Ritos e costumes da cavalaria medieval

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Ritos e costumes da cavalaria medieval

  1. 1. Ritos e costumes da cavalaria medieval REGINA SCHÖPKE O período histórico que convencionou-se chamar de Idade Média (entre os séculos V e XV de nossa era) foi profundamente marcado pelo espírito gregário. A existência de um espaço destinado ao indivíduo e à sua própria solidão era algo praticamente desconhecido neste mundo de relações tão estreitas. Um homem, quer fosse ele um representante das camadas mais humildes ou o mais ilustre dos cavaleiros, estava necessariamente fadado a uma convivência constante, quase permanente com o grupo ao qual pertencia. De fato, o engenho medieval suscitou incessantemente o nascimento de comunidades, grupos e associações, considerando como graves pecados o orgulho e a soberba - ou seja, tudo aquilo que pudesse colocar um indivíduo numa posição de destaque com relação ao seu grupo. Essa era, sem dúvida, uma sociedade que se fundamentava em "ordens" e em "corporações", levando seus integrantes a uma intensa e compulsória sociabilidade. Não havia espaço para a afirmação individual; existia-se em função de um grupo e pelo grupo. O indivíduo solitário aparecia assim como uma espécie de pária, do qual devia-se sempre desconfiar e ao qual não se conferia o mesmo estatuto dos outros homens (não é sem motivos que as legislações medievais não consideravam como grave delito abordar violentamente ou roubar transeuntes desacompanhados nas estradas). Mas, a que se deve este tipo de sentimento que fez sucumbir até mesmo o cavaleiro - cujo maior e natural desejo era o de sobressair-se diante dos demais integrantes de seu grupo? Como a instituição da cavalaria conseguiu unir o sonho gregário do cristianismo com o ideal guerreiro de uma afirmação pessoal? Quanto à primeira pergunta, diríamos que dois foram os fatores que contribuíram decisivamente para a formação dos grupos ou das irmandades no Ocidente medieval: I - a instabilidade e o temor provocados pelas constantes invasões (especialmente pela ameaça dos mouros) e pela desintegração territorial que seguiu-se à decadência de Roma; II - a influência do espírito cristão, que apresentava-se com extraordinária força neste período. É evidente que as concepções religiosas fundamentavam - implícita ou explicitamente - quase todos os costumes daquela época, mas foi realmente uma necessidade concreta de auxílio e de proteção que levou os homens a unirem-se de modo tão estreito. Aqueles que podiam oferecer maiores vantagens podiam contar inclusive com uma proteção armada - o que significa dizer que um nobre suficientemente abastado poderia dispor de um séquito de cavaleiros que garantiam a sua segurança e, até mesmo, o tornavam capaz de impor-se aos menos poderosos. Em outras palavras, a cavalaria era - ao menos inicialmente - o braço armado dos senhores de terras, garantindo o seu poder. Mas, é preciso que se diga que o próprio cavaleiro foi, paulatinamente, conquistando seu direito ao título de nobreza; e será a partir disso que a sua imagem sofrerá modificações significativas. Tendo surgido como "polícia privada", temida por seu comportamento violento e por sua índole sanguinária, a cavalaria passará a ser - por volta dos séculos XII e XIII - representada como uma "ordem", uma "irmandade" bem organizada (cujas regras chegarão a ser tão rígidas quanto as de qualquer ordem monástica). É claro que, sendo herdeiros dos velhos guerreiros germânicos, os cavaleiros (mesmo cristianizados) opunham alguma resistência à idéia de se tornarem simples membros de um grupo. Mesmo a "ética dos iguais" (ética guerreira, por excelência) só dizia respeito aos componentes de um mesmo grupo e não intervinha na relação entre grupos rivais. No geral, os cavaleiros estavam sempre medindo as suas forças em justas e embates pessoais. Até porque o termo "cavalaria"
  2. 2. abarcava um contingente humano tão díspar e tão fragmentado quanto o próprio território europeu. Mas, com uma certa relativização, podemos dizer que a cavalaria, sobretudo depois do século XII, converteu-se realmente em uma instituição de fato - e com regras de ingresso bem definidas. Quanto à segunda questão, nada nos faz crer que o cavaleiro tenha conseguido unir de modo tão indissociável ideais tão contrários como o de viver sob a égide de um grupo soberano e o de afirmar-se como indivíduo diante do mundo. Mas, a despeito destas contradições tão evidentes, o cavaleiro firmou-se no cenário medieval (sobretudo, no período feudal) como legítimo representante dos ideais gregários. Afinal, como dissemos, a sobrevivência individual estava atrelada e mesmo determinada pela sobrevivência do grupo. Mas, quem era, afinal, o cavaleiro da Idade Média? Que tipo de homem estava apto a pleitear o seu ingresso neste universo armado? Para começar, existe uma diferença bastante profunda entre os antigos guerreiros germânicos e os cavaleiros medievais: entre os primeiros, todo homem era, em princípio, um guerreiro; já entre os medievais, somente tornavam-se cavaleiros os indivíduos que pertencessem à aristocracia. Sabe-se de casos isolados em que o cavaleiro provinha de segmentos mais humildes da sociedade, mas, no geral, eles eram oriundos de uma média aristocracia. De qualquer maneira, depois do século XIII, apenas os nobres de nascimento podiam realmente ser sagrados cavaleiros. Sobre a introdução do aristocrata no mundo das armas, ela dava-se muito cedo. Ainda na infância, por volta dos sete anos, o menino abandonava a convivência feminina e a casa paterna para tornar-se protegido de algum senhor mais poderoso - que deveria proporcionar-lhe o ensino do manejo das armas e das técnicas militares. Enquanto aprendia seu ofício e aguardava o momento de tornar-se cavaleiro, o jovem já fazia parte de um grupo, juntamente com seus muitos colegas. Uma vez sagrado cavaleiro, ele encontrava-se inexoravelmente ligado por fortes laços de fraternidade aos seus companheiros de armas, constituindo com eles uma espécie de "família artificial" - à qual deveria estar ligado até o fim de sua vida guerreira. Mas, o jovem aristocrata só se tornava, de fato, um legítimo homem de armas no momento da investidura - ritual através do qual ele era sagrado cavaleiro, recebendo seu armamento. O rito de iniciação deste aspirante à vida guerreira (ritual proveniente da cultura germânica) era presidido por um cavaleiro bastante experiente (o padrinho do novato), que deveria aplicar-lhe uma bofetada - como marca sensível de sua passagem da infância para a juventude (originariamente pagão, este ritual terminou por ser cristianizado, passando a identificar-se com o próprio batismo). Na verdade, o termo utilizado para designar este jovem, mal saído da adolescência, era "juvenis" ("juventus", no plural). Assim eram chamados os "cavaleiros andantes" das narrativas medievais - estes jovens solteiros que perambulavam pelo mundo em busca de aventuras heróicas e de torneios onde pudessem demonstrar o seu valor. Mas, estes "moços" nem sempre eram tão jovens quanto se poderia pensar, já que este termo era utilizado para denominar todos os cavaleiros que ainda não estavam estabelecidos, ou seja, casados e com terras. Uma longa mocidade podia ser o resultado desta vida nômade e desafiadora. Mas, como todos os demais, o cavaleiro também não ousava correr o mundo solitariamente. Ao contrário disso, ele vagava junto a sua mesnada, em busca de torneios, glórias e riquezas.
  3. 3. Seguindo em torno de algum jovem e rico senhor, os cavaleiros passavam quase todo o seu tempo correndo de cidade em cidade, à procura de competições onde pudessem conquistar o máximo possível de fama e de prêmios valiosos. Os tipos básicos de competição entre cavaleiros eram a justa e o torneio. A justa era uma competição travada entre dois cavaleiros, enquanto que o torneio consistia num enfrentamento que se dava entre grupos. É claro que estas atividades sangrentas não agradavam à Igreja - que resolveu intervir de modo mais direto contra este foco de violência inútil. Decididamente, a Igreja e a cavalaria não partilhavam dos mesmos ideais e pontos de vista. Mas, tal incompatibilidade não perdurará por toda a Idade Média. Isto porque, quanto mais a cavalaria se firmava como "ordem" no cenário medieval, mais as suas atividades eram deslocadas do terreno da simples vaidade pessoal para o âmbito do serviço à glória de Deus. As Cruzadas (expedições organizadas pela Igreja ou pela nobreza, com a finalidade de lutar pela libertação do Santo Sepulcro e da Terra Santa, sob domínio muçulmano) contribuíram para tal mudança de atitude ou, pelo menos, ajudaram a produzir a imagem do "cavaleiro de Cristo" - do cavaleiro desinteressado, que buscava apenas lutar e dar sua vida pelos ideais da cristandade. Do mito à realidade, o sonho da cavalaria cristã não impediu a subsistência dos hábitos guerreiros mais arraigados. A própria situação dos jovens aristocratas não contribuía muito para modificar este quadro, já que a primogenitura fazia com que um enorme contingente deles se visse quase totalmente alijado da herança familiar. Para esses, não restava outra opção a não ser tentar "fazer nome e fortuna", através dos torneios e das façanhas guerreiras - que poderiam granjear-lhes um bom casamento (já que os dotes costumavam ser vultosos). As façanhas destes cavaleiros deram origem a um gênero literário específico, o romance de cavalaria, nos quais eram narrados os feitos heróicos deste grupo de armas para o público das cortes medievais (no qual encontravam-se grande número destes mesmos cavaleiros). Apesar de seus evidentes exageros, esses romances contribuíram também para a introdução dos valores cristãos na esfera cavaleiresca. Porém, o papel mais importante desempenhado por essa literatura foi o de constituir e difundir uma "imagem" idealizada do cavaleiro medieval - que é basicamente aquela que até hoje sobrevive no imaginário ocidental. Essa imagem, longe de um valor puramente ficcional, exerceu uma poderosa influência sobre o espírito dos cavaleiros, criando modelos de comportamento que eles próprios esforçavam-se para imitar. Regina Schöpke é graduada em Filosofia pela UERJ, mestra em História Medieval pela UFF e mestranda em Filosofia pela UFRJ. Já ministrou aulas de Filosofia na UFRJ.

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