encarte do professor
Reflexão
e prática 104
Com curadoria de Carolina Desoti Fernandes e
Tiago Brentam Perencini
Carolina Desoti Fernandes é graduada em Filosofia
pela PUC-Campinas e pesquisa o feminismo vinculado
às manifestações tradicionais brasileiras. É professora,
editora, redatora e produtora cultural.
Tiago Brentam Perencini é licenciado e bacharel em
Filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia pela Unesp e
professor de Filosofia Contemporânea na Faculdade
João Paulo II de Marília.
Brasil e o preconceito racial
Há saúde emocional possível na situação imposta pelo
pensamento racista?
Essencialismo e as
armadilhas da negritude
O racismo como uma forma socialmente construída
de ver e estar no mundo
36 • ciência&vida
A
quele que pesquisar sobre a temática
do racismo a partir de um enfoque fi-
losófico certamente se deparará com
um enorme vazio.1
De fato, não po-
demos afirmar que o racismo seja um tema caro à
Filosofia. Não porque não seja possível conceituá-
-lo filosoficamente – conforme definição de Gil-
les Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-
1992)2
–, mas simplesmente porque os filósofos
não se apropriaram dele.
Segundo Michel Foucault (1926-1984), “cada so-
ciedadetemseuregimedeverdade,sua‘políticageral’
deverdade:istoé,ostiposdediscursosqueelaacolhe
e faz funcionar como verdadeiros”.3
O autor adverte
1
Apesar de sabermos que não existem diferentes raças humanas, o racismo ainda
existe como fenômeno social. Cabe esclarecer também que limitamos nossa análise ao
fenômeno do racismo antinegro
2
DELEUZE; GUATTARI, 2000
3
FOCAULT, 1985, pág. 12
que nossa sociedade criou uma complexa “economia
política da verdade”, em que a produção da verdade
“é produzida e transmitida sob o controle, não exclu-
sivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos
políticos e econômicos (universidade, exército, escri-
tura, meios de comunicação)” tornando-se “objeto
de debate político e de confronto social”.4
Para que
determinadas “verdades” sejam aceitas como tal, é
preciso silenciar outras “verdades”. Trata-se do silên-
cio como ato de poder, não como ausência da fala.
É justamente o que ocorre com os processos de dis-
criminação: é preciso silenciar o conceito para que
o pré-conceito possa existir. Assim, a produção do
conhecimento não se dá apenas para incrementar o
saber humano, mas também para afirmar determi-
nadas verdades e silenciar outras.
4
Idem, ibdem, pág. 13
Afinal, existe
racismo no Brasil?
André Santos Luigi é bacharel e licenciado em História pela USP. Mestre em Educação, estuda Relações Étnico-Raciais. É membro do grupo de pesquisa ETNS, da UFSCar. Atua como
Coordenador do Cursinho Popular EPA. asluigi@hotmail.com
Rodolfo de Souza é bacharel em Filosofia pela Puc-Campinas e atua como professor da rede pública de Ensino Integral de São Paulo, na escola Prof. Antônio Berreta-Itu, em que desenvolve
diversos projetos voltados ao ensino de Filosofia. rodolfoidt@yahoo.com.br.
Por André Santos Luigi e Rodolfo de Souza
www.portalcienciaevida.com.br • ciência&vida • 37
Etapa I: Desvendando
o crime perfeito
O problema do silêncio sobre o racismo se potencializa para o professor da disciplina de
Filosofia que queira fazer valer a Lei 10. 639/031 e não encontra subsídios bibliográficos
1	
imagens:shutterstock
professores negros no ensino supe-
rior? Acompanhamos as denúncias
sobre corrupção nos telejornais,
mas quando questionamos quan-
tos políticos negros conhecemos?
Apresentamo-nos a juízes e re-
corremos a delegados, entretanto,
quantas vezes observamos quantos
deles são negros? Somos educa-
dores bem informados, lemos co-
lunas nos jornais, assistimos a re-
portagens na televisão e ouvimos
entrevistas nas rádios, mas quan-
do nos indagamos quantos negros
ocupam o papel de formadores de
opinião? Quando consumimos fil-
mes, séries e telenovelas, questio-
namos a ausência de atores negros
ou sua presença estereotipada?
Esta naturalização da ausência do
negro em certas posições sociais
privilegiadas, bem como sua pro-
eminência em condições de fragi-
lidade social, é o primeiro passo
da prática do racismo. Ela permite
que o racismo se reproduza ao im-
pedir que ele seja problematizado.
É o que se conceitua o lugar social
do negro. Esta situação se natura-
liza a tal ponto que deixamos de
percebê-la, silenciando-a, como se
de fato tal discriminação não exis-
tisse.
Entretanto, a acomodação que a
naturalização propicia às vezes des-
morona. Em situações extremas,
quando o racismo não pode mais
ser negado, entra em cena a culpa-
bilização. Sua função é operar uma
inversão. A culpabilização permite
afirmar, por exemplo, que não so-
mos atendidos por médicos negros
porque os negros não optam por
cursar Medicina. Não conhecemos
políticos negros porque os próprios
negros não votam em negros. E as-
sim por diante. Desta forma, é pos-
sível inverter a lógica do problema
imputando a culpa do racismo na
própria vítima do racismo. O racis-
mo novamente não é problematiza-
do como fenômeno social e se torna
uma questão individual. Como se
o negro pudesse escolher ser vítima
Para se ter uma ideia, enquan-
to o número de mulheres brancas
assassinadas diminuiu 9,6% entre
2003 e 2013, o número de mulhe-
res negras assassinadas no mes-
mo período disparou 54,2%. Em
2013, 13 mulheres foram assassi-
nadas por dia no Brasil, em mé-
dia, e 66,3% delas eram negras.1
O
mesmo processo se dá com os ho-
mens. Hoje, 82 jovens com idade
entre 15 e 29 anos são assassina-
dos diariamente no Brasil, e 77%
são negros. Entre 2003 e 2012 o
número de pessoas brancas mortas
por armas de fogo caiu 29%, en-
quanto que entre os negros o ín-
dice aumentou 14,1%. Hoje, um
jovem negro tem 250% mais chan-
ces de morrer de forma violenta do
que um jovem branco.2
Diante desses dados, Kaben-
gele Munanga (1940) sentencia:
“nosso racismo é um crime perfei-
to”. Crime, pelos números hedion-
dos que produz, e perfeito porque
somos incapazes de reconhecer
quem são os verdadeiros respon-
sáveis. Para melhor compreender
esta definição de crime perfeito
é preciso desarticular o racismo
desvendando seus mecanismos.
De forma sistemática poderíamos
dividir os mecanismos em três eta-
pas: 1) naturalização; 2) culpabili-
zação; e 3) criminalização.
Podemos compreender a natu-
ralização por meio de um exercício
autorreflexivo. Pensemos juntos.
Vamos há dezenas de consultas
médicas ao longo do ano, quantas
vezes já fomos atendidos por mé-
dicos negros? Frequentamos o am-
biente acadêmico, quantas vezes
problematizamos a quantidade de
1
FLACSO - Faculdade Latino-Americana de Ciências
Sociais
2
Mapa da Violência, 2015
38 • ciência&vida
Partindo das perguntas: “existe
racismo no Brasil?” e “você já
discriminou alguma pessoa por
sua cor de pele?”, proponha que
os alunos realizem uma pesqui-
sa com alunos de outras salas,
para outros professores e até
mesmo em espaços externos à
escola. As respostas podem ser
organizadas em tabelas nas au-
las de Matemática, por exem-
plo. Cartazes podem ser con-
feccionados nas aulas de Artes
e expostos em uma exposição.
O professor de Sociologia pode
explorar a temática paralela-
mente. Ou podem ser organiza-
dos debates, em que cada grupo
explorará explicações plausíveis
para as respostas obtidas. Mas o
principal é verificar se o padrão
das respostas se repete tal qual
ocorreu nas pesquisas da Folha
de São Paulo e da Fundação
Perseu Abramo.1
A partir da
análise das respostas, você pode
citar alguns dados sobre o ra-
cismo no Brasil e questionar os
alunos sobre quais hipóteses eles
apresentam sobre a temática.
Esta atividade tem como ob-
jetivo desencadear o debate e mo-
bilizar os alunos para a questão
do racismo. Refletir como pode
haver dados tão cruéis do racismo
sem que exista racistas é um bom
pontapé para o debate. Ela per-
mite explorar como construímos
nossa percepção da realidade e
como, muitas vezes, essa percep-
ção pode ser manipulada. Os da-
dos obtidos pelos alunos podem
abrir não apenas a discussão sobre
o racismo, mas também para ou-
tras formas de preconceito, pos-
sibilitando trazer para o debate o
conceito de Foucault sobre a pro-
dução da verdade.
1
SANTOS, G.& SILVA, M. (eds.) Racismo
no Brasil: Percepções da Discriminação e do
Preconceito Racial no Século XXI. São Paulo:
Editora Fundação Perseu Abramo, 2005.
exercício I: Racismo e
interdisciplinaridade
No Brasil, reconhecemos as consequências do racismo, mas silenciamos sua reprodução
cotidiana. É o silenciamento sobre o racismo que permite a a perpetuação da miopia racial
Orfeu negro, de Sartre é seja uma das
principais referências teóricas estritamente
filosófica sobre o racismo antinegro
do racismo ou não. Quando denun-
cia o racismo, logo escuta que está
tentando transferir “seu proble-
ma”. No máximo, o que se oferece
é compaixão. Mas uma compaixão
que reconhece a condição social
desfavorável do negro para logo em
seguida lhe impor a cobrança para
que se esforce e supere o racismo. E
aqui entra em cena a criminaliza-
ção. Aqueles que não se esforçam o
suficiente para superar as barreiras
sociais impostas pelo racismo de-
vem ser responsabilizados. Se não
existe racismo (naturalização) a cul-
pa pela situação do negro é do pró-
prio negro (culpabilização), assim,
se o negro não é capaz de lidar com
esta situação, ele deve arcar com
as consequências (criminalização).
Não se trata da criminalização ju-
dicial apenas, mas da criminaliza-
ção que argumenta a “necessidade”
de punição.
O encarte Racismo cordial,3
pu-
blicado pela Folha de São Paulo em
1995, denuncia que mais de 80%
dos brasileiros que participaram da
pesquisa alegaram que há racismo
no País, mas quando questiona-
dos se já haviam discriminado
alguém, a maioria disse que não.
3
http://almanaque.folha.uol.com.br/racismocordial.
htm. Acesso em: 1 dez. 2015.
Significa que há racismo, mas sem
racistas. Portanto, “nosso racismo
é um crime perfeito, porque é a
própria vítima que é responsável
por seu racismo”.4
4
MUNANGA, 2012
Etapa II:
Educação para a
multiplicidade
imagens:wikimedia/shutterstock
Ao compreender como o racis-
mo opera no Brasil, passamos a
entender a importância de abordá-
-lo em sala de aula.5
A presença
desta temática na educação básica
deve perpassar todas as discipli-
nas e não apenas História e Artes:
§ 2°, Art. 26A, Lei 9.394/1996:
Os conteúdos referentes à Histó-
ria e Cultura afro-brasileira serão
ministrados no âmbito de todo o
currículo escolar, em especial nas
áreas de Educação Artística e de
Literatura e História Brasileiras.
Não se trata apenas de citá-lo ou
de fazer referências à cultura afro-
-brasileira e africana, é preciso pro-
blematizar o racismo, escancarando
seus mecanismos. Pelo menos é o que
prevê as Diretrizes Curriculares para
a Educação das Relações Étnico-
-Raciais e para o Ensino de História e
Cultura afro-brasileira e africana.
5
A Lei 10.639 de 2003 incluiu os artigos 26A e 79B
na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
tornando obrigatório o ensino de História e Cultura
afro-brasileira e africana na educação básica.
Posteriormente, o artigo 26A foi detalhado nas
Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações
Étnico-Raciais e Ensino de História e Cultura afro-
brasileira e africana. Por isso, fazemos referência aos
artigos 26A e 79B.
As Diretrizes, elaboradas pela
Professora Doutora Petronilha
­Beatriz Gonçalves e Silva, são mui-
to mais do que um mero mecanismo
de regulação legal. Seu texto propõe
um projeto pedagógico que, obvia-
mente, aponta para um projeto de
sociedade livre do racismo. Trata-se
da educação antirracista que se fun-
da em três grandes pilares, cada um
com um objetivo específico:
Educação para as relações étnico-
-raciais buscando construir novas
relações raciais;
Ensino de História e Cultura
afro-brasileira para reconstruir a
identidade afro-brasileira;
Ensino de História e Cultura
africana para resgatar a memória
afro-brasileira.
Não se trata de uma educação
voltada apenas para negros e ne-
gras, ao contrário, trata-se de ofe-
recer a oportunidade da construção
de uma sociedade mais igualitária.
Fica evidente que estamos falando
de atividades pedagógicas que vão
muito além da simples realização
de feiras e eventos culturais no dia
20 de novembro.
O Dia da Consciência Negra remete à resistência do negro contra a escravidão
40 • ciência&vida
Propomos a organização de uma pesquisa em ma-
teriais didáticos realizada pelos próprios alunos. A
proposta é que sejam levantados nos livros didáticos,
de Filosofia e outros, como os três pilares da Educa-
ção antirracista são abordados. Os alunos podem se
apoiar neste organograma para compreender melhor
o projeto das Diretrizes Curriculares.
A partir da pesquisa levantada, eles podem com-
parar os materiais e verificar quais atendem integral-
mente ou parcialmente as Diretrizes Curriculares.
Independentemente dos resultados encontrados, a
atividade mobilizará os alunos para compreenderem
a proposta das Diretrizes Curriculares. É preciso
instigá-los a se posicionarem sobre o que pensam
sobre a proposta das Diretrizes, buscando levá-los a
discutir sobre o racismo.
Este exercício é uma forma de complementar a
atividade proposta anteriormente, já que nela é pos-
sível apenas constatar a existência do racismo, sem,
contudo, propor possíveis soluções ou intervenções.
Assim, esta atividade, além de trabalhar a leitura
e a interpretação, servirá para o aluno refletir como
políticas públicas são propostas e como a escola pode
ser um espaço de reflexão que vai além da mera apren-
dizagem de conteúdos. Além disso, é uma forma do
aluno problematizar seu próprio material de estudo.
exercício II: Atividade pedagógica e antirracismo
Por sua linguagem logopática,
acreditamos que o filme A hora do
show (Bamboozled, EUA, 2000,
135 min.), do conhecido cineas-
ta Spike Lee, nos proponha uma
reflexão filosófica específica, uma
discussão que, por sinal, é pouco
refletida pelos filósofos: o racismo.
Para trabalhar com cinema em
sala de aula,6
é importante uma breve
apresentação do filme pelo professor,
como recomenda Marco Napolitano
6
SOUZA, R. O Cinema pensa! Para além de uma
ilustração. In: Filosofia Ciência & Vida, ano VII, nº 94,
maio 2014, p. 45-50. Para uma maior compreensão
do que se pretende por essa análise, cabe ler o artigo
citado, visto que todos os conceitos utilizados aqui são
apresentados e discutidos nesse artigo específico sobre
o cinema e a Filosofia.
Etapa III: O racismo
pelo viés do cinema
O filme A hora do show retrata críticas sociais fundamentais que mostram ao espec-
tador os limites morais dos personagens e consequentemente, da nossa sociedade
www.portalcienciaevida.com.br • ciência&vida • 41
imagens:divulgação/shutterstock
em Como usar o cinema na sala de aula.
Desse modo, os alunos podem entrar
em contato com o trabalho da equipe
responsável pela realização do filme.7
No caso de Spike Lee, é importante
ressaltar sua filmografia e seu envol-
vimento na militância contra o ra-
cismo nos Estados Unidos. Poderão
conhecer outros filmes de Lee com
outras abordagens também acerca do
racismo, por exemplo, a cinebiogra-
fia Malcolm X, em que Lee descreve
a trajetória de um dos mais impor-
tantes líderes do Movimento Negro
acerca dos Direitos Civis nos Esta-
dos Unidos (EUA, 2002, 202 min.)
e Faça a coisa certa (Do the right thing,
EUA, 1989, 120 min.), filme que
exibe as nuanças dos conflitos raciais
e suas drásticas consequências no dia
a dia. A posse dessas informações
antes da exibição munirá os alunos
para um olhar mais atento para as di-
versas vertentes existentes no filme.
Cabe lembrá-los que a sessão que re-
alizarão, seja na escola ou em outro
local, a critério do professor, não é
um passatempo ou simplesmente um
filme para preencher alguma lacuna
textual. Serão convidados a refletir
com o cinema, nos dois significados
que a palavra refletir possa assumir,
tanto na projeção quanto em um
pensamento sobre a experiência ob-
servada na tela.
Toda a trama do filme A hora do
show se pauta no processo de cons-
trução de um programa de televisão
e por essa perspectiva o “diretor
filósofo” Spike Lee nos insere em
uma profunda reflexão sobre a situ-
ação atual do negro8
na sociedade.
Cada personagem parece assumir
diferentes perspectivas em que o ne-
gro possa seguir. Então, o roteirista
Pierre Delacroix (Damon Wayans),
um homem refinado e com ótima
formação acadêmica, sua assisten-
7
Um site que pode ser útil e recomendado para os
alunos ou como pesquisa do próprio professor é
o Imdb, específico sobre cinema, séries e projetos
audiovisuais: www.imdb.com Acesso em: 1 dez. 2015
8
O conceito de negro aqui utilizado referece-se à
classificação sociológica aplicada pelos estudiosos da
questão racial no Brasil e por agências de pesquisas
como o IBGE e outros censos populacionais
brasileiros, que abarcam a relação de pretos e pardos
na categoria de negro.
te extremamente dedicada Sloan
Hopkins (Jada Pinkett Smith), seu
irmão Julius Hopkins (Yasiin Bey)
líder da gangue Mau Mau, o sapate-
ador/ator Manray (Savion Glover),
que interpreta o menestrel Mantan
com blackface e seu parceiro, Woma-
ck (Tommy Davidson), que no show
passa a ser o personagem Come e
Dorme também com blackface, são
alguns dos possíveis percursos que o
negro possa seguir em uma socieda-
de em que o racismo possui muitas
facetas. Condenados por serem pre-
tos em um mundo construído por
uma óptica branca e, consequen-
temente racista, seus caminhos são
extremamente trágicos.
O filme inicia com a narração de
Delacroix definindo o conceito de sá-
tira. Ele apresenta duas concepções:
“a) – trabalho literário no qual o vício
e as loucuras humanas são ridiculari-
zados ou atacados com desprezo; b)
Ramo da literatura que compõe esse
trabalho. Ironia, gozação ou um gê-
nio bem esperto capaz de inovar em-
pregado para revelar o vício, a loucura
ou a estupidez.” E são especificamen-
te esses sentidos satíricos que o filme
assume em espécie de uma metalin-
guagem. Isto é, Spike Lee descreve na
narração introdutória de Delacroix o
próprio sentido que o filme A hora do
show assume até o seu fim.
A ironia aparece com a constante
questão implícita nos diálogos dos
personagens: quem é o negro hoje?
O que é ser negro? Quem define o
que é e não é ser negro? Essas ques-
tões possuem uma aparência meta-
física de difícil compreensão, mas
são apenas aparências. Essa pergun-
ta já possui uma resposta formulada
não apenas a ferro, fogo, chicotes e
grilhões ao longo da história, atre-
lado a todos esses atos concebeu-se
uma definição simbólica do que e
quem é o negro hoje. E toda A hora
do show é essa resposta nitidamen-
te vinculada nos meios de comuni-
cação. Ou seja, em programas de
televisão, propagandas, revistas e
nos mais variados tipos de objetos,
como esculturas, quadros, bonecos e
brinquedos, os quais Spike Lee nos
mostra repetidamente ao longo do
filme com o intuito de expor como o
negro é representado culturalmente
de forma depreciativa. Seria impor-
tante que para essas cenas fosse re-
forçada a atenção dos alunos. Peça
Spike Lee propõe temáticas que revelam as contradições raciais existentes nos EUA
42 • ciência&vida
Como atividade complementar à análise do filme A hora do
show, a questão do racismo pode ser relacionada aos pro-
gramas de televisão no Brasil. Para tanto, o professor pode
indicar a seguinte pesquisa aos seus alunos, com suas devi-
das adaptações quando necessário. Em grupo ou individu-
almente, os alunos deverão assistir a um programa de tele-
visão e procurar tabular as seguintes informações: nome do
programa, gênero do programa – entretenimento (série, te-
lenovela, desenho, etc.), informativo (telejornal), propagan-
da (comerciais) –, quantas pessoas aparecem no programa?
Quantas dessas pessoas que apareceram são negras? Quais
são os papéis ocupados pelos negros que apareceram? Com
base nas informações dessas questões seria interessante que
fosse construído um cartaz em forma de tabela1
e apresen-
tada pela escola com o propósito de divulgar os trabalhos
e provocar uma reflexão de algo banal que, muitas vezes,
passa completamente despercebido pela naturalização do
racismo, como afirma Kabengele Munanga.
Essas informações são dados importantes para discu-
tir as práticas diárias de um racismo institucionalizado
nos meios de comunicação no Brasil. É importante que
os alunos tomem conhecimento disso por suas próprias
investigações e possam perceber que não se trata de um
tema simples. Com base nessas informações, proponha
uma discussão ou uma dissertação sobre as seguintes
1
O modelo que pensamos se assemelha à tabela presente em: CADERNO DO
ALUNO. Filosofia. Ensino Médio - 2ª série, volume 2. São Paulo: SEE, nova Ed.
2014 - 2017, pág. 16.
questões e outras do interesse do professor: em geral,
como o negro é representado nos programas de televisão?
Os papéis que lhe são atribuídos reforçam os estereótipos
negativos da identidade negra brasileira ou são valoriza-
dos? Por exemplo, personagens negros ocuparam papéis
centrais em tramas, como heróis, princesas ou galãs de
novela ou, inversamente, são vilões, vagabundos, malan-
dros ou inferiorizados? Por que não existe uma igualdade
entre brancos e negros nas propagandas, telenovelas, pro-
gramas de auditórios ou telejornais?
A conclusão dessa pesquisa certamente confirmará
a hipótese de Joel Zito Araújo em A negação do Brasil: O
negro na telenovela brasileira. A televisão contribui para a
concepção ideológica do branqueamento, do mito racial e
de um desejo de euro-norte-americanização das elites no
Brasil pela imposição de uma estética de branqueamento.
Diz Zito Araújo: “empresários, publicitários e produto-
res de tevê, como norma, optam pelo grupo racial bran-
co, nos processos de escolha dos modelos publicitários ou
apoio a projetos culturais. É uma constante a negativa de
incentivo cultural aos programas de tevê voltados para a
população afro-brasileira, normalmente sob a alegação de
não haver retorno comercial. O empresário brasileiro, em
sua grande maioria, não acredita que o negro seja força
econômica. Na lógica dessa maioria, preto é igual a pobre,
que é igual a consumo de subsistência”.2
2
ARAÚJO, 2006, pág. 39
exercício III: Uma reflexão sobre o racismo na TV
que observem bem esses objetos e
pergunte de fato se eles constituem
uma identidade simbólica do negro.
Com a queda massiva de audiên-
cia do canal em qual trabalha (CNS)
e pressionado por seu chefe, Tho-
mas Dunwitty (Michael Rapaport),
Delacroix procura criar algo novo,
inusitado, que seja direcionado es-
pecificamente aos afrodescendentes.
Porém, Thomas Dunwitty, que é
branco, assume-se mais negro que o
próprio Delacroix. Ele fala como um
negro, entende as gírias que os negros
utilizam, conhece diversas personali-
dades negras, cresceu entre os negros
e, acima de tudo, é casado com uma
negra e tem filhos mestiços. Em con-
trapartida, uma excelente formação
acadêmica, uma linguagem culta e
um comportamento refinado fazem
de Delacroix um negro não negro.
Ele é assim um completo estranho, o
que torna sua tarefa de pensar em um
programa direcionado à população
negra uma tarefa hercúlea, como res-
salta Dunwitty. Em alguns roteiros
anteriores, Delacroix procurou mos-
trar negros em posições importantes,
situações que fogem dos estereótipos
do negro pobre, violento ou drogado,
mas todos recusados. Neste trecho,
o filme apresenta uma concepção
estereotipada do que é o negro pelo
personagem de Dunwitty, ele é o
conceito-imagem do racista que não
se acha racista incorporado por mui-
tas pessoas.
Por uma epifania, Delacroix mer-
gulha nos programas de televisão da
década de 1940. E sua ideia é cons-
truir uma sátira. Quer criar um show
negativo, algo extremamente racista
para mostrar que todo esse mercado
O documentário A negação do Brasil,
denuncia as lutas dos atores negros pelo
reconhecimento de sua importância na
história da televisão brasileira
televisivo não que ser associado ao ne-
gro, salvo que sejam palhaços, malan-
dros, subservientes e sempre inferio-
res aos brancos. Então ele, o roteirista,
como ressalta no início do filme, é o
responsável pelo que todos irão ver.
Esse conceito-imagem de que nada
é fortuito na televisão é construído
lentamente ao longo do filme. Cada
reunião que os personagens fazem
entre grupos com diversos roteiristas,
produtores e advogados mostra com
detalhes que cada personagem, cená-
rio etc., são muito bem pensados antes
de serem exibidos.
Assim, Delacroix retoma os sho-
ws de trovadorismo dos anos 1940,
época que atores brancos representa-
vam personagens negros pintados de
preto – blackface. Manray e Womack,
dois jovens negros pobres entram em
cena no show, respectivamente como
Mantan, o menestrel, e Come e Dor-
me, seu fiel amigo. Além de repre-
sentarem dois negros caipiras, pouco
espertos, porém malandros e que vi-
vem em uma fazenda de melancia re-
alizando diversas travessuras, o mais
impactante é que ambos encenam
com blackface. Esse é o ponto de maior
impacto. Inserir atores negros repre-
sentando negros pintados de preto. A
cena dos dois atores se preparando e
todo o processo da fazer o blackface é
apresentado algumas vezes por Spike
Lee, ele não faz isso fortuitamente, e
essa é uma questão importante a ser
discutida com os alunos
A sátira que Delacroix propõe
torna-se uma tragédia para todos
imagens:divulgação
ARAÚJO, J. Z. A negação do Brasil: O
negro na telenovela brasileira. São Paulo:
Senac, 2006.
CABRERA, J. O cinema pensa: uma
introdução à Filosofia através dos filmes. Rio
de Janeiro: Rocco, 2006.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a
Filosofia? 3. Ed. São Paulo: Editora 34, 2000.
FOCAULT, M. Microfísica do poder, 1985.
NAPOLITANO, M. Como usar o cinema na
sala de aula, 4ª ed. São Paulo: Contexto,
2010.
NOGUEIRA, R. O ensino de Filosofia e a lei
10.639. Rio de Janeiro: CEAP, 2011.
SOUZA, R. O Cinema pensa! Para além
de uma ilustração. In: Filosofia Ciência &
Vida, ano VII, nº 94, maio 2014, p. 45-50.
referências
os envolvidos em sua trama. E essa
é a concepção depreciativa que Lee
expõe como tese, em que todos os
personagens negros sucumbem por
mais que tentem modificar suas
vidas. Este seria mais um detalhe
interessante que o professor pode-
rá propor a seus alunos. Peça para
observarem e descrevam os fins de
cada uma das seguintes persona-
gens: Pierre Delacroix, Sloan Ho-
pkins, Julius Hopkins, Manray e o
Womack. Essas são algumas suges-
tões que o professor pode utilizar. A
hora do show é um filme complexo
que pode ser trabalhado por outras
perspectivas além das apresentadas
aqui. Porém, é inevitável assisti-lo
e não se sentir provocado, é impos-
sível não sentir um incômodo que
muitas vezes nos passa despercebi-
do, um incômodo que somente um
filme filosófico é capaz de provocar,
visto que o Cinema pensa!
O que o blackface representa? Isto é, o que o ato de pintar o corpo de preto, os lábios de
vermelho de forma exagerada e comportar-se como alguém um tanto estúpido representa?

Afinal, existe racismo no Brasil?

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    encarte do professor Reflexão eprática 104 Com curadoria de Carolina Desoti Fernandes e Tiago Brentam Perencini Carolina Desoti Fernandes é graduada em Filosofia pela PUC-Campinas e pesquisa o feminismo vinculado às manifestações tradicionais brasileiras. É professora, editora, redatora e produtora cultural. Tiago Brentam Perencini é licenciado e bacharel em Filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia pela Unesp e professor de Filosofia Contemporânea na Faculdade João Paulo II de Marília. Brasil e o preconceito racial Há saúde emocional possível na situação imposta pelo pensamento racista? Essencialismo e as armadilhas da negritude O racismo como uma forma socialmente construída de ver e estar no mundo
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    36 • ciência&vida A queleque pesquisar sobre a temática do racismo a partir de um enfoque fi- losófico certamente se deparará com um enorme vazio.1 De fato, não po- demos afirmar que o racismo seja um tema caro à Filosofia. Não porque não seja possível conceituá- -lo filosoficamente – conforme definição de Gil- les Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930- 1992)2 –, mas simplesmente porque os filósofos não se apropriaram dele. Segundo Michel Foucault (1926-1984), “cada so- ciedadetemseuregimedeverdade,sua‘políticageral’ deverdade:istoé,ostiposdediscursosqueelaacolhe e faz funcionar como verdadeiros”.3 O autor adverte 1 Apesar de sabermos que não existem diferentes raças humanas, o racismo ainda existe como fenômeno social. Cabe esclarecer também que limitamos nossa análise ao fenômeno do racismo antinegro 2 DELEUZE; GUATTARI, 2000 3 FOCAULT, 1985, pág. 12 que nossa sociedade criou uma complexa “economia política da verdade”, em que a produção da verdade “é produzida e transmitida sob o controle, não exclu- sivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos e econômicos (universidade, exército, escri- tura, meios de comunicação)” tornando-se “objeto de debate político e de confronto social”.4 Para que determinadas “verdades” sejam aceitas como tal, é preciso silenciar outras “verdades”. Trata-se do silên- cio como ato de poder, não como ausência da fala. É justamente o que ocorre com os processos de dis- criminação: é preciso silenciar o conceito para que o pré-conceito possa existir. Assim, a produção do conhecimento não se dá apenas para incrementar o saber humano, mas também para afirmar determi- nadas verdades e silenciar outras. 4 Idem, ibdem, pág. 13 Afinal, existe racismo no Brasil? André Santos Luigi é bacharel e licenciado em História pela USP. Mestre em Educação, estuda Relações Étnico-Raciais. É membro do grupo de pesquisa ETNS, da UFSCar. Atua como Coordenador do Cursinho Popular EPA. asluigi@hotmail.com Rodolfo de Souza é bacharel em Filosofia pela Puc-Campinas e atua como professor da rede pública de Ensino Integral de São Paulo, na escola Prof. Antônio Berreta-Itu, em que desenvolve diversos projetos voltados ao ensino de Filosofia. rodolfoidt@yahoo.com.br. Por André Santos Luigi e Rodolfo de Souza
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    www.portalcienciaevida.com.br • ciência&vida• 37 Etapa I: Desvendando o crime perfeito O problema do silêncio sobre o racismo se potencializa para o professor da disciplina de Filosofia que queira fazer valer a Lei 10. 639/031 e não encontra subsídios bibliográficos 1 imagens:shutterstock professores negros no ensino supe- rior? Acompanhamos as denúncias sobre corrupção nos telejornais, mas quando questionamos quan- tos políticos negros conhecemos? Apresentamo-nos a juízes e re- corremos a delegados, entretanto, quantas vezes observamos quantos deles são negros? Somos educa- dores bem informados, lemos co- lunas nos jornais, assistimos a re- portagens na televisão e ouvimos entrevistas nas rádios, mas quan- do nos indagamos quantos negros ocupam o papel de formadores de opinião? Quando consumimos fil- mes, séries e telenovelas, questio- namos a ausência de atores negros ou sua presença estereotipada? Esta naturalização da ausência do negro em certas posições sociais privilegiadas, bem como sua pro- eminência em condições de fragi- lidade social, é o primeiro passo da prática do racismo. Ela permite que o racismo se reproduza ao im- pedir que ele seja problematizado. É o que se conceitua o lugar social do negro. Esta situação se natura- liza a tal ponto que deixamos de percebê-la, silenciando-a, como se de fato tal discriminação não exis- tisse. Entretanto, a acomodação que a naturalização propicia às vezes des- morona. Em situações extremas, quando o racismo não pode mais ser negado, entra em cena a culpa- bilização. Sua função é operar uma inversão. A culpabilização permite afirmar, por exemplo, que não so- mos atendidos por médicos negros porque os negros não optam por cursar Medicina. Não conhecemos políticos negros porque os próprios negros não votam em negros. E as- sim por diante. Desta forma, é pos- sível inverter a lógica do problema imputando a culpa do racismo na própria vítima do racismo. O racis- mo novamente não é problematiza- do como fenômeno social e se torna uma questão individual. Como se o negro pudesse escolher ser vítima Para se ter uma ideia, enquan- to o número de mulheres brancas assassinadas diminuiu 9,6% entre 2003 e 2013, o número de mulhe- res negras assassinadas no mes- mo período disparou 54,2%. Em 2013, 13 mulheres foram assassi- nadas por dia no Brasil, em mé- dia, e 66,3% delas eram negras.1 O mesmo processo se dá com os ho- mens. Hoje, 82 jovens com idade entre 15 e 29 anos são assassina- dos diariamente no Brasil, e 77% são negros. Entre 2003 e 2012 o número de pessoas brancas mortas por armas de fogo caiu 29%, en- quanto que entre os negros o ín- dice aumentou 14,1%. Hoje, um jovem negro tem 250% mais chan- ces de morrer de forma violenta do que um jovem branco.2 Diante desses dados, Kaben- gele Munanga (1940) sentencia: “nosso racismo é um crime perfei- to”. Crime, pelos números hedion- dos que produz, e perfeito porque somos incapazes de reconhecer quem são os verdadeiros respon- sáveis. Para melhor compreender esta definição de crime perfeito é preciso desarticular o racismo desvendando seus mecanismos. De forma sistemática poderíamos dividir os mecanismos em três eta- pas: 1) naturalização; 2) culpabili- zação; e 3) criminalização. Podemos compreender a natu- ralização por meio de um exercício autorreflexivo. Pensemos juntos. Vamos há dezenas de consultas médicas ao longo do ano, quantas vezes já fomos atendidos por mé- dicos negros? Frequentamos o am- biente acadêmico, quantas vezes problematizamos a quantidade de 1 FLACSO - Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais 2 Mapa da Violência, 2015
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    38 • ciência&vida Partindodas perguntas: “existe racismo no Brasil?” e “você já discriminou alguma pessoa por sua cor de pele?”, proponha que os alunos realizem uma pesqui- sa com alunos de outras salas, para outros professores e até mesmo em espaços externos à escola. As respostas podem ser organizadas em tabelas nas au- las de Matemática, por exem- plo. Cartazes podem ser con- feccionados nas aulas de Artes e expostos em uma exposição. O professor de Sociologia pode explorar a temática paralela- mente. Ou podem ser organiza- dos debates, em que cada grupo explorará explicações plausíveis para as respostas obtidas. Mas o principal é verificar se o padrão das respostas se repete tal qual ocorreu nas pesquisas da Folha de São Paulo e da Fundação Perseu Abramo.1 A partir da análise das respostas, você pode citar alguns dados sobre o ra- cismo no Brasil e questionar os alunos sobre quais hipóteses eles apresentam sobre a temática. Esta atividade tem como ob- jetivo desencadear o debate e mo- bilizar os alunos para a questão do racismo. Refletir como pode haver dados tão cruéis do racismo sem que exista racistas é um bom pontapé para o debate. Ela per- mite explorar como construímos nossa percepção da realidade e como, muitas vezes, essa percep- ção pode ser manipulada. Os da- dos obtidos pelos alunos podem abrir não apenas a discussão sobre o racismo, mas também para ou- tras formas de preconceito, pos- sibilitando trazer para o debate o conceito de Foucault sobre a pro- dução da verdade. 1 SANTOS, G.& SILVA, M. (eds.) Racismo no Brasil: Percepções da Discriminação e do Preconceito Racial no Século XXI. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2005. exercício I: Racismo e interdisciplinaridade No Brasil, reconhecemos as consequências do racismo, mas silenciamos sua reprodução cotidiana. É o silenciamento sobre o racismo que permite a a perpetuação da miopia racial Orfeu negro, de Sartre é seja uma das principais referências teóricas estritamente filosófica sobre o racismo antinegro do racismo ou não. Quando denun- cia o racismo, logo escuta que está tentando transferir “seu proble- ma”. No máximo, o que se oferece é compaixão. Mas uma compaixão que reconhece a condição social desfavorável do negro para logo em seguida lhe impor a cobrança para que se esforce e supere o racismo. E aqui entra em cena a criminaliza- ção. Aqueles que não se esforçam o suficiente para superar as barreiras sociais impostas pelo racismo de- vem ser responsabilizados. Se não existe racismo (naturalização) a cul- pa pela situação do negro é do pró- prio negro (culpabilização), assim, se o negro não é capaz de lidar com esta situação, ele deve arcar com as consequências (criminalização). Não se trata da criminalização ju- dicial apenas, mas da criminaliza- ção que argumenta a “necessidade” de punição. O encarte Racismo cordial,3 pu- blicado pela Folha de São Paulo em 1995, denuncia que mais de 80% dos brasileiros que participaram da pesquisa alegaram que há racismo no País, mas quando questiona- dos se já haviam discriminado alguém, a maioria disse que não. 3 http://almanaque.folha.uol.com.br/racismocordial. htm. Acesso em: 1 dez. 2015. Significa que há racismo, mas sem racistas. Portanto, “nosso racismo é um crime perfeito, porque é a própria vítima que é responsável por seu racismo”.4 4 MUNANGA, 2012
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    Etapa II: Educação paraa multiplicidade imagens:wikimedia/shutterstock Ao compreender como o racis- mo opera no Brasil, passamos a entender a importância de abordá- -lo em sala de aula.5 A presença desta temática na educação básica deve perpassar todas as discipli- nas e não apenas História e Artes: § 2°, Art. 26A, Lei 9.394/1996: Os conteúdos referentes à Histó- ria e Cultura afro-brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. Não se trata apenas de citá-lo ou de fazer referências à cultura afro- -brasileira e africana, é preciso pro- blematizar o racismo, escancarando seus mecanismos. Pelo menos é o que prevê as Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnico- -Raciais e para o Ensino de História e Cultura afro-brasileira e africana. 5 A Lei 10.639 de 2003 incluiu os artigos 26A e 79B na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, tornando obrigatório o ensino de História e Cultura afro-brasileira e africana na educação básica. Posteriormente, o artigo 26A foi detalhado nas Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Ensino de História e Cultura afro- brasileira e africana. Por isso, fazemos referência aos artigos 26A e 79B. As Diretrizes, elaboradas pela Professora Doutora Petronilha ­Beatriz Gonçalves e Silva, são mui- to mais do que um mero mecanismo de regulação legal. Seu texto propõe um projeto pedagógico que, obvia- mente, aponta para um projeto de sociedade livre do racismo. Trata-se da educação antirracista que se fun- da em três grandes pilares, cada um com um objetivo específico: Educação para as relações étnico- -raciais buscando construir novas relações raciais; Ensino de História e Cultura afro-brasileira para reconstruir a identidade afro-brasileira; Ensino de História e Cultura africana para resgatar a memória afro-brasileira. Não se trata de uma educação voltada apenas para negros e ne- gras, ao contrário, trata-se de ofe- recer a oportunidade da construção de uma sociedade mais igualitária. Fica evidente que estamos falando de atividades pedagógicas que vão muito além da simples realização de feiras e eventos culturais no dia 20 de novembro. O Dia da Consciência Negra remete à resistência do negro contra a escravidão
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    40 • ciência&vida Propomosa organização de uma pesquisa em ma- teriais didáticos realizada pelos próprios alunos. A proposta é que sejam levantados nos livros didáticos, de Filosofia e outros, como os três pilares da Educa- ção antirracista são abordados. Os alunos podem se apoiar neste organograma para compreender melhor o projeto das Diretrizes Curriculares. A partir da pesquisa levantada, eles podem com- parar os materiais e verificar quais atendem integral- mente ou parcialmente as Diretrizes Curriculares. Independentemente dos resultados encontrados, a atividade mobilizará os alunos para compreenderem a proposta das Diretrizes Curriculares. É preciso instigá-los a se posicionarem sobre o que pensam sobre a proposta das Diretrizes, buscando levá-los a discutir sobre o racismo. Este exercício é uma forma de complementar a atividade proposta anteriormente, já que nela é pos- sível apenas constatar a existência do racismo, sem, contudo, propor possíveis soluções ou intervenções. Assim, esta atividade, além de trabalhar a leitura e a interpretação, servirá para o aluno refletir como políticas públicas são propostas e como a escola pode ser um espaço de reflexão que vai além da mera apren- dizagem de conteúdos. Além disso, é uma forma do aluno problematizar seu próprio material de estudo. exercício II: Atividade pedagógica e antirracismo Por sua linguagem logopática, acreditamos que o filme A hora do show (Bamboozled, EUA, 2000, 135 min.), do conhecido cineas- ta Spike Lee, nos proponha uma reflexão filosófica específica, uma discussão que, por sinal, é pouco refletida pelos filósofos: o racismo. Para trabalhar com cinema em sala de aula,6 é importante uma breve apresentação do filme pelo professor, como recomenda Marco Napolitano 6 SOUZA, R. O Cinema pensa! Para além de uma ilustração. In: Filosofia Ciência & Vida, ano VII, nº 94, maio 2014, p. 45-50. Para uma maior compreensão do que se pretende por essa análise, cabe ler o artigo citado, visto que todos os conceitos utilizados aqui são apresentados e discutidos nesse artigo específico sobre o cinema e a Filosofia. Etapa III: O racismo pelo viés do cinema O filme A hora do show retrata críticas sociais fundamentais que mostram ao espec- tador os limites morais dos personagens e consequentemente, da nossa sociedade
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    www.portalcienciaevida.com.br • ciência&vida• 41 imagens:divulgação/shutterstock em Como usar o cinema na sala de aula. Desse modo, os alunos podem entrar em contato com o trabalho da equipe responsável pela realização do filme.7 No caso de Spike Lee, é importante ressaltar sua filmografia e seu envol- vimento na militância contra o ra- cismo nos Estados Unidos. Poderão conhecer outros filmes de Lee com outras abordagens também acerca do racismo, por exemplo, a cinebiogra- fia Malcolm X, em que Lee descreve a trajetória de um dos mais impor- tantes líderes do Movimento Negro acerca dos Direitos Civis nos Esta- dos Unidos (EUA, 2002, 202 min.) e Faça a coisa certa (Do the right thing, EUA, 1989, 120 min.), filme que exibe as nuanças dos conflitos raciais e suas drásticas consequências no dia a dia. A posse dessas informações antes da exibição munirá os alunos para um olhar mais atento para as di- versas vertentes existentes no filme. Cabe lembrá-los que a sessão que re- alizarão, seja na escola ou em outro local, a critério do professor, não é um passatempo ou simplesmente um filme para preencher alguma lacuna textual. Serão convidados a refletir com o cinema, nos dois significados que a palavra refletir possa assumir, tanto na projeção quanto em um pensamento sobre a experiência ob- servada na tela. Toda a trama do filme A hora do show se pauta no processo de cons- trução de um programa de televisão e por essa perspectiva o “diretor filósofo” Spike Lee nos insere em uma profunda reflexão sobre a situ- ação atual do negro8 na sociedade. Cada personagem parece assumir diferentes perspectivas em que o ne- gro possa seguir. Então, o roteirista Pierre Delacroix (Damon Wayans), um homem refinado e com ótima formação acadêmica, sua assisten- 7 Um site que pode ser útil e recomendado para os alunos ou como pesquisa do próprio professor é o Imdb, específico sobre cinema, séries e projetos audiovisuais: www.imdb.com Acesso em: 1 dez. 2015 8 O conceito de negro aqui utilizado referece-se à classificação sociológica aplicada pelos estudiosos da questão racial no Brasil e por agências de pesquisas como o IBGE e outros censos populacionais brasileiros, que abarcam a relação de pretos e pardos na categoria de negro. te extremamente dedicada Sloan Hopkins (Jada Pinkett Smith), seu irmão Julius Hopkins (Yasiin Bey) líder da gangue Mau Mau, o sapate- ador/ator Manray (Savion Glover), que interpreta o menestrel Mantan com blackface e seu parceiro, Woma- ck (Tommy Davidson), que no show passa a ser o personagem Come e Dorme também com blackface, são alguns dos possíveis percursos que o negro possa seguir em uma socieda- de em que o racismo possui muitas facetas. Condenados por serem pre- tos em um mundo construído por uma óptica branca e, consequen- temente racista, seus caminhos são extremamente trágicos. O filme inicia com a narração de Delacroix definindo o conceito de sá- tira. Ele apresenta duas concepções: “a) – trabalho literário no qual o vício e as loucuras humanas são ridiculari- zados ou atacados com desprezo; b) Ramo da literatura que compõe esse trabalho. Ironia, gozação ou um gê- nio bem esperto capaz de inovar em- pregado para revelar o vício, a loucura ou a estupidez.” E são especificamen- te esses sentidos satíricos que o filme assume em espécie de uma metalin- guagem. Isto é, Spike Lee descreve na narração introdutória de Delacroix o próprio sentido que o filme A hora do show assume até o seu fim. A ironia aparece com a constante questão implícita nos diálogos dos personagens: quem é o negro hoje? O que é ser negro? Quem define o que é e não é ser negro? Essas ques- tões possuem uma aparência meta- física de difícil compreensão, mas são apenas aparências. Essa pergun- ta já possui uma resposta formulada não apenas a ferro, fogo, chicotes e grilhões ao longo da história, atre- lado a todos esses atos concebeu-se uma definição simbólica do que e quem é o negro hoje. E toda A hora do show é essa resposta nitidamen- te vinculada nos meios de comuni- cação. Ou seja, em programas de televisão, propagandas, revistas e nos mais variados tipos de objetos, como esculturas, quadros, bonecos e brinquedos, os quais Spike Lee nos mostra repetidamente ao longo do filme com o intuito de expor como o negro é representado culturalmente de forma depreciativa. Seria impor- tante que para essas cenas fosse re- forçada a atenção dos alunos. Peça Spike Lee propõe temáticas que revelam as contradições raciais existentes nos EUA
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    42 • ciência&vida Comoatividade complementar à análise do filme A hora do show, a questão do racismo pode ser relacionada aos pro- gramas de televisão no Brasil. Para tanto, o professor pode indicar a seguinte pesquisa aos seus alunos, com suas devi- das adaptações quando necessário. Em grupo ou individu- almente, os alunos deverão assistir a um programa de tele- visão e procurar tabular as seguintes informações: nome do programa, gênero do programa – entretenimento (série, te- lenovela, desenho, etc.), informativo (telejornal), propagan- da (comerciais) –, quantas pessoas aparecem no programa? Quantas dessas pessoas que apareceram são negras? Quais são os papéis ocupados pelos negros que apareceram? Com base nas informações dessas questões seria interessante que fosse construído um cartaz em forma de tabela1 e apresen- tada pela escola com o propósito de divulgar os trabalhos e provocar uma reflexão de algo banal que, muitas vezes, passa completamente despercebido pela naturalização do racismo, como afirma Kabengele Munanga. Essas informações são dados importantes para discu- tir as práticas diárias de um racismo institucionalizado nos meios de comunicação no Brasil. É importante que os alunos tomem conhecimento disso por suas próprias investigações e possam perceber que não se trata de um tema simples. Com base nessas informações, proponha uma discussão ou uma dissertação sobre as seguintes 1 O modelo que pensamos se assemelha à tabela presente em: CADERNO DO ALUNO. Filosofia. Ensino Médio - 2ª série, volume 2. São Paulo: SEE, nova Ed. 2014 - 2017, pág. 16. questões e outras do interesse do professor: em geral, como o negro é representado nos programas de televisão? Os papéis que lhe são atribuídos reforçam os estereótipos negativos da identidade negra brasileira ou são valoriza- dos? Por exemplo, personagens negros ocuparam papéis centrais em tramas, como heróis, princesas ou galãs de novela ou, inversamente, são vilões, vagabundos, malan- dros ou inferiorizados? Por que não existe uma igualdade entre brancos e negros nas propagandas, telenovelas, pro- gramas de auditórios ou telejornais? A conclusão dessa pesquisa certamente confirmará a hipótese de Joel Zito Araújo em A negação do Brasil: O negro na telenovela brasileira. A televisão contribui para a concepção ideológica do branqueamento, do mito racial e de um desejo de euro-norte-americanização das elites no Brasil pela imposição de uma estética de branqueamento. Diz Zito Araújo: “empresários, publicitários e produto- res de tevê, como norma, optam pelo grupo racial bran- co, nos processos de escolha dos modelos publicitários ou apoio a projetos culturais. É uma constante a negativa de incentivo cultural aos programas de tevê voltados para a população afro-brasileira, normalmente sob a alegação de não haver retorno comercial. O empresário brasileiro, em sua grande maioria, não acredita que o negro seja força econômica. Na lógica dessa maioria, preto é igual a pobre, que é igual a consumo de subsistência”.2 2 ARAÚJO, 2006, pág. 39 exercício III: Uma reflexão sobre o racismo na TV que observem bem esses objetos e pergunte de fato se eles constituem uma identidade simbólica do negro. Com a queda massiva de audiên- cia do canal em qual trabalha (CNS) e pressionado por seu chefe, Tho- mas Dunwitty (Michael Rapaport), Delacroix procura criar algo novo, inusitado, que seja direcionado es- pecificamente aos afrodescendentes. Porém, Thomas Dunwitty, que é branco, assume-se mais negro que o próprio Delacroix. Ele fala como um negro, entende as gírias que os negros utilizam, conhece diversas personali- dades negras, cresceu entre os negros e, acima de tudo, é casado com uma negra e tem filhos mestiços. Em con- trapartida, uma excelente formação acadêmica, uma linguagem culta e um comportamento refinado fazem de Delacroix um negro não negro. Ele é assim um completo estranho, o que torna sua tarefa de pensar em um programa direcionado à população negra uma tarefa hercúlea, como res- salta Dunwitty. Em alguns roteiros anteriores, Delacroix procurou mos- trar negros em posições importantes, situações que fogem dos estereótipos do negro pobre, violento ou drogado, mas todos recusados. Neste trecho, o filme apresenta uma concepção estereotipada do que é o negro pelo personagem de Dunwitty, ele é o conceito-imagem do racista que não se acha racista incorporado por mui- tas pessoas. Por uma epifania, Delacroix mer- gulha nos programas de televisão da década de 1940. E sua ideia é cons- truir uma sátira. Quer criar um show negativo, algo extremamente racista para mostrar que todo esse mercado O documentário A negação do Brasil, denuncia as lutas dos atores negros pelo reconhecimento de sua importância na história da televisão brasileira
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    televisivo não queser associado ao ne- gro, salvo que sejam palhaços, malan- dros, subservientes e sempre inferio- res aos brancos. Então ele, o roteirista, como ressalta no início do filme, é o responsável pelo que todos irão ver. Esse conceito-imagem de que nada é fortuito na televisão é construído lentamente ao longo do filme. Cada reunião que os personagens fazem entre grupos com diversos roteiristas, produtores e advogados mostra com detalhes que cada personagem, cená- rio etc., são muito bem pensados antes de serem exibidos. Assim, Delacroix retoma os sho- ws de trovadorismo dos anos 1940, época que atores brancos representa- vam personagens negros pintados de preto – blackface. Manray e Womack, dois jovens negros pobres entram em cena no show, respectivamente como Mantan, o menestrel, e Come e Dor- me, seu fiel amigo. Além de repre- sentarem dois negros caipiras, pouco espertos, porém malandros e que vi- vem em uma fazenda de melancia re- alizando diversas travessuras, o mais impactante é que ambos encenam com blackface. Esse é o ponto de maior impacto. Inserir atores negros repre- sentando negros pintados de preto. A cena dos dois atores se preparando e todo o processo da fazer o blackface é apresentado algumas vezes por Spike Lee, ele não faz isso fortuitamente, e essa é uma questão importante a ser discutida com os alunos A sátira que Delacroix propõe torna-se uma tragédia para todos imagens:divulgação ARAÚJO, J. Z. A negação do Brasil: O negro na telenovela brasileira. São Paulo: Senac, 2006. CABRERA, J. O cinema pensa: uma introdução à Filosofia através dos filmes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a Filosofia? 3. Ed. São Paulo: Editora 34, 2000. FOCAULT, M. Microfísica do poder, 1985. NAPOLITANO, M. Como usar o cinema na sala de aula, 4ª ed. São Paulo: Contexto, 2010. NOGUEIRA, R. O ensino de Filosofia e a lei 10.639. Rio de Janeiro: CEAP, 2011. SOUZA, R. O Cinema pensa! Para além de uma ilustração. In: Filosofia Ciência & Vida, ano VII, nº 94, maio 2014, p. 45-50. referências os envolvidos em sua trama. E essa é a concepção depreciativa que Lee expõe como tese, em que todos os personagens negros sucumbem por mais que tentem modificar suas vidas. Este seria mais um detalhe interessante que o professor pode- rá propor a seus alunos. Peça para observarem e descrevam os fins de cada uma das seguintes persona- gens: Pierre Delacroix, Sloan Ho- pkins, Julius Hopkins, Manray e o Womack. Essas são algumas suges- tões que o professor pode utilizar. A hora do show é um filme complexo que pode ser trabalhado por outras perspectivas além das apresentadas aqui. Porém, é inevitável assisti-lo e não se sentir provocado, é impos- sível não sentir um incômodo que muitas vezes nos passa despercebi- do, um incômodo que somente um filme filosófico é capaz de provocar, visto que o Cinema pensa! O que o blackface representa? Isto é, o que o ato de pintar o corpo de preto, os lábios de vermelho de forma exagerada e comportar-se como alguém um tanto estúpido representa?