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RUSSELL P. SHEDD
RUSSELL P. SHEDD 
SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA
Copyright © 1984 — Russell P. Shedd 
Primeira Edição: 1984 
Impresso nas oficinas da 
Associação Religiosa 
Imprensa da Fé 
C . P. 18918 
São Paulo - Brasil 
C.G.C. 62.202.S28/0001-09 
Todos os direitos reservados pela 
SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA 
Caixa Postal 21486 — São Paulo SP 
04698 BRASIL
PREFÁCIO 
Duas notas são dominantes na espístola aos Filipenses: a 
alegria em todas as circunstâncias - quer agradáveis, que desa­gradáveis 
- e a união da igreja, baseada num comportamento 
semelhante ao do Senhor Jesus - que assumiu a forma de servo . . . 
Essas duas notas são extremamente necessárias em nossas igrejas 
na atualidade. Com a crise que enfrentamos, em todas as áreas 
da vida do país, é muito fácil perdermos a alegria e ganharmos 
ansiedade, temor, frustração. Por outro lado, a fragmentação 
das igrejas evangélicas, por diversas razões - morais, doutrinárias, 
políticas - é um fato crescente e preocupante. 
Nestas pregações, agora em forma escrita, o Dr. Shedd 
apresenta com clareza e simplicidade a mensagem de Paulo aos 
filipenses, de forma que nós, brasileiros, também possamos enten­dê- 
la e aplicá-la às nossas vidas e igrejas. Muitos são os desafios 
que esta espístola coloca diante do povo de Deus, interessado em 
cumprir a Sua vontade, e esses desafios são tornados claros nesta 
exposição da carta. Alegria, humildade, comunhão, firmeza 
doutrinária, esforço missionário - são temas apresentados pelo 
autor de maneira atraente e desafiadora, procurando recuperar 
o mesmo espírito que movia Paulo e as igrejas do primeiro século. 
Que o leitor destas mensagens possa, pelo poder do Espírito 
Santo, colocar em ação os aspectos do Cristianismo nelas expostos. 
Júlio Paulo T. Zabatiero
CONTEÚDO 
PREFÁCIO................................................................................................. 5 
AS BASES DA NOSSA SEGURANÇA .................................................. 9 
UMA ORAÇÃO MODELO....................................................................... 21 
A FILOSOFIA DE VIDA DO CRISTÃO ................................................ 31 
OS CIDADÃOS DO CÉU EM COMUNIDADE........................... 42 
O CENTRO DA HISTÓRIA.................................................................... 53 
DESENVOLVENDO A SALVAÇÃO.................................................... 63 
HOMENS DE D EU S................................................................................. 73 
PERDENDO PARA GANHAR............................................................... 80 
A AMBIÇÃO DE PAULO . ............................................................... 89 
O CORPO........................................................................................... .. 96 
O CONTENTAMENTO........................................................................ 104 
O DEUS DA PAZ SERÃ CONVOSCO................. .. ................ 112 
A NECESSIDADE E O SUPRIMENTO.................................................. 121 
n o ta s ................................................................................................ 128
AS BASES DA NOSSA SEGURANÇA 
Filipenses 1:1-8 
Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos 
em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos, que vivem em 
Filipos: 2 — Graça e paz a vós outros da parte de Deus nosso 
Pai e do Senhor Jesus Cristo. 3 — Dou graças ao meu Deus por 
tudo que recordo de vós, 4 - fazendo sempre, com alegria, sú­plicas 
por todos vós, em todas as minhas orações, 5 - pela 
vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora. 
6 - Estou plenamente certo de que aquele que começou boa 
obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus. 
7 - Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos 
trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e con­firmação 
do evangelho, pois todos sois participantes da graça 
comigo. 8 — Pois minha testemunha é Deus, da saudade que 
tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus. 
Creio que o leitor logo vai perceber que os quatro capítulos que for­mam 
o livro de Filipenses me são muito caros, contando-se entre aquelas por­ções 
bíblicas pelas quais tenho maior predileção. Nunca estive na prisão, nunca 
fui acorrentado, e por isso não sei como reagiria se tivesse que enfrentar essa si­tuação. 
Mas Paulo conseguiu escrever cinco de suas cartas quando estava preso, 
uma delas sendo à igreja de Filipos, na Macedônia, norte da Grécia. 
Vamos começar o nosso estudo examinando só os oito primeiros versí­culos 
desta porção tão conhecida da Palavra de Deus. 
Oração: Pai, pedimos-Te agora, pelo Espírito Santo, que sintonizes 
nossos corações à música verdadeiramente celestial; e que retires as barreiras 
que nos impedem de ouvir Tua voz, e nos atrapalham a obedecer. Em nome de 
Jesus. Amém. 
Introdução 
Os estudiosos, eruditos, peritos da matéria, são uma classe desafiante 
porque entendem de tudo que se pode saber sobre sua área de estudo. 
Apesar da perícia, entretanto, existem assuntos nos quais reinam dúvidas em 
lugar de dogmatismo. Há ocasiões em que os entendidos caminham na corda 
bamba entre duas posições, simplesmente porque não há provas suficientes 
para se decidirem pela certa. Por este motivo, ainda ficam indecisos quanto 
ao lugar onde Paulo estava quando escreveu sua carta aos Filipenses. O pon­to 
de vista tradicional é que se encontrava em Roma, assim como quando 
compôs as cartas aos Colossenses, aos Efésios e a Filemon. Mais recentemen­te, 
porém, eruditos britânicos e alemães, como George Duncan e Michaelis, 
descobriram certos sinais indicando que possivelmente Paulo não estava na 
capital do Império.
Um dos motivos que tradicionalmente têm levado os intérpretes a 
pensarem que Paulo se achava em Roma é sua menção à guarda pretoriana 
em Fp 1:13. Ali ele fala “de toda a guarda pretoriana e de todos os demais”. 
No fim do capítulo 4, refere-se aos “da casa de César”. Mas descobertas ar­queológicas 
recentes indicam que isso não é uma prova decisiva, já que havia 
guardas pretorianas além de Roma. Esta guarda era uma tropa de elite de 
cerca de 9.000 guardas imperiais: os soldados mais dignos de confiança de 
todos os que o imperador possuía. Eram cuidadosamente treinados e selecio­nados 
para defender o imperador contra qualquer golpe do estado. Além 
de serem uma força de segurança, também cuidavam dos prisioneiros que 
eram cidadãos romanos, e que tinham apelado para César com a finalidade 
de conseguirem justiça, tal como Paulo havia feito. Visto que a maioria da 
guarda pretoriana servia em Roma, era natural pensar que Paulo estivesse na 
capital quando escreveu Filipenses. 
Mas há algumas objeções à teoria dessa carta ter sido escrita em Roma. 
A dificuldade mais séria é que, num período relativamente curto, quatro ou 
cinco viagens devem ter sido realizadas entre o escritor e os leitores. Alguém 
informou aos filipenses que Paulo estava na prisão. A oferta que Epafrodito 
trouxe (leremos a respeito no capítulo 2) exigiu outra viagem. A notícia de 
que Epafrodito tinha ficado doente, e o conhecimento que Paulo tivera de 
que os filipenses lamentavam profundamente a doença de Epafrodito, exigi­ram 
ainda que outras duas viagens (ver 2:19-30). São muitas idas e voltas en­tre 
as cidades de Roma e Filipos, consumindo talvez 7 ou 8 semanas cada 
uma. 
Se Paulo não estava em Roma, então a melhor alternativa para o lugar 
de composição seria a cidade de Éfeso, onde o apóstolo exerceu ministério 
entre os anos 54 e 56 A.D.. Essa tese ganha força quando examinamos ou­tras 
cartas de Paulo compostas na mesma época, ou seja, 1 e 2 Coríntios e 
Romanos: o modo de falar do autor em Filipenses é mais próximo ao lingua­jar 
dessas três cartas, do que ao de Efésios, Colossenses e Filemon. Observe­mos 
também que algumas das referências, por exemplo, aquelas feitas aos 
“maus obreiros” , “falsa circuncisão” e cães (3:2), fazem lembrar as cartas 
aos Coríntios. Outro problema determinante da situação em Filipos é o da 
falta de união (e recorde-se que esta foi a principal razão de Paulo ter escrito 
1 Coríntios). É bem provável que Filipos e Corinto fossem objetos de preo­cupação 
de Paulo durante os dois anos e meio em que ele trabalhou em 
Éfeso (para conhecer a situação, leia At 20:18-35). 
O problema que se levanta contra essa tese de que a carta aos Filipen­ses 
foi escrita em Éfeso é que não temos conhecimento, pela leitura de Atos, 
de que Paulo tenha sido preso ali em alguma ocasião. Em 2 Co 11:23 há uma 
breve referência ao fato de ele ter estado em prisão mais de uma vez, e isso 
oferece uma base para a possibilidade de sua liberdade ter sido tolhida em 
Éfeso. 
Há outros motivos, entretanto, que me levam a pensar que Filipenses
fica melhor no quadro da vida e do ministério de Paulo em Éfeso, do que em 
Roma seis ou sete anos mais tarde. Em 1 Co 15, o capítulo da ressurreição, 
uma parte do argumento de Paulo em favor da ressurreição é que ela explica 
porque o apóstolo devia passar por todo o sofrimento que vinha provando. 
Vejamos 1 Co 15:30-31: ”E porque nós também nos expomos a perigos a 
toda hora? Dia após dia morro!”. Isto indica que ele estava sendo ameaçado 
continuamente. No v. 32, Paulo diz: “lutei em Éfeso com feras”. Sabemos 
que Paulo não poderia ter lutado literalmente com animais selvagens. Não se 
permitia que um cidadão romano fosse lançado na arena. Paulo se referia a 
inimigos tão ferozes que se assemelhavam a leões soltos na arena, e que a 
qualquer momento poderiam matá-lo. 
O primeiro capítulo de Filipenses apresenta Paulo enfrentando esse ti­po 
de situação. Além do mais, Paulo escreveu 2 Coríntios menos de seis 
meses depois de haver escapado de Éfeso, de onde escrevera 1 Coríntios. Na 
Macedônia, a poucos dias de viagem de Éfeso, ele se encontrou com Tito, 
que lhe trazia boas notícias de Corinto. Escrevendo aos Coríntios, na segun­da 
carta, Paulo diz: “Irmãos, queremos que saibam das dificuldades que tive­mos 
na Ásia (Éfeso). O sofrimento que suportamos foi tão grande e tão duro 
que já não tínhamos esperança de escapar de lá com vida. Nós nos sentíamos 
como condenados à morte. Mas isto aconteceu para nos ensinar a confiar 
não em nós mesmos, e sim em Deus, que ressuscita os mortos. Ele nos sal­vou 
e nos salvará desses terríveis perigos de morte” (2 Co 1:8-10 — Novo 
Testamento na Linguagem de Hoje). 
Filipenses também revela que Paulo achava que tanto poderia ser mor­to 
como libertado da prisão. (Fp. 2:23). Contudo, ele está muito confiante 
de que, por causa das orações dos cristãos filipenses, será solto. É possível 
que Paulo esteja se referindo à mesma ameaça em 2 Co 1 e Fp 1. Se for 
assim, então devemos concluir que está escrevendo de Éfeso aos filipenses. 
Filipos era uma colônia romana e então os membros da igreja eram ci­dadãos 
romanos. Por não haver muitas colônias romanas, os naturais de Fili­pos 
eram cidadãos altamente privilegiados de Roma. A cidade foi conquista­da 
primeiramente por Filipe da Macedônia, pai de Alexandre,o Grande, em 
360 A.C., recebendo o seu nome. Foi ali em Filipos que Otávio, o mesmo 
que seria mais tarde o grande imperador Augusto (que estabeleceu a Pax 
Romana), venceu a batalha de Actium. Numa planície perto da cidade, 
Augusto derrotou seus rivais, Antônio e Cleópatra, no ano de 42 A.C.. Por 
causa daquela vitória muito importante para a conquista da coroa, Augusto 
deu aos seus valorosos soldados tanto terras como posição, elevando a cida­de 
à condição de colônia romana. Isso explica por que havia tão poucos ju­deus 
em Filipos. Se houvesse judeus no exército de Augusto, seriam tão pou­cos 
que não haveria número suficiente para fundar uma sinagoga. 
Quando Paulo iniciou uma igreja em Filipos, fez seus primeiros con­tatos 
num “lugar de oração”, perto de um ribeirão. Há uns anos atrás, tive o 
privilégio de visitar Filipos (que agora é uma ruína) e fiquei emocionado ao
conhecer o lugar onde Paulo e Lídia se encontraram, junto com outros ju­deus, 
para adorar ao Senhor. Os filipenses eram cidadãos de Roma, e por 
isso Paulo empregou duas vezes no original o termo “cidadão” (1:27; 3 :20), 
palavra que não aparece em nenhum lugar em suas epístolas. Na primeira 
passagem escreveu: “que sua maneira de vida (literalmente, sua cidadania) 
seja digna do evangelho de Cristo” (1:27), assim como a conduta dos ci­dadãos 
de Filipos devia ser digna de verdadeiros romanos. Em todos os sen­tidos, 
os cidadãos daquela colônia eram iguais aos cidadãos da própria 
Roma. Gozavam dos mesmos privilégios, bem como da autoridade e pro­teção 
que a cidade de Roma estendia aos cidadãos da urbe. Naturalmente, 
sentiam bastante orgulho desse status. Analogicamente, Paulo apelava aos 
leitores como “cidadãos do céu ”, no capítulo 3: “Nossa cidadania está nos 
céus”, de onde aguardamos, não o imperador que vem visitar nossa cidade, 
mas “o Salvador, o Senhor Jesus Cristo”, que nos transformará em Sua 
semelhança. 
Consideremos, por um momento, o quadro de origem desses cidadãos 
dos céus. A igreja se compunha de uma variedade incomum de pessoas. Or­ganizadores 
de igrejas não recomendam que se inicie um trabalho com 
pessoas como as que formavam a congregação embriônica de Filipos. Primei­ramente, 
aquela igreja começou com uma mulher. As igrejas que eu já ajudei 
a iniciar dependeram de homens, mas a igreja em Filipos foi fundada em 
aproximadamente 50 A.D., com Lídia, uma mulher de negócios. Mais tarde, 
haveria duas mulheres brigando naquela mesma igreja (4:2, 3). É claro que 
há quem diga que a raiz de tal desentendimento está no modo como se ini­ciou 
a igreja. Lídia de Tiatira, na Ásia, era comerciante, (At 16:14). Vendia 
um corante vermelho, caro, que era produzido em Tiatira, onde uma das se­te 
igrejas da Ásia foi organizada (Ap 2:18-29). Depois que ela se converteu 
naquela reunião de oração junto ao riacho que passava na periferia da cida­de, 
convidou a Paulo e seus companheiros, Silas e Timóteo, para virem à sua 
casa a fim de terem onde se hospedar, e para continuar seu ministério. 
O outro membro fundador foi uma jovem escrava, que tinha sido 
possuída por demônios. Paulo expeliu dela os demônios, suscitando a ira dos 
donos, que dela se utilizavam para tirar lucros financeiros através de feiti­çaria 
e profecias sobre o futuro (leia At 16:16-23). Suponho que ela se tenha 
tomado cristã, membro ativo da igreja. 
Paulo e Silas foram açoitados e jogados na cadeia por terem feito este 
ato de misericórdia. Naquela mesma noite, por causa de um terremoto divi­namente 
marcado para aquela hora, o carcereiro se assustou o suficiente pa­ra 
pedir aos missionários que lhe mostrassem a maneira de ser salvo, em vez 
de suicidar-se (At 16:27-34). Assim ele se converteu, juntamente com sua fa­mília. 
Portanto, um carcereiro, uma escrava, e uma comerciante foram es­colhidos 
por Deus para formarem o núcleo da igreja em Filipos. 
Não temos notícia de quem mais entrou para o rol. Sabemos que hou­ve 
um certo Clemente, e um homem cujo nome pode ter sido Sízigue
(“companheiro de jugo” 4:2, 3), bem como as senhoras que não falavam, 
mas que tinham ajudado a Paulo. Seus nomes eram Evódia e Síntique. Esse 
grupo nada promissor de crentes formou a pequena igreja. Mas não podemos 
esquecer que esta foi uma das igrejas prediletas de Paulo. O apóstolo não 
tinha a preocupação de ver se eram as pessoas importantes da cidade que se 
convertiam, como foi em Tessalônica (At 17:14), ou se Deus chamava a Si 
aqueles que menos se esperava ver na igreja. “Deus escolheu as coisas humil­des 
do mundo, e as desprezadas e aquelas que não são, para reduzir a nada as 
que são ” (1 Co 1:28). Deus se alegra em formar sua igreja de todas as cama­das 
da sociedade, unindo os membros ao corpo. 
Ora, por que será que esta igreja era uma das preferidas de Paulo? Um 
ponto positivo foi o modo em que Deus a iniciou. Acho que qualquer pessoa 
que passasse por um lugar onde começasse apanhando e depois visse a mão 
poderosa de Deus quebrando o prédio com um terremoto, e as portas se 
abrindo de vez, seria levado a concluir que Deus tem uma preocupação mui­to 
especial por aquela cidade e seus habitantes. A seqüência dos eventos, e a 
maneira em que o mal cooperou para o bem, devem ter dado a Paulo a cer­teza 
de que esta igreja iria ser uma expressão significante da graça de Deus. 
Outra razão pela qual Paulo tinha uma consideração toda especial por 
esta igreja foi o amor dos crentes de Filipos para com ele. Até então, era a 
única igreja que se preocupou com o apóstolo a ponto de mandar auxilio 
financeiro. Paulo dependia dos donativos, além daquilo que podia ganhar 
com o trabalho. Ao ler o cap. 4, vemos que havia ocasiões em que Paulo es­tava 
pobre de recursos materiais, quando não tinha mais que uma moeda no 
bolso (se é que tinha...). O apóstolo ficava comovido ao ver que esta igreja 
lhe queria bem o suficiente para associar-se materialmente na sua tribulação. 
Sentia-se muito agradecido. Teriam mandado mais, se houvesse outras opor­tunidades. 
Isto sugere que a igreja realmente amava a Paulo. Naqueles dias, 
não era fácil enviar dinheiro, visto que era preciso mandar alguém junto e 
havia sempre a possibilidade de essa pessoa sofrer a mesma sorte do homem 
que caiu nas mãos de salteadores, como na parábola do Bom Samaritano. 
Epafrodito era um homem especial. Ele não se importou em arrriscar a sua 
vida para sair de casa a fim de ser portador dos filipenses, e assim suprir a 
necessidade de Paulo (Fp 2:25). Esta carta aos filipenses foi escrita, em par­te, 
a fim de expressar a gratidão profunda que Paulo sentia para com a igreja 
que tanto se preocupava com seu ministério. 
A Saudação (1:1) 
Agora, vejamos de perto o que Paulo tinha a dizer para esta igreja. É 
bem diferente do que imaginamos. Em vez de dizer: “São Paulo e São Ti­móteo, 
aos servos do Senhor em Filipos, com os bispos e diáconos”, ele es­creve 
o oposto. Nosso texto diz: “escravo Paulo e escravo Timóteo, escravos
de Jesus Cristo, aos santos de Cristo Jesus que moram em Filipos”. Parece 
estar invertido, não é mesmo? 
Dr. Harry Ironside, o famoso pastor da igreja de Moody em Chicago, 
contou de uma viagem de trem de três dias que havia feito em certa ocasião, 
do litoral do Pacífico até Chicago. Havia duas freiras católicas no seu vagão, 
e ele, então, quis divertir-se um pouco às suas custas. Depois de ter travado 
conhecimento com elas, perguntou-lhes: “Já viram um santo?”. Elas respon­deram 
que nunca tinham visto, pensavam que seria maravilhoso ver um san­to 
de verdade. “Eu gostaria que vocês conhecessem um santo”, ele disse. 
Ficaram entusiasmadas! Onde, como poderiam conhecer esse santo? Estaria 
viajando num caixão de ouro, ou seria visto descendo do céu? (Segundo o 
pensamento popular católico-romano, os santos têm que morrer primeiro.) 
Dr. Ironside disse: “Eu sou Santo Harry” . Conheceram Santo Harry, mas 
isso pouco as impressionou. 
Não sei se foi exatamente bíblico, chamar-se de santo. É verdade que a 
igreja de Filipos era composta de santos, mas não sei se havia ali alguém que 
fosse mesmo um santo. Existe uma diferença. No Novo Testamento, Paulo 
nunca é chamado de São Paulo. E a Bíblia sempre usa “santos” no plural 
quando se refere a pessoas. A razão disso, acredito, é que o plural “santos”, 
“pessoas santas”, comunica o conceito do Corpo de Cristo, que é a Igreja 
santa (universal ou local) de Jesus Cristo: todos que estão na igreja, ou 
“em Cristo”, compartilham de Sua santidade e tomam-se, portanto, pessoas 
santas. É isso que significa a palavra “santo”. 
Por outro lado, nenhuma pessoa desse mundo é individualmente um 
santo, no sentido de ser santo e perfeito, tal como Deus o é. Nós temos o 
mandamento para sermos santos (1 Pe 1:16), mas nenhum ser humano é 
realmente santo. Nós somos todos pecadores regenerados. E a ordem que re­cebemos 
é de mantermos a santidade como meta do nosso viver e mover-nos 
nesta direção (Hb 12:14). Jesus mandou “sede vós perfeitos como perfeito 
é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48). Por este motivo, creio que Paulo não se 
sentisse bem com o título “São Paulo”. Não há dúvida de que ele fazia parte 
da igreja de Jesus Cristo, que é a igreja “dos santos do Altíssimo” (Dn 7:18 e 
seg.). O termo do Velho Testamento. Em Ex. 19:6, o povo de Israel, ao qual 
Deus tinha escolhido, também foi chamado de nação santa, apesar dos seus 
muitos fracassos em praticar a santidade. O título se refere antes ao relacio­namento 
da aliança pela qual Deus ligou Israel a si. 
Aqui em Filipenses, os santos são assim chamados por causa de seu re­lacionamento 
com Deus, e porque estão “em” Jesus Cristo. Em contraste 
com isto, Paulo e Timóteo são apenas escravos, um termo bastante apro­priado 
para descrever um cristão. Um cristão é um escravo. Ora, o que faz 
um cristão ser um escravo? 
Antigamente, havia quatro maneiras pelas quais uma pessoa podia tor­nar- 
se escrava: (1) Podia-se ser escravo por nascer na família de escravos. Se 
os pais eram escravos, a pessoa automaticamente era escrava, e nada se podia
fazer para evitar que isso acontecesse. (2) Podia-se ser escravo por conquis­tas. 
Quando o exército romano conquistava novas terras, o povo derrotado 
automaticamente se tornava escravo. Aqueles que não eram mortos ficavam 
sendo propriedades do estado romano e dos seus cidadãos. Foi assim que o 
Império Romano obteve mais de 50% de sua população composta de escra­vos 
durante o primeiro século quando Paulo estava escrevendo. (3) Podia-se 
ser escravo por compra em leilões de escravos como os que se tornaram 
conhecidos nos seriados da TV. Um escravo que era comprado e depois liberto 
era um escravo “redimido”. (4) Podia-se ser escravo por livre escolha. Se 
um senhor concordasse, um homem que tinha esperança de receber alimen­to, 
proteção e bons tratos, entregàva-se voluntariamente a ele para ser seu 
escravo. 
Como Paulo e Timóteo tornaram-se escravos de Jesus Cristo? Por com­pra. 
1 Co 6:20 esclarece que todos os cristãos foram comprados por preço. 
Se você realmente conhece a Deus, então você é escravo dele — não porque 
você quis sê-lo, nem porque nasceu na escravidão, ou foi tomado na batalha, 
mas sim porque você foi redimido por Seu sangue precioso (Ef. 1:7). Sim, 
você foi comprado do seu antigo dono, que era “o pecado”. Outrora, diz 
Rm 6:17, você foi escravo do pecado. Mas agora que foi comprado por 
Jesus Cristo mediante um preço elevadíssimo, glorifique a Deus em seu cor­po. 
Seja um escravo genuíno de Cristo Jesus, porque ele o comprou, com­prou- 
nos todos. Não comprou apenas a sua mente, ou sua alma, só para le­vá- 
lo ao céu numa data futura incerta. Comprou-o e fez de você Seu escravo 
aqui na terra, para que cada um de nós possa servi-Lo na plena extensão da 
vida terrena e do potencial que tem. 
Como os filipenses se tomaram santos? Se um escravo cristão entra 
nesta condição por ser comprado pelo preço da morte de Cristo na cruz, os 
santos se tornam santos sendo colocados “em Cristo Jesus”. O conceito 
é um pouco difícil de se compreender. Não entendemos como uma pessoa 
pode estar “em” uma Pessoa como Cristo Jesus. Será que você fica “em 
Cristo” assim como nós estamos imersos ou dentro da atmosfera da Terra? 
Visto que todos respiramos o ar, nós estamos dentro da atmosfera e o ar es­tá 
em nós. Um estudante da Bíblia procurou comunicar a idéia espiritual de 
estar em Cristo, e Ele em nós, dessa maneira. Estar em Cristo, para ele, era 
algo impessoal? Não creio que tenha sido esta a idéia de Paulo, de modo 
nenhum. Qual seria então o significado dessa expressão que aparece mais de 
100 vezes nas Epístolas Paulinas? 
Talvez devamos captar esta realidade de estar “em Cristo”, dentro dos 
moldes do pensamento hebreu. Estar em uma pessoa, segundo a mente he­braica, 
é estar tão intimamente ligado a ela que tudo que se refere a ela, e 
tudo que se refere a você, submete-se ao pleno controle dela. Visto que to­dos 
estão em Adão (1 Co 15:22), a natureza adâmica caracteriza o homem 
que é totalmente dominado por ela. Essa existência “em Adão” explica a 
corrupção do homem tanto no sentido moral, como no sentido físico
(1 Co 15:22, 45). É inútil você tentar sair disso, a não ser que se converta e 
conheça a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. Mas quando você se 
transfere de Adão, deixando a personalidade, a natureza e o controle dele 
para trás, e se coloca em Jesus Cristo, então é Ele que vai afetar sua nova 
vida. O sinal e símbolo dessa transferência é o batismo. Quando você confia 
em Jesus Cristo como seu Salvador, e o recebe como seu Senhor, você então 
já está comprado, torna-se membro de Sua família, do Seu Corpo, e se entre­ga 
livremente ao Seu controle. Portanto, se você está completamente rendi­do 
a Jesus Cristo, então está “em Cristo”.. 
Observemos que estes cristãos estão “em” Cristo Jesus e vivem “em” 
Filipos. O primeiro “em” indica um posicionamento; o segundo, um lugar 
geográfico. São diferentes. É estar “em” Jesus Cristo que os torna santos. 
Você não é santo, como já vimos, quando é melhor do que os outros. Você 
deve mesmo ser melhor do que os outros, e ter personalidade santa, admirá­vel, 
se o Senhor perfeito está exercendo um controle efetivo sobre sua vida. 
Mas você não passa a ser santo por se tornar uma pessoa melhor. Só será san­to 
entrando para o Corpo do Santo Filho de Deus, pela fé pessoal, mediante 
a qual Ele o regenera. Toma-se santo porque é santificado, consagrado, sepa­rado 
pelo Espírito Santo em união com Cristo (1 Co 12:12, 13). Sendo 
assim, os santos de Filipos, e os escravos de Deus em Roma ou Éfeso, estão 
se comunicando através de sua participação no mesmo Senhor ressurreto. 
Os bispos e diáconos são mencionados especificamente por Paulo, 
como receptores desta carta. “Bispos” significa simplesmente supervisores. 
No primeiro século eles eram supervisores da igreja assim como hoje há su­pervisores 
numa fábrica, para verificar se tudo está em bom andamento. Só 
que esses “bispos” (episkopoi) eram supervisores de pessoas. A palavra “diá­conos”, 
por sua vez, significa servos, trabalhadores. Os bispos eram líderes 
que desempenhavam o ministério pastoral do ensino, organização e discipli­na 
eclesiástica. Os diáconos serviam à igreja como assistentes dos pastores-bispos, 
e como evangelistas (cf. At 20:17, 28). 
A igreja no período neo-testamentário não era uma igreja a não ser 
que já tivesse os líderes nomeados. Igreja é mais do que um estudo bíblico, 
onde todos discutem uma determinada passagem das Escrituras. Esse grupo 
de estudo não é igreja, assim como amigos que se reúnem num dia marcado 
para divertir-se e conversar não constituem uma família. Um grupo de estu­do 
informal não possui a liderança divinamente instituída nem a responsabi­lidade, 
como também lhe faltam as ordenanças do batismo e da Ceia do 
Senhor. Contudo, os títulos que os líderes da igreja devem ter, bem como o 
número deles em cada comunidade, não ficam claramente estipulados no 
Novo Testamento. Na verdade, os termos “bispo”, “pastor” e “presbítero” 
são usados alternadamente nos textos. Dão ênfase aos diversos aspectos do 
ministério, qualquer que seja o título recebido por esses líderes eclesiásticos.
A Segurança de Paulo (1:2-8) 
Vejamos o que esta passagem diz sobre a segurança. Que certeza 
você tem hoje de que irá para o céu quando Jesus Cristo voltar, ou quando 
você morrer (se isso acontecer antes da segunda vinda)? 
Paulo nos apresenta as bases de uma perfeita confiança a respeito de 
nosso destino eterno. Existem cinco razões a garantir que, se você se conver­teu 
e conhece a Jesus Cristo, você irá para o céu: 
1. Graça. Em primeiro lugar, está & graça. O v.2 diz “Graça e paz a vo­cês 
da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo”. Se você não rece­beu 
a graça de Deus, e se você não tem a paz dele em seu coração, é simples­mente 
impossível ter a segurança de que Paulo fala. Graça e paz vêm pri­meiro, 
não só como saudação, mas como alicerce. 
2. Obra de Deus. Vejamos o v.6: “Estou plenamente certo de que 
aquele que começou boa obra em você há de completá-la até ao dia de Cris­to 
Jesus”. Esta é a segunda garantia de que você é salvo: a obra de Deus. Se o 
Senhor começou boa obra em você, então agora Ele está trabalhando e com­pletando- 
a eficientemente (ver 2:13). 
C.S. Lewis, no seu livro Surprised by Joy (Surpreendido pela Alegria), 
descreve vivamente sua conversão. Em certa noite de 1929, ele era o conver­tido 
mais relutante, mais infeliz e abatido de toda Inglaterra. Sua situação 
era pior que a do filho pródigo, pois este caminhou espontaneamente de vol­ta 
para o lar, ao contrário de Lewis que entrou na casa depois de muita resis­tência, 
dando socos e pontapés no pai. E então mais tarde, Lewis escreve pa­ra 
um amigo da América que ainda não era cristão: “Suponho que o Espírito 
Santo o tenha apanhado e que você já esteja preso na sua rede. Não adianta 
relutar mais. Deus começou um trabalho em você”. Sim, e em você, leitor, 
Deus já começou uma obra? Você reconhece o poder com o qual Ele o está 
chamando, não só para a comunhão, não só tornando agradável a participa­ção 
nos cultos da igreja, mas principalmente atraindo-o para Si? Ele deseja 
realizar aquela obra da graça no seu coração. Se Deus já começou a operar 
em você, cuidado, pois é muito difícil escapar de Seus braços insistentes e 
amorosos (cf. Hb 12:4-11). 
3. Amor Fraternal. Há uma terceira base para a grande esperança que 
Paulo tem referente à igreja: o fato de ele se encontrar num relacionamento 
especial com a igreja filipense. O apóstolo expressou em oração a gratidão 
que sentia por esse amor mútuo: “Dou graças ao meu Deus por tudo que re­cordo 
de vocês” (v. 3). 
Paulo possuía uma mente aberta ao Espírito Santo. Em vez de estar à 
televisão e aos jornais de cada dia, ou à revista Veja, ou ainda a todo o tra­balho 
que ele estava fazendo, sua mente estava continuamente recebendo 
alertas do Espírito Santo. Ele era capaz de reconhecer imediatamente qual­quer 
coisa que viesse à sua mente por iniciativa do Espírito. E uma das 
coisas que Deus trazia à sua mente na prisão era a igreja de Filipos. Então
Paulo concluía que aqueles crentes deviam ser filhos de Deus, porque senão 
nunca teria se lembrado deles com tanto ímpeto ou freqüência. Continua­mente, 
Paulo confessa “eu penso em vocês e oro por vocês” (v.4). Seus pe­didos 
eram oferecidos a Deus com alegria, porque a igreja naquela cidade 
lhe fazia feliz, era sua “coroa de regozijo” (4:1 em uma tradução). 
4. Cooperação. Paulo não só ora por seus filhos no evangelho, como 
também agradece a Deus a cooperação deles neste evangelho (v.5). A palavra 
“cooperação” representa a koinonia do grego, que significa comunhão ou 
participação. O apóstolo se refere aqui ao auxílio financeiro que a igreja lhe 
enviou pelas mão de Epafrodito (2:25). Este compartilhar de coisas materi­ais 
com Paulo, mostrava que os filipenses estavam cooperando na propa­gação 
do evangelho, que faziam isso “desde o primeiro dia até agora”. 
Sabemos que é preciso ser salvo pelo evangelho. Entretanto, se você 
assumiu algum compromisso com o evangelho sem ainda ter sido salvo, isto 
é, você acreditou, mas não se entregou inteiramente a Jesus Cristo, sua ati­tude 
vai denunciar isso. Algumas pessoas crêem no evangelho somente em 
conseqüência de terem nascido em lares cristãos, mas não têm um compro­misso 
do coração com o evangelho, porque nunca nasceram realmente do 
Espírito Santo de Deus. O principal problema de tal pessoa, provavelmente, 
será a dificuldade de viver o evangelho em sua vida! Como ela está na igreja, 
espera-se que faça o que os filipenses estavam fazendo, que era contribuir 
(ver também 2 Co 8:1-5). Mas ela detesta dar dinheiro. O pior detalhe da 
igreja com o qual ela precisa conviver, é a pressão que sente sobre si para que 
dê sacrificialmente, com um coração cheio de amor. 
Mas esse não era o caso dos filipenses. Sua cooperação no evangelho 
não era apenas uma koinonia de fé, e oração pela missão de Paulo; era uma 
cooperação prática, na qual tinham prazer em dar. É difícil uma prova maior 
da operação do Espírito de Deus no coração, do que o desejo de contribuir 
para suprir as necessidades daqueles a quem Deus ama. É somente o poder 
sobrenatural de Deus que pode ajudá-lo a compreender que é mais aben­çoado 
dar do que receber (At 20:35). Este, portanto, é o quarto sinal da 
obra redentora do Espírito nas vidas dos filipenses. 
5. Intercessão do Pastor a favor dos crentes. No versículo 7, Paulo 
aponta mais uma razão da segurança que ele tem nos crentes a quem está es­crevendo: 
“Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago 
no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evan­gelho, 
pois todos sois participantes da graça comigo”. Não só o Espírito os 
traz sempre à memória (v.3), não só eles começaram a dar ofertas provando 
que são realmente convertidos, mas também eles têm no coração de Paulo 
um lugar especial que só os verdadeiros irmãos e irmãs em Jesus Cristo po­dem 
ter. O apóstolo acrescenta: “Não só vocês se uniram a mim na minha 
prisão e na defesa e confirmação do evangelho, como também Deus é minha 
testemunha da saudade que tenho de vocês todos”. Esta última frase nos faz 
lembrar o carinho que as mães têm pelos seus bebês. Se separarmos uma mãe
de sua criancinha, ela sentirá muitas “saudades” . A palavra descreve os sen­timentos 
de Paulo para com esta igreja. 
É difícil para um pastor nutrir por sua igreja um sentimento tio pro­fundo 
a ponto de poder assegurar que todos os membros são salvos, são san­tos 
de verdade e não apenas de aparência. Mas é possível ver alguns indícios: 
a alegria com que participam nos cultos da igreja, a cooperação no evangelho 
através de suas ofertas. Vê-se a prova do esforço unido em oração, e o resul­tado 
é o pastor lembrar-se de todos continuamente. 
Olhe para seu próprio coração. Deus já começou Sua boa obra em vo­cê? 
Você nota que Ele já o está lapidando, polindo e trabalhando todos os 
dias? Se está, então pode tomar para si o que Paulo disse: “Estou plenamen­te 
certo de que Deus, que começou boa obra em mim, há de completá-la até 
ao dia de Cristo Jesus”. O maior desejo de Deus é ter santos no céu que se­jam 
semelhantes ao Seu próprio Filho. 
Rm 8:29 nos garante que haverá milhões de cópias de Jesus Cristo, 
moldadas segundo Sua imagem e semelhança. O Senhor está trabalhando 
na vida dos crentes, cada um deles com personalidades, pontos de vista, expe­riências, 
raízes sócio-culturais e racionais diferentes, afim de transformar ma­ravilhosamente 
todos os seus filhos, de modo que sejam semelhantes a Jesus 
Cristo. Assim será a população do céu: formada por cidadãos que Deus co­meçou 
a moldar nas experiências que resultaram em conversão, e continua a 
modelar constantemente ao longo da vida cristã, para que tomem o formato 
da perfeição de Jesus. 
Conclusão 
Pense em um homem como John Newton, que viveu há anos atrás, 
no século 18. Começou a vida num lar cristão onde viveu por uns seis anos. 
Ficou órfão e então foi criado por uma família não-crente, em que o evan­gelho 
e o Cristianismo eram ridicularizados. Como nessa casa ele era perse­guido, 
fugiu para o taar, porque o pai tinha sido marinheiro na Marinha Bri­tânica 
por algum tempo. Alguma coisa não deu certo, e ele fugiu novamente, 
escolhendo a África como um bom lugar para esconder-se. Tornou-se sócio 
de um português, traficante de escravos. 
A esta altura ele estava longe, bem longe de Deus. A péssima vida que 
levava colocou-o em algumas situações horríveis. Chegou até ao ponto de ser 
obrigado pela esposa do traficante a comer no chão. Foi até mesmo forçado 
a ser um escravo, mas fugiu para o litoral, onde deu sinais a um navio que 
passava, e que o acolheu por compaixão. Quando estava a bordo, o capitão 
descobriu que ele entendia de navegação e puseram-no como imediato do 
navio. 
Para mostrar como Newton era irresponsável, devo acrescentar que ele 
roubou o estoque de rum, distribuiu-o a todos os companheiros e, na bebe­
deira, caiu no mar. Um marinheiro o apanhou com o arpão e o puxou para 
o convés. Daquela arpoada ele ficou com uma cicatriz do tamanho de um 
punho, mas ainda não sentiu Deus operando em sua vida. Porém, naquela 
mesma viagem, quando se aproximavam da costa da Escócia, uma tempesta­de 
violenta apanhou o navio. Ele teve que manejar as bombas junto com os 
marinheiros, para evitar o naufrágio. Trabalhando nas bombas, foi domi­nado 
pelo medo da morte. Foi nessa crise que começou a recordar os versí­culos 
que havia memorizado antes dos seis anos de idade. Ao repetir essas 
Escrituras, Deus lhe falou ao coração, e ele se converteu de forma mara­vilhosa. 
Não só se converteu, como também tornou-se um pregador pode­roso 
e compositor de hinos. Foi ele quem escreveu o hino tão apreciado, 
“Amazing Grace” (“Maravilhosa Graça”). Quando o fez, ele já sabia que, du­rante 
toda sua vida, e através de todas as circunstâncias pelas quais tinha 
passado, Deus o tivera em Sua mão. É maravilhoso o Senhor converter um 
homem como Newton. E com a mesma alegria Deus vai salvá-lo se você 
assim lhe pedir. 
Oração: Pai celestial, tu conheces as necessidades de nossos corações. 
São profundas. Contudo, sabemos que és Deus maravilhoso, e que não nos 
deixará para sempre em nosso caminho de pecado. Agradecemos-Te pela vi­da 
de John Newton. Muito obrigado pela maneira como o salvaste e o inspi-raste 
a escrever hinos maravilhosos. Louvamos o Teu nome pela segurança 
que podemos ter, quando tantos neste mundo estão cheios de dúvidas, e não 
conseguem encontrar algo certo para esta vida e muito menos para o futuro. 
Por causa dos sinais de Tua graça operante, podemos saber que nossos no­mes 
estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro. Pai, que todos os Teus 
possam ter essa segurança de conhecer-Te realmente. E se têm dúvidas, se 
lhes falta segurança, que possam chegar-se a Cristo humildemente, receben-do- 
0 como Senhor e Salvador. Muito obrigado, Senhor. Em nome de 
Jesus. Amém.
Filipenses 1:9-11 
9 - E também faço esta oração: que o vosso amor aumente 
mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, 10 — pa­ra 
aprovardes as cousas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis 
para o dia de Cristo, 11 — cheios do fruto de justiça, o qual è 
mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus. 
Oração: Senhor, chegamos novamente à Tua presença, recordando a 
promessa que deste aos discípulos, de que o Espírito Santo os conduziria a 
toda a verdade. Pai eterno, as palavras que queremos ler na Tua presença 
agora são “em tudo verdade”. Rogamos-Te que nos ensines as verdades so­bre 
a oração que ainda não descobrimos, ou que talvez não estejamos colo­cando 
em prática, pois é em nome de Jesus que nos aproximamos de Ti. 
Amém. 
Introdução 
Poucas pessoas tiveram o privilégio que eu tive, de crescer num lar cuja 
primeira lembrança é a de mamãe ajoelhada junto à sua cama. Nunca vou es­quecer 
o seu vulto ajoelhado, embora eu não tivesse mais de quatro anos de 
idade quando a cena me impressionou pela primeira vez. Durante várias 
ocasiões, em silêncio, intercedendo por nós, os filhos, e pela igreja da Bolí­via, 
minha mãe criava em volta de si uma atmosfera sagrada. Não havia a luz 
de uma auréola, nenhuma halo, mas nós crianças sempre passávamos quie-tinhos 
quando mamãe orava. Foi uma experiência que se repetiu todos os 
dias, um privilégio que teve realmente um papel importante na formação de 
meus primeiros ideais com respeito à oração. Embora ela intercedesse muito 
silenciosamente, sabíamos o que ela estava pedindo. Nós crianças estávamos 
no topo da lista. Sabíamos quais os principais assuntos das suas orações por­que 
a nossa família sempre se reunia para orar antes do café da manhã. As 
orações de meus pais eram muito longas para um garotinho: eu já acordava 
com fome, e o culto doméstico atrasava o café. Dr. Donald Barnhouse (pas­tor 
da Filadélfia, mundialmente conhecido, já falecido) costumava dizer: 
“Sem Bíblia não há café!” Nossos pais se mantiveram firmes naquele moto, 
que incluía também a oração. 
Paulo também aprovava essa espécie de piedade cristã. Orava incessan­temente. 
Exortou os leitores de sua carta em Tessalônica a que orassem sem 
cessar (1 Ts 5:17). Mas Paulo não estava tão sintonizado com o céu a ponto 
de supor que os cristãos que liam suas epístolas soubessem automaticamente 
o que pedir a Deus. Embora já tivesse escrito que estava “sempre fazendo 
súplicas por eles”... “em todas as minhas orações” (v. 4), o apóstolo ocupa 
algumas preciosas linhas desta “carta de agradecimento” para contar aos fili­penses 
como é que orava, a fim de ensinar-lhes (e a nós) como se deve orar.
E não se esquece de encorajá-los, dando-lhes uma lista dos resultados da 
oração fervorosa que pede a Deus um abundante e crescente amor. 
O Professor Stewart, da Universidade de Edinburgo, na Escócia, agora 
aposentado, dizia sempre que as orações das cartas de Paulo, particularmen­te 
as de Filipenses, Efésios e Colossenses, foram o ponto alto de sua corres­pondência. 
Portanto, veja hoje, que petição os filipenses deviam fazer. De­dique 
alguns instantes para oferecer esta oração com toda a sinceridade. 
Você vai descobrir um novo nível de benção impregnando sua vida, visto 
que o próprio Senhor Jesus garante que se você pedir alguma coisa em Seu 
nome, segundo a Sua vontade, Ele o ouvirá (Jo 14:13,14; 1 Jo 5:14). 
Observe que neste parágrafo a oração de Paulo é a continuação de sua 
ação de graças. Assim, ele aponta um fato importante sobre a oração, sem 
ensiná-lo declaradamente. 
A primeira verdade encontra-se no v.6: “Estou plenamente certo de 
que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de 
Cristo Jesus”. Desta certeza apostólica seria possível concluir que você não 
precisa fazer nada além de render-se passivamente, porque Deus faz toda a 
parte ativa. Você poderia relaxar, dormir, descansar, em vez de orar. E nem 
precisaria voltar à igreja à noite. Você poderia ir para o Guarujá ou Copaca­bana, 
apreciar a praia e as ondas, porque Deus que começou a boa obra em 
você, prometeu completá-la. Não haveria necessidade de você se preocupar 
com a comunhão e o culto da igreja, nem com a leitura da Bíblia e a oração 
pelas crianças, vizinhos ou mundo, nem tampouco com o seu testemunho. 
Muito facilmente e com grande prazer poderíamos concluir: “já que Deus 
promete que vai estar operando, e Ele é mais poderoso do que quaisquer de 
nossas orações fracas e cheias de dúvidas; é só deixar que ele faça tudo!” 
Isso, porém, é bem diferente daquilo que Paulo pensou ou ensinou. À me­dida 
que você lê a oração dele, percebe claramente que o próprio Paulo es­tá 
envolvido e profundamente empenhado numa cooperação espiritual com 
Deus. De fato, Paulo afirma que Deus nos manda participar ativamente em 
sua obra: “Desenvolvam a sua salvação com temor e tremor” (2:12). 
A oração pode ser considerada um trabalho, até mesmo uma luta 
(Cl 1:29: 2:1). Deus está fazendo a Sua obra, mas a oração envolve aquele 
que intercede na operação de Deus (cf. 1 Co 3:9). Mas, e se eu não pedir a 
Deus que intervenha? Ele vai parar de operar? Paulo não responde tão clara­mente 
a esta questão complexa como Tiago o faz (Tg 4:2). Visto que Deus 
não ordena, clara e insistentemente, que oremos, não é necessário fazer es­peculações 
sobre a razão pela qual ele exige que Seus filhos orem. Isto expli­ca 
porque Paulo podia exigir de si o máximo esforço em prosseguir para o alvo 
e prêmio de sua soberana vocação, ou alto chamado, por um lado, ao mesmo 
tempo em que mostra tolerância para com aqueles que têm atitude diferen­te, 
preferindo esperar que Deus lhe revele quais são as suas exigências 
(3:13-15).
Vejamos agora o incentivo que levava Paulo a interceder pelos fili­penses, 
no v.8. Ele ansiava de tal maneira (epipothõ) ver a igreja e confrater­nizar 
com eles, que descreve seu afeto como localizado nos “intestinos” 
(splagchnoi) de Cristo Jesus. Foi a maneira grega primitiva de expressar 
como estava emocionado no seu desejo de visitar os filipenses, seus amados 
filhos na fé. De fato, um pastor que ama profundamente cada membro da 
sua igreja, achará que orar por eles não é tarefa difícil, pelo contrário, é um 
prazer. 
Um Pedido pelo Amor Crescente 
Agora examinemos esta oração. Pelo que Paulo ora? Primeiro, ele roga 
que Deus conceda aos filipenses um amor que aumente mais e mais (v.9). 
Amor para com Deus e o próximo nunca chega a um ponto em que o cristão 
pode descansar e dizer: “Bem, agora eu amo tão fervorosamente como sou 
mandado amar! Esse amor agape que Deus exige de mim já é completamente 
meu”. Paulo pode ter sentido que os filipenses eram as pessoas mais queridas 
que ele conhecia. Ele os amava tanto que o seu amor por eles parecia o amor 
de uma mãe por seus filhos (v.8): “Tenho por vocês um afeto e saudades tão 
fortes que me emociono por dentro, nas próprias vísceras!” Mas isso não 
significa que Paulo tinha alcançado o amor perfeito, ou que seu amor não 
podia crescer mais ainda. Ele não estava tão influenciado pelo seu amor para 
com a igreja de Filipos a ponto de concluir que eles não pudessem amar mais 
intensamente do que quando mandaram o dinheiro tão oportuno para o 
apóstolo aprisionado. 
Você também é pessoa amorosa, mesmo que não seja possível medir 
seu amor por nenhum sistema. O amor não pode ser medido de maneira ma­temática 
concreta. Por ser dinâmico e relacionai, o amor cresce à medida em 
que é testado. Os pais que mais amam seus filhos são aqueles que mais sofre­ram 
por causa dos filhos. Talvez um filho de uma certa família possua algum 
problema mais grave, de ordem física ou mental: pois é por aquela criança 
que o pai e a mãe estão mais dispostos a se sacrificar, a fim de lhe propor­cionar 
alguma coisa. Os pais que têm um filho mongolóide aman-no além do 
normal, indizivelmente. Seu amor foi muito provado e, em conseqüência, 
transborda por aquela criança. Paulo está orando por um amor assim, trans-bordante, 
que excede os limites normais da experiência, um amor que é mais 
característico de Deus do que do homem egocêntrico. Tal amor é um dom 
do Espírito de Deus que habita no crente (Rm 5:5, cf. G1 5:22) e, conse­qüentemente, 
deve surgir em nossos corações como resposta à oração 
(cf. Lc 11:13). 
Essa súplica por um amor que cresça e transborde sem limites é o úni­co 
pedido específico desta oração (w. 9-11). Tudo o mais que é mencionado 
na passagem são conseqüências. Será que você está orando por alguém, ou —
o que pode ser mais significativo — alguém estaria orando por você, rogando 
a Deus que seu amor continue a crescer e transbordar sempre? Talvez Paulo 
peça a Deus esse amor agape, crescente e dinâmico, porque sabe que um 
amor que não transborda, inevitavelmente se volta para dentro e se torna 
egoísta. Limitar nosso amor àqueles que vão nos retribuir a dívida é o opos­to 
do amor generoso e sacrificial pelo qual Paulo orou. Este é como leite 
derramado, irrecuperável, dado sacrifícialmente, sem preocupação de recom­pensa. 
Até o fim da sua vida, ou até que Cristo volte, esse amor como o de 
Cristo deve transbordar mais e mais. Na forma mais simples, essa oração pe­de 
a Deus um crescimento diário na habilidade e no anseio de amar de cada 
cristão, até o dia da formatura, quando todos passamos desta vida à outra 
através da morte ou da transformação miraculosa efetuada pela volta de 
Cristo (cf. 3:21). 
O v. 10 (parte final) focaliza nossa atenção nesse fim, porque o amor 
crescente terá o propósito de tomar os filipenses puros e imaculados, prontos 
para o Dia de Cristo. Quando Jesus Cristo voltar/ele irá examinar os crentes 
quanto à perfeição atingida em matéria de amor crescente e transbordante 
para com os irmãos e para com Deus. É crucial reconhecer se seu amor cres­ce 
dia a dia. Ou será que ele tem diminuído, como o primeiro amor da igreja 
de Éfeso (Ap 2:4)? 
Esse amor não é sentimental, não é verbal, mas é prático, encontra 
expressões concretas através de ações. Certamente, desejamos que essa espé­cie 
de amor transborde em nós, mas quem sabe não temos confiança de que 
é possível receber um amor tão extraordinário assim, simplesmente pedindo 
a Deus. Paulo nos dá algumas dicas importantes sobre como ganhar esse 
amor abundante em resposta à oração. Se alguém está orando por você 
desta maneira (talvez seja esposa, marido, pai, um filho ou um membro inte­ressado 
da igreja), de tal forma que a oração dele se une à sua, espere ver 
mudanças na intensidade de seu amor. Como se uma poça parada e mal chei­rosa 
se transformasse em uma corrente de águas cristalinas, o amor narcisista 
pode ser transformado em amor semelhante ao de Deus, que o motivou a 
dar Seu Filho para nos salvar (Jo 3:16). 
Os Dois Elementos do Amor 
Paulo prossegue no v.9, dizendo que duas características são importan­tes 
nesse amor transbordante. Se omitimos esses elementos básicos, o amor 
não cresce muito e não transborda. Esses dois elementos são descritos pelas 
palavras “conhecimento” e “percepção”. 
O primeiro termo representa a palavra grega epignõsis, que se encontra 
no Novo Testamento umas vinte vezes. Normalmente usado para designar o 
conhecimento de Deus e da verdade, ou conhecimento da Bíblia e de Jesus 
Cristo, refere-se à esfera espiritual.
Ora, não me sinto bem quando divido o conhecimento humano em 
duas categorias, mas a esta altura pode ser proveitoso fazer isso. Possuímos 
dois tipos de conhecimento. 
O primeiro é o conhecimento humano, secular, orientado ao nosso vi­ver 
desta terra. Quando uma pessoa realmente sabe bastante, pode ser for­mada 
em faculdade, ou até mesmo se tomar professor, com nível de mestra­do 
ou doutorado. No contexto da vida, mostra quanto sabe pelo seu su­cesso. 
Sabe equilibrar as coisas, como planejar, como tratar as pessoas de 
modo que estas o tratem bem. Conhece a lei, e sabe como evitar as penali­dades 
impostas àqueles que deixam de cumpri-la (ver Lc 16:1-11). Elaé re­putada 
como uma pessoa bem ajustada e entendida. Para fins dessa expla­nação, 
classificaremos essa categoria de escolhas capazes como gnõsis, 
“conhecimento”. 
Mas é diferente o sentido do termo “Conhecimento” (epignõsis) que é 
usado no Novo Testamento. Esta palavra se refere à realidade espiritual. Tal 
conhecer ultrapassa o saber do dia-a-dia, atingindo a esfera espiritual, o que 
é comparável à ultrapassagem da barreira do som. As atitudes e os valores da 
vida que chamamos de “secular” são transformados pelo relacionamento 
com Deus e Seu povo através do Espírito. Não que o Espírito seja realmente 
dissociado do psiquê ou da alma humana em qualquer sentido claro, defini­do. 
Quando o crente ultrapassa a barreira, indo ao conhecimento dos valores 
espirituais, isso o faz perceber a realidade de uma forma que o homem secu­lar 
não vê. Paulo aqui dá ênfase à idéia de que, sem esta espécie de conheci­mento, 
o amor sacrificial não cresce — nem o amor por Deus, nem o amor 
pelo homem. O amor agape deve ter raízes no conhecimnto adquirido dire­tamente 
através da revelação e percepção do Espírito Santo. 
Em Ef 1:17, Paulo ora pelos cristãos de Éfeso na Ásia: que “Deus... o 
Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno 
conhecimento (epignõsei) dele. “Este uso que Paulo faz da mesma palavra 
esclarece que é o Espírito Santo que nos capacita a ultrapassar a barreira do 
conhecimento do mundo secular, e nos faz penetrar tal ciência. Nela alcan­çamos 
e experimentamos a presença de Deus. O Espírito Santo não trabalha 
à parte das Escrituras. Deus emprega a Bíblia para guiá-lo, quem sabe en­quanto 
você ouve a explicação do seu sentido, ou enquanto a lê na hora de-vocional 
de manhã. E assim, o solo que proporciona as condições para o 
amor crescer e transbordar tem sua origem na oração, uma Palavra de Deus, 
e produz a comunhão com Deus, que por sua vez encaminha o amor trans­bordante 
para com Deus e Sua igreja. 
Uma segunda palavra que Paulo liga ao “entendimento” do v.9 é a pa­lavra 
“percepção”. Transmite o sentido do original aisthesis. Uma pessoa 
que tem percepção tem o dom que muitas vezes é atribuído às mulheres 
com o nome de “intuição”. O homem pode trabalhar intensamente durante 
horas inteiras, lidando com os prós e contras de uma decisão importante. 
Talvez escreva todos os números, a lista de vantagens e desvantagens, ten­
tando arrazoar e chegar à melhor solução de um problema. Muitas vezes, 
consulta os colegas executivos para que o ajudem a ponderar as conseqüên­cias 
favoráveis e desfavoráveis de sua opção. Depois vai para casa, pergunta à 
esposa qual a opinião dela, e fica admirado ao descobrir que seu conselho 
está de acordo com a conclusão estudada dele. 
A intuição adianta o processo, sendo resultado da'percepção. Por 
maior que seja a lógica ou a sua racionalidade, não dá ao homem a verdade 
espiritual. Esta precisa resultar de uma revelação por parte de Deus e de uma 
percepção por parte do homem. A teoria ou a teologia se transforma em rea­lidade 
e estilo de vida cristão. A palavra de Paulo, “percepção” ou “discer­nimento”, 
trata especificamente de um juízo que é tanto moral como espi­ritual. 
As Escrituras não fazem distinção entre as esferas moral, ética e espi­ritual, 
no que diz respeito à prática. Sendo assim, portanto, viver com “per­cepção” 
e conhecimento significa agradar a Deus. 
Podemos ilustrar esse termo na vida pública-terrena de Jesus. Muitas e 
muitas vezes, Ele foi pressionado em situações onde tinha que fazer escolhas. 
Suas decisões eram importantes porque milhares de pessoas ouviam Suas ins­truções. 
Não podia, pois, ensinar uma coisa na teoria e fazer outra diferente 
na prática. Seu modo de escolher, repetidas vezes, ofendia as pessoas religio­sas 
mais respeitadas, o que não o tomava popular. O que ele percebia e de­clarava 
com franqueza contrariava a opinião da maioria da época. Ele favore­cia 
os humildes, os fracos, os pobres e necessitados, em vez dos fariseus or­gulhosos 
que eram admirados (cf. Jo 5:44). No caso dos judeus, que conhe­ciam 
minuciosamente a Bíblia, mas não tinham o Espírito, exaltavam os va­lores 
do mundo. Jesus, cheio do Espírito Santo, quando ouviu o cego Barti-meu 
clamando por misericórdia, ordenou que lhe trouxessem o homem ime­diatamente, 
apesar dos discípulos quererem silenciá-lo com a justificativa de 
que Jesus estava ocupado demais (Mc 10:46-52). Foi esse o tipo de intuição 
ou sistema dè valores que determinou as decisões de nosso Senhor. Bartimeu 
era mais importante do que a multidão, os discípulos, os dignatários religio­sos, 
ou uma programação prévia. 
Necessitamos desesperadamente de possuir esta percepção. É um dis­cernimento 
tantas vezes ausente, que explica porque nossa vida espiritual é 
fria, e nosso amor parado. Onde existem águas estagnadas e temperaturas 
momas, é quase certo haver mosquitos. Essas pestes não podem reprodu­zir- 
se em águas correntes. Quando o amor é parado, os relacionamentos fi­cam 
estragados. Em lugar do amor transbordante pelo qual Paulo ora, criam­- 
se ressentimentos irritantes, concebidos no ciúme, para atrapalhar o povo 
de Deus como se fossem pernilongos zunindo perto dos nossos ouvidos. 
Com o conhecimento experimental de Deus e o discernimento estimulado 
pelo Espírito Santo, cresce o amor, e diminui o egoísmo. 
O autor de Hebreus também emprega um substantivo relacionado com 
o termo “percepção” (aisthêsis) quando repreende os cristãos estagnados, 
que não quiseram crescer na fé além da primeira infância. Veja o apareci­
mento divinamente inspirado dessas palavras: “Vocês já deviam ser mestres, 
capazes de ensinar a Palavra de Deus, contudo têm de novo necessidade de 
alguém que lhes ensine o ABC da fé cristã. Porque todo indivíduo que ainda 
se alimenta de leite, não está cheio da Palavra da justiça, pois é criança. Mas 
o alimento sólido é para os adultos, para os que têm as suas faculdades exer­citadas 
pela prática (Hb 5:12-14). A palavra “faculdades” (aisthenia) vem da 
mesma raiz grega que o termo “percepção” em Fp 1:9. Visto que aos cris­tãos 
hebreus faltava “percepção”, não tinham a capacidade de discernir en­tre 
o bem e o mal, ou distinguir o melhor do bom. As pessoas maduras preci­sam 
tomar decisões, à luz da vontade de Deus revelada e das conseqüências 
eternas. Somente a percepção espiritual produz decisões corretas. Como é 
triste constatar com tanta freqüência que cristãos estão se tornando estagna­dos, 
sem maturidade necessária para o discernimento dos valores espirituais. 
A Conseqüência do Amor Crescente 
Quando o amor de Deus cresce em nós com vitalidade, no solo do 
conhecimento e da percepção, o que vai produzir? Paulo dá a resposta no 
v.10. Produz “aprovação”. Essa palavra interessante também foi empregada 
por Paulo na segunda carta a Timóteo. Permita-me fazer uma paráfrase: 
“Quero que você seja um trabalhador “aprovado” (gr. dokimon), quando 
chegar no dia de sua formatura, abrir seu diploma conferido por Deus, e ler 
os elogios. Espero que você se forme com prêmios, em lugar de descobrir 
que foi reprovado no dia de Jesus Cristo” (cf. 2 Tm 2:15). 
Como serão emocionantes para uns e chocantes para outros, as surpre­sas 
do juízo final! Muitas pessoas esperam a aprovação da formatura, porém 
vão descobrir tarde demais, para sua tristeza, que o prêmio esperado não 
lhes foi conferido (cf. Fp 3:14, 2 Tm 4:8). Mas podemos ter a certeza da 
aprovação de Deus se somos sinceros e inculpáveis até o Dia de Cristo”, por­que 
então será evidente em nós a boa obra de Deus (v. 6). 
A expressão “para que vocês aprovem as coisas excelentes” (v. 10) 
mostra que essa capacidade espiritual tem sua origem nas realidades do v.9. 
“Aprovar” (dokimazo) significa testar e aprovar ser autêntica alguma coisa. 
Mesmo em nossos dias, uma nota de papel-moeda precisa ser aprovada para 
ser aceita. A alta qualidade da imitação engana os “leigos”, mas é rejeitada 
pelos profissionais (veja 2:22 e a observação que Paulo faz a respeito de 
Timóteo). 
O Senhor Jesus empregou a palavra aqui traduzida por “excelente” 
{diapherò), que se refere às coisas que precisam ser “aprovadas”, quando 
procurou ensinar os discípulos a confiar em Deus, em Mt 6:26. Os lírios 
do campo são de muito mais valor (“excelência”) do que o capim, todos nós 
concordamos. Mas a comparação não é esta. “Vocês valem muito mais do 
que os lírios!” Deus cuida dos lírios do campo; mas você vale muitas vezes
mais do que os lírios do campo, então os homens são de maior valor que 
todas as flores silvestres, os cristãos amorosos irão distinguir o que realmente 
tem significação duradoura daquilo que tem boa aparência na realidade, mas 
imprescindivelmente destinados à fornalha (cf. 2 Co 4:18). 
A capacidade e o desejo de fazer esta espécie de escolhas entre valores 
e prioridades advêm de um conhecimento e perspicácia dados por Deus, mas 
prenuncia também o Dia de Cristo. É claro que nada nos fará ficar enver­gonhados, 
se cuidamos em escolher o caminho excelente (1 Co 13:31b). 
Este versículo (10) afirma a importância de aprender a distinguir o melhor 
do medíocre, “para sermos sinceros e inculpáveis” quando Cristo voltar e 
estivermos todos diante do Seu tribunal (2 Co 5:10). 
A palavra “sincero” tem seu significado numa prática comum do mun­do 
antigo. Os potes de barro eram as vasilhas domésticas habituais, usadas na 
cozinha como na sala de jantar. Uma das indústrias mais movimentadas era a 
de fazer potes e pratos, porque eles se quebravam com muita freqüência. 
Eram fabricados de barro queimado que, depois de muito assado e moldado 
na roda do oleiro, ia para o forno. Ficavam duros e quebradiços. Quando 
menino, eu olhava os oleiros fazendo potes de barro. De vez em quando, 
esses potes se rachavam ou ficavam com um buraco. Em vez de jogar fora o 
vaso inútil, alguns oleiros sem escrúpulos passavam um pouco de cera sobre 
o buraco. Quando alguém o comprava, não percebia a rachadura a não ser 
que duvidasse da qualidade do artigo. Nesse caso, bastava virá-lo para o lado 
do sol. A cera, sendo apenas opaca, dava passagem à luz. Portanto, a palavra 
grega significa “testado pelo sol”, enquanto que a palavra “sincera” do 
nosso idioma vem do latim e quer dizer “sem cera”. 
Devemos sempre fazer a pergunta para nós mesmos, e para nossos 
filhos, vizinhos e amigos: somos testados pelo sol? Observe que esse amor 
transbordante confirma nossa segurança de sermos um cristão aprovado, tes­tado 
pelo sol, no Dia do Juízo Final. 
O v.6 expressa a certeza de Paulo de que Deus há de completar a obra 
da salvação que ele principiou. Agora a oração do apóstolo proclama que a 
confiança de ser aprovado vem da prova do amor crescente, radicado no 
conhecimento e percepção. À “sinceridade”, Paulo (que gostava de usar 
dois termos paralelos) acrescenta “inculpáveis”. É a palavra que ele usou 
quando se defendia perante os acusadores judeus, incluindo o Governador 
Félix de Cesaréia: “Tenho vivido sem ofensa durante toda a vida. Minha 
consciência está limpa” (cf. At 24:16). Ora, pode ser perigoso afirmar isso se 
a consciência é meramente sua. Muitas de nossas consciências não nos estão 
acusando, o que só serve para provar que não estão muito sensíveis ou bem 
instruídas. Podemos ser muito bons em auto-defesa, justificando qualquer 
falha ou pecado de qualquer acusação interna do coração. É mais impor­tante 
estar sem acusação na vida e na conduta, para que nenhum acusador 
tenha quaisquer provas contra você, mesmo depois de examinar a fundo a 
sua vida.
Como exemplo, vejamos um contador. Ele tem um serviço interessan­te, 
porque o cômputo de impostos revela muito sobre a consciência secreta 
de seus clientes. Eles sabem quanto deviam pagar de impostos, mas resolvem 
que não, porque não há forma de um acusador provar a violação da lei. Sua 
consciência não os preocupa, visto que eles racionalizam que o governo des­perdiça 
vastas quantias de dinheiro. Mas o problema é como eles vão se sen­tir 
quando uma auditoria for feita por alguém que possui todas as provas 
para condená-lo. 
Paulo aguarda o dia do exame para o qual ninguém pode lhe trazer 
nenhuma preocupação, mesmo sendo examinados os registros oficiais e to­dos 
os documentos secretos. Para receber um veredito de isenção de culpa 
naquele dia, precisamos agora de consciência pura e sinceridade completa. 
As duas qualidades — “testado pelo sol” e “inacusável” (inculpável) no Dia 
de Jesus Cristo — resultam de se ter percepção e conhecimento, aliados ao 
amor transbordante. 
O Fruto da Justiça 
Finalmente, vejamos o versículo 11. Está aqui o tema desta mensa­gem, 
e a sua conclusão. “Cheios do fruto de justiça, que vem através de 
Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus”. Estamos acostumados com o 
fruto (singular, não plural) do Espírito, que é o amor. O amor possui todos 
os atributos de “alegria, paz, paciência, bondade, misericórdia, fidelidade, 
mansidão, domínio próprio” (G1 5:22, 23), como se fossem expressões va­riadas 
desse amor. O fruto de justiça certamente será o mesmo. Assim como 
o fruto de Gálatas 5 é produzido pelo Espírito que habita no interior, o fru­to 
da justiça é produzido pela vida de Jesus atuante em nós. A oração que 
pede muito àmor, firmado em conhecimento e percepção, irá produzir a 
capacidade de se distinguir o que há de melhor, a fim de sermos puros e in­culpáveis 
no Dia do Juízo Final. Mas esta vida, que se torna cheia do fruto 
da justiça, vem por Cristo Jesus. 
Lourenço da Arábia certa vez levou alguns de seus amigos árabes a Pa­ris. 
Queria mostrar-lhes a cidade e impressioná-los. Foi há tempos, antes que 
os xeques árabes possuíssem rios de dinheiro pelas vendas de petróleo. Não 
conheciam bem as atrações e comodidades modernas, por isso ele queria 
dar-lhes este prazer. A Torre Eifell, os lindos edifícios e pontes, o Arco do 
Triunfo, nada disso os deixou atônitos. Muitas vezes, desejamos ver os turis­tas 
interessados, mas nossos visitantes só querem voltar para o hotel, e era 
isso o que acontecia com aqueles amigos. Isso porque o que os deixou real­mente 
admirados foi a água corrente. Para ter água éra só abrir a torneira. 
Ali no seu hotel é que estava a maior maravilha do mundo. Os árabes 
abriam e fechavam a torneira extasiados diante do milagre da água a jorrar 
da parede. Um dia antes de voltarem para a Arábia, Lourenço ouviu uns sons
estranhos no banheiro. Investigando, encontrou os amigos ali com uma cha­ve 
inglesa, tentando desenroscar aquela torneira. Quando indagou o que fa­ziam, 
responderam: “Já vimos muita coisa maravilhosa em Paris, mas nada 
que se compare com essa torneira. É só abrir, sai água. Queríamos levar essa 
invenção tão importante para a Arábia”. Lourenço teve de convencê-los de 
uma verdade muito importante. Levar uma torneira para a Arábia e en­terrá- 
la em uma parede não produziria água nenhuma. Não percebiam que 
havia um cano e todo um sistema hidráulico para suprir a água desejada. Se 
os seus amigos têm o amor que transborda em fruto de justiça, baseado em 
sua ligação vital com Jesus Cristo, e as outras realidades alistadas por Paulo 
em sua oração, isso deve animá-lo a procurar que Deus faça o mesmo por 
você. Mas se você tenta produzir o fruto da justiça por seus próprios esfor­ços, 
terá tão pouco êxito quanto os amigos de Lourenço ao tentar produzir 
a água, sem cano e sem fonte. 
Conclusão 
Paulo quer fazer-nos entender que, no final, Deus será louvado e glori-ficado 
pela resposta a essa oração. Seja qual for o resultado produzido por 
Cristo em nós em termos de vida justa, inevitavelmente, Deus será honrado e 
exaltado. Bondade produzida humanamente glorifica o homem (cf. Jo 5:44)., 
mas logo que descobrimos que dentro de nós “nenhum bem habita”, somos 
forçados a dirigir-nos ao nosso Senhor em busca dessa justiça miraculosa 
que reflete o louvor e glória de Deus (v. 1 lb). Duvido que muitas orações 
tenham esta meta. É freqüente orarmos implorando alívio de aflições e do­res, 
ou o suprimento daquilo que supomos necessitar e desejar. Quando so­mos 
conscientizados para orar como Paulo orou, podemos aguardar a conse­qüência, 
maravilhosamente apresentada nesta curta passagem de Filipenses, 
além de experimentar a verdade de que Deus tem prazer em dar-nos as coisas 
que desejamos, mas não pedimos (Mt 6:33), 
Oração: Pai, Tu conheces a profundidade de nossas necessidades 
pessoais. Sabes como estamos ressequidos, estagnados, incapazes de produzir 
qualquer porção de teu amor agapê; e sabes ainda, como é impossível para 
nós ultrapassarmos a barreira do som de nossos conhecimentos terreais. Po­de 
ser que tenhamos dominado um pouco da sabedoria deste mundo, mas 
ela é tão desligada da ciência e percepção espirituais que possibilitam o amor 
abundante! Ô Pai, Tu nos amas tanto, e nós Te rogamos que, por Jesus 
Cristo, Tu nos faças todos aprovados por Ti, dando-nos aquela capacidade 
de selecionar as prioridades verdadeiras. E através de tudo isso, pedimos, por 
Jesus Cristo, que nosso Senhor seja exaltado e engrandecido. Amém.
A FILOSOFIA DE VIDA DO CRISTÃO 
Filipenses 1:12-26 
12 - Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as cousas 
que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso 
do evangelho; 13 — de maneira que as minhas cadeias, em Cris­to, 
se tomaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de 
todos os demais; 14 - e a maioria dos irmãos, estimulados no 
Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassom-bro 
a palavra de Deus. 15 — Alguns efetivamente proclamam a 
Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa von­tade; 
16 - estes, por amor, sabendo que estou incumbido da 
defesa do evangelho; 17 - aqueles, contudo, pregam a Cristo, 
por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às 
minhas cadeias. 18 - Todavia, que importa? Uma vez que Cris­to, 
de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, 
quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre 
me regozijarei. 19 - Porque estou certo de que isto mesmo, 
pela vossa súplica e pela provisão do Espirito de Jesus Cristo, 
me redundará em libertação, 20 - segundo a minha ardente 
expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado; 
antes, com tôda a ousadia, como sempre, também agora, será 
Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela 
morte. 21 - Porquanto, para mim o viver é Cristo, e o morrer 
é lucro. 22 - Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o 
meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. 23 - Ora, de 
um e outro lado estou constrangido, tendo o desejo de par­tir 
e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. 
24 - Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na 
carne. 25 — E, convencido disto, estou certo de que ficarei, e 
permanecerei com todos vós, para o vosso progresso e gozo da 
fé. 26 - A fim de que aumente, quanto a mim, o motivo de 
vos gloriardes em Cristo Jesus, pela minha presença de novo 
convosco. 
Introdução 
Uma biografia, para valer a pena, tem de contar mais do que os sim­ples 
fatos da vida de uma pessoa. Lendo Filipenses, capítulo 1, versos 12a 
26, é preciso compreender que há mais do que meros fatos naquilo que o 
apóstolo conta. Nestes versículos vemos, primeiramente, atitudes, um modo 
de ver, uma maneira de avaliar as circunstâncias e as pessoas. 
Confiamos no Pai, autor dessas palavras preciosas, para que ele faça 
brilhar em nossos corações a glória de uma vida que lhe foi totalmente dedi­cada, 
a fim de podermos imitar este seu servo, Paulo, compreendendo como 
tornar nossas as suas atitudes e o seu modo de pensar. Que Deus desafie a
nossa vontade enquanto estudamos a Palavra e abrimos os corações ao mi­nistério 
do Espírito. 
Os versículos 1 a 11 que já examinamos, revelam como Paulo agrade­cia 
e orava a Deus pelos cristãos de Filipos. Os versículos 12-26, no entanto, 
são seu testemunho pessoal. Aqui, vemos Paulo erguendo os olhos para o 
mundo ao redor, para seu passado, seu presente e seu futuro. Ele os examina 
de um certo ponto de vista. 
A avaliação correta da vida e até mesmo a pessoa que somos, não de­pende 
do que nos aconteceu durante a vida, nem de onde temos morado. 
Depende basicamente da atitude com que encaramos a nossa vida - nosso 
passado, presente e futuro. Creio que foi Elton Trueblood quem disse: “Es­tou 
plenamente convencido de que a humanidade não mudou nem um til. O 
que tem mudado, naturalmente, são as circunstâncias que lhe cercam a vida. 
Mas o homem é o mesmo. Reage de modo igual; pensa de modo igual; dadas 
as mesmas oportunidades, deseja de modo igual; há de cobiçar as mesmas 
coisas, como sempre fez”. 
Acredito que seja uma observação perspicaz e verdadeira. Paulo não só 
nos conta aqui quais eram as circunstâncias em que se achava, mas também 
nos mostra como uma pessoa age e reage, uma vez que colocou Cristo no 
centro absoluto de sua vida. E. Stanley Jones denominou-o de “hipótese 
central de sua vida”. Se você faz com que Cristo seja o eixo giratório, o vér­tice 
de tudo — a pessoa para quem todos os aspectos de sua vida são volta­dos, 
o alvo a quem todos os minutos de sua vida consciente apontam, então 
as conseqüências, inevitavelmente, aparecerão em sua vida e atitudes, como 
aconteceu com Paulo. Comecemos por um exame das perspectivas múlti­plas 
com que Paulo enxergava suas circunstâncias e adversários. 
Paulo Avaliava os seus Sofrimentos Positivamente 
Primeiramente, vejamos com Paulo o seu passado. Nos versículos 12 e 
13 encontramos o apóstolo dizendo: “Quero que percebam que o sofrimen­to 
pelo que passei, o meu sofrimento pessoal, não é nada que deva nos en­tristecer 
Ou desanimar”. A prisão e as aflições que sofreu não o fizeram sen­tir 
que devia reclamar bem alto e esperar que os outros tivessem pena dele 
pelos maus-tratos que recebera. Sabemos como podemos nos sentir quando 
alguém nos trata com injustiça. Acho que Paulo poderia muito bem ter-se 
considerado a pessoa mais injustiçada de todo o mundo. Era um homem que 
não tinha feito nenhum mal, que dedicara sua vida somente para servir os 
outros. Entretanto, estava confinado sob acusação falsa. Por inveja e ódio 
diabólicos, planos foram arquitetados para se livrarem dele; de fato, mais de 
quarenta homens chegaram a jurar que se não o pudessem matar, comete­riam 
o suicídio com greve de fome (At 23:12-21). Tal foi a intensidade do 
ódio dirigido contra a sua pessoa. Estivera preso por dois anos em Cesaréia
(aceitando que Filipenses foi escrito de Roma), pelo simples motivo de que 
ninguém aparecera com dinheiro suficiente para subornar o governador a 
fim de que o soltasse. 
O tratamento injusto do passado continuava no presente. Paulo ainda 
estava preso em Roma porque tinha apelado para César. Mais dois anos se 
passariam antes que fosse solto, durante os quais Paulo pagaria o aluguel da 
casa que lhe servia de prisão, acorrentado dia e noite a um guarda pretoria-no. 
Contudo, com o tempo ficou provado que todas essas coisas que lhe 
aconteceram no passado, mesmo os naufrágios, visavam o bem. Vamos para 
2 Co 11, por um momento, onde se pode ver uma série de experiências às 
quais Paulo tinha sobrevivido nos versículos 23 a 28. Diz ele: “Falo como 
louco (como fora de mim) — muito mais trabalhamos, muito mais apri-sionamentos, 
com incontáveis açoites (Paulo diz: “Já esqueci quantas vezes 
fui açoitado, todas as cicatrizes praticamente se uniram”), muitas vezes em 
perigos de morte. Cinco vezes recebi das mãos dos judeus os “quarenta açoi­tes 
menos um” (sempre menos um, para que a pessoa não morresse, pois 
nenhum judeu queria ser julgado diante de Deus pela morte da pessoa fusti­gada). 
Três vezes apanhei de vara (referindo-se ao modo como os romanos 
açoitavam); uma vez fui apedrejado. Três vezes sofri naufrágio; uma noite e 
um dia fiquei à deriva no mar; em viagens muitas vezes, em perigos de rios, 
em perigos de ladrões e salteadores (tudo, diz Paulo, contribuiu para o 
bem)”.P 
ara esclarecer: se você tem o ponto de vista de Paulo sobre o que lhe 
acontece na vida, você já avançou bastante na estrada da maturidade cristã 
ou santificação. A santidade não é aquele ideal religioso elevado, pelo qual a 
pessoa se torna um religioso solitário fanático ou um eremita que passa o 
tempo todo num cubículo, com as mãos cruzadas e as costas cada vez mais 
curvadas num arco santificado. Isso pode ter muito pouco a ver com a santi­dade 
que pode ser descrita como um ponto de vista, uma maneira cristã 
(de Cristo) de avaliar o que está acontecendo com você. 
Nas palavras de Rm 8:28, Paulo escreveu o conhecido “Biotônico Fon­toura” 
do crente, como podemos denominá-lo. O crente tem a Palavra in­violável 
e eterna de Deus para assegurar-lhe que, se realmente ama a Deus e 
foi chamado para compartilhar de seu divino propósito, só o bem poderá re­sultar 
de todas as circunstâncias exteriores que afetam a sua vida. É se­melhante 
ao que Isaías diz: “Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai, nós somos 
o barro, e tu o nosso oleiro; e todos nós obra das tuas mãos” (Is 64:8). À 
medida que Paulo observava seu mundo e experimentava tudo que lhe acon­tecia, 
reconheceu o maravilhoso trabalho do oleiro que formava e moldava a 
massa flexível e receptiva do seu coração. Ele se regozijava então nos seus 
sofrimentos (Cl 1:24), reagindo sempre com atitude de aceitação positiva e 
nunca com amargura ou auto-piedade com relação àquilo que Deus estava fa­zendo 
em sua vida.
Olhemos agora, mais uma vez, para o versículo 12: “As coisas que me 
acontecem têm antes contribuído para o progresso do evangelho”. Paulo 
não disse que gostou de suas circunstâncias. Não estava dizendo: “Eu estou 
completamente louco e por isso gosto desses acontecimentos dolorosos, 
ruins, pois minha mente não está funcionando bem.” Porém, o que Paulo 
afirmou foi o seguinte: “Eu avalio as coisas más que têm acontecido em 
minha vida em termos de como elas contribuem para o bem superior, o que 
realmente faz valer a pena e torna o investimento compensador. Esse bem é 
o progresso do evangelho”. 
No original, a palavra traduzida por “progresso” é um termo militar 
que retrata trabalhadores com machetes e machados abrindo caminho atra­vés 
da mata, a fim de preparar a passagem para o exército. Era de máxima 
importância abrir caminho para o exército avançar. Paulo estaria dizendo 
assim: “Já estive ali na frente, sofrendo os ferimentos bem como a oposição 
do inimigo, mas louvo a Deus porque o nosso exército está avançando — o 
Evangelho tem progredido porque o caminho foi aberto. Esta palavra que 
ele usa novamente um pouco adiante, fornece uma chave para compreender­mos 
o entusiasmo de Paulo. No versículo 25, o “progresso” que Paulo espe­ra 
ver na igreja filipense se refere ao crescimento deles na fé e na maturidade 
espiritual. Aqui ele fala no “progresso do evangelho” no sentido de o evan­gelho 
“se tornar conhecido em toda a guarda pretoriana” (v. 13). 
Antes que a arqueologia nos informasse melhor sobre esta palavra, 
pensávamos que o pretório se referisse somente ao palácio do imperador 
em Roma ou do governador na capital de uma província (At 23:35; Mt 
27:27). Através de algumas inscrições descobrimos agora que o pretório tam­bém 
pode referir-se à guarda, que era especialmente os “olhos e ouvidos” do 
imperador nas principais cidades em todo o mundo romano. É possível 
mesmo que Filipenses tivesse sido escrito em Éfeso porque devem ter havido 
componentes da guarda pretoriana para zelar pelos interesses do imperador 
ali. Fm Roma, a guarda pretoriana se compunha de cerca de nove mil ho­mens, 
escolhidos dentre a elite das tropas de todo o império. Não sò tinham 
de ter o porte físico correto — altos, de ombros largos, fortes — também 
tinham que ter a lealdade de coração e ser homens dignos de confiança, 
mesmo sob pressão. Recebiam salário duplo, para assegurar que trabalhassem 
satisfeitos. Eram responsáveis pela guarda dos prisioneiros do imperador, in­cluindo 
Paulo nesta ocasião. 
Imagine um guarda pretoriano sendo algemado com Paulo. Tinha que 
dormir ao lado desse homem para garantir que ele não escapasse. É possível 
que Paulo nem sempre dormisse bem. Imagine o guarda ter que escutar a 
Paulo na escuridão silenciosa da noite. E Paulo falava sobre Jesus, outro 
Senhor, outro kúrios, em lugar do imperador. Mas esse soldado pretoriano 
estava lá justamente para proteger a posição ímpar e autoridade suprema da­quele 
único imperador através de todo o mundo civilizado. Contudo ali esta­va 
Paulo falando em outro Senhor (kúrios, no grego) cujo nome era Jesus
Cristo. Aqueles guardas militares devem ter saído de perto dele meneando a 
cabeça. Devem ter considerado Paulo um obcecado, visto que ele falava so­bre 
este Senhor dia e noite. Certamente, pensavam em quem seria esse Jesus, 
o que lhe aconteceu, por que Paulo tinha tanta certeza da sua ressurreição. 
Naturalmente teriam aguçado os ouvidos quando Paulo contava do julga­mento 
e crucificação dele sob Pilatos, um governador romano. Talvez, a 
princípio, nada disso lhes fizesse sentido, mas no outro dia teriam um pouco 
mais clara desta vez, e assim, um por um, ouviam as boas novas do evangelho. 
É possível que não haja lugar mais propício para proclamar o evangelho do 
que uma prisão, o público cativo não podia escapar nem forçar o evangelista 
a silenciar-se. Pobres guardas pretorianos! Se não quisessem receber a Cristo 
como seu Senhor, deviam então pedir demissão da força. Sem dúvida, alguns 
deles se renderam ao kúrios de Paulo. 
Além disso, veja o final de Filipenses, onde o texto diz: “Todos os san­tos 
vos saúdam, especialmente os da casa de César” (4:22). Paulo estava se 
referindo ao lugar onde estava preso, onde tinha tido o privilégio de procla­mar 
o evangelho e ver o seu progresso entre aqueles que estavam algemados 
com ele, aqui descritos como sendo da casa do imperador. 
Notemos que as algemas a que Paulo se refere são suas “cadeias, em 
Cristo, que se tomaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos 
os demais” — as cadeias são em Cristo e sua prisão é por Cristo, e esta é uma 
segunda conseqüência dos sofrimentos de Paulo que ele considera positiva­mente. 
Não só os guardas pretorianos aprendiam sobre Jesus e sobre o evan­gelho, 
como também, ele acrescenta, “todos os demais” : as outras pessoas 
também ficavam sabendo disso. O povo em geral não estava separado dos 
guardas. Os escravos e a população da cidade estavam logo discutindo sobre 
Paulo e suas “boas novas”. 
A terceira conseqüência afetava os cristãos de Roma ou Éfeso, que cjo-meçavam 
a falar sobre o Senhor mais ousada e livremente (v. 14). Além dos 
guardas que tinham de ouvir a Paulo, além da difusão das novas pelos guar­das 
e todas as pessoas da casa de César, os cristãos também começavam a dar 
testemunho do amor e da graça salvadora de Deus. Você deve saber, por cer­to, 
que a maioria dos cristãos não testemunha, pelo menos a maior parte do 
tempo. Um membro “normal” de uma igreja não percebe que na sua vida 
diária deve ser um missionário, considerando a causa missionária como sua 
própria missão. Algumas poucas pessoas são assim, mas não existem muitas. 
Era o que acontecia na cidade onde Paulo estava preso. Nesse aspecto, não 
havia nada de realmente fora do comum que diferenciasse a igreja de Roma 
ou Éfeso das nossas igrejas hoje. Muitos cristãos escolhem um método de dar 
testemunho que podemos chamar “método silencioso”. Não dizem nada. Vi­vem 
sua vida cristã tão calma e prazeirosamente quanto possível. E as 
pessoas que vivem acima deles, as que moram em baixo ou ao lado deles no 
seu prédio de apartamentos nem suspeitam que aqueles cristãos possam ser 
estrangeiros, cidadãos de outro país chamado céu (cf. 1:27; 3:20). Como
poderiam saber? Entretanto, quando Paulo estava na prisão por amor ao 
evangelho, correu a notícia de que esse homem era diferente; ele não conse­guia 
deixar de anunciar a boa nova sobre o Salvador. 
Em 1 Co 9, Paulo revela uma parte do segredo sobre a obrigação que 
pesava sobre ele e o impulsionava. Ele estava sob uma maldição, um tipo es­tranho 
de maldição, é lógico, porque não dá para sabermos quem a pronun­ciava. 
É possível que fosse Paulo amaldiçoando a si mesmo. Ele dizia: “Ai de 
mim se não pregar o evangelho” (v.16); quer dizer, que um “ai” (maldição) 
o alcançaria no caso de ele deixar de falar sobre Jesus Cristo a todos com 
quem estivesse em contato íntimo. Quando aqueles cristãos do primeiro sé­culo'viam 
alguém sofrer pelo evangelho, a consciência de cada um começava a 
apertá-lo tanto, a ponto de não conseguir ficar calado acerca de Cristo. Não 
se limitavam a falar a respeito dele, mas como Paulo faz questão de frisar no 
v.l4, comunicavam a Palavra de Deus ousadamente e com desassombro. An­tes 
de Paulo ser preso, haviam sido derrotados pelo medo de serem presos 
por promover a causa de outro Rei. Mas a experiência de Paulo na prisão 
não lhes parecia assim tão má. Ele não parecia nada infeliz ou deprimido. 
Uma das principais razões para temermos a prisão é, naturalmente, o medo 
de ficarmos tristes e detestarmos muito o lugar. Paulo, porém, parecia pros­perar 
naquela situação. Avaliava as circunstâncias de um modo tão diferente, 
que os cristãos estavam chegando a conclusão: “É, não deve ser tão ruim 
como eu pensava”. Então se inflamavam com o fogo ardente do amor pelo 
Senhor. Em toda parte, na cidade de Roma ou Éfeso, podia-se encontrar 
cristãos que estavam testemunhando sobre o Senhorio, a Soberania de Jesus 
Cristo, ousadamente e com desassombro. 
Se alguém fosse avaliar os eventos propriamente ditos que cercavam 
o apóstolo, não compreenderia a situação. Mas como Paulo tinha uma ati­tude 
que podemos chamar de positiva, otimista, missionária, isso estimulou 
o surgimento desse tipo de cristianismo, primeiro na casa de César e mais 
tarde através de toda a cidade. 
Paulo Reagiu Diante da Oposição dos Cristãos Positivamente 
Dessa consideração das circunstâncias passadas e presentes de Paulo, 
com a interpretação que ele lhes dava, voltamo-nos a uma apreciação da ati­tude 
de Paulo para com uma igreja dividida. Às vezes, não obstante nosso 
desejo e esforço de evitá-lo, uma igreja pode dividir-se. Lendo os versículos 
15 a 18 podemos observar que havia uma comunidade cristã dividida na ci­dade 
onde Paulo estava preso. Ele escreve: “Alguns efetivamente proclamam 
a Cristo por inveja e porfia”. 
Será possível existir isso? Ali alguns cristãos não estavam pregando a 
Cristo porque o amavam, mas por rivalidade, por inveja de Paulo e daqueles 
que eram a seu favor. Em outras palavras, sua idéia era que pregar o evan­
gelho fazia parte de um jogo político. Provavelmente, irritavam-se com a 
fama e o êxito de Paulo no piogresso do evangelho, e por isso escolhiam ser 
da oposição e considerar a Paulo como rival. Se eram legalistas, certamente 
criticavam o seu evangelho de salvação pela graça. Podemos reconstruir seus 
pensamentos da seguinte forma: “Paulo diz que você deve receber a Jesus 
Cristo sem obras e sem a necessidade de observar a lei, pois a cerimônia e o 
ritual nada significam para ele. Veja o que vai acontecer ao cristianismo se as 
pessoas o seguirem. Cairá por terra por falta de substância, regras e rituais 
definidos”. Essas pessoas não viam nenhum problema em seguir a Cristo. Es­tes 
sim, tinham acertado porque falaram favoravelmente da lei, como pode­mos 
ver em Mateus, mas Paulo parecia ter-se tornado um antinomiano. 
• Podemos então entender porque os adversários estavam transtornados 
com a maneira em que Paulo avançava, mesmo estando na prisão. Podemos 
comparar a situação de Paulo com a de uma pessoa que está contra o gover­no, 
e é colocada na cadeia por isso, mas enquanto ela está lá o seu partido 
cresce. Assim os críticos, os inimigos de Paulo, decidiram fazer uma cam­panha 
contra ele. Ficamos admirados ao ver que o melhor modo que acha­ram 
para diminuir a Paulo ou vencê-lo, foi pregar o evangelho, tentar conver­ter 
mais pessoas do que Paulo convertia. 
O desejo de realizar uma campanha dessa natureza veio da inveja e ri­validade 
ou porfia. Há várias palavras aqui para descrever sua motivação: 
“por discórdia”, “insinceramente” (v.17), “por pretexto” (v.18). Todos os 
motivos que tinham p"ara pregar o evangelho estavam errados, contudo esta­vam 
pregando a Cristo (v. 18). 
E a reação de Paulo, qual devia ser? Muitos pregadores de hoje acon­selhariam 
assim: “Paulo, se eu fosse você, acabaria com essa raça. Colocaria 
uma propaganda de página inteira na Folha de Roma e contaria a todo mun­do 
seus defeitos; faria propaganda de todos os seus pontos negativos; fulano 
e sicrano são hereges, não acreditam no evangelho verdadeiro, pregam a 
Cristo por motivos falsos”. Mas Paulo não seguiu esse caminho de modo al­gum. 
Por que Paulo não os condenou como carnais? Por que não começou a 
pregar contra irmãos tão sem amor, tão críticos, causadores de dissensões? 
Por que não apelou à autoridade suprema de sua apostolicidade? Afinal de 
contas, ele era o “papa” daquela cidade, pelo menos na ocasião, porque era 
o único apóstolo presente ali, ainda que seu trono fosse provavelmente uma 
velha esteira no chão da prisão. Por que não os excomungava a todos de uma 
vez? Entretanto não encontramos esse tipo de espírito em Paulo, por causa 
de sua atitude missionária positiva e encantadora. 
Vamos parar e examinar por um minuto uma das expressões mais 
admiráveis de Filipenses. Paulo, em uma passagem singular, mostTa sua ati­tude 
despreocupada. Uma frase curta revela seu ponto de vista: “Todavia, 
que importa?” (v. 18). “Que importa o que acham de mim contanto que 
Jesus Cristo esteja sendo pregado? Eu sou feliz como um pássaro. Ficaria 
contente em ter todo mundo como rival, se isso incentivasse mais pessoas a
proclamarem a boa nova de Jesus Cristo. Pensam que estão contra mim, mas 
na verdade estão a meu favor. Pensam que vão salgar minhas feridas, mas 
quando a questão é pregar o evangelho, eu não tenho feridas”. Uma atitude 
assim só pode ser demonstrada por um cristão maduro. Quando você não se 
importa com o que as pessoas pensam ou dizem sobre você, quando a opo­sição 
e os insultos delas não o incomodam de maneira nenhuma, você che­gou 
então a um ponto que o Dr. Hans Bürk chama de “integração” num ní­vel 
tal que suas preocupações principais se focalizam em tudo menos em si 
próprio. 
Paulo estava imitando o exemplo de Jesus que demonstrava uma in­tegração 
perfeita ao ser falsamente acusado, insultado e finalmente condena­do 
(cf. 1 Pe 1:18-24). Quando as pessoas eram invejosas, críticas, insinceras, 
buscando “suscitar tribulação” às suas cadeias (v. 17), isso se tornava uma 
oportunidade para o apóstolo mostrar sua “moderação ” (4:5) a todos. Paulo 
sabia alegrar-se voluntária e espontaneamente nas circunstâncias presentes 
(“me regozijo” v. 18b) e ter certeza de que qualquer dificuldade futura não 
haveria de afetar sua alegria em Cristo (“sim, sempre me regozijarei” v. 18). 
E só podia mesmo regozijar-se com o fato de que o nome de Jesus estava 
sendo proclamado e o evangelho apresentado. 
Paulo Encarava o Futuro Positivamente 
Vamos observar agora o modo como Paulo encarava o futuro.Tinha 
muita confiança em relação ao futuro, embora não soubesse se Deus o per­mitiria 
sobreviver à crise presente. No passado, muitas vezes fora colocado 
diante da morte, e em cada uma dessas ocasiões Deus o havia resguardado. 
Mas, neste trecho de Filipenses, ele abriu o coração aos leitores, revelando 
seu pensamento maduro sobre a morte em si. A expressão chave de sua ava­liação 
do futuro encontra-se no v.21: “Porquanto, para mim o viver é Cristo, 
e o morrer é lucro”. Devemos voltar ao cap. 3 onde Paulo apresentou o 
mesmo ponto de vista novamente, num testemunho bastante pessoal que se 
encontra no v.8: “Perdi todas as coisas e as considero como refugo, para 
ganhar a Cristo ”. Quando Paulo olhou seu futuro tão incerto, ele desconhe­cia 
o número de dias ou meses de sua prisão, não sabia que sentença lhe da-riam 
quando seu caso fosse julgado, mas sabia uma coisa: conhecia a Cristo. 
E porque conhecia a Cristo, para ele faria muito pouca diferença o ser solto 
ou decapitado, pois qualquer dos dois caminhos iria manter sua “hipótese 
central”, que era a comunhão contínua com seu amado Senhor. Continuaria 
uma pessoa bem realizada e alegre, acontecesse o que acontecesse, pois é 
assim que se deve enfrentar o futuro. Quando a pessoa tem sua confiança to­tal 
no Deus onipotente, nada de ruim pode sobrevir, porque os eventos e as 
circunstâncias são controlados por Ele. Só haviam duas opções, e qualquer de­las 
que Deus escolhesse para Paulo tinha que ser a melhor.
Vamos fazer agora uma paráfrase do versículo 19: “Regozijo-me — es­tou 
feliz da vida mesmo nessa prisão. Primeiramente sei que suas orações vão 
trazer-me um suprimento do Espírito de Jesus Cristo”. É uma frase difícil, 
esta última. Não sabemos se Paulo queria dizer: “Serei mais cheio do Es­pírito”, 
ou se ele afirma: “O Espírito Santo vai me dar tudo de que necessi­to 
para enfrentar qualquer provação que terei de enfrentar, a fim de que eu 
atravesse sem perder nem um pouco da minha alegria no Senhor”. Além do 
mais, esse “suprimento do Espírito” que viria em resposta às orações dos 
filipenses redundaria em sua “libertação” ou salvação. Paulo não tem certeza 
se será libertado, livrado da morte, mas ele tem certeza de sua salvação (v.6). 
Se ele for solto, será salvação no nível humano. Se for para a glória, será sal­vação 
na dimensão celestial. 
A expressão “minha ardente expectativa ” (v.20), descreve uma pessoa 
que aguarda com a mesma emoção e antecipação de uma criancinha que sa­be 
que vai participar da melhor experiência imaginável, quem sabe um pi­quenique 
ou uma visita ao zoológico. Paulo reconhece que o Espírito es­tá 
operando seu salvamento, acompanhado pela expectativa e esperança do 
apóstolo de que em nada será “envergonhado”. Não que Paulo se enver­gonharia 
de Cristo, mas contemplava a possibilidade de perder sua coragem 
na hora crucial. Poderia dizer algo ou agir de alguma maneira que levasse as 
pessoas a crer que Jesus Cristo não era real. Se ele estivesse no banco dos 
réus durante seu julgamento e o promotor público lhe pedisse seu depoi­mento, 
poderia, por algum motivo, calar-se ou deixar de dar testemunho cla­ro 
e destemido em favor de seu Senhor. Afinal de contas, Pedro negou seu 
Mestre, não só uma vez, mas três vezes. Que vergonha terrível deve ter opri­mido 
o apóstolo veterano quando confessou seu ato covarde a Paulo. Por 
isso, Paulo pede as orações fervorosas de seus amigos de Filipos, para que 
não fique envergonhado quando chegar o momento de tomar posição 
por Cristo, a fim de que o faça da maneira mais perfeita possível. E assim 
continua seu pensamento: “Em nada serei envergonhado; antes, com toda a 
ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu cor­po, 
quer pela vida quer pela morte ” (v. 20). 
O importante é que aqui se ensina como devemos encarar o corpo, 
aquela nossa parte que valorizamos tanto. Sem dúvida alguma, ele é muito im­portante. 
A maior parte do tempo, trabalhamos e lutamos pelo corpo, para 
que ele esteja vestido, alimentado, bem agasalhado debaixo de um teto, 
aquecido, subimos e descemos as ruas da cidade como também pagamos 
bem para transportá-lo aos lugares mais lindos e confortáveis do mundo. 
Não se pode negar que o corpo seja importante. Mas Paulo tinha apreen­dido 
na prisão outra coisa sobre o corpo, que influenciava seu ponto de vis­ta. 
Ele descobrira que o mais importante com relação a seu corpo não era 
nenhuma das coisas que nos preocupam a maior parte do tempo. A grande 
preocupação dele é que seu corpo seja um sacrifício sem mácula, perfeito, 
para Jesus Cristo. Se o seu sangue fosse derramado no altar de mártir e sua
cabeça rolasse no pó, não seria nenhuma tragédia. Antes, sua morte haveria 
de glorificar a Deus de modo maravilhoso. Através da morte e através de 
meu corpo sacrificado, afirma Paulo, Cristo será exaltado. Ora, esta é real­mente 
a coisa mais importante do mundo, que todo corpo seja um sacrifício 
na morte ou na vida (Rm 12:1). 
Mas, e se Deus o deixar viver? Nesse caso, esse corpo terá que viajar 
um pouco mais. O apóstolo tinha muita vontade de ver de novo os filipen­ses. 
Se Deus o levasse nessa direção, uma série de bênçãos viriam a aconte­cer. 
Em primeiro lugar, Paulo aguarda um trabalho frutífero (v.22), que 
nesse caso seria o crescimento espiritual e numérico da igreja em Filipos. 
Paulo precisa de seu corpo lá na Macedônia para que isso se realize. Em se­gundo 
lugar, ele diz: “Poderei dar-lhes mais assistência” (v.24). E em tercei­ro 
lugar, ele tem esperança de estimulá-los no progresso na fé e incrementar 
sua alegria em Cristo. A igreja filipense amava muito a Paulo, então esperava 
ansiosamente que ele viesse visitá-la e lhe pregasse outra vez as maravilhosas 
verdades de Jesus Cristo. 
Mas, e se ele morrer? Será lucro para o apóstolo. Cristo será ganho 
completamente (cf. 3:7,8). Paulo reconhecia que após a morte estaria com 
Cristo. João nos dá a certeza de que seremos como Ele (1 Jo 3:2). Por fim, 
Paulo diz que é bem melhor estar na companhia de Cristo. 
Conclusão 
Nesse pequeno resumo autobiográfico, temos o retrato de um homem 
que tem um ponto de vista cristão integrado sobre a vida e a morte. Já foi 
dito, e é verdade, que quem não tem o ponto de vista certo sobre a morte, 
não terá também o conceito correto sobre a vida. 
E. Stanley Jones nos deixou um exemplo de uma atitude correta para 
com a vida e a morte, quando viajava num avião que sobrevoava o aeroporto 
de Saint Louis nos Estados Unidos. 0 aeroporto estava fechado, e o avião 
dava voltas por duas horas. Temos aqui o que o veterano missionário escre­veu 
quando pensou que estava vivendo os últimos instantes de sua vida: “Es­tou 
em paz espiritualmente, sem tensões, porque creio que a hipótese cen­tral 
de minha vida está correta. A vida é só uma longa verificação desta hi­pótese 
central. Esse fato me dá um senso de estabilidade. Estou aqui em ci­ma, 
neste avião. Há duas horas o avião dá voltas acima destas nuvens. Se não 
aterrisarmos com segurança, gostaria de deixar meu último testamento para 
meus amigos e companheiros seguidores de Cristo. Ei-lo: Existe paz, a per­feita 
paz, independente de minha fidelidade ao Soberano. Não tenho pesares 
ou remorsos sobre o curso geral de minha vida. A vida com Cristo é a manei­ra 
de viver. Nesta hora, há segurança, há Deus por fundamento, debaixo de 
todas as incertezas da existência humana. Portanto, descanso em Deus. Que 
ele dê o melhor para todos vocês. Vivendo ou morrendo, eu sou dele, só dele.
Glória. Assinado: E. Stanley Jones”. 
Antes de orarmos, gostaria que você examinasse a hipótese central de 
sua vida. Qual é mesmo o centro de sua vida? É Cristo? São os bens mate­riais? 
É alguma posição com que você tem sonhado, talvez a de chefe de 
alguma companhia? São notas altas que você está ansioso por alcançar? Meu 
caro amigo e irmão em Cristo, só há uma hipótese central capaz de se provar 
verdadeira ao longo de toda sua vida e que o guie com segurança até o fim: é 
Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. Se você ainda não o conhece, es­pero 
que sua oração agora seja: “Senhor, salva-me. Dou-lhe minha vida”. 
Oração: Pai celestial, rogamos-Te que cada pessoa que lê estas pala­vras 
possa deixar a seus filhos, esposo ou esposa, o mesmo testamento que 
E. Stanley Jones deixou quando viajava naquele avião: “Glória ”. Que cada 
pessoa possa dizer como Paulo: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é lu­cro 
realmente”. 
Pai, ao examinarmos nossas vidas e as circunstâncias que nos afetam, 
ajuda-nos a avaliá-las a partir do mesmo ponto de vista que o teu apóstolo 
Paulo. Sabemos que isso só será possível para quem conhece a Jesus Cristo 
pessoalmente e o recebe no coração, entronizando-o no centro de sua vida. 
Que pela tua graça isto seja verdade para cada pessoa a quem nos dirigirmos. 
Em nome de Cristo Jesus, Amém.
OS CIDADÃOS DO CÉU EM COMUNIDADE 
Filipenses 1:27-2:4 
27 — Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de 
Cristo, para que, ou indo ver-vos, ou estando ausente, ouça, no 
tocante a vós outros que estais firmes em um só espirito, como 
uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica; 28 - e que em 
nada estais intimidados pelos adversários. Pois o que é para eles 
prova evidente de perdição, é, para vós outros, de salvação, e 
isto da parte de Deus. 29 - Porque vos foi concedida a graça 
de padecerdes por Cristo, e não somente de crerdes nele, 30 — 
pois tendes o mesmo combate que vistes em mim e ainda agora 
ouvis que é o meu. 
Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação 
de amor, alguma comunhão do Espirito, se há entranhados 
afetos e misericórdias, 2 - completai a minha alegria de modo 
que penseis a mesma cousa, tenhais o mesmo amor, sejais uni­dos 
de alma, tendo o mesmo sentimento. 3 - Nada façais por 
partidarismo, ou vangloria, mas por humildade, considerando 
cada um os outros superiores a si mesmo. 4 - Não tenha cada 
um em vista o que é propriamente seu, senão também cada 
qual o que é dos outros. 
Introdução 
Até este ponto (1:27) em Filipenses, Paulo não tinha feito nenhuma 
exortação (embora seja fácil notar que há nos versículos anteriores numero­sas 
exortações implícitas). Mas neste ponto, no v.27, Paulo parte para o cor­po 
da carta: começa a divulgar o verdadeiro motivo de a estar escrevendo. O 
novo parágrafo começa com o imperativo, “Vivei”, como se Paulo quisesse 
pedir a maior atenção possível para o que está para dizer. “Acima de tudo” 
são palavras que também chamam atenção para uma prioridade. Nos pará­grafos 
anteriores ele falava sobre si mesmo: Filipenses, em primeiro lugar, é 
uma carta autobiográfica. Mas agora ele deseja que seus amados leitores 
dêem atenção especial ao que vai dizer. E quanto a nós, será que estamos 
prontos para nos concentrarmos e esperarmos no Senhor, a fim de receber 
dele uma mensagem particular através desta porção importante de Sua 
Palavra? 
Cidadãos de Roma e do Céu 
De início, o apóstolo faz referência à cidadania romana, o que todos 
os filipenses conheciam muito bem. A frase “viver de modo digno” traduz o
original “viver como cidadão digno”. Paulo também estava consciente de sua 
posição privilegiada de cidadão romano. Voltemo-nos para At 16:20 e 21. 
Vemos que o povo de Filipos ficou revoltado com Paulo e Silas por eles pertur­barem 
a paz, sem ao menos pedir uma autorização. Visto ser Filipos colônia 
romana e todos os seus habitantes cidadãos romanos por nascimento, espera­vam 
que os estrangeiros como Paulo e Silas tratassem o povo com todo o res­peito 
devido aos que se consideravam conquistadores do mundo. Então, 
para sentirmos o sabor da primeira exortação de Paulo, devemos traduzir a 
frase como: “Que sejais manifestações”, ou que “sejais um modelo de cida­dãos 
celestiais”. Parte daí nosso título para este capítulo. Seus leitores, 
além de serem romanos, eram cidadãos do céu habitando um lugar bastante 
terrestre chamado Filipos, na Macedônia (que hoje é o norte da Grécia). 
O que significa sermos participantes dessa comunidade celestial, para 
nós que ainda não habitamos no céu? Se você é nascido de novo, se você é 
uma nova criação, e se tem seu nome escrito no Livro da Vida do Cordeiro, 
você realmente pertence a uma família celestial. É assim que a pessoa se tor­na 
cidadão do céu na terra. Portanto, este parágrafo fala sobre estrangeiros 
num país que não é seu próprio, entrando em conflito com os valores e cul­tura 
estranhos aos seus. 
Como é que se vive a vida celeste na esfera terrestre? Que tipo de rela­cionamento 
comunitário deve-se manter com o povo celestial aqui, já que 
você não é o único cidadão do céu que vive na terra? Qual será sua atitude 
para com os ataques mentirosos daqueles que chegam a odiar os estrangeiros 
e que ficariam felizes em vê-los voltar à sua pátria no céu? Pense na China 
onde os estrangeiros antigamente eram considerados presa, e podiam ser 
mortos livremente, onde ouviam por todo o lado o apelido “diabos estran­geiros”. 
(Quando eu era criança, na Bolívia, nós os evangélicos, freqüente­mente 
éramos chamados de “diabos”.) Além do mais, Paulo tinha algo mui­to 
específico a dizer sobre a obrigação que temos de viver esta vida celestial 
como comunidade de Cristãos; para dizer a verdade, ele tem mais a dizer so­bre 
isso de que sobre outras questões. Vejamos estes pontos pela ordem. 
Começando, o versículo 27 subentende esta advertência: Que sua cida­dania 
seja digna do país, terra do qual vocês vêm e do rei ao qual servem. 
“Somos embaixadores de Cristo”, Paulo avisa aos Coríntios (2 Co 5:20): 
Ora, se vocês são embaixadores e se são comunidade composta de foras­teiros 
e peregrinos que pertencem a outra terra (cf. 1 Pe 1:1,17), como de­vem 
viver? Paulo diz: “Ou indo ver vocês, ou estando ausente, insisto em 
que fiquem firmes em um só espírito.” Essa é sua primeira exortação nesta 
carta. Apela para que os filipenses tomem posição e coloquem os pés no 
chão firmemente em “um espírito” . Nesta tradução da Bíblia, a palavra 
“espírito” está com letra minúscula. Entretanto, como o grego usá maiús­culas 
para todas as letras, isto tanto pode se referir ao espírito humano, 
como ao Espírito Santo. Parece bem provável que Paulo se referisse ao Es­pírito 
Santo que é a fonte de toda a unidade cristã. Em Efésios, ele diz:
“Vocês devem esforçar-se diligentemente, com entusiasmo, para preservarem 
a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4:3). Os cristãos se unem não 
porque falam uma mesma língua, nem porque têm a mesma aparência, nem 
porque são possuidores da mesma cultura e comem o mesmo tipo de alimen­to. 
Pelo contrário, a única coisa, até onde pude descobrir na Bíblia, que real­mente 
une os cristãos como comunidade mundial ou local é o Espírito San­to. 
Visto que fomos batizados pelo Espírito Santo para comunhão geral, um 
único corpo (1 Co 12:13), agora temos a obrigação de manter esta unidade e 
nos colocarmos juntos diante do mundo. É impossível imaginar qual seria o 
tamanho e o calor da igreja durante os últimos dois mil anos. É fácil supor 
que em nenhuma parte do mundo haveria outra coisa a não ser uma comu­nidade 
de cristãos onde poderíamos nos aceitar e apoiar mutuamente, onde 
quer que fôssemos. Contudo, porque nós os cristãos não nos mantivemos 
unidos no Espírito e porque permitimos divisões por questões inúmeras e 
razões variadas, mesmo quando afirmamos pertencer a um só Senhor de to­dos, 
vivemos indignos de nossa cidadania celestial comum. Em vez de con­servarmos 
a unidade do Espírito, temos promovido a fragmentação e o divi-sionismo 
por não concordarmos conjuntamente. 
Lutando Juntos pela Fé 
Filipos era uma cidade famosa também por ter recebido o nome de 
Filipe, pai de Alexandre, o Grande. Filipe da Macedônia conquistou a Gré­cia 
depois que aprendeu um princípio fundamental de batalha, transmitido a 
Alexandre. Descobriu que conservando os soldados de uma falange bem uni­dos, 
treinando-os a se moverem como um só instrumentgo de luta, pode-se 
vencer o inimigo. Primeiro Filipe, e também depois Alexandre, a quem o pai 
convenceu, treinavam as tropas a ficarem bem juntas e a lutarem com menos 
homens que os adversários. Alexandre chegou a enfrentar três homens com 
um, muitas vezes, e sempre seus exércitos venciam. Ganhou um império vin­te 
vezes maior que a Grécia, de onde partiu para as conquistas. Não se per­mitia 
nenhuma divisão na hora de se enfrentar o inimigo. Com seus escudos 
enormes, os soldados avançavam ombro a ombro, cortando caminho mesmo 
através do exército persa. Depois, os homens de Alexandre se abriam em le­que 
para acabar com o inimigo dividido. 
Paulo mandou esta carta à igreja de Filipos porque a desunião tinha 
prejudicado sua defesa conjunta contra o inimigo comum. Não sabemos exa­tamente 
de onde surgiu a falta de união que preocupa a Paulo. Mas sabemos 
que Paulo reconheceu a comunhão quebrada e admoestou os filipenses, di­zendo 
que para se vencer esta batalha contra o mundo e contra o inimigo, é 
preciso que todos os membros estejam “lutando juntos pela fé evangélica” 
(v.27). “Lutar” aqui representa a palavra grega que significa dispensar todos 
os esforços na causa, como faz um atleta. Não visualiza uma pessoa jogando
sozinha, nem uma competição entre indivíduos, como o arremesso de disco 
ou a disputa de uma corrida individual; pelo contrário, Paulo visualiza um ti­me, 
uma equipe, onde cada jogador ou soldado tem um desempenho, contri­buindo 
para um esforço solidário, com a única meta de ver o time ou o 
exército ganhar para Cristo. Assim, a união dos crentes na luta pela fé no 
evangelho há de defender a igreja e promovê-la. 
Toda igreja tem muito que aprender sobre como “lutar juntos pela fé 
evangélica”. Deus deseja que tomemos consciência de que se os cristãos vão 
mesmo ganhar o mundo para Cristo, não vão fazê-lo por um esforço indivi­dual: 
é necessário um esforço solidário, de equipe. A batalha que vencerá a 
Satanás e libertará os escravos mantidos sob o seu poder há de ocorrer 
quando tivermos nos unido em oração, e formado uma sociedade sacriflcial 
com mensagem penetrante que traga convicção e converta os homens a Cris­to 
eficientemente. Tanto as nações como as empresas sabem quão pouco se 
pode fazer através de indivíduos dispersos. Mas qliando organizam centenas 
ou milhares de pessoas num único propósito, elas de repente se tomam uma 
força inestimável. 
Não Intimidados 
Por que o povo de Deus tem causado tão pouco impacto em nosso 
mundo? Um motivo importante é sua desunião e individualismo. Que esta 
primeira exortação de Paulo aos filipenses nos ensine isso, convencendo os 
corações para pormos em prática essa decisão de nos mantermos unidos no 
evangelho. 
Em segundo lugar, negativamente, Paulo aponta o perigo que os cris­tãos 
enfrentam, no versículo 28. Os cristãos perseguidos correm o risco de se 
assustarem oü saírem em debanda quando o inimigo lhes apresenta qualquer 
ameaça. Essa expressão faz-nos imaginar um quadro cheio de cavalos excitá­veis, 
que facilmente entram em pânico. Há muitos anos atrás, antes dos dias 
em que as rodas facilitavam a locomoção, como fazem hoje, meu pai era 
missionário na Bolívia e era dono de um cavalo chamado Príncipe, que o le­vava 
às vilas remotas nas altas montanhas dos Andes. Aquele cavalo era um 
perigo para qualquer pessoa, exceto meu pai. Só ele podia aproximar-se do 
Príncipe, pegá-lo pela rédea e montá-lo calmamente o dia todo. Conosco, o 
Príncipe pulava para frente ou para trás e dava coices, rápido como relâmpa­go 
. Não que o Príncipe tivesse raiva de nós, só tinha medo excessivo. O en­corajamento 
que Paulo dá é para que não tenhamos medo de coisa alguma. 
Qualquer que seja a ameaça com que o inimigo consiga assaltar, não tema, 
Cristo é mais forte. Nunca se intimide diante do adversário, pois Cristo 
ganhará a batalha por você. 
Os filipenses deviam também lembrar-se que a oposição ao evangelho, 
a oposição perseguidora, evidencia claramente o destino final daqueles que
mostraram os crentes (v.28). Os que tanto desejam fazer sofrer os cristãos 
são assinalados pela marca da destruição, enquanto que os crentes, quando 
perseguidos, revelam que são recipientes da salvação, e que isso vem de 
Deus. Sofrer perseguição por causa de Jesus Cristo, sem voltar-lhe as costas, 
confirma sua fé nele e é um sinal seguro de que você está no seu caminho 
para o céu. Normalmente os cristãos que são perseguidos têm certeza de sua 
salvação. 
Paulo chega ao ponto de declarar que sofrer por Cristo se constitui 
num privilégio (v.29). Aqui a palavra chave é graça, significando o favor de 
Deus. Você sabe que se já sofreu oposição por causa de sua entrega a Jesus 
Cristo, então Deus já derramou a Sua graça sobre você? Fazendo compa­ração 
com a moral humana, temos as palavras que Ernest Emingway escre­veu: 
“Quanto à moral, eu sei que a única coisa que é moral é aquela que me 
permite sentir bem depois que a faço”. Todos concordamos que isso nada 
tem a ver com o Cristianismo. Ao contrário, se você defende a verdade e o 
direito por causa de sua fé em Jesus Cristo, pela graça de Deus é que você 
tem o privilégio de fazê-lo. Deus não lhe dá apenas a graça de receber a salva­ção, 
dá-lhe também a graça de sofrer por ele. E mais tarde, no capítulo 3, 
Paulo encontra no sofrimento a graça que traz benefício a toda nossa consti­tuição 
espiritual e moral (3:10). Então, nós que temos sofrido muito pouco 
pela causa de Cristo, caminhando pela estrada mais fácil possível, deixamos 
de experimentar algo de grande importância no Cristianismo. E Paulo diz 
que é pela graça de Deus que lhe é permitido sofrer por amor a Cristo. 
Portanto, foi assim que Paulo descreveu a maneira pela qual devem vi­ver 
os cidadãos celestes. Devem ser unidos. Devem ter seus pés bem firmados 
nesta unidade. Devem ser de um só pensamento enquanto lutam juntos con­tra 
seus adversários. E precisam ser conscientes de que Deus tem sido gra­cioso 
para com eles de duas maneiras: uma, em dar-lhes a promessa do céu; 
a outra, em dar-lhes adversários para que batalhem contra eles. Você conse­gue 
imaginar estar treinando futebol ou basquete com um ótimo treinador, 
mas sem nunca ter adversários para jogar uma partida a sério? Não é o que 
deve acontecer com o Cristianismo. Para Paulo, pelo menos os filipenses são 
cidadãos celestes que formam um time para lutar pela vitória por Jesus Cris­to. 
E toda a glória lhe é devida. 
Elementos Fundamentais na Unidade Cristã 
Agora vamos ao segundo capítulo. Inicialmente, o apóstolo apresenta 
quatro atitudes essenciais ou fundamentais necessárias para se chegar à vitó­ria 
por Cristo (veja v.l). A igreja, unida como um exército mobilizado sobre 
esses quatro fundamentos, estará preparada para lutar em prol da boa causa 
de Cristo e pode esperar derrotar os inimigos. O primeiro fundamento é 
“a exortação em Cristo”, introduzida por “Se há, pois”. O melhor modo de
traduzir esta frase não é com a palavra “se” mas com “visto que”. “Visto 
que há a exortação, o encorajamento de Cristo ” com que podemos contar, a 
igreja não deve se desanimar na batalha contra o mal. A palavra grega para 
encorajamento (paraclésis) inclui o sentido de exortação, apelo e estímulo à 
ação. Jesus deu ao Espírito Santo o nome “Paracletos ”, referindo-se a este 
ministério de encorajar a Igreja (cf. Jo 14:16,26; 15:26; 16:7). O segundo 
fundamento se refere à consolação do amor de Deus, “Visto que há conso­lação 
de amor”. E então Paulo acrescenta, “Visto que há comunhão do Es­pírito” 
uma koinonia ou participação no Espírito, e finalmente, “Visto que 
há entranhados afetos e misericórdias”, uma afeição emocional profunda e 
uma simpatia, então podemos realizar o que Paulo está pedindo. 
Agora vejamos esses fatores essenciais de união para ver como nos afe­tam 
pessoalmente. Primeiro de tudo paraclésis pode referir-se à pessoa que 
fica junto de você para observar suas ações e fortalecer sua decisão. Como 
professor que observa o principiante que escreve as respostas na prova, Ele 
avalia o cristão durante o seu progresso. Podemos imaginar que o professor 
diga: “É, não está bem certo. Você está chegando lá. Tente de novo. Não 
desanime”. Nosso Senhor tanto nos encoraja como nos corrige. Enquanto 
observa como você está tomando as decisões e lidando com crises, ele tam­bém 
o está ajudando a mèlhorar durante todo o percurso. 
Jesus Cristo assegurou aos discípulos, “Eis que estou convosco todos 
os dias até a consumação do século” (Mt 28:20) para que Ele pudesse atuar 
como o “paracletos” da Igreja, assim como faz o Espírito Santo, animan­do- 
nos em Cristo. Ora, nossa vida cristã muitas vezes é desencorajadora. Al­guns 
de vocês pode ter mais de cem razões diferentes para estarem desalenta­dos 
em sua vida de cristão. Talvez, um dos motivos seja a impressão de te­rem 
feito pouco progresso ultimamente no seu caminhar com Cristo. Quem 
sabe você tenha alcançado um certo nível há dez anos atrás, ali se acomo­dou, 
e não consegue despertar o desejo de passar adiante, mais para o alto. 
Não está trabalhando mais para a causa de Cristo. Não sente maior alegria 
em Sua presença, nem faz oração com mais confiança nele do que antiga­mente, 
portanto sente que o alvo de crescer na semelhança de Cristo está 
tão longe hoje como há anos atrás. O que se deve procurar quando se está 
parado num só nível, desta forma? A resposta pode ser descoberta no encoraja­mento 
de Cristo. Volte-se para o Salvador, diga-lhe tudo que sente, na avalia­ção 
mais honesta possível; confesse o pecado do comodismo, arrependa-se e 
peça ao Senhor: “Agora, ó Senhor, anima-me! Alenta-me pelo teu Espírito, 
dá-me o encorajamento por quaisquer meios que sabes serem melhores para 
mim”. Se você acha que sua vida cristã está parada em um só nível, dedique 
algum tempo para receber novamente o encorajamento de Jesus Cristo. 
A segunda frase se refere à “consolação de amor”. Creio que esta pode, 
ser uma parte de uma passagem trinitariana, embora se omita a palavra 
“Deus”. A palavra “consolação” tem aqui o valor de estímulo, de um em-
purrãozinho por trás. O sentido está bem ligado ao “encorajamento” que re­trata 
chegar ao lado de alguém e tomar a mão da pessoa. O amor faz isso: dá 
ao cristão que sofre de letargia, um impulso para a frente. 
Se Paulo estava pensando na trindade, deixou de usar a palavra “Deus”, 
mas pode bem ser que estivesse focalizando o encorajamento de Cristo, o 
amor de Deus, e a participação no Espírito. A trindade aparece em várias 
passagens do Novo Testamento em ordens diversas. Portanto, acredito que é 
o amor de Deus que deve ser o nosso incentivo. 
Foi esse mesmo amor divino que motivou a humilhação de Cristo, 
como veremos nos v.5-8 a seguir. Foi o amor de Deus por nós que, tão in­tenso, 
fez com que Ele desse Seu Filho para morrer por nós a fim de que 
não perecêssemos, mas nos deleitássemos eternamente na glória de Sua pre­sença. 
Por causa do amor de Deus, somos levados a cultuá-lo, honrá-lo e ser­vi- 
Lo incessantemente. Tão grande assim é o incentivo do amor de Deus con­cretizado 
no Calvário, que também nos impulsiona à frente, para sermos re­cebidos 
em seus braços acolhedores. Foi amor dessa natureza que acolheu o 
filho pródigo quando o pai o abraçou e o beijou, dizendo: “Você estava per­dido 
mas agora foi achado. Que alegria tê-lo de volta”. É um incentivo 
dessa natureza que foi criado pelo amor de Deus. Que Seu infinito amor por 
você possa motivá-lo a chegar-se aos Seus braços abertos, se você ainda não 
voltou para o lar do Pai. 
A frase seguinte é a “comunhão do Espírito Participar da comunhão 
significa sair do individualismo para criar uma vida em comum. Esse mutua-lismo 
é produto da vida do Espírito em nós. É claro que o Espírito já entrou 
em comunhão conosco quando escolheu morar em nós. Porém, somos convi­dados 
a dar um passo à frente ativamente, para viver continuamente com 
Ele, buscando uma comunhão mais íntima com o Espírito. Lembre-se tam­bém 
que o Espírito oferece aos homens espirituais o privilégio de ver coisas 
que o mundo não pode ver, ouvir coisas que ninguém antes ouviu (1 Co 2:9). 
Realidades espirituais assim são impossíveis de se comunicar ao coração que 
não é regenerado. As pessoas que estão sendo chamadas à comunhão com o 
Espírito, participam, ao mesmo tempo, de um mundo celeste e de um mun­do 
terrestre. É quase como se você pudesse chegar em sua casa, e afastan­do- 
se de todo o caos e maldade do mundo, alegrar-se na comunhão com 
Deus como nosso Pai. É essa participação no Espírito que torna real nossa 
união espiritual com Deus. O Espírito Santo nos fornece uma ponte entre o 
céu e a terra, para que possamos viver como cidadãos celestiais (1:27) neste 
mundo, em comunhão com o Espírito. 
E finalmente, Paulo se refere ao elemento essencial de ligação, algo 
que nos é muito natural chamado de “entranhados afetos e misericórdias". 
Creio que ele está pensando no amor caloroso que os filipenses tinham por 
ele, e no seu próprio afeto pela amada igreja da Macadônia. Esses cristãos, 
por causa de seu afeto, com toda certeza sentiam grande compaixão e se 
preocupavam por Paulo na prisão. E este, reciprocamente, tinha grande
amor por eles. Depois de ter apresentado esses quatro fundamentos da uni­dade 
cristã, Paulo começa a exortar a igreja quanto a essa unidade: “Comple­tai 
a minha alegria de modo que penseis a mesma coisa O apóstolo se preo­cupava 
muito com que os filipenses tivessem um só pensamento, uma mente 
unida. Nem a diversidade de instrução, em culturas diferentes vêm ao caso. 
A palavra é igual à do versículo 5, que descreve a mente de Cristo.Uma tra­dução 
pouco adequada para o grego phronéò seria o termo “atitude”. Um 
amor em comum e uma apreciação das mesmas coisas une pessoas diferen­tes, 
com origens, experiências e culturas distintas. Até mesmo uma família 
pode apresentar diversidade profunda na personalidade e nos interesses, mas 
se cada um dos membros realmente ama aos outros, eles têm uma só mente. 
Existe um só pensamento porque sua atitude é sempre favorável a cada 
pessoa da família. Cada membro apóia e defende os outros mutuamente. 
Assim, portanto, Paulo anima os filipenses a desenvolverem e demonstrarem 
tal atitude, uns para com os outros. O apoio e encorajamento mútuo é de 
suma importância para que os cristãos tenham ambiente em que cresçam 
no Senhor. 
Embora alguns de vocês estejam freqüentando uma igreja há muito 
tempo, talvez não tenham sentido o apoio mútuo e a preocupação de uns 
pelos outros que todo cristão precisa sentir. É uma falha séria de nossa par­te. 
Paulo utiliza outra palavra nesta passagem que descreve o relacionamento 
que se formou entre Jônatas e Davi. Suas almas “se ligaram”, segundo 
1 Sm 18:1. Isso deve significar que se alguém feria a alma de Jônatas estava 
machucando também a alma de Davi. Ou se Davi era abençoado ou encoraja­do, 
o mesmo ocorria com a alma de Jônatas. Paulo usa uma palavra que ele 
pode ter criado, um neologismo — “almar-se juntos” — com referência à es­pécie 
de unidade na qual as personalidades se unem em uma só. Quando isso 
acontece, há alegria no céu, bem como na prisão de Paulo. Ele já estava se 
regozijando no Senhor, mas ter notícia da unidade espiritual dos filipenses 
haveria de completar sua alegria (v.2 grego “plerosate”, significando “cum­prir”, 
“encher até à borda”). 
Em seguida, Paulo estimula os leitores a completarem sua alegria de­monstrando- 
lhe o “mesmo sentimento”ou “mesmo amor”(v.2). Você pode 
perguntar o que vem a ser esse “mesmo amor”. Deve ser, naturalmente, o 
mesmo amor que Deus tem. Deus derramou seu amor em nossos corações 
através de Sua dádiva do Espírito Santo (Rm 5:5), de maneira que possamos 
amar pessoas que normalmente não se importariam conosco em absoluto. 
Aparentemente nada têm a contribuir para nós, mas o amor de Deus torna 
possível os cristãos reconhecerem nele um irmão de valor infinito. É assim 
que se demonstra o mesmo amor que Deus revela. Paulo tinha essa espécie 
de amor divino para com os filipenses. 
Em terceiro lugar, o Apóstolo exorta a igreja a ser ligada em unidade 
de alma (gr. sumpsuchoi, “almas juntas”). E em quarto lugar, ele insiste que
aqueles cristãos pensem como um só, para que sejam unidos no pensamento, 
no coração e no Espírito (v.2b). 
Conseguindo Unidade na Igreja 
A questão que precisamos examinar agora é: como será que uma igreja 
consegue essa unidade? Reconhecemos que não a temos. Os filipenses não a 
tinham, por isso Paulo expressou este desejo profundo por eles. Quero suge­rir 
que, de acordo com o versículo 3, todos precisamos agir de uma certa 
maneira. Todas as ações precisam ser altruísticas, feitas com a intenção de 
beneficiar a todos. Nada deve ser feito por egoísmo. Nosso principal adver­sário 
não é o diabo mas nosso velho ego, interessado em si mesmo. Que 
vontade temos de sair por cima, salientar-nos, aparecer! Alegramo-nos com a 
unidade, contanto que eu seja um pouco “mais igual” do que os outros. Al­guns 
de vocês já devem ter lido A Revolução dos Bichos de George Orwell. 
O problema principal que os animais não podiam resolver foi o desejo dos 
porcos de serem “mais iguais” que os demais. Ou então, pense em como 
você se sente quando é desprezado um pouco, quando você é rebaixado por 
algum comentário feito por alguém. Nossa reação reflete aquele velho ego 
que mais uma vez está procurando primeira posição. Isto representa a fonte 
de todas as divisões e os problemas que temos ao tentarmos viver juntos em 
união. 
Se podemos eliminar o egoísmo e as rivalidades, bem como a vangloria 
(o segundo vocábulo do v.3), absorvendo a mente de Cristo, então podere­mos 
com toda a humildade considerar os outros melhores que nós mesmos. 
Observemos esta frase tão cuidadosamente composta. Se você está conse­guindo 
viver de acordo com esta exortação em particular, você está bem per­to 
do que podemos chamar de cerne da santidade, e já se achegou ao co­ração 
de Deus. Saber ser humilde é um desafio bastante grande em si. No 
Novo Testamento, pela primeira vez na história, ser humilde, no sentido de 
considerar os outros melhores do que você mesmo, é valorizado como virtu­de. 
Antes disso, humilhar-se significava rebaixar-se, uma qualidade despreza­da. 
O orgulho e amor próprio eram virtudes. E ainda hoje, será que não é o 
amor próprio que transparece na maioria das pessoas que se dedicam à polí­tica? 
Isso não explicaria quase toda a propaganda? Não é ele que fundamenta 
qualquer progresso feito no mundo? Pois não é fácü aceitar uma opinião 
contrária e dizer: “Você é melhor. Tome você o melhor lugar e eu fico com 
a segunda posição”. “Humilhai-vos na presença de Deus” (Tg 4:10) significa 
uma humildade ativa, decisiva. Não significa que você deva pensar em si com 
complexo de inferioridade. Antes, Paulo se refere a uma maneira de agir, ou 
de tratar o próximo. Em 1 Pe 5:6, Deus promete que aqueles que se hu­milham 
debaixo da soberana mão de Deus, descobrirão que Deus os'exaltará
no Seu tempo certo (Lc 14:11). Pois você descobrirá que o poder de Deus 
está fluindo através de sua vida produzindo estas mesmas características que 
hão de aumentar a alegria no céu, e também na terra. 
Enquanto que o versículo 3 dá ênfase a uma humildade decisiva e ati­va, 
o versículo 4 aplica o altruísmo a uma preocupação positiva pelas ne­cessidades 
e aspirações de um irmão. Não devemos procurar o que é vanta­joso 
para nós pessoalmente, mas tentar sempre olhar qualquer questão rela­cionando- 
a ao outro, pensando no que seria vantajoso para ele, e então agir 
de acordo. Essa humildade e altruísmo produzem na Igreja condições para 
que se possa desenvolver o mesmo pensamento, o mesmo amor, estar de ple­no 
acordo e de mente unida. São as quatro características essenciais para 
uma igreja ser um povo santo de Deus num ambiente mundano. 
Conclusão 
Eis a palavra do Senhor para nós hoje. E agora, como vamos pô-la em 
prática? O que vamos resolver? Em Cristo e sua Salvação ele nos ofereceu a 
perfeita unidade do céu. Se um de nós receber o chamado para ir ao lar da 
Glória, há de experimentar a mais perfeita comunhão pessoal, na mais exce­lente 
comunidade possível. Será muito melhor do que qualquer um de nós 
pode imaginar. Como não haverá pecado nem egoísmo, não haverá compe­tição, 
ou rivalidades políticas. Não haverá desacordo, todos terão a mesma 
mente e o mesmo amor. Deus nos diz nesta passagem: “Olha, quero que vi­vam 
essa vida celeste aqui na terra o tempo todo. Vivam-na em casa, com a 
esposa, e ela com o cabeça da casa. Dêem sempre qualquer vantagem à outra 
pessoa. Estejam realmente preocupados com a outra pessoa em primeiro lu­gar. 
Em vez de ser o número um, dê este lugar ao outro.” 
Que prazer há em encontrar a palavra exata na ocasião exata! E esta 
ocasião exata, veja bem, é aquela em que, habitualmente, buscamos a vanta­gem 
de nosso irmão ou irmã mesmo quando significa nossa própria desvanta­gem. 
O que importa? Por fim, a vantagem eterna é a Glória de Deus e sua 
missão de ser embaixador da vida celeste aqui na terra. Você pode discordar 
desse tipo de vida abnegada. Os filósofos e pensadores gregos discordaram. 
Você só vai concordar com esta vida quando conhecer Jesus Cristo interna­mente 
. Se você o conhece pessoalmente, se Ele entrou em seu coração e no 
seu viver, então creio que concorda comigo em que essas palavras são mesmo 
celestiais, e vale a pena viver e lutar para a glória de Deus. 
Oração: 0 Deus nosso Pai, pensar em todos nós como membros de 
Tua família é realmente uma alegria e um privilégio, pois somos todos mem­bros 
de Tm família e todos nós recebemos o direito de viver em Teu palá­cio. 
Mas Senhor, os filhos muitas vezes discutem e entram em desacordo. 
Tantas vezes deixamos de nos unir contra o inimigo que gostaria de nos
arrebatar e trazer angústia, tristeza e lágrimas. Pai, mostra-nos como viver 
pelo Espirito, no encorajamento de Cristo, pelo amor que nos tens, ó Deus, 
pelo convite do Espírito Santo, pelo afeto mútuo que nos une um ao ou­tro, 
e por sentirmos a compaixão e a misericórdia. Portanto, Senhor, aju­da- 
nos a saber realmente como humilhar-nos e como viver nossa cidadania 
celeste dentro de um mundo bastante difícil. Obrigado, Senhor, pelo privilé­gio 
de podermos ser uma parte de um time, como é a Tua igreja. Obrigado 
pela unidade que nos deste. Oh, que possas nos dar muito mais. Dá-nos um 
amor mais profundo entre nós. Ajuda-nos a lutar juntos pelo evangelho, para 
que possamos estender-nos e ganhar outros ao nosso Salvador e Senhor 
Jesus Cristo.
0 CENTRO DA HISTÓRIA 
Filipenses 2:5-11 
5 - Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em 
Cristo Jesus, 6 - pois ele, subsistindo em forma de Deus não jul­gou 
como usurpação o ser igual a Deus; 7 - antes a si mesmo se 
esvaziou, assumindo a forma de servo, tomando-se em semelhan­ça 
de homens; e, reconhecido em figura humana, 8 — a si mes­mo 
se humilhou, tomando-se obediente até à morte, e morte 
de cruz. 9 - Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e 
lhe deu o nome que está acima de todo nome, 10 - para que 
ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e de­baixo 
da terra, 11 - e toda língua confesse que Jesus Cristo é 
Senhor, para glória de Deus Pai. 
Os primeiros quatro versículos do segundo capítulo de Filipenses fo­ram 
escritos para incentivar a igreja a viver sua fé cristã sob o impacto to­tal 
do ministério da Trindade: o encorajamento de Cristo, a participação do 
Espírito, e o amor de Deus. Paulo conclui esse trecho, dedicado à unidade 
da igreja filipense, apresentando o exemplo comovente de Jesus nosso 
Senhor, durante seu ministério, seguido de Sua gloriosa exaltação. 
Oração: Pai, desejamos elevar agora, com as hastes angelicais, nossa pa­lavra 
de louvor a um Deus tão poderoso que nos deu Seu Filho Unigênito, 
para que Ele morresse em agonia humilhante na cruz. E queremos confessar 
Seu nome, o nome que está acima de todos os nomes, o nome de Kúrios 
- Senhor. Dá-nos a graça de vivermos de modo coerente com essa confissão 
submetendo-nos ao Seu Senhorio, para a glória de Deus, nosso Pai, em nossa 
cidade, em nossa casa, em nossa vida conjugal, em nossos relacionamentos 
com colegas e com os filhos. De todas as maneiras, em todo lugar, que Jesus 
Cristo seja Senhor. Rogamos agora Tua benção sobre a Tua Palavra, enquan­to 
a estudamos e nela meditamos. Em nome de Jesus. Amém. 
Introdução 
Já faz alguns séculos que os pensadores vêm procurando a chave para a 
explicação de toda a história. Para alguns homens como Camus ou Jean Paul 
Sartre, é óbvio que a história não tem sentido nenhum. As peças teatrais de 
Samuel Beckett expressam esse ponto de vista — que tudo que ocorre, acon­tece 
inteiramente por acaso. E visto que não há sentido na história, não há 
nenhuma trama para o enredo. É como a trama de um dicionário. Já ouviu 
contar da pessoa que parou de ler o dicionário, porque não dava para pegar 
o fio da estória? Era apenas uma porção de palavras, definições, idéias des­conexas, 
isoladas. Jean Paul Sartre e os existencialistas modernos que o 
acompanham, negam o controle soberano de Deus sobre a história e mantêm 
uma visão semelhante dos eventos históricos. Não se descobre neles nenhum
propósito interno relacionador nem um plano mestre, nem sequer algo com­parável 
à ordem alfabética que se impõe ao dicionário. Essa visão desespera-dora 
da história contrasta-se com o ponto de vista dos gregos da antigüidade, 
tais como Heródoto e outros historiadores que viveram antes de Cristo. 
Observavam o cenário que passava, os eventos que pareciam significativos, e 
imaginavam ver um traçado, uma configuração. Não tinham a capacidade 
de explicar por que aquela configuração se faz presente na história, mas 
viam que misteriosamente ela correlaciona e integra certos eventos em um 
todo. Para os gregos, a história era como uma roda que gira. E aquelas na­ções 
afortunadas que estivessem do lado de cima por um tempo, veriam suas 
posições invertidas no futuro. A roda da sorte inevitavelmente retornaria à 
posição inicial. Seriam assim os choques da história. Por exemplo, o grande im­pério 
persa oprimiu a Grécia no século 5 A.C., mas foi subjugado depois por 
Alexandre, o Grande, que atravessou o Helesponto para dar à roda da histó­ria 
outro impulso de 180°, colocando a Grécia em cima. Esperava-se que 
mais tarde a Grécia experimentaria decadência, e o domínio passaria para 
outra potência, como Roma. Os historiadores e os filósofos da história têm 
tentado explicar o processo histórico mediante a teoria dos giros da roda da 
história, em ciclos. 
Nem os escritores bíblicos, nem os cristãos acreditam cordam com os filósofos existencialistas modernos angustia ndiossso q. uNeã ocr cêoemn­que 
não haja significação na história, nem pensam como os filósofos gregos 
que crêem que a história seja circular. Antes, a história tem para eles um 
significado, por causa da revelação e da profecia de Deus, um sentido que é 
como uma linha que se estende desde o começo (criação do homem) até a 
conclusão predita no livro do Apocalipse. A história pode ser comparada a 
uma viagem que se faz, ou um conto que se conta. Uma estória tem um co­meço: 
“era uma vez”, e tem um final: “viveram felizes para sempre”. Mas a 
trama, ou sentido, deve ser encontrado em algum lugar no enredo. Da mes­ma 
maneira, o sentido de uma viagem se encontra na sua finalidade e desti­no. 
Só viagens de férias sem destino, podem se tornar sem sentido. 
O Sentido Central da História 
A passagem que acabamos de ler, na opinião de alguns estudiosos, foi 
originalmente um hino cristão escrito na língua aramaica (a língua materna 
de Jesus). Quando traduzida de volta para o aramaico, parece poesia. É fá­cil 
de separá-la em estrofes. 
Essa pequena divisão de Filipenses capítulo dois, versículos seis a on­ze, 
apresenta-nos o plot, a trama central da história. É o ponto explanató-rio 
do drama da história. Podemos observar que a chava da própria trama é a 
palavra “cruz”. Assim como a cruz tem bem no seu centro, um ponto onde 
se cruzam as traves transversal e vertical — assim também no centro do dra­ma 
da história, exatamente no centro, — está a cruz de Jesus Cristo.
Do alto da cruz, no Gólgota, Jesus proclamou: “Estáconsumado,” está 
acabado (Jo 19:30). Foi atingido o clímax, e daquele ponto em diante, todos 
os eventos iriam contribuir para o desfecho positivo que Deus propôs desde o 
princípio para a história que está se aproximando do fim. O ato final está sendo 
encerrado. Espera-se a conclusão com uma explosão de luz e brilho que há de 
irromper sobre um mundo descrente e desesperador. ■ 
Ora, o mistério da história humana, da qual todos participamos, expli­ca- 
se por dois fatores opostos, dos quais estamos todos cientes. Cada um de 
nós participa destes dois fatores opostos. Primeiro, o fator chave do qual todos 
estamos tão apercebidos: o egoísmo. Em cem por cento dos divórcios, se fôsse­mos 
ouvir a narração da causa por que Joãozinho e Maria não podem mais viver 
juntos, descobriríamos que tanto um como o outro não passam de criaturas 
egoístas. Se você quiser entender porque o mundo tem sido arruinado por 
guerra, assolação, banditismo, pirataria, roubo, ferimento, luta, injustiça, críti­ca 
e ciúme, vai descobrir que a causa fundamental se explica por esse único fa­tor, 
pois a característica do homem decaído é o egocentrismo. Os historiadores 
escrevem sobre as guerras da história, porém geralmente não contam por que 
Alexandre, o Grande queria conquistar um império, a ponto de mobilizar seu 
exército e treiná-lo até que fosse o melhor do mundo. Não é comum os escrito­res 
explicarem porque suas tropas se dispuseram a arriscar a vida, suportando 
dificuldades para conquistar a Pérsia; ou porque os romanos fizeram tantas 
guerras civis, lutando com denodo e sacrifícios incríveis, até finalmente domi­narem 
grande parte do mundo civilizado da época. Toda a bacia do Mediterrâ­neo 
tornou-se um mar romano. Por que será, também, que Hitler uniu a Ale­manha 
sob ditadura? Havemos de descobrir que a resposta está nestes elemen­tos 
universais, o egoísmo e o orgulho. 
Mas existe no mundo um fator oposto, que deseja o amor, a paz, a ale­gria, 
a generosidade, a bondade, e todo o fruto do Espírito (Gálatas 5:22,23). 
As pessoas que não têm nenhum compromisso com o Cristianismo também es­tão 
envolvidos no sustento de orfanatos, em contribuição para asilos e mil ou­tras 
causas filantrópicas dignas. 
Recebi uma carta, há pouco tempo, escrita por Dr. J. AndrewKirk, em 
Londres. Ele analisava a teologia e a economia, uma tarefa considerável. Dizia: 
“Não gosto da economia capitalista, principalmente do tipo clássico. Por que? 
Por ser egoísta. Mas não gosto de Marxista, porque também é egoísta”. Onde es­tará 
o sistema econômico que realmente há de controlar o egoísmo e desejar a 
prosperidade de todo empreendimento benéfico com o homem vivendo em 
paz e com a generosidade humana fluindo como o Rio Amazonas, inundando 
as terras? A única maneira para que isto aconteça é o recebimento, pelo ho­mem, 
de mente nova ou atitude nova. Há várias traduções que tomam esta pa­lavra 
“sentimento” (Gr. phronêma) versículo 5, como “obter uma nova atitu­de.” 
A falta dessa nova atitude é que nos faz orgulhosos e egoístas. 
É uma disposição mental, um egocentrismo, onde tudo se interpreta, 
se entende e se explica em termos de “eu e meu”. F. B. Meyer chamou-o 
de “doença” de proporções epidêmicas, por ser tão predominante, não 
somente fora, mas também dentro da igreja. Deu a essa doença
o nome de “Me-ismo”. É claro que o problema não é recente. Contaminou 
os filipenses também. Duvido que qualquer pesquisa médica tenha encontra­do, 
ou encontrará uma cura para este mal. Você, com toda a experiência de 
vida como esposo ou esposa, ou como educador de seus filhos, já encontrou 
um antídoto para o “me-ismo” ou uma forma de obter essa disposição men­tal, 
a mente do próprio Jesus Cristo? A verdade é que todos reconhecemos 
que esse é o tipo de mènte que precisamos, porém poucos entre nós, ou mes­mo 
ninguém, conseguimos adquirir. “Tenham em vocês (ou entre vocês) a 
atitude de Cristo Jesus.” (O grego não faz distinção entre as palavras “em” e 
“entre”). Esta disposição de mente controla seu modo de tratar e de pensar 
sobre a outra pessoa. Por isso a Escritura ordena que adquiramos o ponto de 
vista de Jesus. 
Para que aprendamos o sentido desta expressão, Paulo prossegue nos 
dizendo o que é essa atitude mental, e ilustra como isso produz efeito nas 
ações. Se adquirirmos a atitude de Cristo, ou a Sua maneira de pensar, ca­minharemos 
na direção do que a Bíblia chama de “santificação”. Examine­mos 
o que Paulo escreveu. Primeiramente, fala de uma verdade básica com 
respeito à pessoa de Jesus. É importante, porque a realidade sobre a Sua 
pessoa torna claro os Seus direitos. Ninguém pode ser egoísta se não tiver di­reitos. 
A lei do direito humano individual, adotada pela Constituição Ameri­cana 
e por outras após a revolução Francesa, tem suas raízes históricas no 
início da democracia britânica com a “Carta Magna” inglesa; e, antes disso, 
nas cidades-estados da democracia grega onde os antigos filósofos ensinavam 
que todos os cidadãos possuíam certos direitos inalienáveis. Porém ninguém 
jamais teve os tipos de direitos que Jesus tinha. “Pois ele, subsistindo em 
forma de Deus”, significa que participou da natureza de Deus, compartilhou 
da Deidade plena da Divindade. Ele tinha todos os direitos imagináveis. É 
impossível pensar em um só direito divino que Jesus não possuísse. É óbvio 
que Ele tinha o direito de ser obedecido. Possuía o direito de ser respeitado, 
glorificado e honrado. Tinha direito à riqueza do universo, pois a criou, co­mo 
Agente do Pai (Jo. 1:3; Col. 1:16; Heb. 1:2). Não precisamos aumentar a 
lista, pois tinha todos os direitos por causa de sua divindade. Consideremos a 
frase do versículo 6, “forma de Deus. ” “Forma” é palavra grega, que signi­fica 
a realidade contrastada com o desenho ou a figura externa que é visível. 
Não se pode descrever uma pessoa apenas por uma fotografia, e dizer que lá 
está tal pessoa. Não. A pessoa está no interior, mas revela-se externamente. 
Se quer conhecer alguém, não basta olhar a pessoa. Antes, considere como é 
sua personalidade, como se expressa, e conclua então como ele é na verdade. 
Jesus Cristo é a própria expressão de Deus vivida na expressão humana ou 
encarnada. Como se afirma em Hebreus, Jesus é a perfeita manifestação do 
ser de Deus(l :3). 
O apóstolo João fala de Jesus como aquele qué “fez a exegese” de 
Deus (Jo. 1:18). Exegese é uma palavra grega que significa “trazer para 
fora’ . Então a realidade, ou o ser de Deus, manifestou-se humana e corpo­
ralmente em Jesus Cristo. Ele, sendo Deus, e nesta forma, incluindo todos 
Seus atributos, todo Seu amor, toda Sua graça, todo Seu poder, toda Sua 
onipotência, viveu na terra como Jesus. Entretanto, a questão que estamos 
examinando é: como era Sua mente? Teria sido uma mente adâmica, se 
Jesus de Nazaré fosse apenas humano. Paulo, ou quem quer que tenha es­crito 
este antigo hino (se for mesmo um hino) deve ter pensado em Adão, de 
quem herdamos nossa natureza humana egoísta. Adão também foi criado à 
imagem e semelhança, ou mesmo, na forma de Deus. 
As palavras “imagem” e “forma” são semelhantes em sentido. Adão 
foi criado com muitas das características de Deus; tinha uma mente inteli­gente 
e criativa, tinha o desejo e a capacidade de governar as pessoas e as 
coisas. Deus mandou que governasse e dominasse este mundo. Devia possuir 
a terra e usá-la, fazendo com que servisse aos seus interesses e necessidades 
para a glória de Deus. Adão devia louvar e agradecer a Deus por isso, embora 
realmente fosse mordomo ou administrador de Deus. E somente uma coisa, 
de todo este universo, foi proibida aos nossos primeiros pais. Deus não disse 
que não poderiam tocar a árvore do conhecimento do bem e do mal. Talvez 
pudessem até cultivá-la. Mas Adão e Eva foram tentados pelo Diabo. O ten­tador 
prometeu que se tornariam “como Deus” (Gen. 3:5). Adão e Eva, 
quem sabe, pensaram assim: “Fomos feitos como Deus, não fomos? Fomos 
criados à sua imagem e semelhança, mas não somos realmente como Ele. 
Existe uma árvore da qual não temos o direito de comer. Deus está limitan­do 
nossos direitos humanos, os está sufocando”. E morderam a fruta para 
que pudessem ser iguais a Deus, e exercer todos os seus direitos. O homem 
tem feito a mesma coisa desde aquele tempo. A primeira meta que o homem 
estabeleceu foi igualdade com Deus, supondo que não a tivesse, e que Deus 
não lhe dava suficiente atenção em tudo aquilo que necessitava ou poderia 
apreciar. 
Jesus Cristo, porém, não considerou sua igualdade com Deus como al­guma 
coisa da qual não poderia abrir mão. De boa vontade, desistiu de Sua 
semelhança com Deus, aparente, externa, e assumiu a forma de um escravo. 
Assim, o texto diz: “A si mesmo se esvaziou. ” A mente de Cristo significa 
mais do que o modo de pensar de uma pessoa; é o controle da sua vontade. 
O Filho de Deus decidiu: “Peixarei de ser como Deus,visivelmente honrado 
e servido por miríades de anjos. Assumirei a forma de vida humana, nascido 
como bebê, vivendo na terra.” Ele sabia exatamente como seria, pois era 
onisciente. Seu “esvaziar” transformou Sua existência da forma de Deus em 
simples condição de escravo na terra. Este é o único caso de total auto-ne-gação 
e sacrifício completo em toda a história. É o modelo perfeito daquilo 
que Deus pede a todo homem quando exige auto-negação para que se torne 
discípulo de Jesus Cristo (Mc 8:34). 
O pronome “si” é muito importante aqui, porque esvaziar-se significa 
que você não terá mais o maldito egocentrismo em si. Entregando-se, você 
deixa de se amar de maneira pecaminosa e egoísta, e abre a porta para rece­
ber a mente de Cristo. Vemos que em Lucas 9:23-25 e em outros trechos das 
Escrituras somos advertidos contra o amor próprio, para nos salvarmos a 
nós mesmos. Foi exatamente isso que Jesus demonstrou pelo seu exemplo. 
Por amor a nós, Ele Se esvaziou, não para Se salvar, mas para que nós fôsse­mos 
salvos. Por Paulo ter empregado o termo “escravo” (doulos), alguns es­tudiosos 
acham que ele pensava no “Servo Sofredor” de Isaías (ver Is. 
53:12). A palavra “esvaziou” (derramou) encontra-se lá (não há a mesma pa­lavra 
na Septuaginta, a tradução grega do V.T.). O “Servo” mencionado em 
Isaías 53:12 deveria derramar a sua alma. E, no Novo Testamento, notamos 
que as palavras “alma” e “si” são às vezes equivalentes (conf. Lc. 9:23-25 
nas traduções onde se lê “perder a sua alma”). Aqui encontramos uma suges­tão 
de como obter a mente de Cristo. É quando permitimos à alma, à sua 
própria vida representada pelo nosso egoísmo, ser esvaziada até a morte, até 
o fim. Paulo chamou alguns cristãos de Corinto de “homens almados” (tra­duzido 
por “naturais”, “carnais” ,1 Cor. 2:14, 3:1,3). Você não deseja 
derramar sua alma para dar lugar a nova vida do Espírito de Deus? Jesus 
derramou Sua alma completamente até a morte Jesus convidou as multidões 
interessadas e curiosas a lhe seguirem e se tornarem Seus discípulos. O que 
isto compreendia? Ele explicou que seria negar-se, ou derramar sua alma 
(Lc. 14:26: “aborrecer a sua própria vida”), tomar a sua cruz, e estar dispos­to 
a morrer por Ele (conf. Mt. 16:24-26). O discipulado significa aprender 
de Cristo, segui-lo, fazer o que Ele fazia, escutar, obedecer às Suas palavras 
(conf. 1 Pedro 2:21). Em conseqüência, você obterá a atitude de Cristo. 
Já vimos que Cristo se “esvaziou” quando veio a esta terra na forma 
de escravo. Qual é a forma, ou a realidade interior de um escravo? Obvia­mente, 
não significa apenas sua maneira de agir, mas diz respeito especial­mente 
ao coração e à alma do escravo. Quem tem coração de escravo não 
pode nunca sentir-se insultado ou magoado quando seus direitos são retira­dos. 
Sua alma de escravo não guarda direito algum, visto que ele já pertence 
inteiramente a outra pessoa. Assim, Jesus tinha a “forma” de servo, a consci­ência 
em si de ser um escravo submisso. Recordemos que Jesus foi atormen­tado 
pelos soldados romanos no Lithostrotum (que os turistas atualmente 
podem ver em Jerusalém) onde os soldados jogavam seus jogos com ossos. 
Em nossa Bíblia é chamado de Pavimento (Jo. 19:13), uma descoberta real­mente 
interessante dos arqueólogos. Enquanto os soldados espancavam 
Jesus, insistiam para que apontasse quem lhe batia (embora estivesse ven­dado), 
já que na opinião popular, ele era um mágico. Jesus, com todo seu po­der 
divino, poderia ter respondido com força suficiente para deter o desres­peito. 
Também não lhe seria problema cegar os perseguidores, como fez 
Elizeu (2 Reis 6:18-23). Mas, como estamos vendo, tendo o coração de es­cravo, 
Ele não podia fazer isso. Sua atitude mental fê-lo escolher sofrer tais 
insultos imerecidos. Aceitou prazeirosamente esse tratamento, e até mesmo 
pediu ao Seu Pai, depois de pregado na cruz, que aqueles soldados e todos 
conspiradores da Sua morte pudessem ser perdoados.
Essa é a única atitude mental que pode fazer com que uma igreja fun­cione, 
como o Novo Testamento indica que deve funcionar. Uma igreja deve 
ter essa disposição mental, como Templo do Espírito Santo; porém o mun­do 
não pode tê-la. O sistema econômico, as leis, as constituições que garan­tem 
os direitos humanos, tudo isso é respeitado quando a corrupção humana 
não se alastra. Quando alguém se aproveita de outro, este, se puder, chama 
um advogado e o leva à justiça. Assim o mundo pensa. “Faço-o pagar por 
isto” é a reação típica de quem saiu lesado. No cenário internacional, se um 
país estrangeiro ataca, o país atacado revida. A atitude da mente de Cristo 
não parece ser muito vantajosa sob nenhum ponto de vista prático. Contu­do, 
o que Jesus Cristo pensou e fez é a exata explicação central da história. 
Pois, quando Cristo voltar e o pecado for vencido, esse será o princípio pelo 
qual o mundo será governado. Deus quer que a igreja, o local geográfico visí­vel 
do reino de Cristo, viva agora, sob Seu Domínio, a experiência da abne­gação 
perfeita e completa. 
Prossigamos na passagem bíblica. Aprendemos que, Cristo não somen­te 
derramou Sua alma, e deliberadamente assumiu a forma de servo, ex­pressando 
a realidade interior do Seu espírito de servo com ações positivas, 
humanas e abnegadas. Decidiu lavar os pés dos discípulos, e não reagiu vin­gativamente 
quando Seus direitos lhe foram tirados. O versículo 7 afirma 
que Ele “tornou-se em semelhança de homens. ” A palavra “semelhança” 
(Gr. homoíòmatí) é diferente de “forma”. É a palavra usada por Paulo em 
Romanos 6 para explicar a realidade do batismo. Quando você foi batizado, 
o foi na “semelhança” de Sua morte. Jesus, o Filho Encarnado, tomou a se­melhança 
de homem. O que significa isto? Há a semelhança de uma pessoa 
numa fotografia. A foto não é a pessoa, mas ao olhá-la, você a recorda. Fe­lizmente, 
a Faculdade onde leciono preparou uma lista de nomes com os re­tratos 
juntos, de maneira que posso procurar meus alunos ligando nomes aos 
rostos. A fotografia não é a pessoa, mas é sua semelhança, suficientemente 
grande para identificar o estudante. C.S. Lewis discute essa realidade no seu 
livro “Palestras que Impressionam”, no qual diz que a semelhança é real, 
porque inclui algumas das características da própria pessoa. Não apenas 
como o retrato que lembra meu aluno desconhecido, mas porque a luz e a 
substância realmente fazem parte da fotografia e da pessoa real em carne e 
osso. Você não pode trocar um pelo outro, porém existe uma realidade em 
comum da qual participam a pessoa e a foto. Na humanidade de Jesus, há 
uma realidade em comum entre Ele e nós. Embora Ele fosse homem per­feito, 
era distinto de nós. Era homem, no sentido singular de Deus -homem. 
Essa referência à “semelhança de homem” provavelmente vem de Daniel 7. 
A visão de Daniel revelou um pequeno chifre, uma figura no Velho Testa­mento 
de Antíoco Epifânio, o terrível perseguidor dos judeus de 170 A.C. 
Daniel viu tronos estabelecidos, e o Ancião de Dias tomou Seu lugar, e Sua 
veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça eram como a pura lã 
(Dan. 7:9). Daniel continua descrevendo uma pessoa que se aproxima, “um
como o Filho do Homem”. Agora podemos identificar essa semelhança de 
homem, no céu, antes da Encarnação, como sendo Jesus Cristo, o Filho na 
presença do Pai eterno. E pode ser essa a referência daquilo que Paulo diz 
em Filipenses. Voltando a Daniel 7, lemos sobre o Filho do Homem, que 
descerá à terra e sofrerá sob a terrível besta (manifestação de Satanás). Será 
esmagado por ela, porém, depois, há de triunfar sobre ela, e compartilhar 
Sua vitória com os santos do Altíssimo (7:18-22). Cristo não somente 
derramou sua alma, como o último Adão, e cumpriu as profecias do “Servo 
Sofredor.” Também cumpriu a missão do Filho do Homem. De boa vonta­de, 
deixou-se vencer pela besta terrível e infernal, na Sua obediência à mor­te. 
É este o passo seguinte que Paulo menciona em Filipenses 2:8, a Sua 
humilhação e obediência. Vimos a importância crucial da humildade no pa­rágrafo 
anterior (Fil. 2:2-4). Aqui podemos observar que se trata do âmago 
da mente de Cristo. Sem considerar Seus próprios direitos e dignidade, Ele 
pôde dar atenção plena à vontade de Seu Pai, e suas terríveis exigências por 
ser o único a levar nosso pecado. 
Lembre-se do Getsêmani, onde Ele quis esquivar-se do peso da vonta­de 
do Pai. É interessante considerar a frase, “Tornou-se obediente até a 
morte.” Em outras palavras, percorreu todo o caminho até a morte. Todos 
nós que nos dizemos seguidores de Cristo, somos obedientes até certo ponto. 
Todos nossos filhos são obedientes até certo ponto, e ninguém pode dizer que 
obedece até a morte. Tal obediência exigiria o cumprimento de uma simples 
ordem: “Vá, e seja crucificado.” O filho, então, realmente iria e seria pregado 
numa cruz! Mas saiba que foi isso que Jesus fez. Prezava tanto ao Pai que che­gou 
até a morte. E que morte! A mais cruel, vergonhosa, a mais torturada e de­sumana, 
a morte de cruz. Sua obediência corresponde, por outro lado, à deso­bediência 
de Adão. Deus, então lhe deu o direito incontestável de governar e 
ser Rei sobre tudo que o homem deveria dominar. E Seu governo foi proje­tado 
para nos incluir. Nós somos súditos de Seu reino, onde Seu governo de­ve 
ser manifestado visivelmente. Essa manifestação deve ser feita num mun­do 
de contradições, onde Satanás é príncipe (Ef. 2:2,3), caracterizado pelo 
egoísmo, contudo, ainda com o ideal da generosJade, bondade e altruísmo, 
reminiscências da criação original. Os santos, ou cristãos, são os únicos que 
tem a possibilidade de viver, na prática, o exercício neste mundo. do Senhorio de Deus 
A Exaltação de Jesus Cristo 
A palavra “portanto” ou “pelo que” de Fil. 25 dá a idéia de conse­qüência, 
i.e., a exaltação de Jesus Cristo ao receber um nome acima de todo 
outro nome. Ele é agora a “Pessoa Acima” de todo o universo. Deus decre­tou 
que todos devem curvar-se perante Ele, e honrar Seu nome, que tem 
maior dignidade do que qualquer título. Esse nome é Senhor, ou Kúrios. A 
versão grega do V.T. que Paulo e a igreja primitiva tinham, usava “Senhor”
(Kúrios) na tradução do nome que não se podia mencionar, Yahweh, o no­me 
pessoal de Deus. Veja Isaías 45:23: “Tenho jurado que ao Meu nome 
todo joelho se dobrará”, é o sentido. Isso é citado neste texto de Filipenses, 
referindo-se a Jesus Cristo, nosso Senhor (v. 10). “Dobrar-se ao nome de 
Jesus” é; naturalmente, concordar com os passos descendentes e humilhan­tes 
que Ele tomou, para que Ele seja exaltado, Senhor sobre tudo. Compro­mete 
a quem se curvar para segui-lo com relação às atitudes na vida terrena. 
Ser Cristo o meu Senhor, não significa simplesmente fazer o que Ele manda, 
e evitar qualquer pecado. Não é esse tipo de Senhorio. Pelo contrário, real­mente 
exige, como seu paralelo aqui na terra, uma atitude, uma disposição 
de mente equivalente à de Cristo. Tal atitude deve, então, influenciar em tu­do 
a vida do cristão. 
O cristão, ajoelhado perante Jesus Cristo, é a manifestação exterior da 
nova natureza, plena do Espírito. O cristão, por definição, deve ser pessoa 
caracterizada pela mente de Cristo. Paulo escreveu esta parte importantíssi­ma 
de sua carta aos filipenses porque passavam por uma época de difíceis re­lacionamentos. 
Um pouco de egoísmo aqui, um tanto de orgulho ali e já es­tavam 
nublando a figura de Cristo no seio da Igreja. Embora todos confessas­sem 
que Jesus Cristo era Senhor, para a glória de Deus, os cristãos, na prá­tica, 
estavam negando essa confissão. 
Isso sugere a questão da glória de Deus. A exaltação de Jesus Cristo, 
recebendo o mais sublime de todos os nomes, o ajoelhar de toda criatura 
(que só será cumprido quando Ele voltar), e a confissão de Seu Senhorio, es­tão 
todos juntos para trazer maior glória a Deus, o Pai. O propósito da vida 
cristã se centraliza na glória de Deus. O evento mais glorificante que já acon­teceu, 
foi a morte de Jesus Cristo no Calvário. E justamente por isso se tor­na 
o ponto central de toda a história. Deus fez com que se tornasse a chave 
que explica a trama central de tudo que está acontecendo na história. Atra­vés 
de toda a eternidade será impossível esquecer a cruz. O reino milenar há 
de refletir a luz que jorra da cruz (conf. Ap. 5:6,9). A glória de Deus, o 
Pai, demonstrada com brilho radiante em Seu Filho, em quem muito se agra­da, 
reflete da cruz. Assim também têm glória refletida da cruz aqueles que 
se curvam perante Jesus, e que confessam o Seu nome. Eles têm o privilégio 
de renunciar a seus próprios direitos, derramando suas almas e subjugando 
seu próprio egoísmo com escolhas conscientes. Só assim podem “carregar 
cada dia a sua cruz” (Lc. 9:23). Jesus o fez por causa de Sua atitude de amor 
sacrificial para com Seu Pai e para com a humanidade. 
Esta passagem afirma, também, que os demônios (“debaixo da terra”) 
irão dobrar os seus joelhos diante do Senhor. Não só os cristão irão se cur­var, 
não só os anjos que servem a Deus no céu. O versículo 10 se refere a 
criaturas inteligentes na terra, i.e., os homens. Então, o versículo fala de se­res 
abaixo da terra, referindo-se aos poderes demoníacos, no seu ódio ran­gente 
e amargurado contra Jesus. Será que também confessarão a Jesus co­mo 
Senhor? Certamente, não irão confessar sua bondade e grandeza de bom
grado, como também não o farão as pessoas da terra que não O conhecem 
pessoalmente, e não O receberam como Senhor e Salvador de suas vidas. Os 
inimigos pecaminosos de Deus não reconhecerão a Jesus como Senhor porque 
o desejam, mas assim mesmo o farão. Lembra-se quando Jesus cliegou perto 
de um homem possuído por demônios? Reconheceram-no imediatamente 
como Senhor (conf. Mc. 5:7). Não puderam calar nem que o quisessem. É 
por isso que esse trecho da Bíblia esclarece que há uma decisão a ser feita 
antes que venha o juízo. Certamente, quando Cristo voltar, ninguém deixará 
de dar a honra devida ao Senhor. Você pode tomar-se co-herdeiro com Jesus 
dobrando os joelhos e confessando com o coração que Ele é Senhor (Rm. 
8:15-17). Se você quiser alegrar-se com Ele, precisa tornar-se como Ele, ter a 
Sua mente. Realmente queremos ser seguidores de Cristo? É impossível ser 
um seguidor de longe. O egoísmo e o orgulho nos mantêm longe dele, sem a 
atitude de mente que Ele deseja formar em nós. Você está disposto a entre­gar- 
se cedendo a todos seus direitos? Para sermos honestos, a maioria de nós 
diria, certamente, que não! Eu não fiz isso nem poderia fazer. Você está 
absolutamente certo, mas o que é necessário é desejar fazê-lo, agindo depois 
sobre esse desejo. Leve a Cristo seu egoísmo. No batismo, o novo cristão es­tá 
como que dizendo: Eu quero morrer para mim mesmo, com Cristo. Entre­go- 
lhe tudo, para que o Senhor possa colocar em mim Seu novo modo de 
pensar. Se a tradução correta do versículo 5 for “entre vós” (e não “em vós”) 
precisamos entender que a igreja é enfocada. Para os observadores angelicais, 
e para um mundo incrédulo, tão antagônico a esse conceito de auto-negação, 
a mente de Cristo, no meio do povo de Deus, deve mostrar que somos real­mente 
cristãos, dirigidos pela mente de Cristo, unidos em um Corpo no qual 
todos os membros servem altruisticamente a todo organismo. 
Agora, quero curvar-me e orar com você. Senhor querido, possa a obe­diência 
de Teu filho, Jesus nosso Salvador, Aquele que na cruz exemplificou 
a qualidade da perfeita submissão que nos salvou, ser gravada em nossos co­rações. 
Possa o Teu Espírito começar a tomar evidente em nós aquela mes­ma 
personalidade revelada na natureza divina de Cristo, retratada em seu co­ração 
de escravo, e no Seu espirito de servo. Õ Pai, que esta mente seja vista 
continuamente entre nós como teus filhos, pois oramos em nome de Jesus. 
Amém.
DESENVOLVENDO A SALVAÇÃO 
Filipenses 2:12-18 
12 - Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, 
não só na minha presença, porém muito mais agora na minha 
ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; 
13 - porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como 
o realizar, segundo a sua boa vontade. 14 - Fazei tudo sem 
murmurações nem contendas; 15 - para que vos tomeis irre­preensíveis 
e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de 
uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como 
luzeiros no mundo; 16 - preservando a palavra da vida, para 
que, no dia de Cristo, eu me glorie de que não corri em vão, 
nem me esforcei inutilmente. 17 - Entretanto, mesmo que 
seja eu oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da 
vossa fé, alegro-me e com todos vós me congratulo. 18 - 
Assim, vós também, pela mesma razão, alegrai-vos e congratu­lai- 
vos comigo. 
Como professor de seminário, muitas vezes sou procurado para 
responder a perguntas sobre a Bíblia. Um estudante perplexo, recentemente, 
quis saber o seguinte: O que Paulo pensava quando disse aos filipenses que 
desenvolvessem a sua própria salvação? A questão é que, ou vamos bater 
nosso barco da teologia sem leme nas areias de Caribde, ou contra a rocha 
de Cila, usando os termos da estória de Homero. Há um pequeno estreito 
que leva àquela perigosa passagem lendária. E hoje seria aconselhável medi­tarmos 
sobre o paradoxo do nosso esforço humano, em combinação com a 
obra onipotente de Deus em nós. Naturalmente, a lógica diz que, se Deus es­tá 
operando em nós, como afirma o versículo 13, podemos descansar e gozar 
da segurança bendita da salvação que é oferecida e realizada totalmente por 
Deus. Acredito que Professor Moule, há cerca de cem anos atrás, foi quem 
escreveu: “Não poderíamos, agora, entregar-nos inteiramente à reflexão?” 
Ele quis ilustrar o que se sente após um trabalho árduo, quando nos recosta-mos 
na velha poltrona, diminuímos a intensidade das luzes e cochilamos. 
Porque afinal, estamos no caminho para o céu. Estamos seguros nos braços 
eternos. Por que não fazer um relaxamento, um devaneio, se Deus está ope­rando 
em nós? Ele fará tudo que precisa ser feito. Meditaríamos, portanto, 
com toda a calma, sobre a poesia divina da nossa salvação! 
O conhecido autor demão, Dietrich Bonhoeffer, impressionou-se pro­fundamente 
com esta atitude não bíblica. No livro O Preço do Discipulado 
(The Cost o f Discipleship) ele usa palavras para chamar nossa atenção logo 
no início: “A graça barata é o inimigo mortal da igreja.” A lógica atrás deste 
repouso de enlevo espiritual, onde são desnecessários tanto o esforço como 
o trabalho, significa uma ameaça perigosa para a igreja. Hoje, encontramos 
bem poucos que buscam uma graça valiosa e preciosa (a graça barata signifi­ca 
graça vendida na feira de objetos usados, entre vizinhos, onde os preços 
são bem pequenos para que se venda logo a mercadoria). “Os sacramentos,
o perdão dos pecados, as consolações da religião, são jogadas fora com pre­ços 
de saldo. A graça é representada como caixa de tesouro inesgotável da 
igreja, da qual Deus distribui de mãos generosas, sem questionar ou fixar 
quaisquer limites. A graça é sem preço, a graça é sem custos; a essência da 
graça, saibamos, é que a conta foi paga adiantadamente. E como já está pa­ga, 
e pode-se receber tudo gratuitamente, visto que o preço era infinito, e as 
possibilidades de usá-la e gastá-la são infinitas, o que seria graça, se não fosse 
barata? Muito barata! A graça por preço irrisório significa a graça como dou­trina, 
como princípio, sistema. Significa o perdão dos pecados proclamado 
como verdade genérica e um consentimento intelectual à idéia é aceito como 
sendo suficiente para assegurar a remissão dos pecados. Então acredita-se 
que a igreja que defende a doutrina correta da graça, por isto mesmo, tenha 
parte desta graça. Visto que nós, evangélicos, pregamos o fato de que Deus 
já fez tudo, e que nada podemos fazer para merecer a salvação, estamos 
propensos a bater naquela rocha de Cila, onde a graça é oferecida sem nos 
custar nada. 
A passagem de Filipenses 2 não apóia esse ponto de vista da “graça ba­rata.” 
Afirma que, por Deus estar operando em você, você deve então efe­tuar 
a sua salvação. Deve estar envolvido, empenhando responsavelmente to­dos 
os esforços no desenvolvimento, no cultivo, na elaboração da salvação 
que já recebeu. 
Do outro lado encontra-se a doutrina oposta, declarando que os ho­mens 
podem produzir a justiça que agrada a Deus. E o pensamento logo sur­ge 
na mente dos evangélicos dedicados: Não temos sido direitos? Não demos 
uma grande oferta ao Senhor? E não estamos servindo a Deus de maneira 
louvável? Sendo Deus justo, não podemos contar com Ele para recompensar 
nosso sacrifício com um pouco de Sua honra e glória e com Sua salvação? É 
natural que os homens decaídos ofereçam a Deus um pouco de esforço pró­prio 
para obter a salvação. E esse é o lado do Caribde, tão perigoso ao via­jante 
que espera alcançar o céu tal qual a apatia da graça barata e fácil. Po­rém 
existe uma estreita passagem entre estas alternativas perigosas, que neste 
trecho fica esclarecida. Repare bem que não nos cabe efetuarmos a nossa sal­vação, 
pois Efésios 2:5-9 torna bem claro que nossas obras não são aceitáveis 
a Deus se feitas com o fim de merecer o perdão de Deus. Se dizemos que es­tamos 
salvos, devemos desenvolver e viver a nossa salvação. 
O Desenvolvimento da Salvação Requer Obediência 
Consideremos algumas das maneiras pelas quais esta passagem diz que 
devemos desenvolver uma salvação obediente. Tudo começa com a palavra 
“Assim, pois.” Este “assim, pois” , ou no original grego, “de maneira que,” 
refere-se à obediência de Cristo em Fp- 2:5-8. Jesus Cristo, sendo Ele pró­prio 
igual a Deus, não viu nisto um privilégio ao qual devesse se agarrar (como
Adão tentou fazer). Antes, tomou sobre si o feitio de homem. Humilhou-se, 
tornou-se obediente até a cruz. Ora, o contexto imediato sugere que uma 
obediência igual a Dele é a exigida para a pessoa “desenvolver a sua salva­ção.” 
Graça facilitada não entra no quadro. Não é suficiente assinar um car­tão 
de evangelização dizendo que você aceita a Cristo, nem repetir uma 
oração preparada. Não é isso que significa a salvação no Novo Testamento. 
A salvação é mais como um contrato com o qual você concorda, no qual 
Deus lhe concede as bênçãos da salvação de graça. Ele concedeu ao crente 
todos os benefícios da cruz. Mas enquanto você recebe com uma mão a Sua 
salvação, voce tem de colocar sua mão na Dele, e prometer, sem reservas, 
fazer o que Ele lhe pedir. Não há nenhum outro tipo de salvação nas Escritu­ras. 
Jesus Cristo não é apenas o Salvador do crente, é também o seu Senhor. 
Desenvolva a Salvação com Temor 
As características desse desenvolvimento da salvação são dignas de no­ta. 
Primeiramente, a salvação deve mesmo ser desenvolvida com temor e tre­mor. 
Quando o apóstolo Paulo foi para Corinto, de início, não dependeu de 
palavras bonitas, ou do impacto de seu porte. Proclamou a sabedoria simples 
de Deus, que tem sua expressão suprema na cruz, em Jesus Cristo crucifica­do, 
e na salvação gratuita de Deus por meio da morte de Cristo. Paulo estava 
desenvolvendo sua salvação na cidada pagã e corrupta de Corinto. Ele os fez 
lembrar, em 1 Cor. 2:2-4, que esteve entre eles com as pernas trêmulas, não 
de frio, mas pelo simples medo de falhar diante de uma responsabilidade tão 
grande. E Paulo dizia: “Ai de mim” se não pregar esta espécie de evangelho 
salvador, que deve ser desenvolvido sempre com temor e tremor. 2 Cor. 7:1 
diz que a santidade à qual Deus dá o selo de aprovação na vida do cristão, é 
a santidade desenvolvida no temor do Senhor. Prov. 28:14 apóia esta verda­de: 
“Feliz o homem constante no temor de Deus.” Não há lugar para a apa­tia 
do sacramentalista que acha que, uma vez batizado, nada mais precisa 
fazer senão aguardar o céu enquanto faz o que bem entende. 
Visto que temos essas promessas, uma salvação que nos é prometida, 
purifiquemo-nos de qualquer mancha de corpo e espírito, e tornemos à san­tidade 
perfeita no temor do Senhor. O indivíduo que tem nome de cristão, 
mas que é convencido, auto-confiante, sem atitude de respeito e reverência, 
tendo fé na graça barata, e nas obras inúteis feitas com vistas à recompensa, 
poderá ser uma das pessoas que se desapontarão quando bater à porta do 
céu, implorando que o deixem entrar, o Senhor o afastará tristemente: 
“Nunca o conheci. Aparte-se de mim, você que pratica a iniqüidade.” 
(Mt. 7:28). 
O segundo ponto que se deve notar é que a salvação desenvolvida é 
uma obra responsável. Não é uma salvação que seus pais, ou o pastor de sua 
igreja, podem fazer por você. Por mais que eu queira fazer isso por você,
não posso. O texto diz: “Desenvolva a sua própria salvação.” Cada pessoa 
que confiou em Deus para a salvação, precisa viver Cristo em sua própria 
vida. O Senhor precisa estar operando em você, e revelando Sua santidade 
em você individualmente. O grego é muito mais incisivo do que o português. 
O original diz que é para desenvolvê-la de tal modo que não haja erosão ao 
chegarem as tempestades da vida, e soprarem os ventos sobre a “casa” de sua 
salvação. Esta salvação é desenvolvida com o aprofundamento das raízes, 
com a colocação de alicerces de pedra, tão fortes que nenhum terremoto 
possa sacudir ou remover. Esta salvação demonstra sua natureza definitiva, 
pois é realizada de uma vez por todas. A mesma palavra encontra-se em 
Efésios 6:13: “depois de você ter vencido tudo,” você mantém-se firme no 
dia mau. Não é só definitiva e permanente, como também é algo do qual se 
presta contas. Considere a necessidade de uma consciência sensível. A verda­deira 
salvação dá aos salvos a preocupação primordial: “Será que Deus se 
agrada da maneira que estou vivendo a sua salvação? Visto que Ele me deu 
seu Filho, e fê-lo ressurgir para compartilhar da Sua glória, tendo-0 à Sua 
mão direita, torna-se sumamente importante que Ele possa se agradar do 
modo em que eu vivo a glória da salvação efetuada por mim na cruz!” Esta­ria 
Ele triste comigo? Por este motivo digo que desta salvação precisamos 
prestar contas. O Apóstolo Paulo escreveu aos coríntios esta verdade: “Im­porta 
que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que ca­da 
um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” 
(2 Cor. 5:10). 
Mas o Cristianismo comum, do dia-a-dia, dá impressão contrária. Quer 
seja no mundo comercial, ou na escalada acadêmica do estudante em busca 
de formatura, nada existe que não exija uma responsabilidade de prestação 
de contas. É inevitável que alguém verifique se a pessoa fez o que era para 
fazer. Nosso mundo não é isento de exames e notas, de folha de balanço no 
fim do mês ou do ano. Contudo, no mundo espiritual muitos têm a im­pressão 
de que qualquer coisa é aceitável. Pois eu gostaria de advertí-lo que 
não é isso que as Escrituras ensinam. Dão-nos certeza de que, num dia próxi­mo 
qualquer, todos nós havemos de apresentar diante' de Deus aquilo que 
desenvolvemos. Todos nossos atos, palavras e pensamentos estarão clara­mente 
dispostos diante do Senhor, e Ele avaliará tudo. A nota dada à nossa 
salvação desenvolvida será de aprovação ou reprovação. E isto, para mim, ex­plica 
por que Paulo prossegue nos exortando com estas palavras: “porque 
Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua 
boa vontade.” Podemos estar bem certos que, se Deus não estimulasse as 
nossas vontades, nossas ações seriam egoístas. Somente disto é capaz a nossa 
natureza decaída e humana, ser egoísta e agir em seu próprio favor. Mas, à 
medida que Deus opera em nós, através de Seu Santo Espírito, nossas vonta­des 
são dirigidas diferentemente, não em direção à nossa ambição pessoal, 
mas na direção de Seu bom propósito (compare Rm. 8:28). Deus mesmo, 
habitando o filho regenerado, admitindo viver nele, faz com que ele obedeça,
e deseje agradar o seu Mestre. É muito comum nos fazermos de surdos à 
operação de Deus em nós, por meio de Sua Palavra, que é Seu agente, aplica­da 
pelo Espírito Santo. Podemos ver nos versículos seguintes, que os cristãos 
podem murmurar e discutir. Em vez de serem “inculpáveis e puros”, podem 
ser culpáveis e impuros, mesmo sendo “filhos de Deus” (v.14). A obra de 
Deus em nós não é tão determinante e fatalista que nossas reações às Suas 
operações amorosas não tenham significação. 
Um Trabalho Obediente 
A Salvação que recebemos, então, precisa ser desenvolvida. Assim se 
tomará uma salvação obediente. Voltemos ao versículo 12, onde Paulo diz: 
“Vocês sempre obedeceram na minha presença.” Todos nós estamos familia­rizados 
com o poder invisível que tem o olhar de um professor vigiando... 
ou do chefe que observa como tudo está sendo feito, para verificar se tudo 
está em ordem. Quando o professor ou o chefe saem, então você se relaxa, 
pode até sair para tomar um cafézinho mais demorado. A obediência, Paulo 
diz aos filipenses, não só é crucial quando estou presente, mas muito mais 
quando estou ausente. Algumas das paíabolas de Jesus batem na mesma te­cla. 
Pouco antes do mestre partir, ele dá aos escravos talentos com os quais 
devem trabalhar e investir (Mat. 25:14,15). Antes do mestre viajar, nada 
acontece, mas logo que sai, começa o movimento. Assim é na vida cristã. A 
prova é feita principalmente na hora em que você está sózinho, nas horas 
silenciosas, quando ninguém lhe pressiona, nem o elogia, ou diz o que deve 
fazer. E seria fácil concluir que não é preciso prestar contas, visto que o 
Senhor não lhe está dando nota, nem abono, como prêmio por qualquer 
progresso extraordinário. 
A Motivação para o Trabalho 
Por último, nosso texto menciona a motivação para desenvolvermos a 
nossa salvação. Porque se não houvesse motivação, poderíamos nos desani­mar- 
facilmente. Paulo explica que a razão pela qual você deve desenvolver a 
salvação é que Deus está operando em você. Ele não só está trabalhando em 
você por meio de um processo ex opera operato, expressão latina muito 
usada pela Igreja Romana para descrever o poder místico divino, que se diz 
liberar pelos sacramentos. Acredita-se que são eficazes sem que a pessoa o 
saiba, sem que se perceba o seu poder espiritual. Porém o versículo 13 con­traria 
essa posição. Paulo afirma que Deus opera em você “o querer e o rea­lizar 
conforme o Seu propósito.” 
Será que sentiu a dificuldade em se levantar de manhã na sua casa? 
Especialmente quando faz frio, e as cobertas estão bem quentinhas? Alguém
enfrenta o frio? Sem demora, o aroma do café invade o quarto, mas assim 
mesmo há pessoas que dormem melhor com o aroma gostoso do café. Causa 
desânimo. Mas há o fato de que se tem de responder pelo atraso na escola ou 
trabalho. Então, esta frase de sempre, vem quebrar o silêncio: “Filho, é hora 
de levantar.” “Filha, acorda, está na hora.” Talvez o filho até reconheça que 
não tem nenhuma força de vontade, então, o que se deve fazer? Um bom che­fe 
de família tem um “mudador de vontades” entre suas ferramentas mais 
úteis. E chega o momento de usá-lo. Talvez basta o pai dizer com firmeza: 
“Filho, levante-se já!” E acontece. A vontade letárgica muda, sim. O Senhor 
eterno também é um Deus modificador das vontades. Que benção para nós! 
Freqüentemente essa mudança da vontade é positiva, na forma de um convi­te. 
Vejamos o Salmo 23, onde a vontade da ovelha é pacificamente orien­tada 
para outra direção, pelo convite do Pastor, que a chama para deliciar-se, 
na Sua presença, com as águas tranqüilas e o pasto verde saboroso. Ouça-o 
dizer: Eu lhe darei toda a alegria e satisfação que você tem desejado. Eu lhe 
farei um caminho de rosas, pelo qual você pode caminhar comigo, e prote­gê- 
lo-ei com meu cajado e minha vara. 
Em outras ocasiões, como vemos em Hebreus 12, Ele fala de uma mu­dança 
da vontade diferente, através da disciplina e da dor. E Ele irá mesmo 
alterar a sua vontade, se está desenvolvendo a salvação em você. Esta é a mo­tivação 
divina que leva os filhos de Deus a se moverem sempre e a crescerem 
espiritualmente. Existem muitas circunstâncias que afetam as nossas vidas, 
que gostaríamos muito de modificar; e existem muitas outras coisas que não 
desejaríamos mudar nunca. Todas estas circunstâncias e condições são sinais 
de Sua operação em nós, para moldar-nos de acordo com o Seu prazer e 
plano. . 
A maioria de nós conhece bem a diferença que há no brilhante, ou em 
outra pedra preciosa, antes e depois de lapidado ou polido. O processo é lon­go 
e doloroso, principalmente porque as pedras preciosas são muito duras. 
Se não fossem, nada valeriam. Teria sido por isso que Deus escolheu a você e 
a mim, teimosos como somos, querendo fazer nossa própria vontade, a fim 
de nos lapidar e nos polir até que reflitamos a Sua beleza divina e a Sua gló­ria 
(2 Cor. 3:18)? Quanto mais cheios de vontade própria, mais devemos es­perar 
que a obra de Deus em nós demore para se efetivar. Quão terrível é o 
erro de rebelar-nos contra Ele antes de sermos suficientemente polidos para 
brilhar por Ele, ou tornarmo-nos jóias para Sua coroa! 
O Resultado da Obra de Deus em Nós 
Os versículos 14 a 18 apresentam alguns resultados da salvação desen­volvida. 
O versículo 14 acrescenta que, à medida que Deus transforma a 
nossa vontade, e desenvolvemos nossa salvação, devemos evitar de murmurar 
e questionar. A palavra “murmurar” descreve uma reação externa. Quere­
mos que os outros ao nosso redor saibam o quanto estamos sofrendo. A 
murmuração se expressa de maneiras interessantes. Pode-se falar na operação 
que se teve, ou nas doenças que se tem. Por exemplo, o hipocondríaco é ve­terano 
em chorar por simpatizantes, reclamando das suas doenças e dores. 
Mas a reclamação e os murmúrios são contra Deus. Paulo diz aos filipenses 
que é importante evitar isso. As provações pelas quais passamos não devem 
ser compartilhadas para causar compaixão. A outra palavra, “contendas”, re­fere- 
se à rebelião intelectual interior que temos, questionando circunstân­cias, 
posicionando-nos contra as pessoas, mas na realidade colocando-nos 
contra Deus. Tentamos provar que Deus está errado e nós certos. Tentamos 
nos convencer e também a Deus que mude o que está fazendo com o fim de 
moldar a nossa vida. Deus sabe melhor do que nós qual a disciplina e corre­ção 
que necessitamos. Duvidar de Suas decisões sábias é realmente uma re­beldia. 
São as duas palavras que descrevem a atitude dos israelitas no deser­to. 
Eles estavam murmurando e contendendo contra o que Deus fazia. In­capazes 
de crer nas Suas promessas ou de aceitar Seu modo de agir com eles, 
murmuravam. As mesmas duas palavras descrevem a reação dos fariseus 
quando Jesus aceitava os pobres e pecadores na Sua companhia (Lc. 15:2). 
Troquemos pela murmuração e contenda muita gratidão e louvor, para ser­mos 
“irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma 
geração pervertida e corrupta” (v.15). Portanto, descobrimos aqui uma ver­dade 
importante: o cristão que desenvolve sua salvação sem murmurações e 
contendas, obediente e responsavelmente, motivado por Deus operando ne­le, 
há de produzir um testemunho genuíno de Deus neste mundo. Este tes­temunho 
é tanto interior como exterior. Observemos estas palavras nova­mente; 
“irrepreensíveis” trata de como viver a vida cristã no mundo. Quan­do 
os incrédulos não podem, com justiça, acusar uma pessoa de pecados e 
faltas, ela é “irrepreensível” . Naturalmente, o homem não está sem pecado, 
mas o mundo não enxerga falha nenhuma nele. 
Certa vez, quando um grupo nosso ia de carro para uma reunião de 
ex-alunos de faculdade, ficamos envolvidos em um acidente. Foi o pior 
em que já estive, embora pudesse ter sido mais sério ainda, se houvesse feri­mentos 
graves. A reação de uma das pessoas foi querer saber o “porquê”. 
Por que aconteceu? Raramente o Senhor nos dá a resposta de um “porquê”. 
A reação que ele procura em nós é sermos inculpáveis. Nosso comportamen­to 
será de aceitação, cuja explicação lógica dará testemunho à verdade de di­zermos 
que Deus habita em nós, pelo Seu Espírito, ativamente desenvolven­do 
Sua salvação libertadora. As crises da vida são apenas o campo de batalha 
onde Deus nos está moldando à semelhança de Cristo. 
Digamos, por ilustração, que um repórter publica no jornal uma notí­cia 
a meu respeito que é nitidamente falsa. Ele e a história são completa­mente 
repreensíveis. Como me livro dessa culpa? Posso ir até o repórter para 
contar-lhe toda a verdade. Mas ele só publicará o caso verídico mediante um 
pagamento. Isto é semelhante ao problema que alguns cristãos enfrentam. O
crente pode ser acusado falsamente porque manifesta uma motivação que o 
incrédulo não tem, no comércio, no trabalho, ou em qualquer aspecto de 
sua vida. Mas quando as acusações são colocadas à prova para ver se são ver­dadeiras, 
descobre-se que o cristão é irrepreensível, apesar das mentiras e 
falsos rumores que têm a finalidade de difamar ou demiti-lo. 
Consideremos em seguida a palavra “inocente” (sincero) ou “sím-plice”, 
a mesma que Jesus usou para comparar seus seguidores às aves. Disse 
aos seus missionários que deveriam ser “prudentes como as serpentes, po­rém 
símplices como pombas.” Não há motivo para se temer uma pomba, 
porque este pássaro não é perigoso, o cristão também não é venenoso. Ele 
deve ser sábio, prudente, porque recebeu a sabedoria de Deus (I Cor. 1:30) 
e aprendeu com Cristo (Ef. 4:20-21). Porém não deve ter malícia ao promo­ver 
o evangelho ou a si mesmo. As segundas intenções não valem para 
pressionar as pessoas para que aceitem a salvação que Deus lhes oferece. Pa­ra 
o cristão “símplice”, o fim não justifica os meios ilegais ou indignos por 
ele proclamados (2 Co. 4:5). 
Paulo emprega uma terceira e última palavra para descrever a maneira 
pela qual o cristão precisa viver. Nós devemos ser “inculpáveis” no meio de 
“uma geração pervertida e corrupta”. A palavra “inculpável” é a mesma 
usada comumente com respeito aos sacrifícios, quando se explicava que um 
animal precisava ser “sem defeito” (Ex. 12:5; Lv. 22:21; Ef. 5:27). É com 
isso que Paulo se preocupa a esta altura, falando da luz brilhante dos cristãos 
no mundo em trevas. Paulo talvez estivesse lembrando dos luzeiros criados 
divinamente, que transformam a treva total da meia-noite na beleza de um 
céu salpicado de estrelas, com a lua cheia reluzente. É esta a comparação 
que Paulo faz aqui. Mas, O que faz uma luz brilhar? É unicamente quando 
ela se queima, quando ela se sacrifica. Portanto, o desenvolvimento de nossa 
salvação significa iluminar o escuro, com um brilho que custa caro. 
Resplandecendo no mundo, os filipenses irão “preservar” a palavra da 
vida (v. 16), A palavra grega original (epechontes) tem tanto o sentido de 
“manter alto” como o de “manter firme.” “Manter firme” sugere segurança, 
para que não se desfizessem da Palavra. O outro sentido, de “manter alto”, é 
o de erguer como se faz com uma placa ou cartaz de propaganda, para atrair 
atenção de perto e de longe. O que eles, e nós, precisamos manter firme e al­to 
é a mensagem que dá vida aos ouvintes que nela crêem. No Novo Testa­mento, 
a “Palavra., é o evangelho, a boa nova do oferecimento gratuito da 
salvação, através da fé em Cristo Jesus. Então, se os filipenses não deixam 
cair nem escondem a luz, Paulo poderá alegrar-se, poderá até mesmo or­gulhar- 
se de que sua carreira apostólica não foi completada em vão. Ele não 
terá desperdiçado todo aquele esforço e energia nas viagens e na pregação 
missionária (v. 16b). Quando uma igreja, ou mesmo um cristão individual­mente, 
morre ou abandona a fé, todo o esforço e sacrifício gasto em seu fa­vor 
resulta em nada. E essa conclusão infeliz torna-se um motivo de ver­gonha, 
em vez de ser de alegria e orgulho, como o que Paulo aguarda ansio­
samente para o “Dia de Cristo” (v.16). Este será o dia em que nosso mara­vilhoso 
Senhor e Rei há de voltar, todo o trabalho feito para Ele terá sua ava­liação, 
e tudo que foi digno, terá a recompensa. 
Paulo prossegue, no v. 17, considerando a possibilidade de sua vida in-culpável 
ser sacrificada com derramamento de sangue sobre o altar da fé dos 
filipenses. Seria motivo de alegria. Nos sacrifícios pagãos, depois que o ado­rador 
preparava o altar e matava o animal sacrificial, ele o punha sobre o al­tar, 
e preparava-se para acender o fogo. Às vezes o adorador derramava por 
cima uma libação de vinho para consagrá-lo. Por isso aqui Paulo diz aos fili­penses 
que a fé que eles demonstram é o sacrifício. Paulo tinha vivido por 
eles, e, em conseqüência, estava consagrando a fé e o serviço deles ao 
Senhor. Mas a vida de Paulo, que a qualquer hora poderia ser derramada em 
martírio, serviria como libação para a fé e a obra dos filipenses. Se Paulo não 
tivesse servido a Deus em lugares como Filipos, Tessalonica, Corinto, e em 
todo o império romano oriental, não estaria correndo o risco de seu sangue 
ser derramado sobre o altar da fé das igrejas. Portanto, agora, se nossas vidas 
não são luzes brilhantes, mas estão ocultas debaixo de qualquer coisa, como 
um vasilhame de medida (“alqueire” em Mt. 5:15) haverá pouco ou nenhum 
perigo de perseguição. Ninguém teria pensado em prender Paulo, e amea­çá- 
lo de morte, se sua luz não tivesse aparecido com tanto brilho no meio da 
sociedade pervertida e corrupta de sua época. Deus espera que nossa vida 
cristã seja obediente, assim como foi obediente a vida de Cristo, e, portanto, 
de maneira igualmente dispendiosa. Seu precioso sangue foi derramado so­bre 
o sacrifício da cruz. E nós somos convidados a participar de seus sofri­mentos, 
enquanto desenvolvemos essa salvação (Cl. 1:24).. É colocado dian­te 
de nós o mesmo problema da vontade que Jesus Cristo enfrentou no 
Getsêmane, quando disse: “Pai, passa de mim este cálice!” Mas Deus não o 
retirou. Nós temos o problema idêntico com o mundo. Podemos reagir ao 
mundo na mesma medida, culpando, criticando, murmurando e contenden­do. 
Só que, fazendo isto, seriamos cristãos desobedientes e repreensíveis. 
Podemos observar, portanto, que esta passagem sugere que há dois ti­pos 
de crentes. Há os cristãos nominais, que aceitaram a graça barata do 
evangelho. Afirmam que Cristo morreü por eles, que Ele pagou tudo, não 
deixando mais nada para fazerem. Escolhem viver a vida cristã descansada, 
apática, sem energias. Desejam ser da classe de cristãos espectadores, senta­dos 
nas arquibancadas, e não discípulos dedicados, empenhados, que seguem 
a Cristo até o Calvário. Diante da televisão, o telespectador não se envolve 
ativamente; não há nenhum custo além da mera observação e apreciação das 
cenas que se sucedem. Esta passagem sugere que o único cristão genuíno é 
aquele que (como Jesus, por aquilo que sofreu, pois agora ele é o seu Senhor 
exaltado) desenvolve sua salvação com temor e tremor. É aquele que permi­te 
a Deus mudar a sua vontade, com alegria. Observe como Paulo convida os 
filipenses a compartilharem de sua alegria sacrificial: “Assim, vocês também, 
pela mesma razão, alegrem-se e congratulem-se comigo.” (v. 18).
Deixe seu coração se abrir para contemplar a cruz de Jesus, e a graça 
de alto preço do seu sacrifício, o preço de nossa salvação. Estou certo que 
verá também o quanto você tem procurado escapar das implicações difíceis 
e custosas da cruz Dele. Então, como Paulo, considere sua vida uma libação 
preparada para ser derramada alegremente em benefício da família, dos vi­zinhos 
e amigos, à medida que você desenvolve a sua salvação. 
Oração: Ao nos aproximarmos de ti, bendito e santo Deus, somos de­safiados 
pelo ensino claro de Tm palavra. Por que somos tão morosos em 
obedecê-la, em tomar os passos e as decisões necessárias para viver de tal for­ma 
que outros vejam a graça de alto preço de Deus, manifesta através de 
nós? Precisamos de tua ajuda, ó Deus, porque somente quando o Espirito 
Santo habita em nós é que nossas vontades se modificam. Ama, por meu in­termédio, 
ó Jesus, o mundo pelo qm l vieste a morrer.
HOMENS DE DEUS 
Filipenses 2:19-30 
19 - Espero, porém, no Senhor Jesus, mandar-vos Timóteo, o 
mais breve possível, a fim de que eu me sinta animado tam­bém, 
tendo conhecimento da vossa situação. 20 - Porque a 
ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide 
dos vossos interesses; 21 - pois todos eles buscam o que é seu 
próprio, não o que é de Cristo Jesus. 22 — E conheceis o seu 
caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo, como 
filho ao pai. 23 — Este, com efeito, é quem espero enviar, tão 
logo tenha eu visto a minha situação. 24 - E estou persuadido 
no Senhor de que também eu mesmo brevemente irei. 25 — Jul­guei, 
todavia, necessário mandar até vós a Epafrodito, por um 
lado meu irmão, cooperador e companheiro de lutas; e, por ou­tro, 
vosso mensageiro e vosso auxiliar nas minhas necessidades; 
26 - visto que ele tinha saudade de todos vós e estava angus­tiado 
porque ouvistes que adoeceu. 27 - Com efeito, adoeceu 
mortalmente; Deus, porém, se compadeceu dele, e não somen­te 
dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza 
sobre tristeza. 28 - Por isso, tanto mais me apresso em man­dá- 
lo, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu tenha 
menos tristeza. 29 - Recebei-o, pois, no Senhor, com toda a 
alegria, e honrai sempre a homens como esse; 30 — visto que, 
por causa da obra de Cristo, chegou ele às portas da morte, 
e se dispôs a dar a própria vida, para suprir a vossa carência de 
socorro para comigo. 
Introdução 
Paulo, Timóteo (I Tm. 6.11) e Epafrodito eram homens de Deus. Mas 
como tomar-se homem ou mulher de Deus? 
No Antigo Testamento esta frase representava um profeta (cf. 1 Sm. 
2:27, 1 Rs. 12:22; 17:18, 20:28 etc. e 1 Tm. 6:11), isto é, alguém que falava 
da parte de Deus. Para ser um embaixador do Rei do Universo, o profeta de­via 
se assemelhar ao seu Senhor em atitudes e interesses. Onde há homens de 
Deus, deve ser notável a aproximação da atmosfera divina, um perfume ce­lestial 
(cf. 2 Co. 2:15) que é fácil de detectar e que atrai os que “cheiram” 
o “aroma de vida 
Paulo 
Não estaríamos longe da verdade ao afirmarmos que um dos temas 
principais de Filipenses é o “homem de Deus”. No primeiro parágrafo desta
carta, deparamos com a comunhão outorgada por Deus por meio dos irmãos. 
A cintilante oração paulina (1:9-11), por causa da profunda saudade que 
sentiu (v. 8), pedia que o amor dos seus filhos na fé “aumente mais e mais 
em pleno conhecimento e toda a percepção” (v. 9). Paulo sempre fazia sú­plicas 
por eles (1:4) o que nos dá motivo para pensar que o segredo da for­mação 
do homem de Deus deve ser a oração. Se Paulo lembrava dos filipen­ses 
em todas as suas orações, quanto mais de Timóteo. Não seria fácil convi­ver 
com o apóstolo sem orar por ele (Ef. 6:19, 20). Não se pode negar que 
homens de Deus são os que são os alvos da oração de homens de Deus. Se o 
Espírito de Deus é derramado em resposta à oração (Lc. 11:13), seu amor 
também transforma o caráter de todos em que Ele habita (Rm. 5:5, Ef. 
5:18, Gl. 5:22). 
Igualmente importante é a convivência com homens de Deus. O desa­fio 
de comer, dormir, conversar e observar a vida de um servo consagrado ao 
Senhor, deve influenciar profundamente quem tiver esse privilégio. A pró­pria 
igreja deve fornecer aos novos crentes, especialmente aos jovens, um 
modelo de santidade nos seus líderes (cf. Hb. 13:7), fornecendo um desafio 
constante para que sejam transformados paulatinamente em homens de 
Deus(cf. Cl. 1:28). 
Paulo expressa no v. 16 deste segundo capítulo, que sabia exatamente 
para onde corria. Tinha um destino, para não correr em vão ou inutilmente, 
enquanto preservava ou segurava firmemente a palavra da vida. No cap. 3, 
declara, “prossigo para o alvo” avançando para as cousas que diante de 
mim estão (w. 14, 13). Sabemos que ele cogitava a possibilidade de ser 
“oferecido como libação sobre o sacrifício da fé” dos filipenses. Tudo isso 
mostra a determinação de Paulo por um lado e o desafio das circunstâncias 
nas quais Deus o colocara, por outro lado. Homens de Deus são produzidos 
também pelos desafios e se recusam a se desanimar. Creio que quem tem di­reito 
a este elogio de ser homem de Deus deve ser alguém que não vive para 
sí, mas para os outros (cf. 2 Co. 5:14, 15). Sua vida é derramada para bene­ficiar 
aos outros. Como canal ou aquaduto, a vida do homem de Deus con­duz 
a graça divina para o coração humano. Muitas vidas assemelham-se mais 
a uma torneira fechada do que a um canal entre Deus e a humanidade se­denta. 
Sem auto-jactância, Paulo podia afirmar que, não importando de que 
maneira sua vida terminasse, não teria corrido em vão. 
Em mensagens anteriores tivemos oportunidade de observar que a 
prisão de Paulo, mesmo sendo ele inocente, não foi capaz de criar ressenti­mento 
no apóstolo. Nem os irmãos que, pelo ódio e ciúme, tentavam susci­tar 
tribulação às cadeias do missionário, foram capazes de criar mágoa ou 
aborrecimento ao coração daquele Homem de Deus(l :15,18). Como se ex­plica 
fenômeno tão raro? As circunstâncias difíceis não criaram barreiras 
para a sua corrida, mas apenas pontes para cada vez refletir mais a encar­nação 
da vida de Cristo na de Paulo (cf. Gl. 2:20).
Timóteo 
Além de Paulo, descobrimos neste trecho a breve descrição de um se­gundo 
homem de Deus. Paulo esperava mandar Timóteo brevemente para os 
filipenses. Assim, teria uma avaliação de confiança ao receber notícias de 
volta na sua prisão. Também Timóteo deveria levar notícias aos filipenses so­bre 
o resultado do seu processo, a ser brevemente definido (v. 24). 
Timóteo significa em grego “quem honra a Deus” ou “alguém honra­do 
por Deus”. Quem passeia por um cemitério observa os nomes dos esque­cidos, 
indivíduos do passado longínquo. Nunca os conhecemos, nem ouvi­mos 
falar deles; não sabemos de nada significante que fizeram. Suas vidas 
não são detalhadas em biografia alguma. A história os deixou de lado. Desa­pareceram 
como a água na superfície da areia. Teria sido assim com Timó­teo, 
não fosse os desafios determinantes da sua yida. Primeiro foi sua avó 
Lóide, uma mulher de fé (2 Tm. 1:5). Certamente ela amou as Escrituras 
como a profetiza Ana (Lc. 2:36-38), e a mãe de Samuel, também chamada 
Ana(l Sm. 1:2-2:11).Se Timóteo conhecia “desde a infancia... as Sagradas 
Letras” (2 Tm. 3:15), concluímos que Lóide e sua filha Eunice, mãe de 
Timóteo, o ensinaram. Bendito é o privilégio de aprender, desde o colo dos 
pais, o convívio com as verdades depositadas nas páginas da Bíblia. 
O apóstolo declara que não havia ninguém (disponível) com o senti­mento 
(gr. isopsuchon, lit. “alma igual”) que Timóteo tinha. Provavelmente 
só este jovem de alma semelhante ao do apóstolo. O conhecimento da Lei de 
Deus e o convívio no lar, com mulheres consagradas e depois com o seu pai 
na fé, juntos, fizeram de Timóteo um jovem de Deus destacado. Facilmente 
imaginamos as conversas, ao transcorrer as centenas de quilômetros nas via­gens 
paulinas pela Ásia Menor e Grécia, em que as passagens bíblicas conhe­cidas 
há anos se transformaram em verdade viva para Timóteo. Quem, a não 
ser os próprios discípulos de Jesus, teria tido tão equilibrado e profundo 
curso teológico como este jovem companheiro? Por isso, Paulo o chamou de 
“amado filho” (2 Tm. 1:2) e “amado filho fiel” (1 Co. 4:17). Aos filipenses 
revela que “serviu ao evangelho, junto comigo, como filho ao pai” (2:22). 
Provavelmente o pai de Timóteo não era convertido (ou possivelmente tinha 
morrido) criando assim uma inevitável separação entre parentes que devem 
ser os mais íntimos. Paulo tomou o lugar do pai, trazendo todo o impacto 
benéfico da sua influência piedosa. Na primeira carta a Timóteo, Paulo o cha­ma 
de “verdadeiro filho na fé” (1:2), frisando a qualidade da relação entre 
“pai” e “filho”. Timóteo, facilmente influenciado, se entregou à tutela do 
mestre. Tornou-se disípulo admirador, filho co-participante da vida do vete­rano, 
tanto que ganhou a sua confiança total. Muitas são as influências que 
os mais velhos, experimentados cristãos têm tido sobre nós. Mas qual deles 
se responsabilizou por tomar-nos um “filho genuíno (gnésios no grego) ou 
verdadeiro na fé”? 
Sendo Timóteo um filho genuíno, podia compartilhar o ministério
pastoral do apóstolo preso. Sinceramente (gnésios “genuinamente”, “verda­deiramente”) 
cuidaria dos interesses dos irmãos em Filipos (v. 20 b), tendo 
sido enviado para lá por Paulo. Por esta razão, Timóteo era incomparável, 
não havendo outro companheiro disponível “de igual sentimento” (v. 20 a). 
Timóteo viu a Paulo pela primeira vez, pregando em Listra, depois 
opondo-se ao culto pagão, oferecido a Paulo é Barnabé, após a cura do 
côxo (At. 14:8-18). Em seguida, foi apedrejado, arrastado para fora da ci­dade 
e dado por morto (At. 16:19), mas depois levantando-se, deve ter pro­duzido 
em Timóteo uma fascinação pelo judeu missionário. Quando Paulo 
passou por Derbe e Listra na segunda viagem missionária, os irmãos de Listra 
e Icônio (distância de 31 km), “davam bom testemunho dele” (At. 16:2). 
Paulo o convidou para o acompanhar, tomando assim o lugar de Marcos que 
abandonara a equipe missionária no meio da primeira viagem (At. 13:13; 
15:38). 
A segunda razão pela qual Paulo enviara a Timóteo (além do cuidado 
pastoral) é precisamente pelo desinteresse que ele tinha pelo que era dele. 
Concentrou sua atenção inteiramente ao que era de Cristo (Fp. 2:21). Mar­cos 
virou as costas diante do desafio missionário de Panfília e o planalto 
da Ásia, justamente porque não buscava o que era de Jesus, mas o que era 
seu. Por isso, Paulo descreve a Timóteo como incomparável (v. 20). Não deu 
prioridade ao que lhe traria vantagens, mas buscou acima de tudo o que seria 
vantajoso ao seu Senhor. Entendemos agora porque os irmãos de Icônio e 
Listra deram tão boa recomendação a respeito de Timóteo (At. 16:2). Não 
foi ao campo com a garantia de sustento mensal da igreja ou junta missioná­ria 
da associação de igrejas da região. Não creio que comeram churrasco to­dos 
os diaSi Sem dúvida, a característica mais destacada da vida com Paulo e 
Silas foi o sacrifício, o perigo, a perseguição e a fome (cf. 2 Co. 6:4, 5; 
11:22-27). Não creio que Timóteo se sentiu maltratado por isso. Uma vez 
que “o que era de Cristo Jesus” importava mais do que qualquer outra cousa 
não há nem sugestão de queixumes. 
Em terceiro lugar, Paulo lembra aos filipenses do caráter de Timóteo. 
Ele era homem de Deus porque tinha qualidade “provada” (gr. dokimen, 
“testado” e “aprovado”, v. 22). Não é muito difícil de encontrar numa hora 
de emoção e desafio, quem se apresente como voluntário para servir a causa 
do evangelho em terras difíceis, destituídas de segurança e conforto. Mas 
depois de servir fielmente, junto com Paulo, Timóteo ganhou a reputação de 
um veterano provado. 
A palavra grega dokimen comunicava confiança. Quem duvidava se 
uma moeda era realmente feita- de prata, a deixava cair num piso de már­more. 
Pelo ruído que emitia, podia-se ter a verteza se era ou não composta 
de chumbo ou prata. Era dokimen, aprovada ou rejeitada. Timóteo alcançou 
aprovação pela maneira que serviu ao evangelho (douleuô, ser ou atuar como 
escravo”). Serviu ao evangelho como um escravo leal serve a um mestre ama­do. 
Entendeu perfeitamente que espalhar as boas novas da salvação era a
preocupação prioritária de Jesus Cristo (e de Paulo). Timóteo abafou seus 
interesses legítimos (casamento, constituição do lar, seguir sua carreira) para 
tomar-se “escravo” voluntário de Jesus. 
Com o passar dos anos de serviço, sob a observação e discipulado cui­dadosos 
de Paulo, ganhou a nota dez do mestre que reconheceu seu “caráter 
aprovado”. Tempos depois, o apóstolo escreveu a Timóteo, “procura apre­sentar- 
te a Deus, aprovado...” (2 Tm. 2:15).. Descobrimos que aprovação de 
Deus não é posição estática mas uma busca constante. Ainda que Timóteo 
fosse aprovado (Fp. 2:22), precisava buscar sempre essa condição. 
Serviu ao evangelho como filho junto ao pai. Humildemente rebaixou-se, 
para permitir que o apóstolo tomasse a liderança. Não encontramos neste 
símile nenhuma indicação de oposição (como entre patrão e empregado), 
mas de cooperação leal e subordinação, voluntária e alegre. Aliás não encon­tramos 
nas epístolas nenhuma sugestão para sustentar a idéia de que o após­tolo 
mandava nas vidas dos companheiros. Se houve uma exceção, foi de 
Timóteo que se prontificou a servir ao apóstolo, pará assim servir a Cristo. 
Não penso que Timóteo era líder destacado. Não penso que o apóstolo o in­dicaria 
para abrir um campo novo onde o evangelho nunca tinha sido anun­ciado. 
Mas para servir às necessidades de Paúlo e da igreja de Filipos, era o 
único indicado entre os companheiros do apóstolo. Qual seria a opinião que 
Paulo teria formado a nosso respeito? Ele enviaria qualquer um de nós? Te­ria 
percebido a nossa capacidade de cuidar sinceramente dos interesses dos 
filipenses ou dos nossos acima do que é de Cristo? Ganharíamos a reputação 
de “aprovados” da parte de Paulo pela maneira que temos servido humilde­mente 
à causa? 
Epafrodito 
Em terceiro lugar quero dar uma visão de Epafrodito. Este homem de 
Deus não é mencionado em outra parte da Bíblia. Não podemos opinar se 
era jovem ou mais velho, se se converteu nos primeiros dias da igreja em Fili­pos, 
evangelizada por Paulo, ou se recentemente se entregara ao Senhor 
Jesus Cristo. Mesmo sabendo tão pouco, Paulo focaliza alguns fatos impor­tantes 
a respeito deste extraordinário homem. 
Primeiro notamos que Paulo o chama de “o irmão”. Baseado no fato 
que Paulo distingüe “os irmãos” de “todos os santos” (Fp. 4:21, 22), alguns 
estudiosos chegaram à conclusão de que “irmão” servia de título como hoje 
usamos “obreiros”. Talvez os “irmãos” receberam ajuda financeira ou ali­mentos 
para poder dar tempo ao trabalho de evangelizar (cf. 2 Ts. 3:8-10 ; 
Cl. 6:6), ou viajar como Epafrodito fizera. 
Sendo o significado de “irmão” incerto, passeamos para o termo 
“cooperador” (gr. sunergon, “quem trabalha junto com outrem”, v. 25).
Através da história a igreja demonstrou a forte tendência de formar uma hie­rarquia. 
os líderes importantes sobem a escada de honra e autoridade. Creio 
que Paulo teria julgado esta inclinação contrária à vontade de Cristo (cf. 
Lc. 22:24-27). Epafrodito não foi considerado superior, nem inferior a 
Paulo; mas simplesmente um trabalhador ao lado de Paulo. Valioso é reconhe­cer 
na igreja que todos trabalham em equipe. Somos sunergoi com Cristo, O 
Cabeça, Senhor de todos os que cooperam na sua obra. Como formigas que 
sem obrigação nem domínio externo (cf. “nicolaitas”, no grego quer dizer 
dominadores do povo”, Ap. 2:6) trabalham espontaneamente em todas as 
áreas necessitadas: ensino, contribuição, evangelização, cuidado com os ne­cessitados, 
trabalho missionário distante etc. De acordo com o dom recebi­do, 
devemos colaborar. 
A terceira palavra no original, usada para caracterizar a Epafrodito se 
traduz com a frase “companheiro de lutas” (gr. sustratiõtês, “soldado com­panheiro 
de batalha”, “companheiro de armas”). Vocábulo bem raro, não 
temos muitas condições para adivinhar por que Paulo o designou desta ma­neira. 
No v. 30, somos informados de que Epafrodito “chegou... às portas 
da morte” e “se dispôs a dar a própria vida” (gr. paraboleusamenos, “arris­car 
a vida”, “apostar a vida”). Creio que se oferecer para transportar a oferta 
da igreja de Filipos até Paulo, o que era muitíssimo arriscado, possivelmente 
explicaria o uso deste termo por Paulo. A história do Bom Samaritano que 
Jesus contou ao advogado (Lc. 10:30-37) indica até que ponto chegava o 
perigo para quem viajava longas distâncias sozinho (cf. 2 Co. 11:26, “em 
perigos de salteadores”). 
Além dessa ameaça universal, Epafrodito enfrentou a enfermidade, 
“adoeceu mortalmente” (v. 27). No primeiro século, o perigo de germes e 
micróbios, de febres provocadas pelas águas poluídas, alimentos perigosos, 
antes das descobertas científicas que nos capacitam tomar as medidas de 
precaução, eram freqüentes. Viajar significava inevitavelmente enfrentar o 
perigo de doenças como tifo, tifóide, cólera, malária i e muitas outras doen­ças, 
sem qualquer tratamento eficaz. Paulo reconhece a disposição de Epa­frodito 
em “apostar sua vida” da mesma maneira que ele costumava fazer. Por 
isso, mereceu o título de “companheiro de batalha”, pois o incentivo foi ser­vir 
a Cristo, beneficiando o apóstolo. 
Epafrodito foi também o apóstolo ou “mensageiro” (gr. apostolos) 
da igreja de Filipos (v. 25). Recebeu a comissão de “enviado oficial” ou 
“procurador” dos filipenses junto a Paulo. Um apóstolo para os judeus, “era 
igual àquele que o enviou”2 . Portanto Epafrodito tomou-se o substi­tuto 
para a igreja junto a Paulo. Nessa posição serviu também de “auxiliar 
nas minhas necessidades” (v. 25). “Auxiliar” representa a palavra leitourgon 
no original. Significa em serviço ou culto que beneficia o povo (/e/f.). Na 
Septuaginta ganhou quase exclusivamente o significado de serviço de sacer­dote 
em prol da nação. 
É difícil saber se em outras passagens Paulo queria comunicar um sen­
tido mais religioso (exs. Rm. 15:27; 2 Co. 9:12), ou talvez, menos. Se, como 
veremos no cap. quatro, a oferta dos filipenses foi um “sacrifício aceitável e 
aprazível a Deus” (4:18 b), por que não deduziríamos que aqui Epafrodito 
serve como “sacerdote” comissionado pela igreja, oferecendo a Deus os do­nativos 
dos irmãos filipenses e suprindo a falta do apóstolo de Cristo (2:30)? 
Esta é mais uma passagem que emprega linguagem relacionada ao culto, e ao 
serviço sagrado dos membros (cf. Hb. 8:2), especialmente no ato de suprir 
uma necessidade no corpo de Cristo. O termo “serviço” (leitourgia) já foi 
usado por Paulo para indicar o ministério sacerdotal que o seu martírio efe­tuaria 
(v. 17). Portanto, ambos, Paulo e os filipenses, por intermédio de Epa­frodito, 
exerciam ministério sacerdotal. 
Epafrodito era um homem sensível. Ao saber que a notícia de sua gra­ve 
doença tinha chegado à igreja de Filipos, ficou angustiado (v. 26). Paulo, 
igualmente ansioso por causa da aflição dos filipenses que só receberam a 
notícia da enfermidade, e não que Deus o havia levantado (v. 27), depressa 
mandou Epafrodito de volta. Naturalmente, levou esta preciosíssima carta 
de Paulo aos filipenses na viagem. Assim, Paulo descansaria (“eu tenho me­nos 
tristeza v. 28”), no conhecimento de que a igreja não continuaria na 
angústia em relação a Epafrodito. Timóteo também irá (v. 19) logo que 
Paulo puder lhes informar a seu próprio respeito. Paulo, Timóteo e Epafro­dito 
merecem uma recepção alegre e honrosa (cf. v. 22,29). Paulo também 
irá logo que puder (v. 24), tendo confiança que o Senhor o libertará da 
prisão e “sentença de morte” (2 Co. 1:9) que pairava sobre sua cabeça3. 
Na apresentação dos três homens de Deus, Paulo, Timóteo e Epafrodi­to, 
descobrimos os traços daqueles que merecem essa designação. Homens 
que se desvincularíi dos seus próprios valores para, incansavelmente, buscar 
os de Cristo e da sua igreja. Estavam envolvidos no serviço sacerdotal dos ir­mãos 
e desta maneira cultuavam a Deus. Oremos a Deus insistentemente 
para nos tomar homens de Deus, levantando-nos no meio da sua igreja, para 
a sua glória.
PERDENDO PARA GANHAR 
Filipenses 3:1-8 
Quanto ao mais, irmãos meus, alegrai-vos no Senhor. A mim 
não me desgosta, e è segurança para vós outros, que eu escreva 
as mesmas cousas. 2 - Acautelai-vos dos cães acautelai-vos 
dos maus obreiros! acautelai-vos da falsa circuncisão  3 - Por­que 
nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus 
no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos 
na carne. 4 — Bem que eu poderia confiar também na carne. Se 
qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: 
5 - Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo 
de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, 6 - 
quanto ao zelo, perseguidor da igreja, quanto à justiça que há 
na lei, irrepreensível. 7 - Mas o que para mim era lucro, isto 
considerei perda por causa de Cristo. 8 — Sim, deveras consi­dero 
tudo como perda, por causa da sublimidade do conheci­mento 
de Cristo Jesus meu Senhor: por amor do qual, perdi 
todas as cousas e as considero como refugo para ganhar a 
Cristo. 
Introdução 
Uma das coisas estranhas sobre um homem como Paulo é que no mes­mo 
instante em que está insistindo em que os leitores tenham alegria, está 
também furioso. 
E não vê nenhuma contradição entre essas duas fortes emoções con­trastantes. 
É intensa sua hostilidade para com os judaizantes perseguidores, 
que o estão seguindo e se infiltrando nas igrejas que ele fundou (3:2). Mas 
Paulo diz aos filipenses que devem alegrar-se (3:1). Há dezesseis referências 
à palavra “alegria” ou “regozijo” nesta epístola curta, o que indica a signifí-cância 
espiritual que a alegria tem para Paulo. , 
Mas, como estar alegre e furioso ao mesmo tempo? Como se pode ex­perimentar 
esta “alegria no Senhor” e a hostilidade juntamente? E por falar 
nisso, é possível cometer um erro sério quando se confunde “alegria” com 
“felicidade”. Feliz e afortunado são termos paralelos. Afortunado vem da 
palavra latina “fortuna” que tem a ver com situações externas mas que afe­tam 
a você pessoalmente. Poderíamos chamá-la de emoção circunstancial. Se 
suas circunstâncias são favoráveis, então sua reação para com elas é positiva 
e você fica feliz. Mas alegria é outra coisa bem diferente porque tem a ver 
com as profundezas de seu ser. Compare tal estabilidade com o mar. A pou­cos 
quilômetros de profundidade no oceano, a milhares de metros abaixo da 
superfície, você descobre que nenhum efeito é causado por qualquer cir­cunstância 
que ocorra na superfície. Nas profundezas a temperatura perma­nece 
constante. Nenhuma tempestade ou bater de ondas perturba o fundo do
mar. Como nas camadas inferiores dos oceanos, é a alegria inspirada por Deus. 
Existem coisas surpreendentes na Bíblia, por exemplo, na última fala de Jesus 
com seus discípulos, o Senhor ofereceu-lhes “Eu lhes dou meu gozo”, mesmo 
quando estava caminhando para o Getsêmano. Hebreus menciona isto quando 
registra que nosso Senhor chamou-o “da alegria que lhe estava proposta” 
(12:2). Suportou a cruz, e até mesmo quando suportava a dor, isso não lhe 
afetava quanto à alegria. Só o Cristianismo pode oferecer-lhe, meu amado 
leitor, uma “alegria” tão incondicional. Nenhuma outra religião pode falar em 
alegria como pode o Cristianismo. É um dom, uma dádiva do Espírito Santo. 
Tem a ver com aquilo que Filipenses 3:3 chama de “adorar a Deus verdadeira­mente”. 
Se você realmente adora a Deus “por meio do Espírito” (creio que é 
uma tradução mais exata do que “no Espírito”), seu coração pode transbordar 
de alegria mesmo num campo de concentração. Nas circunstâncias mais 
miseráveis e penosas, ainda que você esteja experimentando uma tristeza 
profunda pela perda de um ente querido, você ainda pode se extasiar com a 
alegria do Senhor, alegria que lhe vem pela presença do Espírito. A alegria 
tem direito de estar na lista dos frutos do Espírito (Gál. 2:20). 
A Hostilidade de Paulo 
E enquanto Paulo experimenta esta alegria e encoraja os cristãos em 
Filipos a “regozijarem-se no Senhor” ele acrescenta: “Acautelai-vos dos 
cães”. A palavra “cães”, usada para descrever estes obreiros maus, é uma for­ma 
particularmente judaica de falar. Não que Paulo sentisse aversão especial 
pelos animais de estimação que temos. É que um cão era considerado animal 
impuro, visto que não podia ser sacrificado nem comido. Em conseqüência 
disso, “cães” tornava-se uma palavra útil para descrever os gentios, aqueles 
que não eram incluídos no pacto de Deus. Os gentios eram “pecadores” 
(Gál. 2:15), e excluídos da presença de Deus por causa de sua imundície ce­rimonial 
e religiosa.’ Portanto, quando Paulo fala nos adversários farisaicos 
da salvação gratuita pela graça de Deus, ele diz: “estas pessoas que se consi­deram 
povo verdadeiro de Deus são realmente “Cães”, são alienados, são 
gente de fora. Fica mais claro ainda no versículo 2 quando Paulo os chama 
de “maus obreiros”. A razão é que proclamam um evangelho diverso, que 
realmente destrói a fé dos gentios que creram. Faz deles, não candidatos pa­ra 
os céus, mas iludidos, sem alento, a caminho do inferno. É uma situação 
que deixa Paulo extremamente infeliz, mas não sem alegria. Fica furioso, 
mas não perde o regozijo. Prossegue descrevendo os falsos mestres como 
“cortadores”, como diz uma tradução, “mutiladores”. “Eles se mutilam” sig­nifica 
que estão praticando a circuncisão. Não que Paulo se opusesse à cir­cuncisão; 
ele próprio circuncidou a Timóteo (Atos 16:3). O que condenava 
era dar a este ritual judaico um valor que não podia ter mais, especialmente
no caso dos gentios convertidos. Toda vez que uma cerimônia religiosa 
adquire um significado à parte, sem ser o de engrandecer o valor de Cristo 
Jesus, há um deslize da natureza daquele em que incorreram os heréticos ju-daizantes, 
que semeavam mentiras nas igrejas fundadas por Paulo. Na verda­de, 
Filipenses 3:2 precisa ser lido em combinação com toda a Carta aos Gála-tas. 
Basta lembrar o que o Apóstolo diz em Gálatas 1:9: “Se alguém lhes 
prega evangelho que vá além daquele que receberam apresentando outra for­ma 
de ser salvo, que seja anátema”. Esse alguém era mestre perigoso, era 
mesmo um cão devorador. Era pessoa para ser evitada, excluída da comunhão 
dos santos. 
Adoração Verdadeira 
Então, Paulo continua com uma afirmação inesperada, no versículo 
3: “Nós somos a circuncisão verdadeira”. Há várias passagens na Bíblia que 
falam da circuncisão ser “verdadeira”. Aqui há o contraste subentendido. Se 
há uma circuncisão verdadeira, deve haver uma falsa. A circuncisão era o si­nal 
característico do homem judeu, significando que ele estava incluído nas 
promessas da aliança de Deus feitas a Abraão e aos seus descendentes. O 
pacto fez com que Israel fosse o povo eleito de Deus. Dois versículos adiante 
(Fil. 3:5) Paulo faz uma lista de seus bens religiosos, e põe a circuncisão co­mo 
o primeiro que perdeu a fim de ganhar a Cristo. Pela circuncisão Paulo 
estava incluído, segundo acreditavam os judeus, no povo da aliança de Deus. 
O sinal externo desse concerto era a circuncisão. Paulo diz que os represen­tantes 
da religião judaica não são a verdadeira circuncisão, mas que são 
“cães”. Como descrentes na graça, são de fora e são impuros. Os cristãos se 
tomaram os verdadeiros israelitas. Paulo inclui os gentios incorporados em 
Cristo pela fé. A Igreja de Jesus Cristo se tem tornado o único herdeiro legí­timo 
das promessas salvadoras de Deus dadas a Abraão. A circuncisão à qual 
Paulo se refere em Romanos 2:29, chamada “a circuncisão do coração”, é a 
única circuncisão verdadeira. Não é um rito carnal, mas um coração muda­do. 
E você, leitor, você se inclui com Paulo e os filipenses nesta circuncisão 
verdadeira? Já foi circuncidado de tal maneira que o arrependimento e a fé 
transformaram seu coração? Sem uma circuncisão desta natureza não há vi­da! 
É esta circuncisão que incorpora em Cristo os pecadores perdidos. Por 
isso Paulo a chama de “circuncisão de Cristo” (Col. 2:11). Nele, tanto ho­mens 
como mulheres foram cincuncidados, não por mãos, mas no despojamen-to 
do corpo da carne na circuncisão de Cristo. A crucificação de Jesus Cristo 
é a circuncisão que Deus colocou à disposição de todos nós. Confiando nele 
como nosso Senhor, somos incluídos no povo verdadeiro de Deus, tornando-nos 
verdadeiros filhos de Abraão e filhos de Sara (veja Romanos 4). Em re­sumo, 
somos o verdadeiro Israel de Deus. 
Por causa de Abraão, o pai dos homens de fé de todo o mundo, as úni­cas 
pessoas que terão a salvação serão “israelitas” neste sentido espiritual.
Serão o verdadeiro povo judeu, aqueles cujos corações foram mudados de 
acordo com a promessa da Nova Aliança. (Veja Ezequiel 36:23-32). O 
Senhor prometeu que faria uma coisa nova pelo seu povo, que faria deles um 
povo novo, em contraste com aquela nação profana que se afastava dele e 
servia a ídolos. “Para que as nações saibam que eu sou o Senhor, vindicarei a 
minha santidade através de vocês” (Ez. 36.23). Como Deus demonstrará sua 
santidade perante o mundo? Primeiro, mudando, transformando os corações 
dos homens, fazendo assim com que sejam Seu Povo verdadeiro. “Dar-lhes-ei 
coração novo, e porei dentro de vocês espírito novo” (Ez. 36.26). O Novo 
Testamento proclama o cumprimento desta promessa maravilhosa da nova 
aliança. Mas, no Velho Testamento também, não há somente esta passagem 
que se refere ao Novo Pacto. Está expresso no Velho Testamento, tanto co­mo 
no Novo, onde é proclamado como já realizado. A promessa, então, é 
que Deus implantará seu Espírito transformando pessoas de corações endu­recidos, 
e daquelas pessoas que, antes dependiam inteiramente de si, fará ser­vidores 
de Deus. Porém esta nova vida da aliança só se encontra em Cristo. 
Toda vez que celebramos a Ceia do Senhor, somos lembrados da “nova 
aliança no seu sangue”. O sangue de Jesus Cristo crucificado, proporcionou-nos 
esta vida nova que Seu Espírito nos concede. Recebendo o Espírito de 
Cristo somos feitos um povo verdadeiro de Deus. Filipenses 3:3, portanto, 
relaciona a verdadeira circuncisão, que aponta para o povo verdadeiro de 
Deus, com a adoração verdadeira. Pois a Igreja é a reunião daqueles “que 
adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confia­mos 
na carne”. 
A adoração dos judeus em Jerusalém era conforme a carne, e não “por 
intermédio do Espírito”. O culto, o serviço que ofereciam a Deus (é o que 
significa a palavra latremontes que Paulo emprega, compare Romanos 
12:1) não era aceitável, porque os judeus não dependeram da mediação do 
Messias crucificado. Faltava-lhes o Espírito da promessa da Nova Aliança 
(Jo. 3:5). Jesus explicou à mulher de Sicar que somente os que adoram em 
Espírito e verdade são procurados por Deus. Todo culto carnal, por mais sa­crificial 
e sincero, é.rejeitado. Agora, podemos entender porque Paulo diz: 
“Gloriamo-nos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne”. Gloriar-nos em 
Cristo quer dizer reconhecer que somos afortunados, abençoados. O “ale­grar- 
se em Cristo”, recomendado por ele, só pode referir-se à confiança e 
contentamento que enche o coração do cristão nascido de novo (comp. 
Gál. 6:13-14 onde Paulo limita o “gloriar-se” exclusivamente à Cruz. Obser­ve 
seu uso freqüente da palavra kauchemai (“gloriar-se”) em 2 Coríntios 
também). 
A Conta Espiritual Examinada 
A oposição que Paulo enfrentava nos primeiros anos do seu ministério 
era em grande parte a dos mestres judeus que se gabavam de ter credenciais
pessoais importantes como autoridades religiosas. O Apóstolo não hesitou 
em comparar-se aos maiores dentre eles, enquanto negava, ao mesmo tempo, 
que valesse alguma coisa seu prestígio religioso judaico. O que ele diz é o se­guinte: 
“Se a questão é ter razões para confiar em si próprio, eu tenho mais 
do que todos” (v. 4). 
Paulo apresenta seus haveres, embora sejam religiosos e não financei­ros. 
Faz como um contador: “Peguem seu livro caixa e vejamos a coluna dos 
créditos e a dos débitos. Vejam minha lista. Quero registrar que a despeito 
dos mandamentos da lei que os judaizantes lhes estão impondo, a despeito 
de seus currículos impressionantes, eu tenho o maior saldo em vantagens re­ligiosas 
do que qualquer missionário judeu do mundo inteiro”. 
Vejamos a lista de Paulo: é de causar admiração. Em primeiro lugar, 
quanto à circuncisão (a exigência primária), “Eu estou seguro, tenho segu­rança 
total” (v. 5). Muitos rabinos judeus afirmavam que nenhuma pessoa 
que tivesse sido circuncidada podia ser lançada no Inferno. Paulo estava mar­cado 
no corpo com o sinal certo, como membro do povo da aliança de Deus. 
De maneira que as promessas que Deus deu a Abraão também eram suas! 
Não só circunciso, como também descendente de Isaque e Jacó, o que lhe 
dava o segundo crédito da lista. Com isso ele diz que pertence racialmente ao 
povo escolhido de Deus. Paulo não vinha de fora como os prosélitos gentios. 
Não só foi circuncidado no oitavo dia, como também era de sangue puro, ra­cialmente, 
descendendo diretamente de Abraão através de Isaque e Israel. 
Podia levantar os olhos e ver o oceano de pessoas que não podiam reivindi­car 
este privilégio. Os árabes traçam sua linhagem por intermédio de Ismael 
mas não através de Isaque, sendo portanto excluídos da aliança de Abraão. 
Não é o meu caso, diz Paulo. Em terceiro lugar, Paulo era benjamita. A tribo 
de Benjamim tinha uma história bastante gloriosa na nação. O primeiro rei 
de Israel, Saul, foi benjamita. E você se lembra da divisão do reino depois do 
pesado governo de Salomão? Houve uma revolta assoladora das dez tribos 
do norte contra Reoboão, filho de Salomão, porque não quis diminuir os 
encargos impostos pela linha dura do governo. Somente uma tribo não se se­parou 
de Judá e da linhagem de Davi; foi a tribo de Benjamim. Conseqüente­mente, 
Benjamim permaneceu firme no círculo verdadeiro, privilegiado, do 
povo de Deus. Em lugar de adorar a ídolos e construir altares aos deuses 
Baal e Asera como fizeram as tribos do norte, Judá e Benjamim mantiveram 
pelo menos a aparência do culto verdadeiro a Deus. Paulo podia orgulhar-se 
de pertencer à tribo que escolheu seguir a Davi e seus filhos, e adorar a Deus 
no seu templo em Jerusalém. 
Consideremos o quarto crédito da lista de haveres de Paulo. Ele afir­mava 
ser “Hebreu dos hebreus”. Um hebreu nascido de pais hebreus possuía 
mais um recurso religioso de valor. Na época de Alexandre, o Grande, e mui­to 
mais ainda no tempo de Antíoco Epifânio (logo antes da revolta dos Ma-cabeus, 
no 2? séc. antes de Cristo), o povo judeu tinha sido forçado a 
aprender a língua grega e adotar a cultura grega. Alguns judeus permaneciam
fiéis à herança e cultura judaicas. Era muitas vezes extraordinariamente alto 
o custo da perseguição e da repressão econômica. Entre os judeus, aqueles 
que mantiveram sua cultura, língua e culto hebraico eram considerados os 
mais verdadeiros de todos e quaisquer judeus existentes no mundo. É quase 
certo que foi por esta razão que os pais de Paulo o levaram a Jerusalém 
quando pequenino, para sorver a atmosfera judaica e crescer no âmago da 
cultura israelita em Jerusalém, capital do mundo judaico. Como Paulo foi 
criado em Jerusalém, ele falava a língua divinamente endossada, que era o 
hebraico, lia a palavra de Deus nas palavras originais que os profetas inspira­dos 
falaram e escreveram. Portanto, estas foram suas vantagens independen­tes 
da vontade, da escolha: Paulo não escolheu ser circuncidado, não es­colheu 
ser benjamita, como nenhum de nôs pode escolher a cor ou raça de 
que provém Foram benefícios que ele atribuía à graça selecionadora de 
Deus, como todo judeu fazia. Como Paulo devia ter-se gloriado na eleição di­vina 
de Abraão e de sua semente! Podia dizer como o fariseu que orava: “Que 
bom o Senhor ter-me feito judeu, e não gentio... Estou contente por me ter 
feito homem e não mulher”. Lucas 18 conta do fariseu que subiu ao Templo 
para orar. “Deus, agradeço-lhe porque não sou como outros homens...” Paulo 
tinha haveres no livro-razão religioso,embora não lhes atribuísse nenhum va­lor 
depois de sua conversão. A graça gratuita é que faz a grande diferença. 
Paulo, entretanto, não parou aí com a lista de seus bens. Ele prossegue, 
citando os itens ganhos por escolha e esforço próprio. Escolheu ser fariseu, 
isto é, membro do partido mais rigoroso e mais admirado entre os vários par­tidos 
religiosos judaicos. Não era uma fraternidade muito numerosa. Algu­mas 
autoridades acham que não houve mais de seis mil fariseus vivendo na 
mesma época. Eram muito exigentes, como numa loja maçônica ou outra 
organização na qual os iniciados assumem responsabilidades e votos perante 
Deus. O objetivo da renúncia era agradar a Deus. Consistia em jejuar, dar dez 
por cento de tudo que se recebia, valesse alguma coisa ou não, e ser meticu­loso 
na observância do sábado. Li a respeito de um fariseu que passou oito 
horas por dia durante dois anos estudando a lei do sábado: o que se podia e 
não podia fazer para agradar a Deus e cumprir seus mínimos mandamentos. 
Paulo diz: “Escolhi fazer parte da fraternidade dos fariseus”. E ainda: “Fui 
além. Tornei-me extremamente zeloso para proteger a pureza da verdade de 
Deus.” Foi isto que motivou Paulo a perseguir a Igreja de Jesus Cristo. Não 
acredito que Paulo tenha odiado as pessoas por natureza, mas ele detestava 
as pessoas que não enxergavam a verdade como ele a via. Estava mais que 
disposto a ver os heréticos cristãos sofrerem, chorarem, até morrerem se 
fosse necessário; foi por esta razão que encontramos Paulo encabeçando o 
apedrejamento de Estêvão (Atos 8:1). 
Zelo, eis a característica de Paulo, mais zelo do que qualquer um dos 
seus adversários tinha. Além de tudo, Paulo afirma, “quanto à justiça, a 
minha era composta de todas as minúcias da Lei”. Referia-se ao fato que du­rante 
todos os momentos em que ficava acordado, estava obcecado em se-
ALEGRAI-VOS NO SENHOR 
guir as regras de Deus. Desde a hora em que foi iniciado nas responsabilida­des 
adultas judaicas, aos doze anos, tornando-se “filho da Lei”, tentou 
cumprir todas as exigências. Paulo então podia dizer: “Se alguém quiser veri­ficar 
meu currículo, há de ver que fui inculpável quanto aos requisitos da 
l e i ” Foi esta a auto-avaliação de Paulo. Somando as sete vantagens, qual e 
o total? Para um judeu, sabemos que tudo era considerável. Ele tinha o céu 
na mão, e o que havia de melhor nas honras e posições deste mundo ao mes­mo 
tempo. Do ponto de vista daqueles falsos mestres, Paulo estava com tu­do. 
Mas ele, tendo completado a lista, passou à outra coluna do livro-razão. 
Uma mudança de valores, profunda e radical, ocorrera quando Paulo 
se encontrou com Jesus Cristo e submeteu-se a Ele como Senhor de sua vida. 
Vejamos o versículo7, e faço novamente uma paráfrase: “Somei todos os nu­merários 
do meu passado religioso, e loram milhões que eu tinha ganho (sa­bem 
como isto pode subir à cabeça, pois os multimilionários podem ficar or­gulhosos 
do que ganharam)... Espere um pouco. Acabo de perceber que 
aquelas vantagens todas eram como zeros sem o dígito “um” na frente. Por­tanto 
todas elas não trazem absolutamente nada”. Paulo tinha chegado a 
essa conclusão para descobrir e apropriar o valor de Cristo. Olhemos de novo 
o versículo 7, para ver como foi que o Apóstolo reavaliou seu ativo corrente: 
“O que para mim era lucro (pois eu tinha tudo) considerei (hegemai está no 
tempo perfeito) e continuo a considerar perda; são antigos valores que na 
nova estimativa perderam o efeito por causa de Cristo, por amor a Ele. A pa­lavra 
grega traduzida como “perda” é usada duas vezes em Atos 27, onde 
Paulo estava viajando naquele enorme navio veleiro no Mar Mediterrâneo em 
direção a Roma. Paulo levantou-se e disse ao capitão do navio e ao centurião 
em comando: “Se este navio prosseguir viagem, haverá dano e muita perda” 
(Atos 27:10). Imaginem como devem ter olhado para ele e pensado: “O que 
voce sabe de navegação; é óbvio que você é um pregador, não um marinhei­ro”. 
Portanto não deram atenção ao prisioneiro Paulo. Poucos dias depois, 
quando uma tempestade perigosa os alcançou e já haviam lançado ao mar tu­do 
que era removível, Paulo disse: “Vocês sabem que se me tivessem atendi­do, 
vocês teriam evitado todo este dano e perda” (aquela mesma palavra). 
Perda é ficar sem uma coisa permanentemente, como se um relógio caísse de 
sua mão ou um anel de seu dedo ao você se debruçar sobre o parapeito de 
um navio no meio do Oceano Atlântico. Você tem certeza que isso é perda 
irrecuperável. A perda é definitiva e irreversível. Por isso o Apóstolo dá tan­ta 
ênfase: “Aquele dia, na estrada de Damasco, eu perdi tudo isso, e está per­dido 
até hoje”. Foi uma perda tão completa que não havia como recuperá-la, 
de nenhuma forma, absolutamente. Então o versículo sete diz: “Considerei 
tudo perda, por causa de Cristo”. Fica claro, portanto, que ou nós perdemos 
todos os valores religiosos para ganhar a Cristo, ou nos apegamos a eles e 
perdemos a Cristo. A mensagem inconfundível é que você não pode manter 
a justiça que criou por si, do legalismo judaico, e abraçar a Cristo ao mesmo
PERDENDO PARA GANHAR 
tempo. No versículo 8, Paulo dá ainda mais ênfase: “Realmente, continuo a 
considerar (a mesma palavra do versículo 7, significando “avaliar”, “somar”) 
tudo como perda por causa da sublimidade (valor inestimável) de conhecer a 
Jesus Cristo . Perdera todos os valores religiosos judaicos, perdera sua 
posição privilegiada, sua importância na sociedade, seu nome. Além das per­das 
passadas, existem as presentes. Paulo está continuando a perder. Fala so­bre 
algo diferente no versículo 8. Está pensando nos confortos que a vida 
oferece, na vantagem pessoal de uma boa aposentadoria em paz para delei-tar- 
se o resto de seus dias. Paulo não era tão sobrehumano que não fosse 
atraído pela idéia de ser dispensado da batalha para a folga da aposentadoria. 
Paulo está reconhecendo que para ele não será concedida a dispensa de 
serviço! “Eu não tenho nada que valha a pena nesta vida esperando por 
mim. Ainda estou perdendo tudo. Cada vez que me levanto para pregar, 
meus ouvintes se enlouquecem; alguns querem me apedrejar, me matar. Ou­tros 
riem de mim achando que sou demente. Esta perda contínua é pela ex­celência, 
pela sublimidade extraordinária de conhecer a Cristo”. E diz ain­da. 
Estou ganhando recursos líquidos no lugar daquilo que perdi e estou 
até agora perdendo”. Qual o lucro que ele estava ganhando? Só há um bene­fício 
subrepujante, de valor incomparável, que Paulo está ganhando, segun­do 
esta passagem. É Cristo. Veja o final do versículo 8. “Eu os considero (es­tes 
valores religiosos, tais como os que os judaizantes estavam promovendo) 
como refugo ou lixo, para que eu possa ganhar a Cristo”. Não nos esqueça­mos 
que Paulo já tinha ganho a Cristo, ganhou-o na estrada de Damasco. 
Mas ele diz “Eu ainda O estou ganhando”. Fiquei como completo perdedor 
(no meio do versículo 8) e conto tudo como refugo Cristo. a fim de poder ganhar a 
Conclusão 
Cada um de nós nos envolvemos na mesma questão de Paulo. Temos 
uma vontade ingênua de equilibrar as contas das duas colunas, de tal forma 
que nenhum lado perca. Será que cada um de nós também não deseja poder 
ganhar algo que venha da carne; alguma vantagem, algum reconhecimento, 
alguma posse na qual possa estar mais seguro? Paulo nos diz que até o ponto 
e na proporção em que nos firmamos nestes recursos, já perdemos a Jesus 
Cristo (conf. Gál. 5:2). Por outro lado, se você já perdeu tudo, toda a espe­rança 
auto-produzida da aprovação de Deus, toda sua justiça própria, tudo 
que você faz em questões espirituais, então Cristo pode ser de valor eterno 
para você. A palavra “carne” significa simplesmente o que você pode fazer 
sozinho, independente do auxílio de Deus incluindo todo o bem que já 
fez e que não foi considerado perda. Se você está dependendo da “carne”, 
então você não chegou a conhecer Cristo de maneira nenhuma! Ninguém faz 
de Deus o seu devedor.
Conhecer a Cristo realmente significa um cancelamento definitivo, ris­car 
completamente aquela primeira coluna de recursos, cheia das provas de 
nossas boas obras. Na outra coluna está somente Cristo. “Só ali pode ser vis­to 
o valor supremo de ter Jesus como Senhor e Salvador. Conhecer o Filho 
de Deus está muito, muito acima de todo o valor ganho com esforço próprio 
que antes pensava possuir”. 
O valor real em troca de supostos recursos é para você também, se 
conhece a Cristo como Paulo o conhecia. Se você o conhece pela fé, se o 
conhece como aquele de quem tudo se origina, se o vê como quem lhe deu a 
vida, e tem todo direito ao seu amor e lealdade, então você O “ganhou”. Se 
você se apega a ele, chegando-se a Cristo naquele relacionamento de concen­tração 
total, então o verá como Aquele de quem procedem todas as coisas 
para você, e saberá que tudo existe para ele. Em termos bíblicos, isto é ex­presso 
em uma pequena frase que se refere a Deus: “Porque dele e por meio 
dele e para ele são todas as coisas” (Rom. 11:36). Se é assim que você consi­dera 
a Jesus Cristo, você perdeu tudo para ganhar a pérola de grande preço. 
As escolhas significativas e a volta da estrada foram ordenadas por Ele, não 
por você. A maneira de você pensar e usar seu tempo e recursos materiais, 
tudo contribui para mostrar como você se relaciona com Jesus Cristo. Diga­mos 
assim: “Se você o escolhe, então tudo mais deve perder o valor, tor­nar- 
se mesmo como lixo ou “refugo”, para usar a palavra de Paulo no versí­culo 
8. Precisa ser como todo aquele trigo que foi jogado ao mar, do navio-prisão 
em que Paulo viajou, ameaçado e agitado por aquelas ondas gigantes­cas 
(At 27:17 em diante), Não nos admira o fato de Paulo estar tão alegre e 
disposto! É lógico que recomenda-se aos leitores que se alegrassem no 
Senhor, porqüe um ganho incomparável tinha substituído todas as perdas do 
passado e do presente. 
Examine sua vida hoje. Onde você está em relação a perder tudo a fim 
de ganhar a Cristo? 
Oração: Ó Deus Senhor, nós o louvamos porque a salvação não pode 
ser conseguida pelo nosso próprio esforço. Se pudesse, quem saberia, com 
certeza, que já havia tentado o suficiente? Muito obrigado por um Salvador 
perfeito, Jesus Cristo, que morreu para pagar todos nossos pecados, e que 
vive para mudar nossos valores centralizados em nós mesmos para os centra­lizados 
Nele.
A AMBIÇÃO DE PAULO 
Filipenses 3:9-16 
9 - e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede 
de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que pro­cede 
de Deus, baseada na fé; 10 — para o conhecer e o poder 
da sua ressurreição e a comunhão dos seus sofrimentos, confor­mando- 
me com ele na sua morte; 11 - para de algum modo al­cançar 
a ressurreição dentre os mortos. 12 - Não que eu o 
tenha já recebido, ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo 
para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por 
Cristo Jesus. 13 - Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo al­cançado; 
mas uma cousa faço: esquecendo-me das cousas que 
para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, 
14 - prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação 
de Deus em Cristo Jesus. 15 - Todos, pois, que somos perfei­tos, 
tenhamos este sentimento; e, se porventura pensais doutro 
modo, também isto Deus vos esclarecerá. 16 - Todavia, ande­mos 
de acordo com o que já alcançamos. 
A auto-biografia que Paulo começou a contar no v. 4, continua até o 
v. 16. Só uma vírgula separa os vs. 8 e 9. A divisão em duas mensagens foi 
feita unicamente por conveniência e não pelo conteúdo do texto. Nos vs. 
4-7 o apóstolo fala do seu passado, incluindo a mudança transcendental pela 
sua conversão (v. 7). O v. 8 apresenta como ele encara o presente, trocando 
tudo pela “sublimidade do conhecimento de Cristo”. Na última passagem 
deste verso e no restante da passagem, parece que Paulo contemplava um 
futuro que incluia seu relacionamento com Cristo, após a existência presente 
ser trocada pela nova vida através da ressurreição (vs. 11, 14). Ele desenvolve 
neste trecho sua mais profunda ambição. Concentra todas as suas energias 
no prosseguimento para alcançar aquela meta que, por si, explica a extraor­dinária 
dedicação do famoso missionário aos gentios. Qualquer indivíduo 
que pretende ser um homem de Deus, não poderá deixar de aproveitar a van­tagem 
de adotar esta mesma ambição. 
A Meta de Ser Achado em Cristo 
0 motivo que o apóstolo tem para lançar fora do barco de sua vida re­ligiosa, 
todos os valores anteriormente buscados com tanto afã, se encontra 
no v. 9: “ser achado nele, não tendo justiça própria... senão a que é median­te 
a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus...”. Este versículo apresenta 
o cerne da doutrina paulina da salvação em Cristo. Se pela fé renunciamos 
toda justiça própria e recebemos aquela oferecida por Deus mediante a fé 
n’Ele, garantimos o mais precioso de todos os valores. A união com Cristo 
pela fé, que nos enxerta n’Ele (também chamada de “união mística”), pela 
operação do Espírito Santo (cf. 1 Cor. 12:13 e Gl 2:20), nos garante a parti-
cipação na própria justiça impecável de Cristo. Essa justiça Deus oferece de 
graça à todos que confiam no Seu Filho. A justificação (o ato divino que le­galmente 
nos absolve dos nossos pecados e nos declara justos) não depende 
de nada bom ou justo que possamos oferecer em troca. Deuz fez tudo para 
que não tivéssemos em nós motivos de glória (Ef. 2:8, 9) e para que só exal­tássemos 
a Jesus Cristo. Assim, Paulo deixa claro que a justificação pela fé e 
a união com Cristo são realidades equivalentes. Ambas explicam o porque 
dos pecadores salvos gozarem da justiça que eles não podem produzir. Não é 
por retidão ou piedade por eles alcançadas, mas por dádiva completamente 
gratuita. O nono versículo, portanto, explica a realidade válida para todos os 
que, como Paulo, consideram todas as coisas como refugo (v. 8). A fé que se 
destaca, repetida duas vezes no v. 9, tem então um aspecto negativo (perder 
tudo que possa fornecer motivo de auto-confiança ou orgulho e igualmente 
um positivo. Pela fé nos identificamos com Cristo, confiamos n’Ele e nos en­tregamos 
à Ele. Somos unidos com Elee n’Ele permanecemos (cf. Jo 15:3-11). 
Portanto, ele é nossa “justiça”, escreveu Paulo aos coríntios (I Co 1:30). 
Seria um erro fatal, no entanto, concluir que a fé proporciona um descanso 
excluindo o esforço, numa sonolência absoluta. A justiça inputada por Deus 
deve ser praticada pela dinâmica que surge da vida de Cristo em nós. Todo o 
zelo que Saulo de Tarso empreendia no esforço para cumprir a lei e merecer 
a aprovação divina passou a busca do reino de Cristo (cf. Mt 6:33). Desliga­do 
da frenética corrida para a justiça própria, Paulo encorajou-se para a ex­ploração 
do relacionamento com Cristo. O amor por Ele (cf. v. 8) substituiu 
o amor próprio. 
O Alvo de Experimentar a Vida Real de Jesus 
Este zelo, impulsionado pelo amor, explica o pensamento do v. 10. 
Novamente ele repete a meta da sua vida em Cristo. — 1) Desejava ardente­mente 
“conhecer” a Cristo. Já revelara que conhecer a Cristo Jesus é exce­lente, 
uma “sublimidade” (huperechon no grego — v. 8). Creio que caberia 
uma ilustração aqui. 
Um vagabundo que cambaleava ao lado de um rio, caiu nas águas pro­fundas. 
Não sabia nadar, mesmo se estivesse sóbrio. Passava à beira daquele 
rio um senhor que ouviu os gritos de socorro. Sem hesitação, o homem dis­tinto 
pulou nas águas arriscando sua própria vida para salvar o bêbado. No­vamente 
em terra firme, o desgraçado tentou, mesmo com muita dificulda­de, 
externar sua gratidão. “Obrigado, obrigado”, falou sem muita convicção. 
O homem que o salvara tirou do bolso do paletó gotejante, um cartão de 
visita. “Se algum dia precisar de mim, vá à minha casa e procure-me”, disse o 
estranho desprendídamente. Naquela noite, o vagabundo dormiu todo 
molhado, como sempre, na sarjeta. Amanheceu com frio e faminto, mas não 
dispunha de dinheiro algum. Mal se lembrava da experiência do dia anterior;
porém a fome intensificou sua perspicácia e se lembrou: “o cartão!” Logo 
encontrou a casa. O que mais o surpreendeu é que era a maior casa e a mais 
opulenta da cidade toda. Apertou a campainha. Suas roupas rasgadas e 
imundas o constrangiam, mas o porteiro logo o conduziu à belíssima sala de 
estar onde aguardaria a chegada do amigo desconhecido. Quando pouco de­pois 
chegou o fidalgo, aquele mesmo senhor que apenas horas antes o so­correra 
das águas ameaçadoras, trazia um sorriso que comunicava um “bem-vindo” 
genuíno. Assentaram-se e conversaram. “Deve estar com fome!Gos­taria 
de tomar o café comigo?” disse o simpático anfitrião. Queria, e como 
queria! O café reforçado, como nunca havia saboreado em toda sua vida, 
matou sua fome.. Subitamente o nobre dono da casa indagou se gostaria de 
tomar um banho. “Quero sim...”. Havia também um terno no guarda-roupas 
e lâminas de barbear no banheiro. “A casa é sua; não há pressa”, reforçou o 
benévolo senhor. 
“Fique aqui comigo. O quarto de hóspedes está à sua disposição!”. O 
bêbado tomou seu banho, descansou na cama macia, vestiu-se no temo no­vo, 
tentando sempre resolver a indagação: “Por que este fidalgo está me tra­tando 
assim?”. Em nenhum momento satisfez a sua curiosidade. Foi since­ramente 
convidado a ficar naquele palácio por quanto tempo quisesse, bon­dade 
que não poderia deixar de aceitar, uma vez que nada tinha na vida. 
Mais estranho ainda era o fato que o amigo tão distinto e bondoso, nada 
tinha a fazer de mais urgente do que conversar com o vagabundo, agora em 
vias de transformação radical. Os diascse passaram. Chegaram a ser amigos, e 
dos mais íntimos. O antigo bêbado, já reformado, buscava servir o nobre 
com toda sua capacidade. Contava como o tempo mais precioso da sua vida 
o da comunhão com seu amigo. Conversavam sobre tudo que os interessava. 
O estranho chegou a ser “conhecido” já no fim do primeiro dia, mas 
depois de meses e anos de comunhão, o ex-alcoólatra miserável podia dizer: 
“estou conhecendo o amigo que me salvou!”. 
Este relacionamento representa o sentimento de Paulo. Do auto esfor­ço 
para fazer o que era certo (tal como o viciado que tudo faz para livrar-se 
do álcool ou (das drogas), passou a conhecer o seu libertador, e conhecen­do- 
o foi tomando-se gradativamente mais seu imitador (I Co 11:1). 
2) O apóstolo desejava também conhecer o poder da sua ressurreição 
(v. 10). Tal como a força nuclear tem transformado o mundo e a política in­ternacional 
até às raízes, assim o poder de Deus demonstrado na ressurreição 
de Jesus Cristo dentre os mortos, modificou a realidade do nosso mundo. 
Foi esse o poder exercido quando nós fomos ressuscitados da morte em “de­litos 
e pecados, pelo qual Deus fêz-nos assentar com Cristo nos lugares celes­tiais” 
(cf. Ef. 1:19-2:1 e 6). O poder da ressurreição transformou a derrota 
da cruz em vitória sobre todas as forças malignas (cf. 1:21, 22), e entronizou 
Jesus Cristo como Messias e Senhor (kúrios) à destra de Deus (SI 110:1; At. 
2:36: Rm. 1:4). Creio que Paulo, que achava alingua grega pobre demais pa­ra 
descrever esse poder (nota-se em sua oração, para que os efésios pudessem
conhecer “a suprema grandeza do seu poder (dunamis) para com os que cre­mos, 
segundo a eficácia (energeian) da força (kratos) do seu poder (ischuos)” 
exercida na ressurreição cap. 1:19), esperava no Senhor, cada dia, receber 
manifestações dessa atuação na ressurreição de mortos espirituais pela sua 
anunciação das boas novas. 
Pela maneira como Paulo une as duas metas no v. 10, a 1? a de conhe­cer 
a Cristo e a 2? o poder da ressurreição, podemos deduzir que, ter co­munhão 
íntima com Cristo traz o efeito de experimentar esse poder da nova 
criação (2 Co. 5:17). Buscar zelosamente a comunhão com Cristo pela 
oração, pela meditação na sua Palavra e pela adoração espiritual (v. 3), insu­fla 
no cristão o poder que emana do Salvador ressurreto e exaltado. 
3) Em terceiro lugar Paulo ansiava pela comunhão nos sofrimentos Cristo (v. 10). “Comunhão” (koinonia) deve ser entendida no seu sentido 
básico de “participação”. Os sofrimentos de Jesus, quando viveu no mundo, 
incluiram toda forma de rejeição dos homens. Nosso Senhor suportou o que 
o autor aos Hebreus denominou de “tamanha oposição dos pecadores” 
(12:3). 
Esses sofrimentos de Cristo ocorreram em conseqüência direta da sua 
humilhação e obediência (Fp. 2:8). O servo Paulo (1:1) não esperava nem 
desejava melhor sorte neste mundo que a do seu Senhor (cf. Jo. 13:16). Por­tanto, 
desejava participar dessas aflições por causa de Cristo e para a glória 
d’Ele. 
O que Cristo sofreu por nós na Terra foi, infinitamente, mais do que o 
necessário para cobrir nossos pecados (I Jo. 2:2). As perseguições e dores 
dos discípulos nada contribuem para a expiação do pecado humano. A re­denção, 
ou preço do nosso resgate, só o Filho perfeito pode oferecer ao Pai 
(Rm. 3:24, 25; I Co. 6:20; Ef. 1:17; Cl. 1:14). Mas o preço sacrificial para 
divulgar essa notícia redentora é o que “resta das aflições de Cristo” (Cl. 
1:24). Paulo está disposto a sentir esses sofrimentos na carne, até mesmo a 
própria morte. Esse desejo de se apresentar diante de Cristo, tendo trilhado 
a “via de glória” (é como os mártires chegaram a entendê-la!) não era mór­bida. 
Isso já percebemos no exame dos vers. 1:29-26. Paulo simplesmente via 
no martírio o mais extraordinário testemunho da fé, a mesma fé pela qual 
conhecera o Senhor. Não haveria mais concreta demonstração da sua fé em 
Cristo, nem do seu amor por Ele, do que receber de Deus a graça de se con­formar 
com Cristo no sacrifício da vida (cf. 2:17). Daí o poder da ressurrei­ção, 
atuando nesta vida na carne, manifestar-se no levantamento de Paulo 
dentre os fisicamente mortos (v. 11). Parece que Paulo tinha alguma dúvida 
a respeito da sua ressurreição corporal, porque disse, “para de alguma manei­ra 
alcançar a ressurreição...”. A frase “de alguma maneira” representa o gre­go 
“ei-põs”, que introduz a possibilidade que é o objeto da esperança ou de­sejo. 
Não creio que seja o destino,mas o modo de chegar, pelo martírio, pela 
morte natural ou mesmo pela transmutação na vinda de Jesus Cristo (I Ts. 
4:15; I Co. 15:51), que Paulo não prevê claramente. O dia da ressurreição
será o mesmo do nosso aperfeiçoamento (v. 21). Naquela grandiosa hora de 
vitória, receberemos tudo o que Deus planejou para os seus amados. Ainda 
que Paulo acreditava na ressurreição com Cristo após a morte com Ele (Cl 
2:12; 20:31), ele não ensinou que o crente recém-batizado obtém a per­feição 
(Fp. 3:12). No intervalo entre a regeneração e a transformação escato-lógica 
completa, temos a carreira cristã para ocupar todo nosso esforço. 
O Incentivo que Motivou a Paulo 
O veterano missionário fala, no v. 12, da motivação central da sua am­bição. 
“Prossigo (gr. diõkõ: “perseguir”, “concentrar os esforços”) para con­quistar 
aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus”. Desde 
o dia em que viu e ouviu a chamada do mestre na estrada em Damasco, sou­be 
que era “um instrumento escolhido para levar o nome de Cristo perante 
os gentios e os reis, bem como perante os filhos de Israel” (At. 9:15). Foi ca­tivado 
numa conquista estarrecedora de Cristo. Conseqüentemente quis tam­bém, 
de maneira incansável, conquistar os territórios ainda rebeldes ao seu 
Rei. Juntavam-se na visão de Paulo, o aperfeiçoamento pessoal através do 
conhecimento de Jesus (vs. 8, 10), e seu ministério evangelizador. Seu 
Senhor o conquistara para ambas as tarefas. Cristo também fez o mesmo 
com cada um de nós. A finalidade de nossa eleição é proclamada claramente: 
sermos apresentados perfeitos em Cristo (Cl. 1:28; cf. Ef. 1:4). Mas, assim 
como o guerreiro Paulo, somos soldados do Rei Jesus (II Tm. 2:3,4) na luta 
para a conquista das “terras” dominadas pelas trevas satânicas. Em Roma­nos, 
Paulo esclarece aos seus leitores qual era sua visão do seu ministério. 
Era “ministério do Senhor Jesus no sagrado encargo de anunciar o evangelho 
de Deus, de modo que a oferta deles (os gentios) seja aceitável, uma vez san­tificada 
pelo Espírito Santo... esforçando-me deste modo para pregar o evan­gelho 
não onde Cristo já fora anunciado...” (15:16, 20). 
Tudo isto deixa bem claro porque o apóstolo não corria sem meta. De­clarou 
ele: “...luto, não como desferindo golpes no ar” (I Co. 9:26). É certo, 
porém, que muitos componentes do “exército da salvação”, ainda não fo­ram 
conscientizados com respeito à luta. Não perseguem a perfeição nem an-seiam 
a conquista do alvo para o qual Deus os chamou. Estão contentes 
com a salvação gratuita, mas a ambição de conhecer a Cristo e participar nos 
seus sofrimentos e exercer seu poder, não se manifesta! 
Qual seria a explicação desta anomalia? 
Creio que podemos descobrir um motivo, que subjaz nas entrelinhas 
dos versículos 13-15. 
Paulo não se colocava entre os que julgavam que já haviam alcançado 
o alvo divinamente escolhido para cada um. Parece que em Filipos, como 
também em outras igrejas gregas, surgira a teologia perfeccionista. Raízes 
deste erro se descobriam no gnosticismo elitista de um lado e no judaismo do
outro (ver a frase relevante do v. 6, “quanto à justiça que há na lei, irre­preensível”, 
tratando da vida no farisaísmo de Saulo/Paulo). O gnóstico, ini­ciado 
nas especulações acerca do distante Deus bom e imaterial, e também 
acerca do mundo mau, por ser material, possuía duas tendências: uma ascé­tica 
e a outra libertina (veja os vs. 18, 19). Pelo conhecimento (gnõsis), o 
adepto poderia subir a suposta escada da perfeição, desligando-se do “imper­feito”. 
Semelhantemente, o fariseu orava no templo agradecendo a Deus por 
sua perfeição (Lc. 18:11, 12). 
Pela sua conversão radical, Paulo se distanciou totalmente desse tipo 
de auto-conceito. A perfeição de Jesus Cristo fez contraste com este tipo, 
como a escuridão da meia-noite o faz com o brilho do sol ao meio-dia. A 
profunda revelação da depravação íntima, à luz da santidade divina, conven­ceu 
o apóstolo que ele era não o mais perfeito dos santos, mas o “principal 
dos ipecadores”' (I Tm. 1:15). Por isso esquecera “das coisas que para trás 
ficam” (Fp. 3:13). Tudo que conseguira, por sacrifício e abnegação, não 
pesava na balança. Eram como trapo imundo uma vez que agora estava re­vestido 
com a justiça imaculada que Deus lhe proporcionara (vs. 7-9). Alivia­do 
da necessidade de se convencer de que merecia um galardão da parte de 
Deus, Paulo então pode se dedicar, sem tréguas, à conquista do alvo. O ter­mo 
“avançando” (gr. epekteinomenos, “estendendo-se”, “esticando-se ao 
máximo”), mostra a obsessão do homem de Deus na perseguição (gr. diõkõs, 
“prossigo’ v. 14, também v. 12) do alvo (já visto nos vs. 9, 10). O alvo 
(skopos, “um objeto no qual se fixa os olhos”, “a meta numa corrida”) 
corresponde ao prêmio descrito simplesmente como a “chamada de Deus 
em Cristo Jesus.” A figura da corrida serve para destacar que Paulo en­xergava 
nitidamente o alvo, e esperava logo receber o prêmio. Refere-se 
ao encontro com seu amado Senhor o qual já descrevera como “incompa­ravelmente 
melhor” (1:23) do que viver neste mundo de sofrimento e 
decepçPãaore.ce-me que descobrimos aqui porque os cristãos mornos não 
passam de espectadores, ao invés de corredores na corrida da salvação. Não 
descartam todos os bens alcançados por esforço próprio. Sentem-se bem na 
“perfeição” atingida. Não almejam o conhecimento de Cristo, seu supremo 
valor, nem se sentem impulsionados a “perseguir” o alvo da santidade, pela 
comunhão dos sofrimentos de Cristo. Não contemplam a vida como uma 
corrida com um prêmio a ser ganho no fim. Pelo contrário, a única luta que 
travam é para melhorar esta vida, buscando mais conforto, prazer e reconhe­cimento 
dos homens (cf. Jo. 12:42, 43). Crêem que sua ressurreição está ga­rantida, 
mais certa que a de Paulo (v. 11). Todas as energias que têm, dissi­pam 
adorando o “deus ventre” e tentando resolver as preocupações secula­res 
(cf. v. 19; Lc. 8:14, onde os tais são os crentes sufocados pelos espinhos 
de “cuidados, riquezas e deleites da vida”). É notável que Paulo, que negou 
no v. 12 o fato de ter alcançado a perfeição no sentido moral e corporal da 
ressurreição, se inclua entre os perfeitos, no v. 15. Obviamente o sentido é
distinto. Nesta última passagem significa “maduro”, “adulto”, contrastando 
com a “criancice” e a imaturidade (cf. I Co. 2:6 e Cl. 1:28 onde o mesmo 
termo é usado). 
Os adultos espirituais, segundo este verso 15, devem manifestar a mes­ma 
atitude (phronêma, cf. 2:2,5; 4:8). A criança na fé então, seria mais auto-dependente, 
defensiva, ao invés de arrependida e ansiosa para conhecer a 
Cristo cada vez melhor. Em Filipos não houve sentimento de rebeldia contra 
Paulo, o qué dispensou a necessidade d’ele apoiar a sua autoridade apostó­lica, 
contrariamente ao que aconteceu em Corinto (cf. I Co. 9:1). Qualquer 
divergência de pensamento que por acaso pudesse surgir em Filipos, não per­turbava 
Paulo. Conquanto a atitude fosse de submissão ao Senhor, poderia 
haver diferença sem divisão, e Deus lhes esclareceria (v. 15b). Paulo finaliza 
este parágrafo com seu “mais uma coisa” (gr. plên, palavra usada para intro­duzir 
uma declaração que destaca o ponto principal que o autor disse no pa­rágrafo 
todo). “Continuemos no mesmo caminho em que estamos em vez de 
voltarmos e tomarmos um rumo novo” (v. 16). 
Conclusão 
Ao meditar nesta declaração auto-biográfica, não é fácil escapar à acu­sação 
íntima de que somos espectadores. Nossas ambições estão mais volta­das 
para vantagens mundanas do que para prêmios celestiais. Mas Deus é ca­paz 
de refocalizar nossa visão e renovar nossa ambição pelo alvo. 
Oremos. Senhor, tu vieste a este mundo para exemplificar uma consa­gração 
total ao Pai. Confessaste: “Aquele que me enviou está comigo, não 
me deixou só porque eu faço o que lhe agrada ”. Paulo, sem ser perfeito, 
também demonstrou uma vida concentrada na ambição de cumprir o minis­tério 
para o qual foi chamado. E nós, Senhor? O que impede que tam­bém 
descubramos o motivo para o qual nos convocaste para Ti? Convence-nos 
do comodismo, do orgulho, e derrama em nós um amor renovado por 
Cristo, em nome de quem rogamos, Amém.
O CORPO 
Filipenses 3:17-21 
17 - Irmãos, sede imitadores meus e observai os que andam se­gundo 
o modelo que tendes em nós. 18 - Pois muitos andam 
entre nós, dos quais repetidas vezes eu vos dizia e agora vos di­go 
até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo: 1 9 - 0 
destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória 
deles está na sua infâmia; visto que só se preocupam com as 
cousas terrenas. 20 — Pois a nossa pátria está nos céus, de onde 
também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21 — o 
qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual 
ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem 
de até subordinar a si todas as cousas. 
Introdução 
Facilmente confundo os fatos, mas se a minha memória não falha, lí 
há tempos, que a preocupação prioritária do norte americano é a saúde. 
Creio que seria nossa preocupação também aqui. Quando perguntamos, 
“Como está?” normalmente indagamos “Como está fisicamente?”. “Como 
está o seu corpo?” Está doente ou bom?” “Está com dor de cabeça ou se 
sente capaz de voar”?, tendo asas, claro. Para nós, então, o corpo é o que 
mais importa. Talvez os cristãos afirmariam, “Não, não é meu corpo, mas a 
minha alma, meu espírito que destaca-se com proeminência”. 
Não seria difícil mostrar que a Bíblia concede um significado imenso 
ao corpo. Não tanto a “meu corpo”, sendo que biblicamente se destaca mais 
a verdade que “somos corpo”, do que, “tenho corpo”. Observemos, portan­to, 
algumas verdades da Bíblia sobre esta realidade física. 
O Significado do Corpo na Bíblia 
Paulo dá ao corpo uma posição central na sua teologia. É do cor­po 
do pecado condenado a destruição que precisamos ser salvos (Rm 6:6). 
“Desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte?” 
é o grito desesperado de quem vê o pecado utilizando o corpo como uma 
prisão, um verdadeiro meio de tentação e tortura. Desse corpo de pecado 
Paulo almeja libertação. É o grito de desespero, como ouvi ao falar com uma 
moça que me disse ter muitas vezes tentato se suicidar. Queria destruir o seu 
corpo físico. Pude sentir o profundo desprezo que ela tinha para com seu 
corpo. Não tinha mais razão para viver no corpo. A única razão pela qual 
não decidiu acabar com sua vida é que não sabia como será a vida fora ou 
além do corpo.
Mas Paulo afirma que pelo corpo também somos salvos. Jesus Cristo 
uniu-se a humanidade por meio da encarnação num corpo. Entre as mais im­portantes 
de todas as verdades, afirmamos que Deus se tornou homem (Jo. 
1:14). “Sacrifício e oferta não quiseste, antes corpo me formaste”, é a inspi­rada 
confissão atribuída pelo autor de Hebreus (10:5) a Jesus Cristo, citando 
a versão grega do Salmo 40. Porque recebeu um corpo, Cristo pode sacrifi­cá- 
lo numa oferta aceitável pelo pecado. Por causa do corpo de Jesus, nasci­do 
da virgem Maria, podemos esperar um corpo transformado quando Cris­to 
voltar (Fp. 3:21). Em conseqüência da morte na cruz e a ressurreição de 
Jesus, ambos eventos condicionados pelo corpo, nós que cremos nele, temos 
a firme esperança de ganhar um novo corpo, semelhante ao dele. Paulo o 
descreve como “igual ao corpo de sua glória” (v. 21). Por sermos incorpora­dos 
ao Seu corpo pelo Espírito (I Co. 12:13), que é a igreja, temos a certeza 
de compartilhar a nova realidade eterna que caracteriza o Jesus assunto: um 
corpo que não pode morrer, “eterno, nos céus” (2 Co 5:1). 
Em I Coríntios 15, o corpo ressurreto de Cristo é denominado “as pri-mícias” 
(v. 23) da colheita toda. A conseqüência inevitável da ressurreição 
do Senhor no primeiro domingo de páscoa, será a transformação de todos os 
que lhe pertencem “na sua vinda” (I Co. 15:23), porque todos são incorpo­rados 
nele. 
Na ceia, Jesus nos oferece o seu corpo “que é dado por vós” (I Co. 
11:24). Porque será que não nos oferece o seu Espírito assim? Deve ser por­que 
através da união com seu corpo, nos é oferecido Seu Espírito. A vida 
está no corpo, não nos membros separados, assim como os ramos de uma 
videira gozam da vida unicamente pela permanência no tronco (Jo. 15:1-9). 
Evidentemente, trata-se de conceitos hebreus, não gregos. Nós pensamos de 
maneira grega, Paulo de maneira hebraica. É o corpo que manifesta a vida de 
Cristo (I Cor 10:16,17). Por isso, é sumamente importante que os membros 
do Corpo se reúnam dando localização e objetividade a personalidade do 
Senhor que vive no Corpo, a igreja. Devemos constantemente reconhecer 
nossa dependência uns dos outros e a vida comum que sustenta o corpo. 
L.S. Thornton entitiilou seu livro, A Vida Comum no Corpo, o que transmi­te 
a verdade central. Nossa vida em Cristo não é em primeira instância, uma 
vida unida individualmente a Cristo, mas uma vida compartilhada com 
nossos irmãos em Cristo (Rm 12:5). 
Por esta razão, Paulo diz aos Coríntios, “o corpo não é para impureza, 
mas para o Senhor” (I Co. 6:13). Nossos corpos são comprados, destinados 
por meio da transformação da ressurreição a transmitir a perfeição do corpo 
de Cristo, porque nossos “corpos são membros de Cristo”(1 Co. 6:15). 
O crente que comete fornicação ou adultério, toma um membro de 
Cristo (o corpo) e o faz membro de meretriz (I Co 6:15, 16). Assim, pelo 
corpo nos unimos a Cristo, ou nós nos separamos dele. Se pelo corpo huma­no 
reconhecemos as máculas e a beleza da pessoa, a Bíblia indica que se­melhantemente 
o Corpo manifesta por um lado a formosura de Jesus e os
defeitos humanos. Com razão o apóstolo aponta para o corpo como “corpo 
de humilhação” (Fp. 3:21), repleto de limitações e deficiências. Mas tam­bém 
é concretização da personalidade, membro do Corpo de Cristo, garantia 
da nossa existência eterna que aguardamos (v. 21). 
A Concepção Grega do Corpo 
A maneira dos gregos antigos olharem para o corpo foi muito distinta. 
O corpo se assemelhava a um escravo. Como servo vivo, é óbvio, mas distin­to 
da personalidade. Manda-se o escravo agir, e ele obedece. Surgiu uma fra­se 
entre os gregos da antigüidade: sõma sêma, “corpo caixão”. Como noz na 
casca, a alma existia dentro do corpo. O verdadeiro eu e você, segundo os 
gregos, eram distintos do corpo. Evidentemente, se acatarmos tal ponto de 
vista, o que se faz com o corpo não tem importância alguma para o ser ver­dadeiro. 
Se meu corpo é escravo, faço o que quero com ele, sem temer cul­pa. 
A eutanásia não seria pecado, porque destruiria o que não tem mais utili­dade. 
Se o corpo não passa de caixão ou casca, porque não maltratá-lo co­mendo 
erradamente, tomando drogas, ou de qualquer forma. O suicídio se­ria 
uma opção perfeitamente viável para quem se cansou de viver, no caso de 
alguém que não encara seriamente a maneira bíblica de pensar. 
O pensamento gnóstico foi uma das maiores ameaças à Igreja primiti­va. 
Com um forte dualismo radicado na filosofia grega, a matéria era consi­derada 
má, e o espírito bom. Alguns eram de opinião que uma vez iniciado 
na realidade espiritual, o que se fazia com o corpo não importava. Houve en­tão 
gnósticos libertinos que praticaram a prostituição (Ap. 2:14, 21) inclu­sive 
toda e qualquer perversão (comp. Jd. 4, 7-16). A tal ala de hereges,. 
Paulo se dirige em Fp. 3:18-19, uma vez que o deus deles era o ventre e “a 
glória deles estava na sua infâmia”. 
A outra ala gnóstica, representada no quadro pintado por Paulo em 
Colossenses 2 e I Timóteo 4:1-4, cria no asceticismo. Por meio da observa­ção 
de ritos e evitando os tabus prescritos, seria possível subir a escada de 
“espiritualização”, deixando para trás a matéria má. 
O cristianismo atraiu estes filósofos religiosos que desconheciam qual­quer 
Deus pessoal, e procuravam soluções para a ansiedade do homem que 
precisa ser salvo, achando que pode a si mesmo redimir. 
O Conceito do Corpo entre os Hebreus 
Mas qual era, afinal, o conceito hebreu do corpo? Tanto no Antigo como 
no Novo Testamento, o corpo se identifica estreitamente com você. Portanto, 
é lógico dar seu último cruzeiro para manter o corpo vivo se não houver a 
ressurreição. Se a vida neste corpo humano, é a única vida, porque não mantê-la 
fazendo uso de todo o nosso esforço?