Jornal



   O Bandeirante
             Ano XVIII - no 201 - agosto de 2009
             Publicação Mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo - SOBRAMES-SP




                                      Não Perder Tempo
                                  “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer
                                      e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado; (...)”.
                                                                       Eclesiastes 3,1-2.




 Helio Begliomini
 Médico urologista
 Presidente da SOBRAMES-SP (2009-2010).


    Hoje em dia é comum escutarmos e
dizermos a toda hora expressões como
“não tenho tempo”, “o tempo voa”,
“não há tempo a perder”, “o tempo não
é suficiente”, dentre outras. Na história
da civilização, o tempo nunca esteve
com tanta evidência e carência quanto
agora, paradoxalmente, quando mais
tempo temos, pois maior é a expectativa
de vida que alcançamos.
    Por incrível que possa parecer, as
24 horas do dia, que correspondem
a 1.440 minutos e a 86.400 segundos,
que a todos são gentilmente creditadas                     Tal expressão também pode ser en-                           Devia ter amado mais
em nossas existências, parecem ínfimas                 tendida em linguagem figurada como                              Ter chorado mais
pela demanda de compromissos e tare-                   “colha o dia como se fosse um fruto                             Ter visto o sol nascer
fas que se nos apresentam.                             maduro que amanhã estará podre”; ou                             Devia ter arriscado mais
    Quando nossa existência é consu-                   “evite gastar o tempo com coisas inúteis                        Até errado mais
mida de forma superficial, frívola, sem                ou como uma justificativa para o prazer                         Ter feito o que eu queria fazer
objetivos concretos, corremos o risco                  imediato, sem medo do futuro”, ou ain-                          Queria ter aceitado as pessoas como
de gastar, ou melhor, de desperdiçar                   da “aproveite cada segundo para valori-                     elas são
nosso precioso tempo. Ao contrário,                    zar a própria vida e a dos outros”.                             Cada um sabe a alegria e a dor que
quando encontramos razões para viver;                      Entretanto, o tempo é inexoravel-                       traz no coração (...)
quando incorporamos em nossas ações                    mente igual para todos. Ter ou não
ideais pelos quais vale a pena lutar...                ter tempo para algo, para alguém ou                             “Quem planta colhe”, refere rus-
sentimos uma agradável sensação de ser                 para uma entidade é meramente uma                           ticamente a sabedoria popular. Em
útil, de realização, de autoestima, pois               questão de prioridade, de opção. Neste                      outras palavras pode-se dizer que o
depreendemos que nosso tempo está                      particular, essa foi uma das escolhas,                      futuro encontra-se sempre em gesta-
sendo bem aproveitado e, em linguajar                  por sinal, muito prazerosa, nossa, dos                      ção no presente. Temos certeza de que
moderno, bem investido.                                membros desta diretoria, ao doar uma                        através das ações que estamos fazendo
    Já, Quinto Horácio Flaco (65 – 8                   significativa parcela de nosso tempo                        na, e para a Sobrames-SP, estamos rea-
a.C.), mais conhecido apenas como Ho-                  de lazer ou de convívio familiar para                       lizando também para seus associados,
rácio, filósofo, satírico e um dos maiores             a administração da querida Sociedade                        nossos(as) queridos(as) coirmãos(ãs)
poetas da Roma antiga, consignava em                   Brasileira de Médicos Escritores – Re-                      de confraria.
“Odes” I, 11.8 sua preocupação com o                   gional do Estado de São Paulo (Sobra-                           Continuamos dispostos a investir
tempo presente, ao utilizar nesse seu                  mes – SP).                                                  muito desse nosso exíguo e fugaz tem-
poema o verso latino “Carpe diem                           Aliás, nada melhor e mais oportuno                      po de que dispomos para a Sobrames
quam minimum credula postero”, cuja                    do que refletir sobre estes versos da                       paulista, a fim de que não amarguemos
tradução é “colha o dia, confia o míni-                música “Epitáfio”, cantada pelo grupo                       amanhã o dissabor de achar que podí-
mo no amanhã”.                                         Titãs:                                                      amos ter feito mais.
2     O BANDEIRANTE - Agosto de 2009

                                                                                              O Milagre Brasileiro
    EXPEDIENtE                                                                               Um fato relevante na vida dos brasileiros foi a vinda do Papa Bento
                                                                                        XVI do Vaticano para as cerimônias da canonização de Frei Galvão, o
Jornal O Bandeirante                                                                    primeiro santo nacional. Milhares de pessoas compareceram ao sagrado
ANO XVIII - no 201 - Agosto 2009                                                        evento numa demonstração de profunda religiosidade. Muitas lágrimas
                                                                                        de emoção, gratidão, de reconhecimento, de fé, de esperança, advindos
Publicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos                                    dos milagres que o humilde e santo frade distribuiu à comunidade dos
Escritores - Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP   .                            pobres e necessitados no corpo e no espírito.
Sede: Rua Alves Guimarães, 251 - CEP 05410-000 - Pinheiros                                   Mas... Há sempre um mas na vida dos mortais... O dia a dia das
- São Paulo - SP Telefax: (11) 3062-9887 / 3062-3604 Editor:
Helio Begliomini. Jornalista Responsável e revisora:
                                                                                        pessoas no trabalho, no estudo, nas necessidades mais prementes de ser,
Ligia Terezinha Pezzuto (MTb 17.671 - SP). Colaboradores                                de existir. Viver não é fácil... A constante procura da felicidade...Pura
desta edição: Alcione Alcântara Gonçalves, Calos Augusto                                ilusão. Uma quimera. Pela sua própria natureza, como argumentava o
Ferreira Galvão, Flerts Nebó, Geovah Paulo da Cruz, José                                famoso criminalista, anatomista e médico italiano, LOMBROSO, certos
Alberto Vieira, José Jucovsky, José Rodrigues Louzã,
Josyanne Rita de Arruda Franco, Luiz Jorge Ferreira,           indivíduos já nascem determinados ao mal. Assim, o forte domina o fraco, o rico pisa no pobre,
Rodolpho Civile.Tiragem desta edição: 300 exemplares           o esperto rouba o inocente, o inteligente usa o ignorante. Admiráveis são aquelas pessoas que
(papel) e mais de 1.000 exemplares PDF enviados por            fogem desta triste “normalidade” e se dedicam de corpo e alma a ajudar o seu próximo num
e-mail.
                                                               altruísmo maravilhoso de amor e caridade. A elas, a redenção da humanidade. São os santos,
Diretoria - Gestão 2009/2010 - Presidente: Helio               também chamados milagreiros. Não são muitos...
Begliomini. Vice-Presidente: Josyanne Rita de Arruda
                                                                    Entretanto, existem em profusão no Brasil...São aqueles que vivem, ou melhor, sobrevivem
Franco. Primeiro-Secretário: Ligia Terezinha Pezzuto.
Segundo-Secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã.               do salário mínimo e da aposentadoria e sustentam os seus familiares. Verdadeiro milagre...O
Primeiro-Tesoureiro: Marcos Gimenes Salun. Segundo-            aposentado que trabalhou e contribuiu anos a fio e agora recebe uma esmola chamada de “be-
Tesoureiro: Roberto Antonio Aniche. Conselho Fiscal            nefício” e não um direito, atualmente é procurado e convidado a ter um “crédito consignado”,
Efetivos: Flerts Nebó, Carlos Augusto Ferreira Galvão, Luiz
Jorge Ferreira. Conselho Fiscal Suplentes: Geovah Paulo
                                                               uma armadilha em que ingenuamente cai. Recebe uma quantia que depois não saberá repor.
da Cruz; Rodolpho Civile; Helmut Adolf Mataré.                 O resultado: de pobre vira miserável. Enquanto isso, os nababos da sociedade brasileira se en-
                                                               riquecem de uma maneira escandalosa à custa do suor e sangue do povo. E a justiça? Ninguém
    Matérias assinadas são de responsabilidade de seus         sabe aonde ela anda... Talvez esteja na sabedoria do canto de lamentação dos antigos egípcios
     autores e não representam, necessariamente, a
                  opinião da Sobrames-SP
                                                               no livro dos mortos: “que restou de suas poderosas mansões e palácios? Abateram-se suas fortes
                                                               muralhas, ruíram as casas no pó. Olhe, ninguém levou consigo suas coisas. Olhe, ninguém que
                                                               foi até hoje voltou”.
                 Editores de O Bandeirante                          Tudo faz crer que são os velhinhos os responsáveis pela situação calamitosa do País! Teimam
Flerts Nebó – novembro a dezembro de 1992
                                                               em viver muito, comer e beber o que há de melhor, ter casa própria e outros bens materiais,
Flerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1993-1994                como plano de saúde, que foi criado para as pessoas saudáveis e não para os doentes...Enfim, é
Carlos Luiz Campana e Hélio Celso Ferraz Najar – 1995-1996     difícil de aceitar, mas os velhinhos são uns egoístas! Só pensam neles! Neles! A solução: dar cicuta
Flerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1996-2000                a eles, como foi feito com Sócrates. Uma vez fora do ambiente terrestre, morando no Inferno,
Flerts Nebó e Marcos Gimenes Salun – 2001 a abril de 2009      os velhinhos não seriam mais um rombo no INSS e atraso de vida e o País teria um surto de
Helio Begliomini – maio de 2009 -
                                                               desenvolvimento e progresso...Todos felizes!
    Editor: Helio Begliomini                                        “Mondo cane”. Poucos (os mais espertos) têm muito e muitos (os ingênuos) não têm nada...
    Diagramação: Mateus Marins Cardoso                         Até quando? Até quando, meu Deus? Que desça logo a Vossa justiça sobre os mais pobres e mi-
    Impressão e Acabamento: Expressão e Arte Gráfica            seráveis, aqueles que não têm o que comer e dormem ao relento e pedem a Vossa Misericórdia!
                                                                    Conclusão: é de bom alvitre convidar de novo o Papa Bento XVI, com urgência, que retorne
                                                               ao Brasil para consagrar os milhares e milhares de brasileiros que vivem do salário mínimo e da
            PUBLICIDADE                                        aposentadoria. São verdadeiros santos!
                                                                                                               Rodolpho Civile
           TABELA DE PREÇOS 2009
          (valor do anúncio por edição)                                                                        Médico aposentado em São José dos Campos
      1 módulo horizontal      R$ 30,00
      2 módulos horizontais    R$ 60,00
      3 módulos horizontais    R$ 90,00                          Walter Whitton Harris
      2 módulos verticais      R$ 60,00                                Cirurgia do Pé e Tornozelo
      4 módulos               R$ 120,00                                    Ortopedia e Traumatologia Geral
      6 módulos               R$ 180,00                                    CRM 18317
                                                                            Av. República do Líbano, 344
      Outros tamanhos       sob consulta                                                                                 Rua Luverci Pereira de Souza, 1797 - Sala 3
                                                                             04502-000 - São Paulo - SP                Cidade Universitária - Campinas (19) 3579-3833
           heomini.ops@terra.com.br                                             Tel. 3885 8535                                www.veridistec.com.br
           ligiapezzuto@terra.com.br                                            Cel. 9932 5098

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                      CUPOM DE ASSINATURAS*                                                                                             longevità
         Preço de 12 exemplares impressos: R$ 36,00                                                                                    (11) 3531-6675
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                                                                                                                       Massagem * Drenagem * Bronze spray *
        End.completo: (Rua/Av./etc.) _______________________________________                                                      Nutricionista * RPg
                                                                                                                    Rua Maria Amélia L. de Azevedo, 147 - 1o. andar
        ________________________________ nº. _______ complemento _________

        Cidade:_____________ Estado:_____ E-mail:___________________________
                                                                                                                              Clínica Benatti
          Grátis: Além da edição    impressa que será enviada por correio, o assinante                                                     Ginecologia
          receberá por e-mail 12 edições coloridas em arquivo digital (PDF)
                                                                                                                                           Obstetrícia
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                                                                                                                                           Mastologia
                   “O Bandeirante” R. Bias, 234 - Tremembé - CEP 02371-020 - São Paulo - SP
           Dê uma assinatura de “O BANDEIRANTE” de presente para um colega                                                          (11) 2215-2951
SUPLEMENTO LITERÁRIO
                                                                                  O BANDEIRANTE - Agosto de 2009       3
                   Comoção
             11 de setembro de 2001




                                                                                                                                 http://presentepravoce.wordpress.com/2008/04/01/a-soma-de-todos-os-medos/
José Jucovsky
Médico aposentado em São Paulo


                 Sinto agora tristeza em mim
             Pelo desamor que no mundo aflora,
              Será a previsão de um trágico fim?
             Enquanto só a intolerância vigora?

                 Em cinematográficas visões
                Torres ruíram de uma só vez,
              Inconsequentes torpes explosões
              De desumana odiosa insensatez...

              Brumados arrepios estremecem
              Entre assustadores sofrimentos;
               Velórios que em pó renascem
          Nas cinzas dos abomináveis tormentos...

           Vertiginosas violentadas vidas voaram
          Em meio às chamas do céu em turbilhão
          Onde os ideais do humanismo falharam
           Gerando lágrimas, temor e comoção.



                                                                             Alguns Versos
                                                                        Josyanne Rita de Arruda Franco
                                                                        Médica pediatra em Jundiaí

                                                                       ...Não tenho uma poesia pequena!
                                                                       Pequena e breve, só a minha dor.
                                                                       Ah, se esta dor não fosse pequena,
                                                                       secaria todo o meu manancial de amor!

                                                                       Tenho alguns versos tolos, apenas.
                                                                       Versos tão simples que os sei de cor.
Retirando as Pegadas                                                   Leia meus versos e não sinta pena:
                                                                       quando eles nascem, morreu alguma dor.

Luiz Jorge Ferreira
Médico clínico em São Paulo


    Quase todos os dias ela varre a porta da casa para retirar   uma maldição dela e de seus dois pirralhos. Agora não!
a sombra da lua.                                                     Neste momento eles estão entretidos em bicar pedregu-
    Vestida de lilás, com suas duas asas presas às costas por    lhos, beliscar mamões e flutuar nas correntes anticiclônicas,
uma laçada de seda.                                              todas sujas de polens e minúsculas asas de abelhas.
    Ela já obesa varre com força e determinação.                     Amanhã cedo, amanhecerá outra vez como nestas suas
    Foi ela quem a construiu ali. Os outros queriam o ninho      duas últimas semanas de vida.
mais a Leste. Onde não molha muito quando chove. Não                 Os pés de laranja espalharão perfumes demais e vão
esquenta muito quando sai o sol em Outubro e não fica à          “rurinar” alto os zangões.
mercê dos cupins de asas. Em compensação sofre muitos                Voando aos tropeções, para caírem além do pomar.
danos quando passam os anuns alardeando o Verão com suas             Ela continuara a expulsar a lua do seu quintal. Como
tagarelices e seus pés sujos de orvalho. Eles ouvem sempre       coisa que ela não volte.
4    O BANDEIRANTE - Agosto de 2009
                                                                                                           SUPLEMENTO LITERÁRIO




                              Dorothy, meu Encantamento

Geovah Paulo da Cruz
Médico oftalmologista em São Paulo

     Ultimamente descobri um novo filão literário, o memoria-          por ela se renovou, e no que penso, era correspondido.
lismo. Nesta minha idade em que a memória recente se torna                 Havia um clima de identificação em torno de nossa relação.
falha e a memória retrógrada permanece ou mesmo enriquece,             Eu fora soldado, os militares estavam no apogeu de seu pres-
eu que sempre tive boa memória para fatos e acontecimentos,            tígio, algum tempo depois viria a revolução de 31 de março e
sou tomado de lembranças.                                              um general me parecia algo tão distante quanto um potentado,
     Poetas, romancistas, escritores falam de amor, de paixão, de      um príncipe.
enlouquecimento amoroso, de tresloucada adoração.                          Naquela época em todo o Estado de São Paulo só havia
     Eu vou falar de algo mais sutil, tênue, até certo ponto reca-     cinco faculdades de medicina, e um jovem médico era uma boa
tado. Falarei de encantamento, sedução, fascínio, admiração,           promessa social e econômica. Estávamos empatados.
embevecimento, envolvimento.                                               Dória era janista roxo, fanático, e teve uma tremenda
     Todo aquele que escreve: poeta, romancista, escritor, roteiris-   decepção política, quase enfartou quando eu lhe contei que
ta, teatrólogo procura esconder a identidade dos personagens,          Jânio Quadros tinha renunciado. Ele, que era negro, só faltou
pessoas, acontecimentos, fatos.                                        ficar branco. Havia uma perspectiva latente de eu continuar
     Eu não! Aqui nesta crônica declaro que tudo é verdade, os         seu sócio, se eleito. Ele perdeu o ímpeto, perdeu as eleições e
nomes são reais, os acontecimentos, as circunstâncias, existiram       voltou para sua clínica.
de fato. Nada será omitido ou escamoteado, tudo se fará segun-
do a minha memória e a minha versão, depois de 47 anos.
     Eu era um jovem médico vindo de Minas, provinciano, re-
sidente da Clínica Oftalmológica da Santa Casa de São Paulo,
pensando em fazer uma carreira acadêmica, porque eu fora
professor licenciado de Biologia, fora dono de cursinho pré-
vestibular, fora professor em Faculdade de Filosofia, apesar de
minha pouca idade.
     Aqui fui chamado para atender em tempo parcial e limitado
na clínica de olhos do Dr. Oswaldo Costa Dória, um notável
baiano negro, personalidade extraordinária, que tinha uma
vasta clientela no Brás e resolvera ser candidato a deputado es-
tadual. Ele tinha sido médico militar convocado para a segunda             Afastado, fui para Minas Gerais pensando em ficar por lá.
guerra, não chegou a ir para a frente de batalha e se reformou         Não tinha havido propriamente uma traição, ainda era namoro,
como Capitão do Exército, no que possuía muito orgulho. Eu,            e fiquei noivo daquela que foi minha esposa por 32 anos.
durante o curso secundário, havia prestado serviço militar no              A tentativa de me estabelecer por lá não deu certo. Eu
Tiro de Guerra durante um ano e compreendia bem o espírito,            tinha a promessa de ser assistente remunerado da Cadeira de
a mística e o carisma da caserna.                                      oftalmologia da Faculdade Federal do Triângulo Mineiro, mas
     Ele, algo entre patrão e colega, convidou-me para uma festa       na hora H fui preterido politicamente por outro que naquela
memorável no Círculo Militar de São Paulo, exigindo-se traje a         época não tinha as credenciais acadêmicas que eu levava. De-
rigor. Eu tinha smoking novinho do baile de formatura e lá fui         cepcionado, voltei para São Paulo para continuar na Santa Casa
todo empolgado, era um mundo novo que se me apresentava,               e ser assistente do departamento de oftalmologia e para fazer
cheio de glamour, pompa, circunstância, como diria a roman-            aqui uma vida profissional, no que graças a Deus me dei muito
cista Jane Austen.                                                     bem. Mais tarde recusei ser professor em Itajubá e depois em
     Para minha sorte e felicidade, Dória, dando uma de cupido,        Pouso Alegre, porque já tinha família, boa clínica e estava em
apresentou-me a um general gaúcho que foi muito cortês, sim-           franca ascensão profissional.
pático, e cujo nome já não me lembro, e a sua filha Dorothy.               Nesta volta, já noivo, achei ética e moralmente impróprio
     Ela era uma garota linda, simpática, muito bem vestida,           voltar a me relacionar com Dorothy. O Dr. Dória morreu de
encantadora, fina, educada, desenvolta nas tradições sociais           acidente automobilístico, eu nunca mais soube dela.
de salão e sociedade. Tive por ela um súbito embevecimento.                Espero e desejo que ela se tenha realizado na vida amorosa,
Dançamos a noite toda como um par harmônico e senti que ela            social, familiar e, quem sabe, até profissional. Já não me lembro
também gostara de mim, foi um envolvimento recíproco. Nunca            o que ela estudava, mas apenas que era universitária.
me entendera tão bem com uma garota como aquela.                           Militares se mudam frequentemente. Possivelmente ainda
     Sedução, encantamento, magnetismo, foi tudo o que nos             estará viva, algures ou alhures, e eu gostaria de dizer ao vento
dominou naquela noite. Eu tinha 27 anos, ela uns 22, formá-            que um dia ela foi minha musa, encantou a um moço, deixou-o
vamos um par de jovens voluteando nas nuvens, envolvidos               fascinado, magnetizou-o, avassalou-o com sua presença física,
por um clima de sociabilidade e de discreta sensualidade; ela          corporal, social, psíquica e pessoal. Certamente nem se lembrará
com os odores da juventude, cheiro doce de donzela clamando            deste acontecimento, talvez eu tenha sido um caso passageiro
para um conluio, quem sabe um conúbio, o corpo ágil de dan-            na sua vida, mas para mim foi uma circunstância particular,
çarina de salão, o contacto quente num amplexo que ia além             inesquecível. É improvável que um dia ela chegue a sabê-lo,
da simples afabilidade.                                                nunca cogitarei de realizar esta façanha, mas como os arautos
     Aquela garota mexeu com todas as minhas energias: psicoló-        dos contos de fadas, proclamo claro e bom som, num timbre
gicas, biológicas, sociais, emocionais. Fomos a mais duas soirèes      alegre e de saudosa memória feliz:
de fim de semana no salão do Círculo Militar e meu encanto                 – Dorothy, você foi para mim uma bela fantasia real.
SUPLEMENTO LITERÁRIO
                                                                          O BANDEIRANTE - Agosto de 2009     5

Cada Dia uma
Esperança

Flerts Nebó
Médico aposentado em São Paulo



    Já há bastante tempo o poeta cantou “Só a leve es-     centro, era uma moça de bons princípios e o palavreado
perança em cada dia disfarça a pena de viver e...mais      chulo do homem a deixava aborrecida.
nada”.                                                         Mas era obrigada a passar por ele para poder chegar
    Ela chamava-se Esperança, era uma mulata cem por       a seu local de trabalho e o que ouvia era sempre a mesma
cento bonita e apetitosa e por onde passava os homens      frase:
não deixavam de emitir aquele assovio característico de        – Que “pundão” tem a Esperranza...
boa apreciação e em suas cabeças pensamentos lúbricos          Um dia, chegou do interior um seu parente que tinha
e mesmo maldosos, sobre desejos inconfessáveis.            uma compleição física tipo Mike Tyson e ela pensou:
    Esperança, por um daqueles acasos da vida, morava          Hoje peço para este meu primo que me acompanhe
num dos bairros da Grande São Paulo chamado Vila Es-       e quero ver se aquele gringo será capaz de dizer o que
perança, numa casa de alvenaria, que muito lhe custara     todo dia sou obrigada a ouvir...
construir; tendo saído de um barraco feito de tábuas e         Logo cedo, tomaram o metrô e desceram na estação
coberto com plástico de uma das inúmeras favelas da        “Sé” e dirigiram-se de braços dados para a rua Direita.
periferia da Megalópole.                                       Quando passaram defronte ao local onde o alemão
    Trabalhava numa loja na rua Direita e assim todo dia   ou o sueco ou sei lá qual era a sua nacionalidade estava,
tomava o metrô, descendo na “bendita” Praça da Sé e        ele viu que a mulata vinha de braço dado com um “Sta-
caminhava passando diante de muitos pequenos negócios      lone” e quando ela passou olhando firme para ele, não
ali estabelecidos.                                         se abalou e cantarolou:
    Havia um em que trabalhava um homem de ascen-              – Salve lindo pundão da Esperança...
dência germânica ou nórdica e, cada vez que Esperança          Ela mordeu os lábios com raiva e naquele dia pediu
passava diante dele, nunca deixava de emitir aquele as-    a conta na loja onde trabalhava e foi procurar emprego
sovio característico e no seu linguajar enrolado dizia:    em outro lugar.
    – Que “pundão” tem a Esperrança...                         É como eu disse no começo “Só a leve esperança em
    Ela se aborrecia com aquelas palavras, pois embora     cada dia disfarça a pena de viver... e mais nada”; por
sendo uma mulher de poucas posses, morando longe do        hora.




Poema para um Casal
(Poesia de guardanapo de 18/06/09)



Calos Augusto Ferreira Galvão
Médico psiquiatra em São Paulo


I
Que bom ver vocês juntos
Afora a vida, afora a noite
Afora as vírgulas, afora os pontos
Afora o tempo batendo feito açoite.

II
É muito bom ver vocês juntos.
Pois sobra o lar, sobram momentos,
Sobram filhos, nem sempre tormentos
Pois foram feitos com amores sedentos.
6   O BANDEIRANTE - Agosto de 2009
                                                                                                  SUPLEMENTO LITERÁRIO




José e Maria

José Alberto Vieira
Médico anestesista em São Paulo



    Tem sido muito difícil nos dias de hoje simplificarmos      sucedido saindo um dia talvez na mesma revista sorrindo
nossas vidas. Viver virou sinônimo de avaliação e controle      como exemplo de sucesso. Enfim Maria está pensando em
de riscos. E o que seria uma vida simples? Acredito eu, seria   mudar de ramo, algo maior, com maiores retornos, afinal
agirmos de tal forma que a nossa própria vida e situações       como diz o filme do 007: O mundo não é o bastante.
nos levassem a aprendermos e errarmos sem entrar em                 José trabalha duro no seu cotidiano, mas está pensando
crises existenciais. Exemplo:                                   em fazer um MBA de alguma coisa, afinal a empresa gosta
    José e Maria são um casal feliz, eles são companheiros,     de pessoas motivadas, que deem o sangue pela companhia.
respeitam-se, adoram estar um com o outro, são bons             Ele vai trabalhar de dia e estudar à noite, para se apri-
amantes, amam seus filhos, seus pais e seus amigos. Um          morar e, talvez, e é talvez mesmo, receber um aumento.
belo dia um deles lê: Casais que fazem amor três vezes          Afinal estatísticas afirmam que aqueles que têm um MBA
e meia por semana são mais felizes do que aqueles que           de qualquer coisa ganham mais. José está triste pois está
fazem uma vez e meia. Nós não imaginamos como que é             cansado e gostaria de estar à noite com sua esposa e filhos,
fazer amor uma vez e meia, mas as estatísticas sabem. José      conversar, ajudar os filhos na tarefa da escola, conversar
e Maria, que nunca contaram as vezes que fizeram amor,          com Maria e ficarem abraçados, discutindo os problemas
começam a fazer cálculos e a se incomodar. José começa          do dia a dia.
a achar que sua mulher é fria e Maria começa a achar que            José e Maria, quando podem viajar, vão a Praia Grande
José não a ama.                                                 ou vão ao interior visitar a família em Taubaté. Na praia
    José e Maria têm três filhos. Eles estudam numa escola      passeiam pela orla, andam de bicicleta, divertem-se. No in-
do bairro. A escola não é a melhor da cidade mas é ade-         terior visitam seus familiares, fazem churrasco, conversam,
quada, dá uma boa educação e formação e é aquela que            tomam um vinho na companhia dos amigos. Um dia eles
eles podem pagar. Seus filhos são bons alunos, fazem suas       receberam a visita de uns primos distantes, bem sucedidos,
tarefas, brincam, têm uma boa formação como cidadãos.           e perguntaram se eles já esquiaram em Aspen ou se já esti-
Mas! Ouvem no rádio que no ranking das melhores escolas,        veram nos parques da Disney. Maria e José se entreolharam
a deles nem aparece e que a escola “Tam tam” é a melhor.        e trocaram olhares de interrogação e exclamação. Como
José e Maria estão pensando em mudá-los para a tal escola       é que eles nunca sentiram falta de coisas tão fantásticas e
embora não tenham dinheiro suficiente para tanto. José          maravilhosas até esse dia?
e Maria terão de trabalhar horas extras e cortar algumas            José abriu uma garrafa de vinho para comemorar a
despesas para que eles estudem na escola “tam tam”. Isto        chegada dos primos. – Que safra? Que uva? Perguntou seu
quer dizer menos tempo para seus filhos, menos tempo um         primo. José só sabia que o sabor do vinho era bom, mas
para com o outro, menos tempo para lazer e menos tempo          ele já não achava mais tão bom assim após essa inquirição.
para manter a estatística dos casais felizes que transam três   José e Maria estão pensando em fazer um curso de vinhos
vezes e meia.                                                   e estão planejando ir ao Exterior no ano que vem. Muitas
    Maria tem uma loja de roupas, a loja é pequena, mas         horas extras de trabalho os aguardam.
junto com o salário de José que é contador de uma empresa,          São muitos os Josés e Marias neste mundo, felizes em
garantem o sustento da família. Eles não têm dívidas. Maria     seu modo de viver simples e de pequenas e doces ambições
tem um carro pequeno usado e José tem um Chevete velho          sem se incomodar com os outros até que um dia alguém
que ele deixa em qualquer lugar e ele mesmo diz: - Quem         lhes subtraem a felicidade dizendo que suas vidas são pe-
iria querer roubar esse carro?! Um dia Maria lê a revista       quenas e insossas. Muitos só se sentem grandes tornando os
“Grandes negócios, grandes roubadas”.O artigo diz como          outros pequenos. Claro que é lícito as pessoas adquirirem
ampliar o seu negócio e quintuplicar seus ganhos. Maria         o supérfluo. Supérfluo quer dizer demasiado, que vai além
aprende palavras novas: otimização, informatização, seg-        do necessário. Necessário é o tempo. Tempo para os filhos,
mentação, joint venture, financiamentos, recursos humanos,      para sua ou seu companheiro ou companheira, tempo para
fluxo de caixa, marketing share e uma infinidade de nomes       brincar, tempo para sorrir, tempo para refletir, tempo para
que fazem com que Maria se sinta ultrapassada, incompe-         se exercitar, tempo para amar. Supérfluo é o carrão, a man-
tente e má administradora. Maria adora o que faz. Tem           são, a melhor escola, a melhor roupa, o melhor emprego,
em seus clientes, amigos. Seus poucos funcionários são          o maior negócio, a melhor viagem. Se você puder ter o
seus parceiros e ela sabe da responsabilidade que tem em        supérfluo, ótimo, mas, não tenha o supérfluo se você não
manter essas famílias ao pagar seus salários. Entretanto, o     tem o essencial. Acredite. O tempo é inelástico, por isso,
apelo da mídia é: Se você quer progredir tem que sair da        não se perca no caminho, seguindo estatísticas inúteis e
“zona de conforto” ao que equivale dizer: endivide-se. Pense    sem o menor sentido. Não ache problemas onde eles não
pequeno e talvez você não cresça; pense grande e seja bem       existem. Não perca a vida tentando ganhá-la. Viva.
SUPLEMENTO LITERÁRIO
                                                             O BANDEIRANTE - Agosto de 2009      7
                 A Lenda do Ipê
       José Rodrigues Louzã
       Médico aposentado em São Paulo



               Pau d’arco, ipê, poucos sabem tua história
             poucos sabem porque tu dás com tanta glória,
                flores roxas, amarelas, brancas na mata.

             Havia ainda – dizem que faz muito tempo -
            pela terra as fadas, gnomos, sem contratempo,
                curupiras, caiporas... que vida gaiata!...

                 Muito verdes os ipês, viçosos e belos
             guardavam na sombra jardins de cogumelos,
               porém não traziam as flores em cascata.

                As árvores, as plantas com sensualidade
                  abraçando-se, respiram felicidade,
                e prossegue a vida em alegre serenata.           REVISÃO
                                                                  de textos em geral
               Começa, porém, um período de tristeza,
                  uma seca terrível com toda crueza               Ligia Pezzuto
                                                                  Especialista em Língua Portuguesa
                 atinge violenta, cruel, a pobre mata.
                                                                   (11) 3864-4494 ou 8546-1725
                 Os ipês também sentiram, este rigor,
                    a todos abalava, da seca o calor
               que as plantas atingia como uma chibata.            ROBERTO CAETANO MIRAGLIA
                                                                    ADVOGADO - OAB-SP 51.532
               Toda a floresta com suas plantas murchas!          ADVOCACIA – ADMINISTRAÇÃO DE BENS
                Os ipês, pesarosos, deram flores roxas,            NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS – LOCAÇÃO
                                                                     COMPRA E VENDA DE IMÓVEIS
                 cantando a todos melancólica sonata.
                                                                  ASSESSORIA E CONSULTORIA JURÍDICA
                                                                  TELEFONES: (11) 3277-1192 – 3207-9224
                Tupã, passeando, viu a lúgubre florada
                 e perguntou porque a cor arroxeada
                  cobria lutuosa as árvores da mata.
                                                                 Terminou de
                – “É a seca.” A selva responde unânime.          escrever seu
                Tupã, ouvindo suas queixas fez, sublime,         livro? Então
               com que a chuva viesse farta, em catarata.        publique!
               Hoje ipês florescem – primeiro sentinelas          Nesta hora importante, não deixe de
               roxas e só depois as brancas e amarelas.           consultar a RUMO EDITORIAL.
                Floresce a Tupã, a floresta muito grata           Publicações com qualidade impecável,
                                                                  dedicação, cuidado artesanal e preço
                                                                  justo. Você não tem mais desculpas
                  pela água salvadora que ele enviou,             para deixar seu talento na gaveta.
                 de roxo, branco e amarelo se enfeitou
                                                                     rumoeditorial@uol.com.br
               e segue a se enfeitar de flores em cascata.                (11) 9182-4815
8   O BANDEIRANTE - Agosto de 2009
                                                                                                 SUPLEMENTO LITERÁRIO




                               Agosto, Mês do Desgosto
Alcione Alcântara Gonçalves
Médico psiquiatra em Tupã

    O mês de agosto é o oitavo mês do ano. O número oito       Um Pouco de História sobre o Mês Agosto
é um símbolo numérico, representado pela sobreposição
de dois círculos , formando a figura do 8. Se observarmos          Agosto do latim Augustus é o oitavo mês do Calen-
essa forma e a colocarmos na posição horizontal, o número      dário Gregoriano. O Senado Romano já havia homena-
oito se transforma no símbolo do infinito: ∞.                  geado o Imperador Julio César, dando o seu nome ao
    Como são curiosas as circunstâncias da vida! Uma sim-      mês Quintilis, que se tornou Julho. O Imperador César
ples mudança de posição modifica completamente o signi-        Augusto também quis receber uma homenagem e, desse
ficado de certas coisas. A verticalidade e a horizontalidade   modo, o mês sextilis passou a se chamar Agosto. Como
mudam significativamente o sentido do mês de Agosto, o         o mês de Agosto tinha 30 dias, o Imperador Augustus
mês oito do nosso calendário. Este é um “desgosto” do mês      quis que seu mês tivesse o mesmo número de dias que
de agosto, porque ele, jamais, poderá se deitar para dor-      o mês de Julio César. Foi então tirado um dia do mês
mir ou descansar; e, se                                                                            de fevereiro e passado
o fizer, vai diretamente                                                                           para o mês de Agosto,
para o infinito. Deverá,                                                                           que passou a ter 31
por isso, permanecer                                                                               dias.
sempre em pé, na ver-                                                                                  É preciso frisar que
tical, como uma torre                                                                              o primeiro calendário
de vigia, fiscalizando                                                                             romano era um Calen-
os seus 31 (trinta e um)                                                                           dário Lunar com dez
dias.                                                                                              meses, iniciando no
    O número oito (8)                                                                              Equinócio da Primave-
é um número finito,                                                                                ra e, segundo a lenda,
limitado, delimitado,                                                                              foi implantado em 753
caracterizando em nos-                                                                             a.C., por Rômulo, o
so calendário, o mês                                                                               fundador de Roma.
de agosto, ou o oitavo                                                                             Nessa época, o mês
mês do ano, situado                                                                                de Agosto era o sexto
entre os meses de julho                                                                            mês, daí o seu nome
e setembro, represen-                                                                              de SEXTILIS, que em
tado respectivamente                                                                               latim significa “sexto
pelos números sete (7)                                                                             mês”.
e nove (9). Lembramos                                                                                  Por volta de 713
mais uma vez: ao co-                                                                               a.C., Numa Pompilio
locarmos o número 8                                                                                fez a primeira reforma
na horizontal (∞) ele                                                                              do Calendário, acres-
se transforma em algo                                                                              centando os meses de
infinito, ilimitado, sem                                                                           Janeiro e Fevereiro no
fim e sem delimitação.                                                                             final do calendário,
É ou não é, um desgosto, essa mudança radical?!                transformando-o em um calendário Luni-solar, baseado
    Agosto é o mês do “Cachorro Louco” porque nesta épo-       no calendário grego, praticado em Atenas e que passou
ca do ano a Raiva Canina se propaga com mais facilidade,       a ter 12 meses.
agravando-se a doença que nos obriga a sacrificar os cães          Julio César, por volta de 45 a.C., implantou um calen-
afetados. É preciso lembrar que a vacina antirrábica, apli-    dário solar, em substituição ao calendário Luni-Solar de
cada convenientemente, gera efeitos eficazes, prevenindo       Numa Pompilio, que ficou conhecido como Calendário
a Raiva nos cães. De qualquer modo, o rótulo pegou e o         Juliano.
título de mês do Cachorro Louco, consagrado ficou. Aqui            Posteriormente, os meses de Janeiro e Fevereiro, que
temos outro desgosto do mês de Agosto.                         eram os últimos do ano, passaram a ser os primeiros, jo-
    A palavra agosto, se for separada, decomposta, tere-       gando o mês Sextilis (Agosto) duas posições para a frente
mos: a Letra “A” e a palavra “gosto”. “A” é um prefixo grego   tornando-se o oitavo mês. Assim, permaneceu no Calen-
que significa: privação, negação. Gosto é um substantivo       dário Gregoriano e se mantém até os dias atuais. Apenas
masculino que significa: sabor; paladar. Teríamos, então       por curiosidade, diremos que os romanos tinham nomes
como definição de “a-gosto”, a privação e ou negação do        especiais para três dias específicos em cada mês. O pri-
sabor e paladar, gerando um desgosto.                          meiro dia de cada mês era chamado Kalendae (calendas),
                                                               de onde a palavra Calendário se originou.

O Bandeirante - n.201 - Agosto de 2009

  • 1.
    Jornal O Bandeirante Ano XVIII - no 201 - agosto de 2009 Publicação Mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo - SOBRAMES-SP Não Perder Tempo “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado; (...)”. Eclesiastes 3,1-2. Helio Begliomini Médico urologista Presidente da SOBRAMES-SP (2009-2010). Hoje em dia é comum escutarmos e dizermos a toda hora expressões como “não tenho tempo”, “o tempo voa”, “não há tempo a perder”, “o tempo não é suficiente”, dentre outras. Na história da civilização, o tempo nunca esteve com tanta evidência e carência quanto agora, paradoxalmente, quando mais tempo temos, pois maior é a expectativa de vida que alcançamos. Por incrível que possa parecer, as 24 horas do dia, que correspondem a 1.440 minutos e a 86.400 segundos, que a todos são gentilmente creditadas Tal expressão também pode ser en- Devia ter amado mais em nossas existências, parecem ínfimas tendida em linguagem figurada como Ter chorado mais pela demanda de compromissos e tare- “colha o dia como se fosse um fruto Ter visto o sol nascer fas que se nos apresentam. maduro que amanhã estará podre”; ou Devia ter arriscado mais Quando nossa existência é consu- “evite gastar o tempo com coisas inúteis Até errado mais mida de forma superficial, frívola, sem ou como uma justificativa para o prazer Ter feito o que eu queria fazer objetivos concretos, corremos o risco imediato, sem medo do futuro”, ou ain- Queria ter aceitado as pessoas como de gastar, ou melhor, de desperdiçar da “aproveite cada segundo para valori- elas são nosso precioso tempo. Ao contrário, zar a própria vida e a dos outros”. Cada um sabe a alegria e a dor que quando encontramos razões para viver; Entretanto, o tempo é inexoravel- traz no coração (...) quando incorporamos em nossas ações mente igual para todos. Ter ou não ideais pelos quais vale a pena lutar... ter tempo para algo, para alguém ou “Quem planta colhe”, refere rus- sentimos uma agradável sensação de ser para uma entidade é meramente uma ticamente a sabedoria popular. Em útil, de realização, de autoestima, pois questão de prioridade, de opção. Neste outras palavras pode-se dizer que o depreendemos que nosso tempo está particular, essa foi uma das escolhas, futuro encontra-se sempre em gesta- sendo bem aproveitado e, em linguajar por sinal, muito prazerosa, nossa, dos ção no presente. Temos certeza de que moderno, bem investido. membros desta diretoria, ao doar uma através das ações que estamos fazendo Já, Quinto Horácio Flaco (65 – 8 significativa parcela de nosso tempo na, e para a Sobrames-SP, estamos rea- a.C.), mais conhecido apenas como Ho- de lazer ou de convívio familiar para lizando também para seus associados, rácio, filósofo, satírico e um dos maiores a administração da querida Sociedade nossos(as) queridos(as) coirmãos(ãs) poetas da Roma antiga, consignava em Brasileira de Médicos Escritores – Re- de confraria. “Odes” I, 11.8 sua preocupação com o gional do Estado de São Paulo (Sobra- Continuamos dispostos a investir tempo presente, ao utilizar nesse seu mes – SP). muito desse nosso exíguo e fugaz tem- poema o verso latino “Carpe diem Aliás, nada melhor e mais oportuno po de que dispomos para a Sobrames quam minimum credula postero”, cuja do que refletir sobre estes versos da paulista, a fim de que não amarguemos tradução é “colha o dia, confia o míni- música “Epitáfio”, cantada pelo grupo amanhã o dissabor de achar que podí- mo no amanhã”. Titãs: amos ter feito mais.
  • 2.
    2 O BANDEIRANTE - Agosto de 2009 O Milagre Brasileiro EXPEDIENtE Um fato relevante na vida dos brasileiros foi a vinda do Papa Bento XVI do Vaticano para as cerimônias da canonização de Frei Galvão, o Jornal O Bandeirante primeiro santo nacional. Milhares de pessoas compareceram ao sagrado ANO XVIII - no 201 - Agosto 2009 evento numa demonstração de profunda religiosidade. Muitas lágrimas de emoção, gratidão, de reconhecimento, de fé, de esperança, advindos Publicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos dos milagres que o humilde e santo frade distribuiu à comunidade dos Escritores - Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP . pobres e necessitados no corpo e no espírito. Sede: Rua Alves Guimarães, 251 - CEP 05410-000 - Pinheiros Mas... Há sempre um mas na vida dos mortais... O dia a dia das - São Paulo - SP Telefax: (11) 3062-9887 / 3062-3604 Editor: Helio Begliomini. Jornalista Responsável e revisora: pessoas no trabalho, no estudo, nas necessidades mais prementes de ser, Ligia Terezinha Pezzuto (MTb 17.671 - SP). Colaboradores de existir. Viver não é fácil... A constante procura da felicidade...Pura desta edição: Alcione Alcântara Gonçalves, Calos Augusto ilusão. Uma quimera. Pela sua própria natureza, como argumentava o Ferreira Galvão, Flerts Nebó, Geovah Paulo da Cruz, José famoso criminalista, anatomista e médico italiano, LOMBROSO, certos Alberto Vieira, José Jucovsky, José Rodrigues Louzã, Josyanne Rita de Arruda Franco, Luiz Jorge Ferreira, indivíduos já nascem determinados ao mal. Assim, o forte domina o fraco, o rico pisa no pobre, Rodolpho Civile.Tiragem desta edição: 300 exemplares o esperto rouba o inocente, o inteligente usa o ignorante. Admiráveis são aquelas pessoas que (papel) e mais de 1.000 exemplares PDF enviados por fogem desta triste “normalidade” e se dedicam de corpo e alma a ajudar o seu próximo num e-mail. altruísmo maravilhoso de amor e caridade. A elas, a redenção da humanidade. São os santos, Diretoria - Gestão 2009/2010 - Presidente: Helio também chamados milagreiros. Não são muitos... Begliomini. Vice-Presidente: Josyanne Rita de Arruda Entretanto, existem em profusão no Brasil...São aqueles que vivem, ou melhor, sobrevivem Franco. Primeiro-Secretário: Ligia Terezinha Pezzuto. Segundo-Secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã. do salário mínimo e da aposentadoria e sustentam os seus familiares. Verdadeiro milagre...O Primeiro-Tesoureiro: Marcos Gimenes Salun. Segundo- aposentado que trabalhou e contribuiu anos a fio e agora recebe uma esmola chamada de “be- Tesoureiro: Roberto Antonio Aniche. Conselho Fiscal nefício” e não um direito, atualmente é procurado e convidado a ter um “crédito consignado”, Efetivos: Flerts Nebó, Carlos Augusto Ferreira Galvão, Luiz Jorge Ferreira. Conselho Fiscal Suplentes: Geovah Paulo uma armadilha em que ingenuamente cai. Recebe uma quantia que depois não saberá repor. da Cruz; Rodolpho Civile; Helmut Adolf Mataré. O resultado: de pobre vira miserável. Enquanto isso, os nababos da sociedade brasileira se en- riquecem de uma maneira escandalosa à custa do suor e sangue do povo. E a justiça? Ninguém Matérias assinadas são de responsabilidade de seus sabe aonde ela anda... Talvez esteja na sabedoria do canto de lamentação dos antigos egípcios autores e não representam, necessariamente, a opinião da Sobrames-SP no livro dos mortos: “que restou de suas poderosas mansões e palácios? Abateram-se suas fortes muralhas, ruíram as casas no pó. Olhe, ninguém levou consigo suas coisas. Olhe, ninguém que foi até hoje voltou”. Editores de O Bandeirante Tudo faz crer que são os velhinhos os responsáveis pela situação calamitosa do País! Teimam Flerts Nebó – novembro a dezembro de 1992 em viver muito, comer e beber o que há de melhor, ter casa própria e outros bens materiais, Flerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1993-1994 como plano de saúde, que foi criado para as pessoas saudáveis e não para os doentes...Enfim, é Carlos Luiz Campana e Hélio Celso Ferraz Najar – 1995-1996 difícil de aceitar, mas os velhinhos são uns egoístas! Só pensam neles! Neles! A solução: dar cicuta Flerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1996-2000 a eles, como foi feito com Sócrates. Uma vez fora do ambiente terrestre, morando no Inferno, Flerts Nebó e Marcos Gimenes Salun – 2001 a abril de 2009 os velhinhos não seriam mais um rombo no INSS e atraso de vida e o País teria um surto de Helio Begliomini – maio de 2009 - desenvolvimento e progresso...Todos felizes! Editor: Helio Begliomini “Mondo cane”. Poucos (os mais espertos) têm muito e muitos (os ingênuos) não têm nada... Diagramação: Mateus Marins Cardoso Até quando? Até quando, meu Deus? Que desça logo a Vossa justiça sobre os mais pobres e mi- Impressão e Acabamento: Expressão e Arte Gráfica seráveis, aqueles que não têm o que comer e dormem ao relento e pedem a Vossa Misericórdia! Conclusão: é de bom alvitre convidar de novo o Papa Bento XVI, com urgência, que retorne ao Brasil para consagrar os milhares e milhares de brasileiros que vivem do salário mínimo e da PUBLICIDADE aposentadoria. São verdadeiros santos! Rodolpho Civile TABELA DE PREÇOS 2009 (valor do anúncio por edição) Médico aposentado em São José dos Campos 1 módulo horizontal R$ 30,00 2 módulos horizontais R$ 60,00 3 módulos horizontais R$ 90,00 Walter Whitton Harris 2 módulos verticais R$ 60,00 Cirurgia do Pé e Tornozelo 4 módulos R$ 120,00 Ortopedia e Traumatologia Geral 6 módulos R$ 180,00 CRM 18317 Av. República do Líbano, 344 Outros tamanhos sob consulta Rua Luverci Pereira de Souza, 1797 - Sala 3 04502-000 - São Paulo - SP Cidade Universitária - Campinas (19) 3579-3833 heomini.ops@terra.com.br Tel. 3885 8535 www.veridistec.com.br ligiapezzuto@terra.com.br Cel. 9932 5098  CUPOM DE ASSINATURAS* longevità Preço de 12 exemplares impressos: R$ 36,00 (11) 3531-6675 Nome:___________________________________________________________ Estética facial, corporal e odontológica * Massagem * Drenagem * Bronze spray * End.completo: (Rua/Av./etc.) _______________________________________ Nutricionista * RPg Rua Maria Amélia L. de Azevedo, 147 - 1o. andar ________________________________ nº. _______ complemento _________ Cidade:_____________ Estado:_____ E-mail:___________________________ Clínica Benatti Grátis: Além da edição impressa que será enviada por correio, o assinante Ginecologia receberá por e-mail 12 edições coloridas em arquivo digital (PDF) Obstetrícia *Disponível para o público em geral e para não-sócios da SOBRAMES-SP Preencha este cupom, recorte e envie juntamente com cheque nominal a SOBRAMES-SP para REDAÇÃO Mastologia “O Bandeirante” R. Bias, 234 - Tremembé - CEP 02371-020 - São Paulo - SP Dê uma assinatura de “O BANDEIRANTE” de presente para um colega (11) 2215-2951
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    SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Agosto de 2009 3 Comoção 11 de setembro de 2001 http://presentepravoce.wordpress.com/2008/04/01/a-soma-de-todos-os-medos/ José Jucovsky Médico aposentado em São Paulo Sinto agora tristeza em mim Pelo desamor que no mundo aflora, Será a previsão de um trágico fim? Enquanto só a intolerância vigora? Em cinematográficas visões Torres ruíram de uma só vez, Inconsequentes torpes explosões De desumana odiosa insensatez... Brumados arrepios estremecem Entre assustadores sofrimentos; Velórios que em pó renascem Nas cinzas dos abomináveis tormentos... Vertiginosas violentadas vidas voaram Em meio às chamas do céu em turbilhão Onde os ideais do humanismo falharam Gerando lágrimas, temor e comoção. Alguns Versos Josyanne Rita de Arruda Franco Médica pediatra em Jundiaí ...Não tenho uma poesia pequena! Pequena e breve, só a minha dor. Ah, se esta dor não fosse pequena, secaria todo o meu manancial de amor! Tenho alguns versos tolos, apenas. Versos tão simples que os sei de cor. Retirando as Pegadas Leia meus versos e não sinta pena: quando eles nascem, morreu alguma dor. Luiz Jorge Ferreira Médico clínico em São Paulo Quase todos os dias ela varre a porta da casa para retirar uma maldição dela e de seus dois pirralhos. Agora não! a sombra da lua. Neste momento eles estão entretidos em bicar pedregu- Vestida de lilás, com suas duas asas presas às costas por lhos, beliscar mamões e flutuar nas correntes anticiclônicas, uma laçada de seda. todas sujas de polens e minúsculas asas de abelhas. Ela já obesa varre com força e determinação. Amanhã cedo, amanhecerá outra vez como nestas suas Foi ela quem a construiu ali. Os outros queriam o ninho duas últimas semanas de vida. mais a Leste. Onde não molha muito quando chove. Não Os pés de laranja espalharão perfumes demais e vão esquenta muito quando sai o sol em Outubro e não fica à “rurinar” alto os zangões. mercê dos cupins de asas. Em compensação sofre muitos Voando aos tropeções, para caírem além do pomar. danos quando passam os anuns alardeando o Verão com suas Ela continuara a expulsar a lua do seu quintal. Como tagarelices e seus pés sujos de orvalho. Eles ouvem sempre coisa que ela não volte.
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    4 O BANDEIRANTE - Agosto de 2009 SUPLEMENTO LITERÁRIO Dorothy, meu Encantamento Geovah Paulo da Cruz Médico oftalmologista em São Paulo Ultimamente descobri um novo filão literário, o memoria- por ela se renovou, e no que penso, era correspondido. lismo. Nesta minha idade em que a memória recente se torna Havia um clima de identificação em torno de nossa relação. falha e a memória retrógrada permanece ou mesmo enriquece, Eu fora soldado, os militares estavam no apogeu de seu pres- eu que sempre tive boa memória para fatos e acontecimentos, tígio, algum tempo depois viria a revolução de 31 de março e sou tomado de lembranças. um general me parecia algo tão distante quanto um potentado, Poetas, romancistas, escritores falam de amor, de paixão, de um príncipe. enlouquecimento amoroso, de tresloucada adoração. Naquela época em todo o Estado de São Paulo só havia Eu vou falar de algo mais sutil, tênue, até certo ponto reca- cinco faculdades de medicina, e um jovem médico era uma boa tado. Falarei de encantamento, sedução, fascínio, admiração, promessa social e econômica. Estávamos empatados. embevecimento, envolvimento. Dória era janista roxo, fanático, e teve uma tremenda Todo aquele que escreve: poeta, romancista, escritor, roteiris- decepção política, quase enfartou quando eu lhe contei que ta, teatrólogo procura esconder a identidade dos personagens, Jânio Quadros tinha renunciado. Ele, que era negro, só faltou pessoas, acontecimentos, fatos. ficar branco. Havia uma perspectiva latente de eu continuar Eu não! Aqui nesta crônica declaro que tudo é verdade, os seu sócio, se eleito. Ele perdeu o ímpeto, perdeu as eleições e nomes são reais, os acontecimentos, as circunstâncias, existiram voltou para sua clínica. de fato. Nada será omitido ou escamoteado, tudo se fará segun- do a minha memória e a minha versão, depois de 47 anos. Eu era um jovem médico vindo de Minas, provinciano, re- sidente da Clínica Oftalmológica da Santa Casa de São Paulo, pensando em fazer uma carreira acadêmica, porque eu fora professor licenciado de Biologia, fora dono de cursinho pré- vestibular, fora professor em Faculdade de Filosofia, apesar de minha pouca idade. Aqui fui chamado para atender em tempo parcial e limitado na clínica de olhos do Dr. Oswaldo Costa Dória, um notável baiano negro, personalidade extraordinária, que tinha uma vasta clientela no Brás e resolvera ser candidato a deputado es- tadual. Ele tinha sido médico militar convocado para a segunda Afastado, fui para Minas Gerais pensando em ficar por lá. guerra, não chegou a ir para a frente de batalha e se reformou Não tinha havido propriamente uma traição, ainda era namoro, como Capitão do Exército, no que possuía muito orgulho. Eu, e fiquei noivo daquela que foi minha esposa por 32 anos. durante o curso secundário, havia prestado serviço militar no A tentativa de me estabelecer por lá não deu certo. Eu Tiro de Guerra durante um ano e compreendia bem o espírito, tinha a promessa de ser assistente remunerado da Cadeira de a mística e o carisma da caserna. oftalmologia da Faculdade Federal do Triângulo Mineiro, mas Ele, algo entre patrão e colega, convidou-me para uma festa na hora H fui preterido politicamente por outro que naquela memorável no Círculo Militar de São Paulo, exigindo-se traje a época não tinha as credenciais acadêmicas que eu levava. De- rigor. Eu tinha smoking novinho do baile de formatura e lá fui cepcionado, voltei para São Paulo para continuar na Santa Casa todo empolgado, era um mundo novo que se me apresentava, e ser assistente do departamento de oftalmologia e para fazer cheio de glamour, pompa, circunstância, como diria a roman- aqui uma vida profissional, no que graças a Deus me dei muito cista Jane Austen. bem. Mais tarde recusei ser professor em Itajubá e depois em Para minha sorte e felicidade, Dória, dando uma de cupido, Pouso Alegre, porque já tinha família, boa clínica e estava em apresentou-me a um general gaúcho que foi muito cortês, sim- franca ascensão profissional. pático, e cujo nome já não me lembro, e a sua filha Dorothy. Nesta volta, já noivo, achei ética e moralmente impróprio Ela era uma garota linda, simpática, muito bem vestida, voltar a me relacionar com Dorothy. O Dr. Dória morreu de encantadora, fina, educada, desenvolta nas tradições sociais acidente automobilístico, eu nunca mais soube dela. de salão e sociedade. Tive por ela um súbito embevecimento. Espero e desejo que ela se tenha realizado na vida amorosa, Dançamos a noite toda como um par harmônico e senti que ela social, familiar e, quem sabe, até profissional. Já não me lembro também gostara de mim, foi um envolvimento recíproco. Nunca o que ela estudava, mas apenas que era universitária. me entendera tão bem com uma garota como aquela. Militares se mudam frequentemente. Possivelmente ainda Sedução, encantamento, magnetismo, foi tudo o que nos estará viva, algures ou alhures, e eu gostaria de dizer ao vento dominou naquela noite. Eu tinha 27 anos, ela uns 22, formá- que um dia ela foi minha musa, encantou a um moço, deixou-o vamos um par de jovens voluteando nas nuvens, envolvidos fascinado, magnetizou-o, avassalou-o com sua presença física, por um clima de sociabilidade e de discreta sensualidade; ela corporal, social, psíquica e pessoal. Certamente nem se lembrará com os odores da juventude, cheiro doce de donzela clamando deste acontecimento, talvez eu tenha sido um caso passageiro para um conluio, quem sabe um conúbio, o corpo ágil de dan- na sua vida, mas para mim foi uma circunstância particular, çarina de salão, o contacto quente num amplexo que ia além inesquecível. É improvável que um dia ela chegue a sabê-lo, da simples afabilidade. nunca cogitarei de realizar esta façanha, mas como os arautos Aquela garota mexeu com todas as minhas energias: psicoló- dos contos de fadas, proclamo claro e bom som, num timbre gicas, biológicas, sociais, emocionais. Fomos a mais duas soirèes alegre e de saudosa memória feliz: de fim de semana no salão do Círculo Militar e meu encanto – Dorothy, você foi para mim uma bela fantasia real.
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    SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Agosto de 2009 5 Cada Dia uma Esperança Flerts Nebó Médico aposentado em São Paulo Já há bastante tempo o poeta cantou “Só a leve es- centro, era uma moça de bons princípios e o palavreado perança em cada dia disfarça a pena de viver e...mais chulo do homem a deixava aborrecida. nada”. Mas era obrigada a passar por ele para poder chegar Ela chamava-se Esperança, era uma mulata cem por a seu local de trabalho e o que ouvia era sempre a mesma cento bonita e apetitosa e por onde passava os homens frase: não deixavam de emitir aquele assovio característico de – Que “pundão” tem a Esperranza... boa apreciação e em suas cabeças pensamentos lúbricos Um dia, chegou do interior um seu parente que tinha e mesmo maldosos, sobre desejos inconfessáveis. uma compleição física tipo Mike Tyson e ela pensou: Esperança, por um daqueles acasos da vida, morava Hoje peço para este meu primo que me acompanhe num dos bairros da Grande São Paulo chamado Vila Es- e quero ver se aquele gringo será capaz de dizer o que perança, numa casa de alvenaria, que muito lhe custara todo dia sou obrigada a ouvir... construir; tendo saído de um barraco feito de tábuas e Logo cedo, tomaram o metrô e desceram na estação coberto com plástico de uma das inúmeras favelas da “Sé” e dirigiram-se de braços dados para a rua Direita. periferia da Megalópole. Quando passaram defronte ao local onde o alemão Trabalhava numa loja na rua Direita e assim todo dia ou o sueco ou sei lá qual era a sua nacionalidade estava, tomava o metrô, descendo na “bendita” Praça da Sé e ele viu que a mulata vinha de braço dado com um “Sta- caminhava passando diante de muitos pequenos negócios lone” e quando ela passou olhando firme para ele, não ali estabelecidos. se abalou e cantarolou: Havia um em que trabalhava um homem de ascen- – Salve lindo pundão da Esperança... dência germânica ou nórdica e, cada vez que Esperança Ela mordeu os lábios com raiva e naquele dia pediu passava diante dele, nunca deixava de emitir aquele as- a conta na loja onde trabalhava e foi procurar emprego sovio característico e no seu linguajar enrolado dizia: em outro lugar. – Que “pundão” tem a Esperrança... É como eu disse no começo “Só a leve esperança em Ela se aborrecia com aquelas palavras, pois embora cada dia disfarça a pena de viver... e mais nada”; por sendo uma mulher de poucas posses, morando longe do hora. Poema para um Casal (Poesia de guardanapo de 18/06/09) Calos Augusto Ferreira Galvão Médico psiquiatra em São Paulo I Que bom ver vocês juntos Afora a vida, afora a noite Afora as vírgulas, afora os pontos Afora o tempo batendo feito açoite. II É muito bom ver vocês juntos. Pois sobra o lar, sobram momentos, Sobram filhos, nem sempre tormentos Pois foram feitos com amores sedentos.
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    6 O BANDEIRANTE - Agosto de 2009 SUPLEMENTO LITERÁRIO José e Maria José Alberto Vieira Médico anestesista em São Paulo Tem sido muito difícil nos dias de hoje simplificarmos sucedido saindo um dia talvez na mesma revista sorrindo nossas vidas. Viver virou sinônimo de avaliação e controle como exemplo de sucesso. Enfim Maria está pensando em de riscos. E o que seria uma vida simples? Acredito eu, seria mudar de ramo, algo maior, com maiores retornos, afinal agirmos de tal forma que a nossa própria vida e situações como diz o filme do 007: O mundo não é o bastante. nos levassem a aprendermos e errarmos sem entrar em José trabalha duro no seu cotidiano, mas está pensando crises existenciais. Exemplo: em fazer um MBA de alguma coisa, afinal a empresa gosta José e Maria são um casal feliz, eles são companheiros, de pessoas motivadas, que deem o sangue pela companhia. respeitam-se, adoram estar um com o outro, são bons Ele vai trabalhar de dia e estudar à noite, para se apri- amantes, amam seus filhos, seus pais e seus amigos. Um morar e, talvez, e é talvez mesmo, receber um aumento. belo dia um deles lê: Casais que fazem amor três vezes Afinal estatísticas afirmam que aqueles que têm um MBA e meia por semana são mais felizes do que aqueles que de qualquer coisa ganham mais. José está triste pois está fazem uma vez e meia. Nós não imaginamos como que é cansado e gostaria de estar à noite com sua esposa e filhos, fazer amor uma vez e meia, mas as estatísticas sabem. José conversar, ajudar os filhos na tarefa da escola, conversar e Maria, que nunca contaram as vezes que fizeram amor, com Maria e ficarem abraçados, discutindo os problemas começam a fazer cálculos e a se incomodar. José começa do dia a dia. a achar que sua mulher é fria e Maria começa a achar que José e Maria, quando podem viajar, vão a Praia Grande José não a ama. ou vão ao interior visitar a família em Taubaté. Na praia José e Maria têm três filhos. Eles estudam numa escola passeiam pela orla, andam de bicicleta, divertem-se. No in- do bairro. A escola não é a melhor da cidade mas é ade- terior visitam seus familiares, fazem churrasco, conversam, quada, dá uma boa educação e formação e é aquela que tomam um vinho na companhia dos amigos. Um dia eles eles podem pagar. Seus filhos são bons alunos, fazem suas receberam a visita de uns primos distantes, bem sucedidos, tarefas, brincam, têm uma boa formação como cidadãos. e perguntaram se eles já esquiaram em Aspen ou se já esti- Mas! Ouvem no rádio que no ranking das melhores escolas, veram nos parques da Disney. Maria e José se entreolharam a deles nem aparece e que a escola “Tam tam” é a melhor. e trocaram olhares de interrogação e exclamação. Como José e Maria estão pensando em mudá-los para a tal escola é que eles nunca sentiram falta de coisas tão fantásticas e embora não tenham dinheiro suficiente para tanto. José maravilhosas até esse dia? e Maria terão de trabalhar horas extras e cortar algumas José abriu uma garrafa de vinho para comemorar a despesas para que eles estudem na escola “tam tam”. Isto chegada dos primos. – Que safra? Que uva? Perguntou seu quer dizer menos tempo para seus filhos, menos tempo um primo. José só sabia que o sabor do vinho era bom, mas para com o outro, menos tempo para lazer e menos tempo ele já não achava mais tão bom assim após essa inquirição. para manter a estatística dos casais felizes que transam três José e Maria estão pensando em fazer um curso de vinhos vezes e meia. e estão planejando ir ao Exterior no ano que vem. Muitas Maria tem uma loja de roupas, a loja é pequena, mas horas extras de trabalho os aguardam. junto com o salário de José que é contador de uma empresa, São muitos os Josés e Marias neste mundo, felizes em garantem o sustento da família. Eles não têm dívidas. Maria seu modo de viver simples e de pequenas e doces ambições tem um carro pequeno usado e José tem um Chevete velho sem se incomodar com os outros até que um dia alguém que ele deixa em qualquer lugar e ele mesmo diz: - Quem lhes subtraem a felicidade dizendo que suas vidas são pe- iria querer roubar esse carro?! Um dia Maria lê a revista quenas e insossas. Muitos só se sentem grandes tornando os “Grandes negócios, grandes roubadas”.O artigo diz como outros pequenos. Claro que é lícito as pessoas adquirirem ampliar o seu negócio e quintuplicar seus ganhos. Maria o supérfluo. Supérfluo quer dizer demasiado, que vai além aprende palavras novas: otimização, informatização, seg- do necessário. Necessário é o tempo. Tempo para os filhos, mentação, joint venture, financiamentos, recursos humanos, para sua ou seu companheiro ou companheira, tempo para fluxo de caixa, marketing share e uma infinidade de nomes brincar, tempo para sorrir, tempo para refletir, tempo para que fazem com que Maria se sinta ultrapassada, incompe- se exercitar, tempo para amar. Supérfluo é o carrão, a man- tente e má administradora. Maria adora o que faz. Tem são, a melhor escola, a melhor roupa, o melhor emprego, em seus clientes, amigos. Seus poucos funcionários são o maior negócio, a melhor viagem. Se você puder ter o seus parceiros e ela sabe da responsabilidade que tem em supérfluo, ótimo, mas, não tenha o supérfluo se você não manter essas famílias ao pagar seus salários. Entretanto, o tem o essencial. Acredite. O tempo é inelástico, por isso, apelo da mídia é: Se você quer progredir tem que sair da não se perca no caminho, seguindo estatísticas inúteis e “zona de conforto” ao que equivale dizer: endivide-se. Pense sem o menor sentido. Não ache problemas onde eles não pequeno e talvez você não cresça; pense grande e seja bem existem. Não perca a vida tentando ganhá-la. Viva.
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    SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Agosto de 2009 7 A Lenda do Ipê José Rodrigues Louzã Médico aposentado em São Paulo Pau d’arco, ipê, poucos sabem tua história poucos sabem porque tu dás com tanta glória, flores roxas, amarelas, brancas na mata. Havia ainda – dizem que faz muito tempo - pela terra as fadas, gnomos, sem contratempo, curupiras, caiporas... que vida gaiata!... Muito verdes os ipês, viçosos e belos guardavam na sombra jardins de cogumelos, porém não traziam as flores em cascata. As árvores, as plantas com sensualidade abraçando-se, respiram felicidade, e prossegue a vida em alegre serenata. REVISÃO de textos em geral Começa, porém, um período de tristeza, uma seca terrível com toda crueza Ligia Pezzuto Especialista em Língua Portuguesa atinge violenta, cruel, a pobre mata. (11) 3864-4494 ou 8546-1725 Os ipês também sentiram, este rigor, a todos abalava, da seca o calor que as plantas atingia como uma chibata. ROBERTO CAETANO MIRAGLIA ADVOGADO - OAB-SP 51.532 Toda a floresta com suas plantas murchas! ADVOCACIA – ADMINISTRAÇÃO DE BENS Os ipês, pesarosos, deram flores roxas, NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS – LOCAÇÃO COMPRA E VENDA DE IMÓVEIS cantando a todos melancólica sonata. ASSESSORIA E CONSULTORIA JURÍDICA TELEFONES: (11) 3277-1192 – 3207-9224 Tupã, passeando, viu a lúgubre florada e perguntou porque a cor arroxeada cobria lutuosa as árvores da mata. Terminou de – “É a seca.” A selva responde unânime. escrever seu Tupã, ouvindo suas queixas fez, sublime, livro? Então com que a chuva viesse farta, em catarata. publique! Hoje ipês florescem – primeiro sentinelas Nesta hora importante, não deixe de roxas e só depois as brancas e amarelas. consultar a RUMO EDITORIAL. Floresce a Tupã, a floresta muito grata Publicações com qualidade impecável, dedicação, cuidado artesanal e preço justo. Você não tem mais desculpas pela água salvadora que ele enviou, para deixar seu talento na gaveta. de roxo, branco e amarelo se enfeitou rumoeditorial@uol.com.br e segue a se enfeitar de flores em cascata. (11) 9182-4815
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    8 O BANDEIRANTE - Agosto de 2009 SUPLEMENTO LITERÁRIO Agosto, Mês do Desgosto Alcione Alcântara Gonçalves Médico psiquiatra em Tupã O mês de agosto é o oitavo mês do ano. O número oito Um Pouco de História sobre o Mês Agosto é um símbolo numérico, representado pela sobreposição de dois círculos , formando a figura do 8. Se observarmos Agosto do latim Augustus é o oitavo mês do Calen- essa forma e a colocarmos na posição horizontal, o número dário Gregoriano. O Senado Romano já havia homena- oito se transforma no símbolo do infinito: ∞. geado o Imperador Julio César, dando o seu nome ao Como são curiosas as circunstâncias da vida! Uma sim- mês Quintilis, que se tornou Julho. O Imperador César ples mudança de posição modifica completamente o signi- Augusto também quis receber uma homenagem e, desse ficado de certas coisas. A verticalidade e a horizontalidade modo, o mês sextilis passou a se chamar Agosto. Como mudam significativamente o sentido do mês de Agosto, o o mês de Agosto tinha 30 dias, o Imperador Augustus mês oito do nosso calendário. Este é um “desgosto” do mês quis que seu mês tivesse o mesmo número de dias que de agosto, porque ele, jamais, poderá se deitar para dor- o mês de Julio César. Foi então tirado um dia do mês mir ou descansar; e, se de fevereiro e passado o fizer, vai diretamente para o mês de Agosto, para o infinito. Deverá, que passou a ter 31 por isso, permanecer dias. sempre em pé, na ver- É preciso frisar que tical, como uma torre o primeiro calendário de vigia, fiscalizando romano era um Calen- os seus 31 (trinta e um) dário Lunar com dez dias. meses, iniciando no O número oito (8) Equinócio da Primave- é um número finito, ra e, segundo a lenda, limitado, delimitado, foi implantado em 753 caracterizando em nos- a.C., por Rômulo, o so calendário, o mês fundador de Roma. de agosto, ou o oitavo Nessa época, o mês mês do ano, situado de Agosto era o sexto entre os meses de julho mês, daí o seu nome e setembro, represen- de SEXTILIS, que em tado respectivamente latim significa “sexto pelos números sete (7) mês”. e nove (9). Lembramos Por volta de 713 mais uma vez: ao co- a.C., Numa Pompilio locarmos o número 8 fez a primeira reforma na horizontal (∞) ele do Calendário, acres- se transforma em algo centando os meses de infinito, ilimitado, sem Janeiro e Fevereiro no fim e sem delimitação. final do calendário, É ou não é, um desgosto, essa mudança radical?! transformando-o em um calendário Luni-solar, baseado Agosto é o mês do “Cachorro Louco” porque nesta épo- no calendário grego, praticado em Atenas e que passou ca do ano a Raiva Canina se propaga com mais facilidade, a ter 12 meses. agravando-se a doença que nos obriga a sacrificar os cães Julio César, por volta de 45 a.C., implantou um calen- afetados. É preciso lembrar que a vacina antirrábica, apli- dário solar, em substituição ao calendário Luni-Solar de cada convenientemente, gera efeitos eficazes, prevenindo Numa Pompilio, que ficou conhecido como Calendário a Raiva nos cães. De qualquer modo, o rótulo pegou e o Juliano. título de mês do Cachorro Louco, consagrado ficou. Aqui Posteriormente, os meses de Janeiro e Fevereiro, que temos outro desgosto do mês de Agosto. eram os últimos do ano, passaram a ser os primeiros, jo- A palavra agosto, se for separada, decomposta, tere- gando o mês Sextilis (Agosto) duas posições para a frente mos: a Letra “A” e a palavra “gosto”. “A” é um prefixo grego tornando-se o oitavo mês. Assim, permaneceu no Calen- que significa: privação, negação. Gosto é um substantivo dário Gregoriano e se mantém até os dias atuais. Apenas masculino que significa: sabor; paladar. Teríamos, então por curiosidade, diremos que os romanos tinham nomes como definição de “a-gosto”, a privação e ou negação do especiais para três dias específicos em cada mês. O pri- sabor e paladar, gerando um desgosto. meiro dia de cada mês era chamado Kalendae (calendas), de onde a palavra Calendário se originou.