Velocidade: Um conceito complexo e multidimensional

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Dependendo do período da aplicação das cargas (adaptação – competição – transição) a efetividade
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Velocidade: Um conceito complexo e multidimensional

  1. 1. Velocidade: um conceito complexo e multidimensional Marcio Faria Corrêa A força é a capacidade básica para a catalogação das demais capacidades condicionais. Os movimentos cotidianos do ser humano e a efetividade para o desempenho desportivo são baseados em suas diferentes manifestações. O tipo de manifestação se alterna ou diferencia de acordo com as exigências de cada esporte. A tendência para competir ou treinar pode ter como referência a manifestação máxima de força, rápida ou resistida. Há ainda modalidades que dependem dessas contrações alternando-se durante os exercícios de treino e competição. A principal ideia a discutirmos nesse texto será a busca do desempenho desportivo a partir do conjunto de fibras musculares específicas que reagem aos estímulos eferentes de forma veloz ou explosiva (velocidade de movimentos de um jogador de futebol). Contração essa que determina a qualificação da velocidade de deslocamentos e da maioria dos aspectos técnico-táticos inerentes ao jogo. Segundo GODIK e POPOV (1999) A velocidade no futebol se expressa de diversas formas. SCHMID e ALEJO (2002) citam que a velocidade é algo mais complexo do que correr o mais rápido possível. A velocidade no futebol inclui rapidez, tiros curtos, movimentos rápidos em todas as direções, a habilidade de reagir e parar rapidamente e o tempo de reação. A velocidade para jogar futebol deve ser uma combinação de rapidez, força e excelente resistência. HARRE e HAUPTMANN, citado por ACERO (2000), definem a velocidade como uma capacidade psicofísica que se manifesta por completo em ações motrizes, onde o rendimento máximo não seja limitado pelo cansaço. GROSSER, citado por ACERO (2000), define a velocidade como a capacidade de conseguir, por meio de processos cognitivos, a máxima força volitiva e funcionalidade do sistema neuromuscular, uma máxima velocidade de reação e de movimento em determinadas condições estabelecidas. Concluímos dessa forma que no futebol raramente a força (rápida e resistente) se manifesta de forma simples, ou seja, cada movimento dessa modalidade desportiva requer ações absolutamente complexas com bases técnicas e ações especificas. No caso do futebol, a caracterização da força rápida (deslocamentos em velocidade) foge ao conceito clássico que provavelmente todos nós professores de educação física aprendemos quando iniciamos o curso. Normalmente na faculdade a grande maioria dos exemplos citados é oriunda do atletismo, onde os autores de forma simplificada citam a seguinte ideia para o trecho de 100 metros na prova de velocidade: “Nesta prova a velocidade é exigida ao extremo e atletas adaptados em bom nível são capazes de acelerar entre 0 a 60 metros, manter o ritmo da velocidade entre 60 e 80 e começar a desacelerar a partir dos 80-100 metros”. Se você leitor, for somente fã de futebol e está acostumado a observar partidas mesmo sem nunca
  2. 2. ter pensado em qualquer tipo de análise científica, tenho certeza que jamais deve ter visto qualquer jogador executar um “tiro” de 100, 200, 300 metros ou mais, de forma contínua e com o objetivo de buscar a velocidade linear em seu máximo desenvolvimento. Através da interatividade que o mundo moderno nos proporciona, facilmente poderemos obter dados e resultados positivos bastante evidenciados por treinadores e cientistas do esporte. Esses profissionais por sua vez, em sua maioria, fundamentam que o treino de futebol deverá conter caraterísticas específicas de velocidade individual, assim como, a velocidade das ações de jogo a qual é dependente do sistema tático e estratégico elaborado de acordo com os objetivos de funcionamento do conjunto da equipe. Formatar padrões metodológicos que produzam eficiência passa a ser muito claro quando analisarmos didaticamente a combinação entre as ações técnicas, a movimentação tática, a estratégia de jogo e as distâncias percorridas durante uma partida. Mesmo assim, por incrível que possa parecer ainda encontramos alguns profissionais que militam na preparação de futebolistas e que dispensem essas tendências e insistem em embasar seu “conhecimento” unicamente na própria experiência e sustentam para o treino de futebol idéias de outras modalidades, que na maioria das vezes apresentam pouquíssima relação com a base lógica da proposta que buscamos descrever até aqui. O “NOVO” ÀS VEZES CONFUNDE E ASSUNTA. Uma das reflexões recompensadoras que tive nos últimos anos, foi essa frase que tive a oportunidade de citar em vários eventos que participei. Simples e lógica: “- Para se jogar o futebol eficiente, precisamos essencialmente qualificar a forma de treinar. Subir montanhas, rampas, escadas, saltar e acelerar na areia ou em outro local que não seja um gramado plano passa a ser um abuso à lógica do jogo e do treinamento de futebolistas. Nenhuma dessas ações ou locais citados traz qualquer essência de especificidade ou fazem parte de uma partida de futebol”. Felizmente os novos conceitos do treinamento de velocidade (manifestação rápida da força nas ações técnicas ou deslocamentos específicos de jogo) estão gerando um consenso produtivo entre o meio acadêmico e o prático. Destaco abaixo alguns pontos importantes sob os quais devemos refletir antes de começarmos a montagem dos processos metodológicos de treino dessa capacidade. Velocidade de percepção: Perceber as situações correntes do jogo e modificá-las o mais rápido possível, isso poderá ocorrer com bola ou sem que se toque nela. Velocidade de antecipação: Capacidade de adiantar-se ao movimento do adversário ou do desenvolvimento do jogo. Velocidade de decisão: Algumas jogadas não são realizadas não por falta de habilidade, mas sim por falta de decisão. Isso mostra que não é suficiente somente perceber algo, mas sim decidir rapidamente e objetivamente a ação subsequente. Velocidade de reação: Fintar, reagir às fintas, saídas rápidas em espaços vazios, recuperar bolas mal passadas, bolas que desviam sem intenção, etc.
  3. 3. Velocidade de movimento sem bola (cíclico e acíclico): Deslocamentos repetidos em aceleração em espaços amplos para busca de melhor posicionamento ou movimentos em pequenos espaços compostos por ações isoladas com fintas, etc. Velocidade de ação com bola: Inclui os componentes coordenativos e técnicos do futebol. Essa manifestação de velocidade tem por base a percepção, antecipação, decisão e reação. A qualidade elevada da técnica do esporte facilita essas ações, pois permite a condução qualificada da bola. Velocidade de habilidade: É a forma mais complexa da manifestação da velocidade. Não é definida somente pelas ações energéticas e musculares, mas também pela condição de exercer as habilidades, codificar o raciocínio e compreender o jogo em sua totalidade. AS DISTÂNCIAS PERCORRIDAS: QUALIFICAÇÃO E QUANTIFICAÇÃO A evolução tecnológica vem simplificando a mensuração de maioria dos itens relacionados ao desempenho. Uma linha de equipamentos inovadores surge a cada ano e quando utilizados corretamente nos ajudam a determinar os objetivos do treino e a entendermos os resultados efetivos de nossas equipes. Uma boa filmagem, alguns aparelhos GPS, acelerômetros, fotocélulas, plataforma de salto, medidores de potência, programas adequados no computador e algumas conversões numéricas ou gráficas de imagens nos permitem mapear com muita clareza detalhes importantes sobre o consumo energético das ações musculares e paralelamente codificar cada espaço percorrido. (forma – velocidade – distância fragmentada e volume total). ANÁLISE DAS DISTANCIAS PERCORRIDAS Transcrevo abaixo a média de dados convergente publicados por vários autores sobre as distâncias praticadas por futebolistas de elite em uma partida. Segundo (Mohr, Krustrup e Bangsbo, 2003; Randers, Jensen e Krustrup, 2007 Thatcher; Batterham, 2004; Zubillaga et al., 2007; Barros et al., 2007; Bradley et al., 2009 e Braz, 2009). A variação das distancias está situada entre 9,1 até 11 km, no qual os jogadores de meio campo são responsáveis por uma movimentação que chega a 11 km, os defensores 9,6 km, e os atacantes 10,5km. Seguindo um protocolo de um teste de velocidade de 30 metros, utilizando células fotoelétricas para detectar a passagem em velocidade, Coelho et al. (2011) analisou a “sprints ”de 10, 20 e 30 m. nas diferentes posições e concluiu que os atacantes nos 10 primeiros metros chegaram a 21,9 km/h, em 20 e 30m chegaram a 31,6 e 26,6 km/h respectivamente; os defensores (zagueiros e laterais) alcançaram 21,3 km/h, 31,8 km/h, 27,9 km/h nos 10, 20 e 30 m respectivamente, os meios campistas 22,3 km/h, 31,4 km/h, 26,6 km/h nos 10, 20 e 30 m respectivamente. Essa análise quantitativa do desempenho deverá estar sempre atrelada a outros dados, pois isoladamente não demonstra o entendimento da qualidade do futebol praticado. Precisamos sempre unir a avaliação quantitativa às observações qualitativas, ou seja, se pensamos em velocidade, precisamos entender de que forma foi executado o movimento e a efetividade dessa ação em relação ao jogo. As distâncias avaliadas acima passam também a sustentar a grande diferença de métodos de
  4. 4. treinamento entre o futebol e outras modalidades. Muito diferentemente das provas cíclicas do atletismo, (100, 200, 400, 800, etc.) um jogador de futebol não utiliza esse formato de tiros em velocidade durante uma partida e consecutivamente não requer treiná-los. ACESSO METODOLÓGICO As estratégias modernas para o treinamento de força-velocidade no futebol são bem simples e de fácil acesso na literatura. São elas: jogos, atividades de confrontos em superioridade numérica, exercícios com transferência (barras com alteres e cintos de tração) movimentação técnica com bola, situações táticas (transições variadas) com ou sem a bola. Exercícios são fáceis de reproduzir, copiar é algo que um leigo normalmente poderá fazer. O que diferencia o sucesso de um profissional será a base científica que a partir do conhecimento deverá ser o foco na aplicação dos itens descritos acima. Dependendo do período da aplicação das cargas (adaptação – competição – transição) a efetividade das mesmas deverá estar diferenciada através do tempo de duração dos exercícios, características dos métodos e complexidade tática. Podemos distinguir treinos de força-velocidade basicamente em três tipos: 1- Velocidade de descolamento sem a bola em busca de espaço para recepção da mesma com a inclusão de algum gesto técnico que dê sequência de jogo ou itens de finalização. 2- Recrutamento prévio das fibras através de sobrecarga externa (barras, cintos de tração) seguidos de exercícios de disputas e “sprints” em distâncias variadas. (5,10,15, até 40 metros) 3- Requerer velocidade diretamente relacionada com a habilidade individual contra um ou vários oponentes. Evidenciamos que os aspectos técnicos e táticos tornaram-se uma tendência dominante e irrevogável nos padrões modernos da preparação desportiva. E realmente seu peso é justificado. Se analisarmos friamente, qual função teria o desenvolvermos a capacidade de acelerar ou mesmo uma ótima potência para saltos no cabeceio, se o futebolista não conseguisse utilizar esses gestos em situações adequadas do jogo? O treino deve potencializar o jogador exclusivamente para as situações reais de disputa. “Treino é Jogo, Jogo é treino”. ACESSO PSICOLÓGICO E SOCIAL A auto exigência de um comandante é algo maior do que ele poderá exigir de seus comandados. Todas as pessoas podem dar ordens, mas nem todas tem o dom ou se capacitam para fazer alguém seguir o seu comando. Não vou discorrer com profundidade sobre esse tema, pois o foco final não é esse (embora força tenha sentido amplo e não somente venha da mecânica dos músculos), mas tenho que descrever alguns pontos importantes, pois a motivação e credibilidade dos que cumprem as orientações dos que comandam deve existir senão não haverá sucesso. Vou direcionar os sete pontos abaixo (desafio diário) exclusivamente a linguagem que utilizo com grupos de jogadores de
  5. 5. futebol. 1- Criar um pacto de confiança mútua; 2- Manutenção do grupo unido; 3- Técnicas de suprimir o cansaço psicofísico; 4- Compartilhar a dor das derrotas e revertê-la em gana por vitórias. 5- Manter o equilíbrio e a simplicidade com o sucesso. 6- Nunca esquecer o foco do trabalho; 7- Jamais desistir antes do final do jogo. Comandante: Não se esqueça de criar, rever conceitos, atualizar o conhecimento, viver longe das dúvidas e nunca deixar o comando fraquejar. A LINGUAGEM DA INTERATIVIDADE Atualmente as pesquisas originais publicadas em livros e revistas passaram a dividir espaço com uma enormidade de fóruns que circulam na internet e que são capazes de acelerar positivamente a forma de buscar conhecimento. Esses mecanismos estão à disposição de quem souber recorrer às palavras chaves para uma boa busca. Inclusive muitos desses espaços virtuais oferecem “Download”, onde encontramos programas para controle de treinamento, quadro de exercícios, debates sobre temas, comparativos sobre equipes, dados de jogadores, formatação de jogos dedicados ao treinamento e muito mais. A necessidade de interatividade entre profissionais e estudiosos passou a ter um lugar marcante na vida dos que não querem perder o “trem” para o futuro. REFLEXÃO FINAL: RETORNANDO A NOSSA VIAGEM Quando o assunto é força aplicada ao contexto do futebol, observamos que tal capacidade se relaciona diretamente com os movimentos rápidos do andamento do jogo com os gestos decisivos (sprint, chute, saltos, drible) que normalmente determinam o resultado da partida. Força e velocidade são duas manifestações do mesmo componente, ou seja, NEUROMUSCULAR. A força gera velocidade e a velocidade depende da qualificação da contração muscular. A Força no futebol é interativa, nunca se manifesta de forma pura. BIBLIOGRAFIA: ACERO, R. M. Velocidad en el fútbol: aproximación conceptual. In: Revista Digital, Buenos Aires, ano 5, n. 25, set. 2000. BARROS, R. et. al. Analysis of the distances covered by first division Brazilian soccer players obtained with an automatic tracking method. Journal of Sports Science and medicine, n.6, p. 233-242, 2007. BRADLEY, P. et. al. High-intensity running in English FA Premier league soccer matches, Journal of Sports Science, v. 27, n. 2, p. 159-168, 2009. BRAZ, T.V. Modelos competitivos da distância percorrida por futebolistas profissionais: uma breve revisão. Revista Brasileira de Futebol, v. 2, p. 2-12, 2009.
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