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Com uma campanha avassaladora fizeram esquecer a dívida privada, a dívida da bancaao exterior, que em muitos países é supe...
atingiram esse patamar, virão cá para fora de boa-fé papaguear a pseudo-ciência quelhes foi ministrada.Os Nóbeis atribuído...
As reservas de divisas mundiais representam actualmente o equivalente a 9694 milharesde milhão de dólares (FMI, 31.03.2011...
Por sua vez, na União Europeia muitos dos países com dívidas públicas e privadas edívidas externas extremamente elevadas j...
diminuição dos salários e mais crédito para relançar o crescimento. Precisamente osvectores que estiveram na origem da cri...
agravando a procura solvente e o escoamento da produção. Hoje esta situação tende aagudizar o quadro social e as tensões s...
(6) Com a recente campanha americana sobre a crise europeia – veja-se, entre outras, arecente declaração (26.09.2011) de B...
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A luta ideológica em torno da crise

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A luta ideológica em torno da crise, Carlos Carvalhas

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A luta ideológica em torno da crise

  1. 1. A luta ideológica em torno da criseCarlos CarvalhasA crise do sistema capitalista que estamos a viver e que continua em desenvolvimentotem dado lugar a uma intensa propaganda e criatividade de linguagem para desviar opensamento das massas das verdadeiras causas da crise e fazê-las aceitar as falsasrespostas. A tese de que a crise teve origem na cupidez, na ganância, na ambição desmedida dealguns, e que hoje, sobretudo na Europa, ela é a consequência da dívida pública,continua a fazer o seu caminho.É certo que houve especulação e complacência dos Bancos Centrais, que a criserebentou em Agosto de 2007 e que começou no sector da habitação, que tomouproporções inesperadas para muitos e que a «inovação financeira» aumentou do «pontode vista agregado o risco na economia, colocando o sistema à beira do colapso». Mas acrise não resultou da ganância de alguns, nem da falta de regulação do sistema bancário,nem do «crescimento excessivo do endividamento», que alguns consideram o exemplomais recente e um dos mais notáveis do capitalismo na «dinâmica de expansão econtracção das economias. (1) Tudo isto se verificou. Mas são apenas as aparênciascasuais, os epifenómenos. Também não estamos perante «uma crise excepcional» (2),mas sim perante uma crise cíclica do capitalismo com características novas eespecíficas, agravada por novas situações – liberdade de circulação de capitais,deslocalizações, crescente peso das actividades financeiras e do «capital fictício»,parasitário, especulativo, num quadro de domínio da ideologia neoliberal.Crise de sobreprodução, crise de excesso de capital, cuja síntese passa pela destruiçãodesse excesso em relação à taxa de lucro esperada. Uma crise de sobreprodução comextensão praticamente planetária «tendencialmente mundial», «sistémica», em relaçãoao subconsumo das massas (procura solvente).Perante a concentração da riqueza e a perda do poder de compra dos trabalhadores, atentativa de saída para a produção em relação à procura solvável das massas, foi orecurso ao crédito fácil e às exportações. Isto é, procurar saídas nos mercados dos outrose numa procura a crédito.Para salvar os banqueiros e os accionistas, os Estados foram em socorro da banca comdinheiros públicos, nacionalizaram os prejuízos, criaram os «bad banks», para depoisprivatizar os lucros e endossar a factura aos contribuintes através dos impostos e docorte de despesa nas funções sociais do Estado. (3)Depois da falência do Lemon Brothers até inventaram o «Big to Fail», isto é seremmuito grandes para falirem, deixando cair milhares de pequenas e médias empresas ebancos, nomeadamente nos EUA.
  2. 2. Com uma campanha avassaladora fizeram esquecer a dívida privada, a dívida da bancaao exterior, que em muitos países é superior à dívida pública, como é o caso dePortugal, e conseguiram esconder que uma boa parte do crescimento da dívida públicase deveu à crise – injecção de dinheiro público na banca, nos subsídios de desemprego eprestações sociais, injecção de dinheiros públicos para tentar estimular a economia.Conseguiram também fazer esquecer a responsabilidade da banca nesta crise e o factode que o posterior aumento de impostos e o corte nas despesas sociais foram a outraface dos milhões que foram canalizados para o sistema financeiro.Ao longo destes anos temos estado a resolver os problemas da dívida privada à custa dadívida pública.Para justificar a drenagem de recursos para a banca através do corte na despesaorçamental, inventaram com criatividade a expressão corte «nas gorduras do Estado».Não há «papagaio» que não fale nas gorduras do Estado. É a linguagem do Spa, muitona moda e que aproveita a corrente das campanhas contra a obesidade.Mas no essencial as medidas não vão no sentido da racionalização, nem da eliminaçãode gastos supérfluos, mas sim do desmantelamento do «Estado social». São cortesfundamentais na saúde, no ensino e na segurança social.Por exemplo, em Portugal o Governo não corta nos subsídios à banca na ordem demilhões e esta despesa, verdadeira gordura do Estado, para utilizar a expressão destes,vai engordar os já anafados e obesos banqueiros e accionistas.Mas não é só ao nível da linguagem e das expressões criativas. É também ao nível dasUniversidades e do ensino da teoria económica. Muitas destas universidades privadas,institutos e fundações, pertença directa ou indirecta de grandes grupos económicos (mastambém as há públicas), o que ensinam é uma retórica e vulgata neoliberal, bemelaborada, a que não faltam expressões matemáticas para lhe dar um certo ar decientificidade ao serviço das classes dominantes. Charlatanismo económico com os seusrespectivos «catedráticos», os seus «académicos», que procuram com argumentos deautoridade e a conivência dos media, impor as suas ideias. As ideias dominantes são asda classe dominante e a ideologia económica dominante é a do neoliberalismo,vulgarizada por economistas e analistas nas universidades e grandes meios decomunicação, umas vezes por ignorância, por mimetismo, por interesse de classe eoutras por interesse material (o filme «inside jobs» é muito esclarecedor destes casos).E, para além da linguagem, das expressões criativas e da produção ideológica nasuniversidades, temos também a simbiose entre o poder político e o poder económico,mesmo à «esquerda». Lembrar que Tony Blair deixou o governo e foi trabalhar para a J.P. Morgan, que Peter Mendelson está no Lazard, Roman Prodi na Goldeman Sachs,Gerard Shroeder no opaco conglemercardo financeiro, energético, da Gazpron.Nos meios académicos, como testemunhava entre nós ainda recentemente um docenteuniversitário (4), (…) «Os alunos aprendem logo no primeiro ano que a instituição deum salário mínimo cria desemprego. Mais tarde, ao nível pós-graduado, seráconfidenciado aos poucos que lá chegarem que, à luz da evidência disponível, essaproposição é tudo menos certa. Nessa fase do processo de doutrinação, porém, eles jáestarão pouco disponíveis para questionar os dogmas da profissão. Quanto aos que não
  3. 3. atingiram esse patamar, virão cá para fora de boa-fé papaguear a pseudo-ciência quelhes foi ministrada.Os Nóbeis atribuídos nos últimos anos comprovam que os economistas investigamassuntos de grande relevância para o entendimento do funcionamento dos mercados,como sejam a psicologia dos consumidores, a informação assimétrica, as falhas decoordenação, os obstáculos à cooperação dentro das empresas ou as condições quefavorecem o alargamento das desigualdades.Todavia, a síntese dessa investigação que é servida aos estudantes e à opinião públicaignora sistematicamente as limitações da racionalidade humana e as falhas dos sistemaseconómicos que delas decorrem, em favor de uma visão cor-de-rosa do funcionamentodos mercados desregulados. Assim, embora o estudo do comportamento dos agenteseconómicos demonstre que os pressupostos da microeconomia estão errados, elacontinua a ser ensinada como se nada fosse.» (...)E todos estes sábios repetem mil vezes que «não há alternativa!» O conhecido acrónimothatcheriano «Tina», «there is no alternative», é a resposta do pensamento único e dosque são responsáveis pela situação em que nos encontramos. Não há alternativa aocapitalismo, não há alternativa ao neoliberalismo, não há alternativa ao cumprimento doacordo com a troika...Como já alguém disse, estes propagandistas da submissão e do conformismo tambémnão descuram o marketing e a propaganda.O salário é sempre na boca destes um «custo do trabalho», a diminuição dos salários éembrulhada na expressão «aumento de flexibilidade sobre o mercado do trabalho» ou«moderação salarial» e o desmantelamento do Estado Social naquilo que designam por«reformas estruturais». As quotizações sociais são sempre «encargos sociais», ospatrões são «empregadores», a exploração desapareceu do léxico e os trabalhadorespassaram definitivamente a «colaboradores», etc., etc.A crise do sistema monetário internacionalO curso do dólar e o euro tem sido errático ao longo destes tempos. A chamada «guerracambial» ou «guerra das moedas» tem-se traduzido nas disputas entre países na procurade ganhos de competitividade – desvalorizações para aumentar as exportações,movimentos especulativos sobre tal ou tal divisa (o yen japonês, o franco suíço...) e aluta pela manutenção dos privilégios do dólar, moeda de reserva mundial eintermediária internacional de troca, designadamente na compra de matérias-primas –petróleo, gás – contra o euro que se quer afirmar como moeda de reserva mundial.O dólar tem visto o seu estatuto de moeda de reserva ser posto em causa devido à dívidaexterna dos EUA, à emissão de dólares sem correspondência à produção de bens eserviços para a resolução dos problemas do sobre-endividamento. Por isso, os EUA,acompanhado a maior parte das vezes pela Inglaterra, tem procurado ampliar e tirarpartido dos problemas da zona euro, designadamente os ligados à dívida externa dospaíses periféricos, para descredibilizar o euro.
  4. 4. As reservas de divisas mundiais representam actualmente o equivalente a 9694 milharesde milhão de dólares (FMI, 31.03.2011), sendo 61% titulados em dólares US e 27% emeuros. As duas moedas representam cerca de 90% das reservas de troca mundiais. Alibra e o yen são respectivamente a terceira e quarta moeda mais importantes. Há dezanos a parte correspondente ao dólar era 10% superior à actual e a do euro era menor. Oeuro tem vindo a afirmar-se como moeda de reserva e investidores asiáticos, tal comorussos, brasileiros e outros, têm procurado ficar menos dependentes do dólar. Para se teruma ideia dos ganhos e perdas que se podem ter com a flutuação cambial das moedas eos movimentos especulativos, basta ver que o montante médio diário das transacçõesem 2010 foi de 4000 milhares de milhão de dólares. Estes fluxos monetários continuama ser dominados pelo dólar. O euro subiu ligeiramente, passou de 18,5% para 19,5%.Mas a disputa continua, num quadro de grande instabilidade financeira, económica esocial.O Banco Asiático para o Desenvolvimento há muito que pressiona os seus membrospara a criação de uma moeda comum, mas poucos passos foram dados. A Rússia, aVenezuela e o Brasil têm vindo a aumentar as suas trocas nas moedas nacionais e apressão para a reformulação do sistema monetário internacional, da parte destes países eda China, tem aumentado. A evolução para uma moeda tendo por referência um cabazde moedas fortes com uma parte em ouro, ou para a utilização dos direitos de saqueespeciais do FMI com base num mesmo cabaz, são propostas que surgem com peso,periodicamente. Mas que esbarram com a oposição directa ou indirecta dos EUA e daInglaterra, que utilizam toda a sua força e pressão – designadamente militar – junto dospaíses produtores de petróleo, para que a sua cotação e transacção se faça em dólares,mantendo o status quo do sistema monetário internacional.O euro tem flutuado entre 1,39 e 1,45, em relação ao dólar, embora o dólar tenhamanifestado uma tendência para a baixa a longo prazo. A China e o Brasil, a Suíça e oJapão vão lutando contra as pressões e movimentos especulativos no sentido daapreciação das suas moedas.Nos EUA, o recente aumento do tecto da dívida decidida pelo Congresso não suscitounenhuma reacção por parte da China. Mas este país não tem estado a comprar Títulos deTesouro americanos desde Outubro do ano passado e terá mesmo reduzido o seumontante em cerca de 15 milhares de milhão. O Ministro das Finanças americanoestima que a China detém 1160 milhares de milhão de dólares de Títulos do Tesourodos EUA. A China e o Japão são os maiores detentores da dívida americana.A confrontação entre o dólar pela manutenção dos privilégios e o euro e outras divisasque procuram conquistar posições como moedas de reserva e de troca internacionais éuma luta estratégica que explica muito dos comportamentos dos EUA e da Wall Street,bem como da Inglaterra e da City e do Banco Central Europeu.A construção de um euro forte à imagem do marco de modo a credibilizar a moedainternacionalmente como moeda de reserva é a principal linha orientadora da políticamonetária e cambial do BCE e não a coesão económica e o desenvolvimento da zonaeuro como um todo, o que implicaria um euro muito menos valorizado. Esta políticatem dificultado as exportações e agravado a situação dos países com economias maisdébeis. (5)
  5. 5. Por sua vez, na União Europeia muitos dos países com dívidas públicas e privadas edívidas externas extremamente elevadas jamais terão possibilidade de as resgatar. Asolução, mais cedo ou mais tarde, terá de passar pelo corte da dívida (hair cut).Reestruturação das dívidas de forma mais ou menos planeada. A recusa e oprotelamento da resolução das dívidas destes países põem em causa toda a estratégia decredibilização do euro. É uma contradição insanável. E tudo isto se irá complicarquando a Grécia declarar o incumprimento, ou tiver de pedir novos empréstimos (está-se só a ganhar tempo, já se fala num corte da dívida grega de 50%) e quando a crisechegar com mais acuidade à Espanha e à Itália, pois estes dois países, como já alguémdisse, são muito grandes para falirem e são também muito grandes para serem salvos«too big to fail» e «too big to save»!Os cortes das dívidas públicas a «mata-cavalos», em períodos tão curtos, afundam ospaíses no marasmo e na recessão, acentuando a sua insolvabilidade. E as privatizaçõesde empresas altamente rentáveis alivia, ganha tempo, mas é a condenação a maiordependência e a maior drenagem de recursos (dividendos, lucros) para o exterior.Os recentes ataques de Fundos Americanos a bancos europeus, nomeadamentefranceses, deixando-os desprovidos de dólares, o que fez baixar a sua cotação e notação,bem assim como a posterior intervenção coordenada dos Bancos Centrais, inserem-se naestratégia anglo-saxónica de enfraquecer o euro e o sistema bancário europeu e demostrar ao mundo a importância do dólar. Os bancos europeus tinham euros mas nãotinham dólares e não conseguem financiar a compra do gás, do petróleo, por exemplo!Na mesma linha está a ampliação através da comunicação social e da imprensafinanceira e económica especializada, dominada pela City e Wall Street, dos problemasda zona euro e das dívidas públicas dos países periféricos. Mesmo algumas dasdeclarações de Barack Obama não são inocentes e visam o mesmo objectivo:descredibilizar a zona euro em benefício do dólar (6). É por isso que quando aAlemanha, a União Europeia e o Banco Central Europeu quiseram penalizar a Grécia,ou fazem chantagem sobre a Grécia e outros países, pensando que estão sozinhos nomundo, Wall Street e a City de Londres, e as suas correias de transmissão, as empresasde «notação», aproveitaram a situação para criar um clima negativo e de dúvida sobre azona euro, o que os obriga a «meter a chantagem no saco» e a tentar resolver osproblemas.A dívida externa dos EUA também não é resgatável e só se pode manter enquanto omundo continuar a comprar dólares e Títulos do Tesouro americanos.A resposta à crise, sobretudo da parte da UE, tem-se inscrito na ortodoxia neoliberal –diminuição dos salários, liquidação de direitos, desmantelamento do Estado Social,privatizações, com todos os países a procurar ao mesmo tempo nas exportações asolução para a marasmo económico. A absolutização da redução do défice através dadiminuição de salários, pensões e prestações sociais vai continuar a agravar não só asituação social, como a situação económica e financeira.Na verdade, todos estes planos de austeridade têm em comum passar a factura para oscontribuintes e os trabalhadores, alimentar a recessão e sobrestimar as receitas futuras.Por isso, não é de estranhar as sucessivas revisões em baixa do crescimento destespaíses e de crescimento mundial. Está-se numa nova espiral descendente económica efinanceira. E os dois principais vectores da política económica continuam a ser:
  6. 6. diminuição dos salários e mais crédito para relançar o crescimento. Precisamente osvectores que estiveram na origem da crise do «sub-prime» e desta crise – umadistribuição desigual do Rendimento Nacional, a concentração da riqueza e odesenvolvimento do crédito para manter o consumo.As contradições do capitalismo têm-se agudizado, bem assim como as rivalidades inter-imperialistas, designadamente em torno das perspectivas do sistema monetáriointernacional. É a esta luz que têm que ser vistos os desacordos entre os EUA e a UE naresposta à crise, ou as declarações de Tim Geihner em nome dos americanos, na reuniãodos ministros das Finanças da UE, na Polónia, no dia 27 de Setembro, de que oseuropeus deveriam reforçar o Fundo Europeu de Estabilização Financeiro (FEEF) a fimde terem meios para reforçar os seus bancos.Estas divergências ainda ficaram mais claras na reunião anual de Washington de 24 e 25de Setembro de 2011, do FMI e BM: os americanos dando prioridade aos programas decriação monetária para relançar a economia e a UE dando prioridade à estabilização dasfinanças públicas e da banca através de dinheiros públicos. (7)Contradições do capitalismoSão conhecidas as contradições fundamentais do capitalismo, que esta crise expressacom toda a clareza e evidência, bem como a luta de classes nos seus diversos planos. Ea este propósito não deixa de ser reveladora a declaração há uns meses atrás domultimilionário americano Buffet de que ele sabia que estava a haver luta de classes,mas que era a sua classe que estava a ganhar, para mais recentemente vir defender umnovo imposto sobre os ricos («deixem-se de apaparicar os ricos»). É a consciência dequem sente que é melhor dar alguma coisa antes que as coisas dêem para o torto!Mas no quadro actual há uma nova contradição, simultaneamente ampliada econsequência de uma das maiores conquistas das classes dominantes na nossa época: aliberdade de circulação de capitais.Essa contradição resulta das deslocalizações facilitadas pela livre circulação de capitaise impulsionadas pelo avanço das novas tecnologias, designadamente telecomunicações,informação e que têm também estado no centro de uma mistificação ideológica. É aexportação de capitais de forma exponencial (Lénine, O imperialismo estado supremodo capitalismo), expressa nas fórmulas de globalização das mercadorias e globalizaçãofinanceira (ver, entre outros, Jacques Sapir, La demondialization, ou Eric Laurent, Lescandale des deslocalizations).As deslocalizações, sobretudo pelos grandes grupos económicos e financeiros (mas atépelas administrações públicas) (8), deram lugar a altíssimas taxas de lucro destasempresas e a uma fantástica evasão fiscal. Mas com a passagem do tempo viu-se que adestruição de empresas resultante das deslocalizações maciças não foi compensada pelacriação de empregos nos serviços e novas tecnologias. Que os empregos perdidos não sesituavam só nos baixos salários, pois atingem hoje os empregos mais qualificados e osníveis salariais mais altos – investigadores, quadros informáticos, engenheiros eespecialistas de ponta –, nem que a repatriação dos lucros tenha irrigado toda aeconomia – teoria do derrame. O que se verificou e está a verificar é a intensificação daconcentração da riqueza, condenando o consumo de massas e o consumo popular (9) e
  7. 7. agravando a procura solvente e o escoamento da produção. Hoje esta situação tende aagudizar o quadro social e as tensões sociais e políticas.Por um lado, os governos sentem-se pressionados pelas populações sem emprego e comsucessivas reduções de poder de compra e nível de vida, e é a essa luz que se têm de veros apelos de Barack Obama e Sarkozy à reindustrialização dos respectivos países, e, poroutro, a pressão do grande capital que quer manter o status quo defendendo cada vezmaior liberalização do comércio internacional, maiores garantias para os seus capitaisexportados e opondo-se a qualquer forma de defesa da produção local ou interna. Oproteccionismo passou a ser um tabu e a «livre concorrência não falseada», o dogmados dogmas e o mito dos mitos do desenvolvimento económico. Os que lucraram, comas deslocalizações até se servem de argumentos sociais. É curioso ver representantes dogrande capital a exaltar o livre-cambismo que, segundo eles, criou «milhões deempregos no Terceiro Mundo» e retirou «milhões da fome e da miséria». A intensacampanha ideológica deixou desarmada certa «esquerda» que não põe em causa ocapitalismo e que se colocou na primeira linha na repetição de slogans bem elaborados,como o «não à Europa fortaleza», «não ao proteccionismo», «sim à globalizaçãoregulada»...Hoje mais de metade dos produtos manufacturados consumidos nos EUA e na Europasão importados. E, agudizando ainda mais as contradições, os produtos que antes tinhamciclos de vida longos têm vindo a a ter ciclos de vida cada vez mais curtos pela variaçãode pequenas alterações tecnológicas, de forma, de cor, tornando cada vez mais difícil asua amortização.Nos EUA são cada vez mais os que se interrogam sobre se as deslocalizações sãobenéficas ou nefastas para a América. Para convencer os americanos dos benefícios dasdeslocalizações, os grandes grupos económicos contratam empresas especializadas eacadémicos, pagando e subsidiando «estudos» enganadores e parciais.Vários relatórios são autênticos documentos de lobbying pró-deslocalizações. Noentanto, depois de vários estudos, a publicação do «Outsourcing América» pelo«American Management Association» sobressaltou políticos e académicos aoevidenciar os efeitos negativos e ao mostrar que apesar disso muitos responsáveispolíticos e promotores das deslocalizações continuam numa situação de negação.É neste quadro de crise global do capitalismo, com as velhas e novas contradições, quese devem analisar os acontecimentos e impulsionar a luta de massas, a luta popular, emtodas as frentes.Notas(1) Fernando Alexandre, Crise Financeira Internacional. Estado de Arte. Ver GandraMartins e outros. Universidade de Coimbra, 2009.(2)Ibiden.(3) O BPN e o BPP irão custar ao erário público muito perto de 4,5 mil milhões deeuros.(4)João Pinto e Castro, Jornal de Negócios, 15.06.2011.(5) Portugal tem sido particularmente afectado pelo euro forte devido à estrutura dassuas exportações e ainda porque a Taxa de Câmbio definida no momento adesão setraduziu numa desvalorização da peseta em 30% e do escudo em apenas 12%.
  8. 8. (6) Com a recente campanha americana sobre a crise europeia – veja-se, entre outras, arecente declaração (26.09.2011) de Barack Obama, em Silicon Valley, de que a crise doeuro assustou o mundo, o dólar recuperou terreno e os Títulos do Tesouro americanosvoltaram a ser reconhecidos como valores refúgio! Fantástico!7) Com o agravamento da crise, mesmo os mais ortodoxos vão cedendo: WolfgangSchauble, ministro das finanças alemão, disse que não se opõe a que a criação doMecanismo Europeu de Estabilidade, que deve substituir o Fundo Europeu deEstabilidade, não espere por 2013. Por sua vez, a nova directora do FMI pede comurgência o aumento dos meios financeiros do FMI, no que tem tido o apoio dos chinesese a oposição dos americanos!(8) Eric Laurent, no seu livro Le scandale des deslocalizations, cita o caso de umtrabalhador americano que, telefonando para a segurança social para procurar conheceros seus direitos por ter perdido o emprego, se deu conta que estava a falar para a Índia,para onde se tinha deslocalizado aquele serviço da Administração Pública.(9) Joseph Stiglitz diz que os EUA são cada vez mais um país rico com populaçõespobres.O Militante Novembro/Dezembro 2011

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