos em relação aos sobreviventes  Transmissão de bens  Uso do preto: horror aos mortos, disfarce; noite, ausência de cor expressando abandono e tristeza. Indica aos outros que devem ter respeito  Medo de ser enterrado vivo (séc. XVII e XVIII) – atrasar os enterros – velórios de até 48h – pena sobre nariz
  • 27.
    Temas macabros Holbein, Hans."The Dance of Death." Woodcut, before 1538. Facsimile, London, 1892.
  • 28.
    3. MORTE DOOUTRO  Séc XIX: morte romântica  Bela, sublime repouso, eternidade  Possibilidade de reunião com ser amado  desejada  Forte prevalência crença na vida futura  Surgimento do espiritismo  Temor: almas do outro mundo – abrir porta ou janela, parar relógio, cobrir espelhos  Preocupação com insalubridade e decretos firmando espaços e profundidade das covas
  • 29.
    4. MORTE INVERTIDA Séc. XX – que se esconde, vergonhosa  Sociedade: expulsa morte para proteger a vida  Boa morte – repentina – temida  Morte: não mais fenômeno natural  Fracasso, impotência, imperícia = ocultada  Inconveniente = decomposição antes mesmo da morte  No hospital  Supressão do luto  Tempo da morte: cerebral, biológica, celular  A morte de Ivan Illitch – Tostói
  • 30.
     Condições econômicas,sociais e políticas: atrasam ou adiantam a morte  Morrer tornou-se caro – sem igualdade  Funeral director: empresários que cuidam dos serviços funerários- família???  Morte: questão de fato e não de direito – médico é quem atesta
  • 31.
    Medicalização da morte:pretexto de respeitar a vida, prolongam-se os dias ao preço de desnecessário sofrimento
  • 32.
    Morte séc. XXI– Moritz (2005)  Ato prolongado  Evento científico  Passividade X onipotência  Pode se tornar um ato profano  Evento isolado e solitário  UTI: maior possibilidade de tratamento fútil
  • 33.
    A Morte noOriente – visão pelo budismo  Morte: nem deprimente nem excitante. Apenas um fato da vida.  Se queremos morrer bem, devemos aprender a viver bem.  Morrer não é tranquilo se a vida foi cheia de violência ou a mente foi agitada por emoções como ódio, apego e medo.  “Na abordagem budista, a vida e a morte são vistas como um todo, onde a morte é o começo de um novo capítulo da vida. A morte é um espelho no qual o inteiro significado da vida é refletido.” (RINPOCHE, p. 29)  “Para quem se preparou e praticou, a morte não chega como uma derrota, mas como um triunfo, um coroamento da vida e o seu mais glorioso instante.’ (RINPOCHE, p. 33)
  • 34.
     “Amanhã oua próxima vida, o que vem primeiro, nunca se sabe” – ditado tibetano  MORTE = mistério. Duas verdades: 1. é absolutamente certo que um dia morreremos; 2. incerto quando e onde essa hora irá chegar  Lei IMUTÁVEL no universo – todas as coisas MUDAM!!!  “A sociedade moderna é em larga escala um deserto espiritual em que a maioria imagina que esta vida é tudo o que existe. Sem qualquer fé autêntica numa vida futura, a maioria das pessoas vive toda a sua existência destituída de um sentido supremo” (RINPOCHE, p. 25)  QUESTÃO:  Lembro a cada instante que estou morrendo, e todos e tudo ao meu redor também, e desse modo trato todos os seres a todo momento de forma compassiva?
  • 37.
    3. Ars moriendie o desejo de boa morte  AGONIA = grego agon = luta severa  Suposto protesto do ICS contra partida do espírito  Dias, semanas, horas = sofrimento moral e perturbação física  Endorfina = morfina do organismo = pelo estresse do avanço da doença – aumento do limiar a dor e reações emocionais – proteção perigos físicos e emocionais  Dec. 70: endorfina encontrada nos casos de choque por grande perda de sangue ou sepse
  • 38.
     UTI =sedação = privação  Deixa de ser humano e torna-se desafio  Destituição de autonomia  Dependência de estranhos – ausência dos entes queridos  Família: preocupação – desespero - desesperança  Doença  Aviso benigno de Deus – parar e pensar no abandono de vida de pecado  Hoje: oportunidade única na agitada vida atual para reflexão interior???
  • 39.
    Estudo SUPPORT (1995)– study to understand prognosis and preferences for outcomes and risk of treatment  Coletar informações: pacientes terminais e familiares  4 anos – 9 mil pacientes – 5 hospitais de ensino EUA  O que mais causa sofrimento na situação de morte?  40% dores insuportáveis  80% fadiga extrema  55% conscientes até 3 dias antes da morte  63% dificuldade em tolerar grande sofrimento físico e emocional referente ao agravamento da doença e ao estágio final de vida
  • 40.
     20% morreuna UTI – dos que foram e saíram  76% desconforto  72% muita sede  68% sono  63% ansiedade  56% dor  52% raiva
  • 41.
    4. Fases doprocesso de morrer Elizabeth Kübler-Ross
  • 42.
    1. NEGAÇÃO  “Não,eu não, não pode ser verdade”  Todo paciente usa negação/parcial  A maior frequência é no paciente não preparado para a notícia  Ideia de morte: considera/abandona  CHOQUE – NEGAÇÃO – ACEITAÇÃO PARCIAL  “Como somos todos imortais em nosso inconsciente, é quase inconcebível reconhecermos que também temos de enfrentar a morte” (p.47)  Verificar necessidades do paciente em manter-se assim e estratégias de enfrentamento  Deixar negar quanto precise
  • 43.
    2. RAIVA  Revolta,inveja, ressentimento  Período de mais difícil manejo tanto para família quanto para a equipe  Propaga-se em todas as direções  POR QUE???  “Um paciente que é respeitado e compreendido, a quem são dispensados tempo e atenção, logo abaixará a voz e diminuirá suas exigências irascíveis” (p.57)  Tolerar a raiva – não é pessoal
  • 44.
    3. BARGANHA  Igualmenteútil, tempo curto  Se Deus não atende aos apelos de ira, deve-se apelar com calma (?)  Tentativa de adiamento  Almejado = prolongamento da vida ou alguns dias sem dor  Maioria com Deus e mantidas em segredo
  • 45.
    4. DEPRESSÃO  Novossintomas, novas hospitalizações, cirurgias – não tem mais como negar  Sentimento de grande perda  Depressão reativa: pode ser encorajado a ver o lado bom  Depressão preparatória: “quando a depressão é um instrumento na preparação da perda iminente de todos os objetos amados, para facilitar o estado de aceitação, o encorajamento e a confiança não tem razão de ser” (p.93)  Prestes a perder tudo e todos = exteriorizar seu pesar “E não é só o mundo que eu perco, não é só tudo e todos que amo. Eu me perco a mim mesmo. Zás – e eis que eu sumi.” (p.129)
  • 46.
    5. ACEITAÇÃO  Tempo+ ajuda = tranquila expectativa  Cansado e fraco, necessidade de cochilar e dormir com frequência. Não é sono de fuga, necessidade gradual e crescente de mais horas de sono  Aceitação NÃO É felicidade  Família: carece de apoio e compreensão  Círculo de interesse diminui  Visitantes: indesejados, não quer conversar  “Para quem não se perturba diante de quem está prestes a morrer, estes momentos de silêncio podem encerrar as comunicações mais significativas” (p.118)
  • 47.
    “Quando um homemestá morrendo, as paredes do seu quarto guardam uma capela e o correto é adentrá-la com veneração silenciosa, que soa e reverbera como eco de que aquele que morre deve ser atendido com reverência, guardando devido respeito pela vida que se vai e cuidando de todo possível para que passe com menor dor e com maior qualidade possível”. Nulland