O documento discute o papel do humor na comunicação e como ele é usado pela mídia para engajar o público. Também explora as origens do humor na Grécia Antiga e como ele evoluiu para ser uma ferramenta importante no jornalismo e na sociedade atual.
CoMídia
Desde a antiguidade,filósofos debatem entre si quanto ao humor. Atravessando o tempo, o humor superou e
mais que isso, se fez presente em todas as sociedades que o mundo já conheceu como forma de conexão entre
os seres humanos. Presente nesse processo, a mídia também incorpora o humor como ferramenta para alcançar
das mais diversas formas o leitor e consumidor. Mas qual é, de fato, o papel do humor na comunicação?
Carolina Nogueira, Cristiane Lüscher e Raphael Vaz
Bisbilhotando por cima dos ombros do pai, a menina acompanhava as figuras do jornal, por mais que as primeiras
não chamassem muito sua atenção. Quando uma das figuras lhe chama atenção, exclama:
-Não entendi esse desenho, Pai. Por que o Lula está com uma camisa escrita Eu amo CPMF?
O pai cansado só em pensar na CPMF responde pacientemente:
-O governo, minha filha, está inventando uma lei...
Quando é bruscamente interrompido:
– E aquela ali que o presidente está regando uma florzinha chamada 3º man-da-to com um regador escrito PAC?
- Já esse desenho, filha, significa que o presidente quer se reeleger...
- Mas se vocês já sabem ler por que não escrevem ao invés de desenhar?
Tem lógica. Mas, é característica do brasileiro fazer piada com tudo. E nada mais justo que a imprensa fazer uso
da piada para informar, opinar e como é de se esperar, fiscalizar a sociedade. O jornalismo humorístico tem todas
essas funções e as exerce de forma satisfatória. Seja através de notícias bizarras, charges críticas, ou programas
de tevê sarcásticos, o humor serve de máscara para jornalistas e sociedade. Frente a injustiças, polêmicas, e dra-
mas históricos, as pessoas arranjam um jeito de suas idéias servirem de reflexão. Por mais que o jornalismo não
exista desde sempre, essa maneira de encarar os acontecimentos vem de longa data.
Tudo começou quando alguns gregos resolveram fazer uma festa que homenageava o deus do vinho e das festas,
Dionísio. A partir daí, essa comemoração tornou-se uma prática constante, sendo inclusive organizada e tendo a
representação de diversas pessoas. Essas pessoas figuravam naquilo que hoje conhecemos como atores. Munidos
de máscaras e véus, os quais faziam referência aos seus personagens, foram os pioneiros na arte do teatro. Estas
raízes antigas, fundamentadas no berço da nação ocidental nos deixaram como herança mais do que simples-
mente a 5ª arte.
As montanhas e colinas gregas também legaram à nossa sociedade o humor. Não exatamente nessa forma com
a qual lidamos atualmente. Os temas representados nas peças gregas aliavam humor ao drama para abordar e
criticar políticos, lendas e mitos ou tragédias relacionadas a fatos cotidianos. Felizmente, vivemos em uma socie-
dade dinâmica, de constante reformulação e adaptação de temas e conceitos. E o humor também passou nesse
crivo sociológico.
Tanto que esta faceta humana alcançou níveis além daqueles primordiais em que foi empregado. Até mesmo em
compreensões filosóficas o humor passou a ser utilizado, como forma de o indivíduo buscar em si mesmo respos-
tas que dêem significado as já famosas perguntas “quem somos, de onde viemos ou para onde vamos”. Como
esclarece Eugênio Mussak, em Vida Simples, “Sócrates preconizava o humor e era bem-humorado, ao contrário
de Platão, que considerava o riso um sinal de fraqueza de caráter”.
2.
A julgar porPlatão, a mídia é no mínimo sem caráter. Mais que uma fraqueza, o processo midiático em todas as
frentes - TV, rádio, impresso, internet, publicidade, entre outros – se utiliza do humor como uma ferramenta de
impacto para abranger um maior número de consumidores. Talvez porque no humor estejam guardadas chaves
que auxiliem na compreensão de questões culturais, sociais ou religiosas.
Pelas charges do profeta!
Para se ter idéia de quão profunda pode ser a influência de uma peça de humor dentro do processo da comuni-
cação, não é preciso ir muito longe. Faz dois anos que o mundo islâmico protestou de forma veemente contra
publicações européias de charges que retratavam Maomé. Em uma delas, ele foi retratado com um turbante na
cabeça em forma de bomba-relógio. Além do mal-estar causado entre a sociedade, o desenho ainda rendeu a
suspensão de relações diplomáticas entre países do mundo árabe e do velho mundo.
Agindo na contramão, o tablóide Al Shihan da Jordânia, optou por publicar três das 12 charges polêmicas. Para
o diretor de redação do jornal, Jihad Momani, em entrevista ao site DW-World justificou que publicou as charges
porque “as pessoas estavam atacando desenhos que elas nem mesmo viram”. Ele também argumentou que
tinha como objetivo alertar os leitores quanto ao nível das ofensas feitas contra o profeta. A publicação das
charges rendeu a Momani a demissão do jornal em que trabalhava.
O chargista do jornal cearense O Povo esclarece que a função primordial da charge é opinar, assim como os
textos. No entanto, não existe coerência em abordar um tema que não seja conhecimento do leitor. “Tendo con-
hecimento da abordagem da charge, o público vai entender a informação com maior facilidade”, fundamenta.
Compartilha da mesma opinião o chargista do Zero Hora, Marco Aurélio. “O chargista tem que dar satisfação pro
leitor. Se tiver um terremoto na China e eu falar sobre futebol, estarei bancando um alienado. O leitor exige uma
explicação do fato principal”, considera.
Márcio Siqueira, editor-chefe dos jornais Mogi News e Diário do alto Tietê, esclarece que o humor tem como prin-
cipal benefício facilitar o acesso do leitor a compreensão da notícia. “O que está estampado ali são os bastidores
do poder. A caricatura de um presidente da república, por exemplo, traduz em poucas palavras ou apenas no
traço do desenho o que efetivamente acontece nos bastidores. E isso tudo dá uma clareza para o leitor e chama
a atenção dele para um assunto que poderia ser sóbrio”, ilustra Siqueira.
Humor terapêutico
O universitário Everson Torres é um aficionado em histórias em quadrinhos e charges. O interesse vem desde
pequeno, quando assistia desenhos na televisão como Batman ou Super Homem. “O interesse surgia em função
de que nos quadrinhos a história se prolonga”, atesta. Torres tem no seu orçamento mensal, 20 reais destinados
apenas para a aquisição de novos fascículos de quadrinhos. Estudante de comunicação, ele afirma que já se ar-
riscou a escrever roteiros de quadrinhos, charges e diz que para a construção do desenho é necessário que exista
um conhecimento prévio do leitor, caso os traços retratem uma situação política ou de natureza social. “É uma
forma de reforçar a notícia porque usa o humor... E humor chama a atenção”, revela.
Segundo estudo da psicobióloga Silvia Helena Cardoso, do Núcleo de Informática Biomédica (NIB) da Unicamp,
a manifestação proveniente do humor “tem propriedades terapêuticas imprescindíveis tanto à saúde física e
mental quanto ao bem-estar social”, esclarece. Silvia qualifica o humor, na expressão do riso, como uma das
principais formas de se estabelecer uma comunicação entre os indivíduos da sociedade. Por meio do riso, revela-
se a possível disposição em se associar ao outro. “Nada que existe em nosso comportamento deixa de ter uma
função. A do riso é a comunicação”, complementa.
Uma das iniciativas que busca difundir o humor tupiniquim e também o do globo é o Festival Internacional de
Humor e Quadrinhos (FIHQ), promovido anualmente pela Associação dos Cartunistas de Pernambuco (Acape). O
FIQH faz coro a outros eventos já existentes no País como os Salões de Humor de Piracicaba, do Piauí e do Rio
de Janeiro entre outros, para promover o intercâmbio de experiências e educar interessados na arte dos HQs
através de oficinas. “O gosto pela leitura muda, mas as HQs continuam presentes, contribuindo como uma das
principais fontes de informação. O indivíduo amadurece, torna-se um ser crítico. As HQs permanecem. Andam
pela vida social e política, mesmo que de forma lúdica”, conclui o Secretário de Educação e Cultura do Estado
de Pernambuco, Mozart Neves.