espiral      da
                                                                 ANO xiII   -
                                                                             fraternitas moviment
                                                                                ternit
                                                                                N.º
                                                                                            vimento
                                                       boletim da associação fraternitas mo vimento
                                                                                N.º 48     JULHO/SETEMBRO
                                                                                         - JULHO/SETEMBRO    de   2012




Esper ança, antídoto contr a as crises
Esperança, antídot contra       crises

                                                                    A
                                         Fernando       Félix                  nossa irmã desolação. - falta de fé, esperança e
                                                                              amor, básicamente, também faz parte da nossa


   T
             enho ouvido repetida a vários sócios a palavra                   vida. A crise dos encontros com as realidades som-
            «péssimismo», e sempre associada ao futuro da        brias da vida é a coroa da mesma moeda que é a nossa reali-
            Fraternitas. Parece que se perdeu com o passar dos   dade pessoal.
anos e com o declinar do tempo aquele entusiasmo dos pri-            Isto é, a vida tem sonhos, utopias, experiências belas e,
meiros tempos, dos anos em que o Padre Filipe Figueiredo         também, medos, monstros e amarguras. E brotam pergun-
andava entre nós, movia corações e congregava pessoas à          tas, que podem ser santas ou insidiosas: “Será que valeu a
volta do sonho de reunir os padres dispensados num movi-         pena ter entregue a Deus e aos outros o melhor da minha
mento, com as suas mulheres e filhos.                            vida?... Não foi uma loucura e utopia o que até agora tentei
    Todavia, também sabemos que a idade avançada é uma           viver?... Que ganhei?... Onde estão os frutos de tanto trabalho
idade madura, caracterizada por determinantes específicos tais   e esforço? Os outros perceberam, recolheram e vão dar uso
como interioridade, responsabilidade, sabedoria, e, particu-     e continuidade ao que eu fiz?...”
larmente, quando diminuem as forças, abre-se a possibilida-
de de confiar mais nos outros, além de, claro, em Deus.            Um meu tio costuma dizer. «Aos 70 anos
    Ou seja, à desesperança do pessimismo, haveremos de
contrapor o optimismo da esperança, apoiada na confiança.
                                                                 faço o mesmo que fazia aos 18. Na altura,
    Muitos sócios da Fraternitas já viveram a primeira metade    fazia o que podia; agora... também faço o
da vida, outros estão a atravessar a fronteira e são poucos os   que posso..»
mais novos.
    Os da meia-idade lutam por sobreviver no mundo em

                                                                    T
                                                                             odas estas palavras querem ser um convite a parti
tempos de crise. Há muita agitação, por causa, sobretudo, das               cipar no nosso 33.º Encontro Nacional da
questões do emprego, das incertezas na economia, da preo-                   Fraternitas, que se realiza de 5 a 7 de outubro, des-
cupação com o futuro dos filhos e, também, com os sinais         ta vez no Norte, em Devesas, Vila Nova de Gaia (ver página
de fraqueza da saúde que começam a manifestar-se.                9 deste jornal). Iremos falar da Esperança, percorrendo a Bí-
    Os de idade mais avançada chegaram ao tempo em que o         blia, para continuarmos a percorrer os caminhos da nossa
“eu” é obrigado a olhar, não tanto para fora, mas para essa      vida e os trajetos do mundo onde nos movemos.
outra realidade, imensa e profunda, de sua vida interior. É a        Nas crises de desalento e desesperança, a vida parece per-
idade em que se sente não ter forças para nada, sente-se o       dida. As forças, que antes se tinham e que lutavam em nosso
cansaço, fazem-se balanços da vida. E é do eu, contemplativo,    favor, vão-se debilitando e acabando. Mas o que não acaba é
que nasce a vontade e disponibilidade para rezar, para dar       a experiência do que realmente somos, temos e queremos.
conselho, para encorajar.                                            No meio deste tipo de crise, corre-se o perigo de nos
    Em todas as idades há perguntas ainda a precisar de res-     distanciarmos de tudo e de todos, de nos isolarmos no nos-
postas, há sentimentos de insegurança pelos caminhos ainda       so pequeno mundo, de termos a impressão de que algo mui-
não experimentados, há a incertezas e confuões, tantas vezes     to importante se perdeu.
por causa de expetativas frustradas.                                 Perguntemo-nos: «Onde está e o que vale a intimidade
    A virtude de viver em sociedade, em pequenas comuni-         com Deus, que nos conduziu até aqui?... Onde estão aqueles
dades - como a família, o grupo, a associação, o movimento       gestos generosos cheios de “santa loucura”?
- é que a partilha das experiências impede de perder tempos          Um meu tio costuma dizer. «Aos 70 anos faço o mesmo
preciosos e montes de energia, quando, cada um, procura          que fazia aos 18. Na altura, fazia o que podia; agora... tam-
por si só, as respostas, as vitórias.                            bém faço o que posso..»
2                                                                                                                                  espiral




    Livros de associados da Fraternitas
    editados em 2012 e em 2003-2005
 Vamos anunciando as obras lite-                    Dividi a citada obra em três fases, a    taríamos que tal evento ficasse perpetu-
rárias com base nos dados dispo-                saber: - 1ª Fase (1980/1987), em que se      ado através de um livro, com a história
 níveis no secretariado. O critério             fala da génese embrionária da ALADI,         desta Instituição, com uma certa profun-
tem sido, então, os que vão sendo               focando-se figuras que muito fizeram         didade e rigor, em que sejam relatadas
   publicados recentemente e o                  por esta Instituição, sensibilizando e di-   todas as ocorrências havidas desde a sua
  biénio ou o triénio, consoante a
                                                namizando toda a comunidade lavrense         conceção até ao presente.”
abundância da produção literária,
 “recuando” no tempo. No último                 e parte da população matosinhense;               Após madura reflexão, aceitei “embar-
 número, devido à homenagem a                       - 2ª Fase (1987/1994), período do        car” em tão ambiciosa aposta, devido ao
    Henrique Maria dos Santos,                  arranque decisivo e ganhador, com ações      objetivo em vista: falar sobre algo que, de
   dedicámo-nos “apenas” à sua                  múltiplas e marcantes, a começar pela        uma maneira incontornável, foca e coloca
      obra – “ Aventura Feliz”.                 elaboração, aprovação e publicação em        Lavra como possuidora de uma Associa-
                                                Diário da República dos respetivos es-       ção deveras singular – a ALADI –, plas-
                          Urtélia Silva
                          Urtélia Silv          tatutos;                                     mada num genuíno humanismo cristão,
                                                    - 3ª Fase (1994/até...2012), período     condimentado por uma saudável partilha
    “ALADI - 25 ANOS A DIMI-                    que começou pela inauguração do Lar          de alto quilate e de bairrismo sadio.
NUIR           A       DIFERENÇA”,              Residencial e com a assinatura de pro-           Escrevera Fernando Pessoa, insigne
Boaventura Santos Silveira (2012), im-          tocolos para o funcionamento deste e         poeta português do séc. XX, que, a res-
pressão da gráfica Imprensa Portuguesa          do CAO pela Segurança Social.                peito de qualquer obra digna e
– Porto, 320 páginas].                              CONVITE/DESAFIO A UM                     enaltecedora do ser humano, existe o
                           Obrigado         a   COMPROMISSO (páginas 9 e 10): As             contributo sistemático e decisivo de duas
                       Boaventura Silveira,     obras, na maioria dos casos, ilustram os     coordenadas – a vontade de Deus e o
                       que já nos preparou      pensamentos, as emoções e, sobretudo,        acarinhar dum sonho pela pessoa –,
                       o que se apresenta.      os sonhos, os quais, ao passarem pelo        condensado no seguinte verso inserido
                           Do autor: «Na        coração, normalmente motivam as pes-         na sua famosa “Mensagem” (II Parte,
                       freguesia de Lavra       soas e as levam a concretizá-los no seu      no poema intitulado “O Infante”, cons-
                       (concelho          de    dia a dia. Foi precisamente o que se pas-    tituído por três quadras), considerada a
                       Matosinhos), em          sou com o nascimento da “Associação          joia dos seus escritos poéticos:
                       abril de 1987, fora      Lavrense de Apoio ao Diminuído Inte-             “Deus quer, o homem sonha e a obra
                       criada uma institui-     lectual” (ALADI), que, em abril de 2012,     nasce” (1º verso da 1ª quadra). Acabaria
ção para deficientes mentais, com a se-         completa 25 anos de existência ao ser-       o dr. Joaquim José Fernandes Branco por
guinte denominação: Associação                  viço dos mais frágeis da comunidade          solicitar os meus préstimos para esta
Lavrense de Apoio ao Diminuído Inte-            lavrense, assim como das freguesias e        ação. Aceitei, embora reconhecendo em
lectual (ALADI).                                concelhos limítrofes.                        mim próprio uma certa ousadia/atrevi-
    No início deste ano de 2012, a pedido           Há tempos, a atual Direção da            mento. Porém, estava em causa uma es-
insistente da atual direção, escrevi a histó-   ALADI, na pessoa do seu presidente,          pecífica entidade, reconhecida e
ria da ALADI, para comemorar os seus            dr. Joaquim José Fernandes Branco, me        referenciada pela sua forte e exclusiva de-
25 anos de vida. Foi atribuído a esta obra      comunicou que era intenção dos respon-       dicação aos mais necessitados de tecido
o título “ALADI - 25 anos a diminuir a          sáveis desta nobre Instituição espoletar     social, cuja existência depende da conju-
diferença”. É um livro em e. Esta casa          uma comemoração condigna, por oca-           gação de uma real e contínua interação
acolhe 60 utentes (em regime de interna-        sião das BODAS DE PRATA desta                entre os que podem e os que precisam.
to), a que acrescem mais 50 no Centro de        Obra, verdadeiramente humanitária e              Imbuído dum sincero espírito de ser-
Atividades Ocupacionais (CAO). No pró-          com um inquestionável pendor e cariz         viço, aceitei o repto, presumindo, de ante-
ximo mês de setembro um novo módulo             de solidariedade social, a qual ocupa um     mão, que não me faltaria uma prestimosa
será solenemente inaugurado, em que no          lugar cimeiro no íntimo de todos aque-       colaboração das muitas pessoas a quem
Lar respetivo serão admitidos mais 24 ele-      les que a conhecem mais de perto.            irei recorrer, para a obtenção de dados
mentos, enquanto que no CAO poderão                 E, a seguir, em jeito de pedido, lan-    indispensáveis, que pretendo registar, para
ser aceites mais 20 utentes.                    çou-me um convite…desafiador: “Gos-          os transmitir aos vindouros.»
l
espiral                                                                                                                           3




    PREFÁCIO escrito por D. Manuel          após espaço. Assim a ALADI, em La-            que não pode ser assim, nem deveria ser,
Clemente, Bispo do Porto: «Nos 25 anos      vra e onde chegue.                            mesmo que fosse materialmente viável.
da ALADI (Associação Lavrense de                Como no Antigo Testamento, tam-           Com os autênticos profetas, concentra-
Apoio ao Diminuído Intelectual) pedem-      bém agora no Novo em que estamos e            mos o olhar e o coração no que real-
me breves palavras de introdução a este     no que à profecia respeita. No tempo          mente vale e verdadeiramente acontece,
trabalho do Dr. Boaventura Santos           dos vários Isaías, as atenções estavam        em cada ser humano, um por um, novo
Silveira, tão evocativo e meritório como    mais viradas para os palácios dos reis e      ou velho, saudável ou enfermo, mais ou
outros da sua escrita. Particularmente      as suas obras, grandes ou pequenas,           menos capacitado. E percebemos que
meritório, aliás, por descrever um quar-    combinações e tratados, glórias e reve-       nada vale tanto como isso mesmo, nada
to de século da ALADI, Obra que par-        zes das políticas… Menos para o que os        compensa tanto como a entreajuda, o
ticularmente avulta, em Lavra e não só.     profetas divinamente diziam, sobre a          carinho oferecido, o serviço humilde da
Não poderia deixar de as dar, como aqui     retidão face a Deus e aos outros, o bem-      pequenez de todos, a persistência no ser-
vão, em simplicidade convicta.              orar e o bem-fazer.                           viço, que comprova o amor.
    Mérito também para a atual Direção,         Nas duas décadas e meia que a                 Em 2012 sabemos, não tendo des-
encabeçada pelo Dr. Joaquim José            ALADI já viveu, também grandes fac-           culpa nem álibi para não o saber, entre
Fernandes Branco, que não quis esque-       tos e enormes promessas encheram no-          os escombros de tanta ilusão. Há 2000
cer os que sonharam e guiaram a             ticiários e distraíram vidas, muitas vidas.   anos, o futuro do mundo não se jogava
ALADI, desde o saudoso P.e Dr. Ma-          Promessas em catadupa, de paraísos à          em Roma, nem sequer em Atenas, ou
nuel Domingos da Silva Lopes e o Prof.      mão e geralmente a crédito; figuras me-       em qualquer outro pólo da atração ge-
Júlio da Silva Oliveira. Destes e outros    diáticas de diversos setores, por diver-      ral. Jogava-se e ganhava-se nos discre-
nomes, tão justamente lembrados, dá o       sas razões, melhores ou piores… Tudo          tos gestos em que Jesus resumia o Céu e
autor vasta referência ao longo das pá-     se previu e parecia possível, com uma         a Terra na caridade autêntica do serviço
ginas que se seguem. Junte-se a minha       condição prévia: a de se ser apto e ca-       a todos, honrando a humanidade onde
devotada homenagem também.                  paz para produzir e consumir, com             ela mais doía: nos pobres de todas as
     A palavra que especialmente aqui       cânones apertados de esteticismo à            pobrezas, nos pequenos mais esqueci-
deixo é sobre o cariz “profético” que a     Hollywood. O produzir redundava               dos, marginalizados e sós.
ALADI sobremaneira tem. E explico-          mesmo em “produzir-se” a si mesmo,                O que louvo, agradeço e sublinho,
o: “Profecia” é palavra de Deus, dita no    segundo tais cânones e expectativas al-       nos 25 anos da ALADI, é isto mesmo:
mundo para bem dos homens. Há quem          tas. Sacrifícios, a manterem-se, eram nes-    a profecia do futuro, proferida e escrita
a oiça e a transmita fielmente, sendo as-   ta linha e apenas nela. Chamavam-lhe,         na vida de todos os seus sucessivos res-
sim profeta, como o foi Jesus Cristo,       por vezes, “qualidade de vida”, como          ponsáveis, colaboradores e benfeitores,
por máxima razão. Há, muito felizmen-       se a vida em si mesma – toda e qualquer       como na vida de quantos serviu e serve.
te, quem participe do Espírito de Jesus     vida humana – não tivesse qualidade               Obrigado, ALADI, por nos mostra-
Cristo e se torne assim em profecia e       bastante e só por si.                         res também “os novos céus e a nova
evangelho, tempo após tempo e espaço            Em 2012 sabemos que não é assim,          terra!”»

    “AUTOTRANSCENDÊNCIA –                   e aos ventos. Na perplexidade desta se-       as pessoas, numa partilha total do que o
terceiro passo existencial”, Manuel Joa-    gunda década do século XXI, em que            estudo lhe revela, a reflexão aprofunda
quim Cristo Martins (julho, 2012), Pau-     todas as estruturas da sociedade pare-        e a experiência consagra. Na sua peda-
linas Editora, 263 páginas.                 cem desmoronar-se, esta trilogia traz a       gogia peculiar, surpreende-nos com a
    Na CONTRACAPA, o autor: “Este           mensagem de que a Humanidade não              síntese dos seus diagramas, com a pro-
é o terceiro livro da nossa trilogia. Em    está num beco sem saída. Ao fundo do          fundidade das
Autoconhecimento, o primeiro passo          túnel já vislumbramos os pardos               suas explicações e
existencial, propusemo-nos descobrir o      verdejantes do reinado do Homem In-           com a simplicida-
nosso Ser. Em Autoconsciência, o se-        tegral que nos oferece a vivência plena,      de da sua lingua-
gundo passo existencial, propusemo-nos      em progresso e em paz, porque ilumi-          gem. O seu cam-
centrarmo-nos no Ser. Em Autotrans-         nada pelo projeto «HOMEM» do nos-             po de ação tem
cendência, o terceiro passo existencial,    so Deus.”                                     sido largo e diver-
propomos construirmo-nos no Ser. O                Ainda na CONTRACAPA, Vasco              sificado: empre-
Ser dos humanos é a sua «estrutura espi-    Ventura: “Cristo Martins faz do huma-         sas, escolas, insti-
ritual», é a «rocha» do Evangelho, sobre    nismo o seu sacerdócio, quer através dos      tuições, associa-
a qual toda a construção resiste à chuva    seus livros quer no contacto direto com       ções…”
4                                                                                                                     espiral




    “O CÉU: ONDE DEUS NOS                       “ A MARGEM DA TRANSCENDÊNCIA – UM
ESPERA PARA SEMPRE”, Fran- ESTUDO DA POESIA DE RUY BELO”, Manuel
cisco Sousa Monteiro (2004), Editori- António Silva Ribeiro (2004), com o patrocínio da Fun-
al A.O.- Braga, 216 páginas. dação Calouste Gulbenkian e da Fundação para a Ciên-
www.jesuitas.pt/AO.                         cia e do Ensino Superior.
    Também no Espiral nº 15, abril-ju-          No Espiral nº 15, abril/junho de 2004, na página 6,
nho de 2004, página 6, consta a notícia consta a notícia da sua publicação e alguns dados adici-
da sua publicação e alguns dados adici- onais, transcrevendo-se: «Leiam-se a Voz Portucalense
onais. Acrescenta-se a partir do livro:     de 19.5.2004 e a Brotéria de Julho.2004.»
                                 DEDI-
                             CATÓRIA
                             do autor - “
                             A todos os
                             que me pre-       “MARCOS- O EVANGELISTA habituados à deificação de imperadores
                             cederam na DO ANO B / algumas notas e de heróis. No caso, tratava-se, como
                             fé, na glória intodutórias”, Artur da Cunha Olivei- já vimos, de que não era um homem
                             e estão uni- ra (2003), edição do autor, União Grá- que se fizera Deus, mas um Deus que
                             dos ao infi- fica Angrense, Açores, 75 páginas].         assumira verdadeiramente a natureza
                             nito Amor         Na INTRODUÇÃO, o autor: «(…) humana. É mesmo este um dos aspec-
                             de Deus.      E aquilo que é preciso dizer antes de tos que mais falta faz na evangelização e
                                 A todos mais é que a leitura litúrgica, uma vez na espiritualidade da Igreja Católica: a
                             os que co- que fragmentada, jamais nos poderá dar centralidade da pessoa de Jesus de Na-
                             migo crêem um retrato perfeito do autor nem a zaré, em que se fez homem o Verbo de
em Jesus Cristo e O amam.                  exacta ideia do que é a sua obra. O que Deus. «E o Verbo fez-Se homem e veio
    A todos os que até ao fim dos tem- está pois em causa, neste momento, é habitar connosco» (Jo 1, 14a).
pos gozarão a glória na unidade do in- aproveitar a ocasião para dar a conhe-            Enfim, a Humanidade foi assumida,
finito Amor de Deus Trino.                 cer um pouco quem é Marcos e algu- pessoalmente, pela Divindade, passan-
    Ao P. Filipe de Figueiredo, instru- mas características e temas do segundo do então a realizar-se, como se se tra-
mento de Deus no meu caminho para dos quatro evangelistas da nossa Bíblia tasse de um sacramento – sinal eficaz,
Ele e que agora, no céu, há-de ler este (…)”.                                         aquilo que nos revela Gn 1, 27: «Deus
livro, no Coração de Deus, para sem-           Em CONCLUSÃO, o autor: “(…) criou o ser humano à sua imagem».”
pre. (…) “                                 O estilo de Marcos é um estilo vivo, re-
    Na CONTRACAPA, um trecho do alista, quase testemunhal, em que os as-
Prefácio, pelo P. Peter Stillwell – “Tra- pectos humanos de Jesus merecem-lhe
ta-se de uma meditação tranquila que um interesse e atenção que não se en-
por vezes se transforma em oração de contram nos outros evangelistas, sobre-
acção de graças ou de louvor. O ritmo tudo nos sinópticos Mateus e Lucas.
é o do próprio espírito, soprando onde         Sinal de quê? Se se não trata apenas
quer. As várias partes da obra não obe-    de modismos literários, Marcos e Pe-
decem, portanto, à sequência de uma dro interessaram-se, na sua obra de evan-
argumentação lógica nem a uma siste- gelização aos Romanos, em acentuar a
matização escolar. Mais parecem um rio, humanidade de Jesus. Romanos aliás
espraiando os braços em delta, antes de
mergulhar no mar. Com efeito, o lugar O Secretariado agradece os dados relativos a quaisquer livros publica-
para onde a reflexão caminha, nunca está dos pelos associados. Igualmente agradecemos, de novo, a M.J. Cristo
em dúvida. O autor enuncia-o claramen- Martins (associado até dezembro de 2011, continuando a sê-lo de e no
te nas primeiras páginas da introdução. coração), que tão gentilmente nos ofereceu o seu terceiro livro. Leve-
                                           mos este bendito fruto do rendimento dos talentos que Deus vos conce-
É «o nosso êxtase de amor por Deus
                                            deu (e outras obras) para os Encontros Nacionais!... Parabéns aos au-
… ‘face a face’… finalmente, sem véus,                              tores e seus colaboradores.
sem hesitações nem negações, para todo                               A nossa profunda gratidão.
o sempre…»”                                Os exemplares foram cedidos pelos autores ao Secretariado, podendo
                                                                 ser solicitados pelos sócios.
l
espiral                                                                                                                            5




Jesus                           e/ou           Cris to                                 Deus… seguiam Jesus. Jesus voltou-se
                                                                                       e, notando que eles o seguiam, pergun-
                                                                                       tou-lhes: “Que pretendeis?” Eles disse-
                    Artur
                    Artur     Oliveira     Deus para levar a cabo um desígnio di-      ram-lhe: “Rabi – que quer dizer Mestre
                                           vino. É o caso do rei persa, Ciro, en-      – onde moras?”. Ele respondeu-lhes:


   J
         ESUS (em hebraico Yešu`a) é       quanto escolhido por Yahweh para li-        “Vinde e vereis”. Foram, pois, e viram
        nome teofórico de pessoa. Quer     bertar os Judeus do cativeiro da            onde morava e ficaram com Ele nesse
        dizer: na sua composição entra     babilónia: Eis o que diz o Senhor a Ciro,   dia. Era ao cair da tarde. André, o ir-
um elemento proveniente do nome de         seu ungido (messias/cristo), a quem to-     mão de Simão Pedro, era um dos dois
Deus (neste caso, Yahweh, que foi como     mou pelas mãos… (Is 45, 1), como o          que ouviram João e seguiram Jesus. En-
o Senhor do Universo Se nomeou a Moi-      dos patriarcas. Nunca, porém, se usa na     controu primeiro o seu irmão Simão, e
sés naquela célebre teofania do Monte      Bíblia do Antigo Testamento o termo         disse-lhe: “Encontrámos o Messias!” –
Horeb (Ex 3, 14) e um elemento do          “messias” (em grego, “cristo”), como        que quer dizer Cristo (Jo 1, 36-41). O
substantivo “ajuda” ou “salvação” que,     nome de pessoa. Por outro lado, a ex-       mesmo (Messias/Cristo) se lê no episó-
em hebraico, é išu`ah. Foi, com efeito,    pressão “ungido de Yahweh”, que se          dio da Samaritana (Jo 4, 25).
este o significado de Jesus supostamen-    aplicava ao soberano reinante, só no úl-        A verdade é que se estava, então, na
te manifestado em sonhos a José: Ela       timo século pré-cristão é que principiou    expectativa do Messias, o libertador, o rei
(Maria) dará à luz um filho ao qual da-    a ser usada com referência ao prometi-      descendente de David que restituiria a an-
rás o nome de Jesus, porque Ele salvará    do redentor de Israel, que se concebia      tiga soberania ao Povo de Israel, o qual,
o povo dos seus pecados” (Mt 1, 21).       como rei. Daí passou à linguagem dos        de há mais de meio milénio, andava sujei-
Jesus quer, pois dizer: “O Senhor          rabinos e aos escritos do Novo Testa-       to ao domínio de povos estrangeiros
(Yahweh) salva”, ou, “o Senhor ajuda”.     mento: o aguardado redentor de Israel       (Assíria, Babilónia, Síria, Roma). Havia
É, portanto, nome de pessoa.               é designado por o Messias, ou o Cristo,     mesmo quem se preparava para a revolta
    Foram quase uma dúzia as pessoas       em grego. Veja-se esta significativa pas-   contra Roma. Inclusivamente, no número
que na Bíblia se chamaram Jesus, desde     sagem do IV Evangelho: dois dos dis-        dos Doze Apóstolos poderá ter havido
um levita (2 Cor 31, 15), no reinado de    cípulos de João Baptista, ouvindo o seu     um desses: Simão, o Zelota (Mt 10, 4; Lc
Ezequias (716-687 a. C.), e um repatria-   mestre tratar Jesus por Cordeiro de         6, 15) ou Cananeu (Mc 3, 18).
do da Babilónia (Esd 2, 5), no tempo                                                           Estranhamente ou não, já depois
de Ciro (531-529 a. C.), rei persa, até                                                    da morte do Senhor Jesus e da reve-
um descendente de David (Lc 3, 29) e                                                       lação de que Ele continuava existin-
um colaborador do apóstolo Paulo (Cl                                                       do, a morte não O vencera (Ressur-
4, 11). Nome exclusivamente de pes-                                                        reição), naquela criação literária lucana
soa, o que não acontece com Cristo que,                                                    do desaparecimento definitivo do
no Antigo Testamento, nunca aparece                                                        Senhor Jesus (Ascensão) os discípu-
como tal. E, no Novo Testamento, va-                                                       los ainda perguntavam: “Senhor é
mos já ver como e por que se usa Cris-                                                     agora que vais restaurar o Reino de
to como, supostamente, o nome pes-                                                         Israel?” (Act 1, 6). E foram os cris-
soal do Senhor Jesus.                                                                      tãos helenistas, nomeadamente quan-


   C
             RISTO deriva do adjecti                                                       do a primitiva Comunidade dos dis-
            vo grego Christós/ê/ón
            que, por sua vez, vem do           Designações bíblicas do Senhor Jesus
verbo chriô cujo significado é “ungir”.
                                                                           Designação
Cristo, em grego, é pois, aquele que foi
                                                        Jesus Cristo Senhor Jesus Senhor Jesus Nosso Senhor Jesus de
ungido, que recebeu a unção própria dos
                                                                      Jesus Cristo    Cristo   Jesus Cristo Nazaré
reis e dos sacerdotes. Na Bíblia usa-se
                                           Autor
cristo para traduzir o hebraico mašiah
                                           Marcos         71      6       1       4          -                 -             3
ou o aramaico mešiha, donde nos veio
                                           Mateus        159     12       -       1          -                 -             4
o termo “messias”. Com este termo de
                                           Lucas
“messias” se designa no Antigo Testa-
                                            Evangelho     92     12       1       -          -                -              3
mento todo o homem que foi consa-
                                            Actos         30     8       12       16         4                 2             6
grado a Deus por meio de uma unção
                                           João          242     17        -       3         -                  -            3
(reis e sumos sacerdotes) ou também,
                                           Paulo          20     226      9      222         2                 5             -
que foi especialmente escolhido por
6                                                                                                                             espiral




cípulos do Senhor Jesus se separou do Ju-
daísmo, e porque menos ligados à tradi-
                                               VII Encontro Mundial
ção judaica, que passaram a usar Cristo
como segundo nome próprio de Jesus.
Foi em Antioquia que, pela primeira vez,
                                                    das Famílias
os discípulos começaram a ser tratados         Reflexão de Mons. Bruno Forte
pelo nome de “cristãos” (Act 11, 26). Tal-     que participou do encontro das
vez pudessem ter vindo a ser denomina-        famílias, em Milão, com uma nu-
dos “jesuânicos”. Mas não. Os eventuais              merosa delegação.
“jesuânicos” passam a ser “cristãos”, e o
eventual “Jesuanismo” deu-nos o Cristia-

                                                B
                                                          ento XVI concluiu, em Mi
nismo, para o que contribuiu não pouco                   lão, o VII Encontro Mundial
o apostolado paulino (Veja-se, por exem-                 das Famílias com o tema “A
plo: Rm 6, 4.8-9; 8, 17; 1 Cor 1.12-         família, o trabalho, a festa, que decorreu
13.17.22-24). Pelo Quadro seguinte po-       de 30 maio a 3 junho de 2012.
demos ficar sabendo como o Senhor Je-            Trata-se de um evento com uma
sus foi nomeado nos Evangelhos, nos          mensagem forte e atual. Para entendê-
Actos e em Paulo. Nos primeiros, predo-      lo, parto de algumas frases da carta que
mina o nome Jesus: 594 vezes, contra ape-    o Santo Padre enviou para a
nas 20 em Paulo. Cristo: só 55 vezes nos     convocatória: “Nos nossos dias, a or-
Evangelhos e Actos e 226 em Paulo.           ganização do trabalho, pensada e atuada
    Concluindo: Jesus e Cristo são a         em função da concorrência de merca-
mesma pessoa. Mas quem? Homens de            do e do máximo lucro, e a concepção
Israel, escutai estas palavras: Jesus de     da festa como ocasião de evasão e de
Nazaré, Homem acreditado por Deus            consumo, contribuem para desagregar
junto de vós, com milagres, prodígios e      a família e a comunidade e para difun-
sinais que Deus realizou no meio de vós      dir um estilo de vida individualista. Por    tes e jovens podem aprender a amar a
por seu intermédio… Deus ressuscitou-        isso, é necessário promover uma refle-       Deus e ao próximo, e os idosos, raízes
o, libertando-o dos grilhões da morte        xão e um compromisso que visem con-          preciosas, podem à sua vez sentir-se
pois não era possível que ficasse sob o      ciliar as exigências e os tempos de tra-     amados. A família é, assim, sujeito ativo
domínio da morte (Act.2,22-24), pro-         balho com aqueles da família e recupe-       no caminho da comunidade cristã e da
clamou Pedro no dia do Pentecostes.          rar o sentido verdadeiro da festa, espe-     sociedade civil, não somente destinatá-
Era esta a fé e a cristologia da primitiva   cialmente do domingo, dia do Senhor e        ria de iniciativas, mas protagonista do
Comunidade Cristã. Assim, podemos            dia do homem, dia da família, da co-         bem comum em cada um dos seus com-
afeiçoar-nos pelo nome Jesus como pelo       munidade e da solidariedade.”                ponentes.
termo Cristo. Só que os resultados não           Estas palavras subentendem uma alta          Para que isso aconteça, o pacto con-
serão os mesmos. Enquanto que, afei-         visão do valor e do papel da família: os     jugal, que é a base da família, deve ser
çoando-nos pelo nome Jesus, constituí-       esposos unidos no sacramento do ma-          vivido de acordo com algumas regras
mos uma como que relação pessoal e           trimónio são imagem da Trindade divi-        fundamentais: o respeito da pessoa do
uma vivência mais íntima com Ele, as-        na, do Deus que é amor e, por isso           outro; o esforço para entender melhor
sim como um mais eficaz compromis-           mesmo, relação e unidade do Pai, que         as suas razões; o saber tomar a iniciativa
so com a Sua Mensagem; preferindo a          eternamente ama, do Filho, que é eter-       de pedir e oferecer perdão; a transpa-
denominação Cristo já não é bem a re-        namente amado, e do Espírito, vínculo        rência recíproca; o respeito pelos filhos
lação com a pessoa mas com a entida-         do amor eterno. Nesta unidade                como pessoas livres e a capacidade de
de, e é mais fácil deixarmo-nos levar        profundíssima cada um é si mesmo, en-        oferecer a eles razões de vida e de espe-
pelo formalismo e contentarmo-nos            quanto acolhe totalmente o outro. À luz      rança; o deixar-se questionar pelas suas
com a aceitação de dogmas, de cânones,       deste modelo, a vocação matrimonial é        esperanças, sabendo escutá-los e dialo-
de rituais e de tradições. Há muito por      vista como unidade plena e fiel dos dois,    gando com eles; a oração, com a qual
aí quem encha a boca com “Cristo, Cris-      comunhão responsável e fecunda de            pedir a Deus a cada dia um amor mai-
to, Cristo”, mas não seja capaz de, por      pessoas livres, abertas à graça e ao dom     or, buscando ser um para o outro, e jun-
si, dar de graça – digamos – um copo         da vida aos outros.                          tos, para os filhos, dom e testemunho
de água a quem tem sede, como                    Seio do futuro, a família é escola de    Dele.
indubitavelmente faria o Senhor Jesus.       vida e de fé, na qual crianças, adolescen-       Um estilo de vida semelhante não é
l
espiral                                                                                                                              7




nem fácil, nem óbvio, e muitas vezes as       viver o trabalho, por um lado cheio de       miliar" (aniversários, onomásticos...), até
condições concretas da existência ten-        responsabilidade pela construção da casa     celebrar fielmente como família o en-
dem a enfraquecê-lo: pensemos na pos-         comum (trabalhar bem, com consciên-          contro com Deus no domingo, dia do
sível fragilidade psicológica e afetiva nas   cia e dedicação, qualquer que seja a tare-   Senhor, encontro de graça capaz de pro-
relações entre os dois e em família; no       fa que se tenha); por outro lado, em es-     duzir frutos profundos e surpreenden-
empobrecimento na qualidade dos re-           pírito de solidariedade para os mais fra-    tes. Quem vive a festa, é estimulado a
lacionamentos que pode conviver com           cos, tutelar e promover a dignidade de       exercitar a gratuidade, experimentando
triângulos amorosos aparentemente es-         cada um. Nesta luz, compreende-se ple-       como seja verdadeiro que existe mais
táveis e normais; no normal stress origi-     namente como a falta de trabalho seja        alegria em dar do que receber! A festa
nado pelos hábitos e pelos ritmos im-         uma ferida grave na pessoa, na família e     nos ensina como amar seja viver o dom
postos pela organização social, pelos         no bem comum, e porque a segurança           de si tanto nas escolhas de fundo da exis-
tempos de trabalho, pelas exigências de       e a qualidade das relações humanas no        tência, quanto nos gestos humildes da
mobilidade; pela cultura de massa vei-        trabalho sejam exigência moral que deve      vida quotidiana, aprendendo a dizer pa-
culada pelos meios de comunicação que         ser respeitada e promovida pelo indiví-      lavras de amor e a ter gestos correspon-
influenciam e corroem as relações fami-       duo, começando pelas instituições e pe-      dentes, que jorrem de um coração gra-
liares, invadindo a vida da família com       las empresas.                                to e alegre.
mensagens que banalizam a relação con-            A propósito da festa, por fim, deve-         A negação da festa, especialmente do
jugal. Sem uma contínua, recíproca aco-       se evidenciar o quanto ela ajude ao cres-    domingo, é por isso um atentado ao
lhida dos dois, abrindo-se um ao outro,       cimento da comunhão familiar: nascen-        bem precioso da harmonia e da fideli-
não poderá haver fidelidade duradoura         do do reconhecimento dos dons rece-          dade conjugal e familiar: e é significati-
nem alegria plena: “A flor do primeiro        bidos, que abraçam os bens da vida           vo que esta mensagem ressoe por Mi-
amor murcha, se não supera a prova da         terrena, as maravilhas do amor recípro-      lão, capital vital e laboral da economia e
fidelidade” (Soren Kierkegaard). Torna-       co, a festa educa o coração à gratidão e     da produção do País. Apostar na famí-
se então mais do que nunca vital conju-       à gratuidade. Onde não há festa, não há      lia fundada sobre o matrimónio e aber-
gar o compromisso cotidiano em famí-          gratidão, e onde não há gratidão, o dom      ta ao dom dos filhos e esforçar-se para
lia com as condições que o sustentem          se perde! É necessário aprender, então,      promover as condições de trabalho e
no âmbito do trabalho e na experiência        a respeitar e celebrar a festa, principal-   de respeito para a festa, que ajudem na
da festa.                                     mente como tempo de perdão recebi-           sua serenidade e crescimento, é contri-
    Cada trabalho – manual, profissio-        do e doado, pela vida renovada pela          buir para o bem de todos, livrando-se
nal e doméstico – tem plena dignidade:        maravilha agradecida, até se tornar ca-      de lógicas muitas vezes redutivas e con-
por isso é justo e correto respeitar cada     pazes de viver os dias feriais com o co-     fusas com relação ao seu valor de célula
uma dessas formas, também nas esco-           ração de festa.                              decisiva da sociedade e do seu amanhã.
lhas de vida que os esposos são chama-            Isso é possível, se começa-se da aten-   É a mensagem que de Milão parte hoje
dos a fazer pelo bem da família e espe-       ção às festas que marcam o “léxico fa-       para a Itália e para o mundo inteiro!
cialmente dos filhos. Contribui para o
bem da família tanto quem trabalha em
casa, quanto quem trabalha fora! Claro,
o trabalho apresenta muitas vezes aspec-
tos de cansaço, que – segundo a fé cristã
– o Filho de Deus quis fazer próprio
para redimí-los e sustentá-los de dentro,
como lembra uma página belíssima do
Concílio Vaticano II: ele “trabalhou com
mãos de homem, pensou com mente
de homem, agiu com vontade de ho-
mem, amou com coração de homem”
(Gaudium et Spes, 22).
    Inspirando-se no Evangelho, é pos-
sível, então, formar-se como homens e
mulheres capazes de fazer do próprio
trabalho um caminho de crescimento
para si e para os outros, apesar de to-
dos os desafios contrários. Isso requer
8                                                                                                                                espiral




         A nova evangelização
    e os novos profetas da desgraça
   A reflexão é de Enzo Bianchi,             se há em nós uma humanização que              da qual fazemos parte: uma humanida-
 monge e teólogo italiano, prior e           ocorre na sinergia entre a graça do Se-       de já não cristã, mas que devemos ou-
fundador da Comunidade de Bose,              nhor – isto é, o Espírito Santo – e o         vir nas suas manifestações mais impres-
 num artigo publicado na revista             nosso espírito, então nós devemos             sionantes e nos seus gemidos. Como
    Jesus, de agosto de 2012.
                                             testemunhá-lo, anunciá-lo a quem nos          Igreja, devemos nos exercer a uma lei-


    J
         á está próxima a celebração do      pede conta do nosso modo de viver,            tura sábia da História, sem ceder à ten-
         Sínodo dos Bispos que irá refle     dessa esperança que nos habita (cf. 1Pd       tação de assumir posições defensivas,
         tir sobre o tema da evangeliza-     3, 15), dessa prática do amor que Jesus       de encastelar-nos em cidadelas que for-
ção de modo a poder dar indicações à         nos pede para viver quotidianamente.          çosamente contam com o número e
Igreja universal, indicações que depois          Então, é inútil procurar estratégias ou   com os recintos: é fácil ceder a essa falta
deverão ser concretizadas, traduzidas e      táticas de nova evangelização, é pernici-     de fé no Senhor da História, o Senhor
realizadas de modo diferenciados e es-       oso ter medo da nossa fraqueza devida         amante dos seres humanos, o Senhor,
pecífico nas diversas áreas culturais do     a uma diminuição numérica, mas não de         que "quer que todos os seres humanos
mundo. No entanto, continua sendo ver-       significado, é mundano esperar em um          sejam salvos" (1Tm 2, 4), e se tornar
dade que esse tema, quando é anuncia-        retorno da cristandade tranquilizante dos     profetas da desgraça, como advertia
do como "nova evangelização", diz res-       tempos passados.                              João XXIII há 50 anos atrás, no início
peito sobretudo ao Ocidente europeu e            Mas então o que devemos procurar,         do Concílio.
norte-americano, as terras de mais ou        como devemos nos mover nesse êxo-                 Devemos ouvir para aprender, na
menos antiga cristianização, terras em que   do de uma terra que deixamos para trás        consciência da autonomia da História e
se viveu uma sólida pertença às Igrejas      para nos dirigir rumo a uma margem            na liberdade da humanidade que, no
cristãs, mas que hoje – depois do fenó-      que não conhecemos, mas que sabemos           entanto, continua sendo querida por
meno da secularização e do desencanto        que é um horizonte habitado pela po-          Deus, composta por pessoas cada uma
religioso – estão contaminadas pelo in-      tência de Jesus ressuscitado e vivo, à es-    “criada à imagem de Deus” (cf. Gn 1,
diferentismo.                                pera do nosso desembarque para iniciar        26): esse selo impresso por Deus em
    Nas últimas décadas, caíram as ide-      um outro êxodo, para passar de êxodo          cada ser humano, justo ou pecador, nun-
ologias portadoras de uma esperança          em êxodo até o reino?                         ca poderá falhar. Trata-se também de
messiânica intra-humana, fracassou a             Acredito que, acima de tudo, deve-        não alimentar ingenuidade, de não ser
transmissão da fé cristã pela geração que    mos mudar a nossa atitude para com a          desprovido de humanidade, mas capaz
está desaparecendo às novas gerações         humanidade em que estamos imersos e           de discernir a presença do mal reconhe-
que se assomam ao horizonte, tornou-                                                       cendo, porém, o caminho de humani-
se muito fraco o anúncio do evangelho                                                      zação e de autocorreção do qual o ser
como boa notícia aqui e hoje.                                                              humano é capaz, como nos recorda
    Eis, portanto, a urgência de repensar                                                  Christoph Theobald.
as palavras de Jesus, que enviava os seus                                                      É nesse espaço em que a Igreja en-
discípulos em missão no mundo inteiro                                                      contra o mundo na escuta e no diálogo
(cf. Mc 16, 15), até as extremidades da                                                    recíproco que os cristãos munidos de
terra (cf. Atos 1, 8), entre todos os po-                                                  uma fé madura, exercitada, pensada, di-
vos e até o fim dos tempos (cf. Mt 28,                                                     zem e vivem o evangelho, acima de tudo
19-20). Isso na convicção de que o nos-                                                    como escola de humanidade, caminho
so tempo, a contemporaneidade – o                                                          de humanização: cristãos que sabem
único tempo que conhecemos ao viver                                                        despertar confiança naqueles que encon-
imersos neles – é sempre um "momen-                                                        tram, naqueles dos quais se fazem pró-
to favorável" para o anúncio da boa no-                                                    ximos; cristãos que sabem discernir nos
tícia de Jesus Cristo, o único Filho de                                                    outros a fé humana que os habita e aos
Deus e o autêntico homem.                                                                  quais podem doar palavras, atitudes e
    No tempo oportuno ou não opor-                                                         ações que narram Jesus de Nazaré.
tuno (eúkairos – Ákairos, cf. 2 Tm 4, 2),                                                      A crise de fé hoje, antes de ser crise


    página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: direccao@fraternitas.pt * blogue: http://fraternitasmovimento.blogspo
l
         espiral                                                                                                                        9



                                                                       Convocatória
                                                               33.º ENCONTRO NACIONAL
                                                                    Local: Seminário Redentorista Cristo-Rei,
                                                                        em Devesas (Vila Nova de Gaia)
                                                          Tema: “A ESPERANÇA como fio condutor na narrativa Bíblica”
                                                                      Orientador: Pe. Rui Santiago, c.s.s.r.
                                                       PROGRAMA                                   ALOJAMENTO
                                                       Dia 5 (sexta-feira)                        Diária por pessoa:
                                                       20h00 – Jantar, antecedido de              - 37 • (quarto individual);
                                                    acolhimento.                                  - 30• (quarto duplo ou triplo).
                                                       21h15 – Apresentação do                    Dormida e pequeno-almoço:
                                                    orientador e lançamento do tema.              - 26• (quarto individual);
                                                                                                  - 21• (duplo ou triplo).
        de fé em Deus, é uma crise de confian-            Dia 6 (sábado)                          - Refeição:
        ça humana, é a falta de confiança nos          8h30 – Pequeno – Almoço.                   – Almoço ou jantar: 10 •.
        outros, na vida, no futuro e, acima de         9h00 – Laudes.
        tudo, é fraqueza em acreditar no amor          9h45 – Plenário/Grupos.                    COMO CHEGAR
        (cf. 1Jo 4, 16). Apenas em um terreno          11h00 – Intervalo.                         O Seminário situa-se na rua Vis-
        tão humanizado e predisposto, Deus             11h30 - Plenário/Grupos.                conde das Devesas, n.º 684, em Vila
        pode então realizar o que só Ele é ca-         13h00 – Almoço.                         Nova de Gaia.
        paz de operar: doar a fé, isto é, iniciar      15h00 – Plenário/ Grupos.                  É possivel obter a rota na
        uma relação com quem ouve a sua pa-            16h45 – Intervalo.                      Internet, na página maps.google.pt.
        lavra, que quem encontra Jesus Cristo,         17h30 - Plenário/Grupos.                Ali, clica-se em «Obter direcções»,
        porque “a fé nasce da escuta” (Rm 10,          19h00 – Vésperas. Eucaristia.           escreve-se o endereço de origem e o
        17).                                           20h00 – Jantar.                         do destino, e o programa traça o
            Então, a Igreja encontrará em seu li-      21h15 – Serão: partilha de vida.        melhor percurso.
        miar aqueles que desejam e pedem para                   Tertúlia.
        ser introduzidos em Jesus Cristo, que                                                     INSCRIÇÕES
        pedem para se tornar o seu corpo atra-            Dia 7 (domingo)                         Secretariado: Urtélia Silva
        vés do Batismo e da Eucaristia... Assim        8h30 – Pequeno-almoço.                     Rua Prof. Carlos Alberto Pinto de
        ocorre a geração em Cristo e na Igreja,        9h00 – Laudes.                          Abreu, 33, 2ºEsq.
        assim a evangelização se torna evento          9h45 – Plenário.                           3040-245 Coimbra
        de encontro, de relação viva entre Deus        12h00 – Eucaristia, com ensaio             Telefones 239 001 605; 914754706
        e o ser humano: no tecido de relações       prévio.                                    (até às 21h15m)
        humanas quotidianas entre cristão teste-       13h00 – Almoço                             secretariado@fraternitas.pt
        munha evangelizador e o ser humano
        de hoje. A evangelização, de fato, sem-
        pre depende do testemunho pessoal de
                                                      NOTA DE TESOURARIA: QUOTAS E SOLIDARIEDADE
        quem evangeliza: o evangelho, a boa             1. Ninguém é indiferente às neces-     gue a quem precisa! Mandem o
        notícia só acontece no encontro, na re-     sidades dos outros.                        comprovativo e dêem conhecimento da
        lação com uma pessoa.                           2. Só é possível continuar a acorrer   finalidade.
            Os homens e as mulheres de hoje         a casos de verdadeira necessidade se           4. Também podem depositar na
        continuam a perguntar: Como viver?          partilharmos também. Por isso, não es-     mesma conta bancária o valor da quota
        Nós não lhes respondemos procuran-          perem que lhes batam expressamente         anual de sócio: 30 euros - casal; 20 euros
        do novos métodos mais refinados, não        à porta. Decidam-se: partilhem com os      - pessoa singular; ou contribuir para o
        respondemos com a expectativa de um         outros através da Fraternitas.             boletim «Espiral».
        percurso fácil: tentamos apenas viver a         3. Vão à caixa do multibanco mais          5. Contactem o tesoureiro
        fé e, portanto, despertar confiança, sem    próxima e façam uma transferência              Fernando Neves
        ter medo, porque o Senhor está con-         interbancária para a conta n.º 0033 0000       Av. Nova, n.º 22
        nosco, e quanto mais nos sentimos fra-      4521 8426 660 05. O montante depen-            3770-355 PALHAÇA.
        cos, mais opera em nós a sua força (2       de apenas da vossa consciência. A Di-          Telefones 234 752 139; 968 946 913
        Cor 12).                                    recção da Fraternitas fará com que che-        E-Mail: tesouraria@fraternitas.pt.


ot.com * e-mail: secretariado@fraternitas.pt * página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: tesouraria@fraternitas.pt
10                                                                                                                         espiral




Igreja Ortodoxa na Rússia
“O maior problema é o regresso do
homem aos seus próprios valores”
  Versando a situação da Igreja na Rússia, Isabella Campbell-Wessig e Rudolf Schermann entrevistaram o
padre or todo x o russo ANDREJ LORGUS, que es tudou Teologia e Psicologia. Fundou uma Faculdade de Psico-
       ortodox                   LOR
                                   ORGUS,         estudou Teologia              Fundou         Faculdade
          Univerersidade Ortodox Russa                    Teólogo,   Moscov Para
 logia na Univ er sidade Or todox a R ussa de S. João o Teólogo, em Mosco v o. Par a além de Psicologia, ensina
              Cristã Linguística Ortodox Também assegura assistência pastoral                        para
Antropologia Cris tã e Linguís tica Or todo x a. Também assegur a a assis tência pas tor al a um Lar par a pessoas
 diminuídas mentais. Montou ali uma capela onde é celebrada missa uma vez por semana. Andrej Lorgus é
                                         casado e tem dois filhos adultos.
                                                    Kirche In,           p.
                                       Publicado em Kirche In , 12/2002, p. 26,27.
                                             Tradução de João Simão


   Kirche In: Sabe-se que existem          do homem aos seus próprios valores, à          KI: Como foi que chegou à sua
atualmente tensões entre a Igreja or-      sua consciência de ser humano, pois a      fé e à sua vocação?
todoxa e a Igreja católica romana.         herança do passado é diametralmente            L: Os meus pais não eram crentes,
Em seu entender, qual é a causa des-       oposta ao retomar desta consciência.       mas alguns dos meus antepassados vi-
sas tensões?                               Não são os valores económicos que          nham de famílias sacerdotais. Porém,
   Lorgus: Sei que há de facto tensões e   devem estar no primeiro plano, mas sim     durante muito tempo não soube nada
também leio o que sobre elas se escreve    valores como amor, vida, saúde, fé, sa-    disso. Os meus pais ocultaram esses fac-
nos meios de comunicação. Mas na mi-       ber.                                       tos, já que era muito perigoso contar isso
nha atividade, quer pastoral quer como                                                  às crianças. Foi só durante os meus
conferencista, não me sinto minima-                                                     tempos de Universidade que me tor-
mente afetado por elas.                                                                 nei crente.

    KI: Na Rússia houve sempre uma                                                         KI: Como foi que lá chegou?
ligação muito forte entre a Igreja e                                                       L: Foi um impulso interior, mas,
o Estado. Pode-se dizer que a Igre-                                                    naturalmente, essa aproximação não
ja ortodoxa é a Igreja do Estado?                                                      aconteceu de repente, cresceu lenta-
    L: De forma alguma. O Estado está                                                  mente. Provavelmente foi o amor à
mais orientado para uma colaboração                                                    minha esposa, aos meus filhos.
com a Europa e com as outras Igrejas,                                                      KI: Era possível, na clandesti-
ao passo que, dentro da Igreja ortodo-                                                 nidade, ter acesso a literatura reli-
xa, há um ambiente que rejeita essas ten-                                              giosa?
dências. Tanto a Igreja ortodoxa como                                                      L: A minha geração cresceu com
o povo mantêm uma atitude de                                                           textos copiados. Quando descobría-
ceticismo face à Europa. Subsistem ain-                                                mos obras literárias, copiávamos os
da no povo tendências nacionalistas                                                    livros e emprestávamo-los uns aos
contrárias a uma abertura ao exterior.                                                 outros. Foi assim que, põe exemplo, li
Há naturalmente um motivo psicológi-                                                   um romance de Soljenitzyn numa noi-
co para isso, que assenta no facto de a                                                te, porque tinha de restituir as folhas
Rússia ser de tal modo grande que o          KI: Estes valores foram atropela-        no dia seguinte.
resto do mundo quase desaparece da dos durante os setenta anos de regi-
consciência das pessoas.                  me soviético? Houve células onde               KI: Para viver no regime soviéti-
                                          eles tivessem podido sobreviver?            co como homem crente era necessá-
    KI: Numa conferência em Viena,           L: O regime conduziu à destruição        ria uma grande dose de coragem.
mencionou a existência duma crise         total destes valores todos. Mas, realmen-   Qual era o perigo que se corria sen-
antropológica na sociedade russa. te, também existiram essas células, for-            do crente?
Em que consiste essa crise?               madas por personalidades e famílias in-        L: Os meus amigos e eu dissemos
    L: O maior problema é o regresso dividuais.                                       abertamente que tínhamos sido
l
espiral                                                                                                                               11




batizados. A consequência foi a nossa
expulsão da Juventude Comunista. Além
disso, foi-nos instaurado um processo,
que, aliás, não chegou a ser concluído.

    KI: Há hoje na Rússia sinais de
crescimento religioso na sociedade?
    L: A renovação religiosa é um pro-
cesso muito trabalhoso e difícil. No en-
tanto, não se podem ignorar os sinais de
crescimento. Qualquer visitante pode ver
que, na Rússia, por toda a parte igrejas e
conventos estão a ser recuperados e isto
apesar de o povo viver com extremas
dificuldades. As pessoas partilham da
seguinte opinião: mesmo que passemos
mal, queremos que, ao menos na Igreja,
as coisas estejam bem.                        disciplina não é nem de religião nem de       de afluência aos estabelecimentos de
                                              ética. A Igreja tem vindo a reclamar          ensino eclesiástico, mas a escassez de pa-
   KI: Qual é a relação dos jovens            constantemente um ensino religioso pro-       dres é, apesar disso, muito grande. Tal
com a Igreja?                                 priamente dito, mas esbarra com a opo-        situação pode explicar-se tendo em aten-
   L: Eu não posso julgar a atitude dos       sição dos funcionários educativos e tam-      ção que a pastoral ainda está em fase de
jovens em geral face à Igreja, mas estão      bém duma grande parte dos intelectuais        estruturação. Temos hoje cerca de 20.000
muito bem representada na Igreja.             russos. Quando o Patriarca uma vez se         paróquias, mas precisaríamos de 200 mil.
                                              manifestou publicamente sobre o tema
    KI: A Igreja russa tem muitos con-        do ensino da religião, levantou-se na im-         KI: A Igreja ortodoxa russa foi
fessores e mártires. Qual é a atitude         prensa uma verdadeira campanha de             sempre fortemente clerical. Existe
da Igreja a respeito deles e das ten-         oposição, na qual cientistas e intelectuais   alguma coisa como um despertar dos
sões que surgiram entre os confes-            assumiram um tom muito ofensivo para          leigos?
sores e aquelas pessoas que pensa-            com a religião.                                   L: Uma exigência do género da
ram que seria melhor entrar em com-                                                         “Nós Somos Igreja” ninguém a faria na
promissos com o regime?                          KI: Pode-se dizer que também na            Rússia. Mas os leigos são bastante ativos
    L: Tais tensões não são particular-       Rússia há uma intelectualidade for-           e conscientes. Ao envolverem-se nas
mente percetíveis, elas existem mais no       te entre os fiéis da Igreja ortodoxa?         questões eclesiais e religiosas, o seu prin-
subconsciente. Foram cononizados mi-             L: Há uma forte intelectualidade or-       cipal desejo não é alcançar protagonis-
lhares destes mártires e praticamente to-     todoxa. Na era soviética os intelectuais      mo, mas antes sublinhar que pertencem
das as Igrejas têm os seus próprios már-      eram seguramente mais cristãos do que         à Igreja.
tires, muito venerados sobretudo local-       o restante povo.
mente. Há uma comissão específica que                                                           KI: E como é a tensão entre po-
ainda hoje acrescenta vários nomes à lis-         KI: Como é o envolvimento soci-           bres e ricos?
ta dos mártires.                              al da Igreja russa?                               L: Nos últimos dez anos a Igreja tem
                                                  L: Há princípios orientadores de um       vindo a fazer boas experiências no tra-
    KI: O que é que se passa com o            envolvimento desta natureza, mas ainda        balho com os pobres. Mas é muito difí-
ensino religioso na Rússia?                   faltam forças em toda a parte para levar      cil chamar os ricos à razão, quando o
    L: Nas escolas estatais ainda não há      as coisas por diante. Atualmente a ação       dinheiro lhes subiu à cabeça. No entan-
ensino religioso, mas esperamos chegar        social da Igreja ortodoxa cinge-se so-        to, também há pessoas ricas que desco-
lá. Há, no entanto, iniciativas de direções   bretudo às prisões e aos lares de crian-      briram o caminho da Igreja e se mos-
de algumas escolas a disponibilizarem o       ças e de idosos.                              tram dispostos a reaprender a humilda-
ensino da religião como disciplina de                                                       de. Eu concordaria com a frase do bis-
opção livre. Aliás há uma matéria para           KI: E como é com a falta de pa-            po latino-americano Dom Helder Câ-
todos os alunos onde são ensinados os         dres na Rússia?                               mara: “Queremos libertar os pobres da
fundamentos da cultura russa. Mas esta           L: Verifica-se hoje em dia uma gran-       pobreza e os ricos do egoísmo.”
12                                                                                                                       espiral


              SOLIDARIEDADE
              SOLIDARIED
                   ARIEDADE




                                                                                                                                   | P.Ta Malmequeres, 4 - 3.º Esq | 2745-816 QUELU Z | E-mail: fernfelix@gmail.com
     COM D. JANUÁRIO TORGAL FERREIRA
         D.           TORGAL
                                                      FRATERNIT
                                                         TERNITAS MOVIMENTO,
                                       A Associação FRATERNITAS MOVIMENTO,
               atr avés de associados seus, manif es ta solidariedade par a com D. Januário T. F erreir a,
               atra                          manifes
                                                  esta                para                  T. Ferreir
                                                                                                 erreira,
                       a propósito da sua intervenção numa entrevista a uma rádio portuguesa,
                                                  em julho de 2012.


    «Amigos, só vi a notícia na TVI.
    Conheço o Sr. D. Januário e sei que não é homem com             «Estou inteiramente de acordo com as palavras do nosso
interesses políticos. É um homem da Igreja, um homem bom,       irmão J. S. sobre o significado da incómoda intervenção do




                                                                                                                                    Boletim de Fraternitas Movimento | Trimestral |
honesto, com sensibilidade humana aos problemas dos ho-         Sr. D. Januário. A este eu desejo manifestar a minha solidari-




                                                                                                                                                                              QUELU
mens. Vive com preocupações com este estado de coisas. Vê       edade pela coragem, oportunidade e simplicidade com que
mais do que eu. E sente-se angustiado com o rumo que as         nos faz chegar a linguagem de Jesus de Nazaré.
coisas tomam. E os responsáveis calam-se, fecham os olhos,           Esquecemos facilmente (bispos incluídos) que Jesus não
não tem respostas... Mas nem ao menos se inquietam e não        hesitou chamar "sepulcros caiados de branco" aos hipócritas
inquietam as consciências deste país, se é que os políticos a   e poderosos do seu tempo.
têm.                                                                 Nunca os verdadeiros profetas foram peritos em medir
     Vós estais muito mais dentro destes problemas que eu.      palavras»
Não se calem, não calem o movimento. Deixem que o Espí-             A.C.
rito fale, apoiem o Espírito que fala através dos profetas,         «Estou plenamente de acordo com o A.C.. Só se ame-
que são incómodos...E é de lamentar se os bispos já se vie-     drontam aqueles que não têm consciência das preocupações
ram demarcar de D. Januário. Lamento. Os bispos usam o          da Igreja pelos mais castigados da sociedade. E talvez tam-
solidéu, mas aquilo é só ornamento, adereço, de resto vivem     bém aqueles a quem não falta o pão, mesmo arrancado das
amedrontados(…).                                                mãos de quem o fabricou com muito suor e amor.»
     Por favor, ponham o movimento a andar, esclareçam os           M. P.
sócios, animem-nos, estimulem-nos. Eu apoio-vos se é para
animar o Sr. D. Januário.»                                          «Respondo a esta missiva. Ouvi com muita atenção a de-
    Um abraço.,                                                 núncia profética do senhor D. Januário no famigerado pro-
    J.S.                                                        grama da TVI. Estou com ele, porque ele foi a voz do Espí-
                                                                rito, a voz de alguém que profeticamente exerce a sua mis-




                                                                                                                                     P.Ta
                                                                são de homem da Igreja que vive os problemas e as angús-
                                                                tias de tantos irmãos pobres, desprezados e humilhados por
                                                                uma desgovernação vergonhosa, marcada pela insensibilida-



                                                                                                                                                                              Redacção: Fernando Félix
                                                                de e pela astúcia de alguns políticos que se "governam", mas
                                                                não governam. O aparecimento do senhor Ministro da De-
                                                                fesa a meter-se no assunto e a tentar virar a opinião pública
                                                                contra o Bispo Profeta que, à semelhança de Amós, denun-
                                                                cia os erros dos governantes, fez-me recuar a meados do
                                                                século passado e reviver o que, então, foi feito ao saudoso
                                                                Bispo do Porto senhor D. António Ferreira Gomes a quem
                                                                o poder político, então vigente em Portugal, desterrou para
                                                                Roma por ter tido a coragem de dizer ao governante Salazar
                                                                que era preciso mudar de políticas. E, então como hoje, a
                                                                Conferência Episcopal reverentemente calou, consentiu, não
   «Estou com a proposta do Joaquim Soares e dou a mi-          levantou a voz e os senhores Bispos continuaram a ter mor-
                                                                                                                                                    espiral




nha adesão ao D. Januário Torgal, congratulando-me por ter      domias e honrarias. Será que agora se está a preparar algo de
levantado a sua voz exprimindo a angústia que sofre o nosso     semelhante? O senhor D. Januário tem razão nas denúncias
Povo com as políticas que estão a ser implementadas e de-       que faz. Não ofendeu ninguém, a não ser aqueles a quem a
nunciar os aproveitamentos pessoais que ocorrem neste "pân-     consciência acusa de maldade, porque a verdade incomoda.
tano" de desolação, penúria e miséria.»                         Ao senhor D. Januário é devido todo o apoio nesta sua mis-
   Parabéns D. Januário, estamos consigo»                       são de denúncia das injustiças, venham elas de onde vierem.»
   E.J.                                                             J.M.

Espiral 48

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    espiral da ANO xiII - fraternitas moviment ternit N.º vimento boletim da associação fraternitas mo vimento N.º 48 JULHO/SETEMBRO - JULHO/SETEMBRO de 2012 Esper ança, antídoto contr a as crises Esperança, antídot contra crises A Fernando Félix nossa irmã desolação. - falta de fé, esperança e amor, básicamente, também faz parte da nossa T enho ouvido repetida a vários sócios a palavra vida. A crise dos encontros com as realidades som- «péssimismo», e sempre associada ao futuro da brias da vida é a coroa da mesma moeda que é a nossa reali- Fraternitas. Parece que se perdeu com o passar dos dade pessoal. anos e com o declinar do tempo aquele entusiasmo dos pri- Isto é, a vida tem sonhos, utopias, experiências belas e, meiros tempos, dos anos em que o Padre Filipe Figueiredo também, medos, monstros e amarguras. E brotam pergun- andava entre nós, movia corações e congregava pessoas à tas, que podem ser santas ou insidiosas: “Será que valeu a volta do sonho de reunir os padres dispensados num movi- pena ter entregue a Deus e aos outros o melhor da minha mento, com as suas mulheres e filhos. vida?... Não foi uma loucura e utopia o que até agora tentei Todavia, também sabemos que a idade avançada é uma viver?... Que ganhei?... Onde estão os frutos de tanto trabalho idade madura, caracterizada por determinantes específicos tais e esforço? Os outros perceberam, recolheram e vão dar uso como interioridade, responsabilidade, sabedoria, e, particu- e continuidade ao que eu fiz?...” larmente, quando diminuem as forças, abre-se a possibilida- de de confiar mais nos outros, além de, claro, em Deus. Um meu tio costuma dizer. «Aos 70 anos Ou seja, à desesperança do pessimismo, haveremos de contrapor o optimismo da esperança, apoiada na confiança. faço o mesmo que fazia aos 18. Na altura, Muitos sócios da Fraternitas já viveram a primeira metade fazia o que podia; agora... também faço o da vida, outros estão a atravessar a fronteira e são poucos os que posso..» mais novos. Os da meia-idade lutam por sobreviver no mundo em T odas estas palavras querem ser um convite a parti tempos de crise. Há muita agitação, por causa, sobretudo, das cipar no nosso 33.º Encontro Nacional da questões do emprego, das incertezas na economia, da preo- Fraternitas, que se realiza de 5 a 7 de outubro, des- cupação com o futuro dos filhos e, também, com os sinais ta vez no Norte, em Devesas, Vila Nova de Gaia (ver página de fraqueza da saúde que começam a manifestar-se. 9 deste jornal). Iremos falar da Esperança, percorrendo a Bí- Os de idade mais avançada chegaram ao tempo em que o blia, para continuarmos a percorrer os caminhos da nossa “eu” é obrigado a olhar, não tanto para fora, mas para essa vida e os trajetos do mundo onde nos movemos. outra realidade, imensa e profunda, de sua vida interior. É a Nas crises de desalento e desesperança, a vida parece per- idade em que se sente não ter forças para nada, sente-se o dida. As forças, que antes se tinham e que lutavam em nosso cansaço, fazem-se balanços da vida. E é do eu, contemplativo, favor, vão-se debilitando e acabando. Mas o que não acaba é que nasce a vontade e disponibilidade para rezar, para dar a experiência do que realmente somos, temos e queremos. conselho, para encorajar. No meio deste tipo de crise, corre-se o perigo de nos Em todas as idades há perguntas ainda a precisar de res- distanciarmos de tudo e de todos, de nos isolarmos no nos- postas, há sentimentos de insegurança pelos caminhos ainda so pequeno mundo, de termos a impressão de que algo mui- não experimentados, há a incertezas e confuões, tantas vezes to importante se perdeu. por causa de expetativas frustradas. Perguntemo-nos: «Onde está e o que vale a intimidade A virtude de viver em sociedade, em pequenas comuni- com Deus, que nos conduziu até aqui?... Onde estão aqueles dades - como a família, o grupo, a associação, o movimento gestos generosos cheios de “santa loucura”? - é que a partilha das experiências impede de perder tempos Um meu tio costuma dizer. «Aos 70 anos faço o mesmo preciosos e montes de energia, quando, cada um, procura que fazia aos 18. Na altura, fazia o que podia; agora... tam- por si só, as respostas, as vitórias. bém faço o que posso..»
  • 2.
    2 espiral Livros de associados da Fraternitas editados em 2012 e em 2003-2005 Vamos anunciando as obras lite- Dividi a citada obra em três fases, a taríamos que tal evento ficasse perpetu- rárias com base nos dados dispo- saber: - 1ª Fase (1980/1987), em que se ado através de um livro, com a história níveis no secretariado. O critério fala da génese embrionária da ALADI, desta Instituição, com uma certa profun- tem sido, então, os que vão sendo focando-se figuras que muito fizeram didade e rigor, em que sejam relatadas publicados recentemente e o por esta Instituição, sensibilizando e di- todas as ocorrências havidas desde a sua biénio ou o triénio, consoante a namizando toda a comunidade lavrense conceção até ao presente.” abundância da produção literária, “recuando” no tempo. No último e parte da população matosinhense; Após madura reflexão, aceitei “embar- número, devido à homenagem a - 2ª Fase (1987/1994), período do car” em tão ambiciosa aposta, devido ao Henrique Maria dos Santos, arranque decisivo e ganhador, com ações objetivo em vista: falar sobre algo que, de dedicámo-nos “apenas” à sua múltiplas e marcantes, a começar pela uma maneira incontornável, foca e coloca obra – “ Aventura Feliz”. elaboração, aprovação e publicação em Lavra como possuidora de uma Associa- Diário da República dos respetivos es- ção deveras singular – a ALADI –, plas- Urtélia Silva Urtélia Silv tatutos; mada num genuíno humanismo cristão, - 3ª Fase (1994/até...2012), período condimentado por uma saudável partilha “ALADI - 25 ANOS A DIMI- que começou pela inauguração do Lar de alto quilate e de bairrismo sadio. NUIR A DIFERENÇA”, Residencial e com a assinatura de pro- Escrevera Fernando Pessoa, insigne Boaventura Santos Silveira (2012), im- tocolos para o funcionamento deste e poeta português do séc. XX, que, a res- pressão da gráfica Imprensa Portuguesa do CAO pela Segurança Social. peito de qualquer obra digna e – Porto, 320 páginas]. CONVITE/DESAFIO A UM enaltecedora do ser humano, existe o Obrigado a COMPROMISSO (páginas 9 e 10): As contributo sistemático e decisivo de duas Boaventura Silveira, obras, na maioria dos casos, ilustram os coordenadas – a vontade de Deus e o que já nos preparou pensamentos, as emoções e, sobretudo, acarinhar dum sonho pela pessoa –, o que se apresenta. os sonhos, os quais, ao passarem pelo condensado no seguinte verso inserido Do autor: «Na coração, normalmente motivam as pes- na sua famosa “Mensagem” (II Parte, freguesia de Lavra soas e as levam a concretizá-los no seu no poema intitulado “O Infante”, cons- (concelho de dia a dia. Foi precisamente o que se pas- tituído por três quadras), considerada a Matosinhos), em sou com o nascimento da “Associação joia dos seus escritos poéticos: abril de 1987, fora Lavrense de Apoio ao Diminuído Inte- “Deus quer, o homem sonha e a obra criada uma institui- lectual” (ALADI), que, em abril de 2012, nasce” (1º verso da 1ª quadra). Acabaria ção para deficientes mentais, com a se- completa 25 anos de existência ao ser- o dr. Joaquim José Fernandes Branco por guinte denominação: Associação viço dos mais frágeis da comunidade solicitar os meus préstimos para esta Lavrense de Apoio ao Diminuído Inte- lavrense, assim como das freguesias e ação. Aceitei, embora reconhecendo em lectual (ALADI). concelhos limítrofes. mim próprio uma certa ousadia/atrevi- No início deste ano de 2012, a pedido Há tempos, a atual Direção da mento. Porém, estava em causa uma es- insistente da atual direção, escrevi a histó- ALADI, na pessoa do seu presidente, pecífica entidade, reconhecida e ria da ALADI, para comemorar os seus dr. Joaquim José Fernandes Branco, me referenciada pela sua forte e exclusiva de- 25 anos de vida. Foi atribuído a esta obra comunicou que era intenção dos respon- dicação aos mais necessitados de tecido o título “ALADI - 25 anos a diminuir a sáveis desta nobre Instituição espoletar social, cuja existência depende da conju- diferença”. É um livro em e. Esta casa uma comemoração condigna, por oca- gação de uma real e contínua interação acolhe 60 utentes (em regime de interna- sião das BODAS DE PRATA desta entre os que podem e os que precisam. to), a que acrescem mais 50 no Centro de Obra, verdadeiramente humanitária e Imbuído dum sincero espírito de ser- Atividades Ocupacionais (CAO). No pró- com um inquestionável pendor e cariz viço, aceitei o repto, presumindo, de ante- ximo mês de setembro um novo módulo de solidariedade social, a qual ocupa um mão, que não me faltaria uma prestimosa será solenemente inaugurado, em que no lugar cimeiro no íntimo de todos aque- colaboração das muitas pessoas a quem Lar respetivo serão admitidos mais 24 ele- les que a conhecem mais de perto. irei recorrer, para a obtenção de dados mentos, enquanto que no CAO poderão E, a seguir, em jeito de pedido, lan- indispensáveis, que pretendo registar, para ser aceites mais 20 utentes. çou-me um convite…desafiador: “Gos- os transmitir aos vindouros.»
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    l espiral 3 PREFÁCIO escrito por D. Manuel após espaço. Assim a ALADI, em La- que não pode ser assim, nem deveria ser, Clemente, Bispo do Porto: «Nos 25 anos vra e onde chegue. mesmo que fosse materialmente viável. da ALADI (Associação Lavrense de Como no Antigo Testamento, tam- Com os autênticos profetas, concentra- Apoio ao Diminuído Intelectual) pedem- bém agora no Novo em que estamos e mos o olhar e o coração no que real- me breves palavras de introdução a este no que à profecia respeita. No tempo mente vale e verdadeiramente acontece, trabalho do Dr. Boaventura Santos dos vários Isaías, as atenções estavam em cada ser humano, um por um, novo Silveira, tão evocativo e meritório como mais viradas para os palácios dos reis e ou velho, saudável ou enfermo, mais ou outros da sua escrita. Particularmente as suas obras, grandes ou pequenas, menos capacitado. E percebemos que meritório, aliás, por descrever um quar- combinações e tratados, glórias e reve- nada vale tanto como isso mesmo, nada to de século da ALADI, Obra que par- zes das políticas… Menos para o que os compensa tanto como a entreajuda, o ticularmente avulta, em Lavra e não só. profetas divinamente diziam, sobre a carinho oferecido, o serviço humilde da Não poderia deixar de as dar, como aqui retidão face a Deus e aos outros, o bem- pequenez de todos, a persistência no ser- vão, em simplicidade convicta. orar e o bem-fazer. viço, que comprova o amor. Mérito também para a atual Direção, Nas duas décadas e meia que a Em 2012 sabemos, não tendo des- encabeçada pelo Dr. Joaquim José ALADI já viveu, também grandes fac- culpa nem álibi para não o saber, entre Fernandes Branco, que não quis esque- tos e enormes promessas encheram no- os escombros de tanta ilusão. Há 2000 cer os que sonharam e guiaram a ticiários e distraíram vidas, muitas vidas. anos, o futuro do mundo não se jogava ALADI, desde o saudoso P.e Dr. Ma- Promessas em catadupa, de paraísos à em Roma, nem sequer em Atenas, ou nuel Domingos da Silva Lopes e o Prof. mão e geralmente a crédito; figuras me- em qualquer outro pólo da atração ge- Júlio da Silva Oliveira. Destes e outros diáticas de diversos setores, por diver- ral. Jogava-se e ganhava-se nos discre- nomes, tão justamente lembrados, dá o sas razões, melhores ou piores… Tudo tos gestos em que Jesus resumia o Céu e autor vasta referência ao longo das pá- se previu e parecia possível, com uma a Terra na caridade autêntica do serviço ginas que se seguem. Junte-se a minha condição prévia: a de se ser apto e ca- a todos, honrando a humanidade onde devotada homenagem também. paz para produzir e consumir, com ela mais doía: nos pobres de todas as A palavra que especialmente aqui cânones apertados de esteticismo à pobrezas, nos pequenos mais esqueci- deixo é sobre o cariz “profético” que a Hollywood. O produzir redundava dos, marginalizados e sós. ALADI sobremaneira tem. E explico- mesmo em “produzir-se” a si mesmo, O que louvo, agradeço e sublinho, o: “Profecia” é palavra de Deus, dita no segundo tais cânones e expectativas al- nos 25 anos da ALADI, é isto mesmo: mundo para bem dos homens. Há quem tas. Sacrifícios, a manterem-se, eram nes- a profecia do futuro, proferida e escrita a oiça e a transmita fielmente, sendo as- ta linha e apenas nela. Chamavam-lhe, na vida de todos os seus sucessivos res- sim profeta, como o foi Jesus Cristo, por vezes, “qualidade de vida”, como ponsáveis, colaboradores e benfeitores, por máxima razão. Há, muito felizmen- se a vida em si mesma – toda e qualquer como na vida de quantos serviu e serve. te, quem participe do Espírito de Jesus vida humana – não tivesse qualidade Obrigado, ALADI, por nos mostra- Cristo e se torne assim em profecia e bastante e só por si. res também “os novos céus e a nova evangelho, tempo após tempo e espaço Em 2012 sabemos que não é assim, terra!”» “AUTOTRANSCENDÊNCIA – e aos ventos. Na perplexidade desta se- as pessoas, numa partilha total do que o terceiro passo existencial”, Manuel Joa- gunda década do século XXI, em que estudo lhe revela, a reflexão aprofunda quim Cristo Martins (julho, 2012), Pau- todas as estruturas da sociedade pare- e a experiência consagra. Na sua peda- linas Editora, 263 páginas. cem desmoronar-se, esta trilogia traz a gogia peculiar, surpreende-nos com a Na CONTRACAPA, o autor: “Este mensagem de que a Humanidade não síntese dos seus diagramas, com a pro- é o terceiro livro da nossa trilogia. Em está num beco sem saída. Ao fundo do fundidade das Autoconhecimento, o primeiro passo túnel já vislumbramos os pardos suas explicações e existencial, propusemo-nos descobrir o verdejantes do reinado do Homem In- com a simplicida- nosso Ser. Em Autoconsciência, o se- tegral que nos oferece a vivência plena, de da sua lingua- gundo passo existencial, propusemo-nos em progresso e em paz, porque ilumi- gem. O seu cam- centrarmo-nos no Ser. Em Autotrans- nada pelo projeto «HOMEM» do nos- po de ação tem cendência, o terceiro passo existencial, so Deus.” sido largo e diver- propomos construirmo-nos no Ser. O Ainda na CONTRACAPA, Vasco sificado: empre- Ser dos humanos é a sua «estrutura espi- Ventura: “Cristo Martins faz do huma- sas, escolas, insti- ritual», é a «rocha» do Evangelho, sobre nismo o seu sacerdócio, quer através dos tuições, associa- a qual toda a construção resiste à chuva seus livros quer no contacto direto com ções…”
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    4 espiral “O CÉU: ONDE DEUS NOS “ A MARGEM DA TRANSCENDÊNCIA – UM ESPERA PARA SEMPRE”, Fran- ESTUDO DA POESIA DE RUY BELO”, Manuel cisco Sousa Monteiro (2004), Editori- António Silva Ribeiro (2004), com o patrocínio da Fun- al A.O.- Braga, 216 páginas. dação Calouste Gulbenkian e da Fundação para a Ciên- www.jesuitas.pt/AO. cia e do Ensino Superior. Também no Espiral nº 15, abril-ju- No Espiral nº 15, abril/junho de 2004, na página 6, nho de 2004, página 6, consta a notícia consta a notícia da sua publicação e alguns dados adici- da sua publicação e alguns dados adici- onais, transcrevendo-se: «Leiam-se a Voz Portucalense onais. Acrescenta-se a partir do livro: de 19.5.2004 e a Brotéria de Julho.2004.» DEDI- CATÓRIA do autor - “ A todos os que me pre- “MARCOS- O EVANGELISTA habituados à deificação de imperadores cederam na DO ANO B / algumas notas e de heróis. No caso, tratava-se, como fé, na glória intodutórias”, Artur da Cunha Olivei- já vimos, de que não era um homem e estão uni- ra (2003), edição do autor, União Grá- que se fizera Deus, mas um Deus que dos ao infi- fica Angrense, Açores, 75 páginas]. assumira verdadeiramente a natureza nito Amor Na INTRODUÇÃO, o autor: «(…) humana. É mesmo este um dos aspec- de Deus. E aquilo que é preciso dizer antes de tos que mais falta faz na evangelização e A todos mais é que a leitura litúrgica, uma vez na espiritualidade da Igreja Católica: a os que co- que fragmentada, jamais nos poderá dar centralidade da pessoa de Jesus de Na- migo crêem um retrato perfeito do autor nem a zaré, em que se fez homem o Verbo de em Jesus Cristo e O amam. exacta ideia do que é a sua obra. O que Deus. «E o Verbo fez-Se homem e veio A todos os que até ao fim dos tem- está pois em causa, neste momento, é habitar connosco» (Jo 1, 14a). pos gozarão a glória na unidade do in- aproveitar a ocasião para dar a conhe- Enfim, a Humanidade foi assumida, finito Amor de Deus Trino. cer um pouco quem é Marcos e algu- pessoalmente, pela Divindade, passan- Ao P. Filipe de Figueiredo, instru- mas características e temas do segundo do então a realizar-se, como se se tra- mento de Deus no meu caminho para dos quatro evangelistas da nossa Bíblia tasse de um sacramento – sinal eficaz, Ele e que agora, no céu, há-de ler este (…)”. aquilo que nos revela Gn 1, 27: «Deus livro, no Coração de Deus, para sem- Em CONCLUSÃO, o autor: “(…) criou o ser humano à sua imagem».” pre. (…) “ O estilo de Marcos é um estilo vivo, re- Na CONTRACAPA, um trecho do alista, quase testemunhal, em que os as- Prefácio, pelo P. Peter Stillwell – “Tra- pectos humanos de Jesus merecem-lhe ta-se de uma meditação tranquila que um interesse e atenção que não se en- por vezes se transforma em oração de contram nos outros evangelistas, sobre- acção de graças ou de louvor. O ritmo tudo nos sinópticos Mateus e Lucas. é o do próprio espírito, soprando onde Sinal de quê? Se se não trata apenas quer. As várias partes da obra não obe- de modismos literários, Marcos e Pe- decem, portanto, à sequência de uma dro interessaram-se, na sua obra de evan- argumentação lógica nem a uma siste- gelização aos Romanos, em acentuar a matização escolar. Mais parecem um rio, humanidade de Jesus. Romanos aliás espraiando os braços em delta, antes de mergulhar no mar. Com efeito, o lugar O Secretariado agradece os dados relativos a quaisquer livros publica- para onde a reflexão caminha, nunca está dos pelos associados. Igualmente agradecemos, de novo, a M.J. Cristo em dúvida. O autor enuncia-o claramen- Martins (associado até dezembro de 2011, continuando a sê-lo de e no te nas primeiras páginas da introdução. coração), que tão gentilmente nos ofereceu o seu terceiro livro. Leve- mos este bendito fruto do rendimento dos talentos que Deus vos conce- É «o nosso êxtase de amor por Deus deu (e outras obras) para os Encontros Nacionais!... Parabéns aos au- … ‘face a face’… finalmente, sem véus, tores e seus colaboradores. sem hesitações nem negações, para todo A nossa profunda gratidão. o sempre…»” Os exemplares foram cedidos pelos autores ao Secretariado, podendo ser solicitados pelos sócios.
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    l espiral 5 Jesus e/ou Cris to Deus… seguiam Jesus. Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, pergun- tou-lhes: “Que pretendeis?” Eles disse- Artur Artur Oliveira Deus para levar a cabo um desígnio di- ram-lhe: “Rabi – que quer dizer Mestre vino. É o caso do rei persa, Ciro, en- – onde moras?”. Ele respondeu-lhes: J ESUS (em hebraico Yešu`a) é quanto escolhido por Yahweh para li- “Vinde e vereis”. Foram, pois, e viram nome teofórico de pessoa. Quer bertar os Judeus do cativeiro da onde morava e ficaram com Ele nesse dizer: na sua composição entra babilónia: Eis o que diz o Senhor a Ciro, dia. Era ao cair da tarde. André, o ir- um elemento proveniente do nome de seu ungido (messias/cristo), a quem to- mão de Simão Pedro, era um dos dois Deus (neste caso, Yahweh, que foi como mou pelas mãos… (Is 45, 1), como o que ouviram João e seguiram Jesus. En- o Senhor do Universo Se nomeou a Moi- dos patriarcas. Nunca, porém, se usa na controu primeiro o seu irmão Simão, e sés naquela célebre teofania do Monte Bíblia do Antigo Testamento o termo disse-lhe: “Encontrámos o Messias!” – Horeb (Ex 3, 14) e um elemento do “messias” (em grego, “cristo”), como que quer dizer Cristo (Jo 1, 36-41). O substantivo “ajuda” ou “salvação” que, nome de pessoa. Por outro lado, a ex- mesmo (Messias/Cristo) se lê no episó- em hebraico, é išu`ah. Foi, com efeito, pressão “ungido de Yahweh”, que se dio da Samaritana (Jo 4, 25). este o significado de Jesus supostamen- aplicava ao soberano reinante, só no úl- A verdade é que se estava, então, na te manifestado em sonhos a José: Ela timo século pré-cristão é que principiou expectativa do Messias, o libertador, o rei (Maria) dará à luz um filho ao qual da- a ser usada com referência ao prometi- descendente de David que restituiria a an- rás o nome de Jesus, porque Ele salvará do redentor de Israel, que se concebia tiga soberania ao Povo de Israel, o qual, o povo dos seus pecados” (Mt 1, 21). como rei. Daí passou à linguagem dos de há mais de meio milénio, andava sujei- Jesus quer, pois dizer: “O Senhor rabinos e aos escritos do Novo Testa- to ao domínio de povos estrangeiros (Yahweh) salva”, ou, “o Senhor ajuda”. mento: o aguardado redentor de Israel (Assíria, Babilónia, Síria, Roma). Havia É, portanto, nome de pessoa. é designado por o Messias, ou o Cristo, mesmo quem se preparava para a revolta Foram quase uma dúzia as pessoas em grego. Veja-se esta significativa pas- contra Roma. Inclusivamente, no número que na Bíblia se chamaram Jesus, desde sagem do IV Evangelho: dois dos dis- dos Doze Apóstolos poderá ter havido um levita (2 Cor 31, 15), no reinado de cípulos de João Baptista, ouvindo o seu um desses: Simão, o Zelota (Mt 10, 4; Lc Ezequias (716-687 a. C.), e um repatria- mestre tratar Jesus por Cordeiro de 6, 15) ou Cananeu (Mc 3, 18). do da Babilónia (Esd 2, 5), no tempo Estranhamente ou não, já depois de Ciro (531-529 a. C.), rei persa, até da morte do Senhor Jesus e da reve- um descendente de David (Lc 3, 29) e lação de que Ele continuava existin- um colaborador do apóstolo Paulo (Cl do, a morte não O vencera (Ressur- 4, 11). Nome exclusivamente de pes- reição), naquela criação literária lucana soa, o que não acontece com Cristo que, do desaparecimento definitivo do no Antigo Testamento, nunca aparece Senhor Jesus (Ascensão) os discípu- como tal. E, no Novo Testamento, va- los ainda perguntavam: “Senhor é mos já ver como e por que se usa Cris- agora que vais restaurar o Reino de to como, supostamente, o nome pes- Israel?” (Act 1, 6). E foram os cris- soal do Senhor Jesus. tãos helenistas, nomeadamente quan- C RISTO deriva do adjecti do a primitiva Comunidade dos dis- vo grego Christós/ê/ón que, por sua vez, vem do Designações bíblicas do Senhor Jesus verbo chriô cujo significado é “ungir”. Designação Cristo, em grego, é pois, aquele que foi Jesus Cristo Senhor Jesus Senhor Jesus Nosso Senhor Jesus de ungido, que recebeu a unção própria dos Jesus Cristo Cristo Jesus Cristo Nazaré reis e dos sacerdotes. Na Bíblia usa-se Autor cristo para traduzir o hebraico mašiah Marcos 71 6 1 4 - - 3 ou o aramaico mešiha, donde nos veio Mateus 159 12 - 1 - - 4 o termo “messias”. Com este termo de Lucas “messias” se designa no Antigo Testa- Evangelho 92 12 1 - - - 3 mento todo o homem que foi consa- Actos 30 8 12 16 4 2 6 grado a Deus por meio de uma unção João 242 17 - 3 - - 3 (reis e sumos sacerdotes) ou também, Paulo 20 226 9 222 2 5 - que foi especialmente escolhido por
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    6 espiral cípulos do Senhor Jesus se separou do Ju- daísmo, e porque menos ligados à tradi- VII Encontro Mundial ção judaica, que passaram a usar Cristo como segundo nome próprio de Jesus. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, das Famílias os discípulos começaram a ser tratados Reflexão de Mons. Bruno Forte pelo nome de “cristãos” (Act 11, 26). Tal- que participou do encontro das vez pudessem ter vindo a ser denomina- famílias, em Milão, com uma nu- dos “jesuânicos”. Mas não. Os eventuais merosa delegação. “jesuânicos” passam a ser “cristãos”, e o eventual “Jesuanismo” deu-nos o Cristia- B ento XVI concluiu, em Mi nismo, para o que contribuiu não pouco lão, o VII Encontro Mundial o apostolado paulino (Veja-se, por exem- das Famílias com o tema “A plo: Rm 6, 4.8-9; 8, 17; 1 Cor 1.12- família, o trabalho, a festa, que decorreu 13.17.22-24). Pelo Quadro seguinte po- de 30 maio a 3 junho de 2012. demos ficar sabendo como o Senhor Je- Trata-se de um evento com uma sus foi nomeado nos Evangelhos, nos mensagem forte e atual. Para entendê- Actos e em Paulo. Nos primeiros, predo- lo, parto de algumas frases da carta que mina o nome Jesus: 594 vezes, contra ape- o Santo Padre enviou para a nas 20 em Paulo. Cristo: só 55 vezes nos convocatória: “Nos nossos dias, a or- Evangelhos e Actos e 226 em Paulo. ganização do trabalho, pensada e atuada Concluindo: Jesus e Cristo são a em função da concorrência de merca- mesma pessoa. Mas quem? Homens de do e do máximo lucro, e a concepção Israel, escutai estas palavras: Jesus de da festa como ocasião de evasão e de Nazaré, Homem acreditado por Deus consumo, contribuem para desagregar junto de vós, com milagres, prodígios e a família e a comunidade e para difun- sinais que Deus realizou no meio de vós dir um estilo de vida individualista. Por tes e jovens podem aprender a amar a por seu intermédio… Deus ressuscitou- isso, é necessário promover uma refle- Deus e ao próximo, e os idosos, raízes o, libertando-o dos grilhões da morte xão e um compromisso que visem con- preciosas, podem à sua vez sentir-se pois não era possível que ficasse sob o ciliar as exigências e os tempos de tra- amados. A família é, assim, sujeito ativo domínio da morte (Act.2,22-24), pro- balho com aqueles da família e recupe- no caminho da comunidade cristã e da clamou Pedro no dia do Pentecostes. rar o sentido verdadeiro da festa, espe- sociedade civil, não somente destinatá- Era esta a fé e a cristologia da primitiva cialmente do domingo, dia do Senhor e ria de iniciativas, mas protagonista do Comunidade Cristã. Assim, podemos dia do homem, dia da família, da co- bem comum em cada um dos seus com- afeiçoar-nos pelo nome Jesus como pelo munidade e da solidariedade.” ponentes. termo Cristo. Só que os resultados não Estas palavras subentendem uma alta Para que isso aconteça, o pacto con- serão os mesmos. Enquanto que, afei- visão do valor e do papel da família: os jugal, que é a base da família, deve ser çoando-nos pelo nome Jesus, constituí- esposos unidos no sacramento do ma- vivido de acordo com algumas regras mos uma como que relação pessoal e trimónio são imagem da Trindade divi- fundamentais: o respeito da pessoa do uma vivência mais íntima com Ele, as- na, do Deus que é amor e, por isso outro; o esforço para entender melhor sim como um mais eficaz compromis- mesmo, relação e unidade do Pai, que as suas razões; o saber tomar a iniciativa so com a Sua Mensagem; preferindo a eternamente ama, do Filho, que é eter- de pedir e oferecer perdão; a transpa- denominação Cristo já não é bem a re- namente amado, e do Espírito, vínculo rência recíproca; o respeito pelos filhos lação com a pessoa mas com a entida- do amor eterno. Nesta unidade como pessoas livres e a capacidade de de, e é mais fácil deixarmo-nos levar profundíssima cada um é si mesmo, en- oferecer a eles razões de vida e de espe- pelo formalismo e contentarmo-nos quanto acolhe totalmente o outro. À luz rança; o deixar-se questionar pelas suas com a aceitação de dogmas, de cânones, deste modelo, a vocação matrimonial é esperanças, sabendo escutá-los e dialo- de rituais e de tradições. Há muito por vista como unidade plena e fiel dos dois, gando com eles; a oração, com a qual aí quem encha a boca com “Cristo, Cris- comunhão responsável e fecunda de pedir a Deus a cada dia um amor mai- to, Cristo”, mas não seja capaz de, por pessoas livres, abertas à graça e ao dom or, buscando ser um para o outro, e jun- si, dar de graça – digamos – um copo da vida aos outros. tos, para os filhos, dom e testemunho de água a quem tem sede, como Seio do futuro, a família é escola de Dele. indubitavelmente faria o Senhor Jesus. vida e de fé, na qual crianças, adolescen- Um estilo de vida semelhante não é
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    l espiral 7 nem fácil, nem óbvio, e muitas vezes as viver o trabalho, por um lado cheio de miliar" (aniversários, onomásticos...), até condições concretas da existência ten- responsabilidade pela construção da casa celebrar fielmente como família o en- dem a enfraquecê-lo: pensemos na pos- comum (trabalhar bem, com consciên- contro com Deus no domingo, dia do sível fragilidade psicológica e afetiva nas cia e dedicação, qualquer que seja a tare- Senhor, encontro de graça capaz de pro- relações entre os dois e em família; no fa que se tenha); por outro lado, em es- duzir frutos profundos e surpreenden- empobrecimento na qualidade dos re- pírito de solidariedade para os mais fra- tes. Quem vive a festa, é estimulado a lacionamentos que pode conviver com cos, tutelar e promover a dignidade de exercitar a gratuidade, experimentando triângulos amorosos aparentemente es- cada um. Nesta luz, compreende-se ple- como seja verdadeiro que existe mais táveis e normais; no normal stress origi- namente como a falta de trabalho seja alegria em dar do que receber! A festa nado pelos hábitos e pelos ritmos im- uma ferida grave na pessoa, na família e nos ensina como amar seja viver o dom postos pela organização social, pelos no bem comum, e porque a segurança de si tanto nas escolhas de fundo da exis- tempos de trabalho, pelas exigências de e a qualidade das relações humanas no tência, quanto nos gestos humildes da mobilidade; pela cultura de massa vei- trabalho sejam exigência moral que deve vida quotidiana, aprendendo a dizer pa- culada pelos meios de comunicação que ser respeitada e promovida pelo indiví- lavras de amor e a ter gestos correspon- influenciam e corroem as relações fami- duo, começando pelas instituições e pe- dentes, que jorrem de um coração gra- liares, invadindo a vida da família com las empresas. to e alegre. mensagens que banalizam a relação con- A propósito da festa, por fim, deve- A negação da festa, especialmente do jugal. Sem uma contínua, recíproca aco- se evidenciar o quanto ela ajude ao cres- domingo, é por isso um atentado ao lhida dos dois, abrindo-se um ao outro, cimento da comunhão familiar: nascen- bem precioso da harmonia e da fideli- não poderá haver fidelidade duradoura do do reconhecimento dos dons rece- dade conjugal e familiar: e é significati- nem alegria plena: “A flor do primeiro bidos, que abraçam os bens da vida vo que esta mensagem ressoe por Mi- amor murcha, se não supera a prova da terrena, as maravilhas do amor recípro- lão, capital vital e laboral da economia e fidelidade” (Soren Kierkegaard). Torna- co, a festa educa o coração à gratidão e da produção do País. Apostar na famí- se então mais do que nunca vital conju- à gratuidade. Onde não há festa, não há lia fundada sobre o matrimónio e aber- gar o compromisso cotidiano em famí- gratidão, e onde não há gratidão, o dom ta ao dom dos filhos e esforçar-se para lia com as condições que o sustentem se perde! É necessário aprender, então, promover as condições de trabalho e no âmbito do trabalho e na experiência a respeitar e celebrar a festa, principal- de respeito para a festa, que ajudem na da festa. mente como tempo de perdão recebi- sua serenidade e crescimento, é contri- Cada trabalho – manual, profissio- do e doado, pela vida renovada pela buir para o bem de todos, livrando-se nal e doméstico – tem plena dignidade: maravilha agradecida, até se tornar ca- de lógicas muitas vezes redutivas e con- por isso é justo e correto respeitar cada pazes de viver os dias feriais com o co- fusas com relação ao seu valor de célula uma dessas formas, também nas esco- ração de festa. decisiva da sociedade e do seu amanhã. lhas de vida que os esposos são chama- Isso é possível, se começa-se da aten- É a mensagem que de Milão parte hoje dos a fazer pelo bem da família e espe- ção às festas que marcam o “léxico fa- para a Itália e para o mundo inteiro! cialmente dos filhos. Contribui para o bem da família tanto quem trabalha em casa, quanto quem trabalha fora! Claro, o trabalho apresenta muitas vezes aspec- tos de cansaço, que – segundo a fé cristã – o Filho de Deus quis fazer próprio para redimí-los e sustentá-los de dentro, como lembra uma página belíssima do Concílio Vaticano II: ele “trabalhou com mãos de homem, pensou com mente de homem, agiu com vontade de ho- mem, amou com coração de homem” (Gaudium et Spes, 22). Inspirando-se no Evangelho, é pos- sível, então, formar-se como homens e mulheres capazes de fazer do próprio trabalho um caminho de crescimento para si e para os outros, apesar de to- dos os desafios contrários. Isso requer
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    8 espiral A nova evangelização e os novos profetas da desgraça A reflexão é de Enzo Bianchi, se há em nós uma humanização que da qual fazemos parte: uma humanida- monge e teólogo italiano, prior e ocorre na sinergia entre a graça do Se- de já não cristã, mas que devemos ou- fundador da Comunidade de Bose, nhor – isto é, o Espírito Santo – e o vir nas suas manifestações mais impres- num artigo publicado na revista nosso espírito, então nós devemos sionantes e nos seus gemidos. Como Jesus, de agosto de 2012. testemunhá-lo, anunciá-lo a quem nos Igreja, devemos nos exercer a uma lei- J á está próxima a celebração do pede conta do nosso modo de viver, tura sábia da História, sem ceder à ten- Sínodo dos Bispos que irá refle dessa esperança que nos habita (cf. 1Pd tação de assumir posições defensivas, tir sobre o tema da evangeliza- 3, 15), dessa prática do amor que Jesus de encastelar-nos em cidadelas que for- ção de modo a poder dar indicações à nos pede para viver quotidianamente. çosamente contam com o número e Igreja universal, indicações que depois Então, é inútil procurar estratégias ou com os recintos: é fácil ceder a essa falta deverão ser concretizadas, traduzidas e táticas de nova evangelização, é pernici- de fé no Senhor da História, o Senhor realizadas de modo diferenciados e es- oso ter medo da nossa fraqueza devida amante dos seres humanos, o Senhor, pecífico nas diversas áreas culturais do a uma diminuição numérica, mas não de que "quer que todos os seres humanos mundo. No entanto, continua sendo ver- significado, é mundano esperar em um sejam salvos" (1Tm 2, 4), e se tornar dade que esse tema, quando é anuncia- retorno da cristandade tranquilizante dos profetas da desgraça, como advertia do como "nova evangelização", diz res- tempos passados. João XXIII há 50 anos atrás, no início peito sobretudo ao Ocidente europeu e Mas então o que devemos procurar, do Concílio. norte-americano, as terras de mais ou como devemos nos mover nesse êxo- Devemos ouvir para aprender, na menos antiga cristianização, terras em que do de uma terra que deixamos para trás consciência da autonomia da História e se viveu uma sólida pertença às Igrejas para nos dirigir rumo a uma margem na liberdade da humanidade que, no cristãs, mas que hoje – depois do fenó- que não conhecemos, mas que sabemos entanto, continua sendo querida por meno da secularização e do desencanto que é um horizonte habitado pela po- Deus, composta por pessoas cada uma religioso – estão contaminadas pelo in- tência de Jesus ressuscitado e vivo, à es- “criada à imagem de Deus” (cf. Gn 1, diferentismo. pera do nosso desembarque para iniciar 26): esse selo impresso por Deus em Nas últimas décadas, caíram as ide- um outro êxodo, para passar de êxodo cada ser humano, justo ou pecador, nun- ologias portadoras de uma esperança em êxodo até o reino? ca poderá falhar. Trata-se também de messiânica intra-humana, fracassou a Acredito que, acima de tudo, deve- não alimentar ingenuidade, de não ser transmissão da fé cristã pela geração que mos mudar a nossa atitude para com a desprovido de humanidade, mas capaz está desaparecendo às novas gerações humanidade em que estamos imersos e de discernir a presença do mal reconhe- que se assomam ao horizonte, tornou- cendo, porém, o caminho de humani- se muito fraco o anúncio do evangelho zação e de autocorreção do qual o ser como boa notícia aqui e hoje. humano é capaz, como nos recorda Eis, portanto, a urgência de repensar Christoph Theobald. as palavras de Jesus, que enviava os seus É nesse espaço em que a Igreja en- discípulos em missão no mundo inteiro contra o mundo na escuta e no diálogo (cf. Mc 16, 15), até as extremidades da recíproco que os cristãos munidos de terra (cf. Atos 1, 8), entre todos os po- uma fé madura, exercitada, pensada, di- vos e até o fim dos tempos (cf. Mt 28, zem e vivem o evangelho, acima de tudo 19-20). Isso na convicção de que o nos- como escola de humanidade, caminho so tempo, a contemporaneidade – o de humanização: cristãos que sabem único tempo que conhecemos ao viver despertar confiança naqueles que encon- imersos neles – é sempre um "momen- tram, naqueles dos quais se fazem pró- to favorável" para o anúncio da boa no- ximos; cristãos que sabem discernir nos tícia de Jesus Cristo, o único Filho de outros a fé humana que os habita e aos Deus e o autêntico homem. quais podem doar palavras, atitudes e No tempo oportuno ou não opor- ações que narram Jesus de Nazaré. tuno (eúkairos – Ákairos, cf. 2 Tm 4, 2), A crise de fé hoje, antes de ser crise página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: direccao@fraternitas.pt * blogue: http://fraternitasmovimento.blogspo
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    l espiral 9 Convocatória 33.º ENCONTRO NACIONAL Local: Seminário Redentorista Cristo-Rei, em Devesas (Vila Nova de Gaia) Tema: “A ESPERANÇA como fio condutor na narrativa Bíblica” Orientador: Pe. Rui Santiago, c.s.s.r. PROGRAMA ALOJAMENTO Dia 5 (sexta-feira) Diária por pessoa: 20h00 – Jantar, antecedido de - 37 • (quarto individual); acolhimento. - 30• (quarto duplo ou triplo). 21h15 – Apresentação do Dormida e pequeno-almoço: orientador e lançamento do tema. - 26• (quarto individual); - 21• (duplo ou triplo). de fé em Deus, é uma crise de confian- Dia 6 (sábado) - Refeição: ça humana, é a falta de confiança nos 8h30 – Pequeno – Almoço. – Almoço ou jantar: 10 •. outros, na vida, no futuro e, acima de 9h00 – Laudes. tudo, é fraqueza em acreditar no amor 9h45 – Plenário/Grupos. COMO CHEGAR (cf. 1Jo 4, 16). Apenas em um terreno 11h00 – Intervalo. O Seminário situa-se na rua Vis- tão humanizado e predisposto, Deus 11h30 - Plenário/Grupos. conde das Devesas, n.º 684, em Vila pode então realizar o que só Ele é ca- 13h00 – Almoço. Nova de Gaia. paz de operar: doar a fé, isto é, iniciar 15h00 – Plenário/ Grupos. É possivel obter a rota na uma relação com quem ouve a sua pa- 16h45 – Intervalo. Internet, na página maps.google.pt. lavra, que quem encontra Jesus Cristo, 17h30 - Plenário/Grupos. Ali, clica-se em «Obter direcções», porque “a fé nasce da escuta” (Rm 10, 19h00 – Vésperas. Eucaristia. escreve-se o endereço de origem e o 17). 20h00 – Jantar. do destino, e o programa traça o Então, a Igreja encontrará em seu li- 21h15 – Serão: partilha de vida. melhor percurso. miar aqueles que desejam e pedem para Tertúlia. ser introduzidos em Jesus Cristo, que INSCRIÇÕES pedem para se tornar o seu corpo atra- Dia 7 (domingo) Secretariado: Urtélia Silva vés do Batismo e da Eucaristia... Assim 8h30 – Pequeno-almoço. Rua Prof. Carlos Alberto Pinto de ocorre a geração em Cristo e na Igreja, 9h00 – Laudes. Abreu, 33, 2ºEsq. assim a evangelização se torna evento 9h45 – Plenário. 3040-245 Coimbra de encontro, de relação viva entre Deus 12h00 – Eucaristia, com ensaio Telefones 239 001 605; 914754706 e o ser humano: no tecido de relações prévio. (até às 21h15m) humanas quotidianas entre cristão teste- 13h00 – Almoço secretariado@fraternitas.pt munha evangelizador e o ser humano de hoje. A evangelização, de fato, sem- pre depende do testemunho pessoal de NOTA DE TESOURARIA: QUOTAS E SOLIDARIEDADE quem evangeliza: o evangelho, a boa 1. Ninguém é indiferente às neces- gue a quem precisa! Mandem o notícia só acontece no encontro, na re- sidades dos outros. comprovativo e dêem conhecimento da lação com uma pessoa. 2. Só é possível continuar a acorrer finalidade. Os homens e as mulheres de hoje a casos de verdadeira necessidade se 4. Também podem depositar na continuam a perguntar: Como viver? partilharmos também. Por isso, não es- mesma conta bancária o valor da quota Nós não lhes respondemos procuran- perem que lhes batam expressamente anual de sócio: 30 euros - casal; 20 euros do novos métodos mais refinados, não à porta. Decidam-se: partilhem com os - pessoa singular; ou contribuir para o respondemos com a expectativa de um outros através da Fraternitas. boletim «Espiral». percurso fácil: tentamos apenas viver a 3. Vão à caixa do multibanco mais 5. Contactem o tesoureiro fé e, portanto, despertar confiança, sem próxima e façam uma transferência Fernando Neves ter medo, porque o Senhor está con- interbancária para a conta n.º 0033 0000 Av. Nova, n.º 22 nosco, e quanto mais nos sentimos fra- 4521 8426 660 05. O montante depen- 3770-355 PALHAÇA. cos, mais opera em nós a sua força (2 de apenas da vossa consciência. A Di- Telefones 234 752 139; 968 946 913 Cor 12). recção da Fraternitas fará com que che- E-Mail: tesouraria@fraternitas.pt. ot.com * e-mail: secretariado@fraternitas.pt * página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: tesouraria@fraternitas.pt
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    10 espiral Igreja Ortodoxa na Rússia “O maior problema é o regresso do homem aos seus próprios valores” Versando a situação da Igreja na Rússia, Isabella Campbell-Wessig e Rudolf Schermann entrevistaram o padre or todo x o russo ANDREJ LORGUS, que es tudou Teologia e Psicologia. Fundou uma Faculdade de Psico- ortodox LOR ORGUS, estudou Teologia Fundou Faculdade Univerersidade Ortodox Russa Teólogo, Moscov Para logia na Univ er sidade Or todox a R ussa de S. João o Teólogo, em Mosco v o. Par a além de Psicologia, ensina Cristã Linguística Ortodox Também assegura assistência pastoral para Antropologia Cris tã e Linguís tica Or todo x a. Também assegur a a assis tência pas tor al a um Lar par a pessoas diminuídas mentais. Montou ali uma capela onde é celebrada missa uma vez por semana. Andrej Lorgus é casado e tem dois filhos adultos. Kirche In, p. Publicado em Kirche In , 12/2002, p. 26,27. Tradução de João Simão Kirche In: Sabe-se que existem do homem aos seus próprios valores, à KI: Como foi que chegou à sua atualmente tensões entre a Igreja or- sua consciência de ser humano, pois a fé e à sua vocação? todoxa e a Igreja católica romana. herança do passado é diametralmente L: Os meus pais não eram crentes, Em seu entender, qual é a causa des- oposta ao retomar desta consciência. mas alguns dos meus antepassados vi- sas tensões? Não são os valores económicos que nham de famílias sacerdotais. Porém, Lorgus: Sei que há de facto tensões e devem estar no primeiro plano, mas sim durante muito tempo não soube nada também leio o que sobre elas se escreve valores como amor, vida, saúde, fé, sa- disso. Os meus pais ocultaram esses fac- nos meios de comunicação. Mas na mi- ber. tos, já que era muito perigoso contar isso nha atividade, quer pastoral quer como às crianças. Foi só durante os meus conferencista, não me sinto minima- tempos de Universidade que me tor- mente afetado por elas. nei crente. KI: Na Rússia houve sempre uma KI: Como foi que lá chegou? ligação muito forte entre a Igreja e L: Foi um impulso interior, mas, o Estado. Pode-se dizer que a Igre- naturalmente, essa aproximação não ja ortodoxa é a Igreja do Estado? aconteceu de repente, cresceu lenta- L: De forma alguma. O Estado está mente. Provavelmente foi o amor à mais orientado para uma colaboração minha esposa, aos meus filhos. com a Europa e com as outras Igrejas, KI: Era possível, na clandesti- ao passo que, dentro da Igreja ortodo- nidade, ter acesso a literatura reli- xa, há um ambiente que rejeita essas ten- giosa? dências. Tanto a Igreja ortodoxa como L: A minha geração cresceu com o povo mantêm uma atitude de textos copiados. Quando descobría- ceticismo face à Europa. Subsistem ain- mos obras literárias, copiávamos os da no povo tendências nacionalistas livros e emprestávamo-los uns aos contrárias a uma abertura ao exterior. outros. Foi assim que, põe exemplo, li Há naturalmente um motivo psicológi- um romance de Soljenitzyn numa noi- co para isso, que assenta no facto de a te, porque tinha de restituir as folhas Rússia ser de tal modo grande que o KI: Estes valores foram atropela- no dia seguinte. resto do mundo quase desaparece da dos durante os setenta anos de regi- consciência das pessoas. me soviético? Houve células onde KI: Para viver no regime soviéti- eles tivessem podido sobreviver? co como homem crente era necessá- KI: Numa conferência em Viena, L: O regime conduziu à destruição ria uma grande dose de coragem. mencionou a existência duma crise total destes valores todos. Mas, realmen- Qual era o perigo que se corria sen- antropológica na sociedade russa. te, também existiram essas células, for- do crente? Em que consiste essa crise? madas por personalidades e famílias in- L: Os meus amigos e eu dissemos L: O maior problema é o regresso dividuais. abertamente que tínhamos sido
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    l espiral 11 batizados. A consequência foi a nossa expulsão da Juventude Comunista. Além disso, foi-nos instaurado um processo, que, aliás, não chegou a ser concluído. KI: Há hoje na Rússia sinais de crescimento religioso na sociedade? L: A renovação religiosa é um pro- cesso muito trabalhoso e difícil. No en- tanto, não se podem ignorar os sinais de crescimento. Qualquer visitante pode ver que, na Rússia, por toda a parte igrejas e conventos estão a ser recuperados e isto apesar de o povo viver com extremas dificuldades. As pessoas partilham da seguinte opinião: mesmo que passemos mal, queremos que, ao menos na Igreja, as coisas estejam bem. disciplina não é nem de religião nem de de afluência aos estabelecimentos de ética. A Igreja tem vindo a reclamar ensino eclesiástico, mas a escassez de pa- KI: Qual é a relação dos jovens constantemente um ensino religioso pro- dres é, apesar disso, muito grande. Tal com a Igreja? priamente dito, mas esbarra com a opo- situação pode explicar-se tendo em aten- L: Eu não posso julgar a atitude dos sição dos funcionários educativos e tam- ção que a pastoral ainda está em fase de jovens em geral face à Igreja, mas estão bém duma grande parte dos intelectuais estruturação. Temos hoje cerca de 20.000 muito bem representada na Igreja. russos. Quando o Patriarca uma vez se paróquias, mas precisaríamos de 200 mil. manifestou publicamente sobre o tema KI: A Igreja russa tem muitos con- do ensino da religião, levantou-se na im- KI: A Igreja ortodoxa russa foi fessores e mártires. Qual é a atitude prensa uma verdadeira campanha de sempre fortemente clerical. Existe da Igreja a respeito deles e das ten- oposição, na qual cientistas e intelectuais alguma coisa como um despertar dos sões que surgiram entre os confes- assumiram um tom muito ofensivo para leigos? sores e aquelas pessoas que pensa- com a religião. L: Uma exigência do género da ram que seria melhor entrar em com- “Nós Somos Igreja” ninguém a faria na promissos com o regime? KI: Pode-se dizer que também na Rússia. Mas os leigos são bastante ativos L: Tais tensões não são particular- Rússia há uma intelectualidade for- e conscientes. Ao envolverem-se nas mente percetíveis, elas existem mais no te entre os fiéis da Igreja ortodoxa? questões eclesiais e religiosas, o seu prin- subconsciente. Foram cononizados mi- L: Há uma forte intelectualidade or- cipal desejo não é alcançar protagonis- lhares destes mártires e praticamente to- todoxa. Na era soviética os intelectuais mo, mas antes sublinhar que pertencem das as Igrejas têm os seus próprios már- eram seguramente mais cristãos do que à Igreja. tires, muito venerados sobretudo local- o restante povo. mente. Há uma comissão específica que KI: E como é a tensão entre po- ainda hoje acrescenta vários nomes à lis- KI: Como é o envolvimento soci- bres e ricos? ta dos mártires. al da Igreja russa? L: Nos últimos dez anos a Igreja tem L: Há princípios orientadores de um vindo a fazer boas experiências no tra- KI: O que é que se passa com o envolvimento desta natureza, mas ainda balho com os pobres. Mas é muito difí- ensino religioso na Rússia? faltam forças em toda a parte para levar cil chamar os ricos à razão, quando o L: Nas escolas estatais ainda não há as coisas por diante. Atualmente a ação dinheiro lhes subiu à cabeça. No entan- ensino religioso, mas esperamos chegar social da Igreja ortodoxa cinge-se so- to, também há pessoas ricas que desco- lá. Há, no entanto, iniciativas de direções bretudo às prisões e aos lares de crian- briram o caminho da Igreja e se mos- de algumas escolas a disponibilizarem o ças e de idosos. tram dispostos a reaprender a humilda- ensino da religião como disciplina de de. Eu concordaria com a frase do bis- opção livre. Aliás há uma matéria para KI: E como é com a falta de pa- po latino-americano Dom Helder Câ- todos os alunos onde são ensinados os dres na Rússia? mara: “Queremos libertar os pobres da fundamentos da cultura russa. Mas esta L: Verifica-se hoje em dia uma gran- pobreza e os ricos do egoísmo.”
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    12 espiral SOLIDARIEDADE SOLIDARIED ARIEDADE | P.Ta Malmequeres, 4 - 3.º Esq | 2745-816 QUELU Z | E-mail: fernfelix@gmail.com COM D. JANUÁRIO TORGAL FERREIRA D. TORGAL FRATERNIT TERNITAS MOVIMENTO, A Associação FRATERNITAS MOVIMENTO, atr avés de associados seus, manif es ta solidariedade par a com D. Januário T. F erreir a, atra manifes esta para T. Ferreir erreira, a propósito da sua intervenção numa entrevista a uma rádio portuguesa, em julho de 2012. «Amigos, só vi a notícia na TVI. Conheço o Sr. D. Januário e sei que não é homem com «Estou inteiramente de acordo com as palavras do nosso interesses políticos. É um homem da Igreja, um homem bom, irmão J. S. sobre o significado da incómoda intervenção do Boletim de Fraternitas Movimento | Trimestral | honesto, com sensibilidade humana aos problemas dos ho- Sr. D. Januário. A este eu desejo manifestar a minha solidari- QUELU mens. Vive com preocupações com este estado de coisas. Vê edade pela coragem, oportunidade e simplicidade com que mais do que eu. E sente-se angustiado com o rumo que as nos faz chegar a linguagem de Jesus de Nazaré. coisas tomam. E os responsáveis calam-se, fecham os olhos, Esquecemos facilmente (bispos incluídos) que Jesus não não tem respostas... Mas nem ao menos se inquietam e não hesitou chamar "sepulcros caiados de branco" aos hipócritas inquietam as consciências deste país, se é que os políticos a e poderosos do seu tempo. têm. Nunca os verdadeiros profetas foram peritos em medir Vós estais muito mais dentro destes problemas que eu. palavras» Não se calem, não calem o movimento. Deixem que o Espí- A.C. rito fale, apoiem o Espírito que fala através dos profetas, «Estou plenamente de acordo com o A.C.. Só se ame- que são incómodos...E é de lamentar se os bispos já se vie- drontam aqueles que não têm consciência das preocupações ram demarcar de D. Januário. Lamento. Os bispos usam o da Igreja pelos mais castigados da sociedade. E talvez tam- solidéu, mas aquilo é só ornamento, adereço, de resto vivem bém aqueles a quem não falta o pão, mesmo arrancado das amedrontados(…). mãos de quem o fabricou com muito suor e amor.» Por favor, ponham o movimento a andar, esclareçam os M. P. sócios, animem-nos, estimulem-nos. Eu apoio-vos se é para animar o Sr. D. Januário.» «Respondo a esta missiva. Ouvi com muita atenção a de- Um abraço., núncia profética do senhor D. Januário no famigerado pro- J.S. grama da TVI. Estou com ele, porque ele foi a voz do Espí- rito, a voz de alguém que profeticamente exerce a sua mis- P.Ta são de homem da Igreja que vive os problemas e as angús- tias de tantos irmãos pobres, desprezados e humilhados por uma desgovernação vergonhosa, marcada pela insensibilida- Redacção: Fernando Félix de e pela astúcia de alguns políticos que se "governam", mas não governam. O aparecimento do senhor Ministro da De- fesa a meter-se no assunto e a tentar virar a opinião pública contra o Bispo Profeta que, à semelhança de Amós, denun- cia os erros dos governantes, fez-me recuar a meados do século passado e reviver o que, então, foi feito ao saudoso Bispo do Porto senhor D. António Ferreira Gomes a quem o poder político, então vigente em Portugal, desterrou para Roma por ter tido a coragem de dizer ao governante Salazar que era preciso mudar de políticas. E, então como hoje, a Conferência Episcopal reverentemente calou, consentiu, não «Estou com a proposta do Joaquim Soares e dou a mi- levantou a voz e os senhores Bispos continuaram a ter mor- espiral nha adesão ao D. Januário Torgal, congratulando-me por ter domias e honrarias. Será que agora se está a preparar algo de levantado a sua voz exprimindo a angústia que sofre o nosso semelhante? O senhor D. Januário tem razão nas denúncias Povo com as políticas que estão a ser implementadas e de- que faz. Não ofendeu ninguém, a não ser aqueles a quem a nunciar os aproveitamentos pessoais que ocorrem neste "pân- consciência acusa de maldade, porque a verdade incomoda. tano" de desolação, penúria e miséria.» Ao senhor D. Januário é devido todo o apoio nesta sua mis- Parabéns D. Januário, estamos consigo» são de denúncia das injustiças, venham elas de onde vierem.» E.J. J.M.