19
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74
68
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80
86
94
111
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Globalização e exploração sexual de crianças e adolescentes
Maria Lúcia Pinto Leal
A luta contra o racismo no Brasil e o movimento docente.
Marcelo Henrique Romano Tragtenberg
Ações afirmativas e cotas do ângulo do marxismo.
Rosângela Rosa Praxedes e Walter Lúcio de Alencar Praxedes
Restruturação produtiva, reprodução e gênero no setor financeiro.
Maria Helena Santana Cruz
Ação afirmativa em benefício da população negra.
Kabengele Munanga
Notas introdutórias sobre o debate das relações de gênero.
Renato Veloso
Ensino superior no Brasil e ações afirmativas para negros.
Delcele Mascarenhas Queiroz
Ações afirmativas para negros e índios no ensino superior:
as propostas dos NEABs.
José Jorge de Carvalho
A judiciarização dos conflitos de classe no Brasil.
Maria Cristina Cardoso Pereira.
Homossexualidade: o discurso médico e a exclusão do sujeito.
Acyr Maya
O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto: novos sujeitos
na luta pelo direito à cidade.
Sonia Lucio Rodrigues de Lima
Aprendendo com a experiência.
Aurivan Truká, Pina Tembé, Dina XoKleng e Bruno Xavante
Legitimidade das ocupações.
Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra - MST
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
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Sumário
141
121
130
154
169
158
175
185
211
218
207
226
231
237
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 3UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Sob o signo do social-liberalismo: terceira via e modernização social.
Ruy Braga
Uma proposta para a reforma da Previdência.
Eduardo Alves
O governo Lula e o desafio histórico da construção de um projeto democrático e popular de sociedade.
Rodrigo de Souza Dantas
Possibilidades de um circuito virtuoso da educação nacional.
Maria de Fatima Felix Rosar
Fundações privadas na USP, a privatização insolente.
Ciro T. Correia e Pedro E. da Rocha Pomar
Autonomia, carreira e outras histórias: 20 anos de lutas dos docentes das universidades estaduais da Bahia.
Carlos Zacarias F. de Sena Júnior e Ferdinand Martins da Silva
A educação superior na América Latina e Caribe: conseqüência de uma política neoliberal.
Ernâni Lampert
Memória do Movimento Docente: Entrevista com Roberto Leher
Debates Contemporâneos
Venezuela: quem tem medo da democracia na América Latina?.
Carlos Walter Porto Gonçalves
Urbanismo e história: pelo resgate do concurso de Brasília.
Aline Moraes Costa
Os limites dos Movimentos Sociais na sociedade capitalista.
Dileno Dustan Lucas de Souza
Sobre a modernidade e seus críticos.
Romero Venâncio
Globalização, ALCA e Educação.
Jocelyn Berthelot
Ensaio Fotográfico: Minorias...entre o barril e a pólvora
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 7
Maria Lúcia Pinto Leal 1
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
O objetivo deste estudo é analisar o
impacto da globalização no contexto
da exploração sexual e comercial de
crianças e adolescentes2
- ESCCA,
identificando-a como questão social
a ser racionalizada e enfrentada de
forma multidimensional.
Para realizar este intento, destaca-
mos três categorias complexas, com es-
pecificidades distintas, para fundamen-
tar conceitualmente a ESCCA: a globali-
zação, a sexualidade e a violência.
A globalização é um fenômeno de
múltiplas significações e apresenta uma
diversidade de interpretações. Uma de-
las é que existem várias globalizações: a
que resulta de um desdobramento na-
tural do aprofundamento da interde-
pendência internacional, e constitui-se
em um tema universal de interesse glo-
bal da humanidade, com enfoque nos
direitos humanos; a que corresponde a
uma realidade, sobretudo econômica3
,
que aprofunda os riscos e as assime-
trias entre os países ricos e países em
desenvolvimento, e, por essa via, iden-
tifica-se com um mecanismo de mun-
dialização das culturas.
Globalização e exploração
sexual de crianças e adolescentes
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Apesar das diferentes interpreta-
ções, podemos inferir que se tornou
menos nítida a linha que separa cada
uma de suas significações, na vivência
em sociedade.
Neste estudo, vamos dar ênfase à
análise das relações4
que se constro-
em e se transformam sob o impacto
da globalização, na vida social de cri-
anças e adolescentes, em situação de
ESCCA, no Brasil.
Definimos a ESCCA como uma re-
lação de mercantilização (exploração/
dominação) e abuso (poder) do corpo
de crianças e adolescentes (oferta)
por exploradores sexuais (mercado-
res), organizados em redes de comer-
cialização local e global (mercado) ou
por pais ou responsáveis e por consu-
midores de serviços sexuais pagos (de-
manda).
Assim, cabe aprofundar, em um
primeiro momento, como este merca-
do movimenta o comércio de crianças
e adolescentes para fins de explora-
ção sexual comercial. E, em um se-
gundo momento, estabelecer as rela-
ções que vão emergindo, com o obje-
tivo de desvendar a questão da violên-
cia sexual e suas relações entre a esfe-
ra privada da família e o privado com
fins lucrativos, que, no nosso entendi-
mento, nos remete a um feixe de rela-
ções complexas e de múltiplas deter-
minações.
A lógica da globalização do mer-
cado se expressa, de um lado, por me-
io das forças globais e, de outro, por
meio da reestrutura econômica e as
conseqüências sociais nos países cen-
trais e periféricos, de forma articulada:
desemprego estrutural, rebaixamento
salarial crescente, desigualdades e
migrações.
Por último, se expressa através das
mudanças e enfraquecimento visível
nas relações sindicais e nos sistemas
de negociação e desenraizamento das
atividades econômico-indústriais, pro-
vocando profundas transformações na
base da vida social.
Ao lado deste cenário de transfor-
mações econômicas, observamos a
fragilização dos estados nações, in-
centivada pelo Consenso de Washin-
gton, em 1998, que determinou me-
didas de ajuste neoliberal.5
Medidas es-
tas que levaram os países periféricos e
semi-periférico a aumentar seu déficit
social.
Este modelo de globalização neo-
liberal acirra a crise entre capital e tra-
balho. E, em primeira instância, quem
sofre, de forma direta, o impacto so-
cial desta crise é o trabalhador, que,
sob a égide da quebra de “contratos
sociais” e de direitos, se vê compelido
a vivenciar experiências de sobrevi-
vência que recriam velhas e novas for-
mas de precarização das relações de
trabalho, no capitalismo.
É nesta perspectiva que o processo
de flexibilidade atinge não só as rela-
ções de trabalho masculino, mas, so-
bretudo, o feminino e infantil, através
da inclusão da mão-de-obra desta po-
pulação, em sistemas informais precá-
rios e em sistemas clandestinos e do
crime organizado. Situação que leva
não somente à submissão do traba-
lhador a situações de vulnerabilidades
e riscos sociais, como ao trabalho for-
çado, explorado, escravo e ao exter-
mínio.6
Este novo cenário de crise, no mun-
do do trabalho, vai refletir diretamen-
te nas relações familiares. A desterrito-
rialização (via processos migratórios)
gradual ou geral dos membros da fa-
mília atraídos para frentes de traba-
lho7
, nas regiões rurais, de fronteiras,
litorâneas e urbanas ou para outros
países, inclui mulheres e crianças no
mercado de trabalho sob condições
precárias, dentre outras situações de
exploração e violência.
O acirramento social vai proporcio-
nar, dentre outras situações, a fragiliza-
ção da família por meio do abandono
precoce do “gestor” das responsabili-
dades paternas, o abandono dos filhos
em relação ao convívio do lar, da esco-
la e de outras relações de sociabilida-
de. Vai proporcionar, também, o afas-
tamento da mãe do cotidiano do lar.
Na verdade, as transformações
que este modelo opera, no âmbito da
família, determinam novas relações.
Relações estas difíceis de serem dige-
ridas dentro da família, especialmente
por parte das crianças e dos adoles-
centes, tais como: conviver com a tro-
ca de parceiros dos pais e o conflito
que gera dentro da família, alcoolis-
mo, drogadição, experiências sexuais
precoces e insalubres, violências se-
xuais, prostituição e tantas outras rela-
ções que vulnerabilizam social e pe-
dagogicamente este segmento.
Além dos conflitos familiares, agre-
gam-se outros conflitos gerados nas
relações externas que estas crianças
constroem, em outros meios sociais
(rua, gangues, grupos de tráfico), em
detrimento do acirramento da situação
social e interpessoal da sua família.
Essas crianças terminam virando
presas fáceis para o mercado do crime
e das redes de exploração sexual. Re-
crutadas e aliciadas pelos explorado-
res, se deixam enganar por falsas pro-
8 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
O processo de flexibilidade atinge não só as relações de trabalho
masculino, mas, sobretudo, o feminino e infantil, através da
inclusão da mão-de-obra desta população, em sistemas informais
precários e em sistemas clandestinos e do crime organizado.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 9
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
messas e artigos de consumo, dirigi-
dos aos desejos da infância e adoles-
cência.
Essas crianças e adolescentes acei-
tam se submeterem a uma ordem
perversa de trabalho, já não só pela
necessidade material, mais por dese-
jos de consumo imputados pelos mei-
os de comunicação e pela lógica con-
sumista da sociedade capitalista, re-
produzida pelo seu grupo de pertenci-
mento.
De fato, o modelo de globalização
de mercados expande a idéia do con-
sumo como meio de inserção social,
estilo de vida, status quo, veicula atra-
vés dos meios tecnológicos de comu-
nicação e informação uma sociedade
de marcas, onde a mesma vai buscar
se identificar e fortalecer relações de
discriminação de classe, de estilos ur-
banos e comportamentos sóciocultu-
rais, capazes de despolitizar as dife-
renças e recriar respostas violentas e
bárbaras para os conflitos.
Nesta perspectiva, a produção não
só proporciona o objeto de consumo8
e determina sua forma, mas também
cria continuamente novas necessida-
des de consumo. A produção globali-
za o objeto, a forma e o desejo de
consumir. Por sua vez, o consumo cria
a necessidade de novas produções,
acentuada pela influência da publici-
dade e do marketing na opinião pú-
blica da população. Na verdade, o
consumo reflete uma das hibridações
culturais que acompanham a globali-
zação dos mercados e os comporta-
mentos de consumo.
É da natureza do mercado cons-
truir estratégias de disponibilizar ao
consumidor, através do comércio,
uma variedade de produtos e bens de
consumo, elaborados pela força de
trabalho humano (seja assalariada/ex-
plorada ou escravizada) e pelo recru-
tamento forçado do trabalho infantil.
Também disponibiliza a venda da
prestação de serviços, inclusive os se-
xuais, e, de acordo com as transforma-
ções do capital, o mercado expande-
se e diversifica-se.
Nesta direção, vimos que a crise
não inviabiliza o consumo, à medida
que o mercado oferece uma varieda-
de de produtos dirigidos a diferentes
classes sociais e a diferentes preferên-
cias e estilos culturais urbanos.
Portanto, o mercado vende o pro-
duto e a idéia que está contida nele,
isto é, o que simboliza as experiências
de vida das classes e grupos sociais,
resignificado pela razão mercantilista
e devolvido para o consumidor atra-
vés de marcas - quase como um rito
de passagem - o que vem a formar, no
imaginário social, uma idéia falsa e/
ou alienada de possibilidade de reali-
zação de experiências, sonhos e aspi-
rações sociais e culturais por parte das
classes e grupos, via o acesso a estes
produtos.
Transformam a prática do consumo
numa espécie de afirmação de identi-
dade burguesa, de “liberdade” e de
“inclusão social” do cidadão, despoliti-
zando a crítica de algo absolutamente
desigual, híbrido e contraditório, que
são as relações de consumo na socie-
dade capitalista contemporânea.
Nestas relações, está implícita uma
revalorização do individualismo que
pode se transformar em referências
de justiça e ordem, inspirando os gru-
pos de jovens, por exemplo, à forma-
ção de sociedades anônimas e com
estruturas de organização de crime or-
ganizado.
Nesses termos, temos clareza de
que o modelo de globalização neoli-
beral vigente reduz não somente o di-
reito do consumidor, como desesti-
mula escolhas e preferências culturais
e de estilos de comportamento socie-
tários éticos e solidários, como tam-
bém exclui os trabalhadores, pré e
pós-contratuais de seus direitos tradi-
cionais, acentuando a pobreza, as de-
sigualdades sociais, os desastres eco-
lógicos e a emergência de novas for-
mas de exploração e violência, no
interior da sociedade.
São estas práticas que reproduzem
diferentes “soluções” que acirram o
colapso das regras e dos valores civili-
zatórios na sociedade, produzindo re-
lações de violência e barbárie9
, em
suas múltiplas facetas, como a que se
expressa através da mercantilização
da sexualidade infanto-juvenil.
Argumentando sobre este cenário
de violência, Soares (2000) afirma
que é necessário reconhecer a falên-
cia da legitimidade do Estado e apon-
ta que uma característica cultural en-
trelaça-se com ênfase na dominação
de classe, de gênero, raça, etnia e no
fenômeno de relações tradicionais, e
de sua substituição incompleta por
um sistema de relações individualista,
estruturado pelo mercado e por prin-
cípios universalistas e igualitários de
política e cidadania.
Tanto a resposta à violência sexual,
quanto àquela que fortalece os direitos
dos sujeitos em situação de violência
sexual, é resultante de relações contra-
ditórias que emergem da própria socie-
O modelo de globalização neoliberal vigente reduz não somente
o direito do consumidor, como desestimula escolhas e
preferências culturais e de estilos de comportamento societários
éticos e solidários, como também exclui os trabalhadores,
pré e pós-contratuais de seus direitos tradicionais.
dade, e é, nesse contexto, que o movi-
mento de mulheres, crianças e adoles-
centes aliado ao movimento mais
amplo da sociedade civil busca frear a
lógica violenta do mercado, do Estado
e de setores da sociedade, em relação
à sexualidade infanto-juvenil.
Sexualidade e direito:
o contraponto à violência sexual
Globalizar os direitos e o desenvol-
vimento social de crianças e adoles-
centes é o fundamento ético do en-
frentamento à exploração sexual co-
mercial de crianças e adolescentes,
em nível nacional e internacional.
Os instrumentos normativos e as
agendas políticas nacionais e interna-
cionais conferem um texto político à
ESCCA10
, enfatizando a dimensão dos
direitos humanos como concepção
guia para as políticas sócio-econômi-
cas enfrentarem o fenômeno.
Examinando o processo de mobili-
zação do setor jurídico, em relação à
defesa dos direitos da criança e do
adolescente, observamos que há ain-
da, por parte dos legisladores, uma
tendência na direção de uma releitura
da legislação sobre crimes sexuais,
privilegiando a adoção de medidas
repressivas, por meio do aumento de
pena.11
A ESCCA é um tipo de violência
sexual que não pode ser entendida
como uma ação localizada, como ato
puro do crime. Ela deve ser vista, so-
bretudo, como uma questão social.
Desta forma, faz-se necessário
desmistificar, também, as noções de
vítima e de consentimento, por enten-
dermos que são expressões tomadas
de sentimentos moralistas e repressi-
vos, que fortalecem uma análise
mecânica e particularista da violência
sexual contra crianças e adolescentes.
As formas agudas de violência con-
tra crianças e adolescentes não consti-
tuem em um fenômeno novo da so-
ciedade. No entanto, a visibilidade da
violência e a atribuição do ECA/90 às
crianças e adolescentes como são
sujeitos de direito são uma experiência
recente na história brasileira. Esta nova
concepção vai buscar modificar uma
cultura de inferioridade-subordinação,
sobre a qual a violência se manifesta,
cresce, se legitima e se consolida.
O ECA - Estatuto da Criança e do
Adolescente do Brasil, Lei Federal
8.069, de 1990 - constitui instrumento
único no contexto latino-americano.
Pela primeira vez, uma lei para a infân-
cia rompe radicalmente com os postu-
lados da chamada doutrina da situa-
ção irregular, adequando seu texto e
espírito à doutrina conhecida como a
da Proteção Integral das Nações Uni-
das para a Infância (Convenção Inter-
nacional, Regras de Beijem, regras mí-
nimas para os jovens privados de liber-
dade etc). (Méndez, 1998, p. 30).
No entanto, a absorção da noção
de direito pelo conjunto da sociedade
não é algo simétrico, o que exige um
processo contínuo de debate público
sobre a matéria, com vistas a criar a
cultura de direito tão pouco vivencia-
da pela sociedade brasileira.
Nesta perspectiva, vamos indagar
se a atual legislação12
acerca da maté-
ria atende ao que preceitua o disposi-
tivo constitucional em apreço. Exami-
nemos o conteúdo da legislação pe-
nal, no que concerne a esse tema.
Quando se trata de crimes contra
os costumes, o Código Penal brasilei-
ro presume a violência, quando a víti-
ma for menor de 14 anos, o que leva
ao agravamento das penas.
Com respeito ao crime de estupro,
Art. 213, do Código Penal brasileiro, e
Art. 263, da Lei nº 8.069, de 1990, que
dispõe sobre o Estatuto da Criança e
do Adolescente, acrescentou-se um
parágrafo único, agravando a pena,
quando o estupro for cometido contra
menor de 14 anos.
Posteriormente à Lei 8.072 do
10 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Faz-se necessário desmistificar, também, as noções de vítima e de
consentimento, por entendermos que são expressões tomadas de senti-
mentos moralistas e repressivos, que fortalecem uma análise mecânica
e particularista da violência sexual contra crianças e adolescentes.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 11
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
mesmo ano, que classificou e discipli-
nou os crimes hediondos, estabelece-
ram, no Art. 6º, um agravante e uma
causa de aumento de 50% da pena,
nas hipóteses de estupro praticado
contra as pessoas descritas no Art.
224, do Código Penal brasileiro, entre
as quais se encontra a adolescente
menor de 14 anos de idade.
A mesma situação ocorre com rela-
ção ao crime de atentado violento ao
pudor (Art. 214, do CPB). O Estatuto
da Criança e do Adolescente criou um
agravante, no caso de a vitima ser me-
nor de 14 anos de idade, enquanto a
Lei dos Crimes Hediondos, além des-
se, estabeleceu causa de aumento da
pena. Entretanto, deixou-se de fora a
hipótese em que a vitima seja menor,
com idade entre 14 e 18 anos.
Quanto aos crimes de corrupção
de menores, há que se destacar aque-
le previsto no Art. 218, do CPB, que tra-
ta da corrupção com fins libidinosos,
daquele tipificado na Lei nº 2.252/54,
cuja conduta típica consiste em cor-
romper ou facilitar a corrupção de me-
nor de 18 anos, com ele cometendo
infração penal ou induzindo-o a prati-
cá-la.
Contudo, essa tipificação penal re-
fere à pessoa maior de 14 e menor de
18 anos. Logo, se menor de 14 anos
de idade for levado a presenciar a prá-
tica de ato libidinoso, não há crime, o
fato é atípico. Quanto ao crime de le-
nocínio e tráfico de pessoas, o Art. 229,
do CPB, não aborda o problema da ví-
tima menor de 18 anos, ao se tratar de
casa de prostituição.
Quanto ao tráfico de crianças e ado-
lescentes, a legislação brasileira tem
considerado a Convenção das Nações
Unidas contra o Crime Transnacional
Organizado (2000)13
e seu Protocolo
para a prevenção, repressão e puni-
ção do tráfico de seres humanos, es-
pecialmente, mulheres e crianças
(Protocolo de Palermo); os artigos 231
(tráfico internacional de mulheres
para fins de prostituição), 227, 228 e
229 (as diversas formas de lenocínio),
do Código Penal Brasileiro; e o artigo
244-A (submissão de crianças e ado-
lescentes à prostituição e à exploração
sexual), do Estatuto da Criança e do
Adolescente.
A dimensão legal (séc. XX) consti-
tui-se em uma noção e instrumento
fundamentais do Estado de direito
(Constituição de 1988), para estabele-
cer estratégias de repressão e respon-
sabilização dos crimes cometidos con-
tra crianças e adolescentes. Sabe-se
que é histórica, no imaginário da so-
ciedade, a importância da responsabi-
lização do agressor ou violador dos di-
reitos, frente ao crime que comete. No
entanto, as instituições jurídicas têm
demonstrado muitas contradições e
falhas no seu sistema de repressão e
responsabilização, em função do au-
toritarismo e da burocracia, sendo a
mais grave a impunidade, a exemplo
do massacre das crianças de Cuiú-
Cuiú, no Pará, os massacres de Ca-
randiru e Vigário Geral e os massacres
dos trabalhadores sem-terra, em Co-
rumbiara (RO). Todos impunes!
Acrescente-se à questão a aplica-
ção da lei e imputação à coexistência
de uma cultura da corrupção, impreg-
nada no sistema burocrático das insti-
tuições, pela existência de profissio-
nais ligados às redes de contravenção,
favorecendo a impunidade dos cri-
mes, já citados anteriormente, da ex-
ploração sexual comercial de crianças
e de adolescentes, entre outros.
Se, por um lado, essa instituição
sofre com a existência de micropode-
res envolvidos com a corrupção, tam-
bém coexistem setores que lutam pe-
lo estabelecimento da Justiça e da Éti-
ca. Cresce o número de legisladores
que estão estudando mudanças para
o Código Penal Civil, a própria promul-
gação do ECA-90 e de outras normati-
vas nacionais e internacionais, que se
constituíram como discurso hegemô-
nico (legitimador dos direitos huma-
nos), no combate à exploração sexual
comercial e ao abuso de crianças e
adolescentes.
A sociedade tem se mobilizado, no
sentido de que o discurso legal não se
constitua apenas na repressão, mas
em um conjunto de medidas preven-
tivas e de desmobilização da ação do
agressor, nos locais onde se estabele-
ce o conflito (família, comunidade,
escola, trabalho, rua e mercado), para
o enfrentamento do abuso e da explo-
ração sexual.
É neste cenário de razões contradi-
tórias14
que vamos mergulhar no fenô-
meno da ESCCA, na perspectiva de
desvendar como a sociedade tenta re-
solver conflitos de natureza sexual, a
partir de suas diferentes formas de vi-
venciar a sua sexualidade e o direito a
exercê-la plenamente nas sociedades
contemporâneas.
O reverso da situação de violência
sexual, especialmente a tipificada co-
mo ESCCA, estaria, grosso modo, na
quebra da oferta e da demanda para
o consumo de serviços sexuais de
crianças e adolescentes, com vistas a
desestimular esta prática, pois enten-
demos que se faz necessária uma re-
lação de respeito ao direito à infância
de vivenciar sua sexualidade sem vio-
lências.
É fato comprovado que existe um
As instituições jurídicas têm demonstrado muitas contradições
e falhas no seu sistema de repressão e responsabilização,
em função do autoritarismo e da burocracia
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE12 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
mercado vendendo o corpo de crian-
ças e adolescentes (em sua maioria,
do gênero feminino e de classes po-
pulares e médias) para fins sexuais
para uma demanda consumidora (em
sua maior parte masculina), com pre-
ços acessíveis a diferentes classes so-
ciais, preferências sexuais, cor, etnia,
religião. Portanto, existe uma deman-
da potencial para consumir serviços
sexuais de crianças e adolescentes.
Esta prática, geralmente, é clandes-
tina, ilegal, portanto fere os direitos de
crianças e adolescentes prescritos pelo
ECA/90. Porém, é raro não existir um
comércio deste em alguma localidade,
que não se tenha notícia em algum
meio de comunicação (anúncios de
jornais, cardápios, folder de turismo,
etc.) ou através de informações entre
pessoas, ou mesmo sendo oferecido
livremente nas ruas pelas próprias
crianças ou adolescentes.
Neste caso, o fenômeno é de co-
nhecimento de “todos”, porém não é
visível no debate público e institucio-
nal. Este fica submetido ao âmbito da
esfera íntima da família ou da esfera
privada do mercado. É raro encontrar
estatísticas ou informações estrutura-
das na rede de notificação de violações
de direitos de crianças e adolescentes e
é raro, também, encontrar denúncias
por parte da família ou da própria víti-
ma junto a estes órgãos. Seja por
medo, vergonha ou coação, seja por-
que são desencorajadas pela postura
conservadora e moralista das institui-
ções, ao se depararem com o caso.
No entanto, os funcionários destas
instituições podem ser fregueses des-
tas redes de comercialização de sexo
infanto-juvenil, portanto são poten-
ciais consumidores.
É fato, também, que o mercado
local convive com o comércio sexual
de crianças e adolescentes. Faz suas
trocas comerciais com estes estabele-
cimentos e, muitas vezes, compra os
serviços sexuais oferecidos. Além dis-
so, estes estabelecimentos recebem,
em muitos casos, o alvará de licença
pelas administrações regionais.
Outra situação curiosa é que dificil-
mente a polícia local, quando realiza
um flagrante nessas casas, não encon-
tram um documento que comprove a
existência de pessoas que trabalham
no recinto, menores de 18 anos. No
entanto, existem várias denúncias de
falsificações de documentos, o que
nos incita a pensar que este comércio
tem relação com a corrupção e o cri-
me organizado.
Revela, ainda, que o mercado do
sexo infanto-juvenil convive entre a le-
galidade e a ilegalidade, na esfera do
poder local.
Esta descrição sintética sobre os
feixes de relações que constroem a re-
de de comercialização do sexo, confir-
ma uma profunda rejeição da socieda-
de de conceber a sexualidade como
direito. E nega que a criança e o ado-
lescente sejam sujeitos de direitos,
contrariando o próprio ECA/90.
Estas relações e comportamentos
contraditórios da sociedade moderna
reafirmam as práticas e concepções re-
pressivas, moralistas e vitimizadoras,
investidas contra os segmentos infan-
to-juvenis, na história da humanidade15
.
Estas contradições demonstram,
ainda, tanto uma aceitação pela socie-
dade da existência do fenômeno,
quanto de sua omissão, pois quase to-
dos os setores têm um consumidor da
sexualidade infanto-juvenil. Tanto é
verdade que o mercado, ao racionali-
zar o sexo através da mercantilização,
busca sua inspiração na demanda da
sociedade por sexo com crianças e
adolescentes.
“Foi identificada na BR-230 (Paraí-
ba) uma nova rota da prostituição infan-
til que inclui Patos, Campina Grande e
João Pessoa. Foi surpresa encontrar, no
rol de seletos clientes, inúmeros políticos,
juízes e comerciantes de Patos e das re-
dondezas. Pior: o envolvimento dessas
“autoridades”, que deveriam criar políti-
cas juvenis, é um dos maiores entraves
para o andamento das investigações”
(Folha de São Paulo,29.04.02).
O corpo infanto-juvenil é mais um
produto colocado no mercado globali-
zado do sexo, onde o marketing e a
publicidade, de um modo geral, en-
carregam-se de fabricar, no caso brasi-
leiro, a imagem da mulher jovem e
mulata, direcionada, por exemplo, pa-
ra o turismo sexual e a indústria do
consumo.
Geralmente, a imagem produzida
cristaliza a erotização da forma explíci-
ta ou subliminar, por meio de ícones e
símbolos que representam uma inge-
nuidade ou pureza da infância e juven-
tude na televisão, outdoor, internet etc.
Hoje, diariamente, na televisão, nos
outdoors, nas mensagens publicitárias,
a nudez feminina virou produto de pri-
meira necessidade. A criatividade foi
sendo substituída pelo culto ao “tchan”.
O apelo das “popozudas”, mensagem
central de alguns sites, transformou
ônibus urbanos em painéis ambulan-
tes (Di Franco. In: Estado de São Paulo,
19/03/01).
A erotização, segundo Giddens
(1996), pode fortalecer, nas socieda-
des machistas, desejos que vão se in-
ternalizando de tal maneira que é pre-
ciso descarregar a energia erótica nu-
ma dada prática sexual. Para o que,
historicamente, era realizado em pros-
tíbulos, existem, hoje, outros estabele-
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
O mercado do sexo infanto-juvenil convive entre a legalidade
e a ilegalidade, na esfera do poder local.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 13
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
cimentos e formas sofisticadas, envol-
vendo crianças e adolescentes, como
a pornografia na internet; o turismo
sexual (folder, book etc.), os classifica-
dos de jornais e outros meios de co-
municação, ligados em redes globali-
zadas do sexo, se constituem em ver-
dadeiros espaços de busca sexual e
erotismo.
Há, portanto, um processo de so-
fisticação da produção da imagem in-
fanto-juvenil erotizada, através de pe-
ças publicitárias, distribuídas no meio
turístico e nas redes de diversão, con-
forme denunciou o ECPAT, no Con-
gresso de Estocolmo, em 1996.
As estruturas simbólicas revestem-
se de valores, em que as relações de
violência sexual encontram suporte
ideológico para justificar a existência
das redes de exploração sexual de cri-
anças e adolescentes. Mediada por ra-
zões de natureza social, interpessoal e
comportamental, a tendência dessa
concepção é de atribuir à criança e ao
adolescente, especialmente do sexo
feminino, a culpa pelo abuso e a ex-
ploração sexual cometidos contra
eles, e/ou a família.
A cultura tradicional estabelece
valores e mantém tabus que delimi-
tam a maneira de expressar a sexuali-
dade de seu povo. Além disso, há for-
tes sentimentos mistos, preconceitos,
concepções errôneas em relação à
masturbação, virgindade, menstrua-
ção e outras, mas algumas coisas são
comuns a quase todas as mulheres
ocidentais: a diferença de gênero, dos
papéis masculino e feminino, é uma
delas, e o tabu do incesto é outra (Ve-
rardo, 2000, p. 51).
Qual é a prática ideológica que
estigmatiza esses sujeitos? O apar-
theid, a discriminação social, de raça,
de gênero e também de orientação
sexual. A mídia, o marketing e a publi-
cidade são veículos de fortalecimento
da estigmatização desses sujeitos,
através da construção de espaços sim-
bólicos e imaginários de construção
da violência.
Os discursos institucionais (médi-
co, jurídico e outros), ainda, fortale-
cem a idéia da sexualidade como algo
a ser resolvido no âmbito privado. Es-
tabelecer a prática do sexo, do prazer
e do desejo fora da relação familiar
constitui-se, ainda, um fator de rejei-
ção, estimagtização e de isolamento
social. Nessa perspectiva, se a sexuali-
dade ocorrer fora do esquema aceito
pelas instituições de controle social,
os sujeitos podem sofrer sanções e
punições violentas das instâncias da
sociedade.
É por isso que a igreja, através da
legislação eclesial, tratou a prostitui-
ção como uma transgressão sexual. E
quem a praticasse era excomungado
pela igreja e obrigado a submeter-se a
um processo de purificação da alma e
do corpo, sendo essas pessoas consi-
deradas objeto excreto da sociedade,
o que vem descortinar a relação entre
sexualidade e repressão16
, como vetor
importante na compreensão da exis-
tência de lugares onde a sexualidade
é exercida pela sociedade.
A questão da sexualidade torna-se
mais complexa quando se refere a
crianças e adolescentes e quando es-
sa relação se constitui em violência
sexual com os seguintes desdobra-
mentos: o recente reconhecimento da
criança e do adolescente, enquanto
sujeito em processo de desenvolvi-
mento biopsicossocial e de direitos; o
desigual reconhecimento das diferen-
tes relações que uma criança ou ado-
lescente vivenciam com o seu corpo e
com sua sexualidade, no contexto de
gênero/diversidades/etnia e raça; o
deslocamento da questão para o âm-
bito do privado, ou seja, da família; a
repressão e o patriarcalismo como
instrumento de poder de decisão do
uso de força e sedução para o abuso
da sexualidade infanto-juvenil (violên-
cia e violação sexual) pela família, pe-
lo mercado e pelas instituições.
Gênero e raça: construções
sociais emancipatórias17
Consideramos, também, que a ESSCA
é um fenômeno que deve admitir três ei-
xos analíticos: classe, gênero e raça18
.
Estabelecer a prática do sexo, do prazer e do desejo fora
da relação familiar constitui-se, ainda, um fator de rejeição,
estimagtização e de isolamento social.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE14 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
O comportamento violento da so-
ciedade em relação às mulheres,
crianças e negros deu as bases à cons-
trução do círculo de violência social. E
o contraponto a esta violência é a
construção da concepção de classe,
gênero e raça, pois são categoria so-
cialmente construídas para a emanci-
pação da condição feminina e da con-
dição racial.
A categoria gênero não é uma
construção abstrata, mas produto das
relações e lutas contraditórias entre
mulher e homem através dos séculos.
No século XIX, as questões relaciona-
das à mulher eram “resolvidas” ou
“negociadas” no espaço privado da fa-
mília. A construção histórica do con-
ceito de gênero é, portanto, uma res-
posta pública a esse sistema de valor
que operava no âmbito privado da
sociedade.
A literatura sobre gênero, sobretu-
do, relacionado aos movimentos femi-
nistas, aponta uma agenda comum de
reivindicações: qualidade de vida, direi-
tos reprodutivos e respeito às diferen-
ças sociais, na equação gênero, e repú-
dio à violência sexual por discrimina-
ções de comportamentos sexuais.
A passagem do sistema mercantil
à nova economia global nos traz uma
reflexão fundamental para desmistifi-
car que a construção da violência se-
xual, no contexto de gênero, tenha
nascido fora de uma construção histó-
rico-social. Pautar essa discussão, a
partir de uma análise da formação
econômica e política das raízes brasi-
leiras e dos valores morais da socieda-
de, é imperativo para observar que a
mercantilização do sexo tem suas ori-
gens nos sistemas mais tradicionais e
se refletem também no mercado do
sexo globalizado.
O racismo é outra forma de a vio-
lência materializar-se na relação de
exploração sexual. É uma relação de
poder de um grupo em relação a ou-
tro, significativa da preferência por
um, em detrimento do outro, em base
racial e étnica, resultante de transfor-
mação do preconceito racial e/ou et-
nocêntrico, através do exercício do po-
der contra um grupo racial diferencia-
do como inferior, por indivíduos e ins-
tituições, com apoio institucional ou
não de toda a cultura (Bertulio, 1989,
p. 16).
Além dessa visão do racismo en-
quanto relação de poder, Otávio Ian-
ni19
articula a perspectiva de classe,
segundo a qual se atribui importância
maior a um dos elementos, para ana-
lisar a situação de discriminação racial
e de classe.
Adultos e, especialmente, crianças
e adolescentes de classes sociais po-
bres, negros, índios, mulheres envolvi-
dos em exploração sexual sofrem es-
tigmatização e exclusão pela socieda-
de. E aí está uma das dificuldades do
reconhecimento do fenômeno.
Segundo Erikson (1976), o perma-
nente estado de estigmatização de
um grupo social leva-o a crer que é
exatamente como está sendo rotula-
do, gerando um apartheid sócio-ur-
bano, em que se constroem e são
constituídas lógicas distintas, em terri-
tórios diversificados, em que a relação
de poder se manifesta numa clara
relação de conflito, seja entre policiais,
gigolôs, colegas, dentre outras.
Para compreender a dimensão dos
valores, cabe remetê-la à análise do
processo econômico de mercantiliza-
ção das relações sociais, em quase to-
das as sociedades, prevalecendo a lógi-
ca de mercado e o fetiche do consumo.
Nessa direção, pensar a dimensão
dos valores significa desconstruir o
discurso/imagem do abuso e da ex-
ploração sexual/erótica de crianças e
adolescentes, especialmente do sexo
feminino, veiculados e cristalizados
transculturalmente pela massmídia,
que favorece a formação de um ima-
ginário que fortalece a idéia da sexua-
lidade e sensualidade infanto-juvenil
para fins de exploração comercial
(pornografia e pedofilia).
Discutir as questões de valores, no
conjunto da sociedade capitalista, para
entender as mutações na exploração
Crianças e adolescentes de classes sociais pobres, negros,
índios, mulheres envolvidos em exploração sexual sofrem
estigmatização e exclusão pela sociedade.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 15
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
sexual comercial, exige a compreensão
de como a sociedade contemporânea
reproduz as relações sociais e a pró-
pria subjetividade. Para Leal & César
(1998), nas relações capitalistas, o se-
xo é, ao mesmo tempo, um valor de
uso e um valor de troca e passa a ser
um bem mercantilizado, um intercâm-
bio comercial. De forma globalizada,
isso só poderia existir se houvesse um
imaginário que o legitimasse, mesmo
de forma contraditória.
Assim, os conceitos de classe, gê-
nero e raça são construções sociais
que consolidam a crítica à razão mo-
derna conservadora e repressora que,
hegemonicamente, têm remetido a
sexualidade aos porões das relações
privadas, cujo lugar historicamente fa-
voreceu as relações de dominação e
poder de pobres frente aos ricos,
brancos contra negros e índios, ho-
mens contra mulheres e adultos con-
tra crianças.
Naturalmente, a resposta pública
do conjunto de atores sociais que
aquecem a luta contra a violência se-
xual, passa pelo amadurecimento de
um projeto societário fundado no res-
peito às diferenças e opções sexuais,
trazendo para o político a sexualidade
e suas diferentes manifestações como
experiências relativas ao direito ao
pleno prazer, ao desejo e as realiza-
ções afetivas, como afirmações que
desconstroem a violência sexual.
Construindo uma cidadania
global para enfrentar a ESCCA
O enfrentamento da ESCCA, no
Brasil, é resultado de uma construção
da cidadania global20
e local em que
a participação das Ongs, conselhos,
centros de defesas, fóruns e movi-
mentos de mulheres, crianças e ado-
lescentes têm um papel estratégico de
mobilizar as forças políticas nacionais
e internacionais de baixo para cima
para desconstruir a violência sexual e
reinventar uma outra globalização vol-
tada para a defesa dos direitos e para
o desenvolvimento dos sujeitos, em
situação de vulnerabilidade social.
A primeira tarefa que este movi-
mento desempenhou em defesa de
mulheres, crianças e adolescentes em
situação de ESCCA, foi o de agendar
esta questão na esfera do poder públi-
co brasileiro, através de denúncias
realizadas pelas CPIs do extermínio de
meninos e meninas de rua, em 1991;
da violência contra mulher em 1992;
da CPI da prostituição infanto-juvenil,
em 1993. Esses fatos foram bastante
veiculados pela mídia e fortalecem ini-
ciativas mais organizadas da socieda-
de civil, no combate à exploração se-
xual e abusos, junto ao grupo infanto-
juvenil.
Essa mobilização tomou corpo po-
lítico e se traduz em diferentes formas
de organização da sociedade, com vis-
tas a ampliar seu potencial de sensibi-
lização das esferas do legislativo, do
governo, da sociedade civil e do prota-
gonismo infanto-juvenil, na direção da
implantação e implementação de um
Política de Enfrentamento da Violên-
cia Sexual, no Brasil.21
O grande desafio deste movimen-
to é fortalecer as articulações das re-
des22
de enfrentamento local, para
implantar e implementar o Plano Na-
cional de Enfrentamento da Violência
Sexual de Crianças e Adolescentes,
nos estados e municípios, com o obje-
tivo de agendar a questão da ESCCA,
no âmbito das políticas sociais, estra-
tégia para desmobilizar as redes locais
e transnacionais de comercialização
do sexo infanto-juvenil.
As redes de serviços privados mer-
cantis não participam deste processo
de mobilização para o enfrentamento
do fenômeno, pelo contrário, essa
participação é ainda muito tímida, o
que nos parece grave já que este setor
desempenha, em muitas situações, o
papel de facilitador da ESCCA, através
das redes comerciais de favorecimen-
to da exploração sexual comercial.
Além disso, essas redes desenvolvem
uma prática clandestina, ilegal, que
envolve sujeitos de redes formais (por
exemplo, pais e policiais).
Daí a importância de uma ação ar-
ticulada de responsabilização dos ex-
ploradores e a sensibilização e mobili-
zação da sociedade como um todo so-
bre o fenômeno da ESCCA, na esfera
do poder local, em razão da oferta e
da demanda para os serviços sexuais.
Portanto, para traçar o perfil da
mobilização social, nas diversas regi-
ões, faz-se necessário estabelecer
uma análise de conjuntura política
(direção política local, o cenário políti-
co, os acontecimentos, a identificação
dos atores sociais, as alianças políticas
e a correlação de forças), de estraté-
gias da sociedade civil (a mobilização
e a articulação) e do impacto destas
estratégias, no contexto da democrati-
zação e da cidadania local.
O ECA prevê a mobilização social,
no inciso VI, institui a mobilização so-
cial e a opinião pública da sociedade
civil (ONGs), as instâncias públicas co-
participativas (conselhos) e demais
órgãos públicos do sistema de garan-
tia de direitos (ECA-90), ou seja, o me-
canismo público de democratização
dos direitos sociais está juridicamente
Os conceitos de classe, gênero e raça são construções sociais
que consolidam a crítica à razão moderna conservadora e
repressora que, hegemonicamente, têm remetido a sexualidade
aos porões das relações privadas
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE16 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
previsto em lei.
Nessa perspectiva, faz-se necessário
articular criticamente as velhas e novas
formas de a sociedade civil mobilizar
as organizações sociais para construir
espaços públicos de democracia e re-
presentação política na luta pela con-
quista dos direitos sociais e humanos
de crianças e adolescentes, em situa-
ção de violência sexual, sem cair nas ar-
madilhas do ajuste neoliberal23
.
Podemos considerar que o proces-
so de mobilização social representa a
principal estratégia da sociedade civil
para o enfrentamento da violência se-
xual contra crianças e adolescentes.
Nesse contexto, vale destacar as
ONGs, os movimentos, fóruns, conse-
lhos e CEDECAs como protagonistas
da mobilização social do Legislativo,
do Judiciário, do Executivo, da mídia e
das organizações internacionais, na
luta pela inclusão da violência sexual
contra crianças e adolescentes na
agenda pública brasileira.
Alguns resultados foram obtidos
nestes últimos sete anos:
* adoção, pelo movimento local e
global, de enfrentamento do fenôme-
no da concepção de violência sexual
(abuso e exploração sexuais comer-
cial) de crianças e adolescentes como
uma violação fundamental dos direi-
tos humanos e um crime;
* caracterização da violência sexual
como fenômeno multidimensional,
multifacetado e complexo, com fato-
res determinantes de ordem política,
sócio-econômica, cultural, jurídica e
psicológica;
* maior articulação e mobilização
das redes regionais, nacional e inter-
nacional em defesa das crianças e
adolescentes violados sexualmente
(End Child Prostitution, Child Porno-
graphy and Trafficking of Children for
Sexual Purposes - ECPAT, Bureau In-
ternational Catholique de L´Enfance -
BICE, Group for the Convention on the
Rights of the Child-NGO, Organização
Internacional do Trabalho - OIT, Save
the Children, Fórum Social Mundial
contra a globalização dentre outra arti-
culações;
* aporte financeiro a projetos para
o enfrentamento da violência sexual
pelas agências de cooperação interna-
cional (OIT, Projeto Pommar-Usaid,
Save The Children, WCF e UNICEF, en-
tre outros);
* implantação/implementação do
Plano Nacional de Enfrentamento da
Violência Sexual contra Crianças e Ado-
lescentes/2000 e dos Planos Estaduais,
com perspectiva de articulação com o
Plano Nacional de Erradicação e Com-
bate ao Trabalho Infantil;
* instalações de várias CPIs nos es-
tados brasileiros;
* maior visibilidade do fenômeno,
graças às campanhas nacionais e esta-
duais, aos eventos, congressos, ações
de capacitação, organização de ban-
cos de dados, pesquisas, publicações
e envolvimento das universidades;
* elaboração de leis e projetos de
leis relativos aos crimes sexuais e for-
talecimento da demanda por mudan-
ças no Código Penal e no Civil para
melhor identificação do fenômeno e
aplicação da lei;
* ampliação da participação dos
jovens em situação de violência sexual
no movimento de combate à violação
dos seus direitos (“protagonismo” ju-
venil);
* sensibilização do governo federal
e de alguns governos estaduais para o
enfrentamento da violência sexual,
através do Programa Sentinela, execu-
tado pelo Ministério da Previdência e
Assistência Social; do Programa Glo-
bal de Combate e Prevenção ao Trá-
fico de Seres Humanos, da Secretária
de Justiça/Ministério da Justiça e da
Rede de Informação sobre Violência,
Abuso e Exploração Sexual de Crian-
ças e Adolescentes - RECRIA/MJ;
* criação do Comitê Interinstitucio-
nal de Enfrentamento da Violência
Sexual de Crianças e Adolescentes pe-
O processo de mobilização social representa a principal
estratégia da sociedade civil para o enfrentamento da violência
sexual contra crianças e adolescentes.
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 17
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
la sociedade civil (Fórum DCA);
* ampliação das boas práticas de
intervenção metodológicas desenvol-
vidas pelas ONGs, no enfrentamento
da violência sexual; e
* fortalecimento da articulação en-
tre os movimentos de crianças e ado-
lescentes, de mulheres, de trabalha-
doras do sexo, de raça e etnia.
O grande desafio deste movimen-
to de mobilização para o enfrenta-
mento da ESCCA (prostituição, turis-
mo sexual, pornografia e tráfico para
fins sexuais) é construir uma nova ra-
cionalidade com bases democráticas
que transforme as relações de violên-
cia sexual, em relações sociais, capa-
zes de satisfazer as necessidades de
prazer/desejo e sexo dos cidadãos, a
partir da construção de uma cidadania
que desenvolva o direito a uma sexua-
lidade emancipada e o reconhecimen-
to, em nível global, do direito dos in-
fantes e jovens a vivênciar a sua se-
xualidade protegidos dos abusos e da
exploração.
É apostando nessa concepção e
nas formas estratégicas que este mo-
vimento possa eleger que será possí-
vel desmobilizar a cultura da violência
e da exploração sexual comercial que
se enraíza, historicamente, nas rela-
ções interpessoais, sociais, culturais e
de mercado e subsidiar as políticas so-
ciais para seu enfrentamento.
Portanto, é urgente fortalecer a
mobilização política e intelectual, ru-
mo a um projeto societário que articu-
le com as esferas das liberdades eco-
nômicas, de expressão e da sexualida-
de, no contexto da luta pelos direitos
humanos, privilegiando a participação
de jovens, mulheres e homens na
construção de uma das mais impor-
tantes conquistas da humanidade, nas
próximas décadas.
Notas
1. Professora do Departamento de Servi-
ço Social da Universidade de Brasília. Doutora
em Serviço Social/PUC/2001, mestre em Co-
municação, Fac/UnB/1992. Especialista em
Saúde Pública, Fiocruz, 1986. Especialista em
Políticas Sociais, SER/UnB/1984.
2. O Estatuto da Criança e do Adolescen-
te- ECA/1990 define que a idade de 0 a 12
anos incompletos refere-se à criança e a ida-
de entre 12 a 18 incompletos corresponde à
faixa etária do adolescente.
3. Leia Otávio IANNI. A Sociedade Global.
Rio da Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1999.
4. Tomo, como ponto de partida, a desig-
nação de Boaventura de Souza Santos sobre
globalização: consiste num conjunto de rela-
ções sociais;conforme estes conjuntos de re-
lações sociais se transformam, assim também
se transforma a globalização. Para o autor,
não existe uma entidade única chamada glo-
balização; existem, antes, globalizações, e de-
víamos usar esse termo apenas no plural. Por
outro lado, enfatiza o autor que as globaliza-
ções são feixes de relações, estes tendem a
envolver conflitos e, conseqüentemente, ven-
cedores e vencidos. Para o mesmo, a globali-
zação é muito difícil de definir. A maior parte
das definições concentram-se na economia,
no entanto, Boaventura prefere uma defini-
ção de globalização que seja sensível às di-
mensões sociais, políticas e culturais. (p.4).
5. ...a implementação do programa de
estabilização,ajuste e reformas institucionais,
apoiada e promovida pelos governos nacio-
nais e pelas agências financeiras internacio-
nais:programa de privatizaçãoes, reduções de
tarifas alfandegárias para importação, liberali-
zação dos preços, política monetária restriti-
va, redução de isenções e linhas de crédito,
corte dos gastos públicos, liberalização fina-
ceira e renegociação da dívida externa.”
(MONTAÑO, 2002: 37)
6. Vide “Mulheres traficadas: sonhos, pe-
sadelos e morte - Casos Exemplares. In Rela-
tório PESTRAF. Brasília: CECRIA,2002. Anexos
7. Os projetos de desenvolvimento e cres-
cimento econômico implementados nas re-
giões, tais como: projetos de mineração, hi-
drelétricas, assentamentos agrícolas, turismo,
pesca dentre outros são responsáveis por
estimular praticas de ESCCA , trabalho força-
do, trabalho escravo e formas extrativistas de
relacionar com o meio ambiente.
8. Leia sobre o papel do consumo e as al-
ternativas pela sociedade civil, Giuseppe
COCCO- In. Trabalho, Neoliberalismo e Socie-
dade civil. p.22.
9. Para Eric Hobsbawm, existem dois sig-
nificados ao termo Barbárie: o primeiro, a
ruputura e o colapso do sistema de regras e
de comportamento moral pelo o qual todas
as sociedades regulam as relações entre seus
integrantes e, em menor extensão, entre seus
membros e os de outras sociedades; o se-
gundo, a reversão do que podemos chamar
projeto iluminismodo século XVIII, o estabe-
lecimento de um universo de tais regras e
padrões de comportamento moral, incorpo-
rado nas instituições de Estado dedicadas ao
progresso da humanidade - à vida, à liberda-
de e à busca da felicidade, à igualdade e à
fraternidade. (1989:16)
10. De acordo com a classificação do Ins-
tituto Interamericado Del Ninõ-IIN/1988, a
ESCCA se classifica em quatro modalidades:
prostituição, turismo sexual, pornografia e
tráfico para fins sexuais.
11. De acordo com o INESC, existem
mais de 18 projetos de lei tramitando no le-
gislativo referentes ao aumento de pena em
relação a ESCCA e ao abuso sexual.
12. Para aprofundar essa notícia, vide
Estudos do INESC, CPIs contra prostituição in-
fanto-juvenil no Brasil (Nacional, DF, Paraná,
Ceará, Mato Grosso do Sul, etc) e do CEDE-
CA-BA.
13. Vide definição de tráfico - Termos do
Protocolo de Palermo, art. 2° bis, alínea a.
14. Leia Leonardo Avritzer.Teoria crítica e
teoria democrática do diagnóstico da impos-
sibilidade da democracia ao conceito de esfe-
ra pública. São Paulo: Novos Estudos, CE-
BRAP,1999.
15. Vide Philippe ÀRIES - A história social
da criança e da família. Rio de Janeiro: Gua-
nabara, Koogan,1987.
16. Vide Marilena CHAUI. Repressão se-
xual. São Paulo: Brasiliense, 1985.
17. Para o nosso estudo em questão, o
conceito de emancipação estará sendo racio-
nalizado pela a crítica que Souza Santos
(2000) faz à lógica-moral-prática da ética e
do direito enquanto discurso mediador da
defesa dos direitos de crianças e adolescen-
tes em situação de violência sexual, e o reco-
nhecimento da torção nas lógicas de raciona-
lidades, que compõe o pilar da emancipação
e da regulação.
18. Vide Heleieth SAFFIOTTI. Gênero, Clas-
se, Raça. São Paulo: Cortez, 1995.
19. IANNI, Octávio. Raças e Classes Soci-
ais no Brasil.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE18 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
20. Os eventos internacionais tais como:
IV Conferência de Mulheres em Beijing/ (1995);
a Consulta das Américas Contra a ESCCA, Bra-
sília/Brasil (1996); o Congresso Mundial Con-
tra a ESCCA, Estocolmo/Suécia (1996) e em
Yokohama/Japão (2001); bem como a Con-
venção da ONU Contra o Crime Organizado
Transnacional, em Palermo/Itália (2000) for-
taleceram as articulações entre a sociedade
civil de vários países do mundo, com vistas a
mobilizar fóruns globais em defesa de mu-
lheres, crianças e adolescentes em situação
de violência sexual.
21. Vide o Plano Nacional de Enfrenta-
mento da Violência Sexual de Crianças e Ado-
lescentes. Brasília: Ministério da Justiça/ CE-
CRIA, 2000.
22. A partir de 1997, deu-se a descentra-
lização da articulação do movimento de com-
bate à violência sexual, através da inclusão
dessa temática na agenda da sociedade civil
local, o que levou as ONGs, Fóruns, Conse-
lhos e Centros de Defesa a organizarem atra-
vés de redes a Comissão Interestadual de
Combate a Exploração Sexual de Crianças e
Adolescentes da Região do Centro-Oeste
(CIRCO/CO); O Pacto de São Paulo; Fórum
Catarinense de Combate a Exploração e ao
Abuso Sexual/ Sul; Rede Emaús e Txai/ Nor-
te; e o nordeste se faz representar pelos Cen-
tros de Defesa, Conselhos Municipais e ONGs.
Em nível nacional, quem articula o movimen-
to de enfrentamento da violência sexual no
Brasil é o Comitê Interinstitucional de Enfren-
tamento da Violência Sexual de Crianças e
Adolescentes/ Fórum DCA.
23. Vide MONTAÑO. Carlos. Terceiro Setor
e a Questão Social. Pg. 30.
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UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 19
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Afinal, de onde vem tanta celeuma
sobre a questão de cotas, racismo,
desigualdade racial, na atual conjun-
tura política brasileira?
Seguramente, o evento que tornou
visível a discriminação racial no Brasil,
nos anos recentes, foi a Conferência
Internacional de Durban (África do
Sul) contra a discriminação racial, pa-
trocinada pela ONU, em 2001.
Não que o assunto fosse novo:
desde 1931, com a Frente Negra Bra-
sileira, a discriminação racial contra o
negro é denunciada de forma organi-
zada. Os movimentos negros tiveram
novo alento a partir do fim da ditadu-
ra militar (final da década de 70), a
mesma ditadura que retirou o quesito
cor-raça do Censo, para esconder a su-
per-exploração a que o negro é sub-
metido, na nossa pátria mãe gentil. No
entanto, foi na Conferência de Durban
que a delegação brasileira levou a pro-
posta de cotas para negros nos proces-
sos de seleção para o Ensino Superior.
Uma aliança entre ONGs, Movimentos
Negros e segmentos no interior do
governo do Presidente Fernando Hen-
rique Cardoso, particularmente no Mi-
nistério da Justiça, permitiu que esse
tipo de proposta fosse majoritário na
delegação brasileira.
Curiosamente, encontram-se posi-
ções ardentemente favoráveis e con-
trárias a esta linha de ação reparatória
aos negros brasileiros, tanto na direita
quanto na esquerda. No entanto, nos
movimentos negros, ela é maioria. O
que causa espécie é como surge uma
oposição emocionalmente viva e
pouco fundamentada sobre este tipo
de proposta de inclusão social do ne-
gro. Tem gente que não leu sobre o
assunto, não se informou e é radical-
mente contra! Inclusive colegas nos-
sos de academia. Este humilde e pe-
queno ensaio pretende ser uma pe-
quena contribuição à discussão sobre
A luta contra o racismo no Brasil
e o movimento docente
Marcelo Henrique R. Tragtenberg
as formas de reparação e compensa-
ção dos danos que a discriminação ra-
cial fez e continua a fazer aos negros
brasileiros, quase metade da nação
brasileira (45%, sendo 5% de pretos e
40% de pardos, segundo o Censo
IBGE 2000). Finalmente, a discrimina-
ção racial torna-se tema nacional, já
que as leis punitivas a ela simples-
mente ‘’não pegam’’.
Então, mesmo que não seja apro-
vada em todo o país, pelo menos, a
proposta de cotas para o Ensino Su-
perior já está cumprindo o papel de
problematizar a situação degradante a
que está exposto o povo negro brasi-
leiro.
Havemos que reconhecer que o
ANDES-Sindicato Nacional também
tem uma dívida histórica com relação
à questão racial. O ANDES-SN somen-
te começou a colocar, em sua agenda
de discussão, a questão racial em
2001, ano de Durban. O grupo de tra-
balho de etnia, gênero e classe foi
criado no 19º Congresso (2000) da
entidade, mas teve sua primeira reu-
nião em 2001. Sobre a questão racial
e de ações afirmativas, a discussão na
nossa entidade ainda é muito pobre.
O 20º Congresso (2001) tem uma re-
solução vaga sobre o assunto. O 21º
Congresso (jan/2002) só fez reconhe-
cer a necessidade desta discussão e
adiou para o 44º CONAD a decisão so-
bre ações afirmativas
O 44º CONAD não deliberou a
posição do movimento docente sobre
o tema do combate à discriminação
racial, remetendo-a para o 22º Con-
gresso (março/2003), preparado por
um Seminário Nacional sobre Racis-
mo e Ações Afirmativas. No entanto,
este Seminário deverá realizar-se so-
mente em 2003, depois do Congres-
so, conforme proposta de resolução
da Diretoria do Sindicato Nacional pa-
ra o 22º Congresso.
Este pequeno histórico só mostra
como a discussão organizada e o inte-
resse objetivo sobre o assunto são irri-
sórios, no movimento docente e no
conjunto dos professores universitá-
rios. Pouquíssimos grupos de trabalho
de Etnia se organizaram nas seções
sindicais. Em 2002, o GT de Etnia, Gê-
nero e Classe da ANDES-SN se reuniu
três vezes. Há muito trabalho pela
frente, para quem não quer que cotas
sejam outorgadas de cima para baixo,
sem discussão na comunidade acadê-
mica brasileira.
Por outro lado, a discussão da polí-
tica de cotas traz em seu bojo um
sem-número de questões adormeci-
das na sociedade e no ensino superior
brasileiro. A entrada do povo no ensi-
no superior já está se dando através
de cotas, por exemplo, na Universida-
de do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ). Vemos, então, numa das man-
chetes da Folha de São Paulo, de 09/-
02/2003: “Cotas em Universidades
podem ser desastrosas, diz UERJ”. Este
jornal, em campanha sistematica con-
tra cotas, atribui às cotas um desastre.
Qual é esse desastre? A reprovação
em massa do povo pobre e negro que
adentrou à Universidade Pública de
qualidade. No entanto, não é exata-
mente isso que diz a Comissão no-
meada pela Reitoria para se pronun-
ciar sobre o assunto. A Comissão aler-
ta que haverá conseqüências desas-
trosas da lei de cotas ‘’se não houver
uma política de permanência para
os alunos que ingressarão na Uni-
versidade em 2003’’ (Machado, 2002).
Ora, o povo mais pobre e, em particu-
lar, o povo negro e pobre, vai precisar
de assistência financeira para se
manter, comprar o material didático e,
eventualmente, de apoio didático-
pedagógico. Esta necessidade já exis-
te para vários de nossos alunos, mes-
mo do ensino superior público, e, em
raros casos, foi encarada seriamente.
A cota escancarou a questão. A inclu-
são entrou na ordem do dia também
para o branco pobre. Será que o de-
sastre é ter mais pessoas pobres na
Universidade ou ela nunca ter se preo-
cupado com aquelas pessoas pobres
que estão no interior da Universidade
ou dentro dela deveriam estar?
A análise da proposta de cotas ra-
ciais no Brasil torna-se mais completa,
se for comparativa com as realidades
dos Estados Unidos e de Cuba. Estes
três países vêm apresentando trata-
mentos diferenciados para negros e
brancos, com diferentes regimes só-
cio-econômicos e históricos de discri-
minação racial. Em todos eles, houve
escravidão, mas as composições ra-
ciais atuais são diferentes.
Nos EUA, 12% das pessoas são ne-
gras (define-se como negra uma pes-
soa com pelo menos um bisavô ou bi-
savó negro). Em Cuba, há aproximada-
mente 1/3 de negros, 1/3 de mulatos
e 1/3 de brancos (segundo estatísticas
oficiais e também segundo o Livro de
Fatos da CIA- CIA Fact Book). Já no Bra-
sil, os negros são 45%.
Talvez seja mais visível para um es-
trangeiro, já que muitos de nós já nos
“acostumamos”, a diferença brutal de
tratamento de negros e brancos no
Brasil, configurando uma verdadeira
dívida histórica do Brasil com relação
a esta raça. Como a Biologia Molecu-
lar (através do Projeto Genoma Hu-
mano) soterrou o conceito biológico
de raça, a sua utilização só se justifica
20 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Há muito trabalho pela frente, para quem não quer que cotas
sejam outorgadas de cima para baixo, sem discussão
na comunidade acadêmica brasileira.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 21
devido ao seu conteúdo social. As ra-
ças são conceitos socialmente cons-
truídos e se reproduzem no cotidiano
da vida brasileira (e na cubana e esta-
dunidense).
Na recente virada da conjuntura
brasileira, particularmente na campa-
nha eleitoral para Presidente da Re-
pública e após a eleição de Lula Pre-
sidente, abriram-se novas perspectivas
para o combate à discriminação racial.
Na campanha do segundo turno,
tanto Lula quanto José Serra se posi-
cionaram a favor de cotas nas univer-
sidades para negros (entre o aluna-
do). Isso coloca as ações afirmativas
não só na cena política, mas também
enquanto proposta de governo. Abriu-
se com o novo governo um período
de muita esperança, seja quanto à
possibilidade de criação de empregos
e riqueza, quanto no sentido de me-
lhor distribuir esta riqueza e as opor-
tunidades, particularmente para ne-
gros e índios.
No entanto, a herança a ser en-
frentada é pesada:
a) 350 anos de escravismo;
b) enorme preconceito contra ne-
gros;
c) não reconhecimento deste pre-
conceito (a ideologia dominante, in-
clusive entre nossos colegas universi-
tários, é a que não existe racismo no
Brasil, que há democracia racial - dis-
tribuição de renda e oportunidades
iguais entre negros e brancos, ideolo-
gia do branqueamento do Brasil via
mestiçagem de brancos e negros em
convivência harmoniosa);
d) invisibilidade dos negros: os veí-
culos de comunicação não veiculam a
imagem dos negros e quando o fazem
é, muitas vezes, no sentido pejorativo;
no Sul do Brasil, que possui porcenta-
gem de população negra parecida com
a dos EUA, teima-se em negar a pre-
sença negra (Leite, 1996).
Na atual situação, como devem se
posicionar as forças progressistas? Co-
mo articular a luta contra as desigual-
dades sociais de classe com a luta
contra o racismo? Com toda a humil-
dade, esta é uma questão complexa e
não respondida completamente no
âmbito acadêmico, e mais ainda na
esquerda brasileira, particularmente a
de tradição marxista (diga-se de pas-
sagem majoritariamente branca).
Tentaremos, dentro de nossa per-
cepção, contribuir para este debate do
ponto de vista teórico e dentro da rea-
lidade brasileira, com ajuda dos casos
cubano e estadunidense. A posição
emitida neste artigo, ressalte-se, está
impregnada de posicionamento políti-
co e militante, não se limitando a uma
postura rigorosa e acadêmica. Acredi-
tamos que pesquisas em profundidade
devam ser empreendidas para tornar
mais fundamentada esta posição.
Do ponto de vista teórico, é possí-
vel entender que o sistema capitalista
tende a gerar desigualdade, ao trans-
ferir riquezas de uma classe explorada
a uma classe exploradora, em termos
gerais. Neste sentido, é necessário ha-
ver uma pressão política organizada
de toda a classe explorada, seja para
reformar o ensino, saúde, habitação,
como parece a atual etapa brasileira
(para que haja expansão e melhoria
do ensino público e gratuito, uma
política habitacional distributiva, a uni-
versalização e gratuidade da saúde e
uma política de emprego inclusiva e
igualitária, entre outras medidas), seja
para revolucionar as prioridades, nu-
ma perspectiva socialista, como no ca-
so cubano e chinês.
No entanto, a questão racial deve
ter um tratamento diferenciado. Por-
quê? A discriminação racial gera desi-
gualdade na distribuição de renda e
oportunidades sociais! (no Brasil, em
Cuba e nos EUA). Além disso, é causa
de desunião entre os trabalhadores,
ao jogar brancos contra negros e criar
uma super-exploração dos negros.
Trataremos mais à frente das formas
pelas quais essa desigualdade racial
se materializa e destrói o mito da de-
mocracia racial no Brasil (curiosamen-
te, ele também foi gerado na Cuba
pré-revolucionária).
Portanto, estamos diante de duas
fontes de desigualdades: a exploração
capitalista e a discriminação racial. Tor-
na-se imperativo, para quem tem uma
postura socialista, abolir estes dois ge-
radores de desigualdades. Não existe
socialismo democrático ou libertário
sem a abolição da exploração capitalista
E DAS DESIGUALDADES RACIAIS. Mais
adiante, analisaremos os dados que te-
mos sobre a experiência cubana, den-
tro deste ponto de vista.
No entanto, as desigualdades ra-
ciais a que nos referimos têm relativa
autonomia, em relação à exploração
de classe. Elas se iniciaram antes de o
capitalismo industrial se estruturar,
através de relações escravistas em que
os senhores de escravos e capatazes
(brancos) se apropriavam da riqueza e
os escravos (negros) eram brutalmen-
te espoliados. O curioso é que o ad-
vento do capitalismo industrial, essa
relação assimétrica, que envolvia ri-
queza e cor/raça, se espalhou para to-
das as classes sociais. Em outras pala-
vras, não é somente o negro pobre
quem sofre perseguição policial, ma-
us-tratos em lojas, discriminação no
trabalho e na escola e xingamentos
gratuitos. Hélio Santos, em seu recen-
te livro, enumera vários casos em que
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Não existe socialismo democrático ou libertário sem a abolição
da exploração capitalista E DAS DESIGUALDADES RACIAIS.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE22 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
negros, em melhor situação social,
são submetidos a tratamento humi-
lhante (Santos, 2001:139-148). Por-
tanto, o racismo começou contra os
negros pobres e, com o tempo, se es-
palhou para negros em todas as clas-
ses sociais. Desde a humilhação im-
pingida pela polícia, que fez o ex-pre-
sidente do Suriname ter que se deitar
no solo para ser revistado até o estra-
nhamento que professores universitá-
rios negros, colegas nossos, experi-
mentam com seus alunos, todos sen-
tem o efeito da discriminação. Como o
racismo, é uma ideologia insidiosa, ele
perpassa todas as instituições da so-
ciedade e impregna todas as pessoas.
A tarefa do combate a ele deve, por-
tanto, envolver a todos. Não se deve
esperar, como no caso do machismo
em relação às mulheres (que também
gera desigualdades sexuais), que o
mero advento de uma sociedade sem
classes, num passe de mágica, elimine
essa ideologia que funciona como
agente gerador de desigualdades.
Uma hipótese interessante sugeri-
da pela leitura do livro de Hélio San-
tos, onde a frase lapidar “a pobreza
tem cor” resume muito da relação
entre discriminação racial e explora-
ção capitalista, vem da combinação
perversa entre racismo e capitalismo,
em nosso amado Brasil. O Brasil, co-
mo país capitalista, gera necessaria-
mente concentração de renda. No
entanto, porque o Brasil, uma das 15
economias mais ricas do mundo, tem
uma das piores concentrações de
renda desse mesmo mundo?
Uma hipótese a ser investigada é a
existência de um profundo racismo,
conjugado ao fato de metade da po-
pulação ser negra. O capitalismo já
gera um nível de desigualdade, mas o
racismo, incidindo sobre a metade
negra da população brasileira, apro-
funda o fosso abissal entre os mais
ricos (predominantemente brancos) e
os muito pobres (majoritariamente
negros). Obviamente, esta é somente
uma hipótese que requer comprova-
ção empírica para sua verificação. A
comparação com outros países e a
adoção de políticas públicas tanto uni-
versalistas (insensíveis à cor) quanto
de ações afirmativas (de discrimina-
ção positiva dos negros) podem dar
algumas pistas sobre essa questão.
Voltando ao nosso veio principal:
porque podemos afirmar que há desi-
gualdades raciais no Brasil? Por que
podemos dizer que o negro pobre
tem menor salário que o branco po-
bre, que sua escolaridade média é
menor, que suas condições de habita-
ção são piores, que seu atendimento
hospitalar é pior etc.
Até a década de 1950, era muito
difundida a idéia de que o Brasil apre-
sentava uma convivência harmônica
de raças, que a miscigenação não era
vista de forma negativa. Foi até envia-
da uma missão da ONU ao Brasil para
conhecer a experiência brasileira de
mistura de raças (cadinho de mistura),
já que os EUA, a África do Sul e outros
países tinham experiências de intole-
rância e segregacionismo. Qual não
foi a surpresa dos enviados da ONU,
ao perceber uma forma particular de
racismo, caracterizada pelo racismo
cordial (Turra e Venturi, 1998). Estu-
dos de Roger Bastide (1959), Flores-
tan Fernandes (1959), Thales de Aze-
vedo (1951), entre outros, contribuí-
ram decisivamente para desmascarar
o mito da democracia racial.
Além disso, mais recentemente,
tem-se analisado estatisticamente a
distribuição de riqueza, habitação, es-
colaridade, trabalho infantil do ponto
de vista racial. O estudo do IPEA “De-
sigualdades Raciais no Brasil”, de au-
toria de Ricardo Henriques (disponível
na página www.ipea.gov.br, 2002), e o
boletim do DIEESE “Desigualdade Ra-
cial no mercado de trabalho” (nov/-
2002) mostram que:
a) empregados negros ganham
menos do que os brancos, até 50%
menos (dependendo da região do
Brasil);
b) negros são mais desemprega-
dos do que brancos, em várias regiões
metropolitanas do país;
c) negros têm consistentemente
2,2 anos a menos de escolaridade mé-
dia do que os brancos, desde 1929;
d) há mais crianças negras do que
brancas trabalhando;
e) a indigência é 70% negra em-
bora os negros sejam 45% da popula-
ção;
f) as mulheres negras têm ainda
maior desemprego e menor renda
que os homens negros;
g) a mortalidade infantil tem caído
mais para brancos que para negros;
h) a analfabetismo é maior entre
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Todos sentem o efeito da discriminação. Como o racismo,
é uma ideologia insidiosa, ele perpassa todas as instituições
da sociedade e impregna todas as pessoas
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 23
negros que brancos, quadro que se
mantém, apesar da diminuição do
analfabetismo em ambos os grupos;
i) a esgoto e a água tratada vão
menos a lares negros do que a de
brancos.
Tá bom, ou queres mais?
Uma pesquisa recente, nas univer-
sidades federais da Bahia, Brasília, Pa-
raná e Maranhão, mostra que consis-
tentemente os negros têm bem me-
nos assentos universitários que a pro-
porção da população que represen-
tam (Queiroz, 2002).
A juventude destes estudos mostra
como desconhecemos nossa realida-
de racial, deformada pelo mito da de-
mocracia racial, que achava que não
havia discriminação nem desigualda-
de racial no Brasil.
No entanto, não devemos cair na
armadilha de tentar opor negros a
brancos. Acreditamos que, embora or-
ganismos internacionais como, por
exemplo, a Fundação Ford, contribu-
am para a visibilidade da situação do
negro no Brasil, muitas vezes, pode
ser passada a mensagem de que os
negros melhorarão se lutarem contra
os brancos e não em conjunto com
eles, por uma ordem social mais justa.
Como ficaria a situação do negro
numa sociedade socialista, originária
de uma sociedade capitalista, com
preconceito e desigualdade racial? Pa-
ra além de um exercício de futurolo-
gia, há dados sobre a única revolução
socialista vitoriosa na América Latina,
Cuba. Particularmente, há alguns da-
dos preliminares sobre a situação do
negro, em Cuba.
Dados do governo cubano e esta-
dunidense indicam que, por exemplo,
em Cuba, a mortalidade infantil dos
negros é menor que nos EUA e que a
porcentagem de médicos negros em
relação à população total de negros é
bem maior. Assim, em Cuba, um ne-
gro tem 4 vezes menos chance de se
tornar médico que um branco, en-
quanto que, nos EUA, ele tem 50 ve-
zes menos! Visite a página www. afro-
cubaweb.com , que contém este e ou-
tros dados. Esta página se localiza nos
EUA e se dedica à discussão e divulga-
ção da cultura negra de Cuba, respei-
tando os avanços conquistados pelos
negros na revolução socialista na Ilha.
Em poucas palavras, temos indica-
ções que ações afirmativas, em um
país capitalista rico, são menos efici-
entes do ponto de vista da igualdade
entre negros e brancos do que uma
revolução socialista, em uma ilha blo-
queada internacionalmente.
Daí a necessidade de uma trans-
formação radical das prioridades so-
ciais e não somente da construção de
ações de discriminação positiva, em
relação aos negros. E, nesta luta, a
unidade entre trabalhadores negros e
brancos é essencial. Portanto, ações
afirmativas devem ser conduzidas pe-
lo convencimento dos brancos e não
por um ambiente revanchista. Outra
estratégia a ser evitada é baixar por
decreto (executivo ou legislativo), sem
uma discussão, medidas de ações afir-
mativas. Numa sociedade racista co-
mo a brasileira, isso certamente será
interpretado como “racismo às aves-
sas”, embora seja somente reparação.
Classe, etnia e gênero parecem ser
determinantes relativamente indepen-
dentes de desigualdades, e devem ser
combatidos em paralelo. Políticas afir-
mativas são complementares a políti-
cas universalistas de melhoria de
saúde, educação, habitação etc.
Um bom exemplo disto parece ser
Cuba.
Com histórico de segregação física
de espaços sociais semelhante ao dos
EUA, conjugado a uma miscigenação
grande (1/3 negros, 1/3 mulatos e
1/3 brancos, conforme o CIA FACT-
BOOK e o governo cubano) e com
uma imagem de democracia racial
(pré-revolução de 1959), obteve enor-
mes avanços na inclusão de negros,
exemplificados no número de médi-
cos, mas reconhece grandes limita-
ções na participação dos negros nos
altos escalões de poder, na distribui-
ção de bens e, pasme-se, no alunado
do ensino superior. Isso indica que
uma revolução social radical desaco-
plada de uma abordagem racial, man-
tém o negro em situação de inferiori-
dade em relação ao branco.
Mas quem diz isso é a Fundação
Ford, a CIA ou os cubanos anti-castris-
tas? Não. Estas informações foram ex-
traídas de discursos do Presidente Fi-
del e do Vice-Presidente Raul Castro
(veja-se novamente a página www.
afrocubaweb.com ) .
1) A questão da raça teve especial
atenção de Fidel nos anais do Quinto
Congresso do Partido Comunista Cu-
bano (outubro/97): “no presente, pre-
cisamos consolidar uma política justa
de promoção de negros e mulheres,
especialmente como quadros, da
mesma forma que vem ocorrendo
com os jovens, mas não sendo mecâ-
nicos. Esta é a política que garante a
autoridade moral do Partido perante o
povo. O Partido tem que insistir na
aplicação desta política em todas as
esferas da sociedade”.
2) Discurso de Fidel na igreja Ri-
verside, Harlem, NY (08/09/2000):
“Não estou clamando que nosso país
seja um modelo perfeito de igualdade
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
A unidade entre trabalhadores negros e brancos é essencial.
Portanto, ações afirmativas devem ser conduzidas pelo
convencimento dos brancos e não por um ambiente revanchista.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE24 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
e justiça. Acreditamos no começo que,
quando estabelecemos a maior igual-
dade perante a lei e completa intole-
rância com demonstrações de discri-
minação sexual contra a mulher e de
discriminação racial contra minorias
étnicas, estes fenômenos desaparece-
riam de nossa sociedade. Foi há al-
gum tempo atrás que descobrimos
que a marginalidade e a discrimina-
ção racial relacionada a ela não são al-
go que a gente se desfaz com uma lei
ou mesmo dez leis, e não consegui-
mos eliminá-las completamente, mes-
mo em 40 anos. Nunca houve nem
nunca haverá um caso em que a lei é
aplicada de acordo com critérios étni-
cos. No entanto, descobrimos que os
descendentes de escravos são os que
vivem em bairros outrora de escravos.
São os mais pobres e continuam a vi-
ver, mesmo após a suposta abolição
da escravatura, nas piores casas. Há
bairros marginais; há centenas de mi-
lhares de pessoas que vivem em bair-
ros marginais, e não só pretos e gente
de raça misturada, mas também bran-
cos. Há brancos marginais, também, e
tudo isto herdamos do sistema social
anterior. Eu disse que nosso país está
em seu caminho para uma nova era.
Eu espero algum dia poder dizer a vo-
cês as coisas que estamos fazendo
hoje e como continuaremos a fazê-las.
Nós não temos dinheiro para construir
casas para todo o povo que vive em
condições marginais. Mas temos vá-
rias outras idéias que não vão esperar
até o fim dos tempos e que nosso
justo, unido e amado povo implemen-
tará para livrar-se dos menores vestí-
gios de marginalidade e discrimina-
ção. Tenho fé que teremos sucesso
porque é o caminho dos líderes de
nossa juventude, nossos estudantes e
nosso povo. Não direi mais, estou
simplesmente dizendo que estamos a
par da existência da marginalidade
em nosso país. Mas existe a vontade
de erradicá-la com os métodos apro-
priados para esta tarefa, para trazer
mais unidade e igualdade para a nos-
sa sociedade (aplausos).”
3) Discurso pronunciado por Fidel
no Congresso de Pedagogia (5/2/99):
“O Presidente cubano Fidel Castro
afirmou hoje que, depois de 40 anos
de Revolução, ainda existem em Cuba
traços de discriminação herdados da
etapa escravista, os quais podem ser
percebidos no ingresso de jovens pa-
ra cursar estudos universitários... Pon-
tuou que a escravidão deixou a reali-
dade de uma grave pobreza, a qual
obstaculizou o desenvolvimento deste
setor de nossa população, que vivia
nas piores casas, sem possibilidades
de acesso à escola e com salários mi-
seráveis... Pensamos que decretar a
igualdade de direito absoluto tinha
sido suficiente para remover essas se-
qüelas. Hoje se observa que os seto-
res mais pobres são ainda aqueles
descendentes de escravos.” Conforme
Agencia Latino-americana de Noticias
Prensa Latina, S.A. (PL).
Ainda no discurso de 5/2/99:
“Ainda se observa que os setores mais
pobres dentro de uma sociedade so-
cialista são ainda aqueles descenden-
tes dos escravos”, e adicionou: “Que
difícil é uma revolução, que difícil é
mudar uma sociedade!”.
4) Discurso de Raúl Castro no 7º
Congresso da Federação das Mulheres
de Cuba (3/00): Ele declarou-se insa-
tisfeito com os resultados dos esforços
para promover mulheres, negros e
mulatos cubanos a posições de lide-
rança no governo e no Partido. Ele dis-
se que antes da revolução, ele e ou-
tros líderes revolucionários foram edu-
cados nos valores ideológicos do Par-
tido Comunista daquela época, mes-
mo no movimento clandestino, e que
fizeram esforços para incluir na hierar-
quia do Partido a diversidade étnica
do povo cubano. Ele clarificou as pes-
soas que não se deve eleger simples-
mente na base do gênero ou etnia, se
os candidatos não estiverem devida-
mente treinados, e que este processo
deve ser gerenciado e controlado, e
que a lista de líderes de reserva para o
governo e o Partido precisam ser revi-
sadas, de forma a preparar e treinar
estas pessoas para tarefas de direção.
Alguns países europeus abordaram a
questão de igualdade de gênero atra-
vés de legislação e cotas, mas este sis-
tema não resolve este tipo de proble-
ma. Ele enfatizou que precisamos
abrir nossas mentes para esta
questão e notou que esta é uma
das tarefas político-ideológicas
para o Partido Comunista Cubano,
numa ocasião em que tarefas ad-
ministrativas estão sendo minucio-
samente reavaliadas. (Copyright
GRANMA INTERNATIONAL DIGITAL EDI-
TION. La Havana. Cuba. Reprodução
total ou parcial dos artigos nesta página
são autorizadas, desde que a fonte de
direitos autorais seja mantida).
Estes discursos, já que temos aces-
so a poucas estatísticas cubanas, nos
devem alertar que, se tratarmos desde
já as questões de gênero e étnicas,
uma revolução social futura poderá
atacar mais amplamente a questão da
igualdade e da discriminação. Note-se
que estes discursos foram realizados
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
nos últimos 6 anos, demonstrando re-
cente preocupação da cúpula revolu-
cionária cubana com este tipo de
questão.
Obviamente, consulta a estatísticas
oficiais de Cuba são imprescindíveis
para se formar um quadro atualizado
e fidedigno da questão étnica na Ilha,
mas estes dados preliminares indicam
a direção, aquela que sem ações repa-
ratórias do passado escravocrata que
combatam a discriminação subjacente
e a herança escravista, não será possí-
vel uma sociedade igualitária.
Por coincidência, cerca de 80% dos
cubanos exilados nos EUA são descen-
dentes de espanhóis, e foram expro-
priados pela revolução cubana. Hoje,
eles representam na Flórida, ao lado de
Jeb Bush (irmão de George W. Bush), a
linha de frente contra ações afirmativas
naquele estado.
Aliás, as ações afirmativas como ad-
missão universitária com pontuação
para critério étnico vêm sendo consis-
tentemente atacadas pelos governos
neoliberais estadunidenses. Ronald Rea-
gan, o primeiro deles, iniciou seu gover-
no acabando com a prática de negar
isenção de impostos a escolas privadas
que discriminassem minorias (Boxill,
1992). Indicou seguidamente membros
à Suprema Corte, seguido por Bush pai
e filho, de forma que a maioria atual do
mais alto tribunal americano (que ele-
geu Bush filho) reinterpreta todas as
leis sensíveis à cor contra as ações afir-
mativas, sem formalmente revogar ne-
nhuma lei. Estas leis, lembre-se, foram
conquistadas a partir das lutas do mo-
vimento negro em 1950 contra a se-
gregação e os direitos civis. No que diz
respeito à Universidade, inicialmente,
foram estabelecidas cotas, mas, após o
caso Bakke (1978), as cotas foram
transformadas em metas de porcenta-
gem de minorias étnicas e de gênero
acopladas à pontuação étnica extra aos
candidatos ao Ensino Superior.
Portanto, a linha de frente contra
as ações afirmativas nos EUA é forma-
da pelos neoliberais e os defensores
destas ações são os negros e os de-
mocratas. No entanto, as ações afir-
mativas não foram suficientes para ga-
rantir igualdade sobre o capitalismo
americano, pois 62% dos presos são
negros, apontando para a necessida-
de de outras políticas sociais e supera-
ção do padrão capitalista, no país ma-
is rico do mundo.
Curiosamente no Brasil, o governo
com maior tonalidade neoliberal, o de
FHC, promoveu ações afirmativas em
alguns ministérios através de cotas em
serviços terceirizados e chamou a
atenção para a questão racial. Mas,
cabe perguntar, de onde veio esta
preocupação étnica do Presidente Fer-
nando Henrique, que chegou a indicar
uma negra para fazer parte do Con-
selho Nacional de Educação?
Em 20 de novembro de 1995, dia
de Zumbi, houve uma marcha de 40
mil pessoas em Brasília, convocada
pelos movimentos negros. Foi entre-
gue um documento contendo as rei-
vindicações destes movimentos. Uma
pequena parte delas foi adotada pelo
governo. Portanto, longe de se tratar
de uma dádiva dos governos do Pre-
sidente Fernando Henrique à questão
do racismo e das desigualdades raci-
ais no Brasil, trata-se de conquistas
dos movimentos negros.
No novo governo Lula, o ANDES-
SN deve apontar para políticas sociais
(educação, saúde, emprego, moradia)
voltadas à melhoria real da situação
do povo em paralelo com ações afir-
mativas com vistas à igualdade entre
negros e brancos, em todas as regiões
do país, na medida em que, ao invés
de contraditórias, são medidas com-
plementares rumo a uma verdadeira
democracia em nossa terra.
Medidas como cotas para negros
(tanto para alunos como para profes-
sores) no Ensino Superior Público e
Privado, embora ainda careçam de de-
bate maior, apontam para um contra-
ponto com o racismo cordial.
Esse tipo de política afirmativa não
deve ser entendido como uma medi-
da contra brancos, mas como medida
transitória e paliativa, enquanto durar
o racismo brasileiro, que gera conse-
qüências econômicas e sociais. Cabe
um processo de esclarecimento dos
brancos sobre a desigualdade racial
reinante no Brasil e, a partir daí, cons-
truir uma Universidade mais igualitária
racialmente.
Este tipo de medida deve vir
acompanhado de políticas sociais de
peso, como aumento de vagas em
Universidades Públicas, assistência es-
tudantil com bolsas de manutenção,
alojamento gratuito, melhoria do En-
sino Fundamental e Médio, melhor
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 25UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Se tratarmos desde já as questões de gênero e étnicas,
uma revolução social futura poderá atacar mais amplamente
a questão da igualdade e da discriminação.
atendimento de saúde, financiamento
habitacional e criação de empregos,
entre outros.
A ausência de políticas afirmativas
e a ocorrência de políticas cegas à cor
com forte conteúdo social podem vir a
melhorar a situação do negro no Bra-
sil, mas mantê-lo-á numa situação in-
ferior (como vimos, ao discutir o caso
cubano). Por outro lado, a mera ado-
ção de ações afirmativas, sem investi-
mento com forte prioridade social,
tende a aumentar a classe média ne-
gra, nada contra, mas continuará mar-
ginalizando a maioria da população
negra (como vimos brevemente nos
dados sobre os EUA).
Além disso, do ponto de vista da
imagem, é fundamental o aumento
da presença negra na propaganda e
na televisão, com conotação positiva.
O negro vem sendo historicamente
desvalorizado nos meios de comuni-
cação e isso contribui para sua baixa
auto-estima e estreitamento de seu
mercado de trabalho. Num país de
quase metade de negros, pedir que
25% dos personagens das novelas e
40% daqueles das propagandas se-
jam negros parece mais do que justo
(segundo proposta do agora Senador
Paulo Paim).
A implantação de ações afirmati-
vas aparece como imperiosa. No en-
tanto, aparecem novas questões.
a) são necessárias cotas para ne-
gros e índios nas Universidades (alu-
nos e professores)?
b) como fica a questão do mérito
na admissão universitária num siste-
ma de cotas para negros e índios na
Universidade (tanto para alunos como
para professores)?
c) como distinguir um negro dum
não-negro (em qualquer tipo de ação
afirmativa)?
d) a ação afirmativa é inconstitu-
cional?
e) por que demorou tanto tempo
no Brasil para entrar em discussão
ações afirmativas?
Inicialmente, notamos que até bem
pouco tempo não existia um sistema
de aquisição de dados sobre a etnicida-
de do povo brasileiro, além do Censo
(mesmo assim, o Censo de 1970 não
teve o item cor). No SUS, ele começou
a ser implementado recentemente,
algumas Universidades começaram a
fazer seu levantamento e recentemen-
te foi realizado um censo étnico na ad-
ministração pública federal.
O desinteresse social e político so-
bre a questão étnica e a invisibilidade
do negro são históricos no Brasil. Em
várias capitais se escuta dizer que não
há negros. Curiosamente, os EUA, que
têm 12% de sua população formada
de negros, tratam com mais respeito a
presença negra que o nosso país. O
ANDES-SN tem que envidar esforços
no sentido de tornar visível o que nos-
so país tem tentado invisibilizar há
tanto tempo: a presença do negro.
Por exemplo, cabe realizar siste-
maticamente um levantamento étnico
dos candidatos à Universidade, os alu-
nos de graduação e pós-graduação
para olharmos para dentro de nós
mesmos. O critério inicial deve ser o
do IBGE (branco, preto, pardo, indíge-
na e amarelo), mas devemos avançar
na classificação. Estudos mostram que
ela não informa totalmente sobre a
etnicidade do pesquisado (“A cor de-
nominada”, José Petrucelli, 1998) e
caberia um diálogo maior entre o
IBGE, os estudiosos da questão étnica
e os movimentos negros para a defini-
ção de uma forma de classificação
mais democrática e útil e menos im-
positiva.
Por outro lado, alguns levantamen-
tos sobre presença negra na Univer-
sidade foram realizados e apontam
para uma presença muito menor do
que na população em geral. Este seria
um argumento favorável a cotas ra-
ciais.
No entanto, cotas raciais não são a
única forma de aumentar a presença
negra no Ensino Superior. As cotas ra-
ciais nas Universidades dos EUA, fruto
da luta do movimento negro por direi-
tos civis (cujo mártir, Martin Luther
King, tem um feriado nacional reco-
nhecido - terceira segunda-feira de ja-
neiro, aqui Zumbi só agora tem um
dia que sequer é feriado nacional),
caíram em 1978. O famoso Caso Bak-
ke (Gomes,2001) levou a julgá-las in-
constitucionais lá nos EUA (não signi-
fica que o sejam no Brasil). No entan-
to, no parecer aprovado, critérios étni-
cos poderiam ser considerados para
admissão. Foi então que a etnicidade
passou a contar mais pontos para os
candidatos e várias Universidades co-
meçaram a ter metas étnicas, compa-
tíveis com as comunidades abrangi-
26 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
O ANDES-SN tem que envidar esforços no sentido de tornar
visível o que nosso país tem tentado invisibilizar
há tanto tempo: a presença do negro.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 27
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
das. Esta é uma opção para nós no
Brasil.
Mas, muitos colegas nossos, e até
o editorial da Folha de São Paulo, le-
vantam: e o mérito, como fica?
Esta é uma questão muito comple-
xa para responder no espaço deste ar-
tigo, mas alguns argumentos podem
ser levantados. Primeiro, o mérito de
um nadador frente a uma pessoa
equipada com um barco a motor não
pode ser corretamente aferido numa
travessia de um rio. O negro enfrenta
muito mais barreiras em média que
um branco. Somente 3% da popula-
ção negra chega ao fim do Ensino Mé-
dio, enquanto que no caso do branco
são 13%.
Em segundo lugar, o critério de en-
trada na Universidade não precisa ser
necessariamente a avaliação por pro-
vas (vestibular ou outra forma), mas a
Sociedade e a própria Universidade
(em sua autônoma decisão) também
pode achar necessária a diversidade
étnica, na medida em que formará ci-
dadãos menos racistas e lideranças
negras que, pela simples presença,
ajudarão a combater a baixa auto-esti-
ma de muitos negros e o estereótipo
do negro como inferior intelectual-
mente. Além disso, o cidadão negro
com diploma tem maior possibilidade
de ser juiz, deputado, empresário,
liderança social, o que eventualmente
pode fazer a Sociedade mais sensível
às reivindicações dos movimentos
negros. Curiosamente, quando se le-
vanta a necessidade de cotas raciais, o
que sempre se coloca é que os negros
a se beneficiarem delas devem ter
atingido o nível mínimo exigido pela
Universidade. Por exemplo, Delcele
Queiroz, em recente estudo (Desi-
gualdades raciais no Ensino Superior,
ainda não publicado, 2002), mostrou
que muitos negros têm nota superior
à mínima exigida pela Universidade
Federal da Bahia para nela ingressar e
que poderiam preencher qualificada-
mente essas reservas de vagas.
Um dos riscos apontados nas cotas
é a entrada de alunos que poderão
não permanecer até o fim do curso na
Universidade, por questão de forma-
ção. Neste caso, torna-se necessário
também a constituição de um sistema
de apoio pedagógico ao estudante
(mesmo atualmente, vários alunos
não completam o curso pelo mesmo
motivo). Este risco será minimizado se
os negros, a entrarem nas cotas, fo-
rem os de melhores notas. Outra ob-
jeção a este argumento é que assim
só entrarão filhos da classe média ne-
gra. Esta é outra questão complexa.
Por um lado, se filhos da classe média
branca entram, porque os da classe
média negra não? Por outro lado, há
militantes e acadêmicos negros que
acham que se deva acoplar um crité-
rio-sócio econômico ao critério racial.
Isto aumenta o risco de estudantes
negros com menos possibilidade de
formatura, mas deve ser considerado
nas discussões.
Talvez um dos itens mais contro-
versos seja separar negros de não-
negros para efeitos de ações afirmati-
vas, discriminadoras positivamente.
Este questionamento mostra bem a
hipocrisia da nossa sociedade. Para
discriminar negativamente a socieda-
de brasileira parece bastante eficiente.
No entanto, na hora de repara a co-
munidade negra, discriminando-a po-
sitivamente, a coisa fica difícil. Muitas
pessoas ironizam dizendo que a polí-
cia sabe muito bem distinguir negros
de não-negros. No entanto, é preciso
trazer para um patamar mais objetivo
a questão. O primeiro passo, quase to-
dos concordam que é a autodeclara-
ção. No entanto, alguns argumentam
que pessoas podem trapacear. Há al-
ternativas a serem consideradas: co-
missões universitárias para averiguar a
etnicidade conforme questionário pre-
enchido por pessoas autodeclaradas
negras, mas que a Universidade colo-
que em dúvida. De qualquer forma, é
necessário esclarecer aos candidatos
que falsidade ideológica é crime e tal-
vez fosse conveniente estabelecer
proibição de acesso ao ensino supe-
rior publico àquele que a cometesse,
no caso de falsidade ideológica étnica.
Há, no entanto, bastante campo para
discussão nesta questão.
Vários colegas e alunos, muitas ve-
zes, levantam que ações afirmativas
afrontam a igualdade das pessoas pe-
rante a lei. A igualdade formal perante
a lei é um preceito liberal, conquista-
do durante a Revolução Francesa. No
entanto, ela, muitas vezes, não se con-
substancia racialmente, como no caso
brasileiro, cubano, estadunidense e
O cidadão negro com diploma tem maior possibilidade
de ser juiz, deputado, empresário, liderança social, o que
eventualmente pode fazer a Sociedade mais sensível
às reivindicações dos movimentos negros.
em muitos outros casos. Torna-se im-
portante a intervenção do Estado para
ajudar a garantir a IGUALDADE REAL
de oportunidades. Deixar os indivídu-
os, com passado diferenciado, a com-
petir em “igualdade” de condições le-
va à prevalência dos mais ricos e po-
derosos (Gomes,2001). Não é à toa
que são os neoLIBERAIS os que mais
lutam pelo fim das ações afirmativas
nos EUA!
Além disso, nossa constituição
(1988), em seu artigo 37, inciso VIII,
estabelece reserva de mercado de tra-
balho para deficientes físicos. Puxa,
nunca se viu ninguém reclamando
contra essa reserva de vagas, mas é só
falar em reserva de vagas para negros
que aparece o maior berreiro. Por que
será? Os idosos também têm sua ação
afirmativa: o passe do ônibus. Nin-
guém contra. E os programas de pri-
meiro emprego para os jovens? Ini-
ciativa louvável. Lembram da cota pa-
ra mulheres em partidos políticos? To-
dos a favor. Já cotas para negros?
Hum! Curioso...
Talvez uma das razões dessa rea-
ção seja que a Universidade é o local
de formação dos quadros do poder.
Como deixar os negros adentrarem a
ela? Afinal, saber é poder, dizia um
falecido sociólogo. E negros com o
poder parece uma situação pouco in-
teressante. E porque os brancos po-
dem tê-la? De novo, não se trata de
opor brancos a negros, mas sim de
justiça, de repartir irmamente o poder
já que metade da população é negra
e metade é branca. Além disso, há
que se considerar os amarelos e indí-
genas...
Mas se ações afirmativas são tão ne-
cessárias, porque demoraram mais de
100 anos, após a abolição para serem
reivindicadas? Talvez uma das respos-
tas é que o racismo anglo-saxão (nos
EUA e África do Sul) seja segregacio-
nista e destile o ódio racial, gerando
maior reação. Já o racismo cordial bra-
sileiro parece bastante mais dissimu-
lador, levando inclusive muitos negros
a discriminar irmãos de cor ou se au-
todesvalorizarem. Este é outro papel
das ações afirmativas, ao aumentar a
possibilidade de produção de mode-
los sociais de sucesso (Sell, 2002:28).
Negro também pode ser bom no que
faz, sem ser cantor de pagode ou jo-
gador de futebol...
Finalizando, é urgente uma atitude
positiva quanto à discriminação racial
no nosso país, apoiando ações afirma-
tivas, cotas para negros no Ensino Su-
perior, ampliação da assistência estu-
dantil, ao mesmo tempo em que se
dê a ampliação e melhoria do Ensino
Superior, Médio e Fundamental , sem
prejuízo de outras políticas sociais.
Uma série de medidas de valorização
da cultura negra, revisão curricular e
formação anti-racista dos professores
na Universidade não foram abordadas
neste artigo, mas fazem parte de um
longo elenco de ações afirmativas que
a sociedade brasileira já está até de-
morando muito em adotar.
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Sell, Sandro. Ação afirmativa e democra-
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2002.
Prof. Dr. Marcelo Henrique Romano
Tragtenberg é Prof. do Depto de Fisica da
UFSC desde 1982 Graduado, Mestrado e
Doutorado em Física pela Universidade de
São Paulo, tem Pós-Doutorado no Departa-
mento de Física Teórica da Universidade de
Oxford, Inglaterra. Pesquisa na área de Me-
cânica Estatística e Fluidos Complexos. É
membro dos Grupos de Trabalho de Etnia,
Gênero e Classe da Associação dos Profes-
sores da UFSC e do ANDES-SN. Telefones:
universidade (48) 331-6836 ramal 4234;
Casa (48) 232-1251; Celular (48) 9903-
3143. Endereço do domicílio: Rua João de
Barro, 217 - Lagoa da Conceição - Florianó-
polis- SC - 88. 062-157
Email: Marcelo@fisica.ufsc.br
28 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
A Universidade é o local de formação dos quadros do poder.
Como deixar os negros adentrarem a ela? Afinal, saber é poder,
dizia um falecido sociólogo. E negros com o poder parece uma
situação pouco interessante. E porque os brancos podem tê-la?
Apresentação
Políticas de discriminação positiva
têm sido aplicadas em países
democráticos, que abrem exceções
para proteger e beneficiar parte de
seus cidadãos. Podemos encontrar
exemplos dessa discriminação positi-
va na garantia de vagas em universi-
dades públicas para setores excluídos
economica e socialmente, garantia de
participação feminina nas represen-
tações parlamentares, cotas para
inserção de pessoas portadoras de
deficiência física no mercado de
trabalho, e tantas outras iniciativas
governamentais ou não, mas todas
com o objetivo de proporcionar às
populações discriminadas negativa-
mente igualdade de oportunidades e
participação social.
Neste artigo, apresentamos uma
contribuição para o debate teórico so-
bre a formulação e implementação de
políticas afirmativas em favor dos cida-
dãos negros no Brasil, com a intenção
de colocarmos mais uma viga na pon-
te que pretendemos que una as lutas
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 29
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Rosângela Rosa Praxedes*
Walter Lúcio de Alencar Praxedes**
Quando a questão do racismo no Brasil começar a sair dos
livros, artigos, dissertações e teses de pesquisadores, quando
deixar de ser problema do negro para se tornar preocupação
de todas as forças e instituições do país, quando sairmos da
fase do belo discurso e das boas intenções sem ações corres-
pondentes, poderemos dizer então que entramos na verdadeira
fase de engajamento para transformar a sociedade; estaremos
saindo do pesadelo para entrar num sonho, e do sonho para
entrar numa verdadeira esperança.
Kabengele Munanga (1996: 219)
Ações afirmativas e cotas
do ângulo do
marxismo
30 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
específicas de alguns segmentos po-
pulacionais que têm a sua cidadania
negada em nosso país, com as cor-
rentes intelectuais e políticas que ad-
vogam o compromisso com as estraté-
gias políticas derivadas da leitura da
obra de Marx e seus continuadores.
I- Introdução: Marx e os problemas
educacionais do seu tempo
Um pensador como Marx, que tinha
uma concepção de conjunto sobre a
história humana e sobre o modo de
produção capitalista, não pode ser dis-
sociado do militante político que tinha
como incumbência a formulação de
propostas viáveis para os problemas
do momento e que comporiam, por
exemplo, as bandeiras de luta da As-
sociação Internacional dos Trabalha-
dores, do qual foi um dos fundadores
e militantes mais destacados. Ao dis-
cutirmos os posicionamentos políticos
e as propostas de Marx a respeito das
medidas educacionais adequadas à
sua época, temos que levar em consi-
deração, portanto, que o autor estava
preocupado com os problemas mais
imediatos, e que exigiam que fossem
colocados em prática alguns “indis-
pensáveis antídotos contra as tendên-
cias de um sistema social que degrada
o operário a mero instrumento para a
cumulação de capital, e que transfor-
ma pais, devida às suas necessidades,
em proprietários de escravos, vende-
dores dos seus próprios filhos” (MARX
e ENGELS, 1983: 83).
As propostas educacionais de Marx
evidenciam as nuanças de um pensa-
mento que mantinha como horizonte
a transformação revolucionária da so-
ciedade, sem, contudo, abster-se dian-
te dos desafios colocados pela prática
política e pelas particularidades da
conjuntura política em questão. Como
consta já no Manifesto do Partido Co-
munista, de 1848, redigido em parcei-
ra com Engels, Marx defendia a imple-
mentação de uma “educação pública
gratuita de todas as crianças”. Com a
eliminação do trabalho infantil, na for-
ma como este era então explorado pe-
los empresários capitalistas, e a pro-
posição de uma modalidade combina-
da de educação, voltada para a forma-
ção de todas as dimensões humanas,
incluindo a atividade produtiva, a sen-
sibilidade artística, a formação científi-
ca e o cultivo do corpo. Num docu-
mento redigido por Marx com o obje-
tivo de orientar os delegados do Con-
selho Central Provisório que participa-
riam do I Congresso da Associação In-
ternacional do Trabalhadores, que se
realizou em Genebra de 3 a 8 de se-
tembro de 1866, fica claro como o
autor defendia a intervenção dos tra-
balhadores nos debates sobre a legis-
lação educacional, pois, no seu enten-
dimento, esta era a maneira mais efi-
ciente de fazer com que o Estado im-
pusesse leis que limitassem a ganân-
cia dos empresários capitalistas, pois
“...impondo tais leis, a classe ope-
rária não fortifica o poder governa-
mental. Pelo contrário, ela transfor-
ma esse poder, agora usado con-
tra ela, em seu próprio agente. Eles
efetuam por uma medida geral
aquilo que em vão tentariam atin-
gir por uma multidão de esforços
individuais isolados” (MARX e EN-
GELS, 1983: 83).
II - Engels contra o reducionismo
economicista
Alguns estudiosos marxistas tiraram
conclusões apressadas sobre a relação
entre a estrutura econômica da socie-
dade, considerada pelo próprio Marx
como a base real que sustenta as ins-
tituições jurídicas, políticas e as con-
cepções intelectuais, científicas e ideo-
lógicas, atribuindo sempre aos fatores
econômicos o poder de explicar as
causas verdadeiras e últimas dos fenô-
menos sociais, realizando a dedução
mecânica das contingências particula-
res a partir da universalidade do modo
de produção capitalista.
No pensamento de Marx e Engels,
fica claro como os acontecimentos, no
interior de uma sociedade, podem in-
fluenciar uns aos outros, e apenas atra-
vés do estudo deste relacionamento
recíproco é que se pode chegar a um
conhecimento satisfatório sobre a tota-
lidade social. A este respeito, Engels se
manifesta contrário à tendência de re-
duzir o materialismo histórico a uma
forma de conhecimento unilateral que
explica todos os fenômenos sociais co-
mo se estivessem determinados pelos
interesses econômicos, e no final de
sua vida esclareceu em uma carta que:
“...segundo a concepção mate-
rialista da história o momento em
última instância determinante, na
história, é a produção e reprodu-
ção da vida real. Nem Marx, nem
eu alguma vez afirmamos mais. Se
agora alguém torce isso afirmando
que o momento econômico é o
único determinante, transforma
aquela proposição numa frase que
não diz nada, abstrata, absurda. A
situação econômica é a base, mas
os diversos momentos da superes-
trutura - forma políticas da luta de
classes e seus resultados: constitui-
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
No pensamento de Marx e
Engels, fica claro como os
acontecimentos, no interior de
uma sociedade, podem influen-
ciar uns aos outros, e apenas
através do estudo deste
relacionamento recíproco é que
se pode chegar a um
conhecimento satisfatório
sobre a totalidade social. .
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 31
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
ções estabelecidas pela classe vito-
riosa uma vez ganha a batalha,
etc., formas jurídicas, e mesmo os
reflexos de todas estas lutas reais
nos cérebros dos participante, teo-
rias políticas, jurídicas, filosóficas,
visões religiosas e o seu ulterior de-
senvolvimento e em sistemas de
dogmas - exercem também a sua
influência sobre o curso das lutas
históricas e determinam em muitos
casos preponderantemente a for-
ma delas. Há uma ação recíproca
de todos estes momentos, em que,
finalmente, através de todo o con-
junto infinito de casualidades (isto
é, de coisas e eventos cuja conexão
interna é entre eles tão remota ou
é tão indemonstrável que nós a
podemos considerar como não-
existente, a podemos negligen-
ciar), o movimento econômico vem
ao de cima como necessário. Se-
não, a aplicação da teoria a um
qualquer período da história ser
mais fácil do que a resolução de
uma simples equação de primeiro
grau (MARX e ENGELS, 1983: 547).
Ressaltemos, então, como nos ensi-
na Engels na passagem acima, que
“mesmo os reflexos” das lutas reais
nos cérebros dos participantes “exer-
cem também a sua influência sobre o
curso das lutas históricas e determi-
nam em muitos casos preponderante-
mente a forma delas”.
O racismo é uma forma de ideolo-
gia que se desenvolveu no mundo
moderno e ajudou na justificação da
escravidão no novo mundo e as pre-
tensões imperialistas da Europa oci-
dental em todos os continentes. Para
Marx, são as relações de produção es-
cravistas que colocam um ser humano
em uma posição social de subjugação,
de trabalho forçado, de exploração
econômica, de opressão e violência
material e simbólica. As representa-
ções desenvolvidas nas formas de
consciência social, com base na maté-
ria prima dessa situação de opressão,
levaram ao desenvolvimento de uma
ideologia racista que chegou até os
nossos dias. Usamos o termo ideologia
como sinônimo de “ilusão necessária”,
ou seja, como uma visão distorcida das
relações sociais, mas que nascem da
própria dinâmica das relações sociais,
na convivência entre indivíduos, clas-
ses sociais, grupos étnicos e raciais, e
encobre a reprodução da hierarquia
econômica, entre proprietários e não
proprietários; da hierarquia social, en-
tre burgueses, camadas médias e tra-
balhadores braçais; da hierarquia polí-
tica, entre governantes e governados; e
da hierarquia racial, entre brancos e
negros, presente nas formas de hierar-
quia citadas anteriormente, através de
formas de seleção pretensamente de-
mocráticas, mas que negam, na práti-
ca, a possibilidade de ascensão social
para os negros no Brasil.
Do ângulo do marxismo, portanto,
as relações raciais podem ser conside-
radas como modalidades particulares
de relações sociais, e não podem ser
devidamente entendidas se forem
apenas analisadas isoladamente, fora
da totalidade social que compõem,
influenciando os demais fatores da so-
ciedade e, ao mesmo tempo, sendo
por eles influenciadas. A universalida-
de do gênero humano não é negada
quando reconhecemos a existência de
uma diversidade cultural em combina-
ção com as particularidades das rela-
ções interétnicas e raciais.
Considerar apenas que o racismo se
deve à condição sócio-econômica dos
discriminados, em razão de os mes-
mos comporem uma classe economi-
camente explorada é realizar um redu-
cionismo que limita a percepção do
real. Embora, por um lado, seja incon-
cebível negar a existência de uma hie-
rarquia gerada pela divisão do traba-
lho, baseada na propriedade ou não
dos meios de produção, por outro la-
do, temos que reconhecer que existe
também uma hierarquia racial que é
baseada no preconceito e na discrimi-
nação dos negros, o que dificulta a
atuação dos mesmos no mercado de
compra e venda de força de trabalho,
obstaculizando a sua inserção sócio-
econômica na sociedade capitalista.
Em outras palavras, a relevância do
conceito de classe e a sua importân-
cia para entendermos a dinâmica das
relações sociais na sociedade brasilei-
ra contemporânea não podem levar à
subestimação da existência de uma
classificação racial baseada no pre-
conceito de cor, ou de marca, para
usarmos a clássica definição de Oracy
Nogueira.
III - A reprodução da desigualdade
entre classes e entre raças
Os grupos humanos, deliberada-
mente ou não, sempre desenvolveram
formas de preparar os seus membros
para o trabalho, educando-os para a
realização de determinadas atividades
produtivas e sobre a maneira como
devem se relacionar com os outros
membros da coletividade. No pensa-
mento marxiano, a educação pode ser
considerada como uma superestrutura
social que guarda uma correspondên-
cia com o estágio de desenvolvimento
das forças produtivas e da divisão so-
Existe também uma hierarquia
racial que é baseada no pre-
conceito e na discriminação dos
negros, o que dificulta a atua-
ção dos mesmos no mercado
de compra e venda de força de
trabalho, obstaculizando a sua
inserção sócio-econômica na
sociedade capitalista.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE32 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
cial do trabalho.
Na sociedade capitalista, a manu-
tenção de uma diferença social básica
entre, de um lado, os proprietários dos
meios de produção e, de outro, um
grande número de despossuídos, que
para sobreviver necessitam vender a
sua força de trabalho para os primei-
ros, garante a reprodução contínua de
um estrutura social estratificada. Esta
diferença econômica básica coloca em
oposição os assalariados e os capitalis-
tas, gerando, socialmente, a diferença
entre as classes proletária e burguesa.
Os trabalhadores reproduzem a sua
força de trabalho, gerando, alimentan-
do e educando filhos que ocuparão os
seus lugares no futuro. O crescimento
econômico, como explica Lefèbvre,
pressupõe a reprodução ampliada tan-
to da maquinaria (capital fixo), quanto
da força de trabalho (capital variável
que assume a forma de salários). A
educação torna-se, assim, uma forma
de preparar as novas gerações de pro-
prietários e de não-proprietários para
as posições que irão ocupar na hierar-
quia do processo de produção. A este
respeito Henri Lefèbvre recorda que a
crítica pedagógica francesa evidenciou
que na “escola de massas”, onde ocor-
re a instrução primária,
“os métodos, os locais, a arru-
mação do espaço, reduzem o alu-
no à passividade, habituando-o a
trabalhar sem prazer... O espaço
pedagógico é repressivo, mas esta
estrutura tem um significado mais
vasto do que a repressão local: o
saber imposto, engolido pelos alu-
nos, vomitados nos exames, cor-
responde à divisão do trabalho na
sociedade burguesa, serve-lhe,
portanto, de suporte... A escola pre-
para proletários e a universidade
prepara dirigentes, tecnocratas e
gestores da produção capitalista.
Sucedem-se as gerações assim for-
madas, substituindo-se uma pelas
outras na sociedade dividida em
classes e hierarquizada... A escola
e a universidade propagam o co-
nhecimento e formam as gerações
jovens segundo padrões que con-
vêm tanto ao patronato como à
paternidade e ao patrimônio. Há
disfunções quando o saber crítico
inerente a todo o conhecimento dá
origem a revoltados. Às funções
maciças da escola e do liceu so-
brepõe-se a função elitista da uni-
versidade, que filtra os candidatos,
desencoraja ou afasta os que se
desviam, permite o establisch-
ment” (LEFEBVRE, 1984: 226).
A concepção segundo a qual a es-
cola é um local de democratização do
saber encobre a contradição funda-
mental da sociedade capitalista, es-
condendo que a escola classista é ma-
is um dos espaços destinados à repro-
dução da hierarquia econômica, entre
proprietários e não proprietários; da
hierarquia social, entre burgueses e
proletários; e da hierarquia política, en-
tre governantes e governados; o que
pode ser ilustrado pela freqüência co-
mo os indivíduos que ocupam as posi-
ções atribuídas aos profissionais com
maior tempo de escolarização provêm
das classes e camadas sociais que tive-
ram as mesmas oportunidades educa-
cionais em épocas anteriores.
No Brasil, esse processo de repro-
dução da desigualdade entre as clas-
ses é concomitante a um processo de
reprodução da desigualdade entre as
raças. Para levarmos em consideração
apenas as taxas de analfabetismo en-
tre os brasileiros, comparando-se os
dados da Pesquisa Nacional de Amos-
tra de Domicílios do IBGE (PNAD) de
1992 e 1999, “as taxas de analfabetis-
mo tiveram redução em todos os gru-
pos de cor, mas entre negros e pardos
ainda são quase três vezes maiores do
que entre brancos... Em 1992, 10,6%
dos brancos eram analfabetos, 28,7%
dos pretos (nomenclatura oficial do
IBGE) e 25,2% dos pardos. Em 1999,
8,3% dos brancos, 21% dos pretos e
19,6% dos pardos eram analfabetos”
(Folha de São Paulo, 5/04/2001).
Caso as políticas públicas do setor
de educação e a ação educativa no in-
terior de escolas e universidades não
levem em consideração esta situação
de desigualdade quanto à escolariza-
ção existente entre as famílias de ne-
gros e não-negros, continuarão a con-
tribuir para a reprodução da situação
que condena a maior parcela dos jo-
vens negros à evasão escolar, à margi-
nalização ou à realização das mesmas
atividades profissionais menos qualifi-
cadas e remuneradas dos seus pais.
IV - Ideologia do mérito e cotas
Atualmente, nas universidades bra-
sileiras, os argumentos meritocráticos
são os mais utilizados contra a imple-
mentação de uma política de cotas. O
que fundamenta a ideologia merito-
crática é a idéia segundo a qual todos
aqueles que se empenham e que são
competentes acabam aproveitando as
oportunidades que surgem em suas
vidas. Transformando as dificuldades
em desafios, o portador do mérito ven-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 33
ce a competição pelas posições mais
vantajosas no sistema sócio-econômi-
co. Esse é o sonho que anima as cha-
madas classes médias a uma emula-
ção sem limites, a um esforço sobre-
humano, em busca da ascensão social.
Uma pergunta simples atesta a falsi-
dade da ideologia meritocrática: todos
aqueles que possuem o mérito alcan-
çam as posições hierárquicas que dese-
jam? Um interlocutor meritocrático po-
deria objetar: quem não consegue a
posição desejada é porque não possui
realmente o mérito. Operando desta
maneira, como ideologia, o mérito ser-
ve para responsabilizar o próprio indiví-
duo pela sua posição na hierarquia so-
cial, culpando-o por um fracasso que só
é produzido porque a estrutura social é
hierarquizada. A ideologia do mérito
encobre a existência de mecanismos
discriminatórios, irracionais e, muitas
vezes, inconscientes, que dificultam o
acesso às oportunidades de ascensão
social para os cidadãos negros.
O que fica escondido por essa ideo-
logia do esforço individual é o fato de
que, com pouca ou nenhuma oportu-
nidade, um cidadão negro dificilmente
desenvolve o mérito que permite a as-
censão social. É exatamente para aten-
der às demandas de tal segmento da
população brasileira que está sendo
proposta a implementação de uma
política de ação imediata, cotas, por
exemplo, que incentive o seu ingresso
no ensino superior, com um adequado
acompanhamento pedagógico duran-
te o curso. Enquanto não pudermos
acabar com todas as formas de hierar-
quia que tornam explosivas as rela-
ções sociais, é recomendável, ao me-
nos, que um cidadão não seja impedi-
do de ocupar determinadas posições
sociais em virtude de sua origem étni-
ca ou racial. Através do mecanismo
emergencial das cotas, espera-se que
o acesso ao ensino superior torne pos-
sível que muitos negros desenvolvam
as suas potencialidades. Os efeitos
desta mudança sobre a condição de vi-
da da população negra só podem ser
benéficos. Já sobre o imaginário racis-
ta da maioria da população brasileira é
imprevisível.
Conclusão
Do ângulo do marxismo, em nosso
entendimento, para pensarmos as re-
lações raciais em nosso país deve-se
partir “dos próprios indivíduos vivos re-
ais” para entendermos que dos seus
relacionamentos sociais nascem “fan-
tasmagorias” nos seus cérebros, como
é o caso da ideologia racista, uma for-
ma de consciência que brota do trata-
mento desigual destinado àqueles
com quem se convive e que são consi-
derados como pertencentes a uma ra-
ça à qual são colados atributos negati-
vos. Não devemos, assim, realizar uma
análise das relações entre os huma-
nos, partindo de uma concepção de
humanidade que temos em mente,
mas das relações reais entre os seres
humanos, suas formas de cooperação
e de conflito, para entendermos como
os mesmos são representados ideolo-
gicamente. Então, através da práxis so-
bre as relações reais, poderemos criar
uma nova situação.
As cotas para alunos negros nas
universidades públicas, por exemplo,
podem compor um conjunto de medi-
das práticas, efetivas e imediatas que
apontem para o fim das desigualdades
raciais na sociedade brasileira. As polí-
ticas públicas em favor do igualitaris-
mo social e econômico, que visam a
atender a todos os excluídos de forma
universalista, não podem servir mais
para dissimular a irresponsabilidade
em relação ao combate às formas de
discriminação que não se fundam só
no econômico e nas diferenças de
classe, como é o caso da discriminação
contra mulheres, homossexuais, defi-
cientes físicos, índios e negros.
Referências Bibliográficas
MARX, Karl. Para a crítica da economia
política. In: Coleção Os Pensadores. São
Paulo, Abril Cultural, 1978.
______. Teses contra Feuerbach. In:
Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril
Cultural, 1978.
______. O Capital: crítica da economia
política. São Paulo, Abril Cultural, 1984. Vol. 1
- Tomo 2.
MARX e ENGELS. Obras escolhidas. Tomo
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MUNANGA, Kabengele. “As facetas de um
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QUEIROZ, Renato da S. (orgs). Raça e diversi-
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LEFEBVRE, H. “Estrutura social: a reprodu-
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MARTINS, Op. cit., pp. 219-252. In: FORACCHI,
M.M. e MARTINS, J.S. - (Orgs.) - Sociologia e
Sociedade. São Paulo, Livros Técnicos e Cien-
tíficos, 1975.
(*) Rosângela Rosa Praxedes é Bacharel
em Ciências Sociais pela USP e coordena-
dora do Curso Preparatório Milton Santos
da Associação União e Consciência Negra
de Maringá - Paraná. E-mail: rosangela-
praxedes@bol.com.br
(**) Walter Lúcio de Alencar Praxedes é
Doutor em Educação pela USP e professor
de sociologia na Universidade Estadual de
Maringá e Faculdades Nobel. É co-autor
dos livros O Mercosul e a sociedade global
(12ª Ed. 2002) e Dom Hélder Câmara:
entre o poder e a profecia (1997).
E-mail: walterpraxedes@uol.com.br
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
As cotas para alunos negros
nas universidades públicas,
por exemplo, podem compor
um conjunto de medidas
práticas, efetivas e imediatas
que apontem para o fim das
desigualdades raciais na
sociedade brasileira.
34 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Introdução
No contexto da globalização da eco-
nomia, as profundas transformações
introduzidas nos sistemas produtivos,
nas últimas décadas, a microeletrôni-
ca, automação, robótica, telemática e
a reestruturação produtiva, têm pro-
duzido um forte impacto, com altera-
ções substantivas, não apenas no que
diz respeito à criação de sistemas em
grande escala, mas também na trans-
formação de contextos locais, cultu-
rais, modificando as relações sociais e
as formas de regulação do trabalho.
Ultrapassando uma visão estrita-
mente econômica desse processo,
Giddens (1993; 1996) identifica a ra-
pidez do “efeito à distância” como o
elemento inovador que caracteriza a
crescente interdependência existente
entre a vida individual e as opções fu-
turas em escala mundial. Por isso, o
cenário do cotidiano é privilegiado à
medida que apresenta situações con-
cretas temporais dentro do espaço de
trabalho. Isso porque tempo e espaço,
categorias fundamentais na formação
das subjetividades dos atores sociais e
na formação e diferenciação de iden-
tidades e culturas, atravessam, desde
há algumas décadas, transformações
radicais, em velocidade crescente, cu-
jos efeitos se fazem sentir claramente
entre os habitantes das sociedades de
massa. A compressão do tempo-espa-
ço tende a progredir e pode ser enten-
dida como algo a que indivíduos e
grupos se expõem em intensidade di-
ferente, a depender de sua situação
no espaço e no tempo (Harvey,
1989:26).
Além dos desenvolvimentos no
campo da comunicação, transporte e
informática, pontos centrais para todo
o processo de mudança comparecem
com grande peso explicativo: a) a
grande velocidade, rotação e circula-
ção de capital variável e fixo em esca-
la planetária, que contribui sensivel-
mente para incrementar a atmosfera
de “volatilidades” contemporâneas; b)
as mudanças nas ideologias de admi-
nistração da força de trabalho com a
passagem do fordismo para a acumu-
lação flexível, que se beneficia das
vantagens da aniquilação do espaço
global através do tempo. Pode-se ca-
racterizar esse novo padrão de acu-
mulação do capital pelo impacto de
tecnologias sobre o sistema de merca-
do em escala mundial, baseado no
avanço das telecomunicações e impli-
cando políticas de desregulamentação
(abertura de fronteiras nacionais) que
permitem, desta forma, o livre comér-
cio dos capitais.
No setor de serviços financeiros
bancários, o aumento da velocidade
dos sistemas e equipamentos impôs
diferentes tempos que são vividos
dentro de um mesmo espaço, dentro
de uma mesma jornada de trabalho.
Pode-se afirmar, inclusive, que a con-
dição típica do trabalho bancário auto-
matizado está nessa vivência com
diferentes dimensões do tempo ope-
rando com o corpo imóvel, quando
tem que acompanhar um sistema au-
tomatizado e informatizado que reali-
za, de forma rápida, sistemática e se-
qüenciada, funções sem necessidade
de nenhuma intervenção. Delineia-se
uma nova tipologia com algumas no-
vas características que apresentam di-
Maria Helena Santana Cruz *
Reestruturação produtiva,
reprodução e gênero
no setor financeiro
ficuldades para sua análise.
Nos bancos, os gestos do trabalho
executados para a realização da tarefa
nem sempre são observáveis. Da mes-
ma forma, as condições ruins do traba-
lho não podem ser facilmente mensu-
ráveis nem mais perceptíveis. A reali-
dade vivida há tempos pelo trabalha-
dor dos serviços é da falta de materiali-
dade do produto de seu trabalho. De
improdutivo, impinge-se a condição de
um trabalho virtual e, agora, invisível.
Desde que o trabalho nos serviços foi
classificado como improdutivo, não se
faz senão consentir com essa condição.
Contudo, os serviços financeiros bancá-
rios são classificados como serviços
produtivos, já que sua função clássica
no capitalismo é intermediar recursos
financeiros (captação e aplicação) en-
tre produtores independentes.
O setor financeiro ganha significa-
ção em nível mundial, na medida em
que montantes de capital superiores
às necessidades da indústria e do co-
mércio são diariamente negociadas
nos principais mercados cambiais do
mundo, criando o que alguns denomi-
nam de “economia simbólica”, referin-
do-se à redução da importância eco-
nômica da existência concreta de bens
e de serviços (Eboli 1995: 288). Ao
mesmo tempo em que adquire maior
relevância econômica em todo o
mundo, o setor bancário depara com
problemas de forte competição, de-
corrência em grande parte, do proces-
so de desregulamentação que permi-
te a empresas não bancárias opera-
rem no mercado de capitais, retirando
dos bancos o monopólio das opera-
ções de crédito.
Tradicionalmente, os bancos ope-
ravam em termos de especialização
de atividades, organizando-se interna-
mente de forma polarizada (ativida-
des de produção - que tendiam a ser
organizadas de forma taylorizada) - e
atividades comerciais - de intermedia-
ção e de gestão financeira. Havia
igualmente, uma definição limitada e
estável de produtos (pagamentos,
empréstimos e investimentos), o que
obrigava os bancos a atenderem a
mercados segmentados, atuando de
forma complementar entre si, (bancos
comerciais, de depósitos de investi-
mentos, caixas econômicas). As estru-
turas de funcionamento correspon-
diam à organização por agências; a
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 35UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
qualificação era adquirida, especial-
mente, por “experiência”; o mercado
interno de trabalho estruturava-se de
forma fechada, orientando-se por um
modelo rigidamente hierárquico, com
mobilidade reduzida e utilizando co-
mo critério de promoção o tempo de
serviço. Tais características alteraram-
se em meados dos anos 1970; diversi-
ficou-se a natureza dos produtos (in-
terna e externamente à atividade ban-
cária); os bancos passaram a operar
em termos de bancos múltiplos e
através de redes de agências). Com o
crescimento das trocas internacionais
e dos investimentos estrangeiros, veri-
ficou-se a internacionalização das ati-
vidades bancárias. Cresceu a concor-
rência, induzindo a transformações na
organização do trabalho.
A automação bancária, com base
na microeletrônica, difundiu-se por
todo o sistema financeiro mundial,
transformando-se num elemento de-
cisivo em termos de estratégia meto-
dológica para os bancos. No Brasil, o
setor bancário, ainda pouco estudado,
passou por uma experiência de trans-
formação radical nas duas últimas dé-
cadas, em decorrência, não só do ex-
tenso processo de informatização,
mas também de mudanças estruturais
no setor - que afetaram a natureza
dos produtos, dos mercados e da or-
ganização de atividades internas - re-
sultando em mudanças significativas
nas condições de trabalho , constituin-
do-o em caso ilustrativo das implica-
ções sociais da automação e da reor-
ganização do trabalho. Em decorrên-
cia de uma conjuntura econômica fa-
vorável para tanto, os bancos no Brasil
passaram a prestar, principalmente,
“serviços especulativos”. Isso porque,
ao mesmo tempo que se verificou
uma estagnação no crédito, a inflação
elevada e as altas taxas de juros ga-
rantiram significativos índices de ren-
tabilidade. Desta forma, obtiveram um
desempenho, em termos de rentabili-
dade, acima do setor agrícola e indus-
trial no país.
O sistema financeiro bancário bra-
sileiro representa uma ilha setorial de
modernidade, considerando que se
insere em um país caracterizado por
um déficit em diferentes áreas que se
inter-relacionam: o analfabetismo e a
subnutrição constituem graves proble-
mas sociais. De acordo com o IBGE,
19 milhões de brasileiros, com mais
de 10 anos de idade são analfabetos e
53 milhões de brasileiros são conside-
rados subnutridos. Entre outras carên-
cias, destaca-se a defasagem tecnoló-
gica em quase todos os setores da
economia, sobretudo no setor indus-
trial brasileiro.
O sistema financeiro constitui hoje
um setor de economia brasileira que
mais se modernizou tecnologicamen-
te, pressionando também o desenvol-
vimento da indústria nacional da in-
formática, no final dos anos 1970 e
década de 1980, tanto na criação de
demandas de equipamentos e siste-
mas, como na viabilização do financia-
mento desse desenvolvimento. Isso
porque o contexto econômico, carac-
terizado por índices inflacionários ele-
vados e déficit público financiado por
meio das operações financeiras com
altas taxas de juros (over night), justi-
ficou os investimentos realizados pelo
próprio setor financeiro em informáti-
ca (Segnini,1995). Os registros rápi-
dos e seguros passaram a ser funda-
mentais em termos de lucratividade.
Na América Latina, o Brasil se des-
taca como o país que possui o mais
moderno e complexo sistema financei-
ro, com 234 bancos, 16.485 agências e
cerca de 9.229 postos de atendimento
adicionais e um total de 497.109 em-
pregados (Febraban 1996). A atividade
bancária brasileira tem se caracteriza-
do pela alta lucratividade, o que, até
recentemente, foi favorecido pelo lon-
go período em que vigoraram os altos
índices de inflação. No auge da infla-
ção, ao final da década de 1980, o se-
tor financeiro chegou a representar
14% do PIB brasileiro; em 1995, sua
participação caiu para cerca de 8%;
por outro lado, os ganhos com a infla-
ção que chegaram a representar um
terço da receita dos bancos, hoje não
chegam a 1%.
Em conseqüência da alta lucrativi-
dade, verificaram-se altos investimen-
tos em equipamentos e programas de
informática e telecomunicações (US$
3,8 bilhões, em 1993; mais de US$ 4,1
bilhões em 1994), com extensa difu-
são no uso de informatização, tornan-
do os bancos brasileiros próximos à
situação dos países altamente indus-
trializados; inclusive, 90% das agên-
cias bancárias já se encontram conec-
tadas on line e 72% em real time; A
partir de 1995, os investimentos nessa
área sofreram reduções (cerca de US$
1 bilhão em 1995 e de US$ 1,5 bilhão
em 1996 (Febraban, 1994;1996).
A área de auto-atendimento apre-
senta hoje elevado índice de cresci-
mento. Em termos gerais, no país, no
curto período de dois anos, entre
1994-1996, houve um crescimento de
mais de 100% na disponibilidade de
equipamentos de auto-atendimento,
36 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
O sistema financeiro bancário brasileiro representa
uma ilha setorial de modernidade, considerando que
se insere em um país caracterizado por um déficit em
diferentes áreas que se inter-relacionam: o analfabetismo e a
subnutrição constituem graves problemas sociais.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 37
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
nas agências e fora delas, passando
de 25,395 equipamentos no interior
das agências e 6.069 fora das agên-
cias, em 1994, para 57.879 e 10.158,
respectivamente, ocupando grandes
espaços na estrutura das organizações
financeiras. Cresce a lotação de em-
pregados em mesas e plataformas pa-
ra atendimento remoto (fora das
agências) de forma centralizada, via
telefone e terminais eletrônicos Tal es-
trutura tende a tornar-se terceirizada.
Essas transformações sinalizam no
sentido de crescente informatização
das atividades bancárias. Ademais, as
agências tendem a tornar-se pontos
de negócios, de tamanho menor, já
que as transações cotidianas tenderi-
am a ocorrer fora das agências.
Propósito do estudo
Este texto procura refletir sobre as
relações entre trabalho, qualificação
no setor de serviços financeiros, como
uma tentativa de “olhar” essa invisibi-
lidade, seja dos gestos ou das condi-
ções de trabalho, tendo em vista res-
saltar os impactos das inovações tec-
nológicas e organizacionais, os pro-
cessos de fragmentação e reconstru-
ção de identidade.
Considerou-se o caso de uma ca-
tegoria de trabalhadores determinada
que parece transitar de uma situação
moderna para uma pós-moderna: são
os bancários, trabalhadores especiali-
zados do setor de serviços financeiros,
sob o impacto de mudanças promovi-
das pelo avanço acelerado das trans-
formações tecnológicas, que alteram
o cotidiano, a subjetividade e identi-
dade desses trabalhadores. A inova-
ção é analisada pelo efeito sobre os
trabalhadores, recuperando sua expe-
riência concreta, pelo modo parado-
xal como eles estão vivendo os con-
frontos e a transição, entre os proces-
sos de trabalho “tradicional” e “mo-
derno”, pela visão dicotômica que se-
para as “antigas” e as “novas” formas
de organização do trabalho. Sobretu-
do, o recorte de gênero, visa captar as
formas como as mulheres identificam
e mobilizam, no trabalho, os conheci-
mentos/saberes formais e informais
adquiridos em suas trajetórias, em
distintos espaços de socialização.
É sabido que reestruturação produ-
tiva, junto às concepções neoliberais,
introduzem um novo padrão de flexi-
bilidade nas relações de trabalho, atra-
vés principalmente do recurso ao tra-
balho feminino. Assim, é necessário
examinar as características sexuadas
da flexibilidade e suas conseqüências,
tanto no plano do mercado de traba-
lho e do emprego, implicando o au-
mento da precarização social e da pre-
carização do trabalho, no plano da or-
ganização e das condições de trabalho.
A incorporação da dimensão de
gênero nos estudos sobre a reestrutu-
ração e o novo paradigma propiciam
uma análise de suas supostas poten-
cialidades virtuosas. Nesse sentido, as
análises empíricas trazem descobertas
importantes quanto aos limites e pos-
sibilidades de modernização no traba-
lho bancário; descobre as especifici-
dades das diferentes formas de incor-
poração das atividades femininas, as
oportunidades disponíveis para as
mulheres em cada mercado, bem co-
mo as estratégias utilizadas na articu-
lação entre responsabilidades familia-
res e profissionais, por parte de quem
vivencia tais experiências (Abreu,
1993; Hirata, 1994).
Sob a perspectiva educacional, os
conceitos de trabalho e qualificação
foram ampliados, integrando-se os
processos que ocorrem nas esferas
pública/privada, produtiva e reprodu-
tiva, inserindo-se as categorias teóri-
cas patriarcado e gênero na análise
das relações sociais que se estabele-
cem entre o capital x trabalho. Assim,
a formação do trabalhador e, em es-
pecial, da trabalhadora, engloba diver-
sos ângulos da prática produtiva, in-
forma o poder instituído que permeia
todas as esferas do social e integra a
economia do capital, a ideologia do
patriarcado e as formas culturais de
vida que se reproduzem e se contradi-
zem, em suas diferentes dimensões
na sociedade. O ponto essencial é
que, como uma questão de fato, a es-
trutura reprodutiva conjunta constitui
o contexto efetivo da formação da
pessoa. Entretanto, essa estrutura re-
produtiva pode ser desestabilizada.
Sob esse prisma, a cultura patriar-
cal constitui-se em um ponto de refe-
rência para se refletir, no campo edu-
cacional, sobre o caráter histórico e
cultural de construção de identidades
diferenciadas de acordo com o gêne-
ro, com o fito de gerar procedimentos
democráticos de formação de vontade
que, em última instância, produzam
nova racionalidade num mundo da
vida colonizado (Habermas, 1984;
1989; 1990). A matriz teórica construí-
da por Habermas em sua Teoria da
Ação Comunicativa orientou a com-
preensão da abrangência do trabalho
e interação, a integração das esferas
pública e privada (a reprodução mate-
rial e simbólica, sistema e mundo da
vida), no sentido de documentar que
as identidades sociais de trabalhado-
res são dotadas de gênero e modela-
das dialeticamente nas diversas esfe-
ras da participação da mulher.
As identidades sociais de trabalhadores são dotadas
de gênero e modeladas dialeticamente nas diversas
esferas da participação da mulher.
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
38 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
A dimensão educativa/pedagógica
na construção do objeto no plano teó-
rico e prático é captada e mediada
pela condição e consciência de gêne-
ro masculino e feminino, pela existên-
cia de identidades iguais e diferentes,
de exclusão, aceitação, submissão ou
recusa, de expressão de interesses, ex-
pectativas e projetos. Scott (1988)
operacionalizou o conceito de gênero,
explicitando seus componentes e a
maneira de abordá-lo. Da mesma for-
ma, enfatizou o caráter estruturante
do gênero por meio da centralidade
de poder no eixo de disputas de luga-
res sociais privilegiados. Entendido co-
mo um processo de construção social,
o gênero refere-se à forma como cada
cultura trata as diferenças entre os se-
xos, atribuindo a mulheres e homens
determinadas características, concep-
ções que constituem a definição vei-
culada por relações hierárquicas de
poder, desfavoráveis ao gênero femi-
nino.
Na discussão da extensão das
transformações globais, é introduzida
a noção de exclusão, considerando
sua aplicabilidade à análise de modos
de expressão desse fenômeno, diante
das transformações no mundo do tra-
balho, particularmente, à medida em
que afeta a força de trabalho feminina.
A concepção de exclusão constitui
uma ferramenta para se analisar a des-
vantagem social sob transformações
estruturais (inclui elementos, como
comportamentos e instituições); indi-
ca o desemprego aberto e formas de
inclusão no mercado de trabalho que
são excludentes; possibilita examinar a
condição da mulher no mercado de
trabalho durante o processo de rees-
truturação produtiva; acrescenta o
poder analítico de conceitos como po-
breza, desigualdade, marginalização e
segregação, não somente porque des-
creve uma situação, mas também por
analisar um processo dinâmico de
exclusão de gênero.
Não se deve esquecer que a cons-
trução social de identidades em torno
de atributos como o sexo, idade e cor
têm um impacto imenso nas experiên-
cias e opções abertas a grupos social-
mente distintos nos locais de trabalho,
levando a construção de identidades
que servem para diferenciar e excluir
certos segmentos da sociedade (Gore,
1995:32; Posthuma, 1996:15). As con-
tradições, as formas e abrangências da
opressão são distintas para os diferen-
tes gêneros, classes, raças e formas
que tomam a acomodação e a resis-
tência. Desvendar mediações na inter-
secção do individual para a vida em
sociedade, os comportamentos dos in-
divíduos em suas relações sociais, é
compreender que o homem é essen-
cialmente social e histórico e que a
identidade social de um indivíduo só
pode ser compreendida a partir das
práticas sociais, nas quais esse indiví-
duo se insere e das representações
que faz dessas práticas (Lane, 1984:
98). É nos meandros do processo de
socialização - com suas mediações e
contradições - que se constrói a natu-
reza da identidade e intersubjetividade
humana que é a expressão de deter-
minantes sociais, políticos, culturais e
ideológicos.
Assim, ocorre a estruturação de
uma dada classe de sujeito da história,
em substituição à luta de classe, do
marxismo ortodoxo. A noção de clas-
se, na perspectiva crítica habermasiana,
abrange as dimensões interpessoais
das relações sociais, o processo inter-
subjetivo de experiência de sujeitos e
agentes potencialmente organizados
de maneira auto-consciente, que fa-
zem a história. Saffiotti (1969) oferece
uma explicação básica para a tradicio-
nal dominação e a opressão das mu-
lheres e estabelece uma simbiose en-
tre marxismo e patriarcado; ela indica
que a simbiose significa que essas ca-
tegorias se necessitam para se auto-ali-
mentar, aglutinar-se e sobreviver.
O princípio patriarcal tem por base
elementos naturalizantes e funda-
menta-se na condição biológica e na
condição de reprodução da mulher,
para justificar as diferenças com base
na valorização do poder do homem,
no poder da classe. O domínio mas-
culino sobre as mulheres que perpas-
sa através dos séculos nas sociedades,
é responsável pela dominação/sub-
missão feminina caracterizada basica-
mente por papéis na família e na so-
ciedade. Connell (1990) adverte que
o patriarcado não pode ser analisado
como um domínio ideológico que se-
ja o locus da reprodução das relações
sociais de classe. Existe uma estrutu-
ra patriarcal da produção, uma estru-
turação de classe da cultura - as duas
são coordenadas, não complementa-
res, e estão entrelaçadas. Sua dinâmi-
ca interage, elas ajudam a estabilizar e
a desestabilizar uma à outra; seus
efeitos na vida de qualquer pessoa re-
al estão condensados. As diferenças
de classe são “co-existensivas” às dife-
renças de gênero (Hirata e Kergoat,
1994).
A articulação da relação gênero e
trabalho feminino é balizada por ex-
plicações. A primeira das explicações
reside no campo econômico em que
agem fatores de oferta e de demanda,
Existe uma estrutura patriarcal da produção,
uma estruturação de classe da cultura - as duas são
coordenadas, não complementares, e estão entrelaçadas.
segundo os quais as mulheres apare-
cem como força de reserva para o ca-
pital ou como ocupantes de empre-
gos relativamente menos qualificados
e que pagam salários mais baixos. A
segunda explicação reside no campo
institucional/cultural em que a família
patriarcal ocupa um lugar importante,
no âmbito da separação entre as esfe-
ras da produção e reprodução. Am-
bas as explicações aparecem como
complementares, uma vez que nem a
análise econômica, nem a análise ins-
titucional/cultural, isoladamente, apre-
sentam uma explicação satisfatória pa-
ra a questão.
As mulheres, embora em graus va-
riados, experimentam formas duplas
de dominação, tanto em casa quanto
em locais de trabalho. Assim, a domi-
nação não é unicamente inspirada ou
esgotada pela lógica da opressão de
classe. Ao adquirir visibilidade, con-
quistar direitos, as mulheres avançam
no processo de ruptura com a condi-
ção de dominação, na produção de
uma cultura em que prevaleçam seus
interesses de classe e gênero, que
atuam tanto na produção quanto na
reprodução nas distintas esferas. A ex-
pressão desse processo, acompanha a
preocupação desse estudo.
Operacionalização da pesquisa e
alguns resultados
Dado o caráter exploratório deste
estudo, o “estudo de caso organiza-
cional”, em dois bancos estatais: um
federal e outro estadual de Sergipe,
apresentou-se como mais adequado,
mas apoiando-se também em dados
mais gerais sobre o setor. Foi utilizada
uma metodologia qualitativa sem des-
considerar os aspectos quantitativos.
O sistema financeiro, por utilizar as
inovações tecnológicas de forma in-
tensiva, exige elevada qualificação dos
trabalhadores e, por essa razão, repre-
senta um locus significativo de pesqui-
sa para a análise das qualificações
sociais requeridas pelas novas formas
de uso da força de trabalho no proces-
so de reestruturação capitalista. Ade-
mais, essas organizações bancárias,
em tese, seriam espaços para as estru-
turações de relações sociais democrá-
ticas. Isso porque utilizam critérios
“universalistas” e racionais em suas
políticas de gestão, adotam o concurso
público para o recrutamento, forma-
ção e progressão de seus funcionários,
o que impede, por determinação legal,
práticas discriminatórias a priori, favo-
recendo a permanência e a carreira de
grupos socialmente subordinados (co-
mo o dos negros e o das mulheres),
possibilitando que as desigualdades e
diferenças de gênero sejam atenuadas
(Castro e Guimarães, 1993).
Diferentes fontes, primárias e se-
cundárias, além de instrumentos va-
riados de coleta de dados expressam
os resultados desta pesquisa. Os con-
tatos informais proporcionaram im-
portantes contribuições, ampliadas
com a realização de 70 entrevistas
“semi-estruturadas” realizadas com
dirigentes, trabalhadoras e trabalha-
dores de diferentes segmentos ocupa-
cionais, isso porque interessava captar
as diferenças encontradas nos discur-
sos, suas visões e representações. As
entrevistas duraram entre uma a duas
horas, consistindo em uma parte não
dirigida e outra focalizada, contudo,
sempre aberta nos tópicos que mais
importavam para a construção do co-
nhecimento. Em alguns casos, tam-
bém se fizeram entrevistas biográficas.
Este trabalho levanta questões
empíricas e temas teóricos importan-
tes, porém preliminares, para o desen-
volvimento de uma investigação acer-
ca da constituição e fragilização no iní-
cio deste novo milênio, da identidade
coletiva de um segmento particular
dos trabalhadores bancários brasilei-
ros. As características desta investiga-
ção permitem algumas reflexões so-
bre um tema tão complexo como o
analisado, a partir da perspectiva do
sistema hierárquico de gênero, no
contexto do novo paradigma produti-
vo, destacando as oportunidades de
igualdade abertas para as mulheres,
no processo de racionalização, organi-
zação e gestão do trabalho, nos ban-
cos estatais em Sergipe.
Considerou-se que a identidade
de gênero se constitui, ao longo de to-
da a vida e em todas as áreas em que
transita uma pessoa. É possível assi-
nalar que o âmbito do trabalho, longe
de ser um espaço neutro, constitui um
processo generalizador. Ou seja, o jo-
go do poder implícito nas relações en-
tre gêneros se concretiza no âmbito
laboral, em sua divisão, que produz e
reproduz a relação de dominação e
subordinação.
Muitos autores analisam os pro-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 39
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
40 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
blemas de gênero no âmbito familiar,
deixando para o trabalho produtivo os
problemas de classe. Aqui se coloca
que a produção e reprodução das hie-
rarquias de gênero se estruturam,
tanto no âmbito doméstico, como no
âmbito do trabalho produtivo. Ado-
tou-se um marco geral para a análise
da coexistência de vários sistemas hie-
rárquicos, geradores de desigualdade
e da multideterminação do comporta-
mento. Estes sistemas hierárquicos
articulam-se entre si de maneira com-
plexa, por exemplo, uma mulher e um
homem trabalhadores bancários com-
partilham a mesma relação de poder
e a mesma posição antagônica no sis-
tema de gênero. Assim, encontram-se
múltiplas articulações entre o sistema
de classe e o de gênero, diferentes
formas em que o capital se serve do
sistema de gênero para aumentar sua
rentabilidade.
No setor financeiro bancário, po-
de-se dizer que todos os setores de
trabalho foram atingidos pela infor-
matização, porém, de maneira dife-
rente quanto “ao espírito e aos resul-
tados”. Os postos de trabalho flexibi-
lizados, que significam maior integra-
ção das funções e maior requalifica-
ção são predominantemente masculi-
nos, como a gerência, assessoria de
negócios, etc. (comissionados). Pare-
ce, então, que a apropriação pelos tra-
balhadores bancários homens da
esfera da tecnologia contribui para
fortalecer a ideologia da masculinida-
de, pois a concepção dos instrumen-
tos de trabalho está controlada por
homens, simplesmente porque essa é
uma das áreas em que as mulheres
estão sempre excluídas, como estão
também, das áreas governamentais
na maioria dos países (Cockburn,
1988). Observa-se que a tecnologia
constitui uma fonte de poder, em que
os homens estabelecem uma posses-
são do poder em outras áreas.
Por outro lado, a mesma socializa-
ção de gênero desenvolve e reforça a
imagem do varão relacionada com os
aspectos tecnológicos (brincar com
carrinhos, armar e desarmar, etc.),
que, entretanto, exclui as meninas de
tais práticas. Por conseguinte, a apro-
priação da inovação tecnológica e o
controle da fabricação de instrumen-
tos e máquinas estão em mãos dos
homens que intervêm de maneira de-
terminante na definição do trabalho
profissional e doméstico que efetuam
as mulheres.
O “lugar” ocupado pelas mulheres
nas organizações financeiras mostra-
se revelador não só das especificida-
des das relações sociais, no contexto
da reestruturação bancária, como das
diferentes possibilidades de uso do
trabalho feminino. No período da pes-
quisa de campo (primeiro semestre
de 2000), os dados obtidos informam
a existência de 1.510 funcionários nas
organizações, entre os quais, 887
(58,7%) homens e 623 (41,3%) mu-
lheres, indicando que elas estão ocu-
pando novos espaços no setor finan-
ceiro, categoria na qual o seu ingresso
não era permitido, antes de 1960. No
Banese (Banco do Estado de Sergipe),
o processo de reestruturação apresen-
ta-se mais favorável à presença de
mulheres que no BB (Banco do Bra-
sil), observando-se maior desequilí-
brio das forças em jogo.
O desenho dos processos de tra-
balho nos bancos marca, implicita-
mente, se é o homem ou a mulher
que vai executar as atividades em ca-
da posto de trabalho. Da mesma for-
ma, o uso do espaço, sem dúvida, está
associado aos processos tecnológicos
e de trabalho, também produzem e
reproduzem relações de poder. Por
suposto, a lógica do capital não está
ausente de tudo isso; pelo contrário,
desempenha um papel muito impor-
tante. Pode-se inferir que a implanta-
ção das inovações tecnológicas, no se-
tor financeiro bancário, não é neutra
quando se analisa o processo de for-
mação da identidade de gênero. Da
mesma forma que com os outros as-
pectos da divisão sexual do trabalho,
o capitalismo é o que obtém a vanta-
gem maior com a reprodução das divi-
sões, deixando a descoberto a com-
plexidade da questão que pode permi-
tir abordagens sob distintos ângulos.
A feminização do trabalho bancário
não parece contribuir de forma signifi-
cativa para ampliar as chances de
oportunidades iguais para as mulheres
no trabalho. No BB, dos seis (0,2%)
gerentes de contas, dois (0,3%) são
mulheres; dos 49 (8,2%) gerentes de
expediente, oito (1,3%) são mulheres.
No Banese, entre os cinco (0,5%) as-
sistentes de negócios, quatro (0,4%)
são mulheres; dos 214 (23,5%) agen-
tes de serviços bancários, 162 (17,8%)
são mulheres e dos 350 (38,4%) cai-
xas, 208 (22,8%) são mulheres. Os
postos de trabalho informatizados são
predominantemente femininos e sub-
metidos a tempos impostos: digitação
(em postos sem comissão) e caixa de
banco. A maioria das mulheres encon-
tra-se em postos de trabalho que
demandam um nível de aprendizagem
e qualificação inferior em relação ao
dos homens; inserem-se, sobretudo,
em tarefas vinculadas à preparação de
dados, nas funções denominadas “de
suporte”, tanto nas agências, como nos
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
A feminização do trabalho bancário não parece
contribuir de forma significativa para ampliar as
chances de oportunidades iguais para as mulheres.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 41
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
departamentos, o que lhes dificulta a
mobilidade no interior da empresa.
As bancárias geralmente concen-
tram-se em níveis hierárquicos inferio-
res, demonstrando a existência do fe-
nômeno da segmentação do trabalho.
A segmentação por gênero observada
nos bancos estatais, em Sergipe, é
também apontada pela OIT1
- Organi-
zação Internacional do Trabalho - a
partir de dados obtidos em pesquisa
realizada no período compreendido
entre 1986/89/90, junto a 19 bancos
multinacionais, com sede em diferen-
tes países da Europa, Ásia, América do
Norte, Central e do Sul.
O fenômeno da segregação/seg-
mentação das ocupações é considera-
do um dos maiores obstáculos para o
progresso das mulheres, no mundo
do trabalho, por significar menor re-
muneração por hora trabalhada, aces-
so restrito a crédito e baixa mobilida-
de ocupacional. A segregação hori-
zontal concentra a mulher em um nú-
mero reduzido e determinado de se-
tores e ocupações, quase sempre su-
balternos, em atividades que exigem
uma maior atenção, concentração, re-
petição, simplificação de tarefas e
pouco status profissional (caixas), em
lugares “femininos” mais adaptados
às suas habilidades naturais. A segre-
gação vertical impede a ascensão da
maioria das bancárias a postos decisó-
rios (superintendência, gerência, su-
pervisão). Apenas três bancárias con-
seguiram se inserir em domínios de
atividades financeiras consideradas
mais masculinas (cargos de comando:
superintendência e gerência, princi-
palmente no banco estadual). Esse fa-
to sinaliza que há possibilidade de su-
peração das barreiras de acesso para
posições que exigem desafio, compe-
titividade e elevada qualificação. Os
trabalhos que são desempenhados
por homens são mais prestigiosos e
mais remunerados.
Tudo indica não existirem fatores
naturais, inerentes ou lógicos que ins-
tituam a divisão sexual do trabalho,
senão que exista uma construção so-
cial de práticas e relações de trabalho
cuja coerência reside na articulação,
muitas vezes, simbólica de vários fato-
res (Souza-Lobo, 1985). Frente à pre-
sença feminina no setor financeiro
bancário, é possível observar que o
capital se serve da segmentação se-
xual da mão-de-obra feminina, utili-
zando elementos do gênero dominan-
te para exercer o poder sobre a subor-
dinação. Ambos os enfoques comple-
mentam-se com o objetivo de ofere-
cer uma visão compreensiva das rela-
ções sociais no trabalho.
Ocorre que a lógica do capital se
serve das relações hierárquicas de gê-
nero e, por sua vez, as reforça, porém
não as cria, já que essas são anterio-
res. Por outro lado, as escalas hierár-
quicas tendem a excluir as mulheres
dos postos de comando, onde os su-
bordinados são homens. Porém, o
mais significativo é que tanto os traba-
lhadores quanto as trabalhadoras não
parecem aceitar as mulheres exercen-
do autoridade. Os homens as depre-
ciam e as mulheres têm uma relação
conflitiva entre elas, preferindo chefes
homens. Elas não percebem que a
manifestação de seus estereótipos
contribui para a reprodução das desi-
gualdades.
As barreiras e discriminações rela-
cionadas fundamentalmente às ima-
gens de gênero estruturadas entre tra-
balhadoras(es) bancários dificultam
uma maior participação e democrati-
zação de mulheres, no setor financei-
ro. Essas imagens (hierarquização e
exclusão) são uma dimensão funda-
mental do processo de constituição
das categorias que vão estruturar a de-
finição dos postos de trabalho e dos
perfis de qualificação e competências
a eles associados (Abramo,1996). Em
todos os casos, a divisão sexual do tra-
balho favorece e afirma a superiorida-
de da masculina. A incorporação de
novas formas de contratação e o sur-
gimento de novas qualificações so-
ciais têm acarretado uma heteroge-
neizaçâo das condições de inserção
dessa força de trabalho. Tudo isso fun-
da a fragilização da identidade coleti-
va anterior, que já não corresponde às
exigências empresariais, e tampouco
permite responder aos desejos, pro-
blemas, necessidades e expectativas
dos trabalhadores.
A mudança no perfil do bancário
em Sergipe evidencia-se, também, pe-
la elevação do nível de escolaridade
da categoria: aumento de bancários
que apresentam crescente ampliação
do nível médio de escolaridade tradi-
cionalmente exigido para o acesso ao
trabalho bancário, para o nível de es-
colaridade superior. Particularmente,
no Banese, as mulheres apresentam-
se em situação mais vantajosa com
relação à escolaridade de nível supe-
rior (16,9%) comparativamente aos
homens (11,8%). Esse fato questiona
a idéia de que os rendimentos das
mulheres são inferiores aos dos ho-
mens porque seu nível de instrução é
menor (Abramo, 1996).
Mesmo com escolaridade elevada,
as bancárias predominantemente
ocupam cargos de menor qualificação
e encontram dificuldade para ampliar
suas oportunidades e ascender a posi-
O mais significativo é que tanto os trabalhadores
quanto as trabalhadoras não parecem
aceitar as mulheres exercendo autoridade.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
ções de maior poder, prestígio e auto-
nomia. Faz-se necessário ampliar os
requisitos de qualificação enquanto
condição essencial à construção de ci-
dadania das mulheres, nas dimensões
política, social, econômica e cultural
(Cruz, 1999). Os bancos manifestam
crescente preocupação em investir na
área de formação e treinamento. Nes-
se esforço, há uma mobilização de
competências não apenas técnicas,
mas sociais e culturais, afastando-se
do profissional exigido no passado.
Nesse sentido, há uma desqualifica-
ção dos funcionários que, embora “ex-
perientes” (em geral os funcionários
mais velhos) apresentam dificuldades
a ajustarem-se às mudanças do pre-
sente, tanto em nível tecnológico,
quanto em termos de desempenho
de funções.
No que se refere aos programas de
formação e treinamento, a tendência
foi no sentido de: a) realização de cur-
sos rápidos, on-the-job, visando tanto
o desenvolvimento de aspectos com-
portamentais - ênfase em comunica-
ção, liderança e tomada de decisão
(espírito de equipe, dedicação, criativi-
dade, idealismo) - quanto aos aspec-
tos técnicos, dirigidos para o conheci-
mento da informática, para a atualiza-
ção de softwares e aplicativos, tendo
em vista aumentar a capacidade do
funcionário de explorar as potenciali-
dades da máquina utilização de “pro-
gramas inteligentes” e simulação de
situações como plataformas de negó-
cios; b) realização de cursos com ma-
temática financeira, crédito e negocia-
ção, leasing, produtos e serviços ban-
cários, e c) realização de cursos exter-
nos destinados, principalmente, a gru-
pos restritos de funcionários.
As novas práticas produtivas estão
alterando os conceitos de qualifica-
ção, passando a exigir trabalhadores
polivalentes que podem antecipar,
planejar e pensar estrategicamente e
desempenhar um leque de atividades
interrelacionadas. De fato, a mudança
nos paradigmas produtivos faz novas
demandas à mão-de-obra preparada
para atuar de acordo com o paradig-
ma taylorista/fordista. Ainda que este
não seja substituído totalmente (e vá-
rios estudos têm apontado para a fun-
cionalidade de sua manutenção no in-
terior de setores e empresas integra-
das e flexíveis), sem dúvida, a reestru-
turação produtiva colocou em questão
o velho modelo de trabalhador espe-
cífico, atuando no posto específico de
trabalho, para o qual tinha sido prepa-
rado através da qualificação formal, ao
colocar uma forte ênfase sobre as for-
mas de organização do trabalho que
tende a apoiar-se menos nos ‘com-
ponentes’ explícitos (da qualificação):
educação escolar, formação técnica,
educação profissional (Hirata, 1994:
132) e mais nos seus “componentes
implícitos e não organizados”.
O novo paradigma da flexibilidade
afirma, assim, a desqualificação do an-
tigo trabalhador para fazer face às no-
vas exigências produtivas. Mas, de ou-
tro lado, descortina as possibilidades
de reqüalificação desencadeadas pe-
las próprias características inovadoras
do paradigma que passam a orientar a
produção e o trabalho e, em boa
parte, os serviços.
No setor financeiro bancário, valo-
rizam-se novos saberes “qualificações
sociais tácitas”, habilidades de comu-
nicação consideradas importantes nas
funções de atendimento ao cliente, na
abertura de contas, nas funções de
caixa, promotora de vendas e outras.
Os padrões de treinamentos institu-
cionais reproduzem as divisões social
e sexual das ocupações, qualificações
e competências. As trabalhadoras são
culpabilizadas por declinarem de indi-
cações para treinamentos em locais
distantes, em favor de colegas ho-
mens devido aos papéis reprodutivos
e questões familiares.
A complexidade das formas de uso
da mão-de-obra feminina informa não
existirem fatores naturais inerentes ou
lógicos que instituam a divisão sexual
do trabalho. Identificam-se nas justifi-
cativas e representações dos partici-
pantes da pesquisa uma ordem de ar-
gumentos/dimensões/fatores objeti-
vos - a segregação reforça a falta de
oportunidades, e de experiência técni-
ca das mulheres - dimensões/fatores
subjetivos - emerge a continuação de
noções de trabalho feminino diferen-
tes do masculino nas justificativas de
gerentes, trabalhadores e nas próprias
mulheres.
As representações de gênero in-
terferem nas definições e significados
atribuídos ao trabalho, à qualificação/
desqualificação masculina e feminina,
refletem o sistema de educação/ so-
cialização dos indivíduos e transcen-
dem o aparelho escolar adquirem for-
mas conjunturais e culturais diversas.
Por exemplo, os estereótipos de habi-
lidades femininas foram reproduzidos
por gerentes: “as mulheres preferem o
trabalho de caixa pela vantagem de
terminar o turno de trabalho com ma-
ior rapidez, liberando-as para os pa-
péis na família”.
De forma bastante simplificada, é
42 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
As trabalhadoras são culpabilizadas por declinarem
de indicações para treinamentos em locais distantes,
em favor de colegas homens devido aos papéis
reprodutivos e questões familiares.
Ano XI, Nº 28, novembro de 2002 - 43UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
possível dizer que a “racionalização”
do trabalho no setor financeiro bancá-
rio tende a apresentar dimensão posi-
tiva aos aspectos relacionados a esfe-
ra quantitativa e racional. Em outras
palavras, é possível dizer que tudo
aquilo que é racional é masculino, tu-
do que é masculino diz respeito à pro-
dução, tudo que diz respeito à produ-
ção é celebrado nos locais de traba-
lho. Por conseguinte, tudo aquilo que
é negativo pertence à esfera emotiva,
tudo que é emotivo é feminino, tudo
que diz respeito à reprodução consu-
ma-se no universo doméstico.
Assim, a integração da mulher no
setor bancário não implica sua eman-
cipação, nem tão pouco a eliminação
das desigualdades criadas dentro da
unidade doméstica. Tudo leva a crer
que as trabalhadoras ao ingressarem
no mercado de trabalho, o fazem em
sua maioria em profissões que lhes
permitem desempenhar suas funções
de mães e de donas de casa, pois,
apesar de todo o progresso e das con-
quistas femininas, as mulheres têm
acesso preferencial às funções qualifi-
cadas em setores bem delimitados, in-
dicando “a projeção da esfera marcan-
te do trabalho doméstico, tradicional-
mente reservado às mulheres” (Bo-
uillaguet apud Kartchevesky-Bullport,
1986:80).
Além de fatores externos, a própria
mulher participa como cúmplice de
sua subordinação, da construção de
uma identidade diferenciada de traba-
lhos e qualificações adequados para
mulheres e homens, na medida em
que ela aceita como natural, ou como
seu destino de gênero, a sua exclusão
de certos tipos de trabalho e de quali-
ficação. Essa atitude pode estar rela-
cionada à internalização da tradicio-
nalmente baixa qualificação da mu-
lher, conforme já assinalado por Sou-
sa-Lobo, “a não-qualificação das mu-
lheres é normatizada e a qualificação
remete à problemática das mulheres
excepcionais” (Souza-Lobo, 1991:92).
O sistema hierárquico de gênero
está presente nas práticas e processos
como no modo de produção e suas
relações de classe; assim, a relação
capital-trabalho, enquanto relação his-
tórica concreta, pode ser vista como
uma forma de incorporar a hierarquia
de gênero, já que o trabalho está divi-
dido em torno de uma hierarquia se-
xual onde a mulher desempenha um
rol de papéis secundários e, portanto,
tem um trabalho secundário. Assim,
os poderes macro e micro se interpe-
netram transversalmente, sustentados
por comportamentos e instituições
existentes, assumindo importâncias
distintas ao nível das relações huma-
nas na conjuntura histórica particular
do Nordeste.
A concepção do trabalho feminino
utilizada neste estudo procurou inte-
grar as esferas produtiva/reprodutiva,
o público/privado, para tornar visíveis
o trabalho que as mulheres desempe-
nham também na família (Bruschini,
1994). A organização familiar desvela
padrões de relações sociais patriarcais
por meio da divisão sexual de papéis,
em aspectos considerados relevantes
para indicar transformações na dinâ-
mica das relações familiares: a admi-
nistração doméstica, o orçamento fa-
miliar e educação dos filhos. Na refle-
xão sobre esses temas, as responden-
tes deixam claro as assimetrias na di-
visão dos papéis. Apenas duas mulhe-
res expressaram um modelo alternati-
vo, buscando planificar uma redistri-
buição das tarefas domésticas, porém,
também, uma redistribuição da parti-
cipação da mulher no espaço político,
no sentido amplo do termo.
Considerações finais
Seguindo tendência internacional,
os bancos reorientaram a natureza de
suas atividades (antes voltadas priori-
tariamente para a área financeira e
que, hoje, sofrendo concorrência de
instituições não-bancarias, tornam-se
menos rentáveis), voltando-se para a
área de negócios, que inclui atividades
nos mercados de futuro e de derivati-
vos, bem como atividades relaciona-
das à gestão de risco. Para atender a
essa reorientação, foram ampliadas as
vagas para o exercício imediato da
função de gerente de negócios.
No que se refere à reestruturação,
A integração da mulher no setor bancário não implica
sua emancipação, nem tão pouco a eliminação das
desigualdades criadas dentro da unidade doméstica.
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE44 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
os bancos adotaram a estratégia de
cultivo de clientes, buscando maximi-
zar o número de vinculações do clien-
te com os bancos. A reorientação das
atividades dos bancos manifesta-se de
imediato na definição do lay-out das
agências. Nesse modelo, as agências
possuem espaços físicos especifica-
mente demarcados, sinalizados e am-
bientados, de forma a atender aos no-
vos objetivos, tendo em vista enfrentar
a concorrência do mercado. Dentre as
conclusões, caberia destacar que os
ganhos para a força de trabalho, resul-
tantes do processo em estudo, pode-
riam ser relativizados, já que os mes-
mos são acompanhados de efeitos
negativos, como maior desgaste físico
e mental da força de trabalho, além da
ocorrência de altas taxas de desem-
prego. Nesse sentido, pode-se supor
que a uma possível elevação da quali-
ficação dos que permanecem no em-
prego, corresponderia uma degrada-
ção das condições de vida em termos
mais gerais. No que se refere à confi-
guração organizacional, esta tende à
organização horizontal, com acentua-
da redução dos níveis hierárquicos. Os
postos de atendentes deverão ser eli-
minados no futuro. O gerente geral
das agências não deve distinguir-se
dos demais funcionários, em termos
de execução de tarefas. Todos devem
desempenhar a função de gerente,
constituindo equipes de venda. Por
outro lado, a organização do trabalho
está baseada, não em uma estrutura
de funções, mas em uma estrutura de
processos e negócios, constituída por
equipes.
A polivalência torna-se uma exi-
gência, a partir do princípio de que to-
dos devem saber desempenhar qual-
quer operação demandada pelo clien-
te. A idéia é de integração de funções,
no sentido de que, ao ser atendido
por um funcionário, o cliente possa
realizar todas as suas operações com
o mesmo funcionário. Se, de um lado,
essa estratégia significa fator de eleva-
ção da qualificação para os funcioná-
rios, já que amplia o seu âmbito de
atividades, para o gerente da agência,
significa mudança radical de suas atri-
buições, num sentido nem sempre fa-
vorável verifica-se aumento significati-
vo de responsabilidades, perda de au-
toridade, e “degradação” de status.
Ocorre uma significativa transfor-
mação da natureza da relação do ge-
rente com o cliente. Ao mesmo tem-
po, o trabalho em equipe determina a
perda da autonomia do cargo, já que
exige a ausência de hierarquia, vendo-
se o gerente obrigado a desempenhar
várias funções menos valorizadas,
como, por exemplo, a abertura de
contas. O perfil do novo bancário é,
portanto, traçado a partir da ênfase na
capacidade de lidar com tarefas não
prescritas e com limites pouco defini-
dos, contrariando a exigência anterior,
quando as atividades eram claramen-
te delimitadas pelo manual. Nesse
sentido, um mudança significativa diz
respeito à eliminação ou a forte redu-
ção de trabalho burocrático. Essa é
uma tendência observada mundial-
mente.
Os funcionários entrevistados
queixaram-se da falta de treinamento
adequado, especialmente, em razão
da rapidez com que foram ministra-
dos. Manifestaram também desejo de
ampliar suas possibilidades de forma-
ção, especialmente, na área negocial,
de informática, de vendas e de merca-
do financeiro, bem como desejo de
realizar cursos externos - em grandes
cidades da região sul do Brasil, - que
oferecessem melhores oportunidades
de profissionalização, percebidos
como arma contra a demissão e como
trunfo para a empresa no contexto da
competição.
Os bancários, em geral, apresentam
expectativas em desenvolver domínio
técnico e ressentem-se dos critérios uti-
lizados na indicação para os treinamen-
tos. Nesse processo, com freqüência, os
papéis reprodutivos das mulheres são
utilizados nas justificativas que as ex-
cluem dos treinamentos técnicos, prin-
cipalmente, em locais distantes. Ade-
mais, uma variedade de fatores estrutu-
ra as diferenças de gênero, a segrega-
ção e a discriminação da mulher no tra-
balho, na qualificação, mostrando o la-
do multifacetado do processo de exclu-
são no contexto do novo paradigma
produtivo no setor financeiro bancário.
Esses fatores podem melhorar ou apro-
fundar as desigualdades para a mulher
e outros segmentos vulneráveis da força
de trabalho.
Fica evidente que os relaciona-
mentos interpessoais e, conseqüente-
mente, a personalidade das trabalha-
doras também são marcados pela do-
minação, que tem origem na cultura e
instituições do patriarcalismo. Sendo
assim, tanto do ponto de vista analíti-
co quanto político, é essencial não es-
quecer o enraizamento do patriarcalis-
mo na estrutura familiar e na reprodu-
ção sócio-biológica da espécie, con-
textualizados histórica e culturalmente
(Castells, 1999). Os processos de mu-
dança cultural são muito lentos. Nesse
contexto, no espaço e tempo desta
pesquisa, evidencia-se que a subordi-
nação feminina e a divisão sexual do
trabalho parecem ser duas faces de
uma mesma moeda - encontrar os
A personalidade das trabalhadoras também
são marcados pela dominação, que tem origem
na cultura e instituições do patriarcalismo.
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 45
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
mecanismos que permitam obter um
caminho das relações entre os gêne-
ros constitui o desafio.
Os diferenciais de gênero se mos-
tram importantes para a melhor com-
preensão do processo de inserção das
mulheres no mercado de trabalho,
bem como de trazer para o debate
questões ligadas aos universos públi-
co e privado que ainda não receberam
a necessária atenção. Isso reforça a
intenção de continuar analisando e
acompanhando esses processos, as-
sim como de avançar na discussão e
revisão de políticas gerenciais, estraté-
gias sindicais e espaços de negocia-
ção, tendo em vista a construção de
uma sociedade mais democrática com
forte ênfase na eqüidade de gênero.
Particularmente, os dados aqui
apresentados trazem questionamen-
tos para o campo educacional, no
sentido de rever processos de forma-
ção, os novos conceitos e demandas
por qualificação que emergem na
esteira do processo de globalização,
conjuntamente com a revolução no
campo da informática que o tornou
possível. Não se deve esquecer que
dois tipos de mudança têm vinculação
direta com a questão da exclusão so-
cial, da exclusão de gênero, com o
surgimento de um novo paradigma de
emprego, mais flexível, precário e des-
provido de garantias de estabilidade
associadas ao padrão convencional:
de outro lado, também não se deve
esquecer, da minimização do papel do
Estado, que vem sendo questionado
sobre o seu papel tradicional de guar-
dião das garantias sociais.
Notas
1. Informe OIT, Los bancos multinaciona-
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Nova Iorque: Columbia University Press.
* Maria Helena Santana Cruz é profa.
Dra. do Departamento de Serviço Social e
do Programa de Pós-Graduação em Edu-
cação e Ciências Sociais da Universidade
Federal de Sergipe e coordenadora do
NEPIMG - Núcleo de Estudos e Pesquisas
sobre a Mulher e Relações de Gênero.
E-mail: helenacruz@uol.com.br
46 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Um breve histórico
As chamadas políticas de ação afirma-
tiva são muito recentes na história da
ideologia anti-racista. Nos países onde
já foram implantadas (Estados
Unidos, Inglaterra, Canadá, Índia,
Alemanha, Austrália, Nova Zelândia e
Malásia, entre outros), elas visam ofe-
recer aos grupos discriminados e
excluídos um tratamento diferenciado
para compensar as desvantagens
devidas à sua situação de vítimas do
racismo e de outras formas de discri-
minação. Daí as terminologias de
“equal oportunity policies”, ação afir-
mativa, ação positiva, discriminação
positiva ou políticas compensatórias.
Nos Estados Unidos, onde foram
aplicadas desde a década de sessenta,
elas pretendem oferecer aos afro-ame-
ricanos as chances de participar da di-
nâmica da mobilidade social crescen-
te. Por exemplo: os empregadores fo-
ram obrigados a mudar suas práticas,
planificando medidas de contratação,
formação e promoção nas empresas
visando à inclusão dos afro-america-
nos; as universidades foram obrigadas
a implantar políticas de cotas e outras
medidas favoráveis à população negra;
as mídias e órgãos publicitários foram
obrigados a reservar, em seus progra-
mas, uma certa percentagem para a
participação dos negros. No mesmo
momento, programas de aprendizado
de tomada de consciência racial foram
desenvolvidos a fim de levar a reflexão
aos americanos brancos, na questão
do combate ao racismo.
Qualquer proposta de mudança em
benefício dos excluídos jamais recebe-
ria uma apoio unânime, sobretudo
quando se trata de uma sociedade ra-
cista. Neste sentido, a política de ação
afirmativa nos Estados Unidos tem
seus defensores e detratores. Foi gra-
ças a ela que se deve o crescimento da
classe média afro-americana, que hoje
atinge cerca de 3% de sua população,
sua representação no Congresso Na-
cional e nas Assembléias estaduais;
mais estudantes nos níveis de ensino
correspondentes ao nosso ensino mé-
dio e superior; mais advogados, pro-
fessores nas universidades, inclusive
nas mais conceituadas, mais médicos
nos grandes hospitais e profissionais,
em todos os setores da sociedade
americana. Apesar das críticas contra
ação afirmativa, a experiência das últi-
mas quatro décadas nos países que
implementaram, não deixam dúvidas
sobre as mudanças alcançadas.
Argumentos em favor das cotas
para a população negra no Brasil
As experiências feitas pelos países
que convivem com o racismo pode-
riam servir de inspiração ao Brasil, res-
peitando as peculiaridades culturais e
históricas do racismo à moda nacional.
Podemos, sem cópia, aproveitar das
experiências positivas e negativas vi-
venciadas por outros para inventar
nossas próprias soluções, já que não
contamos com receitas prontas para
enfrentar nossas realidades raciais.
Vozes eloqüentes, estudos acadê-
micos qualitativos e quantitativos re-
centes realizados pelas instituições de
pesquisas respeitadíssimas como o
IBGE e o IPEA não deixam dúvidas so-
bre a gravidade gritante da exclusão
do negro, isto é, pretos e mestiços na
Ação afirmativa
em benefício
da população negra
Kabengele Munanga •
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
sociedade brasileira. Fazendo um cru-
zamento sistemático entre a pertença
racial e os indicadores econômicos de
renda, emprego, escolaridade, classe
social, escolaridade, idade, situação fa-
milial e região ao longo de mais de 70
anos desde 1929, Ricardo Henriques
(2001) chega à conclusão de que, “no
Brasil, a condição racial constitui um
fator de privilégio para brancos e de
exclusão e desvantagem para os não-
brancos. Algumas cifras assustam
quem tem preocupação social
aguçada e compromisso com
a busca de igualdade e qua-
lidade nas sociedades hu-
manas”:
Do total dos universi-
tários, 97% são bran-
cos, sobre 2% de ne-
gros e 1% de des-
cendentes de orien-
tais.
Sobre 22 milhões
de brasileiros que
vivem abaixo da li-
nha da pobreza,
70% deles são ne-
gros.
Sobre 53 milhões
de brasileiros que vi-
vem na pobreza, 63%
deles são negros (Hen-
riques, 2001).
Deduz-se dessa pesquisa
que, se por milagre o ensino
básico e fundamental melhorar
seus níveis para que os alunos des-
ses níveis de ensino possam competir
igualmente no vestibular com os alu-
nos oriundos dos colégios particulares
bem abastecidos, os alunos negros le-
variam cerca de 32 anos para atingir o
atual nível dos alunos brancos. Isso su-
põe que os brancos fiquem parados
em suas posições atuais esperando a
chegada dos negros, para juntos cami-
nharem no mesmo pé de igualdade.
Uma hipótese improvável, ou melhor,
inimaginável. Os lobbyes das escolas
particulares, cada vez mais fortes, dei-
xarão os colégios públicos subirem seu
nível de ensino, tendo como conse-
qüência a redução de sua clientela
majoritariamente oriunda das classes
sociais altas e médias e a diminuição
de seus lucros? Quanto tempo a popu-
lação negra deverá ainda esperar essa
igualdade de oportunidade de acesso
e permanência a um curso superior ou
universitário gratuito e de boa qua-
lidade?
Num país onde os precon-
ceitos e a discriminação ra-
cial não foram zerados,
ou seja, onde os alunos
brancos pobres e ne-
gros ainda não são
iguais, pois uns são
discriminados uma
vez pela condição
sócio-econômica e
outros são discri-
minados duas ve-
zes pela condição
racial e sócio-eco-
nômica, as políticas
ditas universais de-
fendidas sobretudo
pelos intelectuais de
esquerda e pelo ex-mi-
nistro da educação Pau-
lo Renato não trariam as
mudanças substanciais es-
peradas para a população ne-
gra. Como disse Habermas, o
modernismo político nos acostu-
mou a tratar igualmente seres desi-
guais, em vez de tratá-los de modo
desigual. Daí a justificativa de uma po-
lítica preferencial, no sentido de uma
discriminação positiva, sobretudo
quando se trata de uma medida de in-
denização ou de reparação para com-
pensar as perdas de cerca de 400 anos
de decalage no processo de desenvol-
vimento entre brancos e negros. É nes-
te contexto que colocamos a impor-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 47
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
tância da implementação de políticas
de ação afirmativa, entre as quais a
experiência das cotas, que, pelas expe-
riências de outros países, se afirmou
como um instrumento veloz de trans-
formação, sobretudo no domínio da
mobilidade sócio-econômico, conside-
rado como um dos aspectos não me-
nos importante da desigualdade racial.
A questão fundamental que se colo-
ca é como aumentar o contingente
negro no ensino universitário e supe-
rior de modo geral, tirando-o da situa-
ção de 2% em que se encontra depois
de 114 anos de abolição em relação
ao contingente branco que sozinho re-
presenta 97% de brasileiros universitá-
rios. É justamente na busca de ferra-
mentas e de instrumentos apropriados
para acelerar o processo de mudança
desse quadro injusto em que se en-
contra a população negra que se colo-
ca a proposta das cotas, apenas como
um instrumento ou caminho entre
tantos a serem incrementados. Porque
então a cota e não outros instrumen-
tos e que instrumentos? Numa socie-
dade racista, onde os comportamen-
tos racistas difundidos no tecido social
e na cultura escapam do controle so-
cial, a cota obrigatória se confirma, pe-
la experiência vivida pelos países que a
praticaram, como uma garantia de
acesso e permanência aos espaços e
setores da sociedade até hoje majori-
tariamente reservados à “casta” branca
da sociedade. O uso deste instrumen-
to seria transitório, esperando o pro-
cesso de amadurecimento da socieda-
de global, na construção de sua demo-
cracia e plena cidadania. Paralela-
mente às cotas, outros caminhos a cur-
to, médio e longo prazos projetados
em metas poderiam ser inventados e
incrementados. Tratando-se do Brasil,
um país que desde a abolição nunca
assumiu seu racismo, condição sine
qua non para pensar em políticas de
ação afirmativa, os instrumentos de-
vem ser criados através dos caminhos
próprios ou da inspiração dos cami-
nhos trilhados por outros países em
situação comparável.
Reações absurdas e inimagináveis
vieram dos setores informados e escla-
recidos que geralmente têm voz na
sociedade brasileira. Que absurdo, re-
servar vagas para negros, o que carac-
terizam como uma injustiça contra alu-
nos brancos pobres! Aqui somos todos
mestiços, quer dizer que no Brasil não
existem mais nem negros, nem bran-
cos, nem índios, nem japoneses, por
causa do alto grau de mestiçamento.
Aqui, não estamos nos Estados Unidos
para impor soluções que nada têm a
ver com nossa realidade genuinamen-
te brasileira etc. Vejam que se deixa de
discutir uma questão social que, como
apontam as estatísticas das pesquisas
do IBGE e IPEA, é caracterizada por
uma desigualdade racial brutal e gri-
tante. Porque isso? Parece-me que o
imaginário coletivo brasileiro está
ainda encobertado pelo mito da de-
mocracia racial.
Não era possível imaginar as pro-
postas de ação afirmativa num país
onde há pouco tempo se negava os
indícios de preconceito étnicos e de
discriminação racial. Em dezenas de
anos, os movimentos sociais negros
lutaram duramente para arrancar, da
voz oficial brasileira, a confissão de
que esta sociedade é também racista.
Embora o racismo esteja ainda muito
vivo na cultura e no tecido social brasi-
leiro, a voz oficial reagiu há pouco
tempo aos clamores dos movimentos
negros, como bem ilustrado pelo texto
do “Relatório do Comitê Nacional Para
a Reparação da Participação Brasileira,
na III Conferência Mundial das Nações
Unidas Contra o Racismo, Discrimina-
ção racial, Xenofobia e Intolerância
Correlata”, realizada em Durban, África
do Sul, de 31 de agosto a 07 de setem-
bro de 2001. Nesse relatório, no que
tange às propostas em benefício da
“comunidade” negra: “a adoção de
medidas reparatórias às vítimas do
racismo, da discriminação racial e de
formas conexas de intolerância, por
meio de políticas públicas específicas
para a superação da desigualdade. Tais
medidas reparatórias, fundamentadas
nas regras de discriminação positiva
prescritas na Constituição de 1988, de-
verão contemplar medidas legislativas
e administrativas destinadas a garantir
a regulamentação dos direitos de
igualdade racial previstos na Cons-
tituição de 1988, com especial ênfase
nas áreas de educação, trabalho, titula-
ção de terras e estabelecimentos de
uma política agrícola e de desenvolvi-
mento das comunidades remanescen-
tes dos quilombos”, - adoção de cotas
ou outras medidas afirmativas que
promovam o acesso de negros às uni-
versidades públicas” (Ministério da
Justiça, 2001: 28-30).
Infelizmente, comparativamente ao
avanço constatado nesse relatório, os
três candidatos principais ao posto de
Presidente da República, nas eleições
de 2002, não mostraram uma postura
clara e firme sobre este problema, ou
adotaram uma estratégia de desinfor-
mação, ora para não se compromete-
rem com a população negra, ora para
não perderem seus eleitores no meio
de racistas brancos, já que o importan-
te para alguns deles era ser eleito pre-
sidente, a qualquer custo! O atrito en-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE48 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Em dezenas de anos, os movimentos sociais negros lutaram
duramente para arrancar, da voz oficial brasileira,
a confissão de que esta sociedade é também racista.
tre o estudante negro Rafael dos
Santos e o candidato Ciro Gomes, no
debate que ocorreu em 7 de abril na
UnB, não deixa dúvida sobre a estraté-
gia do silêncio e da desinformação. In-
dagado sobre sua posição no que diz
respeito às políticas de cotas para ne-
gros, o candidato desconversou, dizen-
do que os negros não precisam que
ninguém tenha “peninha” deles, além
de impedir que a palavra fosse fran-
queada ao estudante. Como explicar o
silêncio, a incerteza e até mesmo a de-
sinformação dos candidatos sobre
uma questão tão importante para a
vida e o futuro de mais de 70 milhões
de brasileiros de ascendência africana?
Estratégia ou resíduo perverso do mito
de democracia racial que ainda ronda
no inconsciente coletivo do brasileiro?
Tudo é possível!
O que me espanta muito não é
tanto a reação popular, facilmente ex-
plicável. O que me surpreende é que
as mesmas reações e os mesmos luga-
res comuns se encontram na minha
universidade, uma das mais importan-
tes do Hemisfério Sul, em termos de
produção de conhecimento científico
e da reflexão crítica sobre as socieda-
des humanas. Nessa universidade,
brotou a chamada Escola Sociológica
de São Paulo, da qual participaram
eminentes estudiosos como Florestan
Fernandes, Octávio Ianni, Fernando
Henrique Cardoso, Oracy Nogueira, Jo-
ão Batista Borges Pereira e tantos ou-
tros que iniciaram os estudos sobre o
negro, na ótica das relações raciais e
interétnicas, rompendo com a visão
apenas raciologista e culturalista de
Nina Rodrigues e seu discípulo Arthur
Ramos, entre outros.
Rebatendo e refutando
algumas críticas contra as
cotas para negros no Brasil
1. Dizem que é impossível imple-
mentar cotas para negros no Brasil,
porque é difícil definir quem é negro
no país por causa da mestiçagem,
tendo como conseqüência a possibili-
dade da fraude por parte dos alunos
brancos, que alegando sua afro-des-
cencência pelo processo de mestiça-
gem, ocupariam o espaço destinado
às verdadeiras vítimas do racismo. Em
primeiro lugar, não acredito que todos
os alunos brancos pobres possam co-
meter este tipo de fraude para ingres-
sar na universidade pública, por causa
da força do ideal do branqueamento
ainda atuando no imaginário coletivo
do brasileiro. Um racista essencialista,
psicologicamente convencido da supe-
rioridade de sua “raça”, não troca de
campo com tanta facilidade. Muitos
não aceitarão a troca, em nome do
chamado orgulho da raça. Conscientes
desta dificuldade, alguns recorrem aos
falsos princípios de democracia, advo-
gando a introdução de uma flagrante
injustiça contra brancos pobres, se o
Brasil adotar cotas em favor da maioria
de negros pobres. Se for fácil identifi-
car os alunos brancos pobres, porque
o seria tão difícil para os alunos negros
pobres? Em segundo lugar, a identifi-
cação é uma simples questão de auto
definição, combinando os critérios de
ascendência politicamente assumida
com os critérios de classe social. Isto
tem sido o critério ultimamente utiliza-
do até pelos pesquisadores e técnicos,
no último recenseamento do IBGE.
Ele vale tanto para brancos quanto
para negros e para os chamados ama-
relos. Não vejo necessidade em recor-
rer seja ao exame da árvore genealógi-
ca dos autodeclarados negros, seja ao
exame científico através do teste de
DNA. Se constatar, depois de algum
tempo e experiência, que a maioria de
alunos pobres beneficiados pela políti-
ca de cotas é composta de alunos
brancos pobres falsificados em negros,
será então necessário reavaliar os cri-
térios até então adotados. De qualquer
modo, os recursos investidos não se-
riam perdidos, pois teriam sido apro-
veitados por segmento da população
que também necessita de políticas pú-
blicas diferenciadas. Uma definição pe-
los critérios científicos dificultaria qual-
quer proposta de ação afirmativa, em
benefício de qualquer segmento, pois
muitos que se dizem negros podem
ser portadores dos marcadores genéti-
cos europeus. Também muitos dos
que se dizem brancos podem ser por-
tadores dos marcadores genéticos afri-
canos. O que conta no nosso cotidia-
no ou que faz parte de nossas repre-
sentações coletivas do negro, do bran-
co, do índio, do amarelo e do mestiço
não se coloca no plano do genótipo,
mas sim do fenótipo, num país onde,
segundo Oracy Nogueira, o preconcei-
to é de marca e não de origem.
2. Outros argumentos contra a polí-
tica de cota recorre ao fato do abando-
no desta política nos Estados Unidos,
por não ter ajudado no recuo da discri-
minação racial entre brancos e negros
naquele país e por ter sido aproveita-
do apenas pelos membros da classe
média afro-americana, deixando into-
cada a pobreza dos guetos. Ponto de
vista rejeitado pelos defensores de co-
tas nos Estados Unidos, baseando-se
na mobilidade social realizada pelos
afro-americanos, nos últimos quarenta
anos, mobilidade que não teria sido
possível, se não fosse implantado a
política das cotas. Os próprios ameri-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 49UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Não acredito que todos os alunos brancos pobres possam
cometer este tipo de fraude para ingressar na universidade
pública, por causa da força do ideal do branqueamento.
canos observam que, no Estado da Ca-
lifórnia, o primeiro a incrementar cotas
e o primeiro também a abandoná-las,
recuou o ingresso de alunos afro-ame-
ricanos nas universidades públicas, da-
quele Estado. Mas devemos dizer que
os afro-americanos têm outras alterna-
tivas para ingressar e permanecer nas
universidades que aqui não temos por
causa das peculiaridades do “nosso”
racismo. Eles têm universidades fede-
rais de peso criadas para eles, a Uni-
versidade de Howard, por exemplo, e
universidades criadas pelas Igrejas in-
dependentes negras para as comuni-
dades afro-americanas, principalmente
nos Estados do Sul considerados como
os mais racistas (é o caso da universi-
dade de Atlanta que foi fundada pelos
negros e para os negros). Além disso,
a maioria das universidades públicas
americanas até as mais conceituadas
como Princeton, Harvard e Stanford
continuam a cultivar as ações afirmati-
vas, em termos de metas, sem recorrer
necessariamente às cotas ou estatísti-
cas definidas. Deixar de discutir cotas
em nossas universidades porque não
deram certo nos Estados Unidos, co-
mo dizem os argumentos contra, é
uma estratégia fácil para manter o sta-
tus quo. As cotas, se forem aprovadas
por alguns Estados como já está acon-
tecendo no Rio de Janeiro e na Bahia,
deveriam, antes de serem aplicadas,
passar por uma nova discussão dentro
das peculiaridades do racismo à brasi-
leira, cruzando os critérios de “raça e
de “classe” e respeitando a realidade
demográfica de cada Estado da União.
Um censo étnico da população escola-
rizada de cada Estado é indispensável
para incrementar as políticas públicas,
no que diz respeito à educação dos
brasileiros, a curto, médio e longo
prazo.
3. Porque a cota misteriosamente
não é também destinada aos índios e
sua descendência cujos direitos foram
igualmente violados durante séculos,
além de serem despojados de seu
imenso território, indagam outros ar-
gumentos contra a política de cotas.
Os movimentos negros que reivindi-
cam as cotas nunca foram contra as
propostas que beneficiariam as popu-
lações indígenas, as mulheres, os ho-
mossexuais, os portadores de necessi-
dades especiais, até as classes sociais
pobres independentemente da pig-
mentação da pele. Apenas reivindicam
um tratamento diferenciado, tendo em
vista que foram e constituem ainda a
grande vítima de uma discriminação
específica, racial. Eles têm uma clara
consciência da diluição no social geral
e abstrato como propõe o pensamen-
to da esquerda, que até hoje continua
a bater nas teclas de uma questão que,
segundo eles, é simplesmente social,
fechando os olhos a uma cultura racis-
ta que abarca indistintamente pobres,
médios e ricos em todas as sociedades
racistas.
Os afro-descendentes constituem
um pouco mais de 70 milhões de bra-
sileiros, em relação às populações in-
dígenas estimados em menos de qui-
nhentos mil, apesar do seu notável
crescimento demográfico. Visto deste
ângulo, o problema do ingresso dos
estudantes negros, tendo em vista que
a sua taxa de escolaridade, na escola,
é das mais baixas. O que falta são as
propostas de políticas públicas especí-
ficas a curto, médio e longo prazo, di-
recionadas para atender aos proble-
mas de escolaridade, educação e in-
gresso dos índios na universidade. Di-
luí-los nos problemas sociais dos ne-
gros e ou dos pobres em geral seria
cometer, no plano da prática social, os
erros do pensamento teórico e livresco
do intelectual de esquerda, sem pés
no chão.
No já citado relatório do Comitê Na-
cional para a Preparação Brasileira na
III Conferência Mundial das Nações
Unidas contra o Racismo, Discrimina-
ção Racial, Xenofobia e Intolerância
Correlata, nota-se, entre as medidas
governamentais a serem tomadas em
favor dos índios:
- criação, no âmbito do Ministério
da Educação, da Coordenação Geral
de Educação Escolar Indígena;
- estabelecimento de 1666 escolas
indígenas, que contam com 3041 pro-
fessores indígenas;
- realização do projeto Tucum, de
formação e capacitação de professores
indígenas, em nível de magistério, para
as comunidades de Mato Grosso (Xa-
vante, Peresi, Apiaká, Irantxe, Nambi-
kwara, Umotina, Rikbaktsa, Munduru-
ku, Kayabi, Borôro e Bakairi, entre ou-
tras). É coordenado pela Secretaria de
Estado da Educação-MT, além da FU-
NAI, tem convênio com a Universidade
Federal do Mato Grosso e prefeituras
municipais do estado.
- realização do projeto 3º grau indí-
gena, visando à implantação de três
Cursos de Licenciatura Plena na Uni-
versidade do Estado de Mato Grosso
(UNEMAT, destinados à formação de
200 professores indígenas) com previ-
são de início das aulas em julho de
2001 e término em 2005. A iniciativa
está sendo viabilizada por meio do
Convênio 121/2000, de 30 de junho
de 2000, celebrado entre aquela insti-
tuição de ensino e a Secretaria de Esta-
50 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Os movimentos negros que reivindicam as cotas nunca foram
contra as propostas que beneficiariam as populações indígenas,
as mulheres, os homossexuais, os portadores de necessidades
especiais, até as classes sociais pobres
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 51
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
do de Educação do Mato Grosso (SE-
DUC-MT0 e do Convênio nº 11, de 15
de dezembro de 2000, celebrado entre
a UNEMAT e a Fundação Nacional do
Índio (FUNAI). As atividades pedagógi-
cas intensivas ocorrerão no Campus da
UNEMAT localizado na cidade de Barra
do Bugres-MT.
Os professores José Jorge de Car-
valho e Rita Laura Segato, em sua pro-
posta de cotas e ouvidoria para a uni-
versidade de Brasília, ilustram a in-
consciência das universidades bra-
sileiras face à questão indígena
pelo fato “dos primeiros quatro
índios brasileiros que neste
momento se preparam para
ser médicos somente con-
seguiram ingressar numa
Escola de Medicina de Cu-
ba! Imaginemos a situação:
é uma faculdade cubana,
que não dispõe nem mini-
mamente dos recursos com
que contam universidades
como a USP, a UNICAMP, ou
a UnB, que está ajudando o
Brasil a saldar a sua dívida de
cinco séculos para com os índios
brasileiros!” (Carvalho e Segato:
2001)
4. A política de cotas raciais poderia
prejudicar a imagem profissional dos
funcionários, estudantes e artistas ne-
gros, porque eles serão sempre acusa-
dos de ter entrado por uma porta dife-
rente. Ou seja, no momento das gran-
des concorrências, as cotas poderiam
perigosamente estimular os preconcei-
tos. Pior ainda, sob pretexto de favore-
cer materialmente uma população
desfavorecida, essa política pode pre-
judicar os valores mais respeitáveis: o
orgulho e a dignidade da população
negra. Contra este tipo de argumento,
eu diria que ninguém perde seu orgu-
lho e sua dignidade ao reivindicar uma
política compensatória, numa socieda-
de que, por mais de quatrocentos
anos, atrasou seu desenvolvimento e
prejudicou o exercício de sua plena ci-
dadania. Desde quando a reparação
de danos causados por séculos de dis-
criminação prejudica a dignidade e o
orgulho de uma população? Os judeus
têm vergonha em reivindicar a indeni-
zação das vítimas do holocausto? On-
de estão o orgulho e a dignidade de
uma sociedade que continue a manter,
em condições de igualdade gritante,
um segmento importante de sua po-
pulação e que durante muitos
anos continuou a se esconder
atrás do manto do mito da de-
mocracia racial? As cotas não
vão estimular os preconcei-
tos raciais, pois estes são
presentes no tecido social e
na cultura brasileira. Discri-
minar os negros no merca-
do de trabalho pelo fato de
eles terem estudado graças
às cotas é simplesmente
deslocar o eixo do preconcei-
to e da discriminação presen-
tes na sociedade e que existem
sem cotas ou com cotas. Mas
uma coisa é certa, os negros que
ingressarão nas universidades públi-
cas de boa qualidade pelas cotas te-
rão, talvez, uma oportunidade única na
sua vida: receber e acumular um co-
nhecimento científico que os acompa-
nhará no seu caminho da luta pela so-
brevivência. Apesar dos preconceitos
que persistirão ainda por muito tempo,
eles serão capazes de se defender me-
lhor, no momento das grandes concor-
rências e nos concursos públicos, ao
exibir um certo conhecimento que não
dominavam antes. Abrirão com facili-
dade algumas portas, graças a esse co-
nhecimento adquirido e ao restabele-
As cotas não vão estimular os preconceitos raciais,
pois estes são presentes no tecido social e na cultura brasileira.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE52 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
cimento de sua auto-estima. A história
da luta das mulheres ilustra melhor o
que seria o futuro dos negros. A discri-
minação contra elas não foi totalmen-
te desarmada, mas elas ocupam, cada
vez mais, espaços na sociedade, não
porque os homens se tornaram menos
machistas e mais tolerantes, mas por-
que, justamente graças ao conheci-
mento adquirido, elas demonstram
competências e capacidades que lhes
abrem as portas antigamente fecha-
das. O racismo contra negros não
recuou nos Estados Unidos. Mas hoje,
graças ao conhecimento adquirido
com cotas, eles tiveram uma grande
mobilidade social, jamais conhecida
antes.
5. Os responsáveis das universida-
des públicas dizem que o ingresso de
negros nas universidades pelas cotas
pode levar a uma degradação da qua-
lidade e do nível do ensino, por que
eles não têm as mesmas aquisições
culturais dos alunos brancos. Mas,
acredito que mais do que qualquer
outra instituição, as universidades têm
recursos humanos capazes de reme-
diar as lacunas dos estudantes oriun-
dos das escolas públicas, através de
propostas de uma formação comple-
mentar. (Carneiro, 2002: p.23). Algu-
mas universidades encaminharam pro-
postas de projetos neste sentido, soli-
citando recursos financeiros junto ao
Programa Nacional de Cor junto à
UERJ, financiado pela Fundação FORD.
Finalmente, a questão fundamental
que se coloca não é a cota, mas, sim,
o ingresso e a permanência dos ne-
gros nas universidades públicas. A co-
ta é apenas um instrumento e uma
medida emergencial enquanto se
busca outros caminhos. Se o Brasil, na
sua genialidade racista, encontrar alter-
nativas que não passam pelas cotas
para não cometer injustiça contra
brancos pobres - o que é crítica sensa-
ta - ótimo. Mas dizer simplesmente
que implantar cotas é uma injustiça,
sem propor outras alternativas a curto,
médio e longo prazo, é uma maneira
de fugir de uma questão vital para
mais de 70 milhões de brasileiros de
ascendência africana e para o próprio
futuro do Brasil. É uma maneira de rei-
terar o mito da democracia racial, em-
bora este já esteja desmistificado.
Os que condenam as políticas de
ação afirmativa ou as cotas favorecen-
do à integração dos afro-descendentes
utilizam, de modo especulativo, argu-
mento que pregam o status quo, ao
silenciar as estatísticas que compro-
vam a exclusão social do negro. Que-
rem remeter a solução do problema a
um futuro longínquo, imaginando-se,
sem dúvida, que medidas macroeco-
nômicas poderiam miraculosamente
reduzir a pobreza e a exclusão social.
As cotas não serão gratuitamente
distribuídas ou sorteadas como imagi-
nam os defensores da “justiça”, da
“excelência” e do “mérito”. Os alunos
que pleitearem o ingresso na universi-
dade pública, por cotas, submenter-se-
ão às mesmas provas de vestibular
que os outros candidatos e serão ava-
liados como qualquer outro de acordo
com a nota de aprovação prevista. Vis-
to deste ângulo, os sistema de cotas
não vai introduzir alunos desqualifica-
dos na universidade, pois a competiti-
vidade dos vestibulares continuará a
ser respeitada como sempre. A única
diferença está no fato de que os candi-
datos aspirantes ao benefício da cota
se identificarão como negro ou afro-
descendente no ato da inscrição. Suas
provas corrigidas, eles serão classifica-
dos separadamente, retendo os que
obtiverem as notas de aprovação para
ocupar as vagas previstas. Desta forma,
serão respeitados os méritos e garanti-
da a excelência no seio de um univer-
so específico.
Referências Bibliográficas
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Nacional Para Preparação Da Participação Bra-
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Brasil. In: Kabengele Munanga(org) Estraté-
gias e Políticas de Combate À Discriminação
Racial. São Paulo: Edusp, 1996. Pp.79-74
* Kabengele Munanga é Professor Titular
do Departamento de Antropologia da Uni-
versidade de São Paulo. Autor de vários
trabalhos na área de antropologia da po-
pulação negra africana e afro-brasileira,
entre outros, Os Basanga de Shaba
(1986); Negritude (1988), Estratégias e
políticas de combate à discriminação racial
(1996) e Rediscutindo a mestiçagem no
Brasil (1999). E-mail: kabe@usp.br
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
A história da luta das mulheres ilustra melhor o que seria
o futuro dos negros. A discriminação contra elas
não foi totalmente desarmada.
Notas introdutórias sobre o
debate das relações de gênero
Renato Veloso
“Nós vos pedimos com insistência
Nunca digam - isso é natural
Diante dos acontecimentos de cada dia
Numa época em que reina a confusão
Em que corre o sangue
Em que ordena-se a desordem
Em que o arbítrio tem força de lei
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam, nunca - isso é natural”.
Bertolt Brecht
1. Apresentação
Este breve texto, pensado inicialmen-
te como subsídio ao entendimento
do fenômeno da violência contra a
mulher, tem por objetivo oferecer alguns
elementos para uma apropriação básica da
problemática das relações de gênero, enfatizando
algumas expressões do debate teórico a seu respeito.
Entende-se que o gênero, compreendido como um fenô-
meno histórico e social em ampla articulação com o
desenvolvimento e reprodução da sociedade, deve ser
tomado como uma “categoria”, pois expressa “modos de
ser”, ou seja, expressa o padrão de organização de deter-
minada sociedade, ou, se assim se preferir, do “ser social”.
A partir deste entendimento, é possível inferir que as rela-
ções de gênero são parte da estrutura e da organização
da sociedade, tendo conseqüências mediatas e imediatas
para a reprodução do ser social. Pretende-se, portanto,
apesar do caráter introdutório aqui presente, deixar claro
que o gênero é um elemento fundante da vida social, e
como tal, participa da reprodução da totalidade social que
é a sociedade, sendo, em diversas vezes, utilizado para a
justificação ou “naturalização” de determinados fenôme-
nos sociais como, por exemplo, a violência contra a
mulher.
2. Gênero: uma questão social
Falar em gênero, nos dias atuais, refere-se a pensar:
1 - que as desigualdades observadas entre homens e
mulheres na sociedade não se explicam tendo por base
apenas as suas características biológicas e, portanto, natu-
rais, mas, sim, pelos processos históricos que configuram
um determinado padrão de relações de gênero;
2 - na inexistência de uma “essência masculina” ou uma
“essência feminina”, de caráter imutável e universal, às quais
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 53
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
homens e mulheres estariam presos;
3 - que a divisão de poder realiza-
da entre homens e mulheres ocorre de
maneira desigual.
Poder-se-ia sintetizar as afirmações
acima, tratando as relações de gênero
como uma “construção social” (Louro,
1996; Kergoat, 1996; Meyer, 1996), ou,
ainda, nas palavras de Scott (1995),
como a “organização social das rela-
ções entre os sexos”. A importância de
se perceberem as origens sociais de
determinado padrão vigente de rela-
ções de gênero reside na constatação
de que se as causas da desigualdade
são sociais, também o são as suas pos-
sibilidades de transformação. Busca-
se, com esta breve argumentação, de-
monstrar que não parece ser possível,
nos dias atuais, pensar que a justifica-
tiva das desigualdades entre homens e
mulheres resida no plano dos fatores
naturais, ato que nem o pensamento
mais conservador ousa fazer.
3. A relação entre o feminismo
e a categoria gênero
Algumas autoras afirmam que a di-
fusão da categoria analítica gênero,
nas Ciências Sociais latino-americanas,
foi a mais significativa contribuição teó-
rica dos feminismos destes países (La-
mas, 2000). Não cabe, aqui, analisar o
rigor teórico empregado na utilização
desta categoria, mas, sim, apontar para
a importância do movimento feminis-
ta e, sobretudo, da crítica teórica pro-
duzida por este movimento, para o
debate referente às relações de gêne-
ro, que impulsionou o que Moraes
(1998) chamou de “perspectiva femi-
nista de análise”, a qual, dentre outras
coisas, “ajudou a entender as comple-
xas dimensões de um mundo em que
a distribuição do poder obedece a hie-
rarquias sexuais e de classe social” (Mo-
raes, 1998:101).
Para Sorj (1992), a reflexão acadê-
mica feminista, que se desenvolveu
em proximidade com o movimento,
teve, em termos gerais, uma dupla
motivação: “reestruturar a tradição das
Ciências Sociais, alterando conceitos e
metodologias consagradas, e formular
um projeto de emancipação das mu-
lheres” (p. 16). É no bojo deste proces-
so que se gesta a categoria gênero,
que, de acordo com Louro, “está liga-
da diretamente à história do movi-
mento feminista contemporâneo”
(Louro, 1997:14).
4. Os “Estudos sobre Mulher” e o
surgimento da categoria gênero
A categoria gênero foi introduzida
no debate acadêmico norte-america-
no, na década de setenta, enquanto
que, no Brasil, data da virada da déca-
da de noventa o aparecimento de es-
tudos sobre o tema. Quando esta cate-
goria passa a ser utilizada nos meios
acadêmicos, ela disputa espaço com
os chamados “estudos sobre mulher”,
que, segundo Louro (1996), eram tri-
butários dos movimentos sociais dos
anos 60 e 70, considerados como uma
resultante da chamada “segunda on-
da” do feminismo. As iniciadoras deste
trabalho de reflexão e de produção
acadêmica eram as próprias mulheres
que estavam envolvidas na militância
feminista, e o grande esforço por elas
despendido tinha por objetivo “dar
visibilidade à mulher como agente so-
cial e histórico, como sujeito” (Louro,
1996:8), ou seja, “tornar visível aquela
que fora ocultada” (Louro, 1997:17).
Se num primeiro momento estas
produções acadêmicas se detinham ba-
sicamente sobre a denúncia da opres-
são, portando, desta forma, um caráter
mais descritivo do que propriamente
analítico, aos poucos, foram sendo exi-
gidas explicações mais contundentes,
ao invés de descrições, ainda que mi-
nuciosas, sobre as vidas femininas. As
tentativas de ensaiar explicações e arti-
culações com os grandes quadros teóri-
cos foi se tornando cada vez mais recor-
rente, sendo produzidas análises con-
sistentes no campo de várias discipli-
nas, como a Sociologia, a História, a Li-
teratura, a Educação, entre outras.
No entanto, as polêmicas envol-
vendo a utilização da categoria gênero
nos estudos e trabalhos sobre a situa-
ção da mulher na sociedade foram
muitas. A resistência presente em al-
gumas feministas consistia em dois
pontos principais:
1) Em primeiro lugar, se, por um
lado, a categoria gênero sugeria, de
modo mais imediato, uma ancoragem
teórica, por outro, parecia implicar
uma abrangência que poderia repre-
sentar um novo ocultamento do sujei-
to feminino, o que ia de encontro com
o objetivos dos “estudos sobre mu-
lher”, que era justamente dar visibilida-
de às mulheres. Aqui, caberia esclare-
cer que gênero, tomado numa acep-
ção relacional, refere-se aos processos
de formação da masculinidade e da fe-
minilidade, o que significa dizer que a
atenção não se volta exclusivamente
para a mulher em si, mas para as rela-
ções sociais nas quais homens e mu-
lheres estão inseridos. Do nosso ponto
de vista, isso não significaria um ocul-
tamento da mulher, mas, sim, um no-
vo tratamento da questão, apreenden-
do o gênero não como um fenômeno
relativo apenas às mulheres (embora
se saiba que o impacto das desigual-
dades seja muito maior para elas),
mas também aos homens, já que es-
tes estão amplamente implicados na
produção e reprodução das desigual-
dades de gênero.
2) O outro ponto polêmico diz res-
peito ao fato de que, na língua inglesa,
a palavra gender trazia já dicionarizado
um sentido relacionado à diferença
sexual, enquanto que, na língua portu-
guesa, o dicionário não traz essa acep-
ção. As feministas norte-americanas
optaram por utilizar o termo gênero
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
54 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 55
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
para enfatizar o caráter social da apro-
priação e hierarquização das diferenças
entre os sexos. Esta luta não foi imedia-
tamente traduzível para outros idio-
mas, assim, nem todas conseguiram
perceber que o uso do gênero trazia
implícita uma postura política de nega-
ção de determinadas interpretações
biologicistas das relações de gênero.
O fato é que, apesar das polêmicas
(ou graças a elas), começava a se abrir
o caminho para uma nova forma de
análise das desigualdades existentes
entre homens e mulheres: a categoria
gênero era o eixo condutor deste pro-
cesso, e, com a sua utilização, buscava-
se rejeitar o determinismo biológico
presente em termos como “sexo” ou
“diferença sexual”. Além de um instru-
mento analítico, esta categoria é tam-
bém, nas palavras de Louro (1997:21),
“uma ferramenta política”, pois permite
a apreensão do caráter social do gêne-
ro, o que remete a discussão para o
campo social (já que é, no âmbito da
sociedade, que se produzem e reprodu-
zem relações desiguais e hierarquizadas
entre os sujeitos) e não apenas ao
campo da natureza, pois não é neste
campo que as justificativas para as desi-
gualdades deveriam ser buscadas.
5. A construção da categoria
analítica gênero
Até aqui vimos que o termo “gêne-
ro” começa a ser utilizado, com mais
freqüência, por feministas brasileiras a
partir da virada da década de 90, no
bojo de uma importante transforma-
ção nos estudos feministas, que passa-
vam a transitar da perspectiva dos “es-
tudos sobre mulher” para os “estudos
sobre gênero”. Mas, em que consisti-
am esses “estudos de gênero”? O que
eles traziam de novo? Enfim, qual era a
contribuição que a categoria gênero
poderia oferecer para a análise das de-
sigualdades sociais e para a transfor-
mação destas desigualdades?
Para ajudar-nos a responder tais
questões, caberia a utilização da impor-
tante contribuição oferecida pela histo-
riadora inglesa Joan Scott (1995) que,
dentre outras coisas, mostrou as diver-
sas formas pelas quais o termo “gêne-
ro” era utilizado com vistas à compre-
ensão das relações entre homens e
mulheres. A autora, voltando-se espe-
cificamente para a sua área de atuação
(a disciplina de História), percebeu al-
guns limites, na maioria dos trabalhos
produzidos por historiadores, e classifi-
cou-os em dois grupos distintos:
-um essencialmente descritivo, que
não se importava com a interpretação
ou o desvendamento da causalidade
do fenômeno das relações de gênero;
-e outro de ordem causal, que,
contrariamente ao primeiro, elaborou
e vem elaborando teorias e formula-
ções sobre a natureza do fenômeno
do gênero.
Em relação ao primeiro grupo, a
autora verificou que o termo “gênero”
foi utilizado como um substituto para
o termo “mulheres”. Se, por um lado,
poder-se-ia supor que tal atitude em-
pobreceria a relevância analítica do gê-
nero enquanto uma categoria teórica,
por outro esta substituição apresenta
certa importância, à medida que torna
possível a sua inserção acadêmica, de
certa forma, dissociada, no plano da
aparência, do movimento feminista, ao
qual o termo “mulher” tinha uma rela-
ção direta. Assim, Scott demonstra que
o uso do termo gênero indicava a “eru-
dição e a seriedade de um trabalho”
(p. 03), com uma conotação “neutra” e
“objetiva”, enquanto o termo “mulhe-
res” era fortemente associado ao femi-
nismo e à política. Cria-se, portanto, a
impressão de uma dissociação entre
gênero e mulher, quando, na verdade,
os dois termos estão fortemente imbri-
cados. No entanto, essa impressão de
separação teve a sua relevância, pois re-
sultou no que a autora chamou de
“procura por uma legitimidade acadê-
mica pelos estudos feministas nos anos
‘80” (p. 03).
Ainda, nesta abordagem descritiva
do gênero, Scott aponta a indicação do
seu caráter relacional, quando as pes-
quisadoras sugerem que “a informa-
ção a respeito das mulheres é neces-
sariamente informação sobre os ho-
mens, que um implica no estudo do
outro”, rejeitando-se a noção das esfe-
ras separadas, segundo a qual a expe-
riência de um sexo tem muito pouco a
ver com a experiência do outro. Gê-
nero é tomado, portanto, como um in-
dicador das “construções sociais”, no
que se refere às funções e atributos
considerados próprios dos homens e
das mulheres. É tomado ainda como
uma “maneira de se referir às origens
exclusivamente sociais das identidades
subjetivas dos homens e das mulhe-
res”, o que, segundo esta definição, se-
ria uma “categoria social imposta sobre
um corpo sexuado”. A despeito do ca-
ráter excessivamente social atribuído
ao gênero presente nesta definição, o
que levantou questionamentos por
parte de algumas feministas francesas
(cf. Almeida, 1998:148-9), fica eviden-
ciada, em tal abordagem, a distinção
entre práticas sexuais e papéis atribuí-
dos a homens e mulheres. Se, por um
lado, se reconhecem as conexões entre
o sexo e os chamados “papéis sexuais”,
por outro, não se coloca entre eles uma
relação direta, já que gênero, nesta
acepção, coloca a ênfase sobre o con-
junto de relações sociais, que inclui o
sexo, mas que não é diretamente de-
terminado por este.
6. A definição de Gênero
Mas como esta autora, tão impor-
tante no debate nacional e internacio-
nal sobre esta questão, entende o fe-
nômeno das relações de gênero? A de-
finição de gênero apresentada por
Scott (que teve grande receptividade
no meio acadêmico brasileiro) se apre-
senta em duas partes que se integram:
1ª) “o gênero é um elemento cons-
titutivo de relações sociais baseado nas
diferenças percebidas entre os sexos”;
2º) “o gênero é uma forma primor-
dial de significar as relações de poder”
(p.11).
Em relação à primeira parte de sua
proposição, o gênero articula quatro
elementos relacionados entre si, que
seriam: 1º) os “símbolos culturalmente
disponíveis”, de várias modalidades e
nos mais variados contextos; 2º) os
“conceitos normativos”, expressos nas
mais diferentes formas, como as doutri-
nas religiosas, práticas educativas, cien-
tíficas, políticas, jurídicas etc., que evi-
denciam as diversas interpretações dos
sentidos que os símbolos possuem; 3º)
a percepção de que o gênero se encon-
tra presente na esfera política, bem
como nas organizações e instituições
sociais, não se limitando, portanto, a es-
feras tradicionalmente consideradas
como específicas do gênero, como as
relações de parentesco, por exemplo;
4º) a “identidade subjetiva”, que possui
em seu processo de construção uma
forte influência do gênero (pp. 11-2).
Esses quatro elementos, apesar de te-
rem sido apresentados pela autora de
maneira separada apenas para fins ana-
líticos, devem ser encarados como de-
tentores de uma íntima relação, já que
nenhum deles pode operar sem a refe-
rência aos outros.
7. Em busca da transformação
A partir do quadro que foi apresen-
tado de maneira breve e sucinta, é
possível extrair alguns elementos que
permitem elaborar uma compreensão
sintética do fenômeno das relações de
gênero, que se aplique aos objetivos
de propostas de trabalho a serem rea-
lizadas sob a forma de planos, progra-
mas ou projetos voltados ao combate
às desigualdades sociais e à transfor-
mação do padrão vigente de relações
de gênero. Em síntese, o que se pre-
tendeu demonstrar, a partir da exposi-
ção do debate teórico existente, é que
“gênero” é um termo, ou um conceito,
ou ainda, uma categoria (como prefe-
rimos utilizar) que designa o fenôme-
no ou conjunto de fenômenos que ex-
pressam um padrão específico de rela-
ções existentes entre homens e mu-
lheres, homens e homens, e mulheres
e mulheres. Estas relações que, na
nossa sociedade, são, em sua maioria,
marcadas pelas desigualdades, expres-
sam a existência de uma forma deter-
minada de relação entre os diversos
sujeitos sociais. Tal padrão de relacio-
namento é histórico, ou seja, é cons-
truído pela própria sociedade, seguin-
do o seu movimento, pelo conjunto de
forças sociais que organizam e dão
uma direção a esta mesma sociedade.
Deste modo, o gênero não é “natural”,
não é fixo, imutável ou intransponível,
ao contrário, varia de acordo com as
necessidades particulares de cada so-
ciedade e de cada contexto histórico.
Em outras palavras, o gênero “está inti-
mamente interligado a fatores políti-
cos e econômicos em cada sociedade”
(Lauretis, 1994:212), tomando mani-
festações distintas de acordo com os
contextos históricos e sociais específi-
cos. É um fenômeno que faz parte da
sociedade e que, exatamente por isso,
acompanha o seu movimento, ade-
quando-se e re-adequando-se de
acordo com as conjunturas determina-
das. Entender o gênero como um fe-
nômeno social e histórico (e não natu-
ral) é fundamental, pois permite que
seja vislumbrada e perseguida a possi-
bilidade de sua transformação, o que
para nós é sinônimo de uma socieda-
de justa e igualitária, para homens e
para mulheres.
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Renato Veloso é Assistente Social e Dou-
torando em Serviço Social pela UFRJ
56 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Ensino superior no Brasil e
ações afirmativas para negros
.Ações afirmativas são medidas ou
programas voltados para promover
oportunidades ou outros benefícios
para pessoas e grupos específicos
(raciais, étnicos, sexuais, religiosos,
entre outros), como compensação
por discriminação sofrida. Têm, por-
tanto, o sentido de reparação por
uma injustiça; uma forma de garantir
tratamento eqüânime, no presente,
como compensação à discriminação
sofrida, no passado, pelos membros
dos grupos beneficiados. Uma estra-
tégia para colocar as vítimas nas posi-
ções em que elas estariam, se não
tivessem sido discriminadas
(Guimarães, 2001 e 1996; Silvério,
2001; Santos 1999; Sansone,1998)
O negro está entre aqueles grupos
humanos que, ao longo da história,
mais estiveram submetidos à cruelda-
de e à espoliação. Lembra-nos João
Batista Pereira ( 2001) que, há pouco
mais de um século, a própria humani-
dade do negro era, ainda, posta em
questão. O movimento abolicionista
procurava justificar a abolição dos es-
cravos com base no reconhecimento
de sua condição de gente2
semelhan-
te aos demais parceiros sociais que
construíram o país (p.67). Passado
quase um século da abolição do traba-
lho escravo e plenamente consolida-
dos os processos de urbanização e de
industrialização no país, o que, na ex-
pectativa dos estudiosos de meados
do século XX, viria promover a integra-
ção do negro à sociedade de classes,
mostram-nos as estatísticas oficiais
que pertencem à população negra os
mais precários indicadores de condi-
ções de vida, demonstrando, como ar-
gumenta Carlos Hasenbalg (1979),
que a persistência histórica do racis-
mo, na sociedade brasileira, já não po-
Delcele Mascarenhas Queiroz 1
Este texto pretende contribuir
para o debate acerca da adoção
de políticas de combate ao
racismo e à discriminação no
Brasil, especialmente no âmbito
do sistema de ensino.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 57
de mais ser explicada como uma he-
rança do período escravista, como me-
ro legado do passado, mas como ser-
vindo aos complexos e diversificados
interesses dos grupos racialmente do-
minantes no presente (p.11). É nesse
sentido que, assinala o autor, no Brasil,
a raça como atributo adscrito, social-
mente elaborado, continua a operar
como um dos critérios mais importan-
tes no recrutamento às posições da
hierarquia social (idem p.180).
Embora nos imaginemos um país
racialmente democrático, as evidênci-
as de uma sociedade que pratica “can-
didamente” a discriminação e o pre-
conceito para com os negros, estão
por toda parte. As pesquisas mostram
que, na educação, por exemplo, man-
tidos os mesmos níveis de renda, cri-
anças negras têm uma trajetória esco-
lar mais precária e mais acidentada do
que as crianças brancas (Rosemberg,
1991). No cotidiano escolar, crianças
brancas e negras recebem tratamento
afetivo diferenciado (Cavalleiro, 2002).
No ensino superior, mesmo nos esta-
dos onde são a maioria da população,
os negros estão representados em
proporções mais reduzidas que bran-
cos da mesma condição econômica
(Queiroz, 2002). No mercado de traba-
lho, negros, com a mesma escolarida-
de, estão em postos de trabalho infe-
riores aos dos brancos (Santos, 2001).
No cotidiano das relações sociais, com
não rara freqüência, ao negro é dis-
pensado um tratamento inferiorizante
e ofensivo (Guimarães, 1998), mesmo
quando dispõe de condição econômi-
ca elevada (Hanchard, 1996).
No entanto, em que pesem todas
essas evidências, as demandas da po-
pulação negra por políticas que pos-
sam vir a reverter suas históricas des-
vantagens, têm encontrado fortes rea-
ções de setores da sociedade brasilei-
ra, a exemplo do combate, quase coti-
diano, da imprensa à idéia de cotas
para negros, nas universidades brasi-
leiras. Com relação especificamente às
“cotas”, a reação tem-se utilizado do
argumento de uma suposta desqualifi-
cação do ensino, caso estudantes ne-
gros venham a ingressem na universi-
dade, através de política de reserva de
vagas.
É a partir dessas considerações que
queremos analisar a participação de
brancos e negros no ensino superior,
examinado dados da pesquisa realizada
com os estudantes que concorreram ao
vestibular, na Universidade Federal da
Bahia-UFBA, no ano de 20013
.
Negros e brancos no vestibular
Anualmente, a UFBA aprova, em
seu vestibular, um número de estu-
dantes muito superior àquele que é
classificado. Isto é, uma parcela dos es-
tudantes apresenta desempenho sufi-
ciente para ingressar na Universidade,
sem, contudo, obter o direito de fazê-
lo, em decorrência do limitado núme-
ro de vagas que é oferecido pela Insti-
tuição.
Na população de aprovados, 40,4 %
dos estudantes se definiram como
brancos, 44,3% como pardos, 10,4%
como pretos e 4,9% como “outros”
que, nesta análise, inclui as categoria
amarelos e indígenas. Entre os aprova-
dos que tiveram acesso às vagas dispo-
níveis, portanto, os classificados, a pre-
sença de brancos se eleva, em função
da redução dos pardos e pretos, como
se mostra tabela a Tabela 1 a seguir:
Aprovação no vestibular, origem
escolar e pertencimento racial
O exame do tipo de escola média
freqüentada pelos estudantes aprova-
dos mostrou uma elevada participação
dos oriundos de escolas particulares.
Isto ocorre em quase todos os contin-
gentes raciais, com exceção dos pre-
tos. Entre estes, está a maior presença
de estudantes que fizeram seus estu-
dos médios, numa escola pública esta-
dual. Se somarmos a eles os que fize-
ram a maior parte do curso médio nu-
ma escola desse tipo, teremos 40% do
contingente.
Entre os estudantes brancos, dois
terços vieram de escolas particulares,
indicando as melhores condições de
vida desse grupo, que pôde arcar com
os custos de uma preparação acadê-
mica mais orientada para as exigências
do exame vestibular. Está entre os pre-
tos a menor participação na escola
particular; apenas 34,6% dos estudan-
tes, desse segmento, freqüentaram
uma escola desse tipo, isto é, sua par-
ticipação está mais de trinta pontos
percentuais aquém daquela verificada
entre os brancos.
Um dado merece destaque na aná-
lise sobre a origem escolar dos estu-
dantes pretos. Trata-se da participação,
nesse contingente, dos oriundos da es-
cola pública federal ou da antiga Esco-
la Técnica Federal, atual CEFET. Pode-
se observar, na tabela a seguir, que es-
tá, entre eles, a maior participação dos
que fizeram aí seu curso médio. Esse
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
58 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Cor Aprovados Aprovados classificados Aprovados
não Classificados
N % N % N %
Branca 4,620 40,4 1324 44,2 3296 39,2
Parda 5062 44,3 1255 41,9 3807 45,1
Preta 1190 10,4 284 9,5 906 10,7
Outra 556 4,9 132 4,4 424 5,0
Total 11428 100,0 2995 100,0 8 433 100,0
Fonte: CPD/UFBA
Tabela 1 - Estudantes aprovados no vestibular. UFBA -2001
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 59
dado confirma achados de outros es-
tudos que temos realizado, sobre ori-
gem escolar e pertencimento racial
dos estudantes do ensino superior, e
assume expressiva relevância por se
tratar de uma escola consideradas de
excelência, nesse nível de ensino. A
significativa presença de estudantes
pretos e também pardos, oriundos da
Escola Técnica, entre os aprovados,
mostra a importância de uma escola
pública, de boa qualidade, para a su-
peração da profunda desigualdade de
oportunidade entre os segmentos ra-
ciais, no acesso à educação superior.
Os estudantes negros e a
“excelência” do ensino superior
Anteriormente, apresentamos in-
formações sobre os estudantes apro-
vados, mostrando que significativa par-
cela, aproximadamente o triplo, não
consegue ingressar na Universidade
por falta de vagas.
Para demonstrar que promover o
acesso de estudantes negros ao ensi-
no superior não implica rebaixar os cri-
térios de seleção, hoje, praticados pela
universidade, selecionamos, para exa-
me, os estudantes pretos e pardos,
agregados na categoria “negros”, apro-
vados nos cursos considerados de ele-
vado prestígio social4
, na UFBA. Toma-
mos estes cursos justamente porque
são aqueles que dão acesso às carrei-
ras mais valorizadas, seja porque elas
estão, em geral, entre as mais bem
pagas do mercado de trabalho, seja
porque a tradição assim as consolidou.
E, deste modo, são o alvo das maiores
disputas entre os candidatos ao vesti-
bular, portanto, aqueles cuja aprova-
ção requer elevado desempenho aca-
dêmico.
Assim, estamos tratando de estu-
dantes negros de excepcional desem-
penho, vindos de escolas tanto priva-
das quanto públicas. Apesar do enor-
me esforço que fazem as famílias, em
nossa realidade, para evitar que seus
filhos estudem em escolas públicas, as
informações da Tabela 3, a seguir, mos-
tram que 743 deles freqüentaram es-
colas públicas, o que indica a presença
de estudantes com baixos níveis de
renda familiar.
Verificando os níveis de renda fami-
liar dos oriundos dessas escolas, cons-
tatamos que a faixa de maior concen-
tração é a que está entre seis e dez SM
(salários mínimos). Uma proporção de
80% do contingente tem renda fami-
liar de até dez SM, o que indica níveis
reduzidos de renda, considerando que
a média dos estudantes da UFBA está
na faixa de dez a vinte SM. Selecio-
nando os oriundos da escola pública
federal, percebemos que embora a
faixa de maior concentração seja tam-
bém a de seis a dez SM, o contingente
que tem rendimento familiar até dez
SM (67,7%) é menor que aquele en-
contrado entre os que vieram de esco-
las publicas em geral, demonstrando
que, efetivamente, os estudantes da
escola publica estadual são os que se
encontram em maior desvantagem.
Retomando os dados da Tabela 3,
podemos verificar que, dos 743 estu-
dantes negros aprovados em cursos al-
tamente valorizados, apenas 167 foram
classificados. O que significa que 576
estudantes negros foram aprovados no
vestibular, em cursos de elevado prestí-
gio social, mas não puderam ingressar
na Universidade. Esta não é uma perda
qualquer para um segmento social com
a história perversa que tem o negro na
sociedade brasileira. Foram 576 estu-
dantes que, depois de romper todas as
barreiras (vide os seus níveis de renda
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Escola Branca Parda Preta Outra Total
Municipal 2,2 1,9 2,1 1,5 2,0
Estadual 16,4 28,0 37,5 16,8 23,3
Federal 6,1 11,7 18,6 8,4 9,8
Particular 66,4 50,2 34,6 64,1 56,5
Comunitária 0,5 0,5 - 0,8 0,5
Supletivo 1,1 1,5 0,4 1,5 1,2
Maior parte em escola pública 2,4 3,2 2,5 3,1 2,8
Maior parte em escola particular 4,9 3,0 4,3 3,8 4,0
Total 100 100 100 100 100
Fonte: CPD/UFBA
Tabela 2 - Distribuição percentual dos estudantes aprovados no
vestibullar segundo a escola média freqüentada. UFBA -2001
Curso Particular Estadual Federal Municipal Pública
Tabela 3 - Distribuição dos estudantes NEGROS (pretos + pardos) aprova-
dos no vestibular, segundo a escola média freqüentada e o curso -2001
Medicina
Direito
Odontologia
Administração
Ciênc, Computação
Eng. Elétrica
Psicologia
Eng. Civil
Eng. Mecânica
Arquitetura
Eng. Química
Total
17
58
11
49
56
67
28
111
63
58
58
576
3
2
-
2
1
2
1
4
7
3
2
27
-
-
-
-
-
1
-
2
-
-
-
3
8
32
5
11
27
31
12
43
21
18
18
226
2
7
1
7
9
8
2
10
15
16
16
93
6
24
6
36
28
34
15
64
35
37
38
323
4
6
1
12
14
5
4
4
5
8
8
71
121
103
87
95
56
48
62
81
43
60
46
802
59
33
20
28
28
20
14
25
13
9
9
258
Fonte: UFBA Class.= aprovados classificados
Apr. ñ. Class. = aprovados e não classificados por falta de vagas
Clss. Apr. Clss. Apr. Clss. Apr. Clss. Apr. Apr.
ñ. class ñ. class ñ. class ñ. class ñ. class
familiar) que um negro tem que ultra-
passar até chagar às portas da universi-
dade, e, mesmo tendo preenchido, ple-
namente, todos os requisitos exigido
para a sua aprovação, foram impedidos
de ser médicos, advogados, odontólo-
gos, administradores, engenheiros, ar-
quitetos, psicólogos.
Considerações Finais
Neste ponto, passamos às conside-
rações finais, vez que este texto não
pretende ser exaustivo, mas apenas
apresentar alguns elementos que pos-
sam contribuir com a discussão sobre
a pertinência da adoção de políticas de
ação afirmativa para negros, no siste-
ma educacional brasileiro.
Consideramos que a adoção de me-
didas que viessem promover o acesso
desses estudantes às vagas que lhe ca-
bem pelo seu excelente desempenho
não seria um privilégio, mas o justo re-
conhecimento do mérito de quem aí
chegou, apesar dos obstáculos.
Poder-se-ia argumentar que tam-
bém há estudantes, de outros segmen-
tos raciais, na mesma situação dos ne-
gros. No entanto, não é demais lem-
brar que, no caso da Bahia, estamos
falando de um contingente que, ape-
sar de representar cerca de 80% da
população, tem, no ensino superior,
quase a mesma participação relativa
que os autodeclarados brancos, que
são apenas um quinto da população
do estado. Embora estejamos tratando
de um estado onde o contingente ne-
gro é majoritário, não podemos esque-
cer que, no país, ele também não é pe-
queno; representa quase a metade da
população total.
As evidências do bom desempe-
nho, no vestibular, para cursos de ele-
vado prestígio, de uma parcela signifi-
cativa de estudantes negros oriundos
de escolas públicas, revelam o quanto
são tendenciosos os argumentos de
certos setores da sociedade brasileira,
no seu combate à idéia da adoção de
políticas voltadas para o acesso da po-
pulação negra ao ensino superior. Os
dados demonstram que o receio de
uma deterioração da qualidade do en-
sino provocada pelo ingresso, na uni-
versidade, de estudantes negros atra-
vés de medida tais como “cotas”, só
pode ser entendido no âmbito de uma
sociedade que pratica um racismo in-
confesso que, como assinalou Hasen-
balg, não pode ter outra razão que ser-
vir aos complexos e diversificados inte-
resses dos grupos racialmente domi-
nantes no presente.
Notas
1. A autora é Doutora em Educação pela
Universidade Federal da Bahia - UFBA, pro-
fessora e pesquisadora da Universidade do
Estado da Bahia - UNEB e pesquisadora asso-
ciada ao Programa A Cor da Bahia, do Pro-
grama de Pós-Graduação em Ciências Sociais
da UFBA. Organizou a publicação O negro e
a Universidade. Salvador: Programa A Cor
da Bahia/ Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais da UFBA. Série Novos To-
ques, N.5, 2002, ISSN 1518-0298
2. Grifo nosso.
3. A referida pesquisa foi desenvolvida no
âmbito do 2º Concurso Negro e Educação, pro-
movido pela Associação Nacional de Pós-
Graduação e Pesquisa em Educação - ANPED.
4. A classificação do prestígio dos cursos
superiores, adotada, tem como referência a
pesquisa sobre o valor das profissões no mer-
cado de trabalho da Região Metropolitana de
Salvador - RMS. A investigação baseou-se
num levantamento junto a empresas de con-
sultoria em RH, que atuam no mercado de
trabalho da RMS, tomou como referência o
elenco de cursos oferecidos pela UFBA e re-
sultou uma escala de prestígio das profissões,
de cinco posições - Alto, Médio alto, Médio,
Médio baixo e Baixo (Queiroz, op.cit.).
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60 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 61
Ações afirmativas para negros
e índios no ensino superior:
as propostas dos NEABs
I. Sobre o Encontro
O presente texto apresenta, de forma
sucinta, um conjunto de propostas e
recomendações sobre ações afirmati-
vas para a população negra no Brasil,
resultantes do Encontro Nacional
sobre Ações Afirmativas nas
Universidades Públicas Brasileiras,
ocorrido na Sala dos Conselhos da
Universidade de Brasília, em dezem-
bro de 2002. Esse Encontro histórico
(agora conhecido como o Encontro
dos NEABs) formou parte do I Fórum
“Diversidade na Universidade”, reali-
zado em Brasília e organizado pelo
Programa de idêntico nome, ligado à
Secretaria de Ensino Médio do
Ministério de Educação, sob a coorde-
nação de Jeruse Romão e Dojival
Vieira. O Encontro congregou 19 pro-
fessores (17 dos quais são negros)
responsáveis pelos
Núcleos de Estudos Afro-
brasileiros, de 14 universi-
dades públicas brasileiras
e de duas universidades
privadas. A mim foi encar-
regada a tarefa de coorde-
nar o encontro pela UnB e
relatar as suas propostas e
deliberações. A escolha da
UnB para sediar o
Encontro foi oportuna,
visto que apresentei, em
colaboração com a Profa.
Rita Segato, uma proposta
de cotas para estudantes
negros na UnBi, a qual se
encontra em discussão no
Conselho de Ensino,
Pesquisa e Extensão
(CEPE) e sua votação é
aguardada para breve.
Estas propostas serão
encaminhadas para o
Programa Diversidade na
Universidade, criado em
2001, para dar início a um
processo de integração
racial, étnica e social, no
ensino superior brasileiro.
José Jorge de Carvalho *
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
62 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Foram definidos como objetivos do
Encontro:
a) reunir os representantes dos
NEABS das universidades para cadas-
trar, mapear e sistematizar programas
e experiências para promoção de aces-
so e permanência da população afro-
brasileira, no ensino superior;
b) discutir estratégias de formula-
ção de política específicas de ação afir-
mativa, nos vários contextos universitá-
rios nacionais;
c) consolidar uma rede nacional dos
NEABs que contribuam para a formula-
ção de políticas de inclusão social para
afrodescendentes, no ensino superior.
Todos os 19 professores que partici-
param do Encontro são lideranças, em
suas universidades, na discussão, fun-
damentada nas suas pesquisas na área
de Educação e Ciências Sociais, sobre a
dificuldade de inserção dos negros no
nosso sistema universitário e sobre a
discriminação racial crônica nesse am-
biente. Cada um dos palestrantes apre-
sentou uma descrição básica da situa-
ção dos NEABs e do estado da discus-
são sobre ações afirmativas, nas suas
respectivas universidades. Somente es-
sa troca rica de informações já nos per-
mite agora pensar em ações de fortale-
cimento dos NEABs, em escala nacio-
nal, e de ampliação do papel do coleti-
vo de professores dos NEABs, na dis-
cussão nacional, sobre implementação
de políticas públicas para a população
estudantil negra.
Cento e quinze anos, após a aboli-
ção da escravidão, a porcentagem de
negros entre os docentes das universi-
dades públicas brasileiras é absurda-
mente baixa: no máximo 1%. Os da-
dos disponíveis no momento nos le-
vam a pensar que a academia brasilei-
ra é uma das mais segregadas racial-
mente em todo o mundo. Não conhe-
cemos situação nacional equivalente
ou sequer próxima da nossa, em que o
grupo racial dominante da população
(considerando que os brancos brasilei-
ros constituem aproximadamente 55 %
desta, segundo os dados aproximados
do IBGE) tenha praticamente empur-
rado o segundo grupo racial dominan-
te, de 45%, e os grupos étnicos origi-
nários (de menos de 1%) para fora
dos benefícios e da participação ativa
em um parque acadêmico gigantesco,
entre os maiores do Sul do mundo, co-
mo é o caso do brasileiro. Certamente
as universidades da África do Sul já são
muito mais integradas racialmente
que as do Brasil, para não falar das
norte-americanas. E Estados Unidos e
África do Sul são sempre duas referên-
cias negativas presentes no discurso
dos defensores da harmonia e da inte-
gração racial supostamente alcançada
pela sociedade brasileira.
O mascaramento do nosso racismo
tem sido construído ideologicamente
no interior das nossas universidades,
daí a importância de se debater a situa-
ção racial da nossa academia, no pró-
prio espaço acadêmico.2
Nesse senti-
do, no encontro dos NEABs, os docen-
tes expuseram claramente essa reali-
dade de exclusão e o silenciamento
que a circunda. Na totalidade dos ca-
sos, e mesmo quando são doutores,
os colegas negros encontram-se isola-
dos em seus departamentos ou facul-
dades e quase nunca podem colocar,
com tranqüilidade, uma agenda de rei-
vindicações dessa realidade de segre-
gação que se reproduz através de me-
canismos vários, que vão da indiferen-
ça conveniente às estratégias políticas
sistemáticas e sutis de preterimento de
candidatos negros às posições discen-
tes e docentes. Apesar de o enfoque
do Encontro ter sido a discussão da
discriminação contra o negro, o coleti-
vo de professores dos NEABs também
reconheceu a necessidade imperiosa
de vagas para os estudantes perten-
centes às nações indígenas e externa-
lizou sua solidariedade à luta dos ín-
dios pelo seu ingresso no ensino supe-
rior, na última recomendação listada
no presente documento.
No momento em que o ANDES se
abre para a discussão da inclusão so-
cial, étnica e racial, damos a conhecer
aos colegas o coletivo de professores
dos NEABs, como uma associação livre
de docentes, de escala nacional, que
possui uma contribuição a dar à Asso-
ciação, oferecendo os argumentos
qualificados para esse debate que de-
verá se ampliar a partir de agora. Afi-
nal, os professores que trabalham nos
NEABs estão entre os que mais conhe-
cem a situação de exclusão racial, no
meio acadêmico brasileiro. Essas pro-
postas foram encaminhadas inicial-
mente ao Programa Diversidade na
Universidade, porém acreditamos que
respondem amplamente à demanda
por propostas colocada à comunidade
de docentes das federais pelos edito-
res de Universidade e Sociedade para
o presente número da revista.
Nossa expectativa, portanto, é de
que o ANDES assuma, junto com o go-
verno que agora se inicia, uma política
explícita de Ação Afirmativa capaz de
promover a integração racial e étnica,
e através do ensino brasileiro, em par-
ticular, nas universidades, por meio de
projetos de preparação, acesso e per-
manência de índios, negros e demais
populações socialmente excluídas, de
modo a promover, efetiva e definitiva-
mente, um ambiente de diversidade
O mascaramento do nosso racismo tem sido construído ideologi-
camente no interior das nossas universidades, daí a importância
de se debater a situação racial da nossa academia
nas nossas universidades, ainda tão es-
candalosamente brancas e elitizadas.
II- Sobre os Núcleos de Estudos
Afro-Brasileiros (NEABs)
1. Como primeira tarefa, o Coletivo
de Professores sugere que o Programa
Diversidade na Universidade promova
um mapeamento nacional dos NEABs
e instituições equivalentes, com ende-
reços, telefones, e-mail, nomes, perfil
de atuação, histórico e trajetória aca-
dêmica até hoje, como subsídio para a
formulação das novas ações de apoio.
2. O Programa deve fortalecer os
NEABs ou organizações semelhantes
existentes atualmente nas universida-
des brasileiras, públicas e privadas, e
estimular a criação de outros, de modo
a que, no final de 2003, todas as uni-
versidades federais e estaduais do país
contem com um núcleo de estudos
dedicado à problemática afro-brasilei-
ra. Nossa compreensão é de que os
NEABs são justamente o tipo de insti-
tuição acadêmica que mais poderá
ajudar a gerar um clima de diversidade
nas universidades. Para tanto, o Pro-
grama deverá apoiá-los com bolsas
para alunos negros e auxílio de pes-
quisas para os professores e alunos, de
modo a que os NEABS possam ser, de
fato, ponto de difusão de idéias e refle-
xão sobre a integração racial e a cultu-
ra afro-brasileira.
3. Em contrapartida a esse apoio
recebido pelo MEC, os NEABs se dis-
porão a estabelecer convênios com o
Ministério para a formação continuada
de professores de ensino médio da re-
de pública. Os NEABs ofertarão cursos
de História da África, História da Cul-
tura Afro-brasileira, Diáspora Africana
nas Américas e Relações Raciais no
Brasil, tão necessários para a formação
pluralista de nossos estudantes. Esses
cursos podem adquirir formatos vários,
tais como ciclo de Palestras, Seminários,
Cursos de Extensão e Pós-Graduação
latu sensu. Nossa recomendação surge
num momento especialmente oportu-
no, visto que o Presidente da República
e o Ministro da Educação acabam de
sancionar a Lei Nº 10.639, que torna
obrigatório o ensino sobre História e
Cultura Afro-brasileira, nos níveis funda-
mental e médio.
Como, no caso do mapeamento
dos NEABs, os projetos de articulação
com o segundo grau devem ser prece-
didos de um levantamento de expe-
riências já existentes em várias univer-
sidades. Eis alguns exemplos.
a) A Universidade Cândido Mendes
(UCAM) já oferece um curso de pós-
graduação latu sensu para professores
de História da rede pública de ensino.
O curso é financiado inteiramente com
recursos da Secretaria Estadual de Edu-
cação do Rio de Janeiro, que também
se ocupa da seleção dos candidatos.
b) A Universidade Federal Flumi-
nense (UFF) também promove cursos
similares, com apoio da Fundação
Ford, e os professores da rede estadual
inscritos recebem bolsa e material di-
dático.
c) O Centro de Estudos Afro-Ori-
entais (CEAO), da Universidade Fede-
ral da Bahia (UFBA), já oferece, no
Mestrado de História, um curso de es-
pecialização em Educação e Desigual-
dades Raciais. Esse curso tem como fi-
nalidade fortalecer os professores de
ensino médio no combate ao racismo
na sala de aula, e ao mesmo tempo
construir as bases para o início de um
diálogo sobre o tema, no interior da
universidade. É também financiado
pela Fundação Ford, porém espera-se
que ele se torne um curso regular da
UFBA e não somente do CEAO.
4. Na mesma linha de ampliação
da formação dos estudantes brasilei-
ros, o MEC deve desenvolver uma re-
flexão séria sobre o atual currículo dos
cursos das nossas universidades, carac-
terizado por um eurocentrismo quase
absoluto. Entendemos que, após o
acesso de estudantes negros através
das cotas, o currículo da universidade
brasileira não pode se manter o mes-
mo e os NEABs, e outros Centros de
Estudos equivalentes poderão desem-
penhar esse papel de ajudar a repen-
sar o currículo eurocêntrico atual e pro-
por um currículo que contemple de fa-
to a nossa diversidade histórica, social,
racial, étnica e cultural. Como nos ca-
sos anteriores, seria mais produtivo
que nos baseássemos nas experiên-
cias já existentes, como é o caso do
Centro de Estudos Afro-Orientais da
UFBA, que já promove cursos sobre
História da África.
III - Sobre a presença de estu-
dantes negros no ensino médio
1. Na formação de professores para
a rede pública, é notória a ausência de
informação qualificada sobre a ques-
tão racial, no currículo dos cursos. Em
algumas universidades, o tema apare-
ce como disciplina seletiva, porém de-
vemos contar com uma disciplina que
trate da questão racial em todos os
cursos de formação de professores, to-
mando em conta as várias dimensões
do problema: o aspecto histórico, da
construção do racismo no Brasil; o as-
pecto sociológico, do modelo de dis-
criminação racial específico que en-
frentamos atualmente; o papel da in-
tervenção didática mesma em face da
discriminação racial; e a questão da
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 63UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
É notória a ausência de informação qualificada sobre
a questão racial, no currículo dos cursos. Em algumas
universidades, o tema aparece como disciplina seletiva.
identidade, que toca a dimensão psi-
cológica do racismo. Todas essas di-
mensões devem ser trabalhadas si-
multaneamente para alcançarmos
uma transformação do ambiente esco-
lar, como um local de fato integrado
racialmente e deveras aberto à diversi-
dade. Podemos ressaltar aqui a coinci-
dência entre nossa proposta do trata-
mento multidimensional da questão
racial e os aspectos listados no conteú-
do programático do curso obrigatório
sobre História e Cultura Afro-brasileira
definido pela Lei 10.639, recentemen-
te aprovada.
O ideal seria contar com uma disci-
plina obrigatória, que desse conta de
cobrir todas essas dimensões, ao mes-
mo tempo que incluísse a temática
racial em disciplinas específicas das di-
versas áreas do saber acadêmico. No
caso dos cursos de Licenciatura, enfati-
zamos que o racismo é um problema
da educação brasileira como um todo
e, por tal motivo, todos os profissionais
de educação estão obrigados a se pre-
parar sobre o assunto. Todos terão ine-
vitavelmente que se relacionar com
alunos negros e não podemos admitir
pedagogos que excluam alunos ou
que não sejam capazes de intervir face
a sua exclusão no ambiente escolar.
2. O MEC deverá instituir uma
Comissão de Ensino para a população
negra nos moldes da comissão exis-
tente para a população indígena. Essa
comissão deve trabalhar em todos os
graus do ensino: fundamental, médio
e superior. É comum o MEC produzir
orientações pedagógicas importantes
para o combate à discriminação e o
professor na sala de aula não possuir
os elementos formativos suficientes
para resolver os eventuais problemas
de discriminação e, assim, cumprir as
mudanças propostas e desejadas pela
sociedade.
3. Em termos de diversidade na
produção de material didático, o con-
traste com a atenção dada pelo MEC à
educação dos índios pode ilustrar o
descaso do governo a respeito das es-
pecificidades da educação dos negros.
Enquanto existem mais de cem carti-
lhas de ensino fundamental voltadas
para os índios, não temos nenhuma
voltada para a população negra. Se o
MEC finalmente se dispuser a difundir
livros sobre o tema, é conveniente par-
tir da produção que já temos, ao mes-
mo tempo que estimule a elaboração
de novos materiais. Por exemplo, o li-
vro Superando o Racismo na Escola,
publicado com apoio do MEC, já se en-
contra na 3ª edição e ainda não foi dis-
tribuído nas escolas, tal como havia si-
do a promessa do Ministério. Suge-
rimos que a próxima edição seja distri-
buída nas escolas de todo o país.
Igualmente, já existem outros livros
que poderiam ser também distribuí-
dos em regime de co-edição.
4. O Programa Diversidade na Uni-
versidade deve ser política pública bra-
sileira e não ser financiado apenas
com verba estrangeira vinculada a pro-
gramas especiais. A partir das decisões
da III Conferência Internacional contra
o Racismo de Durban em 2001, uma
parte de todas as verbas resultantes de
convênios internacionais que che-
guem ao Brasil em forma de emprésti-
mo (seja pelo BID, pelo Banco Mun-
dial ou outras agências) deve incluir
obrigatoriamente temas como a re-es-
crita da história em nações plurais, o
multiculturalismo na escola e muito
especialmente o combate à discrimi-
nação racial. O próprio Programa Di-
versidade na Universidade já faz parte
dessa política do governo brasileiro
frente à comunidade internacional. Se-
guindo essa linha inaugural e temporá-
ria, o MEC deve assumir essa responsa-
bilidade e colocar esse diferencial em
todas as suas políticas públicas. Caso
contrário, pareceria que é somente co-
mo resposta a pressões internacionais
que o Brasil se dispõe a melhorar as
relações raciais dentro do país.
IV - Sobre as cotas para estu-
dantes negros nas universidades
1. O coletivo de professores dos
NEABS é unânime em considerar que
64 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Estamos convencidos de que todo projeto de ação afirmativa
no Brasil deve incluir algum sistema de cotas,
em caráter imprescindível, emergencial e temporário.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 65
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
as cotas devem formar uma parte cen-
tral das políticas de ação afirmativa,
tão discutidas no Brasil atualmente.
Entendemos perfeitamente que as
ações afirmativas não se esgotam na
política de cotas para a entrada na uni-
versidade. Outras ações são igualmen-
te necessárias, tais como o apoio aos
cursos pré-vestibulares e programas
de apoio à permanência, entre os
quais estão: bolsas de manutenção,
facilidade de moradia e acompanha-
mentos acadêmicos diversos. Contu-
do, estamos convencidos de que todo
projeto de ação afirmativa no Brasil
deve incluir algum sistema de cotas,
em caráter imprescindível, emergen-
cial e temporário.
Cada universidade deverá definir a
porcentagem de cotas reservadas para
negros de acordo com sua realidade
racial local, após discussão do assunto
nos seus respectivos conselhos univer-
sitários. Além das cotas para a gradua-
ção, defendemos também cotas para
os cursos de pós-graduação (mestrado
e doutorado). As informações e estu-
dos de que dispomos até agora indi-
cam que os mecanismos de discrimi-
nação e exclusão contra os estudantes
negros operam ainda com maior in-
tensidade nos exames de seleção para
a pós-graduação.3
Reiterando o ponto fundamental,
dada a situação de exclusão racial tão
alta nas nossas universidades, faz-se
necessária a implementação de cotas
para a graduação, mestrado e doutora-
do, obedecidas as realidades locais e
específicas de cada universidade.
2. Se a porcentagem de estudantes
negros nas universidades brasileiras já
é muito baixa, a de professores univer-
sitários negros é ainda mais baixa, fi-
cando atualmente na faixa de aproxi-
madamente 1% do total dos docentes
das nossas universidades públicas. Di-
ante desse quadro tão ínfimo de re-
presentatividade, propomos a reserva
de cotas para negros também nos no-
vos concursos para professores das
universidades que o MEC venha a abrir
de agora em diante. A integração racial
deve começar na nossa academia de
uma forma plena, generalizada e em
âmbito nacional.
3. As ações afirmativas a ser imple-
mentadas nas universidades devem
incluir também bolsas dos programas
de formação e pesquisa, tais como o
PIBIC, o PET e outros. Além disso, o
MEC deve desenvolver programas de
bolsas exclusivas para a população ne-
gra.
4. Até agora, o esforço para discutir
as cotas tem se concentrado em pou-
cos lugares, na maioria das vezes, nos
NEABs das universidades. Propomos
que o MEC assuma a condução da dis-
cussão nacional sobre as cotas para ne-
gros no ensino superior e que produza
um plano nacional de implementação
das mesmas em todas as universida-
des públicas e de estímulo à sua imple-
mentação nas universidades privadas.
5. Se o MEC quiser implementar as
recomendações internacionais sobre o
combate à discriminação racial (as
quais o Brasil assinou) e desenvolver
seriamente a diversidade na universi-
dade, poderá começar a adotar uma
atitude positiva de liderança do pro-
cesso. Dentro do orçamento geral dos
recursos para as universidades, o MEC
alocará um porcentual específico de
dotações para aquelas universidades
que aceitarem implementar cotas e
ações afirmativas. Acreditamos que es-
se estímulo, através de dotações espe-
cíficas, influenciará positivamente a
condução da discussão sobre cotas
nas universidades, no marco da auto-
nomia universitária: os conselhos uni-
versitários são autônomos para decidir
se implementam ou não as cotas, po-
rém passarão a contar com mais um ti-
po de recurso, caso optem pela erradi-
cação da exclusão racial ora ampla-
mente constatada e debatida.
6. Esta mesma política deverá ser
aplicada com as universidades priva-
das que mantêm convênios com o
MEC, tais como as filantrópicas. Elas
também poderão usufruir a dotação
específica mediante o desenvolvimen-
to de projetos de ação afirmativa e de
integração racial e étnica Se queremos
ser coerentes com a política de inte-
gração, a filantropia deverá mostrar
que incorpora também a dimensão de
cor e etnia.
7. As universidades privadas que so-
licitarem apoio do MEC, deverão asse-
gurar programas de bolsa de manuten-
ção para os alunos negros e carentes.
Em contrapartida, no caso das bolsas
acadêmicas do governo para as univer-
sidades privadas, um percentual das
mesmas deverá ser destinado exclusi-
vamente para os estudantes negros.
8. Observamos, através dos deba-
tes de que participamos, que as rea-
ções mais freqüentes às propostas de
cotas se baseiam em argumentos ain-
da pouco elaborados. Poucos dos que
se dizem contra as cotas são capazes
de justificar, com dados e reflexões
aprofundados, sua decisão colocada,
muitas vezes, de um modo primário,
em termos de sim ou não, como se se
tratasse de uma mera questão de pre-
ferência. Na medida em que se trata
de compromisso de governo, frente a
organismos internacionais inclusive,
uma das ações que o MEC poderá
Propomos a reserva de cotas para negros também
nos novos concursos para professores das universidades
que o MEC venha a abrir de agora em diante.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE66 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
apoiar é a preparação de cartilhas e
documentos que aprofundem os argu-
mentos presentes nas propostas de
cotas. A elaboração e divulgação des-
ses materiais podem ser tarefa da Co-
missão de Ensino para a população
negra, uma vez que esta esteja devida-
mente instalada, tal como sugerimos
acima. A Comissão poderá tomar co-
mo base para confecção de documen-
tos a substancial proposta apresenta à
UnB pelos professores José Jorge de
Carvalho e Rita Laura Segato, intitulada
Uma Proposta de Cotas para Estudan-
tes Negros na Universidade de Brasília.
9. O Programa Diversidade na
Universidade deve preparar imediata-
mente um documento de divulgação,
explicando porque encampa a política
de cotas para a universi-
dade. Esse documento
oficial do MEC servirá de
subsídio para as discus-
sões nas universidades
públicas federais, já vi-
sando à implementação
específica desse meca-
nismo de inclusão.
10. O Programa deve
criar um veículo de infor-
mação e divulgação de
todas as experiências já
em andamento de ação
afirmativa e de cotas nas
universidades (federais,
estaduais e privadas). Há
uma manifesta carência
de informação qualifica-
da sobre esse tema, tan-
to entre discentes quan-
to entre docentes. Suge-
rimos a produção de
uma revista com o título
de “Diversidade na Uni-
versidade”, que divulgue
todas as experiências
que já estão sendo im-
plantadas nas diversas
regiões do país. O co-
nhecimento dessas experiências terá o
efeito de encorajar os professores a
criar programas análogos em outras
universidades.
11. As mesmas ações sugeridas a
respeito da divulgação das experiênci-
as realizadas nas universidades devem
ser tomadas com relação ao ensino
médio. Um discurso perigoso circula
atualmente no país sobre uma supos-
ta falência da escola pública e, muitas
vezes, o que é socializado é apenas o
analfabetismo e os fracassos pedagó-
gicos. Por tal motivo, alertamos o Mi-
nistério para os perigos do discurso de
desqualificação do público. Apesar dos
problemas reais, existem inúmeras
pesquisas que mostram que também
há avanços na educação brasileira. As
experiências interessantes e criativas
que vêm acontecendo no ensino bási-
co e no ensino médio não estão sendo
ainda suficientemente socializadas.
12. O Programa deve estimular prá-
ticas e projetos formulados por profes-
sores das escolas de ensino médio e
fundamental, trabalhando com seus
alunos a questão da diversidade. Os
recursos do Programa devem ser usa-
dos para estimular também, em com-
plementação ao apoio aos NEABs, as
escolas de ensino médio que desen-
volvam projetos equivalentes, ainda
que apropriados para o seu grau. Um
equivalente da revista “Diversidade na
Universidade” deve ser criado para di-
vulgar e discutir essas experiências.
13. O MEC deve instituir a obrigato-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 67
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
riedade do quesito cor nas fichas de
inscrição do vestibular e nos formulá-
rios de matrículas nas universidades
públicas e privadas. Deve igualmente
promover um censo racial detalhado
para a atual população universitária
brasileira, incluindo estudantes, pro-
fessores e servidores.
14. Propomos homogeneizar a ter-
minologia racial que circula nas discus-
sões atuais sobre políticas públicas de
cotas e ações afirmativas e afirmar que
nos referimos ao contingente definido
como de negros e não de afro-descen-
dentes, termo que também tem sido
utilizado. Essa escolha não pretende
negar as categorias usadas pelo IBGE
(pretos e pardos), porém insistir na di-
mensão social da discriminação racial.
Julgamos que o termo afro-descenden-
te pode ser mais facilmente manipula-
do, no momento de implementar polí-
ticas públicas, por pessoas que jamais
foram discriminadas racialmente e que
podem invocar, de um modo oportu-
nista, uma descendência africana irrele-
vante para o seu convívio social.
15. Propomos ao MEC a instituição
de um concurso nacional para desen-
volver e estimular pesquisas na área
de relações raciais, nos três níveis uni-
versitários (graduação, mestrado e
doutorado). Esse concurso seria apoia-
do, além do MEC, por outros organis-
mos, tais como o CNPq, a CAPES, o
MCT e a Fundação Cultural Palmares.
16. O coletivo de professores soli-
cita a convocação de uma audiência
pública, a se realizar até o final de mar-
ço de 2003, com o Conselho Nacional
de Educação para discussão, como
pauta oficial, das ações afirmativas e
das cotas para o ensino superior. Essa
audiência terá por finalidade também
fortalecer o papel da Conselheira
Profa. Petronilha Gonçalves, da Univer-
sidade Federal de São Carlos, a primei-
ra negra a formar parte do Conselho
por indicação do movimento negro.
Apesar desse gesto político de inten-
ção de integração racial no seio do
Conselho por parte do governo, ocorri-
do em abril de 2001, até agora nenhu-
ma discussão foi feita em que ela pu-
desse colocar os problemas específi-
cos enfrentados pelos negros no siste-
ma educacional brasileiro.
Consciente da dramaticidade do
racismo étnico e racial no Brasil, o co-
letivo de professores dos NEABs mani-
festa sua solidariedade à luta dos ín-
dios por vagas nas universidades e
propõe essa audiência pública tam-
bém para dar uma oportunidade de
expressão à colega de Petronilha Gon-
çalves, Profa. Francisca Novantino Ân-
gelo (Francisca Pareci), primeira índia a
fazer parte do Conselho Nacional de
Educação e que se encarregará de le-
var ao Conselho a pauta específica de
reivindicações dos índios brasileiros
para o acesso ao ensino superior.
Post Scriptum
(*) Os professores que contribuíram para
o seguinte documento foram:
Coordenador e Relator: José Jorge de Car-
valho - UnB
Professores dos NEABs Convidados: Alec-
sandro Ratts - UFG; Amauri Mendes Pereira -
UCAM; Ana Beatriz Souza Gomes - UFPI; Be-
nilda Regina Paiva - PUC-MG;
Carlos Benedito Rodrigues da Silva -
UFMA; Delcele Mascarenhas Queiroz - UNEB;
Ilka Boaventura Leite - UFSC; Iolanda de
Oliveira - UFF; Joaze Bernardino - UFG;
José Maria da Silva - UNIFAP; Kabengele
Munanga - USP; Maria Alice Rezende - UERJ;
Maria Aparecida Moura - UFMG; Moisés de
Melo Santana - UFAL;
Neli Góes Ribeiro - UDESC; Nelson Ino-
cêncio - UnB; Nilma Lino Gomes - UFMG; Val-
ter Roberto Silvério - UFSCAR.
Além dos professores representantes dos
NEABS, participaram das propostas aqui apre-
sentadas os seguintes pesquisadores: José
Luís Petruccelli - IBGE; Rosália Lemos - CEFTQ;
Luís Ferreira Makl - Doutorando da UnB; Sales
Augusto dos Santos - Doutorando da UnB;
Valdecir Nascimento - CEAO/UFBA.
O Coletivo de Professores dos NEABS
apresentará, para divulgação no próximo nú-
mero de Universidade e Sociedade, um diretó-
rio nacional dos NEABs, como primeiro subsí-
dio para a execução integral da Proposta II-1.
Notas
1. Ver Carvalho & Segato (2002).
2. Desenvolvi esse tema do racismo aca-
dêmico em uma publicação recente sobre o
negro na universidade brasileira (Carvalho
2002).
3. Um primeiro estudo acadêmico com-
parativo da composição socio-racial de cinco
universidades federais, organizado por Del-
cele Queiroz, confirma que os negros estão
sub-representados em todos os cursos univer-
sitários (Queiroz 2002).
Referências Bibliográficas
CARVALHO, José Jorge Exclusão Racial na
Universidade Brasileira: Um Caso de Ação Ne-
gativa. Em: Delcele Queiroz (org), O Negro na
Universidade, 79-99. Salvador: Novos Toques,
2002.
CARVALHO, José Jorge & Rita Laura Segato
Uma Proposta de Cotas para Estudantes Ne-
gros na Universidade de Brasília. Série An-
tropologia, Nº 314. Depto. de Antropologia,
Universidade de Brasília, 2002.
Queiroz, Delcele. Desigualdades Raciais
no Ensino Superior no Brasil. Um Estudo Com-
parativo. Em: Delcele Queiroz (org), O Negro
na Universidade, 13-55. Salvador: Novos To-
ques, 2002.
José Jorge de Carvalho é Ph.D. em An-
tropologia Social pela Universidade de Que-
en’s de Belfast. Professor do Depto. de An-
tropologia da Universidade de Brasília e
Pesquisador do CNPq. Foi Professor das Uni-
versidades: Queen’s de Belfast, Rice Uni-
versity e Wisconsin-Madison e Pesquisador
Visitante na Univ. da Flórida. Coordena o
PRONEX “Os Movimentos Religiosos no
Mundo Contemporâneo”. Livros: El Culto
Shango de Recife (com Rita Segato), 1987;
Shango Cult of Recife, Brazil (com Rita Se-
gato), 1992; Cantos Sagrados do Xangô do
Recife, 1993; Mutus Liber. O Livro Mudo da
Alquimia, 1995; O Quilombo do Rio das Rãs
(org.), 1996; Rumi - Poemas Místicos, 1996;
Os Melhores Poemas de Amor da Sabedoria
Religiosa de Todos os Tempos, 2001.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
68 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Em 22 de setembro de 2002, a Folha
de São Paulo publicou uma matéria
intitulada “Procuradores suspeitam de
‘rede’ para proteger Fernando Hen-
rique Cardoso”. Segundo a reporta-
gem de Frederico Vasconcelos, estaria
ocorrendo um lobby por parte do
Executivo Federal, no sentido de pro-
teger Fernando Henrique Cardoso
após o final de seu mandato.
Nos 8 anos de mandato, FHC no-
meou três dos 11 ministros do Supre-
mo Tribunal Federal, 22 dos 33 Minis-
tros do Tribunal de Justiça e 22 dos 27
desembargadores do Tribunal Regio-
nal Federal de 3ª Instância – Tribunal
este encarregado de julgar os crimes
supostamente cometidos pelo presi-
dente da república. As nomeações fo-
ram feitas justamente dentro da cir-
cunscrição territorial relativa ao bairro
de Higienópolis, São Paulo, onde está
domiciliado.
Paralelamente, foi encaminhada ao
congresso a aprovação do foro privile-
giado para ex-autoridades, de maneira
a excluir o Ministério Público das inves-
tigações. Segundo o projeto, as denún-
cias contra ex-membros do Executivo
passariam a ser encaminhadas direta-
mente ao Tribunal Regional Federal e,
em seguida, ao Supremo Tribunal Fe-
deral. Em outras palavras, membros do
Executivo passariam a ter um foro privi-
legiado para responder civilmente por
ilegalidades como improbidade admi-
nistrativa. Além disso, o Presidente da
República só poderia ser processado
criminalmente por iniciativa do Procu-
rador Geral da República – em geral,
um funcionário de carreira nomeado
pelo próprio presidente (no caso de
FHC, Geraldo Brindeiro2
).
Procuraremos demonstrar que a
“blindagem” que o Executivo e as eli-
tes brasileiras procuraram construir em
torno de si é parte de um projeto ma-
ior cujo objetivo é o desmonte dos se-
tores mais organizados dos movimen-
tos dos trabalhadores, nos quais o Ju-
diciário passou a assumir um papel
fundamental de repressão e controle.
A desconstrução dos
movimentos coletivos
O final da década de 70 e os anos
80 corresponderam a um período de
acúmulo de forças dos movimentos
sociais e conquistas de direitos até
então vedados às classes trabalhado-
ras. Da fundação da CUT, em 1983, até
a Constituição de 1988, houve uma
potencialização dos movimentos gre-
vistas, especialmente no ABC paulista,
assim como da organização de setores
das classes trabalhadores que até en-
tão vinham sendo sufocados pelos go-
vernos militares. Ao lado dos trabalha-
dores urbanos, os funcionários públi-
cos e rurais avançaram imensamente
em suas organizações, assumindo pa-
pel fundamental na interlocução com
as classes proprietárias brasileiras.
Este poder das classes trabalhado-
ras refletiu-se na institucionalização de
garantias sociais e na regulamentação
do trabalho, presentes na Constituição
Federal de 1988, mesmo que vários
dos direitos previstos na CF fossem, na
verdade, cláusulas de acordos coleti-
vos que, reiteradamente acordadas pe-
los patrões por força do movimento
dos trabalhadores, assumiram o cará-
ter de norma jurídica.
Neste contexto de força dos movi-
mentos dos trabalhadores, o descum-
primento de acordos e a resistência ou
burla patronal à lei tendiam a ser resol-
vidos no confronto e negociação dire-
ta, e a justiça do trabalho aparecia co-
mo um recurso secundário e não tão
eficiente quanto a ação coletiva. Se-
gundo Adalberto Cardoso, “um movi-
mento sindical organizado nos locais
de trabalho, ou mesmo das portas da
empresa pra fora, pode ser o agente
dessa coação (por parte dos trabalha-
dores), operando como injunção insti-
tucional que põe em risco real a possi-
bilidade do lucro das empresas, via
ação coletiva”3
.
A organização coletiva dos traba-
lhadores e a institucionalização de di-
reitos na Constituição desencadeou
uma grande resistência patronal, cen-
trada na tese da iminente “inviabiliza-
ção” da indústria nacional, em virtude
da elevação do “custo Brasil”4
. Estas
elites articularam-se durante o gover-
no Collor que deu início a um proces-
so de desregulamentação do mercado
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
A judiciarização dos conflitos
de classe no Brasil1
Maria Cristina Cardoso Pereira
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 69
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
de trabalho, em especial, mediante
três movimentos do Executivo. O pri-
meiro, em consonância com o Legis-
lativo, consistia em obstacularizar a re-
gulamentação de direitos consagrados
na CF. O segundo, em minar sistemati-
camente as organizações coletivas de
trabalhadores pela extensão de privilé-
gios a setores dispostos a abrir mão de
direitos como a discussão sobre a polí-
tica salarial. O terceiro consistia na am-
pliação do papel de setores do Judi-
ciário Federal5
e sua subordinação às
constantes ilegalidades perpetradas
contra os trabalhadores6
.
É desta época o início dos debates
sobre a Súmula Vinculante e o direito
do Executivo de, em casos “emergen-
ciais”, tomar decisões que, apesar de
francamente inconstitucionais, se justi-
ficavam pela situação de “excepciona-
lidade” vivida pela economia, não de-
vendo ser contrariadas pelo Judiciário7
.
O resultado disso é apresentado por
Cardoso: “enquanto nas décadas de
1970 e 80 a média de acréscimo no
número de processos era pouco supe-
rior a 35 mil por ano, na última déca-
da do século XX esse valor saltou a
mais de 110 mil processos por ano.
Em 1998 as 1.109 varas do trabalho
existentes no país acolheram perto de
2 milhões de processos trabalhistas,
98% dos quais relativos a conflitos in-
dividuais8
.”
No governo Itamar foi editada a MP
1.960/94, que vedava a indexação sa-
larial e cláusulas de correção automáti-
ca de salários em negociações coleti-
vas, revogava dispositivos da Lei 8.542
que garantiam a fixação de aumentos
reais, produtividade e pisos salariais
em livre negociação. Eliminava tam-
bém o princípio da ultratividade de
acordos e convenções coletivas: se até
1992 os contratos coletivos tinham vi-
gência indeterminada, inclusive quan-
do outro ainda estava sendo negocia-
do ou sub judice, as cláusulas do con-
trato anterior continuavam a viger. O
dispositivo legal eliminava essa possi-
bilidade, criando uma “vacância” de di-
reitos durante as negociações coletivas
o que, certamente, enfraquecia o po-
der dos trabalhadores. O recurso ao Ju-
diciário passou a ser estimulado por
força de lei – elevando o poder dos juí-
zes, em especial de segunda instância,
de resolver questões coletivas: a mes-
ma lei (inclusive regulamentada nova-
mente durante o governo FHC através
da MP 1.620/98) retirava de sindicatos
e comissões de trabalhadores o poder
de fiscalizar o cumprimento dos acor-
dos e convenções: no caso, os ofendi-
dos deveriam, individualmente, pleitear
na justiça do trabalho a reparação de
seus direitos, em um claro processo de
“descoletivização” dos trabalhadores9
.
Reformas judiciais e
o Banco Mundial
A judiciarização das relações de
classe ganhou contornos muito mais
agressivos sob o governo FHC. Inicial-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
70 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
mente nossas elites promoveram uma
intensa desregulamentação do merca-
do do trabalho, enviando ao congresso
projetos de lei que, sob o argumento
da “flexibilização” e “modernização”
necessárias ao país, tornavam letra
morta vários direitos estabelecidos na
CLT, instituindo os Planos de Demissão
Voluntária, contrato temporário de tra-
balho, com fim do aviso prévio e redu-
ção do percentual do FGTS, regime de
trabalho em tempo parcial, entre ou-
tras10
, além da denúncia à convenção
158 da OIT.
A tolerância com a tendência patro-
nal em sistematicamente descumprir
ou ignorar normas trabalhistas e o cer-
ceamento da capacidade dos Fiscais
do Trabalho de autuar e multar acarre-
taram um aumento excepcional de
ações individuais na Justiça do Traba-
lho. Tendo em vista a superlotação da
Primeira Instância, o Executivo criou a
figura altamente controversa das Co-
missões de Conciliação Prévia, em cla-
ra oposição à proposta da ANAMATRA
(Associação Nacional dos Magistrados
do Trabalho) que reiteradamente de-
nunciou as CCP como inconstitucio-
nais, passíveis de corrupção e cercea-
doras dos direitos dos trabalhadores.
A subserviência ao Banco Mundial é
clara: este estabelece uma série de con-
dições para a distribuição de benefícios
sociais e empréstimos financeiros que
envolvem diretamente alterações na
legislação trabalhista e no papel do Es-
tado na desregulamentação das rela-
ções de trabalho. O Documento Técni-
co nº 21911
impõe aos países tomado-
res, especialmente Brasil e Argentina,
que adotem novas concepções de justi-
ça, direito do trabalho, emprego, flexibi-
lizando sua legislação e substituindo o
legislado pelo negociado.
Sindicalismo no setor público12
e o Judiciário nos anos FHC
O movimento sindical do setor pú-
blico brasileiro teve um grande impul-
so a partir do final da década de 70,
demonstrando uma articulação não
somente em torno de questões econô-
micas e políticas. As greves desenca-
deadas a partir de 1978, com paralisa-
ções conjuntas de setores diferentes
como professores universitários, fun-
cionários da saúde, médicos, servido-
res do Judiciário, assim como a organi-
zação do ANDES – hoje Sindicato Na-
cional – revelam uma trajetória históri-
ca de enfrentamento direto com o Exe-
cutivo e com instâncias superiores do
Judiciário (responsáveis pelo julga-
mento de conflitos entre trabalhadores
do setor público e Estado).
O tratamento reservado a este mo-
vimento sindical pelas elites organiza-
das em torno de FHC foi, desde o iní-
cio, extremamente duro. A greve de 32
dias dos Petroleiros foi exemplar desta
tendência. Decretada simultaneamen-
te com aeroportuários, telefônicos, ele-
triciários e servidores das universida-
des federais, teve início em 3 de maio
de 1995, depois que a direção da Pe-
trobrás e o Executivo desrespeitaram 3
acordos coletivos assinados em 1994.
Ao final do movimento, havia 85 demi-
tidos, entre eles, Antônio Carlos Spis,
coordenador da Federação dos Petro-
leiros. O Executivo também acionou o
Judiciário, instando-o a declarar a
greve ilegal e impor multas a cada um
dos sindicatos filiados, o que acarretou
a penhora de seus bens e a inviabilida-
de material de suas operações.
Em 1996, o Congresso Nacional
aprovou por consenso o projeto de
anistia aos sindicatos, vetado pelo Pre-
sidente da República. Em 14 de junho
de 2002 novo veto presidencial, este
ao projeto de Jair Menegheli, aprovado
por unanimidade nas 2 casas do Con-
gresso, anistiando os petroleiros demi-
tidos. Uma das argumentações do Exe-
cutivo para o veto é a de que a aprova-
ção representaria “inequívoca desmo-
ralização do Poder Judiciário”. O Exe-
cutivo admitia que o poder Legislativo
não poderia contradizer “decisão so-
berana do Judiciário”, alçando-o à
condição de poder hierarquicamente
superior ao Legislativo13
.
Observe-se que o governo FHC in-
vestiu pesadamente na judiciarização
dos conflitos coletivos e na transferên-
cia da competência de seu julgamento
para as altas esferas do Judiciário Fe-
deral.
Outro exemplo deste comporta-
mento está na greve dos servidores
públicos federais de 2000 que conta-
vam quase 7 anos sem reajustes e
com seus benefícios ameaçados. De-
flagrou-se a greve e imediatamente o
governo apresentou um entendimento
contrário à CF que prevê como legíti-
Nossas elites promoveram
uma intensa desregulamenta-
ção do mercado do trabalho,
enviando ao congresso projetos
de lei que, sob o argumento da
“flexibilização” e “moderniza-
ção” necessárias ao país,
tornavam letra morta vários
direitos estabelecidos
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 71
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
mo o direito de greve do funcionalis-
mo público, remetendo sua regula-
mentação à legislação comum.
A inércia do Legislativo em regula-
mentar o direito de greve foi pronta-
mente respondida pelo Executivo Na-
cional. Este entendia que, se não havia
regulamentação, este direito estaria
automaticamente interditado, conside-
rando que o movimento não passava
de “faltas injustificadas ao trabalho”,
sendo legítimo o desconto de venci-
mentos referentes aos dias de parali-
sação.
O precedente para o desconto dos
dias parados e punições aos grevistas,
como a exoneração a bem do serviço
público, foi aberto em 1995, por oca-
sião da greve dos servidores públicos
federais. Naquele momento, o gover-
no Federal emitiu o “Decreto Autôno-
mo” de nº 1.480/95, francamente in-
constitucional, uma vez que, segundo
o ordenamento jurídico e processual
brasileiro, um Decreto, ato tipicamente
Executivo, não pode, em hipótese
alguma, regulamentar matéria consti-
tucional. Esta só pode ser regulamen-
tada por Lei, isto é, ato emanado do
Poder Legislativo.
O Decreto, por sua vez, remetia-se
ao Regime Jurídico Único dos Servi-
dores Civis da União (RJU). Em outras
palavras, o Executivo Federal, acompa-
nhado dos Estaduais e do próprio Ju-
diciário (como veremos adiante), pre-
tenderam sobrepor o RJU à própria CF,
e passaram a tratar a greve como uma
questão de faltas ao serviço e ausên-
cias injustificadas. O movimento dos
servidores acionou o Superior Tribunal
de Justiça (via Mandado de Injunção),
que acatou como legítimo o movimen-
to grevista, não estabeleu punições,
reconheceu a mora do Legislativo, em
regulamentar a greve, porém afirmou
a “impossibilidade de seu exercício an-
tes da edição da lei complementar”16
.
O recurso, usado em 2000 por
parte do Executivo, à decisão do STJ
sobre a greve de 1995, foi criticado por
inúmeros juristas17
que viram aí um
precedente perigoso. O STJ não consi-
derou a greve ilegal, porém disse que
seu direito não poderia ser exercido, já
que não havia legislação complemen-
tar - inexistindo, também, parâmetros
para o estabelecimento de punição
aos grevistas. A interpretação do Exe-
cutivo foi a de que não se tratava de
greve, mas de falta ao serviço. O Judi-
ciário abriu, assim, a possibilidade de o
Executivo, por meio de Decreto autô-
nomo (porque independente de lei),
regulamentar matéria constitucional.
O Advogado Geral da União, Gilmar
Mendes, foi célere em explicar que o
parecer do STJ, de 1995, amparava o
desconto dos dias parados e a classifi-
cação da greve de 2000 como falta ao
serviço, segundo ele “sob o pretexto de
estarem exercendo o direito de greve.19
O Executivo, amparado pelo Judi-
ciário, procurava descaracterizar o con-
teúdo político do movimento. Diante,
porém, da clara violação ao Estado de
Direito, recuou ao afirmar que não era
intenção daquele poder regulamentar
matéria constitucional via Decreto. Se-
gundo G. Mendes:
“(...) o Decreto não regulamen-
tou o exercício do direito de greve
e não poderia fazê-lo (porque) a
Constituição reservou o assunto à
lei, em sentido formal. Em não
havendo lei, é proibido ao admi-
nistrador público efetuar o paga-
mento dos dias em que os servido-
res não trabalham (...) a Lei no.
8.112, (...) reza a perda da remu-
neração nos casos de faltas, atra-
sos, ausências justificadas e saídas
antecipadas da repartição. Portan-
to, o desconto provém de lei e há
de ser efetuado, sem que repre-
sente aplicação de penalidade20
”.
Por último, a Advocacia Geral da
União apelou para a moral, afirmando
que o seu entendimento estava em
sintonia com a “vontade popular”, em
uma clara “censurização” do movi-
mento e da liberdade política dos fun-
cionários públicos e assumindo para si
a defesa da ordem, da lei e da moral
“públicas”, independente de interesses
políticos ou pessoais21
.
“Repugnaria a consciência de
todo o servidor faltar ou sair do
local de trabalho, transgredindo a
Lei, e receber a retribuição como
se houvesse prestado serviços. Se
a opinião mais generalizada não
toleraria tal pagamento, tem-se
que seria contrário à moral.22”
A greve dos professores das Uni-
versidades Federais de 2001 teve um
caminho diverso dos movimentos
apresentados acima. Não somente
porque assumiu um caráter de con-
fronto muito maior, como se construiu
em torno da paralisação dos docentes
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
O Advogado Geral da União,
Gilmar Mendes, foi célere em
explicar que o parecer do STJ,
de 1995, amparava o desconto
dos dias parados e a classifica-
ção da greve de 2000 como
falta ao serviço
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
um forte apoio de setores da intelec-
tualidade e do Parlamento brasileiro,
entre outros.
A condução da greve também
mereceu um tratamento “criminalizan-
te”, especialmente por parte do Minis-
tro da Educação, Paulo Renato, segun-
do o qual “Quem não trabalha, não
recebe. Ainda mais quando é pago
com dinheiro público23
”. O Judiciário,
quando acionado, manteve o entendi-
mento de que deveria haver o descon-
to dos dias parados, porém provisoria-
mente. Já o Executivo procurou justifi-
car o desconto dos dias parados, sob o
argumento de que a greve seria abusi-
va, uma vez que o ensino era classifi-
cado como atividade essencial, não
podendo ser objeto de paralisação
completa. Observe-se que era o mes-
mo argumento para enquadrar como
ilegal a greve dos petroleiros – apenas
que, neste caso, a lei não menciona,
em nenhum momento, o ensino como
atividade fundamental.
Posteriormente, o próprio Judiciá-
rio foi bastante parcimonioso na atri-
buição de punições aos docentes, cas-
sando o desconto dos dias parados. O
movimento encerrou-se com o atendi-
mento parcial das reivindicações dos
docentes, uma menor radicalização do
Executivo, na aplicação de penalidades
aos sindicatos, como multas e penho-
ra dos bens, e um fortalecimento do
sindicato.
Conclusões
Nos anos FHC, o Estado procurou
transferir parte dos confrontos decor-
rentes de mobilizações coletivas de
trabalhadores para a esfera do Judi-
ciário. Este último vem se tornando
palco de lutas e enfrentamentos nem
sempre acessíveis à compreensão de
pessoas não ligadas à área jurídica.
Além disso, muitos setores da socieda-
de acreditam em um tipo de neutrali-
dade por parte do Judiciário que não
condiz com o caráter político de boa
parte dos entendimentos dos magis-
trados e nem com a forma como se
processa sua nomeação.
Esta aproximação entre Executivo e
Judiciário pode ser o sinal de um certo
esgotamento de uma prática tradicio-
nal no Brasil de aproximação entre
Executivo e Legislativo e parece estar
fazendo, inclusive, com que o Judiciá-
rio assuma funções típicas do poder
Legislativo.
Paralelamente, a intervenção do Ju-
diciário parece estar amenizando o
desgaste que o confronto do Executivo
com o movimento coletivo dos traba-
lhadores indicava desde a década de
80. Já que são tantos os trâmites buro-
cráticos e tão distante é a figura do juiz
da do cidadão comum, o recurso à
ação judicial – seja ela individual ou
coletiva – parece ser preferível a um
confronto direto e a ampliação da or-
ganização coletiva dos trabalhadores.
Especialmente em tempos em que
as relações e direitos de consumo pa-
recem estar pautando as relações so-
ciais – veja-se, por exemplo, o trata-
mento oferecido, especialmente nas
universidades privadas, aos alunos e
aos professores para verificarmos que
as relações baseadas na confiança e
na discussão estão diminuindo e se
radicalizando - a justiça aparece como
um “tertio” a que todos podem recor-
rer, sempre individualmente. Com isso,
ocorre um apagamento das relações
coletivas, uma diminuição do esforço
do trabalhador em fortalecer os laços
de solidariedade com seus compa-
nheiros, ao invés de recorrer individual
e solitariamente a um poder cuja lin-
guagem e procedimento lhe são tão
distantes.
O processo de judiciarização das
relações sociais não terminou. A men-
talidade presente em muitos movi-
mentos sociais, como sindicatos e as-
sociações, é basicamente assistencia-
lista e muitos movimentos acabaram
se tornando “consumidores” da justi-
ça. Além disso, o Judiciário de instân-
cias superiores, criatura de governos
passados, continua até a aposentado-
ria de seus ministros, compulsória aos
70 anos. Até lá a “blindagem” conti-
nua. Depois, tudo dependerá do proje-
to de sociedade que o novo governo
tem em mente assim como as condi-
ções e a forma como se dará uma
eventual reforma do Judiciário.
Notas
1. Agradecimentos especiais a Jair Jatobá,
que pacientemente me auxiliou a levantar o
material disponível no ANDES para meu pro-
jeto de doutorado, do qual este texto faz
parte, a Edmundo Dias pela leitura e comen-
tários e a Moema Joffily Dias, pela competen-
te revisão. Eventuais erros são de inteira res-
ponsabilidade da autora.
2. Foi o próprio pai de Geraldo Brindeiro,
Dep. Federal Bonifácio Andrada (PSDB- MG)
quem elaborou e encaminou o projeto de lei
que restabelece o foro privilegiado.
72 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
O próprio Judiciário foi
bastante parcimonioso na
atribuição de punições aos
docentes, cassando o
desconto dos dias parados.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 73
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
3. CARDOSO, A. Moreira – Direito do tra-
balho e relações de classe no Brasil contem-
porâneo. Trabalho apresentado no seminário
temático “Trabalhadores, sindicatos e a nova
questão social” (ST)21), XXV Encontro Anual da
ANPOCS, Caxambu, 16-20 de out. de 2001. p. 22.
4. No meio empresarial, “custo Brasil” é
como se convencionou chamar despesas com
a folha de pagamento que não fazem parte
do chamado “salário direto” – ou aquele que
o trabalhador recebe por hora trabalhada.
Existem duas correntes que polarizam as in-
terpretações sobre os “encargos sociais no
Brasil. A primeira, predominante no governo
FHC e no MTE, exige o afastamento do Estado
das relações de trabalho e a supressão da jus-
tiça do trabalho para que o Brasil se torne
“competitivo” internacionalmente e ocorra ge-
ração de empregos. A segunda corrente,
representada pelo DIEESE, entende que
“encargos sociais não são sinônimos de obri-
gações trabalhistas, são apenas parte delas.
Salário é a remuneração total recebida inte-
gral e diretamente pelo trabalhador, como
contraprestação pelo seu serviço ao emprega-
dor. Fonte: DIEESE, nº 12, Encargos Sociais no
Brasil – conceito, magnitude e reflexos no em-
prego. DIEESE, São Paulo, agosto de 1997. P. 15.
5. A título de exemplo, o executivo editou
medida provisória 185, através da qual se atri-
buía ao presidente do Tribunal Superior do
Trabalho a competência para suspender sen-
tença normativa dos Tribunais Regionais do
Trabalho, em dissídios coletivos.
6. Foge ao nosso escopo a análise sobre
como o executivo obstacularizou a aprovação
de direitos sociais. A este respeito, ver o estu-
do de Clémerson Merlin – Atividade legislati-
va do Poder Executivo no Estado contemporâ-
neo e na constituição de 1988. São Paulo,
Editora RT, 1993.
7. A este respeito, é ilustrativa a declara-
ção de Ives Grandra Martins, especialista em
direito Constitucional e Tributário, sobre as in-
constitucionalidades do Plano Collor: “Como
cidadão reconheço que o plano não tem re-
torno (...). Por esta razão, entendo que o,
salvo casos extremos de absoluta necessida-
de, o Poder Judiciário não deve ser acionado,
para que não se atribua à classe dos advoga-
dos ou dos magistrados a responsabilidade
pelo insucesso da iniciativa presidencial, en-
tendo mesmo que o Congresso deva, no que
concerte à espinha dorsal do plano, que é o
enxugamento da liquidez do mercado, não
alarcear o perfil da MP168, para que também
não seja eventualmente responsabilizado.”
MARTINS, I. Gandra – O plano Collor. Folha de
São Paulo, 14;03;1990. Caderno A, p. 3.
8. CARDOSO, Idem. p. 2.
9. Estes são apenas alguns exemplos. Há
inúmeros outros, como as decisões sobre
ações direta de inconstitucionalidade e a po-
lêmica sobre os enunciados 316, 317 e 323
do TST, revogados pelo STF.
10. Ver uma exposição mais detalhada
das medidas de precarização do trabalho no
texto 38, Diretoria do ANDES/SN, apresentada
no 20o Congresso, Rio de Janeiro, RJ, entre 15
e 21 de fevereiro de 2001.
11. BANCO MUNDIAL. O Setor judiciário
na América Latina e no Caribe – elementos
para a reforma. Doc. Técnico 319, junho de
1996. Ver, em especial, a p. 10.
12. Estamos considerando como “setor
público” não apenas aquele que congrega tra-
balhadores submetidos ao Regime Estatu-
tário, mas também trabalhadores que, apesar
de não serem funcionários públicos, têm suas
atividades classificadas como públicas pela
própria Constituição, como a de trabalhadores
em setores essenciais da economia e aqueles
cujo vínculo não está subordinado somente
ou diretamente à CLT.
13. Discurso do Senador José Eduardo
Dutra, PT-SE, citado por www.jornalex-
press.com.br/noticias/detalhes.
14. Segundo o art. 84, inciso IV da CF, cabe
ao presidente da República editar Decretos e
regulamentos para fiel execução das leis. O art.
5º da constituição, inciso II, afirma que “nin-
guém será obrigado a fazer ou deixar de fazer
alguma coisa senão em virtude de lei”.
15. RJU (Lei no. 8.112/90), artigos 116, X
e 117, I, que aludiam a faltas ao serviço e não
a greve. O RJU exige, igualmente, que, para
que haja desconto, seja primeiro instaurado
processo administrativo: “não se procederá o
desconto na remuneração do servidor público
senão em decorrência de lei ou mandado
judicial” (art. 45).
16. Três ministros foram vencidos – Se-
púlveda Pertence, Carlos Velloso e Marco Au-
rélio (é preciso verificação de qual foi o seu
entendimento para saber até que ponto fo-
ram “vencidos”). A ementa foi redigida nos
seguintes termos:
“EMENTA: Mandado de injunção coletivo
– Direito de greve do servidor público civil –
Evolução desse direito no constitucionalismo
brasileiro – Modelos normativos no direito
comparado – prerrogativa jurídica assegurada
pela Constituição (art. 37, VII) – Impossibi-
lidade de seu exercício antes da edição de lei
complementar – Omissão legislativa – Hipóte-
se de sua configuração – Reconhecimento do
estado de mora do Congresso Nacional – Im-
petração por entidade de classe – Admissibi-
lidade – Writ concedido. (Mandado de Injun-
ção nº 20 – DF – Relator Ministro Celso de
Mello, Tribunal Pleno, julgado em 19/05/94,
acórdão publicado no DJU de 22/11/96, p.
45.690)
17. Celso Bastos, Celso A. Bandeira de
Mello e mesmo Hely Lopes Meirelles, que crê
na possibilidade e constitucionalidade de
Decreto Autônomo. Revista Consultor Jurídico,
7 de junho de 2000. A OAB, por exemplo, pro-
nunciou-se contra a decisão da Suprema Cor-
te, ao entender que o corte no ponto de gre-
vistas era ilegal. Além disso, denunciou o fato
de que, indiretamente, a Suprema Corte ratifi-
cou a classificação da greve como mera falta
ao serviço ao entender que o direito (de gre-
ve) não poderia ser exercido sem a manifesta-
ção do legislativo. Corte de ponto de grevistas.
In: Revista Consultor Jurídico.
www.conjur.com.br
18. Gilmar Mendes foi nomeado Ministro
do Supremo Tribunal Federal em 28 de maio
de 2002.
19. Revista Consultor Jurídico. 15 de ju-
nho de 2000. www.conjur.com.br
20. Justificativa do Advogado Geral da
União. Idem
21. Há interessantes estudos realizados
pela ciência jurídica alemã sobre a relação en-
tre a incorporação da moral “coletiva” por par-
te do judiciário e do executivo, em um claro
movimento de absorção das reivindicações
populares e das demandas difusas de “mora-
lização do Estado” em nome, em geral, de in-
teresses particulares, dos quais a administra-
ção pública é representante. V. a esse respeito
MAUS, Ingeborg – judiciário como superego
da sociedade. Novos Estudos Cebrap, novem-
bro de 2000.
22. Revista Consultor Jurídico. 15 de ju-
nho de 2000. www.conjur.com.br
23. ENTREVISTA DE PAULO RENATO AO
CORREIO BRASILIENSE. 25/10/2001. Disponí-
vel em www.educacao.gov.br/acs/jornalis/-
entrevista/1401.shtm
Maria Cristina Cardoso Pereira é Douto-
randa em Ciências Sociais pela Unicamp,
Mestre em Sociologia pela Unicamp e Ba-
charel em Direito e História pela PUC-SP
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE74 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Introdução
Uma vez que a homossexualidade, na
nossa cultura, carrega o estigma do
preconceito, por ser uma prática
desaprovada a partir de um ideal
heterossexual, este trabalho tem
como objetivo mostrar que a preg-
nância do discurso médico do século
XIX e sua ideologia têm atravessado a
noção psicanalítica de homossexuali-
dade desde Freud até os dias de hoje,
legitimando a exclusão social dos
homossexuais e a permanência deles
no rol da chamada minoria sexual.
Freud e a homossexualidade
As idéias freudianas sobre a homos-
sexualidade foram criticadas por alguns
escritores (Spencer, 1995), antropólo-
gos (Fry e MacRae, 1984), militantes do
movimento gay e outros. Parte dessas
críticas parece ter realizado uma leitura
simplificada, desconsiderando a obra
no seu conjunto teórico, influenciando-
se pela interpretação dos analistas pós-
freudianos. No fragmento seguinte, ve-
mos a difusão de uma concepção evo-
lucionista da psicanálise em que a se-
xualidade é concebida dentro do pa-
drão heterossexual, conforme o depoi-
mento dos antropólogos Fry e MacRae
(1984:73), sendo o primeiro um ex-
militante do movimento gay: “(...) a psi-
canálise presume que a sexualidade
tenha objetivos predeterminados, ina-
tos, além dos adquiridos. Presume a
heterossexualidade como a condição
sadia e a procriação como a sua finali-
dade máxima. O que ele [Freud] consi-
dera o ato sexual maduro é o coito
heterossexual e os que preferem outras
variantes são considerados imaturos”.
Os autores expressam o pensa-
mento popular acerca da homosse-
xualidade construído a partir da difu-
são das idéias psicanalíticas a respeito.
Embora admitam o reducionismo, ain-
da assim reconhecem a força desta
crença transformada em verdade e lhe
dão crédito. Sob o pretexto de um dis-
Acyr Maya (2)
Homossexualidade:
o discurso médico e a exclusão
do sujeito(1)
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 75
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
curso libertador que acentua a homos-
sexualidade como uma produção ideo-
lógica, os autores paradoxalmente aca-
bam por reforçar o preconceito ao
aderir ao imaginário social. A formula-
ção dos autores denuncia também uma
sobreposição do discurso da imaturi-
dade emocional ao discurso da ano-
malia, em que a psicologização da psi-
canálise se confunde com o saber mé-
dico, embora a própria linguagem seja
impotente para dar conta da noção de
homossexualidade, como é ilustrado,
a seguir: “Aqueles que conhecem a
fundo os trabalhos de Freud podem
considerar este breve resumo como
uma simplificação absurda. Talvez seja.
Mas o fato é que estas idéias, atribuí-
das a Freud, se tornaram parte do sen-
so comum. Como tal, adquiriram a for-
ma de dogmas quase inquestionáveis
e informam a maneira pela qual muita
gente pensa a homossexualidade. Por
exemplo, o desespero que se abate
sobre pais e mães quando descobrem
que um filho ou uma filha é homosse-
xual, muitas vezes, se deve a este tipo
de interpretação, que atribui ‘culpa’ a
eles. Mas não há razão nenhuma de
aceitar estas interpretações que colo-
cam arbitrariamente a heterossexuali-
dade como a expressão da maturidade
plena. Chamar o homossexual de ima-
turo é apenas outra maneira de depre-
ciá-lo sem chamá-lo de doente” (Fry e
MacRae, 1984:74).
A partir desta crença transformada
em verdade, Fry e MacRae denunciam
a apropriação da teoria psicanalítica a
serviço de uma ideologia. Isto nos cha-
ma a atenção para a questão da difu-
são e da transmissão da psicanálise
nas instituições e escolas psicanalíti-
cas, em particular, no tocante à difusão
e à transmissão da noção de homosse-
xualidade. Por um lado, a difusão so-
cial das idéias freudianas realizou uma
apropriação ideológica da teoria, por
outro lado, a transmissão biologizante
e psicologizante do pensamento freu-
diano, em particular, pela IPA (Inter-
nacional Psychoanalytical Association)
(3). A homossexualidade, nesse caso,
é vista como uma essência universal,
em série, sem considerar o sujeito da
diferença. Dizem eles: “O famoso para-
digma da fábrica de bichas constituída
de uma mãe dominadora e um pai au-
sente é seguramente apenas uma rei-
teração da ideologia de que apenas a
família patriarcal é realmente saudável,
ignorando a realidade da vida familiar
em geral. O fato é que, para todas as
crianças, as mães realmente aparecem
como personagens dominadoras. As-
sim, se a teoria fosse válida, o proble-
ma que teríamos que enfrentar seria o
de descobrir as causas da heterosse-
xualidade...” (Fry e MacRae, 1984:74).
Embora Fry e MacRae ressaltassem
que as idéias que criticavam eram
“atribuídas” a Freud, ou seja, talvez não
fossem dele, não se preocupam em
esclarecer a autoria das mesmas. Já
Spencer (1995:303) estabelece uma
distinção entre Freud e seus seguido-
res, como vemos: “Entretanto, a opi-
nião da psicanálise, que incluía tanto
os seguidores de Freud quanto seus
críticos, era ainda de que a homosse-
xualidade tinha um conteúdo patológi-
co. Este conceito obscureceu todo o
século XX, até bem recentemente”.
Se, da parte de Freud, houve pru-
dência quanto ao uso da noção psica-
nalítica de homossexualidade, do lado
dos pós-freudianos, ao contrário, a
construção de uma teoria da homos-
sexualidade como um desvio do de-
senvolvimento serviu à demanda so-
cial, que recriminava os homossexuais,
como ilustra Isay (1996:142): “A teoria
da homossexualidade como um des-
vio de desenvolvimento, elaborada e
codificada entre 1940 e 1980, aumen-
tou a aceitação da psicanálise dentro
da cultura americana predominante. A
teoria expressava o preconceito social
da sociedade, na qual os analistas ha-
viam sido criados, treinados e profis-
sionalizados (...)”.
A teoria do desvio do desenvolvi-
mento se fundamenta na interpreta-
ção de alguns conceitos freudianos vis-
tos sob uma ótica marcadamente evo-
lucionista. O evolucionismo foi funda-
mentado no conceito médico de ins-
tinto sexual do século XIX. Parte de
nossa herança genética, esse instinto
objetivaria à reprodução e à manuten-
ção da espécie, o que deu ao conceito
de família importância política e eco-
nômica, por ser capaz de unir os instin-
tos sexuais aos interesses sociais do
capitalismo (Costa, 1995:142). A hete-
rossexualidade havia se tornado um
bem. Dessa forma, ao conceituar a ho-
mossexualidade como “desvio” ou
“perversão” do instinto sexual, no sen-
tido de perversidade, a medicina legiti-
mou cientificamente os valores sociais
instituídos pela moral burguesa. Por
fim, em seu combate à homossexuali-
dade, o catolicismo e o protestantismo
aderiram à explicação médica que, tra-
tando-a como doença, materializou no
corpo biológico os valores religiosos
da culpa e do pecado. O instinto se-
xual sendo caracterizado por uma ati-
vidade hereditária exclui, portanto, o
sujeito do inconsciente (4), isto é, a
idéia de uma sexualidade sustentada
através da fantasia e do desejo.
A heterossexualidade havia se
tornado um bem. Dessa forma,
ao conceituar a homossexuali-
dade como “desvio” ou
“perversão” do instinto sexual,
no sentido de perversidade, a
medicina legitimou cientifica-
mente os valores sociais insti-
tuídos pela moral burguesa.
76 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Freud esvaziou a homossexualida-
de da consistência anatômica impingi-
da pelo discurso médico, a favor da
noção de fantasia. Ao colocá-la como
uma vicissitude do complexo edípico,
ele a afasta do campo da moral psi-
quiátrica em que ela se encontrava até
então. No início de seu trabalho, de-
pois de admitir ter errado no caso Do-
ra, devido ao próprio preconceito que
não o permitiu compreender a impor-
tância da homossexualidade na vida
psíquica do sujeito, em “Os três en-
saios sobre a teoria da sexualidade”
(1905b) Freud avança, ao formular a
virulência de idéias como: a inexistên-
cia de uma conexão a priori estabele-
cida entre a pulsão e um determinado
objeto, a bissexualidade psíquica e a
sexualidade infantil. Numa época em
que a homossexualidade era conside-
rada uma aberração da natureza pelo
discurso médico do século XIX e já
excluída socialmente desde o cristia-
nismo, Freud mostrou que a homosse-
xualidade habita nossa vida psíquica,
seja sob forma latente, seja sob a for-
ma manifesta. Se, por um lado, ele
rompia com o discurso positivista e
filosófico da época, por outro lado, seu
desejo o impulsionava a fazer da psi-
canálise uma ciência. Isto provocou al-
guns impasses em relação à noção de
homossexualidade, não só na clínica, a
exemplo do caso Dora, como veremos,
mas também na própria transmissão
da psicanálise.
Freud criou a psicanálise em uma
época em que predominavam o dis-
curso científico e o idealismo filosófico.
O desejo dele de transformar a psica-
nálise em ciência ou fundamentar suas
idéias através do “ideal da ciência”,
custou um preço: “o cientificismo da
ciência ideal” (Milner, 1996:48). En-
contramos, em alguns de seus textos,
uma valorização e até mesmo uma es-
perança de Freud com relação à pes-
quisa biológica sobre a sexualidade e
o seu avanço, o que mostra o desejo
dele de fazer da psicanálise uma ciên-
cia para a comprovação de suas idéias.
Segundo Milner, as instituições psica-
nalíticas se deixaram dominar pelo dis-
curso científico da ciência ideal.
Isso trouxe conseqüências não só
para a psicanálise, mas para o tema da
homossexualidade. Ele foi instituciona-
lizado dentro da psicanálise, inicial-
mente pela IPA, a partir desse discurso
científico, como uma patologia sexual.
Lacan, no seu retorno à letra de
Freud, ao enfatizar a teoria da falta de
um objeto que satisfaça completa-
mente o sujeito e recolocando o con-
ceito freudiano de pulsão (trieb) (não
o de instinto sexual), como um dos
conceitos fundamentais da psicanálise,
resgatou o caráter revolucionário da
sexualidade freudiana. Se não existe
significante do sexo no inconsciente,
se o inconsciente não é sexuado mas
sexual, então o homem e a mulher
não foram feitos necessariamente um
para o outro. Nesse sentido, para a psi-
canálise, a assunção do sexo e da se-
xualidade pelo sujeito dependem prin-
cipalmente da linguagem, não propria-
mente da anatomia. Dessa forma, ho-
mens e mulheres ocuparão diferentes
posições discursivas e modos de gozo,
podendo haver homens que freqüen-
tam a posição feminina e mulheres
que ocupam a posição masculina. Si-
tuando a IPA como um discurso reli-
gioso que cala a verdade do desejo,
Lacan ((1969-70)1992:47) dispensa o
cientificismo e o evolucionismo: “Quan-
do colocamos esses ismos, estamos
no plano da zoologia” (grifo do autor).
Ele acrecenta que reduzir a psicanálise
ao desenvolvimento é uma aberração
(Lacan (1956) 1998:890).
Lacan manteve, durante a sua obra,
uma preocupação constante de reali-
zar uma transmissão da psicanálise
disjunta de regulações imaginárias.
Através das suas contribuições inova-
doras, explicitou determinados aspec-
tos da teoria freudiana que deram
margem a leituras obscurantistas so-
bre a homossexualidade. Nesse senti-
do, foi um crítico feroz da transmissão
da psicanálise veiculada pelo discurso
da IPA e da produção de alguns analis-
tas pós-freudianos. O rigor de Lacan le-
vou-o, a partir dos anos 1970, a mudar
seu paradigma. Apropriando-se da
matemática (articulada à psicanálise)
porque ela não está presa a nenhuma
substância ou essência, ele elaborou
as “fórmulas da sexuação”. Ao dispor o
homem e a mulher em letras, como
faz a escrita matemática, ele propõe
uma ruptura com os discursos que
enunciam representações do ser, a
exemplo do discurso religioso e do
discurso médico que têm como base o
platonismo. No caso do primeiro, o
platonismo deu lugar ao cristianismo,
e, no segundo, ao evolucionismo. Ca-
be ressaltar que ambos os discursos
apregoam a idéia de um amor ineren-
te à reprodução da espécie, configu-
rando uma satisfação total entre os
dois sexos. Segundo Lacan, o amor, o
gozo e o desejo são coisas distintas.
Os Pós-Freudianos e
a homossexualidade
A partir dos anos 1930, com a ins-
titucionalização massiva da psicanáli-
se, ela alcançou prestígio internacio-
nal, inclusive no Brasil. A incorporação
e a difusão da psicanálise obedeceram
a tradições culturais distintas, as quais
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Se não existe significante
do sexo no inconsciente,
se o inconsciente não é
sexuado mas sexual, então
o homem e a mulher não
foram feitos necessariamente
um para o outro.
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 77UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
realizaram uma reinterpretação da
obra freudiana. Sua aceitação por dife-
rentes culturas (inglesa e americana) e
saberes (psiquiatria e psicologia) re-
sultou na sua descaracterização, nos
anos 1950-1960. A psicanálise havia se
transformado numa prática curativo-
normativa, centrada na prevenção e na
cura (Birman, 1994).
Lacan nomeou essa apropriação da
psicanálise por outros saberes, em par-
ticular, o saber médico e o saber psico-
lógico, de desvio teórico, pois a psica-
nálise havia perdido sua identidade
teórica enquanto saber do inconscien-
te. Os pós-freudianos, utilizando as for-
mulações de Freud, privilegiaram a ins-
tância egóica (ego), em detrimento do
inconsciente, reduziram a sexualidade
à genitalidade e, comprometidos com
a tradição evolucionista e neopositivis-
ta, adoeceram de novo a homossexua-
lidade.
Freud sempre foi prudente nas
suas considerações teóricas a respeito
da homossexualidade. Numa nota dos
“Três ensaios sobre a teoria da sexuali-
dade” (1905b), ele disse que a psica-
nálise recusava a discriminação dos
homossexuais como possuidores de
características especiais. Ao contrário,
os pós-freudianos, na sua maioria, pa-
tologizaram as idéias freudianas, trans-
formando-as em novas classificações
que foram amplamente divulgadas e
incorporadas à cultura em geral, resti-
tuindo assim os antigos parâmetros
morais de normalidade do século XIX,
sendo ainda hoje utilizadas por alguns
analistas e profissionais de outras
áreas.
A partir dessas concepções, o ma-
nejo da homossexualidade na clínica
pós-freudiana consistiu na abstinência
sexual do sujeito e na sua conversão à
heterossexualidade. Tal prática nunca
fora proposta por Freud (1935), a
exemplo da demanda feita a ele pela
mãe de um homossexual, através de
uma carta. Na resposta à carta, Freud
faz considerações sobre a homosse-
xualidade não somente em termos da
teoria psicanalítica - revelando, mais
uma vez, o alcance social do tema - ao
proferir que a homossexualidade não
é um crime e ao destacar personalida-
des respeitadas mundialmente. Nessa
carta, bastante difundida, ao indagar à
remetente sobre o porquê de ela evi-
tar mencionar que seu filho é homos-
sexual, a nosso ver, ele assinala o me-
do da homossexualidade: a homofo-
bia enquanto fenômeno social. Equi-
parada à doença, o medo da homos-
sexualidade sempre foi correlato ao
medo de males impronunciáveis. Na
Idade Média, a homossexualidade foi
vinculada à lepra, no século XIX, a uma
anomalia sexual, como vimos, e, mais
recentemente, no século XX, à Aids. O
que nos fez pensar sobre a célebre
frase do escritor Oscar Wilde, condena-
do por amar outro homem: “o amor
que não ousa dizer seu nome”.
Do ponto de vista da psicanálise,
Freud afirma que a homossexualidade
não era vantagem, vício, vergonha
nem doença e que, portanto, a mu-
dança da orientação homossexual não
era possível; é afirmando o lugar da
psicanálise frente à neurose e à inibi-
ção social que Freud (1935), nesta
carta, marca a posição da psicanálise
diante da homossexualidade.
Considerações Finais
Embora nos “Três ensaios sobre a
teoria da homossexualidade” (1905b),
“Carta à mãe americana” (1935), por
exemplo, Freud não compartilhasse
com o preconceito sobre a homosse-
xualidade, nem sempre fora assim.
Na nota do pós-escrito do caso Do-
ra, Freud (1923) 1976:116-117) admi-
te sua “falha técnica” em não ter des-
coberto, a tempo, o desejo de Dora
pela Sra. K.: “Quando não havia ainda
compreendido a importância da cor-
rente homossexual de sentimentos
nos psiconeuróticos, era amiúde obri-
gado a interromper o tratamento de
meus casos, ou era tomado de total
perplexidade”. Lacan ((1951)1998), ao
comentar essa passagem, afirma que o
objeto do desejo de Dora escapa a
Freud, devido ao seu preconceito de
que a mulher foi feita para o homem.
A teoria evolucionista que, no sécu-
Na Idade Média, a
homossexualidade foi
vinculada à lepra, no século
XIX, a uma anomalia sexual,
como vimos, e, mais
recentemente, no século XX,
à Aids.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE78 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
lo XIX, fabricou a noção do homosse-
xual como um doente, descriminalizou
a homossexualidade apenas parcial-
mente, pois a terapêutica da cura aca-
bou provocando a exclusão social do
homossexual, na medida em que ser-
via à ideologia social burguesa. A no-
ção veiculada pela IPA serviu-se dessa
teoria que foi difundida através de vá-
rias instituições psicanalíticas. O deba-
te sobre a homossexualidade, no Bra-
sil, vem criando, recentemente, novas
representações sociais, a partir do seu
ingresso no universo do Direito Civil e
dos Direitos Humanos, como conse-
qüência das reivindicações do Movi-
mento Gay nacional, uníssono com a
tendência dos grupos internacionais. O
projeto de lei de 1995, da Parceria Civil
registrada entre pessoas do mesmo
sexo, ainda não aprovado pelo Con-
gresso, que visa legalizar a união ho-
mossexual, e, mais recentemente, a lei
federal, já aprovada, que garante be-
nefícios previdenciários aos funcioná-
rios públicos que são parceiros civis,
são exemplos concretos de como uma
produção de conhecimento pode favo-
recer, ou não, à inclusão social da ho-
mossexualidade e à destituição de sua
abordagem como doença. Essa “des-
medicalização” ou “despsicologização”
da homossexualidade - isto é, a sua
apropriação abusiva e normalizadora
pelos saberes médico e psicológico,
respectivamente, a serviço da noção
de heterossexualidade como um bem
social - provocou uma mudança no
significado da palavra homossexualis-
mo, transformando-a de vergonha em
orgulho.
Em que medida a psicanálise vem
contribuindo, ou não, para essa mu-
dança? A determinação da Associação
Americana de Psiquiatria, em 1973,
abolindo o termo homossexualismo
como distúrbio mental, terá produzido
algum efeito na produção dos analis-
tas que seguiam a teoria instintivista?
E, no Brasil, em que medida terá reper-
cutido sobre a resolução do Conselho
Federal de Psicologia, que, em 1999,
divulgou uma norma (5) contra a idéia
de cura dos homossexuais?
A ética da psicanálise, tal como for-
mulada em O seminário, livro 7: a ética
da psicanálise (1959-60), por Lacan,
dispensa regulações externas que
prescrevem uma moral de conduta.
Supondo-se que essas duas regula-
mentações se aproximem da ética da
psicanálise, no sentido de conceber a
homossexualidade como uma mani-
festação do desejo, é interessante pen-
sar a que ponto chegamos na história
da homossexualidade para que hou-
vesse a necessidade da intervenção de
leis que resgatassem algo em termos
de singularidade, ou, quem sabe, da
noção de sujeito com relação à ho-
mossexualidade. A ética da psicanálise
teria fracassado? Pois o esforço de La-
can, em esvaziar o imaginário da teoria
freudiana, não impugnou a tradição
médico-psiquiátrica do século XIX e o
preconceito.
Não se trata evidentemente de co-
locar a psicanálise a serviço da apolo-
gia da homossexualidade, pois isto se-
ria cair na impostura de um ideal ana-
lítico, denunciado por Lacan, ou seja,
fazer da homossexualidade um bem,
tal como o ideal do amor genital (6),
em relação à heterossexualidade. Po-
rém, pensamos ser uma responsabili-
dade ética do analista presentificar no
mundo que a homossexualidade é um
desejo. Este é um desafio para a psica-
nálise e minha pesquisa pretende con-
tribuir para isso.
Em “Proposição de 9 de outubro
de 1967” (1967), Lacan define a psica-
nálise em extensão como a “presenti-
ficação da psicanálise no mundo”. Para
Souza (1991), da mesma forma que
um sintoma individual, um sintoma
social é mantido por uma fantasia. Se-
gundo Ferenczi (1914) e André (1995)
a cultura moderna recalcou excessiva-
mente a homossexualidade masculi-
na, diferentemente de outros períodos
da história. André (1995) acrescenta
que o retorno do recalcado forma hoje
um sintoma social.
A cultura moderna recalcou
excessivamente a
homossexualidade masculina,
diferentemente de outros
períodos da história.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 79
Freud comentou, em “O futuro de
uma ilusão” (1927), que podemos
chamar uma crença de ilusão quando
ela é motivada por uma realização de
desejo. O desejo que continua susten-
tando a parceria Religião-Ciência é o
da “normalidade delirante da relação
genital” (Lacan (1958)1998:613), pro-
tagonizada pelo par homem-mulher.
Sob o lema de que a homossexualida-
de degenera o corpo social, grupos or-
ganizados pautam sua perseguição
aos homossexuais, através dessa ideo-
logia, ocasionando em violência e
morte.
Em O seminário, livro 17: o avesso
da psicanálise (1969-70), Lacan afir-
mou que a segregação sempre terá
força, reafirmando o que já dissera em
“Proposição de 9 de outubro de 1967”
(1967), a respeito da segregação re-
servada à humanidade no futuro. Im-
pressiona constatar, na atualidade, o
vigor desse comentário quase proféti-
co, na medida que diferenças econô-
micas, étnicas, religiosas, sexuais se
acirram face à globalização da econo-
mia mundial, resultando em xenofo-
bia, racismo e homofobia.
André (1995:115) indaga sobre
uma possível participação da psicaná-
lise na rejeição da homossexualidade
na nossa cultura, na medida em que o
saber psicanalítico “não é independen-
te de todo o discurso dominante, nem
de qualquer estado de civilização”.
Penso que sim, a exemplo de como os
analistas pós-freudianos e, até mesmo
Freud, como vimos, se deixaram influ-
enciar pela dominância do discurso
médico. Em que pesem os avanços
significativos decorrentes do movi-
mento em prol dos direitos dos ho-
mossexuais, a homossexualidade ain-
da representa um mal-estar na cultura
moderna. A produção psicanalítica so-
bre a homossexualidade ainda é muito
restrita ao âmbito clínico, salvo exce-
ções, embora a homossexualidade
possua desdobramentos sociais evi-
dentes, por exemplo, cidadania, ho-
mofobia, adoção de crianças, técnicas
de reprodução assistida etc. Este é um
desafio para que a transmissão da psi-
canálise não fique reduzida à clínica,
colaborando, assim, indiretamente, na
fabricação da homossexualidade co-
mo um sintoma social.
Notas
1. Este artigo foi extraído da minha disser-
tação de mestrado “A institucionalização da
noção de homossexualidade na psicanálise e
seus efeitos na clínica”.
2. Psicólogo. Psicanalista participante da
Escola Letra Freudiana (RJ). Mestre em Pes-
quisa e Clínica em Psicanálise - UERJ.
3. A institucionalização da psicanálise teve
início em 1910, com a criação da IPA por
Freud e Ferenczi. O objetivo da IPA era forma-
lizar a transmissão da psicanálise e preservar
seu saber, que se expandia, de modo que ele
não se descaracterizasse.
4. Em “Subversão do sujeito e dialética do
desejo no inconsciente freudiano” (1960),
Lacan conceituou a noção de sujeito do in-
consciente, não explicitada por Freud, estabe-
lecendo uma diferença no emprego do termo
“sujeito” em relação à psicologia e à filosofia.
5. Resolução nº 1/99, de 23/03/1999.
6. Lacan criticou as noções pós-freudianas
de “amor genital” e “relação de objeto” por-
que elas formulam a existência de um objeto
ideal que completaria o sujeito. É uma con-
cepção, segundo ele, que se fundamenta na
maturação instintual e promove a “genitaliza-
ção do desejo”. Sobre isso, ver LACAN, Jac-
ques. O seminário, livro 1: os escritos técnicos
de Freud (1953-4) (Rio de Janeiro, Jorge Zahar
editor, 1995, p.233-50), O seminário, livro 4: a
relação de objeto (1956-7) (Rio de Janeiro:
Jorge Zahar editor, 1995, p.9-92), e O seminá-
rio, livro 7: a ética da psicanálise (1959-60)
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1997, p.
17-8).
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Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE80 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
O Movimento dos Trabalhadores
Sem-Teto: novos sujeitos na luta
pelo direito à cidade
Sonia Lucio Rodrigues de Lima
Para tal, utilizamos, como referên-
cia, a luta do Movimento dos Trabalha-
dores Sem-Teto (MTST). Trata-se de
um movimento urbano que organiza,
em diversos estados brasileiros, as rei-
vindicações de segmentos extrema-
mente pauperizados das classes trabal-
hadoras por acesso à habitação e a
equipamentos e bens imprescindíveis à
sobrevivência e reprodução da força de
trabalho. Os dirigentes do movimento
consideram que a luta por moradia de-
ve estar relacionada à luta pela Reforma
Urbana e pela transformação da socie-
dade. Este movimento, a exemplo do
Movimento dos Trabalhadores Sem-Ter-
ra (MST) que aciona a via da ação dire-
ta na sua estratégia de luta, desenvolve
a luta por moradia através da ocupação
de imóveis públicos e privados como
forma de forçar a negociação.
Partimos, inicialmente, da seguinte
pergunta: como compreender e carac-
terizar o fazer político desses movi-
mentos? Posteriormente, com base no
aprofundamento teórico, formulamos
a seguinte questão: está havendo uma
nova forma de luta ou uma mudança
nas condições em que ela se realiza?
Não nos escapa o reconhecimento
de que a resposta a estas questões exi-
ge o exame dos processos geradores
das desigualdades sociais com as
quais se defronta o Movimento, bem
como das particularidades constituti-
vas do segmento de classe que o com-
põe e das influências político-culturais
e valorativas que orientam a sua ação.
Entretanto, sabedores de que este
exercício resultaria num texto de lar-
guíssimo fôlego, numa aproximação
inicial, nos deteremos na discussão da
especificidade da problemática habita-
cional e na importância que a mesma
aporta para a contemporaneidade.
A exploração do trabalho, a
espoliação urbana e a questão
da habitação
A questão da habitação não decor-
re, conforme difundida pela concep-
ção dominante, do desequilíbrio entre
a carente oferta de imóveis e uma vas-
ta população consumidora, mas é par-
te de um processo complexo e con-
traditório de estruturação urbana, so-
O interesse em conhecer a ação de movimentos sociais que
vem despontando na cena pública por meio da utilização de
ações estratégicas que demonstram a pretensão de criticar a
priorização da via institucional da luta, em detrimento da
ação direta, constitui a motivação deste texto.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
bretudo na fase monopólica do capi-
talismo. A habitação é um elemento
básico da estrutura urbana, exigido, ao
lado dos outros equipamentos impres-
cindíveis à reprodução da força de tra-
balho, pelo processo de produção e
acumulação do capital. Contudo, essa
exigência não é atendida pelos capita-
listas privados, visto não ser considera-
da como suficientemente rentável, re-
sultando na impossibilidade de acesso
à moradia de amplas camadas de tra-
balhadores, pois
“(...) a cidade capitalista não
tem lugar para os pobres. A pro-
priedade privada do solo urbano
faz com que a posse de uma renda
monetária seja requisito indispen-
sável à ocupação do espaço ur-
bano. Mas, o funcionamento nor-
mal da economia capitalista não
assegura um mínimo de renda a
todos. Antes, pelo contrário, este
funcionamento visa manter uma
parte da força de trabalho em re-
serva, o que significa que uma par-
te correspondente da população
não tem meios para pagar pelo di-
reito de ocupar um pedaço de solo
urbano”.(Singer, 1982: 12).
Esta afirmação, além de colocar em
cheque o discurso oficial sobre a re-
lação entre oferta e demanda na pro-
dução da questão da escassez de mo-
radia, chama a atenção para a existên-
cia de processos, intimamente imbri-
cados, que repercutem na impossibili-
dade do acesso de grande parte de
segmentos da classe trabalhadora à
habitação nas cidades: a apropriação
monopólica da terra urbana e a super-
exploração do trabalho.
As contribuições de Lefèbvre, Har-
vey e Ribeiro1
auxiliam na compreen-
são desta problemática. A terra, origi-
nalmente bem natural, não-mercantil,
transforma-se em um produto com va-
lor de troca por meio da incorporação
do trabalho social contido nos investi-
mentos públicos. Nas sociedades capi-
talistas, a terra é, ao mesmo tempo,
condição para a produção do capital e
condição de vida para a classe traba-
lhadora. Porém, ainda que a transfor-
mação da terra em produto urbano
resulte da introdução de longos anos
de trabalho social, e que ela carregue,
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 81
A terra, originalmente bem natural, não-mercantil, transforma-se
em um produto com valor de troca por meio da incorporação do
trabalho social contido nos investimentos públicos.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE82 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
potencialmente, valor de uso extensivo
a toda população, a sua apropriação é
feita de forma privada, consoante a
lógica do valor de troca.
Ribeiro e Pechman (1983) definem
o problema fundiário da seguinte ma-
neira: a terra, espaço necessário à pro-
dução de moradia, é monopolizada
por alguns proprietários. Este monopó-
lio representa a consolidação, no pla-
no jurídico, de relações sociais herda-
das de outros momentos do desen-
volvimento da sociedade, pois se trata
de propriedade sobre uma condição
não reprodutível da produção e da cir-
culação de mercadorias, já que a terra
não pode ser reproduzida pelo capital,
e não tem, por fim, a valorização de
um determinado capital-dinheiro. O
monopólio sobre a terra permite ao
dono da propriedade tributar a pro-
dução e circulação de mercadorias,
participando, desse modo, da dis-
tribuição da mais-valia sem concorrer
para sua geração e realização. Com o
desenvolvimento da sociedade capital-
ista, esta relação social passa a subor-
dinar-se às leis da produção e dis-
tribuição da mais-valia, “fazendo com
que os proprietários de terras somente
obtenham um rendimento do seu di-
reito de propriedade quando o uso do
solo permite a geração de um lucro
(...) acima do lucro médio.” (Ibid, Op.
cit.: 32). Muito embora este processo
signifique uma subordinação da pro-
priedade da terra às leis próprias da
expansão capitalista, tal não se dá, da
mesma forma, no setor de moradia,
visto que, neste ramo da produção, o
capital depara-se com dificuldades
para subordinar a renda ao lucro.
A análise de Engels (1982)2
da des-
truição da manufatura e do surgimen-
to da grande indústria auxilia no des-
velamento desta questão, pois contri-
bui para pensá-la a partir de determi-
nações históricas. O autor demonstra
que o desenvolvimento da indústria
produziu intensos fluxos imigratórios
em direção a oportunidades de traba-
lho concentradas nas cidades. Com o
surgimento do grande capital industri-
al, ocorreu a remodelação do espaço
urbano, visto que este espaço, deveria
estar adaptado aos requerimentos da
produção capitalista de mercadorias.
Esta intensa renovação foi realizada
tanto pelas próprias empresas quanto
pelo Estado.
Como o número de imóveis não
atendia à demanda, os proletários ti-
veram que alugar pequenos cubículos.
A concentração de condições habita-
cionais anti-higiênicas e miseráveis
propiciou o aparecimento de surtos
epidêmicos. Por outro lado, a concen-
tração também favoreceu o aumento
da consciência política. Do ponto de
vista da burguesia, este processo re-
presentou uma dupla ameaça, já que
as epidemias punham em risco o ne-
cessário exército industrial de reserva e
a disseminação de idéias revolucioná-
rias colocavam em risco o poderio das
classes dominantes.3
Movida por essa inquietação, a bur-
guesia desencadeou um novo proces-
so de renovação urbana, no qual se in-
cluía a demolição de imóveis que ser-
viriam de abrigo para a classe trabal-
hadora. Tem-se aí a primeira crise de
moradia: a associação de um veloz
crescimento da população urbana
com a extinção de parte do parque
imobiliário existente.4
A carência de moradias favoreceu a
cobrança de elevados aluguéis.Esta si-
tuação cria um atrativo para o capital-
dinheiro existente na economia, que
passa a comprar imóveis e parcelá-los
em cubículos. Este mecanismo repro-
duz a crise de moradias, pois os luga-
res habitados pelos trabalhadores são
destruídos e pequenas vilas são cons-
truídas em lugares distantes, fazendo
com que os alojamentos precários não
sejam eliminados, mas deslocados.
A rentabilidade originada do capital
aplicado na produção de habitação
não criou, portanto, condições para a
superação da crise, pois não existia in-
teresse das classes dominantes em so-
lucionar a crise de moradia. Tal desin-
teresse, ainda segundo o autor em te-
la, demonstra a intenção dos capitalis-
tas em conservar o operariado pres-
sionado pela necessidade contínua de
vender sua força de trabalho para ter
acesso à moradia, e, ao mesmo tem-
po, submetido às iniciativas patronais
de construção de vilas operárias.
É possível perceber, portanto, como a
separação entre produtor e os meios de
produção e entre produtor e proprieda-
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
A separação entre produtor e os meios de produção
e entre produtor e propriedade da moradia passou a
permitir que a moradia se transformasse em mercadoria
produzida sob relações capitalistas.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 83
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
de da moradia passaram a permitir que
a moradia se transformasse em mer-
cadoria produzida sob relações capita-
listas e, portanto, destinada ao lucro.
Ribeiro, refletindo a partir do exame
da emergência da questão habitacio-
nal na cidade do Rio de Janeiro, de-
monstra que, guardadas as especifici-
dades de cada processo de urbaniza-
ção e constituição do setor de mora-
dia, a denominada crise da moradia é
inerente ao sistema capitalista.
Tal não se dá, contudo, somente pe-
las razões apontadas por Engels, mas
sobretudo, devido aos empecilhos
existentes para que o capital seja em-
pregado na produção de moradias,
conformando uma especificidade do
setor em relação aos outros ramos de
produção. Esse obstáculos específicos
enfrentados pelo capital investido no
setor imobiliário não possuem, tal qual
ocorre com os outros setores, sua su-
peração assegurada pelo próprio movi-
mento de reprodução.
A renda urbana torna o papel do
proprietário urbano preponderante na
produção de moradia, fazendo com
que seja desvendado o seguinte para-
doxo: “o investimento imobiliário é ren-
tável, mas a propriedade fundiária ur-
bana impede a produção capitalista
de moradia, na medida em que a ren-
da predomina sobre o lucro5
.” Pois, ain-
da que as transformações econômicas
tenham feito com que a terra se trans-
formasse de bem patrimonial em mer-
cadoria que circula para proporcionar
renda e que esta transformação tenha
produzido um incentivo para a produ-
ção de novas moradias, o controle do
espaço da produção permanece sendo
do proprietário de terrenos.
Segundo a análise realizada pelo
autor, a produção capitalista de mora-
dias somente será possível se o capital
contornar os dois obstáculos mencio-
nados: a propriedade privada da terra
urbana e a estreiteza do mercado con-
sumidor6
. Assim, a habitação resulta de
um complexo processo que envolve
produção e comercialização. Suas ca-
racterísticas a diferenciam de outras
mercadorias de consumo privado, pois
trata-se de mercadoria que requer de-
morado tempo de construção e imo-
bilização de capital e cuja produção
vincula-se à disponibilidade de terra,
serviços e infra-estrutura, o que distan-
cia seu preço do valor dos salários. Por
conseguinte, a habitação é uma mer-
cadoria que, em geral, exige financia-
mento prévio para a produção e o con-
sumo posto que, via de regra, seus
consumidores não podem adquiri-la à
vista.
Ikuta, ao analisar as conseqüências
para os trabalhadores da dissociação
entre as lutas por moradia e as lutas
sindicais, discute a problemática com
base na compreensão de que a ha-
bitação representa um dos elementos
de todo um conjunto de precariedades
ou exclusões nas condições de exis-
tência da população trabalhadora.
Nesta perspectiva, propõe que o exa-
me da habitação seja feito para além
da esfera da reprodução da força de
trabalho, pois considera que o mo-
mento da produção e o momento da
reprodução do social devem ser con-
siderados de forma imbricada, possi-
bilitando, assim, a superação da referi-
da dissociação. Duas questões nortei-
am suas reflexões:
“De que maneira os problemas
e as lutas urbanas, elementos per-
tencentes à esfera da reprodução
da força de trabalho, estão imbri-
cadas com a dominação do traba-
lho pelo capital, isto é, com as
questões diretamente ligadas à
produção? Ou porque as lutas tra-
vadas no espaço urbano devem
ser vistas por dentro desta relação
e não como lutas independentes?”
No intuito de respondê-las, tece crí-
ticas às posições teóricas mais comuns
com respeito à questão habitacional.
Por exemplo: alguns autores reconhe-
cem que a espoliação urbana é fruto
do processo de acumulação do capital,
porém, o tratamento analítico da ques-
tão da habitação é limitado à ca-
pacidade de negociação junto ao Esta-
do. O campo de conflito é, assim, res-
trito à esfera da reprodução/consumo,
pois, apesar do reconhecimento da
existência da relação entre condição
de vida e acumulação capitalista, o ca-
pital não é identificado como um dos
adversários reais na luta pela sobre-
vivência da classe trabalhadora.
Desta ótica, as denominadas con-
tradições urbanas são absorvidas teori-
camente, no âmbito das desigualda-
des no acesso aos equipamentos e
A habitação é uma mercadoria que, em geral,
exige financiamento prévio para a produção e o consumo
posto que, via de regra, seus consumidores
não podem adquiri-la à vista.
serviços urbanos. E ainda que se enfa-
tize que a intervenção do Estado, está
direcionada para a realização do capi-
tal, em escala ampliada, o debate de-
semboca, conforme afirma Ikuta, “(...)
na questão da cidadania, que sem os
devidos cuidados, pode torna-se, (...)
um culto à chamada sociedade demo-
crática.”7
Com o fito de contrapor-se a essas
visões, propõe outra angulação teórica
baseada em dois processos intersec-
cionados. O primeiro refere-se ao fato
de que, muito embora a moradia seja
necessária à reprodução da força de
trabalho, o capitalista não se responsa-
biliza por seu custeio, sobrecarregando
a vida do trabalhador.
O segundo, refere-se à dicotomia
entre o viver e o trabalhar, isto é, a “(...)
separação entre o local de trabalho e
o local de reprodução e consumo (efe-
tivada pelo capitalismo industrial atra-
vés da reorganização do trabalho e do
advento e desenvolvimento do siste-
ma fabril que força esta separação),
oculta a fonte do verdadeiro conflito,
amenizando as contradições sociais
por meio da fetichização que desloca
o conflito para a esfera do mercado”
(Ibid., Op. Cit.).
O debate apresentado por Ikuta
aponta para a importância da supera-
ção da dicotomia ente a luta por mo-
radia e a luta sindical. Para tal, propõe
conceber a questão habitacional não
como enfrentamento da carência, com
base na noção de que o consumo é
frustrado pela falta de infra-estrutura e
unidades habitacionais ou como uma
necessidade a ser atendida a partir,
unicamente, da mediatização do Es-
tado, mas, como um fenômeno que se
radica no exame do modo produção e
de reprodução da totalidade do pro-
cesso social.
Compreende-se, contudo, que a su-
peração dessa visão dicotômica exige
aprofundamento da análise da relação
entre o momento da produção e o
momento da reprodução no processo
de constituição da vida social. Visto
que a relação entre estes momentos
não se dá de forma imbricada, mas,
sim, como relação de unidade, pois a
dominação do trabalho pelo capital
não se restringe ao locus da produção,
mas se estende à totalidade do social,
cuja estruturação é produzida perma-
nentemente.
Na interpretação de Lefèbvre, a re-
produção social envolve o cotidiano da
vida em sociedade. Neste sentido, o
autor afirma que
“(...) quanto ao modo de produ-
ção [capitalista] este conceito de-
signa em Marx o resultado das re-
lações de antagonismo: ‘salário/-
capital’, ‘proletariado/burguesia’.
Estas relações sociais não entram
na prática da sociedade, e da so-
ciedade burguesa, a não ser atra-
vés de formas que as sustém e a
mascaram; por exemplo, a forma
contratual (a do ‘contrato de tra-
balho’, ficticiamente livre, que liga
os membros da classe trabalhado-
ra e os da burguesia e que preten-
samente os associa). Este resulta-
do global, compreende, portanto,
as elaborações jurídicas das rela-
ções de produção, as relações de
propriedade decodificadas - as
ideologias que exprimem também,
dissimulando-as, as relações de
antagonismo-, as instituições políti-
cas e culturais , a ciência etc.” 8
Numa crítica à visão idealista de au-
tores, também, interessados na apre-
ensão da problemática da reprodução
social, Lefèbvre afirma que a ideologia
serve para dissimular as relações soci-
ais concretas e não para criá-las. Nesta
direção, o autor demonstra que o po-
der estatal procura apresentar como
separados, elementos da sociedade - a
terra, o trabalho, o capital, de fato, es-
treitamente vinculados. Embora uni-
dos são “reiterados como fontes de
rendimentos distintos, fato que parece
legitimar o rendimento do capital, em
vez de mostrar que este é constituído
por mais-valia, tal como o do solo e da
propriedade fundiária9
.”. Ou seja, na
denominada questão habitacional, ex-
pressa-se a relação de complementari-
dade e antagonismo existente entre os
proprietários da terra, do capital e da
força de trabalho.
Para Lefèbvre, a reprodução das re-
lações sociais alcança, portanto, a to-
talidade da vida cotidiana, expressan-
do-se tanto no lazer, na escola, na for-
mação do pensamento científico, na
conformação do espaço arquitetural e
urbano, nas relações familiares, quan-
to no trabalho.
Desta maneira, consideramos im-
prescindível ressaltar o papel do Esta-
do na reprodução das relações sociais,
em especial, após a fase monopólica,
quando as funções de regulação pas-
sam a ser exercidas, relevantemente,
neste âmbito. Nesta circunstância his-
tórica, o Estado envolve-se diretamen-
te na expansão da economia, subsidi-
ando-a com instrumentos de grande
poder de difusão e removendo os obs-
táculos para o empreendimento e a
acumulação. O que é necessário, con-
tudo, reconhecer criticamente é a aná-
lise que gera o obscurecimento da so-
ciedade civil, impedindo apreender,
como no dizer de Lefèbvre, que a “ver-
dade do político” (e, conseqüentemen-
84 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Na denominada questão habitacional expressa-se a relação
de complementaridade e antagonismo existente entre os
proprietários da terra, do capital e da força de trabalho.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 85
te, do estatal) está no social. Tendo em
vista que o Estado é uma expressão
das relações sociais, são essas relações
que permitem compreender as formas
políticas e não o contrário.
Assim, a questão da habitação não
decorre de um simples desequilíbrio
entre a carente oferta de imóveis e
uma vasta população consumidora,
mas é um complexo problema com
múltiplas determinações, expressivas
das contradições sociais geradas pelo
desenvolvimento urbano, podendo-se,
portanto, afirmar que “o solo urbano
(...) traduz a existência de uma luta
social por usos diferenciados, que ga-
nha contornos mais claros quando se
considera que, possa ser também esse
solo terra de habitação, os mecanis-
mos econômicos e jurídicos que ge-
ram remoção, localização diferencial e
controle implicam a segregação social
e espacial de amplos segmentos da
população metropolitana.”10
A ação do capital na estruturação
do solo urbano é amparada por uma
determinada concepção hegemônica
de direito e é corroborada pela ação
do Estado, que se encarrega de realizar
grandes investimentos em infra-estru-
tura, implantar equipamentos de uso
coletivo, estabelecer normas para o
uso do solo e fiscalizar seu cumpri-
mento. O segredo da valorização da
terra vazia pode ser, portanto, desven-
dado, na maioria das vezes, por meio
da seletividade orientadora do investi-
mento em infra-estrutura e em equi-
pamentos urbanos. Ao especulador de
terrenos é garantido, assim, sem des-
pender recursos próprios, multiplicar
seu capital às custas do trabalho social,
reforçando a lógica da socialização dos
custos e da privatização dos lucros.
Ao intervir na produção do espaço
urbano, no sentido de fornecer subsí-
dios para o aumento dos lucros da ini-
ciativa privada, o Estado estrutura a ci-
dade para servir, sobretudo, às neces-
sidades do capital, em geral, e, em par-
ticular, às do capital imobiliário. A orga-
nização interna das cidades resulta,
por conseguinte, da ação de agentes
que possuem interesses complemen-
tares ou antagônicos entre si. Além do
Estado e das empresas imobiliárias, in-
terferem, na estruturação da cidade, os
proprietários de terra e imóveis e a
própria população.
A apreensão da forma como se dá
as relações entre esses sujeitos e da
singularidade destas relações nas con-
dições particulares de realização do ca-
pitalismo contemporâneo em socieda-
des periféricas e de industrialização
tardia como a brasileira e das questões
específicas que envolvem a deno-
minada questão habitacional, cons-
titui, do nosso ponto de vista, uma me-
diação fundamental para o reconhe-
cimento de determinantes históricos
da emergência da luta por moradia e
de sua radicalização na conjuntura atual.
Notas
1. Ver a respeito em Harvey, David (1980),
Ribeiro, Luiz C. de Queiroz (1997) e Lefèbvre,
H. (2001).
2. Aqui nos utilizamos também das leituras
de Ribeiro (1997).
3. Em A Situação da Classe trabalhadora
na Inglaterra (1975), Engels descreve as con-
dições habitacionais da classe operária no
momento da revolução industrial.
4. Ver a respeito em RIBEIRO, Luiz Cezar
de Queiroz, Op. cit., 1997.
5. IDEM, p.146.
6. Idem., ibdem,
7. IKUTA, F. K. Op. cit. p. 39
8. LEFÈBVRE, Henri. apud. Forachi e Mar-
tins, 1977, p.220
9. IDEM, p. 237
10. RIBEIRO, Ana Clara T., 2001, p.46. Equi-
pamentos Coletivos. In: O desenvolvimento
urbano em questão: textos didáticos, 2ª ed...
RJ, IPPUR/UFRJ, 2001 p.46.
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habitação.” In: MARX & ENGELS Obras Esco-
lhidas. São Paulo, Alfa-Ômega 1982.
ENGELS, F. A Situação da Classe trabalha-
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HARVEY, DAVID. A Justiça Social e a Cida-
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LEFÈBVRE, H. A Cidade do Capital R. J. ,
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neiro. RJ: Civilização Brasileira, 1997.
RIBEIRO, Ana Clara . “O dia- a- dia na Cida-
de: As Incertezas do Trabalho In: Revista Ecle-
siástica Brasileira”, vol. 40 fasc.,157, março
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RIBEIRO, Ana Clara T. “Cidade, Reivindica-
ções e Equipamentos Coletivos”. In O desen-
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cos, 2ª ed.. RJ, IPPUR/UFRJ, 2001.
RIBEIRO, Luiz C. Queiroz e PECHMAN, Ro-
bert M. O que é Questão da Moradia., S.P. ,
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SINGER, P. ”O uso do solo urbano na eco-
nomia capitalista”. In: A produção capitalista
da casa (e da cidade) no Brasil Industrial,
ORG: Ermínio, Maricato, SP, ALFA-OMEGA,
1982, p.12.
Sonia Lucio Rodrigues de Lima é profes-
sora assistente do departamento de SS da
ESS/UFF doutoranda em Pesquisa e Plane-
jamento Urbano do IPPUR/UFRJ.
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
86 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
I - Contexto histórico.
A década de 70 marca o início de
uma ampla articulação dos povos
indígenas, impulsionada a partir das
Assembléias indígenas que começa-
ram a se realizar em diferentes partes
do país, apoiadas pelo CIMI. Desse
diálogo entre os povos indígenas ficou
evidente a semelhança dos problemas
que enfrentavam como o esbulho de
suas terras, as invasões, a violência, o
desrespeito à diversidade cultural e o
descaso do governo.
O eixo das lutas do movimento in-
dígena para além das suas aldeias pas-
sou a ser a terra. Esse eixo mobilizador
funcionou como elo de unidade do
movimento, que de acordo com as dis-
tintas realidades foi estimulando a cria-
ção de variados instrumentos de luta e
níveis diferentes de organização.
A passagem, em 1980, das Assem-
bléias Indígenas diretamente para a
criação de um instrumento de luta na-
cional - a UNI (União das Nações Indí-
genas) mostrou-se um equívoco após
alguns anos. Sem os pés fincados na
realidade concreta dos diferentes po-
vos, ficou à margem do movimento in-
dígena que ia sendo construído em
termos locais e regionais e por isso foi
deslegitimada como instância interlo-
cutora dos povos indígenas em termos
nacionais.
As memoráveis conquistas constitu-
cionais, em 1988, foram fruto da força
do movimento indígena articulado em
termos locais e regionais, com o apoio
de aliados na sociedade brasileira. Es-
tas conquistas animaram a bases indí-
genas que foram construindo diferen-
tes instrumentos de luta para assegurar
esses direitos. Articulações e organiza-
ções de lideranças, professores, agen-
tes de saúde, mulheres e estudantes in-
dígenas proliferaram país afora.
Muitos povos que mantinham sua
identidade oculta voltaram a se assumir
como indígenas, terras foram retoma-
das e os índios residentes nas cidades
começaram a se manifestar, fazendo
com que as estatísticas populacionais
que acusavam 100.000 índios em 1970,
passassem a registrar hoje um conside-
rável aumento, estimando a população
indígena em 510.000 pessoas.
Essas conquistas são ainda mais
significativas, por serem resultado de
lutas concretas do movimento indíge-
na contra o latifúndio e a política anti-
indígena oficial.
Aprovada a Constituição, que atri-
Aprendendo
com a experiência
Subsídio para o debate sobre as perspectivas
do Movimento Indígena e sua articulação nacional
Aurivan Truká, Pina Tembé,
Dina XoKleng e Bruno Xavante:
Grupo de Trabalho da
Comissão Indígena
Pós Conferência 2000.
A Comissão foi criada
em maio de 2000,
para dar encaminhamento
às decisões da Marcha
e Conferência dos Povos
Indígenas, que ocorrera
em abril daquele ano.
A decisão foi tomada
por cerca de 300 lideranças
indígenas de todo o país,
que estavam reunidas em
Pesqueira, Pernambuco, por
ocasião do 2º aniversário
do assassinato do líder
indígena Xicão Xukuru.
Ver: www.cimi.org.br
buiu a responsabilidade principal na
demarcação das terras e na proteção
dos bens indígenas à União, delegan-
do ao Congresso Nacional questões
importantes como a autorização para
a mineração e construção de hidrelé-
tricas, e a feitura de uma Lei Comple-
mentar dispondo sobre o relevante in-
teresse público da União nas terras in-
dígenas, muitas coisas em relação a
questão indígena passaram a ser deci-
didas em Brasília.
No contexto pós-constituinte, por-
tanto, a questão nacional ganhou rele-
vância ainda maior, reabrindo nova-
mente o debate sobre a forma do mo-
vimento indígena ocupar seu espaço
nesse nível.
A mobilização indígena de 1992,
que também aprovou um documento
com as propostas do movimento indí-
gena para o Estatuto dos Povos Indí-
genas, teve como tarefa viabilizar uma
instância nacional. Os representantes
indígenas apontaram duas maneiras
para se organizarem nesse nível:
1. Um conselho de articulação com-
posto por representantes dos povos e
organizações indígenas, facilitadora do
intercâmbio de experiências que se
reuniria em Brasília periodicamente e
promovia uma distribuição de tarefas;
2. Uma Coordenação Executiva
eleita, com escritório montado.
Tendo presente a experiência da
UNI, avaliada como uma organização
que construiu um grande chapéu de
palha, mas sem os esteios para susten-
tá-lo, os integrantes da mobilização in-
dígena, optaram, por ampla maioria,
pela primeira proposta, tanto assim
que o nome escolhido foi “Conselho
de Articulação dos Povos e Organiza-
ções Indígenas do Brasil”.
As primeiras reuniões do Conselho,
que incluíam representantes indígenas
de todo país, buscaram concretizar as
expectativas da mobilização e fez um
esforço muito grande para apoiar as
lutas concretas das comunidades indí-
genas.
Em dado momento, com a finalida-
de de facilitar a articulação, o Conselho
resolveu delegar para uma Comissão
menor o seu papel. A partir desse mo-
mento, houve um distanciamento das
bases, favorecendo para que posições
individuais prevalecessem sobre a von-
tade coletiva. O CAPOIB passou então
a reproduzir, de outra maneira, a expe-
riência frustrada da UNI. Foi proposta
inclusive uma mudança no estatuto
para que o CAPOIB adotasse a propos-
ta que foi rejeitada em 1992.
A crise do CAPOIB se agravou na
Marcha e Conferência Indígena 2000,
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 87UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
quando seus representantes articula-
ram uma proposta, que soou como
uma traição, no contexto das manifes-
tações triunfalistas oficiais, para a es-
magadora maioria das lideranças indí-
genas presentes. Desde então o CA-
POIB se desarticulou por completo e o
seu nome passou a ser usado por pes-
soas que não foram indicadas pelo
movimento indígena.
A Conferência Indígena 2000 tam-
bém revelou que o CAPOIB estava fa-
lando uma língua que não estava sen-
do entendida por suas bases e que
nem sempre era a expressão da vonta-
de das comunidades indígenas.
A Pós Conferência, realizada em
Pernambuco, avaliando essas dificul-
dades do movimento indígena, resol-
veu deslegitimar o CAPOIB como ins-
tância nacional, até que não houvesse
uma ampla discussão a respeito. Criou
uma Comissão articuladora integrada
por dois representantes indígenas por
Estado, com a finalidade de resgatar a
força do movimento indígena que vem
das comunidades e encaminhar as re-
soluções da Conferência.
II - O contexto atual
A partir das informações, reflexões
e avaliações feitas na Conferência In-
dígena 2000, na Pós Conferência e nas
nossas reuniões da Comissão Indígena
vamos tentar fazer uma síntese sobre a
realidade atual do movimento indíge-
na nacional.
No contexto neoliberal, onde algo
só tem valor quando transformado em
mercadoria, o desafio cresce ainda
mais, pois os nossos valores culturais
são sistematicamente agredidos e os
nossos direitos fundamentais desres-
peitados. A política do atual governo, a
serviço desse sistema econômico tem
investido para conquistar a confiança
do nosso movimento, abrindo espaços
formais para a participação indígena
em Conselhos, Comissões etc., inclusi-
ve adotando um discurso semelhante
àquele que usamos em nossos encon-
tros e assembléias. É a política do “faz
de conta”, de que as terras estão sendo
demarcadas e respeitadas, que a aten-
ção à saúde e educação é específica e
diferenciada, enfim, que os direitos es-
tão sendo assegurados. Muitos paren-
tes estão sendo empregados para dar
respaldo à política oficial. É a estratégia
de desmobilizar o movimento indíge-
na, investindo na divisão e passando
atribuições de assistência do governo
às organizações para mantê-las ocupa-
das e para desviar sua atenção das
questões centrais indispensáveis para
a construção da autonomia. Essa polí-
tica não aceita um não como resposta
e, quando isso acontece, usa a repres-
são para intimidar, como aconteceu
com a Conferência Indígena 2000, em
Coroa Vermelha, ou como vem aconte-
cendo em Roraima, com as manobras
militares em terras indígenas.
Essa estratégia do governo, em cur-
to prazo, pretende abrir brechas legais
para facilitar o acesso aos recursos na-
turais existentes nas nossas terras,
através da aprovação do Estatuto do
Índio. Enquanto não consegue seus
objetivos com a aprovação da nova lei,
adota a política dos fatos consumados
promovendo a invasão das terras indí-
genas com projetos hidrelétricos, mili-
tares, ambientais (sobreposição de
unidades de conservação), rodoviários,
etc. (É importante destacar que, apesar
de todo o investimento governamental
na divisão do movimento indígena,
conseguimos até agora inviabilizar a
aprovação da nova legislação indige-
nista proposta pelo governo). E, em
longo prazo, inviabilizar o projeto de
futuro próprio dos povos indígenas.
Existe também um descaso gover-
namental muito grande em relação
aos índios isolados, muitos deles no li-
mite de suas possibilidades de fuga
para refúgios inacessíveis nas matas e,
portanto, em situação de risco de ex-
termínio cada vez maior.
Apesar de todas as dificuldades
que essa política governamental cria
para os povos indígenas, nosso movi-
mento vai avançando com lutas con-
cretas em defesa dos nossos direitos.
Continua um importante processo de
retomada de terras em praticamente
todas as regiões do país e de reação
aos projetos governamentais impos-
tos. Na saúde e na educação, continua
a busca de um modelo autônomo.
Está em curso também um processo
importante de ressurgimento de povos
indígenas, que passam a assumir pu-
blicamente as identidades indígenas
ocultas. Fenômeno semelhante acon-
tece nas cidades, onde é cada vez mai-
or o número de famílias que assumem
sua identidade indígena.
A partir da realidade que vimos, po-
demos apontar alguns desafios nosso
movimento em nível nacional, hoje:
1. A construção da unidade do mo-
vimento indígena em torno de estraté-
gias comuns para fortalecer a autono-
mia dos diferentes povos indígenas.
2. A mobilização permanente até a
demarcação e garantia de todas as ter-
ras indígenas.
3. O fortalecimento das bases indí-
genas e dos seus mecanismos de con-
trole sobre as organizações indígenas.
4. A aprovação do Novo Estatuto
dos Povos Indígenas, resgatando as
propostas construídas pelo movimen-
to indígena na sua história de lutas.
5. A aliança com os setores que lu-
tam contra o modelo econômico vi-
gente e que vem se aglutinando em
torno do Foram Social Mundial.
6. O apoio aos processos de ressur-
gimento de povos indígenas e aos ín-
dios na cidade.
7. A mobilização em favor dos po-
vos isolados ameaçados de extinção.
88 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
III - Aspectos a serem
considerados
Podemos definir o movimento in-
dígena como sendo a soma do con-
junto das lutas desenvolvidas pelas co-
munidades e organizações indígenas e
suas formas de articulação, com a fina-
lidade de assegurar os direitos históri-
cos dos nossos povos à terra e de pro-
moverem seus projetos de futuro au-
tonomamente, respeitadas as suas
organizações próprias.
Vamos relacionar abaixo algumas
características importantes a serem
consideradas na discussão da articula-
ção do movimento indígena em ter-
mos nacionais:
1. A impressionante diversidade
cultural, que engloba 235 povos falan-
do 180 línguas diferentes, organizados
em milhares de comunidades ou al-
deias, muitas delas com grande auto-
nomia umas em relação às outras no
mesmo povo.
2. As diferentes formas de com-
preender o mundo, de se relacionar
com a natureza e com o sobrenatural,
de reagir diante dos problemas, de
exercer a liderança.
3. As diferentes situações de conta-
to com a sociedade brasileira, que vão
desde os índios nas cidades e os res-
surgidos que estão assumindo sua
identidade, até os povos “livres” (isola-
dos) fugindo desesperadamente da
extinção.
4. Territórios ainda com recursos
naturais relativamente abundantes e
territórios arrasados e insuficientes.
5. O grande número de formas de
organização construídas na relação de
contato para a defesa de seus interes-
ses no âmbito das comunidades, de
um povo, de conjuntos de povos, de
conjuntos de organizações, de organi-
zações por categoria e gênero.
6. Distintas posições políticas no
seio das organizações indígenas.
7. As distâncias e o isolamento de
muitos povos neste país de dimensões
continentais.
IV - Questões para o debate
1. Qual o interesse das comunida-
des e povos indígenas na articulação
do movimento indígena nacional?
2. Em que exatamente uma instân-
cia nacional do movimento indígena
pode contribuir com a luta dos povos
indígenas em todo país?
3. Qual seu nível de prioridade para
o movimento indígena?
4. Quais são as lições que tiramos
das duas experiências do movimento
indígena em termos nacionais: UNI e
CAPOIB?
5. Como as comunidades, povos e
organizações indígenas vão participar
do movimento nacional?
6. Quem vai sustentar financeira-
mente a proposta?
7. Qual deve ser o papel do CIMI e
de outros aliados?
É importante que, antes de definir
a forma que vai assumir a articulação
nacional do movimento indígena, as
bases (comunidades, povos e organi-
zações indígenas) cheguem a um am-
plo consenso sobre a necessidade, im-
portância e finalidade dessa instância
nacional. Não é suficiente que a pro-
posta seja discutida somente no nível
das lideranças.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 89
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
POLÍTICA INDIGENISTA
Propostas iniciais para o Governo Lula
Conselho Indigenista Missionário - CIMI
Conselho Indigenista Missionário - Órgão anexo à CNBB.
Ver: www.cimi.org.br
No contexto da transição para o
governo Lula, toda a diretoria do
CIMI, disposta a contribuir com esse
histórico processo democrático, se
reuniu para fazer o documento -
Propostas Iniciais para a Política
Indigenista, para ser entregue à equi-
pe de transição do novo governo.
O encontro ocorreu no dia 12 de
novembro de 2002, no Centro Cultu-
ral Banco do Brasil, sede da equipe,
em Brasília. O CIMI foi representado
pelos Secretários, Egon Heck e Sebas-
tião Moreira, e pelo assessor jurídico,
Paulo Machado Guimarães, que entre-
garam o documento a Gilney Viana,
Deputado Estadual (PT-MT) e ao an-
tropólogo Márcio Meira, ex-Secretário
de Cultura da Prefeitura de Belém,
ambos da equipe de transição.
Íntegra do Documento
O Conselho Indigenista Missionário
- CIMI, organismo anexo à Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB,
alegre e esperançoso com a eleição de
um Governo realmente comprometido
com as mudanças tão desejadas pela
grande maioria dos brasileiros e pelos
povos indígenas, vem externar o dese-
jo de contribuir com esse histórico pro-
cesso democrático, manifestando des-
de logo algumas preocupações e pro-
postas de ações imediatas.
Os últimos governos caracteriza-
ram o início de suas gestões pelo retar-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE90 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
damento na definição de suas políticas
com relação aos povos indígenas. Essa
postura gerou um quadro de insegu-
rança permitindo o avanço dos interes-
ses anti-indígenas, e impossibilitando
a definição de uma política indigenista
eficaz. Para a necessária e salutar supe-
ração dessa prática, o CIMI crê seja ne-
cessário ao novo governo, já em seus
momentos iniciais, a adoção de algu-
mas ações em caráter de urgência.
Ao mesmo tempo, espera-se a defi-
nição de uma política de médio e longo
prazos, que venha atender às lutas his-
tóricas destes povos, tais como: a con-
clusão dos procedimentos de demarca-
ção de todas as terras indígenas; o de-
sintrusamento de todas aquelas que se
encontram invadidas; a adoção de pro-
gramas especificamente voltados para a
realidade dos povos ressurgidos e dos
povos “isolados / livres”; e a criação de
um novo modelo de atenção pela
Administração Pública, que tenha como
critério a realidade sociocultural.
As conquistas indígenas, garantidas
na Constituição Federal de 1988 e na
Convenção 169 da Organização Inter-
nacional do Trabalho (OIT), colocaram
em destaque a autonomia dos povos
indígenas frente ao Estado Brasileiro e
a participação de suas comunidades
nas instâncias decisórias relativas a as-
suntos de seu interesse. Tais pontos
deverão se constituir nos princípios
norteadores da construção dessa nova
política indigenista que se espera do
futuro Governo.
Em décadas de luta, os povos indí-
genas acumularam experiências im-
portantes e singulares de articulação e
organização, que precisam ser consi-
deadas. É, portanto, imprescindível
que a política indigenista deste novo
governo seja fundada no respeito à
alteridade e à diferença, no reconheci-
mento da autonomia e protagonismo
dos povos indígenas, superando, en-
tão, efetivamente, a histórica perspec-
tiva colonialista de um Brasil folcloriza-
do e miscigenado, sem espaço para a
pluralidade étnica e cultural, e, portan-
to, sem espaço para as identidades e
autonomias indígenas.
O Presidente eleito e seu partido,
em mais de duas décadas de debates
e contato com a realidade indígena, fir-
maram com os povos indígenas com-
promissos na perspectiva de provocar
profundas transformações. Para honrar
tais compromissos, será preciso que o
novo governo venha superar a atual
política neoliberal, e que a prestação
dos serviços de assistência a esses po-
vos, na área de políticas públicas, se dê
a salvo de terceirizações.
Considerando esta realidade, e o
desenvolvimento de debates e acúmu-
lo de propostas por parte do movi-
mento indígena e de demais aliados
da causa, ao longo das últimas três dé-
cadas, bem como o compromisso do
CIMI com os povos indígenas, nestes
30 anos de sua existência, a entidade
sugere, neste momento histórico, a
adoção de algumas ações urgentes,
para o novo governo:
- A revogação do Decreto nº 1.775/
96, que introduziu o contraditório no
processo de demarcação das terras in-
dígenas, estimulou a violência, as inva-
sões e toda sorte de pressão contra o
reconhecimento dessas terras; e a sua
substituição pelo procedimento de
demarcação aprovado pelos povos
indígenas em sua Assembléia, ocorrida
em abril de 2001, que faz parte da pro-
posta para o novo Estatuto, encami-
nhada para a Câmara dos Deputados;
- A revogação do recente Decreto
4.412/02, que dispõe sobre a presen-
ça das Forças Armadas e da Polícia Fe-
deral em terras indígenas. Tal decreto é
flagrantemente inconstitucional, expõe
os povos indígenas ao risco de serem
vítimas de sérias violações de direitos
humanos, e impede o diálogo sobre
questão de tamanha relevância para o
país, como é a questão da atuação das
Forças Armadas;
- A garantia da posse plena das co-
munidades indígenas sobre as terras
que tradicionalmente ocupam, e que
se encontram envolvidas em graves e
prolongados conflitos, a exemplo das
seguintes: Raposa/Serra do Sol (RR);
Caramuru - Catarina Paraguaçu (BA);
Pataxó da região do Monte Pascoal
(BA); Cerro Marangatu (MS); Guarani
do Araçaí (SC); Xukuru (PE), Guajá
(MA) e Roosevelt (RO/MT);
- A assinatura imediata de todas as
Portarias Declaratórias e Decretos de Ho-
mologação atualmente pendentes, con-
forme lista de terras indígenas em anexo;
- A assinatura de decreto que incor-
pore ao ordenamento jurídico nacional
a Convenção 169 da OIT, cujo texto já
foi aprovado pelo Senado, através do
Decreto Legislativo n.º 143, de 20 de
junho de 2002;
- Empenho junto ao Congresso Na-
cional no sentido da aprovação do Es-
tatuto dos Povos Indígenas, tendo co-
mo base de discussão a proposta en-
caminhada pelos índios ao presidente
da Câmara dos Deputados, em abril de
2001, e que teve o apoio de mais de
um milhão de assinaturas;
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Os assassinatos, neste início de
2003, dos índios Leopoldo Crespo (Ka-
ingang - RS), Aldo da Silva Mota (Ma-
cuxi - RR) e Marcos Veron (Guarani-
Kaiowá - MS) revelam a face mais cru-
el da realidade indígena em nosso
país, que vem se arrastando ao longo
dos últimos 500 anos. Está na raiz des-
ses assassinatos a histórica relação co-
lonialista do Estado e da sociedade
brasileira - agora já com a agravante da
integração ao sistema do capitalismo
neoliberal - para com nossos povos. A
relação colonial e o sistema neoliberal
estão marcados pela acumulação de
bens (terra, capital, educação, saúde)
para uns poucos e pela negação de
direitos e pelos preconceitos para com
os demais que se perpetuam até os
dias de hoje.
O relato de nossas diversas delega-
ções provenientes de todas as regiões
do país, reunidas no III Fórum Social
Mundial, traz a tona uma realidade as-
sustadora, que teima em se reproduzir,
apesar das conquistas que obtivemos
através da luta nesses últimos 30 anos.
Tendo presente que somos os pri-
meiros habitantes dessas terras e, por
tanto, detentores de direitos originá-
rios, nós nos propomos enfrentar es-
sa realidade perversa que se expressa
pela:
Violência. Essa violência, movida
pela ganância e pelo preconceito, se
dirige contra nossas comunidades em
luta pela reconquista de suas terras.
Ela acontece de norte ao sul do país.
Em Roraima, o assassinato de Aldo da
Silva Mota, infelizmente, é apenas
mais uma das tantas violências come-
tidas contra os povos Macuxi, Wapi-
chana e Yanomami. A invasão das ter-
ras indígenas por fazendeiros, garim-
peiros, militares e municípios, artificial-
mente criados, e a ação antiindígena
de autoridades locais, geram um per-
manente clima de terror na região.
Na Bahia, a morosidade na demar-
cação e garantia das terras indígenas
deixa os índios Pataxó e Pataxó Hã-Hã-
Hãe a mercê dos pistoleiros dos lati-
fundiários e da repressão policial, res-
ponsáveis, em 2002, pelo assassinato
de três índios.
Em Pernambuco, em 1998, o povo
Xucuru teve seu líder Xicão assassina-
do a mando de fazendeiros. Estes con-
tinuam impunes até hoje. As principais
lideranças indígenas da região estão
ameaçadas de morte, ao mesmo tem-
po em que o povo sofre, junto com
aliados, a perseguição dos órgãos poli-
ciais e da justiça local.
No Rio Grande do Sul, palco do Fó-
rum Social Mundial na busca de um
novo mundo, o assassinato de Leopol-
do Crespo, reproduz a forma cruel e re-
voltante da morte de Galdino Jesus dos
Santos, ocorrida em 1997, em Brasília.
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 91
NUNCA MAIS UM MUNDO SEM NÓS, OS POVOS INDÍGENAS
Um novo mundo é possível e necessário
Manifesto apresentado ao Fórum Social Mundial (3ª edição). Porto Alegre (RS), Janeiro de 2003.
- A garantia, no Orçamento da Uni-
ão, das verbas necessárias à indeniza-
ção de benfeitorias derivadas de ocu-
pação de boa-fé em terras indígenas,
ao atendimento à saúde, educação e
auto-sustentação, e à demarcação e
proteção das terras e do patrimônio
indígenas;
- A imediata proteção jurídico-ad-
ministrativa e judicial às comunidades
indígenas, onde existem conflitos pela
posse da terra.
O necessário reconhecimento do
Brasil enquanto país pluriétnico coloca
a responsabilidade para o Governo Fe-
deral em estabelecer uma política de
atenção específica e diferenciada aos
povos indígenas. Isso implica uma
mudança radical na estrutura do órgão
indigenista para que possa responder
ao novo ordenamento jurídico estabe-
lecido pela Constituição de 1988, res-
peitando e fazendo respeitar os proje-
tos históricos desses povos. Significa
um esforço contínuo para adequar as
estruturas do Estado à realidade socio-
cultural dos povos indígenas.
O CIMI tem a certeza de que o res-
gate da dívida histórica do Estado bra-
sileiro para com os povos indígenas
restabelece o significado mais profun-
do da democracia, e simboliza a opção
e o compromisso do novo Governo
para com todos os excluídos e margi-
nalizados do nosso país.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE92 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
No Mato Grosso do Sul, o povo
Guarani-Kaiowá, confinado em parce-
las ridículas de terra, sofre o suicídio
cada vez mais freqüente de seus jo-
vens e também a violência de fazen-
deiros, responsáveis pelo recente assas-
sinato do índio Marcos Veron.
Lentidão. Nas ações de demarca-
ção e garantia de nossas terras consta-
ta-se uma extraordinária lentidão, um
dos principais motivos da violência
contra nossos povos. Pela falta de von-
tade do Estado em assegurar, definiti-
vamente, esse nosso direito histórico
se revela no Decreto 1775, pelo qual
os invasores são chamados a participar
da definição dos limites; pelas intermi-
náveis ações na justiça, mantendo na
posse latifundiários em nossas terras;
pela compra de terras dos territórios
tradicionais afrontando nossa dignida-
de; por Grupos de Trabalho que não
entregam os relatórios; pela alegada
falta de recursos para reassentar os
posseiros; pela pressão dos interesses
anti-indígenas que fazem com que o
governo deixe de cumprir os atos ad-
ministrativos como as portarias decla-
ratórias dos limites e os decretos de
homologação; pela demarcação de
terras muito pequenas que não respei-
tam a posse tradicional.
Invasão. Nossas terras são invadi-
das por fazendeiros, garimpeiros, gran-
des projetos (hidrovias, barragens, mi-
litares, estradas), madeireiros, lixeiras
públicas, eco-turismo, peixeiros, biopi-
ratas, caçadores e aventureiros em
busca do lucro fácil; somos prejudica-
dos pela sobreposição de unidades de
conservação em nossas terras e pela
falta de fiscalização e conivência de
autoridades com os invasores.
Agressão. O nosso meio ambiente
é agredido através das monoculturas
da soja, eucalipto, acácia, arroz e do
uso indiscriminado de agrotóxicos no
entorno e em alguns lugares no inte-
rior de nossas terras, enfraquecendo o
solo, contaminando os animais e as
águas e provocando doenças e óbitos
nas comunidades.
Desrespeito. Os povos ressurgidos,
que reassumem sua identidade indí-
gena, são desrespeitados; para serem
reconhecidos se deparam com a pos-
tura colonialista da Funai, submeten-
do-os a humilhantes estudos para afe-
rir sua etnicidade.
Ameaça de extinção. Diversos gru-
pos de Índios “livres” (isolados) na
Amazônia que fogem, desesperada-
mente, das fazendas que avançam so-
bre seus territórios, notadamente, no
Estado de Rondônia e sul do Amazo-
nas, estão ameaçados de extinção.
Saúde. A atenção à saúde foi entre-
gue a terceiros e aos municípios, atra-
vés da frágil política de convênios com
grande ênfase na medicina ocidental e
enfraquecimento da medicina tradicio-
nal de nossos povos. A atenção especí-
fica e diferenciada, em muitos povos,
foi água abaixo. Assistência é precária
em muitas áreas, com comunidades
sem equipes de profissionais, enfren-
tando problemas de desnutrição e al-
coolismo e a falta de saneamento bási-
co, a proliferação de doenças infecto-
contagiosas, inclusive a AIDS, e recursos
financeiros insuficientes. Na criação dos
DSEIs, o governo não atendeu à essên-
cia da nossa proposta que previa a au-
tonomia administrativa e financeira.
Educação. A educação escolar indí-
gena, entregue aos Estados e Municí-
pios, não contempla a realidade sócio-
cultural de cada povo. Os programas
de formação de professores, apesar da
existência de recursos financeiros, não
têm continuidade. Além da construção
e ampliação das escolas, se faz, em
muitos casos, necessário seu reconhe-
cimento e uma proposta curricular
com calendário específico.
Migração. A falta de apoio em suas
terras leva a migração de muitos índios
para as cidades em busca melhores
condições de vida. Estes, na cidade,
enfrentam graves problemas, como a
discriminação, falta de apoio no aten-
dimento das necessidades básicas
que, em casos extremos, leva à sobre-
vivência nas lixeiras das cidades.
Sustentabilidade econômica. A de-
predação dos recursos naturais pelos
invasores, como a caça, a pesca, os fru-
tos silvestres, os materiais da fauna e
da flora usados na vida das aldeias,
exigem que nossos povos procurem
alternativas, muitas vezes, com gran-
des custos sociais e culturais. Ainda é
notória a ausência de políticas, por
parte do Estado, para o enfrentamento
dessa questão. Essa depredação am-
biental criou, em vários territórios indí-
genas, o problema de habitações.
Descaso do Estado. Existe o desca-
so do Estado em relação à consolida-
ção dos nossos direitos conquistados
na Constituição Federal e em Fóruns
Internacionais. Esse descaso se mani-
festa em relação ao Estatuto dos Povos
Indígenas, em tramitação no Congres-
so Nacional desde 1992, com sucessi-
vas ameaças de retrocesso, e sem uma
conclusão até hoje; na demora de 13
anos para a aprovação da Convenção
169 da OIT; na posição contrária do
governo brasileiro à Declaração Uni-
versal dos Direitos Indígenas da ONU.
Essa realidade assustadora para
nossos povos que retratamos, teima em
se reproduzir, se não forem enfrentados
a origem e a raiz desses problemas que
residem na estruturas colonialistas e
neoliberais do Estado que negam siste-
maticamente os nossos direitos de po-
vos originários, as nossas instituições
próprias, a garantia de nossos territó-
rios, nossa autonomia e livre determi-
nação, e alimentam um preconceito se-
cular. Para este novo enfrentamento
das causas que prejudicaram nossos
povos indígenas, fazemos as seguintes
considerações e propostas.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 93
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
O ano de 2003, que começou com
três assassinatos de indígenas,
começa também com esperança
para os povos indígenas do Brasil e
de outros países da América Latina.
Nós, representantes de 32 povos
indígenas do Brasil e México,
presentes no III Fórum Social
Mundial, realizado na cidade de
Porto Alegre - RS - Brasil, de 23 a 28
de janeiro de 2003, nos manifesta-
mos diante dos seguintes fatos:
I - A pretensão do governo dos Es-
tados Unidos de estender seus domí-
nios sobre outros povos está à beira de
levar a mais uma guerra que poderá ter
desdobramentos imprevisíveis para to-
dos os povos da Terra. Os povos indíge-
nas, tanto quanto outras nações, serão
novamente vítimas do imperialismo ge-
nocida. Por isso, repudiamos a política
agressiva dos EUA contra os povos do
Iraque e de outros países.
II - Consideramos indispensável
que os governos formulem e execu-
tem políticas de combate a toda forma
de discriminação e preconceito, para
que os povos indígenas de todos os
países sejam respeitados e possam vi-
ver dignamente, contribuindo com su-
as histórias e culturas para o bem estar
de toda a humanidade.
III - Queremos, do novo governo
brasileiro, o empenho sincero e ime-
diato para punir todos que cometeram
crimes contra os nossos povos e para
por fim aos conflitos atuais, adotando,
entre outras, as medidas até agora ne-
gadas pelos governos anteriores, como
a demarcação, homologação e regula-
rização de todas as nossas terras.
Em nossas discussões, por ocasião
do III FSM, decidimos reafirmar as pro-
postas apresentadas no II Fórum, reali-
zado em 2002, acrescentando suges-
tões fundamentais para a viabilização
do novo mundo que queremos:
1 - Propomos que os governos prio-
rizem a discussão em torno da situação
dos povos indígenas, buscando saídas
concretas para aqueles povos que ain-
da não têm o direito aos seus territó-
rios históricos e tradicionais garantidos
em lei, bem como o direito a viver con-
forme suas tradições e costumes.
2. Na América Latina, o governo
brasileiro passou a ter um papel de
destaque e liderança. As populações
indígenas ainda são excluídas do pro-
cesso político, ficando sem representa-
tividade e sem mecanismos que possi-
bilitem participação na vida política de
seus respectivos países - motivos pelos
quais grupos econômicos de toda
ordem investem contra seus territórios
e seus patrimônios. Propomos que o
governo brasileiro coloque a questão
indígena nas agendas de discussão
com os governantes de toda a América
Latina como uma prioridade, de forma
a se tornar exemplo para outros países
de todo o mundo.
3. Que o governo nomeie pessoas
com experiência, competência e res-
ponsabilidade para trabalhar com as
questões indígenas - pessoas que ve-
nham se somar a nós para melhorar
nossas vidas e não só atrapalhar e aca-
bar com os povos indígenas.
4. Reparação dos danos causados
aos povos indígenas, resultantes das
políticas mercantilista e integracionis-
ta, bem como pelo projeto neoliberal,
nos aspectos sociais, culturais, territo-
riais que afetam todos os povos indí-
genas no mundo.
5. Reafirmação da luta dos povos
indígenas na construção, elaboração e
aprovação do Estatuto dos Povos Indí-
genas no Brasil.
6. Criação de Fóruns Continentais
compostos por povos indígenas para
fiscalizar, acompanhar e propor políti-
cas mundiais para os povos indígenas,
com apoio financeiro dos governos.
7. Exigimos a apuração de todos os
crimes praticados contra lideranças e
demais membros de comunidades e
povos indígenas; que sejam punidos
os responsáveis e indenizadas as famí-
lias das vítimas, com o compromisso
dos governantes de se estabelecer me-
canismo de combate à violência e a
impunidade.
8. Que os países do mundo reco-
nheçam e respeitem os espaços terri-
toriais dos povos indígenas, necessá-
rios e indispensáveis à sua sobrevivên-
cia física, social e cultural, segundo
suas tradições e costumes.
Por ocasião do III Fórum Social
Mundial, nos sentimos desafiados a
estreitar os laços com os povos indíge-
nas do continente, socializando nossas
lutas, sonhos e esperanças, e reafirma-
mos nosso compromisso de continuar
somando como atores, com nossas ex-
periências históricas, com todos aque-
les que estão construindo o novo
mundo possível e necessário.
Nunca mais um mundo sem nós,
os povos indígenas
Porto Alegre, FSM, janeiro de 2003
Povos indígenas Aranã, Canoé, Gali-
bi, Guajajara, Kaiaby, Kaingang, Karajá,
Karipuna, Krahô Kanela, Krenak, Ma-
cuxi, Mundurucu, Tembé, Pacas Novas,
Pataxó, Pataxó Hã Hã Hãe, Tapajó, Ta-
puia, Wapixana, Xakriabá, Xavante, Ka-
ritiana, Xukuru, Tumbalalá, Xokó, Geri-
pankó e Guarani, Xucuru Cariri, Xok-
leng, Gavião, Mixe, Tseltal.
Propostas para um mundo com respeito à
diferença, paz, e sem violências e impunidade
Apresentação
Os setores conservadores da
sociedade brasileira, preocupados
sempre em manter o status quo e
na ânsia de impedir a mudança
da estrutura da propriedade da terra,
freqüentemente, têm atacado o
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES
RURAIS SEM TERRA - MST,
alegando que as ocupações de
terras são ilegais; portanto,
constituiriam crimes, decorrendo
daí a aplicação de medidas
coercitivas à atividade
do MST.
Do ponto de vista social, a situação
é bastante clara: a nossa estrutura
fundiária é extremamente injusta. De
acordo com a Organização das Na-
ções Unidas - ONU, o Brasil é o segun-
do país do mundo em concentração
de terras (perdemos apenas para o
Paraguai). É de conhecimento geral
que a origem das grandes proprieda-
des remonta ao sistema colonial, e os
latifúndios improdutivos não consti-
tuem-se em fruto do trabalho de seus
proprietários.
Do ponto de vista da nossa legisla-
ção, caso houvesse vontade política,
não haveria necessidade de ocupações
de terras, haja vista que a Constituição
94 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Legitimidade das ocupações
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra - MST
determinou, em seu artigo 3º, os princí-
pios fundamentais da República e, em
vários outros artigos, uma série de pro-
gramas sociais objetivando o bem-es-
tar da população. Destarte, a nossa Lei
Maior frente à realidade, vêm sendo
vilipendiada, governo após governo, já
que nossa realidade nos envergonha
frente às outras sociedades.
Do ponto de vista da experiência
dos trabalhadores rurais e suas orga-
nizações, o governo somente tem de-
sapropriado terras após a ocorrência
de ocupações e, em alguns casos, so-
mente após a morte de trabalhadores
(casos de Corumbiara e Eldorado dos
Carajás).
Para justificar as ocupações de ter-
ras improdutivas, enquanto instru-
mento de pressão pela realização da
reforma agrária, bastariam os argu-
mentos acima.
O objetivo do presente texto é reu-
nir, precisamente, argumentos de per-
sonalidades da área jurídica, quer se-
jam juristas, decisões monocráticas, ju-
risprudência, que, em cotejo com a rea-
lidade, decidiram que “as ocupações
de terras são uma reforma agrária de
baixo para cima, uma pressão social, já
que o governo está ‘tranqüilo’ há não
sei quantos anos - quando todas as
nossas Cartas e as nossas Constituições
estão apregoando a reforma agrária”
(Ministro Adhemar Maciel do STJ - HC
4.399 - 6º Turma, em 12.04.96).
A CARTA DE RIBEIRÃO PRETO
Pela Reforma Agrária,
em defesa do meio ambiente
Os membros do Ministério Público
Estadual e Federal, reunidos por oca-
sião do Seminário “Meio Ambiente e
Reforma Agrária”, realizado no dia 13
de dezembro de 1999, na cidade de
Ribeirão Preto, Estado de São Paulo,
discutiram e aprovaram as seguintes
conclusões:
Função social da propriedade
1. O regime jurídico da proprieda-
de tem seu fundamento na Constitui-
ção da República. Com a instituição
constitucional da função social da pro-
priedade, ocorreu a constitucionaliza-
ção e publicização do regime jurídico
da propriedade.
2. A propriedade é disciplinada pe-
lo Direito Constitucional. Cabe ao Di-
reito Civil tão-somente regular as rela-
ções civis pertinentes à propriedade.
3. A função social define o conteú-
do do direito de propriedade. A função
social não é uma limitação do uso da
propriedade, ela é elemento essencial,
interno, que compõe a definição da
propriedade. A função social é ele-
mento do conteúdo do direito de pro-
priedade.
4. Só se legitima o ordenamento
jurídico brasileiro a propriedade que
cumpre a função social. A propriedade
que descumpre a função social não
pode ser objeto de proteção jurídica.
Não há fundamento jurídico a atribuir
direito de propriedade ao titular da
propriedade que não está a cumprir
sua função social.
5. Nos termos do art. 186, incs. I a
IV, da Constituição da República, a fun-
ção social da propriedade rural é cons-
tituída por um elemento econômico
(aproveitamento racional e adequado),
um elemento ambiental (utilização
adequada dos recursos naturais e pre-
servação do meio ambiente) e um ele-
mento social (observância das normas
que regulam as relações de trabalho e
exploração que favoreça o bem-estar
dos proprietários e trabalhadores).
6. Somente cumpre a função social
a propriedade rural que atenda simul-
taneamente aos elementos econômi-
cos, ambiental e social.
7. A degradação ambiental da pro-
priedade rural, seja ela provocada pela
utilização inadequada dos recursos na-
turais ou pela não preservação do
meio ambiente, implica aproveitamen-
to irracional e inadequado da terra. Há,
portanto, vinculação entre os elemen-
tos econômico e ambiental da função
social, sendo impossível dissociá-los.
8. Não pode ser considerada pro-
dutiva, do ponto-de-vista jurídico-
constitucional, a atividade rural que
necessite utilizar inadequadamente os
recursos naturais e degradar o meio
ambiente para alcançar o grau de efi-
ciência na exploração da terra.
9. A inobservância das disposições
que regulam as relações de trabalho e
a exploração que desfavoreça o bem-
estar dos trabalhadores implicam
aproveitamento irracional e inadequa-
do da propriedade rural. Há, portanto,
vinculação entre os elementos econô-
mico e social da função social, sendo
impossível dissociá-los.
10. Não pode ser considerada pro-
dutiva, do ponto-de-vista jurídico-
constitucional, a atividade rural que
necessite desrespeitar as disposições
que regulam as relações de trabalho e
necessite prejudicar o bem-estar dos
trabalhadores para alcançar o grau de
eficiência na exploração da terra.
11. Ainda que a produtividade, do
ponto-de-vista estritamente econômi-
co, esteja presente, a propriedade rural
poderá ser desapropriada para fins de
Reforma Agrária se descumprido um
dos demais requisitos caracterizadores
da função social (elemento ambiental
ou social).
12. O padrão produtivo da agricul-
tura moderna - baseado na grande pro-
priedade, na monocultura, na agroquí-
mica e na redução de mão-de-obra,
hegemônico no Brasil, é antidemocráti-
co e inconstitucional. A propriedade
rural que produz observando esse mo-
delo descumpre a função social e é
passível de desapropriação por interes-
se social, para fins de Reforma Agrária.
13. A promoção da agricultura sus-
tentável - ecologicamente equilibrada,
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 95UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
economicamente viável, socialmente
justa e culturalmente apropriada - pas-
sa necessariamente pela reorganiza-
ção da propriedade rural, o que impli-
ca a efetivação da política de Reforma
Agrária no país.
14. A função social da propriedade
rural exige a preservação do meio am-
biente. Logo, não atende à função so-
cial a propriedade que não possuir
suas áreas de preservação permanen-
te e de reserva legal devidamente flo-
restadas.
15. Pela nova ordem constitucional,
as áreas de preservação permanente e
de reserva legal são consideradas es-
paços territoriais ambientalmente pro-
tegidos. Sendo assim, não existe direi-
to adquirido à exploração agrícola das
áreas de preservação permanente e de
reserva legal; tampouco há falar em
indenização ao proprietário obrigado a
cessar a exploração econômica nessas
áreas.
16. O art. 12, parágrafo 1º, inc. II, le-
tra “b”, da Lei nº 8629/93 (Lei da
Reforma Agrária), ao pretender obrigar
a indenização pela capacidade poten-
cial da terra, é inconstitucional. Isso
porque não é possível indenizar a não
realização de uma obrigação jurídica.
Função social da propriedade rural
e a atuação do Ministério Público
17. Cumpre ao Ministério Público,
através das Promotorias de Justiça do
Meio Ambiente, combater as práticas
rurais antiambientais que caracterizam
o padrão de produção agrícola hege-
mônico no Brasil, bem como promo-
ver a agricultura sustentável, utilizando
todos os instrumentos jurídico-proces-
suais que estão a sua disposição, em
especial o inquérito civil, o compromis-
so de ajustamento de conduta e ação
civil pública.
18. Diante da omissão do governo
federal na efetiva implementação da
Reforma Agrária no país, mister a inter-
venção do Ministério Público, que, em
atuação conjunta das Promotorias de
Justiça do Meio Ambiente e da Cidada-
nia e da Procuradoria da República,
deve recomendar ao Incra a desapro-
priação das propriedades onde ocor-
rem as práticas rurais antiambientais e,
se não atendida a recomendação, de-
ve propor ação civil pública que tenha
por objeto a obrigação de fazer a desa-
propriação e a obrigação de fazer o as-
sentamento de trabalhadores sem ter-
ra e sem emprego nessas áreas.
19. O Ministério Público haverá de
agir como intermediador qualificado
no conflito coletivo pela posse da terra,
agindo junto ao órgão que pode e de-
ve promover vistorias e desapropria-
ções, para que cumpra com sua tarefa,
posto que a Constituição não se com-
praz com a existência, de um lado, de
terras descumpridas da função social
e, de outro, parcelas da população
sem direito ao exercício da cidadania.
Enfim, o Ministério Público deve atuar
nos conflitos agrários com o propósito
de viabilizar o acesso dos trabalhado-
res à posse da terra, em cumprimento
do art. 5º, capute inciso XXII, que ga-
rante, isonomicamente, o direito de
propriedade para todos.
20. O Ministério Público deve utili-
zar-se dos procedimentos administrati-
vos e das ações judiciais, quer de natu-
reza civil, quer de natureza penal, para,
também, exercer as funções gizadas
no art. 129, inc. II, da Constituição da
República. O Ministério Público não
pode descuar de todas as questões
que estão imbricadas nas demandas
que têm como centro o conflito pela
posse da terra. Haverá de verificar, por
exemplo, se a área em conflito tem
correto título de domínio, se a posse é
justa, se a propriedade é produtiva, se
cumpre a função social, se respeita o
meio ambiente. Haverá de verificar se
a população em busca da terra tem
atendidos os direitos constitucionais à
educação, à saúde, à alimentação, à
dignidade etc.
21. Os Ministérios Públicos Federal
e dos Estados devem constituir grupos
especiais de trabalho para, em atuação
conjunta, levantar dados, trocar infor-
mações e intervir administrativa e judi-
cialmente na efetivação da política de
Reforma Agrária no país.
Função social da propriedade
rural e os processos que envol-
vem litígios coletivos pela posse
da terra rural
22. A posse que merece proteção
jurídica é aquela que, nos termos do
Código Civil, seja justa e de boa fé, e
aquela que, em razão da Constituição
da República e das leis que regula-
mentam a matéria, recaia sobre terras
que cumpram a função social, em to-
dos os seus elementos (econômico,
ambiental e social), escapando da pos-
sibilidade de servir à Reforma Agrária.
23. É ilegal a utilização dos institu-
tos da legítima defesa da posse e do
desforço imediato quando se tratar de
ações de preservação de terras que
não cumpram com sua destinação
constitucional.
24. O ônus de provar que a posse
carente de proteção judicial recai so-
bre terra que cumpra com sua função
social é do autor.
25. A indefinição dominial ou pen-
dência relacionada à indenização por
benfeitorias não desobriga o postulan-
te da proteção possessória de compro-
var os requisitos constitucionais para a
obtenção da tutela pretendida.
26. A petição inicial da ação pos-
sessória que não identifica correta-
mente a parte que deve figurar no pó-
lo passivo do processo é inepta, nos
termos do art. 282, inc. II, do Código
de Processo Civil. Há possibilidade de
embargos de terceiros possuidores
quando não regularmente chamados a
compor a relação jurídica processual.
96 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 97
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
27. A execução forçada das medi-
das deferidas no âmbito dos processos
que envolvem litígios coletivos pela
posse da terra deve ser realizada da
forma menos gravosa ou humilhante
para o “devedor-ocupador”, nos ter-
mos do art. 620 do Código de Proces-
so Civil.
28. Os tribunais não podem furtar-
se a obedecer ao princípio do juiz
natural, respeitando o sistema de com-
petência por distribuição, quando da
apreciação das medidas liminares em
geral. Deve ser repudiada e questiona-
da, pois inconstitucional, a concentra-
ção de poderes para a concessão ou
não dessas medidas na pessoa de um
único juiz ou desembargador.
29. O Ministério Público, nas ações
que envolvem litígios coletivos pela
posse da terra rural, tem a qualidade
de interveniente em razão da natureza
da lide, reveladora do interesse públi-
co primário da República Federativa do
Brasil de incrementar, em conformida-
de com a Constituição e com as leis, a
Reforma Agrária.
Conclusões finais
30. A luta pela terra, por parte dos
trabalhadores excluídos do direito
constitucional de propriedade, confi-
gura um espaço instituinte de produ-
ção desse direito e deve ser entendida
como autêntica fonte material do direi-
to, com a mesma importância das fon-
tes formais.
31. A luta pelo direito à terra e ao
trabalho na terra, enquanto direito bá-
sico do homem, deve ser travada tanto
no espaço instituinte, quanto na esfera
do instituído, uma vez que a produção
do direito, no plano concreto e efetivo,
é realizada no âmbito do processo his-
tórico animado pelas lutas sociais em
torno da: a) legalização; b) efetivação;
c) aprofundamento; d) manutenção
dos direitos fundamentais da pessoa
humana.
32. A luta pelo direito à terra e ao
trabalho na terra trava-se no espaço do
não legalizado (instituinte) e no âmbi-
to da ordem jurídica vigente (instituí-
do); esses dois espaços (instituinte e
instituído) representam dois momen-
tos da produção do direito e a atuação
do Ministério Público deve dar-se tanto
num quanto noutro, sempre na pers-
pectiva de um autêntico custos juris,
para além, portanto, das simples fun-
ções de fiscal da lei, na tradição liberal
do custos legis, esta última mais ade-
quada aos conflitos interindividuais,
que não exibem grande carga sociopo-
lítica como é o caso dos conflitos em
torno da terra.
AS OCUPAÇÕES DE TERRA
NÃO FEREM A LEGISLAÇÃO
A Constituição Federal
Quando alguém afirma que as ocu-
pações, ou como os representantes da
elite preferem, “invasões”, ferem o Es-
tado de Direito, há que se perguntar
qual o Estado de Direito está sendo
atacado. Isto porque para a minoria
que come e dorme em “berço esplên-
dido”, quando o povo se organiza e
exige seus direitos, a primeira provi-
dência é alardear que tal organização
está ferindo o Estado Democrático de
Direito, sempre com vistas à interven-
ção e repressão policial. É importante
notar que a elite brasileira sempre tra-
tou o problema social como um caso
de polícia. Assim foi desde os Quilom-
bos, passando por Canudos até o gol-
pe militar de 1964.
Para a maioria do povo brasileiro, o
Estado que aí está, certamente não é
um Estado Democrático de Direito.
A Constituição Federal promulgada
em outubro de 1988 estabelece os
princípios fundamentais do Estado
Brasileiro, ou seja, estabelece obriga-
ções aos representantes do Poder Exe-
cutivo para com o povo.
O que está escrito na Constituição
Federal não pode ser considerado “le-
tra morta”, pois se assim fosse, não ha-
veria necessidade de gastar tanto
dinheiro com a eleições e reuniões dos
eleitos - Constituinte -. Ao olharmos
para a realidade que nos cerca da im-
pressão que a Constituição foi escrita
apenas para nos enganar, pois para a
maioria da população brasileira, nada
do que está escrito tornou-se realida-
de.
Vejamos o que está escrito no pre-
âmbulo da Constituição Federal:
“Nós, representantes do povo bra-
sileiro, reunidos em Assembléia Nacio-
nal Constituinte para instituir em Es-
tado Democrático, destinado a asse-
gurar o exercício dos direitos sociais e
individuais, a liberdade, a segurança,
o bem-estar, o desenvolvimento, a
igualdade e a justiça como valores su-
premos de uma sociedade fraterna,
pluralista e sem preconceitos, fundada
na harmonia social e comprometida,
na ordem interna e internacional, com
a solução pacífica das controvérsias,
promulgamos. Sob a proteção de De-
us, a seguinte Constituição da Repúbli-
ca Federativa do Brasil”
O artigo 3º da Constituição Federal
deixa bem claro quais os objetivos fun-
damentais do Estado Brasileiro.
“Art. 3º. Constituem objetivos fun-
damentais da República Federativa
do Brasil:
I - construir uma sociedade livre,
justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento na-
cional;
III - erradicar a pobreza e a margi-
nalização e reduzir as desigualdades
sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem
preconceito de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de
discriminação.
O presidente da república, ao tomar
posse, jura cumprir com a Constituição.
Sendo ele o Chefe Maior do Estado, é
98 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
diretamente responsável pela não ob-
servância dos preceitos constituicio-
nais, sendo até possível afastá-lo do
cargo por crime de responsabilidade.
Tudo isto para dizer que ao, falar-
mos de Estado Democrático de Direito,
temos que nos perguntar qual o con-
ceito que o povo faz acerca destas be-
las palavras.
Para refrescar a memória, se usar-
mos o critério utilizado universalmente
pela ONU - Organização das Nações
Unidas - índice de GINI que vai de
0,000 a 1,000, a concentração da terra
no Brasil está situada em 0,8278. Se
usarmos os dados do Governo Federal
(Atlas Fundiário), 1% (um por cento)
da população brasileira detêm a posse
de 43% (quarenta e três por cento)
das terras.
Se fosse verdade que em 4 (qua-
tro) anos o atual Governo assentou
300 mil famílias, para resolver o pro-
blema da terra - distribuição eqüitativa,
já que existem 4 milhões de famílias
sem-terra - seriam necessários 53
anos. E mais, entre os anos de 95 e 97,
foram assassinados 114 trabalhadores
rurais; portanto, neste passo, em 53
anos, em média, outros 2.014 traba-
lhadores rurais perderiam a vida na lu-
ta pela terra.
Problema maior enfrentam milha-
res de famílias que, cansadas de espe-
rar pela boa vontade do Governo Fe-
deral, resolveram acampar às margens
de rodovias e latifúndios improdutivos
como forma de pressão. Em 1998, a
CPT - Comissão Pastoral da Terra e o
MST - Movimento dos Trabalhadores
Rurais contabilizavam aproximada-
mente 52 mil famílias acampadas.
Alguns representantes da elite, su-
pondo escapar das responsabilidades,
afirmam que a inexistência de leis é
que emperra a reforma agrária. A reali-
dade é outra. A própria Constituição
estabelece que as terras improdutivas
deverão ser desapropriadas e reverti-
das para o assentamento de trabalha-
dores rurais sem-terra. Lei é o que não
falta. Tratando do assunto reforma
agrária, temos a Lei Nº 4.504, de 30 de
novembro de 1964 - Estatuto da Terra;
a Constituição Federal - Artigos 184 a
191; Lei Nº 8.629, de 25 de fevereiro
de 1993; Lei Complementar Nº 76, de
6 de julho de 1993, Lei Complementar
Nº 88/96, Lei Nº 9.415/96.
De acordo com a legislação, as
ocupações de terras para fins de pres-
são pela implementação da reforma
agrária jamais constituíram afronta à
ordem jurídica.
No que concerne a proteção legal à
propriedade, a Constituição Federal
determina que somente as proprieda-
des que estão cumprindo com a fun-
ção social, haverão de receber a prote-
ção legal, ou seja, as terras improduti-
vas deverão ser desapropriadas.
As ocupações de terra
e o código penal
Alguns representantes da elite alar-
deiam, através dos jornais falados e es-
critos, que os trabalhadores rurais
sem-terra deveriam ser condenados e
colocados na cadeia por “crimes con-
tra a propriedade da terra”. Alguns juí-
zes e promotores até que tentam
assim agir, uns até ao arrepio da lei
processual. Devido ao vigilante traba-
lho dos advogados que compõem a
Rede Autônoma dos Advogados Popu-
lares, até o presente momento, nenhu-
ma sentença condenatória transitou
em julgado. Mas, de outro lado, impos-
sibilitados de condenarem sem as
devidas provas, alguns magistrados,
com visão turva e caolha do que seja
movimento popular, pisando no direi-
to de liberdade, decretam prisões pre-
ventivas contra as possíveis lideranças,
imaginando frear a organização.
Somente no primeiro semestre de
1998, 110 (cento e dez) trabalhadores
passaram pelos cárceres.
Alguns representantes do Ministé-
rio Público e magistrados pretendem
condenar as possíveis lideranças do
MST por formação de bando ou qua-
drilha - artigo 288, do Código Penal.
Para tanto, afirmam que os trabalha-
dores se organizaram no MST para o
fim de cometer crimes, entre eles, o
esbulho possessório. Estes “Senhores
da Lei e da Ordem”, diga-se de passa-
gem, representantes do latifúndio atra-
sado - aqueles magistrados e promo-
tores com visão turva e caolha do que
seja movimento popular - esquecem
que a finalidade do ordenamento jurí-
dico penal é reeducar o criminoso e
dar uma satisfação para a sociedade
aplicando o Direito com equidade. Em
certas situações, o Poder Judiciário
analisa os conflitos dando-lhes um
caráter individual e singular, separan-
do-o das condições sociais, políticas e
econômicas que os germinam.
É evidente que os conflitos agrários
- ocupações de terras - não podem ser
tratados como caso de polícia, já que,
ao contrário daqueles indivíduos con-
siderados criminosos comuns, que por
sua vez reconhecem o comando jurídi-
co violado, os trabalhadores rurais
sem-terra, que participam da luta pela
reforma agrária, agem por convicção
política ou social e rejeitam o coman-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 99
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
do jurídico; sendo assim, imperioso
afirmar que a pena não poderá alcan-
çá-los com uma superioridade ética
capaz de atingir os fins de educar, retri-
buir ou corrigir. Destarte, quando o
ordenamento penal é utilizado na
repressão às manifestações populares,
se presta como arma na defesa de
uma ordem estatal, que se converte
em tirania.
A experiência do MST tem de-
monstrado que alguns magistrados, ao
aplicar a lei no caso concreto, em se
tratando de conflitos coletivos, analisa-
rá sob a ótica de classe, ou seja, na
prática, para a concessão de liminar de
reintegração de posse, o causídico do
fazendeiro não está obrigado a cum-
prir com as exigências do Código Civil
e do Código de Processo Civil e, para a
expedição de decreto de prisão pre-
ventiva, não precisa observar os precei-
tos do Código Pena e Código de Pro-
cesso Penal. Em outras palavras, quan-
do o conflito é entre iguais - fazendei-
ro contra fazendeiro, aplica-se a lei;
quando é sem-terra contra fazendeiro,
o que está escrito não vale.
As ocupações de terras e de prédios
públicos têm por objetivo chamar a
atenção dos governantes para a necessi-
dade de se implementar, com mais
urgência, políticas públicas na área rural.
Sendo assim, a persecução penal
se torna ineficaz porque, sob qualquer
dos seus aspectos - prevenção geral,
ressocialização ou retribuição - não se
mostra como uma solução adequada.
O trabalhador rural que age movido
por convicção possui conjuntos éticos
diferentes do criminoso comum. Vale-
se de uma visão do mundo que não é
superior, nem inferior, somente distin-
ta daquela interpretação do comando
jurídico fiel às estruturas de poder, se-
gurança e dominação em dado con-
texto social.
No caso das ocupações de terras -
ações praticadas por um fundamento
de consciência - não cabe falar em res-
socialização, readaptação ou recupera-
ção social, pois a pena não o atinge
com este caráter. O encarceramento
de trabalhadores rurais sob o pretexto
de impedir ocupações de terras é uma
violência contra o direito de liberdade,
tão arduamente conquistado recente-
mente. Quando trabalhadores rurais
são encarcerados em razão da luta
pela terra, o ordenamento jurídico pe-
nal está sendo usado na proteção dos
interesses do latifúndio.
Em agosto de 1997, a Anistia Inter-
nacional publicou um relatório acerca
dos processos criminais e prisões pre-
ventivas contra trabalhadores rurais.
No relatório intitulado “Denúncias cri-
minais com motivação política contra
ativistas da reforma agrária”, a Anistia
informa e denuncia:
“A Anistia Internacional está preo-
cupada com o uso do que consta se-
rem acusações e mandados de prisão
preventiva com motivação política
contra ativistas da reforma agrária e
membros do Movimento dos Traba-
lhadores Rurais Sem Terra (MST) no
Brasil. Tudo indica que a formalização
de tais denúncias tenha constituído
uma forma de assédio e criminaliza-
ção de ativistas da reforma agrária,
nun contexto de disputa de terras”.
A principal acusação posta contra
os trabalhadores rurais é de terem pra-
ticado atos tipificados no artigo 161,
parágrafo 1º, inciso II do Código Penal,
ou seja, esbulho possessório. Vejamos
o que diz o artigo da lei:
Alteração de limites
Art. 161. Suprimir ou deslocar ta-
pume, marco, ou qualquer outro sinal
indicativo de linha divisória, para
apropriar-se, no todo ou em parte, de
coisa imóvel alheia:
Pena - Detenção, de um a seis me-
ses, e multa.
Esbulho possessório
§1º. Na mesma pena incorre quem:
Inciso II - Invade, com violência à
pessoa ou grave ameaça, ou median-
te concurso de mais de duas pessoas,
terreno ou edifício alheio, para o fim
de esbulho possessório.
Ora, lendo e relendo os depoimen-
tos já prestados pelos trabalhadores
rurais nas delegacias de polícia e em
juízo, observamos que são unânimes
em afirmar que a ocupação de terra foi
realizada para pressionar o Governo
Federal na agilização dos assentamen-
tos, ou seja, é um instrumento utiliza-
do para exigir a aplicação imediata do
quanto posto na Constituição Federal.
Alberto Silva Franco, jurista desta-
cado, desembargador do Tribunal de
Justiça dos Estado de São Paulo, com
ímpar distinção preleciona acerca do
tema em tela:
“O crime de esbulho possessório
só é punível a título de dolo, isto é, se
o agente tem consciência e vontade
de realizar a conduta tipificada, ou
seja, a invasão do imóvel alheio. Mas
não é só. É necessário sempre que a
invasão esteja acompanhada de um
específico elemento anímico: o fim de
esbulho possessório. Desta forma, se o
agente afetua a ação física requerida
pelo tipo, não com o propósito delibe-
rado de despojar o sujeito passivo do
exercício da posse do imóvel, mas,
sim, com o fito de turbá-lo, não há co-
gitar do delito em exame”(Código Pe-
nal e sua Interpretação Jurisprudencial,
Ed. Revista dos Tribunais, S. Paulo,
1990, pág. 961).
Para espancar de vez a afirmação
de que as ocupações de terras consti-
tuem crime e assim devem ser trata-
das, vejamos algumas decisões.
JUÍZES DE PRIMEIRA INSTÂNCIA,
TRIBUNAIS DE JUSTIÇA E
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
As ocupações de terras enquanto
instrumento de pressão pela realiza-
ção da reforma agrária já foram objeto
de apreciação por parte de vários jui-
zes de primeira instância e Tribunais
de Justiça dos estados, que conforme
poderemos observar logo abaixo, são
unânimes em demonstrar a legalidade
das ocupações.
1. Comarca de Paranacity -
Paraná
No mês de dezembro de 1996,
aproximadamente 80 famílias organi-
zadas pelo MST ocuparam uma fazen-
da nas proximidades do município de
Paranacity. Os advogados do latifun-
diário logo bateram às portas do Poder
Judiciário local, na tentativa de despe-
jar aquelas famílias. A juíza Márcia An-
drade Gomes Bosso, da Comarca de
Paranacity, em decisão merecedora de
elogios, indeferiu o pedido de liminar,
determinando que as famílias perma-
necessem na área até que o Governo
encontrasse uma solução definitiva
para o problema. Vamos aos argumen-
tos utilizados pela magistrada:
“Hoje, não só a propriedade, mas
também a posse, tem por requisito o
cumprimento da função social, confor-
me já se pronunciou o Prof. Luiz Edson
Fachin, “in A Função Social da Posse,
Porto Alegre, Fábris. Nesses termos, ju-
ristas nacionais, como Jurandir Porto
Rosa (Defensor Público da União), Rui
Portanova e Sérgio Sérvulo da Cunha
vêm discutindo a necessidade de se
exigir, para a proteção possessória, a
prova do cumprimento da função so-
cial, como um quinto requisito, além
dos elencados no art. 927 do Código
Civil, o qual, diga-se de passagem, não
está comprovado prima face nos au-
tos.
Não se discute que a responsabili-
dade social que deve ter em conta o
Estado-Jurisdição quando da conces-
são de liminares de reintegração de
posse contra um grande número de
pessoas é incomensaurável. Os recen-
tes episódios de Corumbiara (RO),
Santa Izabel do Ivaí (PR) e Eldorado
dos Carajás (PA) vêm confirmar as
valorosas lições dadas por José Maria
Rosa Tesheiner que, em voto conver-
gente nos Emb. Infr. nº 100287119, do
1º Grupo Cível do TA/RS, em 18.11.83:
‘Esta não é uma possessória igual a
tantas outras, em que são indivíduos
os que contendem. Aqui, uma coletivi-
dade se apresenta como ré. Busca-se
reintegrar na posse uns poucos e de-
mitir da posse uma comunidade ...
Essa a peculiaridade a destacar desde
logo, porque não se encontra na lei
solução expressa para hipótese como
a presente.
Ora, colocando na balança da jus-
tiça, de um lado os interesses de três
casais, para os quais a área em litígio
representa muito, mas não é funda-
mental, e de outro, os de noventa ou
mais famílias, para os quais essa mes-
ma área é condição de vida digna,
parece não ser difícil determinar para
que lado pende a balança. O Judiciá-
rio, por ser um Poder, não pode ficar
apenas na posição subalterna de obe-
diência a comandos emitidos pelo
demais Poderes. Deve colaborar com
o Legislativo e o Executivo na solução
dos problemas sociais, especialmente
quando se apresentam hipóteses, que
não se prestam à edição de normas
abstratas, exigindo solução concreta,
caso a caso.”
Ainda, calcando sua decisão, a
douta magistrada, utilizando-se de ar-
gumentos lançados pelo Ministro
Willian Patterson na Susp. de Seg. nº
444/ES (96/0003602-0) DJU, 2.1.96,
p. 300, afirmou:
“(...) a desocupação, ex abrupto,
de expressivo número de famílias
assentadas em área urbana provoca
grave perturbação social, conquanto o
Poder Judiciário não possa descurar
do direito de propriedade, de um lado,
por outra parte deve estar atento aos
reflexos no contexto social que suas
decisões provocam.
(...) o imediato desalojamento dos
posseiros tem potencial para causar
grave perturbação da paz social, da
ordem e da segurança pública (...)
Finalmente, encerrando sua bri-
lhante decisão a magistrada decretou:
“Neste diapasão, a par das consi-
derações feitas, entendo que toda
cautela deve ser adotada, a fim de evi-
tar que o sangue dos envolvidos no
litígio venha a cobrir a extensão terri-
torial de nossa Comarca, devendo pre-
valecer, por ora, a vida humana, a paz
social, a ordem e a segurança pública
em detrimento da propriedade parti-
cular”. (Proc. 351/96 - Comarca de Pa-
ranacity/PR)
2. Juiz da 8ª Vara da Justiça
Federal de Minas Gerais
No mês de fevereiro de 1995, apro-
ximadamente 300 famílias ocuparam
uma faixa de terra ao longo da rodovia
BR116, no estado de Minas Gerais. A
ocupação foi realizada com o objetivo
de pressionar o governo e chamar
atenção da opinião pública para o gra-
ve problema dos trabalhadores rurais
sem-terra.
O DNER, órgão do Governo Federal
responsável pelas rodovias, protocolou
junto à Justiça Federal, um pedido de
reintegração de posse, alegando que
as pessoas corriam risco de vida ao
permanecerem próximos à rodovia.
A ação foi distribuída para a 8ª Vara
da Justiça Federal, em Belo Horizonte.
O juiz Antônio Francisco Pereira, apre-
ciando o pedido formulado pelo
DNER, proferiu a seguinte decisão:
“Várias famílias (aproximadamen-
te 300 - fl. 10) invadiram uma faixa de
domínio ao lado da Rodovia BR 116,
na altura do Km 405,3, lá construindo
barracos de plástico preto, alguns de
adobe, e agora o DNER quer expulsá-
los do local.
“Os réus são indigentes”, reconhe-
100 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
ce a autarquia, que pede reintegração
liminar na posse do imóvel.
E aqui estou eu, com o destino de
centenas de miseráveis nas mãos. São
os excluídos, de que nos fala a Cam-
panha da Fraternidade deste ano.
Repito, isso não é ficção. É um pro-
cesso. Não estou lendo Graciliano Ra-
mos, José Lins do Rêgo ou José do Pa-
trocínio.
Os personagens existem de fato. E
incomodam muita gente, embora de-
les nem se saiba direito o nome. É Val-
dico, José Maria, Gilmar, João Leite. Só
isso para identificá-los. Mais nada.
Profissão, estado civil (CPC, art. 282, II)
para quê, se ‘indigentes’ já é qualifica-
ção bastante?
Ora, é muita inocência do DNER se
pensa que eu vou desalojar este pes-
soal, com a ajuda da polícia, de seus
moquiços, em nome de uma mal arre-
vesada segurança nas vias públicas. O
autor esclarece que quer proteger a vi-
da dos próprios invasores, sujeitos a
atropelamento.
Grande opção! Livra-os da morte
sob as rodas de uma carreta e arroja-
os para a morte sob o relento e as for-
ças da natureza.
Não seria pelo menos mais digno -
e menos falaz - deixar que eles mes-
mos escolhessem a maneira de mor-
rerem, já que não lhes foi dado optar
pela forma de vida?
O Município foge à responsabilida-
de “por falta de recursos e meios de
acomodações”(fl. 16v).
Daí, esta brilhante solução: aplicar
a lei. Só que, quando a lei regula as
ações possessórias, mandando defe-
nestrar os invasores (arts. 920 e segts.
do CPC), ela - COMO TODA LEI - tem
em mira o homem comum , o cidadão
médio, que, no caso, tendo outras op-
ções de vida e de moradia diante de
si, prefere assenhorear-se do que não
é dele, por esperteza, conveniência, ou
qualquer outro motivo que mereça a
censura da lei e, sobretudo, repugne a
consciência e o sentido do justo que os
seres da mesma espécie possuem.
Mas este não é o caso no presente
processo. Não estamos diante de pes-
soas comuns, que tivessem recebido
do Poder Público razoáveis oportuni-
dades de trabalho e de sobrevivência
digna (v. fotografias).
Não. Os “invasores” (propositada-
mente entre aspas) definitivamente
não são pessoas comuns, como não
são milhares de outras que “habitam”
as pontes, viadutos e até redes de es-
goto de nossas cidades. São párias da
sociedade (hoje chamados de excluí-
dos, ontem de descamisados), resulta-
do do perverso modelo econômico
adotado pelo país.
Por este exército de excluídos, o Es-
tado (aqui, através do DNER) não po-
de exigir a rigorosa aplicação da lei
(no caso a reintegração de posse)
enquanto ele próprio - o Estado - não
se desincumbir, pelo menos razoavel-
mente, da tarefa que lhe reservou a
Lei Maior. Ou seja, enquanto não
construir - ou pelo menos esboçar -
“uma sociedade livre, justa e solidá-
ria” (CF art. 3º, I) erradicando “a
pobreza e a marginalização (III), pro-
movendo “a dignidade da pessoa
humana” (art 1º, III), assegurando “a
todos existência digna, conforme os
ditames da Justiça Social” (art.170),
emprestando à propriedade sua “fun-
ção social” (art. 5º, XXIII e 170,III),
dando à família, base da sociedade,
“especial proteção” (art.220) e colo-
cando a criança e o adolescente “a
salvo de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência,
maldade e opressão” (art.227) en-
quanto não fizer isso, elevando os
marginalizados à condição de cida-
dãos comuns, pessoas normais, aptas
a exercerem sua cidadania, o Estado
não tem autoridade para deles exigir -
diretamente ou pelo braço da Justiça -
o reto cumprimento da lei.
Num dos braços, a Justiça empe-
nha a espada, é verdade, o que serviu
de estímulo a que o Estado viesse hoje
pedir a reintegração. Só que, no outro,
ela sustenta a balança em que pesa o
direito. E as duas - lembrou Rudolf Von
Jhering, há mais de 200 anos - hão de
trabalhar em harmonia.
“A espada sem a balança é força
brutal; a balança sem espada é a im-
potência de direito. Uma não pode
avançar sem a outra, nem haverá or-
dem jurídica perfeita sem que a ener-
gia com que a justiça aplica a espada
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 101UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
seja igual a habilidade sem que
maneja a balança.”
Não é demais observar que o com-
promisso do Estado para com o cida-
dão funda-se em princípio que tem
matriz constitucional.
Verdadeiros dogmas de cuja fiel
observância dependem a eficácia e a
exigibilidade das leis menores.
Se assim é - vou repetir o raciocínio
- enquanto o Estado não cumprir a sua
parte (e não é por falta de tributos que
deixará de fazê-lo), dando ao cidadão
condições de cumprir a lei, feita para o
homem comum, não pode de forma al-
guma exigir que ela seja observada,
muito menos pelo homem “incomum”.
Mais do que de deslealdade, trata-
se de pretensão moral e juridicamente
impossível, a conduzir - quando feita
perante o Judiciário - ao indeferimento
da inicial e extinção do processo, o
que ora decreto nos moldes dos arts.
267 I e IV 295 I e parágrafo único, III,
do CPC, atento à recomendação do
art. 5º da LICCB e olhos postos no art.
25, da Declaração Universal dos Direi-
tos do Homem, que proclama: “Todo
ser humano tem direito a um nível de
vida adequado, que lhe assegure, as-
sim como a sua família, a saúde e o
bem-estar e, em especial alimentação,
o vestuário e a moradia”.
Quanto ao risco de acidentes na
área, parece-me oportuno que o DNER
sinalize convenientemente a rodovia
nas imediações. Devendo ainda exer-
cer um policiamento preventivo, a fim
de evitar novas “invasões” (processo
95.0003154-0 - 8ª Vara Federal - Belo
Horizonte/MG).
P.R.I. - Belo Horizonte, 03 de março
de 1995 - Antonio Francisco Pereira -
Juiz Federal da 8º Vara
3. Tribunal de Justiça
do Estado do Paraná
As ocupações de terras já foram
objeto de decisões por parte dos tribu-
nais de segunda instância. O tribunal
de Justiça do Estado do Paraná, em de-
cisão no Agravo de Instrumento, inter-
posto pelos advogados do MST, para
suspender uma decisão liminar de
reintegração de posse, decidiu que:
“A questão discutida nos autos,
além de envolver o interesse fulcrado
no direito de propriedade, traz ao con-
flito o interesse social, ambos protegi-
dos pela Constituição Federal, que ge-
ra hoje, em nosso país, grande discus-
são e conseqüências.
Dispõe o artigo 5º, da Lei de Intro-
dução ao Código Civil, que o Juiz, na
aplicação da lei, deve atentar para os
fins sociais e as exigências do bem co-
mum. Neste diapasão, vislumbra-se
na espécie, os relevantes aspectos e
interesses em jogo, já que na área em
disputa se encontram diversas famí-
lias, inclusive com a presença de me-
nores e adolescentes, o que tornaria
imprescindível a presença do Minis-
tério Público, o que não ocorreu.
Verifica-se, ademais, pelos docu-
mentos juntados aos autos, que tanto
o proprietário da área como o INCRA,
manifestaram interesse numa compo-
sição amigável, na busca de uma so-
lução pacífica para a causa, o que pa-
rece estar sendo providenciado, em
especial pelo segundo agente.
Portanto, diante da relevância dos
interesses em jogo, atrelado aos fun-
damentos acima expostos, por vislum-
brar a presença dos requisitos legais,
podendo, ainda, advir dano irrepará-
vel às pessoas que se encontram na
área, é que concedo o efeito suspensi-
vo à decisão atacada, até que haja o
pronunciamento final por esta Câ-
mara, após regular instrução dos au-
tos.” (Agravo de Instrumento nº
99.685-6 - De Palmital - Vara Cível)
Ainda, o Tribunal de Justiça do Es-
tado do Paraná, ao manifestar-se acer-
ca de uma ocupação de terras, ocorri-
da na Fazenda Giacommet Marodim,
no município de Laranjeiras, no dia 1º
de agosto de 1996, decidiu que:
“(...) denota-se de uma leitura
atenta as razões do agravo, bem co-
mo da documentação que o instrui,
que este é mais um caso a exigir do
magistrado extrema cautela, pelo fato
de lidar com grave problema social
que assola e envergonha a pátria,
qual seja, a ausência de moradia e de
terras a milhares de brasileiros. O arti-
go 5º, da Lei de Introdução ao Código
Civil, estipula que “Na aplicação da lei,
o juiz atenderá aos fins sociais a que
ela se dirige e as exigências do bem
comum”; baseado neste dispositivo le-
gal, é de considerar relevante a funda-
mentação contida nas razões recur-
sais e onde se discute a real situação
dos agravantes. Seriam ele esbulha-
dores comuns a serem tratados da
mesma forma como aqueles que inva-
dem propriedade alheia com o fito de
auferir lucro, em prejuízo do proprietá-
rio, ou levados a adentrarem em ter-
ras de terceiros a fim de poderem so-
breviver, bem como a sua família.
Embora a diferenciação, em termos de
texto legal, a lei deve ser, nas mãos de
seu aplicador, um instrumento de rea-
lização do bem social e para tal de-
vem ser perqueridas sua finalidade,
procurando interpretá-la de forma a
que venha a servir aos interesses
sociais para se conseguir este resulta-
do, e ela (lei) pode se dar a necessá-
ria elasticidade, numa tentativa de
adaptá-la de conformidade com a
realidade do presente, atendendo,
como já dito, as necessidades sociais
desconhecidas ou pouca conhecidas
na força de sua edição. Os autos noti-
ciam a existência de menores no local,
desconhecendo este julgador se al-
guns deles totalmente desamparados,
órfãos ou sem orientação de respon-
sável e o que é público de qualquer
forma, a execução do mandato resul-
taria conseqüências graves e imprevi-
102 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
síveis e, por isso, a melhor solução
será, por certo, a aplicação do dispos-
to no artigo 550, do Código de Pro-
cesso Civil, qual seja, a de suspender o
cumprimento de decisão até o pro-
nunciamento definitivo da Câmara, na
esperança de que, nesse interregno,
seja encontrada uma solução pacífica
e justa que venha a contentar os con-
tendores. Atente-se, neste particular, a
existência de negociação a respeito,
comunique-se ao juiz tal decisão, en-
tendendo como desnecessária a re-
quisição de informações, intime-se a
agravada, por ofício dirigido ao seu
advogado e obedecidos os demais re-
quisitos previsto no inciso III do artigo
527 do Código de Processo Civil, para
que responda, no mesmo prazo acima
assinalado.” (Agravo de Instrumento nº
96.00000295 - TJPR - 2ª Câmara Cível)
4. Tribunal de Justiça do
Mato Grosso do Sul
Nossos Tribunais de Justiça têm de-
cidido que, em havendo controvérsia a
respeito da propriedade ou da posse,
o crime de esbulho possessório inexis-
te. É o que se infere do acórdão do Tri-
bunal de Justiça do Mato Grosso do
Sul, transcrito abaixo:
“Sendo induvidosa a existência de
controvérsia a respeito da proprieda-
de e posse da área em litígio, existin-
do inclusive, ação de manutenção de
posse em curso e movida pelo quere-
lado contra os querelantes, e estatuin-
do os tipos penais citados que a inva-
são ou introdução de animais ocorra
em imóvel alheio, é de se rejeitar
desde logo a queixa assim formulada,
por serem atípicos os fatos nela descri-
tos”( TJMS - Rec. - Rel. Pereira Rosa -
RT 545/405).
5. Tribunal de Alçada Civil do
Estado do Rio Grande do Sul -
Câmara de Férias
Em julho de 1997, aproximada-
mente 300 famílias participaram de
uma ocupação de terras no município
de Santo Antonio das Missões, Rio
Grande do Sul. Os advogados do lati-
fundiário conseguiram junto ao juiz lo-
cal um decreto liminar de reintegração
de posse. Todavia, como sói acontecer
em 90% das decisões liminares em
ação de natureza possessória, havia
falhas. Por provocação dos advogados
do MST, o Tribunal de Justiça cassou a
liminar concedida. Vejamos os argu-
mentos:
“A questão trazida pelo recurso é, a
meu ver, a mais importante de todas
que estão a desafiar o futuro do país.
Desde séculos, a questão agrária vem
afrontando o descortino e a desenvol-
tura dos governos, que somente em
poucos e fugazes momentos revela-
ram algum desassombro e alguma
clarividência, no sentido de avançar
no sentido da solução do conflito
agrário ou, pelo menos, minorar os
efeitos deletérios da sua presença
inercial na história do nosso sofrido e
lento desenvolvimento econômico e
social.
Os movimentos populares prolife-
ram clamando por solução. Em todo o
território nacional, realizam manifes-
tações, reclamam providências, supli-
cam por ações políticas, esperam por
décadas e décadas. Objetivamente
pouco, ou quase nada, tem sido feito.
Os gestos governamentais são peque-
nos e seus efeitos menores. O proble-
ma não apenas continua sem solução.
Aumenta, cresce e a situação se torna,
cada vez mais, insustentável.
A realidade está a mostrar elo-
qüentemente que há multidões de
brasileiros esperando para trabalhar a
terra. Essa realidade não se transfor-
ma se não for tomada uma decisão
política de alta envergadura social,
definitiva e permanente, para que se
pacifique o grande conflito da nação,
cuja suplantação somente se dará
pela opção pelos necessitados com
resultados benéficos, de toda a ordem,
em favor da sociedade brasileira.
Rogando compreensão a essas
considerações iniciais, feitas apenas
para colocar o caso concreto na mol-
dura política, social e econômica em
que há anos vivemos, e, mesmo, para
vincular esse despacho ao tempo atu-
al da nossa história, como deve sem-
pre fazer o magistrado. Ainda, para
marcar a dimensão que obriga a uma
visão diferenciada dos casos comuns,
para os quais, seguramente, foi a
legislação concebida.
Não há, a meu ver, a menor censu-
ra técnica que se possa fazer à deci-
são agravada. Está fundamentada em
dispositivos adequados e é irretocável.
Todavia, como se sabe, não se tem
notícia do que alguma dessas ocupa-
ções, de per si, tenha determinado a
alteração da posse, perdendo-a o titu-
lar do domínio para os possuidores, as-
sim introduzidos na terra. Trata-se, co-
mo se sabe, de iniciativas que visam
precisamente concretizar o conflito,
torná-lo real, para assim, sacudir as
consciências adormecidas. Como diz o
Min. Luiz Vicente Cernichiaro, citado pe-
los agravantes, o que há é “pressão
social para concretização de um direito
(pelo menos - interesse), na qual, subs-
tancialmente, não há ilícito algum”.
Daí a razão, por demais conhecida,
que recomenda sejam as providências
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 103
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
de desocupação tomadas com todas
as cautelas e, mais, com o vagar neces-
sário, sem desproteger o direito do
proprietário, para que os efeitos e os
rendimentos da ação sejam colhidos,
sob pena de nada se fazer, nada ser
feito, no sentido de dar vida a um di-
reito inscrito no texto da Constituição
Federal.
Não é, por óbvio, o Poder Judiciário
a caixa de ressonância das movimen-
tações sociais. Mas, também, surdo e
mudo não é. Está ele integrado na or-
ganização do Estado para cumprir fun-
ções e uma delas, sem dúvida, é res-
ponder aos reclamos da sociedade.
Talvez, a mais importante. Assim, aqui
desembocando o conflito, a ele cabe,
além de aplicar a lei, aplicá-la em con-
sonância com a aspiração social.
Não se pense que, assim agindo,
está-se a invadir esfera de outros po-
deres. Não se conhece governante,
parlamentar ou qualquer político que
se declara abertamente contra a Re-
forma Agrária. Todos a querem. Nin-
guém a faz. A conformidade do magis-
trado a essa expectativa nacional nada
mais representa do que a resposta que
lhe cabe dar.
Nesse contexto, a presença e a par-
ticipação do Ministério Publico em de-
mandas dessa natureza são imperio-
sas, na medida em que a visão dima-
nada desse órgão oportunizará no fei-
to a defesa de direitos e interesses ou-
tros, não apenas aqueles contidos na
estrita relação processual que vincula
possuidores e proprietários. A Consti-
tuição Federal, aliás, dotou o Ministério
Público de funções maiores e de alta
relevância na proteção do interesse
público. Esse interesse está, como em
poucos casos, eloqüentemente pre-
sente na espécie. Tão imperiosa e va-
liosa é a presença do Ministério Pú-
blico que deve ser ele convocado des-
de o início da demanda, para que, des-
de logo, esteja ela, lide, impregnada da
visão publicista ao magistrado melho-
res e mais amplos elementos de con-
vicção para decidir.
Por fim, pedindo vênia para as opi-
niões contrárias, penso que, posto tec-
nicamente irretocável, como já foi dito,
a decisão recorrida, em razão da den-
sidade social e do relevante interesse
público que estão o informar a contro-
vérsia, deve o disposto no inciso III do
artigo 82 do CPC receber interpretação
ampla e, particularmente, afeiçoada e
direcionada à natureza excepcional
dos fatos, com vistas a intervenção do
Ministério Público.
Com essas considerações, deferin-
do os pedidos contidos nas letras a) e
b), dou efeito suspensivo ao recurso,
para que, cassando a decisão agrava-
da, seja oportunizada a intervenção,
desde logo, do Ministério Público, na
forma pleiteada”. (Porto Alegre, 25 de
julho de 1997 - Perciano de Castilhos
Bertoluci - Juiz da Alçada Plantonista -
Agrav. de Instr. nº 197144462).
5. Superior Tribunal de Justiça
Em março de 1996, o Superior Tri-
bunal de Justiça, em decisão no “ha-
beas corpus” impetrado para livrar seis
trabalhadores rurais que encontravam-
se encarcerados na região do Pontal
do Paranapenama, o Ministro Luiz
Vicente Cernicchiaro, discorrendo acer-
ca do esbulho possessório e das ocu-
pações de terras aduziu:
“O despacho de prisão preventiva,
com fundamentação alentada, projeta
uma realidade social. Divisou, na con-
duta da Paciente insubordinação às
regras jurídicas. Do ponto de vista for-
mal, isso acontece. Não há, entretanto,
a configuração do esbulho possessó-
rio, ou de alteração de limites.” (HC.
4.399 - SP - 6ª Turma - j. 12.03.96)
A “priori”, a decisão acima já basta
para espancar qualquer celeuma em
torno da ocorrência ou não de crime
nas ocupações de terras, haja vista que
a jurisprudência acima, emanou da
mais alta Corte do Poder Judiciário
brasileiro para o caso em tela.
Mas o Superior Tribunal de Justiça,
através de seus Ministros foi além,
considerou as ocupações de terras co-
mo legítimas formas de exigibilidade
dos direitos assegurados na Consti-
tuição Federal. Senão vejamos:
“(...) O fato precisa ser analisado
em seu contexto, coordenando a sua
motivação. Aceito as considerações do
M.M. Juiz de Direito, encampadas pelo
v. acórdão. Todavia, com o devido res-
peito, confiro-lhes definição jurídica di-
ferente. Invoque-se a Constituição da
República, especificamente o Título VII
- Da Ordem Econômica e Financeira -
cujo Capítulo II registra como progra-
ma a ser cumprido a - Reforma Agrá-
ria (art. 184 usque 191).
Evidente, essa norma tem destina-
tário. E como destinatário, titular do di-
reito (pelo menos - interesse) à con-
cretização da mencionada reforma.
A demora (justificada ou injustifica-
da) da implantação gera reações nem
sempre cativas à extensão da norma
jurídica.
A conduta do agente do esbulho
possessório é substancialmente distin-
ta da conduta da pessoa com interes-
se na reforma agrária.
Atualmente a culpabilidade é cada
vez mais invocada na Teoria Geral do
Delito. A sua intensidade pode, inclusi-
ve, impedir a caracterização da infra-
ção penal.
No esbulho possessório, o agente
dolosamente, investe contra a proprie-
dade alheia, a fim de usufruir um de
seus atributos (uso). Ou alterar os limi-
tes do domínio para enriquecimento
sem justa causa. No caso dos autos, ao
contrário, diviso pressão social para
concretização de um direito (pelo me-
nos - interesse) ( HC. 4.399 - SP - Mi-
nistro Luiz Vicente Cernicchiaro)
Por seu turno, o Ministro Adhemar
104 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
Maciel, integrante da Turma que julgou
o “habeas corpus”, fez inserir em seu
voto as seguintes considerações acer-
ca da criminalização das ocupações de
terras:
“ O voto do Sr. Ministro Luiz Vicente
Cernicchiaro impressionou-me sobre o
aspecto jurídico-político da igualdade
perante a lei e a igualdade na lei. Os
autores alemães trazem estas duas ex-
pressões que em alemão talvez tenha
mais sabor do que em português:
“Gleichheit vor dem Gesetz” e “Glei-
chheit im Gesetz”. A igualdade foi apre-
goada por Montesquieu, Rousseau e
outros mais. Muitas vezes está na Cons-
tituição, na lei. Mas é puramente formal.
Pergunto, à medida que os fatos se
desenrolaram, se não seria - o Minis-
tro Luiz Vicente Cernicchiaro enfocou
bem - uma “reforma agrária de baixo
para cima”, uma pressão social, já que
o governo está “tranquilo” há não sei
quantos anos - quando todas as nos-
sas Cartas e as nossas Constituições
estão apregoando a reforma agrária.
Lembro-me do livro “Lanterna na
Popa”, do deputado Roberto Campos,
no qual se diz que um dos atrasos do
Brasil, em relação ao Japão, Taiwan
etc. foi exatamente a não-reforma
agrária oportuna.”
A conclusão óbvia que emerge da
decisão proferida pelo Egrégio Supe-
rior Tribunal de Justiça é de que as
ocupações de terras, na órbita do Di-
reito Penal, não constituem crime, são
legítimas, constitucionais e necessárias
para fazer o processo de reforma agrá-
ria tramitar mais rapidamente.
Mas em certos casos (Pontal do
Paranapanema/SP, por exemplo), al-
guns juizes, na ânsia desesperada de
proteger o latifúndio improdutivo co-
metem ilegalidades. Porém, cometes-
sem-nas apenas uma vez, seria até
compreensível. Todavia, insistem em
criminalizar as ocupações. Este é o ca-
so da Comarca de Pirapózinho. Por
duas vezes o Poder Judiciário local
buscou prender lideranças do MST, por
duas vezes o Superior Tribunal de Jus-
tiça - STJ determinou que fossem colo-
cados em liberdade.
No dia 8 de abril de 1997 a 6ª Tur-
ma do STJ, pela segunda vez, se reuniu
para decidir sobre um pedido de ha-
beas corpus em favor dos trabalhado-
res do Pontal do Paranapanema.
A decisão foi clara e contundente:
as ocupações de terras estão protegi-
das pela Constituição Federal, são legí-
timas e necessárias.
Habeas Corpus nº 5.574/SP
97.0010236-0
Relator designado: Exmo. Sr. Minis-
tro Luiz Vicente Cernicchiaro.
Impetrantes: Luiz Eduardo Gree-
nhalgh e Aton Fon Filho.
Publicado no Diário Oficial de Jus-
tiça em 18/08/97.
“EMENTA
HC - CONSTITUCIONAL - HABEAS
CORPUS - LIMINAR - FIANÇA - REFOR-
MA AGRÁRIA - MOVIMENTO SEM -TER-
RA - Habeas corpus é ação constitucio-
nalizada para preservar o direito de lo-
comoção contra atual, ou iminente ile-
galidade, ou abuso de poder. (...)
Movimento popular visando a
implantar a reforma agrária não ca-
racteriza crime contra o Patrimônio.
Configura direito coletivo, expressão
da cidadania, visando a implantar
programa constante da Constituição
da República. A pressão popular é
própria do Estado de Direito Demo-
crático.
Opinião de Juristas
Para que não paire qualquer som-
bra de dúvida acerca da legitimidade
das ocupações de terras, enquanto
mecanismo de pressão pela realização
da reforma agrária, passaremos a
transcrever algumas opiniões de reno-
mados juristas brasileiros.
1. Fábio Konder Comparato, ad-
vogado, doutor pela Universidade de
Paris, professor titular da Faculdade de
Direito da USP, autor de inúmeras
obras, fundador e diretor da Escola de
Governo, em fevereiro de 1996, por
ocasião das prisões no Pontal do Para-
napanema, em artigo publicado na im-
prensa de São Paulo, com o rigor que
lhe é característico, manifestou-se con-
trário às prisões e à criminalizaçào das
ocupações de terras. “In verbis”:
“A pequena semana de glória que
o jovem juiz de Pirapózinho se forjou
ao aceitar a denúncia de crime de for-
mação de quadrilha contra os dirigen-
tes do Movimento dos Sem terra e ao
mandar prender a mulher de um de
seus líderes vai custar muito caro ao
prestígio da magistratura, e é bom
que assim seja. Quem sabe agora
esse lamentável episódio, somado a
tantos outros do passado recente, a
começar pela recusa do Supremo Tri-
bunal Federal em processar Fernando
Collor, PC Farias e seus colaboradores
justamente por formação de quadri-
lha, porá na ordem do dia a necessá-
ria e sempre adiada reforma do Poder
Judiciário.”
Mais adiante o ilustre jurista escla-
rece que:
“No caso dos magistrado e dos
membros do Ministério Público, a defi-
ciência educacional não ocorre apenas
no campo técnico - pela ignorância,
muitas vezes, dos rudimentos da ciên-
cia do Direito -, mas aparece também
e sobretudo no terreno ético, pela com-
pleta incultura cívica de grande parte
dos homens e mulheres a quem foi
confiada a missão de zelar pelo respei-
to aos valores básicos da cidadania.
É exatamente esse despreparo téc-
nico, aliado à imaturidade cívica de
nossos juizes e promotores, que se
patenteia nos casos de conflitos fun-
diários. Da criminalização do Movi-
mento dos Sem Terra de Pirapozinho
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 105UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
106 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
ao despejo à bala das famílias de pos-
seiros de Corumbiara, passando pela
expedição em série de centenas de
interditos proibitórios contra os serin-
gueiros do Acre a pedido de patrões e
latifundiários, o que vem a furo, agora,
é a disfuncionalidade de um poder
que, em vastas áreas do território na-
cional, trabalha contra valores funda-
mentais de nosso regime político, dos
quais é supostamente defensor”.
2. Hélio Bicudo, jurista, ex-pro-
motor de justiça em São Paulo, mem-
bro do Fórum Interamericano de Di-
reitos Humanos (Fideh), autor do livro
“Violência: O Brasil Cruel e sem Ma-
quiagem” entre outros, em matéria de
sua lavra publicada na Folha de S.
Paulo, no dia 13.3.96, tratando da cri-
minalização das ocupações de terras,
manifestou-se afirmando que:
“Na consideração do problema
fundiário não se pode, simplesmente,
fazer uma abordagem técnico-jurídi-
ca, pretendendo, com semelhante pro-
cedimento, fazer justiça. Ora, “sum-
mum jus, summa injuria”. Hoje, o con-
ceito de justiça não se pode apartar
do conceito de solidariedade ou frater-
nidade, fomento que deve levedar to-
das as atividades humanas, para o
aperfeiçoamento do conjunto da so-
ciedade.
Não basta, para o recolhimento de
uma pessoa à prisão, dizer-se que a
ordem pública está ou foi extrema-
mente abalada. Que ordem pública?
Essa “ordem” que oprime e excluí?
Mas essa não pode, evidentemente,
ser considerada ordem pública, por-
que contém em si o contrário: a desor-
dem. Como falar-se em ordem pública
quando não se busca a construção de
uma política voltada para o estabeleci-
mento dessa mesma ordem pública?”
3. José Paulo Bisol, senador da
república, ex-desembargador do Tribu-
nal de Justiça do Estado do Rio Grande
do Sul, enfocando a reforma agrária e
a luta do MST através das ocupações
de terras, sustentou que:
“A necessidade da reforma agrária
é, curiosamente, uma unanimidade
nacional. Como explicar, então que ela
não tenha sido feita? Como compre-
ender que outras reformas, como a
Constitucional, que não respondem a
qualquer unanimidade nacional fo-
ram realizadas com a incisividade e a
determinação que testemunhamos? É
trágico que a resposta seja brutalmen-
te simples: a reforma agrária interessa
aos pobres, ao povo e as outras inte-
ressa aos ricos.
(...) A reforma agrária sem referen-
te do discurso do Poder tem dupla efi-
cácia: ao mesmo tempo que funda sua
necessidade, proíbe a sua realização.
Isso estabelece, entre o Poder e os
sem-terra um diálogo surdo e absurdo,
pois os dois falam linguagens diferen-
tes como se falassem uma linguagem
comum. Mas a observação desse fato
põe a nú uma evidência: no Brasil não
há discurso político que dispense a re-
forma agrária. Isto é, não há consciên-
cia política que não seja inclusive cons-
ciência da necessidade da reforma
agrária. Quer dizer, há um lado positi-
vo naquela unanimidade, por vazia
que seja, a saber: entre nós, todo e
qualquer projeto de transformação so-
cial que pretende fundar a solidarieda-
de social erradicando a marginaliza-
ção e a miséria começa pela reforma
agrária.
O sem-terra é um pária, está fora
da sociedade, não tem acesso aos
valores. O MST é uma coletividade de
párias, certamente a única organiza-
da, a mais consciente em relação a
sua identidade e a seu sentido e por
isso a mais competente. Aí está a con-
tradição que a define: é uma coletivi-
dade de condenados que se fez sujeito
da história para revogar a sua conde-
nação. Essa contradição mostra que os
párias quando se organizam, pois,
organizar-se é antes de mais nada ino-
cular-se a substância social e ocupar
um espaço social. O sem-terra que in-
gressa no MST simplesmente nasce:
era um natimorto e adquire vida. E
quando aprende o discurso do MST e o
incorpora, ocorre um segundo milagre:
ele adquire sentido e uma linguagem
para expressá-lo na palavra e na ação.
(...) Gostaria de declarar aqui um
compromisso pessoal perante a mi-
nha Pátria. O ato de ocupar os latifún-
dios é Justo. É necessário para fazer
avançar a reforma agrária. É nobre e
nos aproxima de Deus. Pois através
disso vamos lutando pela Justiça aqui
na terra. Que os sem-terras continuem
ocupando todos os latifúndios. Se não
fosse o MST, os sem-terras não passa-
riam de uns párias da nossa pátria. É
só através dele que Os sem-terras con-
seguem ser cidadãos.”(discurso profe-
rido por ocasião do 3º Congresso Na-
cional do MST em Brasília, julho de
1995).
4. Plínio de Arruda Sampaio, ju-
rista, advogado, ex-promotor de justiça
no Estado de São Paulo, secretário da
Casa Civil no Governo Carvalho Pinto,
sobre ocupações de terras, preleciona:
“As ocupações de fazendas no
Pontal do Paranapanema têm sido
apontadas como “graves atentados
ao direito de propriedade”. Defensores
desse direito, indignados, propõe pe-
nas de prisão para os autores de tão
“nefando crime”. Como esta versão
atende aos interesses de gente pode-
rosa, tem tido grande circulação.
Acontece que ela é falsa. No Pontal do
Paranapanema há poucos proprietá-
rios e estes não são certamente aque-
les cujas terras estão sendo ocupadas.
A razão é simples. Toda essa imensa
área roubada dos índios Caiowá e
Caigang, foi, primeiro, um grande
“grilo”- o “grilo Pirapó”- Sto. Anastácio”
ou “grilo mãe” - e, a partir de 1947,
uma reserva florestal foi criada pelo
interventor Fernando Costa.
O “grilo mãe” surgiu no século
passado. Em 1886, o governador de
São Paulo, Visconde de Parnaíba,
mandou processar criminalmente o
pretenso dono dessas terras e o escri-
vão que lhe forneceu os documentos
falsos para fundamentar a pretensão.
Em 1923, o desembargador Alcides
Ferrari julgou imprestáveis todo os tí-
tulos de propriedade referentes à
área, por se tratar, toda ela, de terras
devolutas.
(...) Os sem terra sabem que se es-
perarem quietos, a terra não lhes será
entregue NUNCA. Decidiram pressionar.
Pressão legítima diante da inoperância
do estado. Ruy Barbosa dizia que os
conservadores recusam-se a fazer
mudanças quando o povo pressiona,
porque não se pode mudar sob pressão
e recusam-se a fazer mudanças quan-
do o povo não pressiona, porque, se o
povo está quieto, por que mudar?
E ainda há gente que em vez de
denunciar uma sociedade omissa di-
ante de gerações e gerações de me-
liantes, tem o displante de pedir ca-
deia para quem luta por dez hectares
de terras a fim de escapar da miséria
abjeta. É muita “cara de pau”.”
5. Antonio Jurandir Porto Rosa,
ex-defensor Público-Geral da União,
jurista, advogado, analisando as ocu-
pações de terras promovidas pelo MST,
assim manifestou-se:
“As invasões de terras rurais que
vêm ocorrendo no país produzem in-
quietação e alarma social. Suas causas
são sociais e denunciam o sistema fun-
diário anacrônico, injusto e presente-
mente explosivo. Mas, no plano legal,
há ofensa aberrante a princípios cons-
titucionais expressos na Carta Magna,
que retiram dos invasores sem terra o
caráter de ilegalidade se suas ações.
Corresponde, no Direito Penal, à legíti-
ma defesa ou ao estado de necessida-
de, circunstâncias excriminantes.
Se, por um lado, os sem terra esti-
vessem a violar o art. 499 do Código
Civil, ou seja, o direito do latifundiário
de ser mantido ou restituído na posse,
este violaria preceito superior, de nível
constitucional, o da função social da
propriedade”.
6. O Próprio Presidente da Repú-
blica Fernando Henrique Cardoso,
em discurso perante uma comissão de
representantes do Movimento Grito da
Terra Brasil, em 19 de março de 1997,
referindo-se às ações dos movimentos
sociais pela reforma agrária disse:
“(...) Como presidente, eu, talvez,
não devesse dizer nada. Como soció-
logo, eu devo dizer: precisa desta luta.
Quer dizer, quando há uma luta para
que haja um melhor atendimento e
tal, eu sei que essa luta é necessária,
não é? Apenas... Claro, é preciso que
se compreenda, também, que esse
governo tem esta atitude. Ela sabe que
essa luta é necessária e ele tenta fazer
o que pode. Não é um governo e por-
tas fechadas. É de portas abertas. E
sabe o governo também que precisa
dos movimentos para que as coisas
avancem. (O Estado de São Paulo,
20/03/97).
VIOLAÇÕES - VIOLÊNCIA NO
CAMPO EM 2002
Os dados dos conflitos no campo
registrados pela Comissão Pastoral da
Terra, durante o ano de 2002, mos-
tram que o último ano do governo Fer-
nando Henrique Cardoso foi particu-
larmente violento para os(as) trabalha-
dores(as) do campo. O número de as-
sassinatos em conflitos por terra, 38,
foi igual ao de 1998, e somente infe-
rior ao de 1996, quando foram registra-
das 46 mortes. É bom lembrar que 96
foi o ano em que ocorreu o massacre
de Eldorado dos Carajás, quando 19
sem-terra foram mortos e 69 feridos.
No ano passado, enquanto a opi-
nião pública se voltava para a Copa do
Mundo e, logo em seguida, se envolvia
no processo eleitoral, no campo, os
conflitos assumiam uma intensidade
muito forte para as famílias que busca-
vam um pedaço de terra. Os números
de assassinatos tiveram um aumento
de 30% em relação ao ano anterior,
2001, quando 29 pessoas morreram. É
o maior número desde 1996. O Pará
continua ostentando o primeiro lugar
com 17 assassinatos, seguido pelo Es-
pírito Santo, que registrou 6 mortes
(todas de uma mesma família). Depois
vêm os estados de Mato Grosso, Per-
nambuco e Piauí, cada um com 3 as-
sassinatos.
Tentativas de assassinato: A
CPT registrou, no ano passado, o mes-
mo número de tentativas de assassina-
to, 37, que em 2001. Já os mortos em
conseqüência de conflitos aumenta-
ram. Foram 8 em 2002, contra 1 em
2001. No ano passado aconteceram
217 ameaças de morte, enquanto em
2001 foram 132. Os dados ainda mos-
tram que 20 pessoas foram torturadas
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 107UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE108 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
em 2002, contra 15 em 2001, e 28
pessoas foram ameaçadas de prisão,
contra 27 em 2001. Os números de
2002 só são menores ao se tratar de
prisões, que no ano passado foram
187, contra 254 em 2001; e os agredi-
dos fisicamente, que chegaram a 22
contra 40.
Os números de 2002 registram
ligeira queda nas ocorrências de confli-
tos. Em 2001 foram 880, enquanto no
ano passado houve 827. Há também
redução do número de acampamentos
e ocupações. As ocupações, que em
2001 somavam 194, em 2002 foram
160. Em 2001, foram criados 65 acam-
pamentos, contra 58 em 2002. Houve
retração destas ações por parte dos tra-
balhadores durante o período eleitoral.
Aumento assustador de traba-
lhadores escravos - O que mais cha-
ma a atenção, nos dados de 2002, é o
crescimento, pode-se dizer “assusta-
dor”, do número de trabalhadores em
situação de escravidão. Foi o maior
número de ocorrências, 148 casos,
desde que a CPT começou o registro.
No ano passado, 5.665 pessoas adul-
tas foram submetidas a esta condição.
Como nos anos anteriores, o Pará con-
centra o maior número de casos, 117,
com 4.333 trabalhadores escravos. Em
seguida vem o Maranhão com 12 ca-
sos, envolvendo 432 pessoas, e o Ma-
to Grosso, com 11 ocorrências, atingin-
do 723 trabalhadores.
O impressionante é que o aumen-
to do número de ocorrências e de pes-
soas submetidas à condição de escra-
vidão aconteceu no mesmo ano em
que o governo criou a Comissão Espe-
cial de Combate ao Trabalho Escravo e
Infantil, do Conselho de Defesa dos
Direitos da Pessoa Humana (CDDPH),
ligado ao Ministério da Justiça. A cria-
ção desta Comissão, apesar da boa
vontade e do empenho das pessoas
nela envolvidas, não foi capaz de deter
o avanço desta triste realidade.
A impunidade é um dos principais
fatores para a continuidade do traba-
lho escravo no Brasil. O aumento dos
casos identificados não significa que a
ação do Estado tenha sido mais eficaz
que nos outros anos. Em 2002, menos
da metade das propriedades denun-
ciadas, com fundamentação, foi fiscali-
zada pelo Grupo Móvel. Este grupo fis-
calizou no Pará somente 36% das fa-
zendas denunciadas (42 sobre 117) e
libertou somente 31% dos trabalhado-
res (1.346 sobre 4.333).
Sobre os dados: A Comissão Pas-
toral da Terra registra com cuidado,
desde 1985, os conflitos que aconte-
cem no campo. O levantamento é feito
através da pesquisa primária, realizada
pelos próprios agentes da CPT, e da
pesquisa secundária, com informações
coletadas na imprensa. Este ano, a Co-
missão está divulgando os dados ante-
cipadamente (preliminares). Os núme-
ros farão parte do caderno de Conflitos
no Campo 2002, que será publicado
pela CPT em abril. Todos os anos a
entidade edita este livro que se tornou
um documento de referência para di-
versos setores brasileiros. No ano pas-
sado, o caderno foi reconhecido como
publicação científica pelo Instituto
Brasileiro de Informação e Ciência e
Tecnologia (IBICT).
A CPT foi criada em 1975 para
atuar junto aos trabalhadores/as ru-
rais. A entidade apóia a organização
dos camponeses e denuncia casos de
injustiça e violência.
SEM CONCLUSÃO
Muita gente quanto ouve falar em
Sem-Terra imagina que são os traba-
lhadores rurais, os meeiros ou os pare-
cleiros que não têm terra.
Sem-Terra tornou-se nome próprio.
Nome de trabalhadores organizados
lutando pela Reforma Agrária e para
transformar a sociedade.
Sem-Terra tornou-se sinal do resgate
da dignidade de trabalhadores e traba-
lhadoras chamados vagabundos, chuta-
dos de um canto para outro. Conquis-
tou, pela sua opção de entrar na luta,
uma identidade: sou Sem Terra.Tornou-
se, por causa do MST, um cidadão res-
peitado. E o MST nada mais é do que
centenas de milhares de Sem-Terra.
A sociedade atual, chamada de ne-
oliberal, exclui os mais pobres, deixan-
do-os sem trabalho, sem direitos e
sem dignidade. O MST, aos pocuos,
consegue resgatar esta dignidade: con-
segue fazer seus documentos e regis-
trar os filhos; aprende a ler e escrever
a realidade e vê os seus filhos partici-
pando da Escola; consegue um teto
para a família. Mas isto é pouco.
A Via Campesina Brasil, composta
por diversos movimentos do campo,
entregou, a 28 de novembro de 2002,
uma pauta emergencial de reivindica-
ções para o primeiro semestre de 2003.
Ela foi entregue a José Graziano, da
equipe de transição do presidente elei-
to, Lula, em Brasília, onde a Via Cam-
pesina estava reunida. A pauta pede o
assentamento imediato de todas as fa-
mílias acampadas e a inclusão destas
no programa Fome Zero do governo
eleito. Para as famílias já assentadas,
são reivindicados os créditos e assis-
tência técnica para que todas as famí-
lias possam produzir, contribuindo as-
sim no combate a fome.
Com relação ao MST, a luta conti-
nuará contra o latifúndio e contra a
fome em 2003.
De acordo com João Paulo Rodri-
gues, da Coordenação Nacional, “en-
quanto houver famílias sem terra, as
ocupações irão continuar; enquanto
houver terra que não cumpra a função
social, o MST estará presente”.
Só conseguiremos nossos objetivos
quando a Reforma Agrária for uma luta
de todos.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 111
Entrevista: Dr Francisco Fausto
Dr. Francisco Fausto
Paula de Medeiros
Presidente do TST
N
atural de Areia Branca (RN), Bacharel em Direito pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, trabalhou
como jornalista e como professor de Filosofia, na rede estadual
de sua terra natal. De vasta experiência na área jurídica: de juiz
do trabalho, no interior de Pernambuco, à presidência do TST, o
Dr. Francisco Fausto fala, com muita tranqüilidade, de sua
trajetória profissional, não raro, atravessada por muitas
dificuldades. Dr. Francisco Fausto concedeu esta entrevista à
Universidade e Sociedade, posicionando-se sobre um tema,
“uma chaga” , como ele mesmo o denomina, que é o trabalho
escravo no Brasil de hoje. Acessível, inteligente, corajoso, o atual
Presidente do TST, nesta entrevista, convoca a sociedade civil ao
exercício de cidadania, na tarefa de combate veemente à prática
do trabalho escravo no país.
“O trabalho escravo é uma caixa-preta que, quando for aberta,
vai escandalizar o país” (Dr.Francisco Fausto)
Por Antônio Ponciano Bezerra*
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
112 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
US: De início, o senhor poderia falar
sobre a sua trajetória profissional até
assumir a presidência do TST.
Ministro: São 42 anos de magistratura
trabalhista. Não vou detalhar nada dis-
so porque senão vamos perder a en-
trevista toda falando dessa coisa. Co-
mecei a minha magistratura em Per-
nambuco, aliás ainda sou da jurisdição
do Tribunal de Pernambuco como
suplente e juiz do trabalho em Natal,
na suplência da junta de Natal, naque-
la época havia suplência. Depois, eu
passei a ser juiz substituto, funcionan-
do em Recife, no interior de Pernam-
buco. Mais tarde, fui titular da única
junta do Rio Grande do Norte, que era
a junta de Natal e, em 78, fui para o
Recife promovido como vice-presiden-
te do Tribunal Regional do Trabalho,
porque não havia Tribunal nem na
Paraíba, nem no Rio Grande do Norte.
A jurisdição era pernambucana. Entre
78 e 89, em Pernambuco, cheguei à
vice-presidência do Tribunal de Per-
nambuco. Estava para ser presidente
em janeiro, mas em novembro vim pa-
ra Brasília. Tomei posse aqui como mi-
nistro, eu e mais alguns ministros cria-
dos pela Constituição de 1988. Daí
ocupei a presidência de turma, depois
o cargo de Corregedor Geral da Justiça
do Trabalho e vice-presidente do Tri-
bunal Superior do Trabalho, e agora, a
partir de março do ano passado, passei
a exercer a presidência efetivamente.
US: Já, nesse período, o senhor tinha
alguma preocupação com essa ques-
tão do trabalho escravo no Brasil?
Ministro: Não, absolutamente. As notí-
cias sobre o trabalho escravo eram
muito esparsas. Quem me trouxe a no-
tícia do trabalho escravo aqui, na pre-
sidência do Tribunal Superior do Tra-
balho, foi uma comissão composta por
representantes da Pastoral da Terra, do
Ministério Público, da OAB e da OIT.
Eles me trouxeram a notícia da exis-
tência do trabalho, sobretudo, no sul
do Pará, com provas contundentes so-
bre essa questão e me pediram ajuda.
Imediatamente, eu comuniquei à im-
prensa falada, escrita, televisiva, falei,
sobretudo, na televisão, combatendo o
trabalho escravo, dizendo que era uma
chaga, que era um atentado, que era
uma chaga que precisava ser extirpada
do trabalhismo brasileiro. Isso teve re-
percussão, de modo que o Tribunal Su-
perior do Trabalho passou a ser um
parceiro importante nesse combate.
US: Quais as primeiras providências
concretas que o senhor tomou, para
conhecer realmente o problema, a di-
mensão desse problema?
Ministro: Eu pedi aos Tribunais Regio-
nais do Trabalho, a todos eles, que me
informassem sobre a existência do tra-
balho escravo. Pedi igual providência
às Procuradorias Regionais do Traba-
lho. Imediatamente, propus a criação
de varas do trabalho itinerantes, e pen-
sava mais na Amazônia, sobretudo na
Amazônia legal, mas principalmente a
partir das áreas de selva, porque é na
selva que o trabalho se desenvolve,
que o trabalho escravo tem mais de-
senvoltura. Essa vara do trabalho itine-
rante percorreria toda a área amazôni-
ca, provavelmente por vias fluviais,
mas sempre acompanhada da Polícia
Federal, do Ministério Público e do Tra-
balho e de inspetores do trabalho,
através de um juiz do trabalho, é claro,
e seus funcionários que iriam procurar
o trabalho escravo aonde ele estivesse.
Eu queria a justiça procurando essa
gente, porque o trabalhador escraviza-
do não tem uma condição de cidada-
nia, não tem consciência disso; ele é
escravizado porque precisa, porque
passa por um estado de necessidade
premente, a partir da precarização do
emprego promovida pela política de
globalização econômica que, no Brasil,
tem um instrumento político muito efi-
ciente que é o neoliberalismo. Esse
instrumento precarizou o emprego de
tal maneira que muitas pessoas, princi-
palmente no Nordeste brasileiro, mas
também em outras partes do Brasil,
passaram a aceitar qualquer tipo de
emprego. Principalmente de madeirei-
ras do sul do Pará. Isso ocorreu de ma-
neira, infelizmente, abaixo de qualquer
condição ética.
US: O senhor dispõe de um mapea-
mento mais concreto dessa realidade
para além do Pará e do Nordeste?
Ministro: Nós temos sim. Foi detecta-
do trabalho escravo em toda parte do
Brasil, não foi só apenas no Norte do
país, no Nordeste, não é só no Ma-
ranhão, que faz parte da Amazônia le-
gal, mas em todo Nordeste também
foi detectada a presença de escravagis-
tas, fazendeiros escravagistas. Há tam-
bém a presença de escravagistas em
São Paulo, no Rio Grande do Sul, em
São Paulo-capital e no Rio Grande do
Sul, numa cidade chamada Vacarias.
Em Santa Catarina, numa cidade cha-
mada Lages. Em vários lugares do Bra-
sil. Aqui, no Centro-Oeste, essa explo-
ração é muito disseminada, infeliz-
mente. Isso aconteceu porque, até
agora, falta vontade política para com-
bater o trabalho escravo.
US: O que caracteriza o trabalho es-
cravo?
Ministro: Vou deixar bem claro o se-
guinte: o trabalho escravo não pressu-
põe necessariamente a existência de
grilhões, pelourinho etc., não é isso.
Embora, segundo denúncias da Pasto-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 113
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
ral da Terra, feitas publicamente, nas
proximidades dessas fazendas que es-
cravizam terem encontrado, nesses lu-
gares, ossadas humanas, o que pres-
supõe a existência, por exemplo, de
repressão física contra o trabalhador.
Mas o trabalho escravo é todo aquele
que é desempenhado abaixo dos limi-
tes da CLT, fixado pela CLT, em matéria
de higiene, trabalho, medicina do tra-
balho, salário, alimentação, enfim, es-
sas condições que dão dignidade à
pessoa humana. Daí porque quando
hoje essa onda avassaladora de pes-
soas, algumas de maneira suspeita,
defendendo a extinção da CLT, a flexi-
bilização das leis trabalhistas, isso nos
deixa estarrecidos. Porquê? Por que é
a CLT, o cumprimento da Lei Traba-
lhista, que afasta a possibilidade do
trabalho escravo. A Lei Trabalhista é
que garante a dignidade do trabalha-
dor. Essa é que é a verdade.
US: Que expediente tem sido encami-
nhado concretamente às autoridades
trabalhistas para assegurar o acesso
dos trabalhadores à Justiça do Traba-
lho? Existe alguma coisa nesse senti-
do?
Ministro: Eu fiz um apelo veemente a
todos os Tribunais Regionais do Traba-
lho, no sentido de que dessem priori-
dade absoluta aos processos que tra-
tam de danos morais, ação civil públi-
ca por danos morais, em virtude do
trabalho escravo. Algumas sentenças
já foram proferidas, felizmente, na Jus-
tiça do Trabalho. Porque, veja bem, se
nós temos competência para a ques-
tão trabalhista, é claro, temos compe-
tência para danos morais. É uma deci-
são do Supremo Tribunal Federal,
inquestionável hoje, mas não temos
competência para a matéria penal. Co-
mo é que fica a matéria penal? Alguns
juízes federais dizem: a competência é
do juiz estadual; o juiz estadual rebate:
não, a competência não é da justiça
estadual, mas esse caso é do juiz fede-
ral, porque é matéria da organização
do trabalho. Assim, alguns juízes fede-
rais passaram então a admitir a sua
competência. Mas qual foi a combina-
ção? Condenaram, por exemplo, na
Amazônia, no Norte do país, uma es-
pécie de empregador escravagista a
pagar 24 cestas básicas, em 24 meses.
Ele mandou tudo de uma vez e conti-
nuou escravizando. O que está aconte-
cendo agora? Depois da campanha
que estamos fazendo contra o traba-
lho escravo, acho que não deveria ser
uma campanha do TST, não deveria
ser campanha da Pastoral da Terra,
nem do Ministério Público; deve ser
campanha do povo brasileiro. Então, o
que é que faz o juiz do trabalho para
aceitar a competência para julgar a
questão de danos morais relativo ao
trabalho escravo? Esses empresários
têm sido condenados, graças a Deus.
Mas é preciso uma pena maior. Tive
conhecimento de um projeto do sena-
dor Ademir Andrade, do Pará, que de-
terminou também o confisco de terras
onde for encontrado trabalho escravo.
Foi aprovado no Senado Federal, foi
encaminhado à Câmara, só que che-
gou na Câmara e está engavetado. Eu
fiz um ofício ao deputado Aécio Neves,
que era então o presidente da Câmara,
pedindo que desse prioridade na vota-
ção desse projeto. O jornal do Senado
deu até um destaque muito grande,
botou em manchete o meu pedido. A
Câmara silenciou totalmente. Até hoje,
eu não tenho qualquer notícia disso,
mas não tenho dúvida nenhuma de
que vou continuar insistindo. Essas coi-
sas eu ignoro e continuo insistindo da
mesma maneira.
US: Quais as punições previstas em
Lei para quem, explora esse tipo de
mão-de-obra?
Ministro: Não há, esse que é o grande
problema. Não temos uma Legislação
específica contra isso. Isso não é crime
contra a organização do trabalho co-
mo diz a Justiça Federal, e fica o quê?
Ficam condenando com cestas bási-
cas. Nós, da Justiça do Trabalho, con-
denamos em danos morais. Nós, da
Justiça do Trabalho, determinamos o
pagamento das indenizações traba-
lhistas, mas isso não é o suficiente. Só
é possível combater eficientemente o
trabalho escravo no dia em que tomar-
mos a terra dos escravagistas e colocá-
los na cadeia.
US: Mesmo com esse trabalho que
tem feito, o senhor acha que conti-
nuou o avanço ou houve alguma ini-
bição nesse sentido?
Ministro: O trabalho está sendo efi-
ciente, na medida em que estão sen-
tindo uma força contra eles. Essa força
não existia antes. É como, se, de re-
pente, você descobrisse, por outro la-
do, qual é seu adversário e que você
não pode atuar de uma maneira crimi-
nosa o tempo todo. Realmente, acredi-
to que tenha reprimido algumas des-
sas ações. Acho que mais do que repri-
midas, elas estão dissimuladas e conti-
nua o trabalho escravo.
US: Quais as barreiras oficiais ou ex-
tra-oficiais que impedem ou que estão
impedindo, por exemplo, a erradica-
ção, o controle, pelo menos, desse tipo
de prática?
Ministro: O Ministério do Trabalho
tem algumas força-tarefas que se cha-
ma de grupos móveis do Ministério do
Trabalho que atuam nessas áreas to-
das. Agora, o que o Ministério do Tra-
balho faz? Chega numa fazenda onde
há escravos, trabalhadores escraviza-
dos, e o que eles fazem? Ficam ali de
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
plantão, libertam esses trabalhadores,
quatro ou cinco dias depois, numa
negociação difícil com o empregador,
libertam esses trabalhadores e vão
embora e, na hora em que o grupo
móvel dá as costas, eles contratam
outros, levam outros para lá, outra leva
e continua tudo como antes. E como
levam esses trabalhadores do Nor-
deste, principalmente, para lá? Levam
o trabalhador, contratam esse traba-
lhador lá nas cidades nordestinas,
põem dentro de caminhões, de qual-
quer transporte, levam para a selva.
Esses trabalhadores não conhecem os
caminhos da selva e quando chegam
lá, os patrões estabelecem um critério
que chamam lá de aviamento. O que é
o critério de aviamento? O trabalhador
já chega lá devendo muito dinheiro do
transporte, da comida que comeu na
estrada, no percurso, e já está devendo
muito ao empregador. Lá compram
em barracões do empregador. O em-
pregador cobra o que quer por gêne-
ros de primeira necessidade ou qual-
quer coisa. Então, a vida deles é uma
bola de neve, não pagam nunca, não é
possível pagar! De maneira que ficam
sem salário e sem condições de sair
porque estão devendo e não conhe-
cem também os caminhos de volta.
US: Esse mesmo processo de avia-
mento provocou a exploração e a es-
cravidão na época da borracha.
Ministro: Exatamente.
US: O trabalho em regime de escravi-
dão é uma constatação no setor priva-
do, rural, em fazendas. Isso é também
possível no setor público?
Ministro: Não. Não conheço trabalho
escravo no setor público. Falo no setor
público dentro das estabilidades nor-
mais, institucionais, porque o setor pú-
blico tem uma fiscalização mais rigoro-
sa, ou seja, não pode contratar sem
concurso, não pode fazer certo tipo de
coisa. Tal trabalho é mais na área priva-
da, sobretudo na área privada em
fazendas madeireiras. No entanto, em
São Paulo, numa camisaria, foi consta-
tada a existência de trabalho escravo.
O pessoal (o sul-americano, os bolivia-
nos, venezuelanos) era levado para
essa camisaria paulista e ali era escra-
vizado, vivia em regime de escravidão.
Há coisas terríveis. Nós tivemos aqui
dois trabalhadores que vieram fazer
denúncias, contaram coisas terríveis
que aconteceram lá, que estavam
acontecendo com eles. Eram escravi-
zados, apanhavam, dormiam ao relen-
to, não tinham o que comer. Isso foi di-
vulgado. Para se ter uma idéia, o gado
comia a mesma ração que esses traba-
lhadores escravizados.
US: A televisão fez denúncias e o que
foi feito nesse sentido?
Ministro: Esses grupos móveis, como
disse, chegam na fazenda e “libertam”
o trabalhador. Vão embora. Eles vol-
tam a trabalhar lá. Eles mesmo voltam
porque não têm outra condição de tra-
balho. Depois que o neoliberalismo
implantou uma política de precariza-
ção do emprego, o trabalhador está
aceitando qualquer serviço para ga-
nhar dinheiro.
US: Uma das características do traba-
lho escravo seria a falta, o impedimen-
to deles saírem do trabalho. Estão pre-
sos, não conseguem sair do trabalho.
Como o senhor vê o caso das chama-
das mucamas. No Nordeste, é muito
comum pegar crianças, jovens, para
serviço de babá, de empregada, e fi-
cam o resto da vida ali. Às vezes, de-
pois de muito tempo, passam a fazer
parte da “família”. Isso não tem um as-
pecto de trabalho escravo?
Ministro: O trabalho escravo, em prin-
cípio, é todo aquele que é desempe-
nhado aquém dos limites éticos esta-
belecidos, para não dizer jurídicos, que
fica uma expressão mais vaga, no limi-
te ético da CLT. Evidentemente que te-
mos, no Nordeste, esse tipo de traba-
lho, que é o trabalho infantil. Agora se
estabelece uma diferenciação. Há fa-
mílias nordestinas que criam pessoas,
chamadas crias de família, ficam com
essas crianças, põem nas escolas, fa-
zem tudo e a criança ajuda nos deve-
res de casa, nos serviços de casa. Mas
entendo que isso é um trabalho infan-
til e que deve ser proibido, porque a
criança não terá um desenvolvimento
normal, a partir da obrigação de fazer
esse tipo de tarefa, mas isso é uma ou-
tra história, a do trabalho infantil, pre-
feria ficar, por enquanto, no trabalho
escravo para não perder a bandeira.
US: Quais os órgãos ou organismos
nacionais e internacionais já aciona-
dos ou envolvidos, no sentido de de-
nunciar, combater, fiscalizar e punir os
agentes desse tipo de exploração?
Ministro: Na área pública, de atuação
do governo federal, de maneira mo-
desta, há esses grupos móveis de tra-
balho. Para se ter uma idéia de como
funcionam esses grupos móveis de
trabalho, quando começamos a de-
nunciar aqui, neste gabinete, a existên-
cia do trabalho escravo e a Revista Veja
publicou uma reportagem sobre o tra-
balho escravo no Maranhão, numa de-
terminada fazenda, de um determina-
do político, eu recebi, em Natal, num
momento que eu estava de passagem,
uma visita de alguns inspetores do tra-
114 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 115
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
balho integrantes desses grupos e me
disseram que não tinham condições
de apurar as denúncias, estavam imo-
bilizados, o Ministério do Trabalho não
tinha nem mais gasolina nem dinheiro
para diárias e mandou-os de volta para
os seus respectivos estados. E me con-
taram outros fatos, falaram sobre de-
terminadas situações. Eu pedi que eles
fizessem por escrito, não precisava as-
sinar, pois eu não tinha como gravar
aqueles relatos. Mandem-me, por es-
crito, eu também não vou assinar, mas
vou mandar para a imprensa apurar
tudo isso e mandei para a Folha de
São Paulo. A Folha de São Paulo apu-
rou, viu que era verdade e denunciou.
US: Para além de seu trabalho, seu
combate a essa prática, que entidades
também agem nessa mesma direção?
Ministro: Nós não temos uma provi-
dência segura sobre isso, na área pú-
blica. Algumas ONGs fazem trabalho
nesse sentido. Mas eu diria que o
grande trabalho está na mão dos que
fazem a Pastoral da Terra. Esse é um
grande trabalho. Em Porto Alegre, no
Fórum Social Mundial, eu disse que
louvava a atitude e o trabalho desses
padres, eles recolhem na selva, nos
seus desígnios, nos seus perigos, a co-
ragem para enfrentar o problema. En-
tão, são verdadeiros heróis desta bata-
lha; no TST, nós somos coadjuvantes
nessa peça sobre o trabalho escravo.
Eles apenas fizeram referências ao Tri-
bunal Superior do Trabalho e a sua
atuação nessa área, mas sem dúvida
nenhuma, parte deles, da Pastoral da
Terra, do Ministério Público do Traba-
lho e de algumas ONGs. É muito im-
portante a ação da Pastoral da Terra no
combate ao trabalho escravo.
US.: O Brasil é referência como cam-
peão na exploração do trabalho es-
cravo. Existe um mapeamento, uma
estatística, dessa problemática em ní-
vel mundial?
Ministro.: Não. Existe alguma coisa es-
parsa, mas na verdade a grande inci-
dência é no Brasil mesmo. Eu tenho
receio de que, em junho deste ano, na
OIT, tenhamos que enfrentar esse pro-
blema, porque sem dúvida isso tem
uma repercussão muito negativa para
o Brasil. Vamos ter que mostrar o tra-
balho e chegar lá e dizer: o TST está
denunciando, a Pastoral da Terra está
denunciando, a Justiça do Trabalho
tem feito isso. E isso não é tudo. Teria
de haver uma ação enérgica e só have-
rá essa ação enérgica no dia em que
tivermos uma Legislação enérgica.
US.: Quais as ações que o senhor pre-
tende desenvolver, daqui para a fren-
te, a fim de combater, em definitivo,
essa situação do trabalho escravo no
país?
Ministro: Eu pretendo ativar a vara do
trabalho itinerante. Eu pretendo reno-
var o meu apelo aos Tribunais Regio-
nais do Trabalho para que dêem prio-
ridade ao julgamento das ações civis
públicas propostas pelo Ministério Pú-
blico, contra o empregador escravagis-
ta e pretendo continuar lutando no
Congresso Nacional, fazer um lobby
mesmo, pela aprovação do projeto do
Senador Ademir Andrade, que deter-
mina o confisco de terras, tal como
ocorre com a plantação de maconha.
Pretendo fazer tudo isso e farei isso
com muita disposição, colocando o
TST à disposição dessa luta.
US: Quais os canais de divulgação, de
conscientização da sociedade que de-
vem ser acionados para conhecimen-
to nacional desse problema?
Ministro: O grande canal, não tenho
dúvida, é a imprensa. Mas temos parti-
cipado de vários seminários, encontros
nacionais de procuradores, advogados,
juízes e agora também no Fórum So-
cial Mundial, em Porto Alegre, onde fiz
uma palestra sobre o trabalho escravo
e fiz algumas denúncias sobre essa
questão. Eu não tenho dúvida nenhu-
ma de que vamos continuar nessa luta
e vamos ter êxito, porque a grande
questão é a seguinte: quem pode aber-
tamente dizer que é a favor do traba-
lho escravo? Ninguém! E nós podemos
dizer abertamente que somos contra o
trabalho escravo, portanto, levamos
uma vantagem muito grande sobre
eles. Eles são uns marginais e nós não,
nós somos a sociedade civil.
US: Como o senhor vê a participação
da universidade, já que ela pode se
engajar nesse trabalho?
Ministro: Acho que ela deve se enga-
jar a partir da atuação dos professores,
a partir da atuação dos alunos. Hoje, é
preciso pesquisar, fazer levantamentos
para chegarmos a um mapeamento de
que precisamos, porque isso cresce
muito, todo dia chegam denúncias.
Devemos fazer a nossa parte com mui-
ta coragem, é isso que eu chamo de
vontade política. Quando eu falo em
vontade política, não me refiro apenas
ao governo, me refiro à sociedade de
um modo geral. Ela deve ter vontade
política para combater, para resolver
esse problema.
US: Nesse contexto, acho que seria im-
portantíssimo o envolvimento das cen-
trais trabalhistas.
Ministro: Eu não tenho nenhuma dú-
vida. Acho que as centrais trabalhistas
devem começar a falar sobre isso, a
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE116 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
denunciar essa questão, é muito im-
portante, enfim, é um movimento. To-
dos nós somos parceiros nessa luta, é
um movimento integrado da socieda-
de civil. Só assim poderemos comba-
ter o trabalho escravo. Falta vontade
política, faltou vontade política no go-
verno anterior, poderia ter insistido na
aprovação do projeto do senador Ade-
mir Andrade. O projeto resolveria o
problema. Ninguém quer ter suas ter-
ras confiscadas. Faltou vontade política
ao Congresso Nacional, pelo menos,
da Câmara dos Deputados, que sequer
deu resposta à solicitação que se fez e
engavetou um projeto já aprovado no
Senado Federal. Faltou vontade políti-
ca, isso não pode continuar assim, não
vai continuar.
US: A primeira jornada de debates so-
bre trabalho escravo no Brasil, com a
participação de organismos interna-
cionais como a OIT, propôs que tipo de
resultado, encaminhamentos, para
combater este problema?
Ministro: Vamos deixar bem claro o
seguinte: o que se propõe é o que es-
tamos propondo: uma Legislação es-
pecífica e rigorosa. Sem essa Legisla-
ção específica e rigorosa, inclusive de-
finindo competência - e eu estou plei-
teando à Justiça do Trabalho a compe-
tência para julgar matéria penal, por-
que nós julgamos a matéria trabalhis-
ta e a questão dos danos morais - não
julgamos a matéria penal. Eu estou
pleiteando, estou pedindo a compe-
tência da Justiça do Trabalho para isso,
mas é tão difícil. Quando eu propus a
criação da vara do trabalho itinerante
para combater o trabalho escravo, fiz
isso pela TV. Na semana seguinte, re-
cebi um convite do Ministério da
Justiça para participar de um comitê.
Não fui, mas mandei o meu assessor
para o debate. Eram várias pessoas em
torno de uma mesa como esta e todo
o debate se centrou na minha denún-
cia. E qual foi a conclusão? O presiden-
te do TST deve mandar um projeto
claro, definido e definitivo a respeito
disso. E como fazer isso? O que tem
que fazer? Tive uma semana para fazer
isso. Ora, uma semana para preparar
um projeto desse tipo. Então pedi ao
Tribunal do Pará que fizesse um proje-
to, porque conhece a situação da selva
e eu não conheço. Como duvidava
que o Tribunal do Pará fizesse aquilo
em uma semana, pedi à minha asses-
soria para bolar um projeto nesse sen-
tido. Ficaram prontos, os dois chega-
ram, em uma semana. O meu assessor
participou da reunião e apresentou
projeto concreto do Presidente ao TST.
Eles leram o projeto, ficaram assim,
olhavam um para o outro, e depois
disseram o seguinte: bom, então va-
mos tomar a seguinte providência:
dentro de 40 dias, enviaremos uma
comissão para estudar esse projeto.
São uns loucos. É uma loucura. É pre-
ciso fazer alguma uma coisa muito cla-
ramente a respeito disso. Eu não te-
nho dúvida, fico até surpreso, porque
se há um homem que escreveu muito
sobre o trabalho escravo, como soció-
logo e não como presidente, foi Fer-
nando Henrique Cardoso. Essa ques-
tão do trabalho escravo, o combate
deveria ter partido do governo, com
todas as armas, inclusive na aprovação
desse projeto. Porque, não tenha dúvi-
da, empresário nenhum é sensível às
liberdades civis, aos direitos dos traba-
lhadores, nada disso sensibiliza o em-
presário que escraviza. O que vai sen-
sibilizar essa gente é a questão econô-
mica, é tomar a terra, e, se possível,
botar na cadeia. Se fizer isso, acredito
no combate ao trabalho escravo. Sem
essas medidas drásticas, não há possi-
bilidade de se combater o trabalho es-
cravo no Brasil. Nós não temos mais
um pernambucano como Joaquim Na-
buco, que abandonou a vitoriosa car-
reira diplomática para ser advogado
dos escravos no Brasil. Com toda a sua
inteligência e cultura, ele sensibilizou a
sociedade e conseguiu levantar gran-
des feitos. Até na escravatura negra,
tenho um livro sobre isso, partiu do
Nordeste a libertação, a abolição, par-
tiu do Nordeste, depois do movimento
do Amazonas, que começou mesmo
no Amazonas, seguiu-se no Ceará, no
Rio Grande do Norte, e foi feita por
questões econômicas. Porquê? Por
que, com a seca de 1877, diversos fa-
zendeiros nordestinos perderam tudo,
começaram a vender tudo, o gado, e
terminaram vendendo os escravos pa-
ra os paulistas. Os paulistas ficaram
com o trabalho escravizado, e o Nor-
deste pagando salário aos trabalhado-
res que tiveram que contratar. Então,
começou o movimento de libertação
dos escravos por conta da competição
econômica com São Paulo. O que sen-
sibiliza essa gente? Então, o que é que
sensibiliza é a questão econômica. Se
confiscarmos as terras e impusermos
multas enormes, vamos acabar com o
trabalho escravo. Tudo no Brasil só
acontece por conta da impunidade.
US: O senhor acaba de dizer que é
difícil encontrar alguém que faça a
defesa desse problema do trabalho
escravo. Um Congresso que não é
sensível, que tipo de interesse está por
trás dessa insensibilidade?
Ministro: Vou deixar isso a critério da
sua e da minha imaginação.
US: O Presidente Lula disse que ia co-
meçar as reformas a partir de onde o
Fernando Henrique tinha parado, es-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 117
pecificamente, a Reforma do Judiciário.
US: Como o senhor está vendo essa
questão?
Ministro: Nós tivemos um trabalho
muito grande na Reforma do Judiciá-
rio, até porque a Justiça do Trabalho
passou por algumas situações difíceis
com o projeto do deputado Aluísio Nu-
nes, que extinguia a Justiça do Tra-
balho, anexava a Justiça do Trabalho à
Justiça Federal. Nessa época, eu fiz
com Wagner Pimenta que era o presi-
dente do TST - um grande trabalho de
convencimento de deputados e sena-
dores, fizemos até uma visita ao presi-
dente Fernando Henrique Cardoso,
que nos recebeu no Palácio do Alvora-
da. Eu disse ao Presidente da minha
insatisfação sobre anexar a Justiça do
Trabalho à Justiça Federal. Isso não in-
teressa à minha vocação para a Justiça
do Trabalho. Temos uma história dife-
rente, a nossa origem é muito bonita,
ampliada pelo movimento político de
Getúlio Vargas, com o apoio intelectual
de um grande socialista que foi Joa-
quim Pimenta. Passamos por situa-
ções difíceis, a partir de 64, por exem-
plo. Vários juízes do trabalho foram
presos sob acusação de que só deci-
diam a favor do empregado. Durante o
regime militar, a Justiça do Trabalho foi
o grande fórum para exercício da cida-
dania do trabalhador brasileiro. Nós
nunca deixamos condenar direitos que
a CLT estava propondo, é claro que se
encontra um juiz ou outro que claudi-
ca. Em todas as áreas há isso. Mas de
modo geral, a Justiça do Trabalho exer-
ceu esse papel, tem história, tem des-
tino e não pode acabar. Vamos enfren-
tar esse problema de novo, não tenho
dúvida nenhuma. Não acredito que a
tese da extinção da Justiça do Trabalho
volte com tanta intensidade, até por-
que, politicamente, ela é muito impor-
tante hoje, no país. Algumas questões
que permanecem, como a questão de
competência, da ampliação da compe-
tência, porque não que-
remos ter competência
apenas no que diz res-
peito à relação de em-
prego, queremos ter
competência no que diz
respeito à relação de tra-
balho, inclusive compe-
tência para julgar o servi-
dor público. Temos mais
sensibilidade social para
esse tipo de julgamento,
porque o juiz do traba-
lho tem uma grande diferença em
relação ao juiz da justiça comum. Ge-
túlio Vargas criou a Justiça do Trabalho
e instituiu a representação classista.
Porque é que ele instituiu a represen-
tação classista? Por que o advogado é
um homem do mundo político, um
homem operador dos direitos da
época, trazia todas aquelas idéias de
Coimbra, aquelas idéias humanistas,
em alto nível e provavelmente não iri-
am compreender as situações regen-
tes no Brasil com a industrialização
que se iniciava. Daí, colocou os classis-
tas para informar ao juiz sobre essa si-
tuação de trabalhador. O juiz ia for-
mando uma opinião, para propor a de-
cisão. Essa é a origem da representa-
ção classista. Foi por isso que a CUT
pediu a representação classista. De-
pois, a representação classista infeliz-
mente degenerou. Degenerou por
uma série de privilégios. Sou contra a
flexibilização das Leis de Trabalho. Co-
mo flexibilizar com um sindicato que
temos? Entregar o sindicato ao poder
da legislação do trabalho? Centenas de
sindicatos foram criados somente para
indicar o juiz do trabalho, não fazem
outra coisa na vida. Outras centenas,
muitas centenas, foram criadas apenas
para receber os favores do imposto
compulsório, atrelados ao governo,
nada mais do que isso. O que aconte-
ce? O juiz do trabalho é um pouco flo-
riano na consciência, ele próprio tem
uma consciência sociológica muito
grande, hoje é especialista em sociolo-
gia jurídica, que é o que pretendia
Joaquim Pimenta. O juiz do trabalho
decide a matéria trabalhista, que é pra-
ticamente idêntica à do servidor. Eu
sou um trabalhador como qualquer
um, me considero um trabalhador, o
privilégio da autoridade judiciária não
me tira essa condição. Não sou um
profissional liberal que ganha centenas
e centenas de dinheiro, ganho um sa-
lário fixo, tenho minhas obrigações etc.
Então, é muito mais fácil à Justiça do
Trabalho julgar esse trabalhador do
que a justiça comum. O juiz da justiça
comum tem mentalidade fazendária
muito forte, nós não temos essa men-
talidade, nossa mentalidade é traba-
lhista. A mentalidade fazendária leva
geralmente o juiz a decidir em favor do
Estado. E não é esse o relacionamento
com a Justiça do Trabalho. A Justiça do
Trabalho prima pela justiça social, prin-
cipalmente pela justiça social. Espero
que ela continue fazendo isso pelo res-
to do tempo.
US: Um dos objetivos da Reforma Ju-
diciária, posto já há algum tempo, in-
clusive pelo senador Antônio Carlos
Magalhães, era de agilizar os traba-
lhos do judiciário. São famosos os pro-
cessos que demoram anos e anos,
perde-se até a rescisória. Nessa refor-
ma, há algo previsto que venha a ace-
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
118 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Entrevista: Dr. Francisco Fausto
lerar o andamento desses procesos?
Ministro: A reforma não vai acelerar
processo. A reforma diz respeito à par-
te institucional da justiça. Mas ela tem
um dispositivo, pelo menos na refor-
ma que foi aprovada na Câmara do
Deputados. Estava no Senado. Agora
parte-se do zero, voltou a zero. Há nela
um dispositivo que diz que os Tribu-
nais Superiores teriam uma competên-
cia, uma iniciativa de lei junto ao Con-
gresso Nacional. Hoje nós temos essa
competência apenas no que diz res-
peito à ampliação de cargos, de ação
conjunta, de ação no Tribunal. Mas não
temos competência na iniciativa legis-
lativa. Não temos essa iniciativa para
leis processuais, leis de direitos de tra-
balho, nada disso. Quando pretende-
mos alguma coisa que diz respeito à
lei processual, encaminhamos o nosso
anteprojeto ao Governo Federal. O Go-
verno Federal examina e, se quiser,
manda e, se quiser, não manda. Esse é
que é problema. Então o que é que
pensávamos fazer com esse dispositi-
vo que nos dava essa competência? O
grupo permanente de trabalho do TST
iria fazer propostas de leis processuais
que aceleram o andamento processu-
al. Quando se fala: o processo demora
quatro ou cinco anos, é bom que fique
claro. Recebemos, em 1999 - cito 99
como uma referência, tivemos um
pique de 2,5 milhões de processos em
todo o país. Desses 2,5 milhões, 60%
representam, mais ou menos, 1,5 mi-
lhão que foram resolvidos imediata-
mente, na primeira instância. Outros
tantos foram arquivados, porque o re-
clamante não compareceu. Isso é co-
mum. O nordestino que está em São
Paulo, está trabalhado, é dispensado,
reclama. Quando chove no Nordeste,
ele corre para lá e a reclamação dele
vai para o beleléu. Outros tantos desis-
tiram de qualquer recurso, ou foram
alguns recursos para os Tribunais Re-
gionais do Trabalho. Os Tribunais Re-
gionais do Trabalho não levam esse
tempo todo para julgar, mesmo São
Paulo, que tem um acervo grande, leva
um tempo razoável para julgamento
de processo. O que demora? Os pro-
cessos que chegam aqui são de gran-
des casos jurídicos a serem decididos.
Esses demoram um pouco, porque
são teses jurídicas. Você não pode de-
cidir a questão imediatamente. Requer
exame, conversa, muitas vezes, deba-
tes aqui no gabinete. Nós debatemos
uma questão jurídica relevante, o que
é isso, o que é aquilo, por que surgiu
isso, aconteceu essa coisa. Aconteceu
um fenômeno que atrapalhou o anda-
mento processual. A Constituinte de
88 constitucionalizou os temas traba-
lhistas. Colocou lá, na Constituição:
aviso prévio, férias, décimo terceiro...
isso deslocou o processo. A decisão fi-
nal do TST vai para o Supremo Tribunal
Federal. Então os processos vão para o
Supremo, e, no Supremo, tome tem-
po. O que é que está acontecendo? Eu
despacho mensalmente cerca de 600
petições de recursos extraordinários
para o Supremo Tribunal Federal. Pra-
ticamente, não admito nenhum. Admi-
to um ou dois, desses 600. O resto não
admito. Às vezes, ele vem com um
agravo de instrumento, aí, sim, tenho
que mandar o agravo de instrumento
para o Supremo. Mas o Supremo é
contra a minha decisão que foi reab-
sorvida do recurso, leva um tempão pa-
ra decidir. Mas é um percentual míni-
mo de processos. Questões trabalhis-
tas, de modo geral, são resolvidas em
primeira instância, na faixa de 60%.
US: Que apelo o senhor faria à socie-
dade brasileira em função deste qua-
dro que envergonha o país, que é a
exploração do trabalho escravo?
Ministro: Eu diria que o combate ao
trabalho escravo é uma missão de ci-
dadania. Não vou dizer que é apenas
uma missão do Governo Federal. Claro
que o Governo Federal é responsável
pelas ações oficiais. Ele é responsável,
por exemplo, pelas ações policiais, pe-
las ações do Ministério do Trabalho,
mas todos nós temos responsabilida-
de com isso. Eu diria que os juízes têm
responsabilidade nisso, embora só
possam atuar quando convocados. O
poder judiciário só atua quando con-
vocado, mas estou atuando sem ser
convocado. Estou dizendo o diabo. O
que eu posso dizer, digo; o que posso
falar contra o trabalho escravo, falo.
Mas acho que os professores das uni-
versidades têm também um grande
dever nessa área. Nas cadeiras de Di-
reitos do Trabalho das universidades
deveria constar algo sobre a dignidade
do trabalho, um tema específico. O tra-
balho escravo existe há muito tempo
só que não era denunciado com tanta
veemência como agora está sendo. O
representante da Pastoral da Terra dei-
xou bem claro, nesse congresso que
compareci, no Fórum Mundial Social,
inclusive fez elogio ao TST onde come-
çou a ganhar vulto, no Brasil. Mas esse
esforço não está derrubando, não está
reprimindo, está dissimulando a exis-
tência do trabalho escravo, porque é
um trabalho de todos nós, não te-
nham a menor dúvida. Diz respeito
não apenas a direitos trabalhistas, diz
respeito, principalmente, aos direitos
humanos.
* Antônio Ponciano Bezerra é professor
doutor na Universidade Federal de Sergipe,
2º vice-presidente da Regional NE-III, do
ANDES-SN, e editor da revista Universidade
e Sociedade. Esta entrevista contou com a
colaboração dos professores Almir Serra
Martins Menezes Filho (ADURN), 3º tesou-
reiro, do ANDES-SN; Antônio José Vale da
Costa (ADUA), 1º vice-presidente da SR
Norte II, do ANDES-SN, Encarregado de Im-
prensa e Divulgação do ANDES-SN, e do
jornalista do ANDES-SN, Luiz André Barreto.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 121
Apresentação
A vitória eleitoral do campo frente-
popular no Brasil, liderado pelo Partido
dos Trabalhadores, constitui um acon-
tecimento político sem precedentes
em nossa história. O exercício da pre-
sidência da República por um ex-ope-
rário e líder sindical seria algo espanto-
so na maior parte dos países do
mundo. O impacto subjetivo na cons-
ciência das massas de uma vitória co-
mo essa ainda não pode ser precisa-
mente delineado. Contudo, naquilo
que depender das diretrizes programá-
ticas sustentadas ao longo de toda a
campanha presidencial, assim como
os apontamentos provenientes das
mais diferentes administrações muni-
cipais e estaduais, um governo petista,
provavelmente, desenvolver-se-á mar-
cado pelo signo do social-liberalismo.
Por social-liberalismo entendemos
um amplo movimento, em escala in-
ternacional, da incorporação de pre-
missas do neoliberalismo por tradicio-
nais partidos de orientação social-de-
mocrata. O respeito por parte destes
às determinações dos “mercados” –
esta verdadeira mistificação conceitual
que procura obscurecer as estratégias
e os mecanismos da exploração e da
opressão capitalistas –, à contratualiza-
ção do Estado burguês e às políticas
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Ruy Braga*
Sob o signo do
social-liberalismo:
terceira via e
modernização social
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE122 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
de estabilização estrutural compactua-
das pelos fundos internacionais (FMI,
Banco Mundial) produziu um curioso
efeito político: a emergência tenden-
cialmente hegemônica de uma espé-
cie de “neoliberalismo mitigado” (cf.,
para mais detalhes, Husson, 2001).
É possível identificar um número
bastante variado de exemplos dessa
conversão de partidos reformistas à
ortodoxia liberal: o “Novo trabalhismo”
inglês, o “Socialismo administrativo”
francês e o “Novo centro” alemão, a
despeito de sua pluralidade, apontam,
há algum tempo, para o caminho que
vem trilhando o “petismo” brasileiro.
Com a vitória eleitoral de 2002, esse
processo que baliza as prefeituras e os
governos estaduais petistas tem tudo
para elevar-se quantitativa e qualitativa-
mente. É claro que com todas as dificul-
dades impostas não apenas pela con-
juntura da atual crise econômica mun-
dial, como também pela “gestão” de
um Estado em situação pré-insolvente.
De qualquer maneira, a atual con-
juntura econômica e política exige
uma análise mais sistemática da teoria
social-liberal. Tendo em vista esse pon-
to, é importante verificar que a grande
repercussão intelectual e política do
livro de Anthony Giddens (1998) sobre
a “Terceira Via” e motivado a retomada
do debate a respeito do “sentido” do
conceito e das práticas ditas “socialis-
tas”, nos dias atuais. Democracia e
mercados, Estado e economia, direita
e esquerda, crise e reestruturação pro-
dutiva, indivíduo e classes sociais. Um
conjunto heterogêneo e articulado de
grandes temas das ciências sociais res-
surge, captado de acordo com o pris-
ma do “social-liberalismo”. Mesmo le-
vando em consideração o recente re-
vés eleitoral do Partido Socialista fran-
cês e o avanço de fundamentalismos
direitistas – alguns com nítida orienta-
ção neofascista – na Europa, é inques-
tionável a importância desse debate
no âmbito das alternativas à crise do
neoliberalismo.
Hegemonia neoliberal: “para
além da esquerda e da direita”?
Fenômeno internacional, tal crise –
México (1994), França (1995), Sudeste
Asiático (1997), Rússia (1998), Brasil
(1999), Argentina (2001-2002) e, no-
vamente, Brasil (2002) – descortinou
uma conjuntura relativamente nova no
cenário econômico e político interna-
cional. Processualidade complexa e
dissonante, o desgaste das estratégias
dos fundos internacionais, os ataques
aos direitos sociais, o desempenho
econômico modesto, o desemprego e
o enfraquecimento eleitoral daí decor-
rentes conferiram um novo fôlego ao
projeto da “moderna” orientação so-
cial-democrata, na Europa e no Brasil.
Se bem é verdade que a crise do neo-
liberalismo condicionou o ressurgi-
mento do debate sobre a terceira via,
também é verdade que poucos se dão
conta de que os principais eixos teóri-
cos e políticos que sustentam o deba-
te atual a respeito da modernização
social-democrata debruçam raízes pro-
fundas na conjuntura econômica e
política dos anos 1970 e 1980.
Nesse sentido, o objetivo deste arti-
go consiste em apontar – ao contrário
de grande parte da literatura que iden-
tifica um “corte” em relação à tradição
social-democrata, empreendido pelos
teóricos contemporâneos da terceira
via – que algumas das principais for-
mulações presentes em Giddens (ibid.),
por exemplo, correspondem a um
amadurecimento tardio de posições
teóricas e políticas já presentes na rup-
tura eurocomunista com a tradição
leninista.
Em primeiro lugar, identifiquemos,
sinteticamente, algumas dessas posi-
ções que se encontram fortemente
atuantes nas representações prove-
nientes do debate atual. Renovado
pela crise, o vocabulário da terceira via
encontra-se profundamente marcado
pela presença de valores – valor do in-
divíduo, valor da ética, liberdade, soli-
dariedade – que ocupam o espaço ou-
trora reservado ao “valor”. O conceito
de trabalho foi varrido do discurso re-
formista à medida que antigas figuras
da ordem produtiva assumiam um
protagonismo quase inédito. Os pro-
blemas são pensados exclusivamente
em termos das necessidades do “em-
prego” ou do “salário”. Limitado pela
esfera do mercado do trabalho, o pro-
jeto da terceira via vai sendo definido
em torno da regulação do núcleo duro
da materialidade capitalista, acrescido
de supostos valores socialistas.
Nesses termos, a terceira via apre-
senta-se como um projeto e um pro-
grama econômico, social e político, su-
postamente eqüidistante tanto do libe-
ralismo quanto do socialismo. “Para
além da direita e da esquerda” pressu-
põe tacitamente a social-democracia
renovada pela hegemonia neoliberal.
A resultante é clara: o socialismo ins-
creve-se, formalmente, no horizonte
histórico. Deve ser alcançado por meio
de reformas progressistas negociadas
com o capitalismo. No sistema dos sig-
nos reformistas, só não há espaço para
a revolução. Entre esta e o capitalismo,
O vocabulário da terceira via encontra-se profundamente
marcado pela presença de valores – valor do indivíduo,
valor da ética, liberdade, solidariedade – que ocupam
o espaço outrora reservado ao “valor”.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 123
intercala-se um caminho alternativo.
Acumular forças e transitar pacifica-
mente rumo a um socialismo indefiní-
vel. A palavra-de-ordem é antiga. Suas
contrapartidas também.
Após os embates monetaristas dos
anos 80, o Partido Trabalhista britânico
foi pioneiro na estruturação e posterior
difusão deste refinamento do neolibe-
ralismo. Comentando a metamorfose
do “Novo trabalhismo” inglês, Antunes
entende que:
“A ‘Terceira Via’ tem se con-
figurado, portanto, como
uma forma de continuida-
de do que é essencial da
fase thatcherista. Isso por-
que, com o enorme des-
gaste que o neoliberalismo
clássico acumulou ao lon-
go de quase 20 anos, era
necessário buscar uma
alternativa que preservas-
se, no essencial, as meta-
morfoses ocorridas duran-
te aquele período. A vitória
eleitoral do NL – Novo Tra-
balhismo – de Tony Blair,
no início de 1997, apesar de canalizar
um enorme descontentamento social
e político, já trazia em seu conteúdo
programático a preservação do essen-
cial do projeto neoliberal. Não haveria
revisão das privatizações; a flexibiliza-
ção (e precarização do trabalho) seria
preservada e em alguns casos intensi-
ficada: os sindicatos manter-se-iam
restringidos em sua ação: o ideário da
‘modernidade’, ‘empregabilidade’, ‘com-
petitividade’, entre tantos outros, conti-
nuaria a sua carreira ascensional e
dominante. O traço de descontinuida-
de do NL em relação ao thatcherismo
aflora ao tomar ele algumas decisões
políticas – em verdade politicistas –,
como o reconhecimento do Parla-
mento na Escócia, mas que não se
constituem num entrave para a conti-
nuidade do projeto do capital britâni-
co, reorganizado durante a fase neoli-
beral. O NL que emergiu vitorioso no
processo eleitoral de 1997, despojado
de vínculos com o seu passado refor-
mista-trabalhista, converteu-se no
New Labour pós-Thatcher, ‘moderno’,
defensor vigoroso da ‘economia de
mercado’, da flexibilização do traba-
lho, das desregulamentações, da
‘economia globalizada e moderna’,
enfim, de tudo o que foi fundamen-
talmente estruturado durante a fase
clássica do neoliberalismo. Sua defe-
sa do Welfare State, por exemplo, é
completamente diferente daquela da
social-democracia clássica. Tony Blair
quer ‘modernizar’ o Welfare State. Po-
rém, ‘modernizá-lo’ significa a des-
truição dos direitos do trabalho, que
são definidos por ele como ‘herança
arcaica’” (1999, p. 97).
O reformismo de ontem amparava-
se fortemente numa base sindical po-
derosa e ativa. A negociação coletiva
conformando um compromisso social
totalizado pelo Estado salarial regula-
dor. Tal projeto, que teria vigorado sob
a vigência do fordismo, padeceria sob
o impacto da atuação conjunta da acu-
mulação flexível, por um lado; e da de-
sestruturação da classe trabalhadora
empreendida pelo neoliberalismo, por
outro. Nesse contexto, a terceira via
acena com a bandeira da modernida-
de como horizonte histórico: racionali-
dade, realismo e progresso. O fim da
União Soviética e o esgotamento do
neoliberalismo abririam a possibilida-
de de se repensar a transição sob o
signo de uma social-democracia reno-
vada pelo entendimento segun-
do o qual a economia de merca-
do traduziria modernidade e
criatividade.
Para tanto, os discursos teóri-
cos e as práticas políticas devem
ser capazes de se desvincular do
ideal da igualdade social e afir-
mar a prioridade da iniciativa in-
dividual, como instrumento do
progresso coletivo contra o pos-
tulado obsoleto da propriedade
coletiva dos meios de produção.
Uma suposta harmonia essen-
cial entre o capitalismo – cria-
ção, inovação – e a democracia
– valores da justiça, individualidade,
passa a ser apresentada com a força
de uma lei natural. Sobre esse terreno,
a terceira via não pretende ser apenas
uma plataforma eleitoral, mas uma
teoria da economia e da política con-
temporâneas. A teoria progressista
possível de uma historicidade marca-
damente pós-proletária.
Socialismo e democracia:
a ruptura eurocomunista
É possível localizar os antecedentes
imediatos dessas representações na
conjuntura da crise capitalista dos
anos 1960-1970. No início dos anos
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
A terceira via acena com a bandeira da modernidade
como horizonte histórico: racionalidade, realismo e progresso.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE124 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
1970, começam a transparecer, no âm-
bito mesmo da social-democracia eu-
ropéia e por intermédio de teóricos re-
formistas, sinais de uma verdadeira in-
quietação em face do socialismo ad-
ministrativo e planificador que, supos-
tamente, traria “cada vez mais Estado”,
bem como as marcas de uma descon-
fiança crônica diante das burocracias
de todo tipo. A legitimidade do Estado
– suposta força motriz do progresso –
como também a capacidade de dire-
ção da burocracia esclarecida foram
colocadas à prova pelas massas insur-
gentes, naquele famoso biênio de
1968-1969.
A roda da história, aparentemente
travada pelos esforços reformistas, pa-
recia emitir sinais de um movimento
renovado: a temporalidade fraturada
das lutas surpreendia o culto sonolen-
to dos partidários do progresso. Es-
sencialmente, o planejamento recalca,
mas é incapaz de suprimir a contradi-
ção. Esta, por vezes, emerge acompa-
nhada da multiplicidade de sintomas
próprios de um pesadelo que insiste
em retornar. Nesse sentido, o final dos
anos 1960 testemunha, em grande
medida, a força da organização de um
operário-massa que ousa se insurgir
contra cadências infernais e autorida-
des burocraticamente constituídas.1
A
Leste, tanto quanto a Oeste, o Estado
salarial regulador acusa o golpe:
“Enfado de seu discurso, degenera-
ção burocrática de suas organizações,
evolução de suas práticas de compro-
misso em direção ao comprometimen-
to, corrupção de alguns de seus diri-
gentes: se o compromisso fordista asse-
gurou, num certo sentido, o triunfo do
modelo social-democrata do movimen-
to operário, também precipitou seu de-
clínio e criou algumas das condições de
sua crise posterior. Particularmente, ele
o tornou incapaz de se adaptar às no-
vas formas da luta do proletariado oci-
dental que resultam do próprio fordis-
mo” (Bihr, 1998, p. 51).
Diagnósticos e representações teó-
ricas dos campeões reformistas euro-
peus não cessaram de surgir. Estaría-
mos diante da crise de uma determi-
nada reestruturação da sociedade ca-
pitalista, que teve seu desenvolvimen-
to mais característico nos Estados
Unidos dos anos 1930 e que, depois
da derrota do nazifascismo, foi se ex-
pandindo em toda a área do Ocidente.
Ingrao (1981) aponta para a crise de
um “modo de ser da sociedade capita-
lista”, datado e determinado.2
No cerne
da crise, encontramos o planejamento
estatal: “modelo capitalista predomi-
nante nos últimos 50 anos”, segundo
Bihr (ibid.). Com a crise, teria desapa-
recido também o quadro internacional
que havia tornado possível aquela
reestruturação:
“A reestruturação capitalista, que
definimos com o nome de Estado as-
sistencial, não pode ser reduzida a
uma operação apenas econômica de
reequilíbrio entre produção e consu-
mo, após a grande catástrofe da crise
de 1929. Ele teve como meta repropor
uma idéia de progresso e regenerar
uma capacidade do capitalismo de ex-
pressar uma ‘racionalidade’ geral”
(idem, ibid., p. 12).
O novo tipo de relação entre eco-
nomia e Estado teria constituído um
projeto por meio do qual a racionalida-
de da grande empresa capitalista de-
veria ser estendida à sociedade, ade-
quando-a e reordenando-a. Chamado
de Welfare State, a argumentação ia
além da perspectiva do bem-estar,
implicando a garantia do emprego, ou
seja, de um trabalho definido, junta-
mente com a proposta de um tipo de
Estado capaz de reconstruir uma
representatividade geral da sociedade.
Esse grande arranjo social organizado
sobre a base do compromisso social,
envolvendo setores expressivos das di-
reções políticas do proletariado e cen-
trado na capacidade de direção da
burguesia – caso dos países imperialis-
tas – ou da burocracia soviética, havia
sido questionado na raiz.
Um novo movimento em direção à
recomposição das forças reformistas
advindas de um compromisso insus-
tentável politicamente deveria, acima
de tudo, resguardar as premissas de
um socialismo democrático, tendo o
parlamento à frente distante tanto das
contradições engendradas pelo capita-
lismo monopolista quanto dos impas-
ses experimentados no Leste Euro-
peu.3
O tema da terceira via reformista
recolocava-se sob a roupagem do eu-
rocomunismo.4
A democracia social
defendida por Bernstein contra o su-
posto blanquismo bolchevique e o fer-
rolho liberal apresentou-se como uma
alternativa a Leste e a Oeste. A ruptura
eurocomunista em relação à tradição
leninista, associada à crise do planeja-
mento estatal, havia descortinado um
novo horizonte para as iniciativas dos
progressistas.
É interessante notar que os apelos
eurocomunistas pela construção de
uma alternativa socialista e democráti-
ca – apelo esse solenemente declara-
A ruptura eurocomunista em
relação à tradição leninista,
associada à crise do
planejamento estatal, havia
descortinado um novo horizonte
para as iniciativas dos
progressistas.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 125
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
do, em Moscou, durante as comemo-
rações dos 60 anos da Revolução de
Outubro, por Berlinguer, na qualidade
de secretário-geral do então Partido
Comunista Italiano – ao capitalismo te-
nha sido precedido em cinco anos
pela publicação alemã do livro A ter-
ceira via, de Ota Sik (1978). Na condi-
ção de antigo ministro da economia na
época do governo de Dubcek, poucos
intelectuais estariam tão habilitados a
falar em socialismo democrático quan-
to esse ex-militante do Partido Comu-
nista tcheco-eslovaco. E ele o faz, prio-
ritariamente, por meio de uma ampla
argumentação em torno das relações
envolvendo a democracia, o mercado
e o plano.
A modernização social entre o
mercado e o plano
O ponto de partida é bastante sim-
ples. Para Sik, a transição sem demo-
cracia e mercado está fadada ao fra-
casso. A superação da divisão da socie-
dade entre homens “com interesse no
capital” e outros “com interesse no
salário” deveria partir da subsunção do
consumo espontaneamente surgido
no mercado a fins macroeconômicos,
estabelecidos democraticamente e a
longo prazo, isto é, “fixados num pla-
no”. Os dilemas da transição resolver-
se-iam por meio da democratização
do plano. Fazer avançar o progresso
das forças produtivas implicaria a acei-
tação da proeminência do mercado,
no que diz respeito à capacidade de
mobilizar e identificar as necessidades
sociais que devem ser debatidas pelos
gestores. Antes de mais nada, o Estado
deve ser capaz de reconhecer a proe-
minência da eficácia mercantil:
“A crítica das condições da produ-
ção capitalista não passa, porém, de
uma crítica verbal se não se diz ao
mesmo tempo como é que elas po-
dem ser superadas na realidade, sem
despejar a criança juntamente com a
água do banho. Senão, em vez de
combater a produção exclusivamente
determinada pelo mercado, luta-se
contra o próprio mercado, que é in-
substituível; em vez de se recusar a
ânsia do lucro privado, que gera dife-
renças de poder econômico e político,
condena-se o princípio do lucro e da
eficácia, em vez de se procurarem
caminhos e meios para poder equili-
brar democraticamente e conformar
humanamente a evolução das neces-
sidades humanas, prega-se a necessi-
dade de uma educação contra o con-
sumo” (Sik, 1978, pp. 52-3).
Nem comunismo soviético, nem
capitalismo: a modernização social –
tanto a Leste, quanto a Oeste – é per-
cebida por intermédio da combinação
progressista entre mercado e plano.
Os interesses inerentes à democratiza-
ção do planejamento estatal envolve-
riam tanto os produtores técnico-eco-
nômicos5
quanto a massa crescente da
população ativa que não executa tare-
fas produtivas, isto é, cientistas, peda-
gogos, estudantes, pessoal médico,
trabalhadores da informação, artistas.
Tais setores seriam fundamentais para
a modificação da linha de consumo
social, pois tomariam rapidamente
consciência do “absurdo que represen-
ta o consumo individual no mercado,
exagerado e unilateral”, quando da
insuficiência dos meios para a “satisfa-
ção urgente” das necessidades sociais
(Sik, 1978).6
Evidentemente, argumenta Sik, “já
não se trata aqui da ‘classe operária’”
(ibid.). Deveríamos aceitar, “com Mar-
cuse e outros, que a classe operária,
em condições de capitalismo tardio
industrialmente avançado, deixa de ser
um sujeito histórico da revolução”
(idem, ibid., p. 50). O balanço asseme-
lha-se, em grande medida, aos infor-
mes pioneiros daquilo que, logo em
seguida, ficaria conhecido como o de-
bate sobre a crise do trabalho. A análi-
se das necessidades e dos interesses,
assim como dos respectivos portado-
res, levaria ao reconhecimento segun-
do o qual “novos estratos progressistas
surgem na sociedade”, vinculando seu
destino à transformação social mais
ampla (idem, ibid.). A transição deve
ser pensada com base neste suposto
novo patamar descortinado para o
progresso.
A reivindicação modernizadora de
Sik, segundo a qual, para fazer avançar
o progresso, sob a direção do princípio
da eficácia mercantil,7
é necessário de-
mocratizar o plano, antecipa, em gran-
de medida, uma parte substantiva do
debate eurocomunista. Afinal, se a cri-
se exige uma reconstituição das tare-
fas, as saídas para o processo da crise
demandam alterações progressistas
no âmbito dos aparelhos de hegemo-
nia do Estado.8
Afinal, qual a viabilida-
de de um projeto político de retomada
do progresso distante da instância
totalizadora dos conflitos sociais, capaz
de erigir-se, ao mesmo tempo, como
árbitro, gestor e promotor da justiça?
Terceira via:
o Estado como alternativa
Como sempre, a alternativa deve
ser buscada no Estado: se a legitimida-
de da planificação soberana parece
Se a crise exige uma reconstituição das tarefas, as saídas
para o processo da crise demandam alterações progressistas
no âmbito dos aparelhos de hegemonia do Estado.
acentuadamente questionada – daí as
preocupações levantadas por Sik – é
porque o sistema hegemônico não to-
taliza mais como deveria. Dito de outra
maneira, o Estado distanciou-se do pú-
blico, tornando-se uma potência hostil
aos interesses democráticos. Que a
oportunidade aberta por esta crise de
legitimidade seja aproveitada para a
renovação do “Estado do conjunto dos
assalariados”, capaz de descentralizar
suas práticas democráticas, viabilizan-
do uma saída progressista para a crise.
Do valor aos valores, a refundação do
Estado salarial permitiria vislumbrar os
caminhos da transição:
“Vi que nos foi ministrado um con-
selho para que não subestimássemos
as experiências realizadas pelos regi-
mes social-democratas. Mas do que
resultaria – falo naturalmente de hoje,
não de ontem – essa subestimação da
nossa parte? Aliás, no que se refere ao
acesso contínuo, polêmico – por que
não? – debate sobre o significado dos
eventos destes 30 anos, coube mais
de uma vez a nós, comunistas – e al-
gumas vezes apenas a nós! – recha-
çar as interpretações que os viam co-
mo uma seqüência de derrotas, como
uma longa falência da esquerda de-
pois da chamada ocasião perdida de
45: e, inclusive as realizações social-
democratas na Europa, nós as vimos e
discutimos como reflexo e resposta a
um avanço das massas, a um desloca-
mento progressista da situação. (...) A
tese que expus, nesta entrevista, é que
o Welfare State ou modelo assistencial
– no qual a social-democracia euro-
péia desempenhou um tão grande
papel –, ou como se queira chamá-lo,
não falava apenas de salário, de casa
ou de postos de trabalho, coisas todas
de maior importância, mas falava
também de valores, da igualdade da
pessoa, de qualidade de vida. De mo-
do algum houve subestimação! Essa
interpretação é aceita? Pois bem: se é
aceita, e essa é a questão, então co-
mo ver que tal perspectiva foi hoje
golpeada? E eu, de nenhum modo,
fico alegre com tal coisa. Mas é ou
não verdade que isso abriu proble-
mas e interrogações agudas sobre a
estratégia e sobre as perspectivas
das constelações social-democratas?”
(Ingrao, 1981, p. 89).
A necessidade de restaurar um no-
vo ciclo de disputas por espaço, no in-
terior de um aparelho de Estado capi-
talista em recomposição, definiria o
campo da ação para os partidos refor-
mistas europeus. Apesar de o euroco-
munismo não se constituir como um
bloco de partidos ligados por vínculos
organizativos, argumenta Ingrao, as
novas tarefas definidas pela conjuntu-
ra demandariam uma maior integra-
ção das lutas e das investigações “tan-
to dos partidos comunistas entre si
quanto em suas relações com outras
forças democráticas e de esquerda”
(ibid.). Um projeto, inconcluso, é ver-
dade, mas capaz de modernizar o
ideário e balizar a prática socialista, re-
novando a adaptação reformista em
relação às estruturas do capital:
“Também visto por esse ângulo, o
somatório estático das forças não dá
frutos. Não se trata de vender aos ca-
maradas espanhóis uma receita nova,
ou de importar para nós uma receita
da França. Trata-se de pôr realmente
em discussão a nossa experiência re-
cíproca, e, portanto, de nos expor ao
debate, à crítica, à investigação fora
do esquema que diz: cada um em sua
casa faz o que bem quiser” (idem,
ibid., p. 96).
Para tanto, uma nova racionalidade
produtiva solidária e hegemonizada
pela figura da negociação deveria ser
capaz de prevalecer sobre os modelos
liberais difundidos pela reestruturação
do aparelho produtivo em curso. O
diagnóstico aponta para tendências
orgânicas da recomposição do mundo
do trabalho, tais como transformações
tecnológicas que reduzem o peso da
força de trabalho, e um desenvolvi-
mento dos sistemas de automação e
dos mecanismos de informática; fenô-
menos extensos de descentralização
produtiva; uma ampliação da área do
trabalho não regulamentado.
Os desdobramentos da reestrutu-
126 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
O sistema hegemônico não totaliza mais como deveria.
Dito de outra maneira, o Estado distanciou-se do público,
tornando-se uma potência hostil aos interesses democráticos.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
ração liberal do aparelho produtivo
são captados sob o signo do “risco”
engendrado sobre o desenvolvimento
econômico sustentado. A incapacida-
de apresentada pela crise do capital
em gerar mais e melhores empregos
para as classes trabalhadoras, articula-
da à decomposição da rede de prote-
ção social tecida pelo Estado salarial,
constituem os principais obstáculos
para a retomada da iniciativa dos refor-
mistas. Restaurar o progresso alternati-
vo às exigências mercantis implicaria,
entre outros, equilibrar eficácia e eqüi-
dade num amplo modelo capaz de ori-
ginar acordos tão favoráveis à classe
trabalhadora quanto os que vigoraram
ao longo dos “Trinta gloriosos” do pós-
guerra.
Uma nova arquitetura econômica
deveria emanar dos esforços restaura-
cionistas cujo eixo se encontra centra-
do na figura – desgastada, mas nunca
sepultada – do compromisso social. Se
a crise traduz uma situação difícil e
complexa para as forças do progresso,
seu próprio peso definiria, ao mesmo
tempo, as necessidades de uma nova
aliança capaz de afinar os instrumen-
tos que garantam o desenvolvimento
e a qualidade dos investimentos. Com
uma pitada de inovação social seria
possível recriar locais onde os “sindica-
tos, o patronato e o governo se encon-
trem e assumam compromissos não
apenas no que se refere às platafor-
mas reivindicativas, mas também no
que se refere aos investimentos”
(idem, ibid.).9
Um sistema de contrapartidas no
sentido da democratização do espaço
produtivo deve ser produzido: como
em Giddens (ibid.), a idéia diretriz de
um compromisso progressivo que
acompanhe a evolução das estruturas
do capitalismo permanece balizando
as propostas de saída para a crise.
Afinal, bloquear a iniciativa operária no
interior da fábrica abriria um espaço
incontrolado para a dinâmica da orga-
nização do trabalho e da reestrutura-
ção tecnológica que, na empresa mo-
derna, “tem um caráter quase contí-
nuo e obrigatório e que, de certo mo-
do, vai além da vontade do próprio pa-
trão” (idem, ibid.).
Se essa dinâmica não for obrigada
a confrontar-se com uma “contratua-
ção conflitual”, não só o operário “per-
derá armas e posições” mas se sentirá
ainda mais “reduzido apenas a salário”
(idem, ibid.). Porém, nesse caso, como
se poderá demandar ao operário que
raciocine como “produtor” e, ainda por
cima, como produtor que preza suas
relações globais com as outras cama-
das sociais, com o conjunto do país? A
problemática reformista não cessa de
buscar um ponto de equilíbrio entre as
partes conflitantes capaz de restaurar a
dinâmica de conjunto das estruturas
da ordem do capital. Uma suposta
economia solidária parece emergir
deste esforço em articular eficácia e
eqüidade:
“Vamos lhe pedir (ao operário) que
pense; fazemos votos para que pense.
Mas, se for coagido a se sentir apenas
como ‘salário’, pensará no outro irmão
em termos de ‘salário’, ou, se se quiser,
de ‘posto de trabalho’, ou seja, conti-
nuará no interior de um horizonte limi-
tado à fábrica, ou, no máximo, de um
horizonte corporativo. E, diante dessa
concreta dinâmica social, nenhum
pacto estimulado se manterá. (...) E
termina-se por golpear a experiência
mais interessante que surgiu – sobre-
tudo na Itália – a partir dos tormento-
sos eventos desses 15 anos: o proces-
so de continuidade que se estabele-
ceu entre a luta pelo salário, pela de-
fesa da própria qualificação, ou da
saúde ou do tempo de trabalho, e as
lutas pelas reformas na sociedade e
no Estado” (idem, ibid., pp. 106-7).
Eis a tônica do discurso: se o velho
modelo em crise renova o dilacera-
mento do tecido social, os reformistas,
ao contrário, objetivam a recomposi-
ção. Os sindicatos deveriam, então, ser
reconvocados para integrar um amplo
“processo de formação contínua que
evite que o trabalho manual apareça
como um ‘gueto’ eterno” (idem, ibid.).
Para tanto, seria preciso reorganizar o
papel da escola, os aparelhos da admi-
nistração pública, as formas da cultura,
do saber. O próprio processo de inova-
ção tecnológica deixaria de ser visto
fragmentariamente, “empresa por em-
presa”. Em suma, recompor significa
programar o desenvolvimento, se não
burocraticamente; de modo democrá-
tico. A grande panacéia persiste.10
A ênfase na democratização solidá-
ria da economia produz apreciações
equivocadas, no que diz respeito à
social-democratização da reestrutura-
ção produtiva. Foram as tais “puras
relações privadas” – que a reação neo-
liberal dos anos 1980 e 1990 vigorosa-
mente difundiu, deixando marcas pro-
fundas na própria Europa Ocidental –,
as vitoriosas no embate “público x pri-
vado”. Nem economia solidária nem
programação democrática, como é sa-
bido. Os esforços reformistas por ence-
tar uma democracia organizada no
coração do mundo do trabalho rees-
truturado redundaram numa subsun-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 127UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
A cena da história assumiu uma tonalidade marcada
pela difusão do processo de mundialização
do capital cuja dinâmica fez vergar a espinha dorsal da
maioria das sociedades nacionais.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
ção ainda maior do proletariado:
“Deve-se ver, então, como introdu-
zir um princípio de regulamentação
que evite tanto o centralismo burocrá-
tico quanto a fragmentação corporati-
va. Por isso, parece-me justo falar de
uma democracia organizada como via
para construir novas formas de racio-
nalidade pública e uma programação
que penetre no interior da sociedade.
(...) Todo o problema da programação
deve ser repensado, começando-se a
dizer claramente que ele não é ape-
nas um fato técnico, de números, de
contas e de previsões quantitativas,
porém um envolvimento cada vez
mais amplo de sujeitos sociais, de su-
jeitos coletivos, de massas que pas-
sem a contar no governo do desenvol-
vimento econômico e social” (idem,
ibid., p. 115).
Considerações finais
Sem dúvida, os anos 1980 foram
os anos da estruturação hegemônica
do neoliberalismo. A cena da história
assumiu uma tonalidade marcada pela
difusão do processo de mundialização
do capital cuja dinâmica fez vergar a
espinha dorsal da maioria das socieda-
des nacionais. Um impulso extra ad-
veio da crise e do posterior sepulta-
mento das “sociedades do Leste”, as-
sim como do dilaceramento e da de-
fensiva do movimento operário mun-
dial, atingido em cheio pela pacifica-
ção proveniente do desemprego de
massas e da reestruturação produtiva
em curso. “Ajustes estruturais” e “revo-
luções informacionais” minaram o ter-
reno de uma história que nos anos
1960 havia deixado em aberto o hori-
zonte das possíveis soluções para a
“grande crise”.
O pensamento e a prática reformis-
tas não poderiam passar imunes a um
processo dessa magnitude. Por entre
supostas crises de identidade do pen-
samento progressista à esquerda, o
processo adaptativo em relação às es-
truturas capitalistas próprio à raiz refor-
mista do movimento operário não ces-
sou de se renovar. Coerentemente, a
cada rodada do jogo adaptativo e au-
to-acomodativo, o programa da es-
querda reformista rebaixou seu hori-
zonte histórico. Se em Bernstein, por
exemplo, as vias são irracionalismo re-
volucionário ou socialismo evolucioná-
rio, em Ingrao, o problema coloca-se
por meio da disjuntiva: “reestruração
liberal” ou “nova racionalidade produ-
tiva solidária” sustentada por um Es-
tado radicalmente democrático.
O raciocínio é elíptico: no momento
mesmo em que o Estado parece irre-
mediavelmente enfermo, a alternativa
deve ser buscada no Estado! Capaz de
descentralizar suas “práticas democráti-
cas” e garantir a viabilidade de uma
saída progressista para a crise, o Estado
regulador proposto pelo reformismo
permitiria prefigurar as vias da transi-
ção. Do valor aos valores: o problema
da transição não se localiza na revolu-
cionarização das relações capitalistas
de produção. O terreno privilegiado en-
contra-se sedimentado pela difusão ca-
da vez mais ampliada dos valores de-
mocráticos. Na radicalização dessa li-
nhagem de raciocínio, inscreve-se o de-
bate sobre a terceira via dos dias atuais.
Ao que tudo indica, o governo pe-
tista buscará, acompanhando a trajetó-
ria recente de parte da esquerda euro-
péia social-democrata, se constituir
como a alternativa por excelência en-
tre aqueles que defendem a passivida-
de da classe trabalhadora diante da
exploração – o bloco de poder articu-
lado pelo governo de Fernando Hen-
rique Cardoso –, por um lado, e os par-
tidários das lutas de classes – o MST e
integrantes de correntes políticas pe-
tistas e não-petistas de esquerda, por
outro. Simétricos na recusa à negocia-
ção, neoliberais e “esquerdistas” en-
contrar-se-iam enclausurados numa
compreensão estreita das possibilida-
des abertas ao crescimento com esta-
bilidade pelo compromisso social no
crepúsculo de um período histórico
marcado pela crise contemporânea.
No bojo da crise do projeto societá-
rio neoliberal, os acordos oriundos da
institucionalização do conteúdo das
lutas sociais garantiria espaço para um
novo enfoque do problema da “exclu-
são social”. Os conflitos não mais se-
riam dissolvidos pelo “gerenciamento
monetário” dos acólitos mercantis,
nem a sociedade seria subvertida pela
radicalização das lutas. Negociar um
novo contrato social capaz de superar
a exclusão social, evitando, com isso, o
extremismo dos “partidários” da vio-
lência classista.
Se, por um lado, é possível localizar
profundas diferenças entre a trajetória
da esquerda reformista européia – e
suas representações teóricas – e a tra-
jetória política petista, por outro, é im-
possível deixar de notar paralelismos e
convergências significativas. Sobretudo
quando pensamos no programa de
governo do PT e nas recentes medidas
econômicas promulgadas pelo minis-
tro da fazenda, Antônio Palocci. Não
queremos dizer com isso que o gover-
no Lula será uma espécie de “cópia”
de experiências políticas reformistas
recentes. Nem que as iniciativas do no-
vo governo no sentido da “consertação
social” derivam de um “modelo” pro-
128 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
O governo petista buscará, acompanhando a trajetória
recente de parte da esquerda européia social-democrata.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 129
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
gramático importado da Europa. A ri-
gor, o programa petista localiza-se à
direita de várias das políticas reformis-
tas européias. Mas, do “Novo trabalhis-
mo” inglês ao “Socialismo administrati-
vo” francês, passando pelo “Novo cen-
tro” alemão, não deixa de ser possível
vislumbrar no passado recente euro-
peu algumas indicações interessantes a
respeito do futuro do governo Lula.
Notas
1. “A explosão deu-se no final da década de
60 e no início dos anos 70, sob a forma de
uma onda de lutas proletárias que não pou-
pou nenhuma das formações capitalistas
desenvolvidas. Essas lutas anunciavam os li-
mites históricos do compromisso fordista. Es-
sa explosão tomou basicamente a forma de
uma verdadeira revolta do operário-massa
contra os métodos tayloristas e fordistas de
produção, epicentro das principais contradi-
ções do processo de massificação” (Bihr,
1998, p. 59).
2. “Convém precisar que a reestruturação ca-
pitalista, cujas dificuldades registramos hoje,
não foi apenas uma operação econômica; ao
contrário, foi caracterizada por novas formas
de conexão e articulação entre processos pro-
dutivos e processos políticos, entre economia
e Estado” (Ingrao, 1981, p. 11).
3. “E o eurocomunismo, a meu ver, trabalha
sobre a seguinte hipótese: um processo de-
mocrático que muda o Estado, um desenvol-
vimento da democracia que rompe o cupulis-
mo e o isolamento do Estado. Uma hipótese
que não ficou nos livros, que esteve no inte-
rior de muitas lutas. (...) Às vezes encontro
alguém que me explica que minha teimosa
insistência no papel das assembléias políticas
eletivas, a começar pelo parlamento, é um
fato ‘arcaico’. Conheço e vivo diretamente as
dificuldades e os defeitos dessas assembléias.
Mas surgiu até agora uma outra instituição
que realize uma ‘transparência’ melhor no
confronto e nas decisões e, por conseguinte,
permita melhor o indispensável acordo como
o movimento da sociedade civil?” (idem, ibid.,
pp. 65-7).
4. Seguindo Mandel, entendemos por euroco-
munismo “(...) uma codificação da evolução
que sofreram os partidos comunistas da Eu-
ropa ocidental a partir do VII Congresso do
Komintern e que os conduziu – fora os curtos
interregnos de Setembro de 1939 à primave-
ra de 1941 e na época da guerra da Coréia –
a praticar uma política de colaboração de clas-
se, sempre mais estreita, com a sua própria
burguesia” (1978, p. 45).
5. “Esses produtores perguntam hoje, de
forma cada vez mais clara, por que razão há
de a evolução das empresas ser decidida por
proprietários do capital distantes e por que
não há de o desenvolvimento do capital ser
assegurado com base na própria mais-valia,
sob a forma de capital coletivo, sendo as res-
pectivas decisões tomadas por órgãos eleitos
pelo coletivo da empresa. (...) Quanto mais
claramente se desenvolver no plano teórico, a
idéia de uma participação no capital e, depois,
de um capital coletivo, adaptando-se às con-
dições específicas de cada país, tanto maior
será a sua eficácia política” (idem, ibid., p. 49).
6. “Com base neste interesse, eles tornam-se
os mais ativos defensores de uma conjugação
moderna do mercado e do plano, os partidá-
rios da realização de um quadro de planifica-
ção macroeconômica, por meio da qual se es-
tabeleça a proporção fundamental entre o
consumo individual no mercado e o consumo
social institucional” (idem, ibid., p. 49).
7. “Tal significa que, em abstrato, a sociedade
é obrigada a assegurar, com a quantidade de
trabalho de que dispõe (que corresponde à
quantidade de força de trabalho existente
multiplicada pelo tempo de trabalho legal-
mente estabelecido), a satisfação mais com-
pleta possível das necessidades. Esta necessi-
dade econômica universal se realiza, em cada
momento dos diversos estádios históricos de
desenvolvimento social, por intermédio de
diferentes relações de produção e mecanis-
mos econômicos. Destes, o mais generalizado
e mais duradouro é o mecanismo de merca-
do, que, apesar de todos os seus defeitos e
imperfeições, ajuda a garantir uma utilização
efetiva do trabalho na sociedade. O sistema
de planificação dirigista do comunismo não
está em condições de substituir esse mecanis-
mo imperfeito do mercado pois o trabalho
utilizado nesse sistema – embora não seja hu-
manamente menos intensivo e menos exi-
gente – não atinge a eficácia da economia de
mercado” (idem, ibid., p. 55).
8. “Considero que, em nosso tempo, estejam
abertos grandes problemas de liberdade.
Duvido muito de que eles possam encontrar
respostas recortando-se espaços na socieda-
de civil e neles se barricando em contraposi-
ção ao Estado. Isso se tornou insuficiente, até
mesmo impossível, inclusive para um organis-
mo como o sindicato. Não creio que a socie-
dade civil seja, por si só a esfera da liberdade;
não creio que a autonomia e a criatividade da
sociedade civil possam hoje se desenvolver
sem se empenharem na transformação do
Estado” (Ingrao, ibid., p. 68).
9. “Veja, não quero agora me pôr a discutir
sobre a praticabilidade efetiva de um entendi-
mento desse tipo, sobre a possibilidade de
garantias reais nem mesmo sobre a correção
institucional de organismos tripartites desse
gênero. Todavia, não são questões de pouco
peso; e faço votos para que o debate e o apro-
fundamento delas siga em frente” (idem, ibid.,
p. 106).
10. “Na reorganização da relação escola-traba-
lho; numa gestão controlada da mobilidade
do trabalho; numa programação da renova-
ção tecnológica, que não reste fechada ape-
nas ao horizonte da fábrica; numa reavaliação
de todo uso e articulação do horário de traba-
lho; numa reforma do salário que supere cer-
tos institutos corporativos. (...) O raciocínio
que estávamos desenvolvendo buscava o de-
senvolvimento de uma racionalidade nem
apenas quantitativa e setorial, nem caída de
cima, de um centro único. (...) Falávamos de
uma programação democrática, como algo
mais do que um programa central que recebe
um consenso da base” (idem, ibid., p. 114).
Referências Bibliográficas
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ensaio sobre a afirmação e a negação do tra-
balho. São Paulo: Boitempo, 1999.
BIHR, A. Da grande noite à alternativa: o
movimento operário europeu em crise. São
Paulo: Boitempo, 1998.
GIDDENS, A. A terceira via. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.
HUSSON, M. Le grand bluff capitaliste. Pa-
ris: La Dispute, 2001.
INGRAO, P. Crise e terceira via. São Paulo:
Ciências Humanas, 1981.
MANDEL, E. Crítica do eurocomunismo. Lis-
boa: Antídoto, 1978.
SIK, O. Argumentos para uma terceira via.
Coimbra: Livraria Almeida, 1978.
* Ruy Braga é doutor em Ciência Sociais
pela Unicamp e professor de teoria socio-
lógica da PUC- Campinas. É autor de, entre
outros, A restauração do capital: um estu-
do sobre a crise contemporânea (SP:
Xamã, 1997) e A nostalgia do fordismo:
modernização e crise na teoria da socieda-
de salarial (SP: Xamã, 2003).
No entanto, não foi esta a opção
do novo governo, que passou a inves-
tir, por meio dos pronunciamentos na
imprensa e articulações institucionais,
na reforma da previdência. É verdade:
ainda não há projetos do governo so-
bre a previdência; nada de concreto
ainda se fez. Mas, não podemos es-
quecer que este debate é feito sob a
batuta da Emenda Constitucional nú-
mero 20 e dos PL 8, 9 e 10 (dois deles
já aprovados) que dão as bases institu-
cionais legais para a privatização da
previdência, no Brasil.
Os pronunciamentos dos vários
líderes do governo na imprensa tam-
bém pouco ajudam. Em geral, tratam a
previdência como um problema e não
130 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Eduardo Alves
“A doutrina materialista sobre a
alteração das circunstâncias e da edu-
cação esquece que as circunstâncias
são alteradas pelos homens e que o
próprio educador deve ser educado.
Ela deve, por isso, separar a sociedade
em duas partes – uma das quais é
colocada acima da sociedade.
A consciência da modificação das
circunstâncias com a atividade humana
ou alteração de si próprio só pode ser
apreendida e compreendida racional-
mente como práxis revolucionária”.
Karl Marx
Uma proposta para
a reforma da
Previdência
1. Situando o debate
Assim que o governo toma posse e escolhe seu primeiro ministério, já é anun-
ciada a prioridade das ditas reformas: a previdência. É claro que tal decisão é,
no mínimo, complicada. Primeiro que era esperado, por parte dos setores
populares organizados, que a reforma escolhida como mais importante e priori-
tária fosse a tributária. Isto por razões muito simples: é necessário taxar as gran-
des riquezas; iniciar um processo de divisão de renda na sociedade; acabar
com a sonegação; retirar apenas das costas dos assalariados a responsabilidade
com tributos; responsabilizar o empresariado pelo investimento e manutenção
do país. Ou seja, aproveitar da vitória da classe trabalhadora, nas últimas elei-
ções presidenciais, para apresentar uma pauta absolutamente distinta da que
vinha sendo imposta pelo neoliberalismo. Isto seria um “sinal importante” de
mudanças.
como um dos mais importantes direi-
tos conquistados pela classe trabalha-
dora. Parece, com o ritmo e tonalidade
de suas declarações, que os membros
do governo estão tocando a mesma
música e continuam com o mesmo
diapasão dos últimos dez anos. Espe-
ramos, com sinceridade, que esta rea-
lidade se altere o mais rápido possível.
É necessário dizer que a classe tra-
balhadora nunca foi – e não pode ser
– contra as reformas, principalmente
as feitas em governos populares; de
frente populares; democráticos popu-
lares; sociais democratas. As reformas
são instrumentos para fazer avançar a
consciência e qualidade de vida do
conjunto dos trabalhadores, reverten-
do, assim, o curso predominante do
capital, em cada período histórico.
Neste sentido, para falar de reformas
hoje, é necessário que se reverta as
tendências de privatização, precariza-
ção, esgotamento da natureza etc1
.
Não sendo revertidas as tendências
que estão em curso desde o último
período, se acabará aplicando uma
contra-reforma, ou seja, alterações ne-
cessárias que o próprio capitalismo
tem que fazer para desenvolver o
curso adequado, em cada momento.
Hoje, com o advento neoliberal, é
necessário reduzir direitos; reduzir in-
vestimento do Estado em políticas so-
ciais, em pessoal e na própria proprie-
dade estatal; comprometer os estados
nacionais com o repasse e fuga de
capitais por meio do pagamento da
dívida; reduzir, ao máximo, a soberania
nacional (ou mesmo acabar), permi-
tindo que o capital entre sem tarifas,
fronteiras ou satisfações nas nações
dominadas que sejam de interesse do
imperialismo. Quaisquer políticas que
venham reforçar estas tendências ser-
virão para implementar contra-refor-
mas e não para desenvolver reformas.
Certamente que a idéia geral de
reforma, neste sentido, é muito bem
vinda e exige a constituição de um
amplo debate com a população, por
meio dos setores organizados. Até que
uma proposta chegue no parlamento,
principalmente levando em conta a
correlação de forças ainda predomi-
nante no Congresso, faz-se necessário
envolver grandes massas na discussão
e aprofundar, ao máximo, os diversos
pontos de vista. Ação esta que, além
de politizadora, permitirá que se tenha
uma proposição com força hegemôni-
ca real e que seja impulsionadora, por
meio do esclarecimento e da participa-
ção, das mais amplas mobilizações.
Agindo desta forma, o governo estará
dando sinais de mudanças, indepen-
dente do tempo que leve para as coi-
sas serem realmente diferentes.
É necessário dizer, no entanto, que
os sinais dados até agora pelo governo
Lula, não são dos mais animadores,
muito pelo contrário. Mesmo esperan-
do que um Governo de Frente Popular,
já constituído por meio de uma alian-
ça com a burguesia, seja, conseqüen-
temente, montado pelos limites de
sua formação, algumas ações não pre-
cisariam existir. Primeiro, as nomea-
ções: no Banco Central, um coman-
dante de confiança do Bank of Boston
e do FMI, que ganha uma “aposenta-
doria milionária” – às custas do repas-
se das dívidas – e defende a autono-
mia do Banco Central (um dos fatores
fundamentais para continuar a aplica-
ção do modelo neoliberal no Brasil);
no Ministério do Desenvolvimento, um
empresário que é devedor do BNDES
e que aplicará sua prática acumulada
na SADIA; no Ministério da Agricultura,
um latifundiário que é contra a refor-
ma agrária e, por várias vezes, já mani-
festou sua intransigência radical ao
MST. Em segundo lugar, destaca-se o
aumento dos juros, exigência do mer-
cado (leia-se banqueiros; empresários
de oligopólios, multinacionais, trans-
nacionais; latifundiários; especulado-
res). Em terceiro, está a recente altera-
ção do superávit primário que passou
para 4,25%, representando cerca de
68 bilhões (o que indica que haverá
de ter mais cortes por parte do Es-
tado2
).
Devemos adicionar ainda as várias
declarações na imprensa, mesmo sa-
bendo que não se tratam de altera-
ções concretas na realidade e nem, ne-
cessariamente, daquilo que realmente
pretende ou pensa o governo (levando
em conta o compromisso da imprensa
com o capital).
No caso da previdência, tais decla-
rações acenam na continuidade de to-
das as mudanças iniciadas pelo gover-
no de FHC, por meio das alterações
legais/institucionais que ele iniciou.
Corre-se o risco, portanto, de não ha-
ver absolutamente nenhuma modifica-
ção na ordem vigente. Pior, há uma
tendência de se prolongar a contra-
reforma que foi aplicada durante todo
o governo passado. Ou seja, são modi-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 131UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
É necessário dizer, no entanto, que os sinais
dados até agora pelo governo Lula,
não são dos mais animadores, muito pelo contrário.
ficações na superestrutura para maio-
res ajustes ao próprio sistema do capi-
tal. Tanto a opção para iniciar as cha-
madas “reformas” quanto o conteúdo
– ainda em fase de divulgação e pro-
paganda – apontam para o prolonga-
mento da ordem. Isto significa dar con-
tinuidade ao curso neoliberal que foi
enfraquecido pelo conteúdo das elei-
ções.
Este debate ganha, neste sentido,
centralidade na conjuntura: ao mesmo
tempo em que os setores populares
(sindicalistas classistas, socialistas,
intelectuais críticos, “lutadores do po-
vo”) se colocam em uma situação de
defesa intransigente dos direitos con-
quistados, passam a ter o desafio de
serem impulsionadores de reformas e
não de mantenedores da ordem. Esta
não é uma equação simples, ao con-
trário, indica que tende haver uma
ampliação da já complexa luta de clas-
ses em curso.
Mas, o debate deve ser bem situa-
do. A reforma da previdência não é
apenas uma negociação coletiva cor-
porativa (sem qualquer demérito a
esta tarefa). Trata-se, necessariamente,
de um debate que atinge toda a socie-
dade, por meio do qual se pode cons-
truir sistemas ainda mais comprometi-
dos com o capital ou sistemas que
façam avançar os direitos e a consciên-
cia da classe. Isto porque a previdência
é um dos mais importantes direitos
conquistados dentro do capitalismo. É,
digamos, um pacto de vida, no qual
trabalhadores em pleno exercício de
sua força de trabalho ajudam, de for-
ma solidária, a sustentar os trabalha-
dores que hoje gozam do descanso.
Portanto, uma conquista fundamental
de prolongamento e melhoria da vida.
Neste sentido, a participação ativa
e organizada no debate e nas ações
sociais, políticas e de massas que exis-
tirão no percurso, é uma tarefa funda-
mental: deve ser pauta obrigatória das
entidades operárias e populares; deve
ser aberta a participação de milhões
de pessoas.
Sabemos bem que a previdência é
um direito para quem trabalha. Neste
sentido, não é um direito do “cidadão”,
mas, sim, da classe. Devemos ter clare-
za de sua importância e, por conse-
qüência, da importância do debate. E
mesmo sabendo que é um debate
que todos devam se envolver, tal
envolvimento não se dará pelo mes-
mo motivo. Enquanto os interesses do
capital – e dos representantes do mer-
cado – serão o da privatização da pre-
vidência, os interesses dos trabalhado-
res serão o da universalização da
mesma, permitindo que todos que
possuem apenas a força de trabalho
para vender tenham acesso a este
direito. A participação ativa é, portanto,
o meio de se constituir um modelo
ainda mais avançado do que o que
hoje existe no Brasil: uma previdência
pública, solidária e por repartição.
Mas, para isto, é de fundamental
importância ter clareza das diferenças
entre os problemas internos e exter-
nos à previdência. Muitos dos proble-
mas citados até agora como corrup-
ção, sonegação, desvio de dinheiro,
falta de controle do caixa previdenciá-
rio, altos salários etc., não são proble-
mas internos à previdência, são exter-
nos. São produtos da formação social
patrimonialista e autoritária, na qual a
burguesia, por dentro do Estado, o uti-
lizou para agencializar os seus negó-
cios. Tais problemas para serem resol-
vidos não demandam reformas e, sim,
atitudes do governo em: investigar e
punir os responsáveis. As tão divulga-
das “aposentadorias milionárias” são
facilmente resolvidas, cumprindo a de-
terminação do teto salarial determina-
do pelo salário do Presidente da Re-
pública. Que se cumpra então a lei,
tanto para aposentados como para ati-
vos acabando assim com os reais privi-
légios.
Somam-se, ainda, a estes proble-
mas, problemas que podemos chamar
de “em torno da previdência”. Aqui
destacamos os baixos salários; a pre-
carização dos direitos trabalhistas; o
orçamento da União; o desemprego;
pagamento da dívida; concentração de
renda; relação entre ativos e aposenta-
dos (e pensionistas) no serviço públi-
co; enfim, vários problemas que atin-
gem a previdência – também por fora
– mas que são produto – principal-
mente – do neoliberalismo. Não pode-
mos também confundir: tais proble-
mas não demandam reforma da previ-
dência e, sim, um conjunto de medi-
das e reformas em todas as esferas
que, com certeza, daria sobrevida e
fôlego ao sistema previdenciário.
Por fim, há os verdadeiros proble-
mas da previdência. Estes, sim, preci-
sam ser superados. Há descontinuida-
de de caixa, herança dos vários institu-
tos que foram se fundido até se chegar
no INSS; há uma cultura de não paga-
mento da “contribuição previdenciá-
ria”; há os fundos de pensão (previ-
dência complementar aberta e fecha-
da), já em andamento, previstos na
Emenda Constitucional 20; há um con-
junto de informações que não batem,
desajustadas, encobertas, que devem
132 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Muitos dos problemas citados até agora como corrupção,
sonegação, desvio de dinheiro, falta de controle
do caixa previdenciário, altos salários etc.,
não são problemas internos à previdência, são externos.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 133
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
se tornar transparentes para toda a
população; há modelos descontínuos
em estados, municípios etc. que de-
sorganizam e variam com a previdên-
cia; há o problema da inexistência de
um caixa de previdência no Regime
Próprio dos Servidores Federais e na
grande maioria dos municipais e esta-
duais; há o não recolhimento do esta-
do. Enfim, estes são os variados pro-
blemas que enfrentamos e que po-
dem ser corrigidos, mas nada que é
tão urgente assim, pois, se os proble-
mas que aqui chamamos de “exter-
nos” e “em torno” fossem resolvidos a
situação atual estaria equilibrada.
Mas, diga-se de passagem, dois
atos, especificamente sobre a previ-
dência, trariam bons sinais e, em nos-
sa opinião, estes, sim, devem ser con-
siderados urgentes: o questionamento
da lógica da Emenda Constitucional
20, buscando sua revogação e a retira-
da (ou arquivamento) imediata do PL
09 (que amarra o conjunto de medi-
das privatistas). O primeiro não é da
alçada do governo, apesar de ele, com
certeza, poder manifestar-se sobre o
assunto. O segundo, no entanto, está
ao seu alcance. Os projetos de leis
complementares são prerrogativas dos
governos e, portanto, o mesmo pode
apresentar ou retirar na hora que de-
sejar. Esta ação combinada com um
prazo maior para a discussão daria um
sinal positivo para o conjunto dos tra-
balhadores. Melhor ainda se forem
alteradas as prioridades e o debate so-
bre as reformas – como aparentava
em toda a campanha – iniciar pela re-
forma tributária, no lugar da previden-
ciária.
2. Os problemas em torno
da previdência
A previdência social no Brasil, co-
mo já dissemos, vive, mais precisa-
mente, o que podemos chamar de
“problemas em torno”, em vez de pro-
blemas próprios do sistema previden-
ciário. Vamos utilizar algumas informa-
ções quantitativas para explicitar nos-
sas críticas e elaborar algumas consi-
derações sobre o assunto. Trabalhare-
mos aqui com informações orçamen-
tárias e outras referentes ao Regime
Geral e ao Regime Próprio – privilegia-
remos o serviço público federal, pois
cada esfera governamental é respon-
sável por seus beneficiários da previ-
dência. Além disso, trabalharemos a
questão do distanciamento entre em-
prego formal e informal (no setor pri-
vado); a disparidade entre ativos e
aposentados (e pensionistas) no setor
público. Por fim, faremos menção à
enorme concentração de renda que
predomina no país – fato que deve ter,
imediatamente, um tratamento sério,
por meio de uma taxa superior às
grandes riquezas.
2.1. A questão orçamentária
O orçamento de 2003 é emblemá-
tico. Houve um crescimento nas des-
pesas, do orçamento de 2002 para o
orçamento de 2003 de R$
359.122.587.971,00, ou seja, 55,21%.
O orçamento que havia sido de R$
650.409.607.960,00, em 2002, chega,
em 2003, com o valor de R$
1.009.532.195.931,00. Tal diferencia-
ção, por sua vez, não encontra peso,
ao menos, proporcionalmente igual,
entre os dois orçamentos. O gasto
com pessoal e encargos sociais cres-
ceu 12,96%; o gasto com “serviços
públicos” (chamado de outras despe-
sas líquidas) cresceu 4,32%; enquan-
to isto, os investimentos sofreram um
decréscimo de -58,35% e os serviços
da dívida ampliaram em 101,09%. A
ampliação dos serviços da dívida, que
correspondeu a R$
339.809.090.035,00, se ficasse no pa-
tamar de 83% de crescimento, ou
seja, R$ 279.409.090.035,00, seria
possível cobrir o déficit anunciado
pelo Ministério da Previdência (60 bi-
lhões e 400 milhões de reais).
Não são apenas estas as demons-
trações de uma análise mais detida do
orçamento. A peça orçamentária prevê
um reajuste de 4% para os servidores
públicos federais, em 2003, mas com
dinheiro em caixa – segunda a infor-
mação – para um reajuste apenas de
2,5%. O restante dependeria de pro-
mover a sobretaxa dos aposentados e
pensionistas para poder arrecadar e
gastar. Ou seja, cria-se, mesmo no or-
çamento uma série de justificativas pa-
ra “repassar” os servidores para o mo-
delo Geral da Previdência (o que é ab-
solutamente diferente de constituir
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE134 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
uma única caixa previdenciária).
A primeira lição destas cifras é a
necessidade de rompimento de contra-
tos. Somos adeptos da suspensão do
pagamento da dívida, mas, como
podemos ver, mesmo a redução dos
percentuais representaria uma possibi-
lidade de crescimento, em todos os as-
pectos, tanto do ponto de vista do in-
vestimento social do Estado, quanto
dos direitos trabalhistas. O segundo en-
sinamento é que o orçamento é utiliza-
do para forçar medidas que atuem no
caminho da privatização e da precariza-
ção dos direitos adquiridos. Ou seja,
não se discute o “engessamento” dos
valores (reais ou irreais) destinados aos
encargos da dívida, mas busca-se res-
ponsabilizar o pagamento dos aposen-
tados e pensionistas pela capacidade
de reajuste do conjunto dos servidores.
Esta é mais uma armadilha que, neces-
sariamente, deve ser evitada.
2.2. Trabalhadores do setor
privado e do setor público:
precarização e distorções
Podemos ainda fazer uma compa-
ração do problema que existe no Ser-
viço Público Federal. Entre 1991 e
2001, houve um crescimento absurdo
da relação entre aposentados/pensio-
nistas e ativos, em todo o serviço pú-
blico. Em 1991, os trabalhadores apo-
sentados e pensionistas representa-
vam 33% dos servidores públicos fe-
derais. Este percentual, em 2001, pas-
sou para 52%. Ou seja, houve uma
queda de 67% de contribuintes para
48%. Além disso, houve um peso de
gastos que ampliaram 1,75 (vezes) em
relação ao que era antes.
Cabe registrar, no entanto, que
estes números que aqui divulgamos,
retirados do Boletim de Pessoal edita-
do pelo MPOG, em dezembro, são ab-
solutamente incompletos e parciais.
Estimamos hoje que há, entre os ditos
ativos, cerca de 40% de terceirizados,
contratos provisórios, convênios, con-
sultores etc. Isto significa que o núme-
ro de contribuintes para o Regime Pró-
prio passa a ser, na verdade, de 30% e
não de 48%, como os números pare-
cem apresentar. A queda é ainda mai-
or frente ao aumento dos gastos. Além
disso, esta situação cria problemas ain-
da maiores, tendo em vista que os tra-
balhadores precarizados não possuem
“costume” de contribuir com a previ-
dência, fazendo com que o problema
chegue também no Regime Geral (já
que estes trabalhadores, que não são
regidos pelo Regime Próprio, pagam
ao INSS – se pagarem).
É evidente que estes números pos-
suem gargalos em alguns setores no
serviço público. Os servidores ativos da
Administração Direta, das autarquias e
fundações, passaram de 67%, em
1991, para 43%, em 2001. Além de es-
ta distorção gerar um problema de
atendimento, já que neste período a
população cresceu 40%, cria também
uma redução da capacidade de sus-
tentação dos aposentados e pensionis-
tas. Problema que fica ainda maior se
levarmos em conta que, no Regime
Próprio de Previdência Social, não há a
contribuição do patronato (que sone-
ga o desconto) e há uma confusão de
caixa, pois, o arrecadado se junta com
os gastos gerais (mas este é um deba-
te próprio da previdência). Ainda com
o problema de caixa, com os dinheiros
desviados, corrompidos e desapareci-
dos pelo meio do caminho da história
previdenciária brasileira, a despropor-
ção tende a se ampliar. Se a proporção
ao menos se mantivesse, os tais “défi-
cits” anunciados seriam cerca de 39%
dos pretensos números atuais (divul-
gados pelo novo Ministério da Previ-
dência).
No Regime Geral da Previdência,
tal problema não é muito diferente. No
ano de 1990, os trabalhadores com
carteira assinada correspondiam a
57,7% dos ocupados e, em 2002, vão
representar apenas 45,5%. Houve
uma queda de 13,7% da representa-
ção dos que realmente contribuem
com a previdência, visto que o sistema
atual não é universal, ou seja, não con-
segue atingir o conjunto dos trabalha-
dores. Observa-se que há um cresci-
mento dos trabalhadores sem carteira
assinada que passam, nesta época, de
19,3% para 27,8% e aqueles que tra-
balham por contra própria passaram
de 18,5% para 22,6%. São números
assustadores, motivados pelos mes-
mos contratos com FMI que amplia-
ram os valores da dívida. Acrescentam-
se a esse quadro os cerca de 20% de
desempregados – segundo os cálculos
aproximados do Ministério do Traba-
lho – existentes no país.
Voltamos a dizer: a cultura de direi-
to imediato leva os trabalhadores pre-
carizados a não contribuírem para a
previdência. Os direitos da previdência
necessitam uma visão de longo tempo
(algo em torno de 30 anos para frente
e para trás) e uma visão de conjunto
(pois o modelo coletivo, que pretende-
mos solidário) supera a idéia de direi-
to individual. Isto exige uma ampla
campanha, fazendo com que se atinja
a consciência do conjunto dos traba-
lhadores e de seus dependentes. A
estimativa é que para cada trabalhador
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 135
aposentado, há cerca de 2,5 pessoas
que dependem indiretamente deste
direito. Isso atinge, portanto, muito
mais pessoas do que o número exato
de pessoas que recebem pensões e
aposentadorias nos dois regimes.
2.3. Sonegação, corrupção e
concentração de renda
Cabe registrar ainda as sonegações
dos empregadores, a corrupção exis-
tente no caixa do INSS e a alta concen-
tração de renda, concentração esta
que aparece também no INSS, afinal,
65% dos beneficiados com a previ-
dência, no Regime Geral, recebem até
um salário mínimo. Ou seja, isto repre-
senta cerca de 35% do dinheiro da
previdência, os outros 65% arrecada-
dos (somados ao tal “déficit”, é claro)
vão para 35% dos beneficiários do re-
gime.
Isto ainda tem impacto de outros
valores. Fala-se hoje de um valor apro-
ximado de 150 bilhões de reais de dí-
vida ativa, apenas de sonegação. Isto
significa mais que o dobro do divulga-
do “déficit”. Ao ser verdade, o déficit
não existe e, sim, uma total incapaci-
dade do governo de fazer valer os
compromissos com o patronato de,
um lado; e de uma hiper disposição de
romper contratos com os trabalhado-
res aposentados e pensionistas. Isto
não é um problema da previdência,
mas do próprio governo. Além disso,
um problema de tributação – que uma
reforma tributária ajudaria muito em
resolver.
Nos últimos dias, foram divulgados
casos de corrupção na previdência, no
Rio de Janeiro. Todos sabem da exis-
tência de corrupções e que a cada
nova investigação se encontram novos
corruptos e novos valores de “dividas
ativas”. Às vezes, a identificação destes
problemas ocorrem, inclusive, por
acaso. Não por meio de uma investiga-
ção decente, mas, sim, por cruzamen-
to de várias informações bancárias, do
Imposto de Renda etc. Novamente,
voltamos a dizer, que o governo deve
reforçar o papel do Ministério Público
e ampliar as investigações. Além disso,
cobrar os que devem. Somente estas
atitudes, sem precisar de qualquer re-
forma no setor.
No entanto, o problema mais sério
seria o de fazer qualquer ligação entre
o crescimento da expectativa de vida
dos brasileiros e o problema da previ-
dência, para justificar, de forma cínica,
sua desregulamentação. Os levanta-
mentos que constam no “Diagnóstico
dos Sistema Previdenciário”, publicado
pelo atual Ministério da Previdência
aponta um crescimento populacional
de 15,6%. Deste valor total, as pessoas
entre 0 e 59 anos aumentaram 22%,
enquanto que as pessoas com 60
anos ou mais ampliaram 35,6%. Há
também uma nítida queda da natali-
dade apresentada por números gerais
que passou de 50.988.432, em 1991,
para 50.266.122, em 2000. Esta varia-
ção não pode e não deve ser tratada
como um entrave, ao contrário. Manter
uma eqüalização entre a natalidade e
número de idosos é um desafio para
qualquer nação ou governo, mas, o
fundamental, nesta seara, será sempre
a capacidade de ampliar a expectativa
de vida da população. A previdência
ocupa papel central para o alcance
deste desafio e é necessário, para isto,
recuperar o conceito de seguridade so-
cial, unificando a previdência com a
saúde e assistência.
No caso da concentração de renda,
as informações disponíveis são assus-
tadoras3
. Em 1998, os empregadores
somados aos grandes gerentes e ad-
ministradores do capital detinham
33,8% do total da renda nacional e
representavam 13,2% da população.
Já o conjunto dos trabalhadores (car-
teira assinada, informais, autônomos,
etc) que representavam 72,2% da
população economicamente ativa,
possuem 47,9% da renda nacional. Es-
ta distorção amplia quando pensamos
que 54% dos desempregados pos-
suem até 24 anos. Não há como negar
que o desemprego somado à concen-
tração pesa sobre a previdência, pois,
o aposentado acaba tendo que sus-
tentar um número cada vez maior de
pessoas, principalmente jovens que
não encontram espaço no mercado de
trabalho. Levando em consideração
que estes são os números de 1998, o
que dizer da situação nos anos de
maior aperto e desenrolar da crise:
1999, 2000, 2001 e 2002?
Como podemos ver, muitos dos
problemas divulgados como da previ-
dência são, na verdade, problemas do
país. Uma situação que nos persegue
na história, fazendo com que sejamos
sempre o “país do futuro”. Situação in-
felizmente aprofundada com a aplica-
ção do neoliberalismo - expressão atu-
al do capitalismo – que marcou toda a
década de 90 e ainda não teve seu
curso definitivamente interrompido.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Como podemos ver, muitos
dos problemas divulgados
como da previdência são, na
verdade, problemas do país.
Uma situação que nos
persegue na história, fazendo
com que sejamos sempre o
“país do futuro”
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE136 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
3. Discutindo a previdência:
uma alternativa pública,
solidária e por repartição
3.1. Um balanço necessário
Há dois fatores centrais que levam
os neoliberais a investirem na privati-
zação da previdência, em todo o mun-
do. O primeiro é que o “negócio previ-
dência” está hoje computado entre os
cinco mais lucrativos do planeta. O se-
gundo é que o desvencilhamento da
previdência por parte do Estado repre-
sentará menos investimento em servi-
ço público, maior possibilidade para os
ajustes fiscais e, como conseqüência, o
crescimento do chamado superávit pri-
mário. Justamente por isto, o governo
de FHC não vacilou e preparou o terre-
no para que todas as alterações fos-
sem feitas. Destaca-se, neste sentido, a
aprovação da Emenda Constitucional
20, de 1998, que alterou tempo de ser-
viço por tempo de contribuição e criou
condições para duas mudanças centrais
na linha do Consenso de Washington: a
ampliação das carteiras privadas de pre-
vidência e o fim da previdência especí-
fica dos servidores públicos.
Com formatos distintos, a desregu-
lamentação do direito previdenciário
chegou tanto aos países que viveram
as “benesses” do Estado de Bem-Estar
Social quanto aos que não consegui-
ram ultrapassar os modelos “desenvol-
vimentistas”. A França se mobilizou
contra as mudanças, a Inglaterra so-
freu variadas alterações e, podemos di-
zer, que a máxima foi implantada no
Chile. O modelo destruidor e já falido
do Chile, imposto pelo governo militar,
privatizou completamente a previdên-
cia e obrigou o Estado a assumir o
ônus do rompimento de contrato dos
bancos privados de previdência. Na Ar-
gentina, a reforma neoliberal de 1994
foi uma das principais causas do colap-
so econômico e social pelo qual passa
hoje o país. Portanto, devemos enfren-
tar esse debate no Brasil, tendo clare-
za dos rumos hegemônicos que a
questão tomou diante do mundo. Mas
não é hora apenas de resistir: temos
esperança de estarmos vivendo um
tempo de avanços.
Há distorções e problemas na pre-
vidência brasileira, como há em toda a
esfera pública estatal que viveu os lon-
gos anos de patrimonialismo estatal e,
a partir da década de 90, conheceu
uma espécie de patrimonialismo priva-
do que veio se consolidando pelas pri-
vatizações e por meio das terceiriza-
ções progressivas. Estas, sim, são as
distorções que devem ser resolvidas.
Logo, a previdência merece, sim, uma
grande REFORMA, assim como todos
os setores: tributário, judiciário, admi-
nistração pública, educação, saúde,
etc. Porém, uma reforma para ampliar
os direitos, retomar a capacidade de
investimento e ação do Estado, supe-
rar os problemas estruturais do Brasil e
acumular no caminho da superação
metabólica do capital. Quaisquer
outras mudanças seriam para prolon-
gar o capitalismo que, nesta época de
crise profunda, prolongada e estrutu-
ral, significará a aproximação contínua
à barbárie. Sem dúvida, é hora de con-
quistar novos direitos. Inclusive, se fôs-
semos eleger, por ordem de priorida-
de, as reformas necessárias, diríamos,
sem hesitar, que a mais importante se-
ria a TRIBUTÁRIA. É necessário acabar
com as sonegações; retirar o bolsão de
impostos que pesa sobre o setor mé-
dio; taxar as grandes riquezas; ampliar
o crescimento com desconcentração
de renda. Esta, sim, faria crescer o nível
de emprego, melhorar as condições de
vida e aumentar a circulação de mer-
cadoria (como desejam os defensores
do mercado de massas).
Contudo, não é isto que vem sen-
do apontado. Ao eleger a reforma da
previdência como prioritária e divulgar
as mudanças futuras com o mesmo
conteúdo do governo passado, o go-
verno de Lula indica a possibilidade de
dar continuidade à longa estrada de
retirada de direitos. O pior é que de-
monstram ou um total desconheci-
mento sobre os problemas ou mesmo
uma total adesão à idéia de solucionar
os problemas por meio da extinção de
direitos (como é feito com as privatiza-
ções). Para isto, o diagnóstico dos pro-
blemas existentes na previdência são
fundamentais.
No geral, os problemas internos
que existem na previdência são: cor-
rupção; desvios de verbas; patrimonia-
lismo e concentração (cerca de 66%
de aposentados utilizam aproximada-
mente 30% do fundo). Há, no entanto,
problemas específicos e externos que
atingem qualquer sistema público de
previdência, dentre os quais se desta-
cam o desemprego e a concentração
de renda. As grandes taxas de desem-
pregados impedem a continuidade de
um ciclo vigoroso de solidariedade, no
qual ativos de hoje possam a sustentar
os ativos de ontem. Já a concentração
de renda torna a previdência um negó-
cio atraente e inibe a possibilidade de
aposentadorias justas. Do ponto de
vista específico, podemos dizer que os
servidores públicos vivem o problema
de um caixa que, ao misturar as ver-
bas, permitiu que o dinheiro se disper-
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
sasse em todo tipo de investimento e
se criasse uma realidade na qual os
cerca de 65% de aposentados não
podem ser mantidos pelos ativos exis-
tentes (principalmente porque o di-
nheiro arrecadado historicamente se
perdeu).
O diagnóstico é, sim, uma peça
fundamental para que possamos de-
senvolver políticas de alteração favorá-
veis aos trabalhadores. Ou seja, com
este diagnóstico, saídas como as que
estão sendo apontadas tornam-se
absurdas. Para resolver o problema da
previdência, é necessário um controle
maior do Estado e da sociedade orga-
nizada sobre o caixa, a arrecadação, a
administração das verbas e de todo
sistema previdenciário. Além disso, é
necessário vencer o desemprego, tan-
to no setor público quanto no privado,
permitindo uma inversão das condi-
ções. Medidas enérgicas para descon-
centrar renda, ou seja, para taxar rique-
zas, seriam também fundamentais. Aí,
sim, com tais mudanças e com a ga-
rantia de uma previdência pública, uni-
versal, solidária e por repartição, pode-
ríamos falar em Reforma. Por enquan-
to, infelizmente, o governo atual não
conseguiu sair do campo das “contra-
reformas”.
A previdência no Brasil se divide
em três regimes gerais: RGPS – Regi-
me Geral de Previdência Social; RPPS
– Regime Próprio de Previdência So-
cial e o Regime Complementar (priva-
do). Os trabalhadores regidos pela CLT,
contratos provisórios ou terceirizados
(ou qualquer outro tipo de precariza-
ção) contribuem compulsoriamente
(se possuem carteira assinada) ou vo-
luntariamente (se não possuem cartei-
ra assinada). No primeiro caso, a con-
tribuição, para o INSS, oscila entre
7,5% até 11% (aplicado aos trabalha-
dores individuais) sobre um valor
aproximado de 7,5 salários mínimos –
R$ 1.561,56 (independente do salário
do contribuinte), valor máximo que,
em contra partida, podem receber do
INSS quando aposentados. No caso
das empregadas domésticas, a contri-
buição das trabalhadoras é de 7,65%,
e no caso dos trabalhadores por conta
própria (ou que decidem contribuir in-
dividualmente), mas não possuem a
contribuição do empregador, o valor é
de 20%. Se quiserem algo a mais, pre-
cisam constituir um título de previdên-
cia privada. Além disso, estes trabalha-
dores, quando não contribuem com o
carnê e, sim, por descontos diretos no
contrato de trabalho, contam com a
contribuição dos patrões. Sobre o
tempo de contribuição (A MP 20, de
98, transformou tempo de serviço em
tempo de contribuição), os celetistas –
ou quem paga o carnê – devem contri-
buir, para aposentadoria integral, du-
rante 30 anos, no caso das mulheres, e
durante 35 anos, no caso dos homens.
Já os servidores públicos, lotados
no Regime Próprio de Previdência
Social, possuem características absolu-
tamente distintas: contribuem com ba-
se no valor total dos salários; não con-
tam com a contribuição patronal do
Estado (que sonega) e não possuem
caixa diferenciado, fazendo com que a
contribuição da previdência se perca
no conjunto de arrecadação do estado
e siga para os diversos gastos do orça-
mento. As diferenças internas dos ser-
vidores são: as que separam militares,
que contribuem com 7,5% do total,
dos civis, que contribuem com 11% do
total; o tempo de contribuição (poli-
ciais e militares contribuem com 30
anos, os civis contribuem com o
mesmo tempo que os da iniciativa pri-
vada). No geral, a aposentadoria re-
quer, no mínimo, a idade de 55 anos
para as mulheres e 60 anos para os
homens.
Cabe ressaltar, no entanto, dois
elementos importantes que são trans-
versais na discussão da previdência. O
primeiro diz respeito aos militares que,
após a Emenda Constitucional 18, não
são considerados mais servidores. Esse
foi mais um golpe do conjunto de des-
regulamentações aplicado pelo gover-
no de FHC. A separação dos militares
do civil se deu para justificar reajustes
dados aos militantes, sem necessidade
de incorporação aos ativos. O tiro, no
entanto, agora sai pela culatra, visto
que a situação dos militares não pode
ser considerada como dos servidores
públicos, por mais proximidade ou di-
ferença que tenham uns em relação
aos outros.
O segundo diz respeito à tradição
estatutária dos servidores públicos4
.
Isto cria duas variações que se modifi-
cam após a constituição de 1988 e a
aprovação do antigo RJU, hoje apenas
Lei 8.112. Primeiro, o Estado sempre
sustentou a aposentadoria dos servi-
dores públicos federais. Inclusive isto é
muito mais coerente, levando em
conta que a legislação dos servidores
não os trata como trabalhadores; não
os trata como contratados, mas, sim,
como empossados ou “adesistas”. In-
clusive, este fator possibilita, juridica-
mente, a explicação da inexistência de
acordos coletivos etc. É necessário al-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 137
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Só tem direito hoje à previdência quem paga e comprova que
pagou. Todo a contribuição patronal e dos trabalhadores, ao
longo da história, aparecem, hoje, como “déficit previdenciário.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
terar esta realidade. Servidores são tra-
balhadores, pagos pelo Estado, e qual-
quer diferenciação que possa haver
por conta da relação de trabalho ou da
execução (responsabilidade) do ofício
não pode desconfigurar a situação real
de trabalhador (daquele que vende
sua força de trabalho e sobrevive ape-
nas desta venda). Mas, antes do RJU,
os servidores viveram uma dupla reali-
dade que misturava estatutários com
celetistas. Durante muito tempo, mui-
tos dos servidores regidos pela Lei
8.112 contribuíram para os vários insti-
tutos que existiram na história da pre-
vidência. Esta contribuição não veio
para o Estado com as alterações de
Regime e, também, se viessem, de
nada adiantaria, pois, cairiam no “caixa
misto” existente.
As alterações de 1998 transforma-
ram tempo de serviço em tempo de
contribuição: só tem direito hoje à pre-
vidência quem paga e comprova que
pagou. Todo a contribuição patronal e
dos trabalhadores, ao longo da histó-
ria, aparecem, hoje, como “déficit pre-
videnciário”. Rejeitamos esta posição.
É necessário que o governo Lula abra
os caixas da previdência, mostre para
onde foi o dinheiro, divulgue que há
um “superávit passivo” nas contas pre-
videnciárias. Diante da ampliação pro-
gressiva das distorções ocorridas no
Brasil, não se pode, neste momento,
utilizar o mesmo discurso que sempre
combatemos na luta de classes brasi-
leira.
O Regime Próprio de Previdência
Social vive também seus problemas
específicos: a constituição de uma úni-
ca caixa, que torna NULA a contribui-
ção dos trabalhadores e a transforma
em simples desconto patronal (do Es-
tado – que, por sua vez, não contribui)
e o absoluto desajuste entre servidores
aposentados e pensionistas, de um la-
do (65%), e servidores em ativa, de
outro (30%). Não é possível manter a
aposentadoria hoje porque: o dinheiro
arrecadado dos servidores ativos (con-
tribuição sobre o valor total dos salá-
rios) se perdeu com o tempo: foi utili-
zado junto com o conjunto das verbas
para as despesas orçamentárias. Du-
rante os oito anos de governo de FHC,
houve um crescimento absurdo do nú-
mero de aposentados e pensionistas
em relação ao número de ativos. Por-
tanto, esta distorção na relação da
situação funcional implicou a impossi-
bilidade de sustentação dos aposenta-
dos atuais. Fato que ocorreu porque
não há acumulação dos descontos.
É claro, no entanto, que os proble-
mas gerais também se aprofundaram.
Em todos os casos, há desvio das “con-
tribuições previdenciárias”, um aumen-
to crônico do desemprego e um pro-
cesso progressivo de precarização do
trabalho, o que coloca milhões de tra-
balhadores fora dos regimes, impossi-
bilitando a sustentação dos aposenta-
dos. Os baixos salários, a ausência de
reajuste e o crescimento de parcelas
indiretas de salários ou mesmo de
“não salários” (vales, gratificações,
banco de horas etc.) fazem ampliar os
problemas, as distorções e as impossi-
bilidades de sustentação das condi-
ções atuais.
Por isto, não concordamos que
exista déficit previdenciário. O que
existe é “apropriação indébita” do di-
nheiro dos trabalhadores por parte do
Estado. Ou seja, há um superávit pas-
sivo que deve ser resgatado. O Estado
deve prestar conta, mostrar para onde
foi o dinheiro, abrir as “caixas nebulo-
sas” da previdência. Não pode sobre-
taxar os trabalhadores, responsabili-
zando quem não administrou o setor
corrompido pelo desaparecimento das
contribuições.
O que ocorre é que a direção majo-
ritária da CUT e do PT assim como o
Mercado (bancos privados de olho na
previdência) restringem-se em discutir
os limites salariais para a previdência
pública e, como tudo indica, já fizeram
um pacto para aprovação e regula-
mentação de um modelo privado,
dando seqüência à Emenda Constitu-
cional 20. Hoje, o teto para a contribui-
ção é de 7,5 SM. Quem recebe mais
que isso já necessita fazer uma “conta
privada de previdência”. Portanto, para
os trabalhadores que contribuem para
o INSS, a previdência já é limitada. A
disputa que divide PT, CUT e mercado
é o teto de contribuição: o mercado
defende 3 SM; a CUT defende 20 SM e
o PT defende 10 SM. Tudo indica que
os 7,5 serão mantidos, se o debate se
concentrar nesta opção equivocada de
debater tetos.
Mas, alertamos, discutir o teto é
uma das grandes armadilhas deste de-
bate. Se o teto for 10, 20, 30 ou mais
salários mínimos, a diferença será ape-
nas o tempo. De imediato, haverá uma
aparência de atendimento, pois, gran-
de parte da população que trabalha,
estará dentro do teto. No entanto, com
a corrosão salarial e com a tendência
de espremer, ao máximo, o setor pú-
blico e os direitos, para ampliar o lucro
dos banqueiros, esta realidade tende a
mudar. Não se pode, neste momento,
que temos a possibilidade de criar si-
tuações favoráveis, ceder para os inte-
resses do FMI. É hora de fazer justa-
mente o contrário, ampliar as condições
de crescimento de direito e a segurança
138 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
O que existe é “apropriação
indébita” do dinheiro
dos trabalhadores por parte do
Estado. Ou seja,
há um superávit passivo que
deve ser resgatado.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 139
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
dos que trabalham. Além do mais, todo
o argumento sobre os milionários salá-
rios da previdência são pirotécnicos,
pois isto não será resolvido com teto e,
sim, com o fim da corrupção, com os
favorecimentos dos amigos da burgue-
sia (e de seus correlatos), ou seja, fa-
zendo valer a legislação que já existe
(sem demandar quaisquer alterações
institucionais, legais).
De outro lado, atacam os servido-
res públicos e resolvem acabar com a
previdência diferenciada. Mas, para to-
dos estes atores, acabar com a RPPS
significa apenas colocar todos os servi-
dores, novos ou antigos (que há muito
já são descontados 11% sobre o valor
total dos salários), no RGPS. Não se
pode assimilar a lógica do “direito
constituído”, pois o que está em jogo é
uma reforma, ou seja, constituições de
direitos para um prazo razoavelmente
prolongado. Isto exige que se pense
para além dos servidores atuais, mas,
sim, sobre o conjunto do serviço públi-
co (os que estão e os que entrarão).
Não se pode, com a lógica de que o
que for resolvido valer apenas para o
futuro, fazer um pacto de desconstitui-
ção de direitos para os que entrarem
no serviço público não gozarem de
uma previdência minimamente digna.
Tão equivocado seria comparar os di-
reitos dos trabalhadores da iniciativa
privada com os dos servidores. Não há
compensação de direitos. Seja como
for, haverá diferenciações, no conjunto
dos direitos – mesmo que não exista
especificamente na previdência – e as
diferenças não podem ser consideradas
privilégios nem para uns nem para ou-
tros. O que se precisa hoje é da mais
profunda unidade de todos os setores
que vivem do trabalho para garantir e
avançar nos direitos conquistados.
Isto não é mudança e muito menos
reforma: é desregulamentação de di-
reitos. Além disso, passa-se a mão na
cabeça dos militares, colocando-os de
fora do conjunto das mudanças que
pretende o atual governo. Mudanças
que, diga-se de passagem, estão na
pauta das exigências do FMI, da espe-
culação, do sistema financeiro. Che-
gam a confundir as condições de pre-
vidência de militares e servidores: ou
não conhecem ou não divulgam a ver-
dade. Diante disso, não temos dúvidas,
é necessário garantir o mais amplo de-
bate na sociedade, com participação
real dos setores organizados sobre o
futuro da previdência no Brasil. E isto
deve ser feito antes do envio do proje-
to para o parlamento, pois, com tal ati-
tude, querendo ou não, o governo
constituirá um fato consumado sobre
o tema. Infelizmente, ao que tudo indi-
ca, tal fato consumado seguirá os ca-
minhos da onda neoliberal.
Mas não podemos deixar de dizer
que, para dar andamento às principais
e mais imediatas tarefas a fim de resol-
ver os problemas do sistema previden-
ciário no Brasil, não se precisa refor-
mar a previdência, visto que o principal
problema é a corrupção e a apropria-
ção indébita do Estado das contribui-
ções dos trabalhadores. Passar um
pente fino, administrar com seriedade,
erradicar a corrupção, moralizar o setor
são tarefas centrais que não exigem
reforma, mas, sim, ação e vontade po-
lítica.
Finalmente, não podemos aceitar
que distorções absurdas sejam criadas.
O desconto dos aposentados no Ser-
viço Público é uma ação autoritária,
descabida e inaceitável. É necessário,
para que o governo reafirme sua voca-
ção por mudanças e sua tradição de-
mocrática e popular, avançando na
construção de uma ampla reforma,
que construa uma real melhoria das
condições de vida da classe trabalha-
dora, no Brasil.
3.2. Uma proposta para o setor
Nós defendemos a universalização
da previdência com base em uma pro-
funda reforma que garanta um Regime
único, público, solidário, por reparti-
ção. Ou seja: é necessário a criação de
um sistema no qual os ativos da atua-
lidade sustentem os aposentados e
pensionistas. Para tanto, será necessá-
rio crescer, ampliar, criar novos postos
de trabalho e garantir mais vagas,
tanto no serviço público como na ini-
ciativa privada. A previdência universal
necessita garantir, para todos os que
trabalham, o direito à sobrevivência
quando aposentados. Isto exige, ne-
cessariamente, resgatar o conceito de
seguridade social (progressivamente
quebrado em nossa história). Somente
garantindo um modelo que, ao mes-
mo tempo, possa investir na assistên-
cia, na saúde e na previdência serão
dados passos importantes. Esta é a pri-
meira e mais importante medida: res-
gatar o conceito de seguridade social
pública. Para tanto, não se deve pensar
em equilíbrio fiscal, pois esta armadi-
lha neoliberal levará, necessariamente,
a criação de setores privados ou de
uma privatização generalizada como
foi feita no Chile ou na Argentina. Um
modelo destruidor que, no final das
contas, o Estado tem que assegurar
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE140 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
(após dar muitos lucros aos banquei-
ros, é claro).
A universalização é o segundo pas-
so que deve constar em um próximo
sistema. Universalizar a Seguridade
Social significa que todos os trabalha-
dores devem ter acesso à previdência,
a saúde e assistência. Trabalhadores
do campo, da cidade, servidores, autô-
nomos, informais, enfim, não pode
haver limitações para os setores e as
pessoas que vivem do trabalho. Uma
grande campanha de conscientização
e de inserção do conjunto dos traba-
lhadores deve ser desenvolvida urgen-
temente pelo Estado, por meio do no-
vo governo.
Far-se-á necessário ainda garantir a
constituição de uma caixa própria de
previdência, administrada pelo gover-
no, por meio de propriedade estatal,
com controle público dos setores orga-
nizados. Nesse caso, as contribuições
deverão ser feitas pelo critério de im-
posto progressivo, separado por faixas
salariais, tanto para os trabalhadores
quanto para os patrões (Estado e em-
presários), sobre o valor total dos salá-
rios, garantindo para todos os aposen-
tados e pensionistas o direito de rece-
ber o valor salarial que ganhavam na
época de sua aposentadoria. As mu-
danças exigidas, neste caso, são: man-
ter os 11% como percentual máximo
de contribuição e garantir que a contri-
buição patronal seja duas vezes supe-
rior à contribuição dos trabalhadores;
garantir que todos os trabalhadores,
inclusive os que trabalham por conta
própria ou de qualquer outro modelo,
que exija contribuição voluntária, pa-
guem 11% dos rendimentos declara-
dos; desfazer os fundos de pensão,
abertos ou fechados, que existem hoje
e possuem qualquer relação com o Es-
tado; por fim, assegurar que todos os
trabalhadores recebam a integralidade
dos seus salários na ativa.
Não temos dúvidas que, para fazer
uma verdadeira reforma da previdên-
cia, seja necessário rever ou revogar as
Leis complementares e a Emenda
Constitucional número 20, pois, do
contrário, prevalecerá à lógica da priva-
tização. Assim como, sugerimos que o
governo, imediatamente, retire o PL 09,
demonstrando que vai trocar os tons e
sons da música passada por uma
melodia comprometida com o funda-
mental direito da humanidade que é a
Seguridade Social e a previdência.
Notas
1. Questões fundamentais para manter
e prolongar a crise do capital. O capital vive
a sua mais profunda e estrutural crise, não é
apenas uma crise cíclica e, sim, prolongada.
Os remédios apresentados até agora, pelos
próprios capitalistas, não conseguiram re-
verter este fato. Para administrar esta situa-
ção, o neoliberalismo vem esgotando ao
máximo as forças produtivas, inclusive lan-
çando mão da ação desesperada da guerra.
Se não houver uma alternativa concreta a
isso, que do nosso ponto de vista só pode ser
o socialismo, há risco de a humanidade co-
nhecer a barbárie.
2. O Estado não tem mais de onde cor-
tar. É necessário ficar atento, pois, se o dis-
curso de Palocci for verdadeiro, quando afir-
ma que haverá cortes nos investimentos que
não serão em políticas sociais, é porque tais
cortes tendem a ser na propriedade estatal
e nos salários (ou quantidade) de servido-
res. Isso pode indicar a incorporação das
mesmas idéias que inspiraram as organiza-
ções sociais e as OSCIPS.
3 . Informações do IBGE sistematizadas
pelo professor Waldir Quadros da UNICAMP
e publicadas na Folha de São Paulo do dia 7
de outubro de 2001.
4 . Até o início dos anos 70 os servidores
não contribuíam, pois, eram regidos pela Lei
1711/52, portanto, o Estado sustentava a
aposentadoria dos servidores. Após isso, se
passa a ter servidores contratados pela CLT
e inicia uma dupla vida. Somente em 1990,
com o Regime Jurídico Único, começa a ha-
ver o desconto que servia mais como econo-
mia do Estado do que como contribuição, já
que nunca houve uma caixa própria para
gerir estes recursos.
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Previdência: o que já mudou. São Paulo: LTr,
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o ser e o não ser da consciência. São Paulo:
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10. MÉSZÁROS, István. O Século XXI: so-
cialismo ou barbárie? São Paulo: Boitempo,
2003
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rio Brasileiro. Brasília: MPS; SPS, 2003
12. Direção da CUT Nacional; TODESCHI-
NI, Remígio e outros. Proposta da CUT para
Previdência Social Pública. São Paulo: CUT,
2002
13. BENJAMIN, César. Reforma ou Con-
tra-reforma? Revista Caros Amigos: fevereiro,
2003.
14. ALVES, Eduardo. Boletim “Bandeira
Vermelha” (número 6 e 7 – www.insro-
lux.org). Rio de Janeiro: INSROLUX, janeiro e
fevereiro, 2003.
*Esta é uma proposta elaborada por Edu-
ardo Alves que é Assessor da CONDSEF
(Confederação dos Trabalhadores no Ser-
viço Público Federal), Cientista Social e edi-
tor do Bandeira Vermelha (www.insro-
lux.org). Contatos: edu.cond@uol.com.br
ou insrolux@insrolux.org.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 141
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Se a chegada ao governo pela via
eleitoral, mediante uma estratégia
política pautada pela adoção da linha
de menor resistência, por alianças e
compromissos com as classes domi-
nantes, pela formação de uma ampla
coalizão governamental de centro-
esquerda e pela aposta na negociação
de um pacto social, não podendo ser
confundida com a tomada
do poder, não é, por si só,
suficiente para produzir as
condições políticas, sociais
e culturais indispensáveis ao processo
de construção de uma sociedade livre,
soberana e radicalmente democrática,
quais os caminhos para que os objeti-
vos históricos do PT e a esperança de
transformação social que o levou à
consagração nas urnas possam mate-
rializar-se a médio e longo prazo, para
além dos constrangimentos impostos
O governo Lula e o desafio histórico
da construção de um projeto
democrático e popular de sociedade
Rodrigo de Souza Dantas
O sentido da mobilização social no governo Lula
O que propriamente acontece quando o principal território de acumulação capitalista
neocolonial, no hemisfério ocidental, após mais de uma década sob hegemonia neoliberal,
pela primeira vez elege para Presidente da República um ex-operário e sindicalista, egresso
de movimentos sociais constituídos na perspectiva da reconstrução democrática e orgânica
de uma alternativa socialista, idealizador, fundador e líder do Partido dos Trabalhadores,
hoje, reconhecidamente o maior partido de esquerda do mundo ?
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE142 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
pela situação herdada, pelos novos
modos de produção e reprodução glo-
bal do poder e pela maneira como tudo
isso veio a configurar pragmaticamente
a estratégia adotada pelo PT para ven-
cer as eleições e governar o país ?
Em outras palavras: que caminhos
podem nos levar para além das deter-
minações da agenda de curto prazo e
de seus constrangimentos estruturais e
conjunturais , de modo que o governo
Lula não se limite à administração da
crise capitalista e à contenção política
dos movimentos sociais pela adoção
paliativa de políticas compensatórias ?
Para além das mistificações midiá-
ticas e seus agendamentos conceituais
enviesados, das opiniões de seus por-
ta-vozes e intelectuais e da hegemonia
que elas têm exercido sobre a opinião
pública, o tempo político do processo
eleitoral, da transição governamental e
da composição do novo governo, a
prevalência de um tom carismático e
emocional e o caráter incipiente do
processo têm contribuído para que a
discussão sobre o governo Lula ainda
não tenha amadurecido, na abrangên-
cia e profundidade necessárias. Tudo
parece estar obnubilado pela ambigüi-
dade entre as diretrizes políticas funda-
mentais do governo Lula, no médio e
longo prazo, e a cautela imposta no
curto prazo pela necessidade de gerir
um país avassalado pela acumulação
financeira predatória, dependente dos
fluxos de capital e dos humores do
mercado financeiro, preso à ciranda da
especulação e com mais da metade de
seu orçamento comprometido com os
juros da dívida, no momento em que a
desvalorização generalizada dos ativos
financeiros e a retração do fluxo de in-
vestimentos globais sinalizam uma
crise financeira internacional, cuja real
extensão e profundidade ainda não
pode ser avaliada, ambigüidade agra-
vada pelo fato de os membros do go-
verno não poderem explicitar seu dile-
ma, por razões óbvias, contribuindo
para o falatório dos que pretendem ti-
pificar ou condenar prematuramente o
governo Lula, em função de sua supos-
ta adesão ao receituário econômico
neoliberal. Não deveríamos nos deixar
iludir por essa ambigüidade, que cons-
titui o eixo do tratamento que a gran-
de mídia tem dado ao governo. A pre-
cariedade da situação econômica e fi-
nanceira do país, o orçamento mais
restritivo dos últimos anos, uma con-
juntura internacional incerta e adversa,
a necessidade de organizar politica-
mente o governo e a máquina estatal
e uma correlação de forças ainda bas-
tante desfavorável não deixam espa-
ços para a transformação imediata de
uma política econômica estrutural-
mente determinada pela subordinação
do Estado e da economia aos impera-
tivos extorsivos de uma acumulação
financeira sem precedentes. Uma
brusca ruptura ou mesmo qualquer
medida que possa confrontar os inte-
resses do mercado financeiro inviabili-
zaria precocemente o governo Lula,
mergulhando o país no abismo de
uma crise econômica, política e social
que comprometeria gravemente as
condições de governabilidade. Ou para
colocar as coisas do modo mais franco
possível: num quadro restritivo como
esse, uma ruptura com o FMI e com o
receituário neoliberal, seguida pela
suspensão ou pelo não-pagamento
das dívidas, acarretaria muito prova-
velmente uma drástica reação dos
EUA, a qual não teríamos forças para
resistir. No momento em que ainda ca-
minhamos no fio da navalha, uma at-
mosfera de enfrentamento e polariza-
ção acirrada, como na Venezuela sob
locaute, tem de ser evitada a todo cus-
to. A despeito da impaciência e indig-
nação dos companheiros que deseja-
riam que tudo pudesse ser feito ime-
diatamente, de acordo com suas con-
vicções políticas, deveríamos reconhe-
cer que a estratégia do confronto, nos
limites da atual conjuntura, apenas
serviria aos interesses inconfessáveis
de todos os que desejam o fracasso do
governo Lula e o grave retrocesso polí-
tico que daí adviria.
Deveríamos reconhecer que a tran-
sição política de uma sociedade escan-
dalosamente injusta e desigual, em
que todos os processos de moderniza-
ção permaneceram incompletos, en-
viesados e estruturalmente dependen-
tes dos centros de acumulação capita-
lista global, para uma sociedade livre,
soberana e democrática, orientada pe-
lo horizonte social, político e cultural
da cidadania, da justiça e da igualdade
social, é necessariamente um processo
a ser construído no médio e longo pra-
zo. Uma transição profunda como essa
não pode se dar de cima para baixo,
mediante decretos governamentais e a
execução de políticas públicas funda-
das num processo de rígida centraliza-
ção estatal e em ruptura imediata com
as determinações estruturais e conjun-
turais do processo neocolonial que do-
mina ainda hoje a existência da socie-
dade brasileira; pelo contrário, as rup-
turas e transformações necessárias a
essa transição exigem um profundo
enraizamento político, social e cultural,
sem o qual permaneceríamos presos à
lógica destrutiva de um confronto pre-
maturo, para o qual ainda não temos
A transição política de uma
sociedade escandalosamente
injusta e desigual, em que
todos os processos de
modernização permaneceram
incompletos, enviesados e
estruturalmente dependentes
dos centros de acumulação
capitalista global.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 143
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
forças suficientemente acumuladas.
Por ora, o conjunto de condições polí-
ticas, econômicas, sociais e culturais
para uma ruptura ainda não estão sufi-
cientemente maduras; o que existe,
em função do reconhecimento gene-
ralizado de uma situação de crise sistê-
mica e da insustentabilidade dos parâ-
metros políticos, econômicos, sociais e
culturais que até aqui regeram nossa
história, é tão só uma decisão e uma
disposição política da sociedade brasi-
leira, no sentido de construir progressi-
vamente o conjunto de condições que,
a médio e longo prazo, permitirão a
emergência consistente de uma socie-
dade livre, justa, fraterna, soberana e
radicalmente democrática. Foi este o
sentido do mandato popular outorga-
do a Lula. Esta decisão e disposição
política, à medida que estão na base
da vitória de Lula, de sua popularidade
e da esperança suscitada por seu go-
verno, precisam ser conseqüentemen-
te trabalhadas, no âmbito de uma arti-
culação consistente e democrática en-
tre o governo e a sociedade civil orga-
nizada, a fim de que o processo não
venha a ser abortado precocemente,
ou, de outro modo, não permaneça
enredado nas condições e determina-
ções negativas que ele deve poder su-
perar a médio e longo prazo.
Nos primeiros anos, não podemos
esperar por mudanças profundas, mas
apenas pela sinalização e preparação
do terreno para essas mudanças. Além
dos constrangimentos herdados da
era neoliberal e da negociação das re-
formas a serem aprovadas, no sentido
de recuperar a capacidade de investi-
mento da União e diminuir gradual-
mente o peso da cunha financeira so-
bre o sistema produtivo, o governo Lu-
la terá de lidar com o orçamento mais
restritivo dos últimos anos, já aprovado
pelo governo FHC, e que deixa apenas
7,2 bilhões de reais para investimen-
tos, com a composição política do go-
verno e de sua base de apoio no Con-
gresso e com o tempo requerido para
tomar conhecimento do funcionamen-
to da máquina estatal e reorganizá-la
tecnicamente, em função de suas dire-
trizes políticas. Dada a profundidade
dos problemas e carências nacionais e
todas as amarras deixadas por FHC,
serão necessários ao menos dois anos
até que todas essas transições e rear-
ranjos possam preparar o terreno para
que o governo Lula comece a trabalhar
em suas diretrizes e apresentar seus
primeiros resultados. Daí a necessida-
de de se organizar consistentemente
esse processo de transição, de modo a
evitar crises econômicas, políticas ou
institucionais e pavimentar o caminho
até 2006, quando uma possível reelei-
ção de Lula pode permitir que, no se-
gundo mandato, se aprofundem, de
modo irreversível, as transformações
sociais que podem levar o Brasil a um
outro patamar qualitativo no processo
de construção histórica de uma socie-
dade soberana e radicalmente demo-
crática.
Nesse sentido, o que propõe o Go-
verno Lula é que, antes de qualquer
ruptura com a subordinação da econo-
mia e do Estado ao círculo de ferro da
acumulação financeira, é preciso exer-
cer a paciência, o pragmatismo e a
perseverança necessárias para o acú-
mulo histórico das forças políticas e
sociais e a preparação das condições
objetivas e subjetivas capazes de sus-
tentar consistentemente o processo
histórico de construção de uma socie-
dade soberana e radicalmente demo-
crática que, como disse Lula, durante a
campanha, pode vir a se tornar neste
percurso “uma sociedade socialista”.
O que se propõe não é, portanto, o
abandono dos horizontes fundamen-
tais que, desde o início, têm pautado e
justificado a vida e a história do PT,
mas a perspectiva política da linha de
menor resistência como estratégia
adequada às circunstâncias do presen-
te. Não há dúvida de que a linha de
menor resistência pode acabar se
enredando nos limites, impasses e
contradições entre uma proposta de
radicalização da democracia política e
social e a fatalidade histórica de ter de
levá-la a cabo, num primeiro momen-
to, no âmbito drasticamente restritivo
das premissas estruturais e conjuntu-
rais do regime do capital e da posição
neocolonial que nele ocupamos; isso
já ocorreu em outros momentos, sem-
pre citados como exemplos, o que se-
ria suficiente para rejeitá-la caso fosse
possível propor, de modo realmente
viável, qualquer outro caminho político
no âmbito dos limites, condições e de-
terminações negativas impostos pela
correlação de forças em que ora nos
achamos. Será sempre difícil avaliar em
que medida as concessões e compro-
missos assumidos são de fato excessi-
vos ou apenas necessários de um pon-
to de vista estratégico; mas, de todo
modo, se não desejamos nos pôr à
margem de todo este processo, a ques-
tão que devemos colocar é precisa-
mente a que pergunta pelas condições,
decisões e caminhos a serem tomados
para que uma estratégia etapista de
construção de uma sociedade radical-
mente democrática possa ser bem
sucedida nos atuais contextos e cir-
cunstâncias nacionais e internacionais.
Nesse contexto, me parece bastan-
Nesse contexto, me parece
bastante apressado e
inconseqüente nos rendermos,
sem mais, aos variados
tons que assumem as
versões de um “PT cor de rosa”
(venham elas da direita
ou da esquerda).
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE144 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
te apressado e inconseqüente nos ren-
dermos, sem mais, aos variados tons
que assumem as versões de um “PT
cor de rosa” (venham elas da direita
ou da esquerda), disposto a dar conti-
nuidade à política econômica neolibe-
ral e a se render incondicionalmente
aos imperativos colocados pela gestão
da crise capitalista. Ao corroborar essa
versão, seduzidos pelas aparências,
embalados por preconceitos ideológi-
cos ou apenas confundidos pela ambi-
güidade da situação, não embarcaría-
mos numa profecia com enorme capa-
cidade de auto-realização? Não seria
necessário perguntarmo-nos, antes de
tudo, a quem propriamente interes-
sam estas versões e quais seus efeitos
políticos nas atuais circunstâncias? Po-
demos considerar que os exemplos
freqüentemente citados do Partido So-
cialista francês, do Partido Trabalhista
inglês e das frentes populares do pas-
sado seriam já por si só suficientes
para antecipar o fracasso do governo
Lula, ou deveríamos admitir que a dife-
rença entre contextos e circunstâncias
é muito grande para nos fiarmos em
generalizações deste tipo ? Nas atuais
circunstâncias, não teríamos de come-
çar por admitir que a adoção da linha
de menor resistência talvez seja mes-
mo a única estratégia viável, com vistas
a preparar as condições objetivas e
subjetivas para um projeto político de
longo prazo, visando à democratização
profunda da economia, da política e
da sociedade? Uma vez que há uma
disputa político-ideológica, em torno
do significado do Governo Lula, do
modo como se deu sua eleição e do
sentido das mudanças de orientação
assumidas pelo PT, nos últimos anos,
confundir as reorientações exigidas
pelos constrangimentos da era neoli-
beral, pela nova configuração histórica
do mundo contemporâneo e por uma
correlação de forças bastante desfavo-
rável, com o puro e simples abandono
histórico das diretrizes
do partido, em nome de
um pragmatismo supos-
tamente disposto a tudo
pela conquista e pela
preservação do poder
governamental não seria,
antes de tudo, adotar
uma posição que, na
prática, deixaria o gover-
no Lula entregue ao
abraço de urso dos inte-
resses estabelecidos? Ou
o que dá na mesma, en-
tregar os pontos antes
de que o jogo tenha co-
meçado, como se ele já estivesse de
antemão perdido?
Mas não haveria em tudo isso algo
de mais essencial, obstruindo o hori-
zonte em que se trava toda essa dis-
cussão? No plano de consistência da
discussão política e teórica, não seria o
caso de perguntarmo-nos se os para-
digmas, modelos e referências concei-
tuais com que esses problemas tem
sido abordados não estariam irreme-
diavelmente defasados e descontex-
tualizados? Não deveríamos antes de
tudo buscar reconhecer o que de fato
há de fundamentalmente inédito na
situação histórica que ora vivemos?
Para além do horizonte histórico-so-
cial, teórico e prático das categorias
políticas, sociais, históricas e culturais
do modernismo e das suas mais varia-
das vertentes teóricas, não seria neces-
sária a produção de conceitos funda-
mentalmente novos, capazes de tradu-
zirem a singularidade e originalidade
dos novos contextos, contradições,
desafios, impasses e oportunidades
históricas colocadas pela eleição de
Lula? Antes de apressarmo-nos em
aplicar sem mais ao quadro político
contemporâneo toda uma série de ca-
tegorias conceituais oriundas da
Europa dos séculos XIX e XX, não deve-
ríamos começar pela admissão funda-
mental de que uma interpretação con-
sistente do significado do governo Lula
exige e até mesmo pressupõe a elabo-
ração de um quadro conceitual ade-
quado aos novos modos de produção,
reprodução, exercício, circulação e dis-
tribuição do poder, aos limites e cons-
trangimentos que eles impõem à polí-
tica, ao Estado e à sociedade civil, às
novas configurações sociais, políticas e
culturais dos movimentos de resistên-
cia, e ainda mais, no caso presente, à
marcante singularidade da situação
brasileira? Dada a magnitude do desa-
fio e da oportunidade histórica que se
abrem para nós, antes de tudo, seria
preciso reconhecer, na questão que
nos coloca o governo Lula, para além
de uma questão teórica em aberto,
um problema, uma carência e um de-
safio eminentemente políticos. A poli-
tização de que mais do que nunca ca-
recemos exige que essa questão ve-
nha a se tornar a verdadeira obsessão
de intelectuais e militantes compro-
metidos com a causa democrática e
popular. Nesse contexto, ao invés de
mais uma vez buscar medir o novo
pelo velho e o desconhecido pelo co-
nhecido, não seria o caso de reconhe-
cermos, para além dos limites de nos-
sos saberes e experiências históricas,
que talvez ainda não saibamos e se-
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 145
quer possamos saber, ao menos a esta
altura, quais os limites e possibilidades
que se descortinam no ineditismo da
oportunidade histórica aberta pela
eleição de Lula?
Limites e possibilidades não estão
dados de antemão; como quer que se-
ja, eles não estão e não podem estar
pré-inscritos nas determinações estru-
turais e conjunturais, senão de modo
puramente negativo, e seria um grave
erro político e teórico considerá-los
apenas pela via negativa. O que de fa-
to determinará os limites e possibilida-
des históricas de uma transformação
social e política de grande envergadu-
ra será precisamente, e como sempre
o foi, o sujeito político de toda transfor-
mação histórico-social: a multidão em
movimento, a mobilização de suas
energias criativas, seu grau de consis-
tência e articulação política e sua ca-
pacidade de construir uma hegemo-
nia político-ideológica no seio da so-
ciedade civil, o que decerto depende
da capacidade de mobilização social
das entidades da sociedade civil orga-
nizada e das pontes que elas forem
capazes de construir com o governo
Lula, no sentido de traduzir proces-
sualmente os desejos de libertação da
multidão em força política e capacida-
de articulada de transformação histó-
rico-social.
Nesta discussão, deveríamos reco-
nhecer, em seu princípio, toda uma cli-
vagem teórico-política absolutamente
decisiva, e que talvez se deixe formular
assim em seus termos mais funda-
mentais: de um lado, podemos conce-
ber o momento presente como um
desafio e uma oportunidade histórica,
e, portanto, como um tempo aberto à
gestação e ao amadurecimento do po-
der constituinte da sociedade, de sua
capacidade de mobilização, de sua ati-
vidade, criatividade e produtividade
histórico-social; de outro lado, pode-
mos concebê-lo como algo já previa-
mente enclausurado no círculo de fer-
ro das relações de poder, nos modos
de sua produção e reprodução e em
uma correlação de forças desfavorá-
vel, colocando o peso da análise na
objetividade das estruturas e no modo
como elas definem, de antemão, os li-
mites e possibilidades de uma situa-
ção histórica. Tem-se aí uma profunda
clivagem política e epistemológica en-
tre a análise do presente como análise
da objetividade histórica herdada, de
suas determinações estruturais e do
modo como elas delimitam irremedia-
velmente o campo da ação possível, e
um campo de análise do presente
capaz de levar em conta suas virtuali-
dades e potencialidades e o modo co-
mo a práxis dos sujeitos sociais e polí-
ticos pode, mediante sua atualização
consistente, entrar em relação com es-
sas mesmas estruturas, criando uma
dinâmica política, social e cultural de
alargamento constante e progressivo
das condições, limites e possibilidades
de transformação histórico-social. Ao
incluir as virtualidades e potencialida-
des latentes do presente e articulá-las
ao sujeito político da transformação
histórico-social, o primeiro campo de
análise é condicionado por uma apos-
ta na potência criadora da práxis políti-
ca, social e cultural da multidão; ao se
concentrar na objetividade histórica
herdada, o segundo campo de análise
tende a desprezar ou até mesmo igno-
rar o campo das virtualidades e poten-
cialidades históricas, projetando as
determinações do passado no presen-
te e no futuro e tendendo assim a per-
manecer preso às determinações es-
truturais e conjunturais dos modos
vigentes de produção e reprodução do
poder. De modo geral, deveríamos ser
capazes de reconhecer que qualquer
tese ou posição político-teórica depen-
de fundamentalmente de se tomar em
consideração, como diz Antonio Negri,
o poder que tem a multidão de fazer
história e o modo como ela entra ou
pode entrar em relação com as deter-
minações estruturais de sua condição
histórico-social, ou, de outro modo,
optar por uma linha de análise que
tem como fonte, ponto de partida e
chegada o círculo de ferro da estrutu-
ra, da conjuntura e da objetividade his-
tórica herdada. De um lado, na medi-
da em que permanecermos confina-
dos à objetividade histórica herdada,
seja do ponto de vista de sua conde-
nação ou justificação, estamos fadados
a fazer, do capital e de suas premissas,
condições e determinações, o motor e
o sujeito onipotente da história, assu-
mindo, ainda que às avessas, o ponto
de vista hegemônico do capital, com
todas as conseqüências práticas e teó-
ricas que daí advêm. De outro lado, a
história é compreendida do ponto de
vista das capacidades e de toda a ativi-
dade produtiva, transformadora e
revolucionária da multidão; do ponto
de vista, portanto, da práxis e dos
modos como ela é capaz de confron-
tar, deslocar e transformar, em suas vir-
tualidades, potências e capacidades la-
tentes, as determinações estruturais e
conjunturais dos modos de produção
e reprodução do poder. Ao submeter
as potências da práxis e da ação políti-
ca transformadora ao círculo de ferro
das premissas e determinações estru-
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
O que de fato determinará os
limites e possibilidades históri-
cas de uma transformação
social e política de grande
envergadura será precisamen-
te, e como sempre o foi, o
sujeito político de toda transfor-
mação histórico-social:
a multidão em movimento
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE146 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
turais dos modos de produção e repro-
dução do poder, tende-se seja a acei-
tar as premissas da estrutura e dos
modos de produção e reprodução do
poder como uma relação eterna, ne-
cessária, permanente e universal, seja
a confrontá-las, de modo não-dialéti-
co, dogmático e sem quaisquer media-
ções possíveis, com o que de algum
modo se presume serem as condições
de sua superação absoluta e imediata.
Ora, se nos limitamos a confrontar as
premissas, condições e determinações
estruturais e conjunturais do regime
do capital, com todo o peso de sua his-
toricidade acumulada, com a urgência
e a pureza de nossos ideais e desejos
de libertação e com o que julgamos
serem as condições objetivas e univer-
sais de superação do regime do capi-
tal, nos arriscamos a permanecer con-
finados à impotência de um confronto
inteiramente estéril, imaginário e sem
quaisquer mediações possíveis entre
nossos anseios revolucionários e todo
o peso histórico-social, político e cultu-
ral das premissas e determinações
estruturais do regime do capital, per-
manecendo inelutavelmente como
presas do próprio feitiço que gostaría-
mos de exorcizar, relegados à insignifi-
cância histórica de que apenas a vã
pretensão de ter sempre a razão e um
certo gozo inconfessável na, contem-
plação do abismo, poderia ainda nos
consolar. De um modo ou de outro, “à
direita ou à esquerda”, falta levar em
consideração tanto a dialética das
mediações necessárias como a pre-
sença virtual, potencial, latente ou
mesmo atual do sujeito social e políti-
co revolucionário de toda história e de
toda historicidade, e, sobretudo, a fina
sintonia e articulação entre ambos, de
que tanto carecemos nesse momento,
ao menos na medida em que pressu-
pomos que o acúmulo de forças visan-
do à conquista progressiva da hege-
monia política, social e cultural, na so-
ciedade civil, é o único caminho e a
condição sine qua non para a constru-
ção histórica de uma sociedade livre,
soberana e radicalmente democrática.
O círculo de ferro só pode mesmo
ser rompido pelo círculo diametral-
mente inverso, o círculo da potência
histórica e revolucionária que apenas
a multidão em movimento é capaz de
desencadear: para além da institucio-
nalidade da política, da qual temos
todos os motivos para desconfiar, ape-
nas a temporalidade e a historicidade
abertas da multidão em movimento
são de fato capazes de engendrar
consistentemente, em condições histó-
ricas propícias como talvez possam se
revelar as condições atuais, os proces-
sos de substantiva transformação his-
tórico-social.
A via revolucionária da
radicalização democrática
Considerando o projeto de cons-
trução histórica de uma sociedade de-
mocrática e popular, tal como ele se
acha diferentemente esboçado no pro-
grama de governo de Lula, no progra-
ma do PT e nas perspectivas abertas
pelo novo governo, tudo parece estar
orientado pela construção de uma si-
nergia profunda entre as ações do go-
verno e as capacidades e energias
produtivas e criativas da sociedade
civil. É dessa sinergia que poderá sur-
gir o contra-poder, ou a contra-hege-
monia capaz de fazer face à capaci-
dade de reprodução dos modos vigen-
tes de produção e reprodução do po-
der; é da produtividade histórico-so-
cial e político-cultural de seu poder
constituinte de que depende o proces-
so épico de construção de uma nação
historicamente aprisionada em sua
condição colonial e neocolonial; é de
sua a potência emancipatória de de-
mocratização radical que depende a
gestação histórica de uma cultura ra-
dicalmente democrática.
Não se trata aí apenas de uma es-
tratégia ou de uma questão de méto-
do: o recurso ao diálogo e à ampla ne-
gociação como condição da governabi-
lidade e de uma nova cultura política,
o recorrente chamado à mobilização
social, o investimento político na cons-
trução de um pacto social, a concep-
ção, articulação e execução dos proje-
tos governamentais com a participa-
ção da sociedade civil, tudo isso apon-
ta para o que uma análise acurada tal-
vez seja capaz de reconhecer como
uma questão de princípio, que talvez
se deixe formular assim: a democracia,
no sentido radical de uma democra-
cia, ao mesmo tempo política, econô-
mica, social e cultural, só pode ser
construída pelo exercício constante do
diálogo, da consulta, da negociação.
Só se pode construir a democracia
através da própria democracia. Ela
não é um meio que vise a um fim,
nem um fim que possa ser concebido
em oposição aos meios empregados:
em todos os níveis e sentidos, o pro-
cesso de construção histórico-social de
uma democracia radical, sobretudo
nas condições brasileiras, é um pro-
cesso incessante, visando à democra-
tização progressiva e irreversível de to-
dos os âmbitos e setores da vida social
e pressupondo um amplo processo de
politização cultural, em que a identifi-
cação e desconstrução das práticas,
conceitos e relações de poder e dos
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
De um modo ou de outro,
“à direita ou à esquerda”,
falta levar em consideração
tanto a dialética das mediações
necessárias como a presença
virtual, potencial, latente ou
mesmo atual do sujeito social
e político revolucionário.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 147
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
modos de dissolvê-las em relações po-
liticamente democratizantes e emanci-
patórias de autoridade e responsabili-
dade compartilhada se apresenta
como o único caminho viável na cons-
trução histórica de uma sociedade
efetivamente democrática.
Nesse sentido, não deveríamos fi-
car presos ao dilema insolúvel em que,
por um lado, razoavelmente afirma-
mos que a construção da democracia
é incompatível com as premissas es-
truturais da produção e da reprodução
social, no regime sócio-metabólico do
capital, e, por outro, temos de admitir
que a derrocada do capital se acha
agora fora do horizonte histórico das
possibilidades ou mesmo a uma outra
versão deste mesmo dilema, em que,
por um lado, supomos impossível
construir uma nova ordem social, sem
a emergência de sujeitos sociais capa-
zes de construí-la, e, por outro, afirma-
mos que a emergência dos sujeitos so-
ciais capazes de construir uma ordem
social radicalmente democrática não
pode se dar sob as premissas antide-
mocráticas do regime do capital. Os di-
lemas práticos e teóricos que essas pro-
posições nos colocam parecem bem
fundamentados; apenas deveríamos
tomá-los não propriamente como dile-
mas aporéticos ou axiomas antidialéti-
cos de uma impossibilidade constituti-
va, mas, sim, como desafios a serem
dialeticamente superados pela energia,
pela criatividade e pela imaginação prá-
tica e teórica dos sujeitos sociais.
Como nos tempos de Marx, mais
uma vez, somos confrontados pelo de-
safio histórico de articular uma análise
da sociedade capitalista com a cons-
trução de uma vontade política capaz
de transformá-la numa sociedade mais
livre, mais igual, mais humana, e, cer-
tamente, não apenas de uma vontade
política, mas do que permita que esta
vontade crie os modos de ampliar-se e
traduzir-se consistentemente em pro-
cessos emancipatórios de transforma-
ção histórico-social.
Os processos histórico-sociais que
levaram progressivamente à brusca
implosão do “socialismo realmente
existente”, neutralizaram a polarização
entre capital e trabalho, dissolveram o
caráter revolucionário do proletariado
e, na prática, tornaram impossível a via
revolucionária marxista-leninista, inva-
lidando, na mesma medida suas práti-
cas, métodos e conceitos, exigem que
a produção de novas alternativas leve
em consideração as causas determi-
nantes desse fracasso histórico, bem
como seus efeitos e conseqüências
políticas e teóricas, o que, de certo
modo, está na gênese histórica do Par-
tido dos Trabalhadores e até mesmo
de grande parte de seus cismas e con-
flitos internos. As condições de produ-
ção e reprodução social global dos
modos de exercício e circulação do po-
der na sociedade contemporânea não
nos autorizam a postular a existência
homogênea de um sujeito social revo-
lucionário, como o foi o proletariado,
cujos interesses e desejos de liberta-
ção, numa situação de acirramento
das contradições, impasses e antago-
nismos do regime do capital até o limi-
te de sua insustentabilidade, se tradu-
ziriam teleologicamente em uma ca-
pacidade revolucionária de superação
política do regime do capital. Hoje, te-
mos de reconhecer que nem esse su-
jeito tem a homogeneidade que lhe foi
atribuída, nem seus interesses foram
capazes de se traduzir necessariamen-
te em capacidade, nem essa capacida-
de foi por si só suficiente para superar
as premissas estruturais do metabolis-
mo social do capital, antes muito pelo
contrário. Por outro lado, a tomada
revolucionária do poder de Estado não
se traduziu na socialização dos meios
de produção, na democratização da
sociedade e, muito menos, em vias e
processos emancipatórios efetivamen-
te capazes de dissolver as práticas e
relações de poder em relações de au-
toridade compartilhada, mas, sim, na
centralização e administração estatal,
burocrática e, muitas vezes, totalitária
dos meios de produção e de exercício
do poder, configurando um processo
brutalmente opressivo de extração de
mais-valia politicamente motivada
para fazer face à concorrência do siste-
ma capitalista, tudo isso tendo sido,
em parte, motivado e aprofundado pe-
la necessidade de consolidar proces-
sos revolucionários em meio a guerras
civis ou a guerras de resistência ao in-
vasor estrangeiro, o que comprometia
já, de início, as condições para a cons-
trução do socialismo democrático, aca-
bando por conduzir a ditaduras não
propriamente do proletariado, mas,
sim, de uma casta dirigente efetiva-
mente capaz de centralizar, controlar e
verticalizar autocraticamente todos os
processos decisórios e sua implemen-
tação, assim como o controle discipli-
nar, político e policial do proletariado e
da sociedade como um todo. A contra-
dição entre o emprego de meios
opressivos para a realização de fins so-
cializantes, populares e democratizan-
tes não é capaz de sustentar-se como
estratégia política capaz de construir
uma sociedade socialista e democráti-
ca, indicando em que medida não é
possível pensar a construção do socia-
lismo democrático pela guerra ou
Somos confrontados pelo
desafio histórico de articular
uma análise da sociedade
capitalista com a construção
de uma vontade política
capaz de transformá-la
numa sociedade mais livre,
mais igual, mais humana
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE148 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
mesmo mediante polarizações acirra-
das que, de um modo ou de outro,
acabam por perpetuar a necessidade
de uma violenta separação hierárquica
entre sujeitos e objetos do exercício de
uma autoridade que, se negando a ser
compartilhada, horizontalizada e dis-
solvida, acabou por aniquilar o ideal
socialista, seja no pesadelo dos regi-
mes totalitários, seja no fracasso políti-
co dos processos de polarização da
sociedade, que costumam terminar,
seja em golpes de estado, termidoriza-
ções ou mesmo guerras civis prolonga-
das. Ademais, contrariamente ao que
foi previsto por Marx, o que se passou
não foi propriamente um agravamento
constante das contradições e antago-
nismos do regime do capital até o limi-
te de sua insustentabilidade, a ponto
de se delinearem historicamente as
condições objetivas, subjetivas e so-
ciais para uma revolução mundial;
muito pelo contrário, toda uma série
de processos imperiais e imperialistas
permitiram, por um lado, nos países
centrais e semiperiféricos, a diluição
progressiva das contradições do regi-
me mediante concessões que acaba-
ram por fazer do proletariado desses
países, pela mediação do Estado, par-
ceiros no processo de exploração glo-
bal do capital, e, por outro, nos países
periféricos, o aprofundamento infernal
de toda uma série de processos bru-
tais de exploração colonial e neocolo-
nial, de violência, exclusão e opressão
social cujos desdobramentos os deixa-
ram envoltos em conflitos sociais, polí-
ticos, étnicos e religiosos fratricidas, ou
até mesmo em guerras civis que, de
um modo ou de outro, terminaram
por dilacerar inteiramente suas socie-
dades e extirpar qualquer possibilida-
de de construção política de vias
emancipatórias.
O próprio conceito marxista de luta
de classes acaba por se mostrar exces-
sivamente estreito e algo anacrônico,
tendo em vista a envergadura amplia-
da da luta política em torno da cons-
trução histórica de um novo paradig-
ma civilizatório. Pois já não se trata de
conceber a luta política a partir da cen-
tralidade dos processos que visam à
reapropriação dos meios de produção
ou mesmo dos lucros do capital, o que
acabou por ser decisivo para neutrali-
zar a radicalidade política do movi-
mento operário e levá-lo a seu enqua-
dramento político, econômico, social e
cultural, por meio da concertação pro-
duzida pelas concessões feitas pelo ca-
pital, pelos benefícios do Estado-Pro-
vidência, pela hegemonia política con-
quistada pela social-democracia e pela
domesticação e esvaziamento dos sin-
dicatos e dos partidos comunistas e
socialistas, nos países centrais e semi-
periféricos. Antes de tudo, deveríamos
ser capazes de reconhecer que o es-
pectro da exploração e da opressão
global não se limita a uma luta de clas-
ses, nem tem seu lugar exclusivo ou
privilegiado no espaço-tempo da pro-
dução; muito pelo contrário, o regime
socio-metabólico do capital vem ex-
pandindo suas premissas e determina-
ções estruturais à reprodução social
como um todo, abrangendo hoje to-
dos os campos e microcosmos da vida
social, o que exige que a luta política
contra ele seja capaz de formular con-
ceitos, práticas e espaços de luta muito
mais amplos, profundos e radicais do
que os que são articulados implícita e
explicitamente pelo conceito de luta
de classes. É nesse sentido que já não
caberia postular, como categoria cen-
tral da luta política, a categoria de
consciência de classe, que tem seu en-
raizamento e seu lugar privilegiado de
ação e tomada de consciência no es-
paço-tempo da produção, mas, sim, a
categoria muito mais ampla de cons-
ciência da opressão, visando a um
alargamento progressivo, cumulativo e
compreensivo das múltiplas práticas,
lugares, relações e conceitos que por-
tam a opressão e a formação de uma
consciência social, política e cultural
radicalmente democrática e emanci-
patória, capaz de ser construída orga-
nicamente mediante processos de
identificação, desconstrução e supera-
ção de práticas, conceitos e relações
de poder, na perspectiva de sua disso-
lução em práticas e conceitos capazes
de levar a relações de autoridade com-
partilhada e horizontalizada o que diz
respeito à construção de uma cons-
ciência não simplesmente de classe,
mas ao que talvez poderíamos desig-
nar como uma consciência radical-
mente democrática e emancipatória,
que constitui o processo revolucioná-
rio não propriamente em torno das re-
lações meio-fim e das práticas hierarqui-
zantes, instrumentais e burocráticas que
pautaram uma consciência revolucioná-
ria viciada e bloqueada pela luta pelo
poder, mas antes de tudo pela constru-
ção cotidiana do sentido político, social
e cultural organicamente democrático
de suas práticas, métodos e lutas mili-
tantes em todos os microcosmos da
vida social, único caminho que pode
preparar as condições histórico-sociais e
político-culturais para a superação con-
sistente e progressiva das premissas e
determinações estruturais mais profun-
das do regime sócio-metabólico do ca-
pital e a construção de alternativas so-
cialistas e/ou pós-capitalistas.
Já não caberia postular,
como categoria central da
luta política, a categoria de
consciência de classe, que tem
seu enraizamento e seu lugar
privilegiado de ação e tomada
de consciência no
espaço-tempo da produção
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 149
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Se, no princípio, as lutas proletárias
apresentavam um amplo espectro de
perspectivas, que incluía aspirações
profundas como a construção de uma
nova subjetividade e de uma nova so-
ciabilidade, a transformação radical da
educação, a emancipação da mulher e
a formação política de uma consciên-
cia social comunitária, não se limitan-
do às perspectivas de uma mudança
imediata das relações de produção,
seria o caso de recolocar agora a
questão da luta política em moldes se-
melhantes, na perspectiva de uma luta
civilizacional, ao mesmo tempo econô-
mica, social e comunicacional, política,
biopolítica e cultural, a ser travada or-
ganicamente em todos os setores da
vida social, em torno de uma radicali-
zação das práticas e procedimentos
democráticos e emancipatórios em
detrimento da perspectiva restrita da
luta de classes, da consciência
de classe e de seus conceitos,
práticas e objetivos estratégi-
cos, instrumentais e doutriná-
rios.
Tudo isso indica sumaria-
mente em que medida é ne-
cessário repensar as alternati-
vas, tendo em vista as causas, efeitos e
determinações fundamentais do fra-
casso político da via revolucionária
marxista-leninista, não no sentido de
um abandono tácito das perspectivas
revolucionárias socialistas e de seus
horizontes sociais e políticos mais fun-
damentais e de uma simples capitula-
ção política ao caráter supostamente
“permanente, eterno, necessário e uni-
versal” do regime do capital (Hegel),
mas no sentido de pensar e gestar pra-
ticamente alternativas socialistas que,
tendo em vista das condições objetivas
e subjetivas do presente, tornem-se
capazes de produzir processos eman-
cipatórios, liberando energias e imagi-
nações utópicas e articulando as me-
diações e transições necessárias à
emergência de um sujeito revolucioná-
rio capaz de desenvolver e disseminar
consistentemente práticas, conceitos e
paradigmas que conduzam a uma
sociedade radicalmente democrática.
O sentido, o horizonte, o espaço-
tempo e a centralidade substantiva e
estratégica da luta pela hegemonia
política, social e cultural na sociedade
civil, a ser travada pela radicalização
orgânica da democracia, pela constru-
ção de um conceito de democracia
radicalmente emancipatório e pela
produção, articulação e disseminação
consistente de conceitos, práticas e
processos emancipatórios, na lógica
da acumulação progressiva de forças,
aponta nesses contextos para a via da
radicalização da democracia e dos
processos emancipatórios em relação
às práticas, relações, identidades e
conceitos portadores dos modos domi-
nantes de produção, reprodução, cir-
culação e distribuição de poder e das
maneiras como eles configuram em
todos os níveis e sentidos a totalidade
do corpo social e de suas dinâmicas
de produção de identidades, subjetivi-
dades e sociabilidades.
Nessa mudança de paradigma polí-
tico, temos que começar por reconhe-
cer que, mais do que como modo de
produção, a reprodução ampliada do
capital se desdobra hoje como totalida-
de estrutural de um modo de vida e de
um universo simbólico, de uma racio-
nalidade cognitiva-instrumental e de
uma racionalidade prático-moral, de
um modo de produção de subjetivida-
des, identidades, imaginários e sociabi-
lidades que se configuram na totalida-
de de um modo de reprodução social
que justifica plenamente o conceito
marxiano de uma “subjetividade única
e global do capital” o que torna incri-
velmente mais complexa, densa e exi-
gente a questão histórica pela gestação
de alternativas socialistas, ou pós-capi-
talistas. Por outro lado, é precisamente
nesse momento que a crise do capital
chega à ativação de seus limites abso-
lutos: a insustentabilidade e incontrola-
bilidade estruturais do regime do capi-
tal nos leva hoje ao reco-
nhecimento de que sua
reprodução sempre am-
pliada implica necessaria-
mente o agravamento de
suas próprias crises, pro-
blemas e dilemas estrutu-
rais (ecológicos, sociais,
econômicos, políticos e
culturais), que tendo sido produzidos e
aprofundados historicamente pelo pró-
prio regime do capital, não poderão
encontrar solução no âmbito de suas
premissas e determinações estruturais.
Nesse contexto, muito mais que a in-
sustentabilidade estrutural de um mo-
do de produção determinado, devería-
mos ser capazes de reconhecer que
vivemos a crise sistêmica de um para-
digma civilizatório, que apenas se apro-
funda à medida que não somos capa-
zes de imaginar e propor alternativas
imediatas e globais ao que vivemos e
sofremos. Contudo, apenas a evidência
e a consciência de uma situação-limite
cuja reprodução ameaça estrutural-
mente as condições naturais de vida na
Terra e compromete progressivamente
os paradigmas, modelos e processos
civilizatórios da modernidade capitalis-
ta e de sua ordem social não é suficien-
te para gerar as alternativas necessá-
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE150 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
rias. Se em meio à irracionalidade ab-
soluta e global do regime sócio-meta-
bólico do capital e aos sintomas evi-
dentes de seu esgotamento histórico-
social se nos coloca o desafio histórico
de pensar alternativas capazes de su-
perar estes dilemas e conceber um
projeto de sociedade que supere as
premissas e determinações estruturais
do regime sócio-metabólico do capital,
os problemas e os dilemas que ela nos
coloca e toda sua marcha auto-destru-
tiva, é certo que este desafio exige ima-
ginar a superação de nossos proble-
mas e dilemas atuais, não em função
de premissas utópicas, dogmáticas ou
científicas abstratas mas, de modo rea-
lista, no âmbito das virtualidades e po-
tencialidades latentes no seio da pró-
pria situação que vivemos, visando a
definir os modos práticos de gerar os
processos, relações, conceitos e media-
ções dialeticamente capazes de consti-
tuir, fortalecer e articular consistente-
mente o sujeito prático destas transfor-
mações sociais.
É nesse contexto que podemos
postular o que aqui chamaremos a via
revolucionária da radicalização de-
mocrática, como caminho para a
construção orgânica dos movimentos
sociais e dos partidos políticos e para o
delineamento paradigmático dos mei-
os e métodos de governo, visando, a
médio e longo prazo, à produção das
condições e processos histórico-sociais
que podem conduzir ao socialismo de-
mocrático, tudo isso, na verdade, em
profunda consonância com os princí-
pios políticos que desde o começo
têm norteado a história de vitórias do
Partido dos Trabalhadores. Por assen-
tar-se utopicamente numa consciência
social e num princípio de realidade
que, em meio à crise dos paradignmas
da modernidade capitalista, tende a
tornar-se crescentemente partilhado e
politicamente hegemônico, a via da ra-
dicalização da democracia política, so-
cial, econômica e cultural tem as ca-
racterísticas fundamentais que Gram-
sci considerava necessárias para a
construção histórico-social de idéias,
princípios, conceitos e práticas hege-
mônicas. Do ponto de vista de nossa
sociedade, a articulação entre utopia
democrática, consciência social e prin-
cípio de realidade se instalam a partir
de uma consciência cada vez mais ge-
neralizada da contradição entre as es-
truturas econômicas, políticas, sociais
e culturais que têm regido a vida na-
cional estigmatizadas pela percepção
de seu caráter decisivamente anti-so-
cial, antinacional e antidemocrático e
pela consciência de sua insustentabili-
dade constitutiva e os desafios, metas
e horizontes que articulam na consci-
ência popular uma certa relação entre
democracia, cidadania, justiça e igual-
dade social como condições para a
construção de uma nação em que os
mecanismos de produção de riqueza e
de distribuição de poder não se voltem
sistematicamente contra a natureza e
a própria sociedade. É sobre o solo vir-
gem e fecundo dessa consciência po-
pular, mais ou menos precária, difusa e
generalizada que ora se apresentam
os elementos a serem trabalhados, no
sentido da construção de uma hege-
monia democrática na sociedade civil.
Tudo isso exige práticas, métodos e
procedimentos de radicalização políti-
ca e social da democracia que venham
a nortear não só os processos decisó-
rios que levam às políticas de governo
e sua execução, como todos os movi-
mentos sociais e, de modo geral, a
própria práxis cotidiana em todos seto-
res, relações e dimensões da vida so-
cial. Há uma evidente sinergia entre
todas essas dimensões e o modo co-
mo elas podem vir a articular-se e po-
tencializar-se reciprocamente, e é pre-
cisamente no sentido da promoção
dessa sinergia virtuosa que devem se
fundar, de parte a parte, as relações
entre as entidades da sociedade civil
organizada e o novo governo.
A via política da radicalização de-
mocrática, no tempo próprio de seu
aprofundamento, consistente, de sua
progressividade e de sua radicalização
qualitativa, tem um potencial revolu-
cionário à medida que exige e promo-
ve a tendência para uma transforma-
ção global dos modos de produção e
do mundo do trabalho, do conheci-
mento crítico e científico, dos modos
de vida e das dinâmicas de produção
de subjetividades, das formas de socia-
bilidade e dos universos simbólicos.
Sua realização progressiva exige, pro-
move e pressupõe a politização crítica
da realidade, das relações sociais, das
relações de produção e das práticas
dos atores sociais, a valorização da
produção e da expressão cultural pró-
prias e o exercício radical da cidadania
individual e coletiva, num processo de
ativação e mobilização de todas as
energias sociais, políticas e culturais de
uma nação que, ainda no processo de
sua constituição histórico-social, traz
em si virtualidades e potencialidades
que, talvez mais do que qualquer ou-
tra, pelas características de sua forma-
ção a habilitam ao desenvolvimento
histórico de novos modos de realiza-
ção da vida, no momento em que to-
dos os paradigmas da ordem social
moderna se acham num processo irre-
Do ponto de vista de nossa
sociedade, a articulação entre
utopia democrática, consciên-
cia social e princípio de reali-
dade se instalam a partir de
uma consciência cada vez mais
generalizada da contradição
entre as estruturas econômicas,
políticas, sociais e culturais
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 151
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
versível de crise, deslegitimação e dis-
solução.
Os protagonistas dessa revolução
democrática, como certa vez disse
Boaventura de Sousa Santos, serão ne-
cessariamente todos os que, nas mais
diversas constelações de poder que
constituem as práticas sociais, têm
consciência de que a sua vida é mais
condicionada pelo poder que outros
exercem sobre eles do que pelo poder
que exercem sobre outrem. Ora, foi
sempre a partir da consciência da
opressão que se formaram os movi-
mentos sociais, e porque a opressão
se exerce na medida em que constitui
em todos os níveis e sentidos as prá-
ticas e relações sociais e políticas que
perfazem o regime sócio-metabólico
do capital, e sua consciência se disse-
mina, mais ou menos, por toda parte,
já não há mais como postular um
sujeito revolucionário privilegiado ou
homogêneo. Essa condição nova, se,
por um lado, parece tornar mais caóti-
co, diluído, lento e descentrado todo o
processo de transformação histórico-
social, por outro, talvez faça com que
suas raízes e sua radicalidade venham
a ser potencialmente mais vigorosas e
profundas do que aquelas que, no sé-
culo passado, deram ensejo às revolu-
ções marxista-leninistas.
O governo Lula e a via da
radicalização da democracia
A via da radicalização da democra-
cia está sendo proposta pelo governo
Lula, em três eixos que me parecem
fundamentais e, evidentemente, na
profunda sinergia que eles são capa-
zes de produzir em sua articulação.
O primeiro eixo é econômico, rela-
tivo ao mundo do trabalho e ao espa-
ço-tempo da produção, possuindo
dimensões sociais, políticas e culturais,
na medida em que se trata de fomen-
tar alternativas sócio-econômicas ca-
pazes de reorganizar, a longo prazo, o
mundo do trabalho e da produção.
Me refiro às propostas do governo
Lula, no sentido de redefinir o sentido
e as estratégias do desenvolvimento
econômico, subordinando-o a proces-
sos em que inclusão social, combate
ao desemprego, geração de renda e
promoção da cidadania se articulem
em torno da criação, fomento e am-
pliação de formas de produção, apro-
priação, controle e organização do tra-
balho e da produção que têm sido de-
signadas pelo conceito geral de econo-
mia solidária. Essa redefinição, no sen-
tido amplo da gestação e criação de
um modelo de desenvolvimento eco-
nômico, científico e tecnológico que
seja social, ecologica e politicamente
orientado, não se dá apenas pelo com-
bate à subordinação estrutural da eco-
nomia nacional à acumulação finan-
ceira, por políticas visando à formação
interna de um mercado interno de
consumo de massas como base da
economia brasileira, por medidas que
visem à redistribuição de renda ou por
políticas industriais, científicas e tecno-
lógicas capazes de potencializar nos-
sas capacidades produtivas, de resto,
condições estruturais para uma reor-
denação social da economia. Para
além disso, o que se propõe é mobili-
zar as energias sociais, econômicas e
culturais que ora se acham bloquea-
das pela perversidade de um modelo
econômico baseado na subordinação
à acumulação financeira, na abertura
incondicional da economia, nas políti-
cas de privatização da economia e no
incentivo aos grandes conglomerados
transnacionais, pela criação de políti-
cas capazes de conferir um sentido so-
cial, político e cultural ao desenvolvi-
mento econômico. A ação do Estado,
no sentido de fomentar, articular e
promover, em articulação com a socie-
dade civil organizada e as comunida-
des locais, as cooperativas populares, a
autogestão, as redes de trabalho do-
méstico, a reforma agrária e a agricul-
tura familiar, as cooperativas de crédi-
to e os bancos do povo, a incubação
de empresas, os clubes de troca e as
diversas modalidades de economia so-
lidária, pretende constituir, incentivar e
disseminar consistentemente toda
uma série de modos de produção e or-
ganização do trabalho que visem não
só à inclusão social, à geração de
renda, à promoção da cidadania, ao
combate ao desemprego (que não se-
rá superado de outro modo) e à for-
mação de um mercado interno de
consumo de massas, como à prolifera-
ção de modalidades alternativas, de-
mocráticas, populares e socializantes
de organização prática, cooperativa e
auto-gestionária do processo produti-
vo e do mundo do trabalho. Trata-se,
portanto, de utilizar os recursos públi-
cos não mais para subsidiar lucros de
grandes corporações, mas para criar os
meios que permitam uma efetiva inte-
gração social e econômica das pessoas
ao mundo da produção e do trabalho,
o que jamais será possível mediante o
recurso exclusivo às forças cegas do
mercado. Por outro lado, tomando co-
mo exemplo paradigmático a Amazô-
nia, trata-se de criar modelos alternati-
vos de produção, organização do tra-
balho e desenvolvimento econômico,
social, científico e tecnológico que, ins-
pirados nos que têm sido adotados no
Acre e no Amapá, sejam capazes de
152 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
integrar saberes populares, recursos
naturais, conhecimentos tecno-científi-
cos, universidades e centros de pes-
quisa, políticas e recursos governa-
mentais e demandas sociais, econômi-
cas, políticas e culturais das comunida-
des locais a serviço da constituição de
modelos, práticas e dinâmicas de
desenvolvimento socialmente orienta-
do, ecologicamente sustentável e tec-
no-cientificamente inovador, na direção
da formação de outro paradigma de de-
senvolvimento econômico, fundado na
subordinação das determinações estri-
tamente econômicas a toda uma série
de imperativos sociais, políticos, ecoló-
gicos e culturais capazes de inspirar o
conceito pós-capitalista de uma econo-
mia socialmente orientada, politica-
mente democrática e ecologicamente
sustentável. Quanto à agricultura, as po-
líticas de reforma agrária e de incentivo
às cooperativas e assentamentos popu-
lares e à agricultura familiar, em articu-
lação com o MST, possuem a capacida-
de de não apenas aumentar a produ-
ção agrícola nacional, como sobretudo
fazê-lo pela adoção de modelos de
produção e organização do trabalho so-
cialmente orientados, ecologicamente
sustentáveis, politicamente democráti-
cos e culturalmente emancipatórios,
para o que será fundamental a partici-
pação ativa do MST e o incentivo às
suas práticas sociais, políticas, econômi-
cas e culturais socializantes, auto-ges-
tionárias, comunitárias, democráticas e
emancipatórias. Por fim, poderíamos ci-
tar ainda a questão do desenvolvimen-
to tecno-científico de novas formas de
energia, no momento em que vivemos
o esgotamento dos recursos energéti-
cos não-renováveis e a crise sistêmica
dos paradigmas modernos de produ-
ção e geração de energia, abrindo a
oportunidade para que o Brasil, pela ar-
ticulação entre recursos naturais, plane-
jamento governamental estratégico e
saber tecno-científico, numa coopera-
ção entre a Petrobrás, as universidades,
os centros de pesquisa e os órgãos de
fomento e políticas públicas adequadas,
possa tornar-se pioneiro na invenção de
formas de geração de energia ecologica-
mente sustentáveis e economicamente
viáveis, capazes de delinear o paradigma
energético do terceiro milênio.
A articulação de todas essas poten-
cialidades liga o eixo econômico ao so-
cial e ao ecológico, ao científico e tec-
nológico, ao cultural, político e educa-
cional, na gestação de conceitos, práti-
cas e modelos que apontam para a
redefinição paradigmática da econo-
mia e do próprio conceito de desen-
volvimento econômico, o que pode
nos conduzir, a longo prazo, à criação
de uma economia que talvez possa-
mos designar como eco-socialista, na
expressão de Boaventura de Sousa
Santos, num momento em que os
paradigmas de desenvolvimento eco-
nômico da modernidade capitalista
apontam para o aprofundamento de
uma crise social e ecológica de propor-
ções gigantescas.
Nesse contexto, não há dúvida de
que o papel da universidade pública se-
rá decisivo, ao menos se ela souber
direcionar criativamente seus recursos
educacionais, científicos e tecnológicos,
no sentido de se integrar, não aos de-
partamentos dos grandes conglomera-
dos transnacionais, como previa a polí-
tica de CT do governo FHC, mas a todas
as iniciativas democráticas, populares e
sócio-ecológicas acima descritas.
O segundo eixo é o político. O que
propõe o governo Lula é a criação de
uma cultura política de diálogo, con-
sulta e negociação social, em que as
políticas governamentais, sua concep-
ção, seu planejamento e sua execução
contem com a participação ativa da so-
ciedade civil organizada, dos setores
da vida social e das comunidades lo-
cais envolvidas. Num segundo sentido,
trata-se de articular consensos sociais
e maiorias políticas que permitam a
sustentação e consolidação dessas po-
líticas, bem como a acumulação de
forças que permita superar os interes-
ses estabelecidos que terão derrota-
dos politicamente. Num terceiro senti-
do, trata-se de desenvolver e ampliar
modalidades políticas de governo de-
mocrático e participativo, controles so-
ciais efetivos e toda uma cultura de
valorização do sentido e da importân-
cia da política, da ação coletiva e da
mobilização social, tudo isso tendo em
si o potencial de desenvolver o grau de
enraizamento e legitimidade dos mo-
vimentos sociais e das entidades da
sociedade civil organizadas, que são os
atores decisivos na transição para uma
cultura política radicalmente democrá-
tica. A médio e longo prazo, a conjuga-
ção dessas iniciativas talvez venha a
configurar um quadro político, social e
cultural que permita um salto qualita-
tivo de grande envergadura, na via da
radicalização da democracia.
O terceiro eixo é o cultural/educa-
cional/comunicacional. Nele, trata-se
de construir, a médio e longo prazo, a
hegemonia política, social e cultural de
O papel da universidade pública será decisivo, ao menos se ela
souber direcionar criativamente seus recursos educacionais,
científicos e tecnológicos, no sentido de se integrar, não aos
departamentos dos grandes conglomerados transnacionais,
como previa a política de CT do governo FHC, mas a todas as
iniciativas democráticas, populares e sócio-ecológicas.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
uma consciência democrática e eman-
cipatória.
Essa hegemonia pode ser construí-
da por uma política cultural que, ao in-
vés de entregar tudo às diretrizes do
mercado, como no caso presente da
Lei Rouanet, a partir da suposição de
que fazer política cultural é levar a cul-
tura ao povo, seja capaz de apoiar,
valorizar e fazer circular a cultura pro-
duzida pelos atores sociais em suas
comunidades, no sentido de que a va-
lorização e a ampla visibilidade das
manifestações culturais populares e
das formas de cultura produzida nas
comunidades locais permitam a ampla
manifestação, circulação e desenvolvi-
mento das capacidades de criação,
expressão e consciência da população
brasileira, de modo que elas possam
vir a se contrapor à indústria cultural
de massas e a suas modalidades ideo-
lógicas, semióticas, simbólicas e bio-
políticas de fomento à barbárie de
uma cultura da violência, cultura emi-
nentemente individualista, consumista
e narcisista, decisiva ao nível da produ-
ção de subjetividades e identidades e
da afirmação de uma hegemonia cul-
tural, em todos os âmbitos dos proces-
sos de reprodução social.
No âmbito da comunicação, trata-
se de democratizar o acesso à comuni-
cação, criando as condições para a
quebra do monopólio dos grandes
meios de comunicação de massa. Isso
pode ser feito, como está se propon-
do, pela legalização, fomento e disse-
minação das rádios comunitárias, pelo
apoio a formas de produção e distri-
buição dos produtos culturais que se-
jam efetivamente capazes de quebrar
o monopólio das grandes empresas,
pela quebra do monopólio da televi-
são, seja por meio de uma política de-
mocratizante de concesssão de canais
e de regulação do setor, seja por meio
de uma política de implementação da
televisão digital que seja capaz de
aproveitar, ao máximo, suas potencia-
lidades democratizantes.
No âmbito da política educacional,
trata-se, num primeiro momento, de
articular o combate ao analfabetismo,
envolvendo as universidades, os movi-
mentos sociais ligados ao setor de
educação e todos os setores da vida
social, fazendo do combate ao analfa-
betismo um amplo processo de inclu-
são social, promoção da cidadania,
resgate da auto-estima, politização e
desenvolvimento das capacidades dos
cerca de sessenta milhões de brasilei-
ros que, não tendo concluído o ensino
fundamental, se acham numa situação
de analfabetismo, semi-analfabetismo
ou analfabetismo funcional, o que de-
certo exigirá medidas, iniciativas e polí-
ticas de Estado que apenas poderão
alcançar a abrangência e profundidade
necessárias, se articuladas a uma am-
pla mobilização da universidade e de
todos os setores da vida social. Por
outro lado, trata-se de investir na for-
mação dos professores da rede públi-
ca de ensino, o que exigirá ampla par-
ticipação da universidade nesse pro-
cesso, na recomposição de seus salá-
rios e na democratização das escolas,
visando a sua integração e articulação
com as comunidades locais e a pro-
fundas mudanças no ensino, efetiva-
mente capazes de fazer da educação
de crianças e jovens um meio de pro-
moção da cidadania individual e cole-
tiva, de sua politização crítica e do de-
senvolvimento de suas capacidades
criativas e cognitivas.
Quanto à universidade, segundo o
que propõe Cristóvam Buarque, trata-
se, sobretudo, de desenvolver e apro-
fundar seu sentido público, social e
político, recuperar suas condições de
ensino e pesquisa, ampliar o sistema
das IFES, regular e limitar o avanço de-
sordenado do ensino superior privado,
colocar todos os recursos educacio-
nais, culturais, científicos e tecnológi-
cos da universidade pública brasileira a
serviço da construção de um outro
modelo de desenvolvimento, chaman-
do a comunidade universitária a envol-
ver-se amplamente nos processos so-
ciais e coletivos que visam, em todos
os níveis e sentidos, à gestação de
uma democracia, ao mesmo tempo,
social, econômica, política e cultural.
Não pode haver dúvida de que a
superação consistente das determina-
ções estruturais e conjunturais que fa-
zem do Brasil um dos países mais vio-
lentos, injustos e desiguais do mundo,
só será possível, a longo prazo, pela
coordenação entre políticas governa-
mentais e a participação ativa da socie-
dade civil. Nesse processo, a universi-
dade pública deve se tornar um ator
de primeira grandeza, e, para isso, de-
verá ser capaz de reorganizar-se de
modo a que ensino, pesquisa e exten-
são, numa profunda sinergia recíproca,
passem a pautar-se pelos imperativos
sociais, políticos, educacionais, científi-
cos, tecnológicos e culturais de cons-
trução de uma nação soberana e radi-
calmente democrática.
Para isso, será fundamental que os
movimentos sociais e, no que diz res-
peito à universidade, o ANDES-SN,
aprendam a reconstruir seus eixos de
luta, a redefinir suas prioridades e a re-
ver suas práticas e métodos, no senti-
do de adaptar-se criativamente aos de-
safios do novo tempo, superando uma
agenda demarcada pelo combate sem
tréguas ao neoliberalismo por uma ou-
tra que, sem abandonar esse combate
em todos os terrenos em que ele deve
ser travado, seja capaz de envolver-se
ativa e criativamente no processo de
construção de um novo Brasil.
Rodrigo de Souza Dantas é Professor Ad-
junto no Departamento de Filosofia da
UnB, Doutor em Filosofia pela UFRJ e Se-
cretário Geral da ADUnB (Associação dos
Docentes da UnB).
e-mail: rodrigos@unb.br
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 153
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
154 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Possibilidades de um circuito
virtuoso da educação nacional
Somos milhares de educadores locali-
zados nos mais diferentes e distantes
pontos geográficos do Brasil.
Constituímos um grande sistema de
educação, malgrado todas as investi-
das políticas, desde o Império à Era
FHC, de nos tornar fragmentados e
desarticulados, mediante a instituição
de diferentes níveis, modalidades,
projetos e estratégias seculares de
descentralização, que fortaleceram as
possibilidades de se reproduzirem no
Brasil, sob a ótica de sua própria
“natureza” diversificada, os diferentes
Brasis, que comportam diferentes
cidadãos, diferentes sistemas de ensi-
no, diferentes projetos de desenvolvi-
mento que, em última instância,
ampliaram as diferenças e desigualda-
des sociais.
Mas, sabemos todos que não é
mera coincidência, que se encontre a
seca, onde está concentrada a miséria
e o analfabetismo em proporções ini-
magináveis, para quem não conhece a
realidade concreta, atingindo índices
inaceitáveis, considerando-se o con-
junto dos indicadores de desenvolvi-
mento humano dos países mais po-
bres do planeta, sendo o Brasil, tam-
bém, no conjunto dos países ricos,
avaliado como uma potência em ter-
mos de economia mundial.
Já ultrapassadas as concepções
“naturalistas” e, em grande medida, as
concepções positivistas mais rudimen-
tares, alcançou-se, na área da educa-
ção e das ciências humanas e sociais,
de um modo mais geral, a compreen-
são crítica sobre os processos históri-
cos que foram produzindo, desde a co-
lônia aos dias de nossa história recen-
te, os elementos de caráter econômi-
co, político e social, e, portanto, objeti-
vos e subjetivos, mais predominantes
na construção de um país, em que
convivem os padrões mais avançados
e mais atrasados de organização socie-
tária, mantendo, simultaneamente,
mecanismos de alta eficácia para ga-
rantir a concentração de renda conju-
gados com as eficientíssimas estraté-
gias de subtração da dignidade e
sobrevivência da maioria dos trabalha-
dores empregados e desempregados,
estando ou não inclusa em programas
de “minimização” dos terríveis traços
da dura realidade, através de vale-gás,
vale-educação, vale-saúde, vale-qual-
quer-coisa, menos ser reconhecido de
fato como cidadãos, com legítimos di-
reitos constitucionais.
Apesar das cores sombrias do qua-
dro da vida cotidiana de milhões de
brasileiros, vislumbra-se o futuro como
um “portal da esperança” de um tem-
po necessário à reconstrução do nosso
processo civilizatório, que nos permita
recuperar alguma positividade do pas-
sado, tanto quanto transformar, com
alto grau de competência técnica e
compromisso ético, a história presen-
te, de modo que sejam plantadas as
bases das novas possibilidades de de-
senvolvimento humano em todas as
dimensões, durante o século XXI, sem
restrições impostas a nenhum seg-
mento da sociedade nacional.
Nessa perspectiva, considerando-
se experiências positivas do passado
recente, há que se recuperar, urgente-
mente, a riqueza acumulada na área
da educação, durante a década de 80,
em que se realizou o mais significativo
movimento de participação efetiva da
sociedade civil, representada por suas
entidades sindicais, científicas, estu-
dantis, populares dos mais diferentes
segmentos de trabalhadores, na con-
cepção e proposições de processos
Maria de Fatima Felix Rosar *
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 155UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
educativos para todos os níveis de en-
sino, o que permitiria alargar o circuito
virtuoso da educação nacional.
Embora persistam índices vergo-
nhosos, em muitos aspectos, do setor
educacional, ele contém, ao mesmo
tempo, uma qualidade de conheci-
mento e de práticas de caráter técnico
e social acumulados, que teriam per-
mitido de fato um grande avanço da
educação popular, se não tivesse sido,
“abortado” pelo governo FHC o proje-
to de LDB da sociedade civil e o con-
teúdo do debate realizado, durante
mais de uma década, nas Conferências
Brasileiras de Educação, no Fórum Na-
cional em Defesa da Educação Pública
e, mais recentemente, nos Congressos
Nacionais de Educação.
No atual contexto de emergência
de um novo “bloco no poder”, que pre-
tende ser coordenado e implementa-
do de forma “radical”, portanto com
profundidade, pelo governo recém-
eleito, que apresenta características de
uma direção política democrático-po-
pular, faz-se muita adequada a discus-
são sobre o que precisa ser feito, de
modo competente, sem que tenha-
mos que reinventar a roda.
Os educadores que estão à frente
das entidades nacionais mais repre-
sentativas do setor da educação, reuni-
dos em Niterói, no último mês novem-
bro, pretendem estabelecer um diálo-
go profícuo com os dirigentes educa-
cionais do governo Lula, com o firme
propósito de obterem o reconheci-
mento de sua legítima participação no
debate e execução de um novo plano
nacional de educação. Essa participa-
ção efetiva será a estratégia funda-
mental para que se possa promover
um real avanço, não apenas na con-
cepção de novas políticas educacio-
nais, mas, sobretudo, na sua concreta
implementação, de acordo com as de-
mandas dos segmentos organizados
da sociedade civil, e, especificamente,
com o efetivo controle social sobre os
gastos com a educação em todos os
níveis de ensino, garantindo-se assim
uma gestão do setor educacional que
possa ser reconhecida como democrá-
tica de fato.
Com esses elementos da história
da resistência dos educadores, estu-
dantes e trabalhadores, em geral, pôde
se construir um pensamento crítico vi-
goroso e uma prática de organização
de caráter social mais eficaz do que os
modelos de gestão empresarial, que
foram adotados de modo agressivo,
nas últimas décadas, para cumprir as
exigências internas e externas que se
impuseram, mediante estratégias de
indução do governo federal, de modo
a favorecer, principalmente “os negó-
cios privados no setor educacional”.
Dados relativos a esses sistemas,
mecanismos e estratégias diversifica-
das já devem ser por demais conheci-
dos dos especialistas que assumem
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE156 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
agora a direção do MEC e de todos os
seus órgãos, dado que o balanço da
era FHC foi feito pela equipe de gover-
no que, durante a recente fase de tran-
sição, assumiu a avaliação das políticas
de educação, saúde, habitação, trans-
porte, economia, previdência etc.
Em certa medida, esses dados são
também de conhecimento público da
maioria dos educadores, que sofreram
os impactos dessas políticas ou, de al-
gum modo, foram também responsá-
veis pela sua execução, com maior ou
menor grau de cumplicidade, em rela-
ção aos processos explícitos ou implí-
citos de privatização dos recursos pú-
blicos destinados à educação das clas-
ses populares.
Retomar as possibilidades de um
“circuito virtuoso ampliado da educa-
ção nacional”, com o propósito transpa-
rente de fazer avançar a qualidade do
atendimento da demanda por escolari-
zação, em todos os níveis requer, por-
tanto, a capacidade coletiva de todos
nós educadores-militantes de:
- realizarmos um balanço entre
perdas e ganhos da educação, na dé-
cada de 90, principalmente;
- recuperarmos o conhecimento
crítico acumulado no âmbito do Fó-
rum Nacional de Educação e, portanto,
de todas as entidades científicas e sin-
dicais, profissionais e estudantis, de
modo a “ganhar tempo”, portanto, ace-
lerar a execução das melhores políticas
já concebidas e, inclusive, já testadas
em muitas cidades brasileiras;
- compreendermos a potencialidade
contida na integração orgânica entre os
níveis de ensino fundamental, médio e
superior, sem o que estaremos repro-
duzindo a concepção dicotômica que
opõe os diferentes níveis entre si, como
se fosse possível priorizar apenas parte
de um sistema, o que, como já se cons-
tatou na história da educação brasileira,
impede a existência real de um “siste-
ma” no seu sentido pleno;
- aglutinarmos, como força ideoló-
gica de caráter material imprescindível,
no âmbito dos coletivos de especialis-
tas e dirigentes, os educadores de to-
dos os níveis de ensino e de diferentes
graus de qualificação: graduandos,
graduados, mestrandos, mestres, dou-
torandos, doutores, de tal modo que
se pratique a socialização de resulta-
dos de estudos, pesquisas e de proces-
sos de concepção e execução de no-
vas propostas educacionais, alcançan-
do um efeito multiplicador de caráter
mais efetivo na base da educação na-
cional, e, por isso, mais democrático,
portanto, diferente daquele que se
constrói, a partir de uma concepção
hierárquica e burocrática própria dos
governos não-democráticos;
- realizarmos com todo entusiasmo
e vontade política radical, de caráter
ético-democrático, um debate perma-
nente com todos os segmentos da
sociedade civil acerca das prioridades,
das possibilidades, dos recursos con-
cretamente existentes para o investi-
mento na educação pública, instituindo
um Fórum Nacional de Educação, co-
mo instância máxima de decisão nacio-
nal sobre a política para todos os níveis
de ensino, sem prejuízo de quantos
queiram investir seus “recursos pró-
prios”, no desenvolvimento de institui-
ções educacionais de caráter privado;
- repensarmos o processo educati-
vo, desde a educação infantil até o en-
sino superior, como um continuum
que, também, permitirá ampliar o cir-
cuito virtuoso da educação nacional,
quando se priorizar na pesquisa e no
ensino o que pode ser considerado
mais fundamental, para que se supe-
rem os problemas estruturais da eva-
são, da reprovação, da exclusão, da
mediocridade de um sistema, que
mesmo sendo de ponta, em muitos
setores da ciência e da tecnologia, por
razões conhecidas e desconhecidas,
evidencia a sua insuficiência nos níveis
mais elementares, tais como alfabeti-
zar seus 20 milhões de analfabetos,
realizar com competência a educação
das crianças de 7 a 14 anos, qualificar
os jovens para a atividade profissional
e social, no ensino médio e no ensino
superior, tendo garantido a aquisição
de competência técnica e compromis-
so ético com o desenvolvimento de
uma sociedade verdadeiramente de-
mocrática;
- instituirmos um sistema rigoroso
de avaliação dos processos educativos
que, longe de penalizar ainda mais os
setores debilitados pela política ence-
tada durante a era FHC, possa permitir
recuperar o extraordinário arsenal do
conhecimento científico no âmbito do
ensino, da pesquisa e da extensão,
acumulado nas universidades públi-
cas, em todo o território nacional;
- executarmos como resultado do
O propósito transparente
de fazer avançar a qualidade
do atendimento da demanda
por escolarização, em todos
os níveis requer, portanto,
a capacidade coletiva
de todos nós.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
nosso compromisso político diferen-
ciado com o futuro do Brasil, um pro-
cesso de valorização efetiva da carreira
do magistério em todos os níveis, de
tal modo que possam ser instituídos
nexos orgânicos entre a qualificação
contínua dos profissionais da educa-
ção e a remuneração equivalente ao
pressuposto de que a educação nacio-
nal influirá sempre, decisivamente, no
desenvolvimento do país. Esse critério
está para além dos pressupostos de
adequação dos profissionais, de um
modo geral, às necessidades do mer-
cado, “empurrando-os” para o sistema
de ensino privado, após terem sido
qualificados com os recursos do setor
público;
Sabemos todos do que dispomos,
do que nos falta e, seguramente, po-
demos recriar a educação nacional, se
conseguirmos empreender as nossas
ações coletivas com o olhar lúcido e
dialético, que nos faz mirar o passado,
o presente e o futuro, como um ato
contínuo da nossa história da educa-
ção, de apenas 500 anos, porém mui-
to longos e pesados, para a maioria
dos excluídos.
Todos os que alcançamos os pata-
mares mais elevados de qualificação e
de reprodução do nosso “capital cultu-
ral”, estamos conscientes dos limites
da ação individual, porém sabemos,
pela nossa prática cotidiana, que sou-
bemos sempre empreender nosso
melhor esforço de time, de equipe, de
grupo, quando estivemos decididos a
mudar a realidade da educação nacio-
nal. Realizamos diagnósticos sistemati-
camente, temos tido acesso à literatu-
ra nacional e internacional, elaboramos
propostas e executamos diferentes pla-
nos de formação de educadores, por-
tanto conhecemos os limites e as pos-
sibilidades que estão dadas, no mo-
mento em que se renova a conjuntura
do país, do ponto de vista, político.
Nesse contexto, podemos adotar
uma posição ativa ou passiva. Melhor
será que possamos com a nossa firme
participação, colaborarmos no proces-
so de resgate da extraordinária dívida
acumulada na história do Brasil, com a
maioria de suas crianças, jovens e ido-
sos de todos os gêneros e etnias, que
constituem o contingente de excluídos
e miseráveis desse país.
Mais que toda a nossa capacidade
de elaborar, discursar, discutir de for-
ma, muitas vezes, reiterativa e desne-
cessária, necessitamos potencializar a
prática como realização de nossas me-
lhores perspectivas críticas de caráter
teórico-prático. Sem teoria, a prática é
mero ato espontâneo e empírico, no
sentido restrito. Sem prática, as idéias
são mera abstração e reproduzem o
idealismo, como forma tão insuficiente
do pensamento humano, quanto o
positivismo rudimentar ou o materia-
lismo mecanicista.
O desafio é grandioso e, portanto,
poderemos avançar muito e, também,
retroceder ainda mais, dependendo do
quanto se possa realizar, em termos de
reintegrar tudo que se fragmentou no
âmbito teórico-prático, na esfera da
ação individual e coletiva, no universo
dos interesses públicos e privados.
Reinventar a concepção de Brasil
também desafia a subjetividade de ca-
da educador, de cada pesquisador, de
cada intelectual, de tal modo que po-
deremos redefinir a nossa condição de
nos identificarmos, de modo mais lúci-
do, com os interesses da classe traba-
lhadora ou da classe hegemônica.
Mas, e agora, quem é a classe hege-
mônica do Brasil? Somos dirigentes e
dirigidos? Somos intelectuais orgâni-
cos a serviço de quem?
Recuperar a positividade da década
de 80 é também rever a “agenda ocul-
tada” pela ideologia do neoliberalis-
mo, durante os anos 90 e a Era FHC,
de modo que possamos exorcizar os
ogros do espírito do capitalismo, que
desejaram hegemonizar os sindicatos
classistas, os partidos de esquerda, as
universidades combativas e críticas e
os melhores quadros da educação na-
cional. Por outro lado, o “bloco no po-
der” nem de longe pode desconhecer
o papel fundamental de todos os su-
jeitos coletivos que constituem os ato-
res sociais, sem os quais a história não
se transforma. Portanto, durante a rea-
lização de um projeto de governo de-
mocrático-popular, mais que nunca
devem estar ativos e atuantes, de for-
ma independente, os sindicatos, as en-
tidades de caráter científico, estudantil
e popular, os movimentos sociais, os
partidos políticos e todas as organiza-
ções que aglutinam perspectivas críti-
cas e projetos alternativos para o de-
senvolvimento do país que promovam
condições objetivas de superação do
capitalismo.
A história não se repete, mas recu-
perar, no leito do passado, a nossa
mais significativa produção teórica e
prática é nosso dever de cidadãos críti-
cos, justamente, para que se evite que,
no novo tempo da história do Brasil,
outros protagonistas descompromissa-
dos e/ou equivocados tomem a cena
para produzir uma farsa.
* Maria de Fátima Felix Rosar é profes-
sora do Departamento de Filosofia e Histó-
ria da Educação da Faculdade de Edu-
cação da Unicamp.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 157UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Sabemos todos do que
dispomos, do que nos falta e,
seguramente, podemos recriar
a educação nacional, se
conseguirmos empreender as
nossas ações coletivas com o
olhar lúcido e dialético, que
nos faz mirar o passado,
o presente e o futuro.
No final dos anos 80 e ao longo dos
anos 90, um mal-estar foi tomando
corpo na Universidade de São Paulo.
Os setores comprometidos com a
defesa da escola pública, gratuita e
de qualidade passaram a sentir que a
USP vivia um processo de privatização
“por dentro”, caracterizada pela
realização de negócios (venda de
projetos, cursos e outros serviços)
por grupos de docentes, os quais
instituíram, com essa finalidade,
fundações privadas montadas à
sombra das próprias unidades.
Esse processo recebeu grande im-
pulso com a chamada “flexibilização”
do Regime de Dedicação Integral à
Docência e à Pesquisa (RDIDP), que a
USP passou a permitir desde 1988,
quando entrou em vigor seu novo Es-
tatuto. A “flexibilização”, ao fazer do
RDIDP um regime de dedicação inte-
gral, ma non troppo, liberou os docen-
tes que assim o desejassem para um
intenso envolvimento com atividades
privadas lucrativas, ao abrigo das auto-
denominadas “fundações de apoio”.
Na mesma época, no plano interna-
cional e no plano nacional, criava-se
um ambiente favorável às reformas
que viriam a ser chamadas de neolibe-
rais. A derrota do bloco democrático-
popular nas eleições presidenciais de
1989 foi a senha para a implantação
das primeiras medidas de cunho neoli-
beral, por iniciativa de Fernando Collor.
Mas foi a partir de 1995, com a chega-
da de Fernando Henrique ao poder,
que tomaram forma certas inovações
legais destinadas a privatizar o serviço
público, inclusive na educação, como a
figura das “organizações sociais” conce-
bida por Bresser Pereira e as benesses
concedidas às fundações privadas, na
Lei de Licitações e no relacionamento
com as universidades federais.
Na USP, apesar das fartas evidências
de que as fundações “de apoio” cons-
158 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Fundações privadas na USP,
a privatização insolente
Ciro T. Correia* e
Pedro E. da Rocha Pomar**
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
tituíram-se num poder paralelo, e de
que exerciam influência deletéria so-
bre a docência, a pesquisa e a exten-
são, as entidades representativas da
comunidade defrontavam-se com a
escassez de dados sobre a atividade
daquelas instituições. Escassez, diga-se
logo, devida à absoluta falta de trans-
parência das fundações “de apoio”. Da
necessidade de qualificar o debate, in-
tervindo nele com informações subs-
tanciais sobre os resultados financeiros
dessas instituições e as quantias repas-
sadas à USP, bem como sobre a natu-
reza de seus negócios, nasceu, na dire-
ção da Associação dos Docentes da
USP, a idéia de empreender uma re-
portagem investigativa de fôlego sobre
o assunto.
O dossiê publicado pela Revista
Adusp, em 2001, compreendendo as
edições 22, 23 e 24, correspondeu à
expectativa e ao esforço nele aplicado,
revelando uma massa de informações
que não deixa margem a dúvidas so-
bre a extensão dos danos provocados
à USP pela presença e atividade das
fundações “de apoio”. A edição 27 (es-
pecial) da Revista Adusp, publicada
em outubro de 2002, complementou
o dossiê, ao denunciar a inacreditável
quantidade de cursos pagos ofereci-
dos pela USP, em “parceria” com insti-
tuições privadas.
Ao introduzir no debate esse subs-
trato empírico, a Adusp tirou o chão
aos defensores das fundações “de
apoio”, acostumados a tecer longas
arengas sobre as supostas qualidades
das suas instituições, sem jamais men-
cionar o reduzido valor dos repasses
efetuados às unidades da USP “apoia-
das”, nem os elevados ganhos pecu-
niários de alguns docentes, responsá-
veis por projetos transacionados dire-
tamente com o poder público, sem li-
citação, ou envolvidos com cursos de
especialização oferecidos a empresas
ao preço de R$ 20 mil por aluno, ou
com qualquer outro negócio privado
realizado sob a chancela da grife “USP”.
A iniciativa da Adusp não somente
estimulou a resistência de docentes,
estudantes de graduação e pós-gra-
duação e funcionários, mas foi por sua
vez informada e enriquecida por tais
experiências de luta. Solidarizou-se
com a decisiva ação dos estudantes
que, em 2001, precisaram, em 26/6,
ocupar a sala de reuniões do Conselho
Universitário, e, em 4/9, bloquear a
entrada dos conselheiros, para impedir
a aprovação quase certa (embora sem
qualquer debate prévio pela comuni-
dade) de uma oportunista proposta da
Reitoria de nova “regulamentação” dos
vínculos com as fundações privadas
“de apoio”, que retirava do Conselho
Universitário a competência de apro-
var os convênios com essas entidades,
substituía a necessidade dos convê-
nios pela inclusão das entidades em
um cadastro geral, e concedia exclusi-
vamente ao Reitor o poder de autori-
zar ou não dita inclusão.
Em conjunto com estudantes e fun-
cionários, a Adusp participou de uma
audiência pública convocada pela
Comissão de Educação da Assembléia
Legislativa, relatada no D.O. de SP, de
22/11/2001, onde ficaram evidentes
tanto as várias irregularidades da atua-
ção dessas fundações privadas como a
quase total falta de controle sobre elas,
seja no âmbito da própria USP, do
Tribunal de Contas do Estado ou por
parte da Promotoria das Fundações do
Ministério Público Estadual.
O dossiê “Fundações” da Revista
Adusp trouxe uma vasta gama de in-
formações sobre as fundações “de
apoio”: seu modus operandi, a escala
de seus ganhos, os imbricamentos na
burocracia da USP e no governo esta-
dual. Tais dados foram colhidos me-
diante dificuldades surpreendentes, o
que ensinou sobre o poder dessas en-
tidades.
A maior parte dos documentos foi
obtida nos arquivos da Promotoria de
Fundações da capital paulista. As
quase 20 fundações privadas “de
apoio” vinculadas ao campus central
da USP são, deveriam ser, fiscalizadas
por essa Promotoria, pertencente ao
Ministério Público Estadual. A ela cabe
também fiscalizar as quase 400 outras
fundações privadas atuantes na capital
e que nada têm a ver com a USP. Por
lei, as fundações privadas, inclusive as
“de apoio” à USP ou às suas unidades,
têm de enviar a essa Promotoria seus
balanços financeiros anuais, atas das
reuniões dos órgãos de direção e ou-
tros documentos relevantes.
O estudo dessa massa de papéis,
cuja maior parte foi previdentemente
selecionada e copiada pela equipe da
Revista Adusp, antes mesmo de vir a
público a primeira parte do dossiê
“Fundações”, permitiu entender o que
são e como agem essas organizações.
Não foi por outro motivo que já a par-
tir da publicação da Revista Adusp 22,
a primeira do dossiê, o acesso dos re-
pórteres à documentação da Promo-
toria foi interrompido, depois que o
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 159
A Adusp participou de uma audiência pública convocada pela
Comissão de Educação da Assembléia Legislativa, relatada no
D.O. de SP, de 22/11/2001, onde ficaram evidentes tanto as
várias irregularidades da atuação dessas fundações privadas
como a quase total falta de controle sobre elas.
160 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
reitor da USP, professor Jacques Mar-
covitch, que presidiu durante sete anos
a Fundação Instituto de Administração
(FIA), telefonou para a Promotoria pa-
ra protestar contra a divulgação dos
papéis.
Desse momento em diante, a
Revista Adusp teve acesso a pouquíssi-
mos documentos da Promotoria das
Fundações da capital. Foi necessário
recorrer diretamente aos cartórios
onde as fundações privadas “de apoio”
registram suas atividades. Verificou-se
que algumas dessas entidades “espa-
lham” documentos em mais de um
cartório, o que dificulta a busca. Em
um dos casos, o da Fundação para o
Desenvolvimento da Tecnologia (FDTE),
ligada à Escola Politécnica, o cartório
só dispunha de algumas atas irrelevan-
tes, contendo a composição das dire-
ções e as subseqüentes alterações.
Coincidentemente, essa instituição foi
uma das que se negaram terminante-
mente a fornecer seus números.
Em poucos casos, as fundações for-
neceram as informações solicitadas.
Outros dados foram obtidos junto à
Promotoria de Fundações de Ribeirão
Preto (cidade que abriga outro impor-
tante campus da USP, no qual atuam
várias fundações “de apoio”), que obri-
gava as instituições privadas a preen-
cher anualmente um formulário-pa-
drão detalhado que incluía, por exem-
plo, os principais valores movimenta-
dos e a relação dos principais fornece-
dores. Informações adicionais foram
obtidas nos tribunais de contas e em
diversas fontes oficiais e não oficiais.
E, especialmente a partir do segun-
do número do dossiê, foi dado amplo
espaço para a manifestação dos diri-
gentes das fundações “de apoio”, por
meio de entrevistas e artigos. O discur-
so dessas pessoas é muito eloqüente
no demonstrar que tipo de fenômeno
está (ou esteve) em curso na USP e
em diversas outras universidades bra-
sileiras: uma privatização insolente,
realizada às escâncaras, que se preten-
de absolutamente “natural” e que joga
na contramão da modernidade todos
aqueles que ousam argumentar que
há algo de errado com esse modelo.
A seguir, são indicadas as caracterís-
ticas mais importantes das entidades
autodenominadas “fundações de apo-
io” universitárias existentes na USP (e
das situações que elas engendram ou
induzem), e que, de acordo com os
dados reunidos, parecem constituir
um padrão no Brasil. Na USP, elas são
31, na Unicamp quatro e na Unesp 17.
Nas universidades federais de todo o
país, as cadastradas pelo MEC já so-
mam 137!
1. A finalidade “não lucrativa”
e o caráter empresarial
As fundações privadas “de apoio”
declaram-se, e são reconhecidas por
lei, como “entidades sem fins lucrati-
vos”. Essa é a condição para que rece-
bam do poder público uma série de
benesses, em especial a isenção de
impostos e a dispensa de licitação nas
contratações pelo poder público. Por-
tanto, elas não possuem sócios cotis-
tas, não oferecem dividendos e formal-
mente não são “lucrativas”. Contudo,
constata-se que essa condição é pura-
mente formal. Na realidade, na maior
parte, as fundações privadas “de apo-
io” são organizações de tipo empresa-
rial, voltadas para o mercado e instituí-
das com a finalidade de auferir ganhos
significativos para seus participantes,
especialmente os coordenadores de
projetos.
Os documentos das instituições são
claros, por exemplo: “Análise de mer-
cado em termos de viabilidade e da
posição competitiva da FIA, no nicho
ou segmento a ser explorado, além de
uma adequada avaliação orçamentá-
ria, são algumas das recomendações a
serem observadas” (Fundação Instituto
de Administração, Plano de Trabalho,
2000). É digno de nota o fato de que,
em 1999, a Fundação Instituto de Pes-
quisas Econômicas (Fipe) e a FIA cons-
tituíram um consórcio para executar
uma auditoria do Censo Escolar, finan-
ciada com verba do Banco Mundial, e
a Fipe foi designada “empresa líder”
do consórcio.
Os excedentes existem (e como!),
mas não assumem a forma contábil de
“lucros”. Eles remuneram os partici-
pantes e, em menor escala, a própria
fundação (overhead) e, só depois, a
USP (repasses ao departamento, à
unidade, e à Reitoria). Na contabilida-
de das instituições, o grosso do lucro
está disfarçado na rubrica “pagamen-
tos de serviços de terceiros”. Os “tercei-
ros” são, na maioria das vezes, os pró-
prios docentes envolvidos nos projetos
vendidos ao poder público ou à inicia-
tiva privada.
Esse mecanismo foi desvendado
pelo Ministério Público Federal de
Bauru, que solicitou à Receita Federal
uma investigação sobre as pessoas ju-
rídicas que recebiam pagamentos da
Fundação Bauruense de Estudos
As fundações privadas “de apoio” declaram-se, e
são reconhecidas por lei, como “entidades sem fins lucrativos”.
Essa é a condição para que recebam do poder público uma série
de benesses, em especial a isenção de impostos e a dispensa
de licitação nas contratações pelo poder público.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 161
Odontológicos (Funbeo, vinculada à
Faculdade de Odontologia de Bauru,
da USP), pertencentes aos próprios
docentes envolvidos com cursos pa-
gos, ou a familiares seus.
2. A importância
econômico-financeira
O levantamento da Revista Adusp
estimou que o conjunto das fundações
“de apoio” vinculadas à USP movi-
menta anualmente valor equivalente a
cerca de 1/3 da dotação orçamentária
anual da USP. Posteriormente, em de-
zembro de 2002, uma comissão cons-
tituída pela Reitoria para tratar das fun-
dações divulgou, em seu relatório final,
que “o montante de recursos movi-
mentados pelo sistema no ano de
2001 foi da ordem do orçamento da
USP” (R$ 1,2 bilhão!).
As instituições economicamente
mais fortes, ligadas à Faculdade de
Economia, Administração e Contabili-
dade (FEA) e às faculdades de Medi-
cina, têm receitas isoladas maiores do
que a dotação das próprias unidades
“apoiadas”.
Nos anos 1998-2000, as seis maio-
res fundações “de apoio” atuantes nos
campi da USP da capital e de Ribeirão
Preto (aquelas com receita anual su-
perior a R$ 20 milhões) arrecadaram,
em conjunto, valores anuais superiores
a R$ 400 milhões (ver tabela). O total
arrecadado por elas conjuntamente,
nesse período de apenas três anos, foi
de R$ 1,363 bilhão, o que representa o
equivalente à dotação orçamentária
anual total da USP, em 2002.
Poder-se-á objetar, sempre, que é
proveniente do Sistema Único de Saú-
de (SUS) o grosso das receitas da Fun-
dação Faculdade de Medicina (FFM),
da Fundação Zerbini (FZ) e da Funda-
ção de Apoio ao Ensino, Pesquisa e As-
sistência do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto (Faepa), que foram as três maio-
res em arrecadação no ano 2000, e
que se trata de verba “carimbada”. Em
que medida isso comprometeria os
dados aqui apresentados?
É verdade que, ao contrário do que
ocorre com as fundações da FEA, a
maior parte dos recursos que entram
nas fundações ligadas aos HCs tem
destinação pública e não apropriação
privada. A maior parte, mas não toda.
O levantamento da Revista Adusp indi-
ca que parte da verba “carimbada” do
SUS é destinada a fins duvidosos ou
ilegais, a começar pela “taxa de ges-
tão” cobrada pelas instituições priva-
das, que é de 7,5%, no caso da FFM;
que a “segunda porta” instituída nos
HCs pelas fundações - o atendimento
remunerado oferecido a usuários de
seguro-saúde e pacientes particulares -
abre caminho à privatização da saúde;
e que as práticas introduzidas por es-
sas entidades geram distorções que
afetam ensino, pesquisa e extensão
das unidades envolvidas. Exemplo: 14
docentes da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto são funcionários da
Faepa e seu pagamento sai da verba
SUS!
Além disso, o fato de se tratar de
hospitais universitários implica aumen-
to da verba SUS em 75%, em razão da
existência do bônus Fideps, Fundo de
Incentivo para o Desenvolvimento do
Ensino e da Pesquisa Superior. A es-
pantosa tentativa de diversos dirigen-
tes dessas fundações de minimizar a
importância dos laços existentes entre
a USP e os HCs cai, assim, por terra.
De qualquer modo, mesmo limitan-
do-se o exame às fundações da FEA -
FIA, Fipe e Fundação Instituto de Pes-
quisas Contábeis, Atuariais e Finan-
ceiras (Fipecafi) - o volume de recursos
arrecadados permanecerá impressio-
nante. Num único ano, o de 1998, es-
sas três instituições privadas arrecada-
ram juntas R$ 134 milhões, o equiva-
lente a 16% de toda a dotação orça-
mentária da USP, nesse mesmo ano.
No período 1998-2000, estima-se que
elas tenham obtido uma receita con-
junta de R$ 347 milhões. A maior parte
desses recursos teve destinação priva-
da, como demonstram os números da
FIA, a maior delas.
Em 1998, a FIA arrecadou R$ 64,9
milhões, dos quais R$ 35,4 milhões
(54%) foram destinados a “despesas
com pessoal técnico”, o que inclui os
honorários de docentes coordenado-
res e demais docentes envolvidos, pes-
soas físicas e jurídicas e técnicos. Des-
taque-se que o pagamento dos funcio-
nários da FIA, que chegaram a ser 346
naquele ano, está em outra rubrica,
“pessoal administrativo”, e consumiu
R$ 7,9 milhões (12% da receita). O
overhead ficou em R$ 9,8 milhões
(15% da receita) e o superávit em R$
1,6 milhão.
Também em 1998, o fundo de pre-
vidência privada mantido pela FIA para
“seus” docentes e funcionários alcan-
*estimativa da FFM **estimado- a Fipe não forneceu o dado
Fontes: dados oficiais da FFM, FZ, Faepa, FIA, Fipe e Fipecafi
Receita das 6 maiores fundações “de apoio” à USP
na Capital e em Ribeirão Preto (em milhões de R$)
1998 1999 2000
FFM 145,9 152,5 180,0*
FZ 112,0 119,0 138,0
FIA 64,9 49,7 50,3
Faepa 50,0 57,5 71,9
Fipecafi 42,2 27,6 29,7
FIPE 27,5 27,5** 27,5**
Totais 442,5 423,8 497,4
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE162 Ano XII, Nº 29, março de 2003
çou o saldo acumulado de R$ 8 mi-
lhões (passaria a R$ 13 milhões em
1999, graças à remuneração recorde
dos investimentos em dólar feitos pela
instituição). Como essa pujança refle-
tiu-se em termos de repasses financei-
ros para a USP? Muito modestamente:
só há registro, nos documentos da
própria FIA, do repasse de R$ 0,88 mi-
lhão para a universidade (1,35% da re-
ceita).
Atuam, na USP, ainda, duas dezenas
de fundações “de apoio” de médio e
pequeno porte, em termos de receita,
e cuja escala de ganhos vem crescen-
do nos últimos anos. A maior e mais
conhecida desse grupo é a Fundação
Vanzolini (FCAV), vinculada ao Depar-
tamento de Engenharia de Produção
da Escola Politécnica, e que arrecadou
R$ 12,5 milhões em 2000, repassando
à USP só R$ 0,468 milhão (3,7% da
receita), ao passo que os pagamentos
a pessoas físicas e jurídicas somaram
R$ 6,1 milhões (49%). Note-se que,
em 1997, a FCAV arrecadou menos, R$
11,2 milhões, mas pagou mais a pes-
soas físicas e jurídicas: R$ 6,7 milhões
(60% da receita).
A situação das fundações privadas
“de apoio” tornou-se indefensável, do
ponto de vista da argumentação que
sempre desenvolveram, a partir do
momento em que a Coordenadoria de
Administração Geral da USP (Codage)
divulgou, a contragosto, os dados ofi-
ciais referentes aos repasses pratica-
dos por essas entidades (vide tabela
completa na Revista Adusp 24, p. 134).
Isso ocorreu no dia 9/10/2001, quan-
do o Conselho Universitário tomou co-
nhecimento, pela primeira vez, dos
montantes recolhidos à USP, por essas
entidades, por força da Resolução
4543/98, da Reitoria.
Essa Resolução determina que a
unidade “deverá reter no mínimo 10%
e no máximo 50% do numerário rece-
bido pelo docente”, em decorrência da
participação deste em “atividades de
assessoria, consultoria, convênios e
contratos”, e que deverá recolher à Rei-
toria “o equivalente a 5% desse nume-
rário” (artigo 1º). Embora isso não
conste explicitamente do texto da
Resolução, no caso de atividades de-
senvolvidas por docentes em funda-
ções privadas “de apoio”, cabe a estas
fazer o respectivo repasse.
Os dados da Codage informam que,
até julho de 2001, só 21 fundações pri-
vadas “de apoio” repassavam verbas à
USP, das 30 listadas pela Reitoria, no
Jornal da USP (27/8-2/9/2001, p. 10-
11). Estranhamente, a Codage omitiu
os dados relativos a 1998, ano em que,
de acordo com a Resolução 4543, de-
veriam ter início os repasses sistemáti-
cos. Na circular Codage 099/98, lê-se
claramente: “Devem ser recolhidos à
Reitoria e às Unidades os percentuais
sobre convênios/contratos em vigor
desde a edição da Resolução 4543,
em 20 de março de 1998, que ainda
não o tenham sido. Todos os recolhi-
mentos ainda pendentes devem ser
regularizados até a data limite de 30
de novembro de 1998”.
Tal circular foi assinada pelo profes-
sor Hélio Nogueira da Cruz, então coor-
denador da Codage (e hoje vice-reitor
da USP). No caso de pelo menos uma
das fundações privadas “de apoio”, a
Fundace, já se sabe que ela não realizou
repasse à USP, em 1998, apesar da re-
ceita de R$ 2,2 milhões (Fundace, Re-
latório de Atividades 1999, fornecido
pela Promotoria de Fundações de Ri-
beirão Preto).
De acordo com os dados da Co-
dage, em 1999, as 21 fundações priva-
das “de apoio” repassaram à USP um
total de R$ 9,106 milhões; em 2000,
R$ 13,248 milhões; e, em 2001, até
julho, R$ 6,614 milhões. O total no
período soma R$ 28,96 milhões. O or-
çamento da USP foi de R$ 918 mi-
lhões, em 1999, e R$ 1,173 bilhão em
2000. Conclui-se que os repasses das
21 fundações privadas, nesses dois
anos, equivalem a, respectivamente,
apenas 1% e 1,5% do total do orça-
mento da universidade, e que, desse
modo, essas entidades não financiam
a universidade, ao contrário, transfe-
rem para ela uma fatia deveras mínima
de seus ganhos. Ainda que esse per-
centual venha a crescer de 2001 em
diante, por força da pressão da comu-
nidade, será sempre inferior à “parte
do leão” que cabe às entidades, pois
tal é a lógica do sistema.
Há indicações, porém, de que as
cifras da Codage, mesmo desfavorá-
veis às fundações privadas “de apoio”,
são passíveis de contestação, para
baixo. Algumas delas não coincidem
sequer com os próprios dados declara-
dos pelas entidades à Promotoria de
Fundações. A Codage informa que a
FIA recolheu R$ 2,851 milhões à USP,
em 2000, entre taxas de convênios e
repasses à FEA. Mas a informação ofi-
cial da própria fundação é de que o
valor total recolhido foi de R$ 2,3
milhões. A diferença é de R$ 0,5
milhão a menos! Também discrepam,
e muito, as cifras atribuídas aos repas-
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
ses da FCAV, no ano 2000. A Codage
menciona R$ 906 mil, mas a FCAV indi-
ca a metade desse valor: R$ 468 mil. É
como se a Receita Federal informasse
que o contribuinte pagou mais impos-
to do que o efetivamente recolhido por
ele..
3. A origem dos recursos
Ao contrário do que propalam, as
fundações universitárias, na realidade,
apóiam-se nas instituições de ensino
que dizem apoiar, nelas indo buscar a
força de trabalho, as instalações, os
equipamentos e, sobretudo, a força
simbólica da “marca”. Portanto, os re-
cursos constituintes das fundações - os
“fatores de produção”, sem os quais
elas não conseguiriam viabilizar-se - são
públicos, e mesmo aquelas que adqui-
riram sedes próprias ainda utilizam sis-
tematicamente os prédios e instalações
da USP, e só raramente ressarcem as
unidades respectivas por tal uso.
Porém, igualmente significativo é o
fato de que as verbas que ingressam
nas fundações privadas “de apoio”, co-
mo remuneração por serviços de con-
sultoria, projetos e cursos, têm origem
pública, na maior parte dos casos, mes-
mo sem considerar os recursos oriun-
dos do SUS. Os números da FIA, por
exemplo, indicam que, entre 1994 e
1998, o percentual da sua receita ori-
undo do setor público nunca foi infe-
rior a 80%, chegando mesmo a 89%,
em 1996. No ano de 1998, o melhor
da história da FIA, a fatia da receita pro-
veniente do setor público foi de 70%.
Quer dizer que, dos quase R$ 65 mi-
lhões recebidos por essa fundação pri-
vada “de apoio”, naquele ano, mais de
R$ 45 milhões saíram dos cofres de
empresas públicas, prefeituras, gover-
nos estaduais e governo federal.
A partir de 1998, a parte da receita
proveniente do setor público declinou,
mas continuou a ter um peso impor-
tante na vida de várias das fundações.
No caso da FCAV, pelo menos 1/3 da
arrecadação decorre da certificação de
produtos e processos de produção,
delegada pelo Inmetro, um órgão fede-
ral. A cada certificação concedida, o
Inmetro recebe meros 12% do valor
embolsado pela FCAV. Outra fonte de
renda é o gerenciamento de projetos
do governo estadual, mediante o qual
essa “fundação de apoio” recebe um
determinado percentual.
Nos últimos anos, ganhou impulso a
oferta, por fundações privadas “de
apoio”, de cursos pagos de todo tipo,
entre eles os chamados MBA (master
of business administration), que che-
gam a ter um preço de até R$ 30 mil
por aluno. Esses cursos, em geral con-
tratados por empresas, são altamente
rentáveis e se mostraram uma alterna-
tiva aos negócios com o setor público.
Os cursos pagos tornaram-se uma in-
dústria com anúncios nos cadernos de
emprego dos jornais, folhetos colori-
dos, outdoors e até comerciais na tele-
visão, como os promovidos pela já cita-
da Fundace, entidade ligada à FEA, de
Ribeirão Preto, cuja receita chegou a R$
3,9 milhões, em 2000 (crescimento de
77% em apenas dois anos).
O que torna esses cursos particular-
mente atraentes é que eles oferecem
diplomas “USP”, em geral “legitimados”
por convênios firmados entre as funda-
ções e as unidades respectivas. O prin-
cípio da gratuidade no ensino público,
em estabelecimentos oficiais, assegu-
rado pelo artigo 206, da Constituição
Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases
da Educação, é assim ostensivamente
ignorado. Destaque-se ainda que as
fundações privadas não são instituições
de ensino superior, portanto não
podem ministrar cursos de ensino su-
perior: o artigo 45, da LDB, reza que a
educação superior “será ministrada em
instituições de ensino superior, públicas
ou privadas”. Caso um curso cuja res-
ponsabilidade legal, por força de convê-
nio, seja da USP, ainda que administra-
do por uma fundação privada, nem por
isso deixa de ser da USP, portanto
necessariamente terá de ser gratuito.
“Outro aspecto que merece uma
análise detalhada diz respeito aos con-
vênios firmados entre instituições pú-
blicas de ensino superior, através de
suas fundações de apoio e instituições
particulares, para oferta de cursos de
especialização em que os alunos pa-
gam mensalidades ... porque estão
sendo flagrantemente violados tanto o
dispositivo do art. 206, inciso IV, da CF,
que trata da gratuidade do ensino nos
estabelecimentos oficiais, como o art.
208, inciso V, da CF que dispõe que o
dever do Estado para com a educação
deve se dar mediante a garantia de
acesso aos níveis mais elevados do en-
sino, da pesquisa e da criação artística,
segundo a capacidade de cada um ... o
ensino pago passa, indevidamente, a
também fazer parte do ensino de pós-
graduação público” (Maliska M.A.,
2001, pg. 212).
4. A concorrência desleal
As fundações privadas “de apoio”
exercem concorrência desleal com os
profissionais lançados no mercado de
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 163UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Igualmente significativo é o fato de que as verbas que
ingressam nas fundações privadas “de apoio”,
como remuneração por serviços de consultoria, projetos
e cursos, têm origem pública, na maior parte dos casos.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
164 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
trabalho e com as empresas comuns,
pois a) operam como empresas de
consultoria, fazendo uso ostensivo ou
não de um bem simbólico, a marca
“USP” (incorporada aos nomes, como
em “FIA-USP” ou “Fundação Vanzolini-
USP”), de valor incalculável, b) con-
quistam contratos do setor público
sem passar por licitação, c) deixam de
pagar impostos que oneram suas con-
correntes. É o melhor dos mundos.
A chamada Lei das Licitações (Lei
8666/93), que regula a realização de
licitações pelo setor público, admite
exceções que beneficiam as fundações
privadas “de apoio”. A primeira é o arti-
go 24, inciso XIII, com redação dada
pela Lei 8.883/94, que define como
“dispensável a licitação” quando hou-
ver “contratação de instituição brasilei-
ra incumbida regimental ou estatuta-
riamente de pesquisa, do ensino ou
do desenvolvimento institucional”,
desde que “a contratada detenha in-
questionável reputação ético-profissio-
nal e não tenha fins lucrativos”.
Já o artigo 25, inciso II, prevê a ine-
xigibilidade da licitação quando se tra-
tar de “contratação de serviços técni-
cos ... de natureza singular, com profis-
sionais ou empresas de notória espe-
cialização”. A Fipecafi foi contratada
sem licitação pelo Banco Central, em
1998, com base nesse dispositivo, co-
mo revelou a CPI do Banespa. A “notó-
ria especialização”, porém, já estava
presente em outro diploma legal, revo-
gado pela Lei 8666/93: o Decreto-Lei
2.300/86 (com a redação dada pelo
Decreto-Lei 2.360/87), que, em seu ar-
tigo 22, inciso VIII, dispensava a licita-
ção “para a contratação de serviços
técnicos com profissionais de notória
especialização”.
Em 1992, por exemplo, o Banco do
Brasil firmou, de uma só vez, um con-
vênio com três fundações privadas “de
apoio”: FIA, Fipecafi e Fipe, sem licita-
ção, com base no citado Decreto-Lei.
Em 1995, o convênio foi renovado por
mais cinco anos por um termo aditivo,
“dispensada a licitação com funda-
mento na Lei 8.666, com a redação
dada pela Lei 8.883”. Graças a esse
convênio, a FIA executou 23 projetos
remunerados para o BB, até 1995, e
outros 18, nos anos seguintes. Para se
ter uma idéia da escala de valores, o
BB pagou, por 11 projetos realizados
em 1995 (quase sempre cursos para
executivos), e coordenados por dois
docentes da FEA, a quantia total de R$
1,3 milhão em números redondos - o
equivalente a US$ 1,30 milhão, na
época.
O Tribunal de Contas da União
(TCU), que estudou 1824 contratos de
consultoria firmados por 219 órgãos e
entidades da administração pública
federal, entre 1997 e 1999, relacionou
a Fipecafi e a FIA entre os “dez maio-
res contratados por total de valores
contratados”, com as cifras de R$ 34,9
milhões e R$ 32 milhões, respectiva-
mente (TC-005.168/2000-5, Relatório,
sessão de 7/2/2001).
De acordo com o TCU, dos contra-
tos examinados, 1352 (74%) foram fir-
mados através de dispensa ou inexigi-
bilidade de licitação. Das 646 dispen-
sas, “250 (38%) foram realizadas ten-
do como base o inciso XIII, do art. 24,
da Lei 8666/93, sendo que, na quase
totalidade dos casos, foram contrata-
das ‘fundações de apoio a univer-
sidades’ “ (TC-005.168/2000-5, Rela-
tório, sessão de 7/2/2001). No perío-
do, a FIA realizou 17 contratos com o
setor público federal, 16 dos quais
sem licitação. A Fipecafi firmou 11 con-
tratos com a administração federal, 10
deles sem licitação.
Entre o aparato normativo que tor-
na ainda mais atraente classificar uma
entidade como uma fundação “de
apoio” a universidades, merece desta-
que a letra “c”, do inciso VI, do artigo
150, da Constituição Federal, ao prever
que é vedado à União, aos Estados e
Municípios instituir impostos sobre
“instituições de educação e de assis-
tência social, sem fins lucrativos”, des-
de que sejam declaradas de utilidade
pública, o que é feito, em geral, sem
maiores dificuldades, pelo Ministério
Público Estadual.
Novos favores fiscais sobrevieram
com a Medida Provisória 1858-6, que
isentou do pagamento da Contribui-
ção para o Financiamento da Segurida-
de Social (Cofins), em relação a fatos
geradores posteriores a 1º/2/1999, as
fundações de direito privado e outras
instituições. Graças a essa benesse, a
FIA, uma das que deixaram de recolher
a Cofins, economizou quase R$ 1,7
milhão somente no exercício de 1999.
No caso das fundações privadas “de
apoio” que gerenciam os complexos
hospitalares vinculados à USP, a isenção
estende-se à contribuição para com a
Previdência. O certificado de entidade
filantrópica, atribuído a essas entidades
pelo Conselho Nacional de Assistência
Social (CNAS), isenta-as da obrigação
de pagar a contribuição previdenciária
de seus funcionários e contratados. A
Fundação Faculdade de Medicina reve-
la as dimensões desse privilégio: “a
contribuição previdenciária aproximada
devida, caso não gozasse de isenção,
poderia ser assim demonstrada”: R$
23,78 milhões, em 1999, e R$ 24,65
milhões, em 2000 (FFM, Demons-
trações Financeiras 2000, p. 10).
5. Conflito de interesses
As instituições privadas que dizem
“apoiar” a USP, não sobreviveriam sem
a mão amiga da burocracia da univer-
sidade. E, na medida em que se exa-
mina a composição dos corpos diri-
gentes das fundações “de apoio”, veri-
fica-se que neles estão presentes mui-
tos daqueles que exercem ou exerce-
ram posições de mando, na hierarquia
da USP. Constatou-se que os represen-
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 165UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
tantes dessas instituições somam 1/4
da composição do Conselho Universi-
tário; que são maioria numa das mais
importantes comissões do Conselho
Universitário da USP, a Comissão de
Orçamento e Patrimônio (COP); e que
ocupam ou ocuparam posições em ór-
gãos da administração direta da
Universidade - é o caso dos professo-
res Jacques Marcovitch (ex-presidente
da FIA, ex-pró-reitor de Cultura e Ex-
tensão e ex-reitor) e Hélio Nogueira da
Cruz (membro do Conselho Curador
da Fipe, durante 12 anos coordenador
da Codage e atual vice-reitor).
A existência e atividade das funda-
ções “de apoio” criou, na USP, um
imenso cipoal de conflitos de interes-
se. Não é um problema apenas simbó-
lico: diz respeito a questões materiais,
cifras importantes que estão em jogo.
O ocupante da Reitoria ou diretor de
uma unidade é voz determinante na
decisão sobre o montante que deter-
minada fundação deve pagar, a título
de ressarcimento pelo uso de um pré-
dio. Se uma dessas autoridades tam-
bém ocupa um cargo, na direção ou
no conselho dessa mesma fundação,
evidencia-se o conflito de interesses. E
se, na assinatura de um convênio en-
tre uma fundação privada e uma uni-
dade, um diretor está presente de um
lado e de outro do balcão, como ocor-
reu na Escola de Comunicações e Ar-
tes (ECA) e na Escola Politécnica, isso
beira a prevaricação.
Além desses casos particulares, que
se contam às dezenas na USP, há um
conflito genérico de interesses. É sim-
ples: funcionário público não pode
transacionar com o Estado, por moti-
vos óbvios. O Estatuto dos Servidores
Públicos do Estado de São Paulo (lei
10.261/68) veda peremptoriamente
essa hipótese, no artigo 243, inciso I:
“É proibido ainda ao funcionário: I- fa-
zer contratos de natureza comercial e
industrial com o Governo, por si, ou
como representante de outrem; II-
participar da gerência ou administra-
ção de empresas bancárias ou indus-
triais, ou de sociedades comerciais,
que mantenham relações comerciais
ou administrativas com o Governo do
Estado, sejam por este subvenciona-
das ou estejam diretamente relaciona-
das com a finalidade da repartição ou
serviço”.
O Estatuto dos Servidores da USP
repete essas normas, ao dispor, no ar-
tigo 168, que “ao servidor é proibido:
IX- firmar contratos de natureza comer-
cial ou industrial com o Estado e a
Universidade” e “X- participar da ge-
rência ou administração de empresas
que mantenham relações comerciais
ou administrativas com o Estado ou
com a Universidade”. No entanto, sob
o manto das fundações privadas “de
apoio”, os grupos de docentes que as
constituíram ou que delas participam
vêm fazendo exatamente isso há vá-
rios anos: transacionando com o Esta-
do. Vendendo serviços e auferindo ga-
nhos que superam em muito seus pró-
prios salários e os de seus colegas.
6. O prejuízo à docência,
à pesquisa e à extensão
A lógica dessas entidades, ao con-
trário do previsto nos seus estatutos, é
mercantilista e a perspectiva de hege-
monia que impõem aos ambientes em
que atuam é incompatível com a ne-
cessária isenção, isonomia, autonomia
de gestão e perspectiva de desenvolvi-
mento humano e social inerentes a
uma universidade pública.
Nesse contexto, na maioria dos pro-
jetos e serviços realizados por essas
fundações trabalham docentes contra-
tados pela USP, em RDIDP, os quais
não raramente recebem por essas ati-
vidades uma remuneração adicional
que supera largamente os seus salá-
rios. Estimativas fundamentadas da re-
muneração adicional desses docentes
que, mesmo em RDIDP, atuaram em
projetos vinculados a essas fundações
privadas “de apoio”, em 2000, indicam
montantes médios da ordem de R$ 57
mil reais por ano (caso da FCAV, em
2000) e mesmo superiores, ao passo
que o salário em RDIDP de um Profes-
sor Doutor, em outubro de 2000, era
de R$ 3.475,16 (pouco mais de 45 mil
reais por ano, computado o 13º).
Outro exemplo: no ano 2000, a FIA
repassou ao Fundo de Taxas de Con-
vênio da Reitoria, segundo a Codage, a
quantia de R$ 1,075 milhão, referente
aos 5% previstos na Resolução 4543/
98. Quer dizer que o bolo da remune-
ração dos docentes ligados a essa fun-
dação privada “de apoio” foi, portanto,
de R$ 21,5 milhões, em números re-
dondos, e que, como havia então 55
docentes em atividade na FIA, eles fi-
zeram jus, em média, a R$ 390 mil
nesse ano!
Tais ganhos adicionais permitem
compreender as denúncias feitas por
alunos de diferentes institutos quanto
à dedicação preferencial de certos do-
centes às disciplinas dos cursos pro-
movidos pelas fundações privadas “de
apoio”, em detrimento das grades cur-
riculares da graduação e da pós-gra-
Tais ganhos adicionais permitem compreender as denúncias
feitas por alunos de diferentes institutos quanto à dedicação
preferencial de certos docentes às disciplinas dos cursos
promovidos pelas fundações privadas “de apoio”.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
166 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
duação convencionais. O brilho assép-
tico dos MBA contrasta com as salas
lotadas de certas disciplinas da gra-
duação, como História Econômica
Contemporânea, que chegou a ter
uma turma de 154 alunos por falta de
professores.
As linhas de pesquisa, concomitan-
temente, passam a ser ditadas pelos
interesses do mercado (incluídos os
daqueles docentes que constituem as
entidades) e dos governos, que são os
grandes contratantes. Pesquisa-se o
que for encomendado (ou sugerido
pelos pesquisadores com o objetivo
de gerar remuneração, o que produz o
mesmo efeito), comprometendo-se
assim a autonomia do saber.
Instituições e empresas privadas, ór-
gãos e empresas estatais, contratam a
maior parte dos projetos de pesquisa
das fundações privadas “de apoio” vin-
culadas à FEA e a outras unidades.
Veja-se o caso da Fipe, fundação pri-
vada que não gosta de divulgar seus
números, mas cujas receitas vinham
aumentando exponencialmente ano a
ano (1995: R$ 11 milhões, 1996: R$
16,7 milhões, 1997: R$ 19,5 milhões,
1998: R$ 27,4 milhões). Entre 1990 e
2000, os docentes ligados à Fipe reali-
zaram 11 pesquisas
sobre emprego e desem-
prego, das quais 5 foram
contratadas pelo
Ministério do Trabalho, 2
por secretarias estaduais
do governo de SP, 1 pela
Organização Internacio-
nal do Trabalho (OIT) e
as restantes por institui-
ções privadas.
A Fipe desenvolveu 43
pesquisas no ano de
2000, das quais somente
8 tratavam de questões
macroeconômicas, de
desenvolvimento econô-
mico ou de questões
ligadas à geração de renda, emprego e
políticas públicas. Outras quatro pes-
quisas tratavam de questões ligadas
ao Fundef, todas contratadas pelo
MEC. Das 43 pesquisas, nada menos
do que 10 foram contratadas pela
Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel), 3 pela Sabesp, 2 pela As-
sociação Brasileira de Distribuidores
de Energia Elétrica (Abradee), 1 pela
Associação Brasileira de Concessioná-
rias de Rodovias (ABCR), 1 pela Nestlé,
1 pela Editora Abril etc.
Exemplo esclarecedor do tipo de
pesquisa gerado pela relação mercan-
til é aquela contratada pela ABCR, enti-
dade das concessionárias de rodovias,
e intitulada “Desenvolvimento de um
Modelo Conceitual, que permita ava-
liar as Condições que alteram o Equi-
líbrio Econômico-Financeiro dos Con-
tratos de Concessão de Rodovias no
Brasil, e os Mecanismos para a sua
Recomposição”. O resumo disponível
no site da Fipe esclarece que a “longa
duração de contratos de concessão faz
com que a concessionária esteja sujei-
ta a riscos de difícil previsão”, e que,
portanto, “é de interesse do Estado ga-
rantir que situações, previstas ou não
em contrato, que ameacem o desem-
penho fiscal das concessionárias de
rodovias, sejam contornadas, o que
pode ser feito mediante revisão tarifá-
ria, transferência de recursos, redução
nas exigências contratuais, etc” (os gri-
fos são nossos).
Em tal contexto, a extensão univer-
sitária é entendida como pura venda
de serviços e de conhecimentos. O
tempo que falta para atender os alu-
nos da graduação e da pós-graduação
gratuitas não vai sobrar, também, para
a extensão vista como uma prestação
de serviços gratuitos à sociedade que
financia a universidade pública.
7. A fiscalização:
para inglês ver?
No âmbito da USP, não existe o de-
vido controle, em primeiro lugar, das
atividades desenvolvidas por docentes
nas fundações privadas “de apoio”, pa-
ra saber se de fato restringem-se ao
máximo de 8 horas semanais regula-
mentadas. Ao contrário: nota-se libera-
lidade da Comissão Especial de Regi-
mes de Trabalho (CERT), no tocante às
autorizações que concede para “flexibi-
lização” do RDIDP, sabendo-se de, pelo
menos, dois casos de liberação em gru-
po de docentes vinculados às entida-
des privadas.
Pior ainda, não existe controle ade-
quado da Reitoria e da comunidade
sobre as atividades das fundações pri-
vadas “de apoio”. Inicialmente, a Rei-
toria sequer sabia quantas eram essas
entidades. Várias delas funcionam até
hoje sem a formalização de convênios,
ferindo abertamente a Resolução
3582/89. Como vimos acima, o órgão
que deveria fiscalizar os repasses fi-
nanceiros devidos por elas à USP, que
é a Codage, não cumpre esse papel.
A fiscalização externa, ex-offício, do
Ministério Público Estadual e do Tribu-
nal de Contas do Estado, é extrema-
mente limitada. Até hoje, a Promotoria
de Fundações decretou intervenção
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 167UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
temporária em uma única fundação
privada “de apoio”, a FFM. A Promo-
toria está desaparelhada para realizar
esse trabalho, por falta de pessoal e de
recursos. O TCE, por sua vez, embora
entenda que essas entidades devem
prestar-lhe contas pelos vínculos que
mantêm com o poder público (a USP),
restringe sua análise a aspectos pon-
tuais, como a forma de contratação de
funcionários. “Não há fiscalização das
atividades das fundações”, declarou o
presidente do TCE, Edgard Rodrigues,
em audiência pública, na Assembléia
Legislativa (D.O., 22/11/ 2001, p.8).
Atualmente, o único órgão que tem
enfrentado a “privatização insolente”
das fundações privadas “de apoio”, em
São Paulo e em vários Estados, é o
Ministério Público Federal, como ver-
se-á a seguir. O foco da ação do MPF
tem sido os cursos pagos oferecidos
por aquelas entidades. Ao mesmo, foi
acionada, em São Paulo, a Promotoria
de Cidadania do Ministério Público
Estadual.
8. Novidades no front
O MPF tem tomado posição firme
contra cursos pagos e mestrados pro-
fissionalizantes, vinculados ou não a
fundações privadas “de apoio”, criados
em outras universidades, estaduais e
federais, e que ferem os dispositivos
constitucionais que prevêem a gratui-
dade nas instituições públicas de ensi-
no superior.
No Rio de Janeiro, em 2001, o MPF
propôs Ação Civil Pública, com pedido
de liminar, contra a União Federal, a
Capes, a Universidade Federal Flumi-
nense, a Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro e a Fundação IBGE, para
que a UFF, UFRRJ e o IBGE se abste-
nham de realizar qualquer cobrança
aos seus alunos dos cursos de mestra-
do profissionalizante. A Justiça Federal
concedeu liminar favorável ao MPF,
suspendendo a cobrança de valores
nestes cursos até decisão final da ação,
considerando que os mestrados pro-
fissionalizantes não constituem solu-
ção para resolver a escassez de recur-
sos das instituições públicas.
No Ceará, o MPF ingressou, em ju-
lho de 2002, com Ação Civil Pública,
com pedido liminar, contra a Univer-
sidade Federal do Ceará, para que esta
deixe de oferecer e realizar cursos de
pós-graduação lato ou stricto sensu,
dentro ou fora de suas instalações,
mediante cobrança de mensalidades,
ou ainda com outras entidades civis,
pessoas jurídicas de direito privado,
que não tenham atribuições legais de
promover o aperfeiçoamento institu-
cional de seus integrantes; para que
deixe de utilizar, em cursos de pós-gra-
duação lato ou stricto sensu, professo-
res sem vínculo com a Universidade;
para que só utilize professores em re-
gime de dedicação exclusiva nos cur-
sos de pós-graduação lato ou stricto
sensu que não mantenham vínculo
jurídico de qualquer natureza com
pessoas jurídicas de direito privado; e
para que devolva aos alunos todos os
valores recebidos a título de mensali-
dades após o ajuizamento da ação.
Em São Paulo, o MPF iniciou apura-
ção da cobrança de valores de cursos
de mestrados profissionalizantes, nas
universidades federais de São Paulo,
para eventual promoção de Ação Civil
Pública. Em novembro de 2002, o MPF
e a Unifesp (antiga Escola Paulista de
Medicina) celebraram um termo de
ajustamento de conduta, mediante o
qual a Unifesp comprometeu-se a sus-
pender a cobrança de valores, no seu
mestrado profissionalizante (detalhes
sobre as iniciativas do MPF podem ser
encontrados na Revista Adusp 27, dis-
ponível na Internet, no sítio da Adusp).
Também em São Paulo, o professor
Márcio Augelli, da Unesp, decidiu soli-
citar à Promotoria da Vara de Cidada-
nia, em 18/11/2002, a apuração de
irregularidades relacionadas à atuação
das fundações privadas “de apoio” e à
cobrança de cursos na USP (PJC-CAP:
02/722, Prot PJ: 5832/02). A Promo-
toria instaurou um procedimento ad-
ministrativo, no curso do qual foi reali-
zada audiência do presidente da
Adusp e da assessoria jurídica desta
entidade com o promotor Sílvio Antô-
nio Marques.
O promotor solicitou que a Adusp
fornecesse informações sobre o tema,
uma vez que grande parte do material
que fundamenta a representação do
professor Augelli corresponde às publi-
cações da Adusp. A diretoria da entida-
de decidiu, então, encaminhar suas
próprias razões ao Ministério Público,
com o objetivo de solicitar instauração
de Inquérito Civil Público para apura-
ção dos fatos descritos relativos à co-
brança de cursos e atuação de funda-
ções privadas “de apoio”, na USP. O
documento protocolado (no 006229,
de 06/12/2002) está disponível na
íntegra na página do jurídico, no sítio
da entidade (www.adusp.org.br/juris/
representa.htm).
Em Goiás, em janeiro de 2003, o
Ministério Público Estadual ajuizou, na
Vara da Fazenda Pública de Anápolis,
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
A proliferação de cursos pagos e a transformação de grupos
de docentes em empresários encobertos pela fachada
de fundações privadas “de apoio” deram-se em função da
perspectiva de desobrigação do Estado quanto a suas funções
básicas para com a sociedade.
Ação Civil Pública com pedido de tute-
la antecipada contra a Universidade Es-
tadual de Goiás (UEG) e a Fundação
Universitária do Cerrado (Funcer), que
mantêm, por convênio, diversos cursos
seqüenciais pagos. O promotor Marce-
lo André de Azevedo requer a suspen-
são da cobrança de valores, a declara-
ção da ilegalidade da cobrança e que a
UEG abstenha-se de oferecer novos
cursos pagos.
A proliferação de cursos pagos e a
transformação de grupos de docentes
em empresários encobertos pela
fachada de fundações privadas “de
apoio” deram-se em função da pers-
pectiva de desobrigação do Estado
quanto a suas funções básicas para
com a sociedade, entre elas a de pro-
ver o direito ao ensino de qualidade,
para todos, em todos os níveis. A justi-
ficativa apresentada é a de que a uni-
versidade deve atender à “demanda
social” a ela dirigida. Porém, a “deman-
da social” representa única e exclusiva-
mente o “mercado”, como se o merca-
do pudesse substituir a sociedade a
quem o Estado deve servir, e as razões
econômicas privadas pudessem ser
assumidas como manifestação do inte-
resse geral, do interesse coletivo da po-
pulação, a quem a universidade deve
atender.
Ao contrário do que alguns divul-
gam, é absolutamente viável manter as
universidades públicas com recursos
públicos. Esses recursos existem, basta
que sejam destinados em montantes
compatíveis com parâmetros interna-
cionais, tomados com referência em
percentuais do PIB, como o mínimo de
1% para a manutenção do ensino su-
perior de graduação, conforme previsto
no Plano Nacional de Educação-PNE:
Projeto da Sociedade Brasileira, com o
qual o Andes Sindicato Nacional contri-
buiu e pelo qual continua a lutar, para
conquistar a implementação das dire-
trizes ali previstas.
No caso do Estado de São Paulo, o
PIB situa-se atualmente ao redor de R$
400 bilhões a R$ 450 bilhões. Nosso
setor público representa cerca de 20%
desse montante. Em qualquer nação
organizada, esse percentual varia entre
40% e 55%. Mesmo entre nossos vizi-
nhos latino-americanos, tal percentual
é superior a 20%.
A cota-parte do ICMS proporciona
cerca de 90% das receitas do Estado
de São Paulo. Em 2002, a cota-parte fe-
chou o ano em R$ 27,1 bilhões, ou seja,
apenas 6% do PIB estadual! Dessa
fonte, o Estado repassou às universida-
des R$ 2,7 bilhões, que correspondem
a tão só 0,6% do PIB estadual. Quando
descontados os gastos com aposenta-
dorias (previdência) que estão incluí-
dos nesse montante, o repasse fica
abaixo de 0,5% do PIB. Indicadores da
ONU mostram que as sociedades mais
organizadas destinam entre 1,5% e 2%
do PIB para seu sistema superior de
educação, quando consideradas as ati-
vidades de graduação e de pós-gradua-
ção. Esse investimento tem reflexo
direto em ciência e tecnologia, sem os
quais nenhuma economia ou nação se
torna competitiva e independente.
Países emergentes devem investir
percentuais ainda mais elevados do
seu PIB, no setor universitário, justa-
mente para compensar seu atraso em
relação aos demais. Fica evidente a ne-
cessidade de atingir-se níveis de finan-
ciamento público compatíveis com as
reais possibilidades da economia de
São Paulo ou do Brasil, e isso depende
necessariamente da vontade política
de se combater os absurdos percentu-
ais de sonegação fiscal, admitidos pe-
las próprias autoridades tributárias co-
mo estando em torno de 50%!
Os porta-vozes das fundações priva-
das “de apoio” insistem em alardear
que não existe privatização alguma,
que suas instituições são muito úteis à
USP, que os valores celebrados em al-
guns contratos ou cobrados por alguns
cursos são perfeitamente normais, que
não existe quebra da isonomia salarial
e assim por diante. Mas uma síntese do
que representam e do que realmente
são essas entidades bem pode partir
de um jurista: “O que se passou, entre-
tanto, no Direito Brasileiro, é que foram
criadas inúmeras pessoas designadas
como ‘fundações’, com atribuições niti-
damente públicas, e que sob este as-
pecto, em nada se distinguiam das au-
tarquias. O regime delas estaria inevita-
velmente atrelando-as às limitações e
controles próprios das pessoas de Di-
reito Público. Entretanto, foram batiza-
das de pessoas de Direito Privado ape-
nas para se evadirem destes controles
moralizadores ou, então, para permitir
que seus agentes acumulassem cargos
e empregos, o que lhes seria vedado se
fossem reconhecidas como pessoas de
Direito Público” (Bandeira de Mello,
2001).
Referências Bibliográficas
Bandeira de Mello, C.A: Curso de Direito
Administrativo, 13ª Edição. 2001, Malheiros
Editores, 870p.
Maliska, M.A.: O Direito à Educação e a
Constituição, 2001, Sérgio Antonio Fabris Edi-
tor, 304p.
Diário Oficial do Estado de São Paulo, 22/
11/2001.
Revista Adusp, edições 22, 23, 24 (2001) e
27 (2002), disponíveis no sítio www.adusp.
org.br.
* Ciro T. Correia é geólogo, professor asso-
ciado do Instituto de Geociências da USP e
presidente da Adusp S. Sindical.
** Pedro E. da Rocha Pomar é jornalista,
editor da Revista Adusp e doutorando em
jornalismo pela ECA-USP.
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE168 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
A questão da autonomia nas
universidades brasileiras sempre foi
um problema central com que se
deparou o movimento docente ao
longo de várias décadas. Em especial,
durante os mais de 20 anos de atua-
ção do ANDES -Sindicato Nacional,
muito se discutiu acerca do tema da
autonomia, principalmente se levar-
mos em consideração que a mercê de
casuísmos de governantes diversos,
as Instituições de Ensino Superior no
Brasil sofreram, freqüentemente, o
assédio da parte do poder executivo
que procurou lhe conferir o status
adequado dentro do contexto a que
acreditavam que deveriam servir.
Dessa forma, a luta pela autonomia
sempre se constituiu no cerne do
enfrentamento entre o poder público,
o governante de plantão e os
segmentos docente, discente e
técnico-administrativo, organizados
no interior das diversas IES de âmbito
federal, estadual e municipal (isso
para não citar as IPES cuja questão
da autonomia enfrenta problemas
ainda mais graves).
Os debates sobre a autonomia
sempre foram pautados em diversas
publicações, congressos, CONAD’s e
encontros das regionais do ANDES –
SN. Sendo assim, não pretendemos fa-
zer aqui uma discussão exaustiva sobre
o tema, haja vista que o assunto tam-
bém foi por demais abordado em inú-
meros artigos publicados na própria
revista Universidade e Sociedade e de-
mais publicações do gênero.1
Nosso
propósito neste texto consiste em dis-
cutir a questão da autonomia e da car-
reira docente à luz do artigo 207, da
Constituição Brasileira, buscando arti-
cular a conformação de um projeto po-
lítico de destruição do ensino público
superior no Brasil, com a trajetória das
Instituições de Ensino Superior na Ba-
hia e o processo de resistência dos do-
centes das IEES-Ba. Nesse percurso,
procuraremos localizar as interferên-
cias governamentais que balizaram a
formação e interiorização do ensino su-
perior neste Estado, desde a década de
80 até os dias atuais.
A luta pela autonomia universitária:
um conceito em disputa
Nunca é demais salientar que o
problema da autonomia foi levantado
inicialmente quando da fundação das
primeiras universidades na Idade Mé-
dia européia. Naquele momento, pro-
curava-se salvaguardar o livre exercício
do conhecimento que não poderia (ou
deveria) estar vinculado aos projetos
teológicos, monárquicos, ou de qual-
quer outra natureza. Naquele contexto
de surgimento dos Estados modernos,
as universidades proporcionaram o las-
tro intelectual de um projeto em gesta-
ção, ao tempo em que foram o produ-
to da crise do feudalismo e das formas
Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 169UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Carlos Zacarias F. de Sena Júnior* e Ferdinand Martins da Silva**
Autonomia, carreira e outras histórias:
20 anos de lutas dos docentes
das universidades estaduais da Bahia
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
de educação conhecidas na medievali-
dade. Nesse sentido, as universidades
surgem atreladas ao projeto burguês-
moderno e à edificação dos Estados
nacionais e seu destino liga-se estreita-
mente a estes parâmetros.
2
Apesar disso, já as primeiras insti-
tuições se conformaram tentando ga-
rantir algum nível de autonomia à pro-
dução do conhecimento que ia se acu-
mulando naqueles primeiros centros
de excelência, desde o século XI da era
cristã. Com o passar dos anos, a ques-
tão da autonomia se tornou um verda-
deiro axioma ao qual as universidades
do mundo inteiro se inspiraram, ao se
constituírem como espaços de produ-
ção do saber.
No Brasil, as primeiras universidades
surgem tardiamente, no século XX, a
partir da reunião de Faculdades e Es-
colas superiores isoladas fundadas no
período Imperial. Entretanto, é somen-
te, na segunda metade desse século,
que a questão da autonomia aparece
claramente nas disputas por um proje-
to universitário, espacialmente na déca-
da de 60. Nesse período, os combates
contra a ditadura militar encontraram
terreno fértil nas universidades e do
resultado dessas lutas surgiu o ANDES,
em fins dos anos 70. Daquele momen-
to em diante, a luta pela autonomia
ganhou espaço cada vez mais freqüen-
te nas reivindicações dos trabalhadores
do ensino superior, constituindo-se a
autonomia num dos princípios nortea-
dores do padrão unitário de qualidade,
proposto pelo Sindicato Nacional. Se-
gundo a proposta do ANDES-SN: “Da
conceituação de autonomia universitá-
ria depende a definição do financia-
mento, da carreira docente, da política
de pessoal, do regime jurídico, do pro-
cesso de escolha de dirigentes, da ava-
liação, entre outros”.3
As lutas pela democracia enseja-
ram laços substanciais entre os traba-
lhadores das universidades e demais
movimentos urbanos e rurais que
irromperam a cena política, em inícios
dos anos 80, principalmente através
das campanhas pelas “Diretas Já”. Da
luta pela anistia, em fins da década de
70, até a luta pela constituinte sobera-
na, nos 80, uma ampla articulação dos
movimentos sociais terminou por pro-
duzir um processo constituinte que,
não obstante a maciça presença de
forças conservadoras, terminou por
consagrar reivindicações históricas dos
movimentos sociais, como o voto do
analfabeto, a redução da jornada de
trabalho, entre outras questões. No
que tange à universidade, o tema da
autonomia terminou por ser incorpo-
rado ao texto constitucional, através do
artigo 207, da Constituição promulga-
da em 1988. Neste artigo, pode-se ler:
“As Universidades gozam de autono-
mia didático-científica, administrativa e
de gestão financeira e patrimonial e
obedecerão ao princípio da indissocia-
bilidade entre ensino, pesquisa e ex-
tensão”. Porquanto o texto constitucio-
nal seja prodigioso quanto à sua clare-
za e capacidade sintética, a questão da
autonomia prosseguiu sendo um cam-
po aberto de disputa entre os gover-
nos e a comunidade universitária re-
presentada pelos três segmentos.
O entendimento do ANDES-SN e
demais entidades ligadas às universi-
dades, no momento em que se incluiu
no texto da Constituição a questão da
autonomia das Universidades Brasilei-
ras, vinculada a uma outra questão de
igual importância, a indissociabilidade
entre o ensino a pesquisa e a exten-
são, era o de que o artigo era auto-
aplicável e não carecia de regulamen-
tação posterior. A compreensão quan-
to à sua auto-aplicabilidade não garan-
tia, entretanto, que as opiniões des-
toassem. O que se esperava era que as
disputas se restringissem ao interior
das Instituições de Ensino Superior e
não fossem parar nos gabinetes de
parlamentares e dos governos. Dessa
forma, uma longa batalha jurídica foi
travada em torno do tema, o que ter-
minou por ensejar a necessidade de
regulamentação posterior, abrindo
uma nova frente de combate para que
o texto constitucional não fosse esva-
ziado ou que não se produzissem dis-
torções advindas de interpretações ca-
suísticas. Ainda por ocasião dos efeitos
da abertura democrática, no âmbito
educacional, depois de quase uma dé-
cada de discussões, surgiu a proposta
de uma nova Lei de Diretrizes e Bases
para a Educação Brasileira, elaborada
pelo ANDES-SN, que buscava consa-
grar novos princípios de autonomia e
qualidade para a Universidade Brasi-
leira. Dentre os elementos fundamen-
tais proclamados pelo Sindicato Nacio-
nal, na sua proposta para a Universida-
de, contida no Caderno 2, está a ques-
tão do padrão unitário de qualidade.
Neste ponto, fica estabelecido que
“O padrão unitário, no sentido
aqui referido, longe de pretender
eliminar as diferenciações mais do
que naturais e positivas entre as di-
versas universidades, ditadas por
especificidades locais ou regionais,
por opções político acadêmicas di-
ferenciadas ou por razões históri-
cas, pretende elevar o nível do en-
sino superior no país. Tal proposta
visa a corrigir uma situação em que
170 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Porquanto o texto constitucional
seja prodigioso quanto à sua
clareza e capacidade
sintética, a questão da
autonomia prosseguiu sendo
um campo aberto de disputa
entre os governos e a comuni-
dade universitária representada
pelos três segmentos.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
prolifera o ensino de má qualidade
em estabelecimentos que não ofe-
recem aos professores e alunos as
condições mínimas para um traba-
lho acadêmico de qualidade”.4
Em tal proposta vicejava a com-
preensão de que, à parte as diferencia-
ções regionais e históricas de forma-
ção da Universidade Brasileira, o que
se pretendia alcançar era um padrão
único de qualidade que não distinguis-
se as IES públicas e privadas, as insti-
tuições federais, estaduais ou munici-
pais. Enfim, com vistas à elevação da
qualidade de ensino e de pesquisa
nessas instituições, havia que se lutar
conjuntamente pela qualidade acadê-
mica e por condições de trabalho ade-
quadas, em todas as Instituições de
Ensino Superior.
O projeto de LDB, do ANDES-SN,
percorreu caminhos e descaminhos,
entre congressos da categoria docente,
gabinetes dos deputados até que final-
mente foi...substituído por uma outra
proposta elaborada pelo senador Dar-
cy Ribeiro, com a devida vênia do Mi-
nistério da Educação e a necessária as-
sessoria de Eunice Durhan (figura do
primeiro escalão do MEC).
Com efeito, um dos primeiros proble-
mas do substitutivo do senador Darcy
Ribeiro dizia respeito ao grau de res-
ponsabilidade do Estado para com a
educação, em especial, a educação su-
perior. Naquele contexto, começavam
a se generalizar no Brasil as formula-
ções do Banco Mundial, adequadas à
ideologia do Consenso de Washing-
ton, que apregoava a articulação de
uma educação voltada para os proble-
mas da pobreza e da segurança, nos
países periféricos. Acerca do estabele-
cimento das bases da “autonomia” nas
esferas “didático-científica”, “adminis-
trativa”, “de gestão financeira e patri-
monial”, contidas no texto constitucio-
nal, os problemas não foram menores.
Pela leitura do Banco Mundial, a auto-
nomia do ensino superior diante do
Estado, num momento em que a idéia
de nação independente começava a
ruir, ao menos para os países ditos
emergentes, seria extemporâneo.5
Paradoxalmente, na medida em
que o Estado neoliberal cada vez mais
se desresponsabilizava pelo ensino
superior, era o momento em que mais
se legislava, se decretava e se regula-
mentava, em torno das universidades.
Neste sentido, a gestão de Fernando
Henrique Cardoso/Paulo Renato de
Souza produziu uma legislação de dar
inveja a qualquer governo bonapartis-
ta ou à própria ditadura militar brasilei-
ra, que teve na universidade um inimi-
go declarado e difícil de abater.
Obviamente que o princípio da au-
tonomia enquanto “autodetermina-
ção”, mediado por fatores diversos da
economia de mercado, ficava absolu-
tamente em suspenso quando pensa-
mos o destino da produção científica
“alienada”, como qualquer outra mer-
cadoria. Ainda mais se considerarmos
as atuais pressões do neoliberalismo
que condicionam o funcionamento e a
própria existência das universidades à
possibilidade de se inserirem competi-
tivamente no mercado, então limitare-
mos a noção de “autonomia” à com-
petição ou à possibilidade de inserção
de profissionais no mercado de traba-
lho ou mesmo aos produtos que a uni-
versidade pode oferecer. A par dessa
intervenção legal da gestão FHC/Paulo
Renato, reformaram-se os currículos,
avaliaram-se os cursos, formularam-se
parâmetros nacionais diversos para a
educação básica e superior e o mais
grave de tudo isso é que nunca, em
tempo algum, se destinou tanto recur-
so público e se concedeu tanta facili-
dade para a expansão do ensino supe-
rior privado, como entre os anos 1994-
2002. De outro lado, as verbas para o
ensino superior público estiveram ca-
da vez mais minguadas.
Consoante com o projeto de des-
truição do Ensino Superior Público no
Brasil, a “autonomia” da universidade
brasileira foi duramente atingida pelas
pressões do Banco Mundial que possi-
bilitaram a eclosão de fatores diversos
como a pressão de um mercado oni-
presente e onipotente e também a in-
terferência governamental que afirma-
va pretender inserir a “obsoleta” uni-
versidade brasileira, nos marcos da
modernidade, ou pós-modernidade,
do século XXI.
A autonomia na IEES: autoritarismo,
clientelismo e fisiologia.
No âmbito dos estados, a questão
da autonomia é ainda de maior rele-
vância, tendo em vista os destinos que
lhe querem impor os governantes lo-
cais, muitos deles vinculados a projetos
oligárquicos de tradição secular no
Brasil. Este é o caso da Bahia. Neste es-
tado, que possui o 5.º maior PIB do Bra-
sil, quatro Instituições Estaduais de En-
sino Superior buscam se afirmar no
contexto da produção científica e tecno-
lógica brasileira. Ao se depararem com
oligarquias vorazes, os segmentos des-
sas quatro universidades estaduais bus-
cam afirmar os princípios da autono-
mia, da qualidade acadêmica e da refe-
rência social, que devem (ou deveriam)
pautar o funcionamento de Instituições
de Ensino Superior pelo Brasil afora.
O sistema de ensino superior do
Estado da Bahia se conformou essen-
cialmente a partir dos anos 80, portan-
to há pouco mais de 20 anos. Na vaga
demandada pela pressão por ensino
superior que se iniciou no final dos
anos 80 e explodiu nos 90, a Bahia,
que só possui uma Universidade Fede-
ral, montou estrategicamente sua rede
de ensino superior, atendendo as
micro-regiões do Estado.6
Este sistema
é integrado por quatro Universidades
Estaduais, a saber: a Universidade do
Estado da Bahia – UNEB, a Universi-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 171UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
dade Estadual do Sudoeste da Bahia –
UESB, a Universidade Estadual de Feira
de Santana – UEFS e a Universidade
Estadual de Santa Cruz – UESC. Dessas
quatro IEES, duas são multicampi, a
UNEB que possui 21 campi espalha-
dos pelas diversas regiões da Bahia, e
a UESB têm três campi na região su-
doeste do Estado. A UEFS e a UESC
são unicampi e atendem três das ma-
iores cidades da Bahia, como Feira de
Santana (a segunda maior cidade do
Estado em termos populacionais) e
Itabuna – Ilhéus que são a 4.ª e a 5.ª
maiores cidades, segundo o censo do
IBGE de 2000.
A legislação atinente às Universida-
des Estaduais Baianas é composta pe-
las Leis 7.176/97 e 8.352/02 (Estatuto
do Magistério Público das Universida-
des Estaduais da Bahia), além da Lei
6.677/94 que dispõe sobre o Estatuto
do Servidor Público do Estado da Ba-
hia. Da legislação específica sobre as
IEES-BA, pretendemos discutir o pro-
cesso de implantação das duas Leis
que surgiram em momentos distintos e
que causaram profundas implicações
na questão da autonomia e da carreira
das Universidades Estaduais Baianas.
A Lei 7.176/97 foi um ponto de in-
flexão da intervenção do governo no
Sistema de Ensino Superior da Bahia.
Surgida num contexto de intenso re-
fluxo da organização das categorias
docente, discente e de funcionários no
interior das universidades, essa Lei foi
fruto de um lento processo de inter-
venção governamental, iniciada a par-
tir da ascensão de Antônio Carlos Ma-
galhães ao governo da Bahia, em 1991,
após um curto intervalo de quatro anos
de governo Waldir Pires/Nilo Coelho
(1987 – 1991). Em torno das questões
constantes desta Lei, poderemos dizer:
ela sintetiza as lutas do MD baiano,
suas vitórias e derrotas.
O “Governo Democrático” e
a questão das IEES-Ba
A eleição de Waldir Pires/Nilo Coe-
lho foi resultado das intensas mobiliza-
ções que sacudiram o Brasil, na déca-
da de 80, e que se supunha sepultaria
o velho mandonismo carlista na Bahia.
O clima que antecedia o processo elei-
toral demonstrava o anseio por mu-
danças e foi tão grande que até hoje
não se igualou à margem de mais de
um milhão e quinhentos mil votos que
garantiram a vitória do candidato pee-
medebista, em 86. Naquele momento,
a vitória sobre o candidato de ACM,
Josaphat Marinho, indicava que os mo-
vimentos sociais colhiam os resultados
das mobilizações dos anos 80 e pode-
riam avançar ainda mais. No ensejo,
aproveitou-se para discutir e aprovar
um novo Estatuto do Magistério Supe-
rior e um Plano de Carreira para os do-
centes das IEES-Ba. Do acúmulo das
discussões, mas não sem divergências
e embates, o governo terminou ceden-
do às pressões e atendendo as reivin-
dicações da categoria, resultando na
aprovação da lei 4.793, em julho de
1988. Assim, consagravam-se reivindi-
cações históricas que garantiam a iso-
nomia e o regime jurídico único para
todos os docentes das IEES-Ba. Além
disso, estabelecia-se uma carreira con-
dizente com os anseios da categoria,
naquele momento, contemplando
quatro classes (auxiliar, assistente, ad-
junto e titular), cada uma com quatro
níveis; progressão por titulação ou
tempo de serviço (sendo necessária,
neste caso, a defesa de uma monogra-
fia ou de uma tese, dependendo da
classe pleiteada); regime de trabalho de
20 horas ou de Dedicação Exclusiva
(com carga horária de 40 horas e a proi-
bição de outro vínculo empregatício).
Não obstante o significativo avan-
ço em relação à Lei anterior (3.05/81),
a 4.93/88 incorporou também os
resultados do arrocho salarial que se
tinham intensificado, na década de 80.
Dessa forma, as gratificações por titula-
ção de 20, 30 e 40% para especialis-
tas, mestres e doutores, respectiva-
mente, e incentivo à produção científi-
ca de 10% já indicavam os tradicionais
mecanismos compensatórios, em vista
do achatamento salarial que tenderia a
se intensificar, nos anos seguintes.
Apesar dos ganhos pontuais, fruto
das mobilizações diversas do período,
o “Governo Democrático” (assim se
autodenominava) de Waldir Pires che-
gou a um final melancólico, em 1989,
com a renúncia do governador que se-
guia para compor a chapa à presidên-
cia da república, com Ulisses Guima-
rães. A partir da assunção do vice-go-
vernador Nilo Coelho, um poderoso la-
tifundiário da região de Guanambi, no
sudoeste da Bahia, as contradições se
acirraram, com as velhas oligarquias
baianas reassumindo definitivamente
seu lugar no comando do Estado. Dali
para a fragorosa derrota das forças di-
tas “progressistas” diante de ACM, nas
eleições de 1990, foi um passo.
Dez anos de governos carlistas:
as IEES-Ba no olho do furacão
ACM (1991-1995) retornou e co-
meçou a pôr as coisas nos seus devi-
dos lugares, ou seja, devolveu as Uni-
versidades Estaduais Baianas ao lugar
de instrumento clientelista, revogando
várias das conquistas consagradas na
Lei 4.793/88 e, principalmente, im-
pondo o maior arrocho salarial que se
têm notícia na história do serviço pú-
blico baiano. A partir daí, legislou à
vontade sobre as IEES-Ba, revogando
de forma arbitrária o essencial das
conquistas da carreira, como os níveis,
por exemplo. Além disso, efetivou a
precarização do trabalho acadêmico, a
partir da introdução do famigerado re-
gime de trabalho de 40 horas, sem de-
dicação exclusiva, e a imposição de
um limite máximo de 30% de profes-
172 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
sores em regime de dedicação exclusi-
va em cada Instituição. Essa última
medida provocou uma imediata rea-
ção da comunidade docente, especial-
mente da UESB que era a única IEES
que extrapolava o limite estabelecido,
possuindo cerca de 70% dos professo-
res nessa condição. O resultado foi
uma greve naquela Instituição que du-
rou cerca de dois meses e terminou
por garantir um quadro específico de
docentes com DE, sem as limitações,
ao lado do novo quadro com as limita-
ções decorrentes da legislação.7
Por conta de todas essas ingerên-
cias nas Universidades Estaduais, po-
demos assim dizer que o governo ACM
foi marcado por um sucessivo enfren-
tamento com o movimento docente,
inclusive com agressões físicas a pro-
fessores perpetradas por deputados
governistas, como as ocorridas no epi-
sódio da Assembléia Legislativa, em
92, quando os docentes lutavam con-
tra as modificações na Lei 4793/88.
Apesar disso, este foi um período bas-
tante rico para o movimento docente
estadual, uma vez que o mesmo pas-
sou a contar também com a presença
dos companheiros da UESC, inicial-
mente organizados na APRUNI (Asso-
ciação dos Professores Universitários
de Ilhéus e Itabuna) e, depois, na As-
sociação de Docentes da UESC –
ADUSC, fundada em 93.
Assim, no final do governo ACM e
início do governo Paulo Souto (1995-
1999), as associações de docentes cri-
aram o Fórum das Quatro e deflagram
uma campanha que ficou conhecida
como CAMPANHA DA VERGONHA, na
qual denunciavam as péssimas condi-
ções salariais dos professores das Uni-
versidades Estaduais Baianas. Formu-
lam ainda uma proposta de plano de
carreira em 1995/96, devidamente en-
gavetada por Paulo Souto, na tentativa
de resgatar as conquista perdidas, no
período ACM.
Consoante com a filosofia de um
Estado cada vez menos disposto a in-
vestir em educação, o governo de Pau-
lo Souto (1995-1999) manteve o arro-
cho salarial e o enxugamento da folha
de pagamentos por meio de mecanis-
mos nefastos, como a manutenção do
quantitativo de 40% dos professores,
em regime de Dedicação Exclusiva.8
Em resposta às reivindicações do mo-
vimento docente por melhores salários
e a aprovação de um novo plano de
carreira, o governo introduziu o meca-
nismo das gratificações, sendo criada a
GEAC (Gratificação de Estímulo Ati-
vidade de Classe) e, posteriormente, a
CET (Condição Especial de Trabalho)
que permanecem até hoje.
No bojo do seu “projeto para o En-
sino Superior”, estava a concepção de
que as Universidades Estaduais Baia-
nas deveriam atender às demandas
por expansão do ensino superior no
Estado, o que seria louvável, caso se
considerasse a Universidade como au-
tônoma para definir sua própria ex-
pansão (de campi e de cursos), a par-
tir de critérios mínimos de qualidade.
Só que, ao contrário, as Instituições se
expandiram ao bel prazer dos sucessi-
vos governos (carlistas) que levaram
em consideração apenas a força de oli-
garquias locais, na troca de favores
com o executivo. Assim, das quatro
Universidades Estaduais, a UNEB, mul-
ticampi por excelência, foi a que mais
se expandiu, atingindo a marca de 21
campi, em 2002 (há ainda previsão de
criação de mais quatro campi para os
próximos anos).
Por fim, foi ainda no governo de
Paulo Souto que as IEES-Ba sofreram o
maior golpe na autonomia e na demo-
cracia interna. Com efeito, a Lei 7.176/
97, de reestruturação das Universida-
des Estaduais da Bahia, consagrava,
enfim, a política carlista para o Ensino
Superior no Estado. Ao redefinir a for-
ma de representação do segmento
docente nos Conselhos Superiores (ar-
tigo 5º e 6.º), sem a presença de do-
centes eleitos exclusivamente para a
função (considera-se que os Diretores
de Departamento, para o Conselho
Universitário - CONSU, e estes e os Co-
ordenadores de Colegiado, para o
Conselho Superior de Ensino Pesquisa
e Extensão – CONSEPE, já seriam os
representantes docentes); continuar
com a limitação do percentual de do-
centes com dedicação exclusiva, am-
pliando agora para 50% (artigo 23.º) e
ao estabelecer os critérios para ocupa-
ção de cargos a partir da LDB, com lista
tríplice, direito à reeleição, e represen-
tação dos três segmentos, na base de
70% para os docentes, e o restante
para os técnico-administrativos e dis-
centes, a Lei 7176/97 não apenas in-
corporou o espírito autoritário da LDB,
como foi além.
Não será necessário discutir a rea-
ção da comunidade acadêmica diante
de tal disparate, basta registrar a inten-
sa mobilização que levou os docentes
e demais segmentos das quatro IEES-
Ba a protagonizarem diversos atos na
capital e no interior em resposta à
agressão que as Universidades sofre-
ram. Aqui cabe ainda destacar o papel
da comunidade acadêmica da UNEB
Ano XII, Nº 29, março de 2003 173UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
No final do governo ACM e
início do governo Paulo Souto
(1995-1999), as associações
de docentes criaram o Fórum
das Quatro e deflagram uma
campanha que ficou conhecida
como CAMPANHA DA VERGO-
NHA, na qual denunciavam as
péssimas condições salariais
dos professores das Uni-
versidades Estaduais Baianas.
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
que travou uma intensa batalha na
Assembléia Legislativa do Estado, já
que foi a Instituição que mais sofreu
com a Lei (uma verdadeira interven-
ção), visto que estava em pleno pro-
cesso eleitoral para escolha do novo
reitor, o que terminou ensejando exo-
nerações casuísticas e nomeações de
interventores em diversas Unidades
que eram Faculdades e passavam a ser
Departamentos e campi.
A agressão que sofrera a Univer-
sidade, em 1997, aguardaria ainda cin-
co anos para um revide à altura, pois
somente em 2000, quando os docen-
tes das quatro Universidades Estaduais
da Bahia fizeram uma greve conjunta
que durou cerca de 70 dias, é que a Lei
começou efetivamente a ser questio-
nada com força.9
Dois anos depois da
greve de 2000, em maio de 2002, os
docentes das quatro IEES-Ba, mais
uma vez, encamparam uma greve e
desta feita o centro da pauta de reivin-
dicações, apesar das perdas salariais,
foi a questão da Carreira Docente e da
autonomia ferida com a Lei 7.176/97.
Assim, a pauta da greve de 2002, que
havia sido apresentada em 2001, esta-
va composta pelos seguintes itens: 1.
Reajuste emergencial de salários me-
diante a incorporação das gratificações
e de reposição de 114%; 2. Aumento
de verbas para as IEES-Ba; 3. Rees-
truturação da Carreira Docente; 4. Re-
vogação da Lei 7.176/97. Da pauta
apresentada, o governo cedeu, na dis-
cussão da Carreira Docente, o que im-
plicava a revogação de diversos artigos
da Lei 7.176/97, caminho inexorável
para o (re)estabelecimento da autono-
mia e da democracia nas IEES-Ba. A
partir daí, ao longo de sete meses, do-
centes e governo travaram uma queda
de braço em torno da proposta que
cada um apresentava. Neste período,
os docentes das IEES-Ba realizaram
dois encontros estaduais em Feira de
Santana e em Jequié, nos quais discu-
tiram e elaboraram uma proposta de
carreira, tendo como referência o pro-
jeto do ANDES-SN para a Universidade
Brasileira. Ainda que, com algumas di-
vergências (por exemplo, foram manti-
dos o regime de 40 horas e as gratifi-
cações e, sem dedicação exclusiva), os
docentes puderam efetivamente cons-
truir uma Carreira de acordo com as
suas necessidades. Mesmo se conside-
rarmos que os patamares salariais ain-
da estão distantes dos ideais, a conquis-
ta de um Plano de Carreira Docente foi
essencial, no processo de crescimento
das lutas da categoria, embora não te-
nhamos conseguido limpar de todo o
terreno da legislação interventora.
Aos desafios colocados para a cate-
goria docente nos últimos anos, so-
mam-se agora outros tantos que pres-
supõem a articulação dos três segmen-
tos, em defesa da universidade pública,
gratuita e de qualidade e nunca é de-
mais acrescentar, laica, socialmente re-
ferenciada, autônoma e democrática, e
por que não dizer, com melhores salá-
rios e condições de trabalho.
Notas
1. Ver especialmente dois artigos publicados o
volume VI, nº 11, da Universidade e Socie-
dade de 1996: MALDONADO, Carlos. Autono-
mia universitária: uma questão de referencial,
pp. 31 - 43, e MACEDO, Artur Roquete de. Au-
tonomia universitária: por quê, como e para
quê, pp. 44 - 56.
2. MENEZES, Luís Carlos de. Universidade si-
tiada. A ameaça de liquidação da universida-
de brasileira. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2000, p. 9.
3. PROPOSTA da ANDES para a Universidade
Brasileira. Cadernos, Brasília, 1996, nº 2, p. 23.
4. PROPOSTA da ANDES para a Universidade
Brasileira. Cadernos, Brasília, 1996, nº 2, p. 15.
5. LEHER, Roberto. Um novo Senhor da edu-
cação? A política educacional do Banco Mun-
dial para a periferia do capitalismo. Outubro,
São Paulo, mai 1999, n.º 3, p. 27
6. A Universidade Federal da Bahia – UFBA, é
sediada em Salvador e possui no interior ape-
nas a Escola de Agronomia na cidade de Cruz
das Almas, localizada no recôncavo baiano.
7. Esta vitória dos professores da UESB foi con-
seguida via uma ação direta de inconstitucio-
nalidade impetrada, pela ADUSB, junto ao STF
(Supremo Tribunal Federal). SANTOS, José Ge-
raldo dos Reis. A poesia da vida na luta de to-
do dia. In: Vilas Boas, E. da C. (Org.). UESB:
Memória. Trajetórias e Vivências. Vitória da
Conquista: Edições UESB, 2001.
8. A proposta inicial do governo de limitação
de professores com DE em 30%, foi derrota-
da pelo MD que ampliou para 40% e prosse-
guiu lutando.
9. Sobre a greve de 2000 das IEES-Ba, ver SENA
JÚNIOR, Carlos Zacarias F. de e COELHO NETO,
Eurelino. Pessimismo da inteligência e otimis-
mo da vontade: um balanço da greve de 2000
das universidades estaduais baianas. Universi-
dade e Sociedade, Brasília, dez 2001, n.º 25.
Referências Bibliográficas
- LEHER, Roberto. Um novo Senhor da
educação? A política educacional do Banco
Mundial para a periferia do capitalismo. Ou-
tubro, São Paulo, mai 1999, nº 3, pp. 19 – 30.
- MACEDO, Artur Roquete de. Autonomia
universitária: por quê, como e para quê. Uni-
versidade e Sociedade, Brasília, jun 1996, pp.
44 - 56.
- MALDONADO, Carlos. Autonomia uni-
versitária: uma questão de referencial. Univer-
sidade e Sociedade, Brasília, jun 1996, nº 11,
pp. 31 – 43.
- MENEZES, Luís Carlos de. Universidade
sitiada. A ameaça de liquidação da universi-
dade brasileira. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2000.
- PROPOSTA da ANDES para a Universi-
dade Brasileira. Cadernos, Brasília, 1996, nº 2.
- SANTOS, José Geraldo dos Reis. A poesia
da vida na luta de todo dia. In: Vilas Boas, E.
da C. (org.). UESB: Memória. Trajetórias e
Vivências. Vitória da Conquista: Edições UESB,
2001.
- SENA JÚNIOR, Carlos Zacarias F. de e
COELHO NETO, Eurelino. Pessimismo da inte-
ligência e otimismo da vontade: um balanço
da greve de 2000 das universidades estaduais
baianas. Universidade e Sociedade, Brasília,
dez 2001, nº 25.
* Carlos Zacarias F. de Sena Júnior é Pro-
fessor Assistente da Universidade do Esta-
do da Bahia - UNEB e ex-dirigente da As-
sociação de Docentes da UNEB – ADUNEB
e da Regional NE III do ANDES-SN.
** Ferdinand Martins da Silva é Professor
Assistente da Universidade Estadual do Su-
doeste da Bahia – UESB e dirigente da Re-
gional NE III do ANDES-SN. Ex-dirigente da
Associação dos Docentes da UESC – ADUSC.
174 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Ano XII, Nº 29, março de 2003 175UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
A educação superior na América
Latina e Caribe: conseqüência de
uma política neoliberal
Contextualização da problemática
A partir dos anos 90, através de um
processo gestado anteriormente pelos
países industrializados, interconecta-
dos com os grandes conglomerados
transnacionais, a sociedade pós-
moderna - aqueles que têm acesso
aos bens e serviços - começou a
vivenciar e experimentar um novo
estilo de vida, no qual o setor econô-
mico se constitui na alavanca do pro-
gresso e do desenvolvimento, sem
necessariamente considerar a susten-
tabilidade do meio ambiente. Esse
processo unilateral, autoritário, assi-
métrico, desigual e desprovido da par-
ticipação popular foi instalado, paulati-
namente, nos países latino-america-
nos e caribenhos, sem que os gover-
nos, necessariamente, tenham se
apercebido do caos social que este
desencadeamento provocaria e de sua
dependência política, econômica e
cultural em relação aos países hege-
mônicos. A fragilidade política, a falta
de políticas públicas e de planejamen-
to estratégico, a desarticulação dos
países, as guerras civis, a desprepara-
ção e a alienação do povo de maneira
geral, a pobreza material e espiritual,
a falta de perspectivas e de um proje-
to alternativo favoreceu a implantação
do projeto neoliberal, que privilegia
poucos em detrimento da maioria,
acentuando ainda mais o hiato entre
ricos e pobres e traz subjacente a
ideologia capitalista com nova
roupagem.
A sociedade global competitiva, cu-
jo jogo concorrencial assume papel
decisivo, a ausência de um Estado pro-
vedor, a homogeneidade do pensa-
mento e os novos formatos institucio-
nais revolucionaram e redimensiona-
ram o cotidiano das pessoas. O lucro,
cerne de toda a engrenagem, é eterni-
zado e não tem domicílio fixo. Os gran-
des movimentos financeiros, em mui-
tos casos, estão fora do controle dos
governos nacionais. A cada dia que
passa, a proporção de pessoas excluí-
das do processo produtivo aumenta
estrondosamente, quer nos países cen-
trais, mas mais especialmente nos paí-
ses em vias de desenvolvimento. A
grande maioria da população, excluída
da globalização, é contra o processo,
porque os benefícios não chegam a
ela, porém aspira uma globalização de-
mocrática e com justiça. Esta atitude,
na concepção do FMI, é prejudicial,
porque pode retroceder a política de
abertura e de liberação.
A América Latina apresenta a maior
desigualdade social do mundo, supe-
rando inclusive os continentes asiático
e africano. As disparidades socio-eco-
nômicas e culturais produzem fortes
contrastes. Mesmo havendo um declí-
nio generalizado dos índices de natali-
Ernâni Lampert
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
dade, a região centro-américa apre-
senta, ainda, o maior crescimento po-
pulacional do mundo. O êxodo rural
fez com que 70% da população viva
em zonas urbanas e tem acentuado a
metropolização, aumentando a violên-
cia. Cerca de 50% dos latino-america-
nos e caribenhos vivem abaixo da li-
nha de pobreza e em torno de 150 mi-
lhões são miseráveis. Estimadamente
50% das divisas são utilizadas para o
pagamento da dívida externa, que a
cada instante prolifera e se torna impa-
gável e eterna à maioria das nações
emergentes.
Na esfera política, entre tropeços,
percalços, avanços, recuos e retroces-
sos, a América Latina e o Caribe têm
conseguido substituir o colonialismo, os
regimes ditatoriais e militares por regi-
mes democráticos. Mesmo que a gran-
de maioria dos países viva em regime
de democracia, esta é muito frágil, ins-
tável e de baixa qualidade. Por exem-
plo, a pesquisa realizada pela Universi-
dad de Lima (La República, 2002), evi-
dencia que a maioria da população pe-
ruana percebe que a democracia em
que vive o país é de baixa qualidade
(51,8%) contra os que a consideram de
alta qualidade (4,9%). Para melhorar
esta situação, os entrevistados são de
parecer que é necessário combater a
corrupção e 59,9% acham pouco instá-
vel a política peruana. Na Colômbia, pa-
ís que vive uma guerra civil há 38 anos,
o presidente Álvaro Uribe, empossado
em agosto de 2002, criou o “Estado de
Comoção Nacional”, no qual o Con-
gresso perdeu os poderes e o cidadão,
seus direitos. O novo presidente está
seguindo as orientações ditadas por
Washington, responsável pela elabora-
ção do Plano Colômbia, que explicita-
mente objetiva defender a democracia
e a erradicação da produção de drogas
e a interdição do narcotráfico, mas sub-
jacente está a tese do controle absoluto
da América Latina e Caribe. A Venezue-
la, a partir de abril de 2002, através de
sucessivas tentativas de golpe de esta-
do, é outro país que tem sua democra-
cia ameaçada.
A falta de investimentos no setor
produtivo e de serviços, a banalização
e a desoxigenação do parque indus-
trial, a entrada das multinacionais pro-
vidas dos mais avançados recursos tec-
nológicos, a própria despreparação e
desqualificação profissional do povo
fazem com que o trabalho informal se-
ja a única perspectiva de receita para
mais ou menos 50% dos latino-ameri-
canos e caribenhos. O emprego de-
cente, condição indispensável à cida-
dania, está sofrendo câmbios em sua
natureza. Postos de trabalho são elimi-
nados e parcos são criados ou remo-
delados. Na Argentina, informações di-
vulgadas pela Equipe de Investigações
Sociais da Universidade Católica da
Argentina e pelo Instituto Gino Germa-
ni, da Universidade de Buenos Aires,
referenciadas pelo Correio do Povo
(2002) mostram que a vida profissio-
nal adquire cada vez mais ares de indi-
gência. Desde meados de 1998, início
da atual recessão, o número de em-
pregos relativos à indigência cresceu
70%, atingindo um milhão e oitocen-
tos mil. Somente 28,6% da população
economicamente ativa possui empre-
go considerado “decente” e dentro
dos padrões aceitos pela Organização
Internacional do Trabalho.
A violência em todas as esferas,
que tem como uma das conseqüên-
cias a exclusão social, amedronta in-
cluídos, excluídos e sobrantes. Em es-
paços estratégicos, traficantes mantêm
governos paralelos e, com armamen-
tos de última geração, enfrentam o
próprio Estado, desprovido dos recur-
sos adequados para o combate ao trá-
fico de drogas e da violência. Este fe-
nômeno ocorre principalmente na Co-
lômbia, no Brasil, na Venezuela e faz
parte do cotidiano da população, que
vê seus direitos e sua vida ameaçados.
Atrelada a este contexto apocalípti-
co está a histórica corrupção política.
Políticos inescrupulosos desviam fortu-
nas dos parcos recursos existentes para
seu proveito próprio. Este fenômeno
que, além de fragilizar as nações, auxilia
na manutenção de um sistema finan-
ceiro internacional próspero, está pre-
sente na maioria dos países da região
(Equador, Argentina, Venezuela, Peru,
Brasil etc.). Conectados a este processo,
estão os privilégios de alguns atores
sociais. Por exemplo, segundo Lindo
Perez (2002), dentro do Estado Argen-
tino há mais privilégios que nas institui-
ções públicas da União Européia. O es-
paço público argentino se converteu
em um sistema de privilégios, em uma
“constelação de feudalidades”. Go-
vernadores das províncias, juizes, reito-
res das universidades, diretores de al-
fândega e outros converteram seus es-
paços em feudos pessoais/familiares
ou centros de enriquecimento ilícito.
176 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Figura 1 – América Latina e Caribe
DEPENDÊNCIA VIOLÊNCIA E DROGAS DESIGUALDADE
Altas Taxas
de Dívida
Externa
Política
Neoliberal
Miséria
Trabalho
Informal
Corrupção
América Latina
e Caribe
Contradições
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Cabe mencionar que as constantes
crises financeiras internacionais (crise
asiática de 1997) e da região (crise
brasileira e argentina), as catástrofes
naturais e os fenômenos climáticos “El
niño” e Furacão “Mitch” são outros fa-
tores que afetam negativamente o de-
senvolvimento da região. A América
Latina e Caribe, ao longo de sua histó-
ria, não conseguiram formar uma “na-
ção latino-americana”. O Brasil, que
ocupa aproximadamente 42% do ter-
ritório e 35% de sua população, cons-
titui-se um mundo à parte. A mestiça-
gem, tanto biológica como cultural,
conseqüência direta da época colonial,
afetou de modo desigual os distintos
países da região. Argentina, Chile e
Uruguai se distinguem por sua popula-
ção de origem européia. O Brasil e as
Antilhas, pela africana (descendentes
de escravos). Na centro-américa e nos
países andinos (Bolívia, Colômbia,
Equador e Peru), as camadas de índios
representam percentual significativo
da população.
Os países da América Latina e Ca-
ribe, devido à sua formação etno-cul-
tural com ameríndios, descendentes
de colonizadores ou imigrantes euro-
peus, descendentes de negros africa-
nos e mestiços, possuem uma cultura
diversificada e riquíssima. Astecas, Ma-
ias, Incas e outros, presentes antes do
“Descobrimento da América”, tive-
ram uma valiosa colaboração em pra-
ticamente todas as áreas do saber hu-
mano. Por sua vez, os colonizadores
espanhóis e portugueses, além da ex-
ploração econômica, buscavam impri-
mir suas marcas culturais e destruir ou
reaproveitar o que havia sido edificado
até então para “catequizar os amerín-
dios”. A religião católica, predominante
em praticamente toda a região, junto
com o processo de colonização, certa-
mente é fator forte que obtaculiza o
progresso e o desenvolvimento. Sabe-
se que a pobreza econômica geral-
mente desvaloriza e estigmatiza a cul-
tura. “A desvalorização cultural, fomen-
tada ideológica e intencionalmente
pelos países hegemônicos ao longo da
história latino-americana, debilita a
identidade e gera sentimentos indivi-
duais e coletivos de baixa auto-estima
e alienação de nossa verdadeira reali-
dade” (Lampert, 2002:12).
Atualmente, dentro do cenário
político/econômico, estão sendo anali-
sados os prós e contras da política da
Organização Mundial de Comércio e,
paralelamente, da ALCA. A proposta da
Área de Livre Comércio das Américas
(ALCA) tem similitude com a política
da Organização Mundial do Comércio
(OMC). A ALCA é uma proposta políti-
ca protecionista do império norte-
americano, que tem como objetivo
central manter o poderio deste e a
dependência dos países latino-ameri-
canos e caribenhos. A América Latina e
Caribe que, entre os países indepen-
dentes, semi-dependentes e depen-
dentes soma cerca de cinqüenta na-
ções, pouco representa para os Esta-
dos Unidos, a maior economia do
mundo. O estabelecimento de uma
área de livre comércio, mediante acor-
dos governamentais, restringe a ação
pública e privilegia o acesso dos gran-
des conglomerados internacionais aos
diferentes setores de produção, inclu-
sive os serviços públicos. Subjacente a
este processo, está a tese de enfraque-
cer ou exterminar o MERCOSUL, que
busca criar o livre comércio entre os
países do Sul, com a possibilidade de
parcerias com países europeus. Cabe
registrar que, apesar de toda desor-
dem política, econômica e social, a
América Latina e Caribe é cortejada,
tanto por países da Europa quanto
pelos Estados Unidos. O subcontinen-
te tem, entre outras riquezas, um dos
maiores potenciais hídricos do plane-
ta. Sabe-se que a ALCA não gerará
novos postos de trabalho; ao contrário,
aumentará a cifra de desemprego e
provocará a falência das indústrias que
não têm competitividade e possibilita-
rá a exploração de mão-de-obra, por
possibilitar que os empresários transfi-
ram suas empresas para países onde
os salários são mais baixos e as leis so-
ciais escassas.
Em seminário promovido pelo Pro-
jeto Columbus1
, os reitores das univer-
sidades latino-americanas e européias,
reunidos em Lima (Peru), analisaram
as implicações do acordo que atrela a
educação superior ao comércio inter-
nacional de mercadorias. De maneira
geral, os dirigentes universitários são
favoráveis à colaboração internacional
entre as instituições, à formação de
redes de investigação, à mobilidade
docente e discente, à realização de
projetos conjuntos, ao aproveitamento
de estudos; porém, por unanimidade,
não objetivam a mercantilização da
educação, por considerarem o conhe-
cimento um patrimônio social e a edu-
cação um bem público imprescindível
à sociedade. A pesquisa, função de
capital importância para o desenvolvi-
mento econômico, social e cultural, o
compromisso com a qualidade, a
busca de pertinência entre a educação
e as demandas sociais, a liberdade e a
autonomia acadêmica, o financiamen-
to da educação pública, entre outros
aspectos, estão ameaçados com este
acordo imperialista, que objetiva o
lucro e a submissão dos povos menos
desenvolvidos. Este processo favorece
os países que já têm uma capacidade
bem desenvolvida para a exportação,
pois abre as fronteiras da competição
de países com diferentes níveis indus-
triais e tecnológicos. “Mas, por outro
lado, nada garante que os país pobres
e as culturas frágeis terão a mesma
oportunidade de se expor ao mundo”
(Martinez, 1997:112). Outra área im-
pactante é a cultura, pois reforça a tese
de pensamento único hegemônico e
Ano XII, Nº 29, março de 2003 177UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
elimina as peculiaridades regionais,
muitas vezes construídas ao longo da
história da nação.
A educação, inserida na política
produtiva, de maneira geral, na última
década, alcançou avanços quantitativos
no que concerne ao número de alunos
matriculados na pré-escola, no ensino
básico e no ensino superior, porém,
qualitativamente, deixa a desejar e pro-
blemas crônicos, de décadas, continu-
am a desafiar os governos. A barbárie
neoliberal, por meio de reformas edu-
cativas impostas pelos países centrais,
prioriza o custo-benefício e se caracte-
riza pela maleabilidade e pela adapta-
bilidade do sistema educativo ao setor
produtivo. As similitudes entre os siste-
mas dos países conduzem para um
padrão unitário de educação, no qual a
flexibilidade, a competitividade e o Es-
tado avaliador constituem alguns prin-
cípios norteadores.
O novo modelo de produção capi-
talista e de reforma administrativa do
Estado, adotado pela maioria dos paí-
ses latino-americanos e caribenhos e
monitorado pelo Fundo Monetário
Internacional, faz com que as políticas
públicas sejam direcionadas mais para
atender aos interesses internacionais
do que para emancipar e independizar
os países, tão oprimidos ao longo de
toda a história. “...todas as discussões
que têm sido feitas a respeito da uni-
versidade giram em torno do modo em
que esta deva se relacionar com o mer-
cado” (Chauí, 2001: 17). Urge que
questões como a baixa escolaridade
(4.8 anos), o reduzido número de dias
letivos efetivos (120/200), as altas ta-
xas de evasão e de repetência, a baixa
valorização do professorado, o hiato
entre os setores público e privado, a
falta de infra-estrutura, o sucateamento
e a deterioração da rede pública de
ensino, a deficiente formação inicial e
continuada dos recursos humanos, as
altas taxas de analfabetismo, a baixa
qualidade de ensino e o não uso dos
novos recursos tecnológicos no ensino
sejam desafios que necessitam ser
encarados e solucionados nos próxi-
mos anos, pois somente através de
uma educação pública de qualidade
será possível reverter o quadro caóti-
co atual e apostar numa América Lati-
na e Caribe próspera, soberana, autô-
noma, independente e voltada, tanto
para os interesses e necessidades re-
gionais, quanto os internacionais.
A educação superior
na América Latina e no Caribe
À luz do contexto descrito na pri-
meira parte deste estudo, torna-se ma-
is fácil para o leitor entender a conjun-
tura da educação superior na América
Latina e Caribe. É oportuno referenciar
que as políticas públicas são conse-
qüência direta do paradigma de produ-
ção capitalista e da reforma administra-
tiva do Estado; as similitudes na educa-
ção superior desenvolvida, tanto nos
países industrializados quanto nos
emergentes, são evidentes e as pers-
pectivas de câmbio deste quadro caóti-
co, a curto e médio prazo, são remotas,
mesmo que haja praticamente um
consenso de que a educação superior,
patrimônio cultural e bem social, seja a
alavanca impulsionadora para o pro-
gresso, o desenvolvimento, a moderni-
zação e a transformação da sociedade,
cada vez mais injusta e assimétrica.
A partir da análise dos dados da De-
claração Mundial sobre a Educação Su-
perior no Século XXI: Visão e Ação, que
é resultado da Conferência Mundial
sobre Educação Superior, realizada em
outubro de 1998, em Paris, e com base
no texto Implicaciones de la Decla-
ración Mundial sobre la Educación
Superior para la Universidad Lati-
noamericana del siglo XXI, de Ber-
nheim (2000), infere-se que as princi-
pais características do ensino superior
na região são: - considerável expan-
são quantitativa das matrículas; -
multiplicação e diversificação das
instituições; - incremento do pesso-
al docente e dos graduados; - am-
pliação da participação do setor pri-
vado; - restrições com o gasto pú-
blico. O exposto permite visualizar um
crescimento quantitativo desenfreado
das instituições que oferecem ensino
superior, especificamente do setor pri-
vado; um aumento do pessoal envolvi-
do no processo (professores e alunos)
e uma diminuição das verbas para o
financiamento. Este fenômeno contradi-
tório tem suscitado reveses e aponta de-
safios que urge serem analisados e que
exigem soluções imediatas.
O crescimento quantitativo de ma-
trícula (2% em 1950 para aproximada-
mente 20% em 2002), sob um parâ-
metro, é altamente favorável, pois pos-
sibilita aos jovens de 18 a 24 anos
acesso à carreira superior. Por outro la-
do, a massificação, de maneira geral,
dificulta a qualidade do ensino. Sabe-
se que um enorme contingente de
pessoal está sendo formado, desprovi-
do de consciência crítica, e desprepara-
do para o mercado de trabalho. Este
fenômeno traz à tona indagações que
merecem reflexão dos diferentes ato-
res sociais. O incremento de matrículas
foi um passo importante na história,
porém, questões como a proliferação
das instituições, que não reúnem as
condições mínimas para um trabalho
acadêmico digno, a alta porcentagem
de professores despreparados, com o
título de “graduado”, e sem formação
pedagógica, a inadequada metodolo-
gia de ensino utilizada e a falta de polí-
ticas públicas são itens indispensáveis
a serem considerados para a melhoria
da qualidade de ensino.
A proliferação das instituições (em
1950, havia 75 universidades e, em
2002, mais que 5000) é uma questão
impactante. Sabe-se que a grande ma-
ioria destas instituições estão desprovi-
178 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
das de infra-estrutura (biblioteca, labo-
ratórios etc.), além de possuírem, geral-
mente, um quadro docente desprepa-
rado e desqualificado, e priorizam o
ensino. Estas instituições, comumente
do setor privado, utilizam a educação
como um negócio rentável e lançam à
sociedade um número estrondoso de
pessoas. “No Brasil, a conta da educa-
ção representa cerca de 9% do PIB, ou
90 bilhões de reais...É um valor próximo
do que movimentam juntos – os seto-
res de telecomunicações e energia. Em
2002, o setor privado deverá ser res-
ponsável por 44 bilhões desse total. Só
o faturamento das instituições privadas
de ensino superior aumentou de cerca
de 3 bilhões em 1997 para 10 bilhões
de reais no ano passado” (Rosenburg,
2002: 36). Geralmente, estas institui-
ções, entre outras carreiras, ocupam-se
com a formação de professores, o que
cria um círculo vicioso. Um professor,
com uma formação inicial precária,
tende a reproduzir o sistema, ou seja,
prepara mal seu aluno. Para Rinesi
(2001), uma universidade i-reflexiva,
incapaz de se pensar a si própria, de
pensar por que e para que faz o que faz,
e o que faz, não merece continuar
levando o nome de universidade.
Parece-se mais a milhões de institui-
ções privadas, empresas com fins lucra-
tivos pomposamente chamadas de
“universidades”, cuja propaganda lê-se
nos jornais e que promovem os cursos
oferecidos com o argumento de “saída
para o mercado de trabalho”. “... É pre-
ciso ressaltar um paradoxo nessa evolu-
ção: a qualidade de seu ensino univer-
sitário público coexiste com uma forte
expansão de um ensino privado pouco
qualificado” (Trindade 2002:26).
Em oposição a estas instituições,
há projetos universitários que surgiram
de movimentos sociais e servem de
referência a toda a América Latina e
Caribe. Na Argentina, “as Madres de
Plaza de Mayo” decidiram criar a Uni-
versidad Popular, um espaço de luta e
resistência. Apostando na tese de que
a construção de uma nova sociedade
requer homens e mulheres com forma-
ção político e ética, sensíveis e imagi-
nativos, capazes de usar as ferramentas
da ciência e também da arte, que sai-
bam articular a teoria e a prática revo-
lucionária, a Universidad Popular Ma-
dres de la Plaza de Mayo tem o objeti-
vo central de produzir pensamento crí-
tico e organizar grupos de reflexão cria-
tiva. A instituição se opõe ao modelo
educativo, que objetiva transmitir co-
nhecimentos de forma vertical, que
legitima a opressão, que está esque-
matizado para vigiar, castigar e repro-
duzir um sistema social perverso. As
Madres de Plaza de Mayo desejam dei-
xar, como únicos legados, o compro-
misso político, a coerência ideológica, a
formação intelectual e a paixão pela lu-
ta herdada. A Universidade, criada em
06 de abril de 2000, com 700 alunos e
100 dos melhores professores, conta
com um conselho internacional de re-
nomados homens do mundo, que
apóiam e ajudam esta instituição a
crescer e alcançar sua missão tão im-
portante em um país que está passan-
do pela pior crise política, econômica,
social, educacional e cultural de sua
história. Ela oferece, através de diferen-
tes escolas, os títulos de: Mestre em Ar-
tes, Mestre em Jornalismo de Investi-
gação, Mestre em Direitos Humanos e
Políticos, Mestre em Psicodrama e So-
ciodrama, Mestre em Economia Po-
lítica e Social, além de oferecer seminá-
rios e oficinas.
O outro fator preocupante e que
merece atenção é o baixo nível acadê-
mico de uma porcentagem considerá-
vel de professores e sua escassa forma-
ção pedagógica. Aproximadamente
70% dos docentes possui o curso de
graduação; 20%, o curso de pós-gra-
duação; e apenas 10% são pesquisa-
dores. Muitos questionamentos emer-
gem em função desta realidade. Como
alguém que não tem formação peda-
gógica poderá exercer a docência? Um
professor está apto a atuar como médi-
co, engenheiro, advogado? Certamen-
te, a contestação será “não”. A mesma
regra deve servir para os profissionais
liberais que, também, grosso modo,
não estão preparados para a docência;
porém, é senso comum aceitar esta
hipótese, sem muitos questionamen-
tos. O Brasil apresenta uma realidade
distinta, onde a formação inicial de
professores passou por diferentes está-
gios, sempre direcionada aos interes-
ses da classe dominante. Com a aber-
tura política e a conseqüente redemo-
cratização, a formação de docentes
perpassa, pelo menos no plano teórico,
da dimensão meramente tradicional,
novista e tecnicista, para assumir atitu-
de política de criticidade. A partir da
década de 60, com a regulamentação
dos programas de pós-graduação lato
sensu (especialização e aperfeiçoamen-
to) e stricto sensu (mestrado e doutora-
do), são dados os primeiros passos pa-
ra o preparo específico do professor de
educação superior. Estes cursos, que
objetivam qualificar recursos humanos
para as universidades e que prolifera-
ram muito na década de 70, tiveram
um desaquecimento nos anos 80. A
partir da década de 70, foram introduzi-
dos, nos programas de pós-graduação
em nível de especialização, disciplinas
de cunho didático-pedagógico para o
ensino superior. Atualmente, de acordo
com o artigo 66 da Lei 9.394/96, que
estabelece as Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, a preparação para o
exercício do magistério superior far-se-á
em nível de pós-graduação, prioritaria-
mente em programas de mestrado e
doutorado. No artigo 52, inciso II e III,
propõe que um terço do corpo docente
esteja pelo menos com titulação acadê-
mica de mestrado e doutorado, e um
terço, com tempo integral; porém, no
Ano XII, Nº 29, março de 2003 179UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
artigo 88, concede às universidades um
prazo de oito anos para cumprir essas
determinações.
A operacionalização do processo
ensino/aprendizagem urge ser revista.
De certo modo, os estabelecimentos de
ensino superior e as universidades, em
sua grande maioria, estão levando a ca-
bo o processo de ensino/aprendizagem
de forma descontextualizada, desatuali-
zada e tentando preparar cidadãos para
um mundo que não existe mais e difi-
cilmente voltará a existir. A cultura vi-
gente e a sua transformação são des-
consideradas. Há um divórcio entre a
realidade e o ensino. A complexificação
da realidade, a ambigüidade e suas
contradições não são consideradas e
analisadas. Os objetivos de ensino pro-
postos são geralmente ultrapassados e
não atendem mais às expectativas dos
educandos, que estão inseridos em
uma realidade dinâmica, cheia de para-
doxos e de concepções antagônicas. Os
conteúdos defasados, de pouca signifi-
cação, são abordados de forma frag-
mentada e linear. Os métodos de ensi-
no, com exceções, continuam medie-
vais e desprovidos dos recursos tecno-
lógicos de última geração, que estão
presentes no dia-a-dia dos cidadãos. O
sistema de avaliação ainda está preso à
memorização e à fixação de conceitos,
princípios, regras, enunciados questio-
náveis e, muitas vezes, superados. A in-
teração professor/ aluno, na maioria
das vezes, é autoritária, vertical, e se ca-
racteriza, em muitos casos, pela troca
de acusações e agressões verbais. Este
fenômeno, em muitos casos, é conse-
qüência da realidade cruel vivida, tanto
por parte dos discentes, quanto dos
docentes e do contexto atual.
O financiamento da educação supe-
rior, afetado pela adoção da política
neoliberal, impõe às universidades pú-
blicas desafios até então desapercebi-
dos. A partir da década de 90, as univer-
sidades da América Latina e Caribe vêm
enfrentando o desafio de satisfazer com
eficácia, em um ambiente de severas
restrições financeiras, profundas mu-
danças econômicas, políticas, culturais
e sociais de alcance mundial, as fun-
ções que historicamente a sociedade
lhes tem atribuído. As universidades, ao
mesmo tempo, reconhecem a necessi-
dade de se adequar e modernizar suas
estruturas, o processo educativo, sua
missão etc. para dar respostas satisfató-
rias às demandas oriundas da socieda-
de civil. Assim, as universidades públi-
cas estão se sentindo pressionadas pela
necessidade de buscar formas alternati-
vas de financiamento. Entre as possibi-
lidades, as relacionadas com o setor
produtivo resultam como as alternativas
mais fáceis de serem implantadas, po-
rém, tal perspectiva gera um desconfor-
to e um descontentamento dos diferen-
tes atores sociais, que vêem esta busca
como o primeiro passo à privatização.
Reimers (1990) assinala que as restri-
ções financeiras podem estimular no-
vas formas de pensar e de administrar o
desenvolvimento educativo. O essencial
seria que os governos considerem a
educação como uma forma de desen-
volvimento e a priorizem frente a outros
setores da ação pública. Analisando es-
ta situação, Catani asserva que
“a necessidade de cooperação
local, regional, nacional e interna-
cional torna-se vital para as univer-
sidades, mesmo para a própria
manutenção e desenvolvimento
institucional, uma vez que os recur-
sos dos fundos públicos são limita-
dos progressivamente. Os defenso-
res das parcerias afirmam que elas
não provocam dispersão, ou seja,
desvio dos interesses propriamente
acadêmico-científicos. Na verdade,
acreditam que as universidades
precisam aceitar a diversidade, o
pluralismo e a diferenciação im-
postas pela sociedade contemporâ-
nea, já que não podem mais con-
trolar a diversidade dispersiva por
meio de um denominador comum,
como a indissociabilidade ensino-
pesquisa. Também afirmam que
não há como universalizar a uni-
versidade de pesquisa. A única
alternativa é aceitar essa nova rea-
lidade dispersa, diversa, plural e
desigual. A multi-diversidade de
funções só é possível nas universi-
dades de excelência, sendo que as
demais instituições deviam investir
em áreas e atividades em que seja
possível obter resultados satisfató-
rios”( 2002:35).
Para Bernheim (2000), as restrições
econômicas afetam sensivelmente o
desempenho qualitativo das institui-
ções de educação superior, obrigando-
as a gastar mais de 90% de seus rendi-
mentos no pagamento de salários e a
reduzir sensivelmente os investimentos
mais importantes para a qualidade do
processo de ensino-aprendizagem. Mes-
mo assim, tais restrições conduzem a
priorizar o trabalho docente, com a des-
valorização das tarefas de investigação,
extensão e difusão.
A universidade, sendo o único locus
de formação profissional, além do ensi-
no, tem a função de pesquisa e exten-
são. A pesquisa deveria ser a mola im-
pulsora de todas as universidades que
aspiram a oferecer melhores condições
de vida à sociedade, pois ela abre
novas possibilidades, novos horizontes,
novas descobertas e novos caminhos e
perspectivas. Através da pesquisa, a
universidade torna-se universidade e
seu trabalho é reconhecido nacional e
internacionalmente. Para Demo (1990),
a atividade principal da universidade é
a pesquisa e o professor tem a incum-
bência de incentivar o aluno para que
ele seja um novo pesquisador, pois
sem investigação o ensino se reduz à
reprodução.
Isto posto, é imprescindível estabe-
lecer metas prioritárias para que a uni-
180 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
versidade abra espaço para fazer pes-
quisa em sala de aula e nos laborató-
rios, mas sobretudo na comunidade, a
fim de encontrar alternativas para ame-
nizar as desigualdades e melhorar a
vida política, econômica, social, educa-
cional e cultural da população latino-
americana e caribenha, eliminando ou
amenizando a miséria, a fome, a cor-
rupção e a violência. A pesquisa neces-
sita ter conseqüências sociais e econô-
micas para a sociedade. Portanto, é de-
ver da universidade oferecer ensino
com pesquisa e para a pesquisa.
Apesar dos inúmeros desafios a
serem enfrentados, é mister reconhe-
cer o papel da universidade, especial-
mente pública, que, ao longo da histó-
ria, tem desenvolvido um papel impor-
tante na difusão e no enriquecimento
cultural da região, no estabelecimento
da ciência e da tecnologia, na formação
de princípios democráticos, no fomen-
to de pensamento crítico, além de ser
o principal agente no desencadeamen-
to de pesquisa básica e aplicada. Sem
a presença da universidade pública,
certamente a América Latina e Caribe
estariam muito aquém das atuais con-
dições de vida da sociedade hodierna.
A universidade tem muito a oferecer à
sociedade. Seguindo esta linha de ra-
ciocínio, Pacheco diz que “a universida-
de tem muito a oferecer à sociedade
civil neste momento histórico em que
estamos construindo processo político
participativo, onde o processo legislati-
vo assegurou instrumentos legais para
a participação popular e estabelecer
novas formas de relação entre a socie-
dade civil e o Estado” ( 2001: 112).
O Banco Interamericano de Desen-
volvimento (BID), a partir dos dados
coletados junto às instituições, tece
algumas severas críticas às universida-
des da região: baixa qualidade do ensi-
no e da pesquisa, alto índice de eva-
são, elevado custo com o pessoal
(número pequeno de alunos por pro-
fessor) e pouco investimento em infra-
estrutura, além das instituições terem
sido incapazes de criar um sistema
adequado de recompensa pela produ-
tividade e de punição pela improdutivi-
dade. Para o órgão, o ensino superior
que necessita atender aos interesses e
demandas do mercado e do capital es-
trangeiro, deve abarcar quatro funções:
- a formação de uma elite intelectual; -
a formação de pessoal para o mercado
profissional específico; - a formação de
técnicos e licenciados em programas
de curta duração; - e a formação de
generalistas.
A proposta do BID, que objetiva
que as universidades da América Latina
e Caribe alterem a sua missão, os cur-
rículos escolares e a preparação profis-
sional, tem como objetivo melhorar o
índice custo-benefício, diminuir os en-
cargos do Estado, flexibilizar e adaptar
o ensino superior ao contexto atual e
tornar as instituições competitivas en-
tre si. As universidades de excelência
devem continuar a ser mantidas pelo
Estado e, necessariamente, para a for-
mação de uma elite intelectual, devem,
além do ensino, realizar pesquisa. Em
relação a esta problemática, Chauí assi-
nala “...a idéia, portanto, é que há uma
elite intelectual que pensa, e depois
todo o resto que tem como objetivo o
mercado de trabalho. E cada vez que o
mercado de trabalho saturar, você in-
venta um curso de formação geral para
adicionar valor no currículo de quem
compete em um mercado saturado”
(2001:22).
Considerações finais
À luz das proposições do Banco
Mundial, do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, da UNESCO, da pró-
pria história da universidade e da atual
conjuntura, cabe aos diferentes seg-
mentos da sociedade civil considerar a
universidade como instituição univer-
sal, científica, educativa e de relevância
social, que historicamente foi constru-
indo sua missão. A universidade, atu-
ando em seus dilemas, em uma socie-
dade de contradições, é imprescindível
para o processo de transformação de
uma nação, região, continente, e do
próprio planeta Terra, e não simples-
mente pode ser vista como um pesado
encargo para o Estado. Face a esta pre-
missa, todo o empenho é necessário
para a ampliação do acesso à universi-
dade pública e gratuita; para o aumen-
to da qualidade de ensino; para o fo-
mento à investigação, à liberdade aca-
dêmica, à autonomia universitária e à
intensificação da cooperação local, re-
gional e internacional.
Portanto, almeja-se que, no decor-
rer do século XXI, a universidade possa
aliar crescimento quantitativo com
qualitativo, por meio do emprego de
mecanismos de acompanhamento e
de controle interno e externo, para que
forme cidadãos cosmopolitas, providos
de fundamentação teórica acurada,
com concepção política e ética, de es-
pírito democrático, capaz de transfor-
mar a realidade política, econômica,
social, educacional e cultural da Amé-
rica Latina e Caribe. Este imperativo
elevado, mesmo que até certo ponto
utópico, deve ser a grande missão da
universidade para a edificação de uma
sociedade mais humana, justa, igualitá-
ria e solidária. A universidade, que du-
rante os novecentos anos de existên-
cia, sempre teve um papel social signi-
ficativo, nos dias atuais tem a missão
de revisar o paradigma produtivo e de
propor câmbios para que o homem se
assuma como um sujeito histórico e
trabalhe em prol do social. Para aten-
der às novas demandas da sociedade,
a universidade que, praticamente du-
rante sua história, tinha a função de en-
sinar e de investigar, necessita:
- manter uma estrutura administra-
tiva e pedagógica flexível e mais ágil
para se antecipar às mudanças;
Ano XII, Nº 29, março de 2003 181UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
- ser aberta às necessidades, aspi-
rações e expectativas da sociedade;
- integrar, vertical e horizontalmen-
te, ensino-investigação e serviços co-
munitários;
- oferecer à comunidade cursos e
atividades de educação permanente;
- oferecer educação para todas as
idades;
- universalizar a cultura;
- criar novos mecanismos para a su-
peração dos grandes dilemas antagôni-
cos que afligem a humanidade: ciência
x sabedoria popular; indivíduo x organi-
zação; livre iniciativa x interesses soci-
ais; multinacionalismo x interesses re-
gionais; e ecologia x economia.
Nota
1. É uma associação de 72 universidades euro-
péias e latino-americanas, com sede em Ge-
nebra e Paris. Aprovada pela Unesco e pela Co-
missão Européia, foi fundada em 1987 e tem
como objetivo promover o desenvolvimento
institucional e a cooperação multilateral.
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Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
Ano XII, Nº 29, março de 2003 185UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
N
atural da cidade do Rio de Janeiro, professor da Faculdade de Educação
da UFRJ, vice-presidente da ADUFRJ, gestão 89/91, presidente do ANDES-
SN, gestão 2000/2002, o educador Roberto Leher iniciou, na militância sindi-
cal, em 1988, e logo passou a participar do grupo de política educacional do
ANDES-SN, atuando nas discussões, da época, em torno do projeto de LDB.
De 2000 a 2002, eleito, assume a presidência do ANDES-SN, num período de
muitas dificuldades para o Sindicato, nomeadamente em função da desarticu-
lação da entidade com a sua base e da negligência com seus compromissos
políticos. De formulação fácil, coerente e politicamente correta, o professor Ro-
berto Leher é um pensador íntegro, um inesquecível companheiro de trabalho
e uma capacidade inesgotável de militância política.
Hoje, seu nome se inscreve, com realce, na história do movimento do-
cente nacional. É um de seus símbolos mais expressivos. Nesta entrevista, ele
nos fala de sua experiência como sindicalista e do trabalho sindical que o atual
cenário político brasileiro nos aguarda. Neste momento, a Diretoria do ANDES-
SN enfrenta outros desafios. Na sua opinião: “Precisamos de muita sabedoria
para lidar com esses novos desafios. É muito diferente, (...), ser diretor numa
gestão Lula e ser diretor numa gestão FHC”.
Roberto Leher
Por Antônio Ponciano Bezerra*
e Janete Luzia Leite**
Universidade e Sociedade (US):
Para iniciar, uma pergunta sobre seus
antecedentes políticos e sindicais.
Quando e como ingressou no movi-
mento docente local e nacional e
quais as suas motivações para se inse-
rir nesse contexto político?
Roberto Leher (RL): Minha militân-
cia no movimento docente teve início
no ano de 1988, quando fiz concurso
para a Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Quando eu entrei na universi-
dade, Sarney, na época, havia proibido
a contratação de docentes. Havia uma
medida do governo nesse sentido. En-
tão, participei de algumas reuniões da
ADUFRJ, que estava discutindo essa
questão, e em função dessa participa-
ção inicial, fui convidado a integrar a
chapa da gestão 89 a 91, como vice-
presidente da ADUFRJ. Enfrentamos a
greve - uma greve áspera, muito difícil,
em pleno governo Collor - e, desde en-
tão, tenho participado do movimento
docente, mas sempre militando em
instâncias de base. Logo a seguir, fui
para o grupo de política educacional
do ANDES e entrei em contato com as
reflexões desse grupo, com o acúmulo
das discussões sobre o projeto de uni-
versidade do ANDES e dos debates so-
bre o seu projeto de LDB, proposto na
época. Com isso, fui participando de
forma mais sistemática do movimento
docente. Então, remonta, pelo menos,
a 1989, de forma mais orgânica, quan-
do assumi a vice-presidência da ADUFRJ.
A motivação que me levou a partici-
par de um movimento organizado vi-
nha de antes, porque eu havia partici-
pado do movimento secundarista, ain-
da quando jovem. Em 1979, represen-
tei o segmento estudantil no PT de
Nova Friburgo, uma cidade do interior
do Estado do Rio de Janeiro, fazendo
parte da primeira direção provisória do
PT que nós fundamos, ainda em 79.
Fiz militância também, mas de uma
forma mais assistemática, de forma
não orgânica, com companheiros que
estavam tentando reorganizar o Parti-
do Comunista Brasileiro. Mas logo me
afastei e, em 79, participei da fundação
do Partido dos Trabalhadores.
Eu creio que a motivação mais forte,
em relação à participação, à continua-
ção da participação no movimento
ANDES, para mim, foi a possibilidade
de fazer uma discussão, uma reflexão
sobre a universidade. Isso, na época,
me fascinou muito. Lembro que eu já
havia participado, de uma forma mais
assistemática, de outros Sindicatos, co-
mo o Sindicato dos Professores, aqui
no Rio de Janeiro, mas não havia ne-
nhum tipo de reflexão mais profunda
sobre projeto de educação, concepção
de universidade etc. Isso, no ANDES,
me motivou muito. Foi um período ex-
tremamente rico para a vida do Sindi-
cato a nossa reflexão sobre o projeto
de LDB, que, na realidade, sistemati-
zou e ampliou o nosso projeto ANDES
para a universidade brasileira. Foi um
período muito instigante e isso fez que
eu permanecesse na militância. Foi
algo muito forte!
Também houve a minha participa-
ção na greve de 91. Foi uma greve ex-
tremamente definidora, do ponto de
vista político. É claro que nós sabíamos
que, em 90, 91, muitos professores ha-
viam apoiado Collor. Mas havia o
debate político interno nas universida-
des; eu já havia participado, naquela
época, de debates em outras universi-
dades, além da UFRJ, em seções sindi-
cais, em movimentos organizados pe-
las seções sindicais. Enfim, o debate
político foi extraordinário naquele pe-
ríodo e muito rapidamente criamos
um espaço público de discussão na
universidade. A única forma de partici-
pação democrática era o movimento
docente. Acho que ainda é, hoje, o
principal meio de participação demo-
crática dos professores, e isso fez com
que muito rapidamente os docentes
tivessem uma posição crítica em rela-
ção ao governo Collor. Aliás, nós so-
mos o primeiro Sindicato de âmbito
nacional que pediu o impeachment de
Collor. Então, foi um período de apren-
dizado político, para mim, excepcional.
US: O senhor foi presidente do
ANDES-SN, na gestão 2000/2002, as-
sumindo a liderança do movimento
após um período de desarticulação do
Sindicato da sua base, de seus com-
promissos políticos, inclusive com um
comportamento de cooptação junto
ao governo federal. Como o senhor
avalia esse quadro que teve de en-
frentar, tomar posições sérias, decisi-
vas, incômodas inclusive, face aos
desmandos problemas identificados
na da gestão anterior?
RL: Eu acho que foi o momento, tal-
vez, mais difícil da história do ANDES,
pelo menos, desde que eu acompanho
o ANDES Sindicato Nacional. O período
98/2000 seguramente foi o mais difícil
- não pelas adversidades da conjuntura
porque, em outros momentos, nós ti-
vemos dificuldades de conjuntura polí-
tica muito grandes - mas pela postura
interna em relação à gestão no Sin-
dicato, pelos companheiros que esta-
vam à frente do Sindicato entre 98 e
2000. Eu creio que os acontecimentos
da greve de 98 mostraram um vigor
político do ANDES excepcional. Na-
quele momento, várias questões foram
rejeitadas pelas assembléias; proposi-
ções políticas que foram rejeitadas por
186 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
quase todas as assembléias do país
foram negociadas em nome do Sin-
dicato com o governo, particularmente
com Antônio Carlos Magalhães, numa
tentativa de quebrar o movimento. Não
era só a de terminar a greve, mas clara-
mente Fernando Henrique tinha como
meta destruir o Sindicato Nacional,
desmoralizá-lo junto à sua base e, infe-
lizmente, os companheiros que esta-
vam à frente do Sindicato contribuíram
para essa posição.
Eu acompanhei aquele período da
greve de 98; no final da greve estive no
Comando de Greve. Anteriormente, eu
praticamente não havia estado no Co-
mando de Greve, quando era presi-
dente da ADUFRJ. Naquele período,
estive praticamente acompanhando o
cotidiano do movimento na base; mas,
no período final da greve, estive no Co-
mando e foi desconcertante ver a posi-
ção, particularmente, do presidente do
Sindicato, encaminhando questões
que não haviam sido discutidas e deli-
beradas pela base do Sindicato. Segu-
ramente isso foi algo inédito na histó-
ria do Sindicato. A indignação que cau-
sou no conjunto do Sindicato, mesmo
em forças mais conservadoras dentro
da universidade, pois jamais tinham
visto tal posicionamento, gerou uma
insatisfação crescente, que fragilizou
enormemente a legitimidade da ges-
tão 98/2000.
O problema da perda da legitimida-
de dessa gestão 98/2000 é muito
grave porque, obviamente, repercute
sobre a vida do Sindicato como insti-
tuição. Foi o ANDES que saiu arranha-
do dessa proposição e o ANDES dei-
xou de ser um Sindicato respeitado.
Era visível o isolamento do Sindicato
na sociedade. Quer dizer, quando se
trazia uma questão, quando se discutia
uma questão pertinente à universida-
de, o ANDES-SN não era mais chama-
do, porque se desmoralizou perante a
sociedade. Foi um período árduo, e as
seções sindicais do ANDES-SN é que,
eu creio, resgataram e fortaleceram a
legitimidade do Sindicato. As instân-
cias de base não deixaram de funcio-
nar. As assembléias permaneceram crí-
ticas e, sobretudo, a maior crítica feita
pelas assembléias e pelos movimen-
tos de base do Sindicato não foi só em
relação às posições políticas da gestão
98/2000 porque o debate político está
sempre aberto, e as concepções mui-
tas vezes dependem de leituras da rea-
lidade que são obviamente diversas,
mas era em relação aos procedimen-
tos democráticos do Sindicato que es-
tavam em risco. Desde a posse até o
seu final, a gestão anterior, a gestão
98/ 2000, sistematicamente desres-
peitou as instâncias de base, desres-
peitou procedimentos que são um pa-
trimônio político, talvez o mais nobre
do nosso Sindicato Nacional e isso,
certamente, abalou a nossa ação polí-
tica. Então, foi um período muito difí-
cil para a história do ANDES.
É muito triste lembrar o isolamento,
o descrédito, a postura servil, em vá-
rios momentos, em relação ao posicio-
namento do governo que, naquele
contexto, avançou enormemente no
projeto neoliberal. Não podemos es-
quecer disso: o período 98/2000 foi o
momento em que o Brasil fez um
acordo com o Fundo Monetário Inter-
nacional (o FMI), foi aquele famoso
empréstimo de 40 bilhões de dólares,
e a contrapartida exigida pelo Fundo
foi a Reforma da Previdência e a Re-
forma Administrativa, que geraria o
emprego público, um dos motivos que
levaram à greve de 2001. Se nós pe-
garmos os jornais do Sindicato, pegar-
mos o InformANDES, pegarmos os ofí-
cios do período, vamos ver que, no dia
em que foi votada a Emenda Consti-
tucional nº 20, o Sindicato não fez um
chamado à base para que estivesse
em Brasília, a fim de impedir esse as-
pecto da reforma. Da mesma maneira,
quando passou a Lei do Emprego Pú-
blico, igualmente o Sindicato não cha-
mou a base, a Direção não chamou a
base para se confrontar com o projeto
neoliberal.
Então, fica a indagação: foi apenas
descaso político, ou uma leitura incor-
reta da conjuntura ou conivência polí-
tica? Desgraçadamente, temos muitos
elementos para acreditar que foi por
uma leitura do que estava acontecen-
do, uma conveniência política decor-
rente de uma leitura da conjuntura,
em que achavam que as reformas
neoliberais estavam dadas e que não
havia muito como se contrapor a elas;
que deveríamos, de alguma forma, ne-
gociar as perdas com a Emenda Cons-
titucional nº 20, ou seja, a reforma da
Previdência, e a Emenda Constitucio-
nal nº 19, da Reforma Administrativa,
que geraria o Emprego Público.
Então, de fato, foi um período muito
crítico do Sindicato. Porque, no mo-
mento em que a universidade brasilei-
ra, estruturalmente, foi mais atacada, o
Sindicato teve uma postura extrema-
mente débil. Basta lembrar, também,
que durante boa parte dos nossos em-
bates, entre 98 e 2000, estávamos so-
zinhos em relação aos outros servido-
res públicos, a outros sindicatos da
educação. A nossa postura, não a do
Ano XII, Nº 29, março de 2003 187UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
O problema da perda
da legitimidade dessa
gestão 98/2000 é muito
grave porque, obviamente,
repercute sobre a
vida do Sindicato
como instituição.
Sindicato como um todo, mas a postu-
ra da Direção do Sindicato, era uma
postura muito isolacionista, não havia
uma relação mais forte com os servido-
res públicos federais, com o movimen-
to da CNESF. Não havia um trabalho
político com o setor da educação. De
modo que o Sindicato se isolou, se de-
bilitou e perdeu seu vigor político. Pior:
silenciou diante das reformas neolibe-
rais decorrentes do acordo de 98.
É claro que isso não foi absoluto,
essa conivência não foi absoluta, por-
que a base do Sindicato sempre foi
uma base muito atenta, muito crítica,
muito combativa; mas é claro que,
quando a base está se manifestando e
a Direção não dá conseqüência políti-
ca às demandas da base, é claro que
essas demandas ficam muito fragiliza-
das. Eu me lembro da Reforma da Pre-
vidência: havia debates enormes nas
seções sindicais, havia posicionamen-
tos muito claros, em Congressos e
CONAD, sobre a Reforma da Previdên-
cia; portanto, o Sindicato tinha posição
política. Mas compete à Direção fazer e
organizar as convocações e organizar a
intervenção política do Sindicato. Isso
é papel da Direção, é um papel execu-
tivo, de operação, e isso não foi feito.
Então, seguramente, entramos enfra-
quecidos nesse embate com o gover-
no, no período 98/2000, sobretudo,
como disse, nas Reformas Administra-
tiva e da Previdência.
A campanha eleitoral, portanto, foi
uma campanha muito difícil. Acho que
a maior dificuldade da campanha elei-
toral, num primeiro momento, foi con-
vencer os docentes de que esse pro-
cesso político, que estávamos traba-
lhando - a eleição - era importante pa-
ra o futuro do Sindicato e que era im-
portante que os professores participas-
sem. O maior desafio foi chamar a mi-
litância, organizar a militância em cada
núcleo, para que se envolvesse de
uma maneira muito forte no embate
político, para que pudéssemos fazer
uma discussão política do que aconte-
ceu entre 98 e 2000, e para que os
professores pudessem votar de manei-
ra esclarecida. Esse chamamento da
militância foi bem sucedido. Foi decor-
rente da ação do campo político majo-
ritário no Sindicato, que organizou
essa militância, que se preparou muito
bem para esse embate político na elei-
ção de 2000, e, com isso, foi possível
estabelecer um debate importante em
cada núcleo, em cada seção sindical,
em cada universidade, ou centro fede-
ral de educação tecnológica, em todas
as instituições de ensino superior que
são representadas pelo ANDES Sindi-
cato Nacional. O debate foi rico, foi
possível fazer muitos debates com o
nosso candidato oponente, o profes-
sor Milton, e os professores puderam
votar de maneira esclarecida. Segura-
mente os professores votaram por
uma concepção de movimento docen-
te, por uma concepção de universida-
de, uma concepção de sociedade. O
voto majoritário foi um voto que resga-
tou a história, a linha política do ANDES.
Foi uma experiência muito rica, muito
mobilizadora, ver a energia política, a
motivação política da base do Sindicato.
Eu encontrei companheiros que
fizeram parte das primeiras direções
do ANDES, que estavam afastados do
movimento docente. Quando eu fazia
visitas às universidades, às escolas,
companheiros se levantavam da pla-
téia e diziam: eu fui diretor do Sindi-
cato, fui fundador da seção sindical,
acompanhei o que aconteceu nesse
período, não aceito o que está aconte-
cendo e me coloco novamente na mi-
litância para retomar o Sindicato, para
resgatar a combatividade, a autono-
mia, a democracia do nosso Sindicato.
Foi excepcional contarmos com o re-
torno de companheiros que são refe-
rências históricas do nosso movimento
e que perceberam que tinham um
papel a cumprir para resgatar o Sin-
dicato que estava, como disse, muito
debilitado. Foi um processo inédito de
resgate de militantes antigos e de
organização de novos militantes para
que o Sindicato voltasse a ter um fun-
cionamento de acordo com a sua tra-
dição política, com sua tradição histó-
rica de um Sindicato combativo, crítico,
capaz de formular idéias, projetos. Es-
se, aliás, é um outro ponto do qual fa-
ço um balanço muito negativo da ges-
tão 98/2000.
É curioso que, inicialmente, esses
companheiros tentaram passar uma
imagem de que fariam um sindicalis-
mo propriamente acadêmico, mas
nunca o debate organizado pela Dire-
toria foi tão débil quanto no período
de 98/2000. Quando assumimos, fo-
mos abrir as pastas dos Grupos de
Trabalho - de Política Educacional, do
Grupo de Carreira, do GT de Comu-
nicação e Artes, de todos os GT; as
pastas estavam fundamentalmente
vazias, não havia nenhuma produção
teórica, nenhuma formulação política,
nenhuma sistematização crítica das
medidas que estavam em curso, feitas
pela diretoria. Foi algo desconcertante
ver isso. Ou seja, foi um período em
que o nosso Sindicato deixou de for-
mular e isso se traduziu em algo a que
eu já havia feito referência anterior-
mente: no isolamento político - nós
deixamos de ser interlocutores ativos
na sociedade. Até porque o Sindicato
não tinha mais uma produção teórica
sistematizada e essa produção teórica
188 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
sempre foi uma qualidade do ANDES.
Desde o início, quando estávamos dis-
cutindo a Constituinte, até o momento
em que discutimos o projeto LDB e o
nosso projeto de universidade, o
ANDES sempre foi capaz de formular
teoricamente sobre universidade, so-
bre o que significa docência, o que sig-
nifica pesquisa num país com as carac-
terísticas do nosso. Assim como o
nosso Sindicato sempre fez análise de
conjuntura, ele sempre produziu co-
nhecimento: um conhecimento teori-
camente relevante, um conhecimento
capaz de interferir completamente no
real, de interferir na condução política
e de ser referência para outros Sin-
dicatos, inclusive. Basta lembrar, por
exemplo, que, de 2000 a 2002, quan-
do eu estive na Diretoria do Sindicato,
toda a teorização feita sobre Emprego
Público, dentro do serviço público fe-
deral, basicamente foi feita pelo ANDES.
Foi feita pela militância, pelos Grupos
de Trabalho, pela Diretoria, que siste-
matizou esse debate e nele foi referên-
cia política. E isso não virou um tema
central dentro da agenda dos servido-
res públicos federais por geração es-
pontânea. Em outros momentos, o
ANDES sempre fez isso, como na
Constituinte. Enfim, havíamos perdido
também essa capacidade de produzir
conhecimento.
Então, em síntese, eu diria que o
período 98/2000 foi um período em
que a imagem pública do Sindicato fi-
cou muito erodida, ficou muito des-
gastada, mas que, contraditoriamente,
fez com que os militantes históricos, as
nossas seções sindicais, os núcleos de
base, as assembléias gerais, os CONAD,
os Congressos tivessem um vigor tal-
vez, em grande medida, inédito na his-
tória do Sindicato, tal era o empenho
dos militantes para manter o ANDES
dentro de uma linha política que o sin-
gularizou dentro do sindicalismo brasi-
leiro e, possivelmente, dentro do sindi-
calismo latino-americano. A campanha
eleitoral foi uma campanha extrema-
mente vigorosa e rica porque justa-
mente esses companheiros estiveram
à frente da reconstrução do Sindicato,
da imagem pública do Sindicato junto
à base e ofereceram elementos fortes
para que os professores pudessem vo-
tar de forma muito esclarecida; e isso
se confirmou nas urnas. Avalio que foi
uma experiência pessoal insubstituível,
certamente pela qualidade política,
pela confiança que os companheiros
estavam depositando na nossa Direto-
ria, para que pudéssemos não só ven-
cer as eleições, mas também retomar
o caminho do ANDES dentro de sua
perspectiva histórica.
Sentimos muita alegria e, no senti-
do positivo da palavra, muito orgulho,
poder contar com uma lista de apoia-
dores em que toda a melhor tradição
política do ANDES-SN havia assinado a
nossa Carta: as diretorias anteriores, os
primeiros diretores, até mesmo o Ma-
ciel, que estava afastado e foi o primei-
ro presidente do Sindicato, retomou a
sua militância exatamente para tentar
contribuir para o resgate do Sindicato.
Isso foi muito positivo, assim como o é
mostrar que não há incompatibilidade
entre sermos um Sindicato crítico, um
Sindicato combativo, um Sindicato que
tem uma perspectiva de classe, que
aponta para uma perspectiva de cons-
trução de uma sociedade socialista, e
sermos um Sindicato capaz de dialo-
gar com as melhores formulações fei-
tas na universidade brasileira. Basta
ver a lista de apoio feita tanto para a
nossa chapa, em 2000, como para a
chapa que dá continuidade ao traba-
lho do campo político majoritário em
2002: seguramente o melhor da uni-
versidade brasileira assinou a nossa
Carta e isso é o reconhecimento à se-
riedade, à qualidade política do traba-
lho do ANDES Sindicato Nacional.
US: Professor, para além desse
quadro político de ausência de conti-
nuidade do trabalho e luta do Sindi-
cato, administrativamente essa gestão
também cometeu uma série de des-
controles que exatamente levou a sua
presidência, toda a Diretoria do Sin-
dicato, a tomar decisões sérias, gra-
ves, incômodas. O senhor poderia fal-
ar um pouco desse quadro, desse lado
administrativo da gestão anterior à
sua?
RL: Eu penso que essas entrevistas
são significativamente chamadas de
memória do movimento docente e
acho que é para isso mesmo. Esses
depoimentos devem oferecer elemen-
tos para uma leitura da história do
Sindicato, uma avaliação da trajetória,
da intervenção política do nosso Sin-
dicato. E acho que futuros militantes,
estudiosos que vão reexaminar, como
várias teses já fizeram, a história do
nosso Sindicato, vão encontrar ele-
mentos muito ricos nesses depoimen-
tos. De fato, essa questão é central
porque o Sindicato Nacional, ainda co-
mo Associação, foi talvez um dos pri-
meiros Sindicatos a, de maneira clara
e peremptória, recusar o imposto sin-
dical. Ou seja, afirmávamos, desde o
início, que essa entidade deveria ser
autônoma em relação ao governo e
que deveria ser sustentada pela sua
base, isto é, cada sindicalizado deveria
manter o seu Sindicato. Isso pressupõe
uma relação de confiança política e
ética da Diretoria em relação à sua ba-
se e da base em relação à Diretoria. A
Ano XII, Nº 29, março de 2003 189UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
base tem que confiar que a sua contri-
buição, de fato, está sendo utilizada
para o trabalho político e para a inter-
venção política do Sindicato e que, em
nenhuma hipótese, esse dinheiro vai
ser utilizado de forma indevida. Isso é
também um patrimônio do Sindicato.
O nosso Sindicato, diferentemente
do que previa a literatura sobre o futu-
ro das entidades sindicais, nos anos 80
e 90, no período de afirmação do neo-
liberalismo, que previa que em poucos
anos os Sindicatos praticamente desa-
pareceriam, o nosso Sindicato, ao con-
trário, nunca reduziu a sua participa-
ção, nunca houve uma redução da
participação da base no Sindicato Na-
cional. Ao contrário, nós somente cres-
cemos, sistematicamente. Todas as se-
ções sindicais, o número de sindicali-
zados somente conheceu o crescimen-
to. O nosso Sindicato hoje é o que
conta com uma das maiores taxas de
sindicalização do país. Seguramente
está entre o pequeno grupo de Sin-
dicatos em que a sindicalização é vo-
luntária, pela consciência política do
professor. Nós temos seções sindicais
com mais de 90% de sindicalizados e
a média do ANDES supera 80%. Isso
mostra que a base do Sindicato tem
uma confiança integral; pode haver
debate político, pode haver divergên-
cia política, mas tem uma confiança
total na lisura, na forma com que o
Sindicato vem sendo conduzido na
sua gestão, enquanto entidade repre-
sentativa.
De fato, a primeira questão que nos
assombrou, quando assumimos a Di-
retoria, em 2000, no CONAD de posse
ainda, foi constatar, num relatório feito
por auditoria, que havia algo como
500 mil reais de despesas não registra-
das. Obviamente nós nunca tratamos
essa questão no sentido acusatório, de
que poderia haver roubo ou qualquer
coisa parecida, não foi nossa interpre-
tação. Mas o que nos chamou a aten-
ção foi a falta de cuidado com o trato
administrativo dos assuntos econômi-
cos do Sindicato. Ou seja, o descuido
com a contabilidade, com o registro,
com os procedimentos. E isso é o que
nos motivou a fazer um trabalho exa-
ustivo de busca de documentos, para
que não houvesse despesas que não
fossem comprovadas.
Fizemos um trabalho exaustivo que,
para ser completado, precisou de
assessoria técnica especializada de um
escritório contábil, que fez uma audito-
ria nas contas; examinamos os docu-
mentos e, de fato, constatamos que,
além da desorganização administrativa
que era visível e óbvia - e, sobre isso, é
só observar o histórico das contabilida-
des do Sindicato - mas também cons-
tatamos que, em mais de uma circuns-
tância, os recursos do Sindicato foram
utilizados para fins que não são os fins
estatutários do ANDES. Nós sempre fo-
mos muito rigorosos na separação, por
exemplo, dos recursos do Sindicato,
dos partidos políticos, das correntes
políticas que estão no interior do Sin-
dicato; e, no entanto, encontramos no-
tas que comprovaram uso de recursos
do Sindicato para favorecer a chapa da
diretoria que, então, estava à frente do
Sindicato, ou seja, da gestão 98/ 2000.
Eles utilizaram recursos do Sindicato
para favorecer a sua chapa. Isso, obvia-
mente, é uma falta extremamente gra-
ve, porque diz respeito à ética no trato
do bem público, do nosso bem públi-
co, do bem coletivo, do fundo que os
professores constituem para organizar
a sua entidade. Assim como encontra-
mos situações inadmissíveis - e graves!
- como, por exemplo, o uso de recur-
sos do Sindicato para viagens privadas
de Diretores, como foi o caso do ex-
presidente Renato de Oliveira, que uti-
lizou recursos do Sindicato para passa-
gens sua e de parente para o exterior.
Essas situações são graves porque, se
não fossem apuradas com rigor e não
houvesse providências claras e contun-
dentes por parte da base do Sindicato,
como felizmente aconteceu, poderiam
quebrar a relação de confiança que a
base tem em relação ao Sindicato.
Então, esse desleixo administrativo, o
uso de recurso do Sindicato para fins
que não estão previstos no Estatuto e
para fins que não fazem parte do bem
comum do Sindicato, para fins particu-
laristas, isso poderia ter abalado a con-
fiança da base em relação ao Sin-
dicato, enquanto órgão representativo
da categoria.
Mais de um Sindicato já passou por
essa crise, já viveu essa crise de ver a
sua base perder a confiança por de-
núncias em relação ao trato adminis-
trativo e financeiro da entidade. Feliz-
mente, conseguimos fazer que esse
debate acontecesse de forma muito
ampla dentro do movimento. Conse-
guimos, felizmente, conduzir esse de-
bate sem motivações políticas. Nós ti-
vemos muito cuidado de não fazer uso
político, ou melhor dizendo, um uso
eleitoreiro dessa questão. Qualquer
estudioso que pegar os InformANDES,
pegar os ofícios à base seguramente
vai constatar o extremo cuidado que a
diretoria 2000/2002 teve no trato
dessa questão, para não fazer acusa-
ções, como, aliás, fizeram em relação à
gestão anterior - 96/98: a diretoria 98/
2000 foi pródiga em fazer ilações, insi-
nuações em relação à gestão anterior.
Nós tivemos muito cuidado para que
190 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
O Sindicato não tolera qualquer tipo de uso indevido de recursos
e, sobretudo, o Sindicato não tolera uma gestão que seja
displicente com a publicidade dos atos administrativos.
isso não acontecesse, para que as
punições previstas em Estatuto pudes-
sem ser tomadas apenas com base
nos fatos e não em qualquer outro
tipo de motivação. E foi com base nes-
ses fatos que o Congresso do ANDES,
depois o CONAD, confirmaram a puni-
ção aos ex-diretores que estiveram
como responsáveis pelo Sindicato e os
afastaram por um período considerá-
vel das atividades do Sindicato, justa-
mente como uma forma de sanção
aos atos que adotaram durante o
período em que o Sindicato foi confia-
do a eles.
Eu acho que o Sindicato saiu com a
sua imagem pública recuperada. Eu
creio que hoje qualquer professor po-
de estar, e certamente estará, muito
tranqüilo em relação à forma como o
Sindicato está sendo administrado. Ele
sabe que o Sindicato não tolera qual-
quer tipo de uso indevido de recursos
e, sobretudo, o Sindicato não tolera
uma gestão que seja displicente com a
publicidade dos atos administrativos.
O Sindicato saiu fortalecido desse las-
timável episódio. Mas, de toda forma,
por pior que tenham sido esses acon-
tecimentos, o ANDES encontrou uma
forma própria, baseado nas suas pró-
prias instâncias, nas suas próprias deli-
berações, para fazer as punições e pa-
ra corrigir os rumos, enfim, da gestão
financeira e administrativa do Sindi-
cato. Foi muito positivo o fato de ter-
mos conseguido fazer isso interna-
mente ao Sindicato, sem necessidade
de irmos ao Judiciário, o que mostra
que a democracia, dentro do ANDES, é
a melhor forma de condução do deba-
te político e do trato administrativo da
entidade.
US: Professor, ao assumir a presi-
dência do ANDES-SN, o senhor foi al-
vo de perseguição política da adminis-
tração de sua universidade, a UFRJ,
ameaçado inclusive de punição por
ausência de reconhecimento do seu
direito de exercer o mandato sindical.
O senhor poderia historiar esse pro-
blema, fazer uma avaliação desse
quadro por que passou?
RL: Uma das primeiras medidas
que o Fernando Henrique adotou, em
seu governo, foi tentar debilitar o mo-
vimento sindical. Não podemos nos
esquecer da forma como ele conduziu
a greve dos petroleiros, ainda em 95.
Naquele momento, o presidente, ins-
pirado em Thatcher, que fizera algo
muito semelhante com os mineiros na
Inglaterra, avaliava que era indispensá-
vel quebrar um dos sindicatos mais
fortes dos trabalhadores brasileiros,
que era o Sindicato dos Petroleiros, e
que isso lhe facilitaria os encaminha-
mentos subseqüentes. Naquele mo-
mento, Fernando Henrique foi parcial-
mente bem sucedido. As medidas de
extrema violência que ele adotou, co-
mo demissão de dirigentes, multas
exorbitantes etc., permitiram que ele
tivesse uma vitória parcial, naquele
contexto. Mas logo constatou que os
sindicatos dos servidores públicos não
aceitariam passivamente as reformas
neoliberais. Daí, Fernando Henrique
modificou o Regime Jurídico Único,
que vem inspirado por princípios repu-
blicanos da Constituição, e alterou um
de seus aspectos centrais, que foi, jus-
tamente, o direito à licença sindical. É
claro que o presidente, naquele mo-
mento, estava avaliando que, com
isso, enfraqueceria a luta dos servido-
res públicos. Nós, do ANDES, portanto,
sabíamos e sabemos dos limites colo-
cados aí pelas mudanças da legislação
para a atuação sindical.
No entanto, as universidades, en-
quanto instituições autônomas, en-
quanto instituições pautadas pelo arti-
go 207, da Constituição Federal, vinham
assegurando autonomamente o direito
de os docentes estarem participando
da vida política das suas entidades,
tanto nas seções sindicais quanto na
Direção do Sindicato Nacional. Os pró-
prios departamentos definiam medidas
de redução de carga horária para que
os professores pudessem participar das
seções sindicais; ou no estabelecimen-
to de outras atribuições, como atribui-
ções acadêmicas de pesquisa, para que
pudessem ficar mais liberados e a ativi-
dade sindical não interferisse na quali-
dade do trabalho de docência.
No entanto, isso não foi possível na
UFRJ. Nós estávamos, naquele mo-
mento, com um interventor; um inter-
ventor a quem o Ministério da Educa-
ção conseguiu dar posse após mais de
dois meses de ocupação da Reitoria
pelos estudantes, com 500 policiais fe-
derais. E, somente dessa forma, o in-
terventor pôde assumir a gestão da
UFRJ. Ele sabia, o interventor, assim
como o Ministério da Educação, que a
seção sindical e o próprio ANDES esti-
veram na linha de frente da resistência
a essa intervenção. E, obviamente, isso
gerou um antagonismo do governo
em relação ao ANDES e à seção sindi-
cal, extremamente virulento. Logo que
assumimos a Diretoria, comunicamos
ao Ministério da Educação a posse e a
necessidade de que a universidade
respeitasse o direito à representação
sindical. O departamento ao qual es-
tou ligado, na minha universidade,
igualmente tinha um posicionamento
de apoio ao mandato. No entanto,
nem o MEC, e tão pouco a Reitoria da
UFRJ, o interventor, aceitaram a possi-
bilidade de eu ficar como representan-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 191UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
te, eleito que fui, da categoria; e desde
o início o Ministério se eximiu de qual-
quer tipo de compromisso em relação
ao mandato.
É importante registrar a posição an-
tagônica ao direito de liberdade sindi-
cal, de organização do mandato, de
manutenção do exercício do mandato
por parte do ministro Paulo Renato e,
sobretudo, da Direção da Universidade
Federal do Rio de Janeiro que, na épo-
ca, era o interventor Vilhena. Ele, des-
de o início, acolheu uma posição da
direção da Faculdade, que, igualmen-
te, entrou de uma forma não legítima.
A diretora da Faculdade também foi
nomeada pelo Vilhena, ainda que não
expressasse o desejo da comunidade;
ela foi imposta à comunidade da
Faculdade de Educação. Sistematica-
mente, eles passaram a tratar o man-
dato sindical como ausência e como
abandono de emprego, e assim foi fei-
to: deram mais de 3 meses de faltas,
exatamente para abrir um processo de
abandono de emprego, com vistas à
demissão. Muitos setores da socieda-
de, do parlamento, as entidades aca-
dêmicas, sindicais, se manifestaram e
denunciaram esse fato; e essa denún-
cia assumiu um caráter nacional e até
mesmo internacional - sindicatos de
outros países também criticaram a po-
sição persecutória. E, finalmente, após
a suspensão dos vencimentos, após já
haver processos no judiciário, enfim,
para afastamento das minhas ativida-
des, já com todo um quadro prepara-
tório para afastamento definitivo da
universidade, numa das suas raras reu-
niões, o Conselho Universitário apro-
vou uma proposição, exigindo que o
Reitor abonasse essas faltas para que
o processo de demissão não fosse
constituído. E a seguir, os professores
da Faculdade de Educação da Uni-
versidade de Brasília - UnB, que tam-
bém acompanharam, como as outras
universidades, essa situação, me fize-
ram um convite para que eu ficasse
cedido à Universidade de Brasília, on-
de eu faria atividades acadêmicas e
poderia ter a possibilidade do exercício
do mandato sindical.
Seguramente, foi a generosidade
dos docentes da UnB- e eu não posso
deixar de registrar inclusive o apoio da
própria direção da Universidade de
Brasília, a própria reitoria da UnB, que
criou todas as condições para que essa
cessão fosse possível, o que permitiu a
manutenção do meu vínculo empre-
gatício com a universidade, consegui-
do por concurso público. Permitiu, de
um lado, o convívio acadêmico com
companheiros e colegas da UnB, ainda
que muito prejudicado pelo mandato
sindical, assim como permitiu valer a
vontade dos docentes, de ter uma Di-
retoria, que foi confiada a mim, e a re-
presentação geral do Sindicato; permi-
tiu que pudesse valer o voto dos do-
centes. Nessa cessão, a UnB criou con-
dições plenas para o mandato sindical.
É importante registrar que tudo isso
aconteceu comigo e com outros sindi-
calistas, com outros dirigentes sindi-
cais também. Foi parte de um proces-
so de ofensiva do neoliberalismo e da
coalizão de classes que, no Brasil, a
implementam contra o movimento
dos trabalhadores. Ou seja, encontrou
suporte no governo Fernando Henri-
que e no próprio Ministério da Educa-
ção, na intervenção da UFRJ. Enfim, foi
nesse contexto de políticas antidemo-
cráticas que esses lastimáveis aconte-
cimentos tiveram lugar. Isso, num am-
biente democrático, certamente não
teria acontecido. Acho que é importan-
te para a memória lembrar que não foi
apenas Vilhena, mas também o gover-
no Fernando Henrique que tentaram
criar condições para impedir os man-
datos sindicais. Acho que é fundamen-
tal que isso fique para a memória das
nossas lutas.
US: Professor, o senhor como presi-
dente do ANDES conduziu a greve
mais importante, historicamente, do
movimento docente. Como o senhor
registraria, comentaria, essa impor-
tância?
RL: Conforme disse anteriormente,
fazia parte do núcleo sólido da política
neoliberal a reforma do Estado brasi-
leiro. Essa reforma do Estado previa
que as universidades deixariam de ser
instituições públicas e passariam a ser
organizações de direito privado, eufe-
misticamente chamadas de organiza-
ções sociais públicas não-estatais. Isso
faz parte do plano diretor da reforma
do Estado. E conforme disse também
ainda há pouco, durante o período
1998/ 2000, não houve, por parte da
Diretoria do Sindicato, nenhuma mo-
bilização mais forte, mais firme, contra
a reforma neoliberal que estava em
curso - basicamente a Emenda Consti-
tucional nº 19 e a Emenda Constitu-
cional nº 20. Assim, as reformas avan-
çaram no período 98/2000 e, quando
assumimos, o governo Fernando Hen-
rique estava muito perto de concluir
essa reforma. A medida central para
viabilizá-la seria a transformação dos
professores e servidores públicos em
empregados regidos por normas de di-
reito privado. E, com isso, com a priva-
tização das relações de trabalho, os
obstáculos legais da transformação
das universidades em organizações so-
ciais estariam sendo já removidos.
Portanto, era uma cartada decisiva do
governo Fernando Henrique viabilizar
192 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
essa reforma.
Logo que nós assumimos, em
2000, o primeiro documento político
que escrevemos foi sobre a reforma do
Estado que estava em curso e sobre o
significado da mudança do regime de
trabalho para o futuro da universidade
pública brasileira. Portanto, a greve
respondeu a uma necessidade de or-
ganização e de enfrentamento da uni-
versidade contra uma reforma que co-
roaria a privatização da universidade.
O governo havia já preparado todas as
bases para viabilizar essa reforma; já
não fazia concurso e contratava ape-
nas professores substitutos. Por que o
governo não fazia concurso? Porque a
sua expectativa era a de que aprovaria
o Projeto de Emprego Público e, daí
para a frente, somente contrataria ser-
vidores regidos pelo direito privado,
pela CLT. O governo não repassava re-
cursos para investimentos nas univer-
sidades; durante todo o mandato de
Fernando Henrique somente reduziu
as varbas, empurrando as universida-
des para prestação de serviços no mer-
cado. Enfim, as bases legais e as bases
materiais estavam construídas, esta-
vam postas, para transformar as uni-
versidades em organizações sociais de
direito privado. Ele tentou fazer isso
desde 1994, em 1995 sobretudo; mas
sistematizou a proposta, em 1996,
com a PEC 370, que ficou muito co-
nhecida como a Proposta de Emenda
Constitucional 370, que modificaria o
artigo 207 da Constituição, conferindo
“autonomia” às universidades. Auto-
nomia essa que, segundo o relator da
matéria, o Dep. Paulo Bornhausen,
permitiria que as universidades cami-
nhassem com os próprios pés, no pra-
zo de 10 anos; ou seja, no prazo de 10
anos, as universidades teriam que se
auto-financiar.
Portanto, o que estava em jogo era
o próprio futuro da universidade públi-
ca e temos que lembrar que saímos da
greve de 98 de forma traumática, con-
forme disse, com uma derrota impor-
tante, naquele momento, que foi a ins-
tituição de uma gratificação por de-
sempenho. Isso, como eu também dis-
se, abalou a imagem do Sindicato e,
portanto, o governo avaliava que po-
deria dar a estocada final para privati-
zar a universidade, ainda em 2000. O
processo de crítica, de enfrentamento,
os debates que promovemos o gover-
no claramente percebeu que não con-
seguiria passar pelo parlamento a sua
reforma neoliberal para a universidade
e que teria que promover a privatiza-
ção por uma via transversa. Ou seja,
ele teria que colocar neblina sobre os
fatos políticos para que não houvesse
clareza da base, dos docentes e da
própria sociedade, porque o que ele
estava querendo era, de fato, privatizar.
Por isso é que, desde 2000, eu diria
até antes disso, mas em 2000 de for-
ma mais nítida, a principal estratégia
do governo era tentar promover a pri-
vatização por meio da Reforma Admi-
nistrativa.
Nós tínhamos a consciência de que
aquela greve significaria muito para a
universidade e que, de certa forma, ela
definiria o futuro mais imediato da uni-
versidade. Quando entramos em gre-
ve, portanto, em agosto de 2001, tanto
o governo quanto o movimento do-
cente sabiam que embates estariam
enfrentando. O governo sabia que era
uma cartada decisiva para viabilizar o
seu projeto e nós sabíamos que tería-
mos que impedir essa reforma a todo
custo. Um fato notável: foi todo esse
embate que fizemos, em 2000 e início
de 2001, o conjunto de debates pro-
movido pelas seções sindicais, que
criaram uma consciência crítica extra-
ordinária dentro da universidade sobre
o significado da Reforma Adminis-
trativa e do Emprego Público. A apa-
rente desmobilização dos professores,
que era denunciada por muitos com-
panheiros nossos, dizendo que os pro-
fessores não estavam mais dispostos a
lutar e queriam um outro tipo de sin-
dicalismo que não envolvesse lutas,
obviamente, era uma leitura incorreta
do sentimento dos professores.
Tanto é verdade que, quando nós
iniciamos a greve com os demais ser-
vidores públicos, em agosto, o número
de seções sindicais que entrou no pri-
meiro dia da greve, algo como 32 se-
ções sindicais, não estou lembrando
bem, já foi o maior início de greve da
história do ANDES. Por questões ob-
viamente econômicas, nós sabíamos
que o que estava em jogo, ali, era o
futuro da própria universidade. E de fa-
to tivemos uma greve impressionante!
Eu diria que, junto com a greve dos pe-
troleiros, em 95, foi a greve mais im-
portante que aconteceu no governo
Ano XII, Nº 29, março de 2003 193UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
O governo claramente
percebeu que não
conseguiria passar pelo
parlamento a sua reforma
neoliberal para a
universidade e que
teria que promover
a privatização por
uma via transversa.
Fernando Henrique, ainda que por
motivos diferentes. Isso porque, em
95, o presidente deu um passo adian-
te no seu projeto de enfraquecimento
dos sindicatos; e, dentro do serviço pú-
blico, a greve de 2001 dos professores
e dos técnico-administrativos, com
ativa participação dos estudantes, pro-
duziu o oposto disso, ou seja, foi a pri-
meira derrota do governo Fernando
Henrique, anunciando que era possí-
vel derrotar aquele governo. Algo de
que muita gente duvidava, achava que
era melhor capitular, era melhor nego-
ciar as perdas porque, daqui para a
frente, estaríamos meio que no “fim
da história” do Fukuyama.
A greve de 2001 mostrou que Fer-
nando Henrique e o seu projeto eram
passíveis de ser derrotados pela luta
dos movimentos sociais. O maior patri-
mônio dessa greve foi justamente
mostrar para o conjunto da sociedade,
para o conjunto serviço público, de for-
ma mais particular, que era possível
derrotar o governo e o seu projeto. É
interessante lembrar que, durante essa
greve, recebemos apoio de diversas
entidades sindicais. Eu me lembro do
dia em que conseguimos os recursos
no parlamento para a greve: estáva-
mos ali também lutando contra a flexi-
bilização dos direitos dos trabalhado-
res do setor privado, a flexibilização da
CLT; lembro da alegria dos companhei-
ros metalúrgicos de São Paulo, quími-
cos e de outras categorias profissionais
que estavam ali no parlamento, na-
quele dia, também protestando. A ale-
gria deles era justamente o reconheci-
mento de que os trabalhadores pode-
riam mudar o curso da história. Eles
estavam comemorando conosco a
possibilidade de mudar o curso da his-
tória naquele momento.
O balanço que eu faço da greve,
portanto, é de que foi uma greve que
vai ficar no registro das lutas populares
e das lutas dos trabalhadores brasilei-
ros, sobretudo nas lutas em defesa do
ensino público. Conseguimos derrotar
os pilares centrais, naquele momento,
da política do governo. Por que derro-
tamos os pilares centrais? Porque, em
primeiro lugar, ele não conseguiu pas-
sar o projeto de Reforma Administra-
tiva do Estado, que era a privatização
das relações de trabalho; e segundo,
porque o reajuste, mesmo que muito
modesto, foi um reajuste para todos
os professores da carreira de 1º e 2º
graus e da carreira do magistério supe-
rior. Ou seja, conseguimos manter
princípios que são muito caros ao mo-
vimento dos trabalhadores, que são os
princípios da isonomia e da paridade.
Conseguimos manter a lógica da iso-
nomia com os docentes da carreira de
1º e 2º graus que estão nas instituições
de ensino superior federais - IFES; e
conseguimos também que o reajuste
fosse igual para os aposentados, algo
considerado inegociável, sequer passí-
vel de ser discutido pelo governo Fer-
nando Henrique. A idéia de paridade,
para ele, era uma idéia anacrônica,
que estava enterrada no lixo da histó-
ria. E mostramos que não, mostramos
que era possível manter também os
aposentados dentro da nossa luta,
mantendo os direitos iguais.
Foi excepcional, também, a cora-
gem dos professores porque, como to-
dos se lembram, foi uma greve extre-
mamente retaliada. O governo agiu da
forma mais brutal possível para tentar
quebrar o nosso movimento, não só
pela campanha sistemática de desqua-
lificação do movimento, de acusações
indevidas, feitas por órgãos de impren-
sa a serviço do governo, mas também
pelas medidas materiais que adotou,
quando suspendeu ilegalmente os
nossos salários por 2 meses. Os pro-
fessores, com enormes dificuldades
financeiras, conseguiram se manter na
greve, mesmo sabendo que isso signi-
ficaria prejuízos pessoais enormes.
Não podemos esquecer que grande
parte dos professores não têm reser-
vas econômicas significativas; a maior
parte sequer tem reservas econômicas
- e lembro que foram dois meses con-
secutivos! No primeiro mês ainda foi
possível negociar o cartão, o cheque
pré-datado etc.; mas quando o salário
não veio, no segundo mês consecuti-
vo, obviamente isso criou uma dificul-
dade imensa.
Eu registro, nesse contexto, o papel
do Judiciário, que foi de afirmação da
democracia; foi extremamente positiva
a intervenção do Judiciário, que não
aceitou a violência do governo. O últi-
mo ato do embate com o Judiciário, já
em nível do Supremo, foi justamente
um pedido de habeas corpus para que
o Ministro Paulo Renato não fosse pre-
so por descumprimento de decisão ju-
dicial. Isso gerou uma crise extraordi-
nária no Estado brasileiro, uma crise
entre os poderes da república. Mas o
poder Judiciário se manteve firme, exi-
gindo que o Executivo cumprisse as
leis. Acho que isso foi um reforço insti-
tucional da democracia no Brasil. Diria
também, como um balanço muito im-
portante dessa greve, a solidariedade,
a compreensão política dos docentes
da carreira do ensino superior, que,
mesmo tendo condições, de alguma
forma, de encerrar a greve, não aceita-
ram que ela fosse concluída sem que
os docentes da Carreira do Magistério
de 1° e 2 ° Graus tivessem a sua grati-
ficação equiparada à gratificação da
Carreira do Magistério Superior. É a fa-
194 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
mosa isonomia entre a Gratificação de
Incentivo à Docência e a Gratificação
de Estímulo à Docência, algo igual-
mente considerado um anátema, con-
siderado algo impossível de ser discu-
tido pelo governo e, ao final, ainda foi
obrigado a equiparar as gratificações. E
os professores da Carreira de Magisté-
rio Superior se mantiveram, por um
bom período, quase um mês, na gre-
ve, mesmo sabendo que, de certa for-
ma, parte das suas demandas já havia
sido contemplada, mas não aceitaram
a quebra da solidariedade.
Portanto, foi uma greve com um sig-
nificado político extraordinário, pela co-
ragem dos professores e dos técnico-
administrativos que se mantiveram na
greve e, sobretudo, por afirmação de
princípio e valores. Acho que uma histó-
ria dessa greve vai ter que colocar num
lugar de muito destaque a retomada de
princípios e valores: princípio da solida-
riedade, da isonomia, da paridade... Tu-
do isso resgatou temas que são muitos
caros aos grupos de trabalhadores e
certamente criou um ambiente público
no país, mostrando que, de fato, o go-
verno poderia ser derrotado.
É claro que a nossa greve não signi-
ficou a derrota de Fernando Henrique,
mas deu uma modesta, porém impor-
tante contribuição às lutas sociais do
país, mostrando que, de fato, era pos-
sível construir uma sociedade diferen-
te e derrotar as políticas neoliberais. E
que - de fato - não havíamos chegado
ao fim da história.
US: A sua gestão se deu no período
em que o ANDES Sindicato Nacional
comemorou seus 20 anos de existên-
cia e luta. Que significado isso tem pa-
ra o senhor como presidente, nesse
período?
RL: Sem sombra de dúvida, a expe-
riência que eu tive na gestão do Sin-
dicato foi a experiência política mais
importante da minha vida e, segura-
mente, vai marcar toda a minha traje-
tória futura. Eu somente pude dimen-
sionar a credibilidade, a respeitabilida-
de que o ANDES tem e o significado
político do ANDES quando eu assumi
a presidência do Sindicato. Obviamen-
te eu sabia da importância do Sindi-
cato, participava das instâncias de base
desde sempre, porém nunca havia re-
presentado a entidade. Quando eu
passei a representar a entidade em ou-
tros espaços - na OAB, na CUT, junto
aos servidores, aos estudantes, junto
às entidades acadêmicas, enfim, nas
atividades gerais de representação - é
que eu pude dimensionar o que signi-
ficava o ANDES.
De fato, é muito impressionante a
respeitabilidade, a credibilidade que o
nosso Sindicato possui na sociedade
brasileira. E é claro que o fato de nós
estarmos comemorando duas déca-
das... sempre é uma data muito forte,
muito marcante. Tive muita alegria ao
saber que o nosso Sindicato permane-
cia vigoroso como um protagonista
das lutas brasileiras, da luta pelo ensi-
no público, para que de fato possamos
ter uma universidade de alta qualida-
de, que não seja apenas uma universi-
dade para poucos, mas que possa ser
uma universidade para todos que têm
um rosto humano. A nossa comemo-
ração dos 20 anos, com todo o simbo-
lismo que tem essa data, acho que
ecoou em mim e me tocou profunda-
mente, exatamente porque naquele
momento eu conseguia, como consigo
hoje, vislumbrar um futuro muito
importante para o nosso Sindicato.
Nós temos uma enorme tarefa polí-
tica pela frente. Nós sabemos que ho-
je, dos jovens que estão na idade de ir
para a universidade, menos de 10%
tem acesso ao ensino superior. Se con-
siderarmos apenas as instituições pú-
blicas, dos jovens que têm idade para
entrar, ou seja, entre 18 e 24 anos, a
idade “regular”, obviamente todos te-
riam o direito; mas do contingente
dessa faixa etária, entre 18 e 24 anos,
hoje talvez 2% a 3% possam ir para
uma universidade pública, o que colo-
ca o Brasil entre os países mais injus-
tos em relação ao ensino superior. Ali-
ás, há um estudo feito pela UNICEF
que mostra que o Brasil tem o sistema
educacional mais injusto do mundo,
considerando o desenvolvimento eco-
nômico. É óbvio que a nossa situação
é melhor que a de Ruanda ou da So-
mália. Mas se considerarmos a renda
do país, a renda da Somália, a renda
de Ruanda, e compararmos com a si-
tuação brasileira, nós iremos ver que a
situação do Brasil é mais injusta que a
de Ruanda pela riqueza social que
possui. Ou seja, a riqueza social que
nós temos permitiria o acesso à esco-
laridade em todos os níveis muito ma-
ior do que a de que, de fato, o povo
brasileiro dispõe. Portanto, a luta que
temos pela frente diz respeito ao aces-
so, à qualidade do ensino, à qualidade
da pesquisa.
E nesse momento, a luta que temos
para combater a mercantilização da
educação, que está produzindo um
“apartheid” educacional planetário,
não só no Brasil e na América Latina, é
uma luta imensa. E justamente quan-
do estávamos comemorando os 20
anos, a alegria maior era saber que a
nossa entidade adquiriu maturidade,
adquiriu peso político na sociedade
brasileira, o que a qualifica para abrir
novas jornadas de luta. Eu espero
muito que, daqui para a frente, princi-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 195UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
palmente com a eleição de Lula, pos-
samos ter uma agenda política de
construção muito mais acentuada. Es-
pero que Lula não frustre; não Lula,
mas o governo, a sua coalizão de go-
verno - que não frustrem essa expecta-
tiva que a sociedade brasileira tem de
construir, de fato, uma nação diferente.
Espero que o ANDES possa come-
morar os seus 30 anos fazendo um ba-
lanço de que, após 2003, pudemos
participar da construção de uma outra
agenda, que seja uma agenda de ma-
ior grau de proposição para ampliar a
oferta da educação, para melhorar a
qualidade do ensino público, da pes-
quisa e, sobretudo, para que se tenha
uma universidade que esteja à altura
dos desafios da vida prática, da vida
concreta que o povo brasileiro tem. Es-
pero que a universidade brasileira seja
capaz de produzir avanços nos nossos
conhecimentos sobre dengue, sobre
medicamentos mais simples, sobre
condições de saneamento contra as
verminoses ou para uma agricultura
ambientalmente equilibrada, avanços
para que se possa, de fato, ter escolas
que ofereçam um ensino de alta qua-
lidade para as crianças, para os jovens,
os adultos.
Em suma, acho que todo esse desa-
fio, em grande parte, vai ser - ou não -
concretizado pela ação do Sindicato.
Eu não acredito que seja possível
construir uma universidade pública de
qualidade no Brasil sem o protagonis-
mo da entidade sindical. Porquê? Por-
que temos um Estado com marcas pa-
trimonialistas, um Estado em que os
interesses das classes dominantes são
extremamente bem representados, vi-
de aí o pagamento dos juros da dívida
etc., ao passo que os direitos do povo
continuam sendo discutidos na pe-
quena finança. Hoje mesmo eu estava
lendo, na Folha de São Paulo, sobre o
dilema que gira em torno de aumentar
o salário mínimo em 40 reais ou au-
mentar a Bolsa Escola. Não se fala no
dilema entre aumentar o salário míni-
mo e a Bolsa Escola e o pagamento da
dívida, ou todo o juro da dívida, ou re-
dimensionar o pagamento da dívida -
esse dilema não está posto na socie-
dade.
Portanto, se quisermos ter uma
agenda de fato promissora para a uni-
versidade pública, o ANDES terá que
perseverar na sua luta e, sobretudo,
terá que ampliar sua presença no país.
Acho que todo o trabalho de amplia-
ção, por exemplo, no setor das univer-
sidades privadas, é indispensável, por-
que nós não vamos mudar a educação
brasileira sem enfrentar o problema
das instituições privadas no país. Hoje,
mais de 80% das instituições são pri-
vadas, mais de 70% das matrículas já
estão no setor privado; e não há solu-
ção para as públicas sem enfrentarmos
o problema das instituições particula-
res. Todo o processo de ampliação da
universidade pública pressupõe uma
mudança na presença do setor priva-
do. São lutas muito complexas, árduas,
áridas, pela frente e, na minha avalia-
ção, o fato de termos comemorado 20
anos com uma consistência política,
qualifica o Sindicato para enfrentar es-
sa agenda excepcional. E eu espero
muito que o nosso Sindicato mante-
nha a sua trajetória de um enraizamen-
to mais profundo nas seções sindicais,
em cada instituição, para que os do-
centes, no nosso caso, possam ser os
protagonistas na construção de uma
universidade democrática, algo que
ainda não conseguimos construir no
país, apesar de estarmos no século XXI.
US: Levando em consideração es-
sas reformas que o governo pretende
desencadear - Previdência, Reforma
Política, todo esse quadro em foco:
que expectativa o senhor vê para a
universidade pública no governo Lula?
RL: Eu vejo um quadro muito con-
traditório. Eu tenho a seguinte leitura
em relação ao governo Lula: interessa
aos movimentos sociais, a todos que
são de esquerda, a todos que lutaram
contra a ditadura, a todos que lutaram
há mais de um século atrás contra a
escravidão, enfim, ao patrimônio das
lutas brasileiras, interessa que o gover-
no Lula dê certo e que se tenha, pela
primeira vez na história do país, um
governo que se volte para a maioria da
população e para todos aqueles que
vivem do trabalho. Então, no que de-
pendesse, pessoalmente, de mim, eu
faria tudo para que o governo Lula
desse certo. Agora, não compartilho a
visão de que para o governo Lula dar
certo nós temos que ficar quietos e
deixar que o governo vá resolver as
nossas vidas, porque isso seria um
idealismo incompatível com a nossa
própria atividade política e, sobretudo,
intelectual. Não podemos admitir que
196 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
Não compartilho a visão
de que para o governo Lula
dar certo nós temos que ficar
quietos e deixar que o governo
vá resolver as nossas vidas,
porque isso seria um idealismo
incompatível com a nossa
própria atividade política.
a história seja construída dessa forma,
não podemos admitir que um sindica-
to de professores não tenha uma leitu-
ra crítica do que é o Estado brasileiro e
de que compromissos esse Estado as-
sumiu com o capital financeiro.
Fernando Henrique, no meu enten-
dimento, fez a seguinte aposta: vamos
criar todas as condições para que o
capital especulativo tenha confiança no
Brasil, vamos abrir mercado, vamos
criar regras favoráveis ao capital, vamos
privatizar, vamos liberar os capitais es-
peculativos de qualquer contribuição,
para que o Brasil seja um país capaz de
atrair e receber muitos recursos de for-
ma muito importante; e com essa atra-
ção de recursos, Fernando Henrique
avaliava que, de alguma forma, geraria
um dinamismo na economia que per-
mitiria um certo grau de desenvolvi-
mento dentro do marco da dependên-
cia, sobre o que, aliás, ele teorizou.
Desgraçadamente, é a leitura que faço
hoje do discurso do Palocci e do Mei-
relles; isso eu já vi, inclusive, em entre-
vista com o próprio José Dirceu. Des-
graçadamente, essa leitura ainda está
presente; ou seja, de que o fator de di-
namismo da economia brasileira vai
ser o afluxo dos capitais externos. E eu
discordo radicalmente dessa leitura!
Acho que isso vai aprofundar o proces-
so de africanização no Brasil, no senti-
do de irmos para a África subsaariana.
Por que o governo Lula quer fazer
uma reforma neoliberal na Previdên-
cia? Eu não tenho medo de usar essa
expressão porque a Reforma da Previ-
dência, do que foi apresentado até
agora, está claramente dentro dos
marcos neoliberais dos Fundos de
Pensão. É a primeira pergunta. Por que
fazer a Reforma da Previdência em
marcos neoliberais? E a segunda: por
que dar autonomia ao Banco Central,
de modo que o capital financeiro te-
nha o controle do coração da política
econômica brasileira? São duas per-
guntas que eu acho que temos que
nos fazer. Eu creio que as respostas
que vi, nas entrelinhas dos discursos
do Palocci, do Meirelles e do José Dir-
ceu, é de que essas duas medidas per-
mitiriam que o Brasil reconquistasse a
confiança do capital estrangeiro, que o
dinheiro voltaria a entrar aqui. É a mes-
ma aposta feita por Fernando Henri-
que e é a mesma aposta que levou o
Brasil ao desastre. Eu espero que essa
minha leitura esteja absolutamente
equivocada. Mas não vejo outro moti-
vo para fazer uma Reforma da Previ-
dência que somente vai beneficiar o
capital financeiro, contra o trabalho.
A Reforma da Previdência que está
sendo proposta tem como pilar, como
núcleo, o conceito de Fundos de Pen-
são. E sabemos que os Fundos de
Pensão somente podem aumentar o
volume dos seus capitais no mercado
financeiro. Agora, o mercado financei-
ro cresce em detrimento do mundo do
trabalho, do mundo da produção. Há
uma equação incompatível, ou seja:
um discurso, que eu acredito ser
genuíno de Lula, é que temos que vol-
tar a fazer com que a economia real do
país cresça, que a base produtiva, as
pequenas indústrias, a agricultura fa-
miliar voltem a ter um dinamismo;
mas, ao mesmo tempo, faça as suas
apostas no capital financeiro, porque o
dinheiro dos Fundos de Pensão é um
dinheiro que só cresce dentro da espe-
culação financeira, e a especulação fi-
nanceira só cresce contra o mundo do
trabalho, contra o mundo da produção
- isso em qualquer parte do mundo!
Portanto, temos aí uma questão das
mais sérias.
E a segunda é a autonomia do Ban-
co Central. O que significa dizer que o
Banco Central define taxa de juros, de-
fine os instrumentos de política econô-
mica, fora do Parlamento e fora do
próprio Executivo? Ele tem autonomia,
e cabe ao Executivo apenas fazer um
balanço se agiu certo ou não? É isso
que está sendo proposto! Ora, não va-
mos ser ingênuos. Meirelles é um re-
presentante do Banco de Boston, é
uma pessoa que construiu a sua vida
no setor bancário, e boa parte da sua
assessoria esteve ligada ao setor finan-
ceiro. Cada vez que o país aumenta
em um ou dois por cento a taxa de ju-
ros, os bancos enchem os seus cofres.
Eu vejo aí um conflito ético. E o próprio
Lula nos lembrava que cada ponto aci-
ma da taxa de juros significava mais
mortalidade infantil, mais desempre-
go, mais miséria. Portanto, as orienta-
ções da política econômica, até o mo-
mento, apenas mantêm o núcleo sóli-
do da formulação política anterior.
É claro que vamos ter que fazer um
balanço considerando as dificuldades
de transição. Acho que Lula assume
com uma agenda que, por motivos vá-
rios, deve ser questionada, mas não
vou fazer isso agora, porque seria mui-
to extenso. Por motivos vários, Lula tra-
balhou uma agenda política, na cam-
panha eleitoral, de que não haveria
descontinuidade nos contratos, nos
acordos e que faria uma aliança com
os setores produtivos, tanto que, sim-
bolicamente, chama para vice um em-
presário. Tudo isso está dentro de um
marco político. Lula herda um orça-
mento que não foi o seu; foi o orça-
mento feito por Fernando Henrique e
isso cria limitações, cerceamentos. Tu-
do isso é verdade, acho que devemos
considerar a complexidade da transi-
ção. Eu avalio que, hoje, não temos
Ano XII, Nº 29, março de 2003 197UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
força popular, nos movimentos sociais,
na organização da sociedade, para um
rompimento com o Fundo Monetário.
Não há meios políticos de um rompi-
mento, neste momento, com as teias
que foram sendo construídas no perío-
do, dada a forma como foi feita a cam-
panha eleitoral. Eu não acho que é im-
possível, abstratamente. Acho que se-
ria possível modificar, de uma forma
muito profunda, a relação com o Fun-
do Monetário e com os acordos da
dívida, se a campanha eleitoral tivesse
tido uma outra tonalidade. Não teve. A
história e o processo político continu-
am. Portanto, na minha interpretação,
o governo Lula tem, como disse o Emir
Sader, de forma magnífica, num deba-
te que fez conosco, o governo Lula ho-
je tem duas almas: tem a alma do Mo-
vimento Sem-Terra, a dos sindicatos
combativos, a de um Florestan Fernan-
des, de um Antônio Cândido, dos que
lutaram contra a ditadura militar, a al-
ma dos que se confrontaram com o
pensamento neoliberal, que lutaram
por outros princípios, outros valores,
mas também tem a alma do capital fi-
nanceiro. Que alma vai prevalecer? Por-
que essas duas almas são incompatí-
veis, elas não vão coexistir por muito
tempo. A questão é: que alma vai pre-
valecer no futuro?
Eu acho que um primeiro teste será
o orçamento para 2004. O orçamento
de 2004 pode ser o primeiro orçamen-
to de Lula. Mesmo que não haja a re-
cuperação de uma agenda social mais
forte, pelo menos poderemos ver as
indicações políticas que vão ser feitas.
Porque essa lógica que está posta ho-
je, na Folha de São Paulo, se vamos
reduzir o aumento do salário mínimo
de 40 reais, o que jogaria um pouco
mais de dinheiro para Bolsa Escola,
isso não pode permanecer num gover-
no de esquerda. Isso significa tomar
partido de uma dessas duas almas. Eu
acho que temos que aguardar o orça-
mento. Agora, não vamos aguardar
passivamente. Acho que o papel do
nosso Sindicato e de outros sindicatos
é trabalharmos os valores, os princí-
pios, a agenda política, que é a agenda
política da esquerda, para fortalecer o
pólo da sociedade, dos movimentos
sociais que querem mudanças efeti-
vas, ou seja, que querem que o gover-
no Lula dê certo, dentro de uma pers-
pectiva de esquerda.
Então, acho que o nosso papel prin-
cipal, hoje, é dizer: queremos e não va-
mos abrir mão da nossa luta por uma
universidade pública de qualidade;
queremos que a universidade seja
para muitos, não seja para poucos.
Não dá para aceitar a lógica de que
precisamos alfabetizar primeiro para
depois abrir a universidade, ampliar a
universidade; essa é a lógica do Paulo
Renato e do Banco Mundial; é a lógica
que diz que os países periféricos
devem ter apenas uma educação ele-
mentar, uma instrução elementar, por-
que não têm mais espaço numa eco-
nomia mundial baseada em produtos,
serviços e processos de maior comple-
xidade. Essa lógica não dá para aceitar!
Então, cabe ao Sindicato manter a sua
agenda política. Agora, é claro que, no
trato político com o governo Lula, acho
que temos que saber que, lá, temos
companheiros. Temos que ter um trato
político extremamente cuidadoso, ex-
tremamente respeitoso com a história,
com a trajetória das pessoas que estão
lá presentes. Porque são pessoas que
construíram um patrimônio de críticas
e de lutas que nós compartilhamos.
Obviamente não podemos ver, no
governo Lula, inimigos; vamos ter que
dialogar, vamos ter que debater, que
refletir conjuntamente, mas não va-
mos poder abrir mão da nossa autono-
mia e da nossa crítica.
O horizonte do governo Lula não
depende de embate dentro do gover-
no, depende de embate na sociedade.
A sociedade brasileira, em grande par-
te, votou em Lula pensando nas mu-
danças, em mudanças sociais mais sig-
nificativas. Agora, para que essas mu-
danças sejam efetivas, é preciso que
os movimentos se organizem, conti-
nuem lutando, continuem trabalhando
a agenda. Eu creio que o ANDES terá
um papel fundamental no debate
sobre a Reforma da Previdência, pela
sua qualificação e pelo fato de que te-
mos muitos professores que estuda-
ram e estudam a Previdência, que
mostram que os números que o go-
verno está apresentando - que são os
números do governo Fernando Hen-
rique - são números fetichizados, que
não expressam a realidade; que aquilo
ali é uma verdade parcial e, portanto,
uma mentira, uma falsidade da situa-
ção concreta e real da Previdência.
Então, temos um papel importantís-
simo a cumprir. Eu creio que impedir
que a reforma neoliberal da Previdên-
cia seja aprovada pode ser um primei-
ro grande passo para fortalecer o mo-
vimento da sociedade, que quer que o
governo Lula, de fato, abra um período
de pós-neoliberalismo e não de tentar
operar as contradições e, em peque-
nas brechas, fazer políticas diferentes.
Porque isso a experiência da terceira
via nos mostra que não é possível, ou
seja, tentar fazer um governo de
esquerda, com uma política econômi-
ca assentada nos princípios do que foi
chamada de política neoliberal. É algo
impossível! Ou seja: não dá para con-
viver com duas almas.
198 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
US: Já faz algum tempo, observa-
ções são feitas com relação à desmo-
bilização da categoria docente. A in-
trodução da lógica produtivista no
processo de trabalho docente pode ter
contribuído muito para isso. Talvez es-
sa vitória do Lula, venha, de alguma
forma, também reforçar este afasta-
mento. Há um clima de concessão de
trégua. Como o Senhor se posicionaria
nesse sentido e como o Sindicato de-
veria agir para mobilizar essa catego-
ria e mobilizar esse quadro?
RL: Na semana passada, tivemos
um Fórum Social Mundial e, antes, um
Fórum Mundial de Educação. Foi o
maior Fórum Mundial de Educação
realizamos. Esse foi o segundo que
realizamos, mas dos Fóruns Sociais,
seguramente esse foi o maior e talvez
tenha sido o Fórum que mais propôs
oficinas, debates etc. Eu creio que é
verdade isso que você coloca: que o
governo Lula cria um sentimento de
confiança e que, portanto, agora, de
alguma forma, podemos ser mais tole-
rantes com perdas, com dificuldades,
porque esse governo nos representa. É
verdade isso. Mas de outra parte, eu
também vejo, na vitória de Lula, uma
vontade de participação que há muito
tempo eu não via. As pessoas querem
fazer alguma coisa. Os professores es-
tavam muito infelizes com o seu traba-
lho acadêmico, no período mais áspe-
ro das políticas neoliberais. As pessoas
não estavam felizes e não estão satis-
feitas com o que estão fazendo: têm
turmas muito cheias, têm que traba-
lhar com diversas turmas, um trabalho
muito aligeirado, muito corrido, e isso
causa muito sofrimento à maior parte
dos professores, eu acredito; o próprio
papel social da universidade causa
também insatisfação em muita gente.
Muita gente gostaria de ver nova-
mente a universidade mais ativa na
interação com a sociedade, com o po-
vo e com as demandas do país. Eu ve-
jo, também aí, um sentimento interes-
sante, porque, de um lado, acho que é
verdade que há uma posição de certa
forma mais tolerante e talvez passiva
em relação ao início do governo Lula.
Mas, de outra parte, há uma demanda
grande por participação em vários es-
paços. Acho que o Fórum foi exemplo
disso. Creio que para o ANDES organi-
zar, mobilizar e canalizar essa energia
que está presente nas universidades,
que está presente na nossa base de
participação, em primeiro lugar, vamos
ter que perseverar em algo que sem-
pre fizemos: temos que perseverar no
debate. O que a universidade melhor
pode oferecer ao país, no meu enten-
dimento, é ajudar a organizar o deba-
te, a reflexão. Enfim, pensar os cami-
nhos de maneira rigorosa, crítica, mas,
sobretudo, muito comprometida etica-
mente, politicamente com os interes-
ses da maioria do povo. Então, o ANDES
tem um papel decisivo na organização
desse debate e no chamamento, na
convocação para que os professores
participem do debate sobre o futuro da
nação, o futuro da América Latina e dos
países periféricos de uma forma geral.
Essa capacidade convocatória do Sin-
dicato tem então que ser ampliada ao
máximo. Criar espaços e condições pa-
ra que os professores discutam. Eu
creio que, na medida em que nós for-
mos fazendo debate político, a partici-
pação no Sindicato vai ser crescente.
Eu acho que vai ser crescente.
Tomando o exemplo da Reforma da
Previdência, em seu debate político,
fica claro para a maioria dos professo-
res que essa reforma não significa per-
da econômica para eles. Não é esse o
maior problema; esse é um grande
problema, mas não é o maior. Mas sig-
nifica um projeto de nação que não
rompe com as políticas neoliberais. Eu
creio que os professores pensam as-
sim: nós queremos que as políticas
sociais do país, as políticas educacio-
nais, para a saúde pública, para a agri-
cultura, para a energia, para o meio
ambiente, enfim, nós queremos que
essas políticas se afastem dos marcos
neoliberais. Eu vejo uma demanda
enorme dos professores em buscar
uma maneira de contribuir para cons-
truir algo diferente no país. Eu acho
que o nosso trabalho será de organiza-
dores do debate. Não somos ilumina-
dos, não temos a verdade, mas temos
um capital político e uma capacidade
convocatória, de chamamento das
pessoas ao debate, que tem que ser
ampliada ao máximo.
Vejo também como preocupação a
nossa dificuldade, que não é de hoje,
de o Sindicato de conseguir uma ma-
ior interação, maior comunicação com
a base; temos que aperfeiçoar os me-
canismos de comunicação com a base
do Sindicato. Agora estou em sala de
aula, no trabalho cotidiano, quer dizer,
tenho acompanhado mais o cotidiano
da minha unidade e vejo que o Sin-
dicato Nacional não tem facilidade,
ainda, de chegar ao conjunto dos pro-
fessores, no que diz respeito às estra-
tégias de comunicação. Acho que, nes-
se momento em que, aparentemente,
existe um consenso já cristalizado -
mas esse consenso não existe na so-
ciedade - o nosso papel, como organi-
zadores do debate, de uma interven-
ção pública na sociedade, tem que ser
intensificado. Esse é um problema de
muito tempo no Sindicato. Eu vivi isso
Ano XII, Nº 29, março de 2003 199UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
Não somos iluminados, não temos a verdade, mas temos um
capital político e uma capacidade convocatória, de chamamento
das pessoas ao debate, que tem que ser ampliada ao máximo.
como Diretor - limitações enormes em
nossas políticas de organização de co-
municação e debate. Acho que isso, a
idéia de uma presença mais ativa jun-
to ao cotidiano, tem que ser uma ob-
sessão para todos nós, nas seções sin-
dicais, na Diretoria, nos GT. Acho que
isso contribuiria enormemente para a
criação de um ambiente de debate e
de participação política.
Em síntese, é uma realidade a possi-
bilidade de um certo conformismo,
mas há uma energia, há uma deman-
da de participação que o Sindicato não
pode desperdiçar. Temos que organizar
esse debate, essa possibilidade de in-
tervenção. E aí teremos, em 2003, no-
vamente, bons espaços de discussão,
bons espaços de luta. Acredito que os
nossos debates sobre a Reforma da
Previdência serão grandes debates, de
grande afluência de público.
US: O projeto de FHC para a Edu-
cação ia claramente na direção dos
ditames da OMC, isto é, a Educação
como uma mercadoria. Na abertura
do Fórum Mundial da Educação, vi-
mos o Ministro Cristovan Buarque con-
clamando os professores a contribuir
para o ensino, com grande ênfase pa-
ra a erradicação do analfabetismo e
nós estamos vendo em que bases isto
está sendo encaminhado. Como o se-
nhor avalia os primeiros passos do
governo Lula no que tange à Edu-
cação?
RL: Em relação à política educacio-
nal do governo Lula, penso que não
temos, ainda, muitos elementos para
fazer uma avaliação mais rigorosa.
Abstratamente, se qualquer um de nós
for indagado sobre a importância e a
prioridade de trabalharmos a alfabeti-
zação, obviamente qualquer pessoa
vai concordar com isso. Agora, o enca-
minhamento feito, até este momento,
para a política de alfabetização, no
meu entendimento, é absolutamente
débil, frágil. Não temos experiência de
outros países que corroborem a estra-
tégia que está sendo utilizada. E qual a
estratégia central? Ampliar a alfabetiza-
ção do povo brasileiro, não por dentro
do sistema de ensino, mas fazendo
com que o sistema de ensino busque
estratégias alternativas. Por trabalho
do voluntariado ou por trabalho de
produtividade, você recebe x reais por
cada alfabetizando. Essas estratégias
não funcionam. Porque, tanto a alfabe-
tização quanto a educação elementar,
numa sociedade complexa como a
que vivemos hoje, requerem a inser-
ção das crianças, dos jovens e dos
adultos num sistema de ensino públi-
co de qualidade. Não vejo saída, hoje,
no país, se não há forte investimento
no ensino público de qualidade e no
fortalecimento institucional do ensino
público.
Campanha é algo que tem bom
efeito publicitário, mas o efeito prático
é desastroso. Campanhas como “uni-
versidade solidária” foram piores do
que o antigo Mobral do governo mili-
tar. Na “universidade solidária”, algo
como 15% dos atingidos foram alfabe-
tizados. Agora, você letrar a pessoa, no
primeiro letramento, e isso não ter
continuidade, daqui um ano essa pes-
soa é novamente uma analfabeta, por-
que, se ela não tem o uso prático da
linguagem, perde essa habilidade que
ela adquiriu. É uma política que tem
seus pressupostos em bons valores
humanos, porém, em termos de políti-
ca educacional, é muito ruim. Ade-
mais, quem são esses jovens que vão
ser atingidos pelo projeto de alfabeti-
zação? São jovens que, em grande
parte, entraram na escola pública, mas
foram excluídos da escola pública. Por
quê? Por que a escola pública encon-
tra dificuldades materiais - com essa
política irresponsável de municipaliza-
ção - extraordinárias! Então, a “fonte
de excluídos pela escola” não melhora,
se não melhorar o ensino público. É
uma política que não tem suporte no
mundo real.
Ademais, a idéia de contrapor ensi-
no básico e universidade, conforme
disse anteriormente, é uma política
que vem sendo implementada na
América Latina, na África e no sul da
Ásia, por inspiração e condicionalidade
do Banco Mundial. De fato, é prever
para os países periféricos uma desco-
nexão de uma economia mais sofisti-
cada. Portanto, ainda que seja muito
prematuro fazer um julgamento, uma
avaliação da política educacional pre-
tendida pelo governo Lula, os primei-
ros passos terão que ser repensados
muito profundamente.
US: Retomando uma idéia da ques-
tão, sobre essa dificuldade que a dire-
ção do Sindicato tem de se articular
mais com a base. Há algumas acusa-
ções que nos deixam, às vezes, até irri-
tados, quando se escuta que o Sindi-
cato se tornou uma máquina burocrá-
tica, infiltrada de idéias políticas estra-
nhas, dominada por correntes políti-
cas, que cada vez mais agudiza essa
distância em relação à base. Como o
senhor se colocaria diante de questões
desse tipo?
RL: A avaliação de que o Sindicato
tenha se burocratizado, burocratizado
sua vida política, não se coaduna com
os fatos. Fizemos, em 2001, uma greve
de um conteúdo político extraordiná-
rio, em condições adversas, em que os
professores tiveram que mostrar a
confiança política, ética na sua entida-
200 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
de. Isso não seria possível se fosse um
Sindicato burocratizado, jamais seria
possível. Primeiro, jamais teríamos or-
ganizado uma luta desse tamanho, a
partir da base; jamais teria havido uma
adesão tão grande de instituições e do
número de pessoas que participaram
da greve, quer dizer, que efetivamente
estiveram em greve; jamais isso acon-
teceria num Sindicato burocratizado.
Então, não há correspondência com os
fatos. Se cotejarmos esse discurso com
os acontecimentos que vivemos, nos
últimos anos, não vamos encontrar
correspondência real. Eu creio que as
pessoas que estão fazendo essa análi-
se, estão fazendo uma análise equivo-
cada do que vem acontecendo com as
universidades.
Existe problema de mobilização,
claro que existe. Existem problemas
em relação à interação do Sindicato
com a base. Temos que ter sempre hu-
mildade e sabedoria de ver as nossas
limitações. Há limitações parciais. Uma
delas já coloquei: acho que a nossa
política de diálogo com a base tem
que ser aperfeiçoada. As nossas se-
ções sindicais, por mais esforço que
estejam fazendo, devem procurar for-
mas de estar mais com os professores,
visitar mais departamentos e percorrer
mais a universidade. Algumas seções
conseguem fazer muito bem isso, ou-
tras têm mais dificuldades, não por
incompetência ou descompromisso
dos dirigentes, mas pelas condições
materiais da universidade, que é outro
ponto que eu gostaria de aprofundar.
Agora, a despeito dessas dificulda-
des, não podemos esquecer que exis-
tem limitações e cerceamentos postos
pela realidade. Os professores, hoje,
têm mais de um terço de sua remune-
ração como gratificação de produtivi-
dade, então os professores têm que
estar correndo atrás dos indicadores
de produtividade. Vem sendo instituí-
do um novo ethos acadêmico que pri-
vilegia o produtivismo e isso está qua-
se no nosso DNA hoje; e a gente se
culpa de não ter publicado x artigos,
num determinado tempo, mesmo que
a gente saiba que, desses artigos, tal-
vez um deles tenha muita relevância,
mas o segundo já não tem tanta, pois
é mais uma retomada de aspectos da
primeira reflexão etc.; mas ainda assim
internalizamos um produtivismo, a no-
ção de produtivismo. Isso é algo grave.
E não por acaso Chomski diz que as
políticas neoliberais produziram cica-
trizes no cérebro; de certa forma, acho
que isso é verdade. Incorporamos mui-
tos desses elementos, e isso afasta os
professores da vida coletiva; não é só
no movimento docente; da vida coleti-
va na universidade. Qualquer um de
nós, em qualquer departamento, vai
falar assim: bom, hoje o meu departa-
mento não é o que era há dez ou
quinze anos atrás. Há quanto tempo
não se faz, em cada um dos nossos
departamentos, uma boa reflexão so-
bre o currículo, sobre as estratégias pe-
dagógicas que estamos utilizando, so-
bre os projetos de pesquisa sob a nos-
sa responsabilidade? A universidade
perdeu muito do seu espaço público e
é claro que também o movimento
sofre com isso. Seria uma ingenuidade
tapar os olhos numa situação real. Mas
eu insisto que esse novo funciona-
mento da universidade produz contra-
dições que permitem, por exemplo, a
construção de uma consciência políti-
ca como a que levou à greve de 2001.
Vejo que estamos num momento
de inflexão disso. Esse modelo produ-
tivista de universidade, num país peri-
férico, tem tais limites - tem tais limi-
tes! - que produz na maior parte dos
professores a idéia de que o melhor
caminho, para ele, não é ser um em-
preiteiro acadêmico. Primeiro, pelas
demandas públicas que ele tem como
compromisso; a maior parte dos pro-
fessores tem a educação como um
bem público, mas, materialmente,
também não tem espaço para isso. É
muito diferente eu pensar num capita-
lismo acadêmico, na Universidade de
Harvard, que tem um orçamento de 19
bilhões de dólares, que é maior do
que toda a educação pública brasileira,
dos municípios à universidade. Somar
todo o dinheiro gasto na educação pú-
blica brasileira dos municípios, dos es-
tados, União, da pré-escola à pós-gra-
duação, isso dá algo como 50 bilhões
de reais, ou seja, é bem menos do que
19 bilhões de dólares. Uma única uni-
versidade americana tem 19 bilhões
de dólares de orçamento. Então, você
ser um empreiteiro acadêmico numa
universidade que tem 19 bilhões de
dólares significa uma coisa; e você ser
um empreiteiro acadêmico numa uni-
versidade de um país periférico é radi-
calmente outra.
A busca de saídas coletivas, a busca
de saídas que modifiquem para melhor
a universidade, eu ainda creio que será
a saída perseguida pela maior parte dos
professores. Acho que essa crítica é
uma crítica equivocada, mas não é um
equívoco de conhecimento, é um equí-
voco que tem um acento político. Não
é um equívoco no sentido de que eu
estou enganado ou fiz uma leitura erra-
da da realidade; é uma leitura interessa-
da politicamente, que tenta desfocar os
problemas centrais e que, em última
instância, acaba apostando que a orga-
nização autônoma dos trabalhadores
não é a melhor saída para os nossos
problemas. Por isso, é uma leitura que
tem um interesse político, que é, obvia-
mente, um motivo de embate, inclusive
Ano XII, Nº 29, março de 2003 201UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
dentro do próprio Sindicato.
US: Na atualidade, que observa-
ções o senhor faria sobre as relações
do nosso Sindicato, o ANDES- SN, com
a CUT?
RL: Nós nos filiamos à CUT após um
longo debate interno. Foi um processo
muito discutido. Havia forças, na épo-
ca, representadas pelo antigo Partido
Comunista Brasileiro, pelo PC do B,
que defendiam o nosso pertencimen-
to a uma central alternativa à CUT, que
era a CGT, o movimento chamado
CONCLAT. Outros setores, na época,
grande parte deles ligados ao Partido
dos Trabalhadores, entendiam que
devíamos fazer uma central com carac-
terísticas do novo sindicalismo. Eu
creio que muitos dos professores, mes-
mo sem filiação partidária, mas que
construíram o ANDES como uma enti-
dade autônoma, crítica, combatente,
uma entidade capaz de se auto-finan-
ciar, de não aceitar nenhum tipo de
atrelamento com o Estado etc., enten-
deram que a melhor alternativa de
construção política era forjar a Central
Única dos Trabalhadores, porque justa-
mente a CUT foi formada com base
nesses princípios que chamamos ge-
nericamente de novo sindicalismo.
Portanto, o pertencimento do ANDES
à Central é um pertencimento muito
esclarecido, objeto de muitos debates,
causou apreensão em parte da nossa
base, mas creio que, com o passar do
tempo, ficou claro para o conjunto da
categoria que foi uma decisão acerta-
da e correta.
O nosso problema com a CUT - eu
não diria que é um problema, mas as
nossas questões políticas com a CUT
diz respeito às concepções sindicais. O
ANDES compartilha quase que inte-
gralmente dos princípios que funda-
ram a CUT, mas não compartilha de
algumas mudanças que foram feitas,
sobretudo na década de 90, meados
da década de 90. Nós temos divergên-
cias bastante fortes em relação à pos-
sibilidade de nós termos a Central com
o papel de um sindicato orgânico; nós
temos divergências em relação à idéia
de formação, por exemplo, de um “sin-
dicatão” dos servidores públicos ou de
um ramo dos servidores públicos, que
apagasse as especificidades e particu-
laridades do trabalho da nossa catego-
ria docente; e temos divergências com
relação aos procedimentos adotados
pela Central. Mas todas essas diver-
gências se dão dentro de um patamar
político do funcionamento democráti-
co da Central.
Portanto, o ANDES, muitas vezes, é
acusado de ter uma relação conflituo-
sa com a CUT. Eu não diria que é uma
relação conflituosa, mas é uma relação
de muito debate e de muita reflexão,
exatamente porque a CUT sofreu mo-
dificações e inflexões políticas impor-
tantes. Ela, há bastante tempo, adotou
uma perspectiva de análise da realida-
de, do que estava acontecendo, que os
nossos textos de conjuntura não corro-
boram. As idéias de que estaríamos
entrando num novo período de uma
nova revolução científica e tecnológica,
de que a flexibilização do trabalho é
um fato inevitável, de que o grande
problema dos trabalhadores é o pro-
blema de qualificação e que temos,
pois, que investir na requalificação; de
que não há problemas de sermos fi-
nanciados ou de que a principal fonte
de financiamento seja o Fundo de
Amparo ao Trabalhador, que são ver-
bas vindas do Estado com isso não te-
mos acordo.
A nossa leitura de conjuntura não
concorda com esse posicionamento,
que é majoritário na Central. Então,
por isso, o Sindicato tem tido uma re-
lação de debate intenso com essas for-
ças majoritárias. Mas isso não quer
dizer que o Sindicato não se sinta CUT.
Ao contrário, nos momentos decisivos,
nos momentos agudos, em que, por
vários motivos, a própria direção da
Central não conseguiu mobilizar o se-
tor privado, quem saiu em defesa dos
trabalhadores do setor privado contra
a flexibilização do trabalho, por exem-
plo, foram os sindicatos dos servidores
públicos, e o ANDES esteve muito à
frente nisso. No momento decisivo de
embates no Parlamento, para que a
flexibilização não fosse votada, houve
momentos em que tivemos que impe-
dir a votação só com os servidores
públicos; e o ANDES participou e orga-
nizou essas lutas.
Somos CUT, nos sentimos cutistas,
mas não abrimos mão do nosso posi-
cionamento crítico em relação a uma
leitura que a Central faz hoje, que é
predominante, de que o mundo do
trabalho está em dissolução. Não acre-
ditamos nisso. Acho que, ao contrário,
a idéia de que o mundo do trabalho
permanece é a centralidade da vida
política dos movimentos sociais e que
202 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
O ANDES, muitas vezes, é acusado de
ter uma relação conflituosa com a CUT.
Eu não diria que é uma relação confli-
tuosa, mas é uma relação de muito
debate e de muita reflexão, exatamente
porque a CUT sofreu modificações e
inflexões políticas importantes.
Memória do Movimento Docente
devemos fortalecer a institucionaliza-
ção dos direitos do trabalho. Isso é al-
go que, para o ANDES, eu diria que é
sagrado. Isso fica claro, agora, com a
questão da Previdência, em que decla-
rações foram feitas de maneira muito
precipitada em relação a questões co-
mo isonomia, paridade; foram feitas
declarações muito infelizes de Direto-
res da Central a respeito desses temas.
Então, certamente teremos um debate
bastante acalorado, mas vejo isso co-
mo um mérito do ANDES e um mérito
da CUT, ou seja, a possibilidade de ter-
mos esses embates só é possível por-
que temos uma Central que represen-
ta, hoje, o melhor do sindicalismo bra-
sileiro, que é a CUT.
US: O senhor como intelectual,
hoje um dos mais reconhecidos no
campo de educação, como se posi-
ciona sobre o papel de um pensador,
de um intelectual e a sua militância
sindical, a partir da sua experiência
de sindicalista?
RL: Todos que estamos no movi-
mento docente somos intelectuais. Eu
acho que o movimento docente pro-
duziu um pensamento crítico sobre a
universidade, sobre diversos campos
do conhecimento, que é referência po-
lítica, que é referência acadêmica em
todas as áreas. O movimento docente
esteve presente na reflexão sobre a 8ª
Conferência de Saúde, que mudou
muitos marcos conceituais. O movi-
mento docente vem formulando, vem
teorizando questões importantíssimas
e, sobretudo, ele criou espaços para
que intelectuais que não participam do
movimento docente tivessem o seu
pensamento colocado em circulação; e
isso sempre foi uma marca do nosso
movimento. Nós sempre dialogamos
com pessoas que estão produzindo co-
nhecimento com o maior vigor e com a
maior qualidade científica, e colocamos
em circulação e em debate. Sempre ti-
vemos esse espaço e o movimento fez
questão de trabalhar isso na obra de
Florestan Fernandes, que foi uma refe-
rência chave para pensarmos no nosso
projeto de universidade. Nós estive-
mos e estamos em debate, em diálo-
go com o trabalho feito por um Rober-
to Romano, por uma Marilena Chauí e
tantos outros intelectuais importantes
no país. Nós temos dado acolhida à re-
flexão teórica produzida na universida-
de e temos colocado novas perguntas
e novas questões para que haja um
ambiente de discussão, de reflexão, na
universidade brasileira. Portanto, utili-
zando uma idéia de Gramsci, de que
um intelectual é antes de tudo um or-
ganizador da cultura, eu acho que os
militantes do movimento docente são,
no sentido forte da palavra, intelec-
tuais.
E não é casual que grande parte dos
professores que estiveram e estão no
movimento docente sejam pessoas
que contribuem com as suas áreas, se-
jam pessoas respeitadas academica-
mente, sejam referência nas suas res-
pectivas áreas. Eu acho que isso tem
acontecido em diversas áreas. Justa-
mente porque há uma concepção do
movimento docente de que, para fazer
ciência, não basta fazer pesquisa. Eu
posso fazer muita pesquisa e não ser
um cientista. Eu creio que, desde o iní-
cio, o movimento docente tem afirma-
do o seguinte: precisamos produzir co-
nhecimento com o maior rigor científi-
co possível. No entanto, esse conheci-
mento não é um fim de si mesmo, ele
é um meio. Um meio para quê? Para
nós mudarmos o real. O movimento
docente tem chamado a atenção da
universidade para o fato de que o tra-
balho científico não se completa, não
se realiza, se não nos perguntarmos
sobre essas duas questões: a produ-
ção do conhecimento enquanto meio
e enquanto fim.
A universidade positivista, a univer-
sidade produtivista, muitas vezes se
preocupa muito com os registros do
conhecimento como meio, ou seja,
quantos artigos eu publiquei etc. etc.,
mas não se preocupa com a relevância
social disso. E com relevância social,
não estou dizendo que temos que pro-
duzir conhecimento pragmático, não é
isso; é conhecimento que tenha possi-
bilidade de explicar o real e não se
contentar se ele está de acordo com
determinado método ou procedimen-
to metodológico. Isso é um mal, é má
ciência. Em qualquer campo do co-
nhecimento se faz boa ciência quando
explicamos o real para poder interferir
no real, seja na natureza, seja na socie-
dade independente. E o movimento
docente tem tentado trabalhar essa
concepção mais articulada, mais orgâ-
nica de produção do conhecimento.
Eu avalio que os militantes do movi-
mento docente estão prestando um
bom serviço para a qualidade acadê-
mica da universidade brasileira. Isso,
independente da questão da titulação,
que eu acho que é um problema que
tem que ser avaliado e discutido em
sua concretude, porque nós não pode-
mos falar na qualificação em geral da
universidade brasileira se 90% dos
cursos de doutorado estão no eixo Sul-
Sudeste. Eu não posso abstrair isso da
realidade. Ou seja, o professor da Uni-
versidade Federal do Acre ou da Fe-
deral de Roraima, ou do Amapá, tem
dificuldades extraordinárias pelas con-
dições políticas e materiais; assim co-
mo tínhamos professores que não pu-
deram se qualificar porque, de fato,
não havia nem a área de conhecimen-
to dele com possibilidade de fazer
Ano XII, Nº 29, março de 2003 203UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
pós-graduação. Então, temos uma si-
tuação muito heterogênea no fato de
termos uma universidade nova e desi-
gual. Nós temos uma pós-graduação
que está muito concentrada em algu-
mas poucas universidades, seis ou
sete universidades devem ter 90% das
matrículas de doutorado. Temos essa
situação real, material, que vem dificul-
tando a pós-graduação formal.
Mas, de outra parte, esse quadro
vem sendo modificado, em grande
medida, pela ação organizadora dos
intelectuais que estão no movimento
docente. Eu não tenho dúvida de que
existe - infelizmente o Fernando Hen-
rique destruiu - mas existia um progra-
ma de qualificação docente, em gran-
de parte por pressão, por críticas, por
demandas organizadas do movimento
docente. Nós sempre fomos muito a
favor da qualificação; tanto que a car-
reira dos professores que nós defende-
mos é uma carreira que tem como um
dos princípios estruturantes a qualifi-
cação formal. Mas nós não queremos
trabalhar essa questão de forma abs-
trata, em tese, porque sabemos que
para os professores se qualificarem,
são necessárias condições materiais, e
essas condições, infelizmente, não es-
tão asseguradas.
A crítica à produção intelectual dos
professores que estão no movimento
docente é uma crítica muito antiga
dentro da academia, dentro da ciência.
O que é o melhor critério de verdade
para o conhecimento? É a ressonância
explicativa para o mundo real? Ou é o
próprio método? Os positivistas dizem
que o próprio método é o critério de
verdade. E nós temos colegas e com-
panheiros que entendem que todos
aqueles que estão produzindo conhe-
cimento, que estão preocupados com
o meio, mas que estão preocupados,
também, com os fins, não fazem boa
ciência. Ora, eu vejo exatamente o
oposto disso!
US: Para concluir. Que mensagem
o senhor gostaria de registrar aqui e
encaminhar aos seus companheiros
que hoje militam na diretoria do Sin-
dicato?
RL: Acho que a mensagem que me
foi passada quando eu assumi o Sin-
dicato Nacional, por vários companhei-
ros, por vários militantes. Nós temos um
patrimônio político importantíssimo
que está materializado numa entidade
chamada ANDES Sindicato Nacional.
Essa entidade encarna um patrimônio
político extraordinário, que foi possível
ser construído por muitas lutas, pela
participação de companheiros que
dedicaram o melhor de suas vidas para
construir esse movimento. Portanto,
nós temos o peso de uma responsabili-
dade que é enorme todos nós. Para
essa Diretoria, e para as futuras, eu diria
que nós (temos que nunca perder de
vista a responsabilidade que temos em
relação a essas lutas do passado, em
nome das lutas do futuro). Ou seja, do
que precisamos fazer para que o país
possa ter de fato uma universidade de
alta qualidade, capaz de produzir co-
nhecimento com relevância social, não
só para o Brasil como para a América
Latina, para a África, para que possamos
interagir com outros povos.
Temos uma longa estrada pela fren-
te, e essa longa estrada tem exigências
para ser trilhada. Ela não pode ser tri-
lhada de qualquer forma, não será
aberta de qualquer forma; ela precisa
de ação deliberada, organizada, senão
nós não vamos abrir os caminhos que
possibilitem um futuro diferente para a
universidade brasileira. A construção
desse futuro depende em grande par-
te da força e da qualificação ética e po-
lítica que nós podemos dar aos nossos
mandatos, como Diretores. O futuro da
universidade brasileira depende, em
grande parte, da força do ANDES; e a
força do ANDES depende, em grande
parte, da dedicação, do empenho e do
espírito militante de cada pessoa que
está com a responsabilidade de repre-
sentar essa entidade extraordinária.
É a mesma mensagem que me pas-
saram. Ou seja, temos aí uma entida-
de de grande importância, de grande
relevância e temos que manter essas
lutas do passado, com a força que elas
tiveram em outros períodos, amplian-
do essa força. Mas para isso precisa-
mos sempre nos manter com base nos
princípios que historicamente deram
feição ao ANDES Sindicato Nacional.
Eu faço uma avaliação extrema-
mente positiva da Diretoria atual. Acho
que é uma Diretoria que vem manten-
do o melhor da tradição do nosso Sin-
dicato, da postura ética, crítica, comba-
tiva, qualificada, de intervenção no
cenário político. Avalio também que
vai ser uma gestão, já está sendo uma
gestão, com desafios diferentes. Preci-
saremos de muita sabedoria para po-
dermos lidar com esses novos desa-
fios. É muito diferente, na minha ava-
liação, ser Diretor numa gestão Lula de
ser Diretor numa gestão Fernando
Henrique. A diferenciação política era
muito clara, o ANDES tinha uma posi-
ção clara para a universidade e o go-
verno Fernando Henrique tinha posi-
ção clara para outro projeto de univer-
sidade e sociedade. O quadro agora é
muito mais complexo e acho que isso
vai exigir muita sabedoria.
*Antônio Ponciano Bezerra é professor
doutor na Universidade Federal de Sergi-
pe, 2º vice-presidente da Regional NE-III
do ANDES-SN e editor da revista Univer-
sidade e Sociedade.
** Janete Luzia Leite é professora doutora
na Escola de Serviço Social da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 1ª vice-presidente
da Regional RJ do ANDES-SN e editora ad-
junta da revista Universidade e Sociedade.
204 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Memória do Movimento Docente
Em recente pronunciamento feito em Buenos Aires,
reiterado em Santiago do Chile, o Presidente do Brasil,
Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que a injustiça social
tem sido um convite permanente a soluções autoritá-
rias, na América Latina. Poderíamos dizer que a demo-
cracia liberal, também, tem contribuído para a desmo-
ralização da democracia, na medida que apela para ins-
tituições formais dissociadas das profundas e injustas
estruturas sociais que reinam aqui entre nós. Esquecer
dessa relação enquanto cientistas sociais é estar faltan-
do com um mínimo de rigor científico. Sabemos que,
na Europa e mesmo nos Estados Unidos, as instituições
liberais foram instituídas a partir de processos revolu-
cionários e, portanto, com ampla participação popular.
Essas revoluções não caíram do céu e, sim, tentavam
resolver problemas bem mundanos, como as elevadas
taxas e impostos que a Inglaterra tentava estabelecer
contra sua então colônia, os Estados Unidos, assim
como a Revolução Francesa, teve entre suas primeiras
medidas, a reforma agrária e a abolição das dívidas dos
camponeses. O que ali foi instituído se esclarece quan-
do consideramos o seu processo instituinte.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 207UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Carlos Walter Porto Gonçalves*
Debates Contemporâneos
Venezuela: quem tem
medo da democracia
na América Latina ?
Ao observamos a enorme crise que
atinge as democracias liberais, pergun-
tamo-nos se não devemos caminhar
na direção de uma radicalização de-
mocrática muito mais do que tentar
implantar em outros lugares as institui-
ções que estão em crise mesmo onde
são apresentadas, como se, lá, tives-
sem dado certo. As últimas eleições
nos Estados Unidos são um bom
exemplo dessa crise, quando sabemos
que a contagem de votos de determi-
nadas jurisdições eleitorais foram proi-
bidas porque o Juiz Eleitoral era indica-
do pelo partido a quem não interessa-
va a contagem de votos, o que mostra
que um dos pilares da democracia li-
beral, as eleições não têm contempla-
do a vontade dos eleitores e, sim, dos
partidos. As últimas eleições francesas
também mostraram como um candi-
dato com apenas cerca de 20% dos
votos, na primeira volta, conseguiu se
eleger com mais de 80%, na segunda
volta, porque se construiu um consen-
so contra o outro candidato de extre-
ma direita. Assim, a sociedade france-
sa vai ser governada, nos próximos 7
anos, por um Presidente que, na ver-
dade, cerca de 60% dos franceses não
desejariam. A França vai ser governada
por um contra Le Pen e não por um
candidato eleito por sua positividade.
Invoco esses dois exemplos com a
preocupação de não nos deixarmos le-
var por uma crítica ao que se passa
entre nós, na América Latina, com um
olhar que não emana da realidade de
onde deveríamos partir para buscar-
mos as soluções democráticas para os
graves problemas que nos afetam. In-
sisto, invocar os princípios da demo-
cracia liberal, ignorando as circunstân-
cias históricas de sua invenção, assim
como sua crise atual é estar contri-
buindo para agravar a crise social e po-
lítica que vem nos atingindo na Amé-
rica Latina.
Enquanto, nos países europeus e
nos EEUU, a idéia de que todos os ci-
dadãos são iguais foi relativamente
universalizada para os nacionais (o
que não deixa de ser uma contradição,
mas que não é aqui o lugar para ser
esclarecida pela exigüidade de espa-
ço), na América Latina, a colonialidade
do poder sobreviveu ao colonialismo,
na medida que uma elite branca e
criolla, que não ultrapassava 10% do
total da população quando da inde-
pendência, continuou mantendo a es-
cravidão e a servidão indígena e negra
ainda por bom tempo. Mesmo após a
abolição da escravidão e da servidão
de negros e indígenas, as estruturas de
poder continuaram marcadas por forte
componente de desigualdade social e
racial. Não olvidemos que, nos Estados
Unidos, os constituintes, logo após a
independência, buscando uma solu-
ção para uma representação no parla-
mento que quantitativamente expres-
sasse a força política dos latifundiários
escravocratas do sul do país, chegaram
à cínica idéia de que cada negro seria
considerado como 3/5 de um branco
para efeitos de contagem dos votos.
Relembremos, ainda, que Tuissant de
L’Overture, líder da Revolução haitiana,
alertara os franceses que a idéia de
que todos os homens são iguais deve-
ria valer também no Haiti. Tudo indica
que o medo do haitianismo continua
ainda presente nos dias atuais.
O que se passa hoje na Venezuela é
mais um momento dessa história de
moderno-colonialidade que tão bem
marca a constituição do sistema-mun-
do que vivemos desde 1492. A Vene-
zuela é uma sociedade que passa, de
fato, por um momento revolucionário,
no sentido preciso de um momento
histórico em que grandes transforma-
ções nas instituições políticas estão se
passando. Ali nos vemos diante de um
processo revolucionário nas condições
especiais de um momento de hege-
monia das instituições liberais, em
escala mundial. Isso tem enorme signi-
ficação na medida que a Venezuela
está sob os olhares interessados dos
meios de comunicação de massas que
são, eles mesmos, protagonistas dessa
mesma ordem liberal, em escala glo-
bal. Talvez não haja, em todo o mun-
do, um país onde o papel dos meios
de comunicação de massas seja politi-
camente tão ativo como na Venezuela.
Sem sombra de dúvidas, os meios de
comunicação de massas se constituí-
ram em verdadeiros partidos políticos,
na exata medida que o processo cons-
tituinte de 1999 quebrara os mecanis-
mos tradicionais de reprodução das
relações de poder na Venezuela.
A grande dificuldade que se obser-
va na Venezuela, por parte daqueles
que vêm tendo seus interesses tradi-
cionais atingidos, é que Hugo Chávez
optou por regras democráticas for-
mais, como a convocação de uma
constituinte, processo esse que tem
propiciado que novos atores venham à
cena política. O fracassado golpe de 11
de abril de 2002 foi de fato revelador
208 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Os golpistas mostraram que a única coisa que têm em comum é o
“Fora Chávez” e que nenhum consenso há em torno do que deve
ser feito para tirar a Venezuela da crise, sobretudo social.
Debates Contemporâneos
do que atualmente se passa na Vene-
zuela. Foi o povo pobre das favelas, de
Caracas sobretudo, que, com o uso de
celulares e de pequenas motocicletas,
se mobilizou, convocando cada um
para se concentrar não só junto ao
Palácio Miraflores mas também cer-
cando as redes de comunicação, para
recolocar Chávez na Presidência. Por
outro lado, os golpistas mostraram
que a única coisa que têm em comum
é o “Fora Chávez” e que nenhum con-
senso há em torno do que deve ser
feito para tirar a Venezuela da crise, so-
bretudo social, em que se encontra.
Bastou a primeira medida do governo
golpista para que se desfizesse o míni-
mo consenso entre eles.
Muitos têm invocado o caráter po-
pulista e caudilhista de Hugo Chávez
para tentar desqualificar a revolução
democrática e popular que se proces-
sa na Venezuela e que vai muito além
de Chávez, não nos enganemos.
Quem conhece minimamente a histó-
ria da América Latina, e da Venezuela
em particular, sabe o quanto esses
conceitos sociológicos nos são úteis.
Para isso, é preciso considerar que es-
ses conceitos expressam relações so-
ciais e não vontades pessoais, isto é,
não basta que alguém queira ser pa-
ternalista, ou populista ou clientelista
para que se torne um populista, ou se
tenha o clientelismo ou o caudilhismo.
É preciso que existam condições so-
ciais, historicamente constituídas, para
que tais relações se materializem. E sa-
bemos o quanto o paternalismo, o
caudilhismo e o clientelismo são rela-
ções assimétricas de poder que repro-
duzem relações de dependência e, as-
sim, mais do que relações de direito -
cidadania - operam com relações de
favor. E aqui é que o papel de Chávez,
na revolução bolivariana, tem se desta-
cado, na medida que seu carisma tem
sido um verdadeiro atrativo, sobretudo
para a as camadas pobres da popula-
ção. De fato, a Venezuela vê diante de
si as modernas tecnologias de marke-
ting de televisão aplicados à política,
disputando a hegemonia política con-
tra o velho carisma que Max Weber tão
bem descreveu.
Todo o clima político que se vive
hoje na Venezuela tem que ser visto
em perspectiva histórica, particular-
mente a que se passou nas duas últi-
mas décadas, quando a corrupção e a
miséria aumentaram significativamen-
te, o que levara, inclusive, a massacres
por parte de governos
hoje invocados como de-
mocráticos, como o de
Caracazzo, de 1989, e,
ainda, as tentativas de gol-
pes de estado, como
aquele em que se envol-
veu o próprio Hugo Chá-
vez, em 1992. Não há, no
nível de polarização políti-
ca que se atingiu na Ve-
nezuela, que se acreditar
que somente um dos la-
dos do conflito opera com
regras típicas de guerra,
como espionagem e
agressões. O próprio gol-
pe de 11 de abril, sabe-se,
foi arquitetado pelas elites
que se sentem prejudica-
das, com seus meios de comunicação
e com sabido apoio do governo dos
Estados Unidos. Uma verdadeira Co-
missão da Verdade, tanto invocada
para apontar os responsáveis pelas
mortes do 11 de abril, deveria ser ca-
paz, também, de apontar os responsá-
veis por aquele frustrado golpe e levá-
los a julgamento.
Nunca foi tão forte a participação
popular na história da Venezuela como
nos 3 últimos anos. Para isso, sem dú-
vida, foi fundamental o processo cons-
tituinte iniciado em 1999, processo es-
se incompreensível se não considerar-
mos o verdadeiro caos institucional
em que o país havia sido mergulhado
por esses mesmos atores que hoje in-
vocam a necessidade de que haja ins-
tituições liberais, sem reformas sociais
e sem protagonismo popular. Tudo in-
dica que são as virtudes de Chávez
que incomodam seus detratores e não
seus defeitos. Para seus detratores,
Chávez permaneceria no poder caso
não mexesse na questão da terra, não
propiciasse que, primeira vez na histó-
ria, as populações indígenas tivessem
direito à demarcação de seus territó-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 209UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
Todo o clima político que se vive hoje na Venezuela tem que ser
visto em perspectiva histórica, particularmente a que se passou
nas duas últimas décadas, quando a corrupção e a miséria
aumentaram significativamente.
rios, não instituísse uma nova lei para
a pesca, não mexesse no petróleo
nem na minoria daqueles que, até
aqui, só têm se beneficiado dessa ri-
queza que deveria estar servindo a to-
dos os venezuelanos e de fonte de
financiamento para um outro modelo
de desenvolvimento sustentado para o
país. E mais, por insistir que na Vene-
zuela não só há uma Constituição que
deve ser respeitada mas, principal-
mente, que essa Constituição contém
uma série de prerrogativas que esti-
mulam o protagonismo popular, como
o Capítulo IV - De los derechos políti-
cos y del referendum popular, Artigo
62 ao Artigo 74, em destaque.
Essas, sim, parecem ser as verdadei-
ras razões que mobilizam os que que-
rem Chávez fora do poder. Os defeitos
de Chávez, tudo indica, são pretextos
para que não se leve a cabo o que a
grande maioria de pobres do país quer
que seja feito e vê, em Chávez, o líder
possível para fazê-lo, nas atuais cir-
cunstâncias históricas.
A Venezuela deve servir de lição pa-
ra todos os países da América Latina
cujas sociedades, sobretudo seus seto-
res mais pobres, vêm apontando para
a necessidade de superação da crise a
que foram lançadas pelas políticas
des-democratizantes e des-nacionali-
zantes (Quijano, 2000) que se puse-
ram em curso, nos últimos anos na
América Latina, sob o comando de
suas próprias elites e com total apoio
de instituições multilaterais como o
BIRD, BID, FMI e OMC. Mas não olvi-
demos que a Venezuela é somente
uma das caras possíveis dessas muitas
tentativas de superação da crise que já
estão em curso, de que o caso colom-
biano é, talvez, o mais antigo. O povo
brasileiro com Lula, o povo equatoria-
no com Gutierres, o povo venezuelano
com Chávez já conseguiram avançar
uma peça importante na correlação de
forças desse complexo tabuleiro de xa-
drez político, assim como apontam os
indígenas e camponeses mexicanos,
com os zapatistas, os camponeses e
indígenas bolivianos com Evo Morales,
e os indígenas e camponeses colom-
bianos de Cauca com Floro Tunubalá,
assim como os múltiplos movimentos
sociais que reinventam a sociedade
argentina hoje.
Por tudo isso é que, diante da crise
dessa democracia débil, como chama
Boaventura de Souza Santos, devemos
exorcizar, definitivamente, o fantasma
da busca de soluções autoritárias. En-
tretanto, mais do que uma democracia
liberal, devemos radicalizar a demo-
cracia ou, se se preferir, democratizar a
democracia, até porque, até aqui, ela
tem servido muito mais a uma minoria
e, com isso, para desmoralizar a pró-
pria idéia de democracia. Afinal, se o
conflito é parte das relações sociais em
qualquer sociedade que seja, que bus-
quemos, nas múltiplas formas de orga-
nização societária que a humanidade
já desenvolveu, e não só na Europa,
outras formas de resolução de conflito
que não sejam aquelas já desgastadas
formas de democracia liberal que os
europeus inventaram e que as mentes
coloniais, incapazes de pensar a partir
de sua própria realidade, teimam em
querer nos impingir.
A Venezuela experimenta todo o
significado de uma revolução demo-
crática com forte protagonismo popu-
lar, o que pode ser atestado pelo au-
mento do número de Círculos Boliva-
rianos, que são comitês populares que
se reúnem por bairros e quarteirões
para discutir o presente e o futuro polí-
tico do país. São esses Círculos Boliva-
rianos que estão se contrapondo à
contra-revolução comandada pelos
meios de comunicação de massas na
Venezuela. A velha questão entre re-
presentação e apresentação popular
vem se colocando nas ruas das dife-
rentes cidades venezuelanas.
Há mais do que chavismo e anti-
chavismo, a que a lógica midiática
vem tentando reduzir a rica e tensa ex-
periência da Venezuela. Ali se joga
uma riquíssima experiência onde se
tenta superar os impasses da demo-
cracia representativa, combinando de-
mocracia representativa com demo-
cracia direta, como referendum, ple-
biscitos e outras formas que estimu-
lam o protagonismo popular. Tudo in-
dica que o perigo maior para aqueles
que se apegam a uma lógica democrá-
tica formal, como a liberal, é que essa
experiência venezuelana, que tanto
aprendeu com as derrotas e as tentati-
vas autoritárias vindas da esquerda,
possam dar certo e servir para a tão
necessária reinvenção democrática de
que o mundo urge.
* Carlos Walter Porto Gonçalves é doutor
em Geografia; Coordenador do Programa
de Pós-graduação em Geografia da UFF;
Professor Adjunto do Departamento de Geo-
grafia da Universidade Federal Fluminense
(Rio de Janeiro, Brasil); é autor de diversos
artigos e livros publicados em revistas cien-
tíficas nacionais e internacionais, sendo os
mais recentes: - “Geo-grafías: movimientos
sociales, nuevas territorialidades y sustenta-
blidad”, ed. Siglo XXI, México, 2001; “Ama-
zônia, Amazônias”, ed. Contexto, São Paulo,
2001; “Da Geografia às Geo-grafias: um
mundo em busca de novas territorialidades”
- capítulo do livro “La guerra Infinita: hege-
monía y terror mundial” Sader, E. e Ceceña,
Ana Esther (orgs.), Clacso, Buenos Aires
2002; Ex-presidente da Associação dos
Geógrafos Brasileiros - AGB (1998-2000).
210 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
Apresentação
Sob vários aspectos, um silêncio
marca ainda a história do urbanismo
brasileiro: o concurso de Brasília
(1957). Tal descoberta não só me
assombrou na condição de arquiteta
que sou, mas também pelo fato de
que um ícone da história brasileira, a
construção da capital federal, não ter
sido analisado e tampouco documen-
tado anteriormente.
Desafio aceito, meu trabalho, du-
rante três anos, visou resgatar os pla-
nos pilotos apresentados no concurso
de Brasília e estudar a influência do ur-
banismo, dito moderno, nesses proje-
tos. As dificuldades foram grandes. In-
felizmente, como muito tempo se pas-
sou, desde o concurso, sem que hou-
vesse uma preocupação com preservar
esse material, os originais não foram
encontrados, nem publicações refe-
rentes a eles, restando-nos realizar um
levantamento documental por meio
de depoimentos e croquis feitos pelos
arquitetos participantes ou pessoas di-
retamente ligadas a estes.
Tal situação realçou a importância
de um estudo cujo foco estivesse cen-
trado na sistematização e análise preli-
minar dos projetos apresentados. Ini-
cialmente, abordamos o contexto do
concurso, suas exigências, seus organi-
zadores, os jurados e os resultados.
Em seguida, sistematizamos as infor-
mações de cada plano piloto, partindo
da identificação por meio de sua clas-
sificação, equipe, documentos disponí-
veis, iconografia e referências biblio-
gráficas. Como desdobramento, elabo-
ramos uma introdução em que desta-
camos particularidades e principais
obras dos participantes da equipe, en-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 211UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Urbanismo e história: pelo resgate
do concurso de Brasília
Aline Moraes Costa 1
Debates Contemporâneos
trevista, relação dos planos com o edi-
tal e as teorias urbanas vigentes e, fi-
nalmente, comentários dos principais
pontos do memorial descritivo. Ao lon-
go da pesquisa, reproduzimos, sempre
que possível, a parte escrita referente
aos relatórios, assim como a parte ico-
nográfica.
O material pesquisado foi reunido
num volume de 620 páginas2
. Impos-
sibilitados de realizar uma síntese rápi-
da de um material tão extenso, procu-
ramos aqui ressaltar os aspectos do
contexto histórico da competição. Esse
artigo visa revelar ao leitor as circuns-
tâncias envolvidas no concurso de Bra-
sília, desenvolvendo um relato que
ambienta a criação da comissão res-
ponsável pela elaboração e julgamen-
to do concurso, descreve os participan-
tes e a eleição dos melhores planos
pilotos, projetos que mereceram des-
taque na narrativa. Finalmente, esse
texto avalia alguns pontos da repercus-
são desse momento rico e único para
a história do urbanismo brasileiro. Afi-
nal, numa época em que poucos se
formavam arquitetos e engenheiros, o
total de 26 concorrentes engajados em
criar uma cidade onde nada existia
reúne uma síntese inigualável da for-
mação urbana de uma época.
Uma análise do urbanismo brasileiro
não poderia deixar de recorrer às idéias
que nortearam a criação de Brasília. De-
corridos 46 anos do concurso, eviden-
cia-se a importância desse como retra-
to do pensamento urbanístico, no qual
foi concebida a cidade. Consideramos
importante o posicionamento de cada
arquiteto, ou grupo deles, ao planejar
uma cidade do futuro, uma capital, com
suas aspirações e respostas aos proble-
mas comuns às cidades contemporâ-
neas. O resultado dessas aspirações é
visível em Brasília, as diferenças e as
possibilidades apresentadas nos vários
planos apontam soluções importantes
a serem observadas.
A Novacap, o edital e o júri
O Concurso do Plano Piloto de Bra-
sília, em 1957, traduziu, entre outras
coisas, o desejo nacionalista e deter-
minado de um presidente, Juscelino
Kubitschek, por realizar a antiga idéia
de construir uma capital administrati-
va, apoiado por uma convicção moder-
nista que Brasília ajudou a propagar. A
idéia da mudança da capital do Brasil
já fora aventada pelos Inconfidentes,
em 1798. No entanto, é a partir da Pro-
clamação da República, em 1889, que
a aspiração da criação de uma capital
administrativa tomou mais força. Em
1891, foi incluído, na Constituição, o
dispositivo que reservava uma área
para esse fim, definindo sua localização
no Planalto Central, em Goiás. Foi en-
viada para essa região uma Comissão
Exploradora (Missão Cruls), organizada
com a função de delimitar especifica-
mente uma área conveniente para
esta implantação e estudá-la em seus
aspectos geográficos.3
Apesar de todas essas tentativas de
transferência, somente em abril de
1955, com o fim da era Vargas, essa
idéia começou a se concretizar, quan-
do finalmente se determinou a mu-
dança da capital.4
A área foi definitiva-
mente delimitada (5850 Km2) e seus
limites coincidiram com as indicações
feitas, anteriormente, pelas pesquisas
da Missão Cruls. Em dezembro de
1955, a Comissão de Localização da
Nova Capital Federal transformou-se
em Comissão de Planejamento da
Construção e da Mudança da Capital
Federal, presidida pelo Marechal José
Pessoa, da qual faziam parte os arqui-
tetos Affonso Reidy e Burle Marx, auto-
res de uma proposta que sugeria um
convite a Le Corbusier, arquiteto fran-
co-suíço, para a realização do trabalho
de projeto e construção da cidade -
semelhante a Mont Saide, em 1936.5
O Instituto de Arquitetos do Brasil
(IAB), por meio de vários artigos, de-
monstrou o interesse dos arquitetos
brasileiros na discussão a respeito da
mudança da capital. Foi constituída
uma comissão de arquitetos, entre
eles Reidy, Saldanha, Modesto, Nieme-
yer e Oliveira Neto, para representar
esse interesse frente ao Conselho Di-
retor do órgão central. Dentre as su-
gestões e reivindicações, endereçadas
posteriormente ao Presidente da Re-
pública, estavam: o princípio de um
concurso público nacional; a constitui-
ção de uma comissão para o Con-
curso, responsável pela elaboração de
um edital; um júri com representantes
internacionais como, por exemplo,
Walter Gropius, Richard Neutra, Percy
Marshall, Max Lock, Alvar Aalto, Cla-
rence Stein, Le Corbusier e Mario Pa-
ne.6
A realização de um concurso na-
cional se mostrou mais condizente
com o plano nacionalista do presiden-
te Juscelino Kubitschek que assumira o
poder em 1956. Juscelino deu priori-
dade ao empreendimento, o qual rea-
lizou com mérito, apesar de seu gover-
no e sua pessoa serem atacados e cri-
ticados como faraônicos (Couto, 2001,
p. 64-71).
212 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Numa época em que poucos
se formavam arquitetos e
engenheiros, o total de 26
concorrentes engajados em
criar uma cidade onde nada
existia reúne uma síntese
inigualável da formação
urbana de uma época.
Debates Contemporâneos
Em 18 de abril de 1956, a antiga
Comissão de Planejamento da Cons-
trução e da Mudança da Capital Fede-
ral é dissolvida e, em seu lugar, organi-
za-se a Companhia Urbanizadora da
Nova Capital (Novacap), cabendo sua
direção a Israel Pinheiro, tendo o ar-
quiteto Oscar Niemeyer como respon-
sável pelo Departamento de Arquite-
tura, o qual também idealizaria a pro-
posta de um concurso para a escolha
de um plano piloto para a construção
de Brasília.7
Ficou estabelecido tam-
bém que caberia a ele a realização dos
edifícios mais representativos da cida-
de (sedes dos Poderes Executivo, Le-
gislativo e Judiciário).8
As condições básicas para a apre-
sentação do anteprojeto, no Concurso
Nacional para o Plano Piloto da Nova
Capital, foram publicadas no Diário Ofi-
cial, do dia 30 de setembro de 1956.
No Edital, para o concurso era dada li-
berdade de participação a pessoas
domiciliadas no país e portadoras de
licenciatura em arquitetura ou enge-
nharia. Para o plano, pedia-se um tra-
çado básico da cidade, a localização
das principais instalações e um relató-
rio justificativo. Além disso, havia a
possibilidade de apresentação de ma-
pas de estudos de zonas (agrícola,
urbana), de cálculos de abastecimento
em geral, de indicação de progressão
da cidade e de indicações quanto ao
estatuto das leis de uso do solo. O
prazo estabelecido para a entrega era
de 120 dias. Havia mapas à disposição,
alguns deles em escalas menores, su-
gerindo áreas a serem ocupadas pela
parte urbana. Posteriormente, foram
acrescentados dados como a localiza-
ção dos edifícios já determinados pela
Novacap (Sede dos Poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário), assim como a
localização do aeroporto, as possíveis
estradas de ligação e a ocupação urba-
na de 500.000 habitantes. Tais condi-
ções foram severamente criticadas,
alegando-se a pouca especificação dos
dados e nenhum compromisso com a
construção do projeto classificado em
1º lugar (cf, entre outros, BRUAND,
1991, pp. 354-355). Os questionamen-
tos estenderam-se também à escolha
dos representantes do júri, na medida
em que poderiam ser pessoas influen-
ciadas por Oscar Niemeyer. Tais situa-
ções levaram arquitetos como Reidy e
Moreira a se absterem da participação
no concurso, apesar da demissão de
Niemeyer do posto de vice-presidente
da Novacap.9
O júri foi composto por um repre-
sentante inglês, Sir William Holford, as-
sistente e consultor do Ministério de
Alojamento e Planificação e do Depar-
tamento Colonial da Grã-Bretanha, um
dos responsáveis pelo plano regulador
de Londres e pelo projeto de reestru-
turação no Picadilly Circus; um francês,
André Sive, consultor do Ministério da
Reconstrução e Moradia; um norte
americano, Stamo Papadaki que, jun-
tamente com o arquiteto Oscar Nie-
meyer, representava o departamento
de urbanismo da Novacap; o represen-
tante do IAB (Instituto de Arquitetos
do Brasil), Paulo Antunes Ribeiro; o
engenheiro Luiz Hildebrando Horta
Barbosa, representante da Associação
dos Engenheiros; assim como o presi-
dente da Novacap, Israel Pinheiro da
Silva (sem direito a voto).
As prioridades que orientaram o jul-
gamento dos projetos foram direciona-
das, principalmente, à localização e zo-
neamento das áreas, à articulação de
vias entre elas, ao caráter de destaque
dos edifícios administrativos e à identi-
dade do projeto em relação ao cresci-
mento da cidade. Apesar de serem
considerados relevantes, o júri pouca
importância deu aos estudos estatísti-
cos, afirmando que se tratava de um
julgamento de idéias e, segundo eles,
informações que mostrassem além
disso seriam desnecessárias, nessa pri-
meira fase. Outro fator relevante foi o
tempo; Juscelino precisava concluir
essa obra até o final do seu mandato,
pois, supostamente, qualquer outro go-
vernante não daria a ela a mesma prio-
ridade que ele. Esse aspecto afetou
diretamente a construção de Brasília,
desde o início; o Edital do Concurso e
a Ata da Comissão Julgadora eviden-
ciam isso, elencando prioridades se-
gundo uma preocupação de realização
imediata, sob determinações políticas.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 213UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
Entretanto, tais pressões, apesar de li-
mitarem um estudo mais aprofundado
dos projetos, garantiam a concretização
do empreendimento (cf. Couto, 2001,
p. 52-71).
Os planos pilotos apresentados
e o resultado final
Foram apresentados 26 projetos, no
Concurso para o Plano Piloto da Nova
Capital Federal, na seguinte ordem:
Plano n°1: Carlos Cascaldi, arquite-
to; João Vilanova Artigas, arquiteto;
Mário Wagner Vieira da Cunha, soció-
logo; Paulo de Camargo e Almeida, ar-
quiteto.
Plano n°2: Boruch Milman, enge-
nheiro; João Henrique Rocha, arquite-
to; Ney Fontes Gonçalves, arquiteto.
Plano n°3: Jorge Wilheim, arquiteto.
Plano n°4: Reduto Engenharia e
Construções S.A.
Plano n°5: Eurípedes Santos, enge-
nheiro arquiteto.
Plano n°6: Alfeu Martini. engenheiro
arquiteto.
Plano n°7: José Otacílio de Saboia
Ribeiro, engenheiro.
Plano n°8: Marcelo Roberto, arqui-
teto; Maurício Roberto, arquiteto.
Plano n°9: Ricardo Brasílico Paes de
Barros Schroeder, engenheiro.
Plano n°10: Rubem de Lima Dias.
Plano n°11: Oswaldo Corrêa Gon-
çalves, arquiteto.
Plano n°12: Joaquim Marciano Gue-
des, arquiteto; Liliana Marsicano Gue-
des, arquiteto; Carlos Millan, arquiteto;
Domingos Azevedo, arquiteto.
Plano n°13: João Batista Corrêa da
Silva.
Plano n°14: Inácio Chaves de Moura.
Plano n°15: Flávio Amilcar Regis do
Nascimento, arquiteto.
Plano n°16: Pedro Paulo de Melo
Saraiva, arquiteto; Júlio José Franco
Neves, arquiteto.
Plano n°17: Rino Levi, arquiteto; Ro-
berto Cerqueira César, arquiteto; Luiz
Roberto de Carvalho Franco, arquiteto.
Plano n°18: João Kahir.
Plano n°19: Edgar Rocha Souza, ar-
quiteto.
Plano n°20: José Geraldo Cunha Ca-
margo, arquiteto.
Plano nº21: Pedro Paulino Guima-
rães, arquiteto.
Plano n° 22: Lúcio Costa, arquiteto.
Plano n°23: Marcelo Rangel Pesta-
na, engenheiro; Hérman Ocampo Lan-
da, arquiteto; Vigor Artesi, arquiteto.
Plano n°24: Henrique Ephin Min-
dlin, arquiteto; Giancarlo Palanti, arqui-
teto.
Plano n°25: José Marques Saraban-
da, arquiteto.
Plano n°26: Milton C. Guiraldini, ar-
quiteto (Construtécnica S.A. Comercial
e Construtora).
No resultado final foram classifica-
dos os seguintes projetos:
Primeiro classificado: Plano n°22 -
Lúcio Costa
Segundo classificado: Plano n°2 -
Boruch Milman, João Henrique Rocha
e Ney Gonçalves.
Terceiros classificados: Plano n°8 -
Maurício Roberto e Marcelo Roberto.
Plano n°17 - Rino Levi, Roberto Cer-
queira César, Luiz Roberto de Carvalho
Franco (os jurados acharam por bem
classificar dois projetos em terceiro lu-
gar, eliminando uma quarta coloca-
ção).
Quintos classificados: Plano n°1 -
Carlos Casacaldi, João Vilanova Artigas,
Mário Wagner Vieira e Paulo de Ca-
margo e Almeida. Plano n°24 - Hen-
rique Ephin Mindlin e Giancarlo Pa-
lanti. Plano n°26 - Milton C. Guiraldini
(Construtécnica S.A. Comercial e Cons-
trutora).10
O júri considerou que a capital ad-
ministrativa deveria ser diferente de
qualquer outra cidade, para “expressar
a grandeza de uma vontade nacional”.
Sua principal característica deveria ser
a administração, para onde todas as
funções deveriam convergir.
Realmente, esperava-se que alguns
projetos tivessem inspiração raciona-
lista, mas foi grande a surpresa ao se
revelar que todos os projetos separa-
vam as atividades de habitação, circu-
lação, trabalho e lazer.11
A influência de
Le Corbusier era evidente. A grande
maioria dos projetos trabalhava a defi-
nição de setores, a liberação de espa-
ços livres, o tipo célula que subenten-
dia o crescimento, simetria, regularida-
de. Porém, apesar das semelhanças
genéricas, as diferenças entre eles
eram notáveis.
O júri elaborou um resumo de suas
apreciações (cf. Módulo, 1957, pp.13-
16). No plano piloto n°22, de Lúcio
Costa, criticaram a localização bem es-
pecífica, mas concluíram ser esse o
único projeto que possibilitava a orga-
nização de uma Capital Administrativa
do Brasil. Foi julgado como simples,
porém claro e organizado, com a devi-
da colocação dos edifícios dos poderes
governamentais.
Sobre plano piloto n°2, de Boruch
Milman, João Henrique Rocha e Ney
Fontes Gonçalves avaliaram dificulda-
des quanto ao crescimento da popula-
ção e quanto à localização das vias, dos
hotéis e do centro comercial. Atraente
localização das habitações nas penín-
sulas e densidade bem calculada.
As torres com 300 metros de altura
e altíssima densidade do plano piloto
n°17, de Rino Levi, Roberto Cerqueira
César e Luiz Roberto Carvalho Franco
inviabilizavam grande parte do projeto.
214 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
Atrelado a isso, o caráter de valoriza-
ção dos edifícios de apartamentos em
relação aos governamentais parecia
uma inversão da ordem natural de
uma capital administrativa.
O plano piloto n°8, dos M.M.M. Ro-
berto, foi julgado controlador e plausí-
vel de ser convertido em qualquer ou-
tra cidade, não somente numa capital
administrativa. A separação dos edifí-
cios governamentais também não foi
bem recebida pelo júri, entretanto, es-
se foi o plano que apresentou os me-
lhores estudos quanto à utilização de
terra e financiamento.
O plano piloto n°24, de Henrique
Ephin Mindlin e Giancarlo Palanti, se-
gregava os operários e as indústrias e
demonstrava dificuldades com a dis-
posição dos Ministérios, segundo o jú-
ri. O projeto foi considerado bem di-
mensionado e com boa densidade.
O plano piloto n°1, apresentado por
Carlos Cascaldi, João Vilanova Artigas,
Mário Wagner Vieira e Paulo Camargo
e Almeida, apresentou, segundo o júri,
monotonia nas zonas residenciais e os
Ministérios não apareciam em desta-
que. A densidade foi considerada bai-
xa, porém com uma boa resolução pa-
ra a área rural.
Finalmente, o plano piloto n°26, da
Construtécnica S.A., oferecia dificulda-
des quanto à ligação dos edifícios até
as vias principais e possuía ausência de
caráter de uma capital administrativa.
O júri resumiu esse projeto como um
bonito modelo de uma aldeia agrícola.
Foram registrados em atas os proce-
dimentos e os pareceres da comissão
julgadora. Dos 26 trabalhos apresenta-
dos, 4 dias depois, foram selecionados
10 deles. Os arquitetos estrangeiros es-
tudaram então esses 10 projetos isola-
damente, enquanto o restante do júri
se reunia periodicamente. Foi proposto
e apoiado que se separasse um dia
em que todos os participantes da co-
missão julgadora fizessem seus estu-
dos individuais e, posteriormente, dis-
cutissem suas conclusões em grupo.
Segundo o relatório de Paulo Ribeiro,
isso não ocorreu, posto que, no dia
marcado para essa reunião em grupo,
os representantes internacionais che-
garam com suas resoluções já toma-
das, que “coincidiram” com as deci-
sões finais.
O arquiteto Paulo Antunes Ribeiro
não concordou com o resultado final
da classificação dos projetos, anexan-
do à ata final da comissão julgadora
um relato das reuniões onde se avalia-
ram o projeto. Argumentava que, em
uma hora de avaliação dos projetos, já
haviam sido definidos 10 trabalhos clas-
sificados, deixando evidente sua con-
trariedade em relação aos critérios
usados na avaliação desses trabalhos,
enunciando claramente que nem se-
quer todos os relatórios dos projetos
classificados foram lidos pelos partici-
pantes do júri. Conclui então que os
participantes estrangeiros haviam da-
do a escolha final. Segundo ele, a sele-
ção dos planos foi realizada num
tempo “record” de, apenas, dois dias e
meio. Paulo Ribeiro votou na classifica-
ção dos 10 projetos primeiramente es-
colhidos de maneira igualitária, acres-
centando-se o 11° plano, dos arquite-
tos Joaquim Guedes, Liliana Marsicano
Guedes, Carlos Milan e Domingos de
Azevedo, para que uma equipe forma-
da pelos diversos autores elaborasse
um projeto único. Essa proposta foi ne-
gada pelos outros participantes do júri.
A repercussão
Depois desses acontecimentos, o
mundo do urbanismo deparou-se com
um dos maiores canteiros de obras da
época para as suas teorias e críticas.
Nas palavras de Peter Hall sobre o pro-
jeto vencedor e o procedimento do jú-
ri: “... premiou um dos mais vastos
exercícios urbanísticos do século XX ...”
(Hall, 1995, p. 254). Até mesmo os
que eram contra a mudança da capital
manifestaram sua surpresa em relação
ao plano escolhido, como é o caso de
Mário Pedrosa. Segundo ele, apesar
das condições do Concurso, a escolha
de Lúcio Costa foi certeira, justa e cora-
josa. Embora fossem explícitas as liga-
ções de Papadaki com Niemeyer e des-
te último com Juscelino, a escolha de
Lúcio Costa foi óbvia e brilhante. Mário
comenta sua insegurança em relação
ao Concurso. Mostra-se contra o gover-
no, mas admirado com o projeto de Lú-
cio Costa (cf. Pedrosa, 1957, p.15).
A repercussão do concurso e da
construção de Brasília ganhou cunho
internacional rapidamente. Tal fato po-
de ser avaliado através do Congresso
Internacional de Críticos de Arte, reali-
zado em Brasília, em setembro de
1959. A senhora Aline Saarinen docu-
mentou e publicou, em formato de li-
vro - “Brasília e a Opinião estrangeira”,
1960, tal repercussão, por meio do re-
lato de uma série de opiniões publica-
das posteriormente no New York Ti-
mes. Algumas colocações refletem cla-
ramente o deslumbramento que a prá-
tica do urbanismo moderno causara,
como é o caso do jornalista francês Lo-
uis Guerande: “Brasília é a associação
do gênio francês, o qual também con-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 215UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
A escolha de Lúcio Costa foi
certeira, justa e corajosa.
Embora fossem explícitas as
ligações de Papadaki com
Niemeyer e deste último
com Juscelino.
Debates Contemporâneos
cebe esse espaço, através do gênio
brasileiro, associados na metamorfose
de um mundo que já se temia não ti-
vesse esperança”. E ainda, do escritor e
Ministro da Cultura da França, Andre
Malraux, que coloca Brasília como
uma das grandes perspectivas da ar-
quitetura moderna, desconhecidas
ainda para o atual século. Compara o
empreendimento com o mundo hele-
nístico, ao considerar Brasília uma res-
surreição do lirismo arquitetônico. Para
ele, Lúcio Costa coloca a arquitetura a
serviço da nação. Cita ainda o Centro
Rockefeller como outro exemplo de
tais virtudes (Brasília e a Opinião es-
trangeira, 1960).
Também podemos elencar algumas
observações feitas em relação ao tra-
balho físico que Brasília despendia.
Nas palavras do crítico de arte Ricardo
Averini: “O que me impressiona é a
força do povo”. E segundo Ernest Gol-
dschmidt: “O que chama atenção é o
esforço humano e desumano para sua
realização”.12
Como não poderiam faltar, as críti-
cas se fizeram presentes por intermé-
dio de nomes importantes como o do
crítico de arte Bruno Zevi: “Não pode-
mos pré-fabricar uma cidade e depois
adaptar o povo nela... O centro monu-
mental de Brasília sufoca a vitalidade
da cidade. É uma cidade de Kafka.
Quanto à arquitetura, é monumental
em um sentido negativo, porquanto
na sua maioria, foi concebida nos mol-
des da perspectiva da Renascença,
contraria a concepção de tempo e es-
paço” (ibid, p. 70).
Considerações finais
A Capital Federal, contudo, nasceria
com formas bem diferentes, tivesse
sido outro o vencedor do concurso de
Brasília: torres com 300 metros de al-
tura, cidade rural, capital polinucleada,
uma Brasília eclética, um povoado vol-
tado para o lago. Apesar das diferenças
e divergências aparentes, a concepção
urbana dita moderna imperou tranqüi-
la no concurso de Brasília. Embora es-
sa teoria já estivesse sendo revista
pelos CIAMs (Congressos Internacio-
nais de Arquitetura Moderna), a cria-
ção de uma “cidade do futuro” não po-
deria deixar de mencioná-la. Algumas
equipes seguiram, passo a passo, a sis-
tematização feita por Le Corbusier e a
Carta de Atenas, outros a abordaram
como uma referência obrigatória ape-
nas para menção. Mas, na verdade,
todos os planos pilotos pesquisados,
com exceção de um, o de Saboya Ri-
beiro, citam a Carta de Atenas com
maior ou menor ênfase.13
Outra dúvida sempre permeou os
bastidores do concurso de Brasília: o
resultado teria sido fraudado em favor
de Lúcio Costa? Essa questão foi aven-
tada por vários concorrentes na época.
Nas entrevistas que realizamos com
esses candidatos, ficou claro que, para
alguns, isso será um dilema jamais re-
solvido, mas para o conjunto, de uma
maneira geral, a escolha de Lúcio Cos-
ta foi a mais adequada, senão óbvia.
É certo que muitos projetos desen-
volveram pontos que poderiam ser
grandes e diferentes contribuições à ci-
dade de Brasília, no entanto, como
pesquisadora, tenho a tendência de
concordar com o nosso ilustre jornalis-
ta e crítico à mudança da capital Mário
Pedrosa: não importam quais as asso-
ciações políticas ou burocráticas que
tentaram privilegiar Lúcio Costa. Não
importa se houve fraude ou não.Um
projeto como o dele ofuscou o brilho
dos demais. Era, mesmo para leigos, o
melhor (cf. Pedrosa, 1957, p.15).
Notas
1. Aline Moraes Costa é arquiteta e mes-
tra em História da Arte pela Unicamp. É pro-
fessora de História da Cultura e da Arte do
IPEP (instituto Paulista de Ensino e Pesquisa).
2. Tal volume trata-se da dissertação de
mestrado em História da Arte - (Im)possíveis
Brasílias: os projetos apresentados no concur-
so do plano piloto da nova capital federal -
realizada pela autora, no Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, de-
fendida em setembro de 2002
3. Em discurso na Assembléia Constituinte
de 1891, Tomás Delfino afirma que as aspira-
ções do Estado e a vontade nacional não
poderiam chegar aos Poderes Legislativo e
Executivo aprisionadas numa grande cidade,
se encontrassem diante de si a formidável
barreira de multidões que um instante de pai-
xão faz tumultuar (cf. Pinheiro,1957, p.4).
216 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
4. Na era vargas podemos identificar um
retrocesso no que diz respeito à mudança da
capital: “Apesar de estudos anteriores e ate da
placa do centenário, até o local volta a ficar
indefinido. Vargas, pessoalmente, não era fa-
vorável à transferência. Mas, no seu governo
democrático, iniciado em 1951, acabará cola-
borando com o projeto, como se verá. Cir-
cunstâncias políticas, pressões, pragmatismo.”
(Couto, 2001, p. 47).
5. Le Corbusier chega a mencionar um
provável convite, onde o Brasil haveria pedido
a ele conselhos por ocasião da edificação da
sua nova capital. Desde 1927, Le Corbusier
evidencia seu interesse em participar da cons-
trução dessa capital; em sua carta a Paulo Pra-
do ,de 18 de dezembro de 1927, ele afirma:
“Já há muito tempo eu não tenho o prazer de
encontrá-lo. Eu falava sobre o senhor outro
dia com Legér e na última primavera com
Cendrars que deve (se acreditarmos na lenda)
estar novamente no país das serpentes de 12
metros. Eu tenho a vaga intuição de que ele
está acabando de cercar o terreno de Pla-
naltina para poder organizar uma sábia espe-
culação quando nós começarmos os traba-
lhos da nova cidade.”. (Santos, eti alii, 1987,
p.42.)
6. Para maiores detalhes cf. Acrópole, nº
210, 1956; Acrópole, nº 211, 1956; Penna,
1957.
7. Segundo Israel Pinheiro, presidente da
Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a
crise pela qual passava o Brasil necessitava de
medidas expansivas, que diminuíssem a dife-
rença de distribuição de riquezas entre o lito-
ral e o interior, e que servissem de impacto
para “despertar o interior prostrado por tantos
anos de sofrimento” (Pinheiro, 1957, pp. 3-8.)
8. “É incontestável que certos aproveita-
mentos políticos foram os principais respon-
sáveis sobre a escolha presidencial ter recaído
em Niemeyer: o arquiteto brasileiro mais fa-
moso, homem dinâmico e moderno” (Gou-
lart, 1957, p. 20). A fama de Niemeyer provi-
nha, principalmente, do seu projeto para
Pampulha (cf. Couto, 2001, pp. 75-84).
9. Para maiores detalhes, ver Arquitetura e
Engenharia, 1956, pp. 26-28; Roberto, 1956,
pp. 31-32.
10. O projeto escolhido em 1º lugar teve
aprovação de todos, exceto por Paulo Antunes
Ribeiro, que se apoiava na falta de critério na
apresentação e na avaliação dos projetos (Ver
para maiores detalhes: Brasil Arquitetura Con-
temporânea nº10, 1957, pp. 32-35. Habitat
n°40, 1957, pp. 1-3.).
11. À maneira da Carta de Atenas de Le
Corbusier de 1941, escrita para relatar as dis-
cussões do 4° CIAM, Congressos Internacio-
nais de Arquitetura Moderna; para maiores
detalhes ver ARGAN, 1995; FRAMPTON, 1996;
KOOP, 1990; SANTOS, eti alii, , 1987.
12. A publicação Brasília e a Opinião Mun-
dial - vol.IV aponta uma série de nomes dos
participantes do Congresso Internacional de
Críticos de Arte que manifestaram sua opinião
em relação ao projeto e à construção de Bra-
sília. Eles estão separados de acordo com os
continentes e seus respectivos países. Acha-
mos por bem elencar alguns deles aqui para
que a informação dada fosse a mais comple-
ta possível.
13. No ensejo de estudar formas de abor-
dar o fenômeno das novas cidades e promo-
ver a nova arquitetura, organizam-se os CIAMs
(Congressos Internacionais de Arquitetura
Moderna). O sucesso desses encontros será
marcante na história do pensamento urbanis-
ta do século XX. O 4° CIAM, realizado em
1933, terá como um de seus resultados a Car-
ta de Atenas, manifesto de Le Corbusier sobre
as teses apresentadas no referido congresso.
A Carta de Atenas, publicada em 1941, em
Paris, buscou sintetizar orientações ao urba-
nismo dito funcionalista/racionalista, tais co-
mo: a necessidade do planejamento urbano
imposto pelo crescimento e complexificação
das cidades; a proeminência dos interesses
coletivos sobre os da propriedade privada; a
urgência da industrialização de componentes
e da padronização das construções, para aten-
der o crescimento da demanda por habita-
ções e edificações; a importância do estabele-
cimento de controles para o tamanho e a
densidade das cidades; a necessidade das
áreas verdes, entre outros. Na cidade, a habi-
tação é alçada à condição de elemento pri-
mordial do empreendimento arquitetônico.
Os princípios contidos na Carta apontavam
para a possibilidade de determinações passí-
veis de serem aplicadas em qualquer lugar.
Analisavam-se as “necessidades humanas”,
segundo quatro funções essenciais: habitar,
trabalhar, recrear-se e circular; desconsideran-
do-se, contudo, as diferenças sócio-culturais
inerentes às diversas sociedades (Bruand,
1991).
Referências Bibliográficas
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Ano XII, Nº 29, março de 2003 217UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
1. Introdução
Meu propósito, neste texto, é fazer
uma breve discussão, procurando dia-
logar conceitualmente sobre os
Movimentos Sociais (MS) e sua rela-
ção com o Estado, com o intento de
observar a realidade para, a partir de
um ponto de vista teórico, qualificar
melhor o modo de inserção e cons-
trução de uma prática que tenha
como perspectiva a independência
dos MS e construir dialeticamente um
conhecimento capaz de interagir com
a prática cotidiana e com a produção
teórica. Assim, não trabalharei com
questões vinculadas a particularidades
de movimentos específicos e, sim,
procurarei compreender sua relação
com a sociedade, tendo como preo-
cupação didática à diversidade dos
MS.
2. Pressupostos de análise
Acredito que o primeiro conceito
que devemos resgatar neste texto de-
va ser o de Estado, por entendê-lo co-
mo regulador das relações sociais. Na
apresentação que faz do livro O Estado
e a Revolução, de Lênin (1986), Flo-
restan Fernandes aborda a necessida-
de de uma revolução socialista que
considere os seres humanos tais como
são. Para isso, seria preciso ir direto à
nossa formação histórica e demarcar
as contradições polarizadas entre a
sociedade burguesa e sociedade tra-
balhadora. Uma abordagem diferente
desta, afirma Fernandes, aponta para o
perigo de uma possível utopia que
corre o risco de falsificação da realida-
de e de gerar falsas esperanças. Se “as
utopias podem ser perigosas e a revo-
lução proletária não pode entregar-se
ao erro de fortalecer o inimigo encas-
telado por trás do poder do Estado ca-
pitalista”, há que olharmos nosso para-
digma de produção da existência da
forma como ele se concretiza.
Sobretudo, porque vivemos o tem-
po da quantidade, da medida, da geo-
metria, modernamente qualificadas
em um discurso veiculado por intelec-
tuais coletivos que percorrem o mun-
do, explicando-o segundo qualidades
e percepções tão sensíveis a ponto de
legitimarem uma nova relação entre a
humanidade e, entre a humanidade e
o mundo, que, agora, podem se explo-
rar dignamente, vender-se e comprar-
se racionalmente, matar em nome da
paz e criar objetos tão artificiais quan-
to mais naturalizada vem se tornando
a vida e a desigualdade social.
Nesse “novo mundo”, a consciência,
uma instância sempre formadora do
modo como percebemos o mundo,
como delimitamos as “coisas”, como
criamos nossos horizontes, nosso
campo de observação, fazendo surgir
o que, hoje, conhecemos como a his-
tória sentida e reivindicada, refaz os
obetos de nossas estruturas em um
novo modelo de competências globa-
lizadas, flexíveis, multifuncionais, neoli-
berais...
Esta é a nossa história recente. O lo-
cus de um Estado, cuja formação tem
constituído políticas sociais subordina-
das a interesses econômicos e políti-
cos de uma burguesia, interesses esses
que renascem em momentos específi-
cos quando se torna necessário calar
as necessidades e as reivindicações
dos trabalhadores. E, se o Estado tem-
se tornado exatamente a expressão do
antagonismo de classes, que, em nada
lhe confere o tom conciliatório que
pretende lhe seja imputado, se apre-
senta como dominador de uma classe,
a classe trabalhadora, impondo a esta
restrições severas e diversas. Por outro
lado, também é importante que, em
alguns momentos, pareça que o Esta-
218 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Os limites dos Movimentos
Sociais na sociedade capitalista*
Dileno Dustan Lucas de Souza
Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a
fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam
diretamente, legadas e transmitidas pelo passado (Marx, 1997:21).
Debates Contemporâneos
do defende a conciliação inter-classes
para atenuar ou evitar colisões bruscas
a fim de derrotar os trabalhadores su-
tilmente. Quer dizer, então, que aque-
le Estado que se propõe a arbitrar, com
imparcialidade, os conflitos decorren-
tes das desigualdades entre as classes
sociais, realmente não existe; é mais
um fetiche.
Como podemos acreditar que neste
modelo de Estado aconteça a demo-
cracia? O que esperar desse Estado se
não a sua concessão de escolhermos
dentre os burgueses aqueles que irão
nos governar? Como Luxemburgo
apontou, se a democracia tornou-se
supérflua ou incômoda para a burgue-
sia, ela é, ao contrário, importante para
os trabalhadores que ideologicamente
assumem a perspectiva de que é pos-
sível estabelecer outras relações por
dentro do Estado. Esse fetiche demo-
crático servirá de porto seguro para ga-
rantir uma disputa marcada por vence-
dores e vencidos. Por outro lado, é im-
portante que os trabalhadores se sin-
tam de alguma forma incluídos, pois,
ao serem excluídos, podem se culpabi-
lizar pelo seu próprio insucesso fruto
de uma explicável “incompetência téc-
nica”. Esta mea culpa social certamen-
te ameniza a luta entre classes dividi-
das por interesses antagônicos e refor-
ça o forte apelo ideológico neodarwi-
nista em que os trabalhadores são cul-
pabilizados por sua “incapacidade” de
ação, procurando naturalizar as derro-
tas da classe trabalhadora. Não é sem
motivo que esse patamar democrático
burguês ora constituído representa
uma perfeita obra de submissão dos
trabalhadores, pois “a democracia é in-
dispensável, não porque torne supér-
flua a conquista do poder político pelo
proletariado, mas, ao contrário, por
tornar essa perspectiva necessária tan-
to quanto a única possível”. (Luxem-
burgo, 2001:101).
É assim que compreendo a atuali-
dade de discutir os MS. Porém, sabe-
se, que a organização desses movi-
mentos se dá a partir da falta de polí-
ticas sociais, pois o Estado tem nos
mostrado, ao longo da história, que
tais políticas subordinam-se aos inte-
resses econômicos e políticos da bur-
guesia e, prioritariamente, aparecem,
em momentos específicos, com o ob-
jetivo de calar tais movimentos. Po-
rém, apesar de relevante, tal discussão,
referente às políticas públicas ou mes-
mo referente ao Estado, não será apro-
fundada nesse momento. Também
não pretendo debater sobre o caráter
educativo dos MS, o que já vem sendo
feito por Arroyo (1999), Caldart (2000)
e Ribeiro (1999a), embora as reflexões
estejam orientadas pelo reconheci-
mento de que tais movimentos sejam
formadores de novos sujeitos coletivos
que avançam na construção de um
projeto popular de sociedade.
Entendo que a transição por que
passam os MS tem como motivação a
“nova” perspectiva social que levou
grande parte dos movimentos a entrar
em refluxo, a partir da forte investida
neoliberal, que, devido ao ajuste eco-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 219UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
nômico e à crescente desigualdade so-
cial, provoca sentimentos cada vez mais
individualistas, levando-os a armadi-
lhas como a tentativa de humanizar a
globalização.
A aguda e sempre atual reflexão de
Marx (1997) sobre as derrotas do pro-
letariado aponta para uma conclusão
comum, a de que a classe trabalhado-
ra deve criar suas próprias instituições
autônomas, pois as alianças com a
burguesia e a pequena burguesia têm
mostrado que os interesses de classe
sempre prevalecem, criando obstácu-
los que, por fim, reduzirão o movimen-
to dos trabalhadores ao fracasso.
Nesse sentido, os MS são tidos co-
mo a expressão da luta de classes, a
partir das suas ações críticas e de suas
reivindicações que levam ao conflito.
Dessa forma, representam a necessi-
dade de uma ação coletiva, em que
está em jogo não só a subversão da or-
dem, mas também a disputa pela he-
gemonia na sociedade.
No Brasil, os anos 60, ao contrário
do processo de reconstrução da Eu-
ropa, foram marcados pela escuridão e
o silêncio impostos pela ditadura mili-
tar em que as manifestações dos tra-
balhadores foram fortemente reprimi-
das, como, por exemplo, as greves de
Osasco e Contagem, em 1968. No final
dos anos 70, os MS passam a se rear-
ticular e eclodem mesmo sob os olha-
res opressivos dos militares, que não
tinham mais como sustentar a repres-
são devido a uma perspectiva de acu-
mulação de capital que já não precisa-
va da ditadura militar para manter-se.
O enfrentamento do final dessa déca-
da tomou um formato (in)esperado,
pois foram movimentos massivos que
surgiram a partir de reivindicações de
auto-organização e emancipação soci-
al, tendo como marco a greve dos tra-
balhadores do ABC paulista, em 19781
.
Após o movimento de abertura nos
anos 80, os MS tomaram um caráter
diferente passando a se organizar com
mais intensidade, a fim de “dar conta”
dos problemas sociais herdados dos
anos ditatoriais. Nesse momento, os
MS se fortaleceram, as discussões e a
efervescência desses movimentos fa-
voreceram à mobilização das Diretas
Já e do movimento pró-Constituinte.
No caso da sociedade brasileira, as
décadas de 80/90 do século XX são
marcadas pela crescente onda neoli-
beral. Ou seja, após algumas décadas
da primeira grande crise do capitalis-
mo no século XX. “...os países industri-
alizados experimentaram uma segun-
da crise, que se prolonga pela década
de 80, cujas conseqüências em termos
de desequilíbrios macroeconômicos,
financeiros e de produtividade se es-
palham pela economia internacio-
nal”.(Soares, 2000:11). Nesse sentido,
é preciso entender que essa corrente
não consiste apenas numa reação teó-
rica e política contra o Estado de Bem-
Estar Social, mas dirige-se principal-
mente ao agonizante processo em que
o liberalismo estava colocado. O que
leva a crer que o ajuste neoliberal não
é apenas de natureza econômica, mas
faz parte de uma redefinição da bur-
guesia no campo político-institucional
e das relações sociais. O que provoca
na lógica do capital um outro projeto
de “reintegração social”, com parâme-
tros distintos daqueles que entram em
crise a partir do final dos anos 70.
Desse modo, os pobres passam a ser
uma nova “categoria classificatória”,
alvo das políticas focalizadas de assis-
tência, mantendo sua condição de “-
pobres” por uma lógica coerente com
o individualismo que dá sustentação
ideológica ao modelo de acumulação
flexível que substitui o taylorismo-for-
dismo. No domínio do mercado, exis-
tem, “naturalmente”, ganhadores e
perdedores, fortes e fracos, os que per-
tencem e os que ficam de fora (Soares,
2000; Fiori, 1998).
Pode-se dizer que os principais
eixos de argumentação neoliberais
eram a chamada liberdade de concor-
rência, que ficava ameaçada, bem co-
mo uma forte rejeição aos movimen-
tos coletivos que deviam (e devem)
ser desarticulados, o que nos leva crer
que,
“A onda neoliberal não é, portanto,
nem uma variante, nem produto final
de um desenvolvimento continuado
do ideário liberal. Muito pelo contrá-
rio o neoliberalismo é resultado de
um longo período de crise do mundo
capitalista e de desgastes do ideário
liberal. Ele representa por um lado,
uma reação contra as novas concep-
ções e propostas que abriram cami-
nho para o planejamento econômi-
co, o keynesianismo e as políticas de
bem-estar social, e por outro, a afir-
mação explicita de retornos às idéias
e ideais que norteiam a grande
expansão industrial do século XIX.”
(Ferraro, 1999:25)
Quanto à questão da desigualdade
na implementação desse projeto, o
que se tem percebido é um tratamen-
to positivo e imprescindível nos mol-
des da sociedade atual. Pois se sabe
que a proposta do neoliberalismo é de
manter o Estado forte perante os MS e
controlar a circulação do dinheiro,
bem como diminuir os gastos sociais,
desregulamentar a economia, abrindo
cada vez mais o mercado dos países
pobres, desestruturando seus incipien-
tes parques industriais e controlando a
todo custo a inflação, a partir dos parâ-
metros do Banco Mundial(BM) e do
Fundo Monetário Internacional(FMI).
Porém, isso não significa que a susten-
tação do sistema capitalista possa
prescindir da utilização de recursos
públicos, pelo contrário, esses recursos
são imprescindíveis ao processo de
reprodução do capital, principalmente
devido aos altos custos das novas tec-
nologias e ao acirramento da concor-
220 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
rência entre as grandes corporações.
Os recursos públicos estão vinculados
às condições de reprodução de cada
capital particular e das condições de
reprodução ampliada do sistema
(Oliveira, 1996).
Dessa forma, são os MS que nos en-
sinam as mais importantes lições de
democracia, pois sempre que se mani-
festam politicamente nos levam a re-
fletir acerca da constante necessidade
de manifestação e luta pela democra-
cia e emancipação social. Nesse caso,
precisamos perceber os MS como um
processo histórico sujeito a leis que
não só dependem da vontade da
consciência nem do propósito da hu-
manidade, mas que, ao inverso, deter-
minam essa vontade, essa consciência,
esse propósito. Pois, se o elemento
consciente é subordinado historica-
mente, é desnecessário dizer que a
base crítica, de forma alguma, terá por
base a consciência crítica. Ou seja, o
ponto de partida não pode, de modo
algum, ser a idéia, o conteúdo subjeti-
vo por si ou mesmo o fator exterior. A
crítica deve consistir em comparar,
buscar a contradição, cotejar um fato,
não como uma idéia, mas com outro
fato. “Para a crítica importa apenas que
os fatos sejam pesquisados com maior
exatidão possível e que, um em rela-
ção ao outro, representem realmente
diferentes fases do desenvolvimento,
assim como suas conexões devem ser
estudadas com um rigor não menor”
(Marx e Engels, 1995).
Com essa compreensão, um olhar
mais atento impõe perguntar se a po-
breza enquanto realidade inegável
contribuiria no processo reflexivo para
levar os MS a sair do refluxo, em de-
corrência de uma correlação de forças
que não lhes seria favorável? Ou será
que “os MS estariam caminhando em
outra direção que ainda não se torna-
ram suficientemente nítidas nesse
momento? Nesse caso, os movimen-
tos seriam sujeitos de mudanças ou
pacientes da reação do capital?”, per-
gunta-se Ribeiro (1999a).
Assim se faz necessária tal discus-
são, principalmente se considerarmos
a aguda crise estrutural da sociedade
capitalista e se considerarmos os MS
como processos e espaços educativos
orgânicos da classe trabalhadora, pois
ao ocuparem espaços e cenários assu-
mem um importante papel de desta-
que no processo de reflexão, formação
e transformação social. Por isso,
“Falar em “movimento social” é falar
em algo que é inerente à própria
idéia de sociedade. Visto que tudo é
movimento e tudo é social. Ou seja,
o natural é que o social esteja em
permanente movimento. No entanto,
quando falamos em movimento so-
cial, geralmente restringimos o seu
sentido para ações de rebeldia so-
cial, de subversão da ordem, ações
de grupos revolucionários, associan-
do-o com algo que rompe o anda-
mento normal e comum da vida so-
cial. Uma excepcionalidade social.
Nesse contexto repressor da ação
consciente e transformadora, então,
os movimentos sociais(MS) podem
ser concebidos como um processo
de tomada de consciência dessa re-
pressão e dessa alienação coletiva, e
a tentativa organizada de rompê-
la...” (Caldart, 1986:21).
Nessa direção, em alguns momen-
tos, associamos MS e movimentos po-
pulares, por entender a relação desses
movimentos com a sociedade, com o
conjunto de grupos e relações sociais
que não são detentores do poder eco-
nômico, nem político, que são tratados
como a massa alienada da sociedade
e que “abrem mão” do processo deci-
sório de ordem social; por isso, é natu-
ral que seja dessa massa a reação mais
radical e significativa no processo de
modificação da ordem estabelecida.
No tocante às discussões acerca dos
MS, nos anos 70, pode-se afirmar é
que havia uma matriz ideológica hege-
mônica que era balizada no campo de
discussão marxista. Nesse sentido, os
MS são tidos como movimentos de
classe, ou seja, movimentos que se
propõem a ir além da simples perspec-
tiva corporativa. Pois
“... o Estado procura socializar os cus-
tos de suas ações, cooptando as rei-
vindicações populares e mantendo-
as sob controle para retirá-las da in-
fluência dos partidos de massa. Ao
mesmo tempo desenvolve umas po-
líticas assistencialistas em que se
destaca a criação das organizações
comunitárias ou associações de mo-
radores, como mediadoras entre o
Estado e as populações dos bairros
periféricos...” (Ribeiro, 1999a:119).
Desta maneira, apresenta-se a dis-
cussão das relações ideológicas pre-
sentes na sociedade. Assim, as possibi-
lidades de ações de classe são coloca-
das na perspectiva da exploração e da
consciência de classe numa clara cone-
xão entre questões políticas, sociais etc.
“A categoria sociológica exclusão so-
cial surge nos anos 70, mas afirma-
se principalmente nos anos 90, ten-
do como conteúdo a pobreza, a mi-
séria, o desemprego, situações que
evidenciam uma realidade de exclu-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 221UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Os MS têm as condições objetivas de contestar as
políticas econômicas adotadas pelo Estado, principalmente
se considerarmos que são organizados por coletivos humanos
inseridos e vinculados aos problemas sociais.
Debates Contemporâneos
são de processos de integração so-
cial. Penso que a categoria exclusão
social não tenha potência para expli-
car os movimentos sociais populares
enquanto sujeitos de transformações
sociais que definem/redefinem o
que tem sido identificado como uma
realidade de exclusão social....” (Ri-
beiro, 1999b:137).
Os MS têm as condições objetivas
de contestar as políticas econômicas
adotadas pelo Estado, principalmente
se considerarmos que são organizados
por coletivos humanos inseridos e vin-
culados aos problemas sociais.
Na transição dos anos 70 para os
80, é possível notar a fragilidade cres-
cente da ditadura militar, por um lado,
e, por outro, a mobilização crescente
dos MS representada pela luta dos tra-
balhadores. Na realidade, o reapareci-
mento dos MS voltados para a pressão
e reivindicação de bens e equipamen-
tos urbanos ocorreu concomitante-
mente ao ressurgimento da vida de
militância política no país, de forma
mais generalizada. Nesse caso, pode-
ríamos exemplificar como momentos
mais expressivos a greves do ABC pau-
lista e o surgimento de outros partidos
políticos, o que coloca um fim no bi-
partidarismo. Portanto, os MS não se
apresentam na perspectiva de substi-
tuir a forma partido ou sindicato mas,
ao contrário, engrossam suas redes de
solidariedade e articulações. Com isso,
poderíamos dizer que os movimentos
foram de suma importância pedagógi-
ca para o aprendizado político das vá-
rias lideranças políticas da década de
80 e 90.
Cumpre destacar que, devido à
marcante exclusão social dos MS dos
processos decisórios, passa a existir
uma certa sede de participação, o que
acaba atraindo algumas lideranças
que, há anos, estavam comprimidas,
para o interior da burocracia estatal. Os
MS passam então a uma nova era, que
poderíamos chamar de reorganizativa.
Desse modo, os anos 80 assumem
uma outra característica de luta dos MS,
tomando força as lutas por moradia,
por terra, por creches, por escolas etc.
“As mudanças na conjuntura política
no início dos anos 80 vieram a alte-
rar o cenário. No campo popular co-
meçou-se a indagar e a questionar o
caráter novo dos movimentos popu-
lares. No campo das práticas são
exclusivamente populares, iniciou-se
o interesse, por parte dos pesquisa-
dores, por outros tipos de movimen-
tos sociais, tais como das mulheres,
os ecológicos, os dos negros, índios
etc. Foram movimentos que ganha-
ram expressão naquela época, em-
bora fossem lutas já antigas que
ressurgiram no Brasil ao final dos
anos 70. Em alguns casos, estiveram
articulados à luta popular, como no
caso das creches e de algumas alas
do movimento feminista.” (Gohn,
1997: 283)
A partir dos anos 80, os MS assu-
mem uma nova postura, no que diz
respeito à sua consolidação ideológi-
ca; com isso, praticamente abando-
nam a centralidade da discussão da
teoria marxista e passam a buscar, no
Estado, formas de compor uma nova
política social2
. Os MS procuram inter-
vir na sociedade, a partir de outras
concepções sociais, políticas e ideoló-
gicas, considerando as questões micro
com base nas leituras de Michel Fou-
cault, Félix Guattari, Giles Deleuse,
dentre outros.
Nessa perspectiva de discutir os MS,
a política, por exemplo, passa a ser tra-
balhada a partir de pressupostos mi-
crossociais abandonando a discussão
classista e partindo para formulações
que entendo colaborar com as maze-
las da sociedade capitalista, ou seja, os
MS, a partir de então, na sua maioria,
abraçam a teoria pós-moderna como
sendo capaz de sustentar e de dar res-
postas as reivindicações particulares e
individuais. O que demanda a necessi-
dade de ampliarmos nossa compreen-
são desses movimentos para distinguir
com clareza os espaços onde os mes-
mos se concretizam como sujeitos co-
letivos, delineando os respectivos
papeis da sociedade civil e do Estado e
as relações destes com os MS. (Ri-
beiro, 1999a). Não significa dizer que
as questões colocadas pelo cotidiano
dos homens e mulheres, enquanto su-
jeitos constituintes dos MS, não devam
ser consideradas, mas que essas ques-
tões precisam estar articuladas dialeti-
camente a uma constante crítica no
terreno macro onde elas se explicitam
nas relações contraditórias que se es-
tabelecem entre as classes sociais.
O encaminhamento das questões
dos MS não pode se subordinar às
perspectivas do capital, aceitando uma
mediação dessas questões do ponto
de vista do capital e do trabalho. A par-
tir dessa compreensão, os MS passam
222 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
a ser vistos como cooperadores entre
as classes sociais, passando a descon-
siderar que “...o Estado é um órgão de
dominação de classe, um órgão de
submissão de uma classe por outra; é
a criação de uma ‘ordem’ que legalize
e consolide essa submissão, amorte-
cendo a colisão das classes...”(Lênin,
1986:10)
As características ideológicas dos
MS de meados dos anos 80 em nada
se aproximam do ponto de vista teóri-
co demarcado nos anos 70, o que pa-
rece acompanhar a direção dos ventos
que vem do Norte. Assim, dizem que
estão investindo em novas formas de
atuação, a partir de novas abordagens
a temas analisados por autores marxis-
tas. Esses movimentos acabam assu-
mindo características bastante flexí-
veis. O que é preocupante se pensar-
mos na lógica do trabalho para com-
preender a sociedade. Parece, então,
que ao assumirem tais características,
buscam novos conceitos e formas de
análise, automatizando a relação polí-
tica e ideológica com partidos políti-
cos, sindicatos e entidades que histori-
camente têm assumido a liderança
das mais diversas manifestações junto
aos MS.
Dessa maneira, os MS se apresen-
tam na lógica de abrir espaços para
outras formas de relação social, a fim
de solucionar os problemas como ja-
mais se tinha tentado antes. “Os direi-
tos conquistados por eles não so-
mente estabilizam as fronteiras entre
o mundo da vida e os movimentos
sociais, entre o Estado e a economia,
mas também constituem condição de
possibilidade da emergência de no-
vas associações”(Cohen, 1994:176.
In: Gohn, 1997:139). Os MS parecem
não visar um novo tipo de sociedade,
nem através de suas ações provocar
qualquer tipo de desconforto à socie-
dade capitalista; pretendem defender
o direito à vida, à alimentação, a polí-
ticas sociais mínimas, sem que com
isso haja qualquer ruptura, propondo-
se, em alguns momentos, a se sobre-
por aos partidos políticos, principal-
mente àqueles que programatica-
mente se propõem a defender os tra-
balhadores.
É preciso considerar o contexto em
que os MS mudam seu rumo ideoló-
gico e de ação, antes de simplesmen-
te apontar seus possíveis equívocos.
O conhecimento das ações de Stalin,
a desestruturação da URSS, a propa-
ganda maciça do “fim da história”,
declarado por Fukuyama (1992) e
baseado em Hegel, ancorados em
políticas de desemprego em massa e
de combate aos movimentos sindi-
cais fragiliza os MS, perplexos diante
de tantos desafios.
Em princípio, os MS se caracterizam
pela necessidade de colocar a socieda-
de em movimento, ou seja, estabele-
cer perspectivas sociais para além das
estabelecidas pelo Estado. Porém, é
preciso compreender que historica-
mente o Estado tem demonstrado sua
preocupação em favorecer o capital.
Dessa forma, poderia inicialmente di-
zer que os MS buscam, de forma cole-
tiva, estabelecer uma nova perspectiva
social, a partir das contradições da so-
ciedade, procurando organizar a classe
trabalhadora para que suas reivindica-
ções sejam organizadamente conquis-
tadas, estabelecendo desse modo
uma interlocução mais intensa com a
sociedade, e/ou com o Estado.
“A minha última inferência reafirma
o meu posicionamento pelos movi-
mentos sociais populares que, mes-
mo mobilizados por situação de dis-
criminação e opressão, têm como ei-
xo básico às relações de exploração
e exclusão. Penso que seja funda-
mental afirmar a diferença, a parti-
cularidades das questões de gênero,
de raça, de sexualidade e outras, na
unidade precária, por que se redefi-
ne e se rearticula das relações de
exploração e exclusão. Essas velhas
lutas revestem-se de novas formas,
estratégias pautas que, surpreen-
dendo por sua novidade podem re-
pentinamente ofuscar a ancianidade
das relações que as mobilizam.” (Ri-
beiro, 1999a:132/133).
Como se pode notar, os MS, aqui
considerados, são aqueles que, no in-
terior da sociedade capitalista, reivindi-
cam melhorias sociais através das mais
diversas políticas públicas, seja por
moradia, terra, educação, saúde etc.
Dessa maneira, não basta simples-
mente a conscientização dos proble-
mas sociais, é preciso uma participa-
ção ativa e uma interação permanente
que facilite a mobilização das parcelas
empobrecidas da sociedade. Nesse ca-
so, a crise social é expressão da luta
ideológica e política entre grupos so-
ciais que disputam a hegemonia, num
dado momento histórico. É esse acirra-
mento e essa explicitação de confron-
to que dão força às organizações cole-
tivas dos trabalhadores.
Os MS aparecem como movimen-
tos reivindicatórios, no interior da so-
ciedade capitalista, definindo os limi-
tes do Estado e devem ser entendidos
considerando as contradições sociais,
a partir das carências e da falta de
Ano XII, Nº 29, março de 2003 223UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Os MS buscam, de forma coletiva, estabelecer uma nova
perspectiva social, a partir das contradições da sociedade,
procurando organizar a classe trabalhadora
Debates Contemporâneos
perspectivas às quais a parcela majori-
tária da sociedade é submetida. Assim,
os MS têm como características reivin-
dicações que tragam melhorias à vida
dos trabalhadores, a fim de gerar no-
vas alternativas e rupturas sociais. Des-
se modo, será que é possível recome-
çar os movimentos dos desemprega-
dos e as lutas pela terra, desvinculados
dos partidos e dos sindicatos?
Os MS não podem ser definidos
única e exclusivamente como movi-
mentos urbanos e, sim, como um con-
junto de movimentos espalhados em
todos os setores da sociedade. Tais
movimentos colocam em xeque o Es-
tado que, apesar de dizer que repre-
senta o interesse dos trabalhadores,
acaba por atender às pressões da bur-
guesia. Assim, os movimentos não po-
dem ser vistos nem como aqueles que
somente estão preocupados com rei-
vindicações pontuais, a partir de me-
lhorias imediatas, nem como aqueles
que têm um caráter ideológico mais
forte e que procuram, através de suas
reivindicações, uma alternativa de Es-
tado que tenha, nos trabalhadores, sua
preocupação fundamental, o que ex-
pressa a constante luta de classes,
através do repensar da hegemonia na
sociedade.
“É evidente que não são todos os MS
que chegam a desembocar num
projeto político de classe. Mas esta é
a potencialidade de cada nova ação
grupal que se organiza. Alguns gru-
pos não ultrapassam o estágio inicial
de mobilização. Outros, à medida
que conquistam suas reivindicações
imediatas, se desintegram e retor-
nam ao tipo de vida anterior. A traje-
tória, aqui apenas brevemente des-
crita, é longa e entrecortada, com
avanços e recuos constantes, sempre
obstaculizadas pela própria tradição
individualista e alienada em que
vivemos. O amadurecimento político
do grupo e sua capacidade de racio-
nalizar a utopia concreta que o coti-
diano da organização apenas esbo-
ça se coloca como o grande desafio
para os novos movimentos sociais,
que se multiplicam em nosso país e
continente.” (Caldart, 1986:28)
Assim, entendo que os MS se cons-
tituem em organizações populares
preocupadas em garantir melhores
condições sociais, através da sua orga-
nização, conscientização e permanen-
te mobilização. Nesse sentido, os MS
precisam ser compreendidos como re-
presentantes históricos de seu tempo.
Cabe aqui a crítica a formulações teó-
ricas que tratam os MS como movi-
mentos apenas conjunturais, despre-
zando sua perspectiva histórica e a ne-
cessidade de esses movimentos com-
preenderem a sociedade, na sua tota-
lidade contraditória, o que os leva a
um atrelamento à burocracia estatal.
Quero dizer que é preciso garantir a
autonomia dos MS e denunciar as fal-
sas inclusões de suas reivindicações,
como foi feita, por exemplo, na Cons-
tituição do 1988, quando a inclusão da
pauta dos trabalhadores não passou
de retórica demagógica, o que reforça
a perspectiva de burocratização do
movimento, a partir de uma concep-
ção burguesa de democracia que pas-
sa necessariamente pela cooptação e
controle social.
3. Algumas idéias para concluir
As discussões a respeito dos MS se
colocam sob a ótica da polaridade: de
um lado, os mais radicais que apon-
tam a perspectiva do socialismo como
alternativa à barbárie, e, do outro, uma
perspectiva de composição entre capi-
tal e trabalho como forma de supera-
ção momentânea da situação vivida,
aceitando os encantos do poder e da
burocracia para satisfazer necessida-
des específicas e subjetivas de grupos,
reforçando a idéia de que é possível
um capitalismo ou uma globalização
mais humanizada.
Na sociedade, as questões sociais
se expressam a partir da luta dos MS
que polarizam suas demandas contra
o Estado burguês; é o fruto desse en-
frentamento que impõe a aparição de
políticas sociais, a saber:
“...O caráter regulador de interven-
ção estatal no âmbito das relações
sociais na sociedade brasileira vem
dando o formato às políticas sociais
no país: são políticas casuísticas, ino-
perantes, fragmentadas, superpos-
tas, sem regras estáveis ou reconhe-
cimento de direitos. Nesse sentido,
servem à acomodação de interesse
de classe e são compatíveis com o
caráter obsoleto do aparelho do Es-
tado em face da questão. Constitu-
em-se de ações que, no limite, repro-
duzem a desigualdade social na so-
ciedade brasileira.” (Yazbek1996:37)
O Estado intervém nas questões so-
ciais como organizador e reprodutor,
regulando as relações e, ao mesmo
tempo, mantendo-as e garantindo o
processo acumulativo. É possível per-
ceber que, mesmo com a implementa-
ção de tais políticas tuteladas, a desi-
gualdade cresceu em níveis alarman-
tes. “Assim, as políticas governamenta-
is no campo social, embora expressem
o caráter contraditório das lutas soci-
ais, acabam por reiterar o perfil da de-
sigualdade no país e mantém essa
área de ação submersa e paliativa”
(Yazbek, 1996:40).
É possível afirmar, então, que a fun-
cionalidade da política social, no âmbi-
224 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
to do capitalismo, não é uma decor-
rência natural e, sim, faz parte da luta
de classes. Por isso, não “há dúvidas
de que as políticas sociais decorrem
fundamentalmente da capacidade de
mobilização da classe operária e do
conjunto dos trabalhadores a que o
Estado, por vezes, responde com ante-
cipações estratégicas” (Paulo Neto,
1996:29), procurando subordinar os
MS às suas políticas e à sua agenda.
Acredito que os MS têm que ter um
caráter classista, ou seja, um movi-
mento que tem, na sociedade capita-
lista, um adversário a derrotar. Assim,
os movimentos são, em última análise,
a expressão de um conflito de classes,
pois a contradição leva o movimento a
uma postura crítica, coletiva, e que
busca liberdade e igualdade social.
Dessa forma, os MS deixam de ser ob-
jetos de políticas pontuais e passam a
ser sujeitos coletivos capazes de se
agruparem como organizações, com
projetos explicitamente classista, ape-
sar da complexidade social em que
possamos nos encontrar.
Procuro concluir, afirmando que as
organizações dos MS são parte impor-
tante na luta por mudanças significati-
vas na sociedade e tem a conseqüên-
cia de alterar, através do seu processo
educativo, a correlação de forças e dis-
putar a hegemonia política, a partir de
projetos antagônicos das classes re-
presentadas. É certo que a força dos
MS leva o Estado a procurar mecanis-
mos de desmobilização, ora através do
uso da violência e da repressão, ora
procurando abrir espaços de “diálogos
e negociações”. Porém, essas tentati-
vas “democráticas” procuram, na ver-
dade, cooptar os MS para dentro do
Estado, a fim de manter a ordem inal-
terada ou amortizar suas pressões e
reivindicações, procurando equilibrar
as forças e estancar temporariamente
os movimentos e sua mobilização.
Nesse caso, a tendência é que esses
movimentos se reestruturem, na medi-
da em que em suas lutas vão toman-
do uma consciência, cada vez mais ní-
tida, da falta de compromisso social do
Estado burguês com os trabalhadores
e da necessidade de assumirem seu
destino e ir em busca de uma emanci-
pação concreta.
Esse movimento de ir e vir, de avan-
çar e retroceder, de construir-se cons-
ciência nas práticas sociais, principal-
mente das que decorrem das lutas,
tem uma dimensão educativa muito
importante. Porém não podemos nos
iludir, por isso, procuro, com essa bre-
ve análise, chamar atenção aos encan-
tos que podermos sofrer, devemos
estar atentos e abertos para entender
e intervir numa conjuntura que se
aproxima, por isso, a vitória de um
candidato ou partido de centro direita
não deve comprometer a autonomia e
a consistência dos movimentos dos
trabalhadores.
Notas
1. Quero salientar que neste texto não
cabe uma discussão aprofundada da história
dos MS, nesse sentido indico a leitura de Ri-
beiro (1999a) e Gohn (1995).
2. É preciso lembrar que nesse momento
o neoliberalismo começa se afirmar na Eu-
ropa e nos EUA e em seguida começa tomar
força no mundo, ver Anderson (1995), Fri-
gotto (1995), Soares (2000), Ferraro (2000),
dentre outros.
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* Dileno Dustan Lucas de Souza é profes-
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UFRGS.
Ano XII, Nº 29, março de 2003 225UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
Ao discutir a modernidade, propõe
Habermas esclarecer, a partir de uma
reconstrução deste conceito, a sua
posição frente à crítica à razão e,
desse modo, assegurar a idéia de que
a modernidade, enquanto programa
filosófico-político, permanece inacaba-
da. Ele pretende, por um lado, sustar
a crítica ao projeto iluminista daque-
les teóricos a que chama de “neo-
conservadores”; e, por outro, mostrar
as aporias de uma crítica que identifi-
que razão e poder, de tal modo que,
fazendo uma crítica ao poder, acredite
estar dando um adeus geral à moder-
nidade. Rorty, numa perspectiva outra
da história da filosofia contemporâ-
nea, pensa desnecessária uma tal
construção. Para ele, se nos desvenci-
lharmos da idéia de “subjetividade”,
poderemos recuperar um conceito de
modernidade que não precise fazer
as restrições que Habermas faz a pen-
sadores como Michel Foucault.
Em sua reconstrução, Habermas vi-
sita Max Weber a fim de reencontrar,
com este autor, o lugar onde a moder-
nidade ganhou azo de tema filosófico.
Segundo Weber, a modernidade é o
processo pelo qual o racionalismo oci-
dental pulveriza-se em todas as esferas
da sociedade e da cultura, forjando
formas de vida inteiramente diferentes
das tradicionais, leia-se religiosas. We-
ber descreve como racional “este pro-
cesso de desencantamento que levou
a que a desintegração das concep-
ções religiosas do mundo gerasse na
Europa uma cultura profana”(Cf. HA-
BERMAS, 1990:13). Contrariamente,
quer Habermas reconstruir o conceito
de racionalidade que se esquive da ta-
refa de desencantar o mundo.
Com a divisão (colocada pelos ilu-
ministas e corroborada em maior grau
por Kant) entre crença e saber, o saber
sobrepuja a crença e provoca a auto-
nomização das esferas de valores, an-
tes ofuscadas por um conceito subs-
tancial de razão, conceito afeito ape-
nas a uma concepção religiosa do
mundo. Ora, exatamente com a extin-
ção de tal concepção, a razão ganha
força suficiente para se apresentar sob
nova forma e, dessarte, surgir dividida
de maneira a poder legitimar modos
de representação distintos (Cf. KANT,
1984:171). É quando nasce a necessi-
dade de fazer da filosofia um sistema.
Esses modos de representação (o co-
nhecimento, a ação e o sentimento),
legitimados por faculdades internas do
sujeito pensante, autonomizam-se; re-
sultado: a ciência se encontra legitima-
da, a mora, a arte... sinais do processo
de profanização da cultura (Cf. WEBER,
1982:371). Ao lado da formação deste
sistema cultura, Weber aponta o
desenvolvimento das sociedades
modernas também sob o ponto de
vista da racionalização. Destaca as
esferas do agir econômico e político-
administrativo.
Armando-se com este pano de
fundo de explicação, por assim dizer,
historiográfico (embora, dirá Rorty, não
histórico), Habermas busca entender
as condições concretas que possibili-
tam o surgimento dos discursos com
pretensão de superar ou abandonar o
projeto emancipatório propugnado
pelo Iluminismo. “Foi na realidade a in-
vestigação da modernidade nos anos
50 e 60 que criou as condições para
que a expressão ‘pós-modernidade’
passasse a ser corrente também entre
especialistas das ciências sociais” (Cf,
HABERMAS, 1990:15). Esta investiga-
ção de que fala Habermas foi que intro-
duziu o termo modernização, caro à
teoria funcionalista da sociedade.
Por modernização, entende-se o
conjunto de processos cumulativos
provenientes da produção da vida so-
cial secularizada. A teoria que se utiliza
desta terminologia procura explicar as
mudanças ocorridas no seio das socie-
dades industriais, justificando-as como
produtos insuperáveis da “dinâmica
social” própria destas sociedades (Cf.
para uma análise atual desta proble-
mática à luz da derrocada do socialis-
mo, KURZ, 1993:11 e ss.)
“A teoria da modernização procede
de uma abstração do conceito de
“modernidade” de Weber com impor-
tantes consequências. Essa abstração
dissocia a modernidade das suas ori-
226 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Sobre a modernidade e seus críticos
Romero Venâncio
Debates Contemporâneos
gens na Europa dos novos tempos e
utiliza-se até como um padrão neu-
tralizado espácio-temporalmente de
processos de desenvolvimento social
em geral. Quebra além disso as cone-
xões internas entre a modernidade e
o contexto do racionalismo ocidental,
e de tal modo que os processos de
modernização deixam de poder ser
concebidos como racionalização, co-
mo uma objetivação histórica de es-
truturas racionais” (Cf. HABERMAS,
1990:14).
Colocando a modernidade, de uma
lado, (desenvolvendo-se ao máximo
as esferas sociais a ponto de tornar ab-
solutas as esferas da cultura) e, de um
outro, a tradição do racionalismo oci-
dental, fica fácil aos teóricos chamados
por Habermas de neo-conservadores
assumir o córrego da modernização
social, relegar como estéril a moderni-
dade cultural e decretar obstinada-
mente o fim da história e, com ele, o
fim do Iluminismo. Segundo esta ava-
liação, a modernidade cultural já ofere-
ceu tudo quando poderia dar, restan-
do exausta e sem novidade. O que ha-
veríamos de fazer, suspeitam os neo-
conservadores, é contar com o que te-
mos. E o que temos nada mais é que
a desenfreada dinâmica do desenvol-
vimento social, de que os neo-conser-
vadores não abrem mão.
O outro alvo da crítica habermasia-
na – “teóricos que não contam com o
fato de se ter produzido uma dissocia-
ção entre modernidade e racionalida-
de”(Id. Ibid., p.15) –, uma orientação
marcadamente “anarquista”(, procura
dar adeus à modernidade como um
todo, não assume nenhuma confiança
na modernização social e dirige uma
crítica radical à razão que sustenta a
modernidade cultural. Os teóricos anar-
quistas não temem identificar razão e
poder e suas críticas à razão são ao
mesmo tempo críticas à sociedade ins-
tituída. “A força subversiva de uma crí-
tica à la Heidegger ou Bataille, que
arranca o véu da razão revelando a
mera vontade de poder, deverá simul-
taneamente abalar o invólucro de aço
dentro do qual o espírito da moderni-
dade se objetivou socialmente” (Id.
Ibid. p. 16).
Seja parcialmente (a posição dos
neo-conservadores), seja em sua tota-
lidade (a dos anarquistas), ambas po-
sições se propõem como críticas da
modernidade e, desse modo, intentam
afastar-se do horizonte conceitual ante
o qual o evento histórico da moderni-
dade ganha sentido, ambas se colo-
cam num lugar ainda que não esclare-
cido, dirá Habermas, onde a moderni-
dade se apresenta como época preté-
rita e, por isso mesmo, esgotada. Nes-
te momento, Habermas sugerir um re-
torno ao locus onde a relação entre
modernidade e racionalidade era mui-
to mais nítido, a fim de ver até que
ponto e a que preço essas críticas se
colocam como propostas totalmente
outras com referência à modernidade.
Para resgatar esse conceito de mo-
dernidade, Habermas retorna a Hegel
e procura mostrar que é com este filó-
sofo que a modernidade ganha forma
de problema filosófico: “Foi Hegel que
introduziu o tema da certificação auto-
crítica da modernidade”(d. Ibid., p.
57). Esta “certificação autocrítica” diz
respeito à tomada de consciência das
bipartições causadas pela filosofia kan-
tiana e também à necessidade de su-
perá-las. Segundo Habermas, com
efeito, graças à descoberta da liberda-
de da subjetividade como princípio
dos tempos modernos, a modernida-
de se caracteriza primeiro como ins-
tauração de bipartições geradoras de
esferas de valores autônomos, basea-
das em um conceito formal de razão;
segundo, ainda no mesmo horizonte
de uma subjetividade livre, como ne-
cessidade de superação dessas biparti-
Ano XII, Nº 29, março de 2003 227UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
ções que, se por um lado, libera novas
formas de vida, formas de vida huma-
nizadas, por outro lado, impede, do
ponto de vista conceitual, filosófico, a
resolução de uma série de problemas,
como exemplo, a participação dal li-
berdade no fenômeno, ou a possibili-
dade da felicidade sem colocar em
risco a dignidade.
Toda a energia espiritual herdeira
do pensamento de Kant veio no senti-
do de criticar seu formalismo respon-
sável pelas bipartições e buscar recon-
duzir os momentos por ele cindidos
numa totalidade reconciliadora. A isto
chamamos a dimensão autocrítica da
modernidade (Schiller, Fechte e Hegel
seriam exemplos dessa dimensão).
Seguindo este percurso, Habermas
pensa poder evitar “o desapontamen-
to com ‘a filosofia da subjetividade’
que produziu Nietzsche e as duas cor-
rentes de pensamento pós-nietzschea-
no que ele distingue e de que não
gosta (levando uma a Foucault e a
outra a Heidegger)”(Cf. RORTY, 1987:
46). E para evitar tal desapontamento,
Habermas sugere a substituição do pa-
radigma do conhecimento do objeto
(paradigma próprio de uma filosofia
do sujeito reificante e auto-restringen-
te) por um paradigma da compreen-
são mútua entre sujeitos capazes de
falar e agir, abrindo-se assim à comu-
nidade de compreensão onde haveria
de se resgatar aquilo que, no limiar da
filosofia da reflexão e para além do pa-
radigma centrado no sujeito, está su-
plantado, a saber, a intersubjetividade.
Avaliando esses passos de Haber-
mas, Richard Rorty defenderá que tu-
do isso não passa de um problema ar-
tificial “criado pelo facto de se dar
demasiada importância a Kant” (Id.
Ibid., p. 47). Para Rorty, não se deveria
levar em alta consideração a divisão
kantiana entre ciência, moral e arte.
“Nesta perspectiva, a tentativa de
Kant de negar que o conhecimento
deixe lugar para fé (inventando a
“subjetividade transcendental” para
servir de fulcro a revolução coperni-
cana) foi provocada por uma preo-
cupação desnecessária com o signi-
ficado ou a insignificância espiritual
da ciência moderna” (Id. Ibid., p. 48).
Discípulo de Kuhn, Rorty pode, com
esta observação, descartar a importân-
cia de Kant para a discussão da mo-
dernidade, sem nenhum prejuízo para
o seu pensamento, pois, discípulo de
Kuhn, está menos preocupado com a
reconstrução da história do conceito
de modernidade que de sua descons-
trução. Assim, embora este procedi-
mento não lhe traga prejuízo, não se
pode dizer que ele não esteja carrega-
do de pré-juízos em relação ao pensa-
mento de Kant. Neste sentido, vale re-
cordar os interesses motivadores do
pensamento kantiano a fim de, dessa
forma, saber até que ponto Rorty tem
razão ao considerá-lo como algo de
pouca importância.
Enquanto herdeiro do Iluminismo
supervalorizando a razão em detri-
mento da fé, mas também desperto
do sono dogmático pelo ceticismo hu-
mano, Kant possui três interesses que
o norteiam, passo a passo, nas críticas
à metafísica, à reconstrução prática da
razão e à formação de um sistema
completo da filosofia. Esses interesses,
todavia, possuem, ensaiemos a afirma-
ção, apenas um motivo: a decisão pela
crítica, a tomada de partido pela crítica.
A crítica isto fica apenas como indica-
ção, procuraremos desenvolver adian-
te, é o elemento mais característico da
modernidade, é a tarefa eminente-
mente moderna ou a modernidade
como tarefa. Assim, podemos afirmar
que, ainda que refutem todas as posi-
ções do kantismo, ainda que o façam
calar com as mais ferinas objeções,
ainda assim a crítica, a atividade crítica,
permanecerá incólume, inarredável, ir-
redutível.
A objeção de que Kant tenha dado
demasia importância à ciência moder-
na, com o fito de refutar-lhe o princípio
de subjetividade, presta-se apenas
como restrição a uma de suas figuras
de pensamento, e não ao princípio
mesmo da modernidade, posto que,
segundo a leitura que aqui se propõe,
o princípio da modernidade não é a
subjetividade, mas a decisão pela críti-
ca. Com efeito, a fim de compreender
o lugar de Kant, no discurso da moder-
nidade, Michel Foucault, relacionando
a filosofia kantiana com o movimento
da aufklärung, nos assegura que “não
é a fidelidade aos elementos da doutri-
na, mas sim a reativação permanente
de uma atitude, ou seja, de um ethos
filosófico que se poderia caracterizar
como crítica permanente de nosso ser
histórico”(Cf. FOUCAULT, s/d:54).
O problema de Rorty, como o de
Habermas e de toda uma leitura já tra-
dicional do pensamento de Kant, é
considerar a subjetividade transcen-
dental e a revolução copernicana co-
mo o que há de mais fundamental no
pensamento crítico. A revolução coper-
nicana e a subjetividade transcenden-
tal são apenas figuras de pensamento,
dentre outras, da filosofia moderna,
utilizadas como estratégia para o de-
sempenho de uma tarefa historica-
mente determinada, no caso: a crítica
da metafísica. Que essas estratégias
228 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
A revolução copernicana e a subjetividade transcendental
são apenas figuras de pensamento, dentre outras,
da filosofia moderna.
Debates Contemporâneos
não funcionaram, que hoje sejam dis-
pensáveis, isso pode até ser concedi-
do. No entanto, quem considerará ho-
je em dia seja desnecessária a crítica à
metafísica? Quem, da mesma forma,
permitir-se-á deixar a outrem o direito
de orientar suas ações e de escolher e
decidir sobre seu gosto? E, mesmo que
ainda haja atitudes como essas, quem
poderá negar o quanto essas atitudes
são nocivas a um projeto de história
que procure emancipar os homens?
Não vamos discutir essas questões
aqui, mas também não se pode discu-
ti-las apenas à luz de uma caricaturiza-
ção do pensamento kantiano, sem
deixar de tematizar o problema da Crí-
tica como elemento específico da mo-
dernidade.
É por se colocar ainda neste hori-
zonte de leitura tradicional da filosofia
moderna que Rorty pode dizer que co-
mo Habermas, Kant pensa que a ciên-
cia moderna tem uma ‘dinâmica pró-
pria’, uma dinâmica que se pode iden-
tificar como (pelo menos uma porção
de) a ‘natureza da racionalidade’”. (Cf.
RORTY, 1987:48), e disso fazer pressu-
posto para a sua crítica a Habermas.
A identificação entre “natureza da
racionalidade” e a “dinâmica própria
da ciência” é o modo como Kant asse-
gura o estatuto epistemológico da mo-
derna ciência da natureza. O discurso
desta identificação, Rorty, como Lyo-
tard, pode, com razão, chamá-lo de
metanarrativa, mas que ela seja desne-
cessária, só faz sentido dizê-lo no âm-
bito de seu pensamento (uma vez que
ele tenha outras figuras de pensamen-
to que lhe sirvam de estratégia para
sua despedida da metafísica). Não é o
caso de Kant. Todavia, quando esta crí-
tica se dirige especificamente a Ha-
bermas, o que dizer dela?
Segundo Rorty, Habermas pensa
que, isolando e exibindo a dinâmica
própria da ciência, mas distinguindo-a
de outras dinâmicas (tal como Kant faz
ao encontrar um campo especial onde
a razão ganhe um domínio própria de
legislação ( a questão da liberdade no
sentido prático-ético, deixando de lado
seu interesse teórico), no caso de Ha-
bermas, ao acreditar poder confiar nu-
ma racionalidade comunicativa, para
além da razão centrada no sujeito, co-
m o fito de atingir a emancipação da
intersubjetividade, “se pode preservar
os resultados da ciência sem com isso
retirar encanto ao mundo”(Id. Ibid., p.
48). Ou seja, como Kant, para assegu-
rar um lugar para a liberdade, desta-
cou a razão prática da teórica, Ha-
bermas, com o mesmo fim, quis desta-
car a razão comunicativa da razão ins-
trumental. Com efeito, todo o esforço
de Habermas vai no sentido de fazer
uma crítica à filosofia da consciência,
mas sem deixar escapar o saldo de ra-
cionalidade passível de ser utilizado
sem em nada ficar devendo às aporias
da subjetividade.
Como alternativa a esta estratégia
habermasiana de caracterização da
modernidade (e de resgate dela), Ror-
ty sugere que se dê menos importân-
cia a Kant e Hegel. Pensa que, se dés-
semos “mais importância aos relativa-
mente a-teóricos socialistas”, podería-
mos conduzir-nos “a uma espécie de
pensamento do fim da filosofia que
escaparia às restrições que Habermas
põe a Deleuze e a Foucault” (Id. Ibid.,
p. 49). Rorty está mais preocupado em
atitudes que realizem obras de, como
chama, engenharia social, que com
pensamento de identidade geradores
de “filosofias ultra-zelosas”(Id. Ibid.), à
la Descartes. Aliás, ele está disposto a
aceitar como “princípio dos tempos
modernos” muito menos uma “subje-
tividade” – que os historiadores pós
kantianos da filosofia “ansiosos por li-
gar Kant a Descartes, consideraram
que era o seu fio condutor” – que uma
“auto-afirmação” entendida como in-
clinação “para centrar nossas espe-
ranças no futuro da raça, nos sucessos
imprescindíveis dos nossos descen-
dentes”(Id. Ibid., p 50). Vê Rorty, neste
princípio por ele sugerido, uma possi-
bilidade de avaliar o tipo de estrutura
a-histórica exemplificada pela divisão
kantiana da cultura em três esferas de
valor. Neste sentido, ele prefere Bacon
a Descartes como fundador da filosofia
moderna.
Se admitirmos, entretanto, como
Hannah Arendt, que o ponto mais fun-
damental da filosofia de Descartes, o
filósofo, segundo Hegel, com quem a
filosofia finalmente se encontra em
terra firme, o fundador da filosofia mo-
derna, seu ponto mais fundamental é
a dúvida (“na filosofia e no pensa-
mento modernos, a dúvida ocupa a
mesma posição que, em todos os sé-
culos anteriores, cabia ao thaumazein
grego, o assombro diante de tudo o
que é como é” (Cf. ARENDT, 1981:
286), e se dissermos que a radicaliza-
ção da dúvida devém crítica (Para
Hannah Arendt, o pensamento de
Descartes tem um caráter secundário e
é a dúvida o fundamento de todo o
sistema cartesiano) “nós não sabería-
mos duvidar sem ser, e isto é o primei-
ro conhecimento certo que podemos
adquirir (...), dubito ergo sum! Id. Ibid.,
p. 292), não será difícil aceitarmos a
Ano XII, Nº 29, março de 2003 229UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
O esforço de Habermas vai no sentido de fazer uma crítica
à filosofia da consciência, mas sem deixar escapar
o saldo de racionalidade passível de ser utilizado sem
em nada ficar devendo às aporias da subjetividade.
Debates Contemporâneos
hipótese de ser a noção de tarefa
quem melhor caracterize a moderni-
dade. Com efeito, a crítica é a tarefa
primordial daqueles que pensam, por
conta própria, o homem moderno.
“Descartes foi o primeiro a concei-
tuar esta forma moderna de duvidar,
que depois dele passou a ser o mo-
tor evidente e inaudível que vem mo-
vendo todo pensamento, o eixo invi-
sível em torno do qual todo pensa-
mento tem girado. Tal como, desde
Platão e Aristóteles até a era moder-
na, a filosofia conceitual, em seus
maiores e mais autênticos represen-
tantes, havia sido a expressão do as-
sombro, também a moderna filoso-
fia, desde Descartes, tem consistido
na manifestação e nas ramificações
da dúvida” (id. Ibid., p. 286).
A filosofia cartesiana que se expres-
sa não através das doutrinas, não atra-
vés de disputas ou questões (como
fora próprio na Escolástica), mas como
discurso, como meditação, dirige-se
não à Escola, mas contra a Escola, aos
homens de bom-senso, àqueles que
desejam tornar-se senhores de seus
preconceitos e dissipá-los. É uma filo-
sofia que conhece sua origem, a dúvi-
da; parte dela e segue por ela nortea-
da. A partir de Descartes, o pensamen-
to, por ser crítico, está finalmente livre
de toda mediação exterior. Frente a
uma razão inquieta, a solidez da auto-
ridade tradicional se espatifa. Pelo me-
nos enquanto princípio, nem mesmo
Deus pode intervir em um tal pensa-
mento, por assim dizer, rebelde.
Foi a rebeldia do pensamento que,
por exemplo, gerou um Hume. Sutil e
elegante, Hume dirige sua crítica a um
princípio-chave da filosofia (o princípio
da cuasalidade), e com ela decepa
com um só golpe a velha metafísica
(Cf., para uma leitura muito interessan-
te desse episódio, LEBRUN, 1993:9).
Não levando em conta aqui a astucio-
sa saída (contra Hume) que Kant ofe-
rece à metafísica, o que importa é que,
com Hume, sua pesquisa se dirige a
um ponto totalmente diferente dos
que o animavam na juventude. O filó-
sofo de Königsberg nunca mais fora o
mesmo e, com ele, a história do pen-
samento ocidental. Nasce a filosofia
crítica, consolida-se a modernidade. To-
do pensamento, portanto, que se incu-
ba de ser tarefa de criticar a metafísica
é, por isso mesmo, pensamento da
modernidade. Não só pensamento da
modernidade como também pensa-
mento da modernidade. Não só perten-
ce a ela como também a problematiza.
A modernidade como tarefa aponta
para a responsabilidade crítica da filo-
sofia atual. Importa mais que tudo não
colocar uma etiqueta “moderno” ou
“pós-moderno”, em nossos pensa-
mentos mas descobrir os nosso pro-
blemas e procurar assumir a tarefa de,
senão resolvê-los, pelo menos pensá-
los. “Pensar é estar doente dos olhos”,
dizia o poeta português. É preciso fazer
com que os olhos ardam, é preciso
baldear as águas plácidas da comodi-
dade acrítica e tomar pela mão a dor e
o desassossego que provocam o pen-
samento. O princípio da modernidade
não é um ponto onde havemos de nos
apoiar mas uma atividade, uma tarefa
que nos instiga a construir nossos pró-
prios problemas e sobre eles refletir a
fim de averiguar seus alcances e esta-
belecer seus limites.
Nossa preocupação, quando carac-
terizamos a modernidade como tarefa,
é reconsiderar a relação entre pensa-
mento e realidade histórica. Ao tratar-
mos da crítica, não devemos, na ânsia
de reencontrar apoio metafísico, per-
guntar sobre que ponto arquimediano
poderemos executá-la. A crítica não de-
ve ser acionada por um “motor imó-
vel” que lhe assegure um “estatuto
ontológico” ou mesmo “epistemoló-
gico” de crítica. Ao contrário, o que de-
ve movê-la, numa metáfora, é o motor-
mais-que-móvel que são os problemas
da comunidade onde estamos inseri-
dos. É por existirem os problemas for-
jados na dinâmica de cada cultura e
sociedade que existem os pensamen-
tos. Os pensamentos, contudo, não são
o resultados dos problemas, são sua
problematização. não se pode criar a
relação ingênua de prioridade entre um
e outro. O que está em jogo é o de sa-
ber quais são nossos problemas para
que não nos ocupemos com tarefas
que não são as nossas; do contrário, fi-
caremos à margem da história, à deriva.
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berto Raposo. Rio de Janeiro-RJ: Forense, 1981.
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Romero Venâncio é professor do Depar-
tamento de Filosofia da Universidade Fe-
deral de Sergipe.
230 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
Não vou tratar muito da ALCA,
mas da globalização e de suas
conseqüências para a Educação.
A globalização não é um fenômeno
novo. A própria conquista das
Américas pelos europeus foi uma
etapa importante deste processo, ao
mesmo tempo em que se descobria
que nosso planeta era finito e que
não era o centro do universo, como
se acreditava até Copérnico.
Atualmente, a globalização é um te-
ma do qual se fala diariamente, seja
para elogiar seus méritos ou para de-
nunciar suas conseqüências sobre a
vida dos povos e de milhões de pes-
soas. Mas há uma certeza, ou ao me-
nos esta é minha convicção: o mundo
está atravessando um período de mu-
danças profundas de longo prazo, com
novas formas de dominação e de re-
sistência, com desafios maiores para o
futuro da humanidade.
Inicialmente, me parece importante
tecer uma breve retrospectiva histórica
do processo de globalização para fazer
sobressair a importância das atuais
transformações. Feito isso, veremos
como as políticas que inspiram essa
Ano XII, Nº 29, março de 2003 231UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Globalização, ALCA e Educação*
Conferência de Jocelyn Berthelot, Secretário Geral, Secretaria Con-
tinental sobre Educação1
no IV Fórum Mundial pela Educação dos
Povos Colima (México), 27 a 30 de novembro de 2002.
Debates Contemporâneos
globalização têm conseqüências sobre
a América Latina e a Educação.
Uma mudança de longa duração
A importância desta mudança é tão
grande quanto a que humanidade co-
nheceu no momento do desenvolvi-
mento dos Estados Nacionais no final
do século XVIII e início do século XIX.
Em menos de 50 anos, em diversos
lugares, nasceram nações que se liber-
taram do jugo do poder colonial e da
dominação aristocrática. Foi este o ca-
so em quase todas as Américas. O
desenvolvimento das ciências e das
tecnologias baseadas na transforma-
ção da matéria (eletricidade, máquina
a vapor, etc.) sustentou a revolução
industrial a partir de meados do sécu-
lo XIX.
Decerto, não foi uma libertação pa-
ra todos. Com os novos Estados, nas-
ceram novas dominações e novos im-
périos. Faz pouco tempo que as na-
ções africanas se libertaram do jugo
colonial. Frente à dominação do capi-
talismo, nasceram os sindicatos e os
partidos de trabalhadores. Novas rei-
vindicações foram levadas adiante, ini-
cialmente, com uma ilegalidade que
justificava uma repressão selvagem.
Foi o caso do movimento trabalhista,
em seu início, na segunda metade do
século XIX.
Dessas resistências e reivindicações
nasceram novos direitos; a escravidão
foi abolida, as mulheres foram reconhe-
cidas como pessoas - o que não ocorria
antes perante a Lei - o trabalho infantil
foi combatido. A educação, a saúde, a
seguridade social se transformaram em
serviços públicos. Por outro lado, a afir-
mação das soberanias nacionais deu lu-
gar a numerosas guerras regionais (co-
mo entre Estados Unidos e México) e
até a duas guerras mundiais.
Estamos entrando em uma nova
época; assistimos a uma mudança nos
poderes tradicionais dos Estados e nas
relações entre eles. De outra parte, as
tecnologias da comunicação e as bio-
tecnologias conhecem um salto quali-
tativo que abre novas esperanças, mas,
desgraçadamente, novas formas de
dominação.
São forças dominantes as que,
neste momento, têm definido as cara-
cterísticas desta mutação. Impuseram
suas políticas e valores, provocando
resistências e a elaboração de um con-
tra-projeto democrático.
A globalização neoliberal está mar-
cada por uma transferência de uma
parte do poder dos Estados nacionais
para o setor privado e para as grandes
empresas transnacionais e instituições
financeiras, como o Fundo Monetário
Internacional e o Banco Mundial. Das
100 economias mais importantes do
mundo, 52 são empresas transnacio-
nais. As 200 maiores controlam 28%
da atividade econômica mundial.
Os novos mestres do mundo, como
os chama Noam Chomsky, teriam a
receita mágica para “um mundo sem
pobreza”, como diz o slogan do Banco
Mundial. A mão invisível do mercado
seria revestida de poderes reservados
até agora aos deuses. A crença em seu
superpoder seria uma garantia de
bem-estar para os demais. Mas o novo
paraíso que nos prometem se conver-
te em inferno para a grande maioria
da população. A aldeia global tem,
para muitos, a cara de um apartheid
global.
A ampliação do espaço do mercado
se concretiza em políticas de privatiza-
ção impostas pelas instituições finan-
ceiras internacionais, pelos tratados
comerciais e por uma dominação do
novo império, representado pelos Es-
tados Unidos com seu poder econômi-
co e militar. De outra parte, se expres-
sam múltiplas e novas formas de resis-
tência e de solidariedade, nascem no-
vos projetos que impulsionam uma
combatividade renovada.
Uma globalização excludente
A América Latina tem sido um labo-
ratório das políticas neoliberais impos-
tas a partir dos anos 80. As exigências
ligadas ao pagamento dos juros gera-
dos pelas dívidas externas conduziram
ao que se tem chamado de “a década
perdida”. Os anos 90 trouxeram me-
lhores notícias, ao menos em termos
gerais, com um certo crescimento eco-
nômico e uma ampliação do atendi-
mento educacional, assim como uma
redução significativa das desigualda-
des e uma melhora na qualidade edu-
cativa.
Em quase todos os países do conti-
nente, uma onda de privatização
ameaçou os serviços públicos. A eletri-
cidade, o abastecimento de água, os
serviços postais foram objeto de políti-
cas privatizadoras. Greves, manifesta-
ções populares, ações jurídicas frea-
ram o processo em muitos lugares, co-
mo foi o caso em Arequipa, no Peru,
contra a venda das empresas de eletri-
cidade a empresas estrangeiras e em
Cochabamba, Bolívia, contra a privati-
zação do sistema de água potável.
Já se conhecem as conseqüências
dessas políticas: alta de preços, proble-
mas de abastecimento, deterioração
das infra-estruturas. Até na rica Califór-
nia, no verão de 2000, foi imposto o
“estado de emergência” devido à inca-
pacidade das empresas privatizadas de
produzir o nível necessário de eletrici-
dade. Mas isto não detém os integris-
tas da privatização de seguir adiante.
A abertura dos mercados nacionais
à competição internacional e ao capi-
tal especulativo tem sido acompanha-
da por uma política produtiva orienta-
da para a exportação, a fim de conse-
guir divisas para cumprir as exigências
do pagamento da dívida externa.
Como conseqüência, as desigualda-
des se mantiveram ou aumentaram. O
FMI demonstrou que não apenas esta-
va equivocado, mas que era franca-
232 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Debates Contemporâneos
mente cruel. A Comissão Econômica
para a América Latina e Caribe, a CE-
PAL, em seu último Panorama Social
da América Latina, fala da meia déca-
da perdida para caracterizar os últimos
anos. Em 2001, quase a metade da
população vivia na pobreza; uma em
cada cinco pessoas, na miséria. As pes-
soas com 20% dos salários mais bai-
xos compartilham menos de 2% da
riqueza, enquanto os 20% mais ricos
se apropriam de mais de 50%.
A educação sofreu com essas mu-
danças. Tem sido afetada diretamente
pela pobreza crescente da população,
pelos cortes orçamentários, pela dete-
rioração das condições de trabalho e
pela privatização. Por outro lado, a
vontade de impor a todas as atividades
humanas os valores do mercado afe-
tou múltiplos aspectos da vida educa-
cional.
Primeiro, os cortes impostos à Edu-
cação pelos programas de ajuste têm
conduzido a uma deterioração das
condições de ensino e aprendizagem.
Em muitos lugares, o salário do pesso-
al de educação diminuiu, enquanto as
tarefas de ensino aumentaram. Os in-
vestimentos dos anos 90 não chega-
ram aos níveis anteriores nem acom-
panhado o crescimento da matrícula.
Em muitos países se privatizaram os
serviços nos estabelecimentos públicos
de educação: a elaboração de exames
uniformizados, até mesmo a adminis-
tração completa de escolas públicas,
como se pode observar nos Estados
Unidos. Cresceu o financiamento públi-
co da educação privada - seja direta ou
indiretamente - por meio de “bônus de
educação” (os famosos vouchers) ou
de bolsas públicas que permitem o
acesso ao ensino superior privado. Co-
mo conseqüência dessa maior privati-
zação, a educação custa cada vez mais
aos pais e aos estudantes.
Essa privatização é profunda. Des-
pojou-se a Educação de suas palavras
e de seus conceitos, para impor-lhe os
da empresa: “clientes, produtos, com-
petição, rendimento”.
Em todos os lugares estão implan-
tando reformas educativas, mas apesar
de poderem conter, às vezes, certos
elementos interessantes, amiúde es-
tão ditadas por uma nova ortodoxia
que prejudica a Educação Pública. Os
educadores geralmente devem carre-
gar o peso das mudanças improvisa-
das, sem receber o apoio adequado.
Assistiu-se em muitos lugares a
uma transferência das responsabilida-
des do Estado para um nível inferior,
sem que se tenha procurado os recur-
sos correspondentes. Os setores mais
desfavorecidos se encontram sem re-
cursos. As desigualdades cresceram e
a coerência da Educação Pública está
ameaçada.
Esta maior autonomia tem sido
acompanhada de mecanismos que
tendem a fomentar a hierarquização e
a competição entre os estabelecimen-
tos, num modelo em que se considera
pais e estudantes como simples con-
sumidores. Por exemplo, a publicação
da classificação de escolas está na mo-
da em muitos lugares. Como no mer-
cado, os pais deveriam ter a liberdade
de escolher o produto educativo que
lhes convém.
As grandes empresas recorrem a di-
versos meios para tentar fazer com
que o ensino público leve os alunos a
adotar seus valores e produtos. Cada
vez são mais fortes as pressões das
grandes empresas para que a liberali-
zação do comércio abarque o conjun-
to dos serviços.
A imagem da Rodada do Milênio da
Organização Mundial do Comércio e
das negociações em torno do Acordo
Geral sobre o Comércio de Serviços, a
Área de Livre Comércio das Américas
(ALCA) poderia ameaçar ainda mais o
caráter público da Educação.
Alguns acordos perigosos
A OMC, que foi criada em 1995 e da
qual cerca de 150 países são mem-
bros, quer ampliar a liberalização do
comércio em todos os setores. Depois
do fracasso de Seattle, a última reu-
nião da OMC para lançar a famosa Ro-
dada do Milênio teve lugar no muito
democrático Emirado de Doha, onde
todo tipo de protesto está proibido.
Os acordos da OMC estabelecem
algumas regras gerais. Assim, deve-se
tratar todos os membros da mesma
maneira, sem conceder nenhum bene-
fício particular a um país amigo ou a
empresas nacionais. As leis nacionais
devem ser transparentes e o mais fa-
voráveis possível à liberalização do co-
mércio.
Os acordos regionais, como o Tra-
tado de Livre Comércio para a América
do Norte vão no mesmo sentido. Mas
o NAFTA deu um passo adiante. Em
seu famoso Capítulo XI, outorga prima-
zia jurídica às disposições do Tratado
sobre as Legislações nacionais; isto
permite às empresas que se conside-
rem afetadas por ações de um gover-
no, interpelá-lo diretamente pelo lucro
cessante, atual ou futuro.
Já houve alguns casos contra o Ca-
nadá e o México sobre as políticas re-
lativas ao meio ambiente. Foi o caso
Ano XII, Nº 29, março de 2003 233
As grandes empresas recorrem a diversos meios
para tentar fazer com que o ensino público leve os alunos
a adotar seus valores e produtos.
Debates Contemporâneos
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
da Metalclad, empresa especializada
no tratamento de resíduos, que queria
abrir um sítio em uma zona ecológica
de San Luis Potosi e a proibição, por
razões de saúde, da parte do governo
canadensre, de um aditivo para a ga-
solina produzido pela Ethyl Corp. Pro-
pôs-se incluir um capítulo similar na
ALCA.
As conseqüências da abertura das
fronteiras mexicanas aos produtos
agrícolas norteamericanos, previsto
nesse Tratado, foram o centro do últi-
mo Encontro Bilateral México-Estados
Unidos, esta semana. Também provo-
cou protestos populares muito impor-
tantes. Avalia-se que o México já per-
deu mais de meio milhão de empre-
gos no setor agrícola como conse-
qüência da redução das tarifas alfan-
degárias. Mais de um milhão de pes-
soas migraram para as cidades, parti-
cularmente do Norte do país. Teme-se
a explosão de uma crise social sem
precedentes.
Mas o livre comércio não é tão livre
como se pretende. Permite aos mais
poderosos, particularmente aos Esta-
dos Unidos, estender sua dominação.
Por exemplo, no setor agropecuário, o
Projeto de Lei de Amparo aos Agricul-
tores - Farm Bill - adotado pelo presi-
dente Bush, constitui um subsídio de
35 bilhões de dólares aos produtores.
Avalia-se que representa 1 dólar por
animal por dia, ou seja, o montante
que 40% das pessoas humanas possui
para sobreviver.
Com a Rodada do Milênio, abriu-se
uma nova rodada de negociação do
Acordo Geral de Comércio e Serviços
(GATS). Esta poderia ter conseqüências
muito graves para o porvir da educa-
ção, porque compreende todo serviço,
de qualquer setor, exceto os serviços
prestados no exercício de funções go-
vernamentais. Isto quer dizer que não
serão prestados de forma comercial
nem competitivamente. Como não há
definição deste conceito, e dado que
em todos os países existe um setor pri-
vado paralelo ao setor público, muitos
pensam que isso não exclui o setor
educativo.
Na primeira Rodada, somente uma
minoria de países aceitaram liberalizar,
como dizem, o comércio dos serviços
de educação. Nenhum dos países lati-
noamericanos o fez. Assim, os países
foram prudentes no acordo firmado
em 1995. Mas este é só um princípio.
O Artigo 19 do Acordo estabelece
que as rodadas de negociação devem
permitir incrementar o nível geral de
compromissos para a liberalização. Em
contrapartida, as possibilidades de re-
tratação de um país signatário estão
reduzidas, porque se teria que com-
pensar os outros membros do Acordo.
Para a Educação, o GATS inclui cinco
categorias: educação primária, secun-
dária, para adultos, universitária e ou-
tros serviços. Os membros tinham até
30 de junho passado para fazer de-
mandas de abertura a outros membros
para essas categorias. Estes últimos
têm até 31 de abril de 2003 para res-
ponder em negociações bilaterais. Um
novo acordo deveria estar vigente em
2005, ao mesmo tempo que a ALCA.
Alguns países, como Austrália, Nova
Zelândia e Estados Unidos apresenta-
ram demandas. O objetivo da comuni-
cação dos Estados Unidos é claro:
«ajudar a estabelecer condições favo-
ráveis aos prestadores de serviços de
ensino superior, educação de adultos e
capacitação, mediante a redução dos
obstáculos que se opõem à transmis-
são desses serviços para além das
fronteiras nacionais por meios eletrô-
nicos ou materiais, ou ao estabeleci-
mento e exploração de instalações pa-
ra proporcionar serviços aos estudan-
tes em seu país ou no estrangeiro».
Propõe também a inclusão de uma
nova categoria: os serviços de provas
educativas.
Os Estados Unidos confeccionou
uma lista de obstáculos, convocando
outros governos a removê-los. A proi-
bição de serviços de ensino superior
ou para adultos oferecidos por entida-
des estrangeiras, a limitação a institui-
ções nacionais a possibilidade de ou-
torgar títulos, as restrições sobre a edu-
cação à distância são deles.
Os Estados Unidos quer criar um
espaço maior para as instituições edu-
cativas ou empresas norteamericanas
nos setores da gestão e das novas tec-
nologias, abrir as fronteiras ao ensino
seqüencial e apoiar os consórcios es-
pecializados em provas educativas. Is-
to ameaça o caráter público e nacional
da Educação, particularmente do ensi-
no superior.
Por exemplo, as universidades de
empresas passaram de 400 para mais
de 1500 nos últimos dez anos. O ensi-
no
Andes e a política de cotas raciais
Andes e a política de cotas raciais
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Andes e a política de cotas raciais

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    19 29 7 34 46 53 57 74 68 61 80 86 94 111 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE MinoriasSociais e Luta de Classe no Brasil Globalização e exploração sexual de crianças e adolescentes Maria Lúcia Pinto Leal A luta contra o racismo no Brasil e o movimento docente. Marcelo Henrique Romano Tragtenberg Ações afirmativas e cotas do ângulo do marxismo. Rosângela Rosa Praxedes e Walter Lúcio de Alencar Praxedes Restruturação produtiva, reprodução e gênero no setor financeiro. Maria Helena Santana Cruz Ação afirmativa em benefício da população negra. Kabengele Munanga Notas introdutórias sobre o debate das relações de gênero. Renato Veloso Ensino superior no Brasil e ações afirmativas para negros. Delcele Mascarenhas Queiroz Ações afirmativas para negros e índios no ensino superior: as propostas dos NEABs. José Jorge de Carvalho A judiciarização dos conflitos de classe no Brasil. Maria Cristina Cardoso Pereira. Homossexualidade: o discurso médico e a exclusão do sujeito. Acyr Maya O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto: novos sujeitos na luta pelo direito à cidade. Sonia Lucio Rodrigues de Lima Aprendendo com a experiência. Aurivan Truká, Pina Tembé, Dina XoKleng e Bruno Xavante Legitimidade das ocupações. Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra - MST Entrevista: Dr. Francisco Fausto UNIVERSIDADE E SOCIEDADE é uma publicação quadrimestral do ANDES-SN: Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior. Os artigos assinados são de total responsabilidade de seus autores. Todo o material escrito pode ser re- produzido para atividades sem fins lucrativos, medi- ante citação da fonte. CONTRIBUIÇÕES para publicação na próxima edição: veja instruções na página final. ASSINATURAS e pedidos de números avulsos: utilize o cupom da página final. Conselho Editorial Antonio Candido; Antônio Ponciano Bezerra; Carlos Eduardo Malhado Baldijão; Décio Garcia Munhoz; Florestan Fernandes (in memorian); Lauro Campos; Luiz Henrique Schuch; Luiz Pinguelli Rosa; Márcio Antônio de Oliveira; Maria Cristina de Morais; Maria José Feres Ribeiro; Maurício Tragtemberg (in memo- rian); Newton Lima Neto; Oswaldo de Oliveira Ma- ciel; Paulo Freire (in memoriam); Paulo Rizzo; Re- nato de Oliveira; Sadi Dal Rosso; Roberto Leher. Encarregatura de Imprensa e Divulgação Antônio José Vale da Costa (Tomzé). Coordenação do GTCA Almir Serra M. Menezes Filho, José Domingues de Godoi Filho, Antônio José Valle da Costa, Antônio Ponciano Bezerra e Rosilda Silva Dias. Editor Antônio Ponciano Bezerra Editoras Adjuntas Janete Luzia Leite e Marília Leite Washington Secretário Executivo Editorial Jair Tenório Jatobá Edição de arte e editoração eletrônica Dmag Comunicação Fotos Arquivo ANDES-SN, Arquivo MST, Folha Imagem, Imagenlatina, Paulo Pepe/Nau e João Roberto Ripper. Capa e ilustrações Doriana Madeira e Marcos A (Dmag). Revisão de textos Antônio Ponciano Bezerra e Janete Luzia Leite. Revisão final Iara Yamamoto Tiragem: 3.000 exemplares. REDAÇÃO E ASSINATURAS: ANDES-SN Secretaria Regional São Paulo. Rua Jorge Tibiriçá, 175 - Vila Mariana - 04126-000 São Paulo -SP Tel. (11) 5083-9522, Tel/fax: (11) 5572-6973 e-mail: andesregsp@uol.com.br Home-page: www.andes.org.br
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    Sumário 141 121 130 154 169 158 175 185 211 218 207 226 231 237 Ano XII, Nº29, março de 2003 - 3UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Sob o signo do social-liberalismo: terceira via e modernização social. Ruy Braga Uma proposta para a reforma da Previdência. Eduardo Alves O governo Lula e o desafio histórico da construção de um projeto democrático e popular de sociedade. Rodrigo de Souza Dantas Possibilidades de um circuito virtuoso da educação nacional. Maria de Fatima Felix Rosar Fundações privadas na USP, a privatização insolente. Ciro T. Correia e Pedro E. da Rocha Pomar Autonomia, carreira e outras histórias: 20 anos de lutas dos docentes das universidades estaduais da Bahia. Carlos Zacarias F. de Sena Júnior e Ferdinand Martins da Silva A educação superior na América Latina e Caribe: conseqüência de uma política neoliberal. Ernâni Lampert Memória do Movimento Docente: Entrevista com Roberto Leher Debates Contemporâneos Venezuela: quem tem medo da democracia na América Latina?. Carlos Walter Porto Gonçalves Urbanismo e história: pelo resgate do concurso de Brasília. Aline Moraes Costa Os limites dos Movimentos Sociais na sociedade capitalista. Dileno Dustan Lucas de Souza Sobre a modernidade e seus críticos. Romero Venâncio Globalização, ALCA e Educação. Jocelyn Berthelot Ensaio Fotográfico: Minorias...entre o barril e a pólvora
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 7 Maria Lúcia Pinto Leal 1 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil O objetivo deste estudo é analisar o impacto da globalização no contexto da exploração sexual e comercial de crianças e adolescentes2 - ESCCA, identificando-a como questão social a ser racionalizada e enfrentada de forma multidimensional. Para realizar este intento, destaca- mos três categorias complexas, com es- pecificidades distintas, para fundamen- tar conceitualmente a ESCCA: a globali- zação, a sexualidade e a violência. A globalização é um fenômeno de múltiplas significações e apresenta uma diversidade de interpretações. Uma de- las é que existem várias globalizações: a que resulta de um desdobramento na- tural do aprofundamento da interde- pendência internacional, e constitui-se em um tema universal de interesse glo- bal da humanidade, com enfoque nos direitos humanos; a que corresponde a uma realidade, sobretudo econômica3 , que aprofunda os riscos e as assime- trias entre os países ricos e países em desenvolvimento, e, por essa via, iden- tifica-se com um mecanismo de mun- dialização das culturas. Globalização e exploração sexual de crianças e adolescentes UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Apesardas diferentes interpreta- ções, podemos inferir que se tornou menos nítida a linha que separa cada uma de suas significações, na vivência em sociedade. Neste estudo, vamos dar ênfase à análise das relações4 que se constro- em e se transformam sob o impacto da globalização, na vida social de cri- anças e adolescentes, em situação de ESCCA, no Brasil. Definimos a ESCCA como uma re- lação de mercantilização (exploração/ dominação) e abuso (poder) do corpo de crianças e adolescentes (oferta) por exploradores sexuais (mercado- res), organizados em redes de comer- cialização local e global (mercado) ou por pais ou responsáveis e por consu- midores de serviços sexuais pagos (de- manda). Assim, cabe aprofundar, em um primeiro momento, como este merca- do movimenta o comércio de crianças e adolescentes para fins de explora- ção sexual comercial. E, em um se- gundo momento, estabelecer as rela- ções que vão emergindo, com o obje- tivo de desvendar a questão da violên- cia sexual e suas relações entre a esfe- ra privada da família e o privado com fins lucrativos, que, no nosso entendi- mento, nos remete a um feixe de rela- ções complexas e de múltiplas deter- minações. A lógica da globalização do mer- cado se expressa, de um lado, por me- io das forças globais e, de outro, por meio da reestrutura econômica e as conseqüências sociais nos países cen- trais e periféricos, de forma articulada: desemprego estrutural, rebaixamento salarial crescente, desigualdades e migrações. Por último, se expressa através das mudanças e enfraquecimento visível nas relações sindicais e nos sistemas de negociação e desenraizamento das atividades econômico-indústriais, pro- vocando profundas transformações na base da vida social. Ao lado deste cenário de transfor- mações econômicas, observamos a fragilização dos estados nações, in- centivada pelo Consenso de Washin- gton, em 1998, que determinou me- didas de ajuste neoliberal.5 Medidas es- tas que levaram os países periféricos e semi-periférico a aumentar seu déficit social. Este modelo de globalização neo- liberal acirra a crise entre capital e tra- balho. E, em primeira instância, quem sofre, de forma direta, o impacto so- cial desta crise é o trabalhador, que, sob a égide da quebra de “contratos sociais” e de direitos, se vê compelido a vivenciar experiências de sobrevi- vência que recriam velhas e novas for- mas de precarização das relações de trabalho, no capitalismo. É nesta perspectiva que o processo de flexibilidade atinge não só as rela- ções de trabalho masculino, mas, so- bretudo, o feminino e infantil, através da inclusão da mão-de-obra desta po- pulação, em sistemas informais precá- rios e em sistemas clandestinos e do crime organizado. Situação que leva não somente à submissão do traba- lhador a situações de vulnerabilidades e riscos sociais, como ao trabalho for- çado, explorado, escravo e ao exter- mínio.6 Este novo cenário de crise, no mun- do do trabalho, vai refletir diretamen- te nas relações familiares. A desterrito- rialização (via processos migratórios) gradual ou geral dos membros da fa- mília atraídos para frentes de traba- lho7 , nas regiões rurais, de fronteiras, litorâneas e urbanas ou para outros países, inclui mulheres e crianças no mercado de trabalho sob condições precárias, dentre outras situações de exploração e violência. O acirramento social vai proporcio- nar, dentre outras situações, a fragiliza- ção da família por meio do abandono precoce do “gestor” das responsabili- dades paternas, o abandono dos filhos em relação ao convívio do lar, da esco- la e de outras relações de sociabilida- de. Vai proporcionar, também, o afas- tamento da mãe do cotidiano do lar. Na verdade, as transformações que este modelo opera, no âmbito da família, determinam novas relações. Relações estas difíceis de serem dige- ridas dentro da família, especialmente por parte das crianças e dos adoles- centes, tais como: conviver com a tro- ca de parceiros dos pais e o conflito que gera dentro da família, alcoolis- mo, drogadição, experiências sexuais precoces e insalubres, violências se- xuais, prostituição e tantas outras rela- ções que vulnerabilizam social e pe- dagogicamente este segmento. Além dos conflitos familiares, agre- gam-se outros conflitos gerados nas relações externas que estas crianças constroem, em outros meios sociais (rua, gangues, grupos de tráfico), em detrimento do acirramento da situação social e interpessoal da sua família. Essas crianças terminam virando presas fáceis para o mercado do crime e das redes de exploração sexual. Re- crutadas e aliciadas pelos explorado- res, se deixam enganar por falsas pro- 8 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil O processo de flexibilidade atinge não só as relações de trabalho masculino, mas, sobretudo, o feminino e infantil, através da inclusão da mão-de-obra desta população, em sistemas informais precários e em sistemas clandestinos e do crime organizado.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 9 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil messas e artigos de consumo, dirigi- dos aos desejos da infância e adoles- cência. Essas crianças e adolescentes acei- tam se submeterem a uma ordem perversa de trabalho, já não só pela necessidade material, mais por dese- jos de consumo imputados pelos mei- os de comunicação e pela lógica con- sumista da sociedade capitalista, re- produzida pelo seu grupo de pertenci- mento. De fato, o modelo de globalização de mercados expande a idéia do con- sumo como meio de inserção social, estilo de vida, status quo, veicula atra- vés dos meios tecnológicos de comu- nicação e informação uma sociedade de marcas, onde a mesma vai buscar se identificar e fortalecer relações de discriminação de classe, de estilos ur- banos e comportamentos sóciocultu- rais, capazes de despolitizar as dife- renças e recriar respostas violentas e bárbaras para os conflitos. Nesta perspectiva, a produção não só proporciona o objeto de consumo8 e determina sua forma, mas também cria continuamente novas necessida- des de consumo. A produção globali- za o objeto, a forma e o desejo de consumir. Por sua vez, o consumo cria a necessidade de novas produções, acentuada pela influência da publici- dade e do marketing na opinião pú- blica da população. Na verdade, o consumo reflete uma das hibridações culturais que acompanham a globali- zação dos mercados e os comporta- mentos de consumo. É da natureza do mercado cons- truir estratégias de disponibilizar ao consumidor, através do comércio, uma variedade de produtos e bens de consumo, elaborados pela força de trabalho humano (seja assalariada/ex- plorada ou escravizada) e pelo recru- tamento forçado do trabalho infantil. Também disponibiliza a venda da prestação de serviços, inclusive os se- xuais, e, de acordo com as transforma- ções do capital, o mercado expande- se e diversifica-se. Nesta direção, vimos que a crise não inviabiliza o consumo, à medida que o mercado oferece uma varieda- de de produtos dirigidos a diferentes classes sociais e a diferentes preferên- cias e estilos culturais urbanos. Portanto, o mercado vende o pro- duto e a idéia que está contida nele, isto é, o que simboliza as experiências de vida das classes e grupos sociais, resignificado pela razão mercantilista e devolvido para o consumidor atra- vés de marcas - quase como um rito de passagem - o que vem a formar, no imaginário social, uma idéia falsa e/ ou alienada de possibilidade de reali- zação de experiências, sonhos e aspi- rações sociais e culturais por parte das classes e grupos, via o acesso a estes produtos. Transformam a prática do consumo numa espécie de afirmação de identi- dade burguesa, de “liberdade” e de “inclusão social” do cidadão, despoliti- zando a crítica de algo absolutamente desigual, híbrido e contraditório, que são as relações de consumo na socie- dade capitalista contemporânea. Nestas relações, está implícita uma revalorização do individualismo que pode se transformar em referências de justiça e ordem, inspirando os gru- pos de jovens, por exemplo, à forma- ção de sociedades anônimas e com estruturas de organização de crime or- ganizado. Nesses termos, temos clareza de que o modelo de globalização neoli- beral vigente reduz não somente o di- reito do consumidor, como desesti- mula escolhas e preferências culturais e de estilos de comportamento socie- tários éticos e solidários, como tam- bém exclui os trabalhadores, pré e pós-contratuais de seus direitos tradi- cionais, acentuando a pobreza, as de- sigualdades sociais, os desastres eco- lógicos e a emergência de novas for- mas de exploração e violência, no interior da sociedade. São estas práticas que reproduzem diferentes “soluções” que acirram o colapso das regras e dos valores civili- zatórios na sociedade, produzindo re- lações de violência e barbárie9 , em suas múltiplas facetas, como a que se expressa através da mercantilização da sexualidade infanto-juvenil. Argumentando sobre este cenário de violência, Soares (2000) afirma que é necessário reconhecer a falên- cia da legitimidade do Estado e apon- ta que uma característica cultural en- trelaça-se com ênfase na dominação de classe, de gênero, raça, etnia e no fenômeno de relações tradicionais, e de sua substituição incompleta por um sistema de relações individualista, estruturado pelo mercado e por prin- cípios universalistas e igualitários de política e cidadania. Tanto a resposta à violência sexual, quanto àquela que fortalece os direitos dos sujeitos em situação de violência sexual, é resultante de relações contra- ditórias que emergem da própria socie- O modelo de globalização neoliberal vigente reduz não somente o direito do consumidor, como desestimula escolhas e preferências culturais e de estilos de comportamento societários éticos e solidários, como também exclui os trabalhadores, pré e pós-contratuais de seus direitos tradicionais.
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    dade, e é,nesse contexto, que o movi- mento de mulheres, crianças e adoles- centes aliado ao movimento mais amplo da sociedade civil busca frear a lógica violenta do mercado, do Estado e de setores da sociedade, em relação à sexualidade infanto-juvenil. Sexualidade e direito: o contraponto à violência sexual Globalizar os direitos e o desenvol- vimento social de crianças e adoles- centes é o fundamento ético do en- frentamento à exploração sexual co- mercial de crianças e adolescentes, em nível nacional e internacional. Os instrumentos normativos e as agendas políticas nacionais e interna- cionais conferem um texto político à ESCCA10 , enfatizando a dimensão dos direitos humanos como concepção guia para as políticas sócio-econômi- cas enfrentarem o fenômeno. Examinando o processo de mobili- zação do setor jurídico, em relação à defesa dos direitos da criança e do adolescente, observamos que há ain- da, por parte dos legisladores, uma tendência na direção de uma releitura da legislação sobre crimes sexuais, privilegiando a adoção de medidas repressivas, por meio do aumento de pena.11 A ESCCA é um tipo de violência sexual que não pode ser entendida como uma ação localizada, como ato puro do crime. Ela deve ser vista, so- bretudo, como uma questão social. Desta forma, faz-se necessário desmistificar, também, as noções de vítima e de consentimento, por enten- dermos que são expressões tomadas de sentimentos moralistas e repressi- vos, que fortalecem uma análise mecânica e particularista da violência sexual contra crianças e adolescentes. As formas agudas de violência con- tra crianças e adolescentes não consti- tuem em um fenômeno novo da so- ciedade. No entanto, a visibilidade da violência e a atribuição do ECA/90 às crianças e adolescentes como são sujeitos de direito são uma experiência recente na história brasileira. Esta nova concepção vai buscar modificar uma cultura de inferioridade-subordinação, sobre a qual a violência se manifesta, cresce, se legitima e se consolida. O ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente do Brasil, Lei Federal 8.069, de 1990 - constitui instrumento único no contexto latino-americano. Pela primeira vez, uma lei para a infân- cia rompe radicalmente com os postu- lados da chamada doutrina da situa- ção irregular, adequando seu texto e espírito à doutrina conhecida como a da Proteção Integral das Nações Uni- das para a Infância (Convenção Inter- nacional, Regras de Beijem, regras mí- nimas para os jovens privados de liber- dade etc). (Méndez, 1998, p. 30). No entanto, a absorção da noção de direito pelo conjunto da sociedade não é algo simétrico, o que exige um processo contínuo de debate público sobre a matéria, com vistas a criar a cultura de direito tão pouco vivencia- da pela sociedade brasileira. Nesta perspectiva, vamos indagar se a atual legislação12 acerca da maté- ria atende ao que preceitua o disposi- tivo constitucional em apreço. Exami- nemos o conteúdo da legislação pe- nal, no que concerne a esse tema. Quando se trata de crimes contra os costumes, o Código Penal brasilei- ro presume a violência, quando a víti- ma for menor de 14 anos, o que leva ao agravamento das penas. Com respeito ao crime de estupro, Art. 213, do Código Penal brasileiro, e Art. 263, da Lei nº 8.069, de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, acrescentou-se um parágrafo único, agravando a pena, quando o estupro for cometido contra menor de 14 anos. Posteriormente à Lei 8.072 do 10 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Faz-se necessário desmistificar, também, as noções de vítima e de consentimento, por entendermos que são expressões tomadas de senti- mentos moralistas e repressivos, que fortalecem uma análise mecânica e particularista da violência sexual contra crianças e adolescentes.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 11 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil mesmo ano, que classificou e discipli- nou os crimes hediondos, estabelece- ram, no Art. 6º, um agravante e uma causa de aumento de 50% da pena, nas hipóteses de estupro praticado contra as pessoas descritas no Art. 224, do Código Penal brasileiro, entre as quais se encontra a adolescente menor de 14 anos de idade. A mesma situação ocorre com rela- ção ao crime de atentado violento ao pudor (Art. 214, do CPB). O Estatuto da Criança e do Adolescente criou um agravante, no caso de a vitima ser me- nor de 14 anos de idade, enquanto a Lei dos Crimes Hediondos, além des- se, estabeleceu causa de aumento da pena. Entretanto, deixou-se de fora a hipótese em que a vitima seja menor, com idade entre 14 e 18 anos. Quanto aos crimes de corrupção de menores, há que se destacar aque- le previsto no Art. 218, do CPB, que tra- ta da corrupção com fins libidinosos, daquele tipificado na Lei nº 2.252/54, cuja conduta típica consiste em cor- romper ou facilitar a corrupção de me- nor de 18 anos, com ele cometendo infração penal ou induzindo-o a prati- cá-la. Contudo, essa tipificação penal re- fere à pessoa maior de 14 e menor de 18 anos. Logo, se menor de 14 anos de idade for levado a presenciar a prá- tica de ato libidinoso, não há crime, o fato é atípico. Quanto ao crime de le- nocínio e tráfico de pessoas, o Art. 229, do CPB, não aborda o problema da ví- tima menor de 18 anos, ao se tratar de casa de prostituição. Quanto ao tráfico de crianças e ado- lescentes, a legislação brasileira tem considerado a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Transnacional Organizado (2000)13 e seu Protocolo para a prevenção, repressão e puni- ção do tráfico de seres humanos, es- pecialmente, mulheres e crianças (Protocolo de Palermo); os artigos 231 (tráfico internacional de mulheres para fins de prostituição), 227, 228 e 229 (as diversas formas de lenocínio), do Código Penal Brasileiro; e o artigo 244-A (submissão de crianças e ado- lescentes à prostituição e à exploração sexual), do Estatuto da Criança e do Adolescente. A dimensão legal (séc. XX) consti- tui-se em uma noção e instrumento fundamentais do Estado de direito (Constituição de 1988), para estabele- cer estratégias de repressão e respon- sabilização dos crimes cometidos con- tra crianças e adolescentes. Sabe-se que é histórica, no imaginário da so- ciedade, a importância da responsabi- lização do agressor ou violador dos di- reitos, frente ao crime que comete. No entanto, as instituições jurídicas têm demonstrado muitas contradições e falhas no seu sistema de repressão e responsabilização, em função do au- toritarismo e da burocracia, sendo a mais grave a impunidade, a exemplo do massacre das crianças de Cuiú- Cuiú, no Pará, os massacres de Ca- randiru e Vigário Geral e os massacres dos trabalhadores sem-terra, em Co- rumbiara (RO). Todos impunes! Acrescente-se à questão a aplica- ção da lei e imputação à coexistência de uma cultura da corrupção, impreg- nada no sistema burocrático das insti- tuições, pela existência de profissio- nais ligados às redes de contravenção, favorecendo a impunidade dos cri- mes, já citados anteriormente, da ex- ploração sexual comercial de crianças e de adolescentes, entre outros. Se, por um lado, essa instituição sofre com a existência de micropode- res envolvidos com a corrupção, tam- bém coexistem setores que lutam pe- lo estabelecimento da Justiça e da Éti- ca. Cresce o número de legisladores que estão estudando mudanças para o Código Penal Civil, a própria promul- gação do ECA-90 e de outras normati- vas nacionais e internacionais, que se constituíram como discurso hegemô- nico (legitimador dos direitos huma- nos), no combate à exploração sexual comercial e ao abuso de crianças e adolescentes. A sociedade tem se mobilizado, no sentido de que o discurso legal não se constitua apenas na repressão, mas em um conjunto de medidas preven- tivas e de desmobilização da ação do agressor, nos locais onde se estabele- ce o conflito (família, comunidade, escola, trabalho, rua e mercado), para o enfrentamento do abuso e da explo- ração sexual. É neste cenário de razões contradi- tórias14 que vamos mergulhar no fenô- meno da ESCCA, na perspectiva de desvendar como a sociedade tenta re- solver conflitos de natureza sexual, a partir de suas diferentes formas de vi- venciar a sua sexualidade e o direito a exercê-la plenamente nas sociedades contemporâneas. O reverso da situação de violência sexual, especialmente a tipificada co- mo ESCCA, estaria, grosso modo, na quebra da oferta e da demanda para o consumo de serviços sexuais de crianças e adolescentes, com vistas a desestimular esta prática, pois enten- demos que se faz necessária uma re- lação de respeito ao direito à infância de vivenciar sua sexualidade sem vio- lências. É fato comprovado que existe um As instituições jurídicas têm demonstrado muitas contradições e falhas no seu sistema de repressão e responsabilização, em função do autoritarismo e da burocracia
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE12- Ano XII, Nº 29, março de 2003 mercado vendendo o corpo de crian- ças e adolescentes (em sua maioria, do gênero feminino e de classes po- pulares e médias) para fins sexuais para uma demanda consumidora (em sua maior parte masculina), com pre- ços acessíveis a diferentes classes so- ciais, preferências sexuais, cor, etnia, religião. Portanto, existe uma deman- da potencial para consumir serviços sexuais de crianças e adolescentes. Esta prática, geralmente, é clandes- tina, ilegal, portanto fere os direitos de crianças e adolescentes prescritos pelo ECA/90. Porém, é raro não existir um comércio deste em alguma localidade, que não se tenha notícia em algum meio de comunicação (anúncios de jornais, cardápios, folder de turismo, etc.) ou através de informações entre pessoas, ou mesmo sendo oferecido livremente nas ruas pelas próprias crianças ou adolescentes. Neste caso, o fenômeno é de co- nhecimento de “todos”, porém não é visível no debate público e institucio- nal. Este fica submetido ao âmbito da esfera íntima da família ou da esfera privada do mercado. É raro encontrar estatísticas ou informações estrutura- das na rede de notificação de violações de direitos de crianças e adolescentes e é raro, também, encontrar denúncias por parte da família ou da própria víti- ma junto a estes órgãos. Seja por medo, vergonha ou coação, seja por- que são desencorajadas pela postura conservadora e moralista das institui- ções, ao se depararem com o caso. No entanto, os funcionários destas instituições podem ser fregueses des- tas redes de comercialização de sexo infanto-juvenil, portanto são poten- ciais consumidores. É fato, também, que o mercado local convive com o comércio sexual de crianças e adolescentes. Faz suas trocas comerciais com estes estabele- cimentos e, muitas vezes, compra os serviços sexuais oferecidos. Além dis- so, estes estabelecimentos recebem, em muitos casos, o alvará de licença pelas administrações regionais. Outra situação curiosa é que dificil- mente a polícia local, quando realiza um flagrante nessas casas, não encon- tram um documento que comprove a existência de pessoas que trabalham no recinto, menores de 18 anos. No entanto, existem várias denúncias de falsificações de documentos, o que nos incita a pensar que este comércio tem relação com a corrupção e o cri- me organizado. Revela, ainda, que o mercado do sexo infanto-juvenil convive entre a le- galidade e a ilegalidade, na esfera do poder local. Esta descrição sintética sobre os feixes de relações que constroem a re- de de comercialização do sexo, confir- ma uma profunda rejeição da socieda- de de conceber a sexualidade como direito. E nega que a criança e o ado- lescente sejam sujeitos de direitos, contrariando o próprio ECA/90. Estas relações e comportamentos contraditórios da sociedade moderna reafirmam as práticas e concepções re- pressivas, moralistas e vitimizadoras, investidas contra os segmentos infan- to-juvenis, na história da humanidade15 . Estas contradições demonstram, ainda, tanto uma aceitação pela socie- dade da existência do fenômeno, quanto de sua omissão, pois quase to- dos os setores têm um consumidor da sexualidade infanto-juvenil. Tanto é verdade que o mercado, ao racionali- zar o sexo através da mercantilização, busca sua inspiração na demanda da sociedade por sexo com crianças e adolescentes. “Foi identificada na BR-230 (Paraí- ba) uma nova rota da prostituição infan- til que inclui Patos, Campina Grande e João Pessoa. Foi surpresa encontrar, no rol de seletos clientes, inúmeros políticos, juízes e comerciantes de Patos e das re- dondezas. Pior: o envolvimento dessas “autoridades”, que deveriam criar políti- cas juvenis, é um dos maiores entraves para o andamento das investigações” (Folha de São Paulo,29.04.02). O corpo infanto-juvenil é mais um produto colocado no mercado globali- zado do sexo, onde o marketing e a publicidade, de um modo geral, en- carregam-se de fabricar, no caso brasi- leiro, a imagem da mulher jovem e mulata, direcionada, por exemplo, pa- ra o turismo sexual e a indústria do consumo. Geralmente, a imagem produzida cristaliza a erotização da forma explíci- ta ou subliminar, por meio de ícones e símbolos que representam uma inge- nuidade ou pureza da infância e juven- tude na televisão, outdoor, internet etc. Hoje, diariamente, na televisão, nos outdoors, nas mensagens publicitárias, a nudez feminina virou produto de pri- meira necessidade. A criatividade foi sendo substituída pelo culto ao “tchan”. O apelo das “popozudas”, mensagem central de alguns sites, transformou ônibus urbanos em painéis ambulan- tes (Di Franco. In: Estado de São Paulo, 19/03/01). A erotização, segundo Giddens (1996), pode fortalecer, nas socieda- des machistas, desejos que vão se in- ternalizando de tal maneira que é pre- ciso descarregar a energia erótica nu- ma dada prática sexual. Para o que, historicamente, era realizado em pros- tíbulos, existem, hoje, outros estabele- Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil O mercado do sexo infanto-juvenil convive entre a legalidade e a ilegalidade, na esfera do poder local.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 13 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil cimentos e formas sofisticadas, envol- vendo crianças e adolescentes, como a pornografia na internet; o turismo sexual (folder, book etc.), os classifica- dos de jornais e outros meios de co- municação, ligados em redes globali- zadas do sexo, se constituem em ver- dadeiros espaços de busca sexual e erotismo. Há, portanto, um processo de so- fisticação da produção da imagem in- fanto-juvenil erotizada, através de pe- ças publicitárias, distribuídas no meio turístico e nas redes de diversão, con- forme denunciou o ECPAT, no Con- gresso de Estocolmo, em 1996. As estruturas simbólicas revestem- se de valores, em que as relações de violência sexual encontram suporte ideológico para justificar a existência das redes de exploração sexual de cri- anças e adolescentes. Mediada por ra- zões de natureza social, interpessoal e comportamental, a tendência dessa concepção é de atribuir à criança e ao adolescente, especialmente do sexo feminino, a culpa pelo abuso e a ex- ploração sexual cometidos contra eles, e/ou a família. A cultura tradicional estabelece valores e mantém tabus que delimi- tam a maneira de expressar a sexuali- dade de seu povo. Além disso, há for- tes sentimentos mistos, preconceitos, concepções errôneas em relação à masturbação, virgindade, menstrua- ção e outras, mas algumas coisas são comuns a quase todas as mulheres ocidentais: a diferença de gênero, dos papéis masculino e feminino, é uma delas, e o tabu do incesto é outra (Ve- rardo, 2000, p. 51). Qual é a prática ideológica que estigmatiza esses sujeitos? O apar- theid, a discriminação social, de raça, de gênero e também de orientação sexual. A mídia, o marketing e a publi- cidade são veículos de fortalecimento da estigmatização desses sujeitos, através da construção de espaços sim- bólicos e imaginários de construção da violência. Os discursos institucionais (médi- co, jurídico e outros), ainda, fortale- cem a idéia da sexualidade como algo a ser resolvido no âmbito privado. Es- tabelecer a prática do sexo, do prazer e do desejo fora da relação familiar constitui-se, ainda, um fator de rejei- ção, estimagtização e de isolamento social. Nessa perspectiva, se a sexuali- dade ocorrer fora do esquema aceito pelas instituições de controle social, os sujeitos podem sofrer sanções e punições violentas das instâncias da sociedade. É por isso que a igreja, através da legislação eclesial, tratou a prostitui- ção como uma transgressão sexual. E quem a praticasse era excomungado pela igreja e obrigado a submeter-se a um processo de purificação da alma e do corpo, sendo essas pessoas consi- deradas objeto excreto da sociedade, o que vem descortinar a relação entre sexualidade e repressão16 , como vetor importante na compreensão da exis- tência de lugares onde a sexualidade é exercida pela sociedade. A questão da sexualidade torna-se mais complexa quando se refere a crianças e adolescentes e quando es- sa relação se constitui em violência sexual com os seguintes desdobra- mentos: o recente reconhecimento da criança e do adolescente, enquanto sujeito em processo de desenvolvi- mento biopsicossocial e de direitos; o desigual reconhecimento das diferen- tes relações que uma criança ou ado- lescente vivenciam com o seu corpo e com sua sexualidade, no contexto de gênero/diversidades/etnia e raça; o deslocamento da questão para o âm- bito do privado, ou seja, da família; a repressão e o patriarcalismo como instrumento de poder de decisão do uso de força e sedução para o abuso da sexualidade infanto-juvenil (violên- cia e violação sexual) pela família, pe- lo mercado e pelas instituições. Gênero e raça: construções sociais emancipatórias17 Consideramos, também, que a ESSCA é um fenômeno que deve admitir três ei- xos analíticos: classe, gênero e raça18 . Estabelecer a prática do sexo, do prazer e do desejo fora da relação familiar constitui-se, ainda, um fator de rejeição, estimagtização e de isolamento social.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE14- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil O comportamento violento da so- ciedade em relação às mulheres, crianças e negros deu as bases à cons- trução do círculo de violência social. E o contraponto a esta violência é a construção da concepção de classe, gênero e raça, pois são categoria so- cialmente construídas para a emanci- pação da condição feminina e da con- dição racial. A categoria gênero não é uma construção abstrata, mas produto das relações e lutas contraditórias entre mulher e homem através dos séculos. No século XIX, as questões relaciona- das à mulher eram “resolvidas” ou “negociadas” no espaço privado da fa- mília. A construção histórica do con- ceito de gênero é, portanto, uma res- posta pública a esse sistema de valor que operava no âmbito privado da sociedade. A literatura sobre gênero, sobretu- do, relacionado aos movimentos femi- nistas, aponta uma agenda comum de reivindicações: qualidade de vida, direi- tos reprodutivos e respeito às diferen- ças sociais, na equação gênero, e repú- dio à violência sexual por discrimina- ções de comportamentos sexuais. A passagem do sistema mercantil à nova economia global nos traz uma reflexão fundamental para desmistifi- car que a construção da violência se- xual, no contexto de gênero, tenha nascido fora de uma construção histó- rico-social. Pautar essa discussão, a partir de uma análise da formação econômica e política das raízes brasi- leiras e dos valores morais da socieda- de, é imperativo para observar que a mercantilização do sexo tem suas ori- gens nos sistemas mais tradicionais e se refletem também no mercado do sexo globalizado. O racismo é outra forma de a vio- lência materializar-se na relação de exploração sexual. É uma relação de poder de um grupo em relação a ou- tro, significativa da preferência por um, em detrimento do outro, em base racial e étnica, resultante de transfor- mação do preconceito racial e/ou et- nocêntrico, através do exercício do po- der contra um grupo racial diferencia- do como inferior, por indivíduos e ins- tituições, com apoio institucional ou não de toda a cultura (Bertulio, 1989, p. 16). Além dessa visão do racismo en- quanto relação de poder, Otávio Ian- ni19 articula a perspectiva de classe, segundo a qual se atribui importância maior a um dos elementos, para ana- lisar a situação de discriminação racial e de classe. Adultos e, especialmente, crianças e adolescentes de classes sociais po- bres, negros, índios, mulheres envolvi- dos em exploração sexual sofrem es- tigmatização e exclusão pela socieda- de. E aí está uma das dificuldades do reconhecimento do fenômeno. Segundo Erikson (1976), o perma- nente estado de estigmatização de um grupo social leva-o a crer que é exatamente como está sendo rotula- do, gerando um apartheid sócio-ur- bano, em que se constroem e são constituídas lógicas distintas, em terri- tórios diversificados, em que a relação de poder se manifesta numa clara relação de conflito, seja entre policiais, gigolôs, colegas, dentre outras. Para compreender a dimensão dos valores, cabe remetê-la à análise do processo econômico de mercantiliza- ção das relações sociais, em quase to- das as sociedades, prevalecendo a lógi- ca de mercado e o fetiche do consumo. Nessa direção, pensar a dimensão dos valores significa desconstruir o discurso/imagem do abuso e da ex- ploração sexual/erótica de crianças e adolescentes, especialmente do sexo feminino, veiculados e cristalizados transculturalmente pela massmídia, que favorece a formação de um ima- ginário que fortalece a idéia da sexua- lidade e sensualidade infanto-juvenil para fins de exploração comercial (pornografia e pedofilia). Discutir as questões de valores, no conjunto da sociedade capitalista, para entender as mutações na exploração Crianças e adolescentes de classes sociais pobres, negros, índios, mulheres envolvidos em exploração sexual sofrem estigmatização e exclusão pela sociedade.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 15 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil sexual comercial, exige a compreensão de como a sociedade contemporânea reproduz as relações sociais e a pró- pria subjetividade. Para Leal & César (1998), nas relações capitalistas, o se- xo é, ao mesmo tempo, um valor de uso e um valor de troca e passa a ser um bem mercantilizado, um intercâm- bio comercial. De forma globalizada, isso só poderia existir se houvesse um imaginário que o legitimasse, mesmo de forma contraditória. Assim, os conceitos de classe, gê- nero e raça são construções sociais que consolidam a crítica à razão mo- derna conservadora e repressora que, hegemonicamente, têm remetido a sexualidade aos porões das relações privadas, cujo lugar historicamente fa- voreceu as relações de dominação e poder de pobres frente aos ricos, brancos contra negros e índios, ho- mens contra mulheres e adultos con- tra crianças. Naturalmente, a resposta pública do conjunto de atores sociais que aquecem a luta contra a violência se- xual, passa pelo amadurecimento de um projeto societário fundado no res- peito às diferenças e opções sexuais, trazendo para o político a sexualidade e suas diferentes manifestações como experiências relativas ao direito ao pleno prazer, ao desejo e as realiza- ções afetivas, como afirmações que desconstroem a violência sexual. Construindo uma cidadania global para enfrentar a ESCCA O enfrentamento da ESCCA, no Brasil, é resultado de uma construção da cidadania global20 e local em que a participação das Ongs, conselhos, centros de defesas, fóruns e movi- mentos de mulheres, crianças e ado- lescentes têm um papel estratégico de mobilizar as forças políticas nacionais e internacionais de baixo para cima para desconstruir a violência sexual e reinventar uma outra globalização vol- tada para a defesa dos direitos e para o desenvolvimento dos sujeitos, em situação de vulnerabilidade social. A primeira tarefa que este movi- mento desempenhou em defesa de mulheres, crianças e adolescentes em situação de ESCCA, foi o de agendar esta questão na esfera do poder públi- co brasileiro, através de denúncias realizadas pelas CPIs do extermínio de meninos e meninas de rua, em 1991; da violência contra mulher em 1992; da CPI da prostituição infanto-juvenil, em 1993. Esses fatos foram bastante veiculados pela mídia e fortalecem ini- ciativas mais organizadas da socieda- de civil, no combate à exploração se- xual e abusos, junto ao grupo infanto- juvenil. Essa mobilização tomou corpo po- lítico e se traduz em diferentes formas de organização da sociedade, com vis- tas a ampliar seu potencial de sensibi- lização das esferas do legislativo, do governo, da sociedade civil e do prota- gonismo infanto-juvenil, na direção da implantação e implementação de um Política de Enfrentamento da Violên- cia Sexual, no Brasil.21 O grande desafio deste movimen- to é fortalecer as articulações das re- des22 de enfrentamento local, para implantar e implementar o Plano Na- cional de Enfrentamento da Violência Sexual de Crianças e Adolescentes, nos estados e municípios, com o obje- tivo de agendar a questão da ESCCA, no âmbito das políticas sociais, estra- tégia para desmobilizar as redes locais e transnacionais de comercialização do sexo infanto-juvenil. As redes de serviços privados mer- cantis não participam deste processo de mobilização para o enfrentamento do fenômeno, pelo contrário, essa participação é ainda muito tímida, o que nos parece grave já que este setor desempenha, em muitas situações, o papel de facilitador da ESCCA, através das redes comerciais de favorecimen- to da exploração sexual comercial. Além disso, essas redes desenvolvem uma prática clandestina, ilegal, que envolve sujeitos de redes formais (por exemplo, pais e policiais). Daí a importância de uma ação ar- ticulada de responsabilização dos ex- ploradores e a sensibilização e mobili- zação da sociedade como um todo so- bre o fenômeno da ESCCA, na esfera do poder local, em razão da oferta e da demanda para os serviços sexuais. Portanto, para traçar o perfil da mobilização social, nas diversas regi- ões, faz-se necessário estabelecer uma análise de conjuntura política (direção política local, o cenário políti- co, os acontecimentos, a identificação dos atores sociais, as alianças políticas e a correlação de forças), de estraté- gias da sociedade civil (a mobilização e a articulação) e do impacto destas estratégias, no contexto da democrati- zação e da cidadania local. O ECA prevê a mobilização social, no inciso VI, institui a mobilização so- cial e a opinião pública da sociedade civil (ONGs), as instâncias públicas co- participativas (conselhos) e demais órgãos públicos do sistema de garan- tia de direitos (ECA-90), ou seja, o me- canismo público de democratização dos direitos sociais está juridicamente Os conceitos de classe, gênero e raça são construções sociais que consolidam a crítica à razão moderna conservadora e repressora que, hegemonicamente, têm remetido a sexualidade aos porões das relações privadas
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE16- Ano XII, Nº 29, março de 2003 previsto em lei. Nessa perspectiva, faz-se necessário articular criticamente as velhas e novas formas de a sociedade civil mobilizar as organizações sociais para construir espaços públicos de democracia e re- presentação política na luta pela con- quista dos direitos sociais e humanos de crianças e adolescentes, em situa- ção de violência sexual, sem cair nas ar- madilhas do ajuste neoliberal23 . Podemos considerar que o proces- so de mobilização social representa a principal estratégia da sociedade civil para o enfrentamento da violência se- xual contra crianças e adolescentes. Nesse contexto, vale destacar as ONGs, os movimentos, fóruns, conse- lhos e CEDECAs como protagonistas da mobilização social do Legislativo, do Judiciário, do Executivo, da mídia e das organizações internacionais, na luta pela inclusão da violência sexual contra crianças e adolescentes na agenda pública brasileira. Alguns resultados foram obtidos nestes últimos sete anos: * adoção, pelo movimento local e global, de enfrentamento do fenôme- no da concepção de violência sexual (abuso e exploração sexuais comer- cial) de crianças e adolescentes como uma violação fundamental dos direi- tos humanos e um crime; * caracterização da violência sexual como fenômeno multidimensional, multifacetado e complexo, com fato- res determinantes de ordem política, sócio-econômica, cultural, jurídica e psicológica; * maior articulação e mobilização das redes regionais, nacional e inter- nacional em defesa das crianças e adolescentes violados sexualmente (End Child Prostitution, Child Porno- graphy and Trafficking of Children for Sexual Purposes - ECPAT, Bureau In- ternational Catholique de L´Enfance - BICE, Group for the Convention on the Rights of the Child-NGO, Organização Internacional do Trabalho - OIT, Save the Children, Fórum Social Mundial contra a globalização dentre outra arti- culações; * aporte financeiro a projetos para o enfrentamento da violência sexual pelas agências de cooperação interna- cional (OIT, Projeto Pommar-Usaid, Save The Children, WCF e UNICEF, en- tre outros); * implantação/implementação do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Ado- lescentes/2000 e dos Planos Estaduais, com perspectiva de articulação com o Plano Nacional de Erradicação e Com- bate ao Trabalho Infantil; * instalações de várias CPIs nos es- tados brasileiros; * maior visibilidade do fenômeno, graças às campanhas nacionais e esta- duais, aos eventos, congressos, ações de capacitação, organização de ban- cos de dados, pesquisas, publicações e envolvimento das universidades; * elaboração de leis e projetos de leis relativos aos crimes sexuais e for- talecimento da demanda por mudan- ças no Código Penal e no Civil para melhor identificação do fenômeno e aplicação da lei; * ampliação da participação dos jovens em situação de violência sexual no movimento de combate à violação dos seus direitos (“protagonismo” ju- venil); * sensibilização do governo federal e de alguns governos estaduais para o enfrentamento da violência sexual, através do Programa Sentinela, execu- tado pelo Ministério da Previdência e Assistência Social; do Programa Glo- bal de Combate e Prevenção ao Trá- fico de Seres Humanos, da Secretária de Justiça/Ministério da Justiça e da Rede de Informação sobre Violência, Abuso e Exploração Sexual de Crian- ças e Adolescentes - RECRIA/MJ; * criação do Comitê Interinstitucio- nal de Enfrentamento da Violência Sexual de Crianças e Adolescentes pe- O processo de mobilização social representa a principal estratégia da sociedade civil para o enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 17 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil la sociedade civil (Fórum DCA); * ampliação das boas práticas de intervenção metodológicas desenvol- vidas pelas ONGs, no enfrentamento da violência sexual; e * fortalecimento da articulação en- tre os movimentos de crianças e ado- lescentes, de mulheres, de trabalha- doras do sexo, de raça e etnia. O grande desafio deste movimen- to de mobilização para o enfrenta- mento da ESCCA (prostituição, turis- mo sexual, pornografia e tráfico para fins sexuais) é construir uma nova ra- cionalidade com bases democráticas que transforme as relações de violên- cia sexual, em relações sociais, capa- zes de satisfazer as necessidades de prazer/desejo e sexo dos cidadãos, a partir da construção de uma cidadania que desenvolva o direito a uma sexua- lidade emancipada e o reconhecimen- to, em nível global, do direito dos in- fantes e jovens a vivênciar a sua se- xualidade protegidos dos abusos e da exploração. É apostando nessa concepção e nas formas estratégicas que este mo- vimento possa eleger que será possí- vel desmobilizar a cultura da violência e da exploração sexual comercial que se enraíza, historicamente, nas rela- ções interpessoais, sociais, culturais e de mercado e subsidiar as políticas so- ciais para seu enfrentamento. Portanto, é urgente fortalecer a mobilização política e intelectual, ru- mo a um projeto societário que articu- le com as esferas das liberdades eco- nômicas, de expressão e da sexualida- de, no contexto da luta pelos direitos humanos, privilegiando a participação de jovens, mulheres e homens na construção de uma das mais impor- tantes conquistas da humanidade, nas próximas décadas. Notas 1. Professora do Departamento de Servi- ço Social da Universidade de Brasília. Doutora em Serviço Social/PUC/2001, mestre em Co- municação, Fac/UnB/1992. Especialista em Saúde Pública, Fiocruz, 1986. Especialista em Políticas Sociais, SER/UnB/1984. 2. O Estatuto da Criança e do Adolescen- te- ECA/1990 define que a idade de 0 a 12 anos incompletos refere-se à criança e a ida- de entre 12 a 18 incompletos corresponde à faixa etária do adolescente. 3. Leia Otávio IANNI. A Sociedade Global. Rio da Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1999. 4. Tomo, como ponto de partida, a desig- nação de Boaventura de Souza Santos sobre globalização: consiste num conjunto de rela- ções sociais;conforme estes conjuntos de re- lações sociais se transformam, assim também se transforma a globalização. Para o autor, não existe uma entidade única chamada glo- balização; existem, antes, globalizações, e de- víamos usar esse termo apenas no plural. Por outro lado, enfatiza o autor que as globaliza- ções são feixes de relações, estes tendem a envolver conflitos e, conseqüentemente, ven- cedores e vencidos. Para o mesmo, a globali- zação é muito difícil de definir. A maior parte das definições concentram-se na economia, no entanto, Boaventura prefere uma defini- ção de globalização que seja sensível às di- mensões sociais, políticas e culturais. (p.4). 5. ...a implementação do programa de estabilização,ajuste e reformas institucionais, apoiada e promovida pelos governos nacio- nais e pelas agências financeiras internacio- nais:programa de privatizaçãoes, reduções de tarifas alfandegárias para importação, liberali- zação dos preços, política monetária restriti- va, redução de isenções e linhas de crédito, corte dos gastos públicos, liberalização fina- ceira e renegociação da dívida externa.” (MONTAÑO, 2002: 37) 6. Vide “Mulheres traficadas: sonhos, pe- sadelos e morte - Casos Exemplares. In Rela- tório PESTRAF. Brasília: CECRIA,2002. Anexos 7. Os projetos de desenvolvimento e cres- cimento econômico implementados nas re- giões, tais como: projetos de mineração, hi- drelétricas, assentamentos agrícolas, turismo, pesca dentre outros são responsáveis por estimular praticas de ESCCA , trabalho força- do, trabalho escravo e formas extrativistas de relacionar com o meio ambiente. 8. Leia sobre o papel do consumo e as al- ternativas pela sociedade civil, Giuseppe COCCO- In. Trabalho, Neoliberalismo e Socie- dade civil. p.22. 9. Para Eric Hobsbawm, existem dois sig- nificados ao termo Barbárie: o primeiro, a ruputura e o colapso do sistema de regras e de comportamento moral pelo o qual todas as sociedades regulam as relações entre seus integrantes e, em menor extensão, entre seus membros e os de outras sociedades; o se- gundo, a reversão do que podemos chamar projeto iluminismodo século XVIII, o estabe- lecimento de um universo de tais regras e padrões de comportamento moral, incorpo- rado nas instituições de Estado dedicadas ao progresso da humanidade - à vida, à liberda- de e à busca da felicidade, à igualdade e à fraternidade. (1989:16) 10. De acordo com a classificação do Ins- tituto Interamericado Del Ninõ-IIN/1988, a ESCCA se classifica em quatro modalidades: prostituição, turismo sexual, pornografia e tráfico para fins sexuais. 11. De acordo com o INESC, existem mais de 18 projetos de lei tramitando no le- gislativo referentes ao aumento de pena em relação a ESCCA e ao abuso sexual. 12. Para aprofundar essa notícia, vide Estudos do INESC, CPIs contra prostituição in- fanto-juvenil no Brasil (Nacional, DF, Paraná, Ceará, Mato Grosso do Sul, etc) e do CEDE- CA-BA. 13. Vide definição de tráfico - Termos do Protocolo de Palermo, art. 2° bis, alínea a. 14. Leia Leonardo Avritzer.Teoria crítica e teoria democrática do diagnóstico da impos- sibilidade da democracia ao conceito de esfe- ra pública. São Paulo: Novos Estudos, CE- BRAP,1999. 15. Vide Philippe ÀRIES - A história social da criança e da família. Rio de Janeiro: Gua- nabara, Koogan,1987. 16. Vide Marilena CHAUI. Repressão se- xual. São Paulo: Brasiliense, 1985. 17. Para o nosso estudo em questão, o conceito de emancipação estará sendo racio- nalizado pela a crítica que Souza Santos (2000) faz à lógica-moral-prática da ética e do direito enquanto discurso mediador da defesa dos direitos de crianças e adolescen- tes em situação de violência sexual, e o reco- nhecimento da torção nas lógicas de raciona- lidades, que compõe o pilar da emancipação e da regulação. 18. Vide Heleieth SAFFIOTTI. Gênero, Clas- se, Raça. São Paulo: Cortez, 1995. 19. IANNI, Octávio. Raças e Classes Soci- ais no Brasil.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE18- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil 20. Os eventos internacionais tais como: IV Conferência de Mulheres em Beijing/ (1995); a Consulta das Américas Contra a ESCCA, Bra- sília/Brasil (1996); o Congresso Mundial Con- tra a ESCCA, Estocolmo/Suécia (1996) e em Yokohama/Japão (2001); bem como a Con- venção da ONU Contra o Crime Organizado Transnacional, em Palermo/Itália (2000) for- taleceram as articulações entre a sociedade civil de vários países do mundo, com vistas a mobilizar fóruns globais em defesa de mu- lheres, crianças e adolescentes em situação de violência sexual. 21. Vide o Plano Nacional de Enfrenta- mento da Violência Sexual de Crianças e Ado- lescentes. Brasília: Ministério da Justiça/ CE- CRIA, 2000. 22. A partir de 1997, deu-se a descentra- lização da articulação do movimento de com- bate à violência sexual, através da inclusão dessa temática na agenda da sociedade civil local, o que levou as ONGs, Fóruns, Conse- lhos e Centros de Defesa a organizarem atra- vés de redes a Comissão Interestadual de Combate a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes da Região do Centro-Oeste (CIRCO/CO); O Pacto de São Paulo; Fórum Catarinense de Combate a Exploração e ao Abuso Sexual/ Sul; Rede Emaús e Txai/ Nor- te; e o nordeste se faz representar pelos Cen- tros de Defesa, Conselhos Municipais e ONGs. Em nível nacional, quem articula o movimen- to de enfrentamento da violência sexual no Brasil é o Comitê Interinstitucional de Enfren- tamento da Violência Sexual de Crianças e Adolescentes/ Fórum DCA. 23. Vide MONTAÑO. Carlos. Terceiro Setor e a Questão Social. Pg. 30. Referências Bibliográficas AVRITZER, Leonardo. 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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 19 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Afinal, de onde vem tanta celeuma sobre a questão de cotas, racismo, desigualdade racial, na atual conjun- tura política brasileira? Seguramente, o evento que tornou visível a discriminação racial no Brasil, nos anos recentes, foi a Conferência Internacional de Durban (África do Sul) contra a discriminação racial, pa- trocinada pela ONU, em 2001. Não que o assunto fosse novo: desde 1931, com a Frente Negra Bra- sileira, a discriminação racial contra o negro é denunciada de forma organi- zada. Os movimentos negros tiveram novo alento a partir do fim da ditadu- ra militar (final da década de 70), a mesma ditadura que retirou o quesito cor-raça do Censo, para esconder a su- per-exploração a que o negro é sub- metido, na nossa pátria mãe gentil. No entanto, foi na Conferência de Durban que a delegação brasileira levou a pro- posta de cotas para negros nos proces- sos de seleção para o Ensino Superior. Uma aliança entre ONGs, Movimentos Negros e segmentos no interior do governo do Presidente Fernando Hen- rique Cardoso, particularmente no Mi- nistério da Justiça, permitiu que esse tipo de proposta fosse majoritário na delegação brasileira. Curiosamente, encontram-se posi- ções ardentemente favoráveis e con- trárias a esta linha de ação reparatória aos negros brasileiros, tanto na direita quanto na esquerda. No entanto, nos movimentos negros, ela é maioria. O que causa espécie é como surge uma oposição emocionalmente viva e pouco fundamentada sobre este tipo de proposta de inclusão social do ne- gro. Tem gente que não leu sobre o assunto, não se informou e é radical- mente contra! Inclusive colegas nos- sos de academia. Este humilde e pe- queno ensaio pretende ser uma pe- quena contribuição à discussão sobre A luta contra o racismo no Brasil e o movimento docente Marcelo Henrique R. Tragtenberg
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    as formas dereparação e compensa- ção dos danos que a discriminação ra- cial fez e continua a fazer aos negros brasileiros, quase metade da nação brasileira (45%, sendo 5% de pretos e 40% de pardos, segundo o Censo IBGE 2000). Finalmente, a discrimina- ção racial torna-se tema nacional, já que as leis punitivas a ela simples- mente ‘’não pegam’’. Então, mesmo que não seja apro- vada em todo o país, pelo menos, a proposta de cotas para o Ensino Su- perior já está cumprindo o papel de problematizar a situação degradante a que está exposto o povo negro brasi- leiro. Havemos que reconhecer que o ANDES-Sindicato Nacional também tem uma dívida histórica com relação à questão racial. O ANDES-SN somen- te começou a colocar, em sua agenda de discussão, a questão racial em 2001, ano de Durban. O grupo de tra- balho de etnia, gênero e classe foi criado no 19º Congresso (2000) da entidade, mas teve sua primeira reu- nião em 2001. Sobre a questão racial e de ações afirmativas, a discussão na nossa entidade ainda é muito pobre. O 20º Congresso (2001) tem uma re- solução vaga sobre o assunto. O 21º Congresso (jan/2002) só fez reconhe- cer a necessidade desta discussão e adiou para o 44º CONAD a decisão so- bre ações afirmativas O 44º CONAD não deliberou a posição do movimento docente sobre o tema do combate à discriminação racial, remetendo-a para o 22º Con- gresso (março/2003), preparado por um Seminário Nacional sobre Racis- mo e Ações Afirmativas. No entanto, este Seminário deverá realizar-se so- mente em 2003, depois do Congres- so, conforme proposta de resolução da Diretoria do Sindicato Nacional pa- ra o 22º Congresso. Este pequeno histórico só mostra como a discussão organizada e o inte- resse objetivo sobre o assunto são irri- sórios, no movimento docente e no conjunto dos professores universitá- rios. Pouquíssimos grupos de trabalho de Etnia se organizaram nas seções sindicais. Em 2002, o GT de Etnia, Gê- nero e Classe da ANDES-SN se reuniu três vezes. Há muito trabalho pela frente, para quem não quer que cotas sejam outorgadas de cima para baixo, sem discussão na comunidade acadê- mica brasileira. Por outro lado, a discussão da polí- tica de cotas traz em seu bojo um sem-número de questões adormeci- das na sociedade e no ensino superior brasileiro. A entrada do povo no ensi- no superior já está se dando através de cotas, por exemplo, na Universida- de do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Vemos, então, numa das man- chetes da Folha de São Paulo, de 09/- 02/2003: “Cotas em Universidades podem ser desastrosas, diz UERJ”. Este jornal, em campanha sistematica con- tra cotas, atribui às cotas um desastre. Qual é esse desastre? A reprovação em massa do povo pobre e negro que adentrou à Universidade Pública de qualidade. No entanto, não é exata- mente isso que diz a Comissão no- meada pela Reitoria para se pronun- ciar sobre o assunto. A Comissão aler- ta que haverá conseqüências desas- trosas da lei de cotas ‘’se não houver uma política de permanência para os alunos que ingressarão na Uni- versidade em 2003’’ (Machado, 2002). Ora, o povo mais pobre e, em particu- lar, o povo negro e pobre, vai precisar de assistência financeira para se manter, comprar o material didático e, eventualmente, de apoio didático- pedagógico. Esta necessidade já exis- te para vários de nossos alunos, mes- mo do ensino superior público, e, em raros casos, foi encarada seriamente. A cota escancarou a questão. A inclu- são entrou na ordem do dia também para o branco pobre. Será que o de- sastre é ter mais pessoas pobres na Universidade ou ela nunca ter se preo- cupado com aquelas pessoas pobres que estão no interior da Universidade ou dentro dela deveriam estar? A análise da proposta de cotas ra- ciais no Brasil torna-se mais completa, se for comparativa com as realidades dos Estados Unidos e de Cuba. Estes três países vêm apresentando trata- mentos diferenciados para negros e brancos, com diferentes regimes só- cio-econômicos e históricos de discri- minação racial. Em todos eles, houve escravidão, mas as composições ra- ciais atuais são diferentes. Nos EUA, 12% das pessoas são ne- gras (define-se como negra uma pes- soa com pelo menos um bisavô ou bi- savó negro). Em Cuba, há aproximada- mente 1/3 de negros, 1/3 de mulatos e 1/3 de brancos (segundo estatísticas oficiais e também segundo o Livro de Fatos da CIA- CIA Fact Book). Já no Bra- sil, os negros são 45%. Talvez seja mais visível para um es- trangeiro, já que muitos de nós já nos “acostumamos”, a diferença brutal de tratamento de negros e brancos no Brasil, configurando uma verdadeira dívida histórica do Brasil com relação a esta raça. Como a Biologia Molecu- lar (através do Projeto Genoma Hu- mano) soterrou o conceito biológico de raça, a sua utilização só se justifica 20 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Há muito trabalho pela frente, para quem não quer que cotas sejam outorgadas de cima para baixo, sem discussão na comunidade acadêmica brasileira.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 21 devido ao seu conteúdo social. As ra- ças são conceitos socialmente cons- truídos e se reproduzem no cotidiano da vida brasileira (e na cubana e esta- dunidense). Na recente virada da conjuntura brasileira, particularmente na campa- nha eleitoral para Presidente da Re- pública e após a eleição de Lula Pre- sidente, abriram-se novas perspectivas para o combate à discriminação racial. Na campanha do segundo turno, tanto Lula quanto José Serra se posi- cionaram a favor de cotas nas univer- sidades para negros (entre o aluna- do). Isso coloca as ações afirmativas não só na cena política, mas também enquanto proposta de governo. Abriu- se com o novo governo um período de muita esperança, seja quanto à possibilidade de criação de empregos e riqueza, quanto no sentido de me- lhor distribuir esta riqueza e as opor- tunidades, particularmente para ne- gros e índios. No entanto, a herança a ser en- frentada é pesada: a) 350 anos de escravismo; b) enorme preconceito contra ne- gros; c) não reconhecimento deste pre- conceito (a ideologia dominante, in- clusive entre nossos colegas universi- tários, é a que não existe racismo no Brasil, que há democracia racial - dis- tribuição de renda e oportunidades iguais entre negros e brancos, ideolo- gia do branqueamento do Brasil via mestiçagem de brancos e negros em convivência harmoniosa); d) invisibilidade dos negros: os veí- culos de comunicação não veiculam a imagem dos negros e quando o fazem é, muitas vezes, no sentido pejorativo; no Sul do Brasil, que possui porcenta- gem de população negra parecida com a dos EUA, teima-se em negar a pre- sença negra (Leite, 1996). Na atual situação, como devem se posicionar as forças progressistas? Co- mo articular a luta contra as desigual- dades sociais de classe com a luta contra o racismo? Com toda a humil- dade, esta é uma questão complexa e não respondida completamente no âmbito acadêmico, e mais ainda na esquerda brasileira, particularmente a de tradição marxista (diga-se de pas- sagem majoritariamente branca). Tentaremos, dentro de nossa per- cepção, contribuir para este debate do ponto de vista teórico e dentro da rea- lidade brasileira, com ajuda dos casos cubano e estadunidense. A posição emitida neste artigo, ressalte-se, está impregnada de posicionamento políti- co e militante, não se limitando a uma postura rigorosa e acadêmica. Acredi- tamos que pesquisas em profundidade devam ser empreendidas para tornar mais fundamentada esta posição. Do ponto de vista teórico, é possí- vel entender que o sistema capitalista tende a gerar desigualdade, ao trans- ferir riquezas de uma classe explorada a uma classe exploradora, em termos gerais. Neste sentido, é necessário ha- ver uma pressão política organizada de toda a classe explorada, seja para reformar o ensino, saúde, habitação, como parece a atual etapa brasileira (para que haja expansão e melhoria do ensino público e gratuito, uma política habitacional distributiva, a uni- versalização e gratuidade da saúde e uma política de emprego inclusiva e igualitária, entre outras medidas), seja para revolucionar as prioridades, nu- ma perspectiva socialista, como no ca- so cubano e chinês. No entanto, a questão racial deve ter um tratamento diferenciado. Por- quê? A discriminação racial gera desi- gualdade na distribuição de renda e oportunidades sociais! (no Brasil, em Cuba e nos EUA). Além disso, é causa de desunião entre os trabalhadores, ao jogar brancos contra negros e criar uma super-exploração dos negros. Trataremos mais à frente das formas pelas quais essa desigualdade racial se materializa e destrói o mito da de- mocracia racial no Brasil (curiosamen- te, ele também foi gerado na Cuba pré-revolucionária). Portanto, estamos diante de duas fontes de desigualdades: a exploração capitalista e a discriminação racial. Tor- na-se imperativo, para quem tem uma postura socialista, abolir estes dois ge- radores de desigualdades. Não existe socialismo democrático ou libertário sem a abolição da exploração capitalista E DAS DESIGUALDADES RACIAIS. Mais adiante, analisaremos os dados que te- mos sobre a experiência cubana, den- tro deste ponto de vista. No entanto, as desigualdades ra- ciais a que nos referimos têm relativa autonomia, em relação à exploração de classe. Elas se iniciaram antes de o capitalismo industrial se estruturar, através de relações escravistas em que os senhores de escravos e capatazes (brancos) se apropriavam da riqueza e os escravos (negros) eram brutalmen- te espoliados. O curioso é que o ad- vento do capitalismo industrial, essa relação assimétrica, que envolvia ri- queza e cor/raça, se espalhou para to- das as classes sociais. Em outras pala- vras, não é somente o negro pobre quem sofre perseguição policial, ma- us-tratos em lojas, discriminação no trabalho e na escola e xingamentos gratuitos. Hélio Santos, em seu recen- te livro, enumera vários casos em que Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Não existe socialismo democrático ou libertário sem a abolição da exploração capitalista E DAS DESIGUALDADES RACIAIS.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE22- Ano XII, Nº 29, março de 2003 negros, em melhor situação social, são submetidos a tratamento humi- lhante (Santos, 2001:139-148). Por- tanto, o racismo começou contra os negros pobres e, com o tempo, se es- palhou para negros em todas as clas- ses sociais. Desde a humilhação im- pingida pela polícia, que fez o ex-pre- sidente do Suriname ter que se deitar no solo para ser revistado até o estra- nhamento que professores universitá- rios negros, colegas nossos, experi- mentam com seus alunos, todos sen- tem o efeito da discriminação. Como o racismo, é uma ideologia insidiosa, ele perpassa todas as instituições da so- ciedade e impregna todas as pessoas. A tarefa do combate a ele deve, por- tanto, envolver a todos. Não se deve esperar, como no caso do machismo em relação às mulheres (que também gera desigualdades sexuais), que o mero advento de uma sociedade sem classes, num passe de mágica, elimine essa ideologia que funciona como agente gerador de desigualdades. Uma hipótese interessante sugeri- da pela leitura do livro de Hélio San- tos, onde a frase lapidar “a pobreza tem cor” resume muito da relação entre discriminação racial e explora- ção capitalista, vem da combinação perversa entre racismo e capitalismo, em nosso amado Brasil. O Brasil, co- mo país capitalista, gera necessaria- mente concentração de renda. No entanto, porque o Brasil, uma das 15 economias mais ricas do mundo, tem uma das piores concentrações de renda desse mesmo mundo? Uma hipótese a ser investigada é a existência de um profundo racismo, conjugado ao fato de metade da po- pulação ser negra. O capitalismo já gera um nível de desigualdade, mas o racismo, incidindo sobre a metade negra da população brasileira, apro- funda o fosso abissal entre os mais ricos (predominantemente brancos) e os muito pobres (majoritariamente negros). Obviamente, esta é somente uma hipótese que requer comprova- ção empírica para sua verificação. A comparação com outros países e a adoção de políticas públicas tanto uni- versalistas (insensíveis à cor) quanto de ações afirmativas (de discrimina- ção positiva dos negros) podem dar algumas pistas sobre essa questão. Voltando ao nosso veio principal: porque podemos afirmar que há desi- gualdades raciais no Brasil? Por que podemos dizer que o negro pobre tem menor salário que o branco po- bre, que sua escolaridade média é menor, que suas condições de habita- ção são piores, que seu atendimento hospitalar é pior etc. Até a década de 1950, era muito difundida a idéia de que o Brasil apre- sentava uma convivência harmônica de raças, que a miscigenação não era vista de forma negativa. Foi até envia- da uma missão da ONU ao Brasil para conhecer a experiência brasileira de mistura de raças (cadinho de mistura), já que os EUA, a África do Sul e outros países tinham experiências de intole- rância e segregacionismo. Qual não foi a surpresa dos enviados da ONU, ao perceber uma forma particular de racismo, caracterizada pelo racismo cordial (Turra e Venturi, 1998). Estu- dos de Roger Bastide (1959), Flores- tan Fernandes (1959), Thales de Aze- vedo (1951), entre outros, contribuí- ram decisivamente para desmascarar o mito da democracia racial. Além disso, mais recentemente, tem-se analisado estatisticamente a distribuição de riqueza, habitação, es- colaridade, trabalho infantil do ponto de vista racial. O estudo do IPEA “De- sigualdades Raciais no Brasil”, de au- toria de Ricardo Henriques (disponível na página www.ipea.gov.br, 2002), e o boletim do DIEESE “Desigualdade Ra- cial no mercado de trabalho” (nov/- 2002) mostram que: a) empregados negros ganham menos do que os brancos, até 50% menos (dependendo da região do Brasil); b) negros são mais desemprega- dos do que brancos, em várias regiões metropolitanas do país; c) negros têm consistentemente 2,2 anos a menos de escolaridade mé- dia do que os brancos, desde 1929; d) há mais crianças negras do que brancas trabalhando; e) a indigência é 70% negra em- bora os negros sejam 45% da popula- ção; f) as mulheres negras têm ainda maior desemprego e menor renda que os homens negros; g) a mortalidade infantil tem caído mais para brancos que para negros; h) a analfabetismo é maior entre Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Todos sentem o efeito da discriminação. Como o racismo, é uma ideologia insidiosa, ele perpassa todas as instituições da sociedade e impregna todas as pessoas
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 23 negros que brancos, quadro que se mantém, apesar da diminuição do analfabetismo em ambos os grupos; i) a esgoto e a água tratada vão menos a lares negros do que a de brancos. Tá bom, ou queres mais? Uma pesquisa recente, nas univer- sidades federais da Bahia, Brasília, Pa- raná e Maranhão, mostra que consis- tentemente os negros têm bem me- nos assentos universitários que a pro- porção da população que represen- tam (Queiroz, 2002). A juventude destes estudos mostra como desconhecemos nossa realida- de racial, deformada pelo mito da de- mocracia racial, que achava que não havia discriminação nem desigualda- de racial no Brasil. No entanto, não devemos cair na armadilha de tentar opor negros a brancos. Acreditamos que, embora or- ganismos internacionais como, por exemplo, a Fundação Ford, contribu- am para a visibilidade da situação do negro no Brasil, muitas vezes, pode ser passada a mensagem de que os negros melhorarão se lutarem contra os brancos e não em conjunto com eles, por uma ordem social mais justa. Como ficaria a situação do negro numa sociedade socialista, originária de uma sociedade capitalista, com preconceito e desigualdade racial? Pa- ra além de um exercício de futurolo- gia, há dados sobre a única revolução socialista vitoriosa na América Latina, Cuba. Particularmente, há alguns da- dos preliminares sobre a situação do negro, em Cuba. Dados do governo cubano e esta- dunidense indicam que, por exemplo, em Cuba, a mortalidade infantil dos negros é menor que nos EUA e que a porcentagem de médicos negros em relação à população total de negros é bem maior. Assim, em Cuba, um ne- gro tem 4 vezes menos chance de se tornar médico que um branco, en- quanto que, nos EUA, ele tem 50 ve- zes menos! Visite a página www. afro- cubaweb.com , que contém este e ou- tros dados. Esta página se localiza nos EUA e se dedica à discussão e divulga- ção da cultura negra de Cuba, respei- tando os avanços conquistados pelos negros na revolução socialista na Ilha. Em poucas palavras, temos indica- ções que ações afirmativas, em um país capitalista rico, são menos efici- entes do ponto de vista da igualdade entre negros e brancos do que uma revolução socialista, em uma ilha blo- queada internacionalmente. Daí a necessidade de uma trans- formação radical das prioridades so- ciais e não somente da construção de ações de discriminação positiva, em relação aos negros. E, nesta luta, a unidade entre trabalhadores negros e brancos é essencial. Portanto, ações afirmativas devem ser conduzidas pe- lo convencimento dos brancos e não por um ambiente revanchista. Outra estratégia a ser evitada é baixar por decreto (executivo ou legislativo), sem uma discussão, medidas de ações afir- mativas. Numa sociedade racista co- mo a brasileira, isso certamente será interpretado como “racismo às aves- sas”, embora seja somente reparação. Classe, etnia e gênero parecem ser determinantes relativamente indepen- dentes de desigualdades, e devem ser combatidos em paralelo. Políticas afir- mativas são complementares a políti- cas universalistas de melhoria de saúde, educação, habitação etc. Um bom exemplo disto parece ser Cuba. Com histórico de segregação física de espaços sociais semelhante ao dos EUA, conjugado a uma miscigenação grande (1/3 negros, 1/3 mulatos e 1/3 brancos, conforme o CIA FACT- BOOK e o governo cubano) e com uma imagem de democracia racial (pré-revolução de 1959), obteve enor- mes avanços na inclusão de negros, exemplificados no número de médi- cos, mas reconhece grandes limita- ções na participação dos negros nos altos escalões de poder, na distribui- ção de bens e, pasme-se, no alunado do ensino superior. Isso indica que uma revolução social radical desaco- plada de uma abordagem racial, man- tém o negro em situação de inferiori- dade em relação ao branco. Mas quem diz isso é a Fundação Ford, a CIA ou os cubanos anti-castris- tas? Não. Estas informações foram ex- traídas de discursos do Presidente Fi- del e do Vice-Presidente Raul Castro (veja-se novamente a página www. afrocubaweb.com ) . 1) A questão da raça teve especial atenção de Fidel nos anais do Quinto Congresso do Partido Comunista Cu- bano (outubro/97): “no presente, pre- cisamos consolidar uma política justa de promoção de negros e mulheres, especialmente como quadros, da mesma forma que vem ocorrendo com os jovens, mas não sendo mecâ- nicos. Esta é a política que garante a autoridade moral do Partido perante o povo. O Partido tem que insistir na aplicação desta política em todas as esferas da sociedade”. 2) Discurso de Fidel na igreja Ri- verside, Harlem, NY (08/09/2000): “Não estou clamando que nosso país seja um modelo perfeito de igualdade Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE A unidade entre trabalhadores negros e brancos é essencial. Portanto, ações afirmativas devem ser conduzidas pelo convencimento dos brancos e não por um ambiente revanchista.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE24- Ano XII, Nº 29, março de 2003 e justiça. Acreditamos no começo que, quando estabelecemos a maior igual- dade perante a lei e completa intole- rância com demonstrações de discri- minação sexual contra a mulher e de discriminação racial contra minorias étnicas, estes fenômenos desaparece- riam de nossa sociedade. Foi há al- gum tempo atrás que descobrimos que a marginalidade e a discrimina- ção racial relacionada a ela não são al- go que a gente se desfaz com uma lei ou mesmo dez leis, e não consegui- mos eliminá-las completamente, mes- mo em 40 anos. Nunca houve nem nunca haverá um caso em que a lei é aplicada de acordo com critérios étni- cos. No entanto, descobrimos que os descendentes de escravos são os que vivem em bairros outrora de escravos. São os mais pobres e continuam a vi- ver, mesmo após a suposta abolição da escravatura, nas piores casas. Há bairros marginais; há centenas de mi- lhares de pessoas que vivem em bair- ros marginais, e não só pretos e gente de raça misturada, mas também bran- cos. Há brancos marginais, também, e tudo isto herdamos do sistema social anterior. Eu disse que nosso país está em seu caminho para uma nova era. Eu espero algum dia poder dizer a vo- cês as coisas que estamos fazendo hoje e como continuaremos a fazê-las. Nós não temos dinheiro para construir casas para todo o povo que vive em condições marginais. Mas temos vá- rias outras idéias que não vão esperar até o fim dos tempos e que nosso justo, unido e amado povo implemen- tará para livrar-se dos menores vestí- gios de marginalidade e discrimina- ção. Tenho fé que teremos sucesso porque é o caminho dos líderes de nossa juventude, nossos estudantes e nosso povo. Não direi mais, estou simplesmente dizendo que estamos a par da existência da marginalidade em nosso país. Mas existe a vontade de erradicá-la com os métodos apro- priados para esta tarefa, para trazer mais unidade e igualdade para a nos- sa sociedade (aplausos).” 3) Discurso pronunciado por Fidel no Congresso de Pedagogia (5/2/99): “O Presidente cubano Fidel Castro afirmou hoje que, depois de 40 anos de Revolução, ainda existem em Cuba traços de discriminação herdados da etapa escravista, os quais podem ser percebidos no ingresso de jovens pa- ra cursar estudos universitários... Pon- tuou que a escravidão deixou a reali- dade de uma grave pobreza, a qual obstaculizou o desenvolvimento deste setor de nossa população, que vivia nas piores casas, sem possibilidades de acesso à escola e com salários mi- seráveis... Pensamos que decretar a igualdade de direito absoluto tinha sido suficiente para remover essas se- qüelas. Hoje se observa que os seto- res mais pobres são ainda aqueles descendentes de escravos.” Conforme Agencia Latino-americana de Noticias Prensa Latina, S.A. (PL). Ainda no discurso de 5/2/99: “Ainda se observa que os setores mais pobres dentro de uma sociedade so- cialista são ainda aqueles descenden- tes dos escravos”, e adicionou: “Que difícil é uma revolução, que difícil é mudar uma sociedade!”. 4) Discurso de Raúl Castro no 7º Congresso da Federação das Mulheres de Cuba (3/00): Ele declarou-se insa- tisfeito com os resultados dos esforços para promover mulheres, negros e mulatos cubanos a posições de lide- rança no governo e no Partido. Ele dis- se que antes da revolução, ele e ou- tros líderes revolucionários foram edu- cados nos valores ideológicos do Par- tido Comunista daquela época, mes- mo no movimento clandestino, e que fizeram esforços para incluir na hierar- quia do Partido a diversidade étnica do povo cubano. Ele clarificou as pes- soas que não se deve eleger simples- mente na base do gênero ou etnia, se os candidatos não estiverem devida- mente treinados, e que este processo deve ser gerenciado e controlado, e que a lista de líderes de reserva para o governo e o Partido precisam ser revi- sadas, de forma a preparar e treinar estas pessoas para tarefas de direção. Alguns países europeus abordaram a questão de igualdade de gênero atra- vés de legislação e cotas, mas este sis- tema não resolve este tipo de proble- ma. Ele enfatizou que precisamos abrir nossas mentes para esta questão e notou que esta é uma das tarefas político-ideológicas para o Partido Comunista Cubano, numa ocasião em que tarefas ad- ministrativas estão sendo minucio- samente reavaliadas. (Copyright GRANMA INTERNATIONAL DIGITAL EDI- TION. La Havana. Cuba. Reprodução total ou parcial dos artigos nesta página são autorizadas, desde que a fonte de direitos autorais seja mantida). Estes discursos, já que temos aces- so a poucas estatísticas cubanas, nos devem alertar que, se tratarmos desde já as questões de gênero e étnicas, uma revolução social futura poderá atacar mais amplamente a questão da igualdade e da discriminação. Note-se que estes discursos foram realizados Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    nos últimos 6anos, demonstrando re- cente preocupação da cúpula revolu- cionária cubana com este tipo de questão. Obviamente, consulta a estatísticas oficiais de Cuba são imprescindíveis para se formar um quadro atualizado e fidedigno da questão étnica na Ilha, mas estes dados preliminares indicam a direção, aquela que sem ações repa- ratórias do passado escravocrata que combatam a discriminação subjacente e a herança escravista, não será possí- vel uma sociedade igualitária. Por coincidência, cerca de 80% dos cubanos exilados nos EUA são descen- dentes de espanhóis, e foram expro- priados pela revolução cubana. Hoje, eles representam na Flórida, ao lado de Jeb Bush (irmão de George W. Bush), a linha de frente contra ações afirmativas naquele estado. Aliás, as ações afirmativas como ad- missão universitária com pontuação para critério étnico vêm sendo consis- tentemente atacadas pelos governos neoliberais estadunidenses. Ronald Rea- gan, o primeiro deles, iniciou seu gover- no acabando com a prática de negar isenção de impostos a escolas privadas que discriminassem minorias (Boxill, 1992). Indicou seguidamente membros à Suprema Corte, seguido por Bush pai e filho, de forma que a maioria atual do mais alto tribunal americano (que ele- geu Bush filho) reinterpreta todas as leis sensíveis à cor contra as ações afir- mativas, sem formalmente revogar ne- nhuma lei. Estas leis, lembre-se, foram conquistadas a partir das lutas do mo- vimento negro em 1950 contra a se- gregação e os direitos civis. No que diz respeito à Universidade, inicialmente, foram estabelecidas cotas, mas, após o caso Bakke (1978), as cotas foram transformadas em metas de porcenta- gem de minorias étnicas e de gênero acopladas à pontuação étnica extra aos candidatos ao Ensino Superior. Portanto, a linha de frente contra as ações afirmativas nos EUA é forma- da pelos neoliberais e os defensores destas ações são os negros e os de- mocratas. No entanto, as ações afir- mativas não foram suficientes para ga- rantir igualdade sobre o capitalismo americano, pois 62% dos presos são negros, apontando para a necessida- de de outras políticas sociais e supera- ção do padrão capitalista, no país ma- is rico do mundo. Curiosamente no Brasil, o governo com maior tonalidade neoliberal, o de FHC, promoveu ações afirmativas em alguns ministérios através de cotas em serviços terceirizados e chamou a atenção para a questão racial. Mas, cabe perguntar, de onde veio esta preocupação étnica do Presidente Fer- nando Henrique, que chegou a indicar uma negra para fazer parte do Con- selho Nacional de Educação? Em 20 de novembro de 1995, dia de Zumbi, houve uma marcha de 40 mil pessoas em Brasília, convocada pelos movimentos negros. Foi entre- gue um documento contendo as rei- vindicações destes movimentos. Uma pequena parte delas foi adotada pelo governo. Portanto, longe de se tratar de uma dádiva dos governos do Pre- sidente Fernando Henrique à questão do racismo e das desigualdades raci- ais no Brasil, trata-se de conquistas dos movimentos negros. No novo governo Lula, o ANDES- SN deve apontar para políticas sociais (educação, saúde, emprego, moradia) voltadas à melhoria real da situação do povo em paralelo com ações afir- mativas com vistas à igualdade entre negros e brancos, em todas as regiões do país, na medida em que, ao invés de contraditórias, são medidas com- plementares rumo a uma verdadeira democracia em nossa terra. Medidas como cotas para negros (tanto para alunos como para profes- sores) no Ensino Superior Público e Privado, embora ainda careçam de de- bate maior, apontam para um contra- ponto com o racismo cordial. Esse tipo de política afirmativa não deve ser entendido como uma medi- da contra brancos, mas como medida transitória e paliativa, enquanto durar o racismo brasileiro, que gera conse- qüências econômicas e sociais. Cabe um processo de esclarecimento dos brancos sobre a desigualdade racial reinante no Brasil e, a partir daí, cons- truir uma Universidade mais igualitária racialmente. Este tipo de medida deve vir acompanhado de políticas sociais de peso, como aumento de vagas em Universidades Públicas, assistência es- tudantil com bolsas de manutenção, alojamento gratuito, melhoria do En- sino Fundamental e Médio, melhor Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 25UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Se tratarmos desde já as questões de gênero e étnicas, uma revolução social futura poderá atacar mais amplamente a questão da igualdade e da discriminação.
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    atendimento de saúde,financiamento habitacional e criação de empregos, entre outros. A ausência de políticas afirmativas e a ocorrência de políticas cegas à cor com forte conteúdo social podem vir a melhorar a situação do negro no Bra- sil, mas mantê-lo-á numa situação in- ferior (como vimos, ao discutir o caso cubano). Por outro lado, a mera ado- ção de ações afirmativas, sem investi- mento com forte prioridade social, tende a aumentar a classe média ne- gra, nada contra, mas continuará mar- ginalizando a maioria da população negra (como vimos brevemente nos dados sobre os EUA). Além disso, do ponto de vista da imagem, é fundamental o aumento da presença negra na propaganda e na televisão, com conotação positiva. O negro vem sendo historicamente desvalorizado nos meios de comuni- cação e isso contribui para sua baixa auto-estima e estreitamento de seu mercado de trabalho. Num país de quase metade de negros, pedir que 25% dos personagens das novelas e 40% daqueles das propagandas se- jam negros parece mais do que justo (segundo proposta do agora Senador Paulo Paim). A implantação de ações afirmati- vas aparece como imperiosa. No en- tanto, aparecem novas questões. a) são necessárias cotas para ne- gros e índios nas Universidades (alu- nos e professores)? b) como fica a questão do mérito na admissão universitária num siste- ma de cotas para negros e índios na Universidade (tanto para alunos como para professores)? c) como distinguir um negro dum não-negro (em qualquer tipo de ação afirmativa)? d) a ação afirmativa é inconstitu- cional? e) por que demorou tanto tempo no Brasil para entrar em discussão ações afirmativas? Inicialmente, notamos que até bem pouco tempo não existia um sistema de aquisição de dados sobre a etnicida- de do povo brasileiro, além do Censo (mesmo assim, o Censo de 1970 não teve o item cor). No SUS, ele começou a ser implementado recentemente, algumas Universidades começaram a fazer seu levantamento e recentemen- te foi realizado um censo étnico na ad- ministração pública federal. O desinteresse social e político so- bre a questão étnica e a invisibilidade do negro são históricos no Brasil. Em várias capitais se escuta dizer que não há negros. Curiosamente, os EUA, que têm 12% de sua população formada de negros, tratam com mais respeito a presença negra que o nosso país. O ANDES-SN tem que envidar esforços no sentido de tornar visível o que nos- so país tem tentado invisibilizar há tanto tempo: a presença do negro. Por exemplo, cabe realizar siste- maticamente um levantamento étnico dos candidatos à Universidade, os alu- nos de graduação e pós-graduação para olharmos para dentro de nós mesmos. O critério inicial deve ser o do IBGE (branco, preto, pardo, indíge- na e amarelo), mas devemos avançar na classificação. Estudos mostram que ela não informa totalmente sobre a etnicidade do pesquisado (“A cor de- nominada”, José Petrucelli, 1998) e caberia um diálogo maior entre o IBGE, os estudiosos da questão étnica e os movimentos negros para a defini- ção de uma forma de classificação mais democrática e útil e menos im- positiva. Por outro lado, alguns levantamen- tos sobre presença negra na Univer- sidade foram realizados e apontam para uma presença muito menor do que na população em geral. Este seria um argumento favorável a cotas ra- ciais. No entanto, cotas raciais não são a única forma de aumentar a presença negra no Ensino Superior. As cotas ra- ciais nas Universidades dos EUA, fruto da luta do movimento negro por direi- tos civis (cujo mártir, Martin Luther King, tem um feriado nacional reco- nhecido - terceira segunda-feira de ja- neiro, aqui Zumbi só agora tem um dia que sequer é feriado nacional), caíram em 1978. O famoso Caso Bak- ke (Gomes,2001) levou a julgá-las in- constitucionais lá nos EUA (não signi- fica que o sejam no Brasil). No entan- to, no parecer aprovado, critérios étni- cos poderiam ser considerados para admissão. Foi então que a etnicidade passou a contar mais pontos para os candidatos e várias Universidades co- meçaram a ter metas étnicas, compa- tíveis com as comunidades abrangi- 26 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil O ANDES-SN tem que envidar esforços no sentido de tornar visível o que nosso país tem tentado invisibilizar há tanto tempo: a presença do negro.
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 27 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE das. Esta é uma opção para nós no Brasil. Mas, muitos colegas nossos, e até o editorial da Folha de São Paulo, le- vantam: e o mérito, como fica? Esta é uma questão muito comple- xa para responder no espaço deste ar- tigo, mas alguns argumentos podem ser levantados. Primeiro, o mérito de um nadador frente a uma pessoa equipada com um barco a motor não pode ser corretamente aferido numa travessia de um rio. O negro enfrenta muito mais barreiras em média que um branco. Somente 3% da popula- ção negra chega ao fim do Ensino Mé- dio, enquanto que no caso do branco são 13%. Em segundo lugar, o critério de en- trada na Universidade não precisa ser necessariamente a avaliação por pro- vas (vestibular ou outra forma), mas a Sociedade e a própria Universidade (em sua autônoma decisão) também pode achar necessária a diversidade étnica, na medida em que formará ci- dadãos menos racistas e lideranças negras que, pela simples presença, ajudarão a combater a baixa auto-esti- ma de muitos negros e o estereótipo do negro como inferior intelectual- mente. Além disso, o cidadão negro com diploma tem maior possibilidade de ser juiz, deputado, empresário, liderança social, o que eventualmente pode fazer a Sociedade mais sensível às reivindicações dos movimentos negros. Curiosamente, quando se le- vanta a necessidade de cotas raciais, o que sempre se coloca é que os negros a se beneficiarem delas devem ter atingido o nível mínimo exigido pela Universidade. Por exemplo, Delcele Queiroz, em recente estudo (Desi- gualdades raciais no Ensino Superior, ainda não publicado, 2002), mostrou que muitos negros têm nota superior à mínima exigida pela Universidade Federal da Bahia para nela ingressar e que poderiam preencher qualificada- mente essas reservas de vagas. Um dos riscos apontados nas cotas é a entrada de alunos que poderão não permanecer até o fim do curso na Universidade, por questão de forma- ção. Neste caso, torna-se necessário também a constituição de um sistema de apoio pedagógico ao estudante (mesmo atualmente, vários alunos não completam o curso pelo mesmo motivo). Este risco será minimizado se os negros, a entrarem nas cotas, fo- rem os de melhores notas. Outra ob- jeção a este argumento é que assim só entrarão filhos da classe média ne- gra. Esta é outra questão complexa. Por um lado, se filhos da classe média branca entram, porque os da classe média negra não? Por outro lado, há militantes e acadêmicos negros que acham que se deva acoplar um crité- rio-sócio econômico ao critério racial. Isto aumenta o risco de estudantes negros com menos possibilidade de formatura, mas deve ser considerado nas discussões. Talvez um dos itens mais contro- versos seja separar negros de não- negros para efeitos de ações afirmati- vas, discriminadoras positivamente. Este questionamento mostra bem a hipocrisia da nossa sociedade. Para discriminar negativamente a socieda- de brasileira parece bastante eficiente. No entanto, na hora de repara a co- munidade negra, discriminando-a po- sitivamente, a coisa fica difícil. Muitas pessoas ironizam dizendo que a polí- cia sabe muito bem distinguir negros de não-negros. No entanto, é preciso trazer para um patamar mais objetivo a questão. O primeiro passo, quase to- dos concordam que é a autodeclara- ção. No entanto, alguns argumentam que pessoas podem trapacear. Há al- ternativas a serem consideradas: co- missões universitárias para averiguar a etnicidade conforme questionário pre- enchido por pessoas autodeclaradas negras, mas que a Universidade colo- que em dúvida. De qualquer forma, é necessário esclarecer aos candidatos que falsidade ideológica é crime e tal- vez fosse conveniente estabelecer proibição de acesso ao ensino supe- rior publico àquele que a cometesse, no caso de falsidade ideológica étnica. Há, no entanto, bastante campo para discussão nesta questão. Vários colegas e alunos, muitas ve- zes, levantam que ações afirmativas afrontam a igualdade das pessoas pe- rante a lei. A igualdade formal perante a lei é um preceito liberal, conquista- do durante a Revolução Francesa. No entanto, ela, muitas vezes, não se con- substancia racialmente, como no caso brasileiro, cubano, estadunidense e O cidadão negro com diploma tem maior possibilidade de ser juiz, deputado, empresário, liderança social, o que eventualmente pode fazer a Sociedade mais sensível às reivindicações dos movimentos negros.
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    em muitos outroscasos. Torna-se im- portante a intervenção do Estado para ajudar a garantir a IGUALDADE REAL de oportunidades. Deixar os indivídu- os, com passado diferenciado, a com- petir em “igualdade” de condições le- va à prevalência dos mais ricos e po- derosos (Gomes,2001). Não é à toa que são os neoLIBERAIS os que mais lutam pelo fim das ações afirmativas nos EUA! Além disso, nossa constituição (1988), em seu artigo 37, inciso VIII, estabelece reserva de mercado de tra- balho para deficientes físicos. Puxa, nunca se viu ninguém reclamando contra essa reserva de vagas, mas é só falar em reserva de vagas para negros que aparece o maior berreiro. Por que será? Os idosos também têm sua ação afirmativa: o passe do ônibus. Nin- guém contra. E os programas de pri- meiro emprego para os jovens? Ini- ciativa louvável. Lembram da cota pa- ra mulheres em partidos políticos? To- dos a favor. Já cotas para negros? Hum! Curioso... Talvez uma das razões dessa rea- ção seja que a Universidade é o local de formação dos quadros do poder. Como deixar os negros adentrarem a ela? Afinal, saber é poder, dizia um falecido sociólogo. E negros com o poder parece uma situação pouco in- teressante. E porque os brancos po- dem tê-la? De novo, não se trata de opor brancos a negros, mas sim de justiça, de repartir irmamente o poder já que metade da população é negra e metade é branca. Além disso, há que se considerar os amarelos e indí- genas... Mas se ações afirmativas são tão ne- cessárias, porque demoraram mais de 100 anos, após a abolição para serem reivindicadas? Talvez uma das respos- tas é que o racismo anglo-saxão (nos EUA e África do Sul) seja segregacio- nista e destile o ódio racial, gerando maior reação. Já o racismo cordial bra- sileiro parece bastante mais dissimu- lador, levando inclusive muitos negros a discriminar irmãos de cor ou se au- todesvalorizarem. Este é outro papel das ações afirmativas, ao aumentar a possibilidade de produção de mode- los sociais de sucesso (Sell, 2002:28). Negro também pode ser bom no que faz, sem ser cantor de pagode ou jo- gador de futebol... Finalizando, é urgente uma atitude positiva quanto à discriminação racial no nosso país, apoiando ações afirma- tivas, cotas para negros no Ensino Su- perior, ampliação da assistência estu- dantil, ao mesmo tempo em que se dê a ampliação e melhoria do Ensino Superior, Médio e Fundamental , sem prejuízo de outras políticas sociais. Uma série de medidas de valorização da cultura negra, revisão curricular e formação anti-racista dos professores na Universidade não foram abordadas neste artigo, mas fazem parte de um longo elenco de ações afirmativas que a sociedade brasileira já está até de- morando muito em adotar. Referências Bibliográficas Machado, Paulo S. M. (presidente). Rela- tório da Comissão Nomeada pela Portaria 327/Reitoria/2002, de 20/09/2002, que tra- ta dos desafios da implantação das leis que reservam 50% das vagas da UERJ para egressos de escola pública e 40% para ne- gros, no vestibular da instituição. Leite, Ilka Boaventura (org.) Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade. Florianópolis, Letras Contemporâneas, 1996. Santos, Hélio. A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso. São Paulo, SENAC, 2001. Turra, Cleusa e Venturi, Gustavo. Racismo cordial. São Paulo, Ática, 1998, 2ª ed. Queiroz, Delcele M. (org.) O negro na Universidade. Salvador, Edições A Cor da Ba- hia, 2002. Bastide, Roger e Fernandes, Florestan. Brancos e negros em São Paulo: ensaio so- ciológico sobre aspectos da formação mani- festações atuais e efeitos do preconceito de cor na sociedade paulistana. São Paulo: Cia. Editora Nacional, Col. Brasiliana, 1959. Azevedo, Thales de. As elites de cor: um estudo de ascensão social. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1951. Boxill, Bernard R..Blacks and Social Jus- tice. Nova Iorque, Rowman & Littlefield, 1992. Gomes, Joaquim B. B. Ação afirmativa e o principio constitucional da Igualdade. Rio de Janeiro, Renovar, 2001. Sell, Sandro. Ação afirmativa e democra- cia racial. Florianópolis, Fund. José Boiteux , 2002. Prof. Dr. Marcelo Henrique Romano Tragtenberg é Prof. do Depto de Fisica da UFSC desde 1982 Graduado, Mestrado e Doutorado em Física pela Universidade de São Paulo, tem Pós-Doutorado no Departa- mento de Física Teórica da Universidade de Oxford, Inglaterra. Pesquisa na área de Me- cânica Estatística e Fluidos Complexos. É membro dos Grupos de Trabalho de Etnia, Gênero e Classe da Associação dos Profes- sores da UFSC e do ANDES-SN. Telefones: universidade (48) 331-6836 ramal 4234; Casa (48) 232-1251; Celular (48) 9903- 3143. Endereço do domicílio: Rua João de Barro, 217 - Lagoa da Conceição - Florianó- polis- SC - 88. 062-157 Email: Marcelo@fisica.ufsc.br 28 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil A Universidade é o local de formação dos quadros do poder. Como deixar os negros adentrarem a ela? Afinal, saber é poder, dizia um falecido sociólogo. E negros com o poder parece uma situação pouco interessante. E porque os brancos podem tê-la?
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    Apresentação Políticas de discriminaçãopositiva têm sido aplicadas em países democráticos, que abrem exceções para proteger e beneficiar parte de seus cidadãos. Podemos encontrar exemplos dessa discriminação positi- va na garantia de vagas em universi- dades públicas para setores excluídos economica e socialmente, garantia de participação feminina nas represen- tações parlamentares, cotas para inserção de pessoas portadoras de deficiência física no mercado de trabalho, e tantas outras iniciativas governamentais ou não, mas todas com o objetivo de proporcionar às populações discriminadas negativa- mente igualdade de oportunidades e participação social. Neste artigo, apresentamos uma contribuição para o debate teórico so- bre a formulação e implementação de políticas afirmativas em favor dos cida- dãos negros no Brasil, com a intenção de colocarmos mais uma viga na pon- te que pretendemos que una as lutas Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 29 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Rosângela Rosa Praxedes* Walter Lúcio de Alencar Praxedes** Quando a questão do racismo no Brasil começar a sair dos livros, artigos, dissertações e teses de pesquisadores, quando deixar de ser problema do negro para se tornar preocupação de todas as forças e instituições do país, quando sairmos da fase do belo discurso e das boas intenções sem ações corres- pondentes, poderemos dizer então que entramos na verdadeira fase de engajamento para transformar a sociedade; estaremos saindo do pesadelo para entrar num sonho, e do sonho para entrar numa verdadeira esperança. Kabengele Munanga (1996: 219) Ações afirmativas e cotas do ângulo do marxismo
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    30 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 específicas de alguns segmentos po- pulacionais que têm a sua cidadania negada em nosso país, com as cor- rentes intelectuais e políticas que ad- vogam o compromisso com as estraté- gias políticas derivadas da leitura da obra de Marx e seus continuadores. I- Introdução: Marx e os problemas educacionais do seu tempo Um pensador como Marx, que tinha uma concepção de conjunto sobre a história humana e sobre o modo de produção capitalista, não pode ser dis- sociado do militante político que tinha como incumbência a formulação de propostas viáveis para os problemas do momento e que comporiam, por exemplo, as bandeiras de luta da As- sociação Internacional dos Trabalha- dores, do qual foi um dos fundadores e militantes mais destacados. Ao dis- cutirmos os posicionamentos políticos e as propostas de Marx a respeito das medidas educacionais adequadas à sua época, temos que levar em consi- deração, portanto, que o autor estava preocupado com os problemas mais imediatos, e que exigiam que fossem colocados em prática alguns “indis- pensáveis antídotos contra as tendên- cias de um sistema social que degrada o operário a mero instrumento para a cumulação de capital, e que transfor- ma pais, devida às suas necessidades, em proprietários de escravos, vende- dores dos seus próprios filhos” (MARX e ENGELS, 1983: 83). As propostas educacionais de Marx evidenciam as nuanças de um pensa- mento que mantinha como horizonte a transformação revolucionária da so- ciedade, sem, contudo, abster-se dian- te dos desafios colocados pela prática política e pelas particularidades da conjuntura política em questão. Como consta já no Manifesto do Partido Co- munista, de 1848, redigido em parcei- ra com Engels, Marx defendia a imple- mentação de uma “educação pública gratuita de todas as crianças”. Com a eliminação do trabalho infantil, na for- ma como este era então explorado pe- los empresários capitalistas, e a pro- posição de uma modalidade combina- da de educação, voltada para a forma- ção de todas as dimensões humanas, incluindo a atividade produtiva, a sen- sibilidade artística, a formação científi- ca e o cultivo do corpo. Num docu- mento redigido por Marx com o obje- tivo de orientar os delegados do Con- selho Central Provisório que participa- riam do I Congresso da Associação In- ternacional do Trabalhadores, que se realizou em Genebra de 3 a 8 de se- tembro de 1866, fica claro como o autor defendia a intervenção dos tra- balhadores nos debates sobre a legis- lação educacional, pois, no seu enten- dimento, esta era a maneira mais efi- ciente de fazer com que o Estado im- pusesse leis que limitassem a ganân- cia dos empresários capitalistas, pois “...impondo tais leis, a classe ope- rária não fortifica o poder governa- mental. Pelo contrário, ela transfor- ma esse poder, agora usado con- tra ela, em seu próprio agente. Eles efetuam por uma medida geral aquilo que em vão tentariam atin- gir por uma multidão de esforços individuais isolados” (MARX e EN- GELS, 1983: 83). II - Engels contra o reducionismo economicista Alguns estudiosos marxistas tiraram conclusões apressadas sobre a relação entre a estrutura econômica da socie- dade, considerada pelo próprio Marx como a base real que sustenta as ins- tituições jurídicas, políticas e as con- cepções intelectuais, científicas e ideo- lógicas, atribuindo sempre aos fatores econômicos o poder de explicar as causas verdadeiras e últimas dos fenô- menos sociais, realizando a dedução mecânica das contingências particula- res a partir da universalidade do modo de produção capitalista. No pensamento de Marx e Engels, fica claro como os acontecimentos, no interior de uma sociedade, podem in- fluenciar uns aos outros, e apenas atra- vés do estudo deste relacionamento recíproco é que se pode chegar a um conhecimento satisfatório sobre a tota- lidade social. A este respeito, Engels se manifesta contrário à tendência de re- duzir o materialismo histórico a uma forma de conhecimento unilateral que explica todos os fenômenos sociais co- mo se estivessem determinados pelos interesses econômicos, e no final de sua vida esclareceu em uma carta que: “...segundo a concepção mate- rialista da história o momento em última instância determinante, na história, é a produção e reprodu- ção da vida real. Nem Marx, nem eu alguma vez afirmamos mais. Se agora alguém torce isso afirmando que o momento econômico é o único determinante, transforma aquela proposição numa frase que não diz nada, abstrata, absurda. A situação econômica é a base, mas os diversos momentos da superes- trutura - forma políticas da luta de classes e seus resultados: constitui- Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE No pensamento de Marx e Engels, fica claro como os acontecimentos, no interior de uma sociedade, podem influen- ciar uns aos outros, e apenas através do estudo deste relacionamento recíproco é que se pode chegar a um conhecimento satisfatório sobre a totalidade social. .
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 31 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil ções estabelecidas pela classe vito- riosa uma vez ganha a batalha, etc., formas jurídicas, e mesmo os reflexos de todas estas lutas reais nos cérebros dos participante, teo- rias políticas, jurídicas, filosóficas, visões religiosas e o seu ulterior de- senvolvimento e em sistemas de dogmas - exercem também a sua influência sobre o curso das lutas históricas e determinam em muitos casos preponderantemente a for- ma delas. Há uma ação recíproca de todos estes momentos, em que, finalmente, através de todo o con- junto infinito de casualidades (isto é, de coisas e eventos cuja conexão interna é entre eles tão remota ou é tão indemonstrável que nós a podemos considerar como não- existente, a podemos negligen- ciar), o movimento econômico vem ao de cima como necessário. Se- não, a aplicação da teoria a um qualquer período da história ser mais fácil do que a resolução de uma simples equação de primeiro grau (MARX e ENGELS, 1983: 547). Ressaltemos, então, como nos ensi- na Engels na passagem acima, que “mesmo os reflexos” das lutas reais nos cérebros dos participantes “exer- cem também a sua influência sobre o curso das lutas históricas e determi- nam em muitos casos preponderante- mente a forma delas”. O racismo é uma forma de ideolo- gia que se desenvolveu no mundo moderno e ajudou na justificação da escravidão no novo mundo e as pre- tensões imperialistas da Europa oci- dental em todos os continentes. Para Marx, são as relações de produção es- cravistas que colocam um ser humano em uma posição social de subjugação, de trabalho forçado, de exploração econômica, de opressão e violência material e simbólica. As representa- ções desenvolvidas nas formas de consciência social, com base na maté- ria prima dessa situação de opressão, levaram ao desenvolvimento de uma ideologia racista que chegou até os nossos dias. Usamos o termo ideologia como sinônimo de “ilusão necessária”, ou seja, como uma visão distorcida das relações sociais, mas que nascem da própria dinâmica das relações sociais, na convivência entre indivíduos, clas- ses sociais, grupos étnicos e raciais, e encobre a reprodução da hierarquia econômica, entre proprietários e não proprietários; da hierarquia social, en- tre burgueses, camadas médias e tra- balhadores braçais; da hierarquia polí- tica, entre governantes e governados; e da hierarquia racial, entre brancos e negros, presente nas formas de hierar- quia citadas anteriormente, através de formas de seleção pretensamente de- mocráticas, mas que negam, na práti- ca, a possibilidade de ascensão social para os negros no Brasil. Do ângulo do marxismo, portanto, as relações raciais podem ser conside- radas como modalidades particulares de relações sociais, e não podem ser devidamente entendidas se forem apenas analisadas isoladamente, fora da totalidade social que compõem, influenciando os demais fatores da so- ciedade e, ao mesmo tempo, sendo por eles influenciadas. A universalida- de do gênero humano não é negada quando reconhecemos a existência de uma diversidade cultural em combina- ção com as particularidades das rela- ções interétnicas e raciais. Considerar apenas que o racismo se deve à condição sócio-econômica dos discriminados, em razão de os mes- mos comporem uma classe economi- camente explorada é realizar um redu- cionismo que limita a percepção do real. Embora, por um lado, seja incon- cebível negar a existência de uma hie- rarquia gerada pela divisão do traba- lho, baseada na propriedade ou não dos meios de produção, por outro la- do, temos que reconhecer que existe também uma hierarquia racial que é baseada no preconceito e na discrimi- nação dos negros, o que dificulta a atuação dos mesmos no mercado de compra e venda de força de trabalho, obstaculizando a sua inserção sócio- econômica na sociedade capitalista. Em outras palavras, a relevância do conceito de classe e a sua importân- cia para entendermos a dinâmica das relações sociais na sociedade brasilei- ra contemporânea não podem levar à subestimação da existência de uma classificação racial baseada no pre- conceito de cor, ou de marca, para usarmos a clássica definição de Oracy Nogueira. III - A reprodução da desigualdade entre classes e entre raças Os grupos humanos, deliberada- mente ou não, sempre desenvolveram formas de preparar os seus membros para o trabalho, educando-os para a realização de determinadas atividades produtivas e sobre a maneira como devem se relacionar com os outros membros da coletividade. No pensa- mento marxiano, a educação pode ser considerada como uma superestrutura social que guarda uma correspondên- cia com o estágio de desenvolvimento das forças produtivas e da divisão so- Existe também uma hierarquia racial que é baseada no pre- conceito e na discriminação dos negros, o que dificulta a atua- ção dos mesmos no mercado de compra e venda de força de trabalho, obstaculizando a sua inserção sócio-econômica na sociedade capitalista.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE32- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil cial do trabalho. Na sociedade capitalista, a manu- tenção de uma diferença social básica entre, de um lado, os proprietários dos meios de produção e, de outro, um grande número de despossuídos, que para sobreviver necessitam vender a sua força de trabalho para os primei- ros, garante a reprodução contínua de um estrutura social estratificada. Esta diferença econômica básica coloca em oposição os assalariados e os capitalis- tas, gerando, socialmente, a diferença entre as classes proletária e burguesa. Os trabalhadores reproduzem a sua força de trabalho, gerando, alimentan- do e educando filhos que ocuparão os seus lugares no futuro. O crescimento econômico, como explica Lefèbvre, pressupõe a reprodução ampliada tan- to da maquinaria (capital fixo), quanto da força de trabalho (capital variável que assume a forma de salários). A educação torna-se, assim, uma forma de preparar as novas gerações de pro- prietários e de não-proprietários para as posições que irão ocupar na hierar- quia do processo de produção. A este respeito Henri Lefèbvre recorda que a crítica pedagógica francesa evidenciou que na “escola de massas”, onde ocor- re a instrução primária, “os métodos, os locais, a arru- mação do espaço, reduzem o alu- no à passividade, habituando-o a trabalhar sem prazer... O espaço pedagógico é repressivo, mas esta estrutura tem um significado mais vasto do que a repressão local: o saber imposto, engolido pelos alu- nos, vomitados nos exames, cor- responde à divisão do trabalho na sociedade burguesa, serve-lhe, portanto, de suporte... A escola pre- para proletários e a universidade prepara dirigentes, tecnocratas e gestores da produção capitalista. Sucedem-se as gerações assim for- madas, substituindo-se uma pelas outras na sociedade dividida em classes e hierarquizada... A escola e a universidade propagam o co- nhecimento e formam as gerações jovens segundo padrões que con- vêm tanto ao patronato como à paternidade e ao patrimônio. Há disfunções quando o saber crítico inerente a todo o conhecimento dá origem a revoltados. Às funções maciças da escola e do liceu so- brepõe-se a função elitista da uni- versidade, que filtra os candidatos, desencoraja ou afasta os que se desviam, permite o establisch- ment” (LEFEBVRE, 1984: 226). A concepção segundo a qual a es- cola é um local de democratização do saber encobre a contradição funda- mental da sociedade capitalista, es- condendo que a escola classista é ma- is um dos espaços destinados à repro- dução da hierarquia econômica, entre proprietários e não proprietários; da hierarquia social, entre burgueses e proletários; e da hierarquia política, en- tre governantes e governados; o que pode ser ilustrado pela freqüência co- mo os indivíduos que ocupam as posi- ções atribuídas aos profissionais com maior tempo de escolarização provêm das classes e camadas sociais que tive- ram as mesmas oportunidades educa- cionais em épocas anteriores. No Brasil, esse processo de repro- dução da desigualdade entre as clas- ses é concomitante a um processo de reprodução da desigualdade entre as raças. Para levarmos em consideração apenas as taxas de analfabetismo en- tre os brasileiros, comparando-se os dados da Pesquisa Nacional de Amos- tra de Domicílios do IBGE (PNAD) de 1992 e 1999, “as taxas de analfabetis- mo tiveram redução em todos os gru- pos de cor, mas entre negros e pardos ainda são quase três vezes maiores do que entre brancos... Em 1992, 10,6% dos brancos eram analfabetos, 28,7% dos pretos (nomenclatura oficial do IBGE) e 25,2% dos pardos. Em 1999, 8,3% dos brancos, 21% dos pretos e 19,6% dos pardos eram analfabetos” (Folha de São Paulo, 5/04/2001). Caso as políticas públicas do setor de educação e a ação educativa no in- terior de escolas e universidades não levem em consideração esta situação de desigualdade quanto à escolariza- ção existente entre as famílias de ne- gros e não-negros, continuarão a con- tribuir para a reprodução da situação que condena a maior parcela dos jo- vens negros à evasão escolar, à margi- nalização ou à realização das mesmas atividades profissionais menos qualifi- cadas e remuneradas dos seus pais. IV - Ideologia do mérito e cotas Atualmente, nas universidades bra- sileiras, os argumentos meritocráticos são os mais utilizados contra a imple- mentação de uma política de cotas. O que fundamenta a ideologia merito- crática é a idéia segundo a qual todos aqueles que se empenham e que são competentes acabam aproveitando as oportunidades que surgem em suas vidas. Transformando as dificuldades em desafios, o portador do mérito ven-
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 33 ce a competição pelas posições mais vantajosas no sistema sócio-econômi- co. Esse é o sonho que anima as cha- madas classes médias a uma emula- ção sem limites, a um esforço sobre- humano, em busca da ascensão social. Uma pergunta simples atesta a falsi- dade da ideologia meritocrática: todos aqueles que possuem o mérito alcan- çam as posições hierárquicas que dese- jam? Um interlocutor meritocrático po- deria objetar: quem não consegue a posição desejada é porque não possui realmente o mérito. Operando desta maneira, como ideologia, o mérito ser- ve para responsabilizar o próprio indiví- duo pela sua posição na hierarquia so- cial, culpando-o por um fracasso que só é produzido porque a estrutura social é hierarquizada. A ideologia do mérito encobre a existência de mecanismos discriminatórios, irracionais e, muitas vezes, inconscientes, que dificultam o acesso às oportunidades de ascensão social para os cidadãos negros. O que fica escondido por essa ideo- logia do esforço individual é o fato de que, com pouca ou nenhuma oportu- nidade, um cidadão negro dificilmente desenvolve o mérito que permite a as- censão social. É exatamente para aten- der às demandas de tal segmento da população brasileira que está sendo proposta a implementação de uma política de ação imediata, cotas, por exemplo, que incentive o seu ingresso no ensino superior, com um adequado acompanhamento pedagógico duran- te o curso. Enquanto não pudermos acabar com todas as formas de hierar- quia que tornam explosivas as rela- ções sociais, é recomendável, ao me- nos, que um cidadão não seja impedi- do de ocupar determinadas posições sociais em virtude de sua origem étni- ca ou racial. Através do mecanismo emergencial das cotas, espera-se que o acesso ao ensino superior torne pos- sível que muitos negros desenvolvam as suas potencialidades. Os efeitos desta mudança sobre a condição de vi- da da população negra só podem ser benéficos. Já sobre o imaginário racis- ta da maioria da população brasileira é imprevisível. Conclusão Do ângulo do marxismo, em nosso entendimento, para pensarmos as re- lações raciais em nosso país deve-se partir “dos próprios indivíduos vivos re- ais” para entendermos que dos seus relacionamentos sociais nascem “fan- tasmagorias” nos seus cérebros, como é o caso da ideologia racista, uma for- ma de consciência que brota do trata- mento desigual destinado àqueles com quem se convive e que são consi- derados como pertencentes a uma ra- ça à qual são colados atributos negati- vos. Não devemos, assim, realizar uma análise das relações entre os huma- nos, partindo de uma concepção de humanidade que temos em mente, mas das relações reais entre os seres humanos, suas formas de cooperação e de conflito, para entendermos como os mesmos são representados ideolo- gicamente. Então, através da práxis so- bre as relações reais, poderemos criar uma nova situação. As cotas para alunos negros nas universidades públicas, por exemplo, podem compor um conjunto de medi- das práticas, efetivas e imediatas que apontem para o fim das desigualdades raciais na sociedade brasileira. As polí- ticas públicas em favor do igualitaris- mo social e econômico, que visam a atender a todos os excluídos de forma universalista, não podem servir mais para dissimular a irresponsabilidade em relação ao combate às formas de discriminação que não se fundam só no econômico e nas diferenças de classe, como é o caso da discriminação contra mulheres, homossexuais, defi- cientes físicos, índios e negros. Referências Bibliográficas MARX, Karl. Para a crítica da economia política. In: Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1978. ______. Teses contra Feuerbach. In: Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1978. ______. O Capital: crítica da economia política. São Paulo, Abril Cultural, 1984. Vol. 1 - Tomo 2. MARX e ENGELS. Obras escolhidas. Tomo II. Lisboa, Edições “Avante!”, Moscou, Edições Progresso, 1983. MUNANGA, Kabengele. “As facetas de um racismo silenciado”. In: SCHWARCZ, Lilia M. e QUEIROZ, Renato da S. (orgs). Raça e diversi- dade. São Paulo, Edusp, 1996. LEFEBVRE, H. “Estrutura social: a reprodu- ção das relações sociais”. In. FORACCHI e MARTINS, Op. cit., pp. 219-252. In: FORACCHI, M.M. e MARTINS, J.S. - (Orgs.) - Sociologia e Sociedade. São Paulo, Livros Técnicos e Cien- tíficos, 1975. (*) Rosângela Rosa Praxedes é Bacharel em Ciências Sociais pela USP e coordena- dora do Curso Preparatório Milton Santos da Associação União e Consciência Negra de Maringá - Paraná. E-mail: rosangela- praxedes@bol.com.br (**) Walter Lúcio de Alencar Praxedes é Doutor em Educação pela USP e professor de sociologia na Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel. É co-autor dos livros O Mercosul e a sociedade global (12ª Ed. 2002) e Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia (1997). E-mail: walterpraxedes@uol.com.br Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil As cotas para alunos negros nas universidades públicas, por exemplo, podem compor um conjunto de medidas práticas, efetivas e imediatas que apontem para o fim das desigualdades raciais na sociedade brasileira.
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    34 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Introdução No contexto da globalização da eco- nomia, as profundas transformações introduzidas nos sistemas produtivos, nas últimas décadas, a microeletrôni- ca, automação, robótica, telemática e a reestruturação produtiva, têm pro- duzido um forte impacto, com altera- ções substantivas, não apenas no que diz respeito à criação de sistemas em grande escala, mas também na trans- formação de contextos locais, cultu- rais, modificando as relações sociais e as formas de regulação do trabalho. Ultrapassando uma visão estrita- mente econômica desse processo, Giddens (1993; 1996) identifica a ra- pidez do “efeito à distância” como o elemento inovador que caracteriza a crescente interdependência existente entre a vida individual e as opções fu- turas em escala mundial. Por isso, o cenário do cotidiano é privilegiado à medida que apresenta situações con- cretas temporais dentro do espaço de trabalho. Isso porque tempo e espaço, categorias fundamentais na formação das subjetividades dos atores sociais e na formação e diferenciação de iden- tidades e culturas, atravessam, desde há algumas décadas, transformações radicais, em velocidade crescente, cu- jos efeitos se fazem sentir claramente entre os habitantes das sociedades de massa. A compressão do tempo-espa- ço tende a progredir e pode ser enten- dida como algo a que indivíduos e grupos se expõem em intensidade di- ferente, a depender de sua situação no espaço e no tempo (Harvey, 1989:26). Além dos desenvolvimentos no campo da comunicação, transporte e informática, pontos centrais para todo o processo de mudança comparecem com grande peso explicativo: a) a grande velocidade, rotação e circula- ção de capital variável e fixo em esca- la planetária, que contribui sensivel- mente para incrementar a atmosfera de “volatilidades” contemporâneas; b) as mudanças nas ideologias de admi- nistração da força de trabalho com a passagem do fordismo para a acumu- lação flexível, que se beneficia das vantagens da aniquilação do espaço global através do tempo. Pode-se ca- racterizar esse novo padrão de acu- mulação do capital pelo impacto de tecnologias sobre o sistema de merca- do em escala mundial, baseado no avanço das telecomunicações e impli- cando políticas de desregulamentação (abertura de fronteiras nacionais) que permitem, desta forma, o livre comér- cio dos capitais. No setor de serviços financeiros bancários, o aumento da velocidade dos sistemas e equipamentos impôs diferentes tempos que são vividos dentro de um mesmo espaço, dentro de uma mesma jornada de trabalho. Pode-se afirmar, inclusive, que a con- dição típica do trabalho bancário auto- matizado está nessa vivência com diferentes dimensões do tempo ope- rando com o corpo imóvel, quando tem que acompanhar um sistema au- tomatizado e informatizado que reali- za, de forma rápida, sistemática e se- qüenciada, funções sem necessidade de nenhuma intervenção. Delineia-se uma nova tipologia com algumas no- vas características que apresentam di- Maria Helena Santana Cruz * Reestruturação produtiva, reprodução e gênero no setor financeiro
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    ficuldades para suaanálise. Nos bancos, os gestos do trabalho executados para a realização da tarefa nem sempre são observáveis. Da mes- ma forma, as condições ruins do traba- lho não podem ser facilmente mensu- ráveis nem mais perceptíveis. A reali- dade vivida há tempos pelo trabalha- dor dos serviços é da falta de materiali- dade do produto de seu trabalho. De improdutivo, impinge-se a condição de um trabalho virtual e, agora, invisível. Desde que o trabalho nos serviços foi classificado como improdutivo, não se faz senão consentir com essa condição. Contudo, os serviços financeiros bancá- rios são classificados como serviços produtivos, já que sua função clássica no capitalismo é intermediar recursos financeiros (captação e aplicação) en- tre produtores independentes. O setor financeiro ganha significa- ção em nível mundial, na medida em que montantes de capital superiores às necessidades da indústria e do co- mércio são diariamente negociadas nos principais mercados cambiais do mundo, criando o que alguns denomi- nam de “economia simbólica”, referin- do-se à redução da importância eco- nômica da existência concreta de bens e de serviços (Eboli 1995: 288). Ao mesmo tempo em que adquire maior relevância econômica em todo o mundo, o setor bancário depara com problemas de forte competição, de- corrência em grande parte, do proces- so de desregulamentação que permi- te a empresas não bancárias opera- rem no mercado de capitais, retirando dos bancos o monopólio das opera- ções de crédito. Tradicionalmente, os bancos ope- ravam em termos de especialização de atividades, organizando-se interna- mente de forma polarizada (ativida- des de produção - que tendiam a ser organizadas de forma taylorizada) - e atividades comerciais - de intermedia- ção e de gestão financeira. Havia igualmente, uma definição limitada e estável de produtos (pagamentos, empréstimos e investimentos), o que obrigava os bancos a atenderem a mercados segmentados, atuando de forma complementar entre si, (bancos comerciais, de depósitos de investi- mentos, caixas econômicas). As estru- turas de funcionamento correspon- diam à organização por agências; a Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 35UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    qualificação era adquirida,especial- mente, por “experiência”; o mercado interno de trabalho estruturava-se de forma fechada, orientando-se por um modelo rigidamente hierárquico, com mobilidade reduzida e utilizando co- mo critério de promoção o tempo de serviço. Tais características alteraram- se em meados dos anos 1970; diversi- ficou-se a natureza dos produtos (in- terna e externamente à atividade ban- cária); os bancos passaram a operar em termos de bancos múltiplos e através de redes de agências). Com o crescimento das trocas internacionais e dos investimentos estrangeiros, veri- ficou-se a internacionalização das ati- vidades bancárias. Cresceu a concor- rência, induzindo a transformações na organização do trabalho. A automação bancária, com base na microeletrônica, difundiu-se por todo o sistema financeiro mundial, transformando-se num elemento de- cisivo em termos de estratégia meto- dológica para os bancos. No Brasil, o setor bancário, ainda pouco estudado, passou por uma experiência de trans- formação radical nas duas últimas dé- cadas, em decorrência, não só do ex- tenso processo de informatização, mas também de mudanças estruturais no setor - que afetaram a natureza dos produtos, dos mercados e da or- ganização de atividades internas - re- sultando em mudanças significativas nas condições de trabalho , constituin- do-o em caso ilustrativo das implica- ções sociais da automação e da reor- ganização do trabalho. Em decorrên- cia de uma conjuntura econômica fa- vorável para tanto, os bancos no Brasil passaram a prestar, principalmente, “serviços especulativos”. Isso porque, ao mesmo tempo que se verificou uma estagnação no crédito, a inflação elevada e as altas taxas de juros ga- rantiram significativos índices de ren- tabilidade. Desta forma, obtiveram um desempenho, em termos de rentabili- dade, acima do setor agrícola e indus- trial no país. O sistema financeiro bancário bra- sileiro representa uma ilha setorial de modernidade, considerando que se insere em um país caracterizado por um déficit em diferentes áreas que se inter-relacionam: o analfabetismo e a subnutrição constituem graves proble- mas sociais. De acordo com o IBGE, 19 milhões de brasileiros, com mais de 10 anos de idade são analfabetos e 53 milhões de brasileiros são conside- rados subnutridos. Entre outras carên- cias, destaca-se a defasagem tecnoló- gica em quase todos os setores da economia, sobretudo no setor indus- trial brasileiro. O sistema financeiro constitui hoje um setor de economia brasileira que mais se modernizou tecnologicamen- te, pressionando também o desenvol- vimento da indústria nacional da in- formática, no final dos anos 1970 e década de 1980, tanto na criação de demandas de equipamentos e siste- mas, como na viabilização do financia- mento desse desenvolvimento. Isso porque o contexto econômico, carac- terizado por índices inflacionários ele- vados e déficit público financiado por meio das operações financeiras com altas taxas de juros (over night), justi- ficou os investimentos realizados pelo próprio setor financeiro em informáti- ca (Segnini,1995). Os registros rápi- dos e seguros passaram a ser funda- mentais em termos de lucratividade. Na América Latina, o Brasil se des- taca como o país que possui o mais moderno e complexo sistema financei- ro, com 234 bancos, 16.485 agências e cerca de 9.229 postos de atendimento adicionais e um total de 497.109 em- pregados (Febraban 1996). A atividade bancária brasileira tem se caracteriza- do pela alta lucratividade, o que, até recentemente, foi favorecido pelo lon- go período em que vigoraram os altos índices de inflação. No auge da infla- ção, ao final da década de 1980, o se- tor financeiro chegou a representar 14% do PIB brasileiro; em 1995, sua participação caiu para cerca de 8%; por outro lado, os ganhos com a infla- ção que chegaram a representar um terço da receita dos bancos, hoje não chegam a 1%. Em conseqüência da alta lucrativi- dade, verificaram-se altos investimen- tos em equipamentos e programas de informática e telecomunicações (US$ 3,8 bilhões, em 1993; mais de US$ 4,1 bilhões em 1994), com extensa difu- são no uso de informatização, tornan- do os bancos brasileiros próximos à situação dos países altamente indus- trializados; inclusive, 90% das agên- cias bancárias já se encontram conec- tadas on line e 72% em real time; A partir de 1995, os investimentos nessa área sofreram reduções (cerca de US$ 1 bilhão em 1995 e de US$ 1,5 bilhão em 1996 (Febraban, 1994;1996). A área de auto-atendimento apre- senta hoje elevado índice de cresci- mento. Em termos gerais, no país, no curto período de dois anos, entre 1994-1996, houve um crescimento de mais de 100% na disponibilidade de equipamentos de auto-atendimento, 36 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil O sistema financeiro bancário brasileiro representa uma ilha setorial de modernidade, considerando que se insere em um país caracterizado por um déficit em diferentes áreas que se inter-relacionam: o analfabetismo e a subnutrição constituem graves problemas sociais.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 37 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil nas agências e fora delas, passando de 25,395 equipamentos no interior das agências e 6.069 fora das agên- cias, em 1994, para 57.879 e 10.158, respectivamente, ocupando grandes espaços na estrutura das organizações financeiras. Cresce a lotação de em- pregados em mesas e plataformas pa- ra atendimento remoto (fora das agências) de forma centralizada, via telefone e terminais eletrônicos Tal es- trutura tende a tornar-se terceirizada. Essas transformações sinalizam no sentido de crescente informatização das atividades bancárias. Ademais, as agências tendem a tornar-se pontos de negócios, de tamanho menor, já que as transações cotidianas tenderi- am a ocorrer fora das agências. Propósito do estudo Este texto procura refletir sobre as relações entre trabalho, qualificação no setor de serviços financeiros, como uma tentativa de “olhar” essa invisibi- lidade, seja dos gestos ou das condi- ções de trabalho, tendo em vista res- saltar os impactos das inovações tec- nológicas e organizacionais, os pro- cessos de fragmentação e reconstru- ção de identidade. Considerou-se o caso de uma ca- tegoria de trabalhadores determinada que parece transitar de uma situação moderna para uma pós-moderna: são os bancários, trabalhadores especiali- zados do setor de serviços financeiros, sob o impacto de mudanças promovi- das pelo avanço acelerado das trans- formações tecnológicas, que alteram o cotidiano, a subjetividade e identi- dade desses trabalhadores. A inova- ção é analisada pelo efeito sobre os trabalhadores, recuperando sua expe- riência concreta, pelo modo parado- xal como eles estão vivendo os con- frontos e a transição, entre os proces- sos de trabalho “tradicional” e “mo- derno”, pela visão dicotômica que se- para as “antigas” e as “novas” formas de organização do trabalho. Sobretu- do, o recorte de gênero, visa captar as formas como as mulheres identificam e mobilizam, no trabalho, os conheci- mentos/saberes formais e informais adquiridos em suas trajetórias, em distintos espaços de socialização. É sabido que reestruturação produ- tiva, junto às concepções neoliberais, introduzem um novo padrão de flexi- bilidade nas relações de trabalho, atra- vés principalmente do recurso ao tra- balho feminino. Assim, é necessário examinar as características sexuadas da flexibilidade e suas conseqüências, tanto no plano do mercado de traba- lho e do emprego, implicando o au- mento da precarização social e da pre- carização do trabalho, no plano da or- ganização e das condições de trabalho. A incorporação da dimensão de gênero nos estudos sobre a reestrutu- ração e o novo paradigma propiciam uma análise de suas supostas poten- cialidades virtuosas. Nesse sentido, as análises empíricas trazem descobertas importantes quanto aos limites e pos- sibilidades de modernização no traba- lho bancário; descobre as especifici- dades das diferentes formas de incor- poração das atividades femininas, as oportunidades disponíveis para as mulheres em cada mercado, bem co- mo as estratégias utilizadas na articu- lação entre responsabilidades familia- res e profissionais, por parte de quem vivencia tais experiências (Abreu, 1993; Hirata, 1994). Sob a perspectiva educacional, os conceitos de trabalho e qualificação foram ampliados, integrando-se os processos que ocorrem nas esferas pública/privada, produtiva e reprodu- tiva, inserindo-se as categorias teóri- cas patriarcado e gênero na análise das relações sociais que se estabele- cem entre o capital x trabalho. Assim, a formação do trabalhador e, em es- pecial, da trabalhadora, engloba diver- sos ângulos da prática produtiva, in- forma o poder instituído que permeia todas as esferas do social e integra a economia do capital, a ideologia do patriarcado e as formas culturais de vida que se reproduzem e se contradi- zem, em suas diferentes dimensões na sociedade. O ponto essencial é que, como uma questão de fato, a es- trutura reprodutiva conjunta constitui o contexto efetivo da formação da pessoa. Entretanto, essa estrutura re- produtiva pode ser desestabilizada. Sob esse prisma, a cultura patriar- cal constitui-se em um ponto de refe- rência para se refletir, no campo edu- cacional, sobre o caráter histórico e cultural de construção de identidades diferenciadas de acordo com o gêne- ro, com o fito de gerar procedimentos democráticos de formação de vontade que, em última instância, produzam nova racionalidade num mundo da vida colonizado (Habermas, 1984; 1989; 1990). A matriz teórica construí- da por Habermas em sua Teoria da Ação Comunicativa orientou a com- preensão da abrangência do trabalho e interação, a integração das esferas pública e privada (a reprodução mate- rial e simbólica, sistema e mundo da vida), no sentido de documentar que as identidades sociais de trabalhado- res são dotadas de gênero e modela- das dialeticamente nas diversas esfe- ras da participação da mulher. As identidades sociais de trabalhadores são dotadas de gênero e modeladas dialeticamente nas diversas esferas da participação da mulher.
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    Minorias Sociais eLuta de Classe no Brasil 38 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE A dimensão educativa/pedagógica na construção do objeto no plano teó- rico e prático é captada e mediada pela condição e consciência de gêne- ro masculino e feminino, pela existên- cia de identidades iguais e diferentes, de exclusão, aceitação, submissão ou recusa, de expressão de interesses, ex- pectativas e projetos. Scott (1988) operacionalizou o conceito de gênero, explicitando seus componentes e a maneira de abordá-lo. Da mesma for- ma, enfatizou o caráter estruturante do gênero por meio da centralidade de poder no eixo de disputas de luga- res sociais privilegiados. Entendido co- mo um processo de construção social, o gênero refere-se à forma como cada cultura trata as diferenças entre os se- xos, atribuindo a mulheres e homens determinadas características, concep- ções que constituem a definição vei- culada por relações hierárquicas de poder, desfavoráveis ao gênero femi- nino. Na discussão da extensão das transformações globais, é introduzida a noção de exclusão, considerando sua aplicabilidade à análise de modos de expressão desse fenômeno, diante das transformações no mundo do tra- balho, particularmente, à medida em que afeta a força de trabalho feminina. A concepção de exclusão constitui uma ferramenta para se analisar a des- vantagem social sob transformações estruturais (inclui elementos, como comportamentos e instituições); indi- ca o desemprego aberto e formas de inclusão no mercado de trabalho que são excludentes; possibilita examinar a condição da mulher no mercado de trabalho durante o processo de rees- truturação produtiva; acrescenta o poder analítico de conceitos como po- breza, desigualdade, marginalização e segregação, não somente porque des- creve uma situação, mas também por analisar um processo dinâmico de exclusão de gênero. Não se deve esquecer que a cons- trução social de identidades em torno de atributos como o sexo, idade e cor têm um impacto imenso nas experiên- cias e opções abertas a grupos social- mente distintos nos locais de trabalho, levando a construção de identidades que servem para diferenciar e excluir certos segmentos da sociedade (Gore, 1995:32; Posthuma, 1996:15). As con- tradições, as formas e abrangências da opressão são distintas para os diferen- tes gêneros, classes, raças e formas que tomam a acomodação e a resis- tência. Desvendar mediações na inter- secção do individual para a vida em sociedade, os comportamentos dos in- divíduos em suas relações sociais, é compreender que o homem é essen- cialmente social e histórico e que a identidade social de um indivíduo só pode ser compreendida a partir das práticas sociais, nas quais esse indiví- duo se insere e das representações que faz dessas práticas (Lane, 1984: 98). É nos meandros do processo de socialização - com suas mediações e contradições - que se constrói a natu- reza da identidade e intersubjetividade humana que é a expressão de deter- minantes sociais, políticos, culturais e ideológicos. Assim, ocorre a estruturação de uma dada classe de sujeito da história, em substituição à luta de classe, do marxismo ortodoxo. A noção de clas- se, na perspectiva crítica habermasiana, abrange as dimensões interpessoais das relações sociais, o processo inter- subjetivo de experiência de sujeitos e agentes potencialmente organizados de maneira auto-consciente, que fa- zem a história. Saffiotti (1969) oferece uma explicação básica para a tradicio- nal dominação e a opressão das mu- lheres e estabelece uma simbiose en- tre marxismo e patriarcado; ela indica que a simbiose significa que essas ca- tegorias se necessitam para se auto-ali- mentar, aglutinar-se e sobreviver. O princípio patriarcal tem por base elementos naturalizantes e funda- menta-se na condição biológica e na condição de reprodução da mulher, para justificar as diferenças com base na valorização do poder do homem, no poder da classe. O domínio mas- culino sobre as mulheres que perpas- sa através dos séculos nas sociedades, é responsável pela dominação/sub- missão feminina caracterizada basica- mente por papéis na família e na so- ciedade. Connell (1990) adverte que o patriarcado não pode ser analisado como um domínio ideológico que se- ja o locus da reprodução das relações sociais de classe. Existe uma estrutu- ra patriarcal da produção, uma estru- turação de classe da cultura - as duas são coordenadas, não complementa- res, e estão entrelaçadas. Sua dinâmi- ca interage, elas ajudam a estabilizar e a desestabilizar uma à outra; seus efeitos na vida de qualquer pessoa re- al estão condensados. As diferenças de classe são “co-existensivas” às dife- renças de gênero (Hirata e Kergoat, 1994). A articulação da relação gênero e trabalho feminino é balizada por ex- plicações. A primeira das explicações reside no campo econômico em que agem fatores de oferta e de demanda, Existe uma estrutura patriarcal da produção, uma estruturação de classe da cultura - as duas são coordenadas, não complementares, e estão entrelaçadas.
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    segundo os quaisas mulheres apare- cem como força de reserva para o ca- pital ou como ocupantes de empre- gos relativamente menos qualificados e que pagam salários mais baixos. A segunda explicação reside no campo institucional/cultural em que a família patriarcal ocupa um lugar importante, no âmbito da separação entre as esfe- ras da produção e reprodução. Am- bas as explicações aparecem como complementares, uma vez que nem a análise econômica, nem a análise ins- titucional/cultural, isoladamente, apre- sentam uma explicação satisfatória pa- ra a questão. As mulheres, embora em graus va- riados, experimentam formas duplas de dominação, tanto em casa quanto em locais de trabalho. Assim, a domi- nação não é unicamente inspirada ou esgotada pela lógica da opressão de classe. Ao adquirir visibilidade, con- quistar direitos, as mulheres avançam no processo de ruptura com a condi- ção de dominação, na produção de uma cultura em que prevaleçam seus interesses de classe e gênero, que atuam tanto na produção quanto na reprodução nas distintas esferas. A ex- pressão desse processo, acompanha a preocupação desse estudo. Operacionalização da pesquisa e alguns resultados Dado o caráter exploratório deste estudo, o “estudo de caso organiza- cional”, em dois bancos estatais: um federal e outro estadual de Sergipe, apresentou-se como mais adequado, mas apoiando-se também em dados mais gerais sobre o setor. Foi utilizada uma metodologia qualitativa sem des- considerar os aspectos quantitativos. O sistema financeiro, por utilizar as inovações tecnológicas de forma in- tensiva, exige elevada qualificação dos trabalhadores e, por essa razão, repre- senta um locus significativo de pesqui- sa para a análise das qualificações sociais requeridas pelas novas formas de uso da força de trabalho no proces- so de reestruturação capitalista. Ade- mais, essas organizações bancárias, em tese, seriam espaços para as estru- turações de relações sociais democrá- ticas. Isso porque utilizam critérios “universalistas” e racionais em suas políticas de gestão, adotam o concurso público para o recrutamento, forma- ção e progressão de seus funcionários, o que impede, por determinação legal, práticas discriminatórias a priori, favo- recendo a permanência e a carreira de grupos socialmente subordinados (co- mo o dos negros e o das mulheres), possibilitando que as desigualdades e diferenças de gênero sejam atenuadas (Castro e Guimarães, 1993). Diferentes fontes, primárias e se- cundárias, além de instrumentos va- riados de coleta de dados expressam os resultados desta pesquisa. Os con- tatos informais proporcionaram im- portantes contribuições, ampliadas com a realização de 70 entrevistas “semi-estruturadas” realizadas com dirigentes, trabalhadoras e trabalha- dores de diferentes segmentos ocupa- cionais, isso porque interessava captar as diferenças encontradas nos discur- sos, suas visões e representações. As entrevistas duraram entre uma a duas horas, consistindo em uma parte não dirigida e outra focalizada, contudo, sempre aberta nos tópicos que mais importavam para a construção do co- nhecimento. Em alguns casos, tam- bém se fizeram entrevistas biográficas. Este trabalho levanta questões empíricas e temas teóricos importan- tes, porém preliminares, para o desen- volvimento de uma investigação acer- ca da constituição e fragilização no iní- cio deste novo milênio, da identidade coletiva de um segmento particular dos trabalhadores bancários brasilei- ros. As características desta investiga- ção permitem algumas reflexões so- bre um tema tão complexo como o analisado, a partir da perspectiva do sistema hierárquico de gênero, no contexto do novo paradigma produti- vo, destacando as oportunidades de igualdade abertas para as mulheres, no processo de racionalização, organi- zação e gestão do trabalho, nos ban- cos estatais em Sergipe. Considerou-se que a identidade de gênero se constitui, ao longo de to- da a vida e em todas as áreas em que transita uma pessoa. É possível assi- nalar que o âmbito do trabalho, longe de ser um espaço neutro, constitui um processo generalizador. Ou seja, o jo- go do poder implícito nas relações en- tre gêneros se concretiza no âmbito laboral, em sua divisão, que produz e reproduz a relação de dominação e subordinação. Muitos autores analisam os pro- Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 39 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    40 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 blemas de gênero no âmbito familiar, deixando para o trabalho produtivo os problemas de classe. Aqui se coloca que a produção e reprodução das hie- rarquias de gênero se estruturam, tanto no âmbito doméstico, como no âmbito do trabalho produtivo. Ado- tou-se um marco geral para a análise da coexistência de vários sistemas hie- rárquicos, geradores de desigualdade e da multideterminação do comporta- mento. Estes sistemas hierárquicos articulam-se entre si de maneira com- plexa, por exemplo, uma mulher e um homem trabalhadores bancários com- partilham a mesma relação de poder e a mesma posição antagônica no sis- tema de gênero. Assim, encontram-se múltiplas articulações entre o sistema de classe e o de gênero, diferentes formas em que o capital se serve do sistema de gênero para aumentar sua rentabilidade. No setor financeiro bancário, po- de-se dizer que todos os setores de trabalho foram atingidos pela infor- matização, porém, de maneira dife- rente quanto “ao espírito e aos resul- tados”. Os postos de trabalho flexibi- lizados, que significam maior integra- ção das funções e maior requalifica- ção são predominantemente masculi- nos, como a gerência, assessoria de negócios, etc. (comissionados). Pare- ce, então, que a apropriação pelos tra- balhadores bancários homens da esfera da tecnologia contribui para fortalecer a ideologia da masculinida- de, pois a concepção dos instrumen- tos de trabalho está controlada por homens, simplesmente porque essa é uma das áreas em que as mulheres estão sempre excluídas, como estão também, das áreas governamentais na maioria dos países (Cockburn, 1988). Observa-se que a tecnologia constitui uma fonte de poder, em que os homens estabelecem uma posses- são do poder em outras áreas. Por outro lado, a mesma socializa- ção de gênero desenvolve e reforça a imagem do varão relacionada com os aspectos tecnológicos (brincar com carrinhos, armar e desarmar, etc.), que, entretanto, exclui as meninas de tais práticas. Por conseguinte, a apro- priação da inovação tecnológica e o controle da fabricação de instrumen- tos e máquinas estão em mãos dos homens que intervêm de maneira de- terminante na definição do trabalho profissional e doméstico que efetuam as mulheres. O “lugar” ocupado pelas mulheres nas organizações financeiras mostra- se revelador não só das especificida- des das relações sociais, no contexto da reestruturação bancária, como das diferentes possibilidades de uso do trabalho feminino. No período da pes- quisa de campo (primeiro semestre de 2000), os dados obtidos informam a existência de 1.510 funcionários nas organizações, entre os quais, 887 (58,7%) homens e 623 (41,3%) mu- lheres, indicando que elas estão ocu- pando novos espaços no setor finan- ceiro, categoria na qual o seu ingresso não era permitido, antes de 1960. No Banese (Banco do Estado de Sergipe), o processo de reestruturação apresen- ta-se mais favorável à presença de mulheres que no BB (Banco do Bra- sil), observando-se maior desequilí- brio das forças em jogo. O desenho dos processos de tra- balho nos bancos marca, implicita- mente, se é o homem ou a mulher que vai executar as atividades em ca- da posto de trabalho. Da mesma for- ma, o uso do espaço, sem dúvida, está associado aos processos tecnológicos e de trabalho, também produzem e reproduzem relações de poder. Por suposto, a lógica do capital não está ausente de tudo isso; pelo contrário, desempenha um papel muito impor- tante. Pode-se inferir que a implanta- ção das inovações tecnológicas, no se- tor financeiro bancário, não é neutra quando se analisa o processo de for- mação da identidade de gênero. Da mesma forma que com os outros as- pectos da divisão sexual do trabalho, o capitalismo é o que obtém a vanta- gem maior com a reprodução das divi- sões, deixando a descoberto a com- plexidade da questão que pode permi- tir abordagens sob distintos ângulos. A feminização do trabalho bancário não parece contribuir de forma signifi- cativa para ampliar as chances de oportunidades iguais para as mulheres no trabalho. No BB, dos seis (0,2%) gerentes de contas, dois (0,3%) são mulheres; dos 49 (8,2%) gerentes de expediente, oito (1,3%) são mulheres. No Banese, entre os cinco (0,5%) as- sistentes de negócios, quatro (0,4%) são mulheres; dos 214 (23,5%) agen- tes de serviços bancários, 162 (17,8%) são mulheres e dos 350 (38,4%) cai- xas, 208 (22,8%) são mulheres. Os postos de trabalho informatizados são predominantemente femininos e sub- metidos a tempos impostos: digitação (em postos sem comissão) e caixa de banco. A maioria das mulheres encon- tra-se em postos de trabalho que demandam um nível de aprendizagem e qualificação inferior em relação ao dos homens; inserem-se, sobretudo, em tarefas vinculadas à preparação de dados, nas funções denominadas “de suporte”, tanto nas agências, como nos Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil A feminização do trabalho bancário não parece contribuir de forma significativa para ampliar as chances de oportunidades iguais para as mulheres. UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 41 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil departamentos, o que lhes dificulta a mobilidade no interior da empresa. As bancárias geralmente concen- tram-se em níveis hierárquicos inferio- res, demonstrando a existência do fe- nômeno da segmentação do trabalho. A segmentação por gênero observada nos bancos estatais, em Sergipe, é também apontada pela OIT1 - Organi- zação Internacional do Trabalho - a partir de dados obtidos em pesquisa realizada no período compreendido entre 1986/89/90, junto a 19 bancos multinacionais, com sede em diferen- tes países da Europa, Ásia, América do Norte, Central e do Sul. O fenômeno da segregação/seg- mentação das ocupações é considera- do um dos maiores obstáculos para o progresso das mulheres, no mundo do trabalho, por significar menor re- muneração por hora trabalhada, aces- so restrito a crédito e baixa mobilida- de ocupacional. A segregação hori- zontal concentra a mulher em um nú- mero reduzido e determinado de se- tores e ocupações, quase sempre su- balternos, em atividades que exigem uma maior atenção, concentração, re- petição, simplificação de tarefas e pouco status profissional (caixas), em lugares “femininos” mais adaptados às suas habilidades naturais. A segre- gação vertical impede a ascensão da maioria das bancárias a postos decisó- rios (superintendência, gerência, su- pervisão). Apenas três bancárias con- seguiram se inserir em domínios de atividades financeiras consideradas mais masculinas (cargos de comando: superintendência e gerência, princi- palmente no banco estadual). Esse fa- to sinaliza que há possibilidade de su- peração das barreiras de acesso para posições que exigem desafio, compe- titividade e elevada qualificação. Os trabalhos que são desempenhados por homens são mais prestigiosos e mais remunerados. Tudo indica não existirem fatores naturais, inerentes ou lógicos que ins- tituam a divisão sexual do trabalho, senão que exista uma construção so- cial de práticas e relações de trabalho cuja coerência reside na articulação, muitas vezes, simbólica de vários fato- res (Souza-Lobo, 1985). Frente à pre- sença feminina no setor financeiro bancário, é possível observar que o capital se serve da segmentação se- xual da mão-de-obra feminina, utili- zando elementos do gênero dominan- te para exercer o poder sobre a subor- dinação. Ambos os enfoques comple- mentam-se com o objetivo de ofere- cer uma visão compreensiva das rela- ções sociais no trabalho. Ocorre que a lógica do capital se serve das relações hierárquicas de gê- nero e, por sua vez, as reforça, porém não as cria, já que essas são anterio- res. Por outro lado, as escalas hierár- quicas tendem a excluir as mulheres dos postos de comando, onde os su- bordinados são homens. Porém, o mais significativo é que tanto os traba- lhadores quanto as trabalhadoras não parecem aceitar as mulheres exercen- do autoridade. Os homens as depre- ciam e as mulheres têm uma relação conflitiva entre elas, preferindo chefes homens. Elas não percebem que a manifestação de seus estereótipos contribui para a reprodução das desi- gualdades. As barreiras e discriminações rela- cionadas fundamentalmente às ima- gens de gênero estruturadas entre tra- balhadoras(es) bancários dificultam uma maior participação e democrati- zação de mulheres, no setor financei- ro. Essas imagens (hierarquização e exclusão) são uma dimensão funda- mental do processo de constituição das categorias que vão estruturar a de- finição dos postos de trabalho e dos perfis de qualificação e competências a eles associados (Abramo,1996). Em todos os casos, a divisão sexual do tra- balho favorece e afirma a superiorida- de da masculina. A incorporação de novas formas de contratação e o sur- gimento de novas qualificações so- ciais têm acarretado uma heteroge- neizaçâo das condições de inserção dessa força de trabalho. Tudo isso fun- da a fragilização da identidade coleti- va anterior, que já não corresponde às exigências empresariais, e tampouco permite responder aos desejos, pro- blemas, necessidades e expectativas dos trabalhadores. A mudança no perfil do bancário em Sergipe evidencia-se, também, pe- la elevação do nível de escolaridade da categoria: aumento de bancários que apresentam crescente ampliação do nível médio de escolaridade tradi- cionalmente exigido para o acesso ao trabalho bancário, para o nível de es- colaridade superior. Particularmente, no Banese, as mulheres apresentam- se em situação mais vantajosa com relação à escolaridade de nível supe- rior (16,9%) comparativamente aos homens (11,8%). Esse fato questiona a idéia de que os rendimentos das mulheres são inferiores aos dos ho- mens porque seu nível de instrução é menor (Abramo, 1996). Mesmo com escolaridade elevada, as bancárias predominantemente ocupam cargos de menor qualificação e encontram dificuldade para ampliar suas oportunidades e ascender a posi- O mais significativo é que tanto os trabalhadores quanto as trabalhadoras não parecem aceitar as mulheres exercendo autoridade. UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    ções de maiorpoder, prestígio e auto- nomia. Faz-se necessário ampliar os requisitos de qualificação enquanto condição essencial à construção de ci- dadania das mulheres, nas dimensões política, social, econômica e cultural (Cruz, 1999). Os bancos manifestam crescente preocupação em investir na área de formação e treinamento. Nes- se esforço, há uma mobilização de competências não apenas técnicas, mas sociais e culturais, afastando-se do profissional exigido no passado. Nesse sentido, há uma desqualifica- ção dos funcionários que, embora “ex- perientes” (em geral os funcionários mais velhos) apresentam dificuldades a ajustarem-se às mudanças do pre- sente, tanto em nível tecnológico, quanto em termos de desempenho de funções. No que se refere aos programas de formação e treinamento, a tendência foi no sentido de: a) realização de cur- sos rápidos, on-the-job, visando tanto o desenvolvimento de aspectos com- portamentais - ênfase em comunica- ção, liderança e tomada de decisão (espírito de equipe, dedicação, criativi- dade, idealismo) - quanto aos aspec- tos técnicos, dirigidos para o conheci- mento da informática, para a atualiza- ção de softwares e aplicativos, tendo em vista aumentar a capacidade do funcionário de explorar as potenciali- dades da máquina utilização de “pro- gramas inteligentes” e simulação de situações como plataformas de negó- cios; b) realização de cursos com ma- temática financeira, crédito e negocia- ção, leasing, produtos e serviços ban- cários, e c) realização de cursos exter- nos destinados, principalmente, a gru- pos restritos de funcionários. As novas práticas produtivas estão alterando os conceitos de qualifica- ção, passando a exigir trabalhadores polivalentes que podem antecipar, planejar e pensar estrategicamente e desempenhar um leque de atividades interrelacionadas. De fato, a mudança nos paradigmas produtivos faz novas demandas à mão-de-obra preparada para atuar de acordo com o paradig- ma taylorista/fordista. Ainda que este não seja substituído totalmente (e vá- rios estudos têm apontado para a fun- cionalidade de sua manutenção no in- terior de setores e empresas integra- das e flexíveis), sem dúvida, a reestru- turação produtiva colocou em questão o velho modelo de trabalhador espe- cífico, atuando no posto específico de trabalho, para o qual tinha sido prepa- rado através da qualificação formal, ao colocar uma forte ênfase sobre as for- mas de organização do trabalho que tende a apoiar-se menos nos ‘com- ponentes’ explícitos (da qualificação): educação escolar, formação técnica, educação profissional (Hirata, 1994: 132) e mais nos seus “componentes implícitos e não organizados”. O novo paradigma da flexibilidade afirma, assim, a desqualificação do an- tigo trabalhador para fazer face às no- vas exigências produtivas. Mas, de ou- tro lado, descortina as possibilidades de reqüalificação desencadeadas pe- las próprias características inovadoras do paradigma que passam a orientar a produção e o trabalho e, em boa parte, os serviços. No setor financeiro bancário, valo- rizam-se novos saberes “qualificações sociais tácitas”, habilidades de comu- nicação consideradas importantes nas funções de atendimento ao cliente, na abertura de contas, nas funções de caixa, promotora de vendas e outras. Os padrões de treinamentos institu- cionais reproduzem as divisões social e sexual das ocupações, qualificações e competências. As trabalhadoras são culpabilizadas por declinarem de indi- cações para treinamentos em locais distantes, em favor de colegas ho- mens devido aos papéis reprodutivos e questões familiares. A complexidade das formas de uso da mão-de-obra feminina informa não existirem fatores naturais inerentes ou lógicos que instituam a divisão sexual do trabalho. Identificam-se nas justifi- cativas e representações dos partici- pantes da pesquisa uma ordem de ar- gumentos/dimensões/fatores objeti- vos - a segregação reforça a falta de oportunidades, e de experiência técni- ca das mulheres - dimensões/fatores subjetivos - emerge a continuação de noções de trabalho feminino diferen- tes do masculino nas justificativas de gerentes, trabalhadores e nas próprias mulheres. As representações de gênero in- terferem nas definições e significados atribuídos ao trabalho, à qualificação/ desqualificação masculina e feminina, refletem o sistema de educação/ so- cialização dos indivíduos e transcen- dem o aparelho escolar adquirem for- mas conjunturais e culturais diversas. Por exemplo, os estereótipos de habi- lidades femininas foram reproduzidos por gerentes: “as mulheres preferem o trabalho de caixa pela vantagem de terminar o turno de trabalho com ma- ior rapidez, liberando-as para os pa- péis na família”. De forma bastante simplificada, é 42 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil As trabalhadoras são culpabilizadas por declinarem de indicações para treinamentos em locais distantes, em favor de colegas homens devido aos papéis reprodutivos e questões familiares.
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    Ano XI, Nº28, novembro de 2002 - 43UNIVERSIDADE E SOCIEDADE possível dizer que a “racionalização” do trabalho no setor financeiro bancá- rio tende a apresentar dimensão posi- tiva aos aspectos relacionados a esfe- ra quantitativa e racional. Em outras palavras, é possível dizer que tudo aquilo que é racional é masculino, tu- do que é masculino diz respeito à pro- dução, tudo que diz respeito à produ- ção é celebrado nos locais de traba- lho. Por conseguinte, tudo aquilo que é negativo pertence à esfera emotiva, tudo que é emotivo é feminino, tudo que diz respeito à reprodução consu- ma-se no universo doméstico. Assim, a integração da mulher no setor bancário não implica sua eman- cipação, nem tão pouco a eliminação das desigualdades criadas dentro da unidade doméstica. Tudo leva a crer que as trabalhadoras ao ingressarem no mercado de trabalho, o fazem em sua maioria em profissões que lhes permitem desempenhar suas funções de mães e de donas de casa, pois, apesar de todo o progresso e das con- quistas femininas, as mulheres têm acesso preferencial às funções qualifi- cadas em setores bem delimitados, in- dicando “a projeção da esfera marcan- te do trabalho doméstico, tradicional- mente reservado às mulheres” (Bo- uillaguet apud Kartchevesky-Bullport, 1986:80). Além de fatores externos, a própria mulher participa como cúmplice de sua subordinação, da construção de uma identidade diferenciada de traba- lhos e qualificações adequados para mulheres e homens, na medida em que ela aceita como natural, ou como seu destino de gênero, a sua exclusão de certos tipos de trabalho e de quali- ficação. Essa atitude pode estar rela- cionada à internalização da tradicio- nalmente baixa qualificação da mu- lher, conforme já assinalado por Sou- sa-Lobo, “a não-qualificação das mu- lheres é normatizada e a qualificação remete à problemática das mulheres excepcionais” (Souza-Lobo, 1991:92). O sistema hierárquico de gênero está presente nas práticas e processos como no modo de produção e suas relações de classe; assim, a relação capital-trabalho, enquanto relação his- tórica concreta, pode ser vista como uma forma de incorporar a hierarquia de gênero, já que o trabalho está divi- dido em torno de uma hierarquia se- xual onde a mulher desempenha um rol de papéis secundários e, portanto, tem um trabalho secundário. Assim, os poderes macro e micro se interpe- netram transversalmente, sustentados por comportamentos e instituições existentes, assumindo importâncias distintas ao nível das relações huma- nas na conjuntura histórica particular do Nordeste. A concepção do trabalho feminino utilizada neste estudo procurou inte- grar as esferas produtiva/reprodutiva, o público/privado, para tornar visíveis o trabalho que as mulheres desempe- nham também na família (Bruschini, 1994). A organização familiar desvela padrões de relações sociais patriarcais por meio da divisão sexual de papéis, em aspectos considerados relevantes para indicar transformações na dinâ- mica das relações familiares: a admi- nistração doméstica, o orçamento fa- miliar e educação dos filhos. Na refle- xão sobre esses temas, as responden- tes deixam claro as assimetrias na di- visão dos papéis. Apenas duas mulhe- res expressaram um modelo alternati- vo, buscando planificar uma redistri- buição das tarefas domésticas, porém, também, uma redistribuição da parti- cipação da mulher no espaço político, no sentido amplo do termo. Considerações finais Seguindo tendência internacional, os bancos reorientaram a natureza de suas atividades (antes voltadas priori- tariamente para a área financeira e que, hoje, sofrendo concorrência de instituições não-bancarias, tornam-se menos rentáveis), voltando-se para a área de negócios, que inclui atividades nos mercados de futuro e de derivati- vos, bem como atividades relaciona- das à gestão de risco. Para atender a essa reorientação, foram ampliadas as vagas para o exercício imediato da função de gerente de negócios. No que se refere à reestruturação, A integração da mulher no setor bancário não implica sua emancipação, nem tão pouco a eliminação das desigualdades criadas dentro da unidade doméstica. Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE44- Ano XII, Nº 29, março de 2003 os bancos adotaram a estratégia de cultivo de clientes, buscando maximi- zar o número de vinculações do clien- te com os bancos. A reorientação das atividades dos bancos manifesta-se de imediato na definição do lay-out das agências. Nesse modelo, as agências possuem espaços físicos especifica- mente demarcados, sinalizados e am- bientados, de forma a atender aos no- vos objetivos, tendo em vista enfrentar a concorrência do mercado. Dentre as conclusões, caberia destacar que os ganhos para a força de trabalho, resul- tantes do processo em estudo, pode- riam ser relativizados, já que os mes- mos são acompanhados de efeitos negativos, como maior desgaste físico e mental da força de trabalho, além da ocorrência de altas taxas de desem- prego. Nesse sentido, pode-se supor que a uma possível elevação da quali- ficação dos que permanecem no em- prego, corresponderia uma degrada- ção das condições de vida em termos mais gerais. No que se refere à confi- guração organizacional, esta tende à organização horizontal, com acentua- da redução dos níveis hierárquicos. Os postos de atendentes deverão ser eli- minados no futuro. O gerente geral das agências não deve distinguir-se dos demais funcionários, em termos de execução de tarefas. Todos devem desempenhar a função de gerente, constituindo equipes de venda. Por outro lado, a organização do trabalho está baseada, não em uma estrutura de funções, mas em uma estrutura de processos e negócios, constituída por equipes. A polivalência torna-se uma exi- gência, a partir do princípio de que to- dos devem saber desempenhar qual- quer operação demandada pelo clien- te. A idéia é de integração de funções, no sentido de que, ao ser atendido por um funcionário, o cliente possa realizar todas as suas operações com o mesmo funcionário. Se, de um lado, essa estratégia significa fator de eleva- ção da qualificação para os funcioná- rios, já que amplia o seu âmbito de atividades, para o gerente da agência, significa mudança radical de suas atri- buições, num sentido nem sempre fa- vorável verifica-se aumento significati- vo de responsabilidades, perda de au- toridade, e “degradação” de status. Ocorre uma significativa transfor- mação da natureza da relação do ge- rente com o cliente. Ao mesmo tem- po, o trabalho em equipe determina a perda da autonomia do cargo, já que exige a ausência de hierarquia, vendo- se o gerente obrigado a desempenhar várias funções menos valorizadas, como, por exemplo, a abertura de contas. O perfil do novo bancário é, portanto, traçado a partir da ênfase na capacidade de lidar com tarefas não prescritas e com limites pouco defini- dos, contrariando a exigência anterior, quando as atividades eram claramen- te delimitadas pelo manual. Nesse sentido, um mudança significativa diz respeito à eliminação ou a forte redu- ção de trabalho burocrático. Essa é uma tendência observada mundial- mente. Os funcionários entrevistados queixaram-se da falta de treinamento adequado, especialmente, em razão da rapidez com que foram ministra- dos. Manifestaram também desejo de ampliar suas possibilidades de forma- ção, especialmente, na área negocial, de informática, de vendas e de merca- do financeiro, bem como desejo de realizar cursos externos - em grandes cidades da região sul do Brasil, - que oferecessem melhores oportunidades de profissionalização, percebidos como arma contra a demissão e como trunfo para a empresa no contexto da competição. Os bancários, em geral, apresentam expectativas em desenvolver domínio técnico e ressentem-se dos critérios uti- lizados na indicação para os treinamen- tos. Nesse processo, com freqüência, os papéis reprodutivos das mulheres são utilizados nas justificativas que as ex- cluem dos treinamentos técnicos, prin- cipalmente, em locais distantes. Ade- mais, uma variedade de fatores estrutu- ra as diferenças de gênero, a segrega- ção e a discriminação da mulher no tra- balho, na qualificação, mostrando o la- do multifacetado do processo de exclu- são no contexto do novo paradigma produtivo no setor financeiro bancário. Esses fatores podem melhorar ou apro- fundar as desigualdades para a mulher e outros segmentos vulneráveis da força de trabalho. Fica evidente que os relaciona- mentos interpessoais e, conseqüente- mente, a personalidade das trabalha- doras também são marcados pela do- minação, que tem origem na cultura e instituições do patriarcalismo. Sendo assim, tanto do ponto de vista analíti- co quanto político, é essencial não es- quecer o enraizamento do patriarcalis- mo na estrutura familiar e na reprodu- ção sócio-biológica da espécie, con- textualizados histórica e culturalmente (Castells, 1999). Os processos de mu- dança cultural são muito lentos. Nesse contexto, no espaço e tempo desta pesquisa, evidencia-se que a subordi- nação feminina e a divisão sexual do trabalho parecem ser duas faces de uma mesma moeda - encontrar os A personalidade das trabalhadoras também são marcados pela dominação, que tem origem na cultura e instituições do patriarcalismo. Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 45 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil mecanismos que permitam obter um caminho das relações entre os gêne- ros constitui o desafio. Os diferenciais de gênero se mos- tram importantes para a melhor com- preensão do processo de inserção das mulheres no mercado de trabalho, bem como de trazer para o debate questões ligadas aos universos públi- co e privado que ainda não receberam a necessária atenção. Isso reforça a intenção de continuar analisando e acompanhando esses processos, as- sim como de avançar na discussão e revisão de políticas gerenciais, estraté- gias sindicais e espaços de negocia- ção, tendo em vista a construção de uma sociedade mais democrática com forte ênfase na eqüidade de gênero. Particularmente, os dados aqui apresentados trazem questionamen- tos para o campo educacional, no sentido de rever processos de forma- ção, os novos conceitos e demandas por qualificação que emergem na esteira do processo de globalização, conjuntamente com a revolução no campo da informática que o tornou possível. Não se deve esquecer que dois tipos de mudança têm vinculação direta com a questão da exclusão so- cial, da exclusão de gênero, com o surgimento de um novo paradigma de emprego, mais flexível, precário e des- provido de garantias de estabilidade associadas ao padrão convencional: de outro lado, também não se deve esquecer, da minimização do papel do Estado, que vem sendo questionado sobre o seu papel tradicional de guar- dião das garantias sociais. Notas 1. Informe OIT, Los bancos multinaciona- les y sus praticas sociales y laborales, Madrid: Centro de Publicaciones, Ministeriro de Tra- bajo y Seguridade Social, 1992 p. 94. Referências Bibliográficas ABRAMO, L. 1996. 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    46 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Um breve histórico As chamadas políticas de ação afirma- tiva são muito recentes na história da ideologia anti-racista. Nos países onde já foram implantadas (Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Índia, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia e Malásia, entre outros), elas visam ofe- recer aos grupos discriminados e excluídos um tratamento diferenciado para compensar as desvantagens devidas à sua situação de vítimas do racismo e de outras formas de discri- minação. Daí as terminologias de “equal oportunity policies”, ação afir- mativa, ação positiva, discriminação positiva ou políticas compensatórias. Nos Estados Unidos, onde foram aplicadas desde a década de sessenta, elas pretendem oferecer aos afro-ame- ricanos as chances de participar da di- nâmica da mobilidade social crescen- te. Por exemplo: os empregadores fo- ram obrigados a mudar suas práticas, planificando medidas de contratação, formação e promoção nas empresas visando à inclusão dos afro-america- nos; as universidades foram obrigadas a implantar políticas de cotas e outras medidas favoráveis à população negra; as mídias e órgãos publicitários foram obrigados a reservar, em seus progra- mas, uma certa percentagem para a participação dos negros. No mesmo momento, programas de aprendizado de tomada de consciência racial foram desenvolvidos a fim de levar a reflexão aos americanos brancos, na questão do combate ao racismo. Qualquer proposta de mudança em benefício dos excluídos jamais recebe- ria uma apoio unânime, sobretudo quando se trata de uma sociedade ra- cista. Neste sentido, a política de ação afirmativa nos Estados Unidos tem seus defensores e detratores. Foi gra- ças a ela que se deve o crescimento da classe média afro-americana, que hoje atinge cerca de 3% de sua população, sua representação no Congresso Na- cional e nas Assembléias estaduais; mais estudantes nos níveis de ensino correspondentes ao nosso ensino mé- dio e superior; mais advogados, pro- fessores nas universidades, inclusive nas mais conceituadas, mais médicos nos grandes hospitais e profissionais, em todos os setores da sociedade americana. Apesar das críticas contra ação afirmativa, a experiência das últi- mas quatro décadas nos países que implementaram, não deixam dúvidas sobre as mudanças alcançadas. Argumentos em favor das cotas para a população negra no Brasil As experiências feitas pelos países que convivem com o racismo pode- riam servir de inspiração ao Brasil, res- peitando as peculiaridades culturais e históricas do racismo à moda nacional. Podemos, sem cópia, aproveitar das experiências positivas e negativas vi- venciadas por outros para inventar nossas próprias soluções, já que não contamos com receitas prontas para enfrentar nossas realidades raciais. Vozes eloqüentes, estudos acadê- micos qualitativos e quantitativos re- centes realizados pelas instituições de pesquisas respeitadíssimas como o IBGE e o IPEA não deixam dúvidas so- bre a gravidade gritante da exclusão do negro, isto é, pretos e mestiços na Ação afirmativa em benefício da população negra Kabengele Munanga •
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    Minorias Sociais eLuta de Classe no Brasil sociedade brasileira. Fazendo um cru- zamento sistemático entre a pertença racial e os indicadores econômicos de renda, emprego, escolaridade, classe social, escolaridade, idade, situação fa- milial e região ao longo de mais de 70 anos desde 1929, Ricardo Henriques (2001) chega à conclusão de que, “no Brasil, a condição racial constitui um fator de privilégio para brancos e de exclusão e desvantagem para os não- brancos. Algumas cifras assustam quem tem preocupação social aguçada e compromisso com a busca de igualdade e qua- lidade nas sociedades hu- manas”: Do total dos universi- tários, 97% são bran- cos, sobre 2% de ne- gros e 1% de des- cendentes de orien- tais. Sobre 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da li- nha da pobreza, 70% deles são ne- gros. Sobre 53 milhões de brasileiros que vi- vem na pobreza, 63% deles são negros (Hen- riques, 2001). Deduz-se dessa pesquisa que, se por milagre o ensino básico e fundamental melhorar seus níveis para que os alunos des- ses níveis de ensino possam competir igualmente no vestibular com os alu- nos oriundos dos colégios particulares bem abastecidos, os alunos negros le- variam cerca de 32 anos para atingir o atual nível dos alunos brancos. Isso su- põe que os brancos fiquem parados em suas posições atuais esperando a chegada dos negros, para juntos cami- nharem no mesmo pé de igualdade. Uma hipótese improvável, ou melhor, inimaginável. Os lobbyes das escolas particulares, cada vez mais fortes, dei- xarão os colégios públicos subirem seu nível de ensino, tendo como conse- qüência a redução de sua clientela majoritariamente oriunda das classes sociais altas e médias e a diminuição de seus lucros? Quanto tempo a popu- lação negra deverá ainda esperar essa igualdade de oportunidade de acesso e permanência a um curso superior ou universitário gratuito e de boa qua- lidade? Num país onde os precon- ceitos e a discriminação ra- cial não foram zerados, ou seja, onde os alunos brancos pobres e ne- gros ainda não são iguais, pois uns são discriminados uma vez pela condição sócio-econômica e outros são discri- minados duas ve- zes pela condição racial e sócio-eco- nômica, as políticas ditas universais de- fendidas sobretudo pelos intelectuais de esquerda e pelo ex-mi- nistro da educação Pau- lo Renato não trariam as mudanças substanciais es- peradas para a população ne- gra. Como disse Habermas, o modernismo político nos acostu- mou a tratar igualmente seres desi- guais, em vez de tratá-los de modo desigual. Daí a justificativa de uma po- lítica preferencial, no sentido de uma discriminação positiva, sobretudo quando se trata de uma medida de in- denização ou de reparação para com- pensar as perdas de cerca de 400 anos de decalage no processo de desenvol- vimento entre brancos e negros. É nes- te contexto que colocamos a impor- UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 47
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    Minorias Sociais eLuta de Classe no Brasil tância da implementação de políticas de ação afirmativa, entre as quais a experiência das cotas, que, pelas expe- riências de outros países, se afirmou como um instrumento veloz de trans- formação, sobretudo no domínio da mobilidade sócio-econômico, conside- rado como um dos aspectos não me- nos importante da desigualdade racial. A questão fundamental que se colo- ca é como aumentar o contingente negro no ensino universitário e supe- rior de modo geral, tirando-o da situa- ção de 2% em que se encontra depois de 114 anos de abolição em relação ao contingente branco que sozinho re- presenta 97% de brasileiros universitá- rios. É justamente na busca de ferra- mentas e de instrumentos apropriados para acelerar o processo de mudança desse quadro injusto em que se en- contra a população negra que se colo- ca a proposta das cotas, apenas como um instrumento ou caminho entre tantos a serem incrementados. Porque então a cota e não outros instrumen- tos e que instrumentos? Numa socie- dade racista, onde os comportamen- tos racistas difundidos no tecido social e na cultura escapam do controle so- cial, a cota obrigatória se confirma, pe- la experiência vivida pelos países que a praticaram, como uma garantia de acesso e permanência aos espaços e setores da sociedade até hoje majori- tariamente reservados à “casta” branca da sociedade. O uso deste instrumen- to seria transitório, esperando o pro- cesso de amadurecimento da socieda- de global, na construção de sua demo- cracia e plena cidadania. Paralela- mente às cotas, outros caminhos a cur- to, médio e longo prazos projetados em metas poderiam ser inventados e incrementados. Tratando-se do Brasil, um país que desde a abolição nunca assumiu seu racismo, condição sine qua non para pensar em políticas de ação afirmativa, os instrumentos de- vem ser criados através dos caminhos próprios ou da inspiração dos cami- nhos trilhados por outros países em situação comparável. Reações absurdas e inimagináveis vieram dos setores informados e escla- recidos que geralmente têm voz na sociedade brasileira. Que absurdo, re- servar vagas para negros, o que carac- terizam como uma injustiça contra alu- nos brancos pobres! Aqui somos todos mestiços, quer dizer que no Brasil não existem mais nem negros, nem bran- cos, nem índios, nem japoneses, por causa do alto grau de mestiçamento. Aqui, não estamos nos Estados Unidos para impor soluções que nada têm a ver com nossa realidade genuinamen- te brasileira etc. Vejam que se deixa de discutir uma questão social que, como apontam as estatísticas das pesquisas do IBGE e IPEA, é caracterizada por uma desigualdade racial brutal e gri- tante. Porque isso? Parece-me que o imaginário coletivo brasileiro está ainda encobertado pelo mito da de- mocracia racial. Não era possível imaginar as pro- postas de ação afirmativa num país onde há pouco tempo se negava os indícios de preconceito étnicos e de discriminação racial. Em dezenas de anos, os movimentos sociais negros lutaram duramente para arrancar, da voz oficial brasileira, a confissão de que esta sociedade é também racista. Embora o racismo esteja ainda muito vivo na cultura e no tecido social brasi- leiro, a voz oficial reagiu há pouco tempo aos clamores dos movimentos negros, como bem ilustrado pelo texto do “Relatório do Comitê Nacional Para a Reparação da Participação Brasileira, na III Conferência Mundial das Nações Unidas Contra o Racismo, Discrimina- ção racial, Xenofobia e Intolerância Correlata”, realizada em Durban, África do Sul, de 31 de agosto a 07 de setem- bro de 2001. Nesse relatório, no que tange às propostas em benefício da “comunidade” negra: “a adoção de medidas reparatórias às vítimas do racismo, da discriminação racial e de formas conexas de intolerância, por meio de políticas públicas específicas para a superação da desigualdade. Tais medidas reparatórias, fundamentadas nas regras de discriminação positiva prescritas na Constituição de 1988, de- verão contemplar medidas legislativas e administrativas destinadas a garantir a regulamentação dos direitos de igualdade racial previstos na Cons- tituição de 1988, com especial ênfase nas áreas de educação, trabalho, titula- ção de terras e estabelecimentos de uma política agrícola e de desenvolvi- mento das comunidades remanescen- tes dos quilombos”, - adoção de cotas ou outras medidas afirmativas que promovam o acesso de negros às uni- versidades públicas” (Ministério da Justiça, 2001: 28-30). Infelizmente, comparativamente ao avanço constatado nesse relatório, os três candidatos principais ao posto de Presidente da República, nas eleições de 2002, não mostraram uma postura clara e firme sobre este problema, ou adotaram uma estratégia de desinfor- mação, ora para não se compromete- rem com a população negra, ora para não perderem seus eleitores no meio de racistas brancos, já que o importan- te para alguns deles era ser eleito pre- sidente, a qualquer custo! O atrito en- UNIVERSIDADE E SOCIEDADE48 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Em dezenas de anos, os movimentos sociais negros lutaram duramente para arrancar, da voz oficial brasileira, a confissão de que esta sociedade é também racista.
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    tre o estudantenegro Rafael dos Santos e o candidato Ciro Gomes, no debate que ocorreu em 7 de abril na UnB, não deixa dúvida sobre a estraté- gia do silêncio e da desinformação. In- dagado sobre sua posição no que diz respeito às políticas de cotas para ne- gros, o candidato desconversou, dizen- do que os negros não precisam que ninguém tenha “peninha” deles, além de impedir que a palavra fosse fran- queada ao estudante. Como explicar o silêncio, a incerteza e até mesmo a de- sinformação dos candidatos sobre uma questão tão importante para a vida e o futuro de mais de 70 milhões de brasileiros de ascendência africana? Estratégia ou resíduo perverso do mito de democracia racial que ainda ronda no inconsciente coletivo do brasileiro? Tudo é possível! O que me espanta muito não é tanto a reação popular, facilmente ex- plicável. O que me surpreende é que as mesmas reações e os mesmos luga- res comuns se encontram na minha universidade, uma das mais importan- tes do Hemisfério Sul, em termos de produção de conhecimento científico e da reflexão crítica sobre as socieda- des humanas. Nessa universidade, brotou a chamada Escola Sociológica de São Paulo, da qual participaram eminentes estudiosos como Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Oracy Nogueira, Jo- ão Batista Borges Pereira e tantos ou- tros que iniciaram os estudos sobre o negro, na ótica das relações raciais e interétnicas, rompendo com a visão apenas raciologista e culturalista de Nina Rodrigues e seu discípulo Arthur Ramos, entre outros. Rebatendo e refutando algumas críticas contra as cotas para negros no Brasil 1. Dizem que é impossível imple- mentar cotas para negros no Brasil, porque é difícil definir quem é negro no país por causa da mestiçagem, tendo como conseqüência a possibili- dade da fraude por parte dos alunos brancos, que alegando sua afro-des- cencência pelo processo de mestiça- gem, ocupariam o espaço destinado às verdadeiras vítimas do racismo. Em primeiro lugar, não acredito que todos os alunos brancos pobres possam co- meter este tipo de fraude para ingres- sar na universidade pública, por causa da força do ideal do branqueamento ainda atuando no imaginário coletivo do brasileiro. Um racista essencialista, psicologicamente convencido da supe- rioridade de sua “raça”, não troca de campo com tanta facilidade. Muitos não aceitarão a troca, em nome do chamado orgulho da raça. Conscientes desta dificuldade, alguns recorrem aos falsos princípios de democracia, advo- gando a introdução de uma flagrante injustiça contra brancos pobres, se o Brasil adotar cotas em favor da maioria de negros pobres. Se for fácil identifi- car os alunos brancos pobres, porque o seria tão difícil para os alunos negros pobres? Em segundo lugar, a identifi- cação é uma simples questão de auto definição, combinando os critérios de ascendência politicamente assumida com os critérios de classe social. Isto tem sido o critério ultimamente utiliza- do até pelos pesquisadores e técnicos, no último recenseamento do IBGE. Ele vale tanto para brancos quanto para negros e para os chamados ama- relos. Não vejo necessidade em recor- rer seja ao exame da árvore genealógi- ca dos autodeclarados negros, seja ao exame científico através do teste de DNA. Se constatar, depois de algum tempo e experiência, que a maioria de alunos pobres beneficiados pela políti- ca de cotas é composta de alunos brancos pobres falsificados em negros, será então necessário reavaliar os cri- térios até então adotados. De qualquer modo, os recursos investidos não se- riam perdidos, pois teriam sido apro- veitados por segmento da população que também necessita de políticas pú- blicas diferenciadas. Uma definição pe- los critérios científicos dificultaria qual- quer proposta de ação afirmativa, em benefício de qualquer segmento, pois muitos que se dizem negros podem ser portadores dos marcadores genéti- cos europeus. Também muitos dos que se dizem brancos podem ser por- tadores dos marcadores genéticos afri- canos. O que conta no nosso cotidia- no ou que faz parte de nossas repre- sentações coletivas do negro, do bran- co, do índio, do amarelo e do mestiço não se coloca no plano do genótipo, mas sim do fenótipo, num país onde, segundo Oracy Nogueira, o preconcei- to é de marca e não de origem. 2. Outros argumentos contra a polí- tica de cota recorre ao fato do abando- no desta política nos Estados Unidos, por não ter ajudado no recuo da discri- minação racial entre brancos e negros naquele país e por ter sido aproveita- do apenas pelos membros da classe média afro-americana, deixando into- cada a pobreza dos guetos. Ponto de vista rejeitado pelos defensores de co- tas nos Estados Unidos, baseando-se na mobilidade social realizada pelos afro-americanos, nos últimos quarenta anos, mobilidade que não teria sido possível, se não fosse implantado a política das cotas. Os próprios ameri- Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 49UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Não acredito que todos os alunos brancos pobres possam cometer este tipo de fraude para ingressar na universidade pública, por causa da força do ideal do branqueamento.
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    canos observam que,no Estado da Ca- lifórnia, o primeiro a incrementar cotas e o primeiro também a abandoná-las, recuou o ingresso de alunos afro-ame- ricanos nas universidades públicas, da- quele Estado. Mas devemos dizer que os afro-americanos têm outras alterna- tivas para ingressar e permanecer nas universidades que aqui não temos por causa das peculiaridades do “nosso” racismo. Eles têm universidades fede- rais de peso criadas para eles, a Uni- versidade de Howard, por exemplo, e universidades criadas pelas Igrejas in- dependentes negras para as comuni- dades afro-americanas, principalmente nos Estados do Sul considerados como os mais racistas (é o caso da universi- dade de Atlanta que foi fundada pelos negros e para os negros). Além disso, a maioria das universidades públicas americanas até as mais conceituadas como Princeton, Harvard e Stanford continuam a cultivar as ações afirmati- vas, em termos de metas, sem recorrer necessariamente às cotas ou estatísti- cas definidas. Deixar de discutir cotas em nossas universidades porque não deram certo nos Estados Unidos, co- mo dizem os argumentos contra, é uma estratégia fácil para manter o sta- tus quo. As cotas, se forem aprovadas por alguns Estados como já está acon- tecendo no Rio de Janeiro e na Bahia, deveriam, antes de serem aplicadas, passar por uma nova discussão dentro das peculiaridades do racismo à brasi- leira, cruzando os critérios de “raça e de “classe” e respeitando a realidade demográfica de cada Estado da União. Um censo étnico da população escola- rizada de cada Estado é indispensável para incrementar as políticas públicas, no que diz respeito à educação dos brasileiros, a curto, médio e longo prazo. 3. Porque a cota misteriosamente não é também destinada aos índios e sua descendência cujos direitos foram igualmente violados durante séculos, além de serem despojados de seu imenso território, indagam outros ar- gumentos contra a política de cotas. Os movimentos negros que reivindi- cam as cotas nunca foram contra as propostas que beneficiariam as popu- lações indígenas, as mulheres, os ho- mossexuais, os portadores de necessi- dades especiais, até as classes sociais pobres independentemente da pig- mentação da pele. Apenas reivindicam um tratamento diferenciado, tendo em vista que foram e constituem ainda a grande vítima de uma discriminação específica, racial. Eles têm uma clara consciência da diluição no social geral e abstrato como propõe o pensamen- to da esquerda, que até hoje continua a bater nas teclas de uma questão que, segundo eles, é simplesmente social, fechando os olhos a uma cultura racis- ta que abarca indistintamente pobres, médios e ricos em todas as sociedades racistas. Os afro-descendentes constituem um pouco mais de 70 milhões de bra- sileiros, em relação às populações in- dígenas estimados em menos de qui- nhentos mil, apesar do seu notável crescimento demográfico. Visto deste ângulo, o problema do ingresso dos estudantes negros, tendo em vista que a sua taxa de escolaridade, na escola, é das mais baixas. O que falta são as propostas de políticas públicas especí- ficas a curto, médio e longo prazo, di- recionadas para atender aos proble- mas de escolaridade, educação e in- gresso dos índios na universidade. Di- luí-los nos problemas sociais dos ne- gros e ou dos pobres em geral seria cometer, no plano da prática social, os erros do pensamento teórico e livresco do intelectual de esquerda, sem pés no chão. No já citado relatório do Comitê Na- cional para a Preparação Brasileira na III Conferência Mundial das Nações Unidas contra o Racismo, Discrimina- ção Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, nota-se, entre as medidas governamentais a serem tomadas em favor dos índios: - criação, no âmbito do Ministério da Educação, da Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena; - estabelecimento de 1666 escolas indígenas, que contam com 3041 pro- fessores indígenas; - realização do projeto Tucum, de formação e capacitação de professores indígenas, em nível de magistério, para as comunidades de Mato Grosso (Xa- vante, Peresi, Apiaká, Irantxe, Nambi- kwara, Umotina, Rikbaktsa, Munduru- ku, Kayabi, Borôro e Bakairi, entre ou- tras). É coordenado pela Secretaria de Estado da Educação-MT, além da FU- NAI, tem convênio com a Universidade Federal do Mato Grosso e prefeituras municipais do estado. - realização do projeto 3º grau indí- gena, visando à implantação de três Cursos de Licenciatura Plena na Uni- versidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT, destinados à formação de 200 professores indígenas) com previ- são de início das aulas em julho de 2001 e término em 2005. A iniciativa está sendo viabilizada por meio do Convênio 121/2000, de 30 de junho de 2000, celebrado entre aquela insti- tuição de ensino e a Secretaria de Esta- 50 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Os movimentos negros que reivindicam as cotas nunca foram contra as propostas que beneficiariam as populações indígenas, as mulheres, os homossexuais, os portadores de necessidades especiais, até as classes sociais pobres
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 51 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil do de Educação do Mato Grosso (SE- DUC-MT0 e do Convênio nº 11, de 15 de dezembro de 2000, celebrado entre a UNEMAT e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). As atividades pedagógi- cas intensivas ocorrerão no Campus da UNEMAT localizado na cidade de Barra do Bugres-MT. Os professores José Jorge de Car- valho e Rita Laura Segato, em sua pro- posta de cotas e ouvidoria para a uni- versidade de Brasília, ilustram a in- consciência das universidades bra- sileiras face à questão indígena pelo fato “dos primeiros quatro índios brasileiros que neste momento se preparam para ser médicos somente con- seguiram ingressar numa Escola de Medicina de Cu- ba! Imaginemos a situação: é uma faculdade cubana, que não dispõe nem mini- mamente dos recursos com que contam universidades como a USP, a UNICAMP, ou a UnB, que está ajudando o Brasil a saldar a sua dívida de cinco séculos para com os índios brasileiros!” (Carvalho e Segato: 2001) 4. A política de cotas raciais poderia prejudicar a imagem profissional dos funcionários, estudantes e artistas ne- gros, porque eles serão sempre acusa- dos de ter entrado por uma porta dife- rente. Ou seja, no momento das gran- des concorrências, as cotas poderiam perigosamente estimular os preconcei- tos. Pior ainda, sob pretexto de favore- cer materialmente uma população desfavorecida, essa política pode pre- judicar os valores mais respeitáveis: o orgulho e a dignidade da população negra. Contra este tipo de argumento, eu diria que ninguém perde seu orgu- lho e sua dignidade ao reivindicar uma política compensatória, numa socieda- de que, por mais de quatrocentos anos, atrasou seu desenvolvimento e prejudicou o exercício de sua plena ci- dadania. Desde quando a reparação de danos causados por séculos de dis- criminação prejudica a dignidade e o orgulho de uma população? Os judeus têm vergonha em reivindicar a indeni- zação das vítimas do holocausto? On- de estão o orgulho e a dignidade de uma sociedade que continue a manter, em condições de igualdade gritante, um segmento importante de sua po- pulação e que durante muitos anos continuou a se esconder atrás do manto do mito da de- mocracia racial? As cotas não vão estimular os preconcei- tos raciais, pois estes são presentes no tecido social e na cultura brasileira. Discri- minar os negros no merca- do de trabalho pelo fato de eles terem estudado graças às cotas é simplesmente deslocar o eixo do preconcei- to e da discriminação presen- tes na sociedade e que existem sem cotas ou com cotas. Mas uma coisa é certa, os negros que ingressarão nas universidades públi- cas de boa qualidade pelas cotas te- rão, talvez, uma oportunidade única na sua vida: receber e acumular um co- nhecimento científico que os acompa- nhará no seu caminho da luta pela so- brevivência. Apesar dos preconceitos que persistirão ainda por muito tempo, eles serão capazes de se defender me- lhor, no momento das grandes concor- rências e nos concursos públicos, ao exibir um certo conhecimento que não dominavam antes. Abrirão com facili- dade algumas portas, graças a esse co- nhecimento adquirido e ao restabele- As cotas não vão estimular os preconceitos raciais, pois estes são presentes no tecido social e na cultura brasileira.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE52- Ano XII, Nº 29, março de 2003 cimento de sua auto-estima. A história da luta das mulheres ilustra melhor o que seria o futuro dos negros. A discri- minação contra elas não foi totalmen- te desarmada, mas elas ocupam, cada vez mais, espaços na sociedade, não porque os homens se tornaram menos machistas e mais tolerantes, mas por- que, justamente graças ao conheci- mento adquirido, elas demonstram competências e capacidades que lhes abrem as portas antigamente fecha- das. O racismo contra negros não recuou nos Estados Unidos. Mas hoje, graças ao conhecimento adquirido com cotas, eles tiveram uma grande mobilidade social, jamais conhecida antes. 5. Os responsáveis das universida- des públicas dizem que o ingresso de negros nas universidades pelas cotas pode levar a uma degradação da qua- lidade e do nível do ensino, por que eles não têm as mesmas aquisições culturais dos alunos brancos. Mas, acredito que mais do que qualquer outra instituição, as universidades têm recursos humanos capazes de reme- diar as lacunas dos estudantes oriun- dos das escolas públicas, através de propostas de uma formação comple- mentar. (Carneiro, 2002: p.23). Algu- mas universidades encaminharam pro- postas de projetos neste sentido, soli- citando recursos financeiros junto ao Programa Nacional de Cor junto à UERJ, financiado pela Fundação FORD. Finalmente, a questão fundamental que se coloca não é a cota, mas, sim, o ingresso e a permanência dos ne- gros nas universidades públicas. A co- ta é apenas um instrumento e uma medida emergencial enquanto se busca outros caminhos. Se o Brasil, na sua genialidade racista, encontrar alter- nativas que não passam pelas cotas para não cometer injustiça contra brancos pobres - o que é crítica sensa- ta - ótimo. Mas dizer simplesmente que implantar cotas é uma injustiça, sem propor outras alternativas a curto, médio e longo prazo, é uma maneira de fugir de uma questão vital para mais de 70 milhões de brasileiros de ascendência africana e para o próprio futuro do Brasil. É uma maneira de rei- terar o mito da democracia racial, em- bora este já esteja desmistificado. Os que condenam as políticas de ação afirmativa ou as cotas favorecen- do à integração dos afro-descendentes utilizam, de modo especulativo, argu- mento que pregam o status quo, ao silenciar as estatísticas que compro- vam a exclusão social do negro. Que- rem remeter a solução do problema a um futuro longínquo, imaginando-se, sem dúvida, que medidas macroeco- nômicas poderiam miraculosamente reduzir a pobreza e a exclusão social. As cotas não serão gratuitamente distribuídas ou sorteadas como imagi- nam os defensores da “justiça”, da “excelência” e do “mérito”. Os alunos que pleitearem o ingresso na universi- dade pública, por cotas, submenter-se- ão às mesmas provas de vestibular que os outros candidatos e serão ava- liados como qualquer outro de acordo com a nota de aprovação prevista. Vis- to deste ângulo, os sistema de cotas não vai introduzir alunos desqualifica- dos na universidade, pois a competiti- vidade dos vestibulares continuará a ser respeitada como sempre. A única diferença está no fato de que os candi- datos aspirantes ao benefício da cota se identificarão como negro ou afro- descendente no ato da inscrição. Suas provas corrigidas, eles serão classifica- dos separadamente, retendo os que obtiverem as notas de aprovação para ocupar as vagas previstas. Desta forma, serão respeitados os méritos e garanti- da a excelência no seio de um univer- so específico. Referências Bibliográficas Ministério da Justiça. Relatório Do Comitê Nacional Para Preparação Da Participação Bra- sileira Na III Conferência Mundial Das Nações Unidas Contra O Racismo, Discriminação Ra- cial, Xenofobia E Intolerância Correlata. Dur- ban, 31 de Agosto a 7 de Setembro de 2001. CARNEIRO, Sueli. In: Courrier Internactio- nal nº 593, du 14 au 20 mars, 2002, p.22 CARVALHO, José Jorge de. SEGATO, Rita Laura. Uma proposta de Cotas e Ouvidoria Pa- ra a Universidade de Brasília. Manuscrito, Bra- sília 2001. HABERMAS, Jurgen. L’integration Républi- caine. Essai de Théorie Politique. Paris, Fayard, 1998. HENRIQUES, Ricardo. Texto para discussão Nº 807 - Desigualdade Racial no Brasil: Evo- lução Das Condições de Vida na Década de 90 - Julho de 2001 IPEA) MUNANGA, Kabengele. O Anti-racismo no Brasil. In: Kabengele Munanga(org) Estraté- gias e Políticas de Combate À Discriminação Racial. São Paulo: Edusp, 1996. Pp.79-74 * Kabengele Munanga é Professor Titular do Departamento de Antropologia da Uni- versidade de São Paulo. Autor de vários trabalhos na área de antropologia da po- pulação negra africana e afro-brasileira, entre outros, Os Basanga de Shaba (1986); Negritude (1988), Estratégias e políticas de combate à discriminação racial (1996) e Rediscutindo a mestiçagem no Brasil (1999). E-mail: kabe@usp.br Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil A história da luta das mulheres ilustra melhor o que seria o futuro dos negros. A discriminação contra elas não foi totalmente desarmada.
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    Notas introdutórias sobreo debate das relações de gênero Renato Veloso “Nós vos pedimos com insistência Nunca digam - isso é natural Diante dos acontecimentos de cada dia Numa época em que reina a confusão Em que corre o sangue Em que ordena-se a desordem Em que o arbítrio tem força de lei Em que a humanidade se desumaniza Não digam, nunca - isso é natural”. Bertolt Brecht 1. Apresentação Este breve texto, pensado inicialmen- te como subsídio ao entendimento do fenômeno da violência contra a mulher, tem por objetivo oferecer alguns elementos para uma apropriação básica da problemática das relações de gênero, enfatizando algumas expressões do debate teórico a seu respeito. Entende-se que o gênero, compreendido como um fenô- meno histórico e social em ampla articulação com o desenvolvimento e reprodução da sociedade, deve ser tomado como uma “categoria”, pois expressa “modos de ser”, ou seja, expressa o padrão de organização de deter- minada sociedade, ou, se assim se preferir, do “ser social”. A partir deste entendimento, é possível inferir que as rela- ções de gênero são parte da estrutura e da organização da sociedade, tendo conseqüências mediatas e imediatas para a reprodução do ser social. Pretende-se, portanto, apesar do caráter introdutório aqui presente, deixar claro que o gênero é um elemento fundante da vida social, e como tal, participa da reprodução da totalidade social que é a sociedade, sendo, em diversas vezes, utilizado para a justificação ou “naturalização” de determinados fenôme- nos sociais como, por exemplo, a violência contra a mulher. 2. Gênero: uma questão social Falar em gênero, nos dias atuais, refere-se a pensar: 1 - que as desigualdades observadas entre homens e mulheres na sociedade não se explicam tendo por base apenas as suas características biológicas e, portanto, natu- rais, mas, sim, pelos processos históricos que configuram um determinado padrão de relações de gênero; 2 - na inexistência de uma “essência masculina” ou uma “essência feminina”, de caráter imutável e universal, às quais Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 53 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    homens e mulheresestariam presos; 3 - que a divisão de poder realiza- da entre homens e mulheres ocorre de maneira desigual. Poder-se-ia sintetizar as afirmações acima, tratando as relações de gênero como uma “construção social” (Louro, 1996; Kergoat, 1996; Meyer, 1996), ou, ainda, nas palavras de Scott (1995), como a “organização social das rela- ções entre os sexos”. A importância de se perceberem as origens sociais de determinado padrão vigente de rela- ções de gênero reside na constatação de que se as causas da desigualdade são sociais, também o são as suas pos- sibilidades de transformação. Busca- se, com esta breve argumentação, de- monstrar que não parece ser possível, nos dias atuais, pensar que a justifica- tiva das desigualdades entre homens e mulheres resida no plano dos fatores naturais, ato que nem o pensamento mais conservador ousa fazer. 3. A relação entre o feminismo e a categoria gênero Algumas autoras afirmam que a di- fusão da categoria analítica gênero, nas Ciências Sociais latino-americanas, foi a mais significativa contribuição teó- rica dos feminismos destes países (La- mas, 2000). Não cabe, aqui, analisar o rigor teórico empregado na utilização desta categoria, mas, sim, apontar para a importância do movimento feminis- ta e, sobretudo, da crítica teórica pro- duzida por este movimento, para o debate referente às relações de gêne- ro, que impulsionou o que Moraes (1998) chamou de “perspectiva femi- nista de análise”, a qual, dentre outras coisas, “ajudou a entender as comple- xas dimensões de um mundo em que a distribuição do poder obedece a hie- rarquias sexuais e de classe social” (Mo- raes, 1998:101). Para Sorj (1992), a reflexão acadê- mica feminista, que se desenvolveu em proximidade com o movimento, teve, em termos gerais, uma dupla motivação: “reestruturar a tradição das Ciências Sociais, alterando conceitos e metodologias consagradas, e formular um projeto de emancipação das mu- lheres” (p. 16). É no bojo deste proces- so que se gesta a categoria gênero, que, de acordo com Louro, “está liga- da diretamente à história do movi- mento feminista contemporâneo” (Louro, 1997:14). 4. Os “Estudos sobre Mulher” e o surgimento da categoria gênero A categoria gênero foi introduzida no debate acadêmico norte-america- no, na década de setenta, enquanto que, no Brasil, data da virada da déca- da de noventa o aparecimento de es- tudos sobre o tema. Quando esta cate- goria passa a ser utilizada nos meios acadêmicos, ela disputa espaço com os chamados “estudos sobre mulher”, que, segundo Louro (1996), eram tri- butários dos movimentos sociais dos anos 60 e 70, considerados como uma resultante da chamada “segunda on- da” do feminismo. As iniciadoras deste trabalho de reflexão e de produção acadêmica eram as próprias mulheres que estavam envolvidas na militância feminista, e o grande esforço por elas despendido tinha por objetivo “dar visibilidade à mulher como agente so- cial e histórico, como sujeito” (Louro, 1996:8), ou seja, “tornar visível aquela que fora ocultada” (Louro, 1997:17). Se num primeiro momento estas produções acadêmicas se detinham ba- sicamente sobre a denúncia da opres- são, portando, desta forma, um caráter mais descritivo do que propriamente analítico, aos poucos, foram sendo exi- gidas explicações mais contundentes, ao invés de descrições, ainda que mi- nuciosas, sobre as vidas femininas. As tentativas de ensaiar explicações e arti- culações com os grandes quadros teóri- cos foi se tornando cada vez mais recor- rente, sendo produzidas análises con- sistentes no campo de várias discipli- nas, como a Sociologia, a História, a Li- teratura, a Educação, entre outras. No entanto, as polêmicas envol- vendo a utilização da categoria gênero nos estudos e trabalhos sobre a situa- ção da mulher na sociedade foram muitas. A resistência presente em al- gumas feministas consistia em dois pontos principais: 1) Em primeiro lugar, se, por um lado, a categoria gênero sugeria, de modo mais imediato, uma ancoragem teórica, por outro, parecia implicar uma abrangência que poderia repre- sentar um novo ocultamento do sujei- to feminino, o que ia de encontro com o objetivos dos “estudos sobre mu- lher”, que era justamente dar visibilida- de às mulheres. Aqui, caberia esclare- cer que gênero, tomado numa acep- ção relacional, refere-se aos processos de formação da masculinidade e da fe- minilidade, o que significa dizer que a atenção não se volta exclusivamente para a mulher em si, mas para as rela- ções sociais nas quais homens e mu- lheres estão inseridos. Do nosso ponto de vista, isso não significaria um ocul- tamento da mulher, mas, sim, um no- vo tratamento da questão, apreenden- do o gênero não como um fenômeno relativo apenas às mulheres (embora se saiba que o impacto das desigual- dades seja muito maior para elas), mas também aos homens, já que es- tes estão amplamente implicados na produção e reprodução das desigual- dades de gênero. 2) O outro ponto polêmico diz res- peito ao fato de que, na língua inglesa, a palavra gender trazia já dicionarizado um sentido relacionado à diferença sexual, enquanto que, na língua portu- guesa, o dicionário não traz essa acep- ção. As feministas norte-americanas optaram por utilizar o termo gênero Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil 54 - Ano XII, Nº 29, março de 2003
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 55 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil para enfatizar o caráter social da apro- priação e hierarquização das diferenças entre os sexos. Esta luta não foi imedia- tamente traduzível para outros idio- mas, assim, nem todas conseguiram perceber que o uso do gênero trazia implícita uma postura política de nega- ção de determinadas interpretações biologicistas das relações de gênero. O fato é que, apesar das polêmicas (ou graças a elas), começava a se abrir o caminho para uma nova forma de análise das desigualdades existentes entre homens e mulheres: a categoria gênero era o eixo condutor deste pro- cesso, e, com a sua utilização, buscava- se rejeitar o determinismo biológico presente em termos como “sexo” ou “diferença sexual”. Além de um instru- mento analítico, esta categoria é tam- bém, nas palavras de Louro (1997:21), “uma ferramenta política”, pois permite a apreensão do caráter social do gêne- ro, o que remete a discussão para o campo social (já que é, no âmbito da sociedade, que se produzem e reprodu- zem relações desiguais e hierarquizadas entre os sujeitos) e não apenas ao campo da natureza, pois não é neste campo que as justificativas para as desi- gualdades deveriam ser buscadas. 5. A construção da categoria analítica gênero Até aqui vimos que o termo “gêne- ro” começa a ser utilizado, com mais freqüência, por feministas brasileiras a partir da virada da década de 90, no bojo de uma importante transforma- ção nos estudos feministas, que passa- vam a transitar da perspectiva dos “es- tudos sobre mulher” para os “estudos sobre gênero”. Mas, em que consisti- am esses “estudos de gênero”? O que eles traziam de novo? Enfim, qual era a contribuição que a categoria gênero poderia oferecer para a análise das de- sigualdades sociais e para a transfor- mação destas desigualdades? Para ajudar-nos a responder tais questões, caberia a utilização da impor- tante contribuição oferecida pela histo- riadora inglesa Joan Scott (1995) que, dentre outras coisas, mostrou as diver- sas formas pelas quais o termo “gêne- ro” era utilizado com vistas à compre- ensão das relações entre homens e mulheres. A autora, voltando-se espe- cificamente para a sua área de atuação (a disciplina de História), percebeu al- guns limites, na maioria dos trabalhos produzidos por historiadores, e classifi- cou-os em dois grupos distintos: -um essencialmente descritivo, que não se importava com a interpretação ou o desvendamento da causalidade do fenômeno das relações de gênero; -e outro de ordem causal, que, contrariamente ao primeiro, elaborou e vem elaborando teorias e formula- ções sobre a natureza do fenômeno do gênero. Em relação ao primeiro grupo, a autora verificou que o termo “gênero” foi utilizado como um substituto para o termo “mulheres”. Se, por um lado, poder-se-ia supor que tal atitude em- pobreceria a relevância analítica do gê- nero enquanto uma categoria teórica, por outro esta substituição apresenta certa importância, à medida que torna possível a sua inserção acadêmica, de certa forma, dissociada, no plano da aparência, do movimento feminista, ao qual o termo “mulher” tinha uma rela- ção direta. Assim, Scott demonstra que o uso do termo gênero indicava a “eru- dição e a seriedade de um trabalho” (p. 03), com uma conotação “neutra” e “objetiva”, enquanto o termo “mulhe- res” era fortemente associado ao femi- nismo e à política. Cria-se, portanto, a impressão de uma dissociação entre gênero e mulher, quando, na verdade, os dois termos estão fortemente imbri- cados. No entanto, essa impressão de separação teve a sua relevância, pois re- sultou no que a autora chamou de “procura por uma legitimidade acadê- mica pelos estudos feministas nos anos ‘80” (p. 03). Ainda, nesta abordagem descritiva do gênero, Scott aponta a indicação do seu caráter relacional, quando as pes- quisadoras sugerem que “a informa- ção a respeito das mulheres é neces- sariamente informação sobre os ho- mens, que um implica no estudo do outro”, rejeitando-se a noção das esfe- ras separadas, segundo a qual a expe- riência de um sexo tem muito pouco a ver com a experiência do outro. Gê- nero é tomado, portanto, como um in- dicador das “construções sociais”, no que se refere às funções e atributos considerados próprios dos homens e das mulheres. É tomado ainda como uma “maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulhe- res”, o que, segundo esta definição, se- ria uma “categoria social imposta sobre um corpo sexuado”. A despeito do ca- ráter excessivamente social atribuído ao gênero presente nesta definição, o que levantou questionamentos por parte de algumas feministas francesas (cf. Almeida, 1998:148-9), fica eviden- ciada, em tal abordagem, a distinção entre práticas sexuais e papéis atribuí- dos a homens e mulheres. Se, por um lado, se reconhecem as conexões entre o sexo e os chamados “papéis sexuais”, por outro, não se coloca entre eles uma relação direta, já que gênero, nesta acepção, coloca a ênfase sobre o con- junto de relações sociais, que inclui o sexo, mas que não é diretamente de- terminado por este. 6. A definição de Gênero Mas como esta autora, tão impor- tante no debate nacional e internacio- nal sobre esta questão, entende o fe- nômeno das relações de gênero? A de- finição de gênero apresentada por Scott (que teve grande receptividade
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    no meio acadêmicobrasileiro) se apre- senta em duas partes que se integram: 1ª) “o gênero é um elemento cons- titutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos”; 2º) “o gênero é uma forma primor- dial de significar as relações de poder” (p.11). Em relação à primeira parte de sua proposição, o gênero articula quatro elementos relacionados entre si, que seriam: 1º) os “símbolos culturalmente disponíveis”, de várias modalidades e nos mais variados contextos; 2º) os “conceitos normativos”, expressos nas mais diferentes formas, como as doutri- nas religiosas, práticas educativas, cien- tíficas, políticas, jurídicas etc., que evi- denciam as diversas interpretações dos sentidos que os símbolos possuem; 3º) a percepção de que o gênero se encon- tra presente na esfera política, bem como nas organizações e instituições sociais, não se limitando, portanto, a es- feras tradicionalmente consideradas como específicas do gênero, como as relações de parentesco, por exemplo; 4º) a “identidade subjetiva”, que possui em seu processo de construção uma forte influência do gênero (pp. 11-2). Esses quatro elementos, apesar de te- rem sido apresentados pela autora de maneira separada apenas para fins ana- líticos, devem ser encarados como de- tentores de uma íntima relação, já que nenhum deles pode operar sem a refe- rência aos outros. 7. Em busca da transformação A partir do quadro que foi apresen- tado de maneira breve e sucinta, é possível extrair alguns elementos que permitem elaborar uma compreensão sintética do fenômeno das relações de gênero, que se aplique aos objetivos de propostas de trabalho a serem rea- lizadas sob a forma de planos, progra- mas ou projetos voltados ao combate às desigualdades sociais e à transfor- mação do padrão vigente de relações de gênero. Em síntese, o que se pre- tendeu demonstrar, a partir da exposi- ção do debate teórico existente, é que “gênero” é um termo, ou um conceito, ou ainda, uma categoria (como prefe- rimos utilizar) que designa o fenôme- no ou conjunto de fenômenos que ex- pressam um padrão específico de rela- ções existentes entre homens e mu- lheres, homens e homens, e mulheres e mulheres. Estas relações que, na nossa sociedade, são, em sua maioria, marcadas pelas desigualdades, expres- sam a existência de uma forma deter- minada de relação entre os diversos sujeitos sociais. Tal padrão de relacio- namento é histórico, ou seja, é cons- truído pela própria sociedade, seguin- do o seu movimento, pelo conjunto de forças sociais que organizam e dão uma direção a esta mesma sociedade. Deste modo, o gênero não é “natural”, não é fixo, imutável ou intransponível, ao contrário, varia de acordo com as necessidades particulares de cada so- ciedade e de cada contexto histórico. Em outras palavras, o gênero “está inti- mamente interligado a fatores políti- cos e econômicos em cada sociedade” (Lauretis, 1994:212), tomando mani- festações distintas de acordo com os contextos históricos e sociais específi- cos. É um fenômeno que faz parte da sociedade e que, exatamente por isso, acompanha o seu movimento, ade- quando-se e re-adequando-se de acordo com as conjunturas determina- das. Entender o gênero como um fe- nômeno social e histórico (e não natu- ral) é fundamental, pois permite que seja vislumbrada e perseguida a possi- bilidade de sua transformação, o que para nós é sinônimo de uma socieda- de justa e igualitária, para homens e para mulheres. Referências Bibliográficas ALMEIDA, Sueli Souza de. Femicídio - al- gemas (in)visíveis do público-privado. Rio de Janeiro: Revinter, 1998. KOFES, Suely. “Categorias analítica e empíri- ca: gênero e mulher: disjunções, conjunções e mediações”. In: Cadernos Pagu, de trajetó- rias e sentimentos, nº 1, Campinas, 1993. 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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE MinoriasSociais e Luta de Classe no Brasil Ensino superior no Brasil e ações afirmativas para negros .Ações afirmativas são medidas ou programas voltados para promover oportunidades ou outros benefícios para pessoas e grupos específicos (raciais, étnicos, sexuais, religiosos, entre outros), como compensação por discriminação sofrida. Têm, por- tanto, o sentido de reparação por uma injustiça; uma forma de garantir tratamento eqüânime, no presente, como compensação à discriminação sofrida, no passado, pelos membros dos grupos beneficiados. Uma estra- tégia para colocar as vítimas nas posi- ções em que elas estariam, se não tivessem sido discriminadas (Guimarães, 2001 e 1996; Silvério, 2001; Santos 1999; Sansone,1998) O negro está entre aqueles grupos humanos que, ao longo da história, mais estiveram submetidos à cruelda- de e à espoliação. Lembra-nos João Batista Pereira ( 2001) que, há pouco mais de um século, a própria humani- dade do negro era, ainda, posta em questão. O movimento abolicionista procurava justificar a abolição dos es- cravos com base no reconhecimento de sua condição de gente2 semelhan- te aos demais parceiros sociais que construíram o país (p.67). Passado quase um século da abolição do traba- lho escravo e plenamente consolida- dos os processos de urbanização e de industrialização no país, o que, na ex- pectativa dos estudiosos de meados do século XX, viria promover a integra- ção do negro à sociedade de classes, mostram-nos as estatísticas oficiais que pertencem à população negra os mais precários indicadores de condi- ções de vida, demonstrando, como ar- gumenta Carlos Hasenbalg (1979), que a persistência histórica do racis- mo, na sociedade brasileira, já não po- Delcele Mascarenhas Queiroz 1 Este texto pretende contribuir para o debate acerca da adoção de políticas de combate ao racismo e à discriminação no Brasil, especialmente no âmbito do sistema de ensino. Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 57
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    de mais serexplicada como uma he- rança do período escravista, como me- ro legado do passado, mas como ser- vindo aos complexos e diversificados interesses dos grupos racialmente do- minantes no presente (p.11). É nesse sentido que, assinala o autor, no Brasil, a raça como atributo adscrito, social- mente elaborado, continua a operar como um dos critérios mais importan- tes no recrutamento às posições da hierarquia social (idem p.180). Embora nos imaginemos um país racialmente democrático, as evidênci- as de uma sociedade que pratica “can- didamente” a discriminação e o pre- conceito para com os negros, estão por toda parte. As pesquisas mostram que, na educação, por exemplo, man- tidos os mesmos níveis de renda, cri- anças negras têm uma trajetória esco- lar mais precária e mais acidentada do que as crianças brancas (Rosemberg, 1991). No cotidiano escolar, crianças brancas e negras recebem tratamento afetivo diferenciado (Cavalleiro, 2002). No ensino superior, mesmo nos esta- dos onde são a maioria da população, os negros estão representados em proporções mais reduzidas que bran- cos da mesma condição econômica (Queiroz, 2002). No mercado de traba- lho, negros, com a mesma escolarida- de, estão em postos de trabalho infe- riores aos dos brancos (Santos, 2001). No cotidiano das relações sociais, com não rara freqüência, ao negro é dis- pensado um tratamento inferiorizante e ofensivo (Guimarães, 1998), mesmo quando dispõe de condição econômi- ca elevada (Hanchard, 1996). No entanto, em que pesem todas essas evidências, as demandas da po- pulação negra por políticas que pos- sam vir a reverter suas históricas des- vantagens, têm encontrado fortes rea- ções de setores da sociedade brasilei- ra, a exemplo do combate, quase coti- diano, da imprensa à idéia de cotas para negros, nas universidades brasi- leiras. Com relação especificamente às “cotas”, a reação tem-se utilizado do argumento de uma suposta desqualifi- cação do ensino, caso estudantes ne- gros venham a ingressem na universi- dade, através de política de reserva de vagas. É a partir dessas considerações que queremos analisar a participação de brancos e negros no ensino superior, examinado dados da pesquisa realizada com os estudantes que concorreram ao vestibular, na Universidade Federal da Bahia-UFBA, no ano de 20013 . Negros e brancos no vestibular Anualmente, a UFBA aprova, em seu vestibular, um número de estu- dantes muito superior àquele que é classificado. Isto é, uma parcela dos es- tudantes apresenta desempenho sufi- ciente para ingressar na Universidade, sem, contudo, obter o direito de fazê- lo, em decorrência do limitado núme- ro de vagas que é oferecido pela Insti- tuição. Na população de aprovados, 40,4 % dos estudantes se definiram como brancos, 44,3% como pardos, 10,4% como pretos e 4,9% como “outros” que, nesta análise, inclui as categoria amarelos e indígenas. Entre os aprova- dos que tiveram acesso às vagas dispo- níveis, portanto, os classificados, a pre- sença de brancos se eleva, em função da redução dos pardos e pretos, como se mostra tabela a Tabela 1 a seguir: Aprovação no vestibular, origem escolar e pertencimento racial O exame do tipo de escola média freqüentada pelos estudantes aprova- dos mostrou uma elevada participação dos oriundos de escolas particulares. Isto ocorre em quase todos os contin- gentes raciais, com exceção dos pre- tos. Entre estes, está a maior presença de estudantes que fizeram seus estu- dos médios, numa escola pública esta- dual. Se somarmos a eles os que fize- ram a maior parte do curso médio nu- ma escola desse tipo, teremos 40% do contingente. Entre os estudantes brancos, dois terços vieram de escolas particulares, indicando as melhores condições de vida desse grupo, que pôde arcar com os custos de uma preparação acadê- mica mais orientada para as exigências do exame vestibular. Está entre os pre- tos a menor participação na escola particular; apenas 34,6% dos estudan- tes, desse segmento, freqüentaram uma escola desse tipo, isto é, sua par- ticipação está mais de trinta pontos percentuais aquém daquela verificada entre os brancos. Um dado merece destaque na aná- lise sobre a origem escolar dos estu- dantes pretos. Trata-se da participação, nesse contingente, dos oriundos da es- cola pública federal ou da antiga Esco- la Técnica Federal, atual CEFET. Pode- se observar, na tabela a seguir, que es- tá, entre eles, a maior participação dos que fizeram aí seu curso médio. Esse Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil 58 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Cor Aprovados Aprovados classificados Aprovados não Classificados N % N % N % Branca 4,620 40,4 1324 44,2 3296 39,2 Parda 5062 44,3 1255 41,9 3807 45,1 Preta 1190 10,4 284 9,5 906 10,7 Outra 556 4,9 132 4,4 424 5,0 Total 11428 100,0 2995 100,0 8 433 100,0 Fonte: CPD/UFBA Tabela 1 - Estudantes aprovados no vestibular. UFBA -2001
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 59 dado confirma achados de outros es- tudos que temos realizado, sobre ori- gem escolar e pertencimento racial dos estudantes do ensino superior, e assume expressiva relevância por se tratar de uma escola consideradas de excelência, nesse nível de ensino. A significativa presença de estudantes pretos e também pardos, oriundos da Escola Técnica, entre os aprovados, mostra a importância de uma escola pública, de boa qualidade, para a su- peração da profunda desigualdade de oportunidade entre os segmentos ra- ciais, no acesso à educação superior. Os estudantes negros e a “excelência” do ensino superior Anteriormente, apresentamos in- formações sobre os estudantes apro- vados, mostrando que significativa par- cela, aproximadamente o triplo, não consegue ingressar na Universidade por falta de vagas. Para demonstrar que promover o acesso de estudantes negros ao ensi- no superior não implica rebaixar os cri- térios de seleção, hoje, praticados pela universidade, selecionamos, para exa- me, os estudantes pretos e pardos, agregados na categoria “negros”, apro- vados nos cursos considerados de ele- vado prestígio social4 , na UFBA. Toma- mos estes cursos justamente porque são aqueles que dão acesso às carrei- ras mais valorizadas, seja porque elas estão, em geral, entre as mais bem pagas do mercado de trabalho, seja porque a tradição assim as consolidou. E, deste modo, são o alvo das maiores disputas entre os candidatos ao vesti- bular, portanto, aqueles cuja aprova- ção requer elevado desempenho aca- dêmico. Assim, estamos tratando de estu- dantes negros de excepcional desem- penho, vindos de escolas tanto priva- das quanto públicas. Apesar do enor- me esforço que fazem as famílias, em nossa realidade, para evitar que seus filhos estudem em escolas públicas, as informações da Tabela 3, a seguir, mos- tram que 743 deles freqüentaram es- colas públicas, o que indica a presença de estudantes com baixos níveis de renda familiar. Verificando os níveis de renda fami- liar dos oriundos dessas escolas, cons- tatamos que a faixa de maior concen- tração é a que está entre seis e dez SM (salários mínimos). Uma proporção de 80% do contingente tem renda fami- liar de até dez SM, o que indica níveis reduzidos de renda, considerando que a média dos estudantes da UFBA está na faixa de dez a vinte SM. Selecio- nando os oriundos da escola pública federal, percebemos que embora a faixa de maior concentração seja tam- bém a de seis a dez SM, o contingente que tem rendimento familiar até dez SM (67,7%) é menor que aquele en- contrado entre os que vieram de esco- las publicas em geral, demonstrando que, efetivamente, os estudantes da escola publica estadual são os que se encontram em maior desvantagem. Retomando os dados da Tabela 3, podemos verificar que, dos 743 estu- dantes negros aprovados em cursos al- tamente valorizados, apenas 167 foram classificados. O que significa que 576 estudantes negros foram aprovados no vestibular, em cursos de elevado prestí- gio social, mas não puderam ingressar na Universidade. Esta não é uma perda qualquer para um segmento social com a história perversa que tem o negro na sociedade brasileira. Foram 576 estu- dantes que, depois de romper todas as barreiras (vide os seus níveis de renda Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Escola Branca Parda Preta Outra Total Municipal 2,2 1,9 2,1 1,5 2,0 Estadual 16,4 28,0 37,5 16,8 23,3 Federal 6,1 11,7 18,6 8,4 9,8 Particular 66,4 50,2 34,6 64,1 56,5 Comunitária 0,5 0,5 - 0,8 0,5 Supletivo 1,1 1,5 0,4 1,5 1,2 Maior parte em escola pública 2,4 3,2 2,5 3,1 2,8 Maior parte em escola particular 4,9 3,0 4,3 3,8 4,0 Total 100 100 100 100 100 Fonte: CPD/UFBA Tabela 2 - Distribuição percentual dos estudantes aprovados no vestibullar segundo a escola média freqüentada. UFBA -2001 Curso Particular Estadual Federal Municipal Pública Tabela 3 - Distribuição dos estudantes NEGROS (pretos + pardos) aprova- dos no vestibular, segundo a escola média freqüentada e o curso -2001 Medicina Direito Odontologia Administração Ciênc, Computação Eng. Elétrica Psicologia Eng. Civil Eng. Mecânica Arquitetura Eng. Química Total 17 58 11 49 56 67 28 111 63 58 58 576 3 2 - 2 1 2 1 4 7 3 2 27 - - - - - 1 - 2 - - - 3 8 32 5 11 27 31 12 43 21 18 18 226 2 7 1 7 9 8 2 10 15 16 16 93 6 24 6 36 28 34 15 64 35 37 38 323 4 6 1 12 14 5 4 4 5 8 8 71 121 103 87 95 56 48 62 81 43 60 46 802 59 33 20 28 28 20 14 25 13 9 9 258 Fonte: UFBA Class.= aprovados classificados Apr. ñ. Class. = aprovados e não classificados por falta de vagas Clss. Apr. Clss. Apr. Clss. Apr. Clss. Apr. Apr. ñ. class ñ. class ñ. class ñ. class ñ. class
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    familiar) que umnegro tem que ultra- passar até chagar às portas da universi- dade, e, mesmo tendo preenchido, ple- namente, todos os requisitos exigido para a sua aprovação, foram impedidos de ser médicos, advogados, odontólo- gos, administradores, engenheiros, ar- quitetos, psicólogos. Considerações Finais Neste ponto, passamos às conside- rações finais, vez que este texto não pretende ser exaustivo, mas apenas apresentar alguns elementos que pos- sam contribuir com a discussão sobre a pertinência da adoção de políticas de ação afirmativa para negros, no siste- ma educacional brasileiro. Consideramos que a adoção de me- didas que viessem promover o acesso desses estudantes às vagas que lhe ca- bem pelo seu excelente desempenho não seria um privilégio, mas o justo re- conhecimento do mérito de quem aí chegou, apesar dos obstáculos. Poder-se-ia argumentar que tam- bém há estudantes, de outros segmen- tos raciais, na mesma situação dos ne- gros. No entanto, não é demais lem- brar que, no caso da Bahia, estamos falando de um contingente que, ape- sar de representar cerca de 80% da população, tem, no ensino superior, quase a mesma participação relativa que os autodeclarados brancos, que são apenas um quinto da população do estado. Embora estejamos tratando de um estado onde o contingente ne- gro é majoritário, não podemos esque- cer que, no país, ele também não é pe- queno; representa quase a metade da população total. As evidências do bom desempe- nho, no vestibular, para cursos de ele- vado prestígio, de uma parcela signifi- cativa de estudantes negros oriundos de escolas públicas, revelam o quanto são tendenciosos os argumentos de certos setores da sociedade brasileira, no seu combate à idéia da adoção de políticas voltadas para o acesso da po- pulação negra ao ensino superior. Os dados demonstram que o receio de uma deterioração da qualidade do en- sino provocada pelo ingresso, na uni- versidade, de estudantes negros atra- vés de medida tais como “cotas”, só pode ser entendido no âmbito de uma sociedade que pratica um racismo in- confesso que, como assinalou Hasen- balg, não pode ter outra razão que ser- vir aos complexos e diversificados inte- resses dos grupos racialmente domi- nantes no presente. Notas 1. A autora é Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, pro- fessora e pesquisadora da Universidade do Estado da Bahia - UNEB e pesquisadora asso- ciada ao Programa A Cor da Bahia, do Pro- grama de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Organizou a publicação O negro e a Universidade. Salvador: Programa A Cor da Bahia/ Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Série Novos To- ques, N.5, 2002, ISSN 1518-0298 2. Grifo nosso. 3. A referida pesquisa foi desenvolvida no âmbito do 2º Concurso Negro e Educação, pro- movido pela Associação Nacional de Pós- Graduação e Pesquisa em Educação - ANPED. 4. A classificação do prestígio dos cursos superiores, adotada, tem como referência a pesquisa sobre o valor das profissões no mer- cado de trabalho da Região Metropolitana de Salvador - RMS. A investigação baseou-se num levantamento junto a empresas de con- sultoria em RH, que atuam no mercado de trabalho da RMS, tomou como referência o elenco de cursos oferecidos pela UFBA e re- sultou uma escala de prestígio das profissões, de cinco posições - Alto, Médio alto, Médio, Médio baixo e Baixo (Queiroz, op.cit.). Referências Bibliográficas Cavalleiro, Eliane dos Santos. Discursos e práticas racistas na educação infantil: a pro- dução da submissão social e do fracasso es- colar. In: Queiroz et. al. Educação Racismo e anti-racismo. Salvador: Programa A Cor da Bahia / Programa de pós-Graduação em Ci- ências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, Novos Toques, nº 4, 2000, p. 193-219. Guimarães, Antonio Sérgio. Políticas pú- blicas para a ascensão dos negros no Brasil: argumentando pela ação afirmativa. Afro- Ásia, nº 18, 1996, p.235-261. Guimarães, Antonio Sérgio. Preconceito e discriminação. Queixas de ofensas e trata- mento desigual dos negros no Brasil. Salva- dor: Novos Toques; Programa A Cor da Ba- hia, FFCH/UFBA, nº 3, 1998. Hanchard, Michael. “‘Americanos’ Brasilei- ros e a cor da espécie humana”. Revista USP, São Paulo (31): 164-175, set./nov. 1996. Hasenbalg, C. “Discriminação e desigual- dade racial no Brasil contemporâneo”. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1979 Pereira, João Batista Borges. O negro e a identidade racial brasileira In: Vários Autores. Racismo no Brasil. São Paulo: Petrópolis; ABONG, 2002, p. 65-71 Queiroz, Delcele M. Raça, Gênero e edu- cação superior. Salvador: Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Fe- deral da Bahia, FACED/UFBA, 2001, (Tese de Doutorado) Rosemberg, Fúlvia. Segregação espacial em escolas paulistas. In: Lovell, Peggy A. (org.) Desigualdade racial no Brasil contem- porâneo. Belo Horizonte: UFMG / CEDE- PLAR, 1991, p. 281-293. Sansone, Lívio. Racismo sem etnicidade. Políticas públicas e discriminação racial em perspectiva comparada. DADOS - Revista de Ciências Sociais. Rio de janeiro, vol. 41, nº 4, 1998, p.751-783 Santos, Luiz Chateaubriand Cavalcati dos. Desigualdades ocupacionais entre bran- cos e negros na Região Metropolitana de Sal- vador (1987 - 1997) Salvador: Mestrado em Sociologia, FFCH/UFBA, 1998 (Dissertação de Mestrado). Santos, Jocélio Teles dos. Dilemas nada atuais das políticas para os Afro-brasileiros. Ações afirmativas no Brasil dos anos 90. In Bacelar, Jéferson e Caroso, Carlos (orgs.) Bra- sil, um país de negros? Rio de Janeiro: Pallas, 1999, p. 221-233 Sivério, Valter Roberto. Políticas Raciais Compensatórias: o dilema do século XX. ANAIS. Seminários regionais preparatórios para con- ferência mundial contra o racismo, discrimina- ção racial, xenofobia e intolerância correlata. Ministério da Justiça. Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, Brasília 200, p. 123-138. 60 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    Minorias Sociais eLuta de Classe no Brasil Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 61 Ações afirmativas para negros e índios no ensino superior: as propostas dos NEABs I. Sobre o Encontro O presente texto apresenta, de forma sucinta, um conjunto de propostas e recomendações sobre ações afirmati- vas para a população negra no Brasil, resultantes do Encontro Nacional sobre Ações Afirmativas nas Universidades Públicas Brasileiras, ocorrido na Sala dos Conselhos da Universidade de Brasília, em dezem- bro de 2002. Esse Encontro histórico (agora conhecido como o Encontro dos NEABs) formou parte do I Fórum “Diversidade na Universidade”, reali- zado em Brasília e organizado pelo Programa de idêntico nome, ligado à Secretaria de Ensino Médio do Ministério de Educação, sob a coorde- nação de Jeruse Romão e Dojival Vieira. O Encontro congregou 19 pro- fessores (17 dos quais são negros) responsáveis pelos Núcleos de Estudos Afro- brasileiros, de 14 universi- dades públicas brasileiras e de duas universidades privadas. A mim foi encar- regada a tarefa de coorde- nar o encontro pela UnB e relatar as suas propostas e deliberações. A escolha da UnB para sediar o Encontro foi oportuna, visto que apresentei, em colaboração com a Profa. Rita Segato, uma proposta de cotas para estudantes negros na UnBi, a qual se encontra em discussão no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) e sua votação é aguardada para breve. Estas propostas serão encaminhadas para o Programa Diversidade na Universidade, criado em 2001, para dar início a um processo de integração racial, étnica e social, no ensino superior brasileiro. José Jorge de Carvalho * UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    62 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Foram definidos como objetivos do Encontro: a) reunir os representantes dos NEABS das universidades para cadas- trar, mapear e sistematizar programas e experiências para promoção de aces- so e permanência da população afro- brasileira, no ensino superior; b) discutir estratégias de formula- ção de política específicas de ação afir- mativa, nos vários contextos universitá- rios nacionais; c) consolidar uma rede nacional dos NEABs que contribuam para a formula- ção de políticas de inclusão social para afrodescendentes, no ensino superior. Todos os 19 professores que partici- param do Encontro são lideranças, em suas universidades, na discussão, fun- damentada nas suas pesquisas na área de Educação e Ciências Sociais, sobre a dificuldade de inserção dos negros no nosso sistema universitário e sobre a discriminação racial crônica nesse am- biente. Cada um dos palestrantes apre- sentou uma descrição básica da situa- ção dos NEABs e do estado da discus- são sobre ações afirmativas, nas suas respectivas universidades. Somente es- sa troca rica de informações já nos per- mite agora pensar em ações de fortale- cimento dos NEABs, em escala nacio- nal, e de ampliação do papel do coleti- vo de professores dos NEABs, na dis- cussão nacional, sobre implementação de políticas públicas para a população estudantil negra. Cento e quinze anos, após a aboli- ção da escravidão, a porcentagem de negros entre os docentes das universi- dades públicas brasileiras é absurda- mente baixa: no máximo 1%. Os da- dos disponíveis no momento nos le- vam a pensar que a academia brasilei- ra é uma das mais segregadas racial- mente em todo o mundo. Não conhe- cemos situação nacional equivalente ou sequer próxima da nossa, em que o grupo racial dominante da população (considerando que os brancos brasilei- ros constituem aproximadamente 55 % desta, segundo os dados aproximados do IBGE) tenha praticamente empur- rado o segundo grupo racial dominan- te, de 45%, e os grupos étnicos origi- nários (de menos de 1%) para fora dos benefícios e da participação ativa em um parque acadêmico gigantesco, entre os maiores do Sul do mundo, co- mo é o caso do brasileiro. Certamente as universidades da África do Sul já são muito mais integradas racialmente que as do Brasil, para não falar das norte-americanas. E Estados Unidos e África do Sul são sempre duas referên- cias negativas presentes no discurso dos defensores da harmonia e da inte- gração racial supostamente alcançada pela sociedade brasileira. O mascaramento do nosso racismo tem sido construído ideologicamente no interior das nossas universidades, daí a importância de se debater a situa- ção racial da nossa academia, no pró- prio espaço acadêmico.2 Nesse senti- do, no encontro dos NEABs, os docen- tes expuseram claramente essa reali- dade de exclusão e o silenciamento que a circunda. Na totalidade dos ca- sos, e mesmo quando são doutores, os colegas negros encontram-se isola- dos em seus departamentos ou facul- dades e quase nunca podem colocar, com tranqüilidade, uma agenda de rei- vindicações dessa realidade de segre- gação que se reproduz através de me- canismos vários, que vão da indiferen- ça conveniente às estratégias políticas sistemáticas e sutis de preterimento de candidatos negros às posições discen- tes e docentes. Apesar de o enfoque do Encontro ter sido a discussão da discriminação contra o negro, o coleti- vo de professores dos NEABs também reconheceu a necessidade imperiosa de vagas para os estudantes perten- centes às nações indígenas e externa- lizou sua solidariedade à luta dos ín- dios pelo seu ingresso no ensino supe- rior, na última recomendação listada no presente documento. No momento em que o ANDES se abre para a discussão da inclusão so- cial, étnica e racial, damos a conhecer aos colegas o coletivo de professores dos NEABs, como uma associação livre de docentes, de escala nacional, que possui uma contribuição a dar à Asso- ciação, oferecendo os argumentos qualificados para esse debate que de- verá se ampliar a partir de agora. Afi- nal, os professores que trabalham nos NEABs estão entre os que mais conhe- cem a situação de exclusão racial, no meio acadêmico brasileiro. Essas pro- postas foram encaminhadas inicial- mente ao Programa Diversidade na Universidade, porém acreditamos que respondem amplamente à demanda por propostas colocada à comunidade de docentes das federais pelos edito- res de Universidade e Sociedade para o presente número da revista. Nossa expectativa, portanto, é de que o ANDES assuma, junto com o go- verno que agora se inicia, uma política explícita de Ação Afirmativa capaz de promover a integração racial e étnica, e através do ensino brasileiro, em par- ticular, nas universidades, por meio de projetos de preparação, acesso e per- manência de índios, negros e demais populações socialmente excluídas, de modo a promover, efetiva e definitiva- mente, um ambiente de diversidade O mascaramento do nosso racismo tem sido construído ideologi- camente no interior das nossas universidades, daí a importância de se debater a situação racial da nossa academia
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    nas nossas universidades,ainda tão es- candalosamente brancas e elitizadas. II- Sobre os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) 1. Como primeira tarefa, o Coletivo de Professores sugere que o Programa Diversidade na Universidade promova um mapeamento nacional dos NEABs e instituições equivalentes, com ende- reços, telefones, e-mail, nomes, perfil de atuação, histórico e trajetória aca- dêmica até hoje, como subsídio para a formulação das novas ações de apoio. 2. O Programa deve fortalecer os NEABs ou organizações semelhantes existentes atualmente nas universida- des brasileiras, públicas e privadas, e estimular a criação de outros, de modo a que, no final de 2003, todas as uni- versidades federais e estaduais do país contem com um núcleo de estudos dedicado à problemática afro-brasilei- ra. Nossa compreensão é de que os NEABs são justamente o tipo de insti- tuição acadêmica que mais poderá ajudar a gerar um clima de diversidade nas universidades. Para tanto, o Pro- grama deverá apoiá-los com bolsas para alunos negros e auxílio de pes- quisas para os professores e alunos, de modo a que os NEABS possam ser, de fato, ponto de difusão de idéias e refle- xão sobre a integração racial e a cultu- ra afro-brasileira. 3. Em contrapartida a esse apoio recebido pelo MEC, os NEABs se dis- porão a estabelecer convênios com o Ministério para a formação continuada de professores de ensino médio da re- de pública. Os NEABs ofertarão cursos de História da África, História da Cul- tura Afro-brasileira, Diáspora Africana nas Américas e Relações Raciais no Brasil, tão necessários para a formação pluralista de nossos estudantes. Esses cursos podem adquirir formatos vários, tais como ciclo de Palestras, Seminários, Cursos de Extensão e Pós-Graduação latu sensu. Nossa recomendação surge num momento especialmente oportu- no, visto que o Presidente da República e o Ministro da Educação acabam de sancionar a Lei Nº 10.639, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-brasileira, nos níveis funda- mental e médio. Como, no caso do mapeamento dos NEABs, os projetos de articulação com o segundo grau devem ser prece- didos de um levantamento de expe- riências já existentes em várias univer- sidades. Eis alguns exemplos. a) A Universidade Cândido Mendes (UCAM) já oferece um curso de pós- graduação latu sensu para professores de História da rede pública de ensino. O curso é financiado inteiramente com recursos da Secretaria Estadual de Edu- cação do Rio de Janeiro, que também se ocupa da seleção dos candidatos. b) A Universidade Federal Flumi- nense (UFF) também promove cursos similares, com apoio da Fundação Ford, e os professores da rede estadual inscritos recebem bolsa e material di- dático. c) O Centro de Estudos Afro-Ori- entais (CEAO), da Universidade Fede- ral da Bahia (UFBA), já oferece, no Mestrado de História, um curso de es- pecialização em Educação e Desigual- dades Raciais. Esse curso tem como fi- nalidade fortalecer os professores de ensino médio no combate ao racismo na sala de aula, e ao mesmo tempo construir as bases para o início de um diálogo sobre o tema, no interior da universidade. É também financiado pela Fundação Ford, porém espera-se que ele se torne um curso regular da UFBA e não somente do CEAO. 4. Na mesma linha de ampliação da formação dos estudantes brasilei- ros, o MEC deve desenvolver uma re- flexão séria sobre o atual currículo dos cursos das nossas universidades, carac- terizado por um eurocentrismo quase absoluto. Entendemos que, após o acesso de estudantes negros através das cotas, o currículo da universidade brasileira não pode se manter o mes- mo e os NEABs, e outros Centros de Estudos equivalentes poderão desem- penhar esse papel de ajudar a repen- sar o currículo eurocêntrico atual e pro- por um currículo que contemple de fa- to a nossa diversidade histórica, social, racial, étnica e cultural. Como nos ca- sos anteriores, seria mais produtivo que nos baseássemos nas experiên- cias já existentes, como é o caso do Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA, que já promove cursos sobre História da África. III - Sobre a presença de estu- dantes negros no ensino médio 1. Na formação de professores para a rede pública, é notória a ausência de informação qualificada sobre a ques- tão racial, no currículo dos cursos. Em algumas universidades, o tema apare- ce como disciplina seletiva, porém de- vemos contar com uma disciplina que trate da questão racial em todos os cursos de formação de professores, to- mando em conta as várias dimensões do problema: o aspecto histórico, da construção do racismo no Brasil; o as- pecto sociológico, do modelo de dis- criminação racial específico que en- frentamos atualmente; o papel da in- tervenção didática mesma em face da discriminação racial; e a questão da Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 63UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil É notória a ausência de informação qualificada sobre a questão racial, no currículo dos cursos. Em algumas universidades, o tema aparece como disciplina seletiva.
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    identidade, que tocaa dimensão psi- cológica do racismo. Todas essas di- mensões devem ser trabalhadas si- multaneamente para alcançarmos uma transformação do ambiente esco- lar, como um local de fato integrado racialmente e deveras aberto à diversi- dade. Podemos ressaltar aqui a coinci- dência entre nossa proposta do trata- mento multidimensional da questão racial e os aspectos listados no conteú- do programático do curso obrigatório sobre História e Cultura Afro-brasileira definido pela Lei 10.639, recentemen- te aprovada. O ideal seria contar com uma disci- plina obrigatória, que desse conta de cobrir todas essas dimensões, ao mes- mo tempo que incluísse a temática racial em disciplinas específicas das di- versas áreas do saber acadêmico. No caso dos cursos de Licenciatura, enfati- zamos que o racismo é um problema da educação brasileira como um todo e, por tal motivo, todos os profissionais de educação estão obrigados a se pre- parar sobre o assunto. Todos terão ine- vitavelmente que se relacionar com alunos negros e não podemos admitir pedagogos que excluam alunos ou que não sejam capazes de intervir face a sua exclusão no ambiente escolar. 2. O MEC deverá instituir uma Comissão de Ensino para a população negra nos moldes da comissão exis- tente para a população indígena. Essa comissão deve trabalhar em todos os graus do ensino: fundamental, médio e superior. É comum o MEC produzir orientações pedagógicas importantes para o combate à discriminação e o professor na sala de aula não possuir os elementos formativos suficientes para resolver os eventuais problemas de discriminação e, assim, cumprir as mudanças propostas e desejadas pela sociedade. 3. Em termos de diversidade na produção de material didático, o con- traste com a atenção dada pelo MEC à educação dos índios pode ilustrar o descaso do governo a respeito das es- pecificidades da educação dos negros. Enquanto existem mais de cem carti- lhas de ensino fundamental voltadas para os índios, não temos nenhuma voltada para a população negra. Se o MEC finalmente se dispuser a difundir livros sobre o tema, é conveniente par- tir da produção que já temos, ao mes- mo tempo que estimule a elaboração de novos materiais. Por exemplo, o li- vro Superando o Racismo na Escola, publicado com apoio do MEC, já se en- contra na 3ª edição e ainda não foi dis- tribuído nas escolas, tal como havia si- do a promessa do Ministério. Suge- rimos que a próxima edição seja distri- buída nas escolas de todo o país. Igualmente, já existem outros livros que poderiam ser também distribuí- dos em regime de co-edição. 4. O Programa Diversidade na Uni- versidade deve ser política pública bra- sileira e não ser financiado apenas com verba estrangeira vinculada a pro- gramas especiais. A partir das decisões da III Conferência Internacional contra o Racismo de Durban em 2001, uma parte de todas as verbas resultantes de convênios internacionais que che- guem ao Brasil em forma de emprésti- mo (seja pelo BID, pelo Banco Mun- dial ou outras agências) deve incluir obrigatoriamente temas como a re-es- crita da história em nações plurais, o multiculturalismo na escola e muito especialmente o combate à discrimi- nação racial. O próprio Programa Di- versidade na Universidade já faz parte dessa política do governo brasileiro frente à comunidade internacional. Se- guindo essa linha inaugural e temporá- ria, o MEC deve assumir essa responsa- bilidade e colocar esse diferencial em todas as suas políticas públicas. Caso contrário, pareceria que é somente co- mo resposta a pressões internacionais que o Brasil se dispõe a melhorar as relações raciais dentro do país. IV - Sobre as cotas para estu- dantes negros nas universidades 1. O coletivo de professores dos NEABS é unânime em considerar que 64 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Estamos convencidos de que todo projeto de ação afirmativa no Brasil deve incluir algum sistema de cotas, em caráter imprescindível, emergencial e temporário.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 65 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil as cotas devem formar uma parte cen- tral das políticas de ação afirmativa, tão discutidas no Brasil atualmente. Entendemos perfeitamente que as ações afirmativas não se esgotam na política de cotas para a entrada na uni- versidade. Outras ações são igualmen- te necessárias, tais como o apoio aos cursos pré-vestibulares e programas de apoio à permanência, entre os quais estão: bolsas de manutenção, facilidade de moradia e acompanha- mentos acadêmicos diversos. Contu- do, estamos convencidos de que todo projeto de ação afirmativa no Brasil deve incluir algum sistema de cotas, em caráter imprescindível, emergen- cial e temporário. Cada universidade deverá definir a porcentagem de cotas reservadas para negros de acordo com sua realidade racial local, após discussão do assunto nos seus respectivos conselhos univer- sitários. Além das cotas para a gradua- ção, defendemos também cotas para os cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado). As informações e estu- dos de que dispomos até agora indi- cam que os mecanismos de discrimi- nação e exclusão contra os estudantes negros operam ainda com maior in- tensidade nos exames de seleção para a pós-graduação.3 Reiterando o ponto fundamental, dada a situação de exclusão racial tão alta nas nossas universidades, faz-se necessária a implementação de cotas para a graduação, mestrado e doutora- do, obedecidas as realidades locais e específicas de cada universidade. 2. Se a porcentagem de estudantes negros nas universidades brasileiras já é muito baixa, a de professores univer- sitários negros é ainda mais baixa, fi- cando atualmente na faixa de aproxi- madamente 1% do total dos docentes das nossas universidades públicas. Di- ante desse quadro tão ínfimo de re- presentatividade, propomos a reserva de cotas para negros também nos no- vos concursos para professores das universidades que o MEC venha a abrir de agora em diante. A integração racial deve começar na nossa academia de uma forma plena, generalizada e em âmbito nacional. 3. As ações afirmativas a ser imple- mentadas nas universidades devem incluir também bolsas dos programas de formação e pesquisa, tais como o PIBIC, o PET e outros. Além disso, o MEC deve desenvolver programas de bolsas exclusivas para a população ne- gra. 4. Até agora, o esforço para discutir as cotas tem se concentrado em pou- cos lugares, na maioria das vezes, nos NEABs das universidades. Propomos que o MEC assuma a condução da dis- cussão nacional sobre as cotas para ne- gros no ensino superior e que produza um plano nacional de implementação das mesmas em todas as universida- des públicas e de estímulo à sua imple- mentação nas universidades privadas. 5. Se o MEC quiser implementar as recomendações internacionais sobre o combate à discriminação racial (as quais o Brasil assinou) e desenvolver seriamente a diversidade na universi- dade, poderá começar a adotar uma atitude positiva de liderança do pro- cesso. Dentro do orçamento geral dos recursos para as universidades, o MEC alocará um porcentual específico de dotações para aquelas universidades que aceitarem implementar cotas e ações afirmativas. Acreditamos que es- se estímulo, através de dotações espe- cíficas, influenciará positivamente a condução da discussão sobre cotas nas universidades, no marco da auto- nomia universitária: os conselhos uni- versitários são autônomos para decidir se implementam ou não as cotas, po- rém passarão a contar com mais um ti- po de recurso, caso optem pela erradi- cação da exclusão racial ora ampla- mente constatada e debatida. 6. Esta mesma política deverá ser aplicada com as universidades priva- das que mantêm convênios com o MEC, tais como as filantrópicas. Elas também poderão usufruir a dotação específica mediante o desenvolvimen- to de projetos de ação afirmativa e de integração racial e étnica Se queremos ser coerentes com a política de inte- gração, a filantropia deverá mostrar que incorpora também a dimensão de cor e etnia. 7. As universidades privadas que so- licitarem apoio do MEC, deverão asse- gurar programas de bolsa de manuten- ção para os alunos negros e carentes. Em contrapartida, no caso das bolsas acadêmicas do governo para as univer- sidades privadas, um percentual das mesmas deverá ser destinado exclusi- vamente para os estudantes negros. 8. Observamos, através dos deba- tes de que participamos, que as rea- ções mais freqüentes às propostas de cotas se baseiam em argumentos ain- da pouco elaborados. Poucos dos que se dizem contra as cotas são capazes de justificar, com dados e reflexões aprofundados, sua decisão colocada, muitas vezes, de um modo primário, em termos de sim ou não, como se se tratasse de uma mera questão de pre- ferência. Na medida em que se trata de compromisso de governo, frente a organismos internacionais inclusive, uma das ações que o MEC poderá Propomos a reserva de cotas para negros também nos novos concursos para professores das universidades que o MEC venha a abrir de agora em diante.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE66- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil apoiar é a preparação de cartilhas e documentos que aprofundem os argu- mentos presentes nas propostas de cotas. A elaboração e divulgação des- ses materiais podem ser tarefa da Co- missão de Ensino para a população negra, uma vez que esta esteja devida- mente instalada, tal como sugerimos acima. A Comissão poderá tomar co- mo base para confecção de documen- tos a substancial proposta apresenta à UnB pelos professores José Jorge de Carvalho e Rita Laura Segato, intitulada Uma Proposta de Cotas para Estudan- tes Negros na Universidade de Brasília. 9. O Programa Diversidade na Universidade deve preparar imediata- mente um documento de divulgação, explicando porque encampa a política de cotas para a universi- dade. Esse documento oficial do MEC servirá de subsídio para as discus- sões nas universidades públicas federais, já vi- sando à implementação específica desse meca- nismo de inclusão. 10. O Programa deve criar um veículo de infor- mação e divulgação de todas as experiências já em andamento de ação afirmativa e de cotas nas universidades (federais, estaduais e privadas). Há uma manifesta carência de informação qualifica- da sobre esse tema, tan- to entre discentes quan- to entre docentes. Suge- rimos a produção de uma revista com o título de “Diversidade na Uni- versidade”, que divulgue todas as experiências que já estão sendo im- plantadas nas diversas regiões do país. O co- nhecimento dessas experiências terá o efeito de encorajar os professores a criar programas análogos em outras universidades. 11. As mesmas ações sugeridas a respeito da divulgação das experiênci- as realizadas nas universidades devem ser tomadas com relação ao ensino médio. Um discurso perigoso circula atualmente no país sobre uma supos- ta falência da escola pública e, muitas vezes, o que é socializado é apenas o analfabetismo e os fracassos pedagó- gicos. Por tal motivo, alertamos o Mi- nistério para os perigos do discurso de desqualificação do público. Apesar dos problemas reais, existem inúmeras pesquisas que mostram que também há avanços na educação brasileira. As experiências interessantes e criativas que vêm acontecendo no ensino bási- co e no ensino médio não estão sendo ainda suficientemente socializadas. 12. O Programa deve estimular prá- ticas e projetos formulados por profes- sores das escolas de ensino médio e fundamental, trabalhando com seus alunos a questão da diversidade. Os recursos do Programa devem ser usa- dos para estimular também, em com- plementação ao apoio aos NEABs, as escolas de ensino médio que desen- volvam projetos equivalentes, ainda que apropriados para o seu grau. Um equivalente da revista “Diversidade na Universidade” deve ser criado para di- vulgar e discutir essas experiências. 13. O MEC deve instituir a obrigato-
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 67 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil riedade do quesito cor nas fichas de inscrição do vestibular e nos formulá- rios de matrículas nas universidades públicas e privadas. Deve igualmente promover um censo racial detalhado para a atual população universitária brasileira, incluindo estudantes, pro- fessores e servidores. 14. Propomos homogeneizar a ter- minologia racial que circula nas discus- sões atuais sobre políticas públicas de cotas e ações afirmativas e afirmar que nos referimos ao contingente definido como de negros e não de afro-descen- dentes, termo que também tem sido utilizado. Essa escolha não pretende negar as categorias usadas pelo IBGE (pretos e pardos), porém insistir na di- mensão social da discriminação racial. Julgamos que o termo afro-descenden- te pode ser mais facilmente manipula- do, no momento de implementar polí- ticas públicas, por pessoas que jamais foram discriminadas racialmente e que podem invocar, de um modo oportu- nista, uma descendência africana irrele- vante para o seu convívio social. 15. Propomos ao MEC a instituição de um concurso nacional para desen- volver e estimular pesquisas na área de relações raciais, nos três níveis uni- versitários (graduação, mestrado e doutorado). Esse concurso seria apoia- do, além do MEC, por outros organis- mos, tais como o CNPq, a CAPES, o MCT e a Fundação Cultural Palmares. 16. O coletivo de professores soli- cita a convocação de uma audiência pública, a se realizar até o final de mar- ço de 2003, com o Conselho Nacional de Educação para discussão, como pauta oficial, das ações afirmativas e das cotas para o ensino superior. Essa audiência terá por finalidade também fortalecer o papel da Conselheira Profa. Petronilha Gonçalves, da Univer- sidade Federal de São Carlos, a primei- ra negra a formar parte do Conselho por indicação do movimento negro. Apesar desse gesto político de inten- ção de integração racial no seio do Conselho por parte do governo, ocorri- do em abril de 2001, até agora nenhu- ma discussão foi feita em que ela pu- desse colocar os problemas específi- cos enfrentados pelos negros no siste- ma educacional brasileiro. Consciente da dramaticidade do racismo étnico e racial no Brasil, o co- letivo de professores dos NEABs mani- festa sua solidariedade à luta dos ín- dios por vagas nas universidades e propõe essa audiência pública tam- bém para dar uma oportunidade de expressão à colega de Petronilha Gon- çalves, Profa. Francisca Novantino Ân- gelo (Francisca Pareci), primeira índia a fazer parte do Conselho Nacional de Educação e que se encarregará de le- var ao Conselho a pauta específica de reivindicações dos índios brasileiros para o acesso ao ensino superior. Post Scriptum (*) Os professores que contribuíram para o seguinte documento foram: Coordenador e Relator: José Jorge de Car- valho - UnB Professores dos NEABs Convidados: Alec- sandro Ratts - UFG; Amauri Mendes Pereira - UCAM; Ana Beatriz Souza Gomes - UFPI; Be- nilda Regina Paiva - PUC-MG; Carlos Benedito Rodrigues da Silva - UFMA; Delcele Mascarenhas Queiroz - UNEB; Ilka Boaventura Leite - UFSC; Iolanda de Oliveira - UFF; Joaze Bernardino - UFG; José Maria da Silva - UNIFAP; Kabengele Munanga - USP; Maria Alice Rezende - UERJ; Maria Aparecida Moura - UFMG; Moisés de Melo Santana - UFAL; Neli Góes Ribeiro - UDESC; Nelson Ino- cêncio - UnB; Nilma Lino Gomes - UFMG; Val- ter Roberto Silvério - UFSCAR. Além dos professores representantes dos NEABS, participaram das propostas aqui apre- sentadas os seguintes pesquisadores: José Luís Petruccelli - IBGE; Rosália Lemos - CEFTQ; Luís Ferreira Makl - Doutorando da UnB; Sales Augusto dos Santos - Doutorando da UnB; Valdecir Nascimento - CEAO/UFBA. O Coletivo de Professores dos NEABS apresentará, para divulgação no próximo nú- mero de Universidade e Sociedade, um diretó- rio nacional dos NEABs, como primeiro subsí- dio para a execução integral da Proposta II-1. Notas 1. Ver Carvalho & Segato (2002). 2. Desenvolvi esse tema do racismo aca- dêmico em uma publicação recente sobre o negro na universidade brasileira (Carvalho 2002). 3. Um primeiro estudo acadêmico com- parativo da composição socio-racial de cinco universidades federais, organizado por Del- cele Queiroz, confirma que os negros estão sub-representados em todos os cursos univer- sitários (Queiroz 2002). Referências Bibliográficas CARVALHO, José Jorge Exclusão Racial na Universidade Brasileira: Um Caso de Ação Ne- gativa. Em: Delcele Queiroz (org), O Negro na Universidade, 79-99. Salvador: Novos Toques, 2002. CARVALHO, José Jorge & Rita Laura Segato Uma Proposta de Cotas para Estudantes Ne- gros na Universidade de Brasília. Série An- tropologia, Nº 314. Depto. de Antropologia, Universidade de Brasília, 2002. Queiroz, Delcele. Desigualdades Raciais no Ensino Superior no Brasil. Um Estudo Com- parativo. Em: Delcele Queiroz (org), O Negro na Universidade, 13-55. Salvador: Novos To- ques, 2002. José Jorge de Carvalho é Ph.D. em An- tropologia Social pela Universidade de Que- en’s de Belfast. Professor do Depto. de An- tropologia da Universidade de Brasília e Pesquisador do CNPq. Foi Professor das Uni- versidades: Queen’s de Belfast, Rice Uni- versity e Wisconsin-Madison e Pesquisador Visitante na Univ. da Flórida. Coordena o PRONEX “Os Movimentos Religiosos no Mundo Contemporâneo”. Livros: El Culto Shango de Recife (com Rita Segato), 1987; Shango Cult of Recife, Brazil (com Rita Se- gato), 1992; Cantos Sagrados do Xangô do Recife, 1993; Mutus Liber. O Livro Mudo da Alquimia, 1995; O Quilombo do Rio das Rãs (org.), 1996; Rumi - Poemas Místicos, 1996; Os Melhores Poemas de Amor da Sabedoria Religiosa de Todos os Tempos, 2001. UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    68 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Em 22 de setembro de 2002, a Folha de São Paulo publicou uma matéria intitulada “Procuradores suspeitam de ‘rede’ para proteger Fernando Hen- rique Cardoso”. Segundo a reporta- gem de Frederico Vasconcelos, estaria ocorrendo um lobby por parte do Executivo Federal, no sentido de pro- teger Fernando Henrique Cardoso após o final de seu mandato. Nos 8 anos de mandato, FHC no- meou três dos 11 ministros do Supre- mo Tribunal Federal, 22 dos 33 Minis- tros do Tribunal de Justiça e 22 dos 27 desembargadores do Tribunal Regio- nal Federal de 3ª Instância – Tribunal este encarregado de julgar os crimes supostamente cometidos pelo presi- dente da república. As nomeações fo- ram feitas justamente dentro da cir- cunscrição territorial relativa ao bairro de Higienópolis, São Paulo, onde está domiciliado. Paralelamente, foi encaminhada ao congresso a aprovação do foro privile- giado para ex-autoridades, de maneira a excluir o Ministério Público das inves- tigações. Segundo o projeto, as denún- cias contra ex-membros do Executivo passariam a ser encaminhadas direta- mente ao Tribunal Regional Federal e, em seguida, ao Supremo Tribunal Fe- deral. Em outras palavras, membros do Executivo passariam a ter um foro privi- legiado para responder civilmente por ilegalidades como improbidade admi- nistrativa. Além disso, o Presidente da República só poderia ser processado criminalmente por iniciativa do Procu- rador Geral da República – em geral, um funcionário de carreira nomeado pelo próprio presidente (no caso de FHC, Geraldo Brindeiro2 ). Procuraremos demonstrar que a “blindagem” que o Executivo e as eli- tes brasileiras procuraram construir em torno de si é parte de um projeto ma- ior cujo objetivo é o desmonte dos se- tores mais organizados dos movimen- tos dos trabalhadores, nos quais o Ju- diciário passou a assumir um papel fundamental de repressão e controle. A desconstrução dos movimentos coletivos O final da década de 70 e os anos 80 corresponderam a um período de acúmulo de forças dos movimentos sociais e conquistas de direitos até então vedados às classes trabalhado- ras. Da fundação da CUT, em 1983, até a Constituição de 1988, houve uma potencialização dos movimentos gre- vistas, especialmente no ABC paulista, assim como da organização de setores das classes trabalhadores que até en- tão vinham sendo sufocados pelos go- vernos militares. Ao lado dos trabalha- dores urbanos, os funcionários públi- cos e rurais avançaram imensamente em suas organizações, assumindo pa- pel fundamental na interlocução com as classes proprietárias brasileiras. Este poder das classes trabalhado- ras refletiu-se na institucionalização de garantias sociais e na regulamentação do trabalho, presentes na Constituição Federal de 1988, mesmo que vários dos direitos previstos na CF fossem, na verdade, cláusulas de acordos coleti- vos que, reiteradamente acordadas pe- los patrões por força do movimento dos trabalhadores, assumiram o cará- ter de norma jurídica. Neste contexto de força dos movi- mentos dos trabalhadores, o descum- primento de acordos e a resistência ou burla patronal à lei tendiam a ser resol- vidos no confronto e negociação dire- ta, e a justiça do trabalho aparecia co- mo um recurso secundário e não tão eficiente quanto a ação coletiva. Se- gundo Adalberto Cardoso, “um movi- mento sindical organizado nos locais de trabalho, ou mesmo das portas da empresa pra fora, pode ser o agente dessa coação (por parte dos trabalha- dores), operando como injunção insti- tucional que põe em risco real a possi- bilidade do lucro das empresas, via ação coletiva”3 . A organização coletiva dos traba- lhadores e a institucionalização de di- reitos na Constituição desencadeou uma grande resistência patronal, cen- trada na tese da iminente “inviabiliza- ção” da indústria nacional, em virtude da elevação do “custo Brasil”4 . Estas elites articularam-se durante o gover- no Collor que deu início a um proces- so de desregulamentação do mercado UNIVERSIDADE E SOCIEDADE A judiciarização dos conflitos de classe no Brasil1 Maria Cristina Cardoso Pereira
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 69 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil de trabalho, em especial, mediante três movimentos do Executivo. O pri- meiro, em consonância com o Legis- lativo, consistia em obstacularizar a re- gulamentação de direitos consagrados na CF. O segundo, em minar sistemati- camente as organizações coletivas de trabalhadores pela extensão de privilé- gios a setores dispostos a abrir mão de direitos como a discussão sobre a polí- tica salarial. O terceiro consistia na am- pliação do papel de setores do Judi- ciário Federal5 e sua subordinação às constantes ilegalidades perpetradas contra os trabalhadores6 . É desta época o início dos debates sobre a Súmula Vinculante e o direito do Executivo de, em casos “emergen- ciais”, tomar decisões que, apesar de francamente inconstitucionais, se justi- ficavam pela situação de “excepciona- lidade” vivida pela economia, não de- vendo ser contrariadas pelo Judiciário7 . O resultado disso é apresentado por Cardoso: “enquanto nas décadas de 1970 e 80 a média de acréscimo no número de processos era pouco supe- rior a 35 mil por ano, na última déca- da do século XX esse valor saltou a mais de 110 mil processos por ano. Em 1998 as 1.109 varas do trabalho existentes no país acolheram perto de 2 milhões de processos trabalhistas, 98% dos quais relativos a conflitos in- dividuais8 .” No governo Itamar foi editada a MP 1.960/94, que vedava a indexação sa- larial e cláusulas de correção automáti- ca de salários em negociações coleti- vas, revogava dispositivos da Lei 8.542 que garantiam a fixação de aumentos reais, produtividade e pisos salariais em livre negociação. Eliminava tam- bém o princípio da ultratividade de acordos e convenções coletivas: se até 1992 os contratos coletivos tinham vi- gência indeterminada, inclusive quan- do outro ainda estava sendo negocia- do ou sub judice, as cláusulas do con- trato anterior continuavam a viger. O dispositivo legal eliminava essa possi- bilidade, criando uma “vacância” de di- reitos durante as negociações coletivas o que, certamente, enfraquecia o po- der dos trabalhadores. O recurso ao Ju- diciário passou a ser estimulado por força de lei – elevando o poder dos juí- zes, em especial de segunda instância, de resolver questões coletivas: a mes- ma lei (inclusive regulamentada nova- mente durante o governo FHC através da MP 1.620/98) retirava de sindicatos e comissões de trabalhadores o poder de fiscalizar o cumprimento dos acor- dos e convenções: no caso, os ofendi- dos deveriam, individualmente, pleitear na justiça do trabalho a reparação de seus direitos, em um claro processo de “descoletivização” dos trabalhadores9 . Reformas judiciais e o Banco Mundial A judiciarização das relações de classe ganhou contornos muito mais agressivos sob o governo FHC. Inicial- UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    70 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil mente nossas elites promoveram uma intensa desregulamentação do merca- do do trabalho, enviando ao congresso projetos de lei que, sob o argumento da “flexibilização” e “modernização” necessárias ao país, tornavam letra morta vários direitos estabelecidos na CLT, instituindo os Planos de Demissão Voluntária, contrato temporário de tra- balho, com fim do aviso prévio e redu- ção do percentual do FGTS, regime de trabalho em tempo parcial, entre ou- tras10 , além da denúncia à convenção 158 da OIT. A tolerância com a tendência patro- nal em sistematicamente descumprir ou ignorar normas trabalhistas e o cer- ceamento da capacidade dos Fiscais do Trabalho de autuar e multar acarre- taram um aumento excepcional de ações individuais na Justiça do Traba- lho. Tendo em vista a superlotação da Primeira Instância, o Executivo criou a figura altamente controversa das Co- missões de Conciliação Prévia, em cla- ra oposição à proposta da ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho) que reiteradamente de- nunciou as CCP como inconstitucio- nais, passíveis de corrupção e cercea- doras dos direitos dos trabalhadores. A subserviência ao Banco Mundial é clara: este estabelece uma série de con- dições para a distribuição de benefícios sociais e empréstimos financeiros que envolvem diretamente alterações na legislação trabalhista e no papel do Es- tado na desregulamentação das rela- ções de trabalho. O Documento Técni- co nº 21911 impõe aos países tomado- res, especialmente Brasil e Argentina, que adotem novas concepções de justi- ça, direito do trabalho, emprego, flexibi- lizando sua legislação e substituindo o legislado pelo negociado. Sindicalismo no setor público12 e o Judiciário nos anos FHC O movimento sindical do setor pú- blico brasileiro teve um grande impul- so a partir do final da década de 70, demonstrando uma articulação não somente em torno de questões econô- micas e políticas. As greves desenca- deadas a partir de 1978, com paralisa- ções conjuntas de setores diferentes como professores universitários, fun- cionários da saúde, médicos, servido- res do Judiciário, assim como a organi- zação do ANDES – hoje Sindicato Na- cional – revelam uma trajetória históri- ca de enfrentamento direto com o Exe- cutivo e com instâncias superiores do Judiciário (responsáveis pelo julga- mento de conflitos entre trabalhadores do setor público e Estado). O tratamento reservado a este mo- vimento sindical pelas elites organiza- das em torno de FHC foi, desde o iní- cio, extremamente duro. A greve de 32 dias dos Petroleiros foi exemplar desta tendência. Decretada simultaneamen- te com aeroportuários, telefônicos, ele- triciários e servidores das universida- des federais, teve início em 3 de maio de 1995, depois que a direção da Pe- trobrás e o Executivo desrespeitaram 3 acordos coletivos assinados em 1994. Ao final do movimento, havia 85 demi- tidos, entre eles, Antônio Carlos Spis, coordenador da Federação dos Petro- leiros. O Executivo também acionou o Judiciário, instando-o a declarar a greve ilegal e impor multas a cada um dos sindicatos filiados, o que acarretou a penhora de seus bens e a inviabilida- de material de suas operações. Em 1996, o Congresso Nacional aprovou por consenso o projeto de anistia aos sindicatos, vetado pelo Pre- sidente da República. Em 14 de junho de 2002 novo veto presidencial, este ao projeto de Jair Menegheli, aprovado por unanimidade nas 2 casas do Con- gresso, anistiando os petroleiros demi- tidos. Uma das argumentações do Exe- cutivo para o veto é a de que a aprova- ção representaria “inequívoca desmo- ralização do Poder Judiciário”. O Exe- cutivo admitia que o poder Legislativo não poderia contradizer “decisão so- berana do Judiciário”, alçando-o à condição de poder hierarquicamente superior ao Legislativo13 . Observe-se que o governo FHC in- vestiu pesadamente na judiciarização dos conflitos coletivos e na transferên- cia da competência de seu julgamento para as altas esferas do Judiciário Fe- deral. Outro exemplo deste comporta- mento está na greve dos servidores públicos federais de 2000 que conta- vam quase 7 anos sem reajustes e com seus benefícios ameaçados. De- flagrou-se a greve e imediatamente o governo apresentou um entendimento contrário à CF que prevê como legíti- Nossas elites promoveram uma intensa desregulamenta- ção do mercado do trabalho, enviando ao congresso projetos de lei que, sob o argumento da “flexibilização” e “moderniza- ção” necessárias ao país, tornavam letra morta vários direitos estabelecidos UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 71 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil mo o direito de greve do funcionalis- mo público, remetendo sua regula- mentação à legislação comum. A inércia do Legislativo em regula- mentar o direito de greve foi pronta- mente respondida pelo Executivo Na- cional. Este entendia que, se não havia regulamentação, este direito estaria automaticamente interditado, conside- rando que o movimento não passava de “faltas injustificadas ao trabalho”, sendo legítimo o desconto de venci- mentos referentes aos dias de parali- sação. O precedente para o desconto dos dias parados e punições aos grevistas, como a exoneração a bem do serviço público, foi aberto em 1995, por oca- sião da greve dos servidores públicos federais. Naquele momento, o gover- no Federal emitiu o “Decreto Autôno- mo” de nº 1.480/95, francamente in- constitucional, uma vez que, segundo o ordenamento jurídico e processual brasileiro, um Decreto, ato tipicamente Executivo, não pode, em hipótese alguma, regulamentar matéria consti- tucional. Esta só pode ser regulamen- tada por Lei, isto é, ato emanado do Poder Legislativo. O Decreto, por sua vez, remetia-se ao Regime Jurídico Único dos Servi- dores Civis da União (RJU). Em outras palavras, o Executivo Federal, acompa- nhado dos Estaduais e do próprio Ju- diciário (como veremos adiante), pre- tenderam sobrepor o RJU à própria CF, e passaram a tratar a greve como uma questão de faltas ao serviço e ausên- cias injustificadas. O movimento dos servidores acionou o Superior Tribunal de Justiça (via Mandado de Injunção), que acatou como legítimo o movimen- to grevista, não estabeleu punições, reconheceu a mora do Legislativo, em regulamentar a greve, porém afirmou a “impossibilidade de seu exercício an- tes da edição da lei complementar”16 . O recurso, usado em 2000 por parte do Executivo, à decisão do STJ sobre a greve de 1995, foi criticado por inúmeros juristas17 que viram aí um precedente perigoso. O STJ não consi- derou a greve ilegal, porém disse que seu direito não poderia ser exercido, já que não havia legislação complemen- tar - inexistindo, também, parâmetros para o estabelecimento de punição aos grevistas. A interpretação do Exe- cutivo foi a de que não se tratava de greve, mas de falta ao serviço. O Judi- ciário abriu, assim, a possibilidade de o Executivo, por meio de Decreto autô- nomo (porque independente de lei), regulamentar matéria constitucional. O Advogado Geral da União, Gilmar Mendes, foi célere em explicar que o parecer do STJ, de 1995, amparava o desconto dos dias parados e a classifi- cação da greve de 2000 como falta ao serviço, segundo ele “sob o pretexto de estarem exercendo o direito de greve.19 O Executivo, amparado pelo Judi- ciário, procurava descaracterizar o con- teúdo político do movimento. Diante, porém, da clara violação ao Estado de Direito, recuou ao afirmar que não era intenção daquele poder regulamentar matéria constitucional via Decreto. Se- gundo G. Mendes: “(...) o Decreto não regulamen- tou o exercício do direito de greve e não poderia fazê-lo (porque) a Constituição reservou o assunto à lei, em sentido formal. Em não havendo lei, é proibido ao admi- nistrador público efetuar o paga- mento dos dias em que os servido- res não trabalham (...) a Lei no. 8.112, (...) reza a perda da remu- neração nos casos de faltas, atra- sos, ausências justificadas e saídas antecipadas da repartição. Portan- to, o desconto provém de lei e há de ser efetuado, sem que repre- sente aplicação de penalidade20 ”. Por último, a Advocacia Geral da União apelou para a moral, afirmando que o seu entendimento estava em sintonia com a “vontade popular”, em uma clara “censurização” do movi- mento e da liberdade política dos fun- cionários públicos e assumindo para si a defesa da ordem, da lei e da moral “públicas”, independente de interesses políticos ou pessoais21 . “Repugnaria a consciência de todo o servidor faltar ou sair do local de trabalho, transgredindo a Lei, e receber a retribuição como se houvesse prestado serviços. Se a opinião mais generalizada não toleraria tal pagamento, tem-se que seria contrário à moral.22” A greve dos professores das Uni- versidades Federais de 2001 teve um caminho diverso dos movimentos apresentados acima. Não somente porque assumiu um caráter de con- fronto muito maior, como se construiu em torno da paralisação dos docentes UNIVERSIDADE E SOCIEDADE O Advogado Geral da União, Gilmar Mendes, foi célere em explicar que o parecer do STJ, de 1995, amparava o desconto dos dias parados e a classifica- ção da greve de 2000 como falta ao serviço
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    Minorias Sociais eLuta de Classe no Brasil um forte apoio de setores da intelec- tualidade e do Parlamento brasileiro, entre outros. A condução da greve também mereceu um tratamento “criminalizan- te”, especialmente por parte do Minis- tro da Educação, Paulo Renato, segun- do o qual “Quem não trabalha, não recebe. Ainda mais quando é pago com dinheiro público23 ”. O Judiciário, quando acionado, manteve o entendi- mento de que deveria haver o descon- to dos dias parados, porém provisoria- mente. Já o Executivo procurou justifi- car o desconto dos dias parados, sob o argumento de que a greve seria abusi- va, uma vez que o ensino era classifi- cado como atividade essencial, não podendo ser objeto de paralisação completa. Observe-se que era o mes- mo argumento para enquadrar como ilegal a greve dos petroleiros – apenas que, neste caso, a lei não menciona, em nenhum momento, o ensino como atividade fundamental. Posteriormente, o próprio Judiciá- rio foi bastante parcimonioso na atri- buição de punições aos docentes, cas- sando o desconto dos dias parados. O movimento encerrou-se com o atendi- mento parcial das reivindicações dos docentes, uma menor radicalização do Executivo, na aplicação de penalidades aos sindicatos, como multas e penho- ra dos bens, e um fortalecimento do sindicato. Conclusões Nos anos FHC, o Estado procurou transferir parte dos confrontos decor- rentes de mobilizações coletivas de trabalhadores para a esfera do Judi- ciário. Este último vem se tornando palco de lutas e enfrentamentos nem sempre acessíveis à compreensão de pessoas não ligadas à área jurídica. Além disso, muitos setores da socieda- de acreditam em um tipo de neutrali- dade por parte do Judiciário que não condiz com o caráter político de boa parte dos entendimentos dos magis- trados e nem com a forma como se processa sua nomeação. Esta aproximação entre Executivo e Judiciário pode ser o sinal de um certo esgotamento de uma prática tradicio- nal no Brasil de aproximação entre Executivo e Legislativo e parece estar fazendo, inclusive, com que o Judiciá- rio assuma funções típicas do poder Legislativo. Paralelamente, a intervenção do Ju- diciário parece estar amenizando o desgaste que o confronto do Executivo com o movimento coletivo dos traba- lhadores indicava desde a década de 80. Já que são tantos os trâmites buro- cráticos e tão distante é a figura do juiz da do cidadão comum, o recurso à ação judicial – seja ela individual ou coletiva – parece ser preferível a um confronto direto e a ampliação da or- ganização coletiva dos trabalhadores. Especialmente em tempos em que as relações e direitos de consumo pa- recem estar pautando as relações so- ciais – veja-se, por exemplo, o trata- mento oferecido, especialmente nas universidades privadas, aos alunos e aos professores para verificarmos que as relações baseadas na confiança e na discussão estão diminuindo e se radicalizando - a justiça aparece como um “tertio” a que todos podem recor- rer, sempre individualmente. Com isso, ocorre um apagamento das relações coletivas, uma diminuição do esforço do trabalhador em fortalecer os laços de solidariedade com seus compa- nheiros, ao invés de recorrer individual e solitariamente a um poder cuja lin- guagem e procedimento lhe são tão distantes. O processo de judiciarização das relações sociais não terminou. A men- talidade presente em muitos movi- mentos sociais, como sindicatos e as- sociações, é basicamente assistencia- lista e muitos movimentos acabaram se tornando “consumidores” da justi- ça. Além disso, o Judiciário de instân- cias superiores, criatura de governos passados, continua até a aposentado- ria de seus ministros, compulsória aos 70 anos. Até lá a “blindagem” conti- nua. Depois, tudo dependerá do proje- to de sociedade que o novo governo tem em mente assim como as condi- ções e a forma como se dará uma eventual reforma do Judiciário. Notas 1. Agradecimentos especiais a Jair Jatobá, que pacientemente me auxiliou a levantar o material disponível no ANDES para meu pro- jeto de doutorado, do qual este texto faz parte, a Edmundo Dias pela leitura e comen- tários e a Moema Joffily Dias, pela competen- te revisão. Eventuais erros são de inteira res- ponsabilidade da autora. 2. Foi o próprio pai de Geraldo Brindeiro, Dep. Federal Bonifácio Andrada (PSDB- MG) quem elaborou e encaminou o projeto de lei que restabelece o foro privilegiado. 72 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE O próprio Judiciário foi bastante parcimonioso na atribuição de punições aos docentes, cassando o desconto dos dias parados.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 73 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil 3. CARDOSO, A. Moreira – Direito do tra- balho e relações de classe no Brasil contem- porâneo. Trabalho apresentado no seminário temático “Trabalhadores, sindicatos e a nova questão social” (ST)21), XXV Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu, 16-20 de out. de 2001. p. 22. 4. No meio empresarial, “custo Brasil” é como se convencionou chamar despesas com a folha de pagamento que não fazem parte do chamado “salário direto” – ou aquele que o trabalhador recebe por hora trabalhada. Existem duas correntes que polarizam as in- terpretações sobre os “encargos sociais no Brasil. A primeira, predominante no governo FHC e no MTE, exige o afastamento do Estado das relações de trabalho e a supressão da jus- tiça do trabalho para que o Brasil se torne “competitivo” internacionalmente e ocorra ge- ração de empregos. A segunda corrente, representada pelo DIEESE, entende que “encargos sociais não são sinônimos de obri- gações trabalhistas, são apenas parte delas. Salário é a remuneração total recebida inte- gral e diretamente pelo trabalhador, como contraprestação pelo seu serviço ao emprega- dor. Fonte: DIEESE, nº 12, Encargos Sociais no Brasil – conceito, magnitude e reflexos no em- prego. DIEESE, São Paulo, agosto de 1997. P. 15. 5. A título de exemplo, o executivo editou medida provisória 185, através da qual se atri- buía ao presidente do Tribunal Superior do Trabalho a competência para suspender sen- tença normativa dos Tribunais Regionais do Trabalho, em dissídios coletivos. 6. Foge ao nosso escopo a análise sobre como o executivo obstacularizou a aprovação de direitos sociais. A este respeito, ver o estu- do de Clémerson Merlin – Atividade legislati- va do Poder Executivo no Estado contemporâ- neo e na constituição de 1988. São Paulo, Editora RT, 1993. 7. A este respeito, é ilustrativa a declara- ção de Ives Grandra Martins, especialista em direito Constitucional e Tributário, sobre as in- constitucionalidades do Plano Collor: “Como cidadão reconheço que o plano não tem re- torno (...). Por esta razão, entendo que o, salvo casos extremos de absoluta necessida- de, o Poder Judiciário não deve ser acionado, para que não se atribua à classe dos advoga- dos ou dos magistrados a responsabilidade pelo insucesso da iniciativa presidencial, en- tendo mesmo que o Congresso deva, no que concerte à espinha dorsal do plano, que é o enxugamento da liquidez do mercado, não alarcear o perfil da MP168, para que também não seja eventualmente responsabilizado.” MARTINS, I. Gandra – O plano Collor. Folha de São Paulo, 14;03;1990. Caderno A, p. 3. 8. CARDOSO, Idem. p. 2. 9. Estes são apenas alguns exemplos. Há inúmeros outros, como as decisões sobre ações direta de inconstitucionalidade e a po- lêmica sobre os enunciados 316, 317 e 323 do TST, revogados pelo STF. 10. Ver uma exposição mais detalhada das medidas de precarização do trabalho no texto 38, Diretoria do ANDES/SN, apresentada no 20o Congresso, Rio de Janeiro, RJ, entre 15 e 21 de fevereiro de 2001. 11. BANCO MUNDIAL. O Setor judiciário na América Latina e no Caribe – elementos para a reforma. Doc. Técnico 319, junho de 1996. Ver, em especial, a p. 10. 12. Estamos considerando como “setor público” não apenas aquele que congrega tra- balhadores submetidos ao Regime Estatu- tário, mas também trabalhadores que, apesar de não serem funcionários públicos, têm suas atividades classificadas como públicas pela própria Constituição, como a de trabalhadores em setores essenciais da economia e aqueles cujo vínculo não está subordinado somente ou diretamente à CLT. 13. Discurso do Senador José Eduardo Dutra, PT-SE, citado por www.jornalex- press.com.br/noticias/detalhes. 14. Segundo o art. 84, inciso IV da CF, cabe ao presidente da República editar Decretos e regulamentos para fiel execução das leis. O art. 5º da constituição, inciso II, afirma que “nin- guém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. 15. RJU (Lei no. 8.112/90), artigos 116, X e 117, I, que aludiam a faltas ao serviço e não a greve. O RJU exige, igualmente, que, para que haja desconto, seja primeiro instaurado processo administrativo: “não se procederá o desconto na remuneração do servidor público senão em decorrência de lei ou mandado judicial” (art. 45). 16. Três ministros foram vencidos – Se- púlveda Pertence, Carlos Velloso e Marco Au- rélio (é preciso verificação de qual foi o seu entendimento para saber até que ponto fo- ram “vencidos”). A ementa foi redigida nos seguintes termos: “EMENTA: Mandado de injunção coletivo – Direito de greve do servidor público civil – Evolução desse direito no constitucionalismo brasileiro – Modelos normativos no direito comparado – prerrogativa jurídica assegurada pela Constituição (art. 37, VII) – Impossibi- lidade de seu exercício antes da edição de lei complementar – Omissão legislativa – Hipóte- se de sua configuração – Reconhecimento do estado de mora do Congresso Nacional – Im- petração por entidade de classe – Admissibi- lidade – Writ concedido. (Mandado de Injun- ção nº 20 – DF – Relator Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 19/05/94, acórdão publicado no DJU de 22/11/96, p. 45.690) 17. Celso Bastos, Celso A. Bandeira de Mello e mesmo Hely Lopes Meirelles, que crê na possibilidade e constitucionalidade de Decreto Autônomo. Revista Consultor Jurídico, 7 de junho de 2000. A OAB, por exemplo, pro- nunciou-se contra a decisão da Suprema Cor- te, ao entender que o corte no ponto de gre- vistas era ilegal. Além disso, denunciou o fato de que, indiretamente, a Suprema Corte ratifi- cou a classificação da greve como mera falta ao serviço ao entender que o direito (de gre- ve) não poderia ser exercido sem a manifesta- ção do legislativo. Corte de ponto de grevistas. In: Revista Consultor Jurídico. www.conjur.com.br 18. Gilmar Mendes foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal em 28 de maio de 2002. 19. Revista Consultor Jurídico. 15 de ju- nho de 2000. www.conjur.com.br 20. Justificativa do Advogado Geral da União. Idem 21. Há interessantes estudos realizados pela ciência jurídica alemã sobre a relação en- tre a incorporação da moral “coletiva” por par- te do judiciário e do executivo, em um claro movimento de absorção das reivindicações populares e das demandas difusas de “mora- lização do Estado” em nome, em geral, de in- teresses particulares, dos quais a administra- ção pública é representante. V. a esse respeito MAUS, Ingeborg – judiciário como superego da sociedade. Novos Estudos Cebrap, novem- bro de 2000. 22. Revista Consultor Jurídico. 15 de ju- nho de 2000. www.conjur.com.br 23. ENTREVISTA DE PAULO RENATO AO CORREIO BRASILIENSE. 25/10/2001. Disponí- vel em www.educacao.gov.br/acs/jornalis/- entrevista/1401.shtm Maria Cristina Cardoso Pereira é Douto- randa em Ciências Sociais pela Unicamp, Mestre em Sociologia pela Unicamp e Ba- charel em Direito e História pela PUC-SP
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE74- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Introdução Uma vez que a homossexualidade, na nossa cultura, carrega o estigma do preconceito, por ser uma prática desaprovada a partir de um ideal heterossexual, este trabalho tem como objetivo mostrar que a preg- nância do discurso médico do século XIX e sua ideologia têm atravessado a noção psicanalítica de homossexuali- dade desde Freud até os dias de hoje, legitimando a exclusão social dos homossexuais e a permanência deles no rol da chamada minoria sexual. Freud e a homossexualidade As idéias freudianas sobre a homos- sexualidade foram criticadas por alguns escritores (Spencer, 1995), antropólo- gos (Fry e MacRae, 1984), militantes do movimento gay e outros. Parte dessas críticas parece ter realizado uma leitura simplificada, desconsiderando a obra no seu conjunto teórico, influenciando- se pela interpretação dos analistas pós- freudianos. No fragmento seguinte, ve- mos a difusão de uma concepção evo- lucionista da psicanálise em que a se- xualidade é concebida dentro do pa- drão heterossexual, conforme o depoi- mento dos antropólogos Fry e MacRae (1984:73), sendo o primeiro um ex- militante do movimento gay: “(...) a psi- canálise presume que a sexualidade tenha objetivos predeterminados, ina- tos, além dos adquiridos. Presume a heterossexualidade como a condição sadia e a procriação como a sua finali- dade máxima. O que ele [Freud] consi- dera o ato sexual maduro é o coito heterossexual e os que preferem outras variantes são considerados imaturos”. Os autores expressam o pensa- mento popular acerca da homosse- xualidade construído a partir da difu- são das idéias psicanalíticas a respeito. Embora admitam o reducionismo, ain- da assim reconhecem a força desta crença transformada em verdade e lhe dão crédito. Sob o pretexto de um dis- Acyr Maya (2) Homossexualidade: o discurso médico e a exclusão do sujeito(1)
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 75 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil curso libertador que acentua a homos- sexualidade como uma produção ideo- lógica, os autores paradoxalmente aca- bam por reforçar o preconceito ao aderir ao imaginário social. A formula- ção dos autores denuncia também uma sobreposição do discurso da imaturi- dade emocional ao discurso da ano- malia, em que a psicologização da psi- canálise se confunde com o saber mé- dico, embora a própria linguagem seja impotente para dar conta da noção de homossexualidade, como é ilustrado, a seguir: “Aqueles que conhecem a fundo os trabalhos de Freud podem considerar este breve resumo como uma simplificação absurda. Talvez seja. Mas o fato é que estas idéias, atribuí- das a Freud, se tornaram parte do sen- so comum. Como tal, adquiriram a for- ma de dogmas quase inquestionáveis e informam a maneira pela qual muita gente pensa a homossexualidade. Por exemplo, o desespero que se abate sobre pais e mães quando descobrem que um filho ou uma filha é homosse- xual, muitas vezes, se deve a este tipo de interpretação, que atribui ‘culpa’ a eles. Mas não há razão nenhuma de aceitar estas interpretações que colo- cam arbitrariamente a heterossexuali- dade como a expressão da maturidade plena. Chamar o homossexual de ima- turo é apenas outra maneira de depre- ciá-lo sem chamá-lo de doente” (Fry e MacRae, 1984:74). A partir desta crença transformada em verdade, Fry e MacRae denunciam a apropriação da teoria psicanalítica a serviço de uma ideologia. Isto nos cha- ma a atenção para a questão da difu- são e da transmissão da psicanálise nas instituições e escolas psicanalíti- cas, em particular, no tocante à difusão e à transmissão da noção de homosse- xualidade. Por um lado, a difusão so- cial das idéias freudianas realizou uma apropriação ideológica da teoria, por outro lado, a transmissão biologizante e psicologizante do pensamento freu- diano, em particular, pela IPA (Inter- nacional Psychoanalytical Association) (3). A homossexualidade, nesse caso, é vista como uma essência universal, em série, sem considerar o sujeito da diferença. Dizem eles: “O famoso para- digma da fábrica de bichas constituída de uma mãe dominadora e um pai au- sente é seguramente apenas uma rei- teração da ideologia de que apenas a família patriarcal é realmente saudável, ignorando a realidade da vida familiar em geral. O fato é que, para todas as crianças, as mães realmente aparecem como personagens dominadoras. As- sim, se a teoria fosse válida, o proble- ma que teríamos que enfrentar seria o de descobrir as causas da heterosse- xualidade...” (Fry e MacRae, 1984:74). Embora Fry e MacRae ressaltassem que as idéias que criticavam eram “atribuídas” a Freud, ou seja, talvez não fossem dele, não se preocupam em esclarecer a autoria das mesmas. Já Spencer (1995:303) estabelece uma distinção entre Freud e seus seguido- res, como vemos: “Entretanto, a opi- nião da psicanálise, que incluía tanto os seguidores de Freud quanto seus críticos, era ainda de que a homosse- xualidade tinha um conteúdo patológi- co. Este conceito obscureceu todo o século XX, até bem recentemente”. Se, da parte de Freud, houve pru- dência quanto ao uso da noção psica- nalítica de homossexualidade, do lado dos pós-freudianos, ao contrário, a construção de uma teoria da homos- sexualidade como um desvio do de- senvolvimento serviu à demanda so- cial, que recriminava os homossexuais, como ilustra Isay (1996:142): “A teoria da homossexualidade como um des- vio de desenvolvimento, elaborada e codificada entre 1940 e 1980, aumen- tou a aceitação da psicanálise dentro da cultura americana predominante. A teoria expressava o preconceito social da sociedade, na qual os analistas ha- viam sido criados, treinados e profis- sionalizados (...)”. A teoria do desvio do desenvolvi- mento se fundamenta na interpreta- ção de alguns conceitos freudianos vis- tos sob uma ótica marcadamente evo- lucionista. O evolucionismo foi funda- mentado no conceito médico de ins- tinto sexual do século XIX. Parte de nossa herança genética, esse instinto objetivaria à reprodução e à manuten- ção da espécie, o que deu ao conceito de família importância política e eco- nômica, por ser capaz de unir os instin- tos sexuais aos interesses sociais do capitalismo (Costa, 1995:142). A hete- rossexualidade havia se tornado um bem. Dessa forma, ao conceituar a ho- mossexualidade como “desvio” ou “perversão” do instinto sexual, no sen- tido de perversidade, a medicina legiti- mou cientificamente os valores sociais instituídos pela moral burguesa. Por fim, em seu combate à homossexuali- dade, o catolicismo e o protestantismo aderiram à explicação médica que, tra- tando-a como doença, materializou no corpo biológico os valores religiosos da culpa e do pecado. O instinto se- xual sendo caracterizado por uma ati- vidade hereditária exclui, portanto, o sujeito do inconsciente (4), isto é, a idéia de uma sexualidade sustentada através da fantasia e do desejo. A heterossexualidade havia se tornado um bem. Dessa forma, ao conceituar a homossexuali- dade como “desvio” ou “perversão” do instinto sexual, no sentido de perversidade, a medicina legitimou cientifica- mente os valores sociais insti- tuídos pela moral burguesa.
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    76 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Freud esvaziou a homossexualida- de da consistência anatômica impingi- da pelo discurso médico, a favor da noção de fantasia. Ao colocá-la como uma vicissitude do complexo edípico, ele a afasta do campo da moral psi- quiátrica em que ela se encontrava até então. No início de seu trabalho, de- pois de admitir ter errado no caso Do- ra, devido ao próprio preconceito que não o permitiu compreender a impor- tância da homossexualidade na vida psíquica do sujeito, em “Os três en- saios sobre a teoria da sexualidade” (1905b) Freud avança, ao formular a virulência de idéias como: a inexistên- cia de uma conexão a priori estabele- cida entre a pulsão e um determinado objeto, a bissexualidade psíquica e a sexualidade infantil. Numa época em que a homossexualidade era conside- rada uma aberração da natureza pelo discurso médico do século XIX e já excluída socialmente desde o cristia- nismo, Freud mostrou que a homosse- xualidade habita nossa vida psíquica, seja sob forma latente, seja sob a for- ma manifesta. Se, por um lado, ele rompia com o discurso positivista e filosófico da época, por outro lado, seu desejo o impulsionava a fazer da psi- canálise uma ciência. Isto provocou al- guns impasses em relação à noção de homossexualidade, não só na clínica, a exemplo do caso Dora, como veremos, mas também na própria transmissão da psicanálise. Freud criou a psicanálise em uma época em que predominavam o dis- curso científico e o idealismo filosófico. O desejo dele de transformar a psica- nálise em ciência ou fundamentar suas idéias através do “ideal da ciência”, custou um preço: “o cientificismo da ciência ideal” (Milner, 1996:48). En- contramos, em alguns de seus textos, uma valorização e até mesmo uma es- perança de Freud com relação à pes- quisa biológica sobre a sexualidade e o seu avanço, o que mostra o desejo dele de fazer da psicanálise uma ciên- cia para a comprovação de suas idéias. Segundo Milner, as instituições psica- nalíticas se deixaram dominar pelo dis- curso científico da ciência ideal. Isso trouxe conseqüências não só para a psicanálise, mas para o tema da homossexualidade. Ele foi instituciona- lizado dentro da psicanálise, inicial- mente pela IPA, a partir desse discurso científico, como uma patologia sexual. Lacan, no seu retorno à letra de Freud, ao enfatizar a teoria da falta de um objeto que satisfaça completa- mente o sujeito e recolocando o con- ceito freudiano de pulsão (trieb) (não o de instinto sexual), como um dos conceitos fundamentais da psicanálise, resgatou o caráter revolucionário da sexualidade freudiana. Se não existe significante do sexo no inconsciente, se o inconsciente não é sexuado mas sexual, então o homem e a mulher não foram feitos necessariamente um para o outro. Nesse sentido, para a psi- canálise, a assunção do sexo e da se- xualidade pelo sujeito dependem prin- cipalmente da linguagem, não propria- mente da anatomia. Dessa forma, ho- mens e mulheres ocuparão diferentes posições discursivas e modos de gozo, podendo haver homens que freqüen- tam a posição feminina e mulheres que ocupam a posição masculina. Si- tuando a IPA como um discurso reli- gioso que cala a verdade do desejo, Lacan ((1969-70)1992:47) dispensa o cientificismo e o evolucionismo: “Quan- do colocamos esses ismos, estamos no plano da zoologia” (grifo do autor). Ele acrecenta que reduzir a psicanálise ao desenvolvimento é uma aberração (Lacan (1956) 1998:890). Lacan manteve, durante a sua obra, uma preocupação constante de reali- zar uma transmissão da psicanálise disjunta de regulações imaginárias. Através das suas contribuições inova- doras, explicitou determinados aspec- tos da teoria freudiana que deram margem a leituras obscurantistas so- bre a homossexualidade. Nesse senti- do, foi um crítico feroz da transmissão da psicanálise veiculada pelo discurso da IPA e da produção de alguns analis- tas pós-freudianos. O rigor de Lacan le- vou-o, a partir dos anos 1970, a mudar seu paradigma. Apropriando-se da matemática (articulada à psicanálise) porque ela não está presa a nenhuma substância ou essência, ele elaborou as “fórmulas da sexuação”. Ao dispor o homem e a mulher em letras, como faz a escrita matemática, ele propõe uma ruptura com os discursos que enunciam representações do ser, a exemplo do discurso religioso e do discurso médico que têm como base o platonismo. No caso do primeiro, o platonismo deu lugar ao cristianismo, e, no segundo, ao evolucionismo. Ca- be ressaltar que ambos os discursos apregoam a idéia de um amor ineren- te à reprodução da espécie, configu- rando uma satisfação total entre os dois sexos. Segundo Lacan, o amor, o gozo e o desejo são coisas distintas. Os Pós-Freudianos e a homossexualidade A partir dos anos 1930, com a ins- titucionalização massiva da psicanáli- se, ela alcançou prestígio internacio- nal, inclusive no Brasil. A incorporação e a difusão da psicanálise obedeceram a tradições culturais distintas, as quais UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Se não existe significante do sexo no inconsciente, se o inconsciente não é sexuado mas sexual, então o homem e a mulher não foram feitos necessariamente um para o outro.
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    Minorias Sociais eLuta de Classe no Brasil Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 77UNIVERSIDADE E SOCIEDADE realizaram uma reinterpretação da obra freudiana. Sua aceitação por dife- rentes culturas (inglesa e americana) e saberes (psiquiatria e psicologia) re- sultou na sua descaracterização, nos anos 1950-1960. A psicanálise havia se transformado numa prática curativo- normativa, centrada na prevenção e na cura (Birman, 1994). Lacan nomeou essa apropriação da psicanálise por outros saberes, em par- ticular, o saber médico e o saber psico- lógico, de desvio teórico, pois a psica- nálise havia perdido sua identidade teórica enquanto saber do inconscien- te. Os pós-freudianos, utilizando as for- mulações de Freud, privilegiaram a ins- tância egóica (ego), em detrimento do inconsciente, reduziram a sexualidade à genitalidade e, comprometidos com a tradição evolucionista e neopositivis- ta, adoeceram de novo a homossexua- lidade. Freud sempre foi prudente nas suas considerações teóricas a respeito da homossexualidade. Numa nota dos “Três ensaios sobre a teoria da sexuali- dade” (1905b), ele disse que a psica- nálise recusava a discriminação dos homossexuais como possuidores de características especiais. Ao contrário, os pós-freudianos, na sua maioria, pa- tologizaram as idéias freudianas, trans- formando-as em novas classificações que foram amplamente divulgadas e incorporadas à cultura em geral, resti- tuindo assim os antigos parâmetros morais de normalidade do século XIX, sendo ainda hoje utilizadas por alguns analistas e profissionais de outras áreas. A partir dessas concepções, o ma- nejo da homossexualidade na clínica pós-freudiana consistiu na abstinência sexual do sujeito e na sua conversão à heterossexualidade. Tal prática nunca fora proposta por Freud (1935), a exemplo da demanda feita a ele pela mãe de um homossexual, através de uma carta. Na resposta à carta, Freud faz considerações sobre a homosse- xualidade não somente em termos da teoria psicanalítica - revelando, mais uma vez, o alcance social do tema - ao proferir que a homossexualidade não é um crime e ao destacar personalida- des respeitadas mundialmente. Nessa carta, bastante difundida, ao indagar à remetente sobre o porquê de ela evi- tar mencionar que seu filho é homos- sexual, a nosso ver, ele assinala o me- do da homossexualidade: a homofo- bia enquanto fenômeno social. Equi- parada à doença, o medo da homos- sexualidade sempre foi correlato ao medo de males impronunciáveis. Na Idade Média, a homossexualidade foi vinculada à lepra, no século XIX, a uma anomalia sexual, como vimos, e, mais recentemente, no século XX, à Aids. O que nos fez pensar sobre a célebre frase do escritor Oscar Wilde, condena- do por amar outro homem: “o amor que não ousa dizer seu nome”. Do ponto de vista da psicanálise, Freud afirma que a homossexualidade não era vantagem, vício, vergonha nem doença e que, portanto, a mu- dança da orientação homossexual não era possível; é afirmando o lugar da psicanálise frente à neurose e à inibi- ção social que Freud (1935), nesta carta, marca a posição da psicanálise diante da homossexualidade. Considerações Finais Embora nos “Três ensaios sobre a teoria da homossexualidade” (1905b), “Carta à mãe americana” (1935), por exemplo, Freud não compartilhasse com o preconceito sobre a homosse- xualidade, nem sempre fora assim. Na nota do pós-escrito do caso Do- ra, Freud (1923) 1976:116-117) admi- te sua “falha técnica” em não ter des- coberto, a tempo, o desejo de Dora pela Sra. K.: “Quando não havia ainda compreendido a importância da cor- rente homossexual de sentimentos nos psiconeuróticos, era amiúde obri- gado a interromper o tratamento de meus casos, ou era tomado de total perplexidade”. Lacan ((1951)1998), ao comentar essa passagem, afirma que o objeto do desejo de Dora escapa a Freud, devido ao seu preconceito de que a mulher foi feita para o homem. A teoria evolucionista que, no sécu- Na Idade Média, a homossexualidade foi vinculada à lepra, no século XIX, a uma anomalia sexual, como vimos, e, mais recentemente, no século XX, à Aids.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE78- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil lo XIX, fabricou a noção do homosse- xual como um doente, descriminalizou a homossexualidade apenas parcial- mente, pois a terapêutica da cura aca- bou provocando a exclusão social do homossexual, na medida em que ser- via à ideologia social burguesa. A no- ção veiculada pela IPA serviu-se dessa teoria que foi difundida através de vá- rias instituições psicanalíticas. O deba- te sobre a homossexualidade, no Bra- sil, vem criando, recentemente, novas representações sociais, a partir do seu ingresso no universo do Direito Civil e dos Direitos Humanos, como conse- qüência das reivindicações do Movi- mento Gay nacional, uníssono com a tendência dos grupos internacionais. O projeto de lei de 1995, da Parceria Civil registrada entre pessoas do mesmo sexo, ainda não aprovado pelo Con- gresso, que visa legalizar a união ho- mossexual, e, mais recentemente, a lei federal, já aprovada, que garante be- nefícios previdenciários aos funcioná- rios públicos que são parceiros civis, são exemplos concretos de como uma produção de conhecimento pode favo- recer, ou não, à inclusão social da ho- mossexualidade e à destituição de sua abordagem como doença. Essa “des- medicalização” ou “despsicologização” da homossexualidade - isto é, a sua apropriação abusiva e normalizadora pelos saberes médico e psicológico, respectivamente, a serviço da noção de heterossexualidade como um bem social - provocou uma mudança no significado da palavra homossexualis- mo, transformando-a de vergonha em orgulho. Em que medida a psicanálise vem contribuindo, ou não, para essa mu- dança? A determinação da Associação Americana de Psiquiatria, em 1973, abolindo o termo homossexualismo como distúrbio mental, terá produzido algum efeito na produção dos analis- tas que seguiam a teoria instintivista? E, no Brasil, em que medida terá reper- cutido sobre a resolução do Conselho Federal de Psicologia, que, em 1999, divulgou uma norma (5) contra a idéia de cura dos homossexuais? A ética da psicanálise, tal como for- mulada em O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-60), por Lacan, dispensa regulações externas que prescrevem uma moral de conduta. Supondo-se que essas duas regula- mentações se aproximem da ética da psicanálise, no sentido de conceber a homossexualidade como uma mani- festação do desejo, é interessante pen- sar a que ponto chegamos na história da homossexualidade para que hou- vesse a necessidade da intervenção de leis que resgatassem algo em termos de singularidade, ou, quem sabe, da noção de sujeito com relação à ho- mossexualidade. A ética da psicanálise teria fracassado? Pois o esforço de La- can, em esvaziar o imaginário da teoria freudiana, não impugnou a tradição médico-psiquiátrica do século XIX e o preconceito. Não se trata evidentemente de co- locar a psicanálise a serviço da apolo- gia da homossexualidade, pois isto se- ria cair na impostura de um ideal ana- lítico, denunciado por Lacan, ou seja, fazer da homossexualidade um bem, tal como o ideal do amor genital (6), em relação à heterossexualidade. Po- rém, pensamos ser uma responsabili- dade ética do analista presentificar no mundo que a homossexualidade é um desejo. Este é um desafio para a psica- nálise e minha pesquisa pretende con- tribuir para isso. Em “Proposição de 9 de outubro de 1967” (1967), Lacan define a psica- nálise em extensão como a “presenti- ficação da psicanálise no mundo”. Para Souza (1991), da mesma forma que um sintoma individual, um sintoma social é mantido por uma fantasia. Se- gundo Ferenczi (1914) e André (1995) a cultura moderna recalcou excessiva- mente a homossexualidade masculi- na, diferentemente de outros períodos da história. André (1995) acrescenta que o retorno do recalcado forma hoje um sintoma social. A cultura moderna recalcou excessivamente a homossexualidade masculina, diferentemente de outros períodos da história.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 79 Freud comentou, em “O futuro de uma ilusão” (1927), que podemos chamar uma crença de ilusão quando ela é motivada por uma realização de desejo. O desejo que continua susten- tando a parceria Religião-Ciência é o da “normalidade delirante da relação genital” (Lacan (1958)1998:613), pro- tagonizada pelo par homem-mulher. Sob o lema de que a homossexualida- de degenera o corpo social, grupos or- ganizados pautam sua perseguição aos homossexuais, através dessa ideo- logia, ocasionando em violência e morte. Em O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70), Lacan afir- mou que a segregação sempre terá força, reafirmando o que já dissera em “Proposição de 9 de outubro de 1967” (1967), a respeito da segregação re- servada à humanidade no futuro. Im- pressiona constatar, na atualidade, o vigor desse comentário quase proféti- co, na medida que diferenças econô- micas, étnicas, religiosas, sexuais se acirram face à globalização da econo- mia mundial, resultando em xenofo- bia, racismo e homofobia. André (1995:115) indaga sobre uma possível participação da psicaná- lise na rejeição da homossexualidade na nossa cultura, na medida em que o saber psicanalítico “não é independen- te de todo o discurso dominante, nem de qualquer estado de civilização”. Penso que sim, a exemplo de como os analistas pós-freudianos e, até mesmo Freud, como vimos, se deixaram influ- enciar pela dominância do discurso médico. Em que pesem os avanços significativos decorrentes do movi- mento em prol dos direitos dos ho- mossexuais, a homossexualidade ain- da representa um mal-estar na cultura moderna. A produção psicanalítica so- bre a homossexualidade ainda é muito restrita ao âmbito clínico, salvo exce- ções, embora a homossexualidade possua desdobramentos sociais evi- dentes, por exemplo, cidadania, ho- mofobia, adoção de crianças, técnicas de reprodução assistida etc. Este é um desafio para que a transmissão da psi- canálise não fique reduzida à clínica, colaborando, assim, indiretamente, na fabricação da homossexualidade co- mo um sintoma social. Notas 1. Este artigo foi extraído da minha disser- tação de mestrado “A institucionalização da noção de homossexualidade na psicanálise e seus efeitos na clínica”. 2. Psicólogo. Psicanalista participante da Escola Letra Freudiana (RJ). Mestre em Pes- quisa e Clínica em Psicanálise - UERJ. 3. A institucionalização da psicanálise teve início em 1910, com a criação da IPA por Freud e Ferenczi. O objetivo da IPA era forma- lizar a transmissão da psicanálise e preservar seu saber, que se expandia, de modo que ele não se descaracterizasse. 4. Em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” (1960), Lacan conceituou a noção de sujeito do in- consciente, não explicitada por Freud, estabe- lecendo uma diferença no emprego do termo “sujeito” em relação à psicologia e à filosofia. 5. Resolução nº 1/99, de 23/03/1999. 6. Lacan criticou as noções pós-freudianas de “amor genital” e “relação de objeto” por- que elas formulam a existência de um objeto ideal que completaria o sujeito. É uma con- cepção, segundo ele, que se fundamenta na maturação instintual e promove a “genitaliza- ção do desejo”. Sobre isso, ver LACAN, Jac- ques. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-4) (Rio de Janeiro, Jorge Zahar editor, 1995, p.233-50), O seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-7) (Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1995, p.9-92), e O seminá- rio, livro 7: a ética da psicanálise (1959-60) (Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1997, p. 17-8). Referências Bibliográficas ANDRÉ, Serge. A Impostura Perversa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995 BIRMAN, Joel. Psicanálise, ciência e cultu- ra. Coleção Pensamento Freudiano III. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. COSTA, Jurandir Freire. A face e o verso - estudos sobre o homoerotismo II. São Paulo: Escuta, 1995. FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas, Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro: Imago. ______ “Fragmento de um caso de histe- ria” (1905a) e “pós-escrito” (1923) ______ “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905b) ______ “O futuro de uma ilusão” (1927) FREUD, Sigmund. “Carta a uma mãe ame- ricana” (1935). Em: H. 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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE80- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto: novos sujeitos na luta pelo direito à cidade Sonia Lucio Rodrigues de Lima Para tal, utilizamos, como referên- cia, a luta do Movimento dos Trabalha- dores Sem-Teto (MTST). Trata-se de um movimento urbano que organiza, em diversos estados brasileiros, as rei- vindicações de segmentos extrema- mente pauperizados das classes trabal- hadoras por acesso à habitação e a equipamentos e bens imprescindíveis à sobrevivência e reprodução da força de trabalho. Os dirigentes do movimento consideram que a luta por moradia de- ve estar relacionada à luta pela Reforma Urbana e pela transformação da socie- dade. Este movimento, a exemplo do Movimento dos Trabalhadores Sem-Ter- ra (MST) que aciona a via da ação dire- ta na sua estratégia de luta, desenvolve a luta por moradia através da ocupação de imóveis públicos e privados como forma de forçar a negociação. Partimos, inicialmente, da seguinte pergunta: como compreender e carac- terizar o fazer político desses movi- mentos? Posteriormente, com base no aprofundamento teórico, formulamos a seguinte questão: está havendo uma nova forma de luta ou uma mudança nas condições em que ela se realiza? Não nos escapa o reconhecimento de que a resposta a estas questões exi- ge o exame dos processos geradores das desigualdades sociais com as quais se defronta o Movimento, bem como das particularidades constituti- vas do segmento de classe que o com- põe e das influências político-culturais e valorativas que orientam a sua ação. Entretanto, sabedores de que este exercício resultaria num texto de lar- guíssimo fôlego, numa aproximação inicial, nos deteremos na discussão da especificidade da problemática habita- cional e na importância que a mesma aporta para a contemporaneidade. A exploração do trabalho, a espoliação urbana e a questão da habitação A questão da habitação não decor- re, conforme difundida pela concep- ção dominante, do desequilíbrio entre a carente oferta de imóveis e uma vas- ta população consumidora, mas é par- te de um processo complexo e con- traditório de estruturação urbana, so- O interesse em conhecer a ação de movimentos sociais que vem despontando na cena pública por meio da utilização de ações estratégicas que demonstram a pretensão de criticar a priorização da via institucional da luta, em detrimento da ação direta, constitui a motivação deste texto.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE bretudona fase monopólica do capi- talismo. A habitação é um elemento básico da estrutura urbana, exigido, ao lado dos outros equipamentos impres- cindíveis à reprodução da força de tra- balho, pelo processo de produção e acumulação do capital. Contudo, essa exigência não é atendida pelos capita- listas privados, visto não ser considera- da como suficientemente rentável, re- sultando na impossibilidade de acesso à moradia de amplas camadas de tra- balhadores, pois “(...) a cidade capitalista não tem lugar para os pobres. A pro- priedade privada do solo urbano faz com que a posse de uma renda monetária seja requisito indispen- sável à ocupação do espaço ur- bano. Mas, o funcionamento nor- mal da economia capitalista não assegura um mínimo de renda a todos. Antes, pelo contrário, este funcionamento visa manter uma parte da força de trabalho em re- serva, o que significa que uma par- te correspondente da população não tem meios para pagar pelo di- reito de ocupar um pedaço de solo urbano”.(Singer, 1982: 12). Esta afirmação, além de colocar em cheque o discurso oficial sobre a re- lação entre oferta e demanda na pro- dução da questão da escassez de mo- radia, chama a atenção para a existên- cia de processos, intimamente imbri- cados, que repercutem na impossibili- dade do acesso de grande parte de segmentos da classe trabalhadora à habitação nas cidades: a apropriação monopólica da terra urbana e a super- exploração do trabalho. As contribuições de Lefèbvre, Har- vey e Ribeiro1 auxiliam na compreen- são desta problemática. A terra, origi- nalmente bem natural, não-mercantil, transforma-se em um produto com va- lor de troca por meio da incorporação do trabalho social contido nos investi- mentos públicos. Nas sociedades capi- talistas, a terra é, ao mesmo tempo, condição para a produção do capital e condição de vida para a classe traba- lhadora. Porém, ainda que a transfor- mação da terra em produto urbano resulte da introdução de longos anos de trabalho social, e que ela carregue, Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 81 A terra, originalmente bem natural, não-mercantil, transforma-se em um produto com valor de troca por meio da incorporação do trabalho social contido nos investimentos públicos.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE82- Ano XII, Nº 29, março de 2003 potencialmente, valor de uso extensivo a toda população, a sua apropriação é feita de forma privada, consoante a lógica do valor de troca. Ribeiro e Pechman (1983) definem o problema fundiário da seguinte ma- neira: a terra, espaço necessário à pro- dução de moradia, é monopolizada por alguns proprietários. Este monopó- lio representa a consolidação, no pla- no jurídico, de relações sociais herda- das de outros momentos do desen- volvimento da sociedade, pois se trata de propriedade sobre uma condição não reprodutível da produção e da cir- culação de mercadorias, já que a terra não pode ser reproduzida pelo capital, e não tem, por fim, a valorização de um determinado capital-dinheiro. O monopólio sobre a terra permite ao dono da propriedade tributar a pro- dução e circulação de mercadorias, participando, desse modo, da dis- tribuição da mais-valia sem concorrer para sua geração e realização. Com o desenvolvimento da sociedade capital- ista, esta relação social passa a subor- dinar-se às leis da produção e dis- tribuição da mais-valia, “fazendo com que os proprietários de terras somente obtenham um rendimento do seu di- reito de propriedade quando o uso do solo permite a geração de um lucro (...) acima do lucro médio.” (Ibid, Op. cit.: 32). Muito embora este processo signifique uma subordinação da pro- priedade da terra às leis próprias da expansão capitalista, tal não se dá, da mesma forma, no setor de moradia, visto que, neste ramo da produção, o capital depara-se com dificuldades para subordinar a renda ao lucro. A análise de Engels (1982)2 da des- truição da manufatura e do surgimen- to da grande indústria auxilia no des- velamento desta questão, pois contri- bui para pensá-la a partir de determi- nações históricas. O autor demonstra que o desenvolvimento da indústria produziu intensos fluxos imigratórios em direção a oportunidades de traba- lho concentradas nas cidades. Com o surgimento do grande capital industri- al, ocorreu a remodelação do espaço urbano, visto que este espaço, deveria estar adaptado aos requerimentos da produção capitalista de mercadorias. Esta intensa renovação foi realizada tanto pelas próprias empresas quanto pelo Estado. Como o número de imóveis não atendia à demanda, os proletários ti- veram que alugar pequenos cubículos. A concentração de condições habita- cionais anti-higiênicas e miseráveis propiciou o aparecimento de surtos epidêmicos. Por outro lado, a concen- tração também favoreceu o aumento da consciência política. Do ponto de vista da burguesia, este processo re- presentou uma dupla ameaça, já que as epidemias punham em risco o ne- cessário exército industrial de reserva e a disseminação de idéias revolucioná- rias colocavam em risco o poderio das classes dominantes.3 Movida por essa inquietação, a bur- guesia desencadeou um novo proces- so de renovação urbana, no qual se in- cluía a demolição de imóveis que ser- viriam de abrigo para a classe trabal- hadora. Tem-se aí a primeira crise de moradia: a associação de um veloz crescimento da população urbana com a extinção de parte do parque imobiliário existente.4 A carência de moradias favoreceu a cobrança de elevados aluguéis.Esta si- tuação cria um atrativo para o capital- dinheiro existente na economia, que passa a comprar imóveis e parcelá-los em cubículos. Este mecanismo repro- duz a crise de moradias, pois os luga- res habitados pelos trabalhadores são destruídos e pequenas vilas são cons- truídas em lugares distantes, fazendo com que os alojamentos precários não sejam eliminados, mas deslocados. A rentabilidade originada do capital aplicado na produção de habitação não criou, portanto, condições para a superação da crise, pois não existia in- teresse das classes dominantes em so- lucionar a crise de moradia. Tal desin- teresse, ainda segundo o autor em te- la, demonstra a intenção dos capitalis- tas em conservar o operariado pres- sionado pela necessidade contínua de vender sua força de trabalho para ter acesso à moradia, e, ao mesmo tem- po, submetido às iniciativas patronais de construção de vilas operárias. É possível perceber, portanto, como a separação entre produtor e os meios de produção e entre produtor e proprieda- Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil A separação entre produtor e os meios de produção e entre produtor e propriedade da moradia passou a permitir que a moradia se transformasse em mercadoria produzida sob relações capitalistas.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 83 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil de da moradia passaram a permitir que a moradia se transformasse em mer- cadoria produzida sob relações capita- listas e, portanto, destinada ao lucro. Ribeiro, refletindo a partir do exame da emergência da questão habitacio- nal na cidade do Rio de Janeiro, de- monstra que, guardadas as especifici- dades de cada processo de urbaniza- ção e constituição do setor de mora- dia, a denominada crise da moradia é inerente ao sistema capitalista. Tal não se dá, contudo, somente pe- las razões apontadas por Engels, mas sobretudo, devido aos empecilhos existentes para que o capital seja em- pregado na produção de moradias, conformando uma especificidade do setor em relação aos outros ramos de produção. Esse obstáculos específicos enfrentados pelo capital investido no setor imobiliário não possuem, tal qual ocorre com os outros setores, sua su- peração assegurada pelo próprio movi- mento de reprodução. A renda urbana torna o papel do proprietário urbano preponderante na produção de moradia, fazendo com que seja desvendado o seguinte para- doxo: “o investimento imobiliário é ren- tável, mas a propriedade fundiária ur- bana impede a produção capitalista de moradia, na medida em que a ren- da predomina sobre o lucro5 .” Pois, ain- da que as transformações econômicas tenham feito com que a terra se trans- formasse de bem patrimonial em mer- cadoria que circula para proporcionar renda e que esta transformação tenha produzido um incentivo para a produ- ção de novas moradias, o controle do espaço da produção permanece sendo do proprietário de terrenos. Segundo a análise realizada pelo autor, a produção capitalista de mora- dias somente será possível se o capital contornar os dois obstáculos mencio- nados: a propriedade privada da terra urbana e a estreiteza do mercado con- sumidor6 . Assim, a habitação resulta de um complexo processo que envolve produção e comercialização. Suas ca- racterísticas a diferenciam de outras mercadorias de consumo privado, pois trata-se de mercadoria que requer de- morado tempo de construção e imo- bilização de capital e cuja produção vincula-se à disponibilidade de terra, serviços e infra-estrutura, o que distan- cia seu preço do valor dos salários. Por conseguinte, a habitação é uma mer- cadoria que, em geral, exige financia- mento prévio para a produção e o con- sumo posto que, via de regra, seus consumidores não podem adquiri-la à vista. Ikuta, ao analisar as conseqüências para os trabalhadores da dissociação entre as lutas por moradia e as lutas sindicais, discute a problemática com base na compreensão de que a ha- bitação representa um dos elementos de todo um conjunto de precariedades ou exclusões nas condições de exis- tência da população trabalhadora. Nesta perspectiva, propõe que o exa- me da habitação seja feito para além da esfera da reprodução da força de trabalho, pois considera que o mo- mento da produção e o momento da reprodução do social devem ser con- siderados de forma imbricada, possi- bilitando, assim, a superação da referi- da dissociação. Duas questões nortei- am suas reflexões: “De que maneira os problemas e as lutas urbanas, elementos per- tencentes à esfera da reprodução da força de trabalho, estão imbri- cadas com a dominação do traba- lho pelo capital, isto é, com as questões diretamente ligadas à produção? Ou porque as lutas tra- vadas no espaço urbano devem ser vistas por dentro desta relação e não como lutas independentes?” No intuito de respondê-las, tece crí- ticas às posições teóricas mais comuns com respeito à questão habitacional. Por exemplo: alguns autores reconhe- cem que a espoliação urbana é fruto do processo de acumulação do capital, porém, o tratamento analítico da ques- tão da habitação é limitado à ca- pacidade de negociação junto ao Esta- do. O campo de conflito é, assim, res- trito à esfera da reprodução/consumo, pois, apesar do reconhecimento da existência da relação entre condição de vida e acumulação capitalista, o ca- pital não é identificado como um dos adversários reais na luta pela sobre- vivência da classe trabalhadora. Desta ótica, as denominadas con- tradições urbanas são absorvidas teori- camente, no âmbito das desigualda- des no acesso aos equipamentos e A habitação é uma mercadoria que, em geral, exige financiamento prévio para a produção e o consumo posto que, via de regra, seus consumidores não podem adquiri-la à vista.
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    serviços urbanos. Eainda que se enfa- tize que a intervenção do Estado, está direcionada para a realização do capi- tal, em escala ampliada, o debate de- semboca, conforme afirma Ikuta, “(...) na questão da cidadania, que sem os devidos cuidados, pode torna-se, (...) um culto à chamada sociedade demo- crática.”7 Com o fito de contrapor-se a essas visões, propõe outra angulação teórica baseada em dois processos intersec- cionados. O primeiro refere-se ao fato de que, muito embora a moradia seja necessária à reprodução da força de trabalho, o capitalista não se responsa- biliza por seu custeio, sobrecarregando a vida do trabalhador. O segundo, refere-se à dicotomia entre o viver e o trabalhar, isto é, a “(...) separação entre o local de trabalho e o local de reprodução e consumo (efe- tivada pelo capitalismo industrial atra- vés da reorganização do trabalho e do advento e desenvolvimento do siste- ma fabril que força esta separação), oculta a fonte do verdadeiro conflito, amenizando as contradições sociais por meio da fetichização que desloca o conflito para a esfera do mercado” (Ibid., Op. Cit.). O debate apresentado por Ikuta aponta para a importância da supera- ção da dicotomia ente a luta por mo- radia e a luta sindical. Para tal, propõe conceber a questão habitacional não como enfrentamento da carência, com base na noção de que o consumo é frustrado pela falta de infra-estrutura e unidades habitacionais ou como uma necessidade a ser atendida a partir, unicamente, da mediatização do Es- tado, mas, como um fenômeno que se radica no exame do modo produção e de reprodução da totalidade do pro- cesso social. Compreende-se, contudo, que a su- peração dessa visão dicotômica exige aprofundamento da análise da relação entre o momento da produção e o momento da reprodução no processo de constituição da vida social. Visto que a relação entre estes momentos não se dá de forma imbricada, mas, sim, como relação de unidade, pois a dominação do trabalho pelo capital não se restringe ao locus da produção, mas se estende à totalidade do social, cuja estruturação é produzida perma- nentemente. Na interpretação de Lefèbvre, a re- produção social envolve o cotidiano da vida em sociedade. Neste sentido, o autor afirma que “(...) quanto ao modo de produ- ção [capitalista] este conceito de- signa em Marx o resultado das re- lações de antagonismo: ‘salário/- capital’, ‘proletariado/burguesia’. Estas relações sociais não entram na prática da sociedade, e da so- ciedade burguesa, a não ser atra- vés de formas que as sustém e a mascaram; por exemplo, a forma contratual (a do ‘contrato de tra- balho’, ficticiamente livre, que liga os membros da classe trabalhado- ra e os da burguesia e que preten- samente os associa). Este resulta- do global, compreende, portanto, as elaborações jurídicas das rela- ções de produção, as relações de propriedade decodificadas - as ideologias que exprimem também, dissimulando-as, as relações de antagonismo-, as instituições políti- cas e culturais , a ciência etc.” 8 Numa crítica à visão idealista de au- tores, também, interessados na apre- ensão da problemática da reprodução social, Lefèbvre afirma que a ideologia serve para dissimular as relações soci- ais concretas e não para criá-las. Nesta direção, o autor demonstra que o po- der estatal procura apresentar como separados, elementos da sociedade - a terra, o trabalho, o capital, de fato, es- treitamente vinculados. Embora uni- dos são “reiterados como fontes de rendimentos distintos, fato que parece legitimar o rendimento do capital, em vez de mostrar que este é constituído por mais-valia, tal como o do solo e da propriedade fundiária9 .”. Ou seja, na denominada questão habitacional, ex- pressa-se a relação de complementari- dade e antagonismo existente entre os proprietários da terra, do capital e da força de trabalho. Para Lefèbvre, a reprodução das re- lações sociais alcança, portanto, a to- talidade da vida cotidiana, expressan- do-se tanto no lazer, na escola, na for- mação do pensamento científico, na conformação do espaço arquitetural e urbano, nas relações familiares, quan- to no trabalho. Desta maneira, consideramos im- prescindível ressaltar o papel do Esta- do na reprodução das relações sociais, em especial, após a fase monopólica, quando as funções de regulação pas- sam a ser exercidas, relevantemente, neste âmbito. Nesta circunstância his- tórica, o Estado envolve-se diretamen- te na expansão da economia, subsidi- ando-a com instrumentos de grande poder de difusão e removendo os obs- táculos para o empreendimento e a acumulação. O que é necessário, con- tudo, reconhecer criticamente é a aná- lise que gera o obscurecimento da so- ciedade civil, impedindo apreender, como no dizer de Lefèbvre, que a “ver- dade do político” (e, conseqüentemen- 84 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Na denominada questão habitacional expressa-se a relação de complementaridade e antagonismo existente entre os proprietários da terra, do capital e da força de trabalho.
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 85 te, do estatal) está no social. Tendo em vista que o Estado é uma expressão das relações sociais, são essas relações que permitem compreender as formas políticas e não o contrário. Assim, a questão da habitação não decorre de um simples desequilíbrio entre a carente oferta de imóveis e uma vasta população consumidora, mas é um complexo problema com múltiplas determinações, expressivas das contradições sociais geradas pelo desenvolvimento urbano, podendo-se, portanto, afirmar que “o solo urbano (...) traduz a existência de uma luta social por usos diferenciados, que ga- nha contornos mais claros quando se considera que, possa ser também esse solo terra de habitação, os mecanis- mos econômicos e jurídicos que ge- ram remoção, localização diferencial e controle implicam a segregação social e espacial de amplos segmentos da população metropolitana.”10 A ação do capital na estruturação do solo urbano é amparada por uma determinada concepção hegemônica de direito e é corroborada pela ação do Estado, que se encarrega de realizar grandes investimentos em infra-estru- tura, implantar equipamentos de uso coletivo, estabelecer normas para o uso do solo e fiscalizar seu cumpri- mento. O segredo da valorização da terra vazia pode ser, portanto, desven- dado, na maioria das vezes, por meio da seletividade orientadora do investi- mento em infra-estrutura e em equi- pamentos urbanos. Ao especulador de terrenos é garantido, assim, sem des- pender recursos próprios, multiplicar seu capital às custas do trabalho social, reforçando a lógica da socialização dos custos e da privatização dos lucros. Ao intervir na produção do espaço urbano, no sentido de fornecer subsí- dios para o aumento dos lucros da ini- ciativa privada, o Estado estrutura a ci- dade para servir, sobretudo, às neces- sidades do capital, em geral, e, em par- ticular, às do capital imobiliário. A orga- nização interna das cidades resulta, por conseguinte, da ação de agentes que possuem interesses complemen- tares ou antagônicos entre si. Além do Estado e das empresas imobiliárias, in- terferem, na estruturação da cidade, os proprietários de terra e imóveis e a própria população. A apreensão da forma como se dá as relações entre esses sujeitos e da singularidade destas relações nas con- dições particulares de realização do ca- pitalismo contemporâneo em socieda- des periféricas e de industrialização tardia como a brasileira e das questões específicas que envolvem a deno- minada questão habitacional, cons- titui, do nosso ponto de vista, uma me- diação fundamental para o reconhe- cimento de determinantes históricos da emergência da luta por moradia e de sua radicalização na conjuntura atual. Notas 1. Ver a respeito em Harvey, David (1980), Ribeiro, Luiz C. de Queiroz (1997) e Lefèbvre, H. (2001). 2. Aqui nos utilizamos também das leituras de Ribeiro (1997). 3. Em A Situação da Classe trabalhadora na Inglaterra (1975), Engels descreve as con- dições habitacionais da classe operária no momento da revolução industrial. 4. Ver a respeito em RIBEIRO, Luiz Cezar de Queiroz, Op. cit., 1997. 5. IDEM, p.146. 6. Idem., ibdem, 7. IKUTA, F. K. Op. cit. p. 39 8. LEFÈBVRE, Henri. apud. Forachi e Mar- tins, 1977, p.220 9. IDEM, p. 237 10. RIBEIRO, Ana Clara T., 2001, p.46. Equi- pamentos Coletivos. In: O desenvolvimento urbano em questão: textos didáticos, 2ª ed... RJ, IPPUR/UFRJ, 2001 p.46. Referências Bibliográficas ENGELS, F. “Contribuição ao problema da habitação.” In: MARX & ENGELS Obras Esco- lhidas. São Paulo, Alfa-Ômega 1982. ENGELS, F. A Situação da Classe trabalha- dora na Inglaterra. Porto, Afrontamento, 1975. HARVEY, DAVID. A Justiça Social e a Cida- de. São Paulo: Hucitec, 1980. IAMAMOTO, M. “A questão social no capital- ismo”. In: Temporalis. ABEPSS, Brasília, 2001. IKUTA, Fernando K. “A luta pela moradia e o mundo do trabalho: unificando o “caracol e sua concha” In: Revista Pegada, Presidente Prudente, CEG e T/FCT/UNESP, V.2 nº 2 outu- bro 2001. LEFÈBVRE, H. A Cidade do Capital R. J. , DP&A,2001. LEFÈBVRE, Henri. “Estrutura Social: A Re- produção das Relações sociais “.In: M. M. Fo- racchi e J. S. Martins. Sociologia e Sociedade. Leitura de Introdução à Sociologia: R.J. , Livros Técnicos e Científicos, 1977. RIBEIRO, Luiz César de Queiroz. Dos corti- ços aos condomínios fechados: as formas de produção da moradia na cidade do Rio de Ja- neiro. RJ: Civilização Brasileira, 1997. RIBEIRO, Ana Clara . “O dia- a- dia na Cida- de: As Incertezas do Trabalho In: Revista Ecle- siástica Brasileira”, vol. 40 fasc.,157, março de1980. RIBEIRO, Ana Clara T. “Cidade, Reivindica- ções e Equipamentos Coletivos”. In O desen- volvimento urbano em questão: texto didáti- cos, 2ª ed.. RJ, IPPUR/UFRJ, 2001. RIBEIRO, Luiz C. Queiroz e PECHMAN, Ro- bert M. O que é Questão da Moradia., S.P. , BRASILIENSE, 1983. SINGER, P. ”O uso do solo urbano na eco- nomia capitalista”. In: A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil Industrial, ORG: Ermínio, Maricato, SP, ALFA-OMEGA, 1982, p.12. Sonia Lucio Rodrigues de Lima é profes- sora assistente do departamento de SS da ESS/UFF doutoranda em Pesquisa e Plane- jamento Urbano do IPPUR/UFRJ. Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    86 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil I - Contexto histórico. A década de 70 marca o início de uma ampla articulação dos povos indígenas, impulsionada a partir das Assembléias indígenas que começa- ram a se realizar em diferentes partes do país, apoiadas pelo CIMI. Desse diálogo entre os povos indígenas ficou evidente a semelhança dos problemas que enfrentavam como o esbulho de suas terras, as invasões, a violência, o desrespeito à diversidade cultural e o descaso do governo. O eixo das lutas do movimento in- dígena para além das suas aldeias pas- sou a ser a terra. Esse eixo mobilizador funcionou como elo de unidade do movimento, que de acordo com as dis- tintas realidades foi estimulando a cria- ção de variados instrumentos de luta e níveis diferentes de organização. A passagem, em 1980, das Assem- bléias Indígenas diretamente para a criação de um instrumento de luta na- cional - a UNI (União das Nações Indí- genas) mostrou-se um equívoco após alguns anos. Sem os pés fincados na realidade concreta dos diferentes po- vos, ficou à margem do movimento in- dígena que ia sendo construído em termos locais e regionais e por isso foi deslegitimada como instância interlo- cutora dos povos indígenas em termos nacionais. As memoráveis conquistas constitu- cionais, em 1988, foram fruto da força do movimento indígena articulado em termos locais e regionais, com o apoio de aliados na sociedade brasileira. Es- tas conquistas animaram a bases indí- genas que foram construindo diferen- tes instrumentos de luta para assegurar esses direitos. Articulações e organiza- ções de lideranças, professores, agen- tes de saúde, mulheres e estudantes in- dígenas proliferaram país afora. Muitos povos que mantinham sua identidade oculta voltaram a se assumir como indígenas, terras foram retoma- das e os índios residentes nas cidades começaram a se manifestar, fazendo com que as estatísticas populacionais que acusavam 100.000 índios em 1970, passassem a registrar hoje um conside- rável aumento, estimando a população indígena em 510.000 pessoas. Essas conquistas são ainda mais significativas, por serem resultado de lutas concretas do movimento indíge- na contra o latifúndio e a política anti- indígena oficial. Aprovada a Constituição, que atri- Aprendendo com a experiência Subsídio para o debate sobre as perspectivas do Movimento Indígena e sua articulação nacional Aurivan Truká, Pina Tembé, Dina XoKleng e Bruno Xavante: Grupo de Trabalho da Comissão Indígena Pós Conferência 2000. A Comissão foi criada em maio de 2000, para dar encaminhamento às decisões da Marcha e Conferência dos Povos Indígenas, que ocorrera em abril daquele ano. A decisão foi tomada por cerca de 300 lideranças indígenas de todo o país, que estavam reunidas em Pesqueira, Pernambuco, por ocasião do 2º aniversário do assassinato do líder indígena Xicão Xukuru. Ver: www.cimi.org.br
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    buiu a responsabilidadeprincipal na demarcação das terras e na proteção dos bens indígenas à União, delegan- do ao Congresso Nacional questões importantes como a autorização para a mineração e construção de hidrelé- tricas, e a feitura de uma Lei Comple- mentar dispondo sobre o relevante in- teresse público da União nas terras in- dígenas, muitas coisas em relação a questão indígena passaram a ser deci- didas em Brasília. No contexto pós-constituinte, por- tanto, a questão nacional ganhou rele- vância ainda maior, reabrindo nova- mente o debate sobre a forma do mo- vimento indígena ocupar seu espaço nesse nível. A mobilização indígena de 1992, que também aprovou um documento com as propostas do movimento indí- gena para o Estatuto dos Povos Indí- genas, teve como tarefa viabilizar uma instância nacional. Os representantes indígenas apontaram duas maneiras para se organizarem nesse nível: 1. Um conselho de articulação com- posto por representantes dos povos e organizações indígenas, facilitadora do intercâmbio de experiências que se reuniria em Brasília periodicamente e promovia uma distribuição de tarefas; 2. Uma Coordenação Executiva eleita, com escritório montado. Tendo presente a experiência da UNI, avaliada como uma organização que construiu um grande chapéu de palha, mas sem os esteios para susten- tá-lo, os integrantes da mobilização in- dígena, optaram, por ampla maioria, pela primeira proposta, tanto assim que o nome escolhido foi “Conselho de Articulação dos Povos e Organiza- ções Indígenas do Brasil”. As primeiras reuniões do Conselho, que incluíam representantes indígenas de todo país, buscaram concretizar as expectativas da mobilização e fez um esforço muito grande para apoiar as lutas concretas das comunidades indí- genas. Em dado momento, com a finalida- de de facilitar a articulação, o Conselho resolveu delegar para uma Comissão menor o seu papel. A partir desse mo- mento, houve um distanciamento das bases, favorecendo para que posições individuais prevalecessem sobre a von- tade coletiva. O CAPOIB passou então a reproduzir, de outra maneira, a expe- riência frustrada da UNI. Foi proposta inclusive uma mudança no estatuto para que o CAPOIB adotasse a propos- ta que foi rejeitada em 1992. A crise do CAPOIB se agravou na Marcha e Conferência Indígena 2000, Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 87UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    quando seus representantesarticula- ram uma proposta, que soou como uma traição, no contexto das manifes- tações triunfalistas oficiais, para a es- magadora maioria das lideranças indí- genas presentes. Desde então o CA- POIB se desarticulou por completo e o seu nome passou a ser usado por pes- soas que não foram indicadas pelo movimento indígena. A Conferência Indígena 2000 tam- bém revelou que o CAPOIB estava fa- lando uma língua que não estava sen- do entendida por suas bases e que nem sempre era a expressão da vonta- de das comunidades indígenas. A Pós Conferência, realizada em Pernambuco, avaliando essas dificul- dades do movimento indígena, resol- veu deslegitimar o CAPOIB como ins- tância nacional, até que não houvesse uma ampla discussão a respeito. Criou uma Comissão articuladora integrada por dois representantes indígenas por Estado, com a finalidade de resgatar a força do movimento indígena que vem das comunidades e encaminhar as re- soluções da Conferência. II - O contexto atual A partir das informações, reflexões e avaliações feitas na Conferência In- dígena 2000, na Pós Conferência e nas nossas reuniões da Comissão Indígena vamos tentar fazer uma síntese sobre a realidade atual do movimento indíge- na nacional. No contexto neoliberal, onde algo só tem valor quando transformado em mercadoria, o desafio cresce ainda mais, pois os nossos valores culturais são sistematicamente agredidos e os nossos direitos fundamentais desres- peitados. A política do atual governo, a serviço desse sistema econômico tem investido para conquistar a confiança do nosso movimento, abrindo espaços formais para a participação indígena em Conselhos, Comissões etc., inclusi- ve adotando um discurso semelhante àquele que usamos em nossos encon- tros e assembléias. É a política do “faz de conta”, de que as terras estão sendo demarcadas e respeitadas, que a aten- ção à saúde e educação é específica e diferenciada, enfim, que os direitos es- tão sendo assegurados. Muitos paren- tes estão sendo empregados para dar respaldo à política oficial. É a estratégia de desmobilizar o movimento indíge- na, investindo na divisão e passando atribuições de assistência do governo às organizações para mantê-las ocupa- das e para desviar sua atenção das questões centrais indispensáveis para a construção da autonomia. Essa polí- tica não aceita um não como resposta e, quando isso acontece, usa a repres- são para intimidar, como aconteceu com a Conferência Indígena 2000, em Coroa Vermelha, ou como vem aconte- cendo em Roraima, com as manobras militares em terras indígenas. Essa estratégia do governo, em cur- to prazo, pretende abrir brechas legais para facilitar o acesso aos recursos na- turais existentes nas nossas terras, através da aprovação do Estatuto do Índio. Enquanto não consegue seus objetivos com a aprovação da nova lei, adota a política dos fatos consumados promovendo a invasão das terras indí- genas com projetos hidrelétricos, mili- tares, ambientais (sobreposição de unidades de conservação), rodoviários, etc. (É importante destacar que, apesar de todo o investimento governamental na divisão do movimento indígena, conseguimos até agora inviabilizar a aprovação da nova legislação indige- nista proposta pelo governo). E, em longo prazo, inviabilizar o projeto de futuro próprio dos povos indígenas. Existe também um descaso gover- namental muito grande em relação aos índios isolados, muitos deles no li- mite de suas possibilidades de fuga para refúgios inacessíveis nas matas e, portanto, em situação de risco de ex- termínio cada vez maior. Apesar de todas as dificuldades que essa política governamental cria para os povos indígenas, nosso movi- mento vai avançando com lutas con- cretas em defesa dos nossos direitos. Continua um importante processo de retomada de terras em praticamente todas as regiões do país e de reação aos projetos governamentais impos- tos. Na saúde e na educação, continua a busca de um modelo autônomo. Está em curso também um processo importante de ressurgimento de povos indígenas, que passam a assumir pu- blicamente as identidades indígenas ocultas. Fenômeno semelhante acon- tece nas cidades, onde é cada vez mai- or o número de famílias que assumem sua identidade indígena. A partir da realidade que vimos, po- demos apontar alguns desafios nosso movimento em nível nacional, hoje: 1. A construção da unidade do mo- vimento indígena em torno de estraté- gias comuns para fortalecer a autono- mia dos diferentes povos indígenas. 2. A mobilização permanente até a demarcação e garantia de todas as ter- ras indígenas. 3. O fortalecimento das bases indí- genas e dos seus mecanismos de con- trole sobre as organizações indígenas. 4. A aprovação do Novo Estatuto dos Povos Indígenas, resgatando as propostas construídas pelo movimen- to indígena na sua história de lutas. 5. A aliança com os setores que lu- tam contra o modelo econômico vi- gente e que vem se aglutinando em torno do Foram Social Mundial. 6. O apoio aos processos de ressur- gimento de povos indígenas e aos ín- dios na cidade. 7. A mobilização em favor dos po- vos isolados ameaçados de extinção. 88 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE III- Aspectos a serem considerados Podemos definir o movimento in- dígena como sendo a soma do con- junto das lutas desenvolvidas pelas co- munidades e organizações indígenas e suas formas de articulação, com a fina- lidade de assegurar os direitos históri- cos dos nossos povos à terra e de pro- moverem seus projetos de futuro au- tonomamente, respeitadas as suas organizações próprias. Vamos relacionar abaixo algumas características importantes a serem consideradas na discussão da articula- ção do movimento indígena em ter- mos nacionais: 1. A impressionante diversidade cultural, que engloba 235 povos falan- do 180 línguas diferentes, organizados em milhares de comunidades ou al- deias, muitas delas com grande auto- nomia umas em relação às outras no mesmo povo. 2. As diferentes formas de com- preender o mundo, de se relacionar com a natureza e com o sobrenatural, de reagir diante dos problemas, de exercer a liderança. 3. As diferentes situações de conta- to com a sociedade brasileira, que vão desde os índios nas cidades e os res- surgidos que estão assumindo sua identidade, até os povos “livres” (isola- dos) fugindo desesperadamente da extinção. 4. Territórios ainda com recursos naturais relativamente abundantes e territórios arrasados e insuficientes. 5. O grande número de formas de organização construídas na relação de contato para a defesa de seus interes- ses no âmbito das comunidades, de um povo, de conjuntos de povos, de conjuntos de organizações, de organi- zações por categoria e gênero. 6. Distintas posições políticas no seio das organizações indígenas. 7. As distâncias e o isolamento de muitos povos neste país de dimensões continentais. IV - Questões para o debate 1. Qual o interesse das comunida- des e povos indígenas na articulação do movimento indígena nacional? 2. Em que exatamente uma instân- cia nacional do movimento indígena pode contribuir com a luta dos povos indígenas em todo país? 3. Qual seu nível de prioridade para o movimento indígena? 4. Quais são as lições que tiramos das duas experiências do movimento indígena em termos nacionais: UNI e CAPOIB? 5. Como as comunidades, povos e organizações indígenas vão participar do movimento nacional? 6. Quem vai sustentar financeira- mente a proposta? 7. Qual deve ser o papel do CIMI e de outros aliados? É importante que, antes de definir a forma que vai assumir a articulação nacional do movimento indígena, as bases (comunidades, povos e organi- zações indígenas) cheguem a um am- plo consenso sobre a necessidade, im- portância e finalidade dessa instância nacional. Não é suficiente que a pro- posta seja discutida somente no nível das lideranças. Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 89 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil POLÍTICA INDIGENISTA Propostas iniciais para o Governo Lula Conselho Indigenista Missionário - CIMI Conselho Indigenista Missionário - Órgão anexo à CNBB. Ver: www.cimi.org.br No contexto da transição para o governo Lula, toda a diretoria do CIMI, disposta a contribuir com esse histórico processo democrático, se reuniu para fazer o documento - Propostas Iniciais para a Política Indigenista, para ser entregue à equi- pe de transição do novo governo. O encontro ocorreu no dia 12 de novembro de 2002, no Centro Cultu- ral Banco do Brasil, sede da equipe, em Brasília. O CIMI foi representado pelos Secretários, Egon Heck e Sebas- tião Moreira, e pelo assessor jurídico, Paulo Machado Guimarães, que entre- garam o documento a Gilney Viana, Deputado Estadual (PT-MT) e ao an- tropólogo Márcio Meira, ex-Secretário de Cultura da Prefeitura de Belém, ambos da equipe de transição. Íntegra do Documento O Conselho Indigenista Missionário - CIMI, organismo anexo à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, alegre e esperançoso com a eleição de um Governo realmente comprometido com as mudanças tão desejadas pela grande maioria dos brasileiros e pelos povos indígenas, vem externar o dese- jo de contribuir com esse histórico pro- cesso democrático, manifestando des- de logo algumas preocupações e pro- postas de ações imediatas. Os últimos governos caracteriza- ram o início de suas gestões pelo retar-
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE90- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil damento na definição de suas políticas com relação aos povos indígenas. Essa postura gerou um quadro de insegu- rança permitindo o avanço dos interes- ses anti-indígenas, e impossibilitando a definição de uma política indigenista eficaz. Para a necessária e salutar supe- ração dessa prática, o CIMI crê seja ne- cessário ao novo governo, já em seus momentos iniciais, a adoção de algu- mas ações em caráter de urgência. Ao mesmo tempo, espera-se a defi- nição de uma política de médio e longo prazos, que venha atender às lutas his- tóricas destes povos, tais como: a con- clusão dos procedimentos de demarca- ção de todas as terras indígenas; o de- sintrusamento de todas aquelas que se encontram invadidas; a adoção de pro- gramas especificamente voltados para a realidade dos povos ressurgidos e dos povos “isolados / livres”; e a criação de um novo modelo de atenção pela Administração Pública, que tenha como critério a realidade sociocultural. As conquistas indígenas, garantidas na Constituição Federal de 1988 e na Convenção 169 da Organização Inter- nacional do Trabalho (OIT), colocaram em destaque a autonomia dos povos indígenas frente ao Estado Brasileiro e a participação de suas comunidades nas instâncias decisórias relativas a as- suntos de seu interesse. Tais pontos deverão se constituir nos princípios norteadores da construção dessa nova política indigenista que se espera do futuro Governo. Em décadas de luta, os povos indí- genas acumularam experiências im- portantes e singulares de articulação e organização, que precisam ser consi- deadas. É, portanto, imprescindível que a política indigenista deste novo governo seja fundada no respeito à alteridade e à diferença, no reconheci- mento da autonomia e protagonismo dos povos indígenas, superando, en- tão, efetivamente, a histórica perspec- tiva colonialista de um Brasil folcloriza- do e miscigenado, sem espaço para a pluralidade étnica e cultural, e, portan- to, sem espaço para as identidades e autonomias indígenas. O Presidente eleito e seu partido, em mais de duas décadas de debates e contato com a realidade indígena, fir- maram com os povos indígenas com- promissos na perspectiva de provocar profundas transformações. Para honrar tais compromissos, será preciso que o novo governo venha superar a atual política neoliberal, e que a prestação dos serviços de assistência a esses po- vos, na área de políticas públicas, se dê a salvo de terceirizações. Considerando esta realidade, e o desenvolvimento de debates e acúmu- lo de propostas por parte do movi- mento indígena e de demais aliados da causa, ao longo das últimas três dé- cadas, bem como o compromisso do CIMI com os povos indígenas, nestes 30 anos de sua existência, a entidade sugere, neste momento histórico, a adoção de algumas ações urgentes, para o novo governo: - A revogação do Decreto nº 1.775/ 96, que introduziu o contraditório no processo de demarcação das terras in- dígenas, estimulou a violência, as inva- sões e toda sorte de pressão contra o reconhecimento dessas terras; e a sua substituição pelo procedimento de demarcação aprovado pelos povos indígenas em sua Assembléia, ocorrida em abril de 2001, que faz parte da pro- posta para o novo Estatuto, encami- nhada para a Câmara dos Deputados; - A revogação do recente Decreto 4.412/02, que dispõe sobre a presen- ça das Forças Armadas e da Polícia Fe- deral em terras indígenas. Tal decreto é flagrantemente inconstitucional, expõe os povos indígenas ao risco de serem vítimas de sérias violações de direitos humanos, e impede o diálogo sobre questão de tamanha relevância para o país, como é a questão da atuação das Forças Armadas; - A garantia da posse plena das co- munidades indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam, e que se encontram envolvidas em graves e prolongados conflitos, a exemplo das seguintes: Raposa/Serra do Sol (RR); Caramuru - Catarina Paraguaçu (BA); Pataxó da região do Monte Pascoal (BA); Cerro Marangatu (MS); Guarani do Araçaí (SC); Xukuru (PE), Guajá (MA) e Roosevelt (RO/MT); - A assinatura imediata de todas as Portarias Declaratórias e Decretos de Ho- mologação atualmente pendentes, con- forme lista de terras indígenas em anexo; - A assinatura de decreto que incor- pore ao ordenamento jurídico nacional a Convenção 169 da OIT, cujo texto já foi aprovado pelo Senado, através do Decreto Legislativo n.º 143, de 20 de junho de 2002; - Empenho junto ao Congresso Na- cional no sentido da aprovação do Es- tatuto dos Povos Indígenas, tendo co- mo base de discussão a proposta en- caminhada pelos índios ao presidente da Câmara dos Deputados, em abril de 2001, e que teve o apoio de mais de um milhão de assinaturas;
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Osassassinatos, neste início de 2003, dos índios Leopoldo Crespo (Ka- ingang - RS), Aldo da Silva Mota (Ma- cuxi - RR) e Marcos Veron (Guarani- Kaiowá - MS) revelam a face mais cru- el da realidade indígena em nosso país, que vem se arrastando ao longo dos últimos 500 anos. Está na raiz des- ses assassinatos a histórica relação co- lonialista do Estado e da sociedade brasileira - agora já com a agravante da integração ao sistema do capitalismo neoliberal - para com nossos povos. A relação colonial e o sistema neoliberal estão marcados pela acumulação de bens (terra, capital, educação, saúde) para uns poucos e pela negação de direitos e pelos preconceitos para com os demais que se perpetuam até os dias de hoje. O relato de nossas diversas delega- ções provenientes de todas as regiões do país, reunidas no III Fórum Social Mundial, traz a tona uma realidade as- sustadora, que teima em se reproduzir, apesar das conquistas que obtivemos através da luta nesses últimos 30 anos. Tendo presente que somos os pri- meiros habitantes dessas terras e, por tanto, detentores de direitos originá- rios, nós nos propomos enfrentar es- sa realidade perversa que se expressa pela: Violência. Essa violência, movida pela ganância e pelo preconceito, se dirige contra nossas comunidades em luta pela reconquista de suas terras. Ela acontece de norte ao sul do país. Em Roraima, o assassinato de Aldo da Silva Mota, infelizmente, é apenas mais uma das tantas violências come- tidas contra os povos Macuxi, Wapi- chana e Yanomami. A invasão das ter- ras indígenas por fazendeiros, garim- peiros, militares e municípios, artificial- mente criados, e a ação antiindígena de autoridades locais, geram um per- manente clima de terror na região. Na Bahia, a morosidade na demar- cação e garantia das terras indígenas deixa os índios Pataxó e Pataxó Hã-Hã- Hãe a mercê dos pistoleiros dos lati- fundiários e da repressão policial, res- ponsáveis, em 2002, pelo assassinato de três índios. Em Pernambuco, em 1998, o povo Xucuru teve seu líder Xicão assassina- do a mando de fazendeiros. Estes con- tinuam impunes até hoje. As principais lideranças indígenas da região estão ameaçadas de morte, ao mesmo tem- po em que o povo sofre, junto com aliados, a perseguição dos órgãos poli- ciais e da justiça local. No Rio Grande do Sul, palco do Fó- rum Social Mundial na busca de um novo mundo, o assassinato de Leopol- do Crespo, reproduz a forma cruel e re- voltante da morte de Galdino Jesus dos Santos, ocorrida em 1997, em Brasília. Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 91 NUNCA MAIS UM MUNDO SEM NÓS, OS POVOS INDÍGENAS Um novo mundo é possível e necessário Manifesto apresentado ao Fórum Social Mundial (3ª edição). Porto Alegre (RS), Janeiro de 2003. - A garantia, no Orçamento da Uni- ão, das verbas necessárias à indeniza- ção de benfeitorias derivadas de ocu- pação de boa-fé em terras indígenas, ao atendimento à saúde, educação e auto-sustentação, e à demarcação e proteção das terras e do patrimônio indígenas; - A imediata proteção jurídico-ad- ministrativa e judicial às comunidades indígenas, onde existem conflitos pela posse da terra. O necessário reconhecimento do Brasil enquanto país pluriétnico coloca a responsabilidade para o Governo Fe- deral em estabelecer uma política de atenção específica e diferenciada aos povos indígenas. Isso implica uma mudança radical na estrutura do órgão indigenista para que possa responder ao novo ordenamento jurídico estabe- lecido pela Constituição de 1988, res- peitando e fazendo respeitar os proje- tos históricos desses povos. Significa um esforço contínuo para adequar as estruturas do Estado à realidade socio- cultural dos povos indígenas. O CIMI tem a certeza de que o res- gate da dívida histórica do Estado bra- sileiro para com os povos indígenas restabelece o significado mais profun- do da democracia, e simboliza a opção e o compromisso do novo Governo para com todos os excluídos e margi- nalizados do nosso país.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE92- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil No Mato Grosso do Sul, o povo Guarani-Kaiowá, confinado em parce- las ridículas de terra, sofre o suicídio cada vez mais freqüente de seus jo- vens e também a violência de fazen- deiros, responsáveis pelo recente assas- sinato do índio Marcos Veron. Lentidão. Nas ações de demarca- ção e garantia de nossas terras consta- ta-se uma extraordinária lentidão, um dos principais motivos da violência contra nossos povos. Pela falta de von- tade do Estado em assegurar, definiti- vamente, esse nosso direito histórico se revela no Decreto 1775, pelo qual os invasores são chamados a participar da definição dos limites; pelas intermi- náveis ações na justiça, mantendo na posse latifundiários em nossas terras; pela compra de terras dos territórios tradicionais afrontando nossa dignida- de; por Grupos de Trabalho que não entregam os relatórios; pela alegada falta de recursos para reassentar os posseiros; pela pressão dos interesses anti-indígenas que fazem com que o governo deixe de cumprir os atos ad- ministrativos como as portarias decla- ratórias dos limites e os decretos de homologação; pela demarcação de terras muito pequenas que não respei- tam a posse tradicional. Invasão. Nossas terras são invadi- das por fazendeiros, garimpeiros, gran- des projetos (hidrovias, barragens, mi- litares, estradas), madeireiros, lixeiras públicas, eco-turismo, peixeiros, biopi- ratas, caçadores e aventureiros em busca do lucro fácil; somos prejudica- dos pela sobreposição de unidades de conservação em nossas terras e pela falta de fiscalização e conivência de autoridades com os invasores. Agressão. O nosso meio ambiente é agredido através das monoculturas da soja, eucalipto, acácia, arroz e do uso indiscriminado de agrotóxicos no entorno e em alguns lugares no inte- rior de nossas terras, enfraquecendo o solo, contaminando os animais e as águas e provocando doenças e óbitos nas comunidades. Desrespeito. Os povos ressurgidos, que reassumem sua identidade indí- gena, são desrespeitados; para serem reconhecidos se deparam com a pos- tura colonialista da Funai, submeten- do-os a humilhantes estudos para afe- rir sua etnicidade. Ameaça de extinção. Diversos gru- pos de Índios “livres” (isolados) na Amazônia que fogem, desesperada- mente, das fazendas que avançam so- bre seus territórios, notadamente, no Estado de Rondônia e sul do Amazo- nas, estão ameaçados de extinção. Saúde. A atenção à saúde foi entre- gue a terceiros e aos municípios, atra- vés da frágil política de convênios com grande ênfase na medicina ocidental e enfraquecimento da medicina tradicio- nal de nossos povos. A atenção especí- fica e diferenciada, em muitos povos, foi água abaixo. Assistência é precária em muitas áreas, com comunidades sem equipes de profissionais, enfren- tando problemas de desnutrição e al- coolismo e a falta de saneamento bási- co, a proliferação de doenças infecto- contagiosas, inclusive a AIDS, e recursos financeiros insuficientes. Na criação dos DSEIs, o governo não atendeu à essên- cia da nossa proposta que previa a au- tonomia administrativa e financeira. Educação. A educação escolar indí- gena, entregue aos Estados e Municí- pios, não contempla a realidade sócio- cultural de cada povo. Os programas de formação de professores, apesar da existência de recursos financeiros, não têm continuidade. Além da construção e ampliação das escolas, se faz, em muitos casos, necessário seu reconhe- cimento e uma proposta curricular com calendário específico. Migração. A falta de apoio em suas terras leva a migração de muitos índios para as cidades em busca melhores condições de vida. Estes, na cidade, enfrentam graves problemas, como a discriminação, falta de apoio no aten- dimento das necessidades básicas que, em casos extremos, leva à sobre- vivência nas lixeiras das cidades. Sustentabilidade econômica. A de- predação dos recursos naturais pelos invasores, como a caça, a pesca, os fru- tos silvestres, os materiais da fauna e da flora usados na vida das aldeias, exigem que nossos povos procurem alternativas, muitas vezes, com gran- des custos sociais e culturais. Ainda é notória a ausência de políticas, por parte do Estado, para o enfrentamento dessa questão. Essa depredação am- biental criou, em vários territórios indí- genas, o problema de habitações. Descaso do Estado. Existe o desca- so do Estado em relação à consolida- ção dos nossos direitos conquistados na Constituição Federal e em Fóruns Internacionais. Esse descaso se mani- festa em relação ao Estatuto dos Povos Indígenas, em tramitação no Congres- so Nacional desde 1992, com sucessi- vas ameaças de retrocesso, e sem uma conclusão até hoje; na demora de 13 anos para a aprovação da Convenção 169 da OIT; na posição contrária do governo brasileiro à Declaração Uni- versal dos Direitos Indígenas da ONU. Essa realidade assustadora para nossos povos que retratamos, teima em se reproduzir, se não forem enfrentados a origem e a raiz desses problemas que residem na estruturas colonialistas e neoliberais do Estado que negam siste- maticamente os nossos direitos de po- vos originários, as nossas instituições próprias, a garantia de nossos territó- rios, nossa autonomia e livre determi- nação, e alimentam um preconceito se- cular. Para este novo enfrentamento das causas que prejudicaram nossos povos indígenas, fazemos as seguintes considerações e propostas.
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 93 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE O ano de 2003, que começou com três assassinatos de indígenas, começa também com esperança para os povos indígenas do Brasil e de outros países da América Latina. Nós, representantes de 32 povos indígenas do Brasil e México, presentes no III Fórum Social Mundial, realizado na cidade de Porto Alegre - RS - Brasil, de 23 a 28 de janeiro de 2003, nos manifesta- mos diante dos seguintes fatos: I - A pretensão do governo dos Es- tados Unidos de estender seus domí- nios sobre outros povos está à beira de levar a mais uma guerra que poderá ter desdobramentos imprevisíveis para to- dos os povos da Terra. Os povos indíge- nas, tanto quanto outras nações, serão novamente vítimas do imperialismo ge- nocida. Por isso, repudiamos a política agressiva dos EUA contra os povos do Iraque e de outros países. II - Consideramos indispensável que os governos formulem e execu- tem políticas de combate a toda forma de discriminação e preconceito, para que os povos indígenas de todos os países sejam respeitados e possam vi- ver dignamente, contribuindo com su- as histórias e culturas para o bem estar de toda a humanidade. III - Queremos, do novo governo brasileiro, o empenho sincero e ime- diato para punir todos que cometeram crimes contra os nossos povos e para por fim aos conflitos atuais, adotando, entre outras, as medidas até agora ne- gadas pelos governos anteriores, como a demarcação, homologação e regula- rização de todas as nossas terras. Em nossas discussões, por ocasião do III FSM, decidimos reafirmar as pro- postas apresentadas no II Fórum, reali- zado em 2002, acrescentando suges- tões fundamentais para a viabilização do novo mundo que queremos: 1 - Propomos que os governos prio- rizem a discussão em torno da situação dos povos indígenas, buscando saídas concretas para aqueles povos que ain- da não têm o direito aos seus territó- rios históricos e tradicionais garantidos em lei, bem como o direito a viver con- forme suas tradições e costumes. 2. Na América Latina, o governo brasileiro passou a ter um papel de destaque e liderança. As populações indígenas ainda são excluídas do pro- cesso político, ficando sem representa- tividade e sem mecanismos que possi- bilitem participação na vida política de seus respectivos países - motivos pelos quais grupos econômicos de toda ordem investem contra seus territórios e seus patrimônios. Propomos que o governo brasileiro coloque a questão indígena nas agendas de discussão com os governantes de toda a América Latina como uma prioridade, de forma a se tornar exemplo para outros países de todo o mundo. 3. Que o governo nomeie pessoas com experiência, competência e res- ponsabilidade para trabalhar com as questões indígenas - pessoas que ve- nham se somar a nós para melhorar nossas vidas e não só atrapalhar e aca- bar com os povos indígenas. 4. Reparação dos danos causados aos povos indígenas, resultantes das políticas mercantilista e integracionis- ta, bem como pelo projeto neoliberal, nos aspectos sociais, culturais, territo- riais que afetam todos os povos indí- genas no mundo. 5. Reafirmação da luta dos povos indígenas na construção, elaboração e aprovação do Estatuto dos Povos Indí- genas no Brasil. 6. Criação de Fóruns Continentais compostos por povos indígenas para fiscalizar, acompanhar e propor políti- cas mundiais para os povos indígenas, com apoio financeiro dos governos. 7. Exigimos a apuração de todos os crimes praticados contra lideranças e demais membros de comunidades e povos indígenas; que sejam punidos os responsáveis e indenizadas as famí- lias das vítimas, com o compromisso dos governantes de se estabelecer me- canismo de combate à violência e a impunidade. 8. Que os países do mundo reco- nheçam e respeitem os espaços terri- toriais dos povos indígenas, necessá- rios e indispensáveis à sua sobrevivên- cia física, social e cultural, segundo suas tradições e costumes. Por ocasião do III Fórum Social Mundial, nos sentimos desafiados a estreitar os laços com os povos indíge- nas do continente, socializando nossas lutas, sonhos e esperanças, e reafirma- mos nosso compromisso de continuar somando como atores, com nossas ex- periências históricas, com todos aque- les que estão construindo o novo mundo possível e necessário. Nunca mais um mundo sem nós, os povos indígenas Porto Alegre, FSM, janeiro de 2003 Povos indígenas Aranã, Canoé, Gali- bi, Guajajara, Kaiaby, Kaingang, Karajá, Karipuna, Krahô Kanela, Krenak, Ma- cuxi, Mundurucu, Tembé, Pacas Novas, Pataxó, Pataxó Hã Hã Hãe, Tapajó, Ta- puia, Wapixana, Xakriabá, Xavante, Ka- ritiana, Xukuru, Tumbalalá, Xokó, Geri- pankó e Guarani, Xucuru Cariri, Xok- leng, Gavião, Mixe, Tseltal. Propostas para um mundo com respeito à diferença, paz, e sem violências e impunidade
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    Apresentação Os setores conservadoresda sociedade brasileira, preocupados sempre em manter o status quo e na ânsia de impedir a mudança da estrutura da propriedade da terra, freqüentemente, têm atacado o MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA - MST, alegando que as ocupações de terras são ilegais; portanto, constituiriam crimes, decorrendo daí a aplicação de medidas coercitivas à atividade do MST. Do ponto de vista social, a situação é bastante clara: a nossa estrutura fundiária é extremamente injusta. De acordo com a Organização das Na- ções Unidas - ONU, o Brasil é o segun- do país do mundo em concentração de terras (perdemos apenas para o Paraguai). É de conhecimento geral que a origem das grandes proprieda- des remonta ao sistema colonial, e os latifúndios improdutivos não consti- tuem-se em fruto do trabalho de seus proprietários. Do ponto de vista da nossa legisla- ção, caso houvesse vontade política, não haveria necessidade de ocupações de terras, haja vista que a Constituição 94 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil Legitimidade das ocupações Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra - MST
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    determinou, em seuartigo 3º, os princí- pios fundamentais da República e, em vários outros artigos, uma série de pro- gramas sociais objetivando o bem-es- tar da população. Destarte, a nossa Lei Maior frente à realidade, vêm sendo vilipendiada, governo após governo, já que nossa realidade nos envergonha frente às outras sociedades. Do ponto de vista da experiência dos trabalhadores rurais e suas orga- nizações, o governo somente tem de- sapropriado terras após a ocorrência de ocupações e, em alguns casos, so- mente após a morte de trabalhadores (casos de Corumbiara e Eldorado dos Carajás). Para justificar as ocupações de ter- ras improdutivas, enquanto instru- mento de pressão pela realização da reforma agrária, bastariam os argu- mentos acima. O objetivo do presente texto é reu- nir, precisamente, argumentos de per- sonalidades da área jurídica, quer se- jam juristas, decisões monocráticas, ju- risprudência, que, em cotejo com a rea- lidade, decidiram que “as ocupações de terras são uma reforma agrária de baixo para cima, uma pressão social, já que o governo está ‘tranqüilo’ há não sei quantos anos - quando todas as nossas Cartas e as nossas Constituições estão apregoando a reforma agrária” (Ministro Adhemar Maciel do STJ - HC 4.399 - 6º Turma, em 12.04.96). A CARTA DE RIBEIRÃO PRETO Pela Reforma Agrária, em defesa do meio ambiente Os membros do Ministério Público Estadual e Federal, reunidos por oca- sião do Seminário “Meio Ambiente e Reforma Agrária”, realizado no dia 13 de dezembro de 1999, na cidade de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, discutiram e aprovaram as seguintes conclusões: Função social da propriedade 1. O regime jurídico da proprieda- de tem seu fundamento na Constitui- ção da República. Com a instituição constitucional da função social da pro- priedade, ocorreu a constitucionaliza- ção e publicização do regime jurídico da propriedade. 2. A propriedade é disciplinada pe- lo Direito Constitucional. Cabe ao Di- reito Civil tão-somente regular as rela- ções civis pertinentes à propriedade. 3. A função social define o conteú- do do direito de propriedade. A função social não é uma limitação do uso da propriedade, ela é elemento essencial, interno, que compõe a definição da propriedade. A função social é ele- mento do conteúdo do direito de pro- priedade. 4. Só se legitima o ordenamento jurídico brasileiro a propriedade que cumpre a função social. A propriedade que descumpre a função social não pode ser objeto de proteção jurídica. Não há fundamento jurídico a atribuir direito de propriedade ao titular da propriedade que não está a cumprir sua função social. 5. Nos termos do art. 186, incs. I a IV, da Constituição da República, a fun- ção social da propriedade rural é cons- tituída por um elemento econômico (aproveitamento racional e adequado), um elemento ambiental (utilização adequada dos recursos naturais e pre- servação do meio ambiente) e um ele- mento social (observância das normas que regulam as relações de trabalho e exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e trabalhadores). 6. Somente cumpre a função social a propriedade rural que atenda simul- taneamente aos elementos econômi- cos, ambiental e social. 7. A degradação ambiental da pro- priedade rural, seja ela provocada pela utilização inadequada dos recursos na- turais ou pela não preservação do meio ambiente, implica aproveitamen- to irracional e inadequado da terra. Há, portanto, vinculação entre os elemen- tos econômico e ambiental da função social, sendo impossível dissociá-los. 8. Não pode ser considerada pro- dutiva, do ponto-de-vista jurídico- constitucional, a atividade rural que necessite utilizar inadequadamente os recursos naturais e degradar o meio ambiente para alcançar o grau de efi- ciência na exploração da terra. 9. A inobservância das disposições que regulam as relações de trabalho e a exploração que desfavoreça o bem- estar dos trabalhadores implicam aproveitamento irracional e inadequa- do da propriedade rural. Há, portanto, vinculação entre os elementos econô- mico e social da função social, sendo impossível dissociá-los. 10. Não pode ser considerada pro- dutiva, do ponto-de-vista jurídico- constitucional, a atividade rural que necessite desrespeitar as disposições que regulam as relações de trabalho e necessite prejudicar o bem-estar dos trabalhadores para alcançar o grau de eficiência na exploração da terra. 11. Ainda que a produtividade, do ponto-de-vista estritamente econômi- co, esteja presente, a propriedade rural poderá ser desapropriada para fins de Reforma Agrária se descumprido um dos demais requisitos caracterizadores da função social (elemento ambiental ou social). 12. O padrão produtivo da agricul- tura moderna - baseado na grande pro- priedade, na monocultura, na agroquí- mica e na redução de mão-de-obra, hegemônico no Brasil, é antidemocráti- co e inconstitucional. A propriedade rural que produz observando esse mo- delo descumpre a função social e é passível de desapropriação por interes- se social, para fins de Reforma Agrária. 13. A promoção da agricultura sus- tentável - ecologicamente equilibrada, Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 95UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    economicamente viável, socialmente justae culturalmente apropriada - pas- sa necessariamente pela reorganiza- ção da propriedade rural, o que impli- ca a efetivação da política de Reforma Agrária no país. 14. A função social da propriedade rural exige a preservação do meio am- biente. Logo, não atende à função so- cial a propriedade que não possuir suas áreas de preservação permanen- te e de reserva legal devidamente flo- restadas. 15. Pela nova ordem constitucional, as áreas de preservação permanente e de reserva legal são consideradas es- paços territoriais ambientalmente pro- tegidos. Sendo assim, não existe direi- to adquirido à exploração agrícola das áreas de preservação permanente e de reserva legal; tampouco há falar em indenização ao proprietário obrigado a cessar a exploração econômica nessas áreas. 16. O art. 12, parágrafo 1º, inc. II, le- tra “b”, da Lei nº 8629/93 (Lei da Reforma Agrária), ao pretender obrigar a indenização pela capacidade poten- cial da terra, é inconstitucional. Isso porque não é possível indenizar a não realização de uma obrigação jurídica. Função social da propriedade rural e a atuação do Ministério Público 17. Cumpre ao Ministério Público, através das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente, combater as práticas rurais antiambientais que caracterizam o padrão de produção agrícola hege- mônico no Brasil, bem como promo- ver a agricultura sustentável, utilizando todos os instrumentos jurídico-proces- suais que estão a sua disposição, em especial o inquérito civil, o compromis- so de ajustamento de conduta e ação civil pública. 18. Diante da omissão do governo federal na efetiva implementação da Reforma Agrária no país, mister a inter- venção do Ministério Público, que, em atuação conjunta das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente e da Cidada- nia e da Procuradoria da República, deve recomendar ao Incra a desapro- priação das propriedades onde ocor- rem as práticas rurais antiambientais e, se não atendida a recomendação, de- ve propor ação civil pública que tenha por objeto a obrigação de fazer a desa- propriação e a obrigação de fazer o as- sentamento de trabalhadores sem ter- ra e sem emprego nessas áreas. 19. O Ministério Público haverá de agir como intermediador qualificado no conflito coletivo pela posse da terra, agindo junto ao órgão que pode e de- ve promover vistorias e desapropria- ções, para que cumpra com sua tarefa, posto que a Constituição não se com- praz com a existência, de um lado, de terras descumpridas da função social e, de outro, parcelas da população sem direito ao exercício da cidadania. Enfim, o Ministério Público deve atuar nos conflitos agrários com o propósito de viabilizar o acesso dos trabalhado- res à posse da terra, em cumprimento do art. 5º, capute inciso XXII, que ga- rante, isonomicamente, o direito de propriedade para todos. 20. O Ministério Público deve utili- zar-se dos procedimentos administrati- vos e das ações judiciais, quer de natu- reza civil, quer de natureza penal, para, também, exercer as funções gizadas no art. 129, inc. II, da Constituição da República. O Ministério Público não pode descuar de todas as questões que estão imbricadas nas demandas que têm como centro o conflito pela posse da terra. Haverá de verificar, por exemplo, se a área em conflito tem correto título de domínio, se a posse é justa, se a propriedade é produtiva, se cumpre a função social, se respeita o meio ambiente. Haverá de verificar se a população em busca da terra tem atendidos os direitos constitucionais à educação, à saúde, à alimentação, à dignidade etc. 21. Os Ministérios Públicos Federal e dos Estados devem constituir grupos especiais de trabalho para, em atuação conjunta, levantar dados, trocar infor- mações e intervir administrativa e judi- cialmente na efetivação da política de Reforma Agrária no país. Função social da propriedade rural e os processos que envol- vem litígios coletivos pela posse da terra rural 22. A posse que merece proteção jurídica é aquela que, nos termos do Código Civil, seja justa e de boa fé, e aquela que, em razão da Constituição da República e das leis que regula- mentam a matéria, recaia sobre terras que cumpram a função social, em to- dos os seus elementos (econômico, ambiental e social), escapando da pos- sibilidade de servir à Reforma Agrária. 23. É ilegal a utilização dos institu- tos da legítima defesa da posse e do desforço imediato quando se tratar de ações de preservação de terras que não cumpram com sua destinação constitucional. 24. O ônus de provar que a posse carente de proteção judicial recai so- bre terra que cumpra com sua função social é do autor. 25. A indefinição dominial ou pen- dência relacionada à indenização por benfeitorias não desobriga o postulan- te da proteção possessória de compro- var os requisitos constitucionais para a obtenção da tutela pretendida. 26. A petição inicial da ação pos- sessória que não identifica correta- mente a parte que deve figurar no pó- lo passivo do processo é inepta, nos termos do art. 282, inc. II, do Código de Processo Civil. Há possibilidade de embargos de terceiros possuidores quando não regularmente chamados a compor a relação jurídica processual. 96 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 97 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil 27. A execução forçada das medi- das deferidas no âmbito dos processos que envolvem litígios coletivos pela posse da terra deve ser realizada da forma menos gravosa ou humilhante para o “devedor-ocupador”, nos ter- mos do art. 620 do Código de Proces- so Civil. 28. Os tribunais não podem furtar- se a obedecer ao princípio do juiz natural, respeitando o sistema de com- petência por distribuição, quando da apreciação das medidas liminares em geral. Deve ser repudiada e questiona- da, pois inconstitucional, a concentra- ção de poderes para a concessão ou não dessas medidas na pessoa de um único juiz ou desembargador. 29. O Ministério Público, nas ações que envolvem litígios coletivos pela posse da terra rural, tem a qualidade de interveniente em razão da natureza da lide, reveladora do interesse públi- co primário da República Federativa do Brasil de incrementar, em conformida- de com a Constituição e com as leis, a Reforma Agrária. Conclusões finais 30. A luta pela terra, por parte dos trabalhadores excluídos do direito constitucional de propriedade, confi- gura um espaço instituinte de produ- ção desse direito e deve ser entendida como autêntica fonte material do direi- to, com a mesma importância das fon- tes formais. 31. A luta pelo direito à terra e ao trabalho na terra, enquanto direito bá- sico do homem, deve ser travada tanto no espaço instituinte, quanto na esfera do instituído, uma vez que a produção do direito, no plano concreto e efetivo, é realizada no âmbito do processo his- tórico animado pelas lutas sociais em torno da: a) legalização; b) efetivação; c) aprofundamento; d) manutenção dos direitos fundamentais da pessoa humana. 32. A luta pelo direito à terra e ao trabalho na terra trava-se no espaço do não legalizado (instituinte) e no âmbi- to da ordem jurídica vigente (instituí- do); esses dois espaços (instituinte e instituído) representam dois momen- tos da produção do direito e a atuação do Ministério Público deve dar-se tanto num quanto noutro, sempre na pers- pectiva de um autêntico custos juris, para além, portanto, das simples fun- ções de fiscal da lei, na tradição liberal do custos legis, esta última mais ade- quada aos conflitos interindividuais, que não exibem grande carga sociopo- lítica como é o caso dos conflitos em torno da terra. AS OCUPAÇÕES DE TERRA NÃO FEREM A LEGISLAÇÃO A Constituição Federal Quando alguém afirma que as ocu- pações, ou como os representantes da elite preferem, “invasões”, ferem o Es- tado de Direito, há que se perguntar qual o Estado de Direito está sendo atacado. Isto porque para a minoria que come e dorme em “berço esplên- dido”, quando o povo se organiza e exige seus direitos, a primeira provi- dência é alardear que tal organização está ferindo o Estado Democrático de Direito, sempre com vistas à interven- ção e repressão policial. É importante notar que a elite brasileira sempre tra- tou o problema social como um caso de polícia. Assim foi desde os Quilom- bos, passando por Canudos até o gol- pe militar de 1964. Para a maioria do povo brasileiro, o Estado que aí está, certamente não é um Estado Democrático de Direito. A Constituição Federal promulgada em outubro de 1988 estabelece os princípios fundamentais do Estado Brasileiro, ou seja, estabelece obriga- ções aos representantes do Poder Exe- cutivo para com o povo. O que está escrito na Constituição Federal não pode ser considerado “le- tra morta”, pois se assim fosse, não ha- veria necessidade de gastar tanto dinheiro com a eleições e reuniões dos eleitos - Constituinte -. Ao olharmos para a realidade que nos cerca da im- pressão que a Constituição foi escrita apenas para nos enganar, pois para a maioria da população brasileira, nada do que está escrito tornou-se realida- de. Vejamos o que está escrito no pre- âmbulo da Constituição Federal: “Nós, representantes do povo bra- sileiro, reunidos em Assembléia Nacio- nal Constituinte para instituir em Es- tado Democrático, destinado a asse- gurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores su- premos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos. Sob a proteção de De- us, a seguinte Constituição da Repúbli- ca Federativa do Brasil” O artigo 3º da Constituição Federal deixa bem claro quais os objetivos fun- damentais do Estado Brasileiro. “Art. 3º. Constituem objetivos fun- damentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento na- cional; III - erradicar a pobreza e a margi- nalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. O presidente da república, ao tomar posse, jura cumprir com a Constituição. Sendo ele o Chefe Maior do Estado, é
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    98 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil diretamente responsável pela não ob- servância dos preceitos constituicio- nais, sendo até possível afastá-lo do cargo por crime de responsabilidade. Tudo isto para dizer que ao, falar- mos de Estado Democrático de Direito, temos que nos perguntar qual o con- ceito que o povo faz acerca destas be- las palavras. Para refrescar a memória, se usar- mos o critério utilizado universalmente pela ONU - Organização das Nações Unidas - índice de GINI que vai de 0,000 a 1,000, a concentração da terra no Brasil está situada em 0,8278. Se usarmos os dados do Governo Federal (Atlas Fundiário), 1% (um por cento) da população brasileira detêm a posse de 43% (quarenta e três por cento) das terras. Se fosse verdade que em 4 (qua- tro) anos o atual Governo assentou 300 mil famílias, para resolver o pro- blema da terra - distribuição eqüitativa, já que existem 4 milhões de famílias sem-terra - seriam necessários 53 anos. E mais, entre os anos de 95 e 97, foram assassinados 114 trabalhadores rurais; portanto, neste passo, em 53 anos, em média, outros 2.014 traba- lhadores rurais perderiam a vida na lu- ta pela terra. Problema maior enfrentam milha- res de famílias que, cansadas de espe- rar pela boa vontade do Governo Fe- deral, resolveram acampar às margens de rodovias e latifúndios improdutivos como forma de pressão. Em 1998, a CPT - Comissão Pastoral da Terra e o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais contabilizavam aproximada- mente 52 mil famílias acampadas. Alguns representantes da elite, su- pondo escapar das responsabilidades, afirmam que a inexistência de leis é que emperra a reforma agrária. A reali- dade é outra. A própria Constituição estabelece que as terras improdutivas deverão ser desapropriadas e reverti- das para o assentamento de trabalha- dores rurais sem-terra. Lei é o que não falta. Tratando do assunto reforma agrária, temos a Lei Nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 - Estatuto da Terra; a Constituição Federal - Artigos 184 a 191; Lei Nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993; Lei Complementar Nº 76, de 6 de julho de 1993, Lei Complementar Nº 88/96, Lei Nº 9.415/96. De acordo com a legislação, as ocupações de terras para fins de pres- são pela implementação da reforma agrária jamais constituíram afronta à ordem jurídica. No que concerne a proteção legal à propriedade, a Constituição Federal determina que somente as proprieda- des que estão cumprindo com a fun- ção social, haverão de receber a prote- ção legal, ou seja, as terras improduti- vas deverão ser desapropriadas. As ocupações de terra e o código penal Alguns representantes da elite alar- deiam, através dos jornais falados e es- critos, que os trabalhadores rurais sem-terra deveriam ser condenados e colocados na cadeia por “crimes con- tra a propriedade da terra”. Alguns juí- zes e promotores até que tentam assim agir, uns até ao arrepio da lei processual. Devido ao vigilante traba- lho dos advogados que compõem a Rede Autônoma dos Advogados Popu- lares, até o presente momento, nenhu- ma sentença condenatória transitou em julgado. Mas, de outro lado, impos- sibilitados de condenarem sem as devidas provas, alguns magistrados, com visão turva e caolha do que seja movimento popular, pisando no direi- to de liberdade, decretam prisões pre- ventivas contra as possíveis lideranças, imaginando frear a organização. Somente no primeiro semestre de 1998, 110 (cento e dez) trabalhadores passaram pelos cárceres. Alguns representantes do Ministé- rio Público e magistrados pretendem condenar as possíveis lideranças do MST por formação de bando ou qua- drilha - artigo 288, do Código Penal. Para tanto, afirmam que os trabalha- dores se organizaram no MST para o fim de cometer crimes, entre eles, o esbulho possessório. Estes “Senhores da Lei e da Ordem”, diga-se de passa- gem, representantes do latifúndio atra- sado - aqueles magistrados e promo- tores com visão turva e caolha do que seja movimento popular - esquecem que a finalidade do ordenamento jurí- dico penal é reeducar o criminoso e dar uma satisfação para a sociedade aplicando o Direito com equidade. Em certas situações, o Poder Judiciário analisa os conflitos dando-lhes um caráter individual e singular, separan- do-o das condições sociais, políticas e econômicas que os germinam. É evidente que os conflitos agrários - ocupações de terras - não podem ser tratados como caso de polícia, já que, ao contrário daqueles indivíduos con- siderados criminosos comuns, que por sua vez reconhecem o comando jurídi- co violado, os trabalhadores rurais sem-terra, que participam da luta pela reforma agrária, agem por convicção política ou social e rejeitam o coman-
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 99 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil do jurídico; sendo assim, imperioso afirmar que a pena não poderá alcan- çá-los com uma superioridade ética capaz de atingir os fins de educar, retri- buir ou corrigir. Destarte, quando o ordenamento penal é utilizado na repressão às manifestações populares, se presta como arma na defesa de uma ordem estatal, que se converte em tirania. A experiência do MST tem de- monstrado que alguns magistrados, ao aplicar a lei no caso concreto, em se tratando de conflitos coletivos, analisa- rá sob a ótica de classe, ou seja, na prática, para a concessão de liminar de reintegração de posse, o causídico do fazendeiro não está obrigado a cum- prir com as exigências do Código Civil e do Código de Processo Civil e, para a expedição de decreto de prisão pre- ventiva, não precisa observar os precei- tos do Código Pena e Código de Pro- cesso Penal. Em outras palavras, quan- do o conflito é entre iguais - fazendei- ro contra fazendeiro, aplica-se a lei; quando é sem-terra contra fazendeiro, o que está escrito não vale. As ocupações de terras e de prédios públicos têm por objetivo chamar a atenção dos governantes para a necessi- dade de se implementar, com mais urgência, políticas públicas na área rural. Sendo assim, a persecução penal se torna ineficaz porque, sob qualquer dos seus aspectos - prevenção geral, ressocialização ou retribuição - não se mostra como uma solução adequada. O trabalhador rural que age movido por convicção possui conjuntos éticos diferentes do criminoso comum. Vale- se de uma visão do mundo que não é superior, nem inferior, somente distin- ta daquela interpretação do comando jurídico fiel às estruturas de poder, se- gurança e dominação em dado con- texto social. No caso das ocupações de terras - ações praticadas por um fundamento de consciência - não cabe falar em res- socialização, readaptação ou recupera- ção social, pois a pena não o atinge com este caráter. O encarceramento de trabalhadores rurais sob o pretexto de impedir ocupações de terras é uma violência contra o direito de liberdade, tão arduamente conquistado recente- mente. Quando trabalhadores rurais são encarcerados em razão da luta pela terra, o ordenamento jurídico pe- nal está sendo usado na proteção dos interesses do latifúndio. Em agosto de 1997, a Anistia Inter- nacional publicou um relatório acerca dos processos criminais e prisões pre- ventivas contra trabalhadores rurais. No relatório intitulado “Denúncias cri- minais com motivação política contra ativistas da reforma agrária”, a Anistia informa e denuncia: “A Anistia Internacional está preo- cupada com o uso do que consta se- rem acusações e mandados de prisão preventiva com motivação política contra ativistas da reforma agrária e membros do Movimento dos Traba- lhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil. Tudo indica que a formalização de tais denúncias tenha constituído uma forma de assédio e criminaliza- ção de ativistas da reforma agrária, nun contexto de disputa de terras”. A principal acusação posta contra os trabalhadores rurais é de terem pra- ticado atos tipificados no artigo 161, parágrafo 1º, inciso II do Código Penal, ou seja, esbulho possessório. Vejamos o que diz o artigo da lei: Alteração de limites Art. 161. Suprimir ou deslocar ta- pume, marco, ou qualquer outro sinal indicativo de linha divisória, para apropriar-se, no todo ou em parte, de coisa imóvel alheia: Pena - Detenção, de um a seis me- ses, e multa. Esbulho possessório §1º. Na mesma pena incorre quem: Inciso II - Invade, com violência à pessoa ou grave ameaça, ou median- te concurso de mais de duas pessoas, terreno ou edifício alheio, para o fim de esbulho possessório. Ora, lendo e relendo os depoimen- tos já prestados pelos trabalhadores rurais nas delegacias de polícia e em juízo, observamos que são unânimes em afirmar que a ocupação de terra foi realizada para pressionar o Governo Federal na agilização dos assentamen- tos, ou seja, é um instrumento utiliza- do para exigir a aplicação imediata do quanto posto na Constituição Federal. Alberto Silva Franco, jurista desta- cado, desembargador do Tribunal de Justiça dos Estado de São Paulo, com ímpar distinção preleciona acerca do tema em tela: “O crime de esbulho possessório só é punível a título de dolo, isto é, se o agente tem consciência e vontade de realizar a conduta tipificada, ou seja, a invasão do imóvel alheio. Mas não é só. É necessário sempre que a invasão esteja acompanhada de um específico elemento anímico: o fim de esbulho possessório. Desta forma, se o agente afetua a ação física requerida pelo tipo, não com o propósito delibe- rado de despojar o sujeito passivo do exercício da posse do imóvel, mas, sim, com o fito de turbá-lo, não há co- gitar do delito em exame”(Código Pe- nal e sua Interpretação Jurisprudencial, Ed. Revista dos Tribunais, S. Paulo, 1990, pág. 961). Para espancar de vez a afirmação de que as ocupações de terras consti- tuem crime e assim devem ser trata- das, vejamos algumas decisões. JUÍZES DE PRIMEIRA INSTÂNCIA, TRIBUNAIS DE JUSTIÇA E SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA As ocupações de terras enquanto instrumento de pressão pela realiza- ção da reforma agrária já foram objeto
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    de apreciação porparte de vários jui- zes de primeira instância e Tribunais de Justiça dos estados, que conforme poderemos observar logo abaixo, são unânimes em demonstrar a legalidade das ocupações. 1. Comarca de Paranacity - Paraná No mês de dezembro de 1996, aproximadamente 80 famílias organi- zadas pelo MST ocuparam uma fazen- da nas proximidades do município de Paranacity. Os advogados do latifun- diário logo bateram às portas do Poder Judiciário local, na tentativa de despe- jar aquelas famílias. A juíza Márcia An- drade Gomes Bosso, da Comarca de Paranacity, em decisão merecedora de elogios, indeferiu o pedido de liminar, determinando que as famílias perma- necessem na área até que o Governo encontrasse uma solução definitiva para o problema. Vamos aos argumen- tos utilizados pela magistrada: “Hoje, não só a propriedade, mas também a posse, tem por requisito o cumprimento da função social, confor- me já se pronunciou o Prof. Luiz Edson Fachin, “in A Função Social da Posse, Porto Alegre, Fábris. Nesses termos, ju- ristas nacionais, como Jurandir Porto Rosa (Defensor Público da União), Rui Portanova e Sérgio Sérvulo da Cunha vêm discutindo a necessidade de se exigir, para a proteção possessória, a prova do cumprimento da função so- cial, como um quinto requisito, além dos elencados no art. 927 do Código Civil, o qual, diga-se de passagem, não está comprovado prima face nos au- tos. Não se discute que a responsabili- dade social que deve ter em conta o Estado-Jurisdição quando da conces- são de liminares de reintegração de posse contra um grande número de pessoas é incomensaurável. Os recen- tes episódios de Corumbiara (RO), Santa Izabel do Ivaí (PR) e Eldorado dos Carajás (PA) vêm confirmar as valorosas lições dadas por José Maria Rosa Tesheiner que, em voto conver- gente nos Emb. Infr. nº 100287119, do 1º Grupo Cível do TA/RS, em 18.11.83: ‘Esta não é uma possessória igual a tantas outras, em que são indivíduos os que contendem. Aqui, uma coletivi- dade se apresenta como ré. Busca-se reintegrar na posse uns poucos e de- mitir da posse uma comunidade ... Essa a peculiaridade a destacar desde logo, porque não se encontra na lei solução expressa para hipótese como a presente. Ora, colocando na balança da jus- tiça, de um lado os interesses de três casais, para os quais a área em litígio representa muito, mas não é funda- mental, e de outro, os de noventa ou mais famílias, para os quais essa mes- ma área é condição de vida digna, parece não ser difícil determinar para que lado pende a balança. O Judiciá- rio, por ser um Poder, não pode ficar apenas na posição subalterna de obe- diência a comandos emitidos pelo demais Poderes. Deve colaborar com o Legislativo e o Executivo na solução dos problemas sociais, especialmente quando se apresentam hipóteses, que não se prestam à edição de normas abstratas, exigindo solução concreta, caso a caso.” Ainda, calcando sua decisão, a douta magistrada, utilizando-se de ar- gumentos lançados pelo Ministro Willian Patterson na Susp. de Seg. nº 444/ES (96/0003602-0) DJU, 2.1.96, p. 300, afirmou: “(...) a desocupação, ex abrupto, de expressivo número de famílias assentadas em área urbana provoca grave perturbação social, conquanto o Poder Judiciário não possa descurar do direito de propriedade, de um lado, por outra parte deve estar atento aos reflexos no contexto social que suas decisões provocam. (...) o imediato desalojamento dos posseiros tem potencial para causar grave perturbação da paz social, da ordem e da segurança pública (...) Finalmente, encerrando sua bri- lhante decisão a magistrada decretou: “Neste diapasão, a par das consi- derações feitas, entendo que toda cautela deve ser adotada, a fim de evi- tar que o sangue dos envolvidos no litígio venha a cobrir a extensão terri- torial de nossa Comarca, devendo pre- valecer, por ora, a vida humana, a paz social, a ordem e a segurança pública em detrimento da propriedade parti- cular”. (Proc. 351/96 - Comarca de Pa- ranacity/PR) 2. Juiz da 8ª Vara da Justiça Federal de Minas Gerais No mês de fevereiro de 1995, apro- ximadamente 300 famílias ocuparam uma faixa de terra ao longo da rodovia BR116, no estado de Minas Gerais. A ocupação foi realizada com o objetivo de pressionar o governo e chamar atenção da opinião pública para o gra- ve problema dos trabalhadores rurais sem-terra. O DNER, órgão do Governo Federal responsável pelas rodovias, protocolou junto à Justiça Federal, um pedido de reintegração de posse, alegando que as pessoas corriam risco de vida ao permanecerem próximos à rodovia. A ação foi distribuída para a 8ª Vara da Justiça Federal, em Belo Horizonte. O juiz Antônio Francisco Pereira, apre- ciando o pedido formulado pelo DNER, proferiu a seguinte decisão: “Várias famílias (aproximadamen- te 300 - fl. 10) invadiram uma faixa de domínio ao lado da Rodovia BR 116, na altura do Km 405,3, lá construindo barracos de plástico preto, alguns de adobe, e agora o DNER quer expulsá- los do local. “Os réus são indigentes”, reconhe- 100 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    ce a autarquia,que pede reintegração liminar na posse do imóvel. E aqui estou eu, com o destino de centenas de miseráveis nas mãos. São os excluídos, de que nos fala a Cam- panha da Fraternidade deste ano. Repito, isso não é ficção. É um pro- cesso. Não estou lendo Graciliano Ra- mos, José Lins do Rêgo ou José do Pa- trocínio. Os personagens existem de fato. E incomodam muita gente, embora de- les nem se saiba direito o nome. É Val- dico, José Maria, Gilmar, João Leite. Só isso para identificá-los. Mais nada. Profissão, estado civil (CPC, art. 282, II) para quê, se ‘indigentes’ já é qualifica- ção bastante? Ora, é muita inocência do DNER se pensa que eu vou desalojar este pes- soal, com a ajuda da polícia, de seus moquiços, em nome de uma mal arre- vesada segurança nas vias públicas. O autor esclarece que quer proteger a vi- da dos próprios invasores, sujeitos a atropelamento. Grande opção! Livra-os da morte sob as rodas de uma carreta e arroja- os para a morte sob o relento e as for- ças da natureza. Não seria pelo menos mais digno - e menos falaz - deixar que eles mes- mos escolhessem a maneira de mor- rerem, já que não lhes foi dado optar pela forma de vida? O Município foge à responsabilida- de “por falta de recursos e meios de acomodações”(fl. 16v). Daí, esta brilhante solução: aplicar a lei. Só que, quando a lei regula as ações possessórias, mandando defe- nestrar os invasores (arts. 920 e segts. do CPC), ela - COMO TODA LEI - tem em mira o homem comum , o cidadão médio, que, no caso, tendo outras op- ções de vida e de moradia diante de si, prefere assenhorear-se do que não é dele, por esperteza, conveniência, ou qualquer outro motivo que mereça a censura da lei e, sobretudo, repugne a consciência e o sentido do justo que os seres da mesma espécie possuem. Mas este não é o caso no presente processo. Não estamos diante de pes- soas comuns, que tivessem recebido do Poder Público razoáveis oportuni- dades de trabalho e de sobrevivência digna (v. fotografias). Não. Os “invasores” (propositada- mente entre aspas) definitivamente não são pessoas comuns, como não são milhares de outras que “habitam” as pontes, viadutos e até redes de es- goto de nossas cidades. São párias da sociedade (hoje chamados de excluí- dos, ontem de descamisados), resulta- do do perverso modelo econômico adotado pelo país. Por este exército de excluídos, o Es- tado (aqui, através do DNER) não po- de exigir a rigorosa aplicação da lei (no caso a reintegração de posse) enquanto ele próprio - o Estado - não se desincumbir, pelo menos razoavel- mente, da tarefa que lhe reservou a Lei Maior. Ou seja, enquanto não construir - ou pelo menos esboçar - “uma sociedade livre, justa e solidá- ria” (CF art. 3º, I) erradicando “a pobreza e a marginalização (III), pro- movendo “a dignidade da pessoa humana” (art 1º, III), assegurando “a todos existência digna, conforme os ditames da Justiça Social” (art.170), emprestando à propriedade sua “fun- ção social” (art. 5º, XXIII e 170,III), dando à família, base da sociedade, “especial proteção” (art.220) e colo- cando a criança e o adolescente “a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, maldade e opressão” (art.227) en- quanto não fizer isso, elevando os marginalizados à condição de cida- dãos comuns, pessoas normais, aptas a exercerem sua cidadania, o Estado não tem autoridade para deles exigir - diretamente ou pelo braço da Justiça - o reto cumprimento da lei. Num dos braços, a Justiça empe- nha a espada, é verdade, o que serviu de estímulo a que o Estado viesse hoje pedir a reintegração. Só que, no outro, ela sustenta a balança em que pesa o direito. E as duas - lembrou Rudolf Von Jhering, há mais de 200 anos - hão de trabalhar em harmonia. “A espada sem a balança é força brutal; a balança sem espada é a im- potência de direito. Uma não pode avançar sem a outra, nem haverá or- dem jurídica perfeita sem que a ener- gia com que a justiça aplica a espada Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 101UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    seja igual ahabilidade sem que maneja a balança.” Não é demais observar que o com- promisso do Estado para com o cida- dão funda-se em princípio que tem matriz constitucional. Verdadeiros dogmas de cuja fiel observância dependem a eficácia e a exigibilidade das leis menores. Se assim é - vou repetir o raciocínio - enquanto o Estado não cumprir a sua parte (e não é por falta de tributos que deixará de fazê-lo), dando ao cidadão condições de cumprir a lei, feita para o homem comum, não pode de forma al- guma exigir que ela seja observada, muito menos pelo homem “incomum”. Mais do que de deslealdade, trata- se de pretensão moral e juridicamente impossível, a conduzir - quando feita perante o Judiciário - ao indeferimento da inicial e extinção do processo, o que ora decreto nos moldes dos arts. 267 I e IV 295 I e parágrafo único, III, do CPC, atento à recomendação do art. 5º da LICCB e olhos postos no art. 25, da Declaração Universal dos Direi- tos do Homem, que proclama: “Todo ser humano tem direito a um nível de vida adequado, que lhe assegure, as- sim como a sua família, a saúde e o bem-estar e, em especial alimentação, o vestuário e a moradia”. Quanto ao risco de acidentes na área, parece-me oportuno que o DNER sinalize convenientemente a rodovia nas imediações. Devendo ainda exer- cer um policiamento preventivo, a fim de evitar novas “invasões” (processo 95.0003154-0 - 8ª Vara Federal - Belo Horizonte/MG). P.R.I. - Belo Horizonte, 03 de março de 1995 - Antonio Francisco Pereira - Juiz Federal da 8º Vara 3. Tribunal de Justiça do Estado do Paraná As ocupações de terras já foram objeto de decisões por parte dos tribu- nais de segunda instância. O tribunal de Justiça do Estado do Paraná, em de- cisão no Agravo de Instrumento, inter- posto pelos advogados do MST, para suspender uma decisão liminar de reintegração de posse, decidiu que: “A questão discutida nos autos, além de envolver o interesse fulcrado no direito de propriedade, traz ao con- flito o interesse social, ambos protegi- dos pela Constituição Federal, que ge- ra hoje, em nosso país, grande discus- são e conseqüências. Dispõe o artigo 5º, da Lei de Intro- dução ao Código Civil, que o Juiz, na aplicação da lei, deve atentar para os fins sociais e as exigências do bem co- mum. Neste diapasão, vislumbra-se na espécie, os relevantes aspectos e interesses em jogo, já que na área em disputa se encontram diversas famí- lias, inclusive com a presença de me- nores e adolescentes, o que tornaria imprescindível a presença do Minis- tério Público, o que não ocorreu. Verifica-se, ademais, pelos docu- mentos juntados aos autos, que tanto o proprietário da área como o INCRA, manifestaram interesse numa compo- sição amigável, na busca de uma so- lução pacífica para a causa, o que pa- rece estar sendo providenciado, em especial pelo segundo agente. Portanto, diante da relevância dos interesses em jogo, atrelado aos fun- damentos acima expostos, por vislum- brar a presença dos requisitos legais, podendo, ainda, advir dano irrepará- vel às pessoas que se encontram na área, é que concedo o efeito suspensi- vo à decisão atacada, até que haja o pronunciamento final por esta Câ- mara, após regular instrução dos au- tos.” (Agravo de Instrumento nº 99.685-6 - De Palmital - Vara Cível) Ainda, o Tribunal de Justiça do Es- tado do Paraná, ao manifestar-se acer- ca de uma ocupação de terras, ocorri- da na Fazenda Giacommet Marodim, no município de Laranjeiras, no dia 1º de agosto de 1996, decidiu que: “(...) denota-se de uma leitura atenta as razões do agravo, bem co- mo da documentação que o instrui, que este é mais um caso a exigir do magistrado extrema cautela, pelo fato de lidar com grave problema social que assola e envergonha a pátria, qual seja, a ausência de moradia e de terras a milhares de brasileiros. O arti- go 5º, da Lei de Introdução ao Código Civil, estipula que “Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e as exigências do bem comum”; baseado neste dispositivo le- gal, é de considerar relevante a funda- mentação contida nas razões recur- sais e onde se discute a real situação dos agravantes. Seriam ele esbulha- dores comuns a serem tratados da mesma forma como aqueles que inva- dem propriedade alheia com o fito de auferir lucro, em prejuízo do proprietá- rio, ou levados a adentrarem em ter- ras de terceiros a fim de poderem so- breviver, bem como a sua família. Embora a diferenciação, em termos de texto legal, a lei deve ser, nas mãos de seu aplicador, um instrumento de rea- lização do bem social e para tal de- vem ser perqueridas sua finalidade, procurando interpretá-la de forma a que venha a servir aos interesses sociais para se conseguir este resulta- do, e ela (lei) pode se dar a necessá- ria elasticidade, numa tentativa de adaptá-la de conformidade com a realidade do presente, atendendo, como já dito, as necessidades sociais desconhecidas ou pouca conhecidas na força de sua edição. Os autos noti- ciam a existência de menores no local, desconhecendo este julgador se al- guns deles totalmente desamparados, órfãos ou sem orientação de respon- sável e o que é público de qualquer forma, a execução do mandato resul- taria conseqüências graves e imprevi- 102 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    síveis e, porisso, a melhor solução será, por certo, a aplicação do dispos- to no artigo 550, do Código de Pro- cesso Civil, qual seja, a de suspender o cumprimento de decisão até o pro- nunciamento definitivo da Câmara, na esperança de que, nesse interregno, seja encontrada uma solução pacífica e justa que venha a contentar os con- tendores. Atente-se, neste particular, a existência de negociação a respeito, comunique-se ao juiz tal decisão, en- tendendo como desnecessária a re- quisição de informações, intime-se a agravada, por ofício dirigido ao seu advogado e obedecidos os demais re- quisitos previsto no inciso III do artigo 527 do Código de Processo Civil, para que responda, no mesmo prazo acima assinalado.” (Agravo de Instrumento nº 96.00000295 - TJPR - 2ª Câmara Cível) 4. Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul Nossos Tribunais de Justiça têm de- cidido que, em havendo controvérsia a respeito da propriedade ou da posse, o crime de esbulho possessório inexis- te. É o que se infere do acórdão do Tri- bunal de Justiça do Mato Grosso do Sul, transcrito abaixo: “Sendo induvidosa a existência de controvérsia a respeito da proprieda- de e posse da área em litígio, existin- do inclusive, ação de manutenção de posse em curso e movida pelo quere- lado contra os querelantes, e estatuin- do os tipos penais citados que a inva- são ou introdução de animais ocorra em imóvel alheio, é de se rejeitar desde logo a queixa assim formulada, por serem atípicos os fatos nela descri- tos”( TJMS - Rec. - Rel. Pereira Rosa - RT 545/405). 5. Tribunal de Alçada Civil do Estado do Rio Grande do Sul - Câmara de Férias Em julho de 1997, aproximada- mente 300 famílias participaram de uma ocupação de terras no município de Santo Antonio das Missões, Rio Grande do Sul. Os advogados do lati- fundiário conseguiram junto ao juiz lo- cal um decreto liminar de reintegração de posse. Todavia, como sói acontecer em 90% das decisões liminares em ação de natureza possessória, havia falhas. Por provocação dos advogados do MST, o Tribunal de Justiça cassou a liminar concedida. Vejamos os argu- mentos: “A questão trazida pelo recurso é, a meu ver, a mais importante de todas que estão a desafiar o futuro do país. Desde séculos, a questão agrária vem afrontando o descortino e a desenvol- tura dos governos, que somente em poucos e fugazes momentos revela- ram algum desassombro e alguma clarividência, no sentido de avançar no sentido da solução do conflito agrário ou, pelo menos, minorar os efeitos deletérios da sua presença inercial na história do nosso sofrido e lento desenvolvimento econômico e social. Os movimentos populares prolife- ram clamando por solução. Em todo o território nacional, realizam manifes- tações, reclamam providências, supli- cam por ações políticas, esperam por décadas e décadas. Objetivamente pouco, ou quase nada, tem sido feito. Os gestos governamentais são peque- nos e seus efeitos menores. O proble- ma não apenas continua sem solução. Aumenta, cresce e a situação se torna, cada vez mais, insustentável. A realidade está a mostrar elo- qüentemente que há multidões de brasileiros esperando para trabalhar a terra. Essa realidade não se transfor- ma se não for tomada uma decisão política de alta envergadura social, definitiva e permanente, para que se pacifique o grande conflito da nação, cuja suplantação somente se dará pela opção pelos necessitados com resultados benéficos, de toda a ordem, em favor da sociedade brasileira. Rogando compreensão a essas considerações iniciais, feitas apenas para colocar o caso concreto na mol- dura política, social e econômica em que há anos vivemos, e, mesmo, para vincular esse despacho ao tempo atu- al da nossa história, como deve sem- pre fazer o magistrado. Ainda, para marcar a dimensão que obriga a uma visão diferenciada dos casos comuns, para os quais, seguramente, foi a legislação concebida. Não há, a meu ver, a menor censu- ra técnica que se possa fazer à deci- são agravada. Está fundamentada em dispositivos adequados e é irretocável. Todavia, como se sabe, não se tem notícia do que alguma dessas ocupa- ções, de per si, tenha determinado a alteração da posse, perdendo-a o titu- lar do domínio para os possuidores, as- sim introduzidos na terra. Trata-se, co- mo se sabe, de iniciativas que visam precisamente concretizar o conflito, torná-lo real, para assim, sacudir as consciências adormecidas. Como diz o Min. Luiz Vicente Cernichiaro, citado pe- los agravantes, o que há é “pressão social para concretização de um direito (pelo menos - interesse), na qual, subs- tancialmente, não há ilícito algum”. Daí a razão, por demais conhecida, que recomenda sejam as providências Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 103 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    de desocupação tomadascom todas as cautelas e, mais, com o vagar neces- sário, sem desproteger o direito do proprietário, para que os efeitos e os rendimentos da ação sejam colhidos, sob pena de nada se fazer, nada ser feito, no sentido de dar vida a um di- reito inscrito no texto da Constituição Federal. Não é, por óbvio, o Poder Judiciário a caixa de ressonância das movimen- tações sociais. Mas, também, surdo e mudo não é. Está ele integrado na or- ganização do Estado para cumprir fun- ções e uma delas, sem dúvida, é res- ponder aos reclamos da sociedade. Talvez, a mais importante. Assim, aqui desembocando o conflito, a ele cabe, além de aplicar a lei, aplicá-la em con- sonância com a aspiração social. Não se pense que, assim agindo, está-se a invadir esfera de outros po- deres. Não se conhece governante, parlamentar ou qualquer político que se declara abertamente contra a Re- forma Agrária. Todos a querem. Nin- guém a faz. A conformidade do magis- trado a essa expectativa nacional nada mais representa do que a resposta que lhe cabe dar. Nesse contexto, a presença e a par- ticipação do Ministério Publico em de- mandas dessa natureza são imperio- sas, na medida em que a visão dima- nada desse órgão oportunizará no fei- to a defesa de direitos e interesses ou- tros, não apenas aqueles contidos na estrita relação processual que vincula possuidores e proprietários. A Consti- tuição Federal, aliás, dotou o Ministério Público de funções maiores e de alta relevância na proteção do interesse público. Esse interesse está, como em poucos casos, eloqüentemente pre- sente na espécie. Tão imperiosa e va- liosa é a presença do Ministério Pú- blico que deve ser ele convocado des- de o início da demanda, para que, des- de logo, esteja ela, lide, impregnada da visão publicista ao magistrado melho- res e mais amplos elementos de con- vicção para decidir. Por fim, pedindo vênia para as opi- niões contrárias, penso que, posto tec- nicamente irretocável, como já foi dito, a decisão recorrida, em razão da den- sidade social e do relevante interesse público que estão o informar a contro- vérsia, deve o disposto no inciso III do artigo 82 do CPC receber interpretação ampla e, particularmente, afeiçoada e direcionada à natureza excepcional dos fatos, com vistas a intervenção do Ministério Público. Com essas considerações, deferin- do os pedidos contidos nas letras a) e b), dou efeito suspensivo ao recurso, para que, cassando a decisão agrava- da, seja oportunizada a intervenção, desde logo, do Ministério Público, na forma pleiteada”. (Porto Alegre, 25 de julho de 1997 - Perciano de Castilhos Bertoluci - Juiz da Alçada Plantonista - Agrav. de Instr. nº 197144462). 5. Superior Tribunal de Justiça Em março de 1996, o Superior Tri- bunal de Justiça, em decisão no “ha- beas corpus” impetrado para livrar seis trabalhadores rurais que encontravam- se encarcerados na região do Pontal do Paranapenama, o Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro, discorrendo acer- ca do esbulho possessório e das ocu- pações de terras aduziu: “O despacho de prisão preventiva, com fundamentação alentada, projeta uma realidade social. Divisou, na con- duta da Paciente insubordinação às regras jurídicas. Do ponto de vista for- mal, isso acontece. Não há, entretanto, a configuração do esbulho possessó- rio, ou de alteração de limites.” (HC. 4.399 - SP - 6ª Turma - j. 12.03.96) A “priori”, a decisão acima já basta para espancar qualquer celeuma em torno da ocorrência ou não de crime nas ocupações de terras, haja vista que a jurisprudência acima, emanou da mais alta Corte do Poder Judiciário brasileiro para o caso em tela. Mas o Superior Tribunal de Justiça, através de seus Ministros foi além, considerou as ocupações de terras co- mo legítimas formas de exigibilidade dos direitos assegurados na Consti- tuição Federal. Senão vejamos: “(...) O fato precisa ser analisado em seu contexto, coordenando a sua motivação. Aceito as considerações do M.M. Juiz de Direito, encampadas pelo v. acórdão. Todavia, com o devido res- peito, confiro-lhes definição jurídica di- ferente. Invoque-se a Constituição da República, especificamente o Título VII - Da Ordem Econômica e Financeira - cujo Capítulo II registra como progra- ma a ser cumprido a - Reforma Agrá- ria (art. 184 usque 191). Evidente, essa norma tem destina- tário. E como destinatário, titular do di- reito (pelo menos - interesse) à con- cretização da mencionada reforma. A demora (justificada ou injustifica- da) da implantação gera reações nem sempre cativas à extensão da norma jurídica. A conduta do agente do esbulho possessório é substancialmente distin- ta da conduta da pessoa com interes- se na reforma agrária. Atualmente a culpabilidade é cada vez mais invocada na Teoria Geral do Delito. A sua intensidade pode, inclusi- ve, impedir a caracterização da infra- ção penal. No esbulho possessório, o agente dolosamente, investe contra a proprie- dade alheia, a fim de usufruir um de seus atributos (uso). Ou alterar os limi- tes do domínio para enriquecimento sem justa causa. No caso dos autos, ao contrário, diviso pressão social para concretização de um direito (pelo me- nos - interesse) ( HC. 4.399 - SP - Mi- nistro Luiz Vicente Cernicchiaro) Por seu turno, o Ministro Adhemar 104 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    Maciel, integrante daTurma que julgou o “habeas corpus”, fez inserir em seu voto as seguintes considerações acer- ca da criminalização das ocupações de terras: “ O voto do Sr. Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro impressionou-me sobre o aspecto jurídico-político da igualdade perante a lei e a igualdade na lei. Os autores alemães trazem estas duas ex- pressões que em alemão talvez tenha mais sabor do que em português: “Gleichheit vor dem Gesetz” e “Glei- chheit im Gesetz”. A igualdade foi apre- goada por Montesquieu, Rousseau e outros mais. Muitas vezes está na Cons- tituição, na lei. Mas é puramente formal. Pergunto, à medida que os fatos se desenrolaram, se não seria - o Minis- tro Luiz Vicente Cernicchiaro enfocou bem - uma “reforma agrária de baixo para cima”, uma pressão social, já que o governo está “tranquilo” há não sei quantos anos - quando todas as nos- sas Cartas e as nossas Constituições estão apregoando a reforma agrária. Lembro-me do livro “Lanterna na Popa”, do deputado Roberto Campos, no qual se diz que um dos atrasos do Brasil, em relação ao Japão, Taiwan etc. foi exatamente a não-reforma agrária oportuna.” A conclusão óbvia que emerge da decisão proferida pelo Egrégio Supe- rior Tribunal de Justiça é de que as ocupações de terras, na órbita do Di- reito Penal, não constituem crime, são legítimas, constitucionais e necessárias para fazer o processo de reforma agrá- ria tramitar mais rapidamente. Mas em certos casos (Pontal do Paranapanema/SP, por exemplo), al- guns juizes, na ânsia desesperada de proteger o latifúndio improdutivo co- metem ilegalidades. Porém, cometes- sem-nas apenas uma vez, seria até compreensível. Todavia, insistem em criminalizar as ocupações. Este é o ca- so da Comarca de Pirapózinho. Por duas vezes o Poder Judiciário local buscou prender lideranças do MST, por duas vezes o Superior Tribunal de Jus- tiça - STJ determinou que fossem colo- cados em liberdade. No dia 8 de abril de 1997 a 6ª Tur- ma do STJ, pela segunda vez, se reuniu para decidir sobre um pedido de ha- beas corpus em favor dos trabalhado- res do Pontal do Paranapanema. A decisão foi clara e contundente: as ocupações de terras estão protegi- das pela Constituição Federal, são legí- timas e necessárias. Habeas Corpus nº 5.574/SP 97.0010236-0 Relator designado: Exmo. Sr. Minis- tro Luiz Vicente Cernicchiaro. Impetrantes: Luiz Eduardo Gree- nhalgh e Aton Fon Filho. Publicado no Diário Oficial de Jus- tiça em 18/08/97. “EMENTA HC - CONSTITUCIONAL - HABEAS CORPUS - LIMINAR - FIANÇA - REFOR- MA AGRÁRIA - MOVIMENTO SEM -TER- RA - Habeas corpus é ação constitucio- nalizada para preservar o direito de lo- comoção contra atual, ou iminente ile- galidade, ou abuso de poder. (...) Movimento popular visando a implantar a reforma agrária não ca- racteriza crime contra o Patrimônio. Configura direito coletivo, expressão da cidadania, visando a implantar programa constante da Constituição da República. A pressão popular é própria do Estado de Direito Demo- crático. Opinião de Juristas Para que não paire qualquer som- bra de dúvida acerca da legitimidade das ocupações de terras, enquanto mecanismo de pressão pela realização da reforma agrária, passaremos a transcrever algumas opiniões de reno- mados juristas brasileiros. 1. Fábio Konder Comparato, ad- vogado, doutor pela Universidade de Paris, professor titular da Faculdade de Direito da USP, autor de inúmeras obras, fundador e diretor da Escola de Governo, em fevereiro de 1996, por ocasião das prisões no Pontal do Para- napanema, em artigo publicado na im- prensa de São Paulo, com o rigor que lhe é característico, manifestou-se con- trário às prisões e à criminalizaçào das ocupações de terras. “In verbis”: “A pequena semana de glória que o jovem juiz de Pirapózinho se forjou ao aceitar a denúncia de crime de for- mação de quadrilha contra os dirigen- tes do Movimento dos Sem terra e ao mandar prender a mulher de um de seus líderes vai custar muito caro ao prestígio da magistratura, e é bom que assim seja. Quem sabe agora esse lamentável episódio, somado a tantos outros do passado recente, a começar pela recusa do Supremo Tri- bunal Federal em processar Fernando Collor, PC Farias e seus colaboradores justamente por formação de quadri- lha, porá na ordem do dia a necessá- ria e sempre adiada reforma do Poder Judiciário.” Mais adiante o ilustre jurista escla- rece que: “No caso dos magistrado e dos membros do Ministério Público, a defi- ciência educacional não ocorre apenas no campo técnico - pela ignorância, muitas vezes, dos rudimentos da ciên- cia do Direito -, mas aparece também e sobretudo no terreno ético, pela com- pleta incultura cívica de grande parte dos homens e mulheres a quem foi confiada a missão de zelar pelo respei- to aos valores básicos da cidadania. É exatamente esse despreparo téc- nico, aliado à imaturidade cívica de nossos juizes e promotores, que se patenteia nos casos de conflitos fun- diários. Da criminalização do Movi- mento dos Sem Terra de Pirapozinho Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 105UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    106 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil ao despejo à bala das famílias de pos- seiros de Corumbiara, passando pela expedição em série de centenas de interditos proibitórios contra os serin- gueiros do Acre a pedido de patrões e latifundiários, o que vem a furo, agora, é a disfuncionalidade de um poder que, em vastas áreas do território na- cional, trabalha contra valores funda- mentais de nosso regime político, dos quais é supostamente defensor”. 2. Hélio Bicudo, jurista, ex-pro- motor de justiça em São Paulo, mem- bro do Fórum Interamericano de Di- reitos Humanos (Fideh), autor do livro “Violência: O Brasil Cruel e sem Ma- quiagem” entre outros, em matéria de sua lavra publicada na Folha de S. Paulo, no dia 13.3.96, tratando da cri- minalização das ocupações de terras, manifestou-se afirmando que: “Na consideração do problema fundiário não se pode, simplesmente, fazer uma abordagem técnico-jurídi- ca, pretendendo, com semelhante pro- cedimento, fazer justiça. Ora, “sum- mum jus, summa injuria”. Hoje, o con- ceito de justiça não se pode apartar do conceito de solidariedade ou frater- nidade, fomento que deve levedar to- das as atividades humanas, para o aperfeiçoamento do conjunto da so- ciedade. Não basta, para o recolhimento de uma pessoa à prisão, dizer-se que a ordem pública está ou foi extrema- mente abalada. Que ordem pública? Essa “ordem” que oprime e excluí? Mas essa não pode, evidentemente, ser considerada ordem pública, por- que contém em si o contrário: a desor- dem. Como falar-se em ordem pública quando não se busca a construção de uma política voltada para o estabeleci- mento dessa mesma ordem pública?” 3. José Paulo Bisol, senador da república, ex-desembargador do Tribu- nal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, enfocando a reforma agrária e a luta do MST através das ocupações de terras, sustentou que: “A necessidade da reforma agrária é, curiosamente, uma unanimidade nacional. Como explicar, então que ela não tenha sido feita? Como compre- ender que outras reformas, como a Constitucional, que não respondem a qualquer unanimidade nacional fo- ram realizadas com a incisividade e a determinação que testemunhamos? É trágico que a resposta seja brutalmen- te simples: a reforma agrária interessa aos pobres, ao povo e as outras inte- ressa aos ricos. (...) A reforma agrária sem referen- te do discurso do Poder tem dupla efi- cácia: ao mesmo tempo que funda sua necessidade, proíbe a sua realização. Isso estabelece, entre o Poder e os sem-terra um diálogo surdo e absurdo, pois os dois falam linguagens diferen- tes como se falassem uma linguagem comum. Mas a observação desse fato põe a nú uma evidência: no Brasil não há discurso político que dispense a re- forma agrária. Isto é, não há consciên- cia política que não seja inclusive cons- ciência da necessidade da reforma agrária. Quer dizer, há um lado positi- vo naquela unanimidade, por vazia que seja, a saber: entre nós, todo e qualquer projeto de transformação so- cial que pretende fundar a solidarieda- de social erradicando a marginaliza- ção e a miséria começa pela reforma agrária. O sem-terra é um pária, está fora da sociedade, não tem acesso aos valores. O MST é uma coletividade de párias, certamente a única organiza- da, a mais consciente em relação a sua identidade e a seu sentido e por isso a mais competente. Aí está a con- tradição que a define: é uma coletivi- dade de condenados que se fez sujeito da história para revogar a sua conde- nação. Essa contradição mostra que os párias quando se organizam, pois, organizar-se é antes de mais nada ino- cular-se a substância social e ocupar um espaço social. O sem-terra que in- gressa no MST simplesmente nasce: era um natimorto e adquire vida. E quando aprende o discurso do MST e o incorpora, ocorre um segundo milagre: ele adquire sentido e uma linguagem para expressá-lo na palavra e na ação. (...) Gostaria de declarar aqui um compromisso pessoal perante a mi- nha Pátria. O ato de ocupar os latifún- dios é Justo. É necessário para fazer avançar a reforma agrária. É nobre e nos aproxima de Deus. Pois através disso vamos lutando pela Justiça aqui na terra. Que os sem-terras continuem ocupando todos os latifúndios. Se não fosse o MST, os sem-terras não passa- riam de uns párias da nossa pátria. É só através dele que Os sem-terras con- seguem ser cidadãos.”(discurso profe- rido por ocasião do 3º Congresso Na- cional do MST em Brasília, julho de 1995). 4. Plínio de Arruda Sampaio, ju- rista, advogado, ex-promotor de justiça no Estado de São Paulo, secretário da Casa Civil no Governo Carvalho Pinto, sobre ocupações de terras, preleciona: “As ocupações de fazendas no Pontal do Paranapanema têm sido apontadas como “graves atentados ao direito de propriedade”. Defensores desse direito, indignados, propõe pe- nas de prisão para os autores de tão “nefando crime”. Como esta versão atende aos interesses de gente pode- rosa, tem tido grande circulação. Acontece que ela é falsa. No Pontal do Paranapanema há poucos proprietá- rios e estes não são certamente aque- les cujas terras estão sendo ocupadas. A razão é simples. Toda essa imensa área roubada dos índios Caiowá e Caigang, foi, primeiro, um grande
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    “grilo”- o “griloPirapó”- Sto. Anastácio” ou “grilo mãe” - e, a partir de 1947, uma reserva florestal foi criada pelo interventor Fernando Costa. O “grilo mãe” surgiu no século passado. Em 1886, o governador de São Paulo, Visconde de Parnaíba, mandou processar criminalmente o pretenso dono dessas terras e o escri- vão que lhe forneceu os documentos falsos para fundamentar a pretensão. Em 1923, o desembargador Alcides Ferrari julgou imprestáveis todo os tí- tulos de propriedade referentes à área, por se tratar, toda ela, de terras devolutas. (...) Os sem terra sabem que se es- perarem quietos, a terra não lhes será entregue NUNCA. Decidiram pressionar. Pressão legítima diante da inoperância do estado. Ruy Barbosa dizia que os conservadores recusam-se a fazer mudanças quando o povo pressiona, porque não se pode mudar sob pressão e recusam-se a fazer mudanças quan- do o povo não pressiona, porque, se o povo está quieto, por que mudar? E ainda há gente que em vez de denunciar uma sociedade omissa di- ante de gerações e gerações de me- liantes, tem o displante de pedir ca- deia para quem luta por dez hectares de terras a fim de escapar da miséria abjeta. É muita “cara de pau”.” 5. Antonio Jurandir Porto Rosa, ex-defensor Público-Geral da União, jurista, advogado, analisando as ocu- pações de terras promovidas pelo MST, assim manifestou-se: “As invasões de terras rurais que vêm ocorrendo no país produzem in- quietação e alarma social. Suas causas são sociais e denunciam o sistema fun- diário anacrônico, injusto e presente- mente explosivo. Mas, no plano legal, há ofensa aberrante a princípios cons- titucionais expressos na Carta Magna, que retiram dos invasores sem terra o caráter de ilegalidade se suas ações. Corresponde, no Direito Penal, à legíti- ma defesa ou ao estado de necessida- de, circunstâncias excriminantes. Se, por um lado, os sem terra esti- vessem a violar o art. 499 do Código Civil, ou seja, o direito do latifundiário de ser mantido ou restituído na posse, este violaria preceito superior, de nível constitucional, o da função social da propriedade”. 6. O Próprio Presidente da Repú- blica Fernando Henrique Cardoso, em discurso perante uma comissão de representantes do Movimento Grito da Terra Brasil, em 19 de março de 1997, referindo-se às ações dos movimentos sociais pela reforma agrária disse: “(...) Como presidente, eu, talvez, não devesse dizer nada. Como soció- logo, eu devo dizer: precisa desta luta. Quer dizer, quando há uma luta para que haja um melhor atendimento e tal, eu sei que essa luta é necessária, não é? Apenas... Claro, é preciso que se compreenda, também, que esse governo tem esta atitude. Ela sabe que essa luta é necessária e ele tenta fazer o que pode. Não é um governo e por- tas fechadas. É de portas abertas. E sabe o governo também que precisa dos movimentos para que as coisas avancem. (O Estado de São Paulo, 20/03/97). VIOLAÇÕES - VIOLÊNCIA NO CAMPO EM 2002 Os dados dos conflitos no campo registrados pela Comissão Pastoral da Terra, durante o ano de 2002, mos- tram que o último ano do governo Fer- nando Henrique Cardoso foi particu- larmente violento para os(as) trabalha- dores(as) do campo. O número de as- sassinatos em conflitos por terra, 38, foi igual ao de 1998, e somente infe- rior ao de 1996, quando foram registra- das 46 mortes. É bom lembrar que 96 foi o ano em que ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 sem-terra foram mortos e 69 feridos. No ano passado, enquanto a opi- nião pública se voltava para a Copa do Mundo e, logo em seguida, se envolvia no processo eleitoral, no campo, os conflitos assumiam uma intensidade muito forte para as famílias que busca- vam um pedaço de terra. Os números de assassinatos tiveram um aumento de 30% em relação ao ano anterior, 2001, quando 29 pessoas morreram. É o maior número desde 1996. O Pará continua ostentando o primeiro lugar com 17 assassinatos, seguido pelo Es- pírito Santo, que registrou 6 mortes (todas de uma mesma família). Depois vêm os estados de Mato Grosso, Per- nambuco e Piauí, cada um com 3 as- sassinatos. Tentativas de assassinato: A CPT registrou, no ano passado, o mes- mo número de tentativas de assassina- to, 37, que em 2001. Já os mortos em conseqüência de conflitos aumenta- ram. Foram 8 em 2002, contra 1 em 2001. No ano passado aconteceram 217 ameaças de morte, enquanto em 2001 foram 132. Os dados ainda mos- tram que 20 pessoas foram torturadas Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 107UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE108- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil em 2002, contra 15 em 2001, e 28 pessoas foram ameaçadas de prisão, contra 27 em 2001. Os números de 2002 só são menores ao se tratar de prisões, que no ano passado foram 187, contra 254 em 2001; e os agredi- dos fisicamente, que chegaram a 22 contra 40. Os números de 2002 registram ligeira queda nas ocorrências de confli- tos. Em 2001 foram 880, enquanto no ano passado houve 827. Há também redução do número de acampamentos e ocupações. As ocupações, que em 2001 somavam 194, em 2002 foram 160. Em 2001, foram criados 65 acam- pamentos, contra 58 em 2002. Houve retração destas ações por parte dos tra- balhadores durante o período eleitoral. Aumento assustador de traba- lhadores escravos - O que mais cha- ma a atenção, nos dados de 2002, é o crescimento, pode-se dizer “assusta- dor”, do número de trabalhadores em situação de escravidão. Foi o maior número de ocorrências, 148 casos, desde que a CPT começou o registro. No ano passado, 5.665 pessoas adul- tas foram submetidas a esta condição. Como nos anos anteriores, o Pará con- centra o maior número de casos, 117, com 4.333 trabalhadores escravos. Em seguida vem o Maranhão com 12 ca- sos, envolvendo 432 pessoas, e o Ma- to Grosso, com 11 ocorrências, atingin- do 723 trabalhadores. O impressionante é que o aumen- to do número de ocorrências e de pes- soas submetidas à condição de escra- vidão aconteceu no mesmo ano em que o governo criou a Comissão Espe- cial de Combate ao Trabalho Escravo e Infantil, do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), ligado ao Ministério da Justiça. A cria- ção desta Comissão, apesar da boa vontade e do empenho das pessoas nela envolvidas, não foi capaz de deter o avanço desta triste realidade. A impunidade é um dos principais fatores para a continuidade do traba- lho escravo no Brasil. O aumento dos casos identificados não significa que a ação do Estado tenha sido mais eficaz que nos outros anos. Em 2002, menos da metade das propriedades denun- ciadas, com fundamentação, foi fiscali- zada pelo Grupo Móvel. Este grupo fis- calizou no Pará somente 36% das fa- zendas denunciadas (42 sobre 117) e libertou somente 31% dos trabalhado- res (1.346 sobre 4.333). Sobre os dados: A Comissão Pas- toral da Terra registra com cuidado, desde 1985, os conflitos que aconte- cem no campo. O levantamento é feito através da pesquisa primária, realizada pelos próprios agentes da CPT, e da pesquisa secundária, com informações coletadas na imprensa. Este ano, a Co- missão está divulgando os dados ante- cipadamente (preliminares). Os núme- ros farão parte do caderno de Conflitos no Campo 2002, que será publicado pela CPT em abril. Todos os anos a entidade edita este livro que se tornou um documento de referência para di- versos setores brasileiros. No ano pas- sado, o caderno foi reconhecido como publicação científica pelo Instituto Brasileiro de Informação e Ciência e Tecnologia (IBICT). A CPT foi criada em 1975 para atuar junto aos trabalhadores/as ru- rais. A entidade apóia a organização dos camponeses e denuncia casos de injustiça e violência. SEM CONCLUSÃO Muita gente quanto ouve falar em Sem-Terra imagina que são os traba- lhadores rurais, os meeiros ou os pare- cleiros que não têm terra. Sem-Terra tornou-se nome próprio. Nome de trabalhadores organizados lutando pela Reforma Agrária e para transformar a sociedade. Sem-Terra tornou-se sinal do resgate da dignidade de trabalhadores e traba- lhadoras chamados vagabundos, chuta- dos de um canto para outro. Conquis- tou, pela sua opção de entrar na luta, uma identidade: sou Sem Terra.Tornou- se, por causa do MST, um cidadão res- peitado. E o MST nada mais é do que centenas de milhares de Sem-Terra. A sociedade atual, chamada de ne- oliberal, exclui os mais pobres, deixan- do-os sem trabalho, sem direitos e sem dignidade. O MST, aos pocuos, consegue resgatar esta dignidade: con- segue fazer seus documentos e regis- trar os filhos; aprende a ler e escrever a realidade e vê os seus filhos partici- pando da Escola; consegue um teto para a família. Mas isto é pouco. A Via Campesina Brasil, composta por diversos movimentos do campo, entregou, a 28 de novembro de 2002, uma pauta emergencial de reivindica- ções para o primeiro semestre de 2003. Ela foi entregue a José Graziano, da equipe de transição do presidente elei- to, Lula, em Brasília, onde a Via Cam- pesina estava reunida. A pauta pede o assentamento imediato de todas as fa- mílias acampadas e a inclusão destas no programa Fome Zero do governo eleito. Para as famílias já assentadas, são reivindicados os créditos e assis- tência técnica para que todas as famí- lias possam produzir, contribuindo as- sim no combate a fome. Com relação ao MST, a luta conti- nuará contra o latifúndio e contra a fome em 2003. De acordo com João Paulo Rodri- gues, da Coordenação Nacional, “en- quanto houver famílias sem terra, as ocupações irão continuar; enquanto houver terra que não cumpra a função social, o MST estará presente”. Só conseguiremos nossos objetivos quando a Reforma Agrária for uma luta de todos.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 111 Entrevista: Dr Francisco Fausto Dr. Francisco Fausto Paula de Medeiros Presidente do TST N atural de Areia Branca (RN), Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, trabalhou como jornalista e como professor de Filosofia, na rede estadual de sua terra natal. De vasta experiência na área jurídica: de juiz do trabalho, no interior de Pernambuco, à presidência do TST, o Dr. Francisco Fausto fala, com muita tranqüilidade, de sua trajetória profissional, não raro, atravessada por muitas dificuldades. Dr. Francisco Fausto concedeu esta entrevista à Universidade e Sociedade, posicionando-se sobre um tema, “uma chaga” , como ele mesmo o denomina, que é o trabalho escravo no Brasil de hoje. Acessível, inteligente, corajoso, o atual Presidente do TST, nesta entrevista, convoca a sociedade civil ao exercício de cidadania, na tarefa de combate veemente à prática do trabalho escravo no país. “O trabalho escravo é uma caixa-preta que, quando for aberta, vai escandalizar o país” (Dr.Francisco Fausto) Por Antônio Ponciano Bezerra*
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Entrevista:Dr. Francisco Fausto 112 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 US: De início, o senhor poderia falar sobre a sua trajetória profissional até assumir a presidência do TST. Ministro: São 42 anos de magistratura trabalhista. Não vou detalhar nada dis- so porque senão vamos perder a en- trevista toda falando dessa coisa. Co- mecei a minha magistratura em Per- nambuco, aliás ainda sou da jurisdição do Tribunal de Pernambuco como suplente e juiz do trabalho em Natal, na suplência da junta de Natal, naque- la época havia suplência. Depois, eu passei a ser juiz substituto, funcionan- do em Recife, no interior de Pernam- buco. Mais tarde, fui titular da única junta do Rio Grande do Norte, que era a junta de Natal e, em 78, fui para o Recife promovido como vice-presiden- te do Tribunal Regional do Trabalho, porque não havia Tribunal nem na Paraíba, nem no Rio Grande do Norte. A jurisdição era pernambucana. Entre 78 e 89, em Pernambuco, cheguei à vice-presidência do Tribunal de Per- nambuco. Estava para ser presidente em janeiro, mas em novembro vim pa- ra Brasília. Tomei posse aqui como mi- nistro, eu e mais alguns ministros cria- dos pela Constituição de 1988. Daí ocupei a presidência de turma, depois o cargo de Corregedor Geral da Justiça do Trabalho e vice-presidente do Tri- bunal Superior do Trabalho, e agora, a partir de março do ano passado, passei a exercer a presidência efetivamente. US: Já, nesse período, o senhor tinha alguma preocupação com essa ques- tão do trabalho escravo no Brasil? Ministro: Não, absolutamente. As notí- cias sobre o trabalho escravo eram muito esparsas. Quem me trouxe a no- tícia do trabalho escravo aqui, na pre- sidência do Tribunal Superior do Tra- balho, foi uma comissão composta por representantes da Pastoral da Terra, do Ministério Público, da OAB e da OIT. Eles me trouxeram a notícia da exis- tência do trabalho, sobretudo, no sul do Pará, com provas contundentes so- bre essa questão e me pediram ajuda. Imediatamente, eu comuniquei à im- prensa falada, escrita, televisiva, falei, sobretudo, na televisão, combatendo o trabalho escravo, dizendo que era uma chaga, que era um atentado, que era uma chaga que precisava ser extirpada do trabalhismo brasileiro. Isso teve re- percussão, de modo que o Tribunal Su- perior do Trabalho passou a ser um parceiro importante nesse combate. US: Quais as primeiras providências concretas que o senhor tomou, para conhecer realmente o problema, a di- mensão desse problema? Ministro: Eu pedi aos Tribunais Regio- nais do Trabalho, a todos eles, que me informassem sobre a existência do tra- balho escravo. Pedi igual providência às Procuradorias Regionais do Traba- lho. Imediatamente, propus a criação de varas do trabalho itinerantes, e pen- sava mais na Amazônia, sobretudo na Amazônia legal, mas principalmente a partir das áreas de selva, porque é na selva que o trabalho se desenvolve, que o trabalho escravo tem mais de- senvoltura. Essa vara do trabalho itine- rante percorreria toda a área amazôni- ca, provavelmente por vias fluviais, mas sempre acompanhada da Polícia Federal, do Ministério Público e do Tra- balho e de inspetores do trabalho, através de um juiz do trabalho, é claro, e seus funcionários que iriam procurar o trabalho escravo aonde ele estivesse. Eu queria a justiça procurando essa gente, porque o trabalhador escraviza- do não tem uma condição de cidada- nia, não tem consciência disso; ele é escravizado porque precisa, porque passa por um estado de necessidade premente, a partir da precarização do emprego promovida pela política de globalização econômica que, no Brasil, tem um instrumento político muito efi- ciente que é o neoliberalismo. Esse instrumento precarizou o emprego de tal maneira que muitas pessoas, princi- palmente no Nordeste brasileiro, mas também em outras partes do Brasil, passaram a aceitar qualquer tipo de emprego. Principalmente de madeirei- ras do sul do Pará. Isso ocorreu de ma- neira, infelizmente, abaixo de qualquer condição ética. US: O senhor dispõe de um mapea- mento mais concreto dessa realidade para além do Pará e do Nordeste? Ministro: Nós temos sim. Foi detecta- do trabalho escravo em toda parte do Brasil, não foi só apenas no Norte do país, no Nordeste, não é só no Ma- ranhão, que faz parte da Amazônia le- gal, mas em todo Nordeste também foi detectada a presença de escravagis- tas, fazendeiros escravagistas. Há tam- bém a presença de escravagistas em São Paulo, no Rio Grande do Sul, em São Paulo-capital e no Rio Grande do Sul, numa cidade chamada Vacarias. Em Santa Catarina, numa cidade cha- mada Lages. Em vários lugares do Bra- sil. Aqui, no Centro-Oeste, essa explo- ração é muito disseminada, infeliz- mente. Isso aconteceu porque, até agora, falta vontade política para com- bater o trabalho escravo. US: O que caracteriza o trabalho es- cravo? Ministro: Vou deixar bem claro o se- guinte: o trabalho escravo não pressu- põe necessariamente a existência de grilhões, pelourinho etc., não é isso. Embora, segundo denúncias da Pasto-
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 113 Entrevista: Dr. Francisco Fausto ral da Terra, feitas publicamente, nas proximidades dessas fazendas que es- cravizam terem encontrado, nesses lu- gares, ossadas humanas, o que pres- supõe a existência, por exemplo, de repressão física contra o trabalhador. Mas o trabalho escravo é todo aquele que é desempenhado abaixo dos limi- tes da CLT, fixado pela CLT, em matéria de higiene, trabalho, medicina do tra- balho, salário, alimentação, enfim, es- sas condições que dão dignidade à pessoa humana. Daí porque quando hoje essa onda avassaladora de pes- soas, algumas de maneira suspeita, defendendo a extinção da CLT, a flexi- bilização das leis trabalhistas, isso nos deixa estarrecidos. Porquê? Por que é a CLT, o cumprimento da Lei Traba- lhista, que afasta a possibilidade do trabalho escravo. A Lei Trabalhista é que garante a dignidade do trabalha- dor. Essa é que é a verdade. US: Que expediente tem sido encami- nhado concretamente às autoridades trabalhistas para assegurar o acesso dos trabalhadores à Justiça do Traba- lho? Existe alguma coisa nesse senti- do? Ministro: Eu fiz um apelo veemente a todos os Tribunais Regionais do Traba- lho, no sentido de que dessem priori- dade absoluta aos processos que tra- tam de danos morais, ação civil públi- ca por danos morais, em virtude do trabalho escravo. Algumas sentenças já foram proferidas, felizmente, na Jus- tiça do Trabalho. Porque, veja bem, se nós temos competência para a ques- tão trabalhista, é claro, temos compe- tência para danos morais. É uma deci- são do Supremo Tribunal Federal, inquestionável hoje, mas não temos competência para a matéria penal. Co- mo é que fica a matéria penal? Alguns juízes federais dizem: a competência é do juiz estadual; o juiz estadual rebate: não, a competência não é da justiça estadual, mas esse caso é do juiz fede- ral, porque é matéria da organização do trabalho. Assim, alguns juízes fede- rais passaram então a admitir a sua competência. Mas qual foi a combina- ção? Condenaram, por exemplo, na Amazônia, no Norte do país, uma es- pécie de empregador escravagista a pagar 24 cestas básicas, em 24 meses. Ele mandou tudo de uma vez e conti- nuou escravizando. O que está aconte- cendo agora? Depois da campanha que estamos fazendo contra o traba- lho escravo, acho que não deveria ser uma campanha do TST, não deveria ser campanha da Pastoral da Terra, nem do Ministério Público; deve ser campanha do povo brasileiro. Então, o que é que faz o juiz do trabalho para aceitar a competência para julgar a questão de danos morais relativo ao trabalho escravo? Esses empresários têm sido condenados, graças a Deus. Mas é preciso uma pena maior. Tive conhecimento de um projeto do sena- dor Ademir Andrade, do Pará, que de- terminou também o confisco de terras onde for encontrado trabalho escravo. Foi aprovado no Senado Federal, foi encaminhado à Câmara, só que che- gou na Câmara e está engavetado. Eu fiz um ofício ao deputado Aécio Neves, que era então o presidente da Câmara, pedindo que desse prioridade na vota- ção desse projeto. O jornal do Senado deu até um destaque muito grande, botou em manchete o meu pedido. A Câmara silenciou totalmente. Até hoje, eu não tenho qualquer notícia disso, mas não tenho dúvida nenhuma de que vou continuar insistindo. Essas coi- sas eu ignoro e continuo insistindo da mesma maneira. US: Quais as punições previstas em Lei para quem, explora esse tipo de mão-de-obra? Ministro: Não há, esse que é o grande problema. Não temos uma Legislação específica contra isso. Isso não é crime contra a organização do trabalho co- mo diz a Justiça Federal, e fica o quê? Ficam condenando com cestas bási- cas. Nós, da Justiça do Trabalho, con- denamos em danos morais. Nós, da Justiça do Trabalho, determinamos o pagamento das indenizações traba- lhistas, mas isso não é o suficiente. Só é possível combater eficientemente o trabalho escravo no dia em que tomar- mos a terra dos escravagistas e colocá- los na cadeia. US: Mesmo com esse trabalho que tem feito, o senhor acha que conti- nuou o avanço ou houve alguma ini- bição nesse sentido? Ministro: O trabalho está sendo efi- ciente, na medida em que estão sen- tindo uma força contra eles. Essa força não existia antes. É como, se, de re- pente, você descobrisse, por outro la- do, qual é seu adversário e que você não pode atuar de uma maneira crimi- nosa o tempo todo. Realmente, acredi- to que tenha reprimido algumas des- sas ações. Acho que mais do que repri- midas, elas estão dissimuladas e conti- nua o trabalho escravo. US: Quais as barreiras oficiais ou ex- tra-oficiais que impedem ou que estão impedindo, por exemplo, a erradica- ção, o controle, pelo menos, desse tipo de prática? Ministro: O Ministério do Trabalho tem algumas força-tarefas que se cha- ma de grupos móveis do Ministério do Trabalho que atuam nessas áreas to- das. Agora, o que o Ministério do Tra- balho faz? Chega numa fazenda onde há escravos, trabalhadores escraviza- dos, e o que eles fazem? Ficam ali de
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE plantão,libertam esses trabalhadores, quatro ou cinco dias depois, numa negociação difícil com o empregador, libertam esses trabalhadores e vão embora e, na hora em que o grupo móvel dá as costas, eles contratam outros, levam outros para lá, outra leva e continua tudo como antes. E como levam esses trabalhadores do Nor- deste, principalmente, para lá? Levam o trabalhador, contratam esse traba- lhador lá nas cidades nordestinas, põem dentro de caminhões, de qual- quer transporte, levam para a selva. Esses trabalhadores não conhecem os caminhos da selva e quando chegam lá, os patrões estabelecem um critério que chamam lá de aviamento. O que é o critério de aviamento? O trabalhador já chega lá devendo muito dinheiro do transporte, da comida que comeu na estrada, no percurso, e já está devendo muito ao empregador. Lá compram em barracões do empregador. O em- pregador cobra o que quer por gêne- ros de primeira necessidade ou qual- quer coisa. Então, a vida deles é uma bola de neve, não pagam nunca, não é possível pagar! De maneira que ficam sem salário e sem condições de sair porque estão devendo e não conhe- cem também os caminhos de volta. US: Esse mesmo processo de avia- mento provocou a exploração e a es- cravidão na época da borracha. Ministro: Exatamente. US: O trabalho em regime de escravi- dão é uma constatação no setor priva- do, rural, em fazendas. Isso é também possível no setor público? Ministro: Não. Não conheço trabalho escravo no setor público. Falo no setor público dentro das estabilidades nor- mais, institucionais, porque o setor pú- blico tem uma fiscalização mais rigoro- sa, ou seja, não pode contratar sem concurso, não pode fazer certo tipo de coisa. Tal trabalho é mais na área priva- da, sobretudo na área privada em fazendas madeireiras. No entanto, em São Paulo, numa camisaria, foi consta- tada a existência de trabalho escravo. O pessoal (o sul-americano, os bolivia- nos, venezuelanos) era levado para essa camisaria paulista e ali era escra- vizado, vivia em regime de escravidão. Há coisas terríveis. Nós tivemos aqui dois trabalhadores que vieram fazer denúncias, contaram coisas terríveis que aconteceram lá, que estavam acontecendo com eles. Eram escravi- zados, apanhavam, dormiam ao relen- to, não tinham o que comer. Isso foi di- vulgado. Para se ter uma idéia, o gado comia a mesma ração que esses traba- lhadores escravizados. US: A televisão fez denúncias e o que foi feito nesse sentido? Ministro: Esses grupos móveis, como disse, chegam na fazenda e “libertam” o trabalhador. Vão embora. Eles vol- tam a trabalhar lá. Eles mesmo voltam porque não têm outra condição de tra- balho. Depois que o neoliberalismo implantou uma política de precariza- ção do emprego, o trabalhador está aceitando qualquer serviço para ga- nhar dinheiro. US: Uma das características do traba- lho escravo seria a falta, o impedimen- to deles saírem do trabalho. Estão pre- sos, não conseguem sair do trabalho. Como o senhor vê o caso das chama- das mucamas. No Nordeste, é muito comum pegar crianças, jovens, para serviço de babá, de empregada, e fi- cam o resto da vida ali. Às vezes, de- pois de muito tempo, passam a fazer parte da “família”. Isso não tem um as- pecto de trabalho escravo? Ministro: O trabalho escravo, em prin- cípio, é todo aquele que é desempe- nhado aquém dos limites éticos esta- belecidos, para não dizer jurídicos, que fica uma expressão mais vaga, no limi- te ético da CLT. Evidentemente que te- mos, no Nordeste, esse tipo de traba- lho, que é o trabalho infantil. Agora se estabelece uma diferenciação. Há fa- mílias nordestinas que criam pessoas, chamadas crias de família, ficam com essas crianças, põem nas escolas, fa- zem tudo e a criança ajuda nos deve- res de casa, nos serviços de casa. Mas entendo que isso é um trabalho infan- til e que deve ser proibido, porque a criança não terá um desenvolvimento normal, a partir da obrigação de fazer esse tipo de tarefa, mas isso é uma ou- tra história, a do trabalho infantil, pre- feria ficar, por enquanto, no trabalho escravo para não perder a bandeira. US: Quais os órgãos ou organismos nacionais e internacionais já aciona- dos ou envolvidos, no sentido de de- nunciar, combater, fiscalizar e punir os agentes desse tipo de exploração? Ministro: Na área pública, de atuação do governo federal, de maneira mo- desta, há esses grupos móveis de tra- balho. Para se ter uma idéia de como funcionam esses grupos móveis de trabalho, quando começamos a de- nunciar aqui, neste gabinete, a existên- cia do trabalho escravo e a Revista Veja publicou uma reportagem sobre o tra- balho escravo no Maranhão, numa de- terminada fazenda, de um determina- do político, eu recebi, em Natal, num momento que eu estava de passagem, uma visita de alguns inspetores do tra- 114 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Entrevista: Dr. Francisco Fausto
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 115 Entrevista: Dr. Francisco Fausto balho integrantes desses grupos e me disseram que não tinham condições de apurar as denúncias, estavam imo- bilizados, o Ministério do Trabalho não tinha nem mais gasolina nem dinheiro para diárias e mandou-os de volta para os seus respectivos estados. E me con- taram outros fatos, falaram sobre de- terminadas situações. Eu pedi que eles fizessem por escrito, não precisava as- sinar, pois eu não tinha como gravar aqueles relatos. Mandem-me, por es- crito, eu também não vou assinar, mas vou mandar para a imprensa apurar tudo isso e mandei para a Folha de São Paulo. A Folha de São Paulo apu- rou, viu que era verdade e denunciou. US: Para além de seu trabalho, seu combate a essa prática, que entidades também agem nessa mesma direção? Ministro: Nós não temos uma provi- dência segura sobre isso, na área pú- blica. Algumas ONGs fazem trabalho nesse sentido. Mas eu diria que o grande trabalho está na mão dos que fazem a Pastoral da Terra. Esse é um grande trabalho. Em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial, eu disse que louvava a atitude e o trabalho desses padres, eles recolhem na selva, nos seus desígnios, nos seus perigos, a co- ragem para enfrentar o problema. En- tão, são verdadeiros heróis desta bata- lha; no TST, nós somos coadjuvantes nessa peça sobre o trabalho escravo. Eles apenas fizeram referências ao Tri- bunal Superior do Trabalho e a sua atuação nessa área, mas sem dúvida nenhuma, parte deles, da Pastoral da Terra, do Ministério Público do Traba- lho e de algumas ONGs. É muito im- portante a ação da Pastoral da Terra no combate ao trabalho escravo. US.: O Brasil é referência como cam- peão na exploração do trabalho es- cravo. Existe um mapeamento, uma estatística, dessa problemática em ní- vel mundial? Ministro.: Não. Existe alguma coisa es- parsa, mas na verdade a grande inci- dência é no Brasil mesmo. Eu tenho receio de que, em junho deste ano, na OIT, tenhamos que enfrentar esse pro- blema, porque sem dúvida isso tem uma repercussão muito negativa para o Brasil. Vamos ter que mostrar o tra- balho e chegar lá e dizer: o TST está denunciando, a Pastoral da Terra está denunciando, a Justiça do Trabalho tem feito isso. E isso não é tudo. Teria de haver uma ação enérgica e só have- rá essa ação enérgica no dia em que tivermos uma Legislação enérgica. US.: Quais as ações que o senhor pre- tende desenvolver, daqui para a fren- te, a fim de combater, em definitivo, essa situação do trabalho escravo no país? Ministro: Eu pretendo ativar a vara do trabalho itinerante. Eu pretendo reno- var o meu apelo aos Tribunais Regio- nais do Trabalho para que dêem prio- ridade ao julgamento das ações civis públicas propostas pelo Ministério Pú- blico, contra o empregador escravagis- ta e pretendo continuar lutando no Congresso Nacional, fazer um lobby mesmo, pela aprovação do projeto do Senador Ademir Andrade, que deter- mina o confisco de terras, tal como ocorre com a plantação de maconha. Pretendo fazer tudo isso e farei isso com muita disposição, colocando o TST à disposição dessa luta. US: Quais os canais de divulgação, de conscientização da sociedade que de- vem ser acionados para conhecimen- to nacional desse problema? Ministro: O grande canal, não tenho dúvida, é a imprensa. Mas temos parti- cipado de vários seminários, encontros nacionais de procuradores, advogados, juízes e agora também no Fórum So- cial Mundial, em Porto Alegre, onde fiz uma palestra sobre o trabalho escravo e fiz algumas denúncias sobre essa questão. Eu não tenho dúvida nenhu- ma de que vamos continuar nessa luta e vamos ter êxito, porque a grande questão é a seguinte: quem pode aber- tamente dizer que é a favor do traba- lho escravo? Ninguém! E nós podemos dizer abertamente que somos contra o trabalho escravo, portanto, levamos uma vantagem muito grande sobre eles. Eles são uns marginais e nós não, nós somos a sociedade civil. US: Como o senhor vê a participação da universidade, já que ela pode se engajar nesse trabalho? Ministro: Acho que ela deve se enga- jar a partir da atuação dos professores, a partir da atuação dos alunos. Hoje, é preciso pesquisar, fazer levantamentos para chegarmos a um mapeamento de que precisamos, porque isso cresce muito, todo dia chegam denúncias. Devemos fazer a nossa parte com mui- ta coragem, é isso que eu chamo de vontade política. Quando eu falo em vontade política, não me refiro apenas ao governo, me refiro à sociedade de um modo geral. Ela deve ter vontade política para combater, para resolver esse problema. US: Nesse contexto, acho que seria im- portantíssimo o envolvimento das cen- trais trabalhistas. Ministro: Eu não tenho nenhuma dú- vida. Acho que as centrais trabalhistas devem começar a falar sobre isso, a
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE116- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Entrevista: Dr. Francisco Fausto denunciar essa questão, é muito im- portante, enfim, é um movimento. To- dos nós somos parceiros nessa luta, é um movimento integrado da socieda- de civil. Só assim poderemos comba- ter o trabalho escravo. Falta vontade política, faltou vontade política no go- verno anterior, poderia ter insistido na aprovação do projeto do senador Ade- mir Andrade. O projeto resolveria o problema. Ninguém quer ter suas ter- ras confiscadas. Faltou vontade política ao Congresso Nacional, pelo menos, da Câmara dos Deputados, que sequer deu resposta à solicitação que se fez e engavetou um projeto já aprovado no Senado Federal. Faltou vontade políti- ca, isso não pode continuar assim, não vai continuar. US: A primeira jornada de debates so- bre trabalho escravo no Brasil, com a participação de organismos interna- cionais como a OIT, propôs que tipo de resultado, encaminhamentos, para combater este problema? Ministro: Vamos deixar bem claro o seguinte: o que se propõe é o que es- tamos propondo: uma Legislação es- pecífica e rigorosa. Sem essa Legisla- ção específica e rigorosa, inclusive de- finindo competência - e eu estou plei- teando à Justiça do Trabalho a compe- tência para julgar matéria penal, por- que nós julgamos a matéria trabalhis- ta e a questão dos danos morais - não julgamos a matéria penal. Eu estou pleiteando, estou pedindo a compe- tência da Justiça do Trabalho para isso, mas é tão difícil. Quando eu propus a criação da vara do trabalho itinerante para combater o trabalho escravo, fiz isso pela TV. Na semana seguinte, re- cebi um convite do Ministério da Justiça para participar de um comitê. Não fui, mas mandei o meu assessor para o debate. Eram várias pessoas em torno de uma mesa como esta e todo o debate se centrou na minha denún- cia. E qual foi a conclusão? O presiden- te do TST deve mandar um projeto claro, definido e definitivo a respeito disso. E como fazer isso? O que tem que fazer? Tive uma semana para fazer isso. Ora, uma semana para preparar um projeto desse tipo. Então pedi ao Tribunal do Pará que fizesse um proje- to, porque conhece a situação da selva e eu não conheço. Como duvidava que o Tribunal do Pará fizesse aquilo em uma semana, pedi à minha asses- soria para bolar um projeto nesse sen- tido. Ficaram prontos, os dois chega- ram, em uma semana. O meu assessor participou da reunião e apresentou projeto concreto do Presidente ao TST. Eles leram o projeto, ficaram assim, olhavam um para o outro, e depois disseram o seguinte: bom, então va- mos tomar a seguinte providência: dentro de 40 dias, enviaremos uma comissão para estudar esse projeto. São uns loucos. É uma loucura. É pre- ciso fazer alguma uma coisa muito cla- ramente a respeito disso. Eu não te- nho dúvida, fico até surpreso, porque se há um homem que escreveu muito sobre o trabalho escravo, como soció- logo e não como presidente, foi Fer- nando Henrique Cardoso. Essa ques- tão do trabalho escravo, o combate deveria ter partido do governo, com todas as armas, inclusive na aprovação desse projeto. Porque, não tenha dúvi- da, empresário nenhum é sensível às liberdades civis, aos direitos dos traba- lhadores, nada disso sensibiliza o em- presário que escraviza. O que vai sen- sibilizar essa gente é a questão econô- mica, é tomar a terra, e, se possível, botar na cadeia. Se fizer isso, acredito no combate ao trabalho escravo. Sem essas medidas drásticas, não há possi- bilidade de se combater o trabalho es- cravo no Brasil. Nós não temos mais um pernambucano como Joaquim Na- buco, que abandonou a vitoriosa car- reira diplomática para ser advogado dos escravos no Brasil. Com toda a sua inteligência e cultura, ele sensibilizou a sociedade e conseguiu levantar gran- des feitos. Até na escravatura negra, tenho um livro sobre isso, partiu do Nordeste a libertação, a abolição, par- tiu do Nordeste, depois do movimento do Amazonas, que começou mesmo no Amazonas, seguiu-se no Ceará, no Rio Grande do Norte, e foi feita por questões econômicas. Porquê? Por que, com a seca de 1877, diversos fa- zendeiros nordestinos perderam tudo, começaram a vender tudo, o gado, e terminaram vendendo os escravos pa- ra os paulistas. Os paulistas ficaram com o trabalho escravizado, e o Nor- deste pagando salário aos trabalhado- res que tiveram que contratar. Então, começou o movimento de libertação dos escravos por conta da competição econômica com São Paulo. O que sen- sibiliza essa gente? Então, o que é que sensibiliza é a questão econômica. Se confiscarmos as terras e impusermos multas enormes, vamos acabar com o trabalho escravo. Tudo no Brasil só acontece por conta da impunidade. US: O senhor acaba de dizer que é difícil encontrar alguém que faça a defesa desse problema do trabalho escravo. Um Congresso que não é sensível, que tipo de interesse está por trás dessa insensibilidade? Ministro: Vou deixar isso a critério da sua e da minha imaginação. US: O Presidente Lula disse que ia co- meçar as reformas a partir de onde o Fernando Henrique tinha parado, es-
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 117 pecificamente, a Reforma do Judiciário. US: Como o senhor está vendo essa questão? Ministro: Nós tivemos um trabalho muito grande na Reforma do Judiciá- rio, até porque a Justiça do Trabalho passou por algumas situações difíceis com o projeto do deputado Aluísio Nu- nes, que extinguia a Justiça do Tra- balho, anexava a Justiça do Trabalho à Justiça Federal. Nessa época, eu fiz com Wagner Pimenta que era o presi- dente do TST - um grande trabalho de convencimento de deputados e sena- dores, fizemos até uma visita ao presi- dente Fernando Henrique Cardoso, que nos recebeu no Palácio do Alvora- da. Eu disse ao Presidente da minha insatisfação sobre anexar a Justiça do Trabalho à Justiça Federal. Isso não in- teressa à minha vocação para a Justiça do Trabalho. Temos uma história dife- rente, a nossa origem é muito bonita, ampliada pelo movimento político de Getúlio Vargas, com o apoio intelectual de um grande socialista que foi Joa- quim Pimenta. Passamos por situa- ções difíceis, a partir de 64, por exem- plo. Vários juízes do trabalho foram presos sob acusação de que só deci- diam a favor do empregado. Durante o regime militar, a Justiça do Trabalho foi o grande fórum para exercício da cida- dania do trabalhador brasileiro. Nós nunca deixamos condenar direitos que a CLT estava propondo, é claro que se encontra um juiz ou outro que claudi- ca. Em todas as áreas há isso. Mas de modo geral, a Justiça do Trabalho exer- ceu esse papel, tem história, tem des- tino e não pode acabar. Vamos enfren- tar esse problema de novo, não tenho dúvida nenhuma. Não acredito que a tese da extinção da Justiça do Trabalho volte com tanta intensidade, até por- que, politicamente, ela é muito impor- tante hoje, no país. Algumas questões que permanecem, como a questão de competência, da ampliação da compe- tência, porque não que- remos ter competência apenas no que diz res- peito à relação de em- prego, queremos ter competência no que diz respeito à relação de tra- balho, inclusive compe- tência para julgar o servi- dor público. Temos mais sensibilidade social para esse tipo de julgamento, porque o juiz do traba- lho tem uma grande diferença em relação ao juiz da justiça comum. Ge- túlio Vargas criou a Justiça do Trabalho e instituiu a representação classista. Porque é que ele instituiu a represen- tação classista? Por que o advogado é um homem do mundo político, um homem operador dos direitos da época, trazia todas aquelas idéias de Coimbra, aquelas idéias humanistas, em alto nível e provavelmente não iri- am compreender as situações regen- tes no Brasil com a industrialização que se iniciava. Daí, colocou os classis- tas para informar ao juiz sobre essa si- tuação de trabalhador. O juiz ia for- mando uma opinião, para propor a de- cisão. Essa é a origem da representa- ção classista. Foi por isso que a CUT pediu a representação classista. De- pois, a representação classista infeliz- mente degenerou. Degenerou por uma série de privilégios. Sou contra a flexibilização das Leis de Trabalho. Co- mo flexibilizar com um sindicato que temos? Entregar o sindicato ao poder da legislação do trabalho? Centenas de sindicatos foram criados somente para indicar o juiz do trabalho, não fazem outra coisa na vida. Outras centenas, muitas centenas, foram criadas apenas para receber os favores do imposto compulsório, atrelados ao governo, nada mais do que isso. O que aconte- ce? O juiz do trabalho é um pouco flo- riano na consciência, ele próprio tem uma consciência sociológica muito grande, hoje é especialista em sociolo- gia jurídica, que é o que pretendia Joaquim Pimenta. O juiz do trabalho decide a matéria trabalhista, que é pra- ticamente idêntica à do servidor. Eu sou um trabalhador como qualquer um, me considero um trabalhador, o privilégio da autoridade judiciária não me tira essa condição. Não sou um profissional liberal que ganha centenas e centenas de dinheiro, ganho um sa- lário fixo, tenho minhas obrigações etc. Então, é muito mais fácil à Justiça do Trabalho julgar esse trabalhador do que a justiça comum. O juiz da justiça comum tem mentalidade fazendária muito forte, nós não temos essa men- talidade, nossa mentalidade é traba- lhista. A mentalidade fazendária leva geralmente o juiz a decidir em favor do Estado. E não é esse o relacionamento com a Justiça do Trabalho. A Justiça do Trabalho prima pela justiça social, prin- cipalmente pela justiça social. Espero que ela continue fazendo isso pelo res- to do tempo. US: Um dos objetivos da Reforma Ju- diciária, posto já há algum tempo, in- clusive pelo senador Antônio Carlos Magalhães, era de agilizar os traba- lhos do judiciário. São famosos os pro- cessos que demoram anos e anos, perde-se até a rescisória. Nessa refor- ma, há algo previsto que venha a ace- Entrevista: Dr. Francisco Fausto
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    118 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 Entrevista: Dr. Francisco Fausto lerar o andamento desses procesos? Ministro: A reforma não vai acelerar processo. A reforma diz respeito à par- te institucional da justiça. Mas ela tem um dispositivo, pelo menos na refor- ma que foi aprovada na Câmara do Deputados. Estava no Senado. Agora parte-se do zero, voltou a zero. Há nela um dispositivo que diz que os Tribu- nais Superiores teriam uma competên- cia, uma iniciativa de lei junto ao Con- gresso Nacional. Hoje nós temos essa competência apenas no que diz res- peito à ampliação de cargos, de ação conjunta, de ação no Tribunal. Mas não temos competência na iniciativa legis- lativa. Não temos essa iniciativa para leis processuais, leis de direitos de tra- balho, nada disso. Quando pretende- mos alguma coisa que diz respeito à lei processual, encaminhamos o nosso anteprojeto ao Governo Federal. O Go- verno Federal examina e, se quiser, manda e, se quiser, não manda. Esse é que é problema. Então o que é que pensávamos fazer com esse dispositi- vo que nos dava essa competência? O grupo permanente de trabalho do TST iria fazer propostas de leis processuais que aceleram o andamento processu- al. Quando se fala: o processo demora quatro ou cinco anos, é bom que fique claro. Recebemos, em 1999 - cito 99 como uma referência, tivemos um pique de 2,5 milhões de processos em todo o país. Desses 2,5 milhões, 60% representam, mais ou menos, 1,5 mi- lhão que foram resolvidos imediata- mente, na primeira instância. Outros tantos foram arquivados, porque o re- clamante não compareceu. Isso é co- mum. O nordestino que está em São Paulo, está trabalhado, é dispensado, reclama. Quando chove no Nordeste, ele corre para lá e a reclamação dele vai para o beleléu. Outros tantos desis- tiram de qualquer recurso, ou foram alguns recursos para os Tribunais Re- gionais do Trabalho. Os Tribunais Re- gionais do Trabalho não levam esse tempo todo para julgar, mesmo São Paulo, que tem um acervo grande, leva um tempo razoável para julgamento de processo. O que demora? Os pro- cessos que chegam aqui são de gran- des casos jurídicos a serem decididos. Esses demoram um pouco, porque são teses jurídicas. Você não pode de- cidir a questão imediatamente. Requer exame, conversa, muitas vezes, deba- tes aqui no gabinete. Nós debatemos uma questão jurídica relevante, o que é isso, o que é aquilo, por que surgiu isso, aconteceu essa coisa. Aconteceu um fenômeno que atrapalhou o anda- mento processual. A Constituinte de 88 constitucionalizou os temas traba- lhistas. Colocou lá, na Constituição: aviso prévio, férias, décimo terceiro... isso deslocou o processo. A decisão fi- nal do TST vai para o Supremo Tribunal Federal. Então os processos vão para o Supremo, e, no Supremo, tome tem- po. O que é que está acontecendo? Eu despacho mensalmente cerca de 600 petições de recursos extraordinários para o Supremo Tribunal Federal. Pra- ticamente, não admito nenhum. Admi- to um ou dois, desses 600. O resto não admito. Às vezes, ele vem com um agravo de instrumento, aí, sim, tenho que mandar o agravo de instrumento para o Supremo. Mas o Supremo é contra a minha decisão que foi reab- sorvida do recurso, leva um tempão pa- ra decidir. Mas é um percentual míni- mo de processos. Questões trabalhis- tas, de modo geral, são resolvidas em primeira instância, na faixa de 60%. US: Que apelo o senhor faria à socie- dade brasileira em função deste qua- dro que envergonha o país, que é a exploração do trabalho escravo? Ministro: Eu diria que o combate ao trabalho escravo é uma missão de ci- dadania. Não vou dizer que é apenas uma missão do Governo Federal. Claro que o Governo Federal é responsável pelas ações oficiais. Ele é responsável, por exemplo, pelas ações policiais, pe- las ações do Ministério do Trabalho, mas todos nós temos responsabilida- de com isso. Eu diria que os juízes têm responsabilidade nisso, embora só possam atuar quando convocados. O poder judiciário só atua quando con- vocado, mas estou atuando sem ser convocado. Estou dizendo o diabo. O que eu posso dizer, digo; o que posso falar contra o trabalho escravo, falo. Mas acho que os professores das uni- versidades têm também um grande dever nessa área. Nas cadeiras de Di- reitos do Trabalho das universidades deveria constar algo sobre a dignidade do trabalho, um tema específico. O tra- balho escravo existe há muito tempo só que não era denunciado com tanta veemência como agora está sendo. O representante da Pastoral da Terra dei- xou bem claro, nesse congresso que compareci, no Fórum Mundial Social, inclusive fez elogio ao TST onde come- çou a ganhar vulto, no Brasil. Mas esse esforço não está derrubando, não está reprimindo, está dissimulando a exis- tência do trabalho escravo, porque é um trabalho de todos nós, não te- nham a menor dúvida. Diz respeito não apenas a direitos trabalhistas, diz respeito, principalmente, aos direitos humanos. * Antônio Ponciano Bezerra é professor doutor na Universidade Federal de Sergipe, 2º vice-presidente da Regional NE-III, do ANDES-SN, e editor da revista Universidade e Sociedade. Esta entrevista contou com a colaboração dos professores Almir Serra Martins Menezes Filho (ADURN), 3º tesou- reiro, do ANDES-SN; Antônio José Vale da Costa (ADUA), 1º vice-presidente da SR Norte II, do ANDES-SN, Encarregado de Im- prensa e Divulgação do ANDES-SN, e do jornalista do ANDES-SN, Luiz André Barreto. UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 121 Apresentação A vitória eleitoral do campo frente- popular no Brasil, liderado pelo Partido dos Trabalhadores, constitui um acon- tecimento político sem precedentes em nossa história. O exercício da pre- sidência da República por um ex-ope- rário e líder sindical seria algo espanto- so na maior parte dos países do mundo. O impacto subjetivo na cons- ciência das massas de uma vitória co- mo essa ainda não pode ser precisa- mente delineado. Contudo, naquilo que depender das diretrizes programá- ticas sustentadas ao longo de toda a campanha presidencial, assim como os apontamentos provenientes das mais diferentes administrações muni- cipais e estaduais, um governo petista, provavelmente, desenvolver-se-á mar- cado pelo signo do social-liberalismo. Por social-liberalismo entendemos um amplo movimento, em escala in- ternacional, da incorporação de pre- missas do neoliberalismo por tradicio- nais partidos de orientação social-de- mocrata. O respeito por parte destes às determinações dos “mercados” – esta verdadeira mistificação conceitual que procura obscurecer as estratégias e os mecanismos da exploração e da opressão capitalistas –, à contratualiza- ção do Estado burguês e às políticas Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Ruy Braga* Sob o signo do social-liberalismo: terceira via e modernização social
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE122- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência de estabilização estrutural compactua- das pelos fundos internacionais (FMI, Banco Mundial) produziu um curioso efeito político: a emergência tenden- cialmente hegemônica de uma espé- cie de “neoliberalismo mitigado” (cf., para mais detalhes, Husson, 2001). É possível identificar um número bastante variado de exemplos dessa conversão de partidos reformistas à ortodoxia liberal: o “Novo trabalhismo” inglês, o “Socialismo administrativo” francês e o “Novo centro” alemão, a despeito de sua pluralidade, apontam, há algum tempo, para o caminho que vem trilhando o “petismo” brasileiro. Com a vitória eleitoral de 2002, esse processo que baliza as prefeituras e os governos estaduais petistas tem tudo para elevar-se quantitativa e qualitativa- mente. É claro que com todas as dificul- dades impostas não apenas pela con- juntura da atual crise econômica mun- dial, como também pela “gestão” de um Estado em situação pré-insolvente. De qualquer maneira, a atual con- juntura econômica e política exige uma análise mais sistemática da teoria social-liberal. Tendo em vista esse pon- to, é importante verificar que a grande repercussão intelectual e política do livro de Anthony Giddens (1998) sobre a “Terceira Via” e motivado a retomada do debate a respeito do “sentido” do conceito e das práticas ditas “socialis- tas”, nos dias atuais. Democracia e mercados, Estado e economia, direita e esquerda, crise e reestruturação pro- dutiva, indivíduo e classes sociais. Um conjunto heterogêneo e articulado de grandes temas das ciências sociais res- surge, captado de acordo com o pris- ma do “social-liberalismo”. Mesmo le- vando em consideração o recente re- vés eleitoral do Partido Socialista fran- cês e o avanço de fundamentalismos direitistas – alguns com nítida orienta- ção neofascista – na Europa, é inques- tionável a importância desse debate no âmbito das alternativas à crise do neoliberalismo. Hegemonia neoliberal: “para além da esquerda e da direita”? Fenômeno internacional, tal crise – México (1994), França (1995), Sudeste Asiático (1997), Rússia (1998), Brasil (1999), Argentina (2001-2002) e, no- vamente, Brasil (2002) – descortinou uma conjuntura relativamente nova no cenário econômico e político interna- cional. Processualidade complexa e dissonante, o desgaste das estratégias dos fundos internacionais, os ataques aos direitos sociais, o desempenho econômico modesto, o desemprego e o enfraquecimento eleitoral daí decor- rentes conferiram um novo fôlego ao projeto da “moderna” orientação so- cial-democrata, na Europa e no Brasil. Se bem é verdade que a crise do neo- liberalismo condicionou o ressurgi- mento do debate sobre a terceira via, também é verdade que poucos se dão conta de que os principais eixos teóri- cos e políticos que sustentam o deba- te atual a respeito da modernização social-democrata debruçam raízes pro- fundas na conjuntura econômica e política dos anos 1970 e 1980. Nesse sentido, o objetivo deste arti- go consiste em apontar – ao contrário de grande parte da literatura que iden- tifica um “corte” em relação à tradição social-democrata, empreendido pelos teóricos contemporâneos da terceira via – que algumas das principais for- mulações presentes em Giddens (ibid.), por exemplo, correspondem a um amadurecimento tardio de posições teóricas e políticas já presentes na rup- tura eurocomunista com a tradição leninista. Em primeiro lugar, identifiquemos, sinteticamente, algumas dessas posi- ções que se encontram fortemente atuantes nas representações prove- nientes do debate atual. Renovado pela crise, o vocabulário da terceira via encontra-se profundamente marcado pela presença de valores – valor do in- divíduo, valor da ética, liberdade, soli- dariedade – que ocupam o espaço ou- trora reservado ao “valor”. O conceito de trabalho foi varrido do discurso re- formista à medida que antigas figuras da ordem produtiva assumiam um protagonismo quase inédito. Os pro- blemas são pensados exclusivamente em termos das necessidades do “em- prego” ou do “salário”. Limitado pela esfera do mercado do trabalho, o pro- jeto da terceira via vai sendo definido em torno da regulação do núcleo duro da materialidade capitalista, acrescido de supostos valores socialistas. Nesses termos, a terceira via apre- senta-se como um projeto e um pro- grama econômico, social e político, su- postamente eqüidistante tanto do libe- ralismo quanto do socialismo. “Para além da direita e da esquerda” pressu- põe tacitamente a social-democracia renovada pela hegemonia neoliberal. A resultante é clara: o socialismo ins- creve-se, formalmente, no horizonte histórico. Deve ser alcançado por meio de reformas progressistas negociadas com o capitalismo. No sistema dos sig- nos reformistas, só não há espaço para a revolução. Entre esta e o capitalismo, O vocabulário da terceira via encontra-se profundamente marcado pela presença de valores – valor do indivíduo, valor da ética, liberdade, solidariedade – que ocupam o espaço outrora reservado ao “valor”.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 123 intercala-se um caminho alternativo. Acumular forças e transitar pacifica- mente rumo a um socialismo indefiní- vel. A palavra-de-ordem é antiga. Suas contrapartidas também. Após os embates monetaristas dos anos 80, o Partido Trabalhista britânico foi pioneiro na estruturação e posterior difusão deste refinamento do neolibe- ralismo. Comentando a metamorfose do “Novo trabalhismo” inglês, Antunes entende que: “A ‘Terceira Via’ tem se con- figurado, portanto, como uma forma de continuida- de do que é essencial da fase thatcherista. Isso por- que, com o enorme des- gaste que o neoliberalismo clássico acumulou ao lon- go de quase 20 anos, era necessário buscar uma alternativa que preservas- se, no essencial, as meta- morfoses ocorridas duran- te aquele período. A vitória eleitoral do NL – Novo Tra- balhismo – de Tony Blair, no início de 1997, apesar de canalizar um enorme descontentamento social e político, já trazia em seu conteúdo programático a preservação do essen- cial do projeto neoliberal. Não haveria revisão das privatizações; a flexibiliza- ção (e precarização do trabalho) seria preservada e em alguns casos intensi- ficada: os sindicatos manter-se-iam restringidos em sua ação: o ideário da ‘modernidade’, ‘empregabilidade’, ‘com- petitividade’, entre tantos outros, conti- nuaria a sua carreira ascensional e dominante. O traço de descontinuida- de do NL em relação ao thatcherismo aflora ao tomar ele algumas decisões políticas – em verdade politicistas –, como o reconhecimento do Parla- mento na Escócia, mas que não se constituem num entrave para a conti- nuidade do projeto do capital britâni- co, reorganizado durante a fase neoli- beral. O NL que emergiu vitorioso no processo eleitoral de 1997, despojado de vínculos com o seu passado refor- mista-trabalhista, converteu-se no New Labour pós-Thatcher, ‘moderno’, defensor vigoroso da ‘economia de mercado’, da flexibilização do traba- lho, das desregulamentações, da ‘economia globalizada e moderna’, enfim, de tudo o que foi fundamen- talmente estruturado durante a fase clássica do neoliberalismo. Sua defe- sa do Welfare State, por exemplo, é completamente diferente daquela da social-democracia clássica. Tony Blair quer ‘modernizar’ o Welfare State. Po- rém, ‘modernizá-lo’ significa a des- truição dos direitos do trabalho, que são definidos por ele como ‘herança arcaica’” (1999, p. 97). O reformismo de ontem amparava- se fortemente numa base sindical po- derosa e ativa. A negociação coletiva conformando um compromisso social totalizado pelo Estado salarial regula- dor. Tal projeto, que teria vigorado sob a vigência do fordismo, padeceria sob o impacto da atuação conjunta da acu- mulação flexível, por um lado; e da de- sestruturação da classe trabalhadora empreendida pelo neoliberalismo, por outro. Nesse contexto, a terceira via acena com a bandeira da modernida- de como horizonte histórico: racionali- dade, realismo e progresso. O fim da União Soviética e o esgotamento do neoliberalismo abririam a possibilida- de de se repensar a transição sob o signo de uma social-democracia reno- vada pelo entendimento segun- do o qual a economia de merca- do traduziria modernidade e criatividade. Para tanto, os discursos teóri- cos e as práticas políticas devem ser capazes de se desvincular do ideal da igualdade social e afir- mar a prioridade da iniciativa in- dividual, como instrumento do progresso coletivo contra o pos- tulado obsoleto da propriedade coletiva dos meios de produção. Uma suposta harmonia essen- cial entre o capitalismo – cria- ção, inovação – e a democracia – valores da justiça, individualidade, passa a ser apresentada com a força de uma lei natural. Sobre esse terreno, a terceira via não pretende ser apenas uma plataforma eleitoral, mas uma teoria da economia e da política con- temporâneas. A teoria progressista possível de uma historicidade marca- damente pós-proletária. Socialismo e democracia: a ruptura eurocomunista É possível localizar os antecedentes imediatos dessas representações na conjuntura da crise capitalista dos anos 1960-1970. No início dos anos Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência A terceira via acena com a bandeira da modernidade como horizonte histórico: racionalidade, realismo e progresso.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE124- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência 1970, começam a transparecer, no âm- bito mesmo da social-democracia eu- ropéia e por intermédio de teóricos re- formistas, sinais de uma verdadeira in- quietação em face do socialismo ad- ministrativo e planificador que, supos- tamente, traria “cada vez mais Estado”, bem como as marcas de uma descon- fiança crônica diante das burocracias de todo tipo. A legitimidade do Estado – suposta força motriz do progresso – como também a capacidade de dire- ção da burocracia esclarecida foram colocadas à prova pelas massas insur- gentes, naquele famoso biênio de 1968-1969. A roda da história, aparentemente travada pelos esforços reformistas, pa- recia emitir sinais de um movimento renovado: a temporalidade fraturada das lutas surpreendia o culto sonolen- to dos partidários do progresso. Es- sencialmente, o planejamento recalca, mas é incapaz de suprimir a contradi- ção. Esta, por vezes, emerge acompa- nhada da multiplicidade de sintomas próprios de um pesadelo que insiste em retornar. Nesse sentido, o final dos anos 1960 testemunha, em grande medida, a força da organização de um operário-massa que ousa se insurgir contra cadências infernais e autorida- des burocraticamente constituídas.1 A Leste, tanto quanto a Oeste, o Estado salarial regulador acusa o golpe: “Enfado de seu discurso, degenera- ção burocrática de suas organizações, evolução de suas práticas de compro- misso em direção ao comprometimen- to, corrupção de alguns de seus diri- gentes: se o compromisso fordista asse- gurou, num certo sentido, o triunfo do modelo social-democrata do movimen- to operário, também precipitou seu de- clínio e criou algumas das condições de sua crise posterior. Particularmente, ele o tornou incapaz de se adaptar às no- vas formas da luta do proletariado oci- dental que resultam do próprio fordis- mo” (Bihr, 1998, p. 51). Diagnósticos e representações teó- ricas dos campeões reformistas euro- peus não cessaram de surgir. Estaría- mos diante da crise de uma determi- nada reestruturação da sociedade ca- pitalista, que teve seu desenvolvimen- to mais característico nos Estados Unidos dos anos 1930 e que, depois da derrota do nazifascismo, foi se ex- pandindo em toda a área do Ocidente. Ingrao (1981) aponta para a crise de um “modo de ser da sociedade capita- lista”, datado e determinado.2 No cerne da crise, encontramos o planejamento estatal: “modelo capitalista predomi- nante nos últimos 50 anos”, segundo Bihr (ibid.). Com a crise, teria desapa- recido também o quadro internacional que havia tornado possível aquela reestruturação: “A reestruturação capitalista, que definimos com o nome de Estado as- sistencial, não pode ser reduzida a uma operação apenas econômica de reequilíbrio entre produção e consu- mo, após a grande catástrofe da crise de 1929. Ele teve como meta repropor uma idéia de progresso e regenerar uma capacidade do capitalismo de ex- pressar uma ‘racionalidade’ geral” (idem, ibid., p. 12). O novo tipo de relação entre eco- nomia e Estado teria constituído um projeto por meio do qual a racionalida- de da grande empresa capitalista de- veria ser estendida à sociedade, ade- quando-a e reordenando-a. Chamado de Welfare State, a argumentação ia além da perspectiva do bem-estar, implicando a garantia do emprego, ou seja, de um trabalho definido, junta- mente com a proposta de um tipo de Estado capaz de reconstruir uma representatividade geral da sociedade. Esse grande arranjo social organizado sobre a base do compromisso social, envolvendo setores expressivos das di- reções políticas do proletariado e cen- trado na capacidade de direção da burguesia – caso dos países imperialis- tas – ou da burocracia soviética, havia sido questionado na raiz. Um novo movimento em direção à recomposição das forças reformistas advindas de um compromisso insus- tentável politicamente deveria, acima de tudo, resguardar as premissas de um socialismo democrático, tendo o parlamento à frente distante tanto das contradições engendradas pelo capita- lismo monopolista quanto dos impas- ses experimentados no Leste Euro- peu.3 O tema da terceira via reformista recolocava-se sob a roupagem do eu- rocomunismo.4 A democracia social defendida por Bernstein contra o su- posto blanquismo bolchevique e o fer- rolho liberal apresentou-se como uma alternativa a Leste e a Oeste. A ruptura eurocomunista em relação à tradição leninista, associada à crise do planeja- mento estatal, havia descortinado um novo horizonte para as iniciativas dos progressistas. É interessante notar que os apelos eurocomunistas pela construção de uma alternativa socialista e democráti- ca – apelo esse solenemente declara- A ruptura eurocomunista em relação à tradição leninista, associada à crise do planejamento estatal, havia descortinado um novo horizonte para as iniciativas dos progressistas.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 125 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência do, em Moscou, durante as comemo- rações dos 60 anos da Revolução de Outubro, por Berlinguer, na qualidade de secretário-geral do então Partido Comunista Italiano – ao capitalismo te- nha sido precedido em cinco anos pela publicação alemã do livro A ter- ceira via, de Ota Sik (1978). Na condi- ção de antigo ministro da economia na época do governo de Dubcek, poucos intelectuais estariam tão habilitados a falar em socialismo democrático quan- to esse ex-militante do Partido Comu- nista tcheco-eslovaco. E ele o faz, prio- ritariamente, por meio de uma ampla argumentação em torno das relações envolvendo a democracia, o mercado e o plano. A modernização social entre o mercado e o plano O ponto de partida é bastante sim- ples. Para Sik, a transição sem demo- cracia e mercado está fadada ao fra- casso. A superação da divisão da socie- dade entre homens “com interesse no capital” e outros “com interesse no salário” deveria partir da subsunção do consumo espontaneamente surgido no mercado a fins macroeconômicos, estabelecidos democraticamente e a longo prazo, isto é, “fixados num pla- no”. Os dilemas da transição resolver- se-iam por meio da democratização do plano. Fazer avançar o progresso das forças produtivas implicaria a acei- tação da proeminência do mercado, no que diz respeito à capacidade de mobilizar e identificar as necessidades sociais que devem ser debatidas pelos gestores. Antes de mais nada, o Estado deve ser capaz de reconhecer a proe- minência da eficácia mercantil: “A crítica das condições da produ- ção capitalista não passa, porém, de uma crítica verbal se não se diz ao mesmo tempo como é que elas po- dem ser superadas na realidade, sem despejar a criança juntamente com a água do banho. Senão, em vez de combater a produção exclusivamente determinada pelo mercado, luta-se contra o próprio mercado, que é in- substituível; em vez de se recusar a ânsia do lucro privado, que gera dife- renças de poder econômico e político, condena-se o princípio do lucro e da eficácia, em vez de se procurarem caminhos e meios para poder equili- brar democraticamente e conformar humanamente a evolução das neces- sidades humanas, prega-se a necessi- dade de uma educação contra o con- sumo” (Sik, 1978, pp. 52-3). Nem comunismo soviético, nem capitalismo: a modernização social – tanto a Leste, quanto a Oeste – é per- cebida por intermédio da combinação progressista entre mercado e plano. Os interesses inerentes à democratiza- ção do planejamento estatal envolve- riam tanto os produtores técnico-eco- nômicos5 quanto a massa crescente da população ativa que não executa tare- fas produtivas, isto é, cientistas, peda- gogos, estudantes, pessoal médico, trabalhadores da informação, artistas. Tais setores seriam fundamentais para a modificação da linha de consumo social, pois tomariam rapidamente consciência do “absurdo que represen- ta o consumo individual no mercado, exagerado e unilateral”, quando da insuficiência dos meios para a “satisfa- ção urgente” das necessidades sociais (Sik, 1978).6 Evidentemente, argumenta Sik, “já não se trata aqui da ‘classe operária’” (ibid.). Deveríamos aceitar, “com Mar- cuse e outros, que a classe operária, em condições de capitalismo tardio industrialmente avançado, deixa de ser um sujeito histórico da revolução” (idem, ibid., p. 50). O balanço asseme- lha-se, em grande medida, aos infor- mes pioneiros daquilo que, logo em seguida, ficaria conhecido como o de- bate sobre a crise do trabalho. A análi- se das necessidades e dos interesses, assim como dos respectivos portado- res, levaria ao reconhecimento segun- do o qual “novos estratos progressistas surgem na sociedade”, vinculando seu destino à transformação social mais ampla (idem, ibid.). A transição deve ser pensada com base neste suposto novo patamar descortinado para o progresso. A reivindicação modernizadora de Sik, segundo a qual, para fazer avançar o progresso, sob a direção do princípio da eficácia mercantil,7 é necessário de- mocratizar o plano, antecipa, em gran- de medida, uma parte substantiva do debate eurocomunista. Afinal, se a cri- se exige uma reconstituição das tare- fas, as saídas para o processo da crise demandam alterações progressistas no âmbito dos aparelhos de hegemo- nia do Estado.8 Afinal, qual a viabilida- de de um projeto político de retomada do progresso distante da instância totalizadora dos conflitos sociais, capaz de erigir-se, ao mesmo tempo, como árbitro, gestor e promotor da justiça? Terceira via: o Estado como alternativa Como sempre, a alternativa deve ser buscada no Estado: se a legitimida- de da planificação soberana parece Se a crise exige uma reconstituição das tarefas, as saídas para o processo da crise demandam alterações progressistas no âmbito dos aparelhos de hegemonia do Estado.
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    acentuadamente questionada –daí as preocupações levantadas por Sik – é porque o sistema hegemônico não to- taliza mais como deveria. Dito de outra maneira, o Estado distanciou-se do pú- blico, tornando-se uma potência hostil aos interesses democráticos. Que a oportunidade aberta por esta crise de legitimidade seja aproveitada para a renovação do “Estado do conjunto dos assalariados”, capaz de descentralizar suas práticas democráticas, viabilizan- do uma saída progressista para a crise. Do valor aos valores, a refundação do Estado salarial permitiria vislumbrar os caminhos da transição: “Vi que nos foi ministrado um con- selho para que não subestimássemos as experiências realizadas pelos regi- mes social-democratas. Mas do que resultaria – falo naturalmente de hoje, não de ontem – essa subestimação da nossa parte? Aliás, no que se refere ao acesso contínuo, polêmico – por que não? – debate sobre o significado dos eventos destes 30 anos, coube mais de uma vez a nós, comunistas – e al- gumas vezes apenas a nós! – recha- çar as interpretações que os viam co- mo uma seqüência de derrotas, como uma longa falência da esquerda de- pois da chamada ocasião perdida de 45: e, inclusive as realizações social- democratas na Europa, nós as vimos e discutimos como reflexo e resposta a um avanço das massas, a um desloca- mento progressista da situação. (...) A tese que expus, nesta entrevista, é que o Welfare State ou modelo assistencial – no qual a social-democracia euro- péia desempenhou um tão grande papel –, ou como se queira chamá-lo, não falava apenas de salário, de casa ou de postos de trabalho, coisas todas de maior importância, mas falava também de valores, da igualdade da pessoa, de qualidade de vida. De mo- do algum houve subestimação! Essa interpretação é aceita? Pois bem: se é aceita, e essa é a questão, então co- mo ver que tal perspectiva foi hoje golpeada? E eu, de nenhum modo, fico alegre com tal coisa. Mas é ou não verdade que isso abriu proble- mas e interrogações agudas sobre a estratégia e sobre as perspectivas das constelações social-democratas?” (Ingrao, 1981, p. 89). A necessidade de restaurar um no- vo ciclo de disputas por espaço, no in- terior de um aparelho de Estado capi- talista em recomposição, definiria o campo da ação para os partidos refor- mistas europeus. Apesar de o euroco- munismo não se constituir como um bloco de partidos ligados por vínculos organizativos, argumenta Ingrao, as novas tarefas definidas pela conjuntu- ra demandariam uma maior integra- ção das lutas e das investigações “tan- to dos partidos comunistas entre si quanto em suas relações com outras forças democráticas e de esquerda” (ibid.). Um projeto, inconcluso, é ver- dade, mas capaz de modernizar o ideário e balizar a prática socialista, re- novando a adaptação reformista em relação às estruturas do capital: “Também visto por esse ângulo, o somatório estático das forças não dá frutos. Não se trata de vender aos ca- maradas espanhóis uma receita nova, ou de importar para nós uma receita da França. Trata-se de pôr realmente em discussão a nossa experiência re- cíproca, e, portanto, de nos expor ao debate, à crítica, à investigação fora do esquema que diz: cada um em sua casa faz o que bem quiser” (idem, ibid., p. 96). Para tanto, uma nova racionalidade produtiva solidária e hegemonizada pela figura da negociação deveria ser capaz de prevalecer sobre os modelos liberais difundidos pela reestruturação do aparelho produtivo em curso. O diagnóstico aponta para tendências orgânicas da recomposição do mundo do trabalho, tais como transformações tecnológicas que reduzem o peso da força de trabalho, e um desenvolvi- mento dos sistemas de automação e dos mecanismos de informática; fenô- menos extensos de descentralização produtiva; uma ampliação da área do trabalho não regulamentado. Os desdobramentos da reestrutu- 126 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência O sistema hegemônico não totaliza mais como deveria. Dito de outra maneira, o Estado distanciou-se do público, tornando-se uma potência hostil aos interesses democráticos.
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    Mercantilização do SetorPúblico: Educação e Previdência ração liberal do aparelho produtivo são captados sob o signo do “risco” engendrado sobre o desenvolvimento econômico sustentado. A incapacida- de apresentada pela crise do capital em gerar mais e melhores empregos para as classes trabalhadoras, articula- da à decomposição da rede de prote- ção social tecida pelo Estado salarial, constituem os principais obstáculos para a retomada da iniciativa dos refor- mistas. Restaurar o progresso alternati- vo às exigências mercantis implicaria, entre outros, equilibrar eficácia e eqüi- dade num amplo modelo capaz de ori- ginar acordos tão favoráveis à classe trabalhadora quanto os que vigoraram ao longo dos “Trinta gloriosos” do pós- guerra. Uma nova arquitetura econômica deveria emanar dos esforços restaura- cionistas cujo eixo se encontra centra- do na figura – desgastada, mas nunca sepultada – do compromisso social. Se a crise traduz uma situação difícil e complexa para as forças do progresso, seu próprio peso definiria, ao mesmo tempo, as necessidades de uma nova aliança capaz de afinar os instrumen- tos que garantam o desenvolvimento e a qualidade dos investimentos. Com uma pitada de inovação social seria possível recriar locais onde os “sindica- tos, o patronato e o governo se encon- trem e assumam compromissos não apenas no que se refere às platafor- mas reivindicativas, mas também no que se refere aos investimentos” (idem, ibid.).9 Um sistema de contrapartidas no sentido da democratização do espaço produtivo deve ser produzido: como em Giddens (ibid.), a idéia diretriz de um compromisso progressivo que acompanhe a evolução das estruturas do capitalismo permanece balizando as propostas de saída para a crise. Afinal, bloquear a iniciativa operária no interior da fábrica abriria um espaço incontrolado para a dinâmica da orga- nização do trabalho e da reestrutura- ção tecnológica que, na empresa mo- derna, “tem um caráter quase contí- nuo e obrigatório e que, de certo mo- do, vai além da vontade do próprio pa- trão” (idem, ibid.). Se essa dinâmica não for obrigada a confrontar-se com uma “contratua- ção conflitual”, não só o operário “per- derá armas e posições” mas se sentirá ainda mais “reduzido apenas a salário” (idem, ibid.). Porém, nesse caso, como se poderá demandar ao operário que raciocine como “produtor” e, ainda por cima, como produtor que preza suas relações globais com as outras cama- das sociais, com o conjunto do país? A problemática reformista não cessa de buscar um ponto de equilíbrio entre as partes conflitantes capaz de restaurar a dinâmica de conjunto das estruturas da ordem do capital. Uma suposta economia solidária parece emergir deste esforço em articular eficácia e eqüidade: “Vamos lhe pedir (ao operário) que pense; fazemos votos para que pense. Mas, se for coagido a se sentir apenas como ‘salário’, pensará no outro irmão em termos de ‘salário’, ou, se se quiser, de ‘posto de trabalho’, ou seja, conti- nuará no interior de um horizonte limi- tado à fábrica, ou, no máximo, de um horizonte corporativo. E, diante dessa concreta dinâmica social, nenhum pacto estimulado se manterá. (...) E termina-se por golpear a experiência mais interessante que surgiu – sobre- tudo na Itália – a partir dos tormento- sos eventos desses 15 anos: o proces- so de continuidade que se estabele- ceu entre a luta pelo salário, pela de- fesa da própria qualificação, ou da saúde ou do tempo de trabalho, e as lutas pelas reformas na sociedade e no Estado” (idem, ibid., pp. 106-7). Eis a tônica do discurso: se o velho modelo em crise renova o dilacera- mento do tecido social, os reformistas, ao contrário, objetivam a recomposi- ção. Os sindicatos deveriam, então, ser reconvocados para integrar um amplo “processo de formação contínua que evite que o trabalho manual apareça como um ‘gueto’ eterno” (idem, ibid.). Para tanto, seria preciso reorganizar o papel da escola, os aparelhos da admi- nistração pública, as formas da cultura, do saber. O próprio processo de inova- ção tecnológica deixaria de ser visto fragmentariamente, “empresa por em- presa”. Em suma, recompor significa programar o desenvolvimento, se não burocraticamente; de modo democrá- tico. A grande panacéia persiste.10 A ênfase na democratização solidá- ria da economia produz apreciações equivocadas, no que diz respeito à social-democratização da reestrutura- ção produtiva. Foram as tais “puras relações privadas” – que a reação neo- liberal dos anos 1980 e 1990 vigorosa- mente difundiu, deixando marcas pro- fundas na própria Europa Ocidental –, as vitoriosas no embate “público x pri- vado”. Nem economia solidária nem programação democrática, como é sa- bido. Os esforços reformistas por ence- tar uma democracia organizada no coração do mundo do trabalho rees- truturado redundaram numa subsun- Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 127UNIVERSIDADE E SOCIEDADE A cena da história assumiu uma tonalidade marcada pela difusão do processo de mundialização do capital cuja dinâmica fez vergar a espinha dorsal da maioria das sociedades nacionais.
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    Mercantilização do SetorPúblico: Educação e Previdência ção ainda maior do proletariado: “Deve-se ver, então, como introdu- zir um princípio de regulamentação que evite tanto o centralismo burocrá- tico quanto a fragmentação corporati- va. Por isso, parece-me justo falar de uma democracia organizada como via para construir novas formas de racio- nalidade pública e uma programação que penetre no interior da sociedade. (...) Todo o problema da programação deve ser repensado, começando-se a dizer claramente que ele não é ape- nas um fato técnico, de números, de contas e de previsões quantitativas, porém um envolvimento cada vez mais amplo de sujeitos sociais, de su- jeitos coletivos, de massas que pas- sem a contar no governo do desenvol- vimento econômico e social” (idem, ibid., p. 115). Considerações finais Sem dúvida, os anos 1980 foram os anos da estruturação hegemônica do neoliberalismo. A cena da história assumiu uma tonalidade marcada pela difusão do processo de mundialização do capital cuja dinâmica fez vergar a espinha dorsal da maioria das socieda- des nacionais. Um impulso extra ad- veio da crise e do posterior sepulta- mento das “sociedades do Leste”, as- sim como do dilaceramento e da de- fensiva do movimento operário mun- dial, atingido em cheio pela pacifica- ção proveniente do desemprego de massas e da reestruturação produtiva em curso. “Ajustes estruturais” e “revo- luções informacionais” minaram o ter- reno de uma história que nos anos 1960 havia deixado em aberto o hori- zonte das possíveis soluções para a “grande crise”. O pensamento e a prática reformis- tas não poderiam passar imunes a um processo dessa magnitude. Por entre supostas crises de identidade do pen- samento progressista à esquerda, o processo adaptativo em relação às es- truturas capitalistas próprio à raiz refor- mista do movimento operário não ces- sou de se renovar. Coerentemente, a cada rodada do jogo adaptativo e au- to-acomodativo, o programa da es- querda reformista rebaixou seu hori- zonte histórico. Se em Bernstein, por exemplo, as vias são irracionalismo re- volucionário ou socialismo evolucioná- rio, em Ingrao, o problema coloca-se por meio da disjuntiva: “reestruração liberal” ou “nova racionalidade produ- tiva solidária” sustentada por um Es- tado radicalmente democrático. O raciocínio é elíptico: no momento mesmo em que o Estado parece irre- mediavelmente enfermo, a alternativa deve ser buscada no Estado! Capaz de descentralizar suas “práticas democráti- cas” e garantir a viabilidade de uma saída progressista para a crise, o Estado regulador proposto pelo reformismo permitiria prefigurar as vias da transi- ção. Do valor aos valores: o problema da transição não se localiza na revolu- cionarização das relações capitalistas de produção. O terreno privilegiado en- contra-se sedimentado pela difusão ca- da vez mais ampliada dos valores de- mocráticos. Na radicalização dessa li- nhagem de raciocínio, inscreve-se o de- bate sobre a terceira via dos dias atuais. Ao que tudo indica, o governo pe- tista buscará, acompanhando a trajetó- ria recente de parte da esquerda euro- péia social-democrata, se constituir como a alternativa por excelência en- tre aqueles que defendem a passivida- de da classe trabalhadora diante da exploração – o bloco de poder articu- lado pelo governo de Fernando Hen- rique Cardoso –, por um lado, e os par- tidários das lutas de classes – o MST e integrantes de correntes políticas pe- tistas e não-petistas de esquerda, por outro. Simétricos na recusa à negocia- ção, neoliberais e “esquerdistas” en- contrar-se-iam enclausurados numa compreensão estreita das possibilida- des abertas ao crescimento com esta- bilidade pelo compromisso social no crepúsculo de um período histórico marcado pela crise contemporânea. No bojo da crise do projeto societá- rio neoliberal, os acordos oriundos da institucionalização do conteúdo das lutas sociais garantiria espaço para um novo enfoque do problema da “exclu- são social”. Os conflitos não mais se- riam dissolvidos pelo “gerenciamento monetário” dos acólitos mercantis, nem a sociedade seria subvertida pela radicalização das lutas. Negociar um novo contrato social capaz de superar a exclusão social, evitando, com isso, o extremismo dos “partidários” da vio- lência classista. Se, por um lado, é possível localizar profundas diferenças entre a trajetória da esquerda reformista européia – e suas representações teóricas – e a tra- jetória política petista, por outro, é im- possível deixar de notar paralelismos e convergências significativas. Sobretudo quando pensamos no programa de governo do PT e nas recentes medidas econômicas promulgadas pelo minis- tro da fazenda, Antônio Palocci. Não queremos dizer com isso que o gover- no Lula será uma espécie de “cópia” de experiências políticas reformistas recentes. Nem que as iniciativas do no- vo governo no sentido da “consertação social” derivam de um “modelo” pro- 128 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE O governo petista buscará, acompanhando a trajetória recente de parte da esquerda européia social-democrata.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 129 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência gramático importado da Europa. A ri- gor, o programa petista localiza-se à direita de várias das políticas reformis- tas européias. Mas, do “Novo trabalhis- mo” inglês ao “Socialismo administrati- vo” francês, passando pelo “Novo cen- tro” alemão, não deixa de ser possível vislumbrar no passado recente euro- peu algumas indicações interessantes a respeito do futuro do governo Lula. Notas 1. “A explosão deu-se no final da década de 60 e no início dos anos 70, sob a forma de uma onda de lutas proletárias que não pou- pou nenhuma das formações capitalistas desenvolvidas. Essas lutas anunciavam os li- mites históricos do compromisso fordista. Es- sa explosão tomou basicamente a forma de uma verdadeira revolta do operário-massa contra os métodos tayloristas e fordistas de produção, epicentro das principais contradi- ções do processo de massificação” (Bihr, 1998, p. 59). 2. “Convém precisar que a reestruturação ca- pitalista, cujas dificuldades registramos hoje, não foi apenas uma operação econômica; ao contrário, foi caracterizada por novas formas de conexão e articulação entre processos pro- dutivos e processos políticos, entre economia e Estado” (Ingrao, 1981, p. 11). 3. “E o eurocomunismo, a meu ver, trabalha sobre a seguinte hipótese: um processo de- mocrático que muda o Estado, um desenvol- vimento da democracia que rompe o cupulis- mo e o isolamento do Estado. Uma hipótese que não ficou nos livros, que esteve no inte- rior de muitas lutas. (...) Às vezes encontro alguém que me explica que minha teimosa insistência no papel das assembléias políticas eletivas, a começar pelo parlamento, é um fato ‘arcaico’. Conheço e vivo diretamente as dificuldades e os defeitos dessas assembléias. Mas surgiu até agora uma outra instituição que realize uma ‘transparência’ melhor no confronto e nas decisões e, por conseguinte, permita melhor o indispensável acordo como o movimento da sociedade civil?” (idem, ibid., pp. 65-7). 4. Seguindo Mandel, entendemos por euroco- munismo “(...) uma codificação da evolução que sofreram os partidos comunistas da Eu- ropa ocidental a partir do VII Congresso do Komintern e que os conduziu – fora os curtos interregnos de Setembro de 1939 à primave- ra de 1941 e na época da guerra da Coréia – a praticar uma política de colaboração de clas- se, sempre mais estreita, com a sua própria burguesia” (1978, p. 45). 5. “Esses produtores perguntam hoje, de forma cada vez mais clara, por que razão há de a evolução das empresas ser decidida por proprietários do capital distantes e por que não há de o desenvolvimento do capital ser assegurado com base na própria mais-valia, sob a forma de capital coletivo, sendo as res- pectivas decisões tomadas por órgãos eleitos pelo coletivo da empresa. (...) Quanto mais claramente se desenvolver no plano teórico, a idéia de uma participação no capital e, depois, de um capital coletivo, adaptando-se às con- dições específicas de cada país, tanto maior será a sua eficácia política” (idem, ibid., p. 49). 6. “Com base neste interesse, eles tornam-se os mais ativos defensores de uma conjugação moderna do mercado e do plano, os partidá- rios da realização de um quadro de planifica- ção macroeconômica, por meio da qual se es- tabeleça a proporção fundamental entre o consumo individual no mercado e o consumo social institucional” (idem, ibid., p. 49). 7. “Tal significa que, em abstrato, a sociedade é obrigada a assegurar, com a quantidade de trabalho de que dispõe (que corresponde à quantidade de força de trabalho existente multiplicada pelo tempo de trabalho legal- mente estabelecido), a satisfação mais com- pleta possível das necessidades. Esta necessi- dade econômica universal se realiza, em cada momento dos diversos estádios históricos de desenvolvimento social, por intermédio de diferentes relações de produção e mecanis- mos econômicos. Destes, o mais generalizado e mais duradouro é o mecanismo de merca- do, que, apesar de todos os seus defeitos e imperfeições, ajuda a garantir uma utilização efetiva do trabalho na sociedade. O sistema de planificação dirigista do comunismo não está em condições de substituir esse mecanis- mo imperfeito do mercado pois o trabalho utilizado nesse sistema – embora não seja hu- manamente menos intensivo e menos exi- gente – não atinge a eficácia da economia de mercado” (idem, ibid., p. 55). 8. “Considero que, em nosso tempo, estejam abertos grandes problemas de liberdade. Duvido muito de que eles possam encontrar respostas recortando-se espaços na socieda- de civil e neles se barricando em contraposi- ção ao Estado. Isso se tornou insuficiente, até mesmo impossível, inclusive para um organis- mo como o sindicato. Não creio que a socie- dade civil seja, por si só a esfera da liberdade; não creio que a autonomia e a criatividade da sociedade civil possam hoje se desenvolver sem se empenharem na transformação do Estado” (Ingrao, ibid., p. 68). 9. “Veja, não quero agora me pôr a discutir sobre a praticabilidade efetiva de um entendi- mento desse tipo, sobre a possibilidade de garantias reais nem mesmo sobre a correção institucional de organismos tripartites desse gênero. Todavia, não são questões de pouco peso; e faço votos para que o debate e o apro- fundamento delas siga em frente” (idem, ibid., p. 106). 10. “Na reorganização da relação escola-traba- lho; numa gestão controlada da mobilidade do trabalho; numa programação da renova- ção tecnológica, que não reste fechada ape- nas ao horizonte da fábrica; numa reavaliação de todo uso e articulação do horário de traba- lho; numa reforma do salário que supere cer- tos institutos corporativos. (...) O raciocínio que estávamos desenvolvendo buscava o de- senvolvimento de uma racionalidade nem apenas quantitativa e setorial, nem caída de cima, de um centro único. (...) Falávamos de uma programação democrática, como algo mais do que um programa central que recebe um consenso da base” (idem, ibid., p. 114). Referências Bibliográficas ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do tra- balho. São Paulo: Boitempo, 1999. BIHR, A. Da grande noite à alternativa: o movimento operário europeu em crise. São Paulo: Boitempo, 1998. GIDDENS, A. A terceira via. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. HUSSON, M. Le grand bluff capitaliste. Pa- ris: La Dispute, 2001. INGRAO, P. Crise e terceira via. São Paulo: Ciências Humanas, 1981. MANDEL, E. Crítica do eurocomunismo. Lis- boa: Antídoto, 1978. SIK, O. Argumentos para uma terceira via. Coimbra: Livraria Almeida, 1978. * Ruy Braga é doutor em Ciência Sociais pela Unicamp e professor de teoria socio- lógica da PUC- Campinas. É autor de, entre outros, A restauração do capital: um estu- do sobre a crise contemporânea (SP: Xamã, 1997) e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da socieda- de salarial (SP: Xamã, 2003).
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    No entanto, nãofoi esta a opção do novo governo, que passou a inves- tir, por meio dos pronunciamentos na imprensa e articulações institucionais, na reforma da previdência. É verdade: ainda não há projetos do governo so- bre a previdência; nada de concreto ainda se fez. Mas, não podemos es- quecer que este debate é feito sob a batuta da Emenda Constitucional nú- mero 20 e dos PL 8, 9 e 10 (dois deles já aprovados) que dão as bases institu- cionais legais para a privatização da previdência, no Brasil. Os pronunciamentos dos vários líderes do governo na imprensa tam- bém pouco ajudam. Em geral, tratam a previdência como um problema e não 130 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Eduardo Alves “A doutrina materialista sobre a alteração das circunstâncias e da edu- cação esquece que as circunstâncias são alteradas pelos homens e que o próprio educador deve ser educado. Ela deve, por isso, separar a sociedade em duas partes – uma das quais é colocada acima da sociedade. A consciência da modificação das circunstâncias com a atividade humana ou alteração de si próprio só pode ser apreendida e compreendida racional- mente como práxis revolucionária”. Karl Marx Uma proposta para a reforma da Previdência 1. Situando o debate Assim que o governo toma posse e escolhe seu primeiro ministério, já é anun- ciada a prioridade das ditas reformas: a previdência. É claro que tal decisão é, no mínimo, complicada. Primeiro que era esperado, por parte dos setores populares organizados, que a reforma escolhida como mais importante e priori- tária fosse a tributária. Isto por razões muito simples: é necessário taxar as gran- des riquezas; iniciar um processo de divisão de renda na sociedade; acabar com a sonegação; retirar apenas das costas dos assalariados a responsabilidade com tributos; responsabilizar o empresariado pelo investimento e manutenção do país. Ou seja, aproveitar da vitória da classe trabalhadora, nas últimas elei- ções presidenciais, para apresentar uma pauta absolutamente distinta da que vinha sendo imposta pelo neoliberalismo. Isto seria um “sinal importante” de mudanças.
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    como um dosmais importantes direi- tos conquistados pela classe trabalha- dora. Parece, com o ritmo e tonalidade de suas declarações, que os membros do governo estão tocando a mesma música e continuam com o mesmo diapasão dos últimos dez anos. Espe- ramos, com sinceridade, que esta rea- lidade se altere o mais rápido possível. É necessário dizer que a classe tra- balhadora nunca foi – e não pode ser – contra as reformas, principalmente as feitas em governos populares; de frente populares; democráticos popu- lares; sociais democratas. As reformas são instrumentos para fazer avançar a consciência e qualidade de vida do conjunto dos trabalhadores, reverten- do, assim, o curso predominante do capital, em cada período histórico. Neste sentido, para falar de reformas hoje, é necessário que se reverta as tendências de privatização, precariza- ção, esgotamento da natureza etc1 . Não sendo revertidas as tendências que estão em curso desde o último período, se acabará aplicando uma contra-reforma, ou seja, alterações ne- cessárias que o próprio capitalismo tem que fazer para desenvolver o curso adequado, em cada momento. Hoje, com o advento neoliberal, é necessário reduzir direitos; reduzir in- vestimento do Estado em políticas so- ciais, em pessoal e na própria proprie- dade estatal; comprometer os estados nacionais com o repasse e fuga de capitais por meio do pagamento da dívida; reduzir, ao máximo, a soberania nacional (ou mesmo acabar), permi- tindo que o capital entre sem tarifas, fronteiras ou satisfações nas nações dominadas que sejam de interesse do imperialismo. Quaisquer políticas que venham reforçar estas tendências ser- virão para implementar contra-refor- mas e não para desenvolver reformas. Certamente que a idéia geral de reforma, neste sentido, é muito bem vinda e exige a constituição de um amplo debate com a população, por meio dos setores organizados. Até que uma proposta chegue no parlamento, principalmente levando em conta a correlação de forças ainda predomi- nante no Congresso, faz-se necessário envolver grandes massas na discussão e aprofundar, ao máximo, os diversos pontos de vista. Ação esta que, além de politizadora, permitirá que se tenha uma proposição com força hegemôni- ca real e que seja impulsionadora, por meio do esclarecimento e da participa- ção, das mais amplas mobilizações. Agindo desta forma, o governo estará dando sinais de mudanças, indepen- dente do tempo que leve para as coi- sas serem realmente diferentes. É necessário dizer, no entanto, que os sinais dados até agora pelo governo Lula, não são dos mais animadores, muito pelo contrário. Mesmo esperan- do que um Governo de Frente Popular, já constituído por meio de uma alian- ça com a burguesia, seja, conseqüen- temente, montado pelos limites de sua formação, algumas ações não pre- cisariam existir. Primeiro, as nomea- ções: no Banco Central, um coman- dante de confiança do Bank of Boston e do FMI, que ganha uma “aposenta- doria milionária” – às custas do repas- se das dívidas – e defende a autono- mia do Banco Central (um dos fatores fundamentais para continuar a aplica- ção do modelo neoliberal no Brasil); no Ministério do Desenvolvimento, um empresário que é devedor do BNDES e que aplicará sua prática acumulada na SADIA; no Ministério da Agricultura, um latifundiário que é contra a refor- ma agrária e, por várias vezes, já mani- festou sua intransigência radical ao MST. Em segundo lugar, destaca-se o aumento dos juros, exigência do mer- cado (leia-se banqueiros; empresários de oligopólios, multinacionais, trans- nacionais; latifundiários; especulado- res). Em terceiro, está a recente altera- ção do superávit primário que passou para 4,25%, representando cerca de 68 bilhões (o que indica que haverá de ter mais cortes por parte do Es- tado2 ). Devemos adicionar ainda as várias declarações na imprensa, mesmo sa- bendo que não se tratam de altera- ções concretas na realidade e nem, ne- cessariamente, daquilo que realmente pretende ou pensa o governo (levando em conta o compromisso da imprensa com o capital). No caso da previdência, tais decla- rações acenam na continuidade de to- das as mudanças iniciadas pelo gover- no de FHC, por meio das alterações legais/institucionais que ele iniciou. Corre-se o risco, portanto, de não ha- ver absolutamente nenhuma modifica- ção na ordem vigente. Pior, há uma tendência de se prolongar a contra- reforma que foi aplicada durante todo o governo passado. Ou seja, são modi- Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 131UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência É necessário dizer, no entanto, que os sinais dados até agora pelo governo Lula, não são dos mais animadores, muito pelo contrário.
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    ficações na superestruturapara maio- res ajustes ao próprio sistema do capi- tal. Tanto a opção para iniciar as cha- madas “reformas” quanto o conteúdo – ainda em fase de divulgação e pro- paganda – apontam para o prolonga- mento da ordem. Isto significa dar con- tinuidade ao curso neoliberal que foi enfraquecido pelo conteúdo das elei- ções. Este debate ganha, neste sentido, centralidade na conjuntura: ao mesmo tempo em que os setores populares (sindicalistas classistas, socialistas, intelectuais críticos, “lutadores do po- vo”) se colocam em uma situação de defesa intransigente dos direitos con- quistados, passam a ter o desafio de serem impulsionadores de reformas e não de mantenedores da ordem. Esta não é uma equação simples, ao con- trário, indica que tende haver uma ampliação da já complexa luta de clas- ses em curso. Mas, o debate deve ser bem situa- do. A reforma da previdência não é apenas uma negociação coletiva cor- porativa (sem qualquer demérito a esta tarefa). Trata-se, necessariamente, de um debate que atinge toda a socie- dade, por meio do qual se pode cons- truir sistemas ainda mais comprometi- dos com o capital ou sistemas que façam avançar os direitos e a consciên- cia da classe. Isto porque a previdência é um dos mais importantes direitos conquistados dentro do capitalismo. É, digamos, um pacto de vida, no qual trabalhadores em pleno exercício de sua força de trabalho ajudam, de for- ma solidária, a sustentar os trabalha- dores que hoje gozam do descanso. Portanto, uma conquista fundamental de prolongamento e melhoria da vida. Neste sentido, a participação ativa e organizada no debate e nas ações sociais, políticas e de massas que exis- tirão no percurso, é uma tarefa funda- mental: deve ser pauta obrigatória das entidades operárias e populares; deve ser aberta a participação de milhões de pessoas. Sabemos bem que a previdência é um direito para quem trabalha. Neste sentido, não é um direito do “cidadão”, mas, sim, da classe. Devemos ter clare- za de sua importância e, por conse- qüência, da importância do debate. E mesmo sabendo que é um debate que todos devam se envolver, tal envolvimento não se dará pelo mes- mo motivo. Enquanto os interesses do capital – e dos representantes do mer- cado – serão o da privatização da pre- vidência, os interesses dos trabalhado- res serão o da universalização da mesma, permitindo que todos que possuem apenas a força de trabalho para vender tenham acesso a este direito. A participação ativa é, portanto, o meio de se constituir um modelo ainda mais avançado do que o que hoje existe no Brasil: uma previdência pública, solidária e por repartição. Mas, para isto, é de fundamental importância ter clareza das diferenças entre os problemas internos e exter- nos à previdência. Muitos dos proble- mas citados até agora como corrup- ção, sonegação, desvio de dinheiro, falta de controle do caixa previdenciá- rio, altos salários etc., não são proble- mas internos à previdência, são exter- nos. São produtos da formação social patrimonialista e autoritária, na qual a burguesia, por dentro do Estado, o uti- lizou para agencializar os seus negó- cios. Tais problemas para serem resol- vidos não demandam reformas e, sim, atitudes do governo em: investigar e punir os responsáveis. As tão divulga- das “aposentadorias milionárias” são facilmente resolvidas, cumprindo a de- terminação do teto salarial determina- do pelo salário do Presidente da Re- pública. Que se cumpra então a lei, tanto para aposentados como para ati- vos acabando assim com os reais privi- légios. Somam-se, ainda, a estes proble- mas, problemas que podemos chamar de “em torno da previdência”. Aqui destacamos os baixos salários; a pre- carização dos direitos trabalhistas; o orçamento da União; o desemprego; pagamento da dívida; concentração de renda; relação entre ativos e aposenta- dos (e pensionistas) no serviço públi- co; enfim, vários problemas que atin- gem a previdência – também por fora – mas que são produto – principal- mente – do neoliberalismo. Não pode- mos também confundir: tais proble- mas não demandam reforma da previ- dência e, sim, um conjunto de medi- das e reformas em todas as esferas que, com certeza, daria sobrevida e fôlego ao sistema previdenciário. Por fim, há os verdadeiros proble- mas da previdência. Estes, sim, preci- sam ser superados. Há descontinuida- de de caixa, herança dos vários institu- tos que foram se fundido até se chegar no INSS; há uma cultura de não paga- mento da “contribuição previdenciá- ria”; há os fundos de pensão (previ- dência complementar aberta e fecha- da), já em andamento, previstos na Emenda Constitucional 20; há um con- junto de informações que não batem, desajustadas, encobertas, que devem 132 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Muitos dos problemas citados até agora como corrupção, sonegação, desvio de dinheiro, falta de controle do caixa previdenciário, altos salários etc., não são problemas internos à previdência, são externos.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 133 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência se tornar transparentes para toda a população; há modelos descontínuos em estados, municípios etc. que de- sorganizam e variam com a previdên- cia; há o problema da inexistência de um caixa de previdência no Regime Próprio dos Servidores Federais e na grande maioria dos municipais e esta- duais; há o não recolhimento do esta- do. Enfim, estes são os variados pro- blemas que enfrentamos e que po- dem ser corrigidos, mas nada que é tão urgente assim, pois, se os proble- mas que aqui chamamos de “exter- nos” e “em torno” fossem resolvidos a situação atual estaria equilibrada. Mas, diga-se de passagem, dois atos, especificamente sobre a previ- dência, trariam bons sinais e, em nos- sa opinião, estes, sim, devem ser con- siderados urgentes: o questionamento da lógica da Emenda Constitucional 20, buscando sua revogação e a retira- da (ou arquivamento) imediata do PL 09 (que amarra o conjunto de medi- das privatistas). O primeiro não é da alçada do governo, apesar de ele, com certeza, poder manifestar-se sobre o assunto. O segundo, no entanto, está ao seu alcance. Os projetos de leis complementares são prerrogativas dos governos e, portanto, o mesmo pode apresentar ou retirar na hora que de- sejar. Esta ação combinada com um prazo maior para a discussão daria um sinal positivo para o conjunto dos tra- balhadores. Melhor ainda se forem alteradas as prioridades e o debate so- bre as reformas – como aparentava em toda a campanha – iniciar pela re- forma tributária, no lugar da previden- ciária. 2. Os problemas em torno da previdência A previdência social no Brasil, co- mo já dissemos, vive, mais precisa- mente, o que podemos chamar de “problemas em torno”, em vez de pro- blemas próprios do sistema previden- ciário. Vamos utilizar algumas informa- ções quantitativas para explicitar nos- sas críticas e elaborar algumas consi- derações sobre o assunto. Trabalhare- mos aqui com informações orçamen- tárias e outras referentes ao Regime Geral e ao Regime Próprio – privilegia- remos o serviço público federal, pois cada esfera governamental é respon- sável por seus beneficiários da previ- dência. Além disso, trabalharemos a questão do distanciamento entre em- prego formal e informal (no setor pri- vado); a disparidade entre ativos e aposentados (e pensionistas) no setor público. Por fim, faremos menção à enorme concentração de renda que predomina no país – fato que deve ter, imediatamente, um tratamento sério, por meio de uma taxa superior às grandes riquezas. 2.1. A questão orçamentária O orçamento de 2003 é emblemá- tico. Houve um crescimento nas des- pesas, do orçamento de 2002 para o orçamento de 2003 de R$ 359.122.587.971,00, ou seja, 55,21%. O orçamento que havia sido de R$ 650.409.607.960,00, em 2002, chega, em 2003, com o valor de R$ 1.009.532.195.931,00. Tal diferencia- ção, por sua vez, não encontra peso, ao menos, proporcionalmente igual, entre os dois orçamentos. O gasto com pessoal e encargos sociais cres- ceu 12,96%; o gasto com “serviços públicos” (chamado de outras despe- sas líquidas) cresceu 4,32%; enquan- to isto, os investimentos sofreram um decréscimo de -58,35% e os serviços da dívida ampliaram em 101,09%. A ampliação dos serviços da dívida, que correspondeu a R$ 339.809.090.035,00, se ficasse no pa- tamar de 83% de crescimento, ou seja, R$ 279.409.090.035,00, seria possível cobrir o déficit anunciado pelo Ministério da Previdência (60 bi- lhões e 400 milhões de reais). Não são apenas estas as demons- trações de uma análise mais detida do orçamento. A peça orçamentária prevê um reajuste de 4% para os servidores públicos federais, em 2003, mas com dinheiro em caixa – segunda a infor- mação – para um reajuste apenas de 2,5%. O restante dependeria de pro- mover a sobretaxa dos aposentados e pensionistas para poder arrecadar e gastar. Ou seja, cria-se, mesmo no or- çamento uma série de justificativas pa- ra “repassar” os servidores para o mo- delo Geral da Previdência (o que é ab- solutamente diferente de constituir
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE134- Ano XII, Nº 29, março de 2003 uma única caixa previdenciária). A primeira lição destas cifras é a necessidade de rompimento de contra- tos. Somos adeptos da suspensão do pagamento da dívida, mas, como podemos ver, mesmo a redução dos percentuais representaria uma possibi- lidade de crescimento, em todos os as- pectos, tanto do ponto de vista do in- vestimento social do Estado, quanto dos direitos trabalhistas. O segundo en- sinamento é que o orçamento é utiliza- do para forçar medidas que atuem no caminho da privatização e da precariza- ção dos direitos adquiridos. Ou seja, não se discute o “engessamento” dos valores (reais ou irreais) destinados aos encargos da dívida, mas busca-se res- ponsabilizar o pagamento dos aposen- tados e pensionistas pela capacidade de reajuste do conjunto dos servidores. Esta é mais uma armadilha que, neces- sariamente, deve ser evitada. 2.2. Trabalhadores do setor privado e do setor público: precarização e distorções Podemos ainda fazer uma compa- ração do problema que existe no Ser- viço Público Federal. Entre 1991 e 2001, houve um crescimento absurdo da relação entre aposentados/pensio- nistas e ativos, em todo o serviço pú- blico. Em 1991, os trabalhadores apo- sentados e pensionistas representa- vam 33% dos servidores públicos fe- derais. Este percentual, em 2001, pas- sou para 52%. Ou seja, houve uma queda de 67% de contribuintes para 48%. Além disso, houve um peso de gastos que ampliaram 1,75 (vezes) em relação ao que era antes. Cabe registrar, no entanto, que estes números que aqui divulgamos, retirados do Boletim de Pessoal edita- do pelo MPOG, em dezembro, são ab- solutamente incompletos e parciais. Estimamos hoje que há, entre os ditos ativos, cerca de 40% de terceirizados, contratos provisórios, convênios, con- sultores etc. Isto significa que o núme- ro de contribuintes para o Regime Pró- prio passa a ser, na verdade, de 30% e não de 48%, como os números pare- cem apresentar. A queda é ainda mai- or frente ao aumento dos gastos. Além disso, esta situação cria problemas ain- da maiores, tendo em vista que os tra- balhadores precarizados não possuem “costume” de contribuir com a previ- dência, fazendo com que o problema chegue também no Regime Geral (já que estes trabalhadores, que não são regidos pelo Regime Próprio, pagam ao INSS – se pagarem). É evidente que estes números pos- suem gargalos em alguns setores no serviço público. Os servidores ativos da Administração Direta, das autarquias e fundações, passaram de 67%, em 1991, para 43%, em 2001. Além de es- ta distorção gerar um problema de atendimento, já que neste período a população cresceu 40%, cria também uma redução da capacidade de sus- tentação dos aposentados e pensionis- tas. Problema que fica ainda maior se levarmos em conta que, no Regime Próprio de Previdência Social, não há a contribuição do patronato (que sone- ga o desconto) e há uma confusão de caixa, pois, o arrecadado se junta com os gastos gerais (mas este é um deba- te próprio da previdência). Ainda com o problema de caixa, com os dinheiros desviados, corrompidos e desapareci- dos pelo meio do caminho da história previdenciária brasileira, a despropor- ção tende a se ampliar. Se a proporção ao menos se mantivesse, os tais “défi- cits” anunciados seriam cerca de 39% dos pretensos números atuais (divul- gados pelo novo Ministério da Previ- dência). No Regime Geral da Previdência, tal problema não é muito diferente. No ano de 1990, os trabalhadores com carteira assinada correspondiam a 57,7% dos ocupados e, em 2002, vão representar apenas 45,5%. Houve uma queda de 13,7% da representa- ção dos que realmente contribuem com a previdência, visto que o sistema atual não é universal, ou seja, não con- segue atingir o conjunto dos trabalha- dores. Observa-se que há um cresci- mento dos trabalhadores sem carteira assinada que passam, nesta época, de 19,3% para 27,8% e aqueles que tra- balham por contra própria passaram de 18,5% para 22,6%. São números assustadores, motivados pelos mes- mos contratos com FMI que amplia- ram os valores da dívida. Acrescentam- se a esse quadro os cerca de 20% de desempregados – segundo os cálculos aproximados do Ministério do Traba- lho – existentes no país. Voltamos a dizer: a cultura de direi- to imediato leva os trabalhadores pre- carizados a não contribuírem para a previdência. Os direitos da previdência necessitam uma visão de longo tempo (algo em torno de 30 anos para frente e para trás) e uma visão de conjunto (pois o modelo coletivo, que pretende- mos solidário) supera a idéia de direi- to individual. Isto exige uma ampla campanha, fazendo com que se atinja a consciência do conjunto dos traba- lhadores e de seus dependentes. A estimativa é que para cada trabalhador Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 135 aposentado, há cerca de 2,5 pessoas que dependem indiretamente deste direito. Isso atinge, portanto, muito mais pessoas do que o número exato de pessoas que recebem pensões e aposentadorias nos dois regimes. 2.3. Sonegação, corrupção e concentração de renda Cabe registrar ainda as sonegações dos empregadores, a corrupção exis- tente no caixa do INSS e a alta concen- tração de renda, concentração esta que aparece também no INSS, afinal, 65% dos beneficiados com a previ- dência, no Regime Geral, recebem até um salário mínimo. Ou seja, isto repre- senta cerca de 35% do dinheiro da previdência, os outros 65% arrecada- dos (somados ao tal “déficit”, é claro) vão para 35% dos beneficiários do re- gime. Isto ainda tem impacto de outros valores. Fala-se hoje de um valor apro- ximado de 150 bilhões de reais de dí- vida ativa, apenas de sonegação. Isto significa mais que o dobro do divulga- do “déficit”. Ao ser verdade, o déficit não existe e, sim, uma total incapaci- dade do governo de fazer valer os compromissos com o patronato de, um lado; e de uma hiper disposição de romper contratos com os trabalhado- res aposentados e pensionistas. Isto não é um problema da previdência, mas do próprio governo. Além disso, um problema de tributação – que uma reforma tributária ajudaria muito em resolver. Nos últimos dias, foram divulgados casos de corrupção na previdência, no Rio de Janeiro. Todos sabem da exis- tência de corrupções e que a cada nova investigação se encontram novos corruptos e novos valores de “dividas ativas”. Às vezes, a identificação destes problemas ocorrem, inclusive, por acaso. Não por meio de uma investiga- ção decente, mas, sim, por cruzamen- to de várias informações bancárias, do Imposto de Renda etc. Novamente, voltamos a dizer, que o governo deve reforçar o papel do Ministério Público e ampliar as investigações. Além disso, cobrar os que devem. Somente estas atitudes, sem precisar de qualquer re- forma no setor. No entanto, o problema mais sério seria o de fazer qualquer ligação entre o crescimento da expectativa de vida dos brasileiros e o problema da previ- dência, para justificar, de forma cínica, sua desregulamentação. Os levanta- mentos que constam no “Diagnóstico dos Sistema Previdenciário”, publicado pelo atual Ministério da Previdência aponta um crescimento populacional de 15,6%. Deste valor total, as pessoas entre 0 e 59 anos aumentaram 22%, enquanto que as pessoas com 60 anos ou mais ampliaram 35,6%. Há também uma nítida queda da natali- dade apresentada por números gerais que passou de 50.988.432, em 1991, para 50.266.122, em 2000. Esta varia- ção não pode e não deve ser tratada como um entrave, ao contrário. Manter uma eqüalização entre a natalidade e número de idosos é um desafio para qualquer nação ou governo, mas, o fundamental, nesta seara, será sempre a capacidade de ampliar a expectativa de vida da população. A previdência ocupa papel central para o alcance deste desafio e é necessário, para isto, recuperar o conceito de seguridade so- cial, unificando a previdência com a saúde e assistência. No caso da concentração de renda, as informações disponíveis são assus- tadoras3 . Em 1998, os empregadores somados aos grandes gerentes e ad- ministradores do capital detinham 33,8% do total da renda nacional e representavam 13,2% da população. Já o conjunto dos trabalhadores (car- teira assinada, informais, autônomos, etc) que representavam 72,2% da população economicamente ativa, possuem 47,9% da renda nacional. Es- ta distorção amplia quando pensamos que 54% dos desempregados pos- suem até 24 anos. Não há como negar que o desemprego somado à concen- tração pesa sobre a previdência, pois, o aposentado acaba tendo que sus- tentar um número cada vez maior de pessoas, principalmente jovens que não encontram espaço no mercado de trabalho. Levando em consideração que estes são os números de 1998, o que dizer da situação nos anos de maior aperto e desenrolar da crise: 1999, 2000, 2001 e 2002? Como podemos ver, muitos dos problemas divulgados como da previ- dência são, na verdade, problemas do país. Uma situação que nos persegue na história, fazendo com que sejamos sempre o “país do futuro”. Situação in- felizmente aprofundada com a aplica- ção do neoliberalismo - expressão atu- al do capitalismo – que marcou toda a década de 90 e ainda não teve seu curso definitivamente interrompido. Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Como podemos ver, muitos dos problemas divulgados como da previdência são, na verdade, problemas do país. Uma situação que nos persegue na história, fazendo com que sejamos sempre o “país do futuro”
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE136- Ano XII, Nº 29, março de 2003 3. Discutindo a previdência: uma alternativa pública, solidária e por repartição 3.1. Um balanço necessário Há dois fatores centrais que levam os neoliberais a investirem na privati- zação da previdência, em todo o mun- do. O primeiro é que o “negócio previ- dência” está hoje computado entre os cinco mais lucrativos do planeta. O se- gundo é que o desvencilhamento da previdência por parte do Estado repre- sentará menos investimento em servi- ço público, maior possibilidade para os ajustes fiscais e, como conseqüência, o crescimento do chamado superávit pri- mário. Justamente por isto, o governo de FHC não vacilou e preparou o terre- no para que todas as alterações fos- sem feitas. Destaca-se, neste sentido, a aprovação da Emenda Constitucional 20, de 1998, que alterou tempo de ser- viço por tempo de contribuição e criou condições para duas mudanças centrais na linha do Consenso de Washington: a ampliação das carteiras privadas de pre- vidência e o fim da previdência especí- fica dos servidores públicos. Com formatos distintos, a desregu- lamentação do direito previdenciário chegou tanto aos países que viveram as “benesses” do Estado de Bem-Estar Social quanto aos que não consegui- ram ultrapassar os modelos “desenvol- vimentistas”. A França se mobilizou contra as mudanças, a Inglaterra so- freu variadas alterações e, podemos di- zer, que a máxima foi implantada no Chile. O modelo destruidor e já falido do Chile, imposto pelo governo militar, privatizou completamente a previdên- cia e obrigou o Estado a assumir o ônus do rompimento de contrato dos bancos privados de previdência. Na Ar- gentina, a reforma neoliberal de 1994 foi uma das principais causas do colap- so econômico e social pelo qual passa hoje o país. Portanto, devemos enfren- tar esse debate no Brasil, tendo clare- za dos rumos hegemônicos que a questão tomou diante do mundo. Mas não é hora apenas de resistir: temos esperança de estarmos vivendo um tempo de avanços. Há distorções e problemas na pre- vidência brasileira, como há em toda a esfera pública estatal que viveu os lon- gos anos de patrimonialismo estatal e, a partir da década de 90, conheceu uma espécie de patrimonialismo priva- do que veio se consolidando pelas pri- vatizações e por meio das terceiriza- ções progressivas. Estas, sim, são as distorções que devem ser resolvidas. Logo, a previdência merece, sim, uma grande REFORMA, assim como todos os setores: tributário, judiciário, admi- nistração pública, educação, saúde, etc. Porém, uma reforma para ampliar os direitos, retomar a capacidade de investimento e ação do Estado, supe- rar os problemas estruturais do Brasil e acumular no caminho da superação metabólica do capital. Quaisquer outras mudanças seriam para prolon- gar o capitalismo que, nesta época de crise profunda, prolongada e estrutu- ral, significará a aproximação contínua à barbárie. Sem dúvida, é hora de con- quistar novos direitos. Inclusive, se fôs- semos eleger, por ordem de priorida- de, as reformas necessárias, diríamos, sem hesitar, que a mais importante se- ria a TRIBUTÁRIA. É necessário acabar com as sonegações; retirar o bolsão de impostos que pesa sobre o setor mé- dio; taxar as grandes riquezas; ampliar o crescimento com desconcentração de renda. Esta, sim, faria crescer o nível de emprego, melhorar as condições de vida e aumentar a circulação de mer- cadoria (como desejam os defensores do mercado de massas). Contudo, não é isto que vem sen- do apontado. Ao eleger a reforma da previdência como prioritária e divulgar as mudanças futuras com o mesmo conteúdo do governo passado, o go- verno de Lula indica a possibilidade de dar continuidade à longa estrada de retirada de direitos. O pior é que de- monstram ou um total desconheci- mento sobre os problemas ou mesmo uma total adesão à idéia de solucionar os problemas por meio da extinção de direitos (como é feito com as privatiza- ções). Para isto, o diagnóstico dos pro- blemas existentes na previdência são fundamentais. No geral, os problemas internos que existem na previdência são: cor- rupção; desvios de verbas; patrimonia- lismo e concentração (cerca de 66% de aposentados utilizam aproximada- mente 30% do fundo). Há, no entanto, problemas específicos e externos que atingem qualquer sistema público de previdência, dentre os quais se desta- cam o desemprego e a concentração de renda. As grandes taxas de desem- pregados impedem a continuidade de um ciclo vigoroso de solidariedade, no qual ativos de hoje possam a sustentar os ativos de ontem. Já a concentração de renda torna a previdência um negó- cio atraente e inibe a possibilidade de aposentadorias justas. Do ponto de vista específico, podemos dizer que os servidores públicos vivem o problema de um caixa que, ao misturar as ver- bas, permitiu que o dinheiro se disper- Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE sasseem todo tipo de investimento e se criasse uma realidade na qual os cerca de 65% de aposentados não podem ser mantidos pelos ativos exis- tentes (principalmente porque o di- nheiro arrecadado historicamente se perdeu). O diagnóstico é, sim, uma peça fundamental para que possamos de- senvolver políticas de alteração favorá- veis aos trabalhadores. Ou seja, com este diagnóstico, saídas como as que estão sendo apontadas tornam-se absurdas. Para resolver o problema da previdência, é necessário um controle maior do Estado e da sociedade orga- nizada sobre o caixa, a arrecadação, a administração das verbas e de todo sistema previdenciário. Além disso, é necessário vencer o desemprego, tan- to no setor público quanto no privado, permitindo uma inversão das condi- ções. Medidas enérgicas para descon- centrar renda, ou seja, para taxar rique- zas, seriam também fundamentais. Aí, sim, com tais mudanças e com a ga- rantia de uma previdência pública, uni- versal, solidária e por repartição, pode- ríamos falar em Reforma. Por enquan- to, infelizmente, o governo atual não conseguiu sair do campo das “contra- reformas”. A previdência no Brasil se divide em três regimes gerais: RGPS – Regi- me Geral de Previdência Social; RPPS – Regime Próprio de Previdência So- cial e o Regime Complementar (priva- do). Os trabalhadores regidos pela CLT, contratos provisórios ou terceirizados (ou qualquer outro tipo de precariza- ção) contribuem compulsoriamente (se possuem carteira assinada) ou vo- luntariamente (se não possuem cartei- ra assinada). No primeiro caso, a con- tribuição, para o INSS, oscila entre 7,5% até 11% (aplicado aos trabalha- dores individuais) sobre um valor aproximado de 7,5 salários mínimos – R$ 1.561,56 (independente do salário do contribuinte), valor máximo que, em contra partida, podem receber do INSS quando aposentados. No caso das empregadas domésticas, a contri- buição das trabalhadoras é de 7,65%, e no caso dos trabalhadores por conta própria (ou que decidem contribuir in- dividualmente), mas não possuem a contribuição do empregador, o valor é de 20%. Se quiserem algo a mais, pre- cisam constituir um título de previdên- cia privada. Além disso, estes trabalha- dores, quando não contribuem com o carnê e, sim, por descontos diretos no contrato de trabalho, contam com a contribuição dos patrões. Sobre o tempo de contribuição (A MP 20, de 98, transformou tempo de serviço em tempo de contribuição), os celetistas – ou quem paga o carnê – devem contri- buir, para aposentadoria integral, du- rante 30 anos, no caso das mulheres, e durante 35 anos, no caso dos homens. Já os servidores públicos, lotados no Regime Próprio de Previdência Social, possuem características absolu- tamente distintas: contribuem com ba- se no valor total dos salários; não con- tam com a contribuição patronal do Estado (que sonega) e não possuem caixa diferenciado, fazendo com que a contribuição da previdência se perca no conjunto de arrecadação do estado e siga para os diversos gastos do orça- mento. As diferenças internas dos ser- vidores são: as que separam militares, que contribuem com 7,5% do total, dos civis, que contribuem com 11% do total; o tempo de contribuição (poli- ciais e militares contribuem com 30 anos, os civis contribuem com o mesmo tempo que os da iniciativa pri- vada). No geral, a aposentadoria re- quer, no mínimo, a idade de 55 anos para as mulheres e 60 anos para os homens. Cabe ressaltar, no entanto, dois elementos importantes que são trans- versais na discussão da previdência. O primeiro diz respeito aos militares que, após a Emenda Constitucional 18, não são considerados mais servidores. Esse foi mais um golpe do conjunto de des- regulamentações aplicado pelo gover- no de FHC. A separação dos militares do civil se deu para justificar reajustes dados aos militantes, sem necessidade de incorporação aos ativos. O tiro, no entanto, agora sai pela culatra, visto que a situação dos militares não pode ser considerada como dos servidores públicos, por mais proximidade ou di- ferença que tenham uns em relação aos outros. O segundo diz respeito à tradição estatutária dos servidores públicos4 . Isto cria duas variações que se modifi- cam após a constituição de 1988 e a aprovação do antigo RJU, hoje apenas Lei 8.112. Primeiro, o Estado sempre sustentou a aposentadoria dos servi- dores públicos federais. Inclusive isto é muito mais coerente, levando em conta que a legislação dos servidores não os trata como trabalhadores; não os trata como contratados, mas, sim, como empossados ou “adesistas”. In- clusive, este fator possibilita, juridica- mente, a explicação da inexistência de acordos coletivos etc. É necessário al- Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 137 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Só tem direito hoje à previdência quem paga e comprova que pagou. Todo a contribuição patronal e dos trabalhadores, ao longo da história, aparecem, hoje, como “déficit previdenciário.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE teraresta realidade. Servidores são tra- balhadores, pagos pelo Estado, e qual- quer diferenciação que possa haver por conta da relação de trabalho ou da execução (responsabilidade) do ofício não pode desconfigurar a situação real de trabalhador (daquele que vende sua força de trabalho e sobrevive ape- nas desta venda). Mas, antes do RJU, os servidores viveram uma dupla reali- dade que misturava estatutários com celetistas. Durante muito tempo, mui- tos dos servidores regidos pela Lei 8.112 contribuíram para os vários insti- tutos que existiram na história da pre- vidência. Esta contribuição não veio para o Estado com as alterações de Regime e, também, se viessem, de nada adiantaria, pois, cairiam no “caixa misto” existente. As alterações de 1998 transforma- ram tempo de serviço em tempo de contribuição: só tem direito hoje à pre- vidência quem paga e comprova que pagou. Todo a contribuição patronal e dos trabalhadores, ao longo da histó- ria, aparecem, hoje, como “déficit pre- videnciário”. Rejeitamos esta posição. É necessário que o governo Lula abra os caixas da previdência, mostre para onde foi o dinheiro, divulgue que há um “superávit passivo” nas contas pre- videnciárias. Diante da ampliação pro- gressiva das distorções ocorridas no Brasil, não se pode, neste momento, utilizar o mesmo discurso que sempre combatemos na luta de classes brasi- leira. O Regime Próprio de Previdência Social vive também seus problemas específicos: a constituição de uma úni- ca caixa, que torna NULA a contribui- ção dos trabalhadores e a transforma em simples desconto patronal (do Es- tado – que, por sua vez, não contribui) e o absoluto desajuste entre servidores aposentados e pensionistas, de um la- do (65%), e servidores em ativa, de outro (30%). Não é possível manter a aposentadoria hoje porque: o dinheiro arrecadado dos servidores ativos (con- tribuição sobre o valor total dos salá- rios) se perdeu com o tempo: foi utili- zado junto com o conjunto das verbas para as despesas orçamentárias. Du- rante os oito anos de governo de FHC, houve um crescimento absurdo do nú- mero de aposentados e pensionistas em relação ao número de ativos. Por- tanto, esta distorção na relação da situação funcional implicou a impossi- bilidade de sustentação dos aposenta- dos atuais. Fato que ocorreu porque não há acumulação dos descontos. É claro, no entanto, que os proble- mas gerais também se aprofundaram. Em todos os casos, há desvio das “con- tribuições previdenciárias”, um aumen- to crônico do desemprego e um pro- cesso progressivo de precarização do trabalho, o que coloca milhões de tra- balhadores fora dos regimes, impossi- bilitando a sustentação dos aposenta- dos. Os baixos salários, a ausência de reajuste e o crescimento de parcelas indiretas de salários ou mesmo de “não salários” (vales, gratificações, banco de horas etc.) fazem ampliar os problemas, as distorções e as impossi- bilidades de sustentação das condi- ções atuais. Por isto, não concordamos que exista déficit previdenciário. O que existe é “apropriação indébita” do di- nheiro dos trabalhadores por parte do Estado. Ou seja, há um superávit pas- sivo que deve ser resgatado. O Estado deve prestar conta, mostrar para onde foi o dinheiro, abrir as “caixas nebulo- sas” da previdência. Não pode sobre- taxar os trabalhadores, responsabili- zando quem não administrou o setor corrompido pelo desaparecimento das contribuições. O que ocorre é que a direção majo- ritária da CUT e do PT assim como o Mercado (bancos privados de olho na previdência) restringem-se em discutir os limites salariais para a previdência pública e, como tudo indica, já fizeram um pacto para aprovação e regula- mentação de um modelo privado, dando seqüência à Emenda Constitu- cional 20. Hoje, o teto para a contribui- ção é de 7,5 SM. Quem recebe mais que isso já necessita fazer uma “conta privada de previdência”. Portanto, para os trabalhadores que contribuem para o INSS, a previdência já é limitada. A disputa que divide PT, CUT e mercado é o teto de contribuição: o mercado defende 3 SM; a CUT defende 20 SM e o PT defende 10 SM. Tudo indica que os 7,5 serão mantidos, se o debate se concentrar nesta opção equivocada de debater tetos. Mas, alertamos, discutir o teto é uma das grandes armadilhas deste de- bate. Se o teto for 10, 20, 30 ou mais salários mínimos, a diferença será ape- nas o tempo. De imediato, haverá uma aparência de atendimento, pois, gran- de parte da população que trabalha, estará dentro do teto. No entanto, com a corrosão salarial e com a tendência de espremer, ao máximo, o setor pú- blico e os direitos, para ampliar o lucro dos banqueiros, esta realidade tende a mudar. Não se pode, neste momento, que temos a possibilidade de criar si- tuações favoráveis, ceder para os inte- resses do FMI. É hora de fazer justa- mente o contrário, ampliar as condições de crescimento de direito e a segurança 138 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência O que existe é “apropriação indébita” do dinheiro dos trabalhadores por parte do Estado. Ou seja, há um superávit passivo que deve ser resgatado.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 139 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência dos que trabalham. Além do mais, todo o argumento sobre os milionários salá- rios da previdência são pirotécnicos, pois isto não será resolvido com teto e, sim, com o fim da corrupção, com os favorecimentos dos amigos da burgue- sia (e de seus correlatos), ou seja, fa- zendo valer a legislação que já existe (sem demandar quaisquer alterações institucionais, legais). De outro lado, atacam os servido- res públicos e resolvem acabar com a previdência diferenciada. Mas, para to- dos estes atores, acabar com a RPPS significa apenas colocar todos os servi- dores, novos ou antigos (que há muito já são descontados 11% sobre o valor total dos salários), no RGPS. Não se pode assimilar a lógica do “direito constituído”, pois o que está em jogo é uma reforma, ou seja, constituições de direitos para um prazo razoavelmente prolongado. Isto exige que se pense para além dos servidores atuais, mas, sim, sobre o conjunto do serviço públi- co (os que estão e os que entrarão). Não se pode, com a lógica de que o que for resolvido valer apenas para o futuro, fazer um pacto de desconstitui- ção de direitos para os que entrarem no serviço público não gozarem de uma previdência minimamente digna. Tão equivocado seria comparar os di- reitos dos trabalhadores da iniciativa privada com os dos servidores. Não há compensação de direitos. Seja como for, haverá diferenciações, no conjunto dos direitos – mesmo que não exista especificamente na previdência – e as diferenças não podem ser consideradas privilégios nem para uns nem para ou- tros. O que se precisa hoje é da mais profunda unidade de todos os setores que vivem do trabalho para garantir e avançar nos direitos conquistados. Isto não é mudança e muito menos reforma: é desregulamentação de di- reitos. Além disso, passa-se a mão na cabeça dos militares, colocando-os de fora do conjunto das mudanças que pretende o atual governo. Mudanças que, diga-se de passagem, estão na pauta das exigências do FMI, da espe- culação, do sistema financeiro. Che- gam a confundir as condições de pre- vidência de militares e servidores: ou não conhecem ou não divulgam a ver- dade. Diante disso, não temos dúvidas, é necessário garantir o mais amplo de- bate na sociedade, com participação real dos setores organizados sobre o futuro da previdência no Brasil. E isto deve ser feito antes do envio do proje- to para o parlamento, pois, com tal ati- tude, querendo ou não, o governo constituirá um fato consumado sobre o tema. Infelizmente, ao que tudo indi- ca, tal fato consumado seguirá os ca- minhos da onda neoliberal. Mas não podemos deixar de dizer que, para dar andamento às principais e mais imediatas tarefas a fim de resol- ver os problemas do sistema previden- ciário no Brasil, não se precisa refor- mar a previdência, visto que o principal problema é a corrupção e a apropria- ção indébita do Estado das contribui- ções dos trabalhadores. Passar um pente fino, administrar com seriedade, erradicar a corrupção, moralizar o setor são tarefas centrais que não exigem reforma, mas, sim, ação e vontade po- lítica. Finalmente, não podemos aceitar que distorções absurdas sejam criadas. O desconto dos aposentados no Ser- viço Público é uma ação autoritária, descabida e inaceitável. É necessário, para que o governo reafirme sua voca- ção por mudanças e sua tradição de- mocrática e popular, avançando na construção de uma ampla reforma, que construa uma real melhoria das condições de vida da classe trabalha- dora, no Brasil. 3.2. Uma proposta para o setor Nós defendemos a universalização da previdência com base em uma pro- funda reforma que garanta um Regime único, público, solidário, por reparti- ção. Ou seja: é necessário a criação de um sistema no qual os ativos da atua- lidade sustentem os aposentados e pensionistas. Para tanto, será necessá- rio crescer, ampliar, criar novos postos de trabalho e garantir mais vagas, tanto no serviço público como na ini- ciativa privada. A previdência universal necessita garantir, para todos os que trabalham, o direito à sobrevivência quando aposentados. Isto exige, ne- cessariamente, resgatar o conceito de seguridade social (progressivamente quebrado em nossa história). Somente garantindo um modelo que, ao mes- mo tempo, possa investir na assistên- cia, na saúde e na previdência serão dados passos importantes. Esta é a pri- meira e mais importante medida: res- gatar o conceito de seguridade social pública. Para tanto, não se deve pensar em equilíbrio fiscal, pois esta armadi- lha neoliberal levará, necessariamente, a criação de setores privados ou de uma privatização generalizada como foi feita no Chile ou na Argentina. Um modelo destruidor que, no final das contas, o Estado tem que assegurar
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE140- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência (após dar muitos lucros aos banquei- ros, é claro). A universalização é o segundo pas- so que deve constar em um próximo sistema. Universalizar a Seguridade Social significa que todos os trabalha- dores devem ter acesso à previdência, a saúde e assistência. Trabalhadores do campo, da cidade, servidores, autô- nomos, informais, enfim, não pode haver limitações para os setores e as pessoas que vivem do trabalho. Uma grande campanha de conscientização e de inserção do conjunto dos traba- lhadores deve ser desenvolvida urgen- temente pelo Estado, por meio do no- vo governo. Far-se-á necessário ainda garantir a constituição de uma caixa própria de previdência, administrada pelo gover- no, por meio de propriedade estatal, com controle público dos setores orga- nizados. Nesse caso, as contribuições deverão ser feitas pelo critério de im- posto progressivo, separado por faixas salariais, tanto para os trabalhadores quanto para os patrões (Estado e em- presários), sobre o valor total dos salá- rios, garantindo para todos os aposen- tados e pensionistas o direito de rece- ber o valor salarial que ganhavam na época de sua aposentadoria. As mu- danças exigidas, neste caso, são: man- ter os 11% como percentual máximo de contribuição e garantir que a contri- buição patronal seja duas vezes supe- rior à contribuição dos trabalhadores; garantir que todos os trabalhadores, inclusive os que trabalham por conta própria ou de qualquer outro modelo, que exija contribuição voluntária, pa- guem 11% dos rendimentos declara- dos; desfazer os fundos de pensão, abertos ou fechados, que existem hoje e possuem qualquer relação com o Es- tado; por fim, assegurar que todos os trabalhadores recebam a integralidade dos seus salários na ativa. Não temos dúvidas que, para fazer uma verdadeira reforma da previdên- cia, seja necessário rever ou revogar as Leis complementares e a Emenda Constitucional número 20, pois, do contrário, prevalecerá à lógica da priva- tização. Assim como, sugerimos que o governo, imediatamente, retire o PL 09, demonstrando que vai trocar os tons e sons da música passada por uma melodia comprometida com o funda- mental direito da humanidade que é a Seguridade Social e a previdência. Notas 1. Questões fundamentais para manter e prolongar a crise do capital. O capital vive a sua mais profunda e estrutural crise, não é apenas uma crise cíclica e, sim, prolongada. Os remédios apresentados até agora, pelos próprios capitalistas, não conseguiram re- verter este fato. Para administrar esta situa- ção, o neoliberalismo vem esgotando ao máximo as forças produtivas, inclusive lan- çando mão da ação desesperada da guerra. Se não houver uma alternativa concreta a isso, que do nosso ponto de vista só pode ser o socialismo, há risco de a humanidade co- nhecer a barbárie. 2. O Estado não tem mais de onde cor- tar. É necessário ficar atento, pois, se o dis- curso de Palocci for verdadeiro, quando afir- ma que haverá cortes nos investimentos que não serão em políticas sociais, é porque tais cortes tendem a ser na propriedade estatal e nos salários (ou quantidade) de servido- res. Isso pode indicar a incorporação das mesmas idéias que inspiraram as organiza- ções sociais e as OSCIPS. 3 . Informações do IBGE sistematizadas pelo professor Waldir Quadros da UNICAMP e publicadas na Folha de São Paulo do dia 7 de outubro de 2001. 4 . Até o início dos anos 70 os servidores não contribuíam, pois, eram regidos pela Lei 1711/52, portanto, o Estado sustentava a aposentadoria dos servidores. Após isso, se passa a ter servidores contratados pela CLT e inicia uma dupla vida. Somente em 1990, com o Regime Jurídico Único, começa a ha- ver o desconto que servia mais como econo- mia do Estado do que como contribuição, já que nunca houve uma caixa própria para gerir estes recursos. Referências Bibliográficas 1. PALMA, João Augusto da. Trabalho e Previdência: o que já mudou. São Paulo: LTr, 1998. 2. ARAÚJO, José Prata. Como ficou a pre- vidência dos Assegurados do INSS. Minas Gerais: BIS Editora, 2002. 3. ARAÚJO, José Prata. Guia dos Direitos Previdenciários dos Servidores Públicos. Mi- nas Gerais: BIS Editora, 2002. 4. COSTA, Romero Eliane. Previdência Privada e Fundos de Pensão: Brasil, Chile e França. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris, 1996. 5. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich e vários autores. O Manifesto Comunista 150 anos depois. Rio de Janeiro: Contraponto; São Pau- lo: Fundação Perseu Abramo, 1998. 6. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideo- logia Alemã (Feuerbach). São Paulo: Editora Hucitec, 1999. 7. LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Re- volução? 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Contatos: edu.cond@uol.com.br ou insrolux@insrolux.org.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 141 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Se a chegada ao governo pela via eleitoral, mediante uma estratégia política pautada pela adoção da linha de menor resistência, por alianças e compromissos com as classes domi- nantes, pela formação de uma ampla coalizão governamental de centro- esquerda e pela aposta na negociação de um pacto social, não podendo ser confundida com a tomada do poder, não é, por si só, suficiente para produzir as condições políticas, sociais e culturais indispensáveis ao processo de construção de uma sociedade livre, soberana e radicalmente democrática, quais os caminhos para que os objeti- vos históricos do PT e a esperança de transformação social que o levou à consagração nas urnas possam mate- rializar-se a médio e longo prazo, para além dos constrangimentos impostos O governo Lula e o desafio histórico da construção de um projeto democrático e popular de sociedade Rodrigo de Souza Dantas O sentido da mobilização social no governo Lula O que propriamente acontece quando o principal território de acumulação capitalista neocolonial, no hemisfério ocidental, após mais de uma década sob hegemonia neoliberal, pela primeira vez elege para Presidente da República um ex-operário e sindicalista, egresso de movimentos sociais constituídos na perspectiva da reconstrução democrática e orgânica de uma alternativa socialista, idealizador, fundador e líder do Partido dos Trabalhadores, hoje, reconhecidamente o maior partido de esquerda do mundo ?
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE142- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência pela situação herdada, pelos novos modos de produção e reprodução glo- bal do poder e pela maneira como tudo isso veio a configurar pragmaticamente a estratégia adotada pelo PT para ven- cer as eleições e governar o país ? Em outras palavras: que caminhos podem nos levar para além das deter- minações da agenda de curto prazo e de seus constrangimentos estruturais e conjunturais , de modo que o governo Lula não se limite à administração da crise capitalista e à contenção política dos movimentos sociais pela adoção paliativa de políticas compensatórias ? Para além das mistificações midiá- ticas e seus agendamentos conceituais enviesados, das opiniões de seus por- ta-vozes e intelectuais e da hegemonia que elas têm exercido sobre a opinião pública, o tempo político do processo eleitoral, da transição governamental e da composição do novo governo, a prevalência de um tom carismático e emocional e o caráter incipiente do processo têm contribuído para que a discussão sobre o governo Lula ainda não tenha amadurecido, na abrangên- cia e profundidade necessárias. Tudo parece estar obnubilado pela ambigüi- dade entre as diretrizes políticas funda- mentais do governo Lula, no médio e longo prazo, e a cautela imposta no curto prazo pela necessidade de gerir um país avassalado pela acumulação financeira predatória, dependente dos fluxos de capital e dos humores do mercado financeiro, preso à ciranda da especulação e com mais da metade de seu orçamento comprometido com os juros da dívida, no momento em que a desvalorização generalizada dos ativos financeiros e a retração do fluxo de in- vestimentos globais sinalizam uma crise financeira internacional, cuja real extensão e profundidade ainda não pode ser avaliada, ambigüidade agra- vada pelo fato de os membros do go- verno não poderem explicitar seu dile- ma, por razões óbvias, contribuindo para o falatório dos que pretendem ti- pificar ou condenar prematuramente o governo Lula, em função de sua supos- ta adesão ao receituário econômico neoliberal. Não deveríamos nos deixar iludir por essa ambigüidade, que cons- titui o eixo do tratamento que a gran- de mídia tem dado ao governo. A pre- cariedade da situação econômica e fi- nanceira do país, o orçamento mais restritivo dos últimos anos, uma con- juntura internacional incerta e adversa, a necessidade de organizar politica- mente o governo e a máquina estatal e uma correlação de forças ainda bas- tante desfavorável não deixam espa- ços para a transformação imediata de uma política econômica estrutural- mente determinada pela subordinação do Estado e da economia aos impera- tivos extorsivos de uma acumulação financeira sem precedentes. Uma brusca ruptura ou mesmo qualquer medida que possa confrontar os inte- resses do mercado financeiro inviabili- zaria precocemente o governo Lula, mergulhando o país no abismo de uma crise econômica, política e social que comprometeria gravemente as condições de governabilidade. Ou para colocar as coisas do modo mais franco possível: num quadro restritivo como esse, uma ruptura com o FMI e com o receituário neoliberal, seguida pela suspensão ou pelo não-pagamento das dívidas, acarretaria muito prova- velmente uma drástica reação dos EUA, a qual não teríamos forças para resistir. No momento em que ainda ca- minhamos no fio da navalha, uma at- mosfera de enfrentamento e polariza- ção acirrada, como na Venezuela sob locaute, tem de ser evitada a todo cus- to. A despeito da impaciência e indig- nação dos companheiros que deseja- riam que tudo pudesse ser feito ime- diatamente, de acordo com suas con- vicções políticas, deveríamos reconhe- cer que a estratégia do confronto, nos limites da atual conjuntura, apenas serviria aos interesses inconfessáveis de todos os que desejam o fracasso do governo Lula e o grave retrocesso polí- tico que daí adviria. Deveríamos reconhecer que a tran- sição política de uma sociedade escan- dalosamente injusta e desigual, em que todos os processos de moderniza- ção permaneceram incompletos, en- viesados e estruturalmente dependen- tes dos centros de acumulação capita- lista global, para uma sociedade livre, soberana e democrática, orientada pe- lo horizonte social, político e cultural da cidadania, da justiça e da igualdade social, é necessariamente um processo a ser construído no médio e longo pra- zo. Uma transição profunda como essa não pode se dar de cima para baixo, mediante decretos governamentais e a execução de políticas públicas funda- das num processo de rígida centraliza- ção estatal e em ruptura imediata com as determinações estruturais e conjun- turais do processo neocolonial que do- mina ainda hoje a existência da socie- dade brasileira; pelo contrário, as rup- turas e transformações necessárias a essa transição exigem um profundo enraizamento político, social e cultural, sem o qual permaneceríamos presos à lógica destrutiva de um confronto pre- maturo, para o qual ainda não temos A transição política de uma sociedade escandalosamente injusta e desigual, em que todos os processos de modernização permaneceram incompletos, enviesados e estruturalmente dependentes dos centros de acumulação capitalista global.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 143 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência forças suficientemente acumuladas. Por ora, o conjunto de condições polí- ticas, econômicas, sociais e culturais para uma ruptura ainda não estão sufi- cientemente maduras; o que existe, em função do reconhecimento gene- ralizado de uma situação de crise sistê- mica e da insustentabilidade dos parâ- metros políticos, econômicos, sociais e culturais que até aqui regeram nossa história, é tão só uma decisão e uma disposição política da sociedade brasi- leira, no sentido de construir progressi- vamente o conjunto de condições que, a médio e longo prazo, permitirão a emergência consistente de uma socie- dade livre, justa, fraterna, soberana e radicalmente democrática. Foi este o sentido do mandato popular outorga- do a Lula. Esta decisão e disposição política, à medida que estão na base da vitória de Lula, de sua popularidade e da esperança suscitada por seu go- verno, precisam ser conseqüentemen- te trabalhadas, no âmbito de uma arti- culação consistente e democrática en- tre o governo e a sociedade civil orga- nizada, a fim de que o processo não venha a ser abortado precocemente, ou, de outro modo, não permaneça enredado nas condições e determina- ções negativas que ele deve poder su- perar a médio e longo prazo. Nos primeiros anos, não podemos esperar por mudanças profundas, mas apenas pela sinalização e preparação do terreno para essas mudanças. Além dos constrangimentos herdados da era neoliberal e da negociação das re- formas a serem aprovadas, no sentido de recuperar a capacidade de investi- mento da União e diminuir gradual- mente o peso da cunha financeira so- bre o sistema produtivo, o governo Lu- la terá de lidar com o orçamento mais restritivo dos últimos anos, já aprovado pelo governo FHC, e que deixa apenas 7,2 bilhões de reais para investimen- tos, com a composição política do go- verno e de sua base de apoio no Con- gresso e com o tempo requerido para tomar conhecimento do funcionamen- to da máquina estatal e reorganizá-la tecnicamente, em função de suas dire- trizes políticas. Dada a profundidade dos problemas e carências nacionais e todas as amarras deixadas por FHC, serão necessários ao menos dois anos até que todas essas transições e rear- ranjos possam preparar o terreno para que o governo Lula comece a trabalhar em suas diretrizes e apresentar seus primeiros resultados. Daí a necessida- de de se organizar consistentemente esse processo de transição, de modo a evitar crises econômicas, políticas ou institucionais e pavimentar o caminho até 2006, quando uma possível reelei- ção de Lula pode permitir que, no se- gundo mandato, se aprofundem, de modo irreversível, as transformações sociais que podem levar o Brasil a um outro patamar qualitativo no processo de construção histórica de uma socie- dade soberana e radicalmente demo- crática. Nesse sentido, o que propõe o Go- verno Lula é que, antes de qualquer ruptura com a subordinação da econo- mia e do Estado ao círculo de ferro da acumulação financeira, é preciso exer- cer a paciência, o pragmatismo e a perseverança necessárias para o acú- mulo histórico das forças políticas e sociais e a preparação das condições objetivas e subjetivas capazes de sus- tentar consistentemente o processo histórico de construção de uma socie- dade soberana e radicalmente demo- crática que, como disse Lula, durante a campanha, pode vir a se tornar neste percurso “uma sociedade socialista”. O que se propõe não é, portanto, o abandono dos horizontes fundamen- tais que, desde o início, têm pautado e justificado a vida e a história do PT, mas a perspectiva política da linha de menor resistência como estratégia adequada às circunstâncias do presen- te. Não há dúvida de que a linha de menor resistência pode acabar se enredando nos limites, impasses e contradições entre uma proposta de radicalização da democracia política e social e a fatalidade histórica de ter de levá-la a cabo, num primeiro momen- to, no âmbito drasticamente restritivo das premissas estruturais e conjuntu- rais do regime do capital e da posição neocolonial que nele ocupamos; isso já ocorreu em outros momentos, sem- pre citados como exemplos, o que se- ria suficiente para rejeitá-la caso fosse possível propor, de modo realmente viável, qualquer outro caminho político no âmbito dos limites, condições e de- terminações negativas impostos pela correlação de forças em que ora nos achamos. Será sempre difícil avaliar em que medida as concessões e compro- missos assumidos são de fato excessi- vos ou apenas necessários de um pon- to de vista estratégico; mas, de todo modo, se não desejamos nos pôr à margem de todo este processo, a ques- tão que devemos colocar é precisa- mente a que pergunta pelas condições, decisões e caminhos a serem tomados para que uma estratégia etapista de construção de uma sociedade radical- mente democrática possa ser bem sucedida nos atuais contextos e cir- cunstâncias nacionais e internacionais. Nesse contexto, me parece bastan- Nesse contexto, me parece bastante apressado e inconseqüente nos rendermos, sem mais, aos variados tons que assumem as versões de um “PT cor de rosa” (venham elas da direita ou da esquerda).
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE144- Ano XII, Nº 29, março de 2003 te apressado e inconseqüente nos ren- dermos, sem mais, aos variados tons que assumem as versões de um “PT cor de rosa” (venham elas da direita ou da esquerda), disposto a dar conti- nuidade à política econômica neolibe- ral e a se render incondicionalmente aos imperativos colocados pela gestão da crise capitalista. Ao corroborar essa versão, seduzidos pelas aparências, embalados por preconceitos ideológi- cos ou apenas confundidos pela ambi- güidade da situação, não embarcaría- mos numa profecia com enorme capa- cidade de auto-realização? Não seria necessário perguntarmo-nos, antes de tudo, a quem propriamente interes- sam estas versões e quais seus efeitos políticos nas atuais circunstâncias? Po- demos considerar que os exemplos freqüentemente citados do Partido So- cialista francês, do Partido Trabalhista inglês e das frentes populares do pas- sado seriam já por si só suficientes para antecipar o fracasso do governo Lula, ou deveríamos admitir que a dife- rença entre contextos e circunstâncias é muito grande para nos fiarmos em generalizações deste tipo ? Nas atuais circunstâncias, não teríamos de come- çar por admitir que a adoção da linha de menor resistência talvez seja mes- mo a única estratégia viável, com vistas a preparar as condições objetivas e subjetivas para um projeto político de longo prazo, visando à democratização profunda da economia, da política e da sociedade? Uma vez que há uma disputa político-ideológica, em torno do significado do Governo Lula, do modo como se deu sua eleição e do sentido das mudanças de orientação assumidas pelo PT, nos últimos anos, confundir as reorientações exigidas pelos constrangimentos da era neoli- beral, pela nova configuração histórica do mundo contemporâneo e por uma correlação de forças bastante desfavo- rável, com o puro e simples abandono histórico das diretrizes do partido, em nome de um pragmatismo supos- tamente disposto a tudo pela conquista e pela preservação do poder governamental não seria, antes de tudo, adotar uma posição que, na prática, deixaria o gover- no Lula entregue ao abraço de urso dos inte- resses estabelecidos? Ou o que dá na mesma, en- tregar os pontos antes de que o jogo tenha co- meçado, como se ele já estivesse de antemão perdido? Mas não haveria em tudo isso algo de mais essencial, obstruindo o hori- zonte em que se trava toda essa dis- cussão? No plano de consistência da discussão política e teórica, não seria o caso de perguntarmo-nos se os para- digmas, modelos e referências concei- tuais com que esses problemas tem sido abordados não estariam irreme- diavelmente defasados e descontex- tualizados? Não deveríamos antes de tudo buscar reconhecer o que de fato há de fundamentalmente inédito na situação histórica que ora vivemos? Para além do horizonte histórico-so- cial, teórico e prático das categorias políticas, sociais, históricas e culturais do modernismo e das suas mais varia- das vertentes teóricas, não seria neces- sária a produção de conceitos funda- mentalmente novos, capazes de tradu- zirem a singularidade e originalidade dos novos contextos, contradições, desafios, impasses e oportunidades históricas colocadas pela eleição de Lula? Antes de apressarmo-nos em aplicar sem mais ao quadro político contemporâneo toda uma série de ca- tegorias conceituais oriundas da Europa dos séculos XIX e XX, não deve- ríamos começar pela admissão funda- mental de que uma interpretação con- sistente do significado do governo Lula exige e até mesmo pressupõe a elabo- ração de um quadro conceitual ade- quado aos novos modos de produção, reprodução, exercício, circulação e dis- tribuição do poder, aos limites e cons- trangimentos que eles impõem à polí- tica, ao Estado e à sociedade civil, às novas configurações sociais, políticas e culturais dos movimentos de resistên- cia, e ainda mais, no caso presente, à marcante singularidade da situação brasileira? Dada a magnitude do desa- fio e da oportunidade histórica que se abrem para nós, antes de tudo, seria preciso reconhecer, na questão que nos coloca o governo Lula, para além de uma questão teórica em aberto, um problema, uma carência e um de- safio eminentemente políticos. A poli- tização de que mais do que nunca ca- recemos exige que essa questão ve- nha a se tornar a verdadeira obsessão de intelectuais e militantes compro- metidos com a causa democrática e popular. Nesse contexto, ao invés de mais uma vez buscar medir o novo pelo velho e o desconhecido pelo co- nhecido, não seria o caso de reconhe- cermos, para além dos limites de nos- sos saberes e experiências históricas, que talvez ainda não saibamos e se- Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 145 quer possamos saber, ao menos a esta altura, quais os limites e possibilidades que se descortinam no ineditismo da oportunidade histórica aberta pela eleição de Lula? Limites e possibilidades não estão dados de antemão; como quer que se- ja, eles não estão e não podem estar pré-inscritos nas determinações estru- turais e conjunturais, senão de modo puramente negativo, e seria um grave erro político e teórico considerá-los apenas pela via negativa. O que de fa- to determinará os limites e possibilida- des históricas de uma transformação social e política de grande envergadu- ra será precisamente, e como sempre o foi, o sujeito político de toda transfor- mação histórico-social: a multidão em movimento, a mobilização de suas energias criativas, seu grau de consis- tência e articulação política e sua ca- pacidade de construir uma hegemo- nia político-ideológica no seio da so- ciedade civil, o que decerto depende da capacidade de mobilização social das entidades da sociedade civil orga- nizada e das pontes que elas forem capazes de construir com o governo Lula, no sentido de traduzir proces- sualmente os desejos de libertação da multidão em força política e capacida- de articulada de transformação histó- rico-social. Nesta discussão, deveríamos reco- nhecer, em seu princípio, toda uma cli- vagem teórico-política absolutamente decisiva, e que talvez se deixe formular assim em seus termos mais funda- mentais: de um lado, podemos conce- ber o momento presente como um desafio e uma oportunidade histórica, e, portanto, como um tempo aberto à gestação e ao amadurecimento do po- der constituinte da sociedade, de sua capacidade de mobilização, de sua ati- vidade, criatividade e produtividade histórico-social; de outro lado, pode- mos concebê-lo como algo já previa- mente enclausurado no círculo de fer- ro das relações de poder, nos modos de sua produção e reprodução e em uma correlação de forças desfavorá- vel, colocando o peso da análise na objetividade das estruturas e no modo como elas definem, de antemão, os li- mites e possibilidades de uma situa- ção histórica. Tem-se aí uma profunda clivagem política e epistemológica en- tre a análise do presente como análise da objetividade histórica herdada, de suas determinações estruturais e do modo como elas delimitam irremedia- velmente o campo da ação possível, e um campo de análise do presente capaz de levar em conta suas virtuali- dades e potencialidades e o modo co- mo a práxis dos sujeitos sociais e polí- ticos pode, mediante sua atualização consistente, entrar em relação com es- sas mesmas estruturas, criando uma dinâmica política, social e cultural de alargamento constante e progressivo das condições, limites e possibilidades de transformação histórico-social. Ao incluir as virtualidades e potencialida- des latentes do presente e articulá-las ao sujeito político da transformação histórico-social, o primeiro campo de análise é condicionado por uma apos- ta na potência criadora da práxis políti- ca, social e cultural da multidão; ao se concentrar na objetividade histórica herdada, o segundo campo de análise tende a desprezar ou até mesmo igno- rar o campo das virtualidades e poten- cialidades históricas, projetando as determinações do passado no presen- te e no futuro e tendendo assim a per- manecer preso às determinações es- truturais e conjunturais dos modos vigentes de produção e reprodução do poder. De modo geral, deveríamos ser capazes de reconhecer que qualquer tese ou posição político-teórica depen- de fundamentalmente de se tomar em consideração, como diz Antonio Negri, o poder que tem a multidão de fazer história e o modo como ela entra ou pode entrar em relação com as deter- minações estruturais de sua condição histórico-social, ou, de outro modo, optar por uma linha de análise que tem como fonte, ponto de partida e chegada o círculo de ferro da estrutu- ra, da conjuntura e da objetividade his- tórica herdada. De um lado, na medi- da em que permanecermos confina- dos à objetividade histórica herdada, seja do ponto de vista de sua conde- nação ou justificação, estamos fadados a fazer, do capital e de suas premissas, condições e determinações, o motor e o sujeito onipotente da história, assu- mindo, ainda que às avessas, o ponto de vista hegemônico do capital, com todas as conseqüências práticas e teó- ricas que daí advêm. De outro lado, a história é compreendida do ponto de vista das capacidades e de toda a ativi- dade produtiva, transformadora e revolucionária da multidão; do ponto de vista, portanto, da práxis e dos modos como ela é capaz de confron- tar, deslocar e transformar, em suas vir- tualidades, potências e capacidades la- tentes, as determinações estruturais e conjunturais dos modos de produção e reprodução do poder. Ao submeter as potências da práxis e da ação políti- ca transformadora ao círculo de ferro das premissas e determinações estru- Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência O que de fato determinará os limites e possibilidades históri- cas de uma transformação social e política de grande envergadura será precisamen- te, e como sempre o foi, o sujeito político de toda transfor- mação histórico-social: a multidão em movimento
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE146- Ano XII, Nº 29, março de 2003 turais dos modos de produção e repro- dução do poder, tende-se seja a acei- tar as premissas da estrutura e dos modos de produção e reprodução do poder como uma relação eterna, ne- cessária, permanente e universal, seja a confrontá-las, de modo não-dialéti- co, dogmático e sem quaisquer media- ções possíveis, com o que de algum modo se presume serem as condições de sua superação absoluta e imediata. Ora, se nos limitamos a confrontar as premissas, condições e determinações estruturais e conjunturais do regime do capital, com todo o peso de sua his- toricidade acumulada, com a urgência e a pureza de nossos ideais e desejos de libertação e com o que julgamos serem as condições objetivas e univer- sais de superação do regime do capi- tal, nos arriscamos a permanecer con- finados à impotência de um confronto inteiramente estéril, imaginário e sem quaisquer mediações possíveis entre nossos anseios revolucionários e todo o peso histórico-social, político e cultu- ral das premissas e determinações estruturais do regime do capital, per- manecendo inelutavelmente como presas do próprio feitiço que gostaría- mos de exorcizar, relegados à insignifi- cância histórica de que apenas a vã pretensão de ter sempre a razão e um certo gozo inconfessável na, contem- plação do abismo, poderia ainda nos consolar. De um modo ou de outro, “à direita ou à esquerda”, falta levar em consideração tanto a dialética das mediações necessárias como a pre- sença virtual, potencial, latente ou mesmo atual do sujeito social e políti- co revolucionário de toda história e de toda historicidade, e, sobretudo, a fina sintonia e articulação entre ambos, de que tanto carecemos nesse momento, ao menos na medida em que pressu- pomos que o acúmulo de forças visan- do à conquista progressiva da hege- monia política, social e cultural, na so- ciedade civil, é o único caminho e a condição sine qua non para a constru- ção histórica de uma sociedade livre, soberana e radicalmente democrática. O círculo de ferro só pode mesmo ser rompido pelo círculo diametral- mente inverso, o círculo da potência histórica e revolucionária que apenas a multidão em movimento é capaz de desencadear: para além da institucio- nalidade da política, da qual temos todos os motivos para desconfiar, ape- nas a temporalidade e a historicidade abertas da multidão em movimento são de fato capazes de engendrar consistentemente, em condições histó- ricas propícias como talvez possam se revelar as condições atuais, os proces- sos de substantiva transformação his- tórico-social. A via revolucionária da radicalização democrática Considerando o projeto de cons- trução histórica de uma sociedade de- mocrática e popular, tal como ele se acha diferentemente esboçado no pro- grama de governo de Lula, no progra- ma do PT e nas perspectivas abertas pelo novo governo, tudo parece estar orientado pela construção de uma si- nergia profunda entre as ações do go- verno e as capacidades e energias produtivas e criativas da sociedade civil. É dessa sinergia que poderá sur- gir o contra-poder, ou a contra-hege- monia capaz de fazer face à capaci- dade de reprodução dos modos vigen- tes de produção e reprodução do po- der; é da produtividade histórico-so- cial e político-cultural de seu poder constituinte de que depende o proces- so épico de construção de uma nação historicamente aprisionada em sua condição colonial e neocolonial; é de sua a potência emancipatória de de- mocratização radical que depende a gestação histórica de uma cultura ra- dicalmente democrática. Não se trata aí apenas de uma es- tratégia ou de uma questão de méto- do: o recurso ao diálogo e à ampla ne- gociação como condição da governabi- lidade e de uma nova cultura política, o recorrente chamado à mobilização social, o investimento político na cons- trução de um pacto social, a concep- ção, articulação e execução dos proje- tos governamentais com a participa- ção da sociedade civil, tudo isso apon- ta para o que uma análise acurada tal- vez seja capaz de reconhecer como uma questão de princípio, que talvez se deixe formular assim: a democracia, no sentido radical de uma democra- cia, ao mesmo tempo política, econô- mica, social e cultural, só pode ser construída pelo exercício constante do diálogo, da consulta, da negociação. Só se pode construir a democracia através da própria democracia. Ela não é um meio que vise a um fim, nem um fim que possa ser concebido em oposição aos meios empregados: em todos os níveis e sentidos, o pro- cesso de construção histórico-social de uma democracia radical, sobretudo nas condições brasileiras, é um pro- cesso incessante, visando à democra- tização progressiva e irreversível de to- dos os âmbitos e setores da vida social e pressupondo um amplo processo de politização cultural, em que a identifi- cação e desconstrução das práticas, conceitos e relações de poder e dos Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência De um modo ou de outro, “à direita ou à esquerda”, falta levar em consideração tanto a dialética das mediações necessárias como a presença virtual, potencial, latente ou mesmo atual do sujeito social e político revolucionário.
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 147 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência modos de dissolvê-las em relações po- liticamente democratizantes e emanci- patórias de autoridade e responsabili- dade compartilhada se apresenta como o único caminho viável na cons- trução histórica de uma sociedade efetivamente democrática. Nesse sentido, não deveríamos fi- car presos ao dilema insolúvel em que, por um lado, razoavelmente afirma- mos que a construção da democracia é incompatível com as premissas es- truturais da produção e da reprodução social, no regime sócio-metabólico do capital, e, por outro, temos de admitir que a derrocada do capital se acha agora fora do horizonte histórico das possibilidades ou mesmo a uma outra versão deste mesmo dilema, em que, por um lado, supomos impossível construir uma nova ordem social, sem a emergência de sujeitos sociais capa- zes de construí-la, e, por outro, afirma- mos que a emergência dos sujeitos so- ciais capazes de construir uma ordem social radicalmente democrática não pode se dar sob as premissas antide- mocráticas do regime do capital. Os di- lemas práticos e teóricos que essas pro- posições nos colocam parecem bem fundamentados; apenas deveríamos tomá-los não propriamente como dile- mas aporéticos ou axiomas antidialéti- cos de uma impossibilidade constituti- va, mas, sim, como desafios a serem dialeticamente superados pela energia, pela criatividade e pela imaginação prá- tica e teórica dos sujeitos sociais. Como nos tempos de Marx, mais uma vez, somos confrontados pelo de- safio histórico de articular uma análise da sociedade capitalista com a cons- trução de uma vontade política capaz de transformá-la numa sociedade mais livre, mais igual, mais humana, e, cer- tamente, não apenas de uma vontade política, mas do que permita que esta vontade crie os modos de ampliar-se e traduzir-se consistentemente em pro- cessos emancipatórios de transforma- ção histórico-social. Os processos histórico-sociais que levaram progressivamente à brusca implosão do “socialismo realmente existente”, neutralizaram a polarização entre capital e trabalho, dissolveram o caráter revolucionário do proletariado e, na prática, tornaram impossível a via revolucionária marxista-leninista, inva- lidando, na mesma medida suas práti- cas, métodos e conceitos, exigem que a produção de novas alternativas leve em consideração as causas determi- nantes desse fracasso histórico, bem como seus efeitos e conseqüências políticas e teóricas, o que, de certo modo, está na gênese histórica do Par- tido dos Trabalhadores e até mesmo de grande parte de seus cismas e con- flitos internos. As condições de produ- ção e reprodução social global dos modos de exercício e circulação do po- der na sociedade contemporânea não nos autorizam a postular a existência homogênea de um sujeito social revo- lucionário, como o foi o proletariado, cujos interesses e desejos de liberta- ção, numa situação de acirramento das contradições, impasses e antago- nismos do regime do capital até o limi- te de sua insustentabilidade, se tradu- ziriam teleologicamente em uma ca- pacidade revolucionária de superação política do regime do capital. Hoje, te- mos de reconhecer que nem esse su- jeito tem a homogeneidade que lhe foi atribuída, nem seus interesses foram capazes de se traduzir necessariamen- te em capacidade, nem essa capacida- de foi por si só suficiente para superar as premissas estruturais do metabolis- mo social do capital, antes muito pelo contrário. Por outro lado, a tomada revolucionária do poder de Estado não se traduziu na socialização dos meios de produção, na democratização da sociedade e, muito menos, em vias e processos emancipatórios efetivamen- te capazes de dissolver as práticas e relações de poder em relações de au- toridade compartilhada, mas, sim, na centralização e administração estatal, burocrática e, muitas vezes, totalitária dos meios de produção e de exercício do poder, configurando um processo brutalmente opressivo de extração de mais-valia politicamente motivada para fazer face à concorrência do siste- ma capitalista, tudo isso tendo sido, em parte, motivado e aprofundado pe- la necessidade de consolidar proces- sos revolucionários em meio a guerras civis ou a guerras de resistência ao in- vasor estrangeiro, o que comprometia já, de início, as condições para a cons- trução do socialismo democrático, aca- bando por conduzir a ditaduras não propriamente do proletariado, mas, sim, de uma casta dirigente efetiva- mente capaz de centralizar, controlar e verticalizar autocraticamente todos os processos decisórios e sua implemen- tação, assim como o controle discipli- nar, político e policial do proletariado e da sociedade como um todo. A contra- dição entre o emprego de meios opressivos para a realização de fins so- cializantes, populares e democratizan- tes não é capaz de sustentar-se como estratégia política capaz de construir uma sociedade socialista e democráti- ca, indicando em que medida não é possível pensar a construção do socia- lismo democrático pela guerra ou Somos confrontados pelo desafio histórico de articular uma análise da sociedade capitalista com a construção de uma vontade política capaz de transformá-la numa sociedade mais livre, mais igual, mais humana
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE148- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência mesmo mediante polarizações acirra- das que, de um modo ou de outro, acabam por perpetuar a necessidade de uma violenta separação hierárquica entre sujeitos e objetos do exercício de uma autoridade que, se negando a ser compartilhada, horizontalizada e dis- solvida, acabou por aniquilar o ideal socialista, seja no pesadelo dos regi- mes totalitários, seja no fracasso políti- co dos processos de polarização da sociedade, que costumam terminar, seja em golpes de estado, termidoriza- ções ou mesmo guerras civis prolonga- das. Ademais, contrariamente ao que foi previsto por Marx, o que se passou não foi propriamente um agravamento constante das contradições e antago- nismos do regime do capital até o limi- te de sua insustentabilidade, a ponto de se delinearem historicamente as condições objetivas, subjetivas e so- ciais para uma revolução mundial; muito pelo contrário, toda uma série de processos imperiais e imperialistas permitiram, por um lado, nos países centrais e semiperiféricos, a diluição progressiva das contradições do regi- me mediante concessões que acaba- ram por fazer do proletariado desses países, pela mediação do Estado, par- ceiros no processo de exploração glo- bal do capital, e, por outro, nos países periféricos, o aprofundamento infernal de toda uma série de processos bru- tais de exploração colonial e neocolo- nial, de violência, exclusão e opressão social cujos desdobramentos os deixa- ram envoltos em conflitos sociais, polí- ticos, étnicos e religiosos fratricidas, ou até mesmo em guerras civis que, de um modo ou de outro, terminaram por dilacerar inteiramente suas socie- dades e extirpar qualquer possibilida- de de construção política de vias emancipatórias. O próprio conceito marxista de luta de classes acaba por se mostrar exces- sivamente estreito e algo anacrônico, tendo em vista a envergadura amplia- da da luta política em torno da cons- trução histórica de um novo paradig- ma civilizatório. Pois já não se trata de conceber a luta política a partir da cen- tralidade dos processos que visam à reapropriação dos meios de produção ou mesmo dos lucros do capital, o que acabou por ser decisivo para neutrali- zar a radicalidade política do movi- mento operário e levá-lo a seu enqua- dramento político, econômico, social e cultural, por meio da concertação pro- duzida pelas concessões feitas pelo ca- pital, pelos benefícios do Estado-Pro- vidência, pela hegemonia política con- quistada pela social-democracia e pela domesticação e esvaziamento dos sin- dicatos e dos partidos comunistas e socialistas, nos países centrais e semi- periféricos. Antes de tudo, deveríamos ser capazes de reconhecer que o es- pectro da exploração e da opressão global não se limita a uma luta de clas- ses, nem tem seu lugar exclusivo ou privilegiado no espaço-tempo da pro- dução; muito pelo contrário, o regime socio-metabólico do capital vem ex- pandindo suas premissas e determina- ções estruturais à reprodução social como um todo, abrangendo hoje to- dos os campos e microcosmos da vida social, o que exige que a luta política contra ele seja capaz de formular con- ceitos, práticas e espaços de luta muito mais amplos, profundos e radicais do que os que são articulados implícita e explicitamente pelo conceito de luta de classes. É nesse sentido que já não caberia postular, como categoria cen- tral da luta política, a categoria de consciência de classe, que tem seu en- raizamento e seu lugar privilegiado de ação e tomada de consciência no es- paço-tempo da produção, mas, sim, a categoria muito mais ampla de cons- ciência da opressão, visando a um alargamento progressivo, cumulativo e compreensivo das múltiplas práticas, lugares, relações e conceitos que por- tam a opressão e a formação de uma consciência social, política e cultural radicalmente democrática e emanci- patória, capaz de ser construída orga- nicamente mediante processos de identificação, desconstrução e supera- ção de práticas, conceitos e relações de poder, na perspectiva de sua disso- lução em práticas e conceitos capazes de levar a relações de autoridade com- partilhada e horizontalizada o que diz respeito à construção de uma cons- ciência não simplesmente de classe, mas ao que talvez poderíamos desig- nar como uma consciência radical- mente democrática e emancipatória, que constitui o processo revolucioná- rio não propriamente em torno das re- lações meio-fim e das práticas hierarqui- zantes, instrumentais e burocráticas que pautaram uma consciência revolucioná- ria viciada e bloqueada pela luta pelo poder, mas antes de tudo pela constru- ção cotidiana do sentido político, social e cultural organicamente democrático de suas práticas, métodos e lutas mili- tantes em todos os microcosmos da vida social, único caminho que pode preparar as condições histórico-sociais e político-culturais para a superação con- sistente e progressiva das premissas e determinações estruturais mais profun- das do regime sócio-metabólico do ca- pital e a construção de alternativas so- cialistas e/ou pós-capitalistas. Já não caberia postular, como categoria central da luta política, a categoria de consciência de classe, que tem seu enraizamento e seu lugar privilegiado de ação e tomada de consciência no espaço-tempo da produção
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 149 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Se, no princípio, as lutas proletárias apresentavam um amplo espectro de perspectivas, que incluía aspirações profundas como a construção de uma nova subjetividade e de uma nova so- ciabilidade, a transformação radical da educação, a emancipação da mulher e a formação política de uma consciên- cia social comunitária, não se limitan- do às perspectivas de uma mudança imediata das relações de produção, seria o caso de recolocar agora a questão da luta política em moldes se- melhantes, na perspectiva de uma luta civilizacional, ao mesmo tempo econô- mica, social e comunicacional, política, biopolítica e cultural, a ser travada or- ganicamente em todos os setores da vida social, em torno de uma radicali- zação das práticas e procedimentos democráticos e emancipatórios em detrimento da perspectiva restrita da luta de classes, da consciência de classe e de seus conceitos, práticas e objetivos estratégi- cos, instrumentais e doutriná- rios. Tudo isso indica sumaria- mente em que medida é ne- cessário repensar as alternati- vas, tendo em vista as causas, efeitos e determinações fundamentais do fra- casso político da via revolucionária marxista-leninista, não no sentido de um abandono tácito das perspectivas revolucionárias socialistas e de seus horizontes sociais e políticos mais fun- damentais e de uma simples capitula- ção política ao caráter supostamente “permanente, eterno, necessário e uni- versal” do regime do capital (Hegel), mas no sentido de pensar e gestar pra- ticamente alternativas socialistas que, tendo em vista das condições objetivas e subjetivas do presente, tornem-se capazes de produzir processos eman- cipatórios, liberando energias e imagi- nações utópicas e articulando as me- diações e transições necessárias à emergência de um sujeito revolucioná- rio capaz de desenvolver e disseminar consistentemente práticas, conceitos e paradigmas que conduzam a uma sociedade radicalmente democrática. O sentido, o horizonte, o espaço- tempo e a centralidade substantiva e estratégica da luta pela hegemonia política, social e cultural na sociedade civil, a ser travada pela radicalização orgânica da democracia, pela constru- ção de um conceito de democracia radicalmente emancipatório e pela produção, articulação e disseminação consistente de conceitos, práticas e processos emancipatórios, na lógica da acumulação progressiva de forças, aponta nesses contextos para a via da radicalização da democracia e dos processos emancipatórios em relação às práticas, relações, identidades e conceitos portadores dos modos domi- nantes de produção, reprodução, cir- culação e distribuição de poder e das maneiras como eles configuram em todos os níveis e sentidos a totalidade do corpo social e de suas dinâmicas de produção de identidades, subjetivi- dades e sociabilidades. Nessa mudança de paradigma polí- tico, temos que começar por reconhe- cer que, mais do que como modo de produção, a reprodução ampliada do capital se desdobra hoje como totalida- de estrutural de um modo de vida e de um universo simbólico, de uma racio- nalidade cognitiva-instrumental e de uma racionalidade prático-moral, de um modo de produção de subjetivida- des, identidades, imaginários e sociabi- lidades que se configuram na totalida- de de um modo de reprodução social que justifica plenamente o conceito marxiano de uma “subjetividade única e global do capital” o que torna incri- velmente mais complexa, densa e exi- gente a questão histórica pela gestação de alternativas socialistas, ou pós-capi- talistas. Por outro lado, é precisamente nesse momento que a crise do capital chega à ativação de seus limites abso- lutos: a insustentabilidade e incontrola- bilidade estruturais do regime do capi- tal nos leva hoje ao reco- nhecimento de que sua reprodução sempre am- pliada implica necessaria- mente o agravamento de suas próprias crises, pro- blemas e dilemas estrutu- rais (ecológicos, sociais, econômicos, políticos e culturais), que tendo sido produzidos e aprofundados historicamente pelo pró- prio regime do capital, não poderão encontrar solução no âmbito de suas premissas e determinações estruturais. Nesse contexto, muito mais que a in- sustentabilidade estrutural de um mo- do de produção determinado, devería- mos ser capazes de reconhecer que vivemos a crise sistêmica de um para- digma civilizatório, que apenas se apro- funda à medida que não somos capa- zes de imaginar e propor alternativas imediatas e globais ao que vivemos e sofremos. Contudo, apenas a evidência e a consciência de uma situação-limite cuja reprodução ameaça estrutural- mente as condições naturais de vida na Terra e compromete progressivamente os paradigmas, modelos e processos civilizatórios da modernidade capitalis- ta e de sua ordem social não é suficien- te para gerar as alternativas necessá-
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE150- Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência rias. Se em meio à irracionalidade ab- soluta e global do regime sócio-meta- bólico do capital e aos sintomas evi- dentes de seu esgotamento histórico- social se nos coloca o desafio histórico de pensar alternativas capazes de su- perar estes dilemas e conceber um projeto de sociedade que supere as premissas e determinações estruturais do regime sócio-metabólico do capital, os problemas e os dilemas que ela nos coloca e toda sua marcha auto-destru- tiva, é certo que este desafio exige ima- ginar a superação de nossos proble- mas e dilemas atuais, não em função de premissas utópicas, dogmáticas ou científicas abstratas mas, de modo rea- lista, no âmbito das virtualidades e po- tencialidades latentes no seio da pró- pria situação que vivemos, visando a definir os modos práticos de gerar os processos, relações, conceitos e media- ções dialeticamente capazes de consti- tuir, fortalecer e articular consistente- mente o sujeito prático destas transfor- mações sociais. É nesse contexto que podemos postular o que aqui chamaremos a via revolucionária da radicalização de- mocrática, como caminho para a construção orgânica dos movimentos sociais e dos partidos políticos e para o delineamento paradigmático dos mei- os e métodos de governo, visando, a médio e longo prazo, à produção das condições e processos histórico-sociais que podem conduzir ao socialismo de- mocrático, tudo isso, na verdade, em profunda consonância com os princí- pios políticos que desde o começo têm norteado a história de vitórias do Partido dos Trabalhadores. Por assen- tar-se utopicamente numa consciência social e num princípio de realidade que, em meio à crise dos paradignmas da modernidade capitalista, tende a tornar-se crescentemente partilhado e politicamente hegemônico, a via da ra- dicalização da democracia política, so- cial, econômica e cultural tem as ca- racterísticas fundamentais que Gram- sci considerava necessárias para a construção histórico-social de idéias, princípios, conceitos e práticas hege- mônicas. Do ponto de vista de nossa sociedade, a articulação entre utopia democrática, consciência social e prin- cípio de realidade se instalam a partir de uma consciência cada vez mais ge- neralizada da contradição entre as es- truturas econômicas, políticas, sociais e culturais que têm regido a vida na- cional estigmatizadas pela percepção de seu caráter decisivamente anti-so- cial, antinacional e antidemocrático e pela consciência de sua insustentabili- dade constitutiva e os desafios, metas e horizontes que articulam na consci- ência popular uma certa relação entre democracia, cidadania, justiça e igual- dade social como condições para a construção de uma nação em que os mecanismos de produção de riqueza e de distribuição de poder não se voltem sistematicamente contra a natureza e a própria sociedade. É sobre o solo vir- gem e fecundo dessa consciência po- pular, mais ou menos precária, difusa e generalizada que ora se apresentam os elementos a serem trabalhados, no sentido da construção de uma hege- monia democrática na sociedade civil. Tudo isso exige práticas, métodos e procedimentos de radicalização políti- ca e social da democracia que venham a nortear não só os processos decisó- rios que levam às políticas de governo e sua execução, como todos os movi- mentos sociais e, de modo geral, a própria práxis cotidiana em todos seto- res, relações e dimensões da vida so- cial. Há uma evidente sinergia entre todas essas dimensões e o modo co- mo elas podem vir a articular-se e po- tencializar-se reciprocamente, e é pre- cisamente no sentido da promoção dessa sinergia virtuosa que devem se fundar, de parte a parte, as relações entre as entidades da sociedade civil organizada e o novo governo. A via política da radicalização de- mocrática, no tempo próprio de seu aprofundamento, consistente, de sua progressividade e de sua radicalização qualitativa, tem um potencial revolu- cionário à medida que exige e promo- ve a tendência para uma transforma- ção global dos modos de produção e do mundo do trabalho, do conheci- mento crítico e científico, dos modos de vida e das dinâmicas de produção de subjetividades, das formas de socia- bilidade e dos universos simbólicos. Sua realização progressiva exige, pro- move e pressupõe a politização crítica da realidade, das relações sociais, das relações de produção e das práticas dos atores sociais, a valorização da produção e da expressão cultural pró- prias e o exercício radical da cidadania individual e coletiva, num processo de ativação e mobilização de todas as energias sociais, políticas e culturais de uma nação que, ainda no processo de sua constituição histórico-social, traz em si virtualidades e potencialidades que, talvez mais do que qualquer ou- tra, pelas características de sua forma- ção a habilitam ao desenvolvimento histórico de novos modos de realiza- ção da vida, no momento em que to- dos os paradigmas da ordem social moderna se acham num processo irre- Do ponto de vista de nossa sociedade, a articulação entre utopia democrática, consciên- cia social e princípio de reali- dade se instalam a partir de uma consciência cada vez mais generalizada da contradição entre as estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADEAno XII, Nº 29, março de 2003 - 151 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência versível de crise, deslegitimação e dis- solução. Os protagonistas dessa revolução democrática, como certa vez disse Boaventura de Sousa Santos, serão ne- cessariamente todos os que, nas mais diversas constelações de poder que constituem as práticas sociais, têm consciência de que a sua vida é mais condicionada pelo poder que outros exercem sobre eles do que pelo poder que exercem sobre outrem. Ora, foi sempre a partir da consciência da opressão que se formaram os movi- mentos sociais, e porque a opressão se exerce na medida em que constitui em todos os níveis e sentidos as prá- ticas e relações sociais e políticas que perfazem o regime sócio-metabólico do capital, e sua consciência se disse- mina, mais ou menos, por toda parte, já não há mais como postular um sujeito revolucionário privilegiado ou homogêneo. Essa condição nova, se, por um lado, parece tornar mais caóti- co, diluído, lento e descentrado todo o processo de transformação histórico- social, por outro, talvez faça com que suas raízes e sua radicalidade venham a ser potencialmente mais vigorosas e profundas do que aquelas que, no sé- culo passado, deram ensejo às revolu- ções marxista-leninistas. O governo Lula e a via da radicalização da democracia A via da radicalização da democra- cia está sendo proposta pelo governo Lula, em três eixos que me parecem fundamentais e, evidentemente, na profunda sinergia que eles são capa- zes de produzir em sua articulação. O primeiro eixo é econômico, rela- tivo ao mundo do trabalho e ao espa- ço-tempo da produção, possuindo dimensões sociais, políticas e culturais, na medida em que se trata de fomen- tar alternativas sócio-econômicas ca- pazes de reorganizar, a longo prazo, o mundo do trabalho e da produção. Me refiro às propostas do governo Lula, no sentido de redefinir o sentido e as estratégias do desenvolvimento econômico, subordinando-o a proces- sos em que inclusão social, combate ao desemprego, geração de renda e promoção da cidadania se articulem em torno da criação, fomento e am- pliação de formas de produção, apro- priação, controle e organização do tra- balho e da produção que têm sido de- signadas pelo conceito geral de econo- mia solidária. Essa redefinição, no sen- tido amplo da gestação e criação de um modelo de desenvolvimento eco- nômico, científico e tecnológico que seja social, ecologica e politicamente orientado, não se dá apenas pelo com- bate à subordinação estrutural da eco- nomia nacional à acumulação finan- ceira, por políticas visando à formação interna de um mercado interno de consumo de massas como base da economia brasileira, por medidas que visem à redistribuição de renda ou por políticas industriais, científicas e tecno- lógicas capazes de potencializar nos- sas capacidades produtivas, de resto, condições estruturais para uma reor- denação social da economia. Para além disso, o que se propõe é mobili- zar as energias sociais, econômicas e culturais que ora se acham bloquea- das pela perversidade de um modelo econômico baseado na subordinação à acumulação financeira, na abertura incondicional da economia, nas políti- cas de privatização da economia e no incentivo aos grandes conglomerados transnacionais, pela criação de políti- cas capazes de conferir um sentido so- cial, político e cultural ao desenvolvi- mento econômico. A ação do Estado, no sentido de fomentar, articular e promover, em articulação com a socie- dade civil organizada e as comunida- des locais, as cooperativas populares, a autogestão, as redes de trabalho do- méstico, a reforma agrária e a agricul- tura familiar, as cooperativas de crédi- to e os bancos do povo, a incubação de empresas, os clubes de troca e as diversas modalidades de economia so- lidária, pretende constituir, incentivar e disseminar consistentemente toda uma série de modos de produção e or- ganização do trabalho que visem não só à inclusão social, à geração de renda, à promoção da cidadania, ao combate ao desemprego (que não se- rá superado de outro modo) e à for- mação de um mercado interno de consumo de massas, como à prolifera- ção de modalidades alternativas, de- mocráticas, populares e socializantes de organização prática, cooperativa e auto-gestionária do processo produti- vo e do mundo do trabalho. Trata-se, portanto, de utilizar os recursos públi- cos não mais para subsidiar lucros de grandes corporações, mas para criar os meios que permitam uma efetiva inte- gração social e econômica das pessoas ao mundo da produção e do trabalho, o que jamais será possível mediante o recurso exclusivo às forças cegas do mercado. Por outro lado, tomando co- mo exemplo paradigmático a Amazô- nia, trata-se de criar modelos alternati- vos de produção, organização do tra- balho e desenvolvimento econômico, social, científico e tecnológico que, ins- pirados nos que têm sido adotados no Acre e no Amapá, sejam capazes de
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    152 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência integrar saberes populares, recursos naturais, conhecimentos tecno-científi- cos, universidades e centros de pes- quisa, políticas e recursos governa- mentais e demandas sociais, econômi- cas, políticas e culturais das comunida- des locais a serviço da constituição de modelos, práticas e dinâmicas de desenvolvimento socialmente orienta- do, ecologicamente sustentável e tec- no-cientificamente inovador, na direção da formação de outro paradigma de de- senvolvimento econômico, fundado na subordinação das determinações estri- tamente econômicas a toda uma série de imperativos sociais, políticos, ecoló- gicos e culturais capazes de inspirar o conceito pós-capitalista de uma econo- mia socialmente orientada, politica- mente democrática e ecologicamente sustentável. Quanto à agricultura, as po- líticas de reforma agrária e de incentivo às cooperativas e assentamentos popu- lares e à agricultura familiar, em articu- lação com o MST, possuem a capacida- de de não apenas aumentar a produ- ção agrícola nacional, como sobretudo fazê-lo pela adoção de modelos de produção e organização do trabalho so- cialmente orientados, ecologicamente sustentáveis, politicamente democráti- cos e culturalmente emancipatórios, para o que será fundamental a partici- pação ativa do MST e o incentivo às suas práticas sociais, políticas, econômi- cas e culturais socializantes, auto-ges- tionárias, comunitárias, democráticas e emancipatórias. Por fim, poderíamos ci- tar ainda a questão do desenvolvimen- to tecno-científico de novas formas de energia, no momento em que vivemos o esgotamento dos recursos energéti- cos não-renováveis e a crise sistêmica dos paradigmas modernos de produ- ção e geração de energia, abrindo a oportunidade para que o Brasil, pela ar- ticulação entre recursos naturais, plane- jamento governamental estratégico e saber tecno-científico, numa coopera- ção entre a Petrobrás, as universidades, os centros de pesquisa e os órgãos de fomento e políticas públicas adequadas, possa tornar-se pioneiro na invenção de formas de geração de energia ecologica- mente sustentáveis e economicamente viáveis, capazes de delinear o paradigma energético do terceiro milênio. A articulação de todas essas poten- cialidades liga o eixo econômico ao so- cial e ao ecológico, ao científico e tec- nológico, ao cultural, político e educa- cional, na gestação de conceitos, práti- cas e modelos que apontam para a redefinição paradigmática da econo- mia e do próprio conceito de desen- volvimento econômico, o que pode nos conduzir, a longo prazo, à criação de uma economia que talvez possa- mos designar como eco-socialista, na expressão de Boaventura de Sousa Santos, num momento em que os paradigmas de desenvolvimento eco- nômico da modernidade capitalista apontam para o aprofundamento de uma crise social e ecológica de propor- ções gigantescas. Nesse contexto, não há dúvida de que o papel da universidade pública se- rá decisivo, ao menos se ela souber direcionar criativamente seus recursos educacionais, científicos e tecnológicos, no sentido de se integrar, não aos de- partamentos dos grandes conglomera- dos transnacionais, como previa a polí- tica de CT do governo FHC, mas a todas as iniciativas democráticas, populares e sócio-ecológicas acima descritas. O segundo eixo é o político. O que propõe o governo Lula é a criação de uma cultura política de diálogo, con- sulta e negociação social, em que as políticas governamentais, sua concep- ção, seu planejamento e sua execução contem com a participação ativa da so- ciedade civil organizada, dos setores da vida social e das comunidades lo- cais envolvidas. Num segundo sentido, trata-se de articular consensos sociais e maiorias políticas que permitam a sustentação e consolidação dessas po- líticas, bem como a acumulação de forças que permita superar os interes- ses estabelecidos que terão derrota- dos politicamente. Num terceiro senti- do, trata-se de desenvolver e ampliar modalidades políticas de governo de- mocrático e participativo, controles so- ciais efetivos e toda uma cultura de valorização do sentido e da importân- cia da política, da ação coletiva e da mobilização social, tudo isso tendo em si o potencial de desenvolver o grau de enraizamento e legitimidade dos mo- vimentos sociais e das entidades da sociedade civil organizadas, que são os atores decisivos na transição para uma cultura política radicalmente democrá- tica. A médio e longo prazo, a conjuga- ção dessas iniciativas talvez venha a configurar um quadro político, social e cultural que permita um salto qualita- tivo de grande envergadura, na via da radicalização da democracia. O terceiro eixo é o cultural/educa- cional/comunicacional. Nele, trata-se de construir, a médio e longo prazo, a hegemonia política, social e cultural de O papel da universidade pública será decisivo, ao menos se ela souber direcionar criativamente seus recursos educacionais, científicos e tecnológicos, no sentido de se integrar, não aos departamentos dos grandes conglomerados transnacionais, como previa a política de CT do governo FHC, mas a todas as iniciativas democráticas, populares e sócio-ecológicas.
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    Mercantilização do SetorPúblico: Educação e Previdência uma consciência democrática e eman- cipatória. Essa hegemonia pode ser construí- da por uma política cultural que, ao in- vés de entregar tudo às diretrizes do mercado, como no caso presente da Lei Rouanet, a partir da suposição de que fazer política cultural é levar a cul- tura ao povo, seja capaz de apoiar, valorizar e fazer circular a cultura pro- duzida pelos atores sociais em suas comunidades, no sentido de que a va- lorização e a ampla visibilidade das manifestações culturais populares e das formas de cultura produzida nas comunidades locais permitam a ampla manifestação, circulação e desenvolvi- mento das capacidades de criação, expressão e consciência da população brasileira, de modo que elas possam vir a se contrapor à indústria cultural de massas e a suas modalidades ideo- lógicas, semióticas, simbólicas e bio- políticas de fomento à barbárie de uma cultura da violência, cultura emi- nentemente individualista, consumista e narcisista, decisiva ao nível da produ- ção de subjetividades e identidades e da afirmação de uma hegemonia cul- tural, em todos os âmbitos dos proces- sos de reprodução social. No âmbito da comunicação, trata- se de democratizar o acesso à comuni- cação, criando as condições para a quebra do monopólio dos grandes meios de comunicação de massa. Isso pode ser feito, como está se propon- do, pela legalização, fomento e disse- minação das rádios comunitárias, pelo apoio a formas de produção e distri- buição dos produtos culturais que se- jam efetivamente capazes de quebrar o monopólio das grandes empresas, pela quebra do monopólio da televi- são, seja por meio de uma política de- mocratizante de concesssão de canais e de regulação do setor, seja por meio de uma política de implementação da televisão digital que seja capaz de aproveitar, ao máximo, suas potencia- lidades democratizantes. No âmbito da política educacional, trata-se, num primeiro momento, de articular o combate ao analfabetismo, envolvendo as universidades, os movi- mentos sociais ligados ao setor de educação e todos os setores da vida social, fazendo do combate ao analfa- betismo um amplo processo de inclu- são social, promoção da cidadania, resgate da auto-estima, politização e desenvolvimento das capacidades dos cerca de sessenta milhões de brasilei- ros que, não tendo concluído o ensino fundamental, se acham numa situação de analfabetismo, semi-analfabetismo ou analfabetismo funcional, o que de- certo exigirá medidas, iniciativas e polí- ticas de Estado que apenas poderão alcançar a abrangência e profundidade necessárias, se articuladas a uma am- pla mobilização da universidade e de todos os setores da vida social. Por outro lado, trata-se de investir na for- mação dos professores da rede públi- ca de ensino, o que exigirá ampla par- ticipação da universidade nesse pro- cesso, na recomposição de seus salá- rios e na democratização das escolas, visando a sua integração e articulação com as comunidades locais e a pro- fundas mudanças no ensino, efetiva- mente capazes de fazer da educação de crianças e jovens um meio de pro- moção da cidadania individual e cole- tiva, de sua politização crítica e do de- senvolvimento de suas capacidades criativas e cognitivas. Quanto à universidade, segundo o que propõe Cristóvam Buarque, trata- se, sobretudo, de desenvolver e apro- fundar seu sentido público, social e político, recuperar suas condições de ensino e pesquisa, ampliar o sistema das IFES, regular e limitar o avanço de- sordenado do ensino superior privado, colocar todos os recursos educacio- nais, culturais, científicos e tecnológi- cos da universidade pública brasileira a serviço da construção de um outro modelo de desenvolvimento, chaman- do a comunidade universitária a envol- ver-se amplamente nos processos so- ciais e coletivos que visam, em todos os níveis e sentidos, à gestação de uma democracia, ao mesmo tempo, social, econômica, política e cultural. Não pode haver dúvida de que a superação consistente das determina- ções estruturais e conjunturais que fa- zem do Brasil um dos países mais vio- lentos, injustos e desiguais do mundo, só será possível, a longo prazo, pela coordenação entre políticas governa- mentais e a participação ativa da socie- dade civil. Nesse processo, a universi- dade pública deve se tornar um ator de primeira grandeza, e, para isso, de- verá ser capaz de reorganizar-se de modo a que ensino, pesquisa e exten- são, numa profunda sinergia recíproca, passem a pautar-se pelos imperativos sociais, políticos, educacionais, científi- cos, tecnológicos e culturais de cons- trução de uma nação soberana e radi- calmente democrática. Para isso, será fundamental que os movimentos sociais e, no que diz res- peito à universidade, o ANDES-SN, aprendam a reconstruir seus eixos de luta, a redefinir suas prioridades e a re- ver suas práticas e métodos, no senti- do de adaptar-se criativamente aos de- safios do novo tempo, superando uma agenda demarcada pelo combate sem tréguas ao neoliberalismo por uma ou- tra que, sem abandonar esse combate em todos os terrenos em que ele deve ser travado, seja capaz de envolver-se ativa e criativamente no processo de construção de um novo Brasil. Rodrigo de Souza Dantas é Professor Ad- junto no Departamento de Filosofia da UnB, Doutor em Filosofia pela UFRJ e Se- cretário Geral da ADUnB (Associação dos Docentes da UnB). e-mail: rodrigos@unb.br UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 153
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    Mercantilização do SetorPúblico: Educação e Previdência 154 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Possibilidades de um circuito virtuoso da educação nacional Somos milhares de educadores locali- zados nos mais diferentes e distantes pontos geográficos do Brasil. Constituímos um grande sistema de educação, malgrado todas as investi- das políticas, desde o Império à Era FHC, de nos tornar fragmentados e desarticulados, mediante a instituição de diferentes níveis, modalidades, projetos e estratégias seculares de descentralização, que fortaleceram as possibilidades de se reproduzirem no Brasil, sob a ótica de sua própria “natureza” diversificada, os diferentes Brasis, que comportam diferentes cidadãos, diferentes sistemas de ensi- no, diferentes projetos de desenvolvi- mento que, em última instância, ampliaram as diferenças e desigualda- des sociais. Mas, sabemos todos que não é mera coincidência, que se encontre a seca, onde está concentrada a miséria e o analfabetismo em proporções ini- magináveis, para quem não conhece a realidade concreta, atingindo índices inaceitáveis, considerando-se o con- junto dos indicadores de desenvolvi- mento humano dos países mais po- bres do planeta, sendo o Brasil, tam- bém, no conjunto dos países ricos, avaliado como uma potência em ter- mos de economia mundial. Já ultrapassadas as concepções “naturalistas” e, em grande medida, as concepções positivistas mais rudimen- tares, alcançou-se, na área da educa- ção e das ciências humanas e sociais, de um modo mais geral, a compreen- são crítica sobre os processos históri- cos que foram produzindo, desde a co- lônia aos dias de nossa história recen- te, os elementos de caráter econômi- co, político e social, e, portanto, objeti- vos e subjetivos, mais predominantes na construção de um país, em que convivem os padrões mais avançados e mais atrasados de organização socie- tária, mantendo, simultaneamente, mecanismos de alta eficácia para ga- rantir a concentração de renda conju- gados com as eficientíssimas estraté- gias de subtração da dignidade e sobrevivência da maioria dos trabalha- dores empregados e desempregados, estando ou não inclusa em programas de “minimização” dos terríveis traços da dura realidade, através de vale-gás, vale-educação, vale-saúde, vale-qual- quer-coisa, menos ser reconhecido de fato como cidadãos, com legítimos di- reitos constitucionais. Apesar das cores sombrias do qua- dro da vida cotidiana de milhões de brasileiros, vislumbra-se o futuro como um “portal da esperança” de um tem- po necessário à reconstrução do nosso processo civilizatório, que nos permita recuperar alguma positividade do pas- sado, tanto quanto transformar, com alto grau de competência técnica e compromisso ético, a história presen- te, de modo que sejam plantadas as bases das novas possibilidades de de- senvolvimento humano em todas as dimensões, durante o século XXI, sem restrições impostas a nenhum seg- mento da sociedade nacional. Nessa perspectiva, considerando- se experiências positivas do passado recente, há que se recuperar, urgente- mente, a riqueza acumulada na área da educação, durante a década de 80, em que se realizou o mais significativo movimento de participação efetiva da sociedade civil, representada por suas entidades sindicais, científicas, estu- dantis, populares dos mais diferentes segmentos de trabalhadores, na con- cepção e proposições de processos Maria de Fatima Felix Rosar * UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 155UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência educativos para todos os níveis de en- sino, o que permitiria alargar o circuito virtuoso da educação nacional. Embora persistam índices vergo- nhosos, em muitos aspectos, do setor educacional, ele contém, ao mesmo tempo, uma qualidade de conheci- mento e de práticas de caráter técnico e social acumulados, que teriam per- mitido de fato um grande avanço da educação popular, se não tivesse sido, “abortado” pelo governo FHC o proje- to de LDB da sociedade civil e o con- teúdo do debate realizado, durante mais de uma década, nas Conferências Brasileiras de Educação, no Fórum Na- cional em Defesa da Educação Pública e, mais recentemente, nos Congressos Nacionais de Educação. No atual contexto de emergência de um novo “bloco no poder”, que pre- tende ser coordenado e implementa- do de forma “radical”, portanto com profundidade, pelo governo recém- eleito, que apresenta características de uma direção política democrático-po- pular, faz-se muita adequada a discus- são sobre o que precisa ser feito, de modo competente, sem que tenha- mos que reinventar a roda. Os educadores que estão à frente das entidades nacionais mais repre- sentativas do setor da educação, reuni- dos em Niterói, no último mês novem- bro, pretendem estabelecer um diálo- go profícuo com os dirigentes educa- cionais do governo Lula, com o firme propósito de obterem o reconheci- mento de sua legítima participação no debate e execução de um novo plano nacional de educação. Essa participa- ção efetiva será a estratégia funda- mental para que se possa promover um real avanço, não apenas na con- cepção de novas políticas educacio- nais, mas, sobretudo, na sua concreta implementação, de acordo com as de- mandas dos segmentos organizados da sociedade civil, e, especificamente, com o efetivo controle social sobre os gastos com a educação em todos os níveis de ensino, garantindo-se assim uma gestão do setor educacional que possa ser reconhecida como democrá- tica de fato. Com esses elementos da história da resistência dos educadores, estu- dantes e trabalhadores, em geral, pôde se construir um pensamento crítico vi- goroso e uma prática de organização de caráter social mais eficaz do que os modelos de gestão empresarial, que foram adotados de modo agressivo, nas últimas décadas, para cumprir as exigências internas e externas que se impuseram, mediante estratégias de indução do governo federal, de modo a favorecer, principalmente “os negó- cios privados no setor educacional”. Dados relativos a esses sistemas, mecanismos e estratégias diversifica- das já devem ser por demais conheci- dos dos especialistas que assumem
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE156- Ano XII, Nº 29, março de 2003 agora a direção do MEC e de todos os seus órgãos, dado que o balanço da era FHC foi feito pela equipe de gover- no que, durante a recente fase de tran- sição, assumiu a avaliação das políticas de educação, saúde, habitação, trans- porte, economia, previdência etc. Em certa medida, esses dados são também de conhecimento público da maioria dos educadores, que sofreram os impactos dessas políticas ou, de al- gum modo, foram também responsá- veis pela sua execução, com maior ou menor grau de cumplicidade, em rela- ção aos processos explícitos ou implí- citos de privatização dos recursos pú- blicos destinados à educação das clas- ses populares. Retomar as possibilidades de um “circuito virtuoso ampliado da educa- ção nacional”, com o propósito transpa- rente de fazer avançar a qualidade do atendimento da demanda por escolari- zação, em todos os níveis requer, por- tanto, a capacidade coletiva de todos nós educadores-militantes de: - realizarmos um balanço entre perdas e ganhos da educação, na dé- cada de 90, principalmente; - recuperarmos o conhecimento crítico acumulado no âmbito do Fó- rum Nacional de Educação e, portanto, de todas as entidades científicas e sin- dicais, profissionais e estudantis, de modo a “ganhar tempo”, portanto, ace- lerar a execução das melhores políticas já concebidas e, inclusive, já testadas em muitas cidades brasileiras; - compreendermos a potencialidade contida na integração orgânica entre os níveis de ensino fundamental, médio e superior, sem o que estaremos repro- duzindo a concepção dicotômica que opõe os diferentes níveis entre si, como se fosse possível priorizar apenas parte de um sistema, o que, como já se cons- tatou na história da educação brasileira, impede a existência real de um “siste- ma” no seu sentido pleno; - aglutinarmos, como força ideoló- gica de caráter material imprescindível, no âmbito dos coletivos de especialis- tas e dirigentes, os educadores de to- dos os níveis de ensino e de diferentes graus de qualificação: graduandos, graduados, mestrandos, mestres, dou- torandos, doutores, de tal modo que se pratique a socialização de resulta- dos de estudos, pesquisas e de proces- sos de concepção e execução de no- vas propostas educacionais, alcançan- do um efeito multiplicador de caráter mais efetivo na base da educação na- cional, e, por isso, mais democrático, portanto, diferente daquele que se constrói, a partir de uma concepção hierárquica e burocrática própria dos governos não-democráticos; - realizarmos com todo entusiasmo e vontade política radical, de caráter ético-democrático, um debate perma- nente com todos os segmentos da sociedade civil acerca das prioridades, das possibilidades, dos recursos con- cretamente existentes para o investi- mento na educação pública, instituindo um Fórum Nacional de Educação, co- mo instância máxima de decisão nacio- nal sobre a política para todos os níveis de ensino, sem prejuízo de quantos queiram investir seus “recursos pró- prios”, no desenvolvimento de institui- ções educacionais de caráter privado; - repensarmos o processo educati- vo, desde a educação infantil até o en- sino superior, como um continuum que, também, permitirá ampliar o cir- cuito virtuoso da educação nacional, quando se priorizar na pesquisa e no ensino o que pode ser considerado mais fundamental, para que se supe- rem os problemas estruturais da eva- são, da reprovação, da exclusão, da mediocridade de um sistema, que mesmo sendo de ponta, em muitos setores da ciência e da tecnologia, por razões conhecidas e desconhecidas, evidencia a sua insuficiência nos níveis mais elementares, tais como alfabeti- zar seus 20 milhões de analfabetos, realizar com competência a educação das crianças de 7 a 14 anos, qualificar os jovens para a atividade profissional e social, no ensino médio e no ensino superior, tendo garantido a aquisição de competência técnica e compromis- so ético com o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente de- mocrática; - instituirmos um sistema rigoroso de avaliação dos processos educativos que, longe de penalizar ainda mais os setores debilitados pela política ence- tada durante a era FHC, possa permitir recuperar o extraordinário arsenal do conhecimento científico no âmbito do ensino, da pesquisa e da extensão, acumulado nas universidades públi- cas, em todo o território nacional; - executarmos como resultado do O propósito transparente de fazer avançar a qualidade do atendimento da demanda por escolarização, em todos os níveis requer, portanto, a capacidade coletiva de todos nós. Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    nosso compromisso políticodiferen- ciado com o futuro do Brasil, um pro- cesso de valorização efetiva da carreira do magistério em todos os níveis, de tal modo que possam ser instituídos nexos orgânicos entre a qualificação contínua dos profissionais da educa- ção e a remuneração equivalente ao pressuposto de que a educação nacio- nal influirá sempre, decisivamente, no desenvolvimento do país. Esse critério está para além dos pressupostos de adequação dos profissionais, de um modo geral, às necessidades do mer- cado, “empurrando-os” para o sistema de ensino privado, após terem sido qualificados com os recursos do setor público; Sabemos todos do que dispomos, do que nos falta e, seguramente, po- demos recriar a educação nacional, se conseguirmos empreender as nossas ações coletivas com o olhar lúcido e dialético, que nos faz mirar o passado, o presente e o futuro, como um ato contínuo da nossa história da educa- ção, de apenas 500 anos, porém mui- to longos e pesados, para a maioria dos excluídos. Todos os que alcançamos os pata- mares mais elevados de qualificação e de reprodução do nosso “capital cultu- ral”, estamos conscientes dos limites da ação individual, porém sabemos, pela nossa prática cotidiana, que sou- bemos sempre empreender nosso melhor esforço de time, de equipe, de grupo, quando estivemos decididos a mudar a realidade da educação nacio- nal. Realizamos diagnósticos sistemati- camente, temos tido acesso à literatu- ra nacional e internacional, elaboramos propostas e executamos diferentes pla- nos de formação de educadores, por- tanto conhecemos os limites e as pos- sibilidades que estão dadas, no mo- mento em que se renova a conjuntura do país, do ponto de vista, político. Nesse contexto, podemos adotar uma posição ativa ou passiva. Melhor será que possamos com a nossa firme participação, colaborarmos no proces- so de resgate da extraordinária dívida acumulada na história do Brasil, com a maioria de suas crianças, jovens e ido- sos de todos os gêneros e etnias, que constituem o contingente de excluídos e miseráveis desse país. Mais que toda a nossa capacidade de elaborar, discursar, discutir de for- ma, muitas vezes, reiterativa e desne- cessária, necessitamos potencializar a prática como realização de nossas me- lhores perspectivas críticas de caráter teórico-prático. Sem teoria, a prática é mero ato espontâneo e empírico, no sentido restrito. Sem prática, as idéias são mera abstração e reproduzem o idealismo, como forma tão insuficiente do pensamento humano, quanto o positivismo rudimentar ou o materia- lismo mecanicista. O desafio é grandioso e, portanto, poderemos avançar muito e, também, retroceder ainda mais, dependendo do quanto se possa realizar, em termos de reintegrar tudo que se fragmentou no âmbito teórico-prático, na esfera da ação individual e coletiva, no universo dos interesses públicos e privados. Reinventar a concepção de Brasil também desafia a subjetividade de ca- da educador, de cada pesquisador, de cada intelectual, de tal modo que po- deremos redefinir a nossa condição de nos identificarmos, de modo mais lúci- do, com os interesses da classe traba- lhadora ou da classe hegemônica. Mas, e agora, quem é a classe hege- mônica do Brasil? Somos dirigentes e dirigidos? Somos intelectuais orgâni- cos a serviço de quem? Recuperar a positividade da década de 80 é também rever a “agenda ocul- tada” pela ideologia do neoliberalis- mo, durante os anos 90 e a Era FHC, de modo que possamos exorcizar os ogros do espírito do capitalismo, que desejaram hegemonizar os sindicatos classistas, os partidos de esquerda, as universidades combativas e críticas e os melhores quadros da educação na- cional. Por outro lado, o “bloco no po- der” nem de longe pode desconhecer o papel fundamental de todos os su- jeitos coletivos que constituem os ato- res sociais, sem os quais a história não se transforma. Portanto, durante a rea- lização de um projeto de governo de- mocrático-popular, mais que nunca devem estar ativos e atuantes, de for- ma independente, os sindicatos, as en- tidades de caráter científico, estudantil e popular, os movimentos sociais, os partidos políticos e todas as organiza- ções que aglutinam perspectivas críti- cas e projetos alternativos para o de- senvolvimento do país que promovam condições objetivas de superação do capitalismo. A história não se repete, mas recu- perar, no leito do passado, a nossa mais significativa produção teórica e prática é nosso dever de cidadãos críti- cos, justamente, para que se evite que, no novo tempo da história do Brasil, outros protagonistas descompromissa- dos e/ou equivocados tomem a cena para produzir uma farsa. * Maria de Fátima Felix Rosar é profes- sora do Departamento de Filosofia e Histó- ria da Educação da Faculdade de Edu- cação da Unicamp. Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 157UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Sabemos todos do que dispomos, do que nos falta e, seguramente, podemos recriar a educação nacional, se conseguirmos empreender as nossas ações coletivas com o olhar lúcido e dialético, que nos faz mirar o passado, o presente e o futuro.
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    No final dosanos 80 e ao longo dos anos 90, um mal-estar foi tomando corpo na Universidade de São Paulo. Os setores comprometidos com a defesa da escola pública, gratuita e de qualidade passaram a sentir que a USP vivia um processo de privatização “por dentro”, caracterizada pela realização de negócios (venda de projetos, cursos e outros serviços) por grupos de docentes, os quais instituíram, com essa finalidade, fundações privadas montadas à sombra das próprias unidades. Esse processo recebeu grande im- pulso com a chamada “flexibilização” do Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP), que a USP passou a permitir desde 1988, quando entrou em vigor seu novo Es- tatuto. A “flexibilização”, ao fazer do RDIDP um regime de dedicação inte- gral, ma non troppo, liberou os docen- tes que assim o desejassem para um intenso envolvimento com atividades privadas lucrativas, ao abrigo das auto- denominadas “fundações de apoio”. Na mesma época, no plano interna- cional e no plano nacional, criava-se um ambiente favorável às reformas que viriam a ser chamadas de neolibe- rais. A derrota do bloco democrático- popular nas eleições presidenciais de 1989 foi a senha para a implantação das primeiras medidas de cunho neoli- beral, por iniciativa de Fernando Collor. Mas foi a partir de 1995, com a chega- da de Fernando Henrique ao poder, que tomaram forma certas inovações legais destinadas a privatizar o serviço público, inclusive na educação, como a figura das “organizações sociais” conce- bida por Bresser Pereira e as benesses concedidas às fundações privadas, na Lei de Licitações e no relacionamento com as universidades federais. Na USP, apesar das fartas evidências de que as fundações “de apoio” cons- 158 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Fundações privadas na USP, a privatização insolente Ciro T. Correia* e Pedro E. da Rocha Pomar** Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE tituíram-senum poder paralelo, e de que exerciam influência deletéria so- bre a docência, a pesquisa e a exten- são, as entidades representativas da comunidade defrontavam-se com a escassez de dados sobre a atividade daquelas instituições. Escassez, diga-se logo, devida à absoluta falta de trans- parência das fundações “de apoio”. Da necessidade de qualificar o debate, in- tervindo nele com informações subs- tanciais sobre os resultados financeiros dessas instituições e as quantias repas- sadas à USP, bem como sobre a natu- reza de seus negócios, nasceu, na dire- ção da Associação dos Docentes da USP, a idéia de empreender uma re- portagem investigativa de fôlego sobre o assunto. O dossiê publicado pela Revista Adusp, em 2001, compreendendo as edições 22, 23 e 24, correspondeu à expectativa e ao esforço nele aplicado, revelando uma massa de informações que não deixa margem a dúvidas so- bre a extensão dos danos provocados à USP pela presença e atividade das fundações “de apoio”. A edição 27 (es- pecial) da Revista Adusp, publicada em outubro de 2002, complementou o dossiê, ao denunciar a inacreditável quantidade de cursos pagos ofereci- dos pela USP, em “parceria” com insti- tuições privadas. Ao introduzir no debate esse subs- trato empírico, a Adusp tirou o chão aos defensores das fundações “de apoio”, acostumados a tecer longas arengas sobre as supostas qualidades das suas instituições, sem jamais men- cionar o reduzido valor dos repasses efetuados às unidades da USP “apoia- das”, nem os elevados ganhos pecu- niários de alguns docentes, responsá- veis por projetos transacionados dire- tamente com o poder público, sem li- citação, ou envolvidos com cursos de especialização oferecidos a empresas ao preço de R$ 20 mil por aluno, ou com qualquer outro negócio privado realizado sob a chancela da grife “USP”. A iniciativa da Adusp não somente estimulou a resistência de docentes, estudantes de graduação e pós-gra- duação e funcionários, mas foi por sua vez informada e enriquecida por tais experiências de luta. Solidarizou-se com a decisiva ação dos estudantes que, em 2001, precisaram, em 26/6, ocupar a sala de reuniões do Conselho Universitário, e, em 4/9, bloquear a entrada dos conselheiros, para impedir a aprovação quase certa (embora sem qualquer debate prévio pela comuni- dade) de uma oportunista proposta da Reitoria de nova “regulamentação” dos vínculos com as fundações privadas “de apoio”, que retirava do Conselho Universitário a competência de apro- var os convênios com essas entidades, substituía a necessidade dos convê- nios pela inclusão das entidades em um cadastro geral, e concedia exclusi- vamente ao Reitor o poder de autori- zar ou não dita inclusão. Em conjunto com estudantes e fun- cionários, a Adusp participou de uma audiência pública convocada pela Comissão de Educação da Assembléia Legislativa, relatada no D.O. de SP, de 22/11/2001, onde ficaram evidentes tanto as várias irregularidades da atua- ção dessas fundações privadas como a quase total falta de controle sobre elas, seja no âmbito da própria USP, do Tribunal de Contas do Estado ou por parte da Promotoria das Fundações do Ministério Público Estadual. O dossiê “Fundações” da Revista Adusp trouxe uma vasta gama de in- formações sobre as fundações “de apoio”: seu modus operandi, a escala de seus ganhos, os imbricamentos na burocracia da USP e no governo esta- dual. Tais dados foram colhidos me- diante dificuldades surpreendentes, o que ensinou sobre o poder dessas en- tidades. A maior parte dos documentos foi obtida nos arquivos da Promotoria de Fundações da capital paulista. As quase 20 fundações privadas “de apoio” vinculadas ao campus central da USP são, deveriam ser, fiscalizadas por essa Promotoria, pertencente ao Ministério Público Estadual. A ela cabe também fiscalizar as quase 400 outras fundações privadas atuantes na capital e que nada têm a ver com a USP. Por lei, as fundações privadas, inclusive as “de apoio” à USP ou às suas unidades, têm de enviar a essa Promotoria seus balanços financeiros anuais, atas das reuniões dos órgãos de direção e ou- tros documentos relevantes. O estudo dessa massa de papéis, cuja maior parte foi previdentemente selecionada e copiada pela equipe da Revista Adusp, antes mesmo de vir a público a primeira parte do dossiê “Fundações”, permitiu entender o que são e como agem essas organizações. Não foi por outro motivo que já a par- tir da publicação da Revista Adusp 22, a primeira do dossiê, o acesso dos re- pórteres à documentação da Promo- toria foi interrompido, depois que o Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 159 A Adusp participou de uma audiência pública convocada pela Comissão de Educação da Assembléia Legislativa, relatada no D.O. de SP, de 22/11/2001, onde ficaram evidentes tanto as várias irregularidades da atuação dessas fundações privadas como a quase total falta de controle sobre elas.
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    160 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE reitor da USP, professor Jacques Mar- covitch, que presidiu durante sete anos a Fundação Instituto de Administração (FIA), telefonou para a Promotoria pa- ra protestar contra a divulgação dos papéis. Desse momento em diante, a Revista Adusp teve acesso a pouquíssi- mos documentos da Promotoria das Fundações da capital. Foi necessário recorrer diretamente aos cartórios onde as fundações privadas “de apoio” registram suas atividades. Verificou-se que algumas dessas entidades “espa- lham” documentos em mais de um cartório, o que dificulta a busca. Em um dos casos, o da Fundação para o Desenvolvimento da Tecnologia (FDTE), ligada à Escola Politécnica, o cartório só dispunha de algumas atas irrelevan- tes, contendo a composição das dire- ções e as subseqüentes alterações. Coincidentemente, essa instituição foi uma das que se negaram terminante- mente a fornecer seus números. Em poucos casos, as fundações for- neceram as informações solicitadas. Outros dados foram obtidos junto à Promotoria de Fundações de Ribeirão Preto (cidade que abriga outro impor- tante campus da USP, no qual atuam várias fundações “de apoio”), que obri- gava as instituições privadas a preen- cher anualmente um formulário-pa- drão detalhado que incluía, por exem- plo, os principais valores movimenta- dos e a relação dos principais fornece- dores. Informações adicionais foram obtidas nos tribunais de contas e em diversas fontes oficiais e não oficiais. E, especialmente a partir do segun- do número do dossiê, foi dado amplo espaço para a manifestação dos diri- gentes das fundações “de apoio”, por meio de entrevistas e artigos. O discur- so dessas pessoas é muito eloqüente no demonstrar que tipo de fenômeno está (ou esteve) em curso na USP e em diversas outras universidades bra- sileiras: uma privatização insolente, realizada às escâncaras, que se preten- de absolutamente “natural” e que joga na contramão da modernidade todos aqueles que ousam argumentar que há algo de errado com esse modelo. A seguir, são indicadas as caracterís- ticas mais importantes das entidades autodenominadas “fundações de apo- io” universitárias existentes na USP (e das situações que elas engendram ou induzem), e que, de acordo com os dados reunidos, parecem constituir um padrão no Brasil. Na USP, elas são 31, na Unicamp quatro e na Unesp 17. Nas universidades federais de todo o país, as cadastradas pelo MEC já so- mam 137! 1. A finalidade “não lucrativa” e o caráter empresarial As fundações privadas “de apoio” declaram-se, e são reconhecidas por lei, como “entidades sem fins lucrati- vos”. Essa é a condição para que rece- bam do poder público uma série de benesses, em especial a isenção de impostos e a dispensa de licitação nas contratações pelo poder público. Por- tanto, elas não possuem sócios cotis- tas, não oferecem dividendos e formal- mente não são “lucrativas”. Contudo, constata-se que essa condição é pura- mente formal. Na realidade, na maior parte, as fundações privadas “de apo- io” são organizações de tipo empresa- rial, voltadas para o mercado e instituí- das com a finalidade de auferir ganhos significativos para seus participantes, especialmente os coordenadores de projetos. Os documentos das instituições são claros, por exemplo: “Análise de mer- cado em termos de viabilidade e da posição competitiva da FIA, no nicho ou segmento a ser explorado, além de uma adequada avaliação orçamentá- ria, são algumas das recomendações a serem observadas” (Fundação Instituto de Administração, Plano de Trabalho, 2000). É digno de nota o fato de que, em 1999, a Fundação Instituto de Pes- quisas Econômicas (Fipe) e a FIA cons- tituíram um consórcio para executar uma auditoria do Censo Escolar, finan- ciada com verba do Banco Mundial, e a Fipe foi designada “empresa líder” do consórcio. Os excedentes existem (e como!), mas não assumem a forma contábil de “lucros”. Eles remuneram os partici- pantes e, em menor escala, a própria fundação (overhead) e, só depois, a USP (repasses ao departamento, à unidade, e à Reitoria). Na contabilida- de das instituições, o grosso do lucro está disfarçado na rubrica “pagamen- tos de serviços de terceiros”. Os “tercei- ros” são, na maioria das vezes, os pró- prios docentes envolvidos nos projetos vendidos ao poder público ou à inicia- tiva privada. Esse mecanismo foi desvendado pelo Ministério Público Federal de Bauru, que solicitou à Receita Federal uma investigação sobre as pessoas ju- rídicas que recebiam pagamentos da Fundação Bauruense de Estudos As fundações privadas “de apoio” declaram-se, e são reconhecidas por lei, como “entidades sem fins lucrativos”. Essa é a condição para que recebam do poder público uma série de benesses, em especial a isenção de impostos e a dispensa de licitação nas contratações pelo poder público. Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 161 Odontológicos (Funbeo, vinculada à Faculdade de Odontologia de Bauru, da USP), pertencentes aos próprios docentes envolvidos com cursos pa- gos, ou a familiares seus. 2. A importância econômico-financeira O levantamento da Revista Adusp estimou que o conjunto das fundações “de apoio” vinculadas à USP movi- menta anualmente valor equivalente a cerca de 1/3 da dotação orçamentária anual da USP. Posteriormente, em de- zembro de 2002, uma comissão cons- tituída pela Reitoria para tratar das fun- dações divulgou, em seu relatório final, que “o montante de recursos movi- mentados pelo sistema no ano de 2001 foi da ordem do orçamento da USP” (R$ 1,2 bilhão!). As instituições economicamente mais fortes, ligadas à Faculdade de Economia, Administração e Contabili- dade (FEA) e às faculdades de Medi- cina, têm receitas isoladas maiores do que a dotação das próprias unidades “apoiadas”. Nos anos 1998-2000, as seis maio- res fundações “de apoio” atuantes nos campi da USP da capital e de Ribeirão Preto (aquelas com receita anual su- perior a R$ 20 milhões) arrecadaram, em conjunto, valores anuais superiores a R$ 400 milhões (ver tabela). O total arrecadado por elas conjuntamente, nesse período de apenas três anos, foi de R$ 1,363 bilhão, o que representa o equivalente à dotação orçamentária anual total da USP, em 2002. Poder-se-á objetar, sempre, que é proveniente do Sistema Único de Saú- de (SUS) o grosso das receitas da Fun- dação Faculdade de Medicina (FFM), da Fundação Zerbini (FZ) e da Funda- ção de Apoio ao Ensino, Pesquisa e As- sistência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (Faepa), que foram as três maio- res em arrecadação no ano 2000, e que se trata de verba “carimbada”. Em que medida isso comprometeria os dados aqui apresentados? É verdade que, ao contrário do que ocorre com as fundações da FEA, a maior parte dos recursos que entram nas fundações ligadas aos HCs tem destinação pública e não apropriação privada. A maior parte, mas não toda. O levantamento da Revista Adusp indi- ca que parte da verba “carimbada” do SUS é destinada a fins duvidosos ou ilegais, a começar pela “taxa de ges- tão” cobrada pelas instituições priva- das, que é de 7,5%, no caso da FFM; que a “segunda porta” instituída nos HCs pelas fundações - o atendimento remunerado oferecido a usuários de seguro-saúde e pacientes particulares - abre caminho à privatização da saúde; e que as práticas introduzidas por es- sas entidades geram distorções que afetam ensino, pesquisa e extensão das unidades envolvidas. Exemplo: 14 docentes da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto são funcionários da Faepa e seu pagamento sai da verba SUS! Além disso, o fato de se tratar de hospitais universitários implica aumen- to da verba SUS em 75%, em razão da existência do bônus Fideps, Fundo de Incentivo para o Desenvolvimento do Ensino e da Pesquisa Superior. A es- pantosa tentativa de diversos dirigen- tes dessas fundações de minimizar a importância dos laços existentes entre a USP e os HCs cai, assim, por terra. De qualquer modo, mesmo limitan- do-se o exame às fundações da FEA - FIA, Fipe e Fundação Instituto de Pes- quisas Contábeis, Atuariais e Finan- ceiras (Fipecafi) - o volume de recursos arrecadados permanecerá impressio- nante. Num único ano, o de 1998, es- sas três instituições privadas arrecada- ram juntas R$ 134 milhões, o equiva- lente a 16% de toda a dotação orça- mentária da USP, nesse mesmo ano. No período 1998-2000, estima-se que elas tenham obtido uma receita con- junta de R$ 347 milhões. A maior parte desses recursos teve destinação priva- da, como demonstram os números da FIA, a maior delas. Em 1998, a FIA arrecadou R$ 64,9 milhões, dos quais R$ 35,4 milhões (54%) foram destinados a “despesas com pessoal técnico”, o que inclui os honorários de docentes coordenado- res e demais docentes envolvidos, pes- soas físicas e jurídicas e técnicos. Des- taque-se que o pagamento dos funcio- nários da FIA, que chegaram a ser 346 naquele ano, está em outra rubrica, “pessoal administrativo”, e consumiu R$ 7,9 milhões (12% da receita). O overhead ficou em R$ 9,8 milhões (15% da receita) e o superávit em R$ 1,6 milhão. Também em 1998, o fundo de pre- vidência privada mantido pela FIA para “seus” docentes e funcionários alcan- *estimativa da FFM **estimado- a Fipe não forneceu o dado Fontes: dados oficiais da FFM, FZ, Faepa, FIA, Fipe e Fipecafi Receita das 6 maiores fundações “de apoio” à USP na Capital e em Ribeirão Preto (em milhões de R$) 1998 1999 2000 FFM 145,9 152,5 180,0* FZ 112,0 119,0 138,0 FIA 64,9 49,7 50,3 Faepa 50,0 57,5 71,9 Fipecafi 42,2 27,6 29,7 FIPE 27,5 27,5** 27,5** Totais 442,5 423,8 497,4 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    UNIVERSIDADE E SOCIEDADE162Ano XII, Nº 29, março de 2003 çou o saldo acumulado de R$ 8 mi- lhões (passaria a R$ 13 milhões em 1999, graças à remuneração recorde dos investimentos em dólar feitos pela instituição). Como essa pujança refle- tiu-se em termos de repasses financei- ros para a USP? Muito modestamente: só há registro, nos documentos da própria FIA, do repasse de R$ 0,88 mi- lhão para a universidade (1,35% da re- ceita). Atuam, na USP, ainda, duas dezenas de fundações “de apoio” de médio e pequeno porte, em termos de receita, e cuja escala de ganhos vem crescen- do nos últimos anos. A maior e mais conhecida desse grupo é a Fundação Vanzolini (FCAV), vinculada ao Depar- tamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica, e que arrecadou R$ 12,5 milhões em 2000, repassando à USP só R$ 0,468 milhão (3,7% da receita), ao passo que os pagamentos a pessoas físicas e jurídicas somaram R$ 6,1 milhões (49%). Note-se que, em 1997, a FCAV arrecadou menos, R$ 11,2 milhões, mas pagou mais a pes- soas físicas e jurídicas: R$ 6,7 milhões (60% da receita). A situação das fundações privadas “de apoio” tornou-se indefensável, do ponto de vista da argumentação que sempre desenvolveram, a partir do momento em que a Coordenadoria de Administração Geral da USP (Codage) divulgou, a contragosto, os dados ofi- ciais referentes aos repasses pratica- dos por essas entidades (vide tabela completa na Revista Adusp 24, p. 134). Isso ocorreu no dia 9/10/2001, quan- do o Conselho Universitário tomou co- nhecimento, pela primeira vez, dos montantes recolhidos à USP, por essas entidades, por força da Resolução 4543/98, da Reitoria. Essa Resolução determina que a unidade “deverá reter no mínimo 10% e no máximo 50% do numerário rece- bido pelo docente”, em decorrência da participação deste em “atividades de assessoria, consultoria, convênios e contratos”, e que deverá recolher à Rei- toria “o equivalente a 5% desse nume- rário” (artigo 1º). Embora isso não conste explicitamente do texto da Resolução, no caso de atividades de- senvolvidas por docentes em funda- ções privadas “de apoio”, cabe a estas fazer o respectivo repasse. Os dados da Codage informam que, até julho de 2001, só 21 fundações pri- vadas “de apoio” repassavam verbas à USP, das 30 listadas pela Reitoria, no Jornal da USP (27/8-2/9/2001, p. 10- 11). Estranhamente, a Codage omitiu os dados relativos a 1998, ano em que, de acordo com a Resolução 4543, de- veriam ter início os repasses sistemáti- cos. Na circular Codage 099/98, lê-se claramente: “Devem ser recolhidos à Reitoria e às Unidades os percentuais sobre convênios/contratos em vigor desde a edição da Resolução 4543, em 20 de março de 1998, que ainda não o tenham sido. Todos os recolhi- mentos ainda pendentes devem ser regularizados até a data limite de 30 de novembro de 1998”. Tal circular foi assinada pelo profes- sor Hélio Nogueira da Cruz, então coor- denador da Codage (e hoje vice-reitor da USP). No caso de pelo menos uma das fundações privadas “de apoio”, a Fundace, já se sabe que ela não realizou repasse à USP, em 1998, apesar da re- ceita de R$ 2,2 milhões (Fundace, Re- latório de Atividades 1999, fornecido pela Promotoria de Fundações de Ri- beirão Preto). De acordo com os dados da Co- dage, em 1999, as 21 fundações priva- das “de apoio” repassaram à USP um total de R$ 9,106 milhões; em 2000, R$ 13,248 milhões; e, em 2001, até julho, R$ 6,614 milhões. O total no período soma R$ 28,96 milhões. O or- çamento da USP foi de R$ 918 mi- lhões, em 1999, e R$ 1,173 bilhão em 2000. Conclui-se que os repasses das 21 fundações privadas, nesses dois anos, equivalem a, respectivamente, apenas 1% e 1,5% do total do orça- mento da universidade, e que, desse modo, essas entidades não financiam a universidade, ao contrário, transfe- rem para ela uma fatia deveras mínima de seus ganhos. Ainda que esse per- centual venha a crescer de 2001 em diante, por força da pressão da comu- nidade, será sempre inferior à “parte do leão” que cabe às entidades, pois tal é a lógica do sistema. Há indicações, porém, de que as cifras da Codage, mesmo desfavorá- veis às fundações privadas “de apoio”, são passíveis de contestação, para baixo. Algumas delas não coincidem sequer com os próprios dados declara- dos pelas entidades à Promotoria de Fundações. A Codage informa que a FIA recolheu R$ 2,851 milhões à USP, em 2000, entre taxas de convênios e repasses à FEA. Mas a informação ofi- cial da própria fundação é de que o valor total recolhido foi de R$ 2,3 milhões. A diferença é de R$ 0,5 milhão a menos! Também discrepam, e muito, as cifras atribuídas aos repas- Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    ses da FCAV,no ano 2000. A Codage menciona R$ 906 mil, mas a FCAV indi- ca a metade desse valor: R$ 468 mil. É como se a Receita Federal informasse que o contribuinte pagou mais impos- to do que o efetivamente recolhido por ele.. 3. A origem dos recursos Ao contrário do que propalam, as fundações universitárias, na realidade, apóiam-se nas instituições de ensino que dizem apoiar, nelas indo buscar a força de trabalho, as instalações, os equipamentos e, sobretudo, a força simbólica da “marca”. Portanto, os re- cursos constituintes das fundações - os “fatores de produção”, sem os quais elas não conseguiriam viabilizar-se - são públicos, e mesmo aquelas que adqui- riram sedes próprias ainda utilizam sis- tematicamente os prédios e instalações da USP, e só raramente ressarcem as unidades respectivas por tal uso. Porém, igualmente significativo é o fato de que as verbas que ingressam nas fundações privadas “de apoio”, co- mo remuneração por serviços de con- sultoria, projetos e cursos, têm origem pública, na maior parte dos casos, mes- mo sem considerar os recursos oriun- dos do SUS. Os números da FIA, por exemplo, indicam que, entre 1994 e 1998, o percentual da sua receita ori- undo do setor público nunca foi infe- rior a 80%, chegando mesmo a 89%, em 1996. No ano de 1998, o melhor da história da FIA, a fatia da receita pro- veniente do setor público foi de 70%. Quer dizer que, dos quase R$ 65 mi- lhões recebidos por essa fundação pri- vada “de apoio”, naquele ano, mais de R$ 45 milhões saíram dos cofres de empresas públicas, prefeituras, gover- nos estaduais e governo federal. A partir de 1998, a parte da receita proveniente do setor público declinou, mas continuou a ter um peso impor- tante na vida de várias das fundações. No caso da FCAV, pelo menos 1/3 da arrecadação decorre da certificação de produtos e processos de produção, delegada pelo Inmetro, um órgão fede- ral. A cada certificação concedida, o Inmetro recebe meros 12% do valor embolsado pela FCAV. Outra fonte de renda é o gerenciamento de projetos do governo estadual, mediante o qual essa “fundação de apoio” recebe um determinado percentual. Nos últimos anos, ganhou impulso a oferta, por fundações privadas “de apoio”, de cursos pagos de todo tipo, entre eles os chamados MBA (master of business administration), que che- gam a ter um preço de até R$ 30 mil por aluno. Esses cursos, em geral con- tratados por empresas, são altamente rentáveis e se mostraram uma alterna- tiva aos negócios com o setor público. Os cursos pagos tornaram-se uma in- dústria com anúncios nos cadernos de emprego dos jornais, folhetos colori- dos, outdoors e até comerciais na tele- visão, como os promovidos pela já cita- da Fundace, entidade ligada à FEA, de Ribeirão Preto, cuja receita chegou a R$ 3,9 milhões, em 2000 (crescimento de 77% em apenas dois anos). O que torna esses cursos particular- mente atraentes é que eles oferecem diplomas “USP”, em geral “legitimados” por convênios firmados entre as funda- ções e as unidades respectivas. O prin- cípio da gratuidade no ensino público, em estabelecimentos oficiais, assegu- rado pelo artigo 206, da Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é assim ostensivamente ignorado. Destaque-se ainda que as fundações privadas não são instituições de ensino superior, portanto não podem ministrar cursos de ensino su- perior: o artigo 45, da LDB, reza que a educação superior “será ministrada em instituições de ensino superior, públicas ou privadas”. Caso um curso cuja res- ponsabilidade legal, por força de convê- nio, seja da USP, ainda que administra- do por uma fundação privada, nem por isso deixa de ser da USP, portanto necessariamente terá de ser gratuito. “Outro aspecto que merece uma análise detalhada diz respeito aos con- vênios firmados entre instituições pú- blicas de ensino superior, através de suas fundações de apoio e instituições particulares, para oferta de cursos de especialização em que os alunos pa- gam mensalidades ... porque estão sendo flagrantemente violados tanto o dispositivo do art. 206, inciso IV, da CF, que trata da gratuidade do ensino nos estabelecimentos oficiais, como o art. 208, inciso V, da CF que dispõe que o dever do Estado para com a educação deve se dar mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do en- sino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um ... o ensino pago passa, indevidamente, a também fazer parte do ensino de pós- graduação público” (Maliska M.A., 2001, pg. 212). 4. A concorrência desleal As fundações privadas “de apoio” exercem concorrência desleal com os profissionais lançados no mercado de Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 163UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Igualmente significativo é o fato de que as verbas que ingressam nas fundações privadas “de apoio”, como remuneração por serviços de consultoria, projetos e cursos, têm origem pública, na maior parte dos casos. Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    164 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE trabalho e com as empresas comuns, pois a) operam como empresas de consultoria, fazendo uso ostensivo ou não de um bem simbólico, a marca “USP” (incorporada aos nomes, como em “FIA-USP” ou “Fundação Vanzolini- USP”), de valor incalculável, b) con- quistam contratos do setor público sem passar por licitação, c) deixam de pagar impostos que oneram suas con- correntes. É o melhor dos mundos. A chamada Lei das Licitações (Lei 8666/93), que regula a realização de licitações pelo setor público, admite exceções que beneficiam as fundações privadas “de apoio”. A primeira é o arti- go 24, inciso XIII, com redação dada pela Lei 8.883/94, que define como “dispensável a licitação” quando hou- ver “contratação de instituição brasilei- ra incumbida regimental ou estatuta- riamente de pesquisa, do ensino ou do desenvolvimento institucional”, desde que “a contratada detenha in- questionável reputação ético-profissio- nal e não tenha fins lucrativos”. Já o artigo 25, inciso II, prevê a ine- xigibilidade da licitação quando se tra- tar de “contratação de serviços técni- cos ... de natureza singular, com profis- sionais ou empresas de notória espe- cialização”. A Fipecafi foi contratada sem licitação pelo Banco Central, em 1998, com base nesse dispositivo, co- mo revelou a CPI do Banespa. A “notó- ria especialização”, porém, já estava presente em outro diploma legal, revo- gado pela Lei 8666/93: o Decreto-Lei 2.300/86 (com a redação dada pelo Decreto-Lei 2.360/87), que, em seu ar- tigo 22, inciso VIII, dispensava a licita- ção “para a contratação de serviços técnicos com profissionais de notória especialização”. Em 1992, por exemplo, o Banco do Brasil firmou, de uma só vez, um con- vênio com três fundações privadas “de apoio”: FIA, Fipecafi e Fipe, sem licita- ção, com base no citado Decreto-Lei. Em 1995, o convênio foi renovado por mais cinco anos por um termo aditivo, “dispensada a licitação com funda- mento na Lei 8.666, com a redação dada pela Lei 8.883”. Graças a esse convênio, a FIA executou 23 projetos remunerados para o BB, até 1995, e outros 18, nos anos seguintes. Para se ter uma idéia da escala de valores, o BB pagou, por 11 projetos realizados em 1995 (quase sempre cursos para executivos), e coordenados por dois docentes da FEA, a quantia total de R$ 1,3 milhão em números redondos - o equivalente a US$ 1,30 milhão, na época. O Tribunal de Contas da União (TCU), que estudou 1824 contratos de consultoria firmados por 219 órgãos e entidades da administração pública federal, entre 1997 e 1999, relacionou a Fipecafi e a FIA entre os “dez maio- res contratados por total de valores contratados”, com as cifras de R$ 34,9 milhões e R$ 32 milhões, respectiva- mente (TC-005.168/2000-5, Relatório, sessão de 7/2/2001). De acordo com o TCU, dos contra- tos examinados, 1352 (74%) foram fir- mados através de dispensa ou inexigi- bilidade de licitação. Das 646 dispen- sas, “250 (38%) foram realizadas ten- do como base o inciso XIII, do art. 24, da Lei 8666/93, sendo que, na quase totalidade dos casos, foram contrata- das ‘fundações de apoio a univer- sidades’ “ (TC-005.168/2000-5, Rela- tório, sessão de 7/2/2001). No perío- do, a FIA realizou 17 contratos com o setor público federal, 16 dos quais sem licitação. A Fipecafi firmou 11 con- tratos com a administração federal, 10 deles sem licitação. Entre o aparato normativo que tor- na ainda mais atraente classificar uma entidade como uma fundação “de apoio” a universidades, merece desta- que a letra “c”, do inciso VI, do artigo 150, da Constituição Federal, ao prever que é vedado à União, aos Estados e Municípios instituir impostos sobre “instituições de educação e de assis- tência social, sem fins lucrativos”, des- de que sejam declaradas de utilidade pública, o que é feito, em geral, sem maiores dificuldades, pelo Ministério Público Estadual. Novos favores fiscais sobrevieram com a Medida Provisória 1858-6, que isentou do pagamento da Contribui- ção para o Financiamento da Segurida- de Social (Cofins), em relação a fatos geradores posteriores a 1º/2/1999, as fundações de direito privado e outras instituições. Graças a essa benesse, a FIA, uma das que deixaram de recolher a Cofins, economizou quase R$ 1,7 milhão somente no exercício de 1999. No caso das fundações privadas “de apoio” que gerenciam os complexos hospitalares vinculados à USP, a isenção estende-se à contribuição para com a Previdência. O certificado de entidade filantrópica, atribuído a essas entidades pelo Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), isenta-as da obrigação de pagar a contribuição previdenciária de seus funcionários e contratados. A Fundação Faculdade de Medicina reve- la as dimensões desse privilégio: “a contribuição previdenciária aproximada devida, caso não gozasse de isenção, poderia ser assim demonstrada”: R$ 23,78 milhões, em 1999, e R$ 24,65 milhões, em 2000 (FFM, Demons- trações Financeiras 2000, p. 10). 5. Conflito de interesses As instituições privadas que dizem “apoiar” a USP, não sobreviveriam sem a mão amiga da burocracia da univer- sidade. E, na medida em que se exa- mina a composição dos corpos diri- gentes das fundações “de apoio”, veri- fica-se que neles estão presentes mui- tos daqueles que exercem ou exerce- ram posições de mando, na hierarquia da USP. Constatou-se que os represen- Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 165UNIVERSIDADE E SOCIEDADE tantes dessas instituições somam 1/4 da composição do Conselho Universi- tário; que são maioria numa das mais importantes comissões do Conselho Universitário da USP, a Comissão de Orçamento e Patrimônio (COP); e que ocupam ou ocuparam posições em ór- gãos da administração direta da Universidade - é o caso dos professo- res Jacques Marcovitch (ex-presidente da FIA, ex-pró-reitor de Cultura e Ex- tensão e ex-reitor) e Hélio Nogueira da Cruz (membro do Conselho Curador da Fipe, durante 12 anos coordenador da Codage e atual vice-reitor). A existência e atividade das funda- ções “de apoio” criou, na USP, um imenso cipoal de conflitos de interes- se. Não é um problema apenas simbó- lico: diz respeito a questões materiais, cifras importantes que estão em jogo. O ocupante da Reitoria ou diretor de uma unidade é voz determinante na decisão sobre o montante que deter- minada fundação deve pagar, a título de ressarcimento pelo uso de um pré- dio. Se uma dessas autoridades tam- bém ocupa um cargo, na direção ou no conselho dessa mesma fundação, evidencia-se o conflito de interesses. E se, na assinatura de um convênio en- tre uma fundação privada e uma uni- dade, um diretor está presente de um lado e de outro do balcão, como ocor- reu na Escola de Comunicações e Ar- tes (ECA) e na Escola Politécnica, isso beira a prevaricação. Além desses casos particulares, que se contam às dezenas na USP, há um conflito genérico de interesses. É sim- ples: funcionário público não pode transacionar com o Estado, por moti- vos óbvios. O Estatuto dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo (lei 10.261/68) veda peremptoriamente essa hipótese, no artigo 243, inciso I: “É proibido ainda ao funcionário: I- fa- zer contratos de natureza comercial e industrial com o Governo, por si, ou como representante de outrem; II- participar da gerência ou administra- ção de empresas bancárias ou indus- triais, ou de sociedades comerciais, que mantenham relações comerciais ou administrativas com o Governo do Estado, sejam por este subvenciona- das ou estejam diretamente relaciona- das com a finalidade da repartição ou serviço”. O Estatuto dos Servidores da USP repete essas normas, ao dispor, no ar- tigo 168, que “ao servidor é proibido: IX- firmar contratos de natureza comer- cial ou industrial com o Estado e a Universidade” e “X- participar da ge- rência ou administração de empresas que mantenham relações comerciais ou administrativas com o Estado ou com a Universidade”. No entanto, sob o manto das fundações privadas “de apoio”, os grupos de docentes que as constituíram ou que delas participam vêm fazendo exatamente isso há vá- rios anos: transacionando com o Esta- do. Vendendo serviços e auferindo ga- nhos que superam em muito seus pró- prios salários e os de seus colegas. 6. O prejuízo à docência, à pesquisa e à extensão A lógica dessas entidades, ao con- trário do previsto nos seus estatutos, é mercantilista e a perspectiva de hege- monia que impõem aos ambientes em que atuam é incompatível com a ne- cessária isenção, isonomia, autonomia de gestão e perspectiva de desenvolvi- mento humano e social inerentes a uma universidade pública. Nesse contexto, na maioria dos pro- jetos e serviços realizados por essas fundações trabalham docentes contra- tados pela USP, em RDIDP, os quais não raramente recebem por essas ati- vidades uma remuneração adicional que supera largamente os seus salá- rios. Estimativas fundamentadas da re- muneração adicional desses docentes que, mesmo em RDIDP, atuaram em projetos vinculados a essas fundações privadas “de apoio”, em 2000, indicam montantes médios da ordem de R$ 57 mil reais por ano (caso da FCAV, em 2000) e mesmo superiores, ao passo que o salário em RDIDP de um Profes- sor Doutor, em outubro de 2000, era de R$ 3.475,16 (pouco mais de 45 mil reais por ano, computado o 13º). Outro exemplo: no ano 2000, a FIA repassou ao Fundo de Taxas de Con- vênio da Reitoria, segundo a Codage, a quantia de R$ 1,075 milhão, referente aos 5% previstos na Resolução 4543/ 98. Quer dizer que o bolo da remune- ração dos docentes ligados a essa fun- dação privada “de apoio” foi, portanto, de R$ 21,5 milhões, em números re- dondos, e que, como havia então 55 docentes em atividade na FIA, eles fi- zeram jus, em média, a R$ 390 mil nesse ano! Tais ganhos adicionais permitem compreender as denúncias feitas por alunos de diferentes institutos quanto à dedicação preferencial de certos do- centes às disciplinas dos cursos pro- movidos pelas fundações privadas “de apoio”, em detrimento das grades cur- riculares da graduação e da pós-gra- Tais ganhos adicionais permitem compreender as denúncias feitas por alunos de diferentes institutos quanto à dedicação preferencial de certos docentes às disciplinas dos cursos promovidos pelas fundações privadas “de apoio”. Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    166 - AnoXII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE duação convencionais. O brilho assép- tico dos MBA contrasta com as salas lotadas de certas disciplinas da gra- duação, como História Econômica Contemporânea, que chegou a ter uma turma de 154 alunos por falta de professores. As linhas de pesquisa, concomitan- temente, passam a ser ditadas pelos interesses do mercado (incluídos os daqueles docentes que constituem as entidades) e dos governos, que são os grandes contratantes. Pesquisa-se o que for encomendado (ou sugerido pelos pesquisadores com o objetivo de gerar remuneração, o que produz o mesmo efeito), comprometendo-se assim a autonomia do saber. Instituições e empresas privadas, ór- gãos e empresas estatais, contratam a maior parte dos projetos de pesquisa das fundações privadas “de apoio” vin- culadas à FEA e a outras unidades. Veja-se o caso da Fipe, fundação pri- vada que não gosta de divulgar seus números, mas cujas receitas vinham aumentando exponencialmente ano a ano (1995: R$ 11 milhões, 1996: R$ 16,7 milhões, 1997: R$ 19,5 milhões, 1998: R$ 27,4 milhões). Entre 1990 e 2000, os docentes ligados à Fipe reali- zaram 11 pesquisas sobre emprego e desem- prego, das quais 5 foram contratadas pelo Ministério do Trabalho, 2 por secretarias estaduais do governo de SP, 1 pela Organização Internacio- nal do Trabalho (OIT) e as restantes por institui- ções privadas. A Fipe desenvolveu 43 pesquisas no ano de 2000, das quais somente 8 tratavam de questões macroeconômicas, de desenvolvimento econô- mico ou de questões ligadas à geração de renda, emprego e políticas públicas. Outras quatro pes- quisas tratavam de questões ligadas ao Fundef, todas contratadas pelo MEC. Das 43 pesquisas, nada menos do que 10 foram contratadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), 3 pela Sabesp, 2 pela As- sociação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), 1 pela Associação Brasileira de Concessioná- rias de Rodovias (ABCR), 1 pela Nestlé, 1 pela Editora Abril etc. Exemplo esclarecedor do tipo de pesquisa gerado pela relação mercan- til é aquela contratada pela ABCR, enti- dade das concessionárias de rodovias, e intitulada “Desenvolvimento de um Modelo Conceitual, que permita ava- liar as Condições que alteram o Equi- líbrio Econômico-Financeiro dos Con- tratos de Concessão de Rodovias no Brasil, e os Mecanismos para a sua Recomposição”. O resumo disponível no site da Fipe esclarece que a “longa duração de contratos de concessão faz com que a concessionária esteja sujei- ta a riscos de difícil previsão”, e que, portanto, “é de interesse do Estado ga- rantir que situações, previstas ou não em contrato, que ameacem o desem- penho fiscal das concessionárias de rodovias, sejam contornadas, o que pode ser feito mediante revisão tarifá- ria, transferência de recursos, redução nas exigências contratuais, etc” (os gri- fos são nossos). Em tal contexto, a extensão univer- sitária é entendida como pura venda de serviços e de conhecimentos. O tempo que falta para atender os alu- nos da graduação e da pós-graduação gratuitas não vai sobrar, também, para a extensão vista como uma prestação de serviços gratuitos à sociedade que financia a universidade pública. 7. A fiscalização: para inglês ver? No âmbito da USP, não existe o de- vido controle, em primeiro lugar, das atividades desenvolvidas por docentes nas fundações privadas “de apoio”, pa- ra saber se de fato restringem-se ao máximo de 8 horas semanais regula- mentadas. Ao contrário: nota-se libera- lidade da Comissão Especial de Regi- mes de Trabalho (CERT), no tocante às autorizações que concede para “flexibi- lização” do RDIDP, sabendo-se de, pelo menos, dois casos de liberação em gru- po de docentes vinculados às entida- des privadas. Pior ainda, não existe controle ade- quado da Reitoria e da comunidade sobre as atividades das fundações pri- vadas “de apoio”. Inicialmente, a Rei- toria sequer sabia quantas eram essas entidades. Várias delas funcionam até hoje sem a formalização de convênios, ferindo abertamente a Resolução 3582/89. Como vimos acima, o órgão que deveria fiscalizar os repasses fi- nanceiros devidos por elas à USP, que é a Codage, não cumpre esse papel. A fiscalização externa, ex-offício, do Ministério Público Estadual e do Tribu- nal de Contas do Estado, é extrema- mente limitada. Até hoje, a Promotoria de Fundações decretou intervenção Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 - 167UNIVERSIDADE E SOCIEDADE temporária em uma única fundação privada “de apoio”, a FFM. A Promo- toria está desaparelhada para realizar esse trabalho, por falta de pessoal e de recursos. O TCE, por sua vez, embora entenda que essas entidades devem prestar-lhe contas pelos vínculos que mantêm com o poder público (a USP), restringe sua análise a aspectos pon- tuais, como a forma de contratação de funcionários. “Não há fiscalização das atividades das fundações”, declarou o presidente do TCE, Edgard Rodrigues, em audiência pública, na Assembléia Legislativa (D.O., 22/11/ 2001, p.8). Atualmente, o único órgão que tem enfrentado a “privatização insolente” das fundações privadas “de apoio”, em São Paulo e em vários Estados, é o Ministério Público Federal, como ver- se-á a seguir. O foco da ação do MPF tem sido os cursos pagos oferecidos por aquelas entidades. Ao mesmo, foi acionada, em São Paulo, a Promotoria de Cidadania do Ministério Público Estadual. 8. Novidades no front O MPF tem tomado posição firme contra cursos pagos e mestrados pro- fissionalizantes, vinculados ou não a fundações privadas “de apoio”, criados em outras universidades, estaduais e federais, e que ferem os dispositivos constitucionais que prevêem a gratui- dade nas instituições públicas de ensi- no superior. No Rio de Janeiro, em 2001, o MPF propôs Ação Civil Pública, com pedido de liminar, contra a União Federal, a Capes, a Universidade Federal Flumi- nense, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e a Fundação IBGE, para que a UFF, UFRRJ e o IBGE se abste- nham de realizar qualquer cobrança aos seus alunos dos cursos de mestra- do profissionalizante. A Justiça Federal concedeu liminar favorável ao MPF, suspendendo a cobrança de valores nestes cursos até decisão final da ação, considerando que os mestrados pro- fissionalizantes não constituem solu- ção para resolver a escassez de recur- sos das instituições públicas. No Ceará, o MPF ingressou, em ju- lho de 2002, com Ação Civil Pública, com pedido liminar, contra a Univer- sidade Federal do Ceará, para que esta deixe de oferecer e realizar cursos de pós-graduação lato ou stricto sensu, dentro ou fora de suas instalações, mediante cobrança de mensalidades, ou ainda com outras entidades civis, pessoas jurídicas de direito privado, que não tenham atribuições legais de promover o aperfeiçoamento institu- cional de seus integrantes; para que deixe de utilizar, em cursos de pós-gra- duação lato ou stricto sensu, professo- res sem vínculo com a Universidade; para que só utilize professores em re- gime de dedicação exclusiva nos cur- sos de pós-graduação lato ou stricto sensu que não mantenham vínculo jurídico de qualquer natureza com pessoas jurídicas de direito privado; e para que devolva aos alunos todos os valores recebidos a título de mensali- dades após o ajuizamento da ação. Em São Paulo, o MPF iniciou apura- ção da cobrança de valores de cursos de mestrados profissionalizantes, nas universidades federais de São Paulo, para eventual promoção de Ação Civil Pública. Em novembro de 2002, o MPF e a Unifesp (antiga Escola Paulista de Medicina) celebraram um termo de ajustamento de conduta, mediante o qual a Unifesp comprometeu-se a sus- pender a cobrança de valores, no seu mestrado profissionalizante (detalhes sobre as iniciativas do MPF podem ser encontrados na Revista Adusp 27, dis- ponível na Internet, no sítio da Adusp). Também em São Paulo, o professor Márcio Augelli, da Unesp, decidiu soli- citar à Promotoria da Vara de Cidada- nia, em 18/11/2002, a apuração de irregularidades relacionadas à atuação das fundações privadas “de apoio” e à cobrança de cursos na USP (PJC-CAP: 02/722, Prot PJ: 5832/02). A Promo- toria instaurou um procedimento ad- ministrativo, no curso do qual foi reali- zada audiência do presidente da Adusp e da assessoria jurídica desta entidade com o promotor Sílvio Antô- nio Marques. O promotor solicitou que a Adusp fornecesse informações sobre o tema, uma vez que grande parte do material que fundamenta a representação do professor Augelli corresponde às publi- cações da Adusp. A diretoria da entida- de decidiu, então, encaminhar suas próprias razões ao Ministério Público, com o objetivo de solicitar instauração de Inquérito Civil Público para apura- ção dos fatos descritos relativos à co- brança de cursos e atuação de funda- ções privadas “de apoio”, na USP. O documento protocolado (no 006229, de 06/12/2002) está disponível na íntegra na página do jurídico, no sítio da entidade (www.adusp.org.br/juris/ representa.htm). Em Goiás, em janeiro de 2003, o Ministério Público Estadual ajuizou, na Vara da Fazenda Pública de Anápolis, Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência A proliferação de cursos pagos e a transformação de grupos de docentes em empresários encobertos pela fachada de fundações privadas “de apoio” deram-se em função da perspectiva de desobrigação do Estado quanto a suas funções básicas para com a sociedade.
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    Ação Civil Públicacom pedido de tute- la antecipada contra a Universidade Es- tadual de Goiás (UEG) e a Fundação Universitária do Cerrado (Funcer), que mantêm, por convênio, diversos cursos seqüenciais pagos. O promotor Marce- lo André de Azevedo requer a suspen- são da cobrança de valores, a declara- ção da ilegalidade da cobrança e que a UEG abstenha-se de oferecer novos cursos pagos. A proliferação de cursos pagos e a transformação de grupos de docentes em empresários encobertos pela fachada de fundações privadas “de apoio” deram-se em função da pers- pectiva de desobrigação do Estado quanto a suas funções básicas para com a sociedade, entre elas a de pro- ver o direito ao ensino de qualidade, para todos, em todos os níveis. A justi- ficativa apresentada é a de que a uni- versidade deve atender à “demanda social” a ela dirigida. Porém, a “deman- da social” representa única e exclusiva- mente o “mercado”, como se o merca- do pudesse substituir a sociedade a quem o Estado deve servir, e as razões econômicas privadas pudessem ser assumidas como manifestação do inte- resse geral, do interesse coletivo da po- pulação, a quem a universidade deve atender. Ao contrário do que alguns divul- gam, é absolutamente viável manter as universidades públicas com recursos públicos. Esses recursos existem, basta que sejam destinados em montantes compatíveis com parâmetros interna- cionais, tomados com referência em percentuais do PIB, como o mínimo de 1% para a manutenção do ensino su- perior de graduação, conforme previsto no Plano Nacional de Educação-PNE: Projeto da Sociedade Brasileira, com o qual o Andes Sindicato Nacional contri- buiu e pelo qual continua a lutar, para conquistar a implementação das dire- trizes ali previstas. No caso do Estado de São Paulo, o PIB situa-se atualmente ao redor de R$ 400 bilhões a R$ 450 bilhões. Nosso setor público representa cerca de 20% desse montante. Em qualquer nação organizada, esse percentual varia entre 40% e 55%. Mesmo entre nossos vizi- nhos latino-americanos, tal percentual é superior a 20%. A cota-parte do ICMS proporciona cerca de 90% das receitas do Estado de São Paulo. Em 2002, a cota-parte fe- chou o ano em R$ 27,1 bilhões, ou seja, apenas 6% do PIB estadual! Dessa fonte, o Estado repassou às universida- des R$ 2,7 bilhões, que correspondem a tão só 0,6% do PIB estadual. Quando descontados os gastos com aposenta- dorias (previdência) que estão incluí- dos nesse montante, o repasse fica abaixo de 0,5% do PIB. Indicadores da ONU mostram que as sociedades mais organizadas destinam entre 1,5% e 2% do PIB para seu sistema superior de educação, quando consideradas as ati- vidades de graduação e de pós-gradua- ção. Esse investimento tem reflexo direto em ciência e tecnologia, sem os quais nenhuma economia ou nação se torna competitiva e independente. Países emergentes devem investir percentuais ainda mais elevados do seu PIB, no setor universitário, justa- mente para compensar seu atraso em relação aos demais. Fica evidente a ne- cessidade de atingir-se níveis de finan- ciamento público compatíveis com as reais possibilidades da economia de São Paulo ou do Brasil, e isso depende necessariamente da vontade política de se combater os absurdos percentu- ais de sonegação fiscal, admitidos pe- las próprias autoridades tributárias co- mo estando em torno de 50%! Os porta-vozes das fundações priva- das “de apoio” insistem em alardear que não existe privatização alguma, que suas instituições são muito úteis à USP, que os valores celebrados em al- guns contratos ou cobrados por alguns cursos são perfeitamente normais, que não existe quebra da isonomia salarial e assim por diante. Mas uma síntese do que representam e do que realmente são essas entidades bem pode partir de um jurista: “O que se passou, entre- tanto, no Direito Brasileiro, é que foram criadas inúmeras pessoas designadas como ‘fundações’, com atribuições niti- damente públicas, e que sob este as- pecto, em nada se distinguiam das au- tarquias. O regime delas estaria inevita- velmente atrelando-as às limitações e controles próprios das pessoas de Di- reito Público. Entretanto, foram batiza- das de pessoas de Direito Privado ape- nas para se evadirem destes controles moralizadores ou, então, para permitir que seus agentes acumulassem cargos e empregos, o que lhes seria vedado se fossem reconhecidas como pessoas de Direito Público” (Bandeira de Mello, 2001). Referências Bibliográficas Bandeira de Mello, C.A: Curso de Direito Administrativo, 13ª Edição. 2001, Malheiros Editores, 870p. Maliska, M.A.: O Direito à Educação e a Constituição, 2001, Sérgio Antonio Fabris Edi- tor, 304p. Diário Oficial do Estado de São Paulo, 22/ 11/2001. Revista Adusp, edições 22, 23, 24 (2001) e 27 (2002), disponíveis no sítio www.adusp. org.br. * Ciro T. Correia é geólogo, professor asso- ciado do Instituto de Geociências da USP e presidente da Adusp S. Sindical. ** Pedro E. da Rocha Pomar é jornalista, editor da Revista Adusp e doutorando em jornalismo pela ECA-USP. UNIVERSIDADE E SOCIEDADE168 - Ano XII, Nº 29, março de 2003 Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    A questão daautonomia nas universidades brasileiras sempre foi um problema central com que se deparou o movimento docente ao longo de várias décadas. Em especial, durante os mais de 20 anos de atua- ção do ANDES -Sindicato Nacional, muito se discutiu acerca do tema da autonomia, principalmente se levar- mos em consideração que a mercê de casuísmos de governantes diversos, as Instituições de Ensino Superior no Brasil sofreram, freqüentemente, o assédio da parte do poder executivo que procurou lhe conferir o status adequado dentro do contexto a que acreditavam que deveriam servir. Dessa forma, a luta pela autonomia sempre se constituiu no cerne do enfrentamento entre o poder público, o governante de plantão e os segmentos docente, discente e técnico-administrativo, organizados no interior das diversas IES de âmbito federal, estadual e municipal (isso para não citar as IPES cuja questão da autonomia enfrenta problemas ainda mais graves). Os debates sobre a autonomia sempre foram pautados em diversas publicações, congressos, CONAD’s e encontros das regionais do ANDES – SN. Sendo assim, não pretendemos fa- zer aqui uma discussão exaustiva sobre o tema, haja vista que o assunto tam- bém foi por demais abordado em inú- meros artigos publicados na própria revista Universidade e Sociedade e de- mais publicações do gênero.1 Nosso propósito neste texto consiste em dis- cutir a questão da autonomia e da car- reira docente à luz do artigo 207, da Constituição Brasileira, buscando arti- cular a conformação de um projeto po- lítico de destruição do ensino público superior no Brasil, com a trajetória das Instituições de Ensino Superior na Ba- hia e o processo de resistência dos do- centes das IEES-Ba. Nesse percurso, procuraremos localizar as interferên- cias governamentais que balizaram a formação e interiorização do ensino su- perior neste Estado, desde a década de 80 até os dias atuais. A luta pela autonomia universitária: um conceito em disputa Nunca é demais salientar que o problema da autonomia foi levantado inicialmente quando da fundação das primeiras universidades na Idade Mé- dia européia. Naquele momento, pro- curava-se salvaguardar o livre exercício do conhecimento que não poderia (ou deveria) estar vinculado aos projetos teológicos, monárquicos, ou de qual- quer outra natureza. Naquele contexto de surgimento dos Estados modernos, as universidades proporcionaram o las- tro intelectual de um projeto em gesta- ção, ao tempo em que foram o produ- to da crise do feudalismo e das formas Ano XII, Nº 29, março de 2003 - 169UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Carlos Zacarias F. de Sena Júnior* e Ferdinand Martins da Silva** Autonomia, carreira e outras histórias: 20 anos de lutas dos docentes das universidades estaduais da Bahia Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    de educação conhecidasna medievali- dade. Nesse sentido, as universidades surgem atreladas ao projeto burguês- moderno e à edificação dos Estados nacionais e seu destino liga-se estreita- mente a estes parâmetros. 2 Apesar disso, já as primeiras insti- tuições se conformaram tentando ga- rantir algum nível de autonomia à pro- dução do conhecimento que ia se acu- mulando naqueles primeiros centros de excelência, desde o século XI da era cristã. Com o passar dos anos, a ques- tão da autonomia se tornou um verda- deiro axioma ao qual as universidades do mundo inteiro se inspiraram, ao se constituírem como espaços de produ- ção do saber. No Brasil, as primeiras universidades surgem tardiamente, no século XX, a partir da reunião de Faculdades e Es- colas superiores isoladas fundadas no período Imperial. Entretanto, é somen- te, na segunda metade desse século, que a questão da autonomia aparece claramente nas disputas por um proje- to universitário, espacialmente na déca- da de 60. Nesse período, os combates contra a ditadura militar encontraram terreno fértil nas universidades e do resultado dessas lutas surgiu o ANDES, em fins dos anos 70. Daquele momen- to em diante, a luta pela autonomia ganhou espaço cada vez mais freqüen- te nas reivindicações dos trabalhadores do ensino superior, constituindo-se a autonomia num dos princípios nortea- dores do padrão unitário de qualidade, proposto pelo Sindicato Nacional. Se- gundo a proposta do ANDES-SN: “Da conceituação de autonomia universitá- ria depende a definição do financia- mento, da carreira docente, da política de pessoal, do regime jurídico, do pro- cesso de escolha de dirigentes, da ava- liação, entre outros”.3 As lutas pela democracia enseja- ram laços substanciais entre os traba- lhadores das universidades e demais movimentos urbanos e rurais que irromperam a cena política, em inícios dos anos 80, principalmente através das campanhas pelas “Diretas Já”. Da luta pela anistia, em fins da década de 70, até a luta pela constituinte sobera- na, nos 80, uma ampla articulação dos movimentos sociais terminou por pro- duzir um processo constituinte que, não obstante a maciça presença de forças conservadoras, terminou por consagrar reivindicações históricas dos movimentos sociais, como o voto do analfabeto, a redução da jornada de trabalho, entre outras questões. No que tange à universidade, o tema da autonomia terminou por ser incorpo- rado ao texto constitucional, através do artigo 207, da Constituição promulga- da em 1988. Neste artigo, pode-se ler: “As Universidades gozam de autono- mia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e obedecerão ao princípio da indissocia- bilidade entre ensino, pesquisa e ex- tensão”. Porquanto o texto constitucio- nal seja prodigioso quanto à sua clare- za e capacidade sintética, a questão da autonomia prosseguiu sendo um cam- po aberto de disputa entre os gover- nos e a comunidade universitária re- presentada pelos três segmentos. O entendimento do ANDES-SN e demais entidades ligadas às universi- dades, no momento em que se incluiu no texto da Constituição a questão da autonomia das Universidades Brasilei- ras, vinculada a uma outra questão de igual importância, a indissociabilidade entre o ensino a pesquisa e a exten- são, era o de que o artigo era auto- aplicável e não carecia de regulamen- tação posterior. A compreensão quan- to à sua auto-aplicabilidade não garan- tia, entretanto, que as opiniões des- toassem. O que se esperava era que as disputas se restringissem ao interior das Instituições de Ensino Superior e não fossem parar nos gabinetes de parlamentares e dos governos. Dessa forma, uma longa batalha jurídica foi travada em torno do tema, o que ter- minou por ensejar a necessidade de regulamentação posterior, abrindo uma nova frente de combate para que o texto constitucional não fosse esva- ziado ou que não se produzissem dis- torções advindas de interpretações ca- suísticas. Ainda por ocasião dos efeitos da abertura democrática, no âmbito educacional, depois de quase uma dé- cada de discussões, surgiu a proposta de uma nova Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Brasileira, elaborada pelo ANDES-SN, que buscava consa- grar novos princípios de autonomia e qualidade para a Universidade Brasi- leira. Dentre os elementos fundamen- tais proclamados pelo Sindicato Nacio- nal, na sua proposta para a Universida- de, contida no Caderno 2, está a ques- tão do padrão unitário de qualidade. Neste ponto, fica estabelecido que “O padrão unitário, no sentido aqui referido, longe de pretender eliminar as diferenciações mais do que naturais e positivas entre as di- versas universidades, ditadas por especificidades locais ou regionais, por opções político acadêmicas di- ferenciadas ou por razões históri- cas, pretende elevar o nível do en- sino superior no país. Tal proposta visa a corrigir uma situação em que 170 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Porquanto o texto constitucional seja prodigioso quanto à sua clareza e capacidade sintética, a questão da autonomia prosseguiu sendo um campo aberto de disputa entre os governos e a comuni- dade universitária representada pelos três segmentos. Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    prolifera o ensinode má qualidade em estabelecimentos que não ofe- recem aos professores e alunos as condições mínimas para um traba- lho acadêmico de qualidade”.4 Em tal proposta vicejava a com- preensão de que, à parte as diferencia- ções regionais e históricas de forma- ção da Universidade Brasileira, o que se pretendia alcançar era um padrão único de qualidade que não distinguis- se as IES públicas e privadas, as insti- tuições federais, estaduais ou munici- pais. Enfim, com vistas à elevação da qualidade de ensino e de pesquisa nessas instituições, havia que se lutar conjuntamente pela qualidade acadê- mica e por condições de trabalho ade- quadas, em todas as Instituições de Ensino Superior. O projeto de LDB, do ANDES-SN, percorreu caminhos e descaminhos, entre congressos da categoria docente, gabinetes dos deputados até que final- mente foi...substituído por uma outra proposta elaborada pelo senador Dar- cy Ribeiro, com a devida vênia do Mi- nistério da Educação e a necessária as- sessoria de Eunice Durhan (figura do primeiro escalão do MEC). Com efeito, um dos primeiros proble- mas do substitutivo do senador Darcy Ribeiro dizia respeito ao grau de res- ponsabilidade do Estado para com a educação, em especial, a educação su- perior. Naquele contexto, começavam a se generalizar no Brasil as formula- ções do Banco Mundial, adequadas à ideologia do Consenso de Washing- ton, que apregoava a articulação de uma educação voltada para os proble- mas da pobreza e da segurança, nos países periféricos. Acerca do estabele- cimento das bases da “autonomia” nas esferas “didático-científica”, “adminis- trativa”, “de gestão financeira e patri- monial”, contidas no texto constitucio- nal, os problemas não foram menores. Pela leitura do Banco Mundial, a auto- nomia do ensino superior diante do Estado, num momento em que a idéia de nação independente começava a ruir, ao menos para os países ditos emergentes, seria extemporâneo.5 Paradoxalmente, na medida em que o Estado neoliberal cada vez mais se desresponsabilizava pelo ensino superior, era o momento em que mais se legislava, se decretava e se regula- mentava, em torno das universidades. Neste sentido, a gestão de Fernando Henrique Cardoso/Paulo Renato de Souza produziu uma legislação de dar inveja a qualquer governo bonapartis- ta ou à própria ditadura militar brasilei- ra, que teve na universidade um inimi- go declarado e difícil de abater. Obviamente que o princípio da au- tonomia enquanto “autodetermina- ção”, mediado por fatores diversos da economia de mercado, ficava absolu- tamente em suspenso quando pensa- mos o destino da produção científica “alienada”, como qualquer outra mer- cadoria. Ainda mais se considerarmos as atuais pressões do neoliberalismo que condicionam o funcionamento e a própria existência das universidades à possibilidade de se inserirem competi- tivamente no mercado, então limitare- mos a noção de “autonomia” à com- petição ou à possibilidade de inserção de profissionais no mercado de traba- lho ou mesmo aos produtos que a uni- versidade pode oferecer. A par dessa intervenção legal da gestão FHC/Paulo Renato, reformaram-se os currículos, avaliaram-se os cursos, formularam-se parâmetros nacionais diversos para a educação básica e superior e o mais grave de tudo isso é que nunca, em tempo algum, se destinou tanto recur- so público e se concedeu tanta facili- dade para a expansão do ensino supe- rior privado, como entre os anos 1994- 2002. De outro lado, as verbas para o ensino superior público estiveram ca- da vez mais minguadas. Consoante com o projeto de des- truição do Ensino Superior Público no Brasil, a “autonomia” da universidade brasileira foi duramente atingida pelas pressões do Banco Mundial que possi- bilitaram a eclosão de fatores diversos como a pressão de um mercado oni- presente e onipotente e também a in- terferência governamental que afirma- va pretender inserir a “obsoleta” uni- versidade brasileira, nos marcos da modernidade, ou pós-modernidade, do século XXI. A autonomia na IEES: autoritarismo, clientelismo e fisiologia. No âmbito dos estados, a questão da autonomia é ainda de maior rele- vância, tendo em vista os destinos que lhe querem impor os governantes lo- cais, muitos deles vinculados a projetos oligárquicos de tradição secular no Brasil. Este é o caso da Bahia. Neste es- tado, que possui o 5.º maior PIB do Bra- sil, quatro Instituições Estaduais de En- sino Superior buscam se afirmar no contexto da produção científica e tecno- lógica brasileira. Ao se depararem com oligarquias vorazes, os segmentos des- sas quatro universidades estaduais bus- cam afirmar os princípios da autono- mia, da qualidade acadêmica e da refe- rência social, que devem (ou deveriam) pautar o funcionamento de Instituições de Ensino Superior pelo Brasil afora. O sistema de ensino superior do Estado da Bahia se conformou essen- cialmente a partir dos anos 80, portan- to há pouco mais de 20 anos. Na vaga demandada pela pressão por ensino superior que se iniciou no final dos anos 80 e explodiu nos 90, a Bahia, que só possui uma Universidade Fede- ral, montou estrategicamente sua rede de ensino superior, atendendo as micro-regiões do Estado.6 Este sistema é integrado por quatro Universidades Estaduais, a saber: a Universidade do Estado da Bahia – UNEB, a Universi- Ano XII, Nº 29, março de 2003 171UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    dade Estadual doSudoeste da Bahia – UESB, a Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS e a Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Dessas quatro IEES, duas são multicampi, a UNEB que possui 21 campi espalha- dos pelas diversas regiões da Bahia, e a UESB têm três campi na região su- doeste do Estado. A UEFS e a UESC são unicampi e atendem três das ma- iores cidades da Bahia, como Feira de Santana (a segunda maior cidade do Estado em termos populacionais) e Itabuna – Ilhéus que são a 4.ª e a 5.ª maiores cidades, segundo o censo do IBGE de 2000. A legislação atinente às Universida- des Estaduais Baianas é composta pe- las Leis 7.176/97 e 8.352/02 (Estatuto do Magistério Público das Universida- des Estaduais da Bahia), além da Lei 6.677/94 que dispõe sobre o Estatuto do Servidor Público do Estado da Ba- hia. Da legislação específica sobre as IEES-BA, pretendemos discutir o pro- cesso de implantação das duas Leis que surgiram em momentos distintos e que causaram profundas implicações na questão da autonomia e da carreira das Universidades Estaduais Baianas. A Lei 7.176/97 foi um ponto de in- flexão da intervenção do governo no Sistema de Ensino Superior da Bahia. Surgida num contexto de intenso re- fluxo da organização das categorias docente, discente e de funcionários no interior das universidades, essa Lei foi fruto de um lento processo de inter- venção governamental, iniciada a par- tir da ascensão de Antônio Carlos Ma- galhães ao governo da Bahia, em 1991, após um curto intervalo de quatro anos de governo Waldir Pires/Nilo Coelho (1987 – 1991). Em torno das questões constantes desta Lei, poderemos dizer: ela sintetiza as lutas do MD baiano, suas vitórias e derrotas. O “Governo Democrático” e a questão das IEES-Ba A eleição de Waldir Pires/Nilo Coe- lho foi resultado das intensas mobiliza- ções que sacudiram o Brasil, na déca- da de 80, e que se supunha sepultaria o velho mandonismo carlista na Bahia. O clima que antecedia o processo elei- toral demonstrava o anseio por mu- danças e foi tão grande que até hoje não se igualou à margem de mais de um milhão e quinhentos mil votos que garantiram a vitória do candidato pee- medebista, em 86. Naquele momento, a vitória sobre o candidato de ACM, Josaphat Marinho, indicava que os mo- vimentos sociais colhiam os resultados das mobilizações dos anos 80 e pode- riam avançar ainda mais. No ensejo, aproveitou-se para discutir e aprovar um novo Estatuto do Magistério Supe- rior e um Plano de Carreira para os do- centes das IEES-Ba. Do acúmulo das discussões, mas não sem divergências e embates, o governo terminou ceden- do às pressões e atendendo as reivin- dicações da categoria, resultando na aprovação da lei 4.793, em julho de 1988. Assim, consagravam-se reivindi- cações históricas que garantiam a iso- nomia e o regime jurídico único para todos os docentes das IEES-Ba. Além disso, estabelecia-se uma carreira con- dizente com os anseios da categoria, naquele momento, contemplando quatro classes (auxiliar, assistente, ad- junto e titular), cada uma com quatro níveis; progressão por titulação ou tempo de serviço (sendo necessária, neste caso, a defesa de uma monogra- fia ou de uma tese, dependendo da classe pleiteada); regime de trabalho de 20 horas ou de Dedicação Exclusiva (com carga horária de 40 horas e a proi- bição de outro vínculo empregatício). Não obstante o significativo avan- ço em relação à Lei anterior (3.05/81), a 4.93/88 incorporou também os resultados do arrocho salarial que se tinham intensificado, na década de 80. Dessa forma, as gratificações por titula- ção de 20, 30 e 40% para especialis- tas, mestres e doutores, respectiva- mente, e incentivo à produção científi- ca de 10% já indicavam os tradicionais mecanismos compensatórios, em vista do achatamento salarial que tenderia a se intensificar, nos anos seguintes. Apesar dos ganhos pontuais, fruto das mobilizações diversas do período, o “Governo Democrático” (assim se autodenominava) de Waldir Pires che- gou a um final melancólico, em 1989, com a renúncia do governador que se- guia para compor a chapa à presidên- cia da república, com Ulisses Guima- rães. A partir da assunção do vice-go- vernador Nilo Coelho, um poderoso la- tifundiário da região de Guanambi, no sudoeste da Bahia, as contradições se acirraram, com as velhas oligarquias baianas reassumindo definitivamente seu lugar no comando do Estado. Dali para a fragorosa derrota das forças di- tas “progressistas” diante de ACM, nas eleições de 1990, foi um passo. Dez anos de governos carlistas: as IEES-Ba no olho do furacão ACM (1991-1995) retornou e co- meçou a pôr as coisas nos seus devi- dos lugares, ou seja, devolveu as Uni- versidades Estaduais Baianas ao lugar de instrumento clientelista, revogando várias das conquistas consagradas na Lei 4.793/88 e, principalmente, im- pondo o maior arrocho salarial que se têm notícia na história do serviço pú- blico baiano. A partir daí, legislou à vontade sobre as IEES-Ba, revogando de forma arbitrária o essencial das conquistas da carreira, como os níveis, por exemplo. Além disso, efetivou a precarização do trabalho acadêmico, a partir da introdução do famigerado re- gime de trabalho de 40 horas, sem de- dicação exclusiva, e a imposição de um limite máximo de 30% de profes- 172 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    sores em regimede dedicação exclusi- va em cada Instituição. Essa última medida provocou uma imediata rea- ção da comunidade docente, especial- mente da UESB que era a única IEES que extrapolava o limite estabelecido, possuindo cerca de 70% dos professo- res nessa condição. O resultado foi uma greve naquela Instituição que du- rou cerca de dois meses e terminou por garantir um quadro específico de docentes com DE, sem as limitações, ao lado do novo quadro com as limita- ções decorrentes da legislação.7 Por conta de todas essas ingerên- cias nas Universidades Estaduais, po- demos assim dizer que o governo ACM foi marcado por um sucessivo enfren- tamento com o movimento docente, inclusive com agressões físicas a pro- fessores perpetradas por deputados governistas, como as ocorridas no epi- sódio da Assembléia Legislativa, em 92, quando os docentes lutavam con- tra as modificações na Lei 4793/88. Apesar disso, este foi um período bas- tante rico para o movimento docente estadual, uma vez que o mesmo pas- sou a contar também com a presença dos companheiros da UESC, inicial- mente organizados na APRUNI (Asso- ciação dos Professores Universitários de Ilhéus e Itabuna) e, depois, na As- sociação de Docentes da UESC – ADUSC, fundada em 93. Assim, no final do governo ACM e início do governo Paulo Souto (1995- 1999), as associações de docentes cri- aram o Fórum das Quatro e deflagram uma campanha que ficou conhecida como CAMPANHA DA VERGONHA, na qual denunciavam as péssimas condi- ções salariais dos professores das Uni- versidades Estaduais Baianas. Formu- lam ainda uma proposta de plano de carreira em 1995/96, devidamente en- gavetada por Paulo Souto, na tentativa de resgatar as conquista perdidas, no período ACM. Consoante com a filosofia de um Estado cada vez menos disposto a in- vestir em educação, o governo de Pau- lo Souto (1995-1999) manteve o arro- cho salarial e o enxugamento da folha de pagamentos por meio de mecanis- mos nefastos, como a manutenção do quantitativo de 40% dos professores, em regime de Dedicação Exclusiva.8 Em resposta às reivindicações do mo- vimento docente por melhores salários e a aprovação de um novo plano de carreira, o governo introduziu o meca- nismo das gratificações, sendo criada a GEAC (Gratificação de Estímulo Ati- vidade de Classe) e, posteriormente, a CET (Condição Especial de Trabalho) que permanecem até hoje. No bojo do seu “projeto para o En- sino Superior”, estava a concepção de que as Universidades Estaduais Baia- nas deveriam atender às demandas por expansão do ensino superior no Estado, o que seria louvável, caso se considerasse a Universidade como au- tônoma para definir sua própria ex- pansão (de campi e de cursos), a par- tir de critérios mínimos de qualidade. Só que, ao contrário, as Instituições se expandiram ao bel prazer dos sucessi- vos governos (carlistas) que levaram em consideração apenas a força de oli- garquias locais, na troca de favores com o executivo. Assim, das quatro Universidades Estaduais, a UNEB, mul- ticampi por excelência, foi a que mais se expandiu, atingindo a marca de 21 campi, em 2002 (há ainda previsão de criação de mais quatro campi para os próximos anos). Por fim, foi ainda no governo de Paulo Souto que as IEES-Ba sofreram o maior golpe na autonomia e na demo- cracia interna. Com efeito, a Lei 7.176/ 97, de reestruturação das Universida- des Estaduais da Bahia, consagrava, enfim, a política carlista para o Ensino Superior no Estado. Ao redefinir a for- ma de representação do segmento docente nos Conselhos Superiores (ar- tigo 5º e 6.º), sem a presença de do- centes eleitos exclusivamente para a função (considera-se que os Diretores de Departamento, para o Conselho Universitário - CONSU, e estes e os Co- ordenadores de Colegiado, para o Conselho Superior de Ensino Pesquisa e Extensão – CONSEPE, já seriam os representantes docentes); continuar com a limitação do percentual de do- centes com dedicação exclusiva, am- pliando agora para 50% (artigo 23.º) e ao estabelecer os critérios para ocupa- ção de cargos a partir da LDB, com lista tríplice, direito à reeleição, e represen- tação dos três segmentos, na base de 70% para os docentes, e o restante para os técnico-administrativos e dis- centes, a Lei 7176/97 não apenas in- corporou o espírito autoritário da LDB, como foi além. Não será necessário discutir a rea- ção da comunidade acadêmica diante de tal disparate, basta registrar a inten- sa mobilização que levou os docentes e demais segmentos das quatro IEES- Ba a protagonizarem diversos atos na capital e no interior em resposta à agressão que as Universidades sofre- ram. Aqui cabe ainda destacar o papel da comunidade acadêmica da UNEB Ano XII, Nº 29, março de 2003 173UNIVERSIDADE E SOCIEDADE No final do governo ACM e início do governo Paulo Souto (1995-1999), as associações de docentes criaram o Fórum das Quatro e deflagram uma campanha que ficou conhecida como CAMPANHA DA VERGO- NHA, na qual denunciavam as péssimas condições salariais dos professores das Uni- versidades Estaduais Baianas. Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    que travou umaintensa batalha na Assembléia Legislativa do Estado, já que foi a Instituição que mais sofreu com a Lei (uma verdadeira interven- ção), visto que estava em pleno pro- cesso eleitoral para escolha do novo reitor, o que terminou ensejando exo- nerações casuísticas e nomeações de interventores em diversas Unidades que eram Faculdades e passavam a ser Departamentos e campi. A agressão que sofrera a Univer- sidade, em 1997, aguardaria ainda cin- co anos para um revide à altura, pois somente em 2000, quando os docen- tes das quatro Universidades Estaduais da Bahia fizeram uma greve conjunta que durou cerca de 70 dias, é que a Lei começou efetivamente a ser questio- nada com força.9 Dois anos depois da greve de 2000, em maio de 2002, os docentes das quatro IEES-Ba, mais uma vez, encamparam uma greve e desta feita o centro da pauta de reivin- dicações, apesar das perdas salariais, foi a questão da Carreira Docente e da autonomia ferida com a Lei 7.176/97. Assim, a pauta da greve de 2002, que havia sido apresentada em 2001, esta- va composta pelos seguintes itens: 1. Reajuste emergencial de salários me- diante a incorporação das gratificações e de reposição de 114%; 2. Aumento de verbas para as IEES-Ba; 3. Rees- truturação da Carreira Docente; 4. Re- vogação da Lei 7.176/97. Da pauta apresentada, o governo cedeu, na dis- cussão da Carreira Docente, o que im- plicava a revogação de diversos artigos da Lei 7.176/97, caminho inexorável para o (re)estabelecimento da autono- mia e da democracia nas IEES-Ba. A partir daí, ao longo de sete meses, do- centes e governo travaram uma queda de braço em torno da proposta que cada um apresentava. Neste período, os docentes das IEES-Ba realizaram dois encontros estaduais em Feira de Santana e em Jequié, nos quais discu- tiram e elaboraram uma proposta de carreira, tendo como referência o pro- jeto do ANDES-SN para a Universidade Brasileira. Ainda que, com algumas di- vergências (por exemplo, foram manti- dos o regime de 40 horas e as gratifi- cações e, sem dedicação exclusiva), os docentes puderam efetivamente cons- truir uma Carreira de acordo com as suas necessidades. Mesmo se conside- rarmos que os patamares salariais ain- da estão distantes dos ideais, a conquis- ta de um Plano de Carreira Docente foi essencial, no processo de crescimento das lutas da categoria, embora não te- nhamos conseguido limpar de todo o terreno da legislação interventora. Aos desafios colocados para a cate- goria docente nos últimos anos, so- mam-se agora outros tantos que pres- supõem a articulação dos três segmen- tos, em defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade e nunca é de- mais acrescentar, laica, socialmente re- ferenciada, autônoma e democrática, e por que não dizer, com melhores salá- rios e condições de trabalho. Notas 1. Ver especialmente dois artigos publicados o volume VI, nº 11, da Universidade e Socie- dade de 1996: MALDONADO, Carlos. Autono- mia universitária: uma questão de referencial, pp. 31 - 43, e MACEDO, Artur Roquete de. Au- tonomia universitária: por quê, como e para quê, pp. 44 - 56. 2. MENEZES, Luís Carlos de. Universidade si- tiada. A ameaça de liquidação da universida- de brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000, p. 9. 3. PROPOSTA da ANDES para a Universidade Brasileira. Cadernos, Brasília, 1996, nº 2, p. 23. 4. PROPOSTA da ANDES para a Universidade Brasileira. Cadernos, Brasília, 1996, nº 2, p. 15. 5. LEHER, Roberto. Um novo Senhor da edu- cação? A política educacional do Banco Mun- dial para a periferia do capitalismo. Outubro, São Paulo, mai 1999, n.º 3, p. 27 6. A Universidade Federal da Bahia – UFBA, é sediada em Salvador e possui no interior ape- nas a Escola de Agronomia na cidade de Cruz das Almas, localizada no recôncavo baiano. 7. Esta vitória dos professores da UESB foi con- seguida via uma ação direta de inconstitucio- nalidade impetrada, pela ADUSB, junto ao STF (Supremo Tribunal Federal). SANTOS, José Ge- raldo dos Reis. A poesia da vida na luta de to- do dia. In: Vilas Boas, E. da C. (Org.). UESB: Memória. Trajetórias e Vivências. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2001. 8. A proposta inicial do governo de limitação de professores com DE em 30%, foi derrota- da pelo MD que ampliou para 40% e prosse- guiu lutando. 9. Sobre a greve de 2000 das IEES-Ba, ver SENA JÚNIOR, Carlos Zacarias F. de e COELHO NETO, Eurelino. Pessimismo da inteligência e otimis- mo da vontade: um balanço da greve de 2000 das universidades estaduais baianas. Universi- dade e Sociedade, Brasília, dez 2001, n.º 25. Referências Bibliográficas - LEHER, Roberto. Um novo Senhor da educação? A política educacional do Banco Mundial para a periferia do capitalismo. Ou- tubro, São Paulo, mai 1999, nº 3, pp. 19 – 30. - MACEDO, Artur Roquete de. Autonomia universitária: por quê, como e para quê. Uni- versidade e Sociedade, Brasília, jun 1996, pp. 44 - 56. - MALDONADO, Carlos. Autonomia uni- versitária: uma questão de referencial. Univer- sidade e Sociedade, Brasília, jun 1996, nº 11, pp. 31 – 43. - MENEZES, Luís Carlos de. Universidade sitiada. A ameaça de liquidação da universi- dade brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000. - PROPOSTA da ANDES para a Universi- dade Brasileira. Cadernos, Brasília, 1996, nº 2. - SANTOS, José Geraldo dos Reis. A poesia da vida na luta de todo dia. In: Vilas Boas, E. da C. (org.). UESB: Memória. Trajetórias e Vivências. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2001. - SENA JÚNIOR, Carlos Zacarias F. de e COELHO NETO, Eurelino. Pessimismo da inte- ligência e otimismo da vontade: um balanço da greve de 2000 das universidades estaduais baianas. Universidade e Sociedade, Brasília, dez 2001, nº 25. * Carlos Zacarias F. de Sena Júnior é Pro- fessor Assistente da Universidade do Esta- do da Bahia - UNEB e ex-dirigente da As- sociação de Docentes da UNEB – ADUNEB e da Regional NE III do ANDES-SN. ** Ferdinand Martins da Silva é Professor Assistente da Universidade Estadual do Su- doeste da Bahia – UESB e dirigente da Re- gional NE III do ANDES-SN. Ex-dirigente da Associação dos Docentes da UESC – ADUSC. 174 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    Ano XII, Nº29, março de 2003 175UNIVERSIDADE E SOCIEDADE A educação superior na América Latina e Caribe: conseqüência de uma política neoliberal Contextualização da problemática A partir dos anos 90, através de um processo gestado anteriormente pelos países industrializados, interconecta- dos com os grandes conglomerados transnacionais, a sociedade pós- moderna - aqueles que têm acesso aos bens e serviços - começou a vivenciar e experimentar um novo estilo de vida, no qual o setor econô- mico se constitui na alavanca do pro- gresso e do desenvolvimento, sem necessariamente considerar a susten- tabilidade do meio ambiente. Esse processo unilateral, autoritário, assi- métrico, desigual e desprovido da par- ticipação popular foi instalado, paulati- namente, nos países latino-america- nos e caribenhos, sem que os gover- nos, necessariamente, tenham se apercebido do caos social que este desencadeamento provocaria e de sua dependência política, econômica e cultural em relação aos países hege- mônicos. A fragilidade política, a falta de políticas públicas e de planejamen- to estratégico, a desarticulação dos países, as guerras civis, a desprepara- ção e a alienação do povo de maneira geral, a pobreza material e espiritual, a falta de perspectivas e de um proje- to alternativo favoreceu a implantação do projeto neoliberal, que privilegia poucos em detrimento da maioria, acentuando ainda mais o hiato entre ricos e pobres e traz subjacente a ideologia capitalista com nova roupagem. A sociedade global competitiva, cu- jo jogo concorrencial assume papel decisivo, a ausência de um Estado pro- vedor, a homogeneidade do pensa- mento e os novos formatos institucio- nais revolucionaram e redimensiona- ram o cotidiano das pessoas. O lucro, cerne de toda a engrenagem, é eterni- zado e não tem domicílio fixo. Os gran- des movimentos financeiros, em mui- tos casos, estão fora do controle dos governos nacionais. A cada dia que passa, a proporção de pessoas excluí- das do processo produtivo aumenta estrondosamente, quer nos países cen- trais, mas mais especialmente nos paí- ses em vias de desenvolvimento. A grande maioria da população, excluída da globalização, é contra o processo, porque os benefícios não chegam a ela, porém aspira uma globalização de- mocrática e com justiça. Esta atitude, na concepção do FMI, é prejudicial, porque pode retroceder a política de abertura e de liberação. A América Latina apresenta a maior desigualdade social do mundo, supe- rando inclusive os continentes asiático e africano. As disparidades socio-eco- nômicas e culturais produzem fortes contrastes. Mesmo havendo um declí- nio generalizado dos índices de natali- Ernâni Lampert Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    dade, a regiãocentro-américa apre- senta, ainda, o maior crescimento po- pulacional do mundo. O êxodo rural fez com que 70% da população viva em zonas urbanas e tem acentuado a metropolização, aumentando a violên- cia. Cerca de 50% dos latino-america- nos e caribenhos vivem abaixo da li- nha de pobreza e em torno de 150 mi- lhões são miseráveis. Estimadamente 50% das divisas são utilizadas para o pagamento da dívida externa, que a cada instante prolifera e se torna impa- gável e eterna à maioria das nações emergentes. Na esfera política, entre tropeços, percalços, avanços, recuos e retroces- sos, a América Latina e o Caribe têm conseguido substituir o colonialismo, os regimes ditatoriais e militares por regi- mes democráticos. Mesmo que a gran- de maioria dos países viva em regime de democracia, esta é muito frágil, ins- tável e de baixa qualidade. Por exem- plo, a pesquisa realizada pela Universi- dad de Lima (La República, 2002), evi- dencia que a maioria da população pe- ruana percebe que a democracia em que vive o país é de baixa qualidade (51,8%) contra os que a consideram de alta qualidade (4,9%). Para melhorar esta situação, os entrevistados são de parecer que é necessário combater a corrupção e 59,9% acham pouco instá- vel a política peruana. Na Colômbia, pa- ís que vive uma guerra civil há 38 anos, o presidente Álvaro Uribe, empossado em agosto de 2002, criou o “Estado de Comoção Nacional”, no qual o Con- gresso perdeu os poderes e o cidadão, seus direitos. O novo presidente está seguindo as orientações ditadas por Washington, responsável pela elabora- ção do Plano Colômbia, que explicita- mente objetiva defender a democracia e a erradicação da produção de drogas e a interdição do narcotráfico, mas sub- jacente está a tese do controle absoluto da América Latina e Caribe. A Venezue- la, a partir de abril de 2002, através de sucessivas tentativas de golpe de esta- do, é outro país que tem sua democra- cia ameaçada. A falta de investimentos no setor produtivo e de serviços, a banalização e a desoxigenação do parque indus- trial, a entrada das multinacionais pro- vidas dos mais avançados recursos tec- nológicos, a própria despreparação e desqualificação profissional do povo fazem com que o trabalho informal se- ja a única perspectiva de receita para mais ou menos 50% dos latino-ameri- canos e caribenhos. O emprego de- cente, condição indispensável à cida- dania, está sofrendo câmbios em sua natureza. Postos de trabalho são elimi- nados e parcos são criados ou remo- delados. Na Argentina, informações di- vulgadas pela Equipe de Investigações Sociais da Universidade Católica da Argentina e pelo Instituto Gino Germa- ni, da Universidade de Buenos Aires, referenciadas pelo Correio do Povo (2002) mostram que a vida profissio- nal adquire cada vez mais ares de indi- gência. Desde meados de 1998, início da atual recessão, o número de em- pregos relativos à indigência cresceu 70%, atingindo um milhão e oitocen- tos mil. Somente 28,6% da população economicamente ativa possui empre- go considerado “decente” e dentro dos padrões aceitos pela Organização Internacional do Trabalho. A violência em todas as esferas, que tem como uma das conseqüên- cias a exclusão social, amedronta in- cluídos, excluídos e sobrantes. Em es- paços estratégicos, traficantes mantêm governos paralelos e, com armamen- tos de última geração, enfrentam o próprio Estado, desprovido dos recur- sos adequados para o combate ao trá- fico de drogas e da violência. Este fe- nômeno ocorre principalmente na Co- lômbia, no Brasil, na Venezuela e faz parte do cotidiano da população, que vê seus direitos e sua vida ameaçados. Atrelada a este contexto apocalípti- co está a histórica corrupção política. Políticos inescrupulosos desviam fortu- nas dos parcos recursos existentes para seu proveito próprio. Este fenômeno que, além de fragilizar as nações, auxilia na manutenção de um sistema finan- ceiro internacional próspero, está pre- sente na maioria dos países da região (Equador, Argentina, Venezuela, Peru, Brasil etc.). Conectados a este processo, estão os privilégios de alguns atores sociais. Por exemplo, segundo Lindo Perez (2002), dentro do Estado Argen- tino há mais privilégios que nas institui- ções públicas da União Européia. O es- paço público argentino se converteu em um sistema de privilégios, em uma “constelação de feudalidades”. Go- vernadores das províncias, juizes, reito- res das universidades, diretores de al- fândega e outros converteram seus es- paços em feudos pessoais/familiares ou centros de enriquecimento ilícito. 176 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Figura 1 – América Latina e Caribe DEPENDÊNCIA VIOLÊNCIA E DROGAS DESIGUALDADE Altas Taxas de Dívida Externa Política Neoliberal Miséria Trabalho Informal Corrupção América Latina e Caribe Contradições Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    Cabe mencionar queas constantes crises financeiras internacionais (crise asiática de 1997) e da região (crise brasileira e argentina), as catástrofes naturais e os fenômenos climáticos “El niño” e Furacão “Mitch” são outros fa- tores que afetam negativamente o de- senvolvimento da região. A América Latina e Caribe, ao longo de sua histó- ria, não conseguiram formar uma “na- ção latino-americana”. O Brasil, que ocupa aproximadamente 42% do ter- ritório e 35% de sua população, cons- titui-se um mundo à parte. A mestiça- gem, tanto biológica como cultural, conseqüência direta da época colonial, afetou de modo desigual os distintos países da região. Argentina, Chile e Uruguai se distinguem por sua popula- ção de origem européia. O Brasil e as Antilhas, pela africana (descendentes de escravos). Na centro-américa e nos países andinos (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru), as camadas de índios representam percentual significativo da população. Os países da América Latina e Ca- ribe, devido à sua formação etno-cul- tural com ameríndios, descendentes de colonizadores ou imigrantes euro- peus, descendentes de negros africa- nos e mestiços, possuem uma cultura diversificada e riquíssima. Astecas, Ma- ias, Incas e outros, presentes antes do “Descobrimento da América”, tive- ram uma valiosa colaboração em pra- ticamente todas as áreas do saber hu- mano. Por sua vez, os colonizadores espanhóis e portugueses, além da ex- ploração econômica, buscavam impri- mir suas marcas culturais e destruir ou reaproveitar o que havia sido edificado até então para “catequizar os amerín- dios”. A religião católica, predominante em praticamente toda a região, junto com o processo de colonização, certa- mente é fator forte que obtaculiza o progresso e o desenvolvimento. Sabe- se que a pobreza econômica geral- mente desvaloriza e estigmatiza a cul- tura. “A desvalorização cultural, fomen- tada ideológica e intencionalmente pelos países hegemônicos ao longo da história latino-americana, debilita a identidade e gera sentimentos indivi- duais e coletivos de baixa auto-estima e alienação de nossa verdadeira reali- dade” (Lampert, 2002:12). Atualmente, dentro do cenário político/econômico, estão sendo anali- sados os prós e contras da política da Organização Mundial de Comércio e, paralelamente, da ALCA. A proposta da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) tem similitude com a política da Organização Mundial do Comércio (OMC). A ALCA é uma proposta políti- ca protecionista do império norte- americano, que tem como objetivo central manter o poderio deste e a dependência dos países latino-ameri- canos e caribenhos. A América Latina e Caribe que, entre os países indepen- dentes, semi-dependentes e depen- dentes soma cerca de cinqüenta na- ções, pouco representa para os Esta- dos Unidos, a maior economia do mundo. O estabelecimento de uma área de livre comércio, mediante acor- dos governamentais, restringe a ação pública e privilegia o acesso dos gran- des conglomerados internacionais aos diferentes setores de produção, inclu- sive os serviços públicos. Subjacente a este processo, está a tese de enfraque- cer ou exterminar o MERCOSUL, que busca criar o livre comércio entre os países do Sul, com a possibilidade de parcerias com países europeus. Cabe registrar que, apesar de toda desor- dem política, econômica e social, a América Latina e Caribe é cortejada, tanto por países da Europa quanto pelos Estados Unidos. O subcontinen- te tem, entre outras riquezas, um dos maiores potenciais hídricos do plane- ta. Sabe-se que a ALCA não gerará novos postos de trabalho; ao contrário, aumentará a cifra de desemprego e provocará a falência das indústrias que não têm competitividade e possibilita- rá a exploração de mão-de-obra, por possibilitar que os empresários transfi- ram suas empresas para países onde os salários são mais baixos e as leis so- ciais escassas. Em seminário promovido pelo Pro- jeto Columbus1 , os reitores das univer- sidades latino-americanas e européias, reunidos em Lima (Peru), analisaram as implicações do acordo que atrela a educação superior ao comércio inter- nacional de mercadorias. De maneira geral, os dirigentes universitários são favoráveis à colaboração internacional entre as instituições, à formação de redes de investigação, à mobilidade docente e discente, à realização de projetos conjuntos, ao aproveitamento de estudos; porém, por unanimidade, não objetivam a mercantilização da educação, por considerarem o conhe- cimento um patrimônio social e a edu- cação um bem público imprescindível à sociedade. A pesquisa, função de capital importância para o desenvolvi- mento econômico, social e cultural, o compromisso com a qualidade, a busca de pertinência entre a educação e as demandas sociais, a liberdade e a autonomia acadêmica, o financiamen- to da educação pública, entre outros aspectos, estão ameaçados com este acordo imperialista, que objetiva o lucro e a submissão dos povos menos desenvolvidos. Este processo favorece os países que já têm uma capacidade bem desenvolvida para a exportação, pois abre as fronteiras da competição de países com diferentes níveis indus- triais e tecnológicos. “Mas, por outro lado, nada garante que os país pobres e as culturas frágeis terão a mesma oportunidade de se expor ao mundo” (Martinez, 1997:112). Outra área im- pactante é a cultura, pois reforça a tese de pensamento único hegemônico e Ano XII, Nº 29, março de 2003 177UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    elimina as peculiaridadesregionais, muitas vezes construídas ao longo da história da nação. A educação, inserida na política produtiva, de maneira geral, na última década, alcançou avanços quantitativos no que concerne ao número de alunos matriculados na pré-escola, no ensino básico e no ensino superior, porém, qualitativamente, deixa a desejar e pro- blemas crônicos, de décadas, continu- am a desafiar os governos. A barbárie neoliberal, por meio de reformas edu- cativas impostas pelos países centrais, prioriza o custo-benefício e se caracte- riza pela maleabilidade e pela adapta- bilidade do sistema educativo ao setor produtivo. As similitudes entre os siste- mas dos países conduzem para um padrão unitário de educação, no qual a flexibilidade, a competitividade e o Es- tado avaliador constituem alguns prin- cípios norteadores. O novo modelo de produção capi- talista e de reforma administrativa do Estado, adotado pela maioria dos paí- ses latino-americanos e caribenhos e monitorado pelo Fundo Monetário Internacional, faz com que as políticas públicas sejam direcionadas mais para atender aos interesses internacionais do que para emancipar e independizar os países, tão oprimidos ao longo de toda a história. “...todas as discussões que têm sido feitas a respeito da uni- versidade giram em torno do modo em que esta deva se relacionar com o mer- cado” (Chauí, 2001: 17). Urge que questões como a baixa escolaridade (4.8 anos), o reduzido número de dias letivos efetivos (120/200), as altas ta- xas de evasão e de repetência, a baixa valorização do professorado, o hiato entre os setores público e privado, a falta de infra-estrutura, o sucateamento e a deterioração da rede pública de ensino, a deficiente formação inicial e continuada dos recursos humanos, as altas taxas de analfabetismo, a baixa qualidade de ensino e o não uso dos novos recursos tecnológicos no ensino sejam desafios que necessitam ser encarados e solucionados nos próxi- mos anos, pois somente através de uma educação pública de qualidade será possível reverter o quadro caóti- co atual e apostar numa América Lati- na e Caribe próspera, soberana, autô- noma, independente e voltada, tanto para os interesses e necessidades re- gionais, quanto os internacionais. A educação superior na América Latina e no Caribe À luz do contexto descrito na pri- meira parte deste estudo, torna-se ma- is fácil para o leitor entender a conjun- tura da educação superior na América Latina e Caribe. É oportuno referenciar que as políticas públicas são conse- qüência direta do paradigma de produ- ção capitalista e da reforma administra- tiva do Estado; as similitudes na educa- ção superior desenvolvida, tanto nos países industrializados quanto nos emergentes, são evidentes e as pers- pectivas de câmbio deste quadro caóti- co, a curto e médio prazo, são remotas, mesmo que haja praticamente um consenso de que a educação superior, patrimônio cultural e bem social, seja a alavanca impulsionadora para o pro- gresso, o desenvolvimento, a moderni- zação e a transformação da sociedade, cada vez mais injusta e assimétrica. A partir da análise dos dados da De- claração Mundial sobre a Educação Su- perior no Século XXI: Visão e Ação, que é resultado da Conferência Mundial sobre Educação Superior, realizada em outubro de 1998, em Paris, e com base no texto Implicaciones de la Decla- ración Mundial sobre la Educación Superior para la Universidad Lati- noamericana del siglo XXI, de Ber- nheim (2000), infere-se que as princi- pais características do ensino superior na região são: - considerável expan- são quantitativa das matrículas; - multiplicação e diversificação das instituições; - incremento do pesso- al docente e dos graduados; - am- pliação da participação do setor pri- vado; - restrições com o gasto pú- blico. O exposto permite visualizar um crescimento quantitativo desenfreado das instituições que oferecem ensino superior, especificamente do setor pri- vado; um aumento do pessoal envolvi- do no processo (professores e alunos) e uma diminuição das verbas para o financiamento. Este fenômeno contradi- tório tem suscitado reveses e aponta de- safios que urge serem analisados e que exigem soluções imediatas. O crescimento quantitativo de ma- trícula (2% em 1950 para aproximada- mente 20% em 2002), sob um parâ- metro, é altamente favorável, pois pos- sibilita aos jovens de 18 a 24 anos acesso à carreira superior. Por outro la- do, a massificação, de maneira geral, dificulta a qualidade do ensino. Sabe- se que um enorme contingente de pessoal está sendo formado, desprovi- do de consciência crítica, e desprepara- do para o mercado de trabalho. Este fenômeno traz à tona indagações que merecem reflexão dos diferentes ato- res sociais. O incremento de matrículas foi um passo importante na história, porém, questões como a proliferação das instituições, que não reúnem as condições mínimas para um trabalho acadêmico digno, a alta porcentagem de professores despreparados, com o título de “graduado”, e sem formação pedagógica, a inadequada metodolo- gia de ensino utilizada e a falta de polí- ticas públicas são itens indispensáveis a serem considerados para a melhoria da qualidade de ensino. A proliferação das instituições (em 1950, havia 75 universidades e, em 2002, mais que 5000) é uma questão impactante. Sabe-se que a grande ma- ioria destas instituições estão desprovi- 178 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    das de infra-estrutura(biblioteca, labo- ratórios etc.), além de possuírem, geral- mente, um quadro docente desprepa- rado e desqualificado, e priorizam o ensino. Estas instituições, comumente do setor privado, utilizam a educação como um negócio rentável e lançam à sociedade um número estrondoso de pessoas. “No Brasil, a conta da educa- ção representa cerca de 9% do PIB, ou 90 bilhões de reais...É um valor próximo do que movimentam juntos – os seto- res de telecomunicações e energia. Em 2002, o setor privado deverá ser res- ponsável por 44 bilhões desse total. Só o faturamento das instituições privadas de ensino superior aumentou de cerca de 3 bilhões em 1997 para 10 bilhões de reais no ano passado” (Rosenburg, 2002: 36). Geralmente, estas institui- ções, entre outras carreiras, ocupam-se com a formação de professores, o que cria um círculo vicioso. Um professor, com uma formação inicial precária, tende a reproduzir o sistema, ou seja, prepara mal seu aluno. Para Rinesi (2001), uma universidade i-reflexiva, incapaz de se pensar a si própria, de pensar por que e para que faz o que faz, e o que faz, não merece continuar levando o nome de universidade. Parece-se mais a milhões de institui- ções privadas, empresas com fins lucra- tivos pomposamente chamadas de “universidades”, cuja propaganda lê-se nos jornais e que promovem os cursos oferecidos com o argumento de “saída para o mercado de trabalho”. “... É pre- ciso ressaltar um paradoxo nessa evolu- ção: a qualidade de seu ensino univer- sitário público coexiste com uma forte expansão de um ensino privado pouco qualificado” (Trindade 2002:26). Em oposição a estas instituições, há projetos universitários que surgiram de movimentos sociais e servem de referência a toda a América Latina e Caribe. Na Argentina, “as Madres de Plaza de Mayo” decidiram criar a Uni- versidad Popular, um espaço de luta e resistência. Apostando na tese de que a construção de uma nova sociedade requer homens e mulheres com forma- ção político e ética, sensíveis e imagi- nativos, capazes de usar as ferramentas da ciência e também da arte, que sai- bam articular a teoria e a prática revo- lucionária, a Universidad Popular Ma- dres de la Plaza de Mayo tem o objeti- vo central de produzir pensamento crí- tico e organizar grupos de reflexão cria- tiva. A instituição se opõe ao modelo educativo, que objetiva transmitir co- nhecimentos de forma vertical, que legitima a opressão, que está esque- matizado para vigiar, castigar e repro- duzir um sistema social perverso. As Madres de Plaza de Mayo desejam dei- xar, como únicos legados, o compro- misso político, a coerência ideológica, a formação intelectual e a paixão pela lu- ta herdada. A Universidade, criada em 06 de abril de 2000, com 700 alunos e 100 dos melhores professores, conta com um conselho internacional de re- nomados homens do mundo, que apóiam e ajudam esta instituição a crescer e alcançar sua missão tão im- portante em um país que está passan- do pela pior crise política, econômica, social, educacional e cultural de sua história. Ela oferece, através de diferen- tes escolas, os títulos de: Mestre em Ar- tes, Mestre em Jornalismo de Investi- gação, Mestre em Direitos Humanos e Políticos, Mestre em Psicodrama e So- ciodrama, Mestre em Economia Po- lítica e Social, além de oferecer seminá- rios e oficinas. O outro fator preocupante e que merece atenção é o baixo nível acadê- mico de uma porcentagem considerá- vel de professores e sua escassa forma- ção pedagógica. Aproximadamente 70% dos docentes possui o curso de graduação; 20%, o curso de pós-gra- duação; e apenas 10% são pesquisa- dores. Muitos questionamentos emer- gem em função desta realidade. Como alguém que não tem formação peda- gógica poderá exercer a docência? Um professor está apto a atuar como médi- co, engenheiro, advogado? Certamen- te, a contestação será “não”. A mesma regra deve servir para os profissionais liberais que, também, grosso modo, não estão preparados para a docência; porém, é senso comum aceitar esta hipótese, sem muitos questionamen- tos. O Brasil apresenta uma realidade distinta, onde a formação inicial de professores passou por diferentes está- gios, sempre direcionada aos interes- ses da classe dominante. Com a aber- tura política e a conseqüente redemo- cratização, a formação de docentes perpassa, pelo menos no plano teórico, da dimensão meramente tradicional, novista e tecnicista, para assumir atitu- de política de criticidade. A partir da década de 60, com a regulamentação dos programas de pós-graduação lato sensu (especialização e aperfeiçoamen- to) e stricto sensu (mestrado e doutora- do), são dados os primeiros passos pa- ra o preparo específico do professor de educação superior. Estes cursos, que objetivam qualificar recursos humanos para as universidades e que prolifera- ram muito na década de 70, tiveram um desaquecimento nos anos 80. A partir da década de 70, foram introduzi- dos, nos programas de pós-graduação em nível de especialização, disciplinas de cunho didático-pedagógico para o ensino superior. Atualmente, de acordo com o artigo 66 da Lei 9.394/96, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-graduação, prioritaria- mente em programas de mestrado e doutorado. No artigo 52, inciso II e III, propõe que um terço do corpo docente esteja pelo menos com titulação acadê- mica de mestrado e doutorado, e um terço, com tempo integral; porém, no Ano XII, Nº 29, março de 2003 179UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    artigo 88, concedeàs universidades um prazo de oito anos para cumprir essas determinações. A operacionalização do processo ensino/aprendizagem urge ser revista. De certo modo, os estabelecimentos de ensino superior e as universidades, em sua grande maioria, estão levando a ca- bo o processo de ensino/aprendizagem de forma descontextualizada, desatuali- zada e tentando preparar cidadãos para um mundo que não existe mais e difi- cilmente voltará a existir. A cultura vi- gente e a sua transformação são des- consideradas. Há um divórcio entre a realidade e o ensino. A complexificação da realidade, a ambigüidade e suas contradições não são consideradas e analisadas. Os objetivos de ensino pro- postos são geralmente ultrapassados e não atendem mais às expectativas dos educandos, que estão inseridos em uma realidade dinâmica, cheia de para- doxos e de concepções antagônicas. Os conteúdos defasados, de pouca signifi- cação, são abordados de forma frag- mentada e linear. Os métodos de ensi- no, com exceções, continuam medie- vais e desprovidos dos recursos tecno- lógicos de última geração, que estão presentes no dia-a-dia dos cidadãos. O sistema de avaliação ainda está preso à memorização e à fixação de conceitos, princípios, regras, enunciados questio- náveis e, muitas vezes, superados. A in- teração professor/ aluno, na maioria das vezes, é autoritária, vertical, e se ca- racteriza, em muitos casos, pela troca de acusações e agressões verbais. Este fenômeno, em muitos casos, é conse- qüência da realidade cruel vivida, tanto por parte dos discentes, quanto dos docentes e do contexto atual. O financiamento da educação supe- rior, afetado pela adoção da política neoliberal, impõe às universidades pú- blicas desafios até então desapercebi- dos. A partir da década de 90, as univer- sidades da América Latina e Caribe vêm enfrentando o desafio de satisfazer com eficácia, em um ambiente de severas restrições financeiras, profundas mu- danças econômicas, políticas, culturais e sociais de alcance mundial, as fun- ções que historicamente a sociedade lhes tem atribuído. As universidades, ao mesmo tempo, reconhecem a necessi- dade de se adequar e modernizar suas estruturas, o processo educativo, sua missão etc. para dar respostas satisfató- rias às demandas oriundas da socieda- de civil. Assim, as universidades públi- cas estão se sentindo pressionadas pela necessidade de buscar formas alternati- vas de financiamento. Entre as possibi- lidades, as relacionadas com o setor produtivo resultam como as alternativas mais fáceis de serem implantadas, po- rém, tal perspectiva gera um desconfor- to e um descontentamento dos diferen- tes atores sociais, que vêem esta busca como o primeiro passo à privatização. Reimers (1990) assinala que as restri- ções financeiras podem estimular no- vas formas de pensar e de administrar o desenvolvimento educativo. O essencial seria que os governos considerem a educação como uma forma de desen- volvimento e a priorizem frente a outros setores da ação pública. Analisando es- ta situação, Catani asserva que “a necessidade de cooperação local, regional, nacional e interna- cional torna-se vital para as univer- sidades, mesmo para a própria manutenção e desenvolvimento institucional, uma vez que os recur- sos dos fundos públicos são limita- dos progressivamente. Os defenso- res das parcerias afirmam que elas não provocam dispersão, ou seja, desvio dos interesses propriamente acadêmico-científicos. Na verdade, acreditam que as universidades precisam aceitar a diversidade, o pluralismo e a diferenciação im- postas pela sociedade contemporâ- nea, já que não podem mais con- trolar a diversidade dispersiva por meio de um denominador comum, como a indissociabilidade ensino- pesquisa. Também afirmam que não há como universalizar a uni- versidade de pesquisa. A única alternativa é aceitar essa nova rea- lidade dispersa, diversa, plural e desigual. A multi-diversidade de funções só é possível nas universi- dades de excelência, sendo que as demais instituições deviam investir em áreas e atividades em que seja possível obter resultados satisfató- rios”( 2002:35). Para Bernheim (2000), as restrições econômicas afetam sensivelmente o desempenho qualitativo das institui- ções de educação superior, obrigando- as a gastar mais de 90% de seus rendi- mentos no pagamento de salários e a reduzir sensivelmente os investimentos mais importantes para a qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Mes- mo assim, tais restrições conduzem a priorizar o trabalho docente, com a des- valorização das tarefas de investigação, extensão e difusão. A universidade, sendo o único locus de formação profissional, além do ensi- no, tem a função de pesquisa e exten- são. A pesquisa deveria ser a mola im- pulsora de todas as universidades que aspiram a oferecer melhores condições de vida à sociedade, pois ela abre novas possibilidades, novos horizontes, novas descobertas e novos caminhos e perspectivas. Através da pesquisa, a universidade torna-se universidade e seu trabalho é reconhecido nacional e internacionalmente. Para Demo (1990), a atividade principal da universidade é a pesquisa e o professor tem a incum- bência de incentivar o aluno para que ele seja um novo pesquisador, pois sem investigação o ensino se reduz à reprodução. Isto posto, é imprescindível estabe- lecer metas prioritárias para que a uni- 180 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    versidade abra espaçopara fazer pes- quisa em sala de aula e nos laborató- rios, mas sobretudo na comunidade, a fim de encontrar alternativas para ame- nizar as desigualdades e melhorar a vida política, econômica, social, educa- cional e cultural da população latino- americana e caribenha, eliminando ou amenizando a miséria, a fome, a cor- rupção e a violência. A pesquisa neces- sita ter conseqüências sociais e econô- micas para a sociedade. Portanto, é de- ver da universidade oferecer ensino com pesquisa e para a pesquisa. Apesar dos inúmeros desafios a serem enfrentados, é mister reconhe- cer o papel da universidade, especial- mente pública, que, ao longo da histó- ria, tem desenvolvido um papel impor- tante na difusão e no enriquecimento cultural da região, no estabelecimento da ciência e da tecnologia, na formação de princípios democráticos, no fomen- to de pensamento crítico, além de ser o principal agente no desencadeamen- to de pesquisa básica e aplicada. Sem a presença da universidade pública, certamente a América Latina e Caribe estariam muito aquém das atuais con- dições de vida da sociedade hodierna. A universidade tem muito a oferecer à sociedade. Seguindo esta linha de ra- ciocínio, Pacheco diz que “a universida- de tem muito a oferecer à sociedade civil neste momento histórico em que estamos construindo processo político participativo, onde o processo legislati- vo assegurou instrumentos legais para a participação popular e estabelecer novas formas de relação entre a socie- dade civil e o Estado” ( 2001: 112). O Banco Interamericano de Desen- volvimento (BID), a partir dos dados coletados junto às instituições, tece algumas severas críticas às universida- des da região: baixa qualidade do ensi- no e da pesquisa, alto índice de eva- são, elevado custo com o pessoal (número pequeno de alunos por pro- fessor) e pouco investimento em infra- estrutura, além das instituições terem sido incapazes de criar um sistema adequado de recompensa pela produ- tividade e de punição pela improdutivi- dade. Para o órgão, o ensino superior que necessita atender aos interesses e demandas do mercado e do capital es- trangeiro, deve abarcar quatro funções: - a formação de uma elite intelectual; - a formação de pessoal para o mercado profissional específico; - a formação de técnicos e licenciados em programas de curta duração; - e a formação de generalistas. A proposta do BID, que objetiva que as universidades da América Latina e Caribe alterem a sua missão, os cur- rículos escolares e a preparação profis- sional, tem como objetivo melhorar o índice custo-benefício, diminuir os en- cargos do Estado, flexibilizar e adaptar o ensino superior ao contexto atual e tornar as instituições competitivas en- tre si. As universidades de excelência devem continuar a ser mantidas pelo Estado e, necessariamente, para a for- mação de uma elite intelectual, devem, além do ensino, realizar pesquisa. Em relação a esta problemática, Chauí assi- nala “...a idéia, portanto, é que há uma elite intelectual que pensa, e depois todo o resto que tem como objetivo o mercado de trabalho. E cada vez que o mercado de trabalho saturar, você in- venta um curso de formação geral para adicionar valor no currículo de quem compete em um mercado saturado” (2001:22). Considerações finais À luz das proposições do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, da UNESCO, da pró- pria história da universidade e da atual conjuntura, cabe aos diferentes seg- mentos da sociedade civil considerar a universidade como instituição univer- sal, científica, educativa e de relevância social, que historicamente foi constru- indo sua missão. A universidade, atu- ando em seus dilemas, em uma socie- dade de contradições, é imprescindível para o processo de transformação de uma nação, região, continente, e do próprio planeta Terra, e não simples- mente pode ser vista como um pesado encargo para o Estado. Face a esta pre- missa, todo o empenho é necessário para a ampliação do acesso à universi- dade pública e gratuita; para o aumen- to da qualidade de ensino; para o fo- mento à investigação, à liberdade aca- dêmica, à autonomia universitária e à intensificação da cooperação local, re- gional e internacional. Portanto, almeja-se que, no decor- rer do século XXI, a universidade possa aliar crescimento quantitativo com qualitativo, por meio do emprego de mecanismos de acompanhamento e de controle interno e externo, para que forme cidadãos cosmopolitas, providos de fundamentação teórica acurada, com concepção política e ética, de es- pírito democrático, capaz de transfor- mar a realidade política, econômica, social, educacional e cultural da Amé- rica Latina e Caribe. Este imperativo elevado, mesmo que até certo ponto utópico, deve ser a grande missão da universidade para a edificação de uma sociedade mais humana, justa, igualitá- ria e solidária. A universidade, que du- rante os novecentos anos de existên- cia, sempre teve um papel social signi- ficativo, nos dias atuais tem a missão de revisar o paradigma produtivo e de propor câmbios para que o homem se assuma como um sujeito histórico e trabalhe em prol do social. Para aten- der às novas demandas da sociedade, a universidade que, praticamente du- rante sua história, tinha a função de en- sinar e de investigar, necessita: - manter uma estrutura administra- tiva e pedagógica flexível e mais ágil para se antecipar às mudanças; Ano XII, Nº 29, março de 2003 181UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Mercantilização do Setor Público: Educação e Previdência
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    - ser abertaàs necessidades, aspi- rações e expectativas da sociedade; - integrar, vertical e horizontalmen- te, ensino-investigação e serviços co- munitários; - oferecer à comunidade cursos e atividades de educação permanente; - oferecer educação para todas as idades; - universalizar a cultura; - criar novos mecanismos para a su- peração dos grandes dilemas antagôni- cos que afligem a humanidade: ciência x sabedoria popular; indivíduo x organi- zação; livre iniciativa x interesses soci- ais; multinacionalismo x interesses re- gionais; e ecologia x economia. Nota 1. É uma associação de 72 universidades euro- péias e latino-americanas, com sede em Ge- nebra e Paris. Aprovada pela Unesco e pela Co- missão Européia, foi fundada em 1987 e tem como objetivo promover o desenvolvimento institucional e a cooperação multilateral. Referências Bibliográficas ALBORNOZ, O. Introducción, la educación superior en el siglo XXI: Visión de América La- tina y el Caribe. 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    Ano XII, Nº29, março de 2003 185UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente N atural da cidade do Rio de Janeiro, professor da Faculdade de Educação da UFRJ, vice-presidente da ADUFRJ, gestão 89/91, presidente do ANDES- SN, gestão 2000/2002, o educador Roberto Leher iniciou, na militância sindi- cal, em 1988, e logo passou a participar do grupo de política educacional do ANDES-SN, atuando nas discussões, da época, em torno do projeto de LDB. De 2000 a 2002, eleito, assume a presidência do ANDES-SN, num período de muitas dificuldades para o Sindicato, nomeadamente em função da desarticu- lação da entidade com a sua base e da negligência com seus compromissos políticos. De formulação fácil, coerente e politicamente correta, o professor Ro- berto Leher é um pensador íntegro, um inesquecível companheiro de trabalho e uma capacidade inesgotável de militância política. Hoje, seu nome se inscreve, com realce, na história do movimento do- cente nacional. É um de seus símbolos mais expressivos. Nesta entrevista, ele nos fala de sua experiência como sindicalista e do trabalho sindical que o atual cenário político brasileiro nos aguarda. Neste momento, a Diretoria do ANDES- SN enfrenta outros desafios. Na sua opinião: “Precisamos de muita sabedoria para lidar com esses novos desafios. É muito diferente, (...), ser diretor numa gestão Lula e ser diretor numa gestão FHC”. Roberto Leher Por Antônio Ponciano Bezerra* e Janete Luzia Leite**
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    Universidade e Sociedade(US): Para iniciar, uma pergunta sobre seus antecedentes políticos e sindicais. Quando e como ingressou no movi- mento docente local e nacional e quais as suas motivações para se inse- rir nesse contexto político? Roberto Leher (RL): Minha militân- cia no movimento docente teve início no ano de 1988, quando fiz concurso para a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Quando eu entrei na universi- dade, Sarney, na época, havia proibido a contratação de docentes. Havia uma medida do governo nesse sentido. En- tão, participei de algumas reuniões da ADUFRJ, que estava discutindo essa questão, e em função dessa participa- ção inicial, fui convidado a integrar a chapa da gestão 89 a 91, como vice- presidente da ADUFRJ. Enfrentamos a greve - uma greve áspera, muito difícil, em pleno governo Collor - e, desde en- tão, tenho participado do movimento docente, mas sempre militando em instâncias de base. Logo a seguir, fui para o grupo de política educacional do ANDES e entrei em contato com as reflexões desse grupo, com o acúmulo das discussões sobre o projeto de uni- versidade do ANDES e dos debates so- bre o seu projeto de LDB, proposto na época. Com isso, fui participando de forma mais sistemática do movimento docente. Então, remonta, pelo menos, a 1989, de forma mais orgânica, quan- do assumi a vice-presidência da ADUFRJ. A motivação que me levou a partici- par de um movimento organizado vi- nha de antes, porque eu havia partici- pado do movimento secundarista, ain- da quando jovem. Em 1979, represen- tei o segmento estudantil no PT de Nova Friburgo, uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, fazendo parte da primeira direção provisória do PT que nós fundamos, ainda em 79. Fiz militância também, mas de uma forma mais assistemática, de forma não orgânica, com companheiros que estavam tentando reorganizar o Parti- do Comunista Brasileiro. Mas logo me afastei e, em 79, participei da fundação do Partido dos Trabalhadores. Eu creio que a motivação mais forte, em relação à participação, à continua- ção da participação no movimento ANDES, para mim, foi a possibilidade de fazer uma discussão, uma reflexão sobre a universidade. Isso, na época, me fascinou muito. Lembro que eu já havia participado, de uma forma mais assistemática, de outros Sindicatos, co- mo o Sindicato dos Professores, aqui no Rio de Janeiro, mas não havia ne- nhum tipo de reflexão mais profunda sobre projeto de educação, concepção de universidade etc. Isso, no ANDES, me motivou muito. Foi um período ex- tremamente rico para a vida do Sindi- cato a nossa reflexão sobre o projeto de LDB, que, na realidade, sistemati- zou e ampliou o nosso projeto ANDES para a universidade brasileira. Foi um período muito instigante e isso fez que eu permanecesse na militância. Foi algo muito forte! Também houve a minha participa- ção na greve de 91. Foi uma greve ex- tremamente definidora, do ponto de vista político. É claro que nós sabíamos que, em 90, 91, muitos professores ha- viam apoiado Collor. Mas havia o debate político interno nas universida- des; eu já havia participado, naquela época, de debates em outras universi- dades, além da UFRJ, em seções sindi- cais, em movimentos organizados pe- las seções sindicais. Enfim, o debate político foi extraordinário naquele pe- ríodo e muito rapidamente criamos um espaço público de discussão na universidade. A única forma de partici- pação democrática era o movimento docente. Acho que ainda é, hoje, o principal meio de participação demo- crática dos professores, e isso fez com que muito rapidamente os docentes tivessem uma posição crítica em rela- ção ao governo Collor. Aliás, nós so- mos o primeiro Sindicato de âmbito nacional que pediu o impeachment de Collor. Então, foi um período de apren- dizado político, para mim, excepcional. US: O senhor foi presidente do ANDES-SN, na gestão 2000/2002, as- sumindo a liderança do movimento após um período de desarticulação do Sindicato da sua base, de seus com- promissos políticos, inclusive com um comportamento de cooptação junto ao governo federal. Como o senhor avalia esse quadro que teve de en- frentar, tomar posições sérias, decisi- vas, incômodas inclusive, face aos desmandos problemas identificados na da gestão anterior? RL: Eu acho que foi o momento, tal- vez, mais difícil da história do ANDES, pelo menos, desde que eu acompanho o ANDES Sindicato Nacional. O período 98/2000 seguramente foi o mais difícil - não pelas adversidades da conjuntura porque, em outros momentos, nós ti- vemos dificuldades de conjuntura polí- tica muito grandes - mas pela postura interna em relação à gestão no Sin- dicato, pelos companheiros que esta- vam à frente do Sindicato entre 98 e 2000. Eu creio que os acontecimentos da greve de 98 mostraram um vigor político do ANDES excepcional. Na- quele momento, várias questões foram rejeitadas pelas assembléias; proposi- ções políticas que foram rejeitadas por 186 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    quase todas asassembléias do país foram negociadas em nome do Sin- dicato com o governo, particularmente com Antônio Carlos Magalhães, numa tentativa de quebrar o movimento. Não era só a de terminar a greve, mas clara- mente Fernando Henrique tinha como meta destruir o Sindicato Nacional, desmoralizá-lo junto à sua base e, infe- lizmente, os companheiros que esta- vam à frente do Sindicato contribuíram para essa posição. Eu acompanhei aquele período da greve de 98; no final da greve estive no Comando de Greve. Anteriormente, eu praticamente não havia estado no Co- mando de Greve, quando era presi- dente da ADUFRJ. Naquele período, estive praticamente acompanhando o cotidiano do movimento na base; mas, no período final da greve, estive no Co- mando e foi desconcertante ver a posi- ção, particularmente, do presidente do Sindicato, encaminhando questões que não haviam sido discutidas e deli- beradas pela base do Sindicato. Segu- ramente isso foi algo inédito na histó- ria do Sindicato. A indignação que cau- sou no conjunto do Sindicato, mesmo em forças mais conservadoras dentro da universidade, pois jamais tinham visto tal posicionamento, gerou uma insatisfação crescente, que fragilizou enormemente a legitimidade da ges- tão 98/2000. O problema da perda da legitimida- de dessa gestão 98/2000 é muito grave porque, obviamente, repercute sobre a vida do Sindicato como insti- tuição. Foi o ANDES que saiu arranha- do dessa proposição e o ANDES dei- xou de ser um Sindicato respeitado. Era visível o isolamento do Sindicato na sociedade. Quer dizer, quando se trazia uma questão, quando se discutia uma questão pertinente à universida- de, o ANDES-SN não era mais chama- do, porque se desmoralizou perante a sociedade. Foi um período árduo, e as seções sindicais do ANDES-SN é que, eu creio, resgataram e fortaleceram a legitimidade do Sindicato. As instân- cias de base não deixaram de funcio- nar. As assembléias permaneceram crí- ticas e, sobretudo, a maior crítica feita pelas assembléias e pelos movimen- tos de base do Sindicato não foi só em relação às posições políticas da gestão 98/2000 porque o debate político está sempre aberto, e as concepções mui- tas vezes dependem de leituras da rea- lidade que são obviamente diversas, mas era em relação aos procedimen- tos democráticos do Sindicato que es- tavam em risco. Desde a posse até o seu final, a gestão anterior, a gestão 98/ 2000, sistematicamente desres- peitou as instâncias de base, desres- peitou procedimentos que são um pa- trimônio político, talvez o mais nobre do nosso Sindicato Nacional e isso, certamente, abalou a nossa ação polí- tica. Então, foi um período muito difí- cil para a história do ANDES. É muito triste lembrar o isolamento, o descrédito, a postura servil, em vá- rios momentos, em relação ao posicio- namento do governo que, naquele contexto, avançou enormemente no projeto neoliberal. Não podemos es- quecer disso: o período 98/2000 foi o momento em que o Brasil fez um acordo com o Fundo Monetário Inter- nacional (o FMI), foi aquele famoso empréstimo de 40 bilhões de dólares, e a contrapartida exigida pelo Fundo foi a Reforma da Previdência e a Re- forma Administrativa, que geraria o emprego público, um dos motivos que levaram à greve de 2001. Se nós pe- garmos os jornais do Sindicato, pegar- mos o InformANDES, pegarmos os ofí- cios do período, vamos ver que, no dia em que foi votada a Emenda Consti- tucional nº 20, o Sindicato não fez um chamado à base para que estivesse em Brasília, a fim de impedir esse as- pecto da reforma. Da mesma maneira, quando passou a Lei do Emprego Pú- blico, igualmente o Sindicato não cha- mou a base, a Direção não chamou a base para se confrontar com o projeto neoliberal. Então, fica a indagação: foi apenas descaso político, ou uma leitura incor- reta da conjuntura ou conivência polí- tica? Desgraçadamente, temos muitos elementos para acreditar que foi por uma leitura do que estava acontecen- do, uma conveniência política decor- rente de uma leitura da conjuntura, em que achavam que as reformas neoliberais estavam dadas e que não havia muito como se contrapor a elas; que deveríamos, de alguma forma, ne- gociar as perdas com a Emenda Cons- titucional nº 20, ou seja, a reforma da Previdência, e a Emenda Constitucio- nal nº 19, da Reforma Administrativa, que geraria o Emprego Público. Então, de fato, foi um período muito crítico do Sindicato. Porque, no mo- mento em que a universidade brasilei- ra, estruturalmente, foi mais atacada, o Sindicato teve uma postura extrema- mente débil. Basta lembrar, também, que durante boa parte dos nossos em- bates, entre 98 e 2000, estávamos so- zinhos em relação aos outros servido- res públicos, a outros sindicatos da educação. A nossa postura, não a do Ano XII, Nº 29, março de 2003 187UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente O problema da perda da legitimidade dessa gestão 98/2000 é muito grave porque, obviamente, repercute sobre a vida do Sindicato como instituição.
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    Sindicato como umtodo, mas a postu- ra da Direção do Sindicato, era uma postura muito isolacionista, não havia uma relação mais forte com os servido- res públicos federais, com o movimen- to da CNESF. Não havia um trabalho político com o setor da educação. De modo que o Sindicato se isolou, se de- bilitou e perdeu seu vigor político. Pior: silenciou diante das reformas neolibe- rais decorrentes do acordo de 98. É claro que isso não foi absoluto, essa conivência não foi absoluta, por- que a base do Sindicato sempre foi uma base muito atenta, muito crítica, muito combativa; mas é claro que, quando a base está se manifestando e a Direção não dá conseqüência políti- ca às demandas da base, é claro que essas demandas ficam muito fragiliza- das. Eu me lembro da Reforma da Pre- vidência: havia debates enormes nas seções sindicais, havia posicionamen- tos muito claros, em Congressos e CONAD, sobre a Reforma da Previdên- cia; portanto, o Sindicato tinha posição política. Mas compete à Direção fazer e organizar as convocações e organizar a intervenção política do Sindicato. Isso é papel da Direção, é um papel execu- tivo, de operação, e isso não foi feito. Então, seguramente, entramos enfra- quecidos nesse embate com o gover- no, no período 98/2000, sobretudo, como disse, nas Reformas Administra- tiva e da Previdência. A campanha eleitoral, portanto, foi uma campanha muito difícil. Acho que a maior dificuldade da campanha elei- toral, num primeiro momento, foi con- vencer os docentes de que esse pro- cesso político, que estávamos traba- lhando - a eleição - era importante pa- ra o futuro do Sindicato e que era im- portante que os professores participas- sem. O maior desafio foi chamar a mi- litância, organizar a militância em cada núcleo, para que se envolvesse de uma maneira muito forte no embate político, para que pudéssemos fazer uma discussão política do que aconte- ceu entre 98 e 2000, e para que os professores pudessem votar de manei- ra esclarecida. Esse chamamento da militância foi bem sucedido. Foi decor- rente da ação do campo político majo- ritário no Sindicato, que organizou essa militância, que se preparou muito bem para esse embate político na elei- ção de 2000, e, com isso, foi possível estabelecer um debate importante em cada núcleo, em cada seção sindical, em cada universidade, ou centro fede- ral de educação tecnológica, em todas as instituições de ensino superior que são representadas pelo ANDES Sindi- cato Nacional. O debate foi rico, foi possível fazer muitos debates com o nosso candidato oponente, o profes- sor Milton, e os professores puderam votar de maneira esclarecida. Segura- mente os professores votaram por uma concepção de movimento docen- te, por uma concepção de universida- de, uma concepção de sociedade. O voto majoritário foi um voto que resga- tou a história, a linha política do ANDES. Foi uma experiência muito rica, muito mobilizadora, ver a energia política, a motivação política da base do Sindicato. Eu encontrei companheiros que fizeram parte das primeiras direções do ANDES, que estavam afastados do movimento docente. Quando eu fazia visitas às universidades, às escolas, companheiros se levantavam da pla- téia e diziam: eu fui diretor do Sindi- cato, fui fundador da seção sindical, acompanhei o que aconteceu nesse período, não aceito o que está aconte- cendo e me coloco novamente na mi- litância para retomar o Sindicato, para resgatar a combatividade, a autono- mia, a democracia do nosso Sindicato. Foi excepcional contarmos com o re- torno de companheiros que são refe- rências históricas do nosso movimento e que perceberam que tinham um papel a cumprir para resgatar o Sin- dicato que estava, como disse, muito debilitado. Foi um processo inédito de resgate de militantes antigos e de organização de novos militantes para que o Sindicato voltasse a ter um fun- cionamento de acordo com a sua tra- dição política, com sua tradição histó- rica de um Sindicato combativo, crítico, capaz de formular idéias, projetos. Es- se, aliás, é um outro ponto do qual fa- ço um balanço muito negativo da ges- tão 98/2000. É curioso que, inicialmente, esses companheiros tentaram passar uma imagem de que fariam um sindicalis- mo propriamente acadêmico, mas nunca o debate organizado pela Dire- toria foi tão débil quanto no período de 98/2000. Quando assumimos, fo- mos abrir as pastas dos Grupos de Trabalho - de Política Educacional, do Grupo de Carreira, do GT de Comu- nicação e Artes, de todos os GT; as pastas estavam fundamentalmente vazias, não havia nenhuma produção teórica, nenhuma formulação política, nenhuma sistematização crítica das medidas que estavam em curso, feitas pela diretoria. Foi algo desconcertante ver isso. Ou seja, foi um período em que o nosso Sindicato deixou de for- mular e isso se traduziu em algo a que eu já havia feito referência anterior- mente: no isolamento político - nós deixamos de ser interlocutores ativos na sociedade. Até porque o Sindicato não tinha mais uma produção teórica sistematizada e essa produção teórica 188 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    sempre foi umaqualidade do ANDES. Desde o início, quando estávamos dis- cutindo a Constituinte, até o momento em que discutimos o projeto LDB e o nosso projeto de universidade, o ANDES sempre foi capaz de formular teoricamente sobre universidade, so- bre o que significa docência, o que sig- nifica pesquisa num país com as carac- terísticas do nosso. Assim como o nosso Sindicato sempre fez análise de conjuntura, ele sempre produziu co- nhecimento: um conhecimento teori- camente relevante, um conhecimento capaz de interferir completamente no real, de interferir na condução política e de ser referência para outros Sin- dicatos, inclusive. Basta lembrar, por exemplo, que, de 2000 a 2002, quan- do eu estive na Diretoria do Sindicato, toda a teorização feita sobre Emprego Público, dentro do serviço público fe- deral, basicamente foi feita pelo ANDES. Foi feita pela militância, pelos Grupos de Trabalho, pela Diretoria, que siste- matizou esse debate e nele foi referên- cia política. E isso não virou um tema central dentro da agenda dos servido- res públicos federais por geração es- pontânea. Em outros momentos, o ANDES sempre fez isso, como na Constituinte. Enfim, havíamos perdido também essa capacidade de produzir conhecimento. Então, em síntese, eu diria que o período 98/2000 foi um período em que a imagem pública do Sindicato fi- cou muito erodida, ficou muito des- gastada, mas que, contraditoriamente, fez com que os militantes históricos, as nossas seções sindicais, os núcleos de base, as assembléias gerais, os CONAD, os Congressos tivessem um vigor tal- vez, em grande medida, inédito na his- tória do Sindicato, tal era o empenho dos militantes para manter o ANDES dentro de uma linha política que o sin- gularizou dentro do sindicalismo brasi- leiro e, possivelmente, dentro do sindi- calismo latino-americano. A campanha eleitoral foi uma campanha extrema- mente vigorosa e rica porque justa- mente esses companheiros estiveram à frente da reconstrução do Sindicato, da imagem pública do Sindicato junto à base e ofereceram elementos fortes para que os professores pudessem vo- tar de forma muito esclarecida; e isso se confirmou nas urnas. Avalio que foi uma experiência pessoal insubstituível, certamente pela qualidade política, pela confiança que os companheiros estavam depositando na nossa Direto- ria, para que pudéssemos não só ven- cer as eleições, mas também retomar o caminho do ANDES dentro de sua perspectiva histórica. Sentimos muita alegria e, no senti- do positivo da palavra, muito orgulho, poder contar com uma lista de apoia- dores em que toda a melhor tradição política do ANDES-SN havia assinado a nossa Carta: as diretorias anteriores, os primeiros diretores, até mesmo o Ma- ciel, que estava afastado e foi o primei- ro presidente do Sindicato, retomou a sua militância exatamente para tentar contribuir para o resgate do Sindicato. Isso foi muito positivo, assim como o é mostrar que não há incompatibilidade entre sermos um Sindicato crítico, um Sindicato combativo, um Sindicato que tem uma perspectiva de classe, que aponta para uma perspectiva de cons- trução de uma sociedade socialista, e sermos um Sindicato capaz de dialo- gar com as melhores formulações fei- tas na universidade brasileira. Basta ver a lista de apoio feita tanto para a nossa chapa, em 2000, como para a chapa que dá continuidade ao traba- lho do campo político majoritário em 2002: seguramente o melhor da uni- versidade brasileira assinou a nossa Carta e isso é o reconhecimento à se- riedade, à qualidade política do traba- lho do ANDES Sindicato Nacional. US: Professor, para além desse quadro político de ausência de conti- nuidade do trabalho e luta do Sindi- cato, administrativamente essa gestão também cometeu uma série de des- controles que exatamente levou a sua presidência, toda a Diretoria do Sin- dicato, a tomar decisões sérias, gra- ves, incômodas. O senhor poderia fal- ar um pouco desse quadro, desse lado administrativo da gestão anterior à sua? RL: Eu penso que essas entrevistas são significativamente chamadas de memória do movimento docente e acho que é para isso mesmo. Esses depoimentos devem oferecer elemen- tos para uma leitura da história do Sindicato, uma avaliação da trajetória, da intervenção política do nosso Sin- dicato. E acho que futuros militantes, estudiosos que vão reexaminar, como várias teses já fizeram, a história do nosso Sindicato, vão encontrar ele- mentos muito ricos nesses depoimen- tos. De fato, essa questão é central porque o Sindicato Nacional, ainda co- mo Associação, foi talvez um dos pri- meiros Sindicatos a, de maneira clara e peremptória, recusar o imposto sin- dical. Ou seja, afirmávamos, desde o início, que essa entidade deveria ser autônoma em relação ao governo e que deveria ser sustentada pela sua base, isto é, cada sindicalizado deveria manter o seu Sindicato. Isso pressupõe uma relação de confiança política e ética da Diretoria em relação à sua ba- se e da base em relação à Diretoria. A Ano XII, Nº 29, março de 2003 189UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    base tem queconfiar que a sua contri- buição, de fato, está sendo utilizada para o trabalho político e para a inter- venção política do Sindicato e que, em nenhuma hipótese, esse dinheiro vai ser utilizado de forma indevida. Isso é também um patrimônio do Sindicato. O nosso Sindicato, diferentemente do que previa a literatura sobre o futu- ro das entidades sindicais, nos anos 80 e 90, no período de afirmação do neo- liberalismo, que previa que em poucos anos os Sindicatos praticamente desa- pareceriam, o nosso Sindicato, ao con- trário, nunca reduziu a sua participa- ção, nunca houve uma redução da participação da base no Sindicato Na- cional. Ao contrário, nós somente cres- cemos, sistematicamente. Todas as se- ções sindicais, o número de sindicali- zados somente conheceu o crescimen- to. O nosso Sindicato hoje é o que conta com uma das maiores taxas de sindicalização do país. Seguramente está entre o pequeno grupo de Sin- dicatos em que a sindicalização é vo- luntária, pela consciência política do professor. Nós temos seções sindicais com mais de 90% de sindicalizados e a média do ANDES supera 80%. Isso mostra que a base do Sindicato tem uma confiança integral; pode haver debate político, pode haver divergên- cia política, mas tem uma confiança total na lisura, na forma com que o Sindicato vem sendo conduzido na sua gestão, enquanto entidade repre- sentativa. De fato, a primeira questão que nos assombrou, quando assumimos a Di- retoria, em 2000, no CONAD de posse ainda, foi constatar, num relatório feito por auditoria, que havia algo como 500 mil reais de despesas não registra- das. Obviamente nós nunca tratamos essa questão no sentido acusatório, de que poderia haver roubo ou qualquer coisa parecida, não foi nossa interpre- tação. Mas o que nos chamou a aten- ção foi a falta de cuidado com o trato administrativo dos assuntos econômi- cos do Sindicato. Ou seja, o descuido com a contabilidade, com o registro, com os procedimentos. E isso é o que nos motivou a fazer um trabalho exa- ustivo de busca de documentos, para que não houvesse despesas que não fossem comprovadas. Fizemos um trabalho exaustivo que, para ser completado, precisou de assessoria técnica especializada de um escritório contábil, que fez uma audito- ria nas contas; examinamos os docu- mentos e, de fato, constatamos que, além da desorganização administrativa que era visível e óbvia - e, sobre isso, é só observar o histórico das contabilida- des do Sindicato - mas também cons- tatamos que, em mais de uma circuns- tância, os recursos do Sindicato foram utilizados para fins que não são os fins estatutários do ANDES. Nós sempre fo- mos muito rigorosos na separação, por exemplo, dos recursos do Sindicato, dos partidos políticos, das correntes políticas que estão no interior do Sin- dicato; e, no entanto, encontramos no- tas que comprovaram uso de recursos do Sindicato para favorecer a chapa da diretoria que, então, estava à frente do Sindicato, ou seja, da gestão 98/ 2000. Eles utilizaram recursos do Sindicato para favorecer a sua chapa. Isso, obvia- mente, é uma falta extremamente gra- ve, porque diz respeito à ética no trato do bem público, do nosso bem públi- co, do bem coletivo, do fundo que os professores constituem para organizar a sua entidade. Assim como encontra- mos situações inadmissíveis - e graves! - como, por exemplo, o uso de recur- sos do Sindicato para viagens privadas de Diretores, como foi o caso do ex- presidente Renato de Oliveira, que uti- lizou recursos do Sindicato para passa- gens sua e de parente para o exterior. Essas situações são graves porque, se não fossem apuradas com rigor e não houvesse providências claras e contun- dentes por parte da base do Sindicato, como felizmente aconteceu, poderiam quebrar a relação de confiança que a base tem em relação ao Sindicato. Então, esse desleixo administrativo, o uso de recurso do Sindicato para fins que não estão previstos no Estatuto e para fins que não fazem parte do bem comum do Sindicato, para fins particu- laristas, isso poderia ter abalado a con- fiança da base em relação ao Sin- dicato, enquanto órgão representativo da categoria. Mais de um Sindicato já passou por essa crise, já viveu essa crise de ver a sua base perder a confiança por de- núncias em relação ao trato adminis- trativo e financeiro da entidade. Feliz- mente, conseguimos fazer que esse debate acontecesse de forma muito ampla dentro do movimento. Conse- guimos, felizmente, conduzir esse de- bate sem motivações políticas. Nós ti- vemos muito cuidado de não fazer uso político, ou melhor dizendo, um uso eleitoreiro dessa questão. Qualquer estudioso que pegar os InformANDES, pegar os ofícios à base seguramente vai constatar o extremo cuidado que a diretoria 2000/2002 teve no trato dessa questão, para não fazer acusa- ções, como, aliás, fizeram em relação à gestão anterior - 96/98: a diretoria 98/ 2000 foi pródiga em fazer ilações, insi- nuações em relação à gestão anterior. Nós tivemos muito cuidado para que 190 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente O Sindicato não tolera qualquer tipo de uso indevido de recursos e, sobretudo, o Sindicato não tolera uma gestão que seja displicente com a publicidade dos atos administrativos.
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    isso não acontecesse,para que as punições previstas em Estatuto pudes- sem ser tomadas apenas com base nos fatos e não em qualquer outro tipo de motivação. E foi com base nes- ses fatos que o Congresso do ANDES, depois o CONAD, confirmaram a puni- ção aos ex-diretores que estiveram como responsáveis pelo Sindicato e os afastaram por um período considerá- vel das atividades do Sindicato, justa- mente como uma forma de sanção aos atos que adotaram durante o período em que o Sindicato foi confia- do a eles. Eu acho que o Sindicato saiu com a sua imagem pública recuperada. Eu creio que hoje qualquer professor po- de estar, e certamente estará, muito tranqüilo em relação à forma como o Sindicato está sendo administrado. Ele sabe que o Sindicato não tolera qual- quer tipo de uso indevido de recursos e, sobretudo, o Sindicato não tolera uma gestão que seja displicente com a publicidade dos atos administrativos. O Sindicato saiu fortalecido desse las- timável episódio. Mas, de toda forma, por pior que tenham sido esses acon- tecimentos, o ANDES encontrou uma forma própria, baseado nas suas pró- prias instâncias, nas suas próprias deli- berações, para fazer as punições e pa- ra corrigir os rumos, enfim, da gestão financeira e administrativa do Sindi- cato. Foi muito positivo o fato de ter- mos conseguido fazer isso interna- mente ao Sindicato, sem necessidade de irmos ao Judiciário, o que mostra que a democracia, dentro do ANDES, é a melhor forma de condução do deba- te político e do trato administrativo da entidade. US: Professor, ao assumir a presi- dência do ANDES-SN, o senhor foi al- vo de perseguição política da adminis- tração de sua universidade, a UFRJ, ameaçado inclusive de punição por ausência de reconhecimento do seu direito de exercer o mandato sindical. O senhor poderia historiar esse pro- blema, fazer uma avaliação desse quadro por que passou? RL: Uma das primeiras medidas que o Fernando Henrique adotou, em seu governo, foi tentar debilitar o mo- vimento sindical. Não podemos nos esquecer da forma como ele conduziu a greve dos petroleiros, ainda em 95. Naquele momento, o presidente, ins- pirado em Thatcher, que fizera algo muito semelhante com os mineiros na Inglaterra, avaliava que era indispensá- vel quebrar um dos sindicatos mais fortes dos trabalhadores brasileiros, que era o Sindicato dos Petroleiros, e que isso lhe facilitaria os encaminha- mentos subseqüentes. Naquele mo- mento, Fernando Henrique foi parcial- mente bem sucedido. As medidas de extrema violência que ele adotou, co- mo demissão de dirigentes, multas exorbitantes etc., permitiram que ele tivesse uma vitória parcial, naquele contexto. Mas logo constatou que os sindicatos dos servidores públicos não aceitariam passivamente as reformas neoliberais. Daí, Fernando Henrique modificou o Regime Jurídico Único, que vem inspirado por princípios repu- blicanos da Constituição, e alterou um de seus aspectos centrais, que foi, jus- tamente, o direito à licença sindical. É claro que o presidente, naquele mo- mento, estava avaliando que, com isso, enfraqueceria a luta dos servido- res públicos. Nós, do ANDES, portanto, sabíamos e sabemos dos limites colo- cados aí pelas mudanças da legislação para a atuação sindical. No entanto, as universidades, en- quanto instituições autônomas, en- quanto instituições pautadas pelo arti- go 207, da Constituição Federal, vinham assegurando autonomamente o direito de os docentes estarem participando da vida política das suas entidades, tanto nas seções sindicais quanto na Direção do Sindicato Nacional. Os pró- prios departamentos definiam medidas de redução de carga horária para que os professores pudessem participar das seções sindicais; ou no estabelecimen- to de outras atribuições, como atribui- ções acadêmicas de pesquisa, para que pudessem ficar mais liberados e a ativi- dade sindical não interferisse na quali- dade do trabalho de docência. No entanto, isso não foi possível na UFRJ. Nós estávamos, naquele mo- mento, com um interventor; um inter- ventor a quem o Ministério da Educa- ção conseguiu dar posse após mais de dois meses de ocupação da Reitoria pelos estudantes, com 500 policiais fe- derais. E, somente dessa forma, o in- terventor pôde assumir a gestão da UFRJ. Ele sabia, o interventor, assim como o Ministério da Educação, que a seção sindical e o próprio ANDES esti- veram na linha de frente da resistência a essa intervenção. E, obviamente, isso gerou um antagonismo do governo em relação ao ANDES e à seção sindi- cal, extremamente virulento. Logo que assumimos a Diretoria, comunicamos ao Ministério da Educação a posse e a necessidade de que a universidade respeitasse o direito à representação sindical. O departamento ao qual es- tou ligado, na minha universidade, igualmente tinha um posicionamento de apoio ao mandato. No entanto, nem o MEC, e tão pouco a Reitoria da UFRJ, o interventor, aceitaram a possi- bilidade de eu ficar como representan- Ano XII, Nº 29, março de 2003 191UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    te, eleito quefui, da categoria; e desde o início o Ministério se eximiu de qual- quer tipo de compromisso em relação ao mandato. É importante registrar a posição an- tagônica ao direito de liberdade sindi- cal, de organização do mandato, de manutenção do exercício do mandato por parte do ministro Paulo Renato e, sobretudo, da Direção da Universidade Federal do Rio de Janeiro que, na épo- ca, era o interventor Vilhena. Ele, des- de o início, acolheu uma posição da direção da Faculdade, que, igualmen- te, entrou de uma forma não legítima. A diretora da Faculdade também foi nomeada pelo Vilhena, ainda que não expressasse o desejo da comunidade; ela foi imposta à comunidade da Faculdade de Educação. Sistematica- mente, eles passaram a tratar o man- dato sindical como ausência e como abandono de emprego, e assim foi fei- to: deram mais de 3 meses de faltas, exatamente para abrir um processo de abandono de emprego, com vistas à demissão. Muitos setores da socieda- de, do parlamento, as entidades aca- dêmicas, sindicais, se manifestaram e denunciaram esse fato; e essa denún- cia assumiu um caráter nacional e até mesmo internacional - sindicatos de outros países também criticaram a po- sição persecutória. E, finalmente, após a suspensão dos vencimentos, após já haver processos no judiciário, enfim, para afastamento das minhas ativida- des, já com todo um quadro prepara- tório para afastamento definitivo da universidade, numa das suas raras reu- niões, o Conselho Universitário apro- vou uma proposição, exigindo que o Reitor abonasse essas faltas para que o processo de demissão não fosse constituído. E a seguir, os professores da Faculdade de Educação da Uni- versidade de Brasília - UnB, que tam- bém acompanharam, como as outras universidades, essa situação, me fize- ram um convite para que eu ficasse cedido à Universidade de Brasília, on- de eu faria atividades acadêmicas e poderia ter a possibilidade do exercício do mandato sindical. Seguramente, foi a generosidade dos docentes da UnB- e eu não posso deixar de registrar inclusive o apoio da própria direção da Universidade de Brasília, a própria reitoria da UnB, que criou todas as condições para que essa cessão fosse possível, o que permitiu a manutenção do meu vínculo empre- gatício com a universidade, consegui- do por concurso público. Permitiu, de um lado, o convívio acadêmico com companheiros e colegas da UnB, ainda que muito prejudicado pelo mandato sindical, assim como permitiu valer a vontade dos docentes, de ter uma Di- retoria, que foi confiada a mim, e a re- presentação geral do Sindicato; permi- tiu que pudesse valer o voto dos do- centes. Nessa cessão, a UnB criou con- dições plenas para o mandato sindical. É importante registrar que tudo isso aconteceu comigo e com outros sindi- calistas, com outros dirigentes sindi- cais também. Foi parte de um proces- so de ofensiva do neoliberalismo e da coalizão de classes que, no Brasil, a implementam contra o movimento dos trabalhadores. Ou seja, encontrou suporte no governo Fernando Henri- que e no próprio Ministério da Educa- ção, na intervenção da UFRJ. Enfim, foi nesse contexto de políticas antidemo- cráticas que esses lastimáveis aconte- cimentos tiveram lugar. Isso, num am- biente democrático, certamente não teria acontecido. Acho que é importan- te para a memória lembrar que não foi apenas Vilhena, mas também o gover- no Fernando Henrique que tentaram criar condições para impedir os man- datos sindicais. Acho que é fundamen- tal que isso fique para a memória das nossas lutas. US: Professor, o senhor como presi- dente do ANDES conduziu a greve mais importante, historicamente, do movimento docente. Como o senhor registraria, comentaria, essa impor- tância? RL: Conforme disse anteriormente, fazia parte do núcleo sólido da política neoliberal a reforma do Estado brasi- leiro. Essa reforma do Estado previa que as universidades deixariam de ser instituições públicas e passariam a ser organizações de direito privado, eufe- misticamente chamadas de organiza- ções sociais públicas não-estatais. Isso faz parte do plano diretor da reforma do Estado. E conforme disse também ainda há pouco, durante o período 1998/ 2000, não houve, por parte da Diretoria do Sindicato, nenhuma mo- bilização mais forte, mais firme, contra a reforma neoliberal que estava em curso - basicamente a Emenda Consti- tucional nº 19 e a Emenda Constitu- cional nº 20. Assim, as reformas avan- çaram no período 98/2000 e, quando assumimos, o governo Fernando Hen- rique estava muito perto de concluir essa reforma. A medida central para viabilizá-la seria a transformação dos professores e servidores públicos em empregados regidos por normas de di- reito privado. E, com isso, com a priva- tização das relações de trabalho, os obstáculos legais da transformação das universidades em organizações so- ciais estariam sendo já removidos. Portanto, era uma cartada decisiva do governo Fernando Henrique viabilizar 192 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    essa reforma. Logo quenós assumimos, em 2000, o primeiro documento político que escrevemos foi sobre a reforma do Estado que estava em curso e sobre o significado da mudança do regime de trabalho para o futuro da universidade pública brasileira. Portanto, a greve respondeu a uma necessidade de or- ganização e de enfrentamento da uni- versidade contra uma reforma que co- roaria a privatização da universidade. O governo havia já preparado todas as bases para viabilizar essa reforma; já não fazia concurso e contratava ape- nas professores substitutos. Por que o governo não fazia concurso? Porque a sua expectativa era a de que aprovaria o Projeto de Emprego Público e, daí para a frente, somente contrataria ser- vidores regidos pelo direito privado, pela CLT. O governo não repassava re- cursos para investimentos nas univer- sidades; durante todo o mandato de Fernando Henrique somente reduziu as varbas, empurrando as universida- des para prestação de serviços no mer- cado. Enfim, as bases legais e as bases materiais estavam construídas, esta- vam postas, para transformar as uni- versidades em organizações sociais de direito privado. Ele tentou fazer isso desde 1994, em 1995 sobretudo; mas sistematizou a proposta, em 1996, com a PEC 370, que ficou muito co- nhecida como a Proposta de Emenda Constitucional 370, que modificaria o artigo 207 da Constituição, conferindo “autonomia” às universidades. Auto- nomia essa que, segundo o relator da matéria, o Dep. Paulo Bornhausen, permitiria que as universidades cami- nhassem com os próprios pés, no pra- zo de 10 anos; ou seja, no prazo de 10 anos, as universidades teriam que se auto-financiar. Portanto, o que estava em jogo era o próprio futuro da universidade públi- ca e temos que lembrar que saímos da greve de 98 de forma traumática, con- forme disse, com uma derrota impor- tante, naquele momento, que foi a ins- tituição de uma gratificação por de- sempenho. Isso, como eu também dis- se, abalou a imagem do Sindicato e, portanto, o governo avaliava que po- deria dar a estocada final para privati- zar a universidade, ainda em 2000. O processo de crítica, de enfrentamento, os debates que promovemos o gover- no claramente percebeu que não con- seguiria passar pelo parlamento a sua reforma neoliberal para a universidade e que teria que promover a privatiza- ção por uma via transversa. Ou seja, ele teria que colocar neblina sobre os fatos políticos para que não houvesse clareza da base, dos docentes e da própria sociedade, porque o que ele estava querendo era, de fato, privatizar. Por isso é que, desde 2000, eu diria até antes disso, mas em 2000 de for- ma mais nítida, a principal estratégia do governo era tentar promover a pri- vatização por meio da Reforma Admi- nistrativa. Nós tínhamos a consciência de que aquela greve significaria muito para a universidade e que, de certa forma, ela definiria o futuro mais imediato da uni- versidade. Quando entramos em gre- ve, portanto, em agosto de 2001, tanto o governo quanto o movimento do- cente sabiam que embates estariam enfrentando. O governo sabia que era uma cartada decisiva para viabilizar o seu projeto e nós sabíamos que tería- mos que impedir essa reforma a todo custo. Um fato notável: foi todo esse embate que fizemos, em 2000 e início de 2001, o conjunto de debates pro- movido pelas seções sindicais, que criaram uma consciência crítica extra- ordinária dentro da universidade sobre o significado da Reforma Adminis- trativa e do Emprego Público. A apa- rente desmobilização dos professores, que era denunciada por muitos com- panheiros nossos, dizendo que os pro- fessores não estavam mais dispostos a lutar e queriam um outro tipo de sin- dicalismo que não envolvesse lutas, obviamente, era uma leitura incorreta do sentimento dos professores. Tanto é verdade que, quando nós iniciamos a greve com os demais ser- vidores públicos, em agosto, o número de seções sindicais que entrou no pri- meiro dia da greve, algo como 32 se- ções sindicais, não estou lembrando bem, já foi o maior início de greve da história do ANDES. Por questões ob- viamente econômicas, nós sabíamos que o que estava em jogo, ali, era o futuro da própria universidade. E de fa- to tivemos uma greve impressionante! Eu diria que, junto com a greve dos pe- troleiros, em 95, foi a greve mais im- portante que aconteceu no governo Ano XII, Nº 29, março de 2003 193UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente O governo claramente percebeu que não conseguiria passar pelo parlamento a sua reforma neoliberal para a universidade e que teria que promover a privatização por uma via transversa.
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    Fernando Henrique, aindaque por motivos diferentes. Isso porque, em 95, o presidente deu um passo adian- te no seu projeto de enfraquecimento dos sindicatos; e, dentro do serviço pú- blico, a greve de 2001 dos professores e dos técnico-administrativos, com ativa participação dos estudantes, pro- duziu o oposto disso, ou seja, foi a pri- meira derrota do governo Fernando Henrique, anunciando que era possí- vel derrotar aquele governo. Algo de que muita gente duvidava, achava que era melhor capitular, era melhor nego- ciar as perdas porque, daqui para a frente, estaríamos meio que no “fim da história” do Fukuyama. A greve de 2001 mostrou que Fer- nando Henrique e o seu projeto eram passíveis de ser derrotados pela luta dos movimentos sociais. O maior patri- mônio dessa greve foi justamente mostrar para o conjunto da sociedade, para o conjunto serviço público, de for- ma mais particular, que era possível derrotar o governo e o seu projeto. É interessante lembrar que, durante essa greve, recebemos apoio de diversas entidades sindicais. Eu me lembro do dia em que conseguimos os recursos no parlamento para a greve: estáva- mos ali também lutando contra a flexi- bilização dos direitos dos trabalhado- res do setor privado, a flexibilização da CLT; lembro da alegria dos companhei- ros metalúrgicos de São Paulo, quími- cos e de outras categorias profissionais que estavam ali no parlamento, na- quele dia, também protestando. A ale- gria deles era justamente o reconheci- mento de que os trabalhadores pode- riam mudar o curso da história. Eles estavam comemorando conosco a possibilidade de mudar o curso da his- tória naquele momento. O balanço que eu faço da greve, portanto, é de que foi uma greve que vai ficar no registro das lutas populares e das lutas dos trabalhadores brasilei- ros, sobretudo nas lutas em defesa do ensino público. Conseguimos derrotar os pilares centrais, naquele momento, da política do governo. Por que derro- tamos os pilares centrais? Porque, em primeiro lugar, ele não conseguiu pas- sar o projeto de Reforma Administra- tiva do Estado, que era a privatização das relações de trabalho; e segundo, porque o reajuste, mesmo que muito modesto, foi um reajuste para todos os professores da carreira de 1º e 2º graus e da carreira do magistério supe- rior. Ou seja, conseguimos manter princípios que são muito caros ao mo- vimento dos trabalhadores, que são os princípios da isonomia e da paridade. Conseguimos manter a lógica da iso- nomia com os docentes da carreira de 1º e 2º graus que estão nas instituições de ensino superior federais - IFES; e conseguimos também que o reajuste fosse igual para os aposentados, algo considerado inegociável, sequer passí- vel de ser discutido pelo governo Fer- nando Henrique. A idéia de paridade, para ele, era uma idéia anacrônica, que estava enterrada no lixo da histó- ria. E mostramos que não, mostramos que era possível manter também os aposentados dentro da nossa luta, mantendo os direitos iguais. Foi excepcional, também, a cora- gem dos professores porque, como to- dos se lembram, foi uma greve extre- mamente retaliada. O governo agiu da forma mais brutal possível para tentar quebrar o nosso movimento, não só pela campanha sistemática de desqua- lificação do movimento, de acusações indevidas, feitas por órgãos de impren- sa a serviço do governo, mas também pelas medidas materiais que adotou, quando suspendeu ilegalmente os nossos salários por 2 meses. Os pro- fessores, com enormes dificuldades financeiras, conseguiram se manter na greve, mesmo sabendo que isso signi- ficaria prejuízos pessoais enormes. Não podemos esquecer que grande parte dos professores não têm reser- vas econômicas significativas; a maior parte sequer tem reservas econômicas - e lembro que foram dois meses con- secutivos! No primeiro mês ainda foi possível negociar o cartão, o cheque pré-datado etc.; mas quando o salário não veio, no segundo mês consecuti- vo, obviamente isso criou uma dificul- dade imensa. Eu registro, nesse contexto, o papel do Judiciário, que foi de afirmação da democracia; foi extremamente positiva a intervenção do Judiciário, que não aceitou a violência do governo. O últi- mo ato do embate com o Judiciário, já em nível do Supremo, foi justamente um pedido de habeas corpus para que o Ministro Paulo Renato não fosse pre- so por descumprimento de decisão ju- dicial. Isso gerou uma crise extraordi- nária no Estado brasileiro, uma crise entre os poderes da república. Mas o poder Judiciário se manteve firme, exi- gindo que o Executivo cumprisse as leis. Acho que isso foi um reforço insti- tucional da democracia no Brasil. Diria também, como um balanço muito im- portante dessa greve, a solidariedade, a compreensão política dos docentes da carreira do ensino superior, que, mesmo tendo condições, de alguma forma, de encerrar a greve, não aceita- ram que ela fosse concluída sem que os docentes da Carreira do Magistério de 1° e 2 ° Graus tivessem a sua grati- ficação equiparada à gratificação da Carreira do Magistério Superior. É a fa- 194 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    mosa isonomia entrea Gratificação de Incentivo à Docência e a Gratificação de Estímulo à Docência, algo igual- mente considerado um anátema, con- siderado algo impossível de ser discu- tido pelo governo e, ao final, ainda foi obrigado a equiparar as gratificações. E os professores da Carreira de Magisté- rio Superior se mantiveram, por um bom período, quase um mês, na gre- ve, mesmo sabendo que, de certa for- ma, parte das suas demandas já havia sido contemplada, mas não aceitaram a quebra da solidariedade. Portanto, foi uma greve com um sig- nificado político extraordinário, pela co- ragem dos professores e dos técnico- administrativos que se mantiveram na greve e, sobretudo, por afirmação de princípio e valores. Acho que uma histó- ria dessa greve vai ter que colocar num lugar de muito destaque a retomada de princípios e valores: princípio da solida- riedade, da isonomia, da paridade... Tu- do isso resgatou temas que são muitos caros aos grupos de trabalhadores e certamente criou um ambiente público no país, mostrando que, de fato, o go- verno poderia ser derrotado. É claro que a nossa greve não signi- ficou a derrota de Fernando Henrique, mas deu uma modesta, porém impor- tante contribuição às lutas sociais do país, mostrando que, de fato, era pos- sível construir uma sociedade diferen- te e derrotar as políticas neoliberais. E que - de fato - não havíamos chegado ao fim da história. US: A sua gestão se deu no período em que o ANDES Sindicato Nacional comemorou seus 20 anos de existên- cia e luta. Que significado isso tem pa- ra o senhor como presidente, nesse período? RL: Sem sombra de dúvida, a expe- riência que eu tive na gestão do Sin- dicato foi a experiência política mais importante da minha vida e, segura- mente, vai marcar toda a minha traje- tória futura. Eu somente pude dimen- sionar a credibilidade, a respeitabilida- de que o ANDES tem e o significado político do ANDES quando eu assumi a presidência do Sindicato. Obviamen- te eu sabia da importância do Sindi- cato, participava das instâncias de base desde sempre, porém nunca havia re- presentado a entidade. Quando eu passei a representar a entidade em ou- tros espaços - na OAB, na CUT, junto aos servidores, aos estudantes, junto às entidades acadêmicas, enfim, nas atividades gerais de representação - é que eu pude dimensionar o que signi- ficava o ANDES. De fato, é muito impressionante a respeitabilidade, a credibilidade que o nosso Sindicato possui na sociedade brasileira. E é claro que o fato de nós estarmos comemorando duas déca- das... sempre é uma data muito forte, muito marcante. Tive muita alegria ao saber que o nosso Sindicato permane- cia vigoroso como um protagonista das lutas brasileiras, da luta pelo ensi- no público, para que de fato possamos ter uma universidade de alta qualida- de, que não seja apenas uma universi- dade para poucos, mas que possa ser uma universidade para todos que têm um rosto humano. A nossa comemo- ração dos 20 anos, com todo o simbo- lismo que tem essa data, acho que ecoou em mim e me tocou profunda- mente, exatamente porque naquele momento eu conseguia, como consigo hoje, vislumbrar um futuro muito importante para o nosso Sindicato. Nós temos uma enorme tarefa polí- tica pela frente. Nós sabemos que ho- je, dos jovens que estão na idade de ir para a universidade, menos de 10% tem acesso ao ensino superior. Se con- siderarmos apenas as instituições pú- blicas, dos jovens que têm idade para entrar, ou seja, entre 18 e 24 anos, a idade “regular”, obviamente todos te- riam o direito; mas do contingente dessa faixa etária, entre 18 e 24 anos, hoje talvez 2% a 3% possam ir para uma universidade pública, o que colo- ca o Brasil entre os países mais injus- tos em relação ao ensino superior. Ali- ás, há um estudo feito pela UNICEF que mostra que o Brasil tem o sistema educacional mais injusto do mundo, considerando o desenvolvimento eco- nômico. É óbvio que a nossa situação é melhor que a de Ruanda ou da So- mália. Mas se considerarmos a renda do país, a renda da Somália, a renda de Ruanda, e compararmos com a si- tuação brasileira, nós iremos ver que a situação do Brasil é mais injusta que a de Ruanda pela riqueza social que possui. Ou seja, a riqueza social que nós temos permitiria o acesso à esco- laridade em todos os níveis muito ma- ior do que a de que, de fato, o povo brasileiro dispõe. Portanto, a luta que temos pela frente diz respeito ao aces- so, à qualidade do ensino, à qualidade da pesquisa. E nesse momento, a luta que temos para combater a mercantilização da educação, que está produzindo um “apartheid” educacional planetário, não só no Brasil e na América Latina, é uma luta imensa. E justamente quan- do estávamos comemorando os 20 anos, a alegria maior era saber que a nossa entidade adquiriu maturidade, adquiriu peso político na sociedade brasileira, o que a qualifica para abrir novas jornadas de luta. Eu espero muito que, daqui para a frente, princi- Ano XII, Nº 29, março de 2003 195UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    palmente com aeleição de Lula, pos- samos ter uma agenda política de construção muito mais acentuada. Es- pero que Lula não frustre; não Lula, mas o governo, a sua coalizão de go- verno - que não frustrem essa expecta- tiva que a sociedade brasileira tem de construir, de fato, uma nação diferente. Espero que o ANDES possa come- morar os seus 30 anos fazendo um ba- lanço de que, após 2003, pudemos participar da construção de uma outra agenda, que seja uma agenda de ma- ior grau de proposição para ampliar a oferta da educação, para melhorar a qualidade do ensino público, da pes- quisa e, sobretudo, para que se tenha uma universidade que esteja à altura dos desafios da vida prática, da vida concreta que o povo brasileiro tem. Es- pero que a universidade brasileira seja capaz de produzir avanços nos nossos conhecimentos sobre dengue, sobre medicamentos mais simples, sobre condições de saneamento contra as verminoses ou para uma agricultura ambientalmente equilibrada, avanços para que se possa, de fato, ter escolas que ofereçam um ensino de alta qua- lidade para as crianças, para os jovens, os adultos. Em suma, acho que todo esse desa- fio, em grande parte, vai ser - ou não - concretizado pela ação do Sindicato. Eu não acredito que seja possível construir uma universidade pública de qualidade no Brasil sem o protagonis- mo da entidade sindical. Porquê? Por- que temos um Estado com marcas pa- trimonialistas, um Estado em que os interesses das classes dominantes são extremamente bem representados, vi- de aí o pagamento dos juros da dívida etc., ao passo que os direitos do povo continuam sendo discutidos na pe- quena finança. Hoje mesmo eu estava lendo, na Folha de São Paulo, sobre o dilema que gira em torno de aumentar o salário mínimo em 40 reais ou au- mentar a Bolsa Escola. Não se fala no dilema entre aumentar o salário míni- mo e a Bolsa Escola e o pagamento da dívida, ou todo o juro da dívida, ou re- dimensionar o pagamento da dívida - esse dilema não está posto na socie- dade. Portanto, se quisermos ter uma agenda de fato promissora para a uni- versidade pública, o ANDES terá que perseverar na sua luta e, sobretudo, terá que ampliar sua presença no país. Acho que todo o trabalho de amplia- ção, por exemplo, no setor das univer- sidades privadas, é indispensável, por- que nós não vamos mudar a educação brasileira sem enfrentar o problema das instituições privadas no país. Hoje, mais de 80% das instituições são pri- vadas, mais de 70% das matrículas já estão no setor privado; e não há solu- ção para as públicas sem enfrentarmos o problema das instituições particula- res. Todo o processo de ampliação da universidade pública pressupõe uma mudança na presença do setor priva- do. São lutas muito complexas, árduas, áridas, pela frente e, na minha avalia- ção, o fato de termos comemorado 20 anos com uma consistência política, qualifica o Sindicato para enfrentar es- sa agenda excepcional. E eu espero muito que o nosso Sindicato mante- nha a sua trajetória de um enraizamen- to mais profundo nas seções sindicais, em cada instituição, para que os do- centes, no nosso caso, possam ser os protagonistas na construção de uma universidade democrática, algo que ainda não conseguimos construir no país, apesar de estarmos no século XXI. US: Levando em consideração es- sas reformas que o governo pretende desencadear - Previdência, Reforma Política, todo esse quadro em foco: que expectativa o senhor vê para a universidade pública no governo Lula? RL: Eu vejo um quadro muito con- traditório. Eu tenho a seguinte leitura em relação ao governo Lula: interessa aos movimentos sociais, a todos que são de esquerda, a todos que lutaram contra a ditadura, a todos que lutaram há mais de um século atrás contra a escravidão, enfim, ao patrimônio das lutas brasileiras, interessa que o gover- no Lula dê certo e que se tenha, pela primeira vez na história do país, um governo que se volte para a maioria da população e para todos aqueles que vivem do trabalho. Então, no que de- pendesse, pessoalmente, de mim, eu faria tudo para que o governo Lula desse certo. Agora, não compartilho a visão de que para o governo Lula dar certo nós temos que ficar quietos e deixar que o governo vá resolver as nossas vidas, porque isso seria um idealismo incompatível com a nossa própria atividade política e, sobretudo, intelectual. Não podemos admitir que 196 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente Não compartilho a visão de que para o governo Lula dar certo nós temos que ficar quietos e deixar que o governo vá resolver as nossas vidas, porque isso seria um idealismo incompatível com a nossa própria atividade política.
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    a história sejaconstruída dessa forma, não podemos admitir que um sindica- to de professores não tenha uma leitu- ra crítica do que é o Estado brasileiro e de que compromissos esse Estado as- sumiu com o capital financeiro. Fernando Henrique, no meu enten- dimento, fez a seguinte aposta: vamos criar todas as condições para que o capital especulativo tenha confiança no Brasil, vamos abrir mercado, vamos criar regras favoráveis ao capital, vamos privatizar, vamos liberar os capitais es- peculativos de qualquer contribuição, para que o Brasil seja um país capaz de atrair e receber muitos recursos de for- ma muito importante; e com essa atra- ção de recursos, Fernando Henrique avaliava que, de alguma forma, geraria um dinamismo na economia que per- mitiria um certo grau de desenvolvi- mento dentro do marco da dependên- cia, sobre o que, aliás, ele teorizou. Desgraçadamente, é a leitura que faço hoje do discurso do Palocci e do Mei- relles; isso eu já vi, inclusive, em entre- vista com o próprio José Dirceu. Des- graçadamente, essa leitura ainda está presente; ou seja, de que o fator de di- namismo da economia brasileira vai ser o afluxo dos capitais externos. E eu discordo radicalmente dessa leitura! Acho que isso vai aprofundar o proces- so de africanização no Brasil, no senti- do de irmos para a África subsaariana. Por que o governo Lula quer fazer uma reforma neoliberal na Previdên- cia? Eu não tenho medo de usar essa expressão porque a Reforma da Previ- dência, do que foi apresentado até agora, está claramente dentro dos marcos neoliberais dos Fundos de Pensão. É a primeira pergunta. Por que fazer a Reforma da Previdência em marcos neoliberais? E a segunda: por que dar autonomia ao Banco Central, de modo que o capital financeiro te- nha o controle do coração da política econômica brasileira? São duas per- guntas que eu acho que temos que nos fazer. Eu creio que as respostas que vi, nas entrelinhas dos discursos do Palocci, do Meirelles e do José Dir- ceu, é de que essas duas medidas per- mitiriam que o Brasil reconquistasse a confiança do capital estrangeiro, que o dinheiro voltaria a entrar aqui. É a mes- ma aposta feita por Fernando Henri- que e é a mesma aposta que levou o Brasil ao desastre. Eu espero que essa minha leitura esteja absolutamente equivocada. Mas não vejo outro moti- vo para fazer uma Reforma da Previ- dência que somente vai beneficiar o capital financeiro, contra o trabalho. A Reforma da Previdência que está sendo proposta tem como pilar, como núcleo, o conceito de Fundos de Pen- são. E sabemos que os Fundos de Pensão somente podem aumentar o volume dos seus capitais no mercado financeiro. Agora, o mercado financei- ro cresce em detrimento do mundo do trabalho, do mundo da produção. Há uma equação incompatível, ou seja: um discurso, que eu acredito ser genuíno de Lula, é que temos que vol- tar a fazer com que a economia real do país cresça, que a base produtiva, as pequenas indústrias, a agricultura fa- miliar voltem a ter um dinamismo; mas, ao mesmo tempo, faça as suas apostas no capital financeiro, porque o dinheiro dos Fundos de Pensão é um dinheiro que só cresce dentro da espe- culação financeira, e a especulação fi- nanceira só cresce contra o mundo do trabalho, contra o mundo da produção - isso em qualquer parte do mundo! Portanto, temos aí uma questão das mais sérias. E a segunda é a autonomia do Ban- co Central. O que significa dizer que o Banco Central define taxa de juros, de- fine os instrumentos de política econô- mica, fora do Parlamento e fora do próprio Executivo? Ele tem autonomia, e cabe ao Executivo apenas fazer um balanço se agiu certo ou não? É isso que está sendo proposto! Ora, não va- mos ser ingênuos. Meirelles é um re- presentante do Banco de Boston, é uma pessoa que construiu a sua vida no setor bancário, e boa parte da sua assessoria esteve ligada ao setor finan- ceiro. Cada vez que o país aumenta em um ou dois por cento a taxa de ju- ros, os bancos enchem os seus cofres. Eu vejo aí um conflito ético. E o próprio Lula nos lembrava que cada ponto aci- ma da taxa de juros significava mais mortalidade infantil, mais desempre- go, mais miséria. Portanto, as orienta- ções da política econômica, até o mo- mento, apenas mantêm o núcleo sóli- do da formulação política anterior. É claro que vamos ter que fazer um balanço considerando as dificuldades de transição. Acho que Lula assume com uma agenda que, por motivos vá- rios, deve ser questionada, mas não vou fazer isso agora, porque seria mui- to extenso. Por motivos vários, Lula tra- balhou uma agenda política, na cam- panha eleitoral, de que não haveria descontinuidade nos contratos, nos acordos e que faria uma aliança com os setores produtivos, tanto que, sim- bolicamente, chama para vice um em- presário. Tudo isso está dentro de um marco político. Lula herda um orça- mento que não foi o seu; foi o orça- mento feito por Fernando Henrique e isso cria limitações, cerceamentos. Tu- do isso é verdade, acho que devemos considerar a complexidade da transi- ção. Eu avalio que, hoje, não temos Ano XII, Nº 29, março de 2003 197UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    força popular, nosmovimentos sociais, na organização da sociedade, para um rompimento com o Fundo Monetário. Não há meios políticos de um rompi- mento, neste momento, com as teias que foram sendo construídas no perío- do, dada a forma como foi feita a cam- panha eleitoral. Eu não acho que é im- possível, abstratamente. Acho que se- ria possível modificar, de uma forma muito profunda, a relação com o Fun- do Monetário e com os acordos da dívida, se a campanha eleitoral tivesse tido uma outra tonalidade. Não teve. A história e o processo político continu- am. Portanto, na minha interpretação, o governo Lula tem, como disse o Emir Sader, de forma magnífica, num deba- te que fez conosco, o governo Lula ho- je tem duas almas: tem a alma do Mo- vimento Sem-Terra, a dos sindicatos combativos, a de um Florestan Fernan- des, de um Antônio Cândido, dos que lutaram contra a ditadura militar, a al- ma dos que se confrontaram com o pensamento neoliberal, que lutaram por outros princípios, outros valores, mas também tem a alma do capital fi- nanceiro. Que alma vai prevalecer? Por- que essas duas almas são incompatí- veis, elas não vão coexistir por muito tempo. A questão é: que alma vai pre- valecer no futuro? Eu acho que um primeiro teste será o orçamento para 2004. O orçamento de 2004 pode ser o primeiro orçamen- to de Lula. Mesmo que não haja a re- cuperação de uma agenda social mais forte, pelo menos poderemos ver as indicações políticas que vão ser feitas. Porque essa lógica que está posta ho- je, na Folha de São Paulo, se vamos reduzir o aumento do salário mínimo de 40 reais, o que jogaria um pouco mais de dinheiro para Bolsa Escola, isso não pode permanecer num gover- no de esquerda. Isso significa tomar partido de uma dessas duas almas. Eu acho que temos que aguardar o orça- mento. Agora, não vamos aguardar passivamente. Acho que o papel do nosso Sindicato e de outros sindicatos é trabalharmos os valores, os princí- pios, a agenda política, que é a agenda política da esquerda, para fortalecer o pólo da sociedade, dos movimentos sociais que querem mudanças efeti- vas, ou seja, que querem que o gover- no Lula dê certo, dentro de uma pers- pectiva de esquerda. Então, acho que o nosso papel prin- cipal, hoje, é dizer: queremos e não va- mos abrir mão da nossa luta por uma universidade pública de qualidade; queremos que a universidade seja para muitos, não seja para poucos. Não dá para aceitar a lógica de que precisamos alfabetizar primeiro para depois abrir a universidade, ampliar a universidade; essa é a lógica do Paulo Renato e do Banco Mundial; é a lógica que diz que os países periféricos devem ter apenas uma educação ele- mentar, uma instrução elementar, por- que não têm mais espaço numa eco- nomia mundial baseada em produtos, serviços e processos de maior comple- xidade. Essa lógica não dá para aceitar! Então, cabe ao Sindicato manter a sua agenda política. Agora, é claro que, no trato político com o governo Lula, acho que temos que saber que, lá, temos companheiros. Temos que ter um trato político extremamente cuidadoso, ex- tremamente respeitoso com a história, com a trajetória das pessoas que estão lá presentes. Porque são pessoas que construíram um patrimônio de críticas e de lutas que nós compartilhamos. Obviamente não podemos ver, no governo Lula, inimigos; vamos ter que dialogar, vamos ter que debater, que refletir conjuntamente, mas não va- mos poder abrir mão da nossa autono- mia e da nossa crítica. O horizonte do governo Lula não depende de embate dentro do gover- no, depende de embate na sociedade. A sociedade brasileira, em grande par- te, votou em Lula pensando nas mu- danças, em mudanças sociais mais sig- nificativas. Agora, para que essas mu- danças sejam efetivas, é preciso que os movimentos se organizem, conti- nuem lutando, continuem trabalhando a agenda. Eu creio que o ANDES terá um papel fundamental no debate sobre a Reforma da Previdência, pela sua qualificação e pelo fato de que te- mos muitos professores que estuda- ram e estudam a Previdência, que mostram que os números que o go- verno está apresentando - que são os números do governo Fernando Hen- rique - são números fetichizados, que não expressam a realidade; que aquilo ali é uma verdade parcial e, portanto, uma mentira, uma falsidade da situa- ção concreta e real da Previdência. Então, temos um papel importantís- simo a cumprir. Eu creio que impedir que a reforma neoliberal da Previdên- cia seja aprovada pode ser um primei- ro grande passo para fortalecer o mo- vimento da sociedade, que quer que o governo Lula, de fato, abra um período de pós-neoliberalismo e não de tentar operar as contradições e, em peque- nas brechas, fazer políticas diferentes. Porque isso a experiência da terceira via nos mostra que não é possível, ou seja, tentar fazer um governo de esquerda, com uma política econômi- ca assentada nos princípios do que foi chamada de política neoliberal. É algo impossível! Ou seja: não dá para con- viver com duas almas. 198 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    US: Já fazalgum tempo, observa- ções são feitas com relação à desmo- bilização da categoria docente. A in- trodução da lógica produtivista no processo de trabalho docente pode ter contribuído muito para isso. Talvez es- sa vitória do Lula, venha, de alguma forma, também reforçar este afasta- mento. Há um clima de concessão de trégua. Como o Senhor se posicionaria nesse sentido e como o Sindicato de- veria agir para mobilizar essa catego- ria e mobilizar esse quadro? RL: Na semana passada, tivemos um Fórum Social Mundial e, antes, um Fórum Mundial de Educação. Foi o maior Fórum Mundial de Educação realizamos. Esse foi o segundo que realizamos, mas dos Fóruns Sociais, seguramente esse foi o maior e talvez tenha sido o Fórum que mais propôs oficinas, debates etc. Eu creio que é verdade isso que você coloca: que o governo Lula cria um sentimento de confiança e que, portanto, agora, de alguma forma, podemos ser mais tole- rantes com perdas, com dificuldades, porque esse governo nos representa. É verdade isso. Mas de outra parte, eu também vejo, na vitória de Lula, uma vontade de participação que há muito tempo eu não via. As pessoas querem fazer alguma coisa. Os professores es- tavam muito infelizes com o seu traba- lho acadêmico, no período mais áspe- ro das políticas neoliberais. As pessoas não estavam felizes e não estão satis- feitas com o que estão fazendo: têm turmas muito cheias, têm que traba- lhar com diversas turmas, um trabalho muito aligeirado, muito corrido, e isso causa muito sofrimento à maior parte dos professores, eu acredito; o próprio papel social da universidade causa também insatisfação em muita gente. Muita gente gostaria de ver nova- mente a universidade mais ativa na interação com a sociedade, com o po- vo e com as demandas do país. Eu ve- jo, também aí, um sentimento interes- sante, porque, de um lado, acho que é verdade que há uma posição de certa forma mais tolerante e talvez passiva em relação ao início do governo Lula. Mas, de outra parte, há uma demanda grande por participação em vários es- paços. Acho que o Fórum foi exemplo disso. Creio que para o ANDES organi- zar, mobilizar e canalizar essa energia que está presente nas universidades, que está presente na nossa base de participação, em primeiro lugar, vamos ter que perseverar em algo que sem- pre fizemos: temos que perseverar no debate. O que a universidade melhor pode oferecer ao país, no meu enten- dimento, é ajudar a organizar o deba- te, a reflexão. Enfim, pensar os cami- nhos de maneira rigorosa, crítica, mas, sobretudo, muito comprometida etica- mente, politicamente com os interes- ses da maioria do povo. Então, o ANDES tem um papel decisivo na organização desse debate e no chamamento, na convocação para que os professores participem do debate sobre o futuro da nação, o futuro da América Latina e dos países periféricos de uma forma geral. Essa capacidade convocatória do Sin- dicato tem então que ser ampliada ao máximo. Criar espaços e condições pa- ra que os professores discutam. Eu creio que, na medida em que nós for- mos fazendo debate político, a partici- pação no Sindicato vai ser crescente. Eu acho que vai ser crescente. Tomando o exemplo da Reforma da Previdência, em seu debate político, fica claro para a maioria dos professo- res que essa reforma não significa per- da econômica para eles. Não é esse o maior problema; esse é um grande problema, mas não é o maior. Mas sig- nifica um projeto de nação que não rompe com as políticas neoliberais. Eu creio que os professores pensam as- sim: nós queremos que as políticas sociais do país, as políticas educacio- nais, para a saúde pública, para a agri- cultura, para a energia, para o meio ambiente, enfim, nós queremos que essas políticas se afastem dos marcos neoliberais. Eu vejo uma demanda enorme dos professores em buscar uma maneira de contribuir para cons- truir algo diferente no país. Eu acho que o nosso trabalho será de organiza- dores do debate. Não somos ilumina- dos, não temos a verdade, mas temos um capital político e uma capacidade convocatória, de chamamento das pessoas ao debate, que tem que ser ampliada ao máximo. Vejo também como preocupação a nossa dificuldade, que não é de hoje, de o Sindicato de conseguir uma ma- ior interação, maior comunicação com a base; temos que aperfeiçoar os me- canismos de comunicação com a base do Sindicato. Agora estou em sala de aula, no trabalho cotidiano, quer dizer, tenho acompanhado mais o cotidiano da minha unidade e vejo que o Sin- dicato Nacional não tem facilidade, ainda, de chegar ao conjunto dos pro- fessores, no que diz respeito às estra- tégias de comunicação. Acho que, nes- se momento em que, aparentemente, existe um consenso já cristalizado - mas esse consenso não existe na so- ciedade - o nosso papel, como organi- zadores do debate, de uma interven- ção pública na sociedade, tem que ser intensificado. Esse é um problema de muito tempo no Sindicato. Eu vivi isso Ano XII, Nº 29, março de 2003 199UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente Não somos iluminados, não temos a verdade, mas temos um capital político e uma capacidade convocatória, de chamamento das pessoas ao debate, que tem que ser ampliada ao máximo.
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    como Diretor -limitações enormes em nossas políticas de organização de co- municação e debate. Acho que isso, a idéia de uma presença mais ativa jun- to ao cotidiano, tem que ser uma ob- sessão para todos nós, nas seções sin- dicais, na Diretoria, nos GT. Acho que isso contribuiria enormemente para a criação de um ambiente de debate e de participação política. Em síntese, é uma realidade a possi- bilidade de um certo conformismo, mas há uma energia, há uma deman- da de participação que o Sindicato não pode desperdiçar. Temos que organizar esse debate, essa possibilidade de in- tervenção. E aí teremos, em 2003, no- vamente, bons espaços de discussão, bons espaços de luta. Acredito que os nossos debates sobre a Reforma da Previdência serão grandes debates, de grande afluência de público. US: O projeto de FHC para a Edu- cação ia claramente na direção dos ditames da OMC, isto é, a Educação como uma mercadoria. Na abertura do Fórum Mundial da Educação, vi- mos o Ministro Cristovan Buarque con- clamando os professores a contribuir para o ensino, com grande ênfase pa- ra a erradicação do analfabetismo e nós estamos vendo em que bases isto está sendo encaminhado. Como o se- nhor avalia os primeiros passos do governo Lula no que tange à Edu- cação? RL: Em relação à política educacio- nal do governo Lula, penso que não temos, ainda, muitos elementos para fazer uma avaliação mais rigorosa. Abstratamente, se qualquer um de nós for indagado sobre a importância e a prioridade de trabalharmos a alfabeti- zação, obviamente qualquer pessoa vai concordar com isso. Agora, o enca- minhamento feito, até este momento, para a política de alfabetização, no meu entendimento, é absolutamente débil, frágil. Não temos experiência de outros países que corroborem a estra- tégia que está sendo utilizada. E qual a estratégia central? Ampliar a alfabetiza- ção do povo brasileiro, não por dentro do sistema de ensino, mas fazendo com que o sistema de ensino busque estratégias alternativas. Por trabalho do voluntariado ou por trabalho de produtividade, você recebe x reais por cada alfabetizando. Essas estratégias não funcionam. Porque, tanto a alfabe- tização quanto a educação elementar, numa sociedade complexa como a que vivemos hoje, requerem a inser- ção das crianças, dos jovens e dos adultos num sistema de ensino públi- co de qualidade. Não vejo saída, hoje, no país, se não há forte investimento no ensino público de qualidade e no fortalecimento institucional do ensino público. Campanha é algo que tem bom efeito publicitário, mas o efeito prático é desastroso. Campanhas como “uni- versidade solidária” foram piores do que o antigo Mobral do governo mili- tar. Na “universidade solidária”, algo como 15% dos atingidos foram alfabe- tizados. Agora, você letrar a pessoa, no primeiro letramento, e isso não ter continuidade, daqui um ano essa pes- soa é novamente uma analfabeta, por- que, se ela não tem o uso prático da linguagem, perde essa habilidade que ela adquiriu. É uma política que tem seus pressupostos em bons valores humanos, porém, em termos de políti- ca educacional, é muito ruim. Ade- mais, quem são esses jovens que vão ser atingidos pelo projeto de alfabeti- zação? São jovens que, em grande parte, entraram na escola pública, mas foram excluídos da escola pública. Por quê? Por que a escola pública encon- tra dificuldades materiais - com essa política irresponsável de municipaliza- ção - extraordinárias! Então, a “fonte de excluídos pela escola” não melhora, se não melhorar o ensino público. É uma política que não tem suporte no mundo real. Ademais, a idéia de contrapor ensi- no básico e universidade, conforme disse anteriormente, é uma política que vem sendo implementada na América Latina, na África e no sul da Ásia, por inspiração e condicionalidade do Banco Mundial. De fato, é prever para os países periféricos uma desco- nexão de uma economia mais sofisti- cada. Portanto, ainda que seja muito prematuro fazer um julgamento, uma avaliação da política educacional pre- tendida pelo governo Lula, os primei- ros passos terão que ser repensados muito profundamente. US: Retomando uma idéia da ques- tão, sobre essa dificuldade que a dire- ção do Sindicato tem de se articular mais com a base. Há algumas acusa- ções que nos deixam, às vezes, até irri- tados, quando se escuta que o Sindi- cato se tornou uma máquina burocrá- tica, infiltrada de idéias políticas estra- nhas, dominada por correntes políti- cas, que cada vez mais agudiza essa distância em relação à base. Como o senhor se colocaria diante de questões desse tipo? RL: A avaliação de que o Sindicato tenha se burocratizado, burocratizado sua vida política, não se coaduna com os fatos. Fizemos, em 2001, uma greve de um conteúdo político extraordiná- rio, em condições adversas, em que os professores tiveram que mostrar a confiança política, ética na sua entida- 200 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    de. Isso nãoseria possível se fosse um Sindicato burocratizado, jamais seria possível. Primeiro, jamais teríamos or- ganizado uma luta desse tamanho, a partir da base; jamais teria havido uma adesão tão grande de instituições e do número de pessoas que participaram da greve, quer dizer, que efetivamente estiveram em greve; jamais isso acon- teceria num Sindicato burocratizado. Então, não há correspondência com os fatos. Se cotejarmos esse discurso com os acontecimentos que vivemos, nos últimos anos, não vamos encontrar correspondência real. Eu creio que as pessoas que estão fazendo essa análi- se, estão fazendo uma análise equivo- cada do que vem acontecendo com as universidades. Existe problema de mobilização, claro que existe. Existem problemas em relação à interação do Sindicato com a base. Temos que ter sempre hu- mildade e sabedoria de ver as nossas limitações. Há limitações parciais. Uma delas já coloquei: acho que a nossa política de diálogo com a base tem que ser aperfeiçoada. As nossas se- ções sindicais, por mais esforço que estejam fazendo, devem procurar for- mas de estar mais com os professores, visitar mais departamentos e percorrer mais a universidade. Algumas seções conseguem fazer muito bem isso, ou- tras têm mais dificuldades, não por incompetência ou descompromisso dos dirigentes, mas pelas condições materiais da universidade, que é outro ponto que eu gostaria de aprofundar. Agora, a despeito dessas dificulda- des, não podemos esquecer que exis- tem limitações e cerceamentos postos pela realidade. Os professores, hoje, têm mais de um terço de sua remune- ração como gratificação de produtivi- dade, então os professores têm que estar correndo atrás dos indicadores de produtividade. Vem sendo instituí- do um novo ethos acadêmico que pri- vilegia o produtivismo e isso está qua- se no nosso DNA hoje; e a gente se culpa de não ter publicado x artigos, num determinado tempo, mesmo que a gente saiba que, desses artigos, tal- vez um deles tenha muita relevância, mas o segundo já não tem tanta, pois é mais uma retomada de aspectos da primeira reflexão etc.; mas ainda assim internalizamos um produtivismo, a no- ção de produtivismo. Isso é algo grave. E não por acaso Chomski diz que as políticas neoliberais produziram cica- trizes no cérebro; de certa forma, acho que isso é verdade. Incorporamos mui- tos desses elementos, e isso afasta os professores da vida coletiva; não é só no movimento docente; da vida coleti- va na universidade. Qualquer um de nós, em qualquer departamento, vai falar assim: bom, hoje o meu departa- mento não é o que era há dez ou quinze anos atrás. Há quanto tempo não se faz, em cada um dos nossos departamentos, uma boa reflexão so- bre o currículo, sobre as estratégias pe- dagógicas que estamos utilizando, so- bre os projetos de pesquisa sob a nos- sa responsabilidade? A universidade perdeu muito do seu espaço público e é claro que também o movimento sofre com isso. Seria uma ingenuidade tapar os olhos numa situação real. Mas eu insisto que esse novo funciona- mento da universidade produz contra- dições que permitem, por exemplo, a construção de uma consciência políti- ca como a que levou à greve de 2001. Vejo que estamos num momento de inflexão disso. Esse modelo produ- tivista de universidade, num país peri- férico, tem tais limites - tem tais limi- tes! - que produz na maior parte dos professores a idéia de que o melhor caminho, para ele, não é ser um em- preiteiro acadêmico. Primeiro, pelas demandas públicas que ele tem como compromisso; a maior parte dos pro- fessores tem a educação como um bem público, mas, materialmente, também não tem espaço para isso. É muito diferente eu pensar num capita- lismo acadêmico, na Universidade de Harvard, que tem um orçamento de 19 bilhões de dólares, que é maior do que toda a educação pública brasileira, dos municípios à universidade. Somar todo o dinheiro gasto na educação pú- blica brasileira dos municípios, dos es- tados, União, da pré-escola à pós-gra- duação, isso dá algo como 50 bilhões de reais, ou seja, é bem menos do que 19 bilhões de dólares. Uma única uni- versidade americana tem 19 bilhões de dólares de orçamento. Então, você ser um empreiteiro acadêmico numa universidade que tem 19 bilhões de dólares significa uma coisa; e você ser um empreiteiro acadêmico numa uni- versidade de um país periférico é radi- calmente outra. A busca de saídas coletivas, a busca de saídas que modifiquem para melhor a universidade, eu ainda creio que será a saída perseguida pela maior parte dos professores. Acho que essa crítica é uma crítica equivocada, mas não é um equívoco de conhecimento, é um equí- voco que tem um acento político. Não é um equívoco no sentido de que eu estou enganado ou fiz uma leitura erra- da da realidade; é uma leitura interessa- da politicamente, que tenta desfocar os problemas centrais e que, em última instância, acaba apostando que a orga- nização autônoma dos trabalhadores não é a melhor saída para os nossos problemas. Por isso, é uma leitura que tem um interesse político, que é, obvia- mente, um motivo de embate, inclusive Ano XII, Nº 29, março de 2003 201UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    dentro do próprioSindicato. US: Na atualidade, que observa- ções o senhor faria sobre as relações do nosso Sindicato, o ANDES- SN, com a CUT? RL: Nós nos filiamos à CUT após um longo debate interno. Foi um processo muito discutido. Havia forças, na épo- ca, representadas pelo antigo Partido Comunista Brasileiro, pelo PC do B, que defendiam o nosso pertencimen- to a uma central alternativa à CUT, que era a CGT, o movimento chamado CONCLAT. Outros setores, na época, grande parte deles ligados ao Partido dos Trabalhadores, entendiam que devíamos fazer uma central com carac- terísticas do novo sindicalismo. Eu creio que muitos dos professores, mes- mo sem filiação partidária, mas que construíram o ANDES como uma enti- dade autônoma, crítica, combatente, uma entidade capaz de se auto-finan- ciar, de não aceitar nenhum tipo de atrelamento com o Estado etc., enten- deram que a melhor alternativa de construção política era forjar a Central Única dos Trabalhadores, porque justa- mente a CUT foi formada com base nesses princípios que chamamos ge- nericamente de novo sindicalismo. Portanto, o pertencimento do ANDES à Central é um pertencimento muito esclarecido, objeto de muitos debates, causou apreensão em parte da nossa base, mas creio que, com o passar do tempo, ficou claro para o conjunto da categoria que foi uma decisão acerta- da e correta. O nosso problema com a CUT - eu não diria que é um problema, mas as nossas questões políticas com a CUT diz respeito às concepções sindicais. O ANDES compartilha quase que inte- gralmente dos princípios que funda- ram a CUT, mas não compartilha de algumas mudanças que foram feitas, sobretudo na década de 90, meados da década de 90. Nós temos divergên- cias bastante fortes em relação à pos- sibilidade de nós termos a Central com o papel de um sindicato orgânico; nós temos divergências em relação à idéia de formação, por exemplo, de um “sin- dicatão” dos servidores públicos ou de um ramo dos servidores públicos, que apagasse as especificidades e particu- laridades do trabalho da nossa catego- ria docente; e temos divergências com relação aos procedimentos adotados pela Central. Mas todas essas diver- gências se dão dentro de um patamar político do funcionamento democráti- co da Central. Portanto, o ANDES, muitas vezes, é acusado de ter uma relação conflituo- sa com a CUT. Eu não diria que é uma relação conflituosa, mas é uma relação de muito debate e de muita reflexão, exatamente porque a CUT sofreu mo- dificações e inflexões políticas impor- tantes. Ela, há bastante tempo, adotou uma perspectiva de análise da realida- de, do que estava acontecendo, que os nossos textos de conjuntura não corro- boram. As idéias de que estaríamos entrando num novo período de uma nova revolução científica e tecnológica, de que a flexibilização do trabalho é um fato inevitável, de que o grande problema dos trabalhadores é o pro- blema de qualificação e que temos, pois, que investir na requalificação; de que não há problemas de sermos fi- nanciados ou de que a principal fonte de financiamento seja o Fundo de Amparo ao Trabalhador, que são ver- bas vindas do Estado com isso não te- mos acordo. A nossa leitura de conjuntura não concorda com esse posicionamento, que é majoritário na Central. Então, por isso, o Sindicato tem tido uma re- lação de debate intenso com essas for- ças majoritárias. Mas isso não quer dizer que o Sindicato não se sinta CUT. Ao contrário, nos momentos decisivos, nos momentos agudos, em que, por vários motivos, a própria direção da Central não conseguiu mobilizar o se- tor privado, quem saiu em defesa dos trabalhadores do setor privado contra a flexibilização do trabalho, por exem- plo, foram os sindicatos dos servidores públicos, e o ANDES esteve muito à frente nisso. No momento decisivo de embates no Parlamento, para que a flexibilização não fosse votada, houve momentos em que tivemos que impe- dir a votação só com os servidores públicos; e o ANDES participou e orga- nizou essas lutas. Somos CUT, nos sentimos cutistas, mas não abrimos mão do nosso posi- cionamento crítico em relação a uma leitura que a Central faz hoje, que é predominante, de que o mundo do trabalho está em dissolução. Não acre- ditamos nisso. Acho que, ao contrário, a idéia de que o mundo do trabalho permanece é a centralidade da vida política dos movimentos sociais e que 202 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE O ANDES, muitas vezes, é acusado de ter uma relação conflituosa com a CUT. Eu não diria que é uma relação confli- tuosa, mas é uma relação de muito debate e de muita reflexão, exatamente porque a CUT sofreu modificações e inflexões políticas importantes. Memória do Movimento Docente
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    devemos fortalecer ainstitucionaliza- ção dos direitos do trabalho. Isso é al- go que, para o ANDES, eu diria que é sagrado. Isso fica claro, agora, com a questão da Previdência, em que decla- rações foram feitas de maneira muito precipitada em relação a questões co- mo isonomia, paridade; foram feitas declarações muito infelizes de Direto- res da Central a respeito desses temas. Então, certamente teremos um debate bastante acalorado, mas vejo isso co- mo um mérito do ANDES e um mérito da CUT, ou seja, a possibilidade de ter- mos esses embates só é possível por- que temos uma Central que represen- ta, hoje, o melhor do sindicalismo bra- sileiro, que é a CUT. US: O senhor como intelectual, hoje um dos mais reconhecidos no campo de educação, como se posi- ciona sobre o papel de um pensador, de um intelectual e a sua militância sindical, a partir da sua experiência de sindicalista? RL: Todos que estamos no movi- mento docente somos intelectuais. Eu acho que o movimento docente pro- duziu um pensamento crítico sobre a universidade, sobre diversos campos do conhecimento, que é referência po- lítica, que é referência acadêmica em todas as áreas. O movimento docente esteve presente na reflexão sobre a 8ª Conferência de Saúde, que mudou muitos marcos conceituais. O movi- mento docente vem formulando, vem teorizando questões importantíssimas e, sobretudo, ele criou espaços para que intelectuais que não participam do movimento docente tivessem o seu pensamento colocado em circulação; e isso sempre foi uma marca do nosso movimento. Nós sempre dialogamos com pessoas que estão produzindo co- nhecimento com o maior vigor e com a maior qualidade científica, e colocamos em circulação e em debate. Sempre ti- vemos esse espaço e o movimento fez questão de trabalhar isso na obra de Florestan Fernandes, que foi uma refe- rência chave para pensarmos no nosso projeto de universidade. Nós estive- mos e estamos em debate, em diálo- go com o trabalho feito por um Rober- to Romano, por uma Marilena Chauí e tantos outros intelectuais importantes no país. Nós temos dado acolhida à re- flexão teórica produzida na universida- de e temos colocado novas perguntas e novas questões para que haja um ambiente de discussão, de reflexão, na universidade brasileira. Portanto, utili- zando uma idéia de Gramsci, de que um intelectual é antes de tudo um or- ganizador da cultura, eu acho que os militantes do movimento docente são, no sentido forte da palavra, intelec- tuais. E não é casual que grande parte dos professores que estiveram e estão no movimento docente sejam pessoas que contribuem com as suas áreas, se- jam pessoas respeitadas academica- mente, sejam referência nas suas res- pectivas áreas. Eu acho que isso tem acontecido em diversas áreas. Justa- mente porque há uma concepção do movimento docente de que, para fazer ciência, não basta fazer pesquisa. Eu posso fazer muita pesquisa e não ser um cientista. Eu creio que, desde o iní- cio, o movimento docente tem afirma- do o seguinte: precisamos produzir co- nhecimento com o maior rigor científi- co possível. No entanto, esse conheci- mento não é um fim de si mesmo, ele é um meio. Um meio para quê? Para nós mudarmos o real. O movimento docente tem chamado a atenção da universidade para o fato de que o tra- balho científico não se completa, não se realiza, se não nos perguntarmos sobre essas duas questões: a produ- ção do conhecimento enquanto meio e enquanto fim. A universidade positivista, a univer- sidade produtivista, muitas vezes se preocupa muito com os registros do conhecimento como meio, ou seja, quantos artigos eu publiquei etc. etc., mas não se preocupa com a relevância social disso. E com relevância social, não estou dizendo que temos que pro- duzir conhecimento pragmático, não é isso; é conhecimento que tenha possi- bilidade de explicar o real e não se contentar se ele está de acordo com determinado método ou procedimen- to metodológico. Isso é um mal, é má ciência. Em qualquer campo do co- nhecimento se faz boa ciência quando explicamos o real para poder interferir no real, seja na natureza, seja na socie- dade independente. E o movimento docente tem tentado trabalhar essa concepção mais articulada, mais orgâ- nica de produção do conhecimento. Eu avalio que os militantes do movi- mento docente estão prestando um bom serviço para a qualidade acadê- mica da universidade brasileira. Isso, independente da questão da titulação, que eu acho que é um problema que tem que ser avaliado e discutido em sua concretude, porque nós não pode- mos falar na qualificação em geral da universidade brasileira se 90% dos cursos de doutorado estão no eixo Sul- Sudeste. Eu não posso abstrair isso da realidade. Ou seja, o professor da Uni- versidade Federal do Acre ou da Fe- deral de Roraima, ou do Amapá, tem dificuldades extraordinárias pelas con- dições políticas e materiais; assim co- mo tínhamos professores que não pu- deram se qualificar porque, de fato, não havia nem a área de conhecimen- to dele com possibilidade de fazer Ano XII, Nº 29, março de 2003 203UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    pós-graduação. Então, temosuma si- tuação muito heterogênea no fato de termos uma universidade nova e desi- gual. Nós temos uma pós-graduação que está muito concentrada em algu- mas poucas universidades, seis ou sete universidades devem ter 90% das matrículas de doutorado. Temos essa situação real, material, que vem dificul- tando a pós-graduação formal. Mas, de outra parte, esse quadro vem sendo modificado, em grande medida, pela ação organizadora dos intelectuais que estão no movimento docente. Eu não tenho dúvida de que existe - infelizmente o Fernando Hen- rique destruiu - mas existia um progra- ma de qualificação docente, em gran- de parte por pressão, por críticas, por demandas organizadas do movimento docente. Nós sempre fomos muito a favor da qualificação; tanto que a car- reira dos professores que nós defende- mos é uma carreira que tem como um dos princípios estruturantes a qualifi- cação formal. Mas nós não queremos trabalhar essa questão de forma abs- trata, em tese, porque sabemos que para os professores se qualificarem, são necessárias condições materiais, e essas condições, infelizmente, não es- tão asseguradas. A crítica à produção intelectual dos professores que estão no movimento docente é uma crítica muito antiga dentro da academia, dentro da ciência. O que é o melhor critério de verdade para o conhecimento? É a ressonância explicativa para o mundo real? Ou é o próprio método? Os positivistas dizem que o próprio método é o critério de verdade. E nós temos colegas e com- panheiros que entendem que todos aqueles que estão produzindo conhe- cimento, que estão preocupados com o meio, mas que estão preocupados, também, com os fins, não fazem boa ciência. Ora, eu vejo exatamente o oposto disso! US: Para concluir. Que mensagem o senhor gostaria de registrar aqui e encaminhar aos seus companheiros que hoje militam na diretoria do Sin- dicato? RL: Acho que a mensagem que me foi passada quando eu assumi o Sin- dicato Nacional, por vários companhei- ros, por vários militantes. Nós temos um patrimônio político importantíssimo que está materializado numa entidade chamada ANDES Sindicato Nacional. Essa entidade encarna um patrimônio político extraordinário, que foi possível ser construído por muitas lutas, pela participação de companheiros que dedicaram o melhor de suas vidas para construir esse movimento. Portanto, nós temos o peso de uma responsabili- dade que é enorme todos nós. Para essa Diretoria, e para as futuras, eu diria que nós (temos que nunca perder de vista a responsabilidade que temos em relação a essas lutas do passado, em nome das lutas do futuro). Ou seja, do que precisamos fazer para que o país possa ter de fato uma universidade de alta qualidade, capaz de produzir co- nhecimento com relevância social, não só para o Brasil como para a América Latina, para a África, para que possamos interagir com outros povos. Temos uma longa estrada pela fren- te, e essa longa estrada tem exigências para ser trilhada. Ela não pode ser tri- lhada de qualquer forma, não será aberta de qualquer forma; ela precisa de ação deliberada, organizada, senão nós não vamos abrir os caminhos que possibilitem um futuro diferente para a universidade brasileira. A construção desse futuro depende em grande par- te da força e da qualificação ética e po- lítica que nós podemos dar aos nossos mandatos, como Diretores. O futuro da universidade brasileira depende, em grande parte, da força do ANDES; e a força do ANDES depende, em grande parte, da dedicação, do empenho e do espírito militante de cada pessoa que está com a responsabilidade de repre- sentar essa entidade extraordinária. É a mesma mensagem que me pas- saram. Ou seja, temos aí uma entida- de de grande importância, de grande relevância e temos que manter essas lutas do passado, com a força que elas tiveram em outros períodos, amplian- do essa força. Mas para isso precisa- mos sempre nos manter com base nos princípios que historicamente deram feição ao ANDES Sindicato Nacional. Eu faço uma avaliação extrema- mente positiva da Diretoria atual. Acho que é uma Diretoria que vem manten- do o melhor da tradição do nosso Sin- dicato, da postura ética, crítica, comba- tiva, qualificada, de intervenção no cenário político. Avalio também que vai ser uma gestão, já está sendo uma gestão, com desafios diferentes. Preci- saremos de muita sabedoria para po- dermos lidar com esses novos desa- fios. É muito diferente, na minha ava- liação, ser Diretor numa gestão Lula de ser Diretor numa gestão Fernando Henrique. A diferenciação política era muito clara, o ANDES tinha uma posi- ção clara para a universidade e o go- verno Fernando Henrique tinha posi- ção clara para outro projeto de univer- sidade e sociedade. O quadro agora é muito mais complexo e acho que isso vai exigir muita sabedoria. *Antônio Ponciano Bezerra é professor doutor na Universidade Federal de Sergi- pe, 2º vice-presidente da Regional NE-III do ANDES-SN e editor da revista Univer- sidade e Sociedade. ** Janete Luzia Leite é professora doutora na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1ª vice-presidente da Regional RJ do ANDES-SN e editora ad- junta da revista Universidade e Sociedade. 204 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Memória do Movimento Docente
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    Em recente pronunciamentofeito em Buenos Aires, reiterado em Santiago do Chile, o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que a injustiça social tem sido um convite permanente a soluções autoritá- rias, na América Latina. Poderíamos dizer que a demo- cracia liberal, também, tem contribuído para a desmo- ralização da democracia, na medida que apela para ins- tituições formais dissociadas das profundas e injustas estruturas sociais que reinam aqui entre nós. Esquecer dessa relação enquanto cientistas sociais é estar faltan- do com um mínimo de rigor científico. Sabemos que, na Europa e mesmo nos Estados Unidos, as instituições liberais foram instituídas a partir de processos revolu- cionários e, portanto, com ampla participação popular. Essas revoluções não caíram do céu e, sim, tentavam resolver problemas bem mundanos, como as elevadas taxas e impostos que a Inglaterra tentava estabelecer contra sua então colônia, os Estados Unidos, assim como a Revolução Francesa, teve entre suas primeiras medidas, a reforma agrária e a abolição das dívidas dos camponeses. O que ali foi instituído se esclarece quan- do consideramos o seu processo instituinte. Ano XII, Nº 29, março de 2003 207UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Carlos Walter Porto Gonçalves* Debates Contemporâneos Venezuela: quem tem medo da democracia na América Latina ?
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    Ao observamos aenorme crise que atinge as democracias liberais, pergun- tamo-nos se não devemos caminhar na direção de uma radicalização de- mocrática muito mais do que tentar implantar em outros lugares as institui- ções que estão em crise mesmo onde são apresentadas, como se, lá, tives- sem dado certo. As últimas eleições nos Estados Unidos são um bom exemplo dessa crise, quando sabemos que a contagem de votos de determi- nadas jurisdições eleitorais foram proi- bidas porque o Juiz Eleitoral era indica- do pelo partido a quem não interessa- va a contagem de votos, o que mostra que um dos pilares da democracia li- beral, as eleições não têm contempla- do a vontade dos eleitores e, sim, dos partidos. As últimas eleições francesas também mostraram como um candi- dato com apenas cerca de 20% dos votos, na primeira volta, conseguiu se eleger com mais de 80%, na segunda volta, porque se construiu um consen- so contra o outro candidato de extre- ma direita. Assim, a sociedade france- sa vai ser governada, nos próximos 7 anos, por um Presidente que, na ver- dade, cerca de 60% dos franceses não desejariam. A França vai ser governada por um contra Le Pen e não por um candidato eleito por sua positividade. Invoco esses dois exemplos com a preocupação de não nos deixarmos le- var por uma crítica ao que se passa entre nós, na América Latina, com um olhar que não emana da realidade de onde deveríamos partir para buscar- mos as soluções democráticas para os graves problemas que nos afetam. In- sisto, invocar os princípios da demo- cracia liberal, ignorando as circunstân- cias históricas de sua invenção, assim como sua crise atual é estar contri- buindo para agravar a crise social e po- lítica que vem nos atingindo na Amé- rica Latina. Enquanto, nos países europeus e nos EEUU, a idéia de que todos os ci- dadãos são iguais foi relativamente universalizada para os nacionais (o que não deixa de ser uma contradição, mas que não é aqui o lugar para ser esclarecida pela exigüidade de espa- ço), na América Latina, a colonialidade do poder sobreviveu ao colonialismo, na medida que uma elite branca e criolla, que não ultrapassava 10% do total da população quando da inde- pendência, continuou mantendo a es- cravidão e a servidão indígena e negra ainda por bom tempo. Mesmo após a abolição da escravidão e da servidão de negros e indígenas, as estruturas de poder continuaram marcadas por forte componente de desigualdade social e racial. Não olvidemos que, nos Estados Unidos, os constituintes, logo após a independência, buscando uma solu- ção para uma representação no parla- mento que quantitativamente expres- sasse a força política dos latifundiários escravocratas do sul do país, chegaram à cínica idéia de que cada negro seria considerado como 3/5 de um branco para efeitos de contagem dos votos. Relembremos, ainda, que Tuissant de L’Overture, líder da Revolução haitiana, alertara os franceses que a idéia de que todos os homens são iguais deve- ria valer também no Haiti. Tudo indica que o medo do haitianismo continua ainda presente nos dias atuais. O que se passa hoje na Venezuela é mais um momento dessa história de moderno-colonialidade que tão bem marca a constituição do sistema-mun- do que vivemos desde 1492. A Vene- zuela é uma sociedade que passa, de fato, por um momento revolucionário, no sentido preciso de um momento histórico em que grandes transforma- ções nas instituições políticas estão se passando. Ali nos vemos diante de um processo revolucionário nas condições especiais de um momento de hege- monia das instituições liberais, em escala mundial. Isso tem enorme signi- ficação na medida que a Venezuela está sob os olhares interessados dos meios de comunicação de massas que são, eles mesmos, protagonistas dessa mesma ordem liberal, em escala glo- bal. Talvez não haja, em todo o mun- do, um país onde o papel dos meios de comunicação de massas seja politi- camente tão ativo como na Venezuela. Sem sombra de dúvidas, os meios de comunicação de massas se constituí- ram em verdadeiros partidos políticos, na exata medida que o processo cons- tituinte de 1999 quebrara os mecanis- mos tradicionais de reprodução das relações de poder na Venezuela. A grande dificuldade que se obser- va na Venezuela, por parte daqueles que vêm tendo seus interesses tradi- cionais atingidos, é que Hugo Chávez optou por regras democráticas for- mais, como a convocação de uma constituinte, processo esse que tem propiciado que novos atores venham à cena política. O fracassado golpe de 11 de abril de 2002 foi de fato revelador 208 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Os golpistas mostraram que a única coisa que têm em comum é o “Fora Chávez” e que nenhum consenso há em torno do que deve ser feito para tirar a Venezuela da crise, sobretudo social. Debates Contemporâneos
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    do que atualmentese passa na Vene- zuela. Foi o povo pobre das favelas, de Caracas sobretudo, que, com o uso de celulares e de pequenas motocicletas, se mobilizou, convocando cada um para se concentrar não só junto ao Palácio Miraflores mas também cer- cando as redes de comunicação, para recolocar Chávez na Presidência. Por outro lado, os golpistas mostraram que a única coisa que têm em comum é o “Fora Chávez” e que nenhum con- senso há em torno do que deve ser feito para tirar a Venezuela da crise, so- bretudo social, em que se encontra. Bastou a primeira medida do governo golpista para que se desfizesse o míni- mo consenso entre eles. Muitos têm invocado o caráter po- pulista e caudilhista de Hugo Chávez para tentar desqualificar a revolução democrática e popular que se proces- sa na Venezuela e que vai muito além de Chávez, não nos enganemos. Quem conhece minimamente a histó- ria da América Latina, e da Venezuela em particular, sabe o quanto esses conceitos sociológicos nos são úteis. Para isso, é preciso considerar que es- ses conceitos expressam relações so- ciais e não vontades pessoais, isto é, não basta que alguém queira ser pa- ternalista, ou populista ou clientelista para que se torne um populista, ou se tenha o clientelismo ou o caudilhismo. É preciso que existam condições so- ciais, historicamente constituídas, para que tais relações se materializem. E sa- bemos o quanto o paternalismo, o caudilhismo e o clientelismo são rela- ções assimétricas de poder que repro- duzem relações de dependência e, as- sim, mais do que relações de direito - cidadania - operam com relações de favor. E aqui é que o papel de Chávez, na revolução bolivariana, tem se desta- cado, na medida que seu carisma tem sido um verdadeiro atrativo, sobretudo para a as camadas pobres da popula- ção. De fato, a Venezuela vê diante de si as modernas tecnologias de marke- ting de televisão aplicados à política, disputando a hegemonia política con- tra o velho carisma que Max Weber tão bem descreveu. Todo o clima político que se vive hoje na Venezuela tem que ser visto em perspectiva histórica, particular- mente a que se passou nas duas últi- mas décadas, quando a corrupção e a miséria aumentaram significativamen- te, o que levara, inclusive, a massacres por parte de governos hoje invocados como de- mocráticos, como o de Caracazzo, de 1989, e, ainda, as tentativas de gol- pes de estado, como aquele em que se envol- veu o próprio Hugo Chá- vez, em 1992. Não há, no nível de polarização políti- ca que se atingiu na Ve- nezuela, que se acreditar que somente um dos la- dos do conflito opera com regras típicas de guerra, como espionagem e agressões. O próprio gol- pe de 11 de abril, sabe-se, foi arquitetado pelas elites que se sentem prejudica- das, com seus meios de comunicação e com sabido apoio do governo dos Estados Unidos. Uma verdadeira Co- missão da Verdade, tanto invocada para apontar os responsáveis pelas mortes do 11 de abril, deveria ser ca- paz, também, de apontar os responsá- veis por aquele frustrado golpe e levá- los a julgamento. Nunca foi tão forte a participação popular na história da Venezuela como nos 3 últimos anos. Para isso, sem dú- vida, foi fundamental o processo cons- tituinte iniciado em 1999, processo es- se incompreensível se não considerar- mos o verdadeiro caos institucional em que o país havia sido mergulhado por esses mesmos atores que hoje in- vocam a necessidade de que haja ins- tituições liberais, sem reformas sociais e sem protagonismo popular. Tudo in- dica que são as virtudes de Chávez que incomodam seus detratores e não seus defeitos. Para seus detratores, Chávez permaneceria no poder caso não mexesse na questão da terra, não propiciasse que, primeira vez na histó- ria, as populações indígenas tivessem direito à demarcação de seus territó- Ano XII, Nº 29, março de 2003 209UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos Todo o clima político que se vive hoje na Venezuela tem que ser visto em perspectiva histórica, particularmente a que se passou nas duas últimas décadas, quando a corrupção e a miséria aumentaram significativamente.
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    rios, não instituísseuma nova lei para a pesca, não mexesse no petróleo nem na minoria daqueles que, até aqui, só têm se beneficiado dessa ri- queza que deveria estar servindo a to- dos os venezuelanos e de fonte de financiamento para um outro modelo de desenvolvimento sustentado para o país. E mais, por insistir que na Vene- zuela não só há uma Constituição que deve ser respeitada mas, principal- mente, que essa Constituição contém uma série de prerrogativas que esti- mulam o protagonismo popular, como o Capítulo IV - De los derechos políti- cos y del referendum popular, Artigo 62 ao Artigo 74, em destaque. Essas, sim, parecem ser as verdadei- ras razões que mobilizam os que que- rem Chávez fora do poder. Os defeitos de Chávez, tudo indica, são pretextos para que não se leve a cabo o que a grande maioria de pobres do país quer que seja feito e vê, em Chávez, o líder possível para fazê-lo, nas atuais cir- cunstâncias históricas. A Venezuela deve servir de lição pa- ra todos os países da América Latina cujas sociedades, sobretudo seus seto- res mais pobres, vêm apontando para a necessidade de superação da crise a que foram lançadas pelas políticas des-democratizantes e des-nacionali- zantes (Quijano, 2000) que se puse- ram em curso, nos últimos anos na América Latina, sob o comando de suas próprias elites e com total apoio de instituições multilaterais como o BIRD, BID, FMI e OMC. Mas não olvi- demos que a Venezuela é somente uma das caras possíveis dessas muitas tentativas de superação da crise que já estão em curso, de que o caso colom- biano é, talvez, o mais antigo. O povo brasileiro com Lula, o povo equatoria- no com Gutierres, o povo venezuelano com Chávez já conseguiram avançar uma peça importante na correlação de forças desse complexo tabuleiro de xa- drez político, assim como apontam os indígenas e camponeses mexicanos, com os zapatistas, os camponeses e indígenas bolivianos com Evo Morales, e os indígenas e camponeses colom- bianos de Cauca com Floro Tunubalá, assim como os múltiplos movimentos sociais que reinventam a sociedade argentina hoje. Por tudo isso é que, diante da crise dessa democracia débil, como chama Boaventura de Souza Santos, devemos exorcizar, definitivamente, o fantasma da busca de soluções autoritárias. En- tretanto, mais do que uma democracia liberal, devemos radicalizar a demo- cracia ou, se se preferir, democratizar a democracia, até porque, até aqui, ela tem servido muito mais a uma minoria e, com isso, para desmoralizar a pró- pria idéia de democracia. Afinal, se o conflito é parte das relações sociais em qualquer sociedade que seja, que bus- quemos, nas múltiplas formas de orga- nização societária que a humanidade já desenvolveu, e não só na Europa, outras formas de resolução de conflito que não sejam aquelas já desgastadas formas de democracia liberal que os europeus inventaram e que as mentes coloniais, incapazes de pensar a partir de sua própria realidade, teimam em querer nos impingir. A Venezuela experimenta todo o significado de uma revolução demo- crática com forte protagonismo popu- lar, o que pode ser atestado pelo au- mento do número de Círculos Boliva- rianos, que são comitês populares que se reúnem por bairros e quarteirões para discutir o presente e o futuro polí- tico do país. São esses Círculos Boliva- rianos que estão se contrapondo à contra-revolução comandada pelos meios de comunicação de massas na Venezuela. A velha questão entre re- presentação e apresentação popular vem se colocando nas ruas das dife- rentes cidades venezuelanas. Há mais do que chavismo e anti- chavismo, a que a lógica midiática vem tentando reduzir a rica e tensa ex- periência da Venezuela. Ali se joga uma riquíssima experiência onde se tenta superar os impasses da demo- cracia representativa, combinando de- mocracia representativa com demo- cracia direta, como referendum, ple- biscitos e outras formas que estimu- lam o protagonismo popular. Tudo in- dica que o perigo maior para aqueles que se apegam a uma lógica democrá- tica formal, como a liberal, é que essa experiência venezuelana, que tanto aprendeu com as derrotas e as tentati- vas autoritárias vindas da esquerda, possam dar certo e servir para a tão necessária reinvenção democrática de que o mundo urge. * Carlos Walter Porto Gonçalves é doutor em Geografia; Coordenador do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFF; Professor Adjunto do Departamento de Geo- grafia da Universidade Federal Fluminense (Rio de Janeiro, Brasil); é autor de diversos artigos e livros publicados em revistas cien- tíficas nacionais e internacionais, sendo os mais recentes: - “Geo-grafías: movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustenta- blidad”, ed. Siglo XXI, México, 2001; “Ama- zônia, Amazônias”, ed. Contexto, São Paulo, 2001; “Da Geografia às Geo-grafias: um mundo em busca de novas territorialidades” - capítulo do livro “La guerra Infinita: hege- monía y terror mundial” Sader, E. e Ceceña, Ana Esther (orgs.), Clacso, Buenos Aires 2002; Ex-presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros - AGB (1998-2000). 210 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    Apresentação Sob vários aspectos,um silêncio marca ainda a história do urbanismo brasileiro: o concurso de Brasília (1957). Tal descoberta não só me assombrou na condição de arquiteta que sou, mas também pelo fato de que um ícone da história brasileira, a construção da capital federal, não ter sido analisado e tampouco documen- tado anteriormente. Desafio aceito, meu trabalho, du- rante três anos, visou resgatar os pla- nos pilotos apresentados no concurso de Brasília e estudar a influência do ur- banismo, dito moderno, nesses proje- tos. As dificuldades foram grandes. In- felizmente, como muito tempo se pas- sou, desde o concurso, sem que hou- vesse uma preocupação com preservar esse material, os originais não foram encontrados, nem publicações refe- rentes a eles, restando-nos realizar um levantamento documental por meio de depoimentos e croquis feitos pelos arquitetos participantes ou pessoas di- retamente ligadas a estes. Tal situação realçou a importância de um estudo cujo foco estivesse cen- trado na sistematização e análise preli- minar dos projetos apresentados. Ini- cialmente, abordamos o contexto do concurso, suas exigências, seus organi- zadores, os jurados e os resultados. Em seguida, sistematizamos as infor- mações de cada plano piloto, partindo da identificação por meio de sua clas- sificação, equipe, documentos disponí- veis, iconografia e referências biblio- gráficas. Como desdobramento, elabo- ramos uma introdução em que desta- camos particularidades e principais obras dos participantes da equipe, en- Ano XII, Nº 29, março de 2003 211UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Urbanismo e história: pelo resgate do concurso de Brasília Aline Moraes Costa 1 Debates Contemporâneos
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    trevista, relação dosplanos com o edi- tal e as teorias urbanas vigentes e, fi- nalmente, comentários dos principais pontos do memorial descritivo. Ao lon- go da pesquisa, reproduzimos, sempre que possível, a parte escrita referente aos relatórios, assim como a parte ico- nográfica. O material pesquisado foi reunido num volume de 620 páginas2 . Impos- sibilitados de realizar uma síntese rápi- da de um material tão extenso, procu- ramos aqui ressaltar os aspectos do contexto histórico da competição. Esse artigo visa revelar ao leitor as circuns- tâncias envolvidas no concurso de Bra- sília, desenvolvendo um relato que ambienta a criação da comissão res- ponsável pela elaboração e julgamen- to do concurso, descreve os participan- tes e a eleição dos melhores planos pilotos, projetos que mereceram des- taque na narrativa. Finalmente, esse texto avalia alguns pontos da repercus- são desse momento rico e único para a história do urbanismo brasileiro. Afi- nal, numa época em que poucos se formavam arquitetos e engenheiros, o total de 26 concorrentes engajados em criar uma cidade onde nada existia reúne uma síntese inigualável da for- mação urbana de uma época. Uma análise do urbanismo brasileiro não poderia deixar de recorrer às idéias que nortearam a criação de Brasília. De- corridos 46 anos do concurso, eviden- cia-se a importância desse como retra- to do pensamento urbanístico, no qual foi concebida a cidade. Consideramos importante o posicionamento de cada arquiteto, ou grupo deles, ao planejar uma cidade do futuro, uma capital, com suas aspirações e respostas aos proble- mas comuns às cidades contemporâ- neas. O resultado dessas aspirações é visível em Brasília, as diferenças e as possibilidades apresentadas nos vários planos apontam soluções importantes a serem observadas. A Novacap, o edital e o júri O Concurso do Plano Piloto de Bra- sília, em 1957, traduziu, entre outras coisas, o desejo nacionalista e deter- minado de um presidente, Juscelino Kubitschek, por realizar a antiga idéia de construir uma capital administrati- va, apoiado por uma convicção moder- nista que Brasília ajudou a propagar. A idéia da mudança da capital do Brasil já fora aventada pelos Inconfidentes, em 1798. No entanto, é a partir da Pro- clamação da República, em 1889, que a aspiração da criação de uma capital administrativa tomou mais força. Em 1891, foi incluído, na Constituição, o dispositivo que reservava uma área para esse fim, definindo sua localização no Planalto Central, em Goiás. Foi en- viada para essa região uma Comissão Exploradora (Missão Cruls), organizada com a função de delimitar especifica- mente uma área conveniente para esta implantação e estudá-la em seus aspectos geográficos.3 Apesar de todas essas tentativas de transferência, somente em abril de 1955, com o fim da era Vargas, essa idéia começou a se concretizar, quan- do finalmente se determinou a mu- dança da capital.4 A área foi definitiva- mente delimitada (5850 Km2) e seus limites coincidiram com as indicações feitas, anteriormente, pelas pesquisas da Missão Cruls. Em dezembro de 1955, a Comissão de Localização da Nova Capital Federal transformou-se em Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal, presidida pelo Marechal José Pessoa, da qual faziam parte os arqui- tetos Affonso Reidy e Burle Marx, auto- res de uma proposta que sugeria um convite a Le Corbusier, arquiteto fran- co-suíço, para a realização do trabalho de projeto e construção da cidade - semelhante a Mont Saide, em 1936.5 O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), por meio de vários artigos, de- monstrou o interesse dos arquitetos brasileiros na discussão a respeito da mudança da capital. Foi constituída uma comissão de arquitetos, entre eles Reidy, Saldanha, Modesto, Nieme- yer e Oliveira Neto, para representar esse interesse frente ao Conselho Di- retor do órgão central. Dentre as su- gestões e reivindicações, endereçadas posteriormente ao Presidente da Re- pública, estavam: o princípio de um concurso público nacional; a constitui- ção de uma comissão para o Con- curso, responsável pela elaboração de um edital; um júri com representantes internacionais como, por exemplo, Walter Gropius, Richard Neutra, Percy Marshall, Max Lock, Alvar Aalto, Cla- rence Stein, Le Corbusier e Mario Pa- ne.6 A realização de um concurso na- cional se mostrou mais condizente com o plano nacionalista do presiden- te Juscelino Kubitschek que assumira o poder em 1956. Juscelino deu priori- dade ao empreendimento, o qual rea- lizou com mérito, apesar de seu gover- no e sua pessoa serem atacados e cri- ticados como faraônicos (Couto, 2001, p. 64-71). 212 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Numa época em que poucos se formavam arquitetos e engenheiros, o total de 26 concorrentes engajados em criar uma cidade onde nada existia reúne uma síntese inigualável da formação urbana de uma época. Debates Contemporâneos
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    Em 18 deabril de 1956, a antiga Comissão de Planejamento da Cons- trução e da Mudança da Capital Fede- ral é dissolvida e, em seu lugar, organi- za-se a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), cabendo sua direção a Israel Pinheiro, tendo o ar- quiteto Oscar Niemeyer como respon- sável pelo Departamento de Arquite- tura, o qual também idealizaria a pro- posta de um concurso para a escolha de um plano piloto para a construção de Brasília.7 Ficou estabelecido tam- bém que caberia a ele a realização dos edifícios mais representativos da cida- de (sedes dos Poderes Executivo, Le- gislativo e Judiciário).8 As condições básicas para a apre- sentação do anteprojeto, no Concurso Nacional para o Plano Piloto da Nova Capital, foram publicadas no Diário Ofi- cial, do dia 30 de setembro de 1956. No Edital, para o concurso era dada li- berdade de participação a pessoas domiciliadas no país e portadoras de licenciatura em arquitetura ou enge- nharia. Para o plano, pedia-se um tra- çado básico da cidade, a localização das principais instalações e um relató- rio justificativo. Além disso, havia a possibilidade de apresentação de ma- pas de estudos de zonas (agrícola, urbana), de cálculos de abastecimento em geral, de indicação de progressão da cidade e de indicações quanto ao estatuto das leis de uso do solo. O prazo estabelecido para a entrega era de 120 dias. Havia mapas à disposição, alguns deles em escalas menores, su- gerindo áreas a serem ocupadas pela parte urbana. Posteriormente, foram acrescentados dados como a localiza- ção dos edifícios já determinados pela Novacap (Sede dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário), assim como a localização do aeroporto, as possíveis estradas de ligação e a ocupação urba- na de 500.000 habitantes. Tais condi- ções foram severamente criticadas, alegando-se a pouca especificação dos dados e nenhum compromisso com a construção do projeto classificado em 1º lugar (cf, entre outros, BRUAND, 1991, pp. 354-355). Os questionamen- tos estenderam-se também à escolha dos representantes do júri, na medida em que poderiam ser pessoas influen- ciadas por Oscar Niemeyer. Tais situa- ções levaram arquitetos como Reidy e Moreira a se absterem da participação no concurso, apesar da demissão de Niemeyer do posto de vice-presidente da Novacap.9 O júri foi composto por um repre- sentante inglês, Sir William Holford, as- sistente e consultor do Ministério de Alojamento e Planificação e do Depar- tamento Colonial da Grã-Bretanha, um dos responsáveis pelo plano regulador de Londres e pelo projeto de reestru- turação no Picadilly Circus; um francês, André Sive, consultor do Ministério da Reconstrução e Moradia; um norte americano, Stamo Papadaki que, jun- tamente com o arquiteto Oscar Nie- meyer, representava o departamento de urbanismo da Novacap; o represen- tante do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), Paulo Antunes Ribeiro; o engenheiro Luiz Hildebrando Horta Barbosa, representante da Associação dos Engenheiros; assim como o presi- dente da Novacap, Israel Pinheiro da Silva (sem direito a voto). As prioridades que orientaram o jul- gamento dos projetos foram direciona- das, principalmente, à localização e zo- neamento das áreas, à articulação de vias entre elas, ao caráter de destaque dos edifícios administrativos e à identi- dade do projeto em relação ao cresci- mento da cidade. Apesar de serem considerados relevantes, o júri pouca importância deu aos estudos estatísti- cos, afirmando que se tratava de um julgamento de idéias e, segundo eles, informações que mostrassem além disso seriam desnecessárias, nessa pri- meira fase. Outro fator relevante foi o tempo; Juscelino precisava concluir essa obra até o final do seu mandato, pois, supostamente, qualquer outro go- vernante não daria a ela a mesma prio- ridade que ele. Esse aspecto afetou diretamente a construção de Brasília, desde o início; o Edital do Concurso e a Ata da Comissão Julgadora eviden- ciam isso, elencando prioridades se- gundo uma preocupação de realização imediata, sob determinações políticas. Ano XII, Nº 29, março de 2003 213UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    Entretanto, tais pressões,apesar de li- mitarem um estudo mais aprofundado dos projetos, garantiam a concretização do empreendimento (cf. Couto, 2001, p. 52-71). Os planos pilotos apresentados e o resultado final Foram apresentados 26 projetos, no Concurso para o Plano Piloto da Nova Capital Federal, na seguinte ordem: Plano n°1: Carlos Cascaldi, arquite- to; João Vilanova Artigas, arquiteto; Mário Wagner Vieira da Cunha, soció- logo; Paulo de Camargo e Almeida, ar- quiteto. Plano n°2: Boruch Milman, enge- nheiro; João Henrique Rocha, arquite- to; Ney Fontes Gonçalves, arquiteto. Plano n°3: Jorge Wilheim, arquiteto. Plano n°4: Reduto Engenharia e Construções S.A. Plano n°5: Eurípedes Santos, enge- nheiro arquiteto. Plano n°6: Alfeu Martini. engenheiro arquiteto. Plano n°7: José Otacílio de Saboia Ribeiro, engenheiro. Plano n°8: Marcelo Roberto, arqui- teto; Maurício Roberto, arquiteto. Plano n°9: Ricardo Brasílico Paes de Barros Schroeder, engenheiro. Plano n°10: Rubem de Lima Dias. Plano n°11: Oswaldo Corrêa Gon- çalves, arquiteto. Plano n°12: Joaquim Marciano Gue- des, arquiteto; Liliana Marsicano Gue- des, arquiteto; Carlos Millan, arquiteto; Domingos Azevedo, arquiteto. Plano n°13: João Batista Corrêa da Silva. Plano n°14: Inácio Chaves de Moura. Plano n°15: Flávio Amilcar Regis do Nascimento, arquiteto. Plano n°16: Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto; Júlio José Franco Neves, arquiteto. Plano n°17: Rino Levi, arquiteto; Ro- berto Cerqueira César, arquiteto; Luiz Roberto de Carvalho Franco, arquiteto. Plano n°18: João Kahir. Plano n°19: Edgar Rocha Souza, ar- quiteto. Plano n°20: José Geraldo Cunha Ca- margo, arquiteto. Plano nº21: Pedro Paulino Guima- rães, arquiteto. Plano n° 22: Lúcio Costa, arquiteto. Plano n°23: Marcelo Rangel Pesta- na, engenheiro; Hérman Ocampo Lan- da, arquiteto; Vigor Artesi, arquiteto. Plano n°24: Henrique Ephin Min- dlin, arquiteto; Giancarlo Palanti, arqui- teto. Plano n°25: José Marques Saraban- da, arquiteto. Plano n°26: Milton C. Guiraldini, ar- quiteto (Construtécnica S.A. Comercial e Construtora). No resultado final foram classifica- dos os seguintes projetos: Primeiro classificado: Plano n°22 - Lúcio Costa Segundo classificado: Plano n°2 - Boruch Milman, João Henrique Rocha e Ney Gonçalves. Terceiros classificados: Plano n°8 - Maurício Roberto e Marcelo Roberto. Plano n°17 - Rino Levi, Roberto Cer- queira César, Luiz Roberto de Carvalho Franco (os jurados acharam por bem classificar dois projetos em terceiro lu- gar, eliminando uma quarta coloca- ção). Quintos classificados: Plano n°1 - Carlos Casacaldi, João Vilanova Artigas, Mário Wagner Vieira e Paulo de Ca- margo e Almeida. Plano n°24 - Hen- rique Ephin Mindlin e Giancarlo Pa- lanti. Plano n°26 - Milton C. Guiraldini (Construtécnica S.A. Comercial e Cons- trutora).10 O júri considerou que a capital ad- ministrativa deveria ser diferente de qualquer outra cidade, para “expressar a grandeza de uma vontade nacional”. Sua principal característica deveria ser a administração, para onde todas as funções deveriam convergir. Realmente, esperava-se que alguns projetos tivessem inspiração raciona- lista, mas foi grande a surpresa ao se revelar que todos os projetos separa- vam as atividades de habitação, circu- lação, trabalho e lazer.11 A influência de Le Corbusier era evidente. A grande maioria dos projetos trabalhava a defi- nição de setores, a liberação de espa- ços livres, o tipo célula que subenten- dia o crescimento, simetria, regularida- de. Porém, apesar das semelhanças genéricas, as diferenças entre eles eram notáveis. O júri elaborou um resumo de suas apreciações (cf. Módulo, 1957, pp.13- 16). No plano piloto n°22, de Lúcio Costa, criticaram a localização bem es- pecífica, mas concluíram ser esse o único projeto que possibilitava a orga- nização de uma Capital Administrativa do Brasil. Foi julgado como simples, porém claro e organizado, com a devi- da colocação dos edifícios dos poderes governamentais. Sobre plano piloto n°2, de Boruch Milman, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves avaliaram dificulda- des quanto ao crescimento da popula- ção e quanto à localização das vias, dos hotéis e do centro comercial. Atraente localização das habitações nas penín- sulas e densidade bem calculada. As torres com 300 metros de altura e altíssima densidade do plano piloto n°17, de Rino Levi, Roberto Cerqueira César e Luiz Roberto Carvalho Franco inviabilizavam grande parte do projeto. 214 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    Atrelado a isso,o caráter de valoriza- ção dos edifícios de apartamentos em relação aos governamentais parecia uma inversão da ordem natural de uma capital administrativa. O plano piloto n°8, dos M.M.M. Ro- berto, foi julgado controlador e plausí- vel de ser convertido em qualquer ou- tra cidade, não somente numa capital administrativa. A separação dos edifí- cios governamentais também não foi bem recebida pelo júri, entretanto, es- se foi o plano que apresentou os me- lhores estudos quanto à utilização de terra e financiamento. O plano piloto n°24, de Henrique Ephin Mindlin e Giancarlo Palanti, se- gregava os operários e as indústrias e demonstrava dificuldades com a dis- posição dos Ministérios, segundo o jú- ri. O projeto foi considerado bem di- mensionado e com boa densidade. O plano piloto n°1, apresentado por Carlos Cascaldi, João Vilanova Artigas, Mário Wagner Vieira e Paulo Camargo e Almeida, apresentou, segundo o júri, monotonia nas zonas residenciais e os Ministérios não apareciam em desta- que. A densidade foi considerada bai- xa, porém com uma boa resolução pa- ra a área rural. Finalmente, o plano piloto n°26, da Construtécnica S.A., oferecia dificulda- des quanto à ligação dos edifícios até as vias principais e possuía ausência de caráter de uma capital administrativa. O júri resumiu esse projeto como um bonito modelo de uma aldeia agrícola. Foram registrados em atas os proce- dimentos e os pareceres da comissão julgadora. Dos 26 trabalhos apresenta- dos, 4 dias depois, foram selecionados 10 deles. Os arquitetos estrangeiros es- tudaram então esses 10 projetos isola- damente, enquanto o restante do júri se reunia periodicamente. Foi proposto e apoiado que se separasse um dia em que todos os participantes da co- missão julgadora fizessem seus estu- dos individuais e, posteriormente, dis- cutissem suas conclusões em grupo. Segundo o relatório de Paulo Ribeiro, isso não ocorreu, posto que, no dia marcado para essa reunião em grupo, os representantes internacionais che- garam com suas resoluções já toma- das, que “coincidiram” com as deci- sões finais. O arquiteto Paulo Antunes Ribeiro não concordou com o resultado final da classificação dos projetos, anexan- do à ata final da comissão julgadora um relato das reuniões onde se avalia- ram o projeto. Argumentava que, em uma hora de avaliação dos projetos, já haviam sido definidos 10 trabalhos clas- sificados, deixando evidente sua con- trariedade em relação aos critérios usados na avaliação desses trabalhos, enunciando claramente que nem se- quer todos os relatórios dos projetos classificados foram lidos pelos partici- pantes do júri. Conclui então que os participantes estrangeiros haviam da- do a escolha final. Segundo ele, a sele- ção dos planos foi realizada num tempo “record” de, apenas, dois dias e meio. Paulo Ribeiro votou na classifica- ção dos 10 projetos primeiramente es- colhidos de maneira igualitária, acres- centando-se o 11° plano, dos arquite- tos Joaquim Guedes, Liliana Marsicano Guedes, Carlos Milan e Domingos de Azevedo, para que uma equipe forma- da pelos diversos autores elaborasse um projeto único. Essa proposta foi ne- gada pelos outros participantes do júri. A repercussão Depois desses acontecimentos, o mundo do urbanismo deparou-se com um dos maiores canteiros de obras da época para as suas teorias e críticas. Nas palavras de Peter Hall sobre o pro- jeto vencedor e o procedimento do jú- ri: “... premiou um dos mais vastos exercícios urbanísticos do século XX ...” (Hall, 1995, p. 254). Até mesmo os que eram contra a mudança da capital manifestaram sua surpresa em relação ao plano escolhido, como é o caso de Mário Pedrosa. Segundo ele, apesar das condições do Concurso, a escolha de Lúcio Costa foi certeira, justa e cora- josa. Embora fossem explícitas as liga- ções de Papadaki com Niemeyer e des- te último com Juscelino, a escolha de Lúcio Costa foi óbvia e brilhante. Mário comenta sua insegurança em relação ao Concurso. Mostra-se contra o gover- no, mas admirado com o projeto de Lú- cio Costa (cf. Pedrosa, 1957, p.15). A repercussão do concurso e da construção de Brasília ganhou cunho internacional rapidamente. Tal fato po- de ser avaliado através do Congresso Internacional de Críticos de Arte, reali- zado em Brasília, em setembro de 1959. A senhora Aline Saarinen docu- mentou e publicou, em formato de li- vro - “Brasília e a Opinião estrangeira”, 1960, tal repercussão, por meio do re- lato de uma série de opiniões publica- das posteriormente no New York Ti- mes. Algumas colocações refletem cla- ramente o deslumbramento que a prá- tica do urbanismo moderno causara, como é o caso do jornalista francês Lo- uis Guerande: “Brasília é a associação do gênio francês, o qual também con- Ano XII, Nº 29, março de 2003 215UNIVERSIDADE E SOCIEDADE A escolha de Lúcio Costa foi certeira, justa e corajosa. Embora fossem explícitas as ligações de Papadaki com Niemeyer e deste último com Juscelino. Debates Contemporâneos
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    cebe esse espaço,através do gênio brasileiro, associados na metamorfose de um mundo que já se temia não ti- vesse esperança”. E ainda, do escritor e Ministro da Cultura da França, Andre Malraux, que coloca Brasília como uma das grandes perspectivas da ar- quitetura moderna, desconhecidas ainda para o atual século. Compara o empreendimento com o mundo hele- nístico, ao considerar Brasília uma res- surreição do lirismo arquitetônico. Para ele, Lúcio Costa coloca a arquitetura a serviço da nação. Cita ainda o Centro Rockefeller como outro exemplo de tais virtudes (Brasília e a Opinião es- trangeira, 1960). Também podemos elencar algumas observações feitas em relação ao tra- balho físico que Brasília despendia. Nas palavras do crítico de arte Ricardo Averini: “O que me impressiona é a força do povo”. E segundo Ernest Gol- dschmidt: “O que chama atenção é o esforço humano e desumano para sua realização”.12 Como não poderiam faltar, as críti- cas se fizeram presentes por intermé- dio de nomes importantes como o do crítico de arte Bruno Zevi: “Não pode- mos pré-fabricar uma cidade e depois adaptar o povo nela... O centro monu- mental de Brasília sufoca a vitalidade da cidade. É uma cidade de Kafka. Quanto à arquitetura, é monumental em um sentido negativo, porquanto na sua maioria, foi concebida nos mol- des da perspectiva da Renascença, contraria a concepção de tempo e es- paço” (ibid, p. 70). Considerações finais A Capital Federal, contudo, nasceria com formas bem diferentes, tivesse sido outro o vencedor do concurso de Brasília: torres com 300 metros de al- tura, cidade rural, capital polinucleada, uma Brasília eclética, um povoado vol- tado para o lago. Apesar das diferenças e divergências aparentes, a concepção urbana dita moderna imperou tranqüi- la no concurso de Brasília. Embora es- sa teoria já estivesse sendo revista pelos CIAMs (Congressos Internacio- nais de Arquitetura Moderna), a cria- ção de uma “cidade do futuro” não po- deria deixar de mencioná-la. Algumas equipes seguiram, passo a passo, a sis- tematização feita por Le Corbusier e a Carta de Atenas, outros a abordaram como uma referência obrigatória ape- nas para menção. Mas, na verdade, todos os planos pilotos pesquisados, com exceção de um, o de Saboya Ri- beiro, citam a Carta de Atenas com maior ou menor ênfase.13 Outra dúvida sempre permeou os bastidores do concurso de Brasília: o resultado teria sido fraudado em favor de Lúcio Costa? Essa questão foi aven- tada por vários concorrentes na época. Nas entrevistas que realizamos com esses candidatos, ficou claro que, para alguns, isso será um dilema jamais re- solvido, mas para o conjunto, de uma maneira geral, a escolha de Lúcio Cos- ta foi a mais adequada, senão óbvia. É certo que muitos projetos desen- volveram pontos que poderiam ser grandes e diferentes contribuições à ci- dade de Brasília, no entanto, como pesquisadora, tenho a tendência de concordar com o nosso ilustre jornalis- ta e crítico à mudança da capital Mário Pedrosa: não importam quais as asso- ciações políticas ou burocráticas que tentaram privilegiar Lúcio Costa. Não importa se houve fraude ou não.Um projeto como o dele ofuscou o brilho dos demais. Era, mesmo para leigos, o melhor (cf. Pedrosa, 1957, p.15). Notas 1. Aline Moraes Costa é arquiteta e mes- tra em História da Arte pela Unicamp. É pro- fessora de História da Cultura e da Arte do IPEP (instituto Paulista de Ensino e Pesquisa). 2. Tal volume trata-se da dissertação de mestrado em História da Arte - (Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concur- so do plano piloto da nova capital federal - realizada pela autora, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, de- fendida em setembro de 2002 3. Em discurso na Assembléia Constituinte de 1891, Tomás Delfino afirma que as aspira- ções do Estado e a vontade nacional não poderiam chegar aos Poderes Legislativo e Executivo aprisionadas numa grande cidade, se encontrassem diante de si a formidável barreira de multidões que um instante de pai- xão faz tumultuar (cf. Pinheiro,1957, p.4). 216 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    4. Na eravargas podemos identificar um retrocesso no que diz respeito à mudança da capital: “Apesar de estudos anteriores e ate da placa do centenário, até o local volta a ficar indefinido. Vargas, pessoalmente, não era fa- vorável à transferência. Mas, no seu governo democrático, iniciado em 1951, acabará cola- borando com o projeto, como se verá. Cir- cunstâncias políticas, pressões, pragmatismo.” (Couto, 2001, p. 47). 5. Le Corbusier chega a mencionar um provável convite, onde o Brasil haveria pedido a ele conselhos por ocasião da edificação da sua nova capital. Desde 1927, Le Corbusier evidencia seu interesse em participar da cons- trução dessa capital; em sua carta a Paulo Pra- do ,de 18 de dezembro de 1927, ele afirma: “Já há muito tempo eu não tenho o prazer de encontrá-lo. Eu falava sobre o senhor outro dia com Legér e na última primavera com Cendrars que deve (se acreditarmos na lenda) estar novamente no país das serpentes de 12 metros. Eu tenho a vaga intuição de que ele está acabando de cercar o terreno de Pla- naltina para poder organizar uma sábia espe- culação quando nós começarmos os traba- lhos da nova cidade.”. (Santos, eti alii, 1987, p.42.) 6. Para maiores detalhes cf. Acrópole, nº 210, 1956; Acrópole, nº 211, 1956; Penna, 1957. 7. Segundo Israel Pinheiro, presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a crise pela qual passava o Brasil necessitava de medidas expansivas, que diminuíssem a dife- rença de distribuição de riquezas entre o lito- ral e o interior, e que servissem de impacto para “despertar o interior prostrado por tantos anos de sofrimento” (Pinheiro, 1957, pp. 3-8.) 8. “É incontestável que certos aproveita- mentos políticos foram os principais respon- sáveis sobre a escolha presidencial ter recaído em Niemeyer: o arquiteto brasileiro mais fa- moso, homem dinâmico e moderno” (Gou- lart, 1957, p. 20). A fama de Niemeyer provi- nha, principalmente, do seu projeto para Pampulha (cf. Couto, 2001, pp. 75-84). 9. Para maiores detalhes, ver Arquitetura e Engenharia, 1956, pp. 26-28; Roberto, 1956, pp. 31-32. 10. O projeto escolhido em 1º lugar teve aprovação de todos, exceto por Paulo Antunes Ribeiro, que se apoiava na falta de critério na apresentação e na avaliação dos projetos (Ver para maiores detalhes: Brasil Arquitetura Con- temporânea nº10, 1957, pp. 32-35. Habitat n°40, 1957, pp. 1-3.). 11. À maneira da Carta de Atenas de Le Corbusier de 1941, escrita para relatar as dis- cussões do 4° CIAM, Congressos Internacio- nais de Arquitetura Moderna; para maiores detalhes ver ARGAN, 1995; FRAMPTON, 1996; KOOP, 1990; SANTOS, eti alii, , 1987. 12. A publicação Brasília e a Opinião Mun- dial - vol.IV aponta uma série de nomes dos participantes do Congresso Internacional de Críticos de Arte que manifestaram sua opinião em relação ao projeto e à construção de Bra- sília. Eles estão separados de acordo com os continentes e seus respectivos países. Acha- mos por bem elencar alguns deles aqui para que a informação dada fosse a mais comple- ta possível. 13. No ensejo de estudar formas de abor- dar o fenômeno das novas cidades e promo- ver a nova arquitetura, organizam-se os CIAMs (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna). O sucesso desses encontros será marcante na história do pensamento urbanis- ta do século XX. O 4° CIAM, realizado em 1933, terá como um de seus resultados a Car- ta de Atenas, manifesto de Le Corbusier sobre as teses apresentadas no referido congresso. A Carta de Atenas, publicada em 1941, em Paris, buscou sintetizar orientações ao urba- nismo dito funcionalista/racionalista, tais co- mo: a necessidade do planejamento urbano imposto pelo crescimento e complexificação das cidades; a proeminência dos interesses coletivos sobre os da propriedade privada; a urgência da industrialização de componentes e da padronização das construções, para aten- der o crescimento da demanda por habita- ções e edificações; a importância do estabele- cimento de controles para o tamanho e a densidade das cidades; a necessidade das áreas verdes, entre outros. Na cidade, a habi- tação é alçada à condição de elemento pri- mordial do empreendimento arquitetônico. Os princípios contidos na Carta apontavam para a possibilidade de determinações passí- veis de serem aplicadas em qualquer lugar. Analisavam-se as “necessidades humanas”, segundo quatro funções essenciais: habitar, trabalhar, recrear-se e circular; desconsideran- do-se, contudo, as diferenças sócio-culturais inerentes às diversas sociedades (Bruand, 1991). Referências Bibliográficas ACRÓPOLE. O IAB e a nova capital. São Paulo, nº 210, abr., 1956. ____. Reivindicações feitas pelo I.A.B. ao presidente da República relativas à nova Ca- pital Federal. São Paulo, nº 211, maio, 1956. ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna, São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1995, 709 p. ARQUITETURA E ENGENHARIA. Belo Hori- zonte, nº 42, nov./dez., 1956. BRASIL ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA. Concurso da nova capital: nota do júri e da companhia urbanizadora sobre o resultado do concurso. Rio de Janeiro, n. 9, p. 64-67, 1957. BRUAND, Yves. Arquitetura contemporâ- nea no Brasil. 2ª ed., São Paulo: Perspectiva, 1991, 398 p. COSTA, Aline. (Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso da nova capital federal. Campinas, 2002. 619 p. 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    1. Introdução Meu propósito,neste texto, é fazer uma breve discussão, procurando dia- logar conceitualmente sobre os Movimentos Sociais (MS) e sua rela- ção com o Estado, com o intento de observar a realidade para, a partir de um ponto de vista teórico, qualificar melhor o modo de inserção e cons- trução de uma prática que tenha como perspectiva a independência dos MS e construir dialeticamente um conhecimento capaz de interagir com a prática cotidiana e com a produção teórica. Assim, não trabalharei com questões vinculadas a particularidades de movimentos específicos e, sim, procurarei compreender sua relação com a sociedade, tendo como preo- cupação didática à diversidade dos MS. 2. Pressupostos de análise Acredito que o primeiro conceito que devemos resgatar neste texto de- va ser o de Estado, por entendê-lo co- mo regulador das relações sociais. Na apresentação que faz do livro O Estado e a Revolução, de Lênin (1986), Flo- restan Fernandes aborda a necessida- de de uma revolução socialista que considere os seres humanos tais como são. Para isso, seria preciso ir direto à nossa formação histórica e demarcar as contradições polarizadas entre a sociedade burguesa e sociedade tra- balhadora. Uma abordagem diferente desta, afirma Fernandes, aponta para o perigo de uma possível utopia que corre o risco de falsificação da realida- de e de gerar falsas esperanças. Se “as utopias podem ser perigosas e a revo- lução proletária não pode entregar-se ao erro de fortalecer o inimigo encas- telado por trás do poder do Estado ca- pitalista”, há que olharmos nosso para- digma de produção da existência da forma como ele se concretiza. Sobretudo, porque vivemos o tem- po da quantidade, da medida, da geo- metria, modernamente qualificadas em um discurso veiculado por intelec- tuais coletivos que percorrem o mun- do, explicando-o segundo qualidades e percepções tão sensíveis a ponto de legitimarem uma nova relação entre a humanidade e, entre a humanidade e o mundo, que, agora, podem se explo- rar dignamente, vender-se e comprar- se racionalmente, matar em nome da paz e criar objetos tão artificiais quan- to mais naturalizada vem se tornando a vida e a desigualdade social. Nesse “novo mundo”, a consciência, uma instância sempre formadora do modo como percebemos o mundo, como delimitamos as “coisas”, como criamos nossos horizontes, nosso campo de observação, fazendo surgir o que, hoje, conhecemos como a his- tória sentida e reivindicada, refaz os obetos de nossas estruturas em um novo modelo de competências globa- lizadas, flexíveis, multifuncionais, neoli- berais... Esta é a nossa história recente. O lo- cus de um Estado, cuja formação tem constituído políticas sociais subordina- das a interesses econômicos e políti- cos de uma burguesia, interesses esses que renascem em momentos específi- cos quando se torna necessário calar as necessidades e as reivindicações dos trabalhadores. E, se o Estado tem- se tornado exatamente a expressão do antagonismo de classes, que, em nada lhe confere o tom conciliatório que pretende lhe seja imputado, se apre- senta como dominador de uma classe, a classe trabalhadora, impondo a esta restrições severas e diversas. Por outro lado, também é importante que, em alguns momentos, pareça que o Esta- 218 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Os limites dos Movimentos Sociais na sociedade capitalista* Dileno Dustan Lucas de Souza Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado (Marx, 1997:21). Debates Contemporâneos
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    do defende aconciliação inter-classes para atenuar ou evitar colisões bruscas a fim de derrotar os trabalhadores su- tilmente. Quer dizer, então, que aque- le Estado que se propõe a arbitrar, com imparcialidade, os conflitos decorren- tes das desigualdades entre as classes sociais, realmente não existe; é mais um fetiche. Como podemos acreditar que neste modelo de Estado aconteça a demo- cracia? O que esperar desse Estado se não a sua concessão de escolhermos dentre os burgueses aqueles que irão nos governar? Como Luxemburgo apontou, se a democracia tornou-se supérflua ou incômoda para a burgue- sia, ela é, ao contrário, importante para os trabalhadores que ideologicamente assumem a perspectiva de que é pos- sível estabelecer outras relações por dentro do Estado. Esse fetiche demo- crático servirá de porto seguro para ga- rantir uma disputa marcada por vence- dores e vencidos. Por outro lado, é im- portante que os trabalhadores se sin- tam de alguma forma incluídos, pois, ao serem excluídos, podem se culpabi- lizar pelo seu próprio insucesso fruto de uma explicável “incompetência téc- nica”. Esta mea culpa social certamen- te ameniza a luta entre classes dividi- das por interesses antagônicos e refor- ça o forte apelo ideológico neodarwi- nista em que os trabalhadores são cul- pabilizados por sua “incapacidade” de ação, procurando naturalizar as derro- tas da classe trabalhadora. Não é sem motivo que esse patamar democrático burguês ora constituído representa uma perfeita obra de submissão dos trabalhadores, pois “a democracia é in- dispensável, não porque torne supér- flua a conquista do poder político pelo proletariado, mas, ao contrário, por tornar essa perspectiva necessária tan- to quanto a única possível”. (Luxem- burgo, 2001:101). É assim que compreendo a atuali- dade de discutir os MS. Porém, sabe- se, que a organização desses movi- mentos se dá a partir da falta de polí- ticas sociais, pois o Estado tem nos mostrado, ao longo da história, que tais políticas subordinam-se aos inte- resses econômicos e políticos da bur- guesia e, prioritariamente, aparecem, em momentos específicos, com o ob- jetivo de calar tais movimentos. Po- rém, apesar de relevante, tal discussão, referente às políticas públicas ou mes- mo referente ao Estado, não será apro- fundada nesse momento. Também não pretendo debater sobre o caráter educativo dos MS, o que já vem sendo feito por Arroyo (1999), Caldart (2000) e Ribeiro (1999a), embora as reflexões estejam orientadas pelo reconheci- mento de que tais movimentos sejam formadores de novos sujeitos coletivos que avançam na construção de um projeto popular de sociedade. Entendo que a transição por que passam os MS tem como motivação a “nova” perspectiva social que levou grande parte dos movimentos a entrar em refluxo, a partir da forte investida neoliberal, que, devido ao ajuste eco- Ano XII, Nº 29, março de 2003 219UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    nômico e àcrescente desigualdade so- cial, provoca sentimentos cada vez mais individualistas, levando-os a armadi- lhas como a tentativa de humanizar a globalização. A aguda e sempre atual reflexão de Marx (1997) sobre as derrotas do pro- letariado aponta para uma conclusão comum, a de que a classe trabalhado- ra deve criar suas próprias instituições autônomas, pois as alianças com a burguesia e a pequena burguesia têm mostrado que os interesses de classe sempre prevalecem, criando obstácu- los que, por fim, reduzirão o movimen- to dos trabalhadores ao fracasso. Nesse sentido, os MS são tidos co- mo a expressão da luta de classes, a partir das suas ações críticas e de suas reivindicações que levam ao conflito. Dessa forma, representam a necessi- dade de uma ação coletiva, em que está em jogo não só a subversão da or- dem, mas também a disputa pela he- gemonia na sociedade. No Brasil, os anos 60, ao contrário do processo de reconstrução da Eu- ropa, foram marcados pela escuridão e o silêncio impostos pela ditadura mili- tar em que as manifestações dos tra- balhadores foram fortemente reprimi- das, como, por exemplo, as greves de Osasco e Contagem, em 1968. No final dos anos 70, os MS passam a se rear- ticular e eclodem mesmo sob os olha- res opressivos dos militares, que não tinham mais como sustentar a repres- são devido a uma perspectiva de acu- mulação de capital que já não precisa- va da ditadura militar para manter-se. O enfrentamento do final dessa déca- da tomou um formato (in)esperado, pois foram movimentos massivos que surgiram a partir de reivindicações de auto-organização e emancipação soci- al, tendo como marco a greve dos tra- balhadores do ABC paulista, em 19781 . Após o movimento de abertura nos anos 80, os MS tomaram um caráter diferente passando a se organizar com mais intensidade, a fim de “dar conta” dos problemas sociais herdados dos anos ditatoriais. Nesse momento, os MS se fortaleceram, as discussões e a efervescência desses movimentos fa- voreceram à mobilização das Diretas Já e do movimento pró-Constituinte. No caso da sociedade brasileira, as décadas de 80/90 do século XX são marcadas pela crescente onda neoli- beral. Ou seja, após algumas décadas da primeira grande crise do capitalis- mo no século XX. “...os países industri- alizados experimentaram uma segun- da crise, que se prolonga pela década de 80, cujas conseqüências em termos de desequilíbrios macroeconômicos, financeiros e de produtividade se es- palham pela economia internacio- nal”.(Soares, 2000:11). Nesse sentido, é preciso entender que essa corrente não consiste apenas numa reação teó- rica e política contra o Estado de Bem- Estar Social, mas dirige-se principal- mente ao agonizante processo em que o liberalismo estava colocado. O que leva a crer que o ajuste neoliberal não é apenas de natureza econômica, mas faz parte de uma redefinição da bur- guesia no campo político-institucional e das relações sociais. O que provoca na lógica do capital um outro projeto de “reintegração social”, com parâme- tros distintos daqueles que entram em crise a partir do final dos anos 70. Desse modo, os pobres passam a ser uma nova “categoria classificatória”, alvo das políticas focalizadas de assis- tência, mantendo sua condição de “- pobres” por uma lógica coerente com o individualismo que dá sustentação ideológica ao modelo de acumulação flexível que substitui o taylorismo-for- dismo. No domínio do mercado, exis- tem, “naturalmente”, ganhadores e perdedores, fortes e fracos, os que per- tencem e os que ficam de fora (Soares, 2000; Fiori, 1998). Pode-se dizer que os principais eixos de argumentação neoliberais eram a chamada liberdade de concor- rência, que ficava ameaçada, bem co- mo uma forte rejeição aos movimen- tos coletivos que deviam (e devem) ser desarticulados, o que nos leva crer que, “A onda neoliberal não é, portanto, nem uma variante, nem produto final de um desenvolvimento continuado do ideário liberal. Muito pelo contrá- rio o neoliberalismo é resultado de um longo período de crise do mundo capitalista e de desgastes do ideário liberal. Ele representa por um lado, uma reação contra as novas concep- ções e propostas que abriram cami- nho para o planejamento econômi- co, o keynesianismo e as políticas de bem-estar social, e por outro, a afir- mação explicita de retornos às idéias e ideais que norteiam a grande expansão industrial do século XIX.” (Ferraro, 1999:25) Quanto à questão da desigualdade na implementação desse projeto, o que se tem percebido é um tratamen- to positivo e imprescindível nos mol- des da sociedade atual. Pois se sabe que a proposta do neoliberalismo é de manter o Estado forte perante os MS e controlar a circulação do dinheiro, bem como diminuir os gastos sociais, desregulamentar a economia, abrindo cada vez mais o mercado dos países pobres, desestruturando seus incipien- tes parques industriais e controlando a todo custo a inflação, a partir dos parâ- metros do Banco Mundial(BM) e do Fundo Monetário Internacional(FMI). Porém, isso não significa que a susten- tação do sistema capitalista possa prescindir da utilização de recursos públicos, pelo contrário, esses recursos são imprescindíveis ao processo de reprodução do capital, principalmente devido aos altos custos das novas tec- nologias e ao acirramento da concor- 220 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    rência entre asgrandes corporações. Os recursos públicos estão vinculados às condições de reprodução de cada capital particular e das condições de reprodução ampliada do sistema (Oliveira, 1996). Dessa forma, são os MS que nos en- sinam as mais importantes lições de democracia, pois sempre que se mani- festam politicamente nos levam a re- fletir acerca da constante necessidade de manifestação e luta pela democra- cia e emancipação social. Nesse caso, precisamos perceber os MS como um processo histórico sujeito a leis que não só dependem da vontade da consciência nem do propósito da hu- manidade, mas que, ao inverso, deter- minam essa vontade, essa consciência, esse propósito. Pois, se o elemento consciente é subordinado historica- mente, é desnecessário dizer que a base crítica, de forma alguma, terá por base a consciência crítica. Ou seja, o ponto de partida não pode, de modo algum, ser a idéia, o conteúdo subjeti- vo por si ou mesmo o fator exterior. A crítica deve consistir em comparar, buscar a contradição, cotejar um fato, não como uma idéia, mas com outro fato. “Para a crítica importa apenas que os fatos sejam pesquisados com maior exatidão possível e que, um em rela- ção ao outro, representem realmente diferentes fases do desenvolvimento, assim como suas conexões devem ser estudadas com um rigor não menor” (Marx e Engels, 1995). Com essa compreensão, um olhar mais atento impõe perguntar se a po- breza enquanto realidade inegável contribuiria no processo reflexivo para levar os MS a sair do refluxo, em de- corrência de uma correlação de forças que não lhes seria favorável? Ou será que “os MS estariam caminhando em outra direção que ainda não se torna- ram suficientemente nítidas nesse momento? Nesse caso, os movimen- tos seriam sujeitos de mudanças ou pacientes da reação do capital?”, per- gunta-se Ribeiro (1999a). Assim se faz necessária tal discus- são, principalmente se considerarmos a aguda crise estrutural da sociedade capitalista e se considerarmos os MS como processos e espaços educativos orgânicos da classe trabalhadora, pois ao ocuparem espaços e cenários assu- mem um importante papel de desta- que no processo de reflexão, formação e transformação social. Por isso, “Falar em “movimento social” é falar em algo que é inerente à própria idéia de sociedade. Visto que tudo é movimento e tudo é social. Ou seja, o natural é que o social esteja em permanente movimento. No entanto, quando falamos em movimento so- cial, geralmente restringimos o seu sentido para ações de rebeldia so- cial, de subversão da ordem, ações de grupos revolucionários, associan- do-o com algo que rompe o anda- mento normal e comum da vida so- cial. Uma excepcionalidade social. Nesse contexto repressor da ação consciente e transformadora, então, os movimentos sociais(MS) podem ser concebidos como um processo de tomada de consciência dessa re- pressão e dessa alienação coletiva, e a tentativa organizada de rompê- la...” (Caldart, 1986:21). Nessa direção, em alguns momen- tos, associamos MS e movimentos po- pulares, por entender a relação desses movimentos com a sociedade, com o conjunto de grupos e relações sociais que não são detentores do poder eco- nômico, nem político, que são tratados como a massa alienada da sociedade e que “abrem mão” do processo deci- sório de ordem social; por isso, é natu- ral que seja dessa massa a reação mais radical e significativa no processo de modificação da ordem estabelecida. No tocante às discussões acerca dos MS, nos anos 70, pode-se afirmar é que havia uma matriz ideológica hege- mônica que era balizada no campo de discussão marxista. Nesse sentido, os MS são tidos como movimentos de classe, ou seja, movimentos que se propõem a ir além da simples perspec- tiva corporativa. Pois “... o Estado procura socializar os cus- tos de suas ações, cooptando as rei- vindicações populares e mantendo- as sob controle para retirá-las da in- fluência dos partidos de massa. Ao mesmo tempo desenvolve umas po- líticas assistencialistas em que se destaca a criação das organizações comunitárias ou associações de mo- radores, como mediadoras entre o Estado e as populações dos bairros periféricos...” (Ribeiro, 1999a:119). Desta maneira, apresenta-se a dis- cussão das relações ideológicas pre- sentes na sociedade. Assim, as possibi- lidades de ações de classe são coloca- das na perspectiva da exploração e da consciência de classe numa clara cone- xão entre questões políticas, sociais etc. “A categoria sociológica exclusão so- cial surge nos anos 70, mas afirma- se principalmente nos anos 90, ten- do como conteúdo a pobreza, a mi- séria, o desemprego, situações que evidenciam uma realidade de exclu- Ano XII, Nº 29, março de 2003 221UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Os MS têm as condições objetivas de contestar as políticas econômicas adotadas pelo Estado, principalmente se considerarmos que são organizados por coletivos humanos inseridos e vinculados aos problemas sociais. Debates Contemporâneos
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    são de processosde integração so- cial. Penso que a categoria exclusão social não tenha potência para expli- car os movimentos sociais populares enquanto sujeitos de transformações sociais que definem/redefinem o que tem sido identificado como uma realidade de exclusão social....” (Ri- beiro, 1999b:137). Os MS têm as condições objetivas de contestar as políticas econômicas adotadas pelo Estado, principalmente se considerarmos que são organizados por coletivos humanos inseridos e vin- culados aos problemas sociais. Na transição dos anos 70 para os 80, é possível notar a fragilidade cres- cente da ditadura militar, por um lado, e, por outro, a mobilização crescente dos MS representada pela luta dos tra- balhadores. Na realidade, o reapareci- mento dos MS voltados para a pressão e reivindicação de bens e equipamen- tos urbanos ocorreu concomitante- mente ao ressurgimento da vida de militância política no país, de forma mais generalizada. Nesse caso, pode- ríamos exemplificar como momentos mais expressivos a greves do ABC pau- lista e o surgimento de outros partidos políticos, o que coloca um fim no bi- partidarismo. Portanto, os MS não se apresentam na perspectiva de substi- tuir a forma partido ou sindicato mas, ao contrário, engrossam suas redes de solidariedade e articulações. Com isso, poderíamos dizer que os movimentos foram de suma importância pedagógi- ca para o aprendizado político das vá- rias lideranças políticas da década de 80 e 90. Cumpre destacar que, devido à marcante exclusão social dos MS dos processos decisórios, passa a existir uma certa sede de participação, o que acaba atraindo algumas lideranças que, há anos, estavam comprimidas, para o interior da burocracia estatal. Os MS passam então a uma nova era, que poderíamos chamar de reorganizativa. Desse modo, os anos 80 assumem uma outra característica de luta dos MS, tomando força as lutas por moradia, por terra, por creches, por escolas etc. “As mudanças na conjuntura política no início dos anos 80 vieram a alte- rar o cenário. No campo popular co- meçou-se a indagar e a questionar o caráter novo dos movimentos popu- lares. No campo das práticas são exclusivamente populares, iniciou-se o interesse, por parte dos pesquisa- dores, por outros tipos de movimen- tos sociais, tais como das mulheres, os ecológicos, os dos negros, índios etc. Foram movimentos que ganha- ram expressão naquela época, em- bora fossem lutas já antigas que ressurgiram no Brasil ao final dos anos 70. Em alguns casos, estiveram articulados à luta popular, como no caso das creches e de algumas alas do movimento feminista.” (Gohn, 1997: 283) A partir dos anos 80, os MS assu- mem uma nova postura, no que diz respeito à sua consolidação ideológi- ca; com isso, praticamente abando- nam a centralidade da discussão da teoria marxista e passam a buscar, no Estado, formas de compor uma nova política social2 . Os MS procuram inter- vir na sociedade, a partir de outras concepções sociais, políticas e ideoló- gicas, considerando as questões micro com base nas leituras de Michel Fou- cault, Félix Guattari, Giles Deleuse, dentre outros. Nessa perspectiva de discutir os MS, a política, por exemplo, passa a ser tra- balhada a partir de pressupostos mi- crossociais abandonando a discussão classista e partindo para formulações que entendo colaborar com as maze- las da sociedade capitalista, ou seja, os MS, a partir de então, na sua maioria, abraçam a teoria pós-moderna como sendo capaz de sustentar e de dar res- postas as reivindicações particulares e individuais. O que demanda a necessi- dade de ampliarmos nossa compreen- são desses movimentos para distinguir com clareza os espaços onde os mes- mos se concretizam como sujeitos co- letivos, delineando os respectivos papeis da sociedade civil e do Estado e as relações destes com os MS. (Ri- beiro, 1999a). Não significa dizer que as questões colocadas pelo cotidiano dos homens e mulheres, enquanto su- jeitos constituintes dos MS, não devam ser consideradas, mas que essas ques- tões precisam estar articuladas dialeti- camente a uma constante crítica no terreno macro onde elas se explicitam nas relações contraditórias que se es- tabelecem entre as classes sociais. O encaminhamento das questões dos MS não pode se subordinar às perspectivas do capital, aceitando uma mediação dessas questões do ponto de vista do capital e do trabalho. A par- tir dessa compreensão, os MS passam 222 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    a ser vistoscomo cooperadores entre as classes sociais, passando a descon- siderar que “...o Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de submissão de uma classe por outra; é a criação de uma ‘ordem’ que legalize e consolide essa submissão, amorte- cendo a colisão das classes...”(Lênin, 1986:10) As características ideológicas dos MS de meados dos anos 80 em nada se aproximam do ponto de vista teóri- co demarcado nos anos 70, o que pa- rece acompanhar a direção dos ventos que vem do Norte. Assim, dizem que estão investindo em novas formas de atuação, a partir de novas abordagens a temas analisados por autores marxis- tas. Esses movimentos acabam assu- mindo características bastante flexí- veis. O que é preocupante se pensar- mos na lógica do trabalho para com- preender a sociedade. Parece, então, que ao assumirem tais características, buscam novos conceitos e formas de análise, automatizando a relação polí- tica e ideológica com partidos políti- cos, sindicatos e entidades que histori- camente têm assumido a liderança das mais diversas manifestações junto aos MS. Dessa maneira, os MS se apresen- tam na lógica de abrir espaços para outras formas de relação social, a fim de solucionar os problemas como ja- mais se tinha tentado antes. “Os direi- tos conquistados por eles não so- mente estabilizam as fronteiras entre o mundo da vida e os movimentos sociais, entre o Estado e a economia, mas também constituem condição de possibilidade da emergência de no- vas associações”(Cohen, 1994:176. In: Gohn, 1997:139). Os MS parecem não visar um novo tipo de sociedade, nem através de suas ações provocar qualquer tipo de desconforto à socie- dade capitalista; pretendem defender o direito à vida, à alimentação, a polí- ticas sociais mínimas, sem que com isso haja qualquer ruptura, propondo- se, em alguns momentos, a se sobre- por aos partidos políticos, principal- mente àqueles que programatica- mente se propõem a defender os tra- balhadores. É preciso considerar o contexto em que os MS mudam seu rumo ideoló- gico e de ação, antes de simplesmen- te apontar seus possíveis equívocos. O conhecimento das ações de Stalin, a desestruturação da URSS, a propa- ganda maciça do “fim da história”, declarado por Fukuyama (1992) e baseado em Hegel, ancorados em políticas de desemprego em massa e de combate aos movimentos sindi- cais fragiliza os MS, perplexos diante de tantos desafios. Em princípio, os MS se caracterizam pela necessidade de colocar a socieda- de em movimento, ou seja, estabele- cer perspectivas sociais para além das estabelecidas pelo Estado. Porém, é preciso compreender que historica- mente o Estado tem demonstrado sua preocupação em favorecer o capital. Dessa forma, poderia inicialmente di- zer que os MS buscam, de forma cole- tiva, estabelecer uma nova perspectiva social, a partir das contradições da so- ciedade, procurando organizar a classe trabalhadora para que suas reivindica- ções sejam organizadamente conquis- tadas, estabelecendo desse modo uma interlocução mais intensa com a sociedade, e/ou com o Estado. “A minha última inferência reafirma o meu posicionamento pelos movi- mentos sociais populares que, mes- mo mobilizados por situação de dis- criminação e opressão, têm como ei- xo básico às relações de exploração e exclusão. Penso que seja funda- mental afirmar a diferença, a parti- cularidades das questões de gênero, de raça, de sexualidade e outras, na unidade precária, por que se redefi- ne e se rearticula das relações de exploração e exclusão. Essas velhas lutas revestem-se de novas formas, estratégias pautas que, surpreen- dendo por sua novidade podem re- pentinamente ofuscar a ancianidade das relações que as mobilizam.” (Ri- beiro, 1999a:132/133). Como se pode notar, os MS, aqui considerados, são aqueles que, no in- terior da sociedade capitalista, reivindi- cam melhorias sociais através das mais diversas políticas públicas, seja por moradia, terra, educação, saúde etc. Dessa maneira, não basta simples- mente a conscientização dos proble- mas sociais, é preciso uma participa- ção ativa e uma interação permanente que facilite a mobilização das parcelas empobrecidas da sociedade. Nesse ca- so, a crise social é expressão da luta ideológica e política entre grupos so- ciais que disputam a hegemonia, num dado momento histórico. É esse acirra- mento e essa explicitação de confron- to que dão força às organizações cole- tivas dos trabalhadores. Os MS aparecem como movimen- tos reivindicatórios, no interior da so- ciedade capitalista, definindo os limi- tes do Estado e devem ser entendidos considerando as contradições sociais, a partir das carências e da falta de Ano XII, Nº 29, março de 2003 223UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Os MS buscam, de forma coletiva, estabelecer uma nova perspectiva social, a partir das contradições da sociedade, procurando organizar a classe trabalhadora Debates Contemporâneos
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    perspectivas às quaisa parcela majori- tária da sociedade é submetida. Assim, os MS têm como características reivin- dicações que tragam melhorias à vida dos trabalhadores, a fim de gerar no- vas alternativas e rupturas sociais. Des- se modo, será que é possível recome- çar os movimentos dos desemprega- dos e as lutas pela terra, desvinculados dos partidos e dos sindicatos? Os MS não podem ser definidos única e exclusivamente como movi- mentos urbanos e, sim, como um con- junto de movimentos espalhados em todos os setores da sociedade. Tais movimentos colocam em xeque o Es- tado que, apesar de dizer que repre- senta o interesse dos trabalhadores, acaba por atender às pressões da bur- guesia. Assim, os movimentos não po- dem ser vistos nem como aqueles que somente estão preocupados com rei- vindicações pontuais, a partir de me- lhorias imediatas, nem como aqueles que têm um caráter ideológico mais forte e que procuram, através de suas reivindicações, uma alternativa de Es- tado que tenha, nos trabalhadores, sua preocupação fundamental, o que ex- pressa a constante luta de classes, através do repensar da hegemonia na sociedade. “É evidente que não são todos os MS que chegam a desembocar num projeto político de classe. Mas esta é a potencialidade de cada nova ação grupal que se organiza. Alguns gru- pos não ultrapassam o estágio inicial de mobilização. Outros, à medida que conquistam suas reivindicações imediatas, se desintegram e retor- nam ao tipo de vida anterior. A traje- tória, aqui apenas brevemente des- crita, é longa e entrecortada, com avanços e recuos constantes, sempre obstaculizadas pela própria tradição individualista e alienada em que vivemos. O amadurecimento político do grupo e sua capacidade de racio- nalizar a utopia concreta que o coti- diano da organização apenas esbo- ça se coloca como o grande desafio para os novos movimentos sociais, que se multiplicam em nosso país e continente.” (Caldart, 1986:28) Assim, entendo que os MS se cons- tituem em organizações populares preocupadas em garantir melhores condições sociais, através da sua orga- nização, conscientização e permanen- te mobilização. Nesse sentido, os MS precisam ser compreendidos como re- presentantes históricos de seu tempo. Cabe aqui a crítica a formulações teó- ricas que tratam os MS como movi- mentos apenas conjunturais, despre- zando sua perspectiva histórica e a ne- cessidade de esses movimentos com- preenderem a sociedade, na sua tota- lidade contraditória, o que os leva a um atrelamento à burocracia estatal. Quero dizer que é preciso garantir a autonomia dos MS e denunciar as fal- sas inclusões de suas reivindicações, como foi feita, por exemplo, na Cons- tituição do 1988, quando a inclusão da pauta dos trabalhadores não passou de retórica demagógica, o que reforça a perspectiva de burocratização do movimento, a partir de uma concep- ção burguesa de democracia que pas- sa necessariamente pela cooptação e controle social. 3. Algumas idéias para concluir As discussões a respeito dos MS se colocam sob a ótica da polaridade: de um lado, os mais radicais que apon- tam a perspectiva do socialismo como alternativa à barbárie, e, do outro, uma perspectiva de composição entre capi- tal e trabalho como forma de supera- ção momentânea da situação vivida, aceitando os encantos do poder e da burocracia para satisfazer necessida- des específicas e subjetivas de grupos, reforçando a idéia de que é possível um capitalismo ou uma globalização mais humanizada. Na sociedade, as questões sociais se expressam a partir da luta dos MS que polarizam suas demandas contra o Estado burguês; é o fruto desse en- frentamento que impõe a aparição de políticas sociais, a saber: “...O caráter regulador de interven- ção estatal no âmbito das relações sociais na sociedade brasileira vem dando o formato às políticas sociais no país: são políticas casuísticas, ino- perantes, fragmentadas, superpos- tas, sem regras estáveis ou reconhe- cimento de direitos. Nesse sentido, servem à acomodação de interesse de classe e são compatíveis com o caráter obsoleto do aparelho do Es- tado em face da questão. Constitu- em-se de ações que, no limite, repro- duzem a desigualdade social na so- ciedade brasileira.” (Yazbek1996:37) O Estado intervém nas questões so- ciais como organizador e reprodutor, regulando as relações e, ao mesmo tempo, mantendo-as e garantindo o processo acumulativo. É possível per- ceber que, mesmo com a implementa- ção de tais políticas tuteladas, a desi- gualdade cresceu em níveis alarman- tes. “Assim, as políticas governamenta- is no campo social, embora expressem o caráter contraditório das lutas soci- ais, acabam por reiterar o perfil da de- sigualdade no país e mantém essa área de ação submersa e paliativa” (Yazbek, 1996:40). É possível afirmar, então, que a fun- cionalidade da política social, no âmbi- 224 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    to do capitalismo,não é uma decor- rência natural e, sim, faz parte da luta de classes. Por isso, não “há dúvidas de que as políticas sociais decorrem fundamentalmente da capacidade de mobilização da classe operária e do conjunto dos trabalhadores a que o Estado, por vezes, responde com ante- cipações estratégicas” (Paulo Neto, 1996:29), procurando subordinar os MS às suas políticas e à sua agenda. Acredito que os MS têm que ter um caráter classista, ou seja, um movi- mento que tem, na sociedade capita- lista, um adversário a derrotar. Assim, os movimentos são, em última análise, a expressão de um conflito de classes, pois a contradição leva o movimento a uma postura crítica, coletiva, e que busca liberdade e igualdade social. Dessa forma, os MS deixam de ser ob- jetos de políticas pontuais e passam a ser sujeitos coletivos capazes de se agruparem como organizações, com projetos explicitamente classista, ape- sar da complexidade social em que possamos nos encontrar. Procuro concluir, afirmando que as organizações dos MS são parte impor- tante na luta por mudanças significati- vas na sociedade e tem a conseqüên- cia de alterar, através do seu processo educativo, a correlação de forças e dis- putar a hegemonia política, a partir de projetos antagônicos das classes re- presentadas. É certo que a força dos MS leva o Estado a procurar mecanis- mos de desmobilização, ora através do uso da violência e da repressão, ora procurando abrir espaços de “diálogos e negociações”. Porém, essas tentati- vas “democráticas” procuram, na ver- dade, cooptar os MS para dentro do Estado, a fim de manter a ordem inal- terada ou amortizar suas pressões e reivindicações, procurando equilibrar as forças e estancar temporariamente os movimentos e sua mobilização. Nesse caso, a tendência é que esses movimentos se reestruturem, na medi- da em que em suas lutas vão toman- do uma consciência, cada vez mais ní- tida, da falta de compromisso social do Estado burguês com os trabalhadores e da necessidade de assumirem seu destino e ir em busca de uma emanci- pação concreta. Esse movimento de ir e vir, de avan- çar e retroceder, de construir-se cons- ciência nas práticas sociais, principal- mente das que decorrem das lutas, tem uma dimensão educativa muito importante. Porém não podemos nos iludir, por isso, procuro, com essa bre- ve análise, chamar atenção aos encan- tos que podermos sofrer, devemos estar atentos e abertos para entender e intervir numa conjuntura que se aproxima, por isso, a vitória de um candidato ou partido de centro direita não deve comprometer a autonomia e a consistência dos movimentos dos trabalhadores. Notas 1. Quero salientar que neste texto não cabe uma discussão aprofundada da história dos MS, nesse sentido indico a leitura de Ri- beiro (1999a) e Gohn (1995). 2. É preciso lembrar que nesse momento o neoliberalismo começa se afirmar na Eu- ropa e nos EUA e em seguida começa tomar força no mundo, ver Anderson (1995), Fri- gotto (1995), Soares (2000), Ferraro (2000), dentre outros. Referências Bibliográficas ANDERSON, P. Balanço do neoliberalismo. IN: Gentilli, P; Anderson, P; Salama P. Pós-neo- liberalismo: as políticas sociais e o Estado de- mocrático. São Paulo: Paz e terra, 1995. ARROYO, Miguel. Educação básica e movi- mentos sociais. In: Articulação Nacional Por Uma Educação Básica do Campo. A educação básica e o movimento social do campo. Bra- sília: UNICEF, UNB, UNESCO, MST, CNBB, 1999, p. 13 - 36. CALDART, R. S. Os movimentos sociais e a construção da escola(do sonho) possível. Contexto e Educação. Universidade de Ijuí. Ed. ano Ijuí, jan/mar 1986, p.100/131. CALDART, R. S. 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Classes subalternas e assis- tência social. São Paulo: Cortez, 1996. * Dileno Dustan Lucas de Souza é profes- sor do DPE/UFV e Doutorando da FACED/ UFRGS. Ano XII, Nº 29, março de 2003 225UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    Ao discutir amodernidade, propõe Habermas esclarecer, a partir de uma reconstrução deste conceito, a sua posição frente à crítica à razão e, desse modo, assegurar a idéia de que a modernidade, enquanto programa filosófico-político, permanece inacaba- da. Ele pretende, por um lado, sustar a crítica ao projeto iluminista daque- les teóricos a que chama de “neo- conservadores”; e, por outro, mostrar as aporias de uma crítica que identifi- que razão e poder, de tal modo que, fazendo uma crítica ao poder, acredite estar dando um adeus geral à moder- nidade. Rorty, numa perspectiva outra da história da filosofia contemporâ- nea, pensa desnecessária uma tal construção. Para ele, se nos desvenci- lharmos da idéia de “subjetividade”, poderemos recuperar um conceito de modernidade que não precise fazer as restrições que Habermas faz a pen- sadores como Michel Foucault. Em sua reconstrução, Habermas vi- sita Max Weber a fim de reencontrar, com este autor, o lugar onde a moder- nidade ganhou azo de tema filosófico. Segundo Weber, a modernidade é o processo pelo qual o racionalismo oci- dental pulveriza-se em todas as esferas da sociedade e da cultura, forjando formas de vida inteiramente diferentes das tradicionais, leia-se religiosas. We- ber descreve como racional “este pro- cesso de desencantamento que levou a que a desintegração das concep- ções religiosas do mundo gerasse na Europa uma cultura profana”(Cf. HA- BERMAS, 1990:13). Contrariamente, quer Habermas reconstruir o conceito de racionalidade que se esquive da ta- refa de desencantar o mundo. Com a divisão (colocada pelos ilu- ministas e corroborada em maior grau por Kant) entre crença e saber, o saber sobrepuja a crença e provoca a auto- nomização das esferas de valores, an- tes ofuscadas por um conceito subs- tancial de razão, conceito afeito ape- nas a uma concepção religiosa do mundo. Ora, exatamente com a extin- ção de tal concepção, a razão ganha força suficiente para se apresentar sob nova forma e, dessarte, surgir dividida de maneira a poder legitimar modos de representação distintos (Cf. KANT, 1984:171). É quando nasce a necessi- dade de fazer da filosofia um sistema. Esses modos de representação (o co- nhecimento, a ação e o sentimento), legitimados por faculdades internas do sujeito pensante, autonomizam-se; re- sultado: a ciência se encontra legitima- da, a mora, a arte... sinais do processo de profanização da cultura (Cf. WEBER, 1982:371). Ao lado da formação deste sistema cultura, Weber aponta o desenvolvimento das sociedades modernas também sob o ponto de vista da racionalização. Destaca as esferas do agir econômico e político- administrativo. Armando-se com este pano de fundo de explicação, por assim dizer, historiográfico (embora, dirá Rorty, não histórico), Habermas busca entender as condições concretas que possibili- tam o surgimento dos discursos com pretensão de superar ou abandonar o projeto emancipatório propugnado pelo Iluminismo. “Foi na realidade a in- vestigação da modernidade nos anos 50 e 60 que criou as condições para que a expressão ‘pós-modernidade’ passasse a ser corrente também entre especialistas das ciências sociais” (Cf, HABERMAS, 1990:15). Esta investiga- ção de que fala Habermas foi que intro- duziu o termo modernização, caro à teoria funcionalista da sociedade. Por modernização, entende-se o conjunto de processos cumulativos provenientes da produção da vida so- cial secularizada. A teoria que se utiliza desta terminologia procura explicar as mudanças ocorridas no seio das socie- dades industriais, justificando-as como produtos insuperáveis da “dinâmica social” própria destas sociedades (Cf. para uma análise atual desta proble- mática à luz da derrocada do socialis- mo, KURZ, 1993:11 e ss.) “A teoria da modernização procede de uma abstração do conceito de “modernidade” de Weber com impor- tantes consequências. Essa abstração dissocia a modernidade das suas ori- 226 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Sobre a modernidade e seus críticos Romero Venâncio Debates Contemporâneos
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    gens na Europados novos tempos e utiliza-se até como um padrão neu- tralizado espácio-temporalmente de processos de desenvolvimento social em geral. Quebra além disso as cone- xões internas entre a modernidade e o contexto do racionalismo ocidental, e de tal modo que os processos de modernização deixam de poder ser concebidos como racionalização, co- mo uma objetivação histórica de es- truturas racionais” (Cf. HABERMAS, 1990:14). Colocando a modernidade, de uma lado, (desenvolvendo-se ao máximo as esferas sociais a ponto de tornar ab- solutas as esferas da cultura) e, de um outro, a tradição do racionalismo oci- dental, fica fácil aos teóricos chamados por Habermas de neo-conservadores assumir o córrego da modernização social, relegar como estéril a moderni- dade cultural e decretar obstinada- mente o fim da história e, com ele, o fim do Iluminismo. Segundo esta ava- liação, a modernidade cultural já ofere- ceu tudo quando poderia dar, restan- do exausta e sem novidade. O que ha- veríamos de fazer, suspeitam os neo- conservadores, é contar com o que te- mos. E o que temos nada mais é que a desenfreada dinâmica do desenvol- vimento social, de que os neo-conser- vadores não abrem mão. O outro alvo da crítica habermasia- na – “teóricos que não contam com o fato de se ter produzido uma dissocia- ção entre modernidade e racionalida- de”(Id. Ibid., p.15) –, uma orientação marcadamente “anarquista”(, procura dar adeus à modernidade como um todo, não assume nenhuma confiança na modernização social e dirige uma crítica radical à razão que sustenta a modernidade cultural. Os teóricos anar- quistas não temem identificar razão e poder e suas críticas à razão são ao mesmo tempo críticas à sociedade ins- tituída. “A força subversiva de uma crí- tica à la Heidegger ou Bataille, que arranca o véu da razão revelando a mera vontade de poder, deverá simul- taneamente abalar o invólucro de aço dentro do qual o espírito da moderni- dade se objetivou socialmente” (Id. Ibid. p. 16). Seja parcialmente (a posição dos neo-conservadores), seja em sua tota- lidade (a dos anarquistas), ambas po- sições se propõem como críticas da modernidade e, desse modo, intentam afastar-se do horizonte conceitual ante o qual o evento histórico da moderni- dade ganha sentido, ambas se colo- cam num lugar ainda que não esclare- cido, dirá Habermas, onde a moderni- dade se apresenta como época preté- rita e, por isso mesmo, esgotada. Nes- te momento, Habermas sugerir um re- torno ao locus onde a relação entre modernidade e racionalidade era mui- to mais nítido, a fim de ver até que ponto e a que preço essas críticas se colocam como propostas totalmente outras com referência à modernidade. Para resgatar esse conceito de mo- dernidade, Habermas retorna a Hegel e procura mostrar que é com este filó- sofo que a modernidade ganha forma de problema filosófico: “Foi Hegel que introduziu o tema da certificação auto- crítica da modernidade”(d. Ibid., p. 57). Esta “certificação autocrítica” diz respeito à tomada de consciência das bipartições causadas pela filosofia kan- tiana e também à necessidade de su- perá-las. Segundo Habermas, com efeito, graças à descoberta da liberda- de da subjetividade como princípio dos tempos modernos, a modernida- de se caracteriza primeiro como ins- tauração de bipartições geradoras de esferas de valores autônomos, basea- das em um conceito formal de razão; segundo, ainda no mesmo horizonte de uma subjetividade livre, como ne- cessidade de superação dessas biparti- Ano XII, Nº 29, março de 2003 227UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    ções que, sepor um lado, libera novas formas de vida, formas de vida huma- nizadas, por outro lado, impede, do ponto de vista conceitual, filosófico, a resolução de uma série de problemas, como exemplo, a participação dal li- berdade no fenômeno, ou a possibili- dade da felicidade sem colocar em risco a dignidade. Toda a energia espiritual herdeira do pensamento de Kant veio no senti- do de criticar seu formalismo respon- sável pelas bipartições e buscar recon- duzir os momentos por ele cindidos numa totalidade reconciliadora. A isto chamamos a dimensão autocrítica da modernidade (Schiller, Fechte e Hegel seriam exemplos dessa dimensão). Seguindo este percurso, Habermas pensa poder evitar “o desapontamen- to com ‘a filosofia da subjetividade’ que produziu Nietzsche e as duas cor- rentes de pensamento pós-nietzschea- no que ele distingue e de que não gosta (levando uma a Foucault e a outra a Heidegger)”(Cf. RORTY, 1987: 46). E para evitar tal desapontamento, Habermas sugere a substituição do pa- radigma do conhecimento do objeto (paradigma próprio de uma filosofia do sujeito reificante e auto-restringen- te) por um paradigma da compreen- são mútua entre sujeitos capazes de falar e agir, abrindo-se assim à comu- nidade de compreensão onde haveria de se resgatar aquilo que, no limiar da filosofia da reflexão e para além do pa- radigma centrado no sujeito, está su- plantado, a saber, a intersubjetividade. Avaliando esses passos de Haber- mas, Richard Rorty defenderá que tu- do isso não passa de um problema ar- tificial “criado pelo facto de se dar demasiada importância a Kant” (Id. Ibid., p. 47). Para Rorty, não se deveria levar em alta consideração a divisão kantiana entre ciência, moral e arte. “Nesta perspectiva, a tentativa de Kant de negar que o conhecimento deixe lugar para fé (inventando a “subjetividade transcendental” para servir de fulcro a revolução coperni- cana) foi provocada por uma preo- cupação desnecessária com o signi- ficado ou a insignificância espiritual da ciência moderna” (Id. Ibid., p. 48). Discípulo de Kuhn, Rorty pode, com esta observação, descartar a importân- cia de Kant para a discussão da mo- dernidade, sem nenhum prejuízo para o seu pensamento, pois, discípulo de Kuhn, está menos preocupado com a reconstrução da história do conceito de modernidade que de sua descons- trução. Assim, embora este procedi- mento não lhe traga prejuízo, não se pode dizer que ele não esteja carrega- do de pré-juízos em relação ao pensa- mento de Kant. Neste sentido, vale re- cordar os interesses motivadores do pensamento kantiano a fim de, dessa forma, saber até que ponto Rorty tem razão ao considerá-lo como algo de pouca importância. Enquanto herdeiro do Iluminismo supervalorizando a razão em detri- mento da fé, mas também desperto do sono dogmático pelo ceticismo hu- mano, Kant possui três interesses que o norteiam, passo a passo, nas críticas à metafísica, à reconstrução prática da razão e à formação de um sistema completo da filosofia. Esses interesses, todavia, possuem, ensaiemos a afirma- ção, apenas um motivo: a decisão pela crítica, a tomada de partido pela crítica. A crítica isto fica apenas como indica- ção, procuraremos desenvolver adian- te, é o elemento mais característico da modernidade, é a tarefa eminente- mente moderna ou a modernidade como tarefa. Assim, podemos afirmar que, ainda que refutem todas as posi- ções do kantismo, ainda que o façam calar com as mais ferinas objeções, ainda assim a crítica, a atividade crítica, permanecerá incólume, inarredável, ir- redutível. A objeção de que Kant tenha dado demasia importância à ciência moder- na, com o fito de refutar-lhe o princípio de subjetividade, presta-se apenas como restrição a uma de suas figuras de pensamento, e não ao princípio mesmo da modernidade, posto que, segundo a leitura que aqui se propõe, o princípio da modernidade não é a subjetividade, mas a decisão pela críti- ca. Com efeito, a fim de compreender o lugar de Kant, no discurso da moder- nidade, Michel Foucault, relacionando a filosofia kantiana com o movimento da aufklärung, nos assegura que “não é a fidelidade aos elementos da doutri- na, mas sim a reativação permanente de uma atitude, ou seja, de um ethos filosófico que se poderia caracterizar como crítica permanente de nosso ser histórico”(Cf. FOUCAULT, s/d:54). O problema de Rorty, como o de Habermas e de toda uma leitura já tra- dicional do pensamento de Kant, é considerar a subjetividade transcen- dental e a revolução copernicana co- mo o que há de mais fundamental no pensamento crítico. A revolução coper- nicana e a subjetividade transcenden- tal são apenas figuras de pensamento, dentre outras, da filosofia moderna, utilizadas como estratégia para o de- sempenho de uma tarefa historica- mente determinada, no caso: a crítica da metafísica. Que essas estratégias 228 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE A revolução copernicana e a subjetividade transcendental são apenas figuras de pensamento, dentre outras, da filosofia moderna. Debates Contemporâneos
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    não funcionaram, quehoje sejam dis- pensáveis, isso pode até ser concedi- do. No entanto, quem considerará ho- je em dia seja desnecessária a crítica à metafísica? Quem, da mesma forma, permitir-se-á deixar a outrem o direito de orientar suas ações e de escolher e decidir sobre seu gosto? E, mesmo que ainda haja atitudes como essas, quem poderá negar o quanto essas atitudes são nocivas a um projeto de história que procure emancipar os homens? Não vamos discutir essas questões aqui, mas também não se pode discu- ti-las apenas à luz de uma caricaturiza- ção do pensamento kantiano, sem deixar de tematizar o problema da Crí- tica como elemento específico da mo- dernidade. É por se colocar ainda neste hori- zonte de leitura tradicional da filosofia moderna que Rorty pode dizer que co- mo Habermas, Kant pensa que a ciên- cia moderna tem uma ‘dinâmica pró- pria’, uma dinâmica que se pode iden- tificar como (pelo menos uma porção de) a ‘natureza da racionalidade’”. (Cf. RORTY, 1987:48), e disso fazer pressu- posto para a sua crítica a Habermas. A identificação entre “natureza da racionalidade” e a “dinâmica própria da ciência” é o modo como Kant asse- gura o estatuto epistemológico da mo- derna ciência da natureza. O discurso desta identificação, Rorty, como Lyo- tard, pode, com razão, chamá-lo de metanarrativa, mas que ela seja desne- cessária, só faz sentido dizê-lo no âm- bito de seu pensamento (uma vez que ele tenha outras figuras de pensamen- to que lhe sirvam de estratégia para sua despedida da metafísica). Não é o caso de Kant. Todavia, quando esta crí- tica se dirige especificamente a Ha- bermas, o que dizer dela? Segundo Rorty, Habermas pensa que, isolando e exibindo a dinâmica própria da ciência, mas distinguindo-a de outras dinâmicas (tal como Kant faz ao encontrar um campo especial onde a razão ganhe um domínio própria de legislação ( a questão da liberdade no sentido prático-ético, deixando de lado seu interesse teórico), no caso de Ha- bermas, ao acreditar poder confiar nu- ma racionalidade comunicativa, para além da razão centrada no sujeito, co- m o fito de atingir a emancipação da intersubjetividade, “se pode preservar os resultados da ciência sem com isso retirar encanto ao mundo”(Id. Ibid., p. 48). Ou seja, como Kant, para assegu- rar um lugar para a liberdade, desta- cou a razão prática da teórica, Ha- bermas, com o mesmo fim, quis desta- car a razão comunicativa da razão ins- trumental. Com efeito, todo o esforço de Habermas vai no sentido de fazer uma crítica à filosofia da consciência, mas sem deixar escapar o saldo de ra- cionalidade passível de ser utilizado sem em nada ficar devendo às aporias da subjetividade. Como alternativa a esta estratégia habermasiana de caracterização da modernidade (e de resgate dela), Ror- ty sugere que se dê menos importân- cia a Kant e Hegel. Pensa que, se dés- semos “mais importância aos relativa- mente a-teóricos socialistas”, podería- mos conduzir-nos “a uma espécie de pensamento do fim da filosofia que escaparia às restrições que Habermas põe a Deleuze e a Foucault” (Id. Ibid., p. 49). Rorty está mais preocupado em atitudes que realizem obras de, como chama, engenharia social, que com pensamento de identidade geradores de “filosofias ultra-zelosas”(Id. Ibid.), à la Descartes. Aliás, ele está disposto a aceitar como “princípio dos tempos modernos” muito menos uma “subje- tividade” – que os historiadores pós kantianos da filosofia “ansiosos por li- gar Kant a Descartes, consideraram que era o seu fio condutor” – que uma “auto-afirmação” entendida como in- clinação “para centrar nossas espe- ranças no futuro da raça, nos sucessos imprescindíveis dos nossos descen- dentes”(Id. Ibid., p 50). Vê Rorty, neste princípio por ele sugerido, uma possi- bilidade de avaliar o tipo de estrutura a-histórica exemplificada pela divisão kantiana da cultura em três esferas de valor. Neste sentido, ele prefere Bacon a Descartes como fundador da filosofia moderna. Se admitirmos, entretanto, como Hannah Arendt, que o ponto mais fun- damental da filosofia de Descartes, o filósofo, segundo Hegel, com quem a filosofia finalmente se encontra em terra firme, o fundador da filosofia mo- derna, seu ponto mais fundamental é a dúvida (“na filosofia e no pensa- mento modernos, a dúvida ocupa a mesma posição que, em todos os sé- culos anteriores, cabia ao thaumazein grego, o assombro diante de tudo o que é como é” (Cf. ARENDT, 1981: 286), e se dissermos que a radicaliza- ção da dúvida devém crítica (Para Hannah Arendt, o pensamento de Descartes tem um caráter secundário e é a dúvida o fundamento de todo o sistema cartesiano) “nós não sabería- mos duvidar sem ser, e isto é o primei- ro conhecimento certo que podemos adquirir (...), dubito ergo sum! Id. Ibid., p. 292), não será difícil aceitarmos a Ano XII, Nº 29, março de 2003 229UNIVERSIDADE E SOCIEDADE O esforço de Habermas vai no sentido de fazer uma crítica à filosofia da consciência, mas sem deixar escapar o saldo de racionalidade passível de ser utilizado sem em nada ficar devendo às aporias da subjetividade. Debates Contemporâneos
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    hipótese de sera noção de tarefa quem melhor caracterize a moderni- dade. Com efeito, a crítica é a tarefa primordial daqueles que pensam, por conta própria, o homem moderno. “Descartes foi o primeiro a concei- tuar esta forma moderna de duvidar, que depois dele passou a ser o mo- tor evidente e inaudível que vem mo- vendo todo pensamento, o eixo invi- sível em torno do qual todo pensa- mento tem girado. Tal como, desde Platão e Aristóteles até a era moder- na, a filosofia conceitual, em seus maiores e mais autênticos represen- tantes, havia sido a expressão do as- sombro, também a moderna filoso- fia, desde Descartes, tem consistido na manifestação e nas ramificações da dúvida” (id. Ibid., p. 286). A filosofia cartesiana que se expres- sa não através das doutrinas, não atra- vés de disputas ou questões (como fora próprio na Escolástica), mas como discurso, como meditação, dirige-se não à Escola, mas contra a Escola, aos homens de bom-senso, àqueles que desejam tornar-se senhores de seus preconceitos e dissipá-los. É uma filo- sofia que conhece sua origem, a dúvi- da; parte dela e segue por ela nortea- da. A partir de Descartes, o pensamen- to, por ser crítico, está finalmente livre de toda mediação exterior. Frente a uma razão inquieta, a solidez da auto- ridade tradicional se espatifa. Pelo me- nos enquanto princípio, nem mesmo Deus pode intervir em um tal pensa- mento, por assim dizer, rebelde. Foi a rebeldia do pensamento que, por exemplo, gerou um Hume. Sutil e elegante, Hume dirige sua crítica a um princípio-chave da filosofia (o princípio da cuasalidade), e com ela decepa com um só golpe a velha metafísica (Cf., para uma leitura muito interessan- te desse episódio, LEBRUN, 1993:9). Não levando em conta aqui a astucio- sa saída (contra Hume) que Kant ofe- rece à metafísica, o que importa é que, com Hume, sua pesquisa se dirige a um ponto totalmente diferente dos que o animavam na juventude. O filó- sofo de Königsberg nunca mais fora o mesmo e, com ele, a história do pen- samento ocidental. Nasce a filosofia crítica, consolida-se a modernidade. To- do pensamento, portanto, que se incu- ba de ser tarefa de criticar a metafísica é, por isso mesmo, pensamento da modernidade. Não só pensamento da modernidade como também pensa- mento da modernidade. Não só perten- ce a ela como também a problematiza. A modernidade como tarefa aponta para a responsabilidade crítica da filo- sofia atual. Importa mais que tudo não colocar uma etiqueta “moderno” ou “pós-moderno”, em nossos pensa- mentos mas descobrir os nosso pro- blemas e procurar assumir a tarefa de, senão resolvê-los, pelo menos pensá- los. “Pensar é estar doente dos olhos”, dizia o poeta português. É preciso fazer com que os olhos ardam, é preciso baldear as águas plácidas da comodi- dade acrítica e tomar pela mão a dor e o desassossego que provocam o pen- samento. O princípio da modernidade não é um ponto onde havemos de nos apoiar mas uma atividade, uma tarefa que nos instiga a construir nossos pró- prios problemas e sobre eles refletir a fim de averiguar seus alcances e esta- belecer seus limites. Nossa preocupação, quando carac- terizamos a modernidade como tarefa, é reconsiderar a relação entre pensa- mento e realidade histórica. Ao tratar- mos da crítica, não devemos, na ânsia de reencontrar apoio metafísico, per- guntar sobre que ponto arquimediano poderemos executá-la. A crítica não de- ve ser acionada por um “motor imó- vel” que lhe assegure um “estatuto ontológico” ou mesmo “epistemoló- gico” de crítica. Ao contrário, o que de- ve movê-la, numa metáfora, é o motor- mais-que-móvel que são os problemas da comunidade onde estamos inseri- dos. É por existirem os problemas for- jados na dinâmica de cada cultura e sociedade que existem os pensamen- tos. Os pensamentos, contudo, não são o resultados dos problemas, são sua problematização. não se pode criar a relação ingênua de prioridade entre um e outro. O que está em jogo é o de sa- ber quais são nossos problemas para que não nos ocupemos com tarefas que não são as nossas; do contrário, fi- caremos à margem da história, à deriva. Referências Bibliográficas ARENDT, H. A condição humana. Trad. Ro- berto Raposo. Rio de Janeiro-RJ: Forense, 1981. FOUCAULT, M. O que são as luzes? In: Bo- letim de Novidades, s/d. HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Trad. Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro-RJ : Tempo Brasileiro, 1989. _____. O discurso filosófico da modernida- de. vv., tt., Lisboa : Dom Quixote, 1990. KANT, I. Primeira introdução à crítica do juízo. Trad. Rubem R. T. Filho. São Paulo-SP : Abril Cultural, 1984. KURZ, R. O colapso da modernização. Trad. Karen E. Barbosa. São Paulo-SP : Paz e Terra, 1993. LEBRUN, G. Sobre Kant. Org. R. Rodrigues T. Filho. São Paulo-SP : Iluminuras, 1993. MARKENSON, R. E por falar em pós-mo- dernidade, somos modernos? In: Ciência e Conhecimento. Cadernos ADUF-PB/SSIND, nº 09. João Pessoa : Trama da Trama, 1992. RICOEUR, P. O conflito das interpretações. Trad. Hilton Japiassu. Rio de Janeiro-RJ : Ima- go, 1978. RORTY, R. Habermas e Lyotard, acerca da modernidade. In: Crítica, Revista do Pensa- mento Contemporâneo. nº 2. Trad. Nuno F. Fonseca, nov./1987. ROUANET. S. P. As razões do Iluminismo. Rio de Janeiro-RJ : Companhia das Letras, 1981. WEBER, M. Ensaios de sociologia. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro-RJ : Guanaba- ra, 1982. Romero Venâncio é professor do Depar- tamento de Filosofia da Universidade Fe- deral de Sergipe. 230 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    Não vou tratarmuito da ALCA, mas da globalização e de suas conseqüências para a Educação. A globalização não é um fenômeno novo. A própria conquista das Américas pelos europeus foi uma etapa importante deste processo, ao mesmo tempo em que se descobria que nosso planeta era finito e que não era o centro do universo, como se acreditava até Copérnico. Atualmente, a globalização é um te- ma do qual se fala diariamente, seja para elogiar seus méritos ou para de- nunciar suas conseqüências sobre a vida dos povos e de milhões de pes- soas. Mas há uma certeza, ou ao me- nos esta é minha convicção: o mundo está atravessando um período de mu- danças profundas de longo prazo, com novas formas de dominação e de re- sistência, com desafios maiores para o futuro da humanidade. Inicialmente, me parece importante tecer uma breve retrospectiva histórica do processo de globalização para fazer sobressair a importância das atuais transformações. Feito isso, veremos como as políticas que inspiram essa Ano XII, Nº 29, março de 2003 231UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Globalização, ALCA e Educação* Conferência de Jocelyn Berthelot, Secretário Geral, Secretaria Con- tinental sobre Educação1 no IV Fórum Mundial pela Educação dos Povos Colima (México), 27 a 30 de novembro de 2002. Debates Contemporâneos
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    globalização têm conseqüênciassobre a América Latina e a Educação. Uma mudança de longa duração A importância desta mudança é tão grande quanto a que humanidade co- nheceu no momento do desenvolvi- mento dos Estados Nacionais no final do século XVIII e início do século XIX. Em menos de 50 anos, em diversos lugares, nasceram nações que se liber- taram do jugo do poder colonial e da dominação aristocrática. Foi este o ca- so em quase todas as Américas. O desenvolvimento das ciências e das tecnologias baseadas na transforma- ção da matéria (eletricidade, máquina a vapor, etc.) sustentou a revolução industrial a partir de meados do sécu- lo XIX. Decerto, não foi uma libertação pa- ra todos. Com os novos Estados, nas- ceram novas dominações e novos im- périos. Faz pouco tempo que as na- ções africanas se libertaram do jugo colonial. Frente à dominação do capi- talismo, nasceram os sindicatos e os partidos de trabalhadores. Novas rei- vindicações foram levadas adiante, ini- cialmente, com uma ilegalidade que justificava uma repressão selvagem. Foi o caso do movimento trabalhista, em seu início, na segunda metade do século XIX. Dessas resistências e reivindicações nasceram novos direitos; a escravidão foi abolida, as mulheres foram reconhe- cidas como pessoas - o que não ocorria antes perante a Lei - o trabalho infantil foi combatido. A educação, a saúde, a seguridade social se transformaram em serviços públicos. Por outro lado, a afir- mação das soberanias nacionais deu lu- gar a numerosas guerras regionais (co- mo entre Estados Unidos e México) e até a duas guerras mundiais. Estamos entrando em uma nova época; assistimos a uma mudança nos poderes tradicionais dos Estados e nas relações entre eles. De outra parte, as tecnologias da comunicação e as bio- tecnologias conhecem um salto quali- tativo que abre novas esperanças, mas, desgraçadamente, novas formas de dominação. São forças dominantes as que, neste momento, têm definido as cara- cterísticas desta mutação. Impuseram suas políticas e valores, provocando resistências e a elaboração de um con- tra-projeto democrático. A globalização neoliberal está mar- cada por uma transferência de uma parte do poder dos Estados nacionais para o setor privado e para as grandes empresas transnacionais e instituições financeiras, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Das 100 economias mais importantes do mundo, 52 são empresas transnacio- nais. As 200 maiores controlam 28% da atividade econômica mundial. Os novos mestres do mundo, como os chama Noam Chomsky, teriam a receita mágica para “um mundo sem pobreza”, como diz o slogan do Banco Mundial. A mão invisível do mercado seria revestida de poderes reservados até agora aos deuses. A crença em seu superpoder seria uma garantia de bem-estar para os demais. Mas o novo paraíso que nos prometem se conver- te em inferno para a grande maioria da população. A aldeia global tem, para muitos, a cara de um apartheid global. A ampliação do espaço do mercado se concretiza em políticas de privatiza- ção impostas pelas instituições finan- ceiras internacionais, pelos tratados comerciais e por uma dominação do novo império, representado pelos Es- tados Unidos com seu poder econômi- co e militar. De outra parte, se expres- sam múltiplas e novas formas de resis- tência e de solidariedade, nascem no- vos projetos que impulsionam uma combatividade renovada. Uma globalização excludente A América Latina tem sido um labo- ratório das políticas neoliberais impos- tas a partir dos anos 80. As exigências ligadas ao pagamento dos juros gera- dos pelas dívidas externas conduziram ao que se tem chamado de “a década perdida”. Os anos 90 trouxeram me- lhores notícias, ao menos em termos gerais, com um certo crescimento eco- nômico e uma ampliação do atendi- mento educacional, assim como uma redução significativa das desigualda- des e uma melhora na qualidade edu- cativa. Em quase todos os países do conti- nente, uma onda de privatização ameaçou os serviços públicos. A eletri- cidade, o abastecimento de água, os serviços postais foram objeto de políti- cas privatizadoras. Greves, manifesta- ções populares, ações jurídicas frea- ram o processo em muitos lugares, co- mo foi o caso em Arequipa, no Peru, contra a venda das empresas de eletri- cidade a empresas estrangeiras e em Cochabamba, Bolívia, contra a privati- zação do sistema de água potável. Já se conhecem as conseqüências dessas políticas: alta de preços, proble- mas de abastecimento, deterioração das infra-estruturas. Até na rica Califór- nia, no verão de 2000, foi imposto o “estado de emergência” devido à inca- pacidade das empresas privatizadas de produzir o nível necessário de eletrici- dade. Mas isto não detém os integris- tas da privatização de seguir adiante. A abertura dos mercados nacionais à competição internacional e ao capi- tal especulativo tem sido acompanha- da por uma política produtiva orienta- da para a exportação, a fim de conse- guir divisas para cumprir as exigências do pagamento da dívida externa. Como conseqüência, as desigualda- des se mantiveram ou aumentaram. O FMI demonstrou que não apenas esta- va equivocado, mas que era franca- 232 Ano XII, Nº 29, março de 2003 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Debates Contemporâneos
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    mente cruel. AComissão Econômica para a América Latina e Caribe, a CE- PAL, em seu último Panorama Social da América Latina, fala da meia déca- da perdida para caracterizar os últimos anos. Em 2001, quase a metade da população vivia na pobreza; uma em cada cinco pessoas, na miséria. As pes- soas com 20% dos salários mais bai- xos compartilham menos de 2% da riqueza, enquanto os 20% mais ricos se apropriam de mais de 50%. A educação sofreu com essas mu- danças. Tem sido afetada diretamente pela pobreza crescente da população, pelos cortes orçamentários, pela dete- rioração das condições de trabalho e pela privatização. Por outro lado, a vontade de impor a todas as atividades humanas os valores do mercado afe- tou múltiplos aspectos da vida educa- cional. Primeiro, os cortes impostos à Edu- cação pelos programas de ajuste têm conduzido a uma deterioração das condições de ensino e aprendizagem. Em muitos lugares, o salário do pesso- al de educação diminuiu, enquanto as tarefas de ensino aumentaram. Os in- vestimentos dos anos 90 não chega- ram aos níveis anteriores nem acom- panhado o crescimento da matrícula. Em muitos países se privatizaram os serviços nos estabelecimentos públicos de educação: a elaboração de exames uniformizados, até mesmo a adminis- tração completa de escolas públicas, como se pode observar nos Estados Unidos. Cresceu o financiamento públi- co da educação privada - seja direta ou indiretamente - por meio de “bônus de educação” (os famosos vouchers) ou de bolsas públicas que permitem o acesso ao ensino superior privado. Co- mo conseqüência dessa maior privati- zação, a educação custa cada vez mais aos pais e aos estudantes. Essa privatização é profunda. Des- pojou-se a Educação de suas palavras e de seus conceitos, para impor-lhe os da empresa: “clientes, produtos, com- petição, rendimento”. Em todos os lugares estão implan- tando reformas educativas, mas apesar de poderem conter, às vezes, certos elementos interessantes, amiúde es- tão ditadas por uma nova ortodoxia que prejudica a Educação Pública. Os educadores geralmente devem carre- gar o peso das mudanças improvisa- das, sem receber o apoio adequado. Assistiu-se em muitos lugares a uma transferência das responsabilida- des do Estado para um nível inferior, sem que se tenha procurado os recur- sos correspondentes. Os setores mais desfavorecidos se encontram sem re- cursos. As desigualdades cresceram e a coerência da Educação Pública está ameaçada. Esta maior autonomia tem sido acompanhada de mecanismos que tendem a fomentar a hierarquização e a competição entre os estabelecimen- tos, num modelo em que se considera pais e estudantes como simples con- sumidores. Por exemplo, a publicação da classificação de escolas está na mo- da em muitos lugares. Como no mer- cado, os pais deveriam ter a liberdade de escolher o produto educativo que lhes convém. As grandes empresas recorrem a di- versos meios para tentar fazer com que o ensino público leve os alunos a adotar seus valores e produtos. Cada vez são mais fortes as pressões das grandes empresas para que a liberali- zação do comércio abarque o conjun- to dos serviços. A imagem da Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio e das negociações em torno do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços, a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) poderia ameaçar ainda mais o caráter público da Educação. Alguns acordos perigosos A OMC, que foi criada em 1995 e da qual cerca de 150 países são mem- bros, quer ampliar a liberalização do comércio em todos os setores. Depois do fracasso de Seattle, a última reu- nião da OMC para lançar a famosa Ro- dada do Milênio teve lugar no muito democrático Emirado de Doha, onde todo tipo de protesto está proibido. Os acordos da OMC estabelecem algumas regras gerais. Assim, deve-se tratar todos os membros da mesma maneira, sem conceder nenhum bene- fício particular a um país amigo ou a empresas nacionais. As leis nacionais devem ser transparentes e o mais fa- voráveis possível à liberalização do co- mércio. Os acordos regionais, como o Tra- tado de Livre Comércio para a América do Norte vão no mesmo sentido. Mas o NAFTA deu um passo adiante. Em seu famoso Capítulo XI, outorga prima- zia jurídica às disposições do Tratado sobre as Legislações nacionais; isto permite às empresas que se conside- rem afetadas por ações de um gover- no, interpelá-lo diretamente pelo lucro cessante, atual ou futuro. Já houve alguns casos contra o Ca- nadá e o México sobre as políticas re- lativas ao meio ambiente. Foi o caso Ano XII, Nº 29, março de 2003 233 As grandes empresas recorrem a diversos meios para tentar fazer com que o ensino público leve os alunos a adotar seus valores e produtos. Debates Contemporâneos UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
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    da Metalclad, empresaespecializada no tratamento de resíduos, que queria abrir um sítio em uma zona ecológica de San Luis Potosi e a proibição, por razões de saúde, da parte do governo canadensre, de um aditivo para a ga- solina produzido pela Ethyl Corp. Pro- pôs-se incluir um capítulo similar na ALCA. As conseqüências da abertura das fronteiras mexicanas aos produtos agrícolas norteamericanos, previsto nesse Tratado, foram o centro do últi- mo Encontro Bilateral México-Estados Unidos, esta semana. Também provo- cou protestos populares muito impor- tantes. Avalia-se que o México já per- deu mais de meio milhão de empre- gos no setor agrícola como conse- qüência da redução das tarifas alfan- degárias. Mais de um milhão de pes- soas migraram para as cidades, parti- cularmente do Norte do país. Teme-se a explosão de uma crise social sem precedentes. Mas o livre comércio não é tão livre como se pretende. Permite aos mais poderosos, particularmente aos Esta- dos Unidos, estender sua dominação. Por exemplo, no setor agropecuário, o Projeto de Lei de Amparo aos Agricul- tores - Farm Bill - adotado pelo presi- dente Bush, constitui um subsídio de 35 bilhões de dólares aos produtores. Avalia-se que representa 1 dólar por animal por dia, ou seja, o montante que 40% das pessoas humanas possui para sobreviver. Com a Rodada do Milênio, abriu-se uma nova rodada de negociação do Acordo Geral de Comércio e Serviços (GATS). Esta poderia ter conseqüências muito graves para o porvir da educa- ção, porque compreende todo serviço, de qualquer setor, exceto os serviços prestados no exercício de funções go- vernamentais. Isto quer dizer que não serão prestados de forma comercial nem competitivamente. Como não há definição deste conceito, e dado que em todos os países existe um setor pri- vado paralelo ao setor público, muitos pensam que isso não exclui o setor educativo. Na primeira Rodada, somente uma minoria de países aceitaram liberalizar, como dizem, o comércio dos serviços de educação. Nenhum dos países lati- noamericanos o fez. Assim, os países foram prudentes no acordo firmado em 1995. Mas este é só um princípio. O Artigo 19 do Acordo estabelece que as rodadas de negociação devem permitir incrementar o nível geral de compromissos para a liberalização. Em contrapartida, as possibilidades de re- tratação de um país signatário estão reduzidas, porque se teria que com- pensar os outros membros do Acordo. Para a Educação, o GATS inclui cinco categorias: educação primária, secun- dária, para adultos, universitária e ou- tros serviços. Os membros tinham até 30 de junho passado para fazer de- mandas de abertura a outros membros para essas categorias. Estes últimos têm até 31 de abril de 2003 para res- ponder em negociações bilaterais. Um novo acordo deveria estar vigente em 2005, ao mesmo tempo que a ALCA. Alguns países, como Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos apresenta- ram demandas. O objetivo da comuni- cação dos Estados Unidos é claro: «ajudar a estabelecer condições favo- ráveis aos prestadores de serviços de ensino superior, educação de adultos e capacitação, mediante a redução dos obstáculos que se opõem à transmis- são desses serviços para além das fronteiras nacionais por meios eletrô- nicos ou materiais, ou ao estabeleci- mento e exploração de instalações pa- ra proporcionar serviços aos estudan- tes em seu país ou no estrangeiro». Propõe também a inclusão de uma nova categoria: os serviços de provas educativas. Os Estados Unidos confeccionou uma lista de obstáculos, convocando outros governos a removê-los. A proi- bição de serviços de ensino superior ou para adultos oferecidos por entida- des estrangeiras, a limitação a institui- ções nacionais a possibilidade de ou- torgar títulos, as restrições sobre a edu- cação à distância são deles. Os Estados Unidos quer criar um espaço maior para as instituições edu- cativas ou empresas norteamericanas nos setores da gestão e das novas tec- nologias, abrir as fronteiras ao ensino seqüencial e apoiar os consórcios es- pecializados em provas educativas. Is- to ameaça o caráter público e nacional da Educação, particularmente do ensi- no superior. Por exemplo, as universidades de empresas passaram de 400 para mais de 1500 nos últimos dez anos. O ensi- no