REFLEXÕES SOBRE A CRISE MUNDIAL DE 2008 E SEUS POSSÍVEIS CENÁRIOSECONÔMICOS, SOCIAIS E GEOPOLÍTICOSFernando Alcoforado1RES...
No início de agosto de 2008, surgiu uma crise financeira no setor dos empréstimos      hipotecários nos Estados Unidos que...
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quando o Lehman Brothers faliu, a desconfiança e a perplexidade aumentaramexponencialmente. A maior parte dos mercados de ...
lares ocorreram no Reino Unido. Estes aumentos nas dívidas dos lares foram apoiados, porsua vez, por sistemas financeiros ...
Outra conclusão de Gillian Tett (2009) é o de que o colapso financeiro provocaria umadesaceleração industrial mundial. Ela...
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golpeada pelo homem no marco do capitalismo, reage agora de forma brutal. Isto é algo quase           excluído de nossas d...
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volatilidade acima do normal no mercado financeiro mundial. Com o PIB mundial crescendoabaixo do potencial, a geração de e...
O jornal Folha de São Paulo (2009) informava que o Fundo Monetário Internacional (FMI)afirmava que o mundo já ensaiava sai...
entre os dois países, entre outros. O governo Obama manteve a intenção de se centrar nadiferença na balança comercial fris...
conjuntura atual associada à adoção de medidas protecionistas, leve a uma reação em cadeia.Isso reduziria o comércio inter...
famílias. Isso supõe uma revisão dilacerante do consumo a crédito, combinado com o desperdício            aterrorizante do...
Os dados da OIT revelam que a turbulência econômica mundial iniciada nos Estados Unidos terá um         impacto mais devas...
uma recuperação de baixa intensidade, durante um tempo prolongado", e acrescentou: "odesemprego vai continuar crescendo". ...
social na Ásia, onde a agência prevê que haverá mais 23,3 milhões de desempregados e mais de          140 milhões de pobre...
novos 50 milhões de desempregados em 2009, o que elevava o número de desempregadospara até 340 milhões de pessoas no mundo...
(2008), a crise do sistema capitalista mundial que eclodiu em 2008 tem como outra de suasdimensões a de marcar o fim da et...
que mais cresce no mundo que, por essa razão, tem se destacado no cenário geopolíticomundial.A China tem exercido grande i...
O impacto econômico da China, e agora da Índia, com a população combinada próxima de 2,4bilhões de pessoas, já é evidente....
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Reflexões sobre a crise mundial de 2008 e seus possíveis cenários econômicos, sociais e geopolíticos

  1. 1. REFLEXÕES SOBRE A CRISE MUNDIAL DE 2008 E SEUS POSSÍVEIS CENÁRIOSECONÔMICOS, SOCIAIS E GEOPOLÍTICOSFernando Alcoforado1RESUMOEste artigo tem por objetivo traçar os cenários econômicos e sociais e as mudançasgeopolíticas globais resultantes da crise econômica e financeira mundial de 2008. Ametodologia adotada consistiu na análise de publicações relacionadas com a crise econômicae financeira mundial e seus desdobramentos. O resultado dos estudos indicou que a criseeconômica e financeira mundial de 2008 será prolongada e que dela resultará o declínio dosEstados Unidos e a ascensão da China como a maior potência econômica do planeta..ABSTRACTThis article aims to trace the social and economic scenarios and the global geopoliticalchanges resulting from the economic and financial crisis of 2008. The methodology adoptedwas the analysis of publications related to the economic and financial crisis of 2008 and its developments. Theresults of studies indicated that the economic and financial crisis of 2008 will have long duration and that itwould result in the decline of the United States and the rise of China as a major economic power in the world.Palavras chaves: Origens da crise econômica e financeira mundial de 2008. Cenários daeconomia mundial. Cenários mundiais no campo social. Mudanças geopolíticas futuras.Keywords: Origins of the economic and financial crisis of 2008. Scenarios of the worldeconomy. Scenarios in the social world. Geopolitical changes in the future.1. Origens da crise econômica e financeira mundial de 20081 FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO é doutor em Planejamento Territorial eDesenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, Espanha, em 2003, especialista em EngenhariaEconômica e Administração Industrial pela UFRJ- Universidade Federal de Rio de Janeiro em 1971, graduadoem Engenharia Elétrica pela UFBA - Universidade Federal de Bahia em 1966, professor universitário, consultorde organizações públicas e privadas nacionais e internacionais nas áreas de planejamento econômico,planejamento e desenvolvimento regional, planejamento de sistemas de energia e planejamento estratégico.Exerceu os cargos de Secretário do Planejamento de Salvador (1986/1987), Subsecretário de Energia do Estadoda Bahia (1988/1991), Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Empresas Estaduais deGás Canalizado (1990/1991), Presidente do Clube de Engenharia da Bahia (1992/1993), Diretor do ConselhoRegional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (1990/1993), Presidente do Instituto Rômulo Almeida deAltos Estudos (1999/2000) e Diretor da Faculdade de Administração das Faculdades Integradas Olga Mettig(2005/2007). É autor dos livros Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicosna Era Contemporânea (Empresa Gráfica da Bahia, Salvador, 2007), Globalização e Desenvolvimento (EditoraNobel, São Paulo, 2007), Um projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), De Collor a FHC- oBrasil e a nova (des)ordem mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998) e Globalização (Editora Nobel, SãoPaulo, 1997), entre outros. Há muitos anos é articulista de diversos jornais da imprensa brasileira (Folha de SãoPaulo, Gazeta Mercantil, A Tarde e Tribuna da Bahia), publicando artigos versando sobre economia e políticamundial e brasileira, questão urbana, energia, meio ambiente e desenvolvimento, ciência e tecnologia,administração, entre outros temas. Endereço: Rua do Benjoim, 209/1101, Caminho das Árvores, CEP 41820-340, Salvador, Bahia. Telefone: (71) 33542967. E-mail: falcoforado@uol.com.br. 1
  2. 2. No início de agosto de 2008, surgiu uma crise financeira no setor dos empréstimos hipotecários nos Estados Unidos que, imediatamente, se propagou para outras partes do sistema financeiro mundial, com uma rapidez e uma amplitude que surpreenderam o mercado. Segundo Gillian Tett2 (2009), os grandes bancos ocidentais jogaram o mundo em uma recessão. O Banco da Inglaterra diz que os prejuízos dos bancos que tiveram que reajustar os seus investimentos para preços de mercado são de US$ 3 trilhões, o equivalente a cerca de um ano de produção econômica do Reino Unido. O Banco de Desenvolvimento Asiático, por sua vez, estimou que os ativos financeiros em todo o mundo podem ter sofrido uma queda, até 2009, de mais de US$ 50 trilhões - um número equivalente à produção global anual.Segundo Gillian Tett (2009), a atual crise é um produto de mudanças que vêm se enraizando silenciosamente no Ocidente há vários anos. Há meio século, a atividade bancária parecia ser uma arte relativamente simples. Quando os bancos comerciais estendiam os empréstimos, eles tipicamente mantinham essas operações dentro de seus próprios sistemas contábeis - e utilizavam cálculos rudimentares (combinados com as informações sobre os seus clientes) quando decidiam se emprestariam ou não. Porém, da década de setenta em diante, duas revoluções ocorreram: os bancos passaram a vender o seu risco de crédito a outros investidores nos prósperos mercados de capital e adotaram complexos sistemas baseados em computadores para mensurar o risco de crédito que eram frequentemente importados do setor de ciências puras - e elaborados por luminares da estatística, como Den Braber do RBS. não só o sistema financeiro está amargando prejuízos em uma escala que ninguém jamais previu, mas os pilares da fé sobre os quais o novo capitalismo financeiro foi construído também praticamente desmoronaram. Isso fez com que todos, dos ministros das finanças aos banqueiros centrais, dos pequenos investidores aos pensionistas, ficassem destituídos de uma bússola intelectual, desnorteados e confusos. "O nosso mundo está quebrado - e eu honestamente não sei o que irá substituí-lo. A bússola segundo a qual conduzíamos os Estados Unidos desapareceu", afirma Bernie Sucher, diretor de operações em Moscou do Merrill Lynch. "A última vez em que vi algo desse tipo, em termos de sensação de desorientação e prejuízos, foi entre os meus amigos na Rússia, quando a União Soviética desmoronou". até o verão de 2007, a maioria dos investidores, banqueiros e governos acreditava que essas revoluções representavam "progresso" real que beneficiava a economia como um todo. Os2 Gillian Tett, PhD em antropologia social pela Universidade de Cambridge, é editor assistente do FinancialTimes onde faz a cobertura global dos mercados financeiros. 2
  3. 3. reguladores adoravam o fato de os bancos estarem ampliando as exposições de crédito, já que crises como a de poupanças e empréstimos nos Estados Unidos, na década de oitenta, demonstraram os perigos de os bancos serem expostos a um tipo concentrado de empréstimo. "A dispersão do risco de crédito ajudou a tornar o sistema bancário e financeiro mais resistente", proclamou em abril de 2006 o Fundo Monetário Internacional (FMI), expressando uma crença ocidental generalizada. à medida que a inovação no setor financeiro tornou-se mais intensa, ela também passou a ficar permeada de uma terrível ironia. Em público, os técnicos financeiros na vanguarda da revolução retratavam as mudanças como medidas que promoveriam uma forma superior de capitalismo de livre mercado. Quando uma equipe do JPMorgan criou derivativos de crédito na década de 1990 (um contrato definido entre duas partes no qual se definem pagamentos futuros baseados no comportamento dos preços de um ativo de mercado, normalmente as chamadas “commodities”), uma palavra-chave favorita na sua literatura de mercado era a afirmação de que tais derivativos promoveriam "completitude de mercado" - ou mercados livres mais perfeitos.Em julho de 2007, a fé cega começou a sofrer rachaduras. Nos Estados Unidos ainadimplência passou a aumentar no setor de hipotecas “subprime” que é um crédito de risco,concedido a um tomador que não oferece garantias suficientes para se beneficiar da taxa dejuros mais vantajosa (prime rate) ou para designar uma forma de crédito hipotecário(mortgage) para o setor imobiliário destinada a tomadores de empréstimos que representammaior risco. Esse crédito imobiliário tinha como garantia a residência do tomador e muitasvezes era acoplado à emissão de cartões de crédito ou a aluguel de carros. Agências como aStandard & Poors reduziram as classificações de produtos vinculados a hipotecas e admitiramque os seus modelos matemáticos estavam apresentando defeitos.Mas quando o índice de inadimplência das “subprime” aumentou, os contadores exigiram queos bancos reavaliassem os instrumentos utilizados. Por volta da primavera de 2008, o Citi, oMerrill e o UBS haviam amargado coletivamente um prejuízo de US$ 53 bilhões. Gillian Tett(2009) afirma que os bancos tentaram tapar este buraco com a obtenção de mais de US$ 200bilhões em capital novo. Mas o buraco continuou aumentando. Como resultado, a fé nacapacidade dos reguladores de monitorar os bancos desmoronou. A fé nos bancos tambémacabou. A seguir, quando os modelos matemáticos perderam a credibilidade, os investidoresdesprezaram todas as formas de finanças complexas.Em setembro de 2008, o último pilar da fé veio abaixo. A maioria dos investidores admitiaque o governo dos Estados Unidos jamais deixaria um grande grupo financeiro fracassar. Mas 3
  4. 4. quando o Lehman Brothers faliu, a desconfiança e a perplexidade aumentaramexponencialmente. A maior parte dos mercados de crédito desmoronou. Os preçosenlouqueceram. Os bancos e analistas de ativos descobriram que todos os seus modelosfinanceiros fragmentaram-se. "Nos mercados de capital, nada mais funcionava", diz oprincipal analista de riscos de um grande banco ocidental. Conforme observou algumassemanas mais tarde Mervyn King, diretor do Banco da Inglaterra, "o sistema estava noprecipício".Segundo Gillian Tett (2009), enquanto buscam atualmente novos pilares de confiança para as finanças, os governos estão intervindo para substituir muitas funções do mercado. O Tesouro dos Estados Unidos está realizando "testes de estresse" nos bancos, a fim de aumentar a confiança dos investidores. No Reino Unido o governo está fornecendo aos bancos garantias contra os ativos "tóxicos". Os bancos e as agências de crédito estão - tardiamente - reformulando os seus modelos. As financeiras e os reguladores também prometeram tornar a indústria mais transparente e padronizada.Gillian Tett (2009) pergunta como o mundo chegou aqui? Uma grande parte da resposta é de que a era da liberalização continha as sementes de sua própria queda: esse também foi um período de enorme crescimento na escala e lucratividade do setor financeiro, de inovação financeira frenética, de crescentes desequilíbrios macroeconômicos globais, de grande endividamento dos lares e de bolhas de preços de ativos, isto é, um desvio no preço justo do mesmo ou um exagero por parte dos investidores que estariam dispostos a adquirir ativos por preços incompatíveis com o fluxo de caixa que estes ativos prometem gerar. Ao intervir para manter suas taxas cambiais baixas e acumular reservas de moeda estrangeira, os governos das economias emergentes geraram imensos superávits em conta corrente, que reciclaram, juntamente com os afluxos de capital privado, em fluxos de saída de capital oficial. Entre o final dos anos 90 e o pico em julho de 2008, apenas as reservas de moeda dos países emergentes cresceram em US$ 5,3 trilhão.Estes fluxos imensos de capital, somados aos superávits tradicionais de vários países ricos eos crescentes superávits dos exportadores de petróleo, foram parar em grande parte em umpequeno número de países ricos e particularmente nos Estados Unidos. No pico, os EstadosUnidos absorveram cerca de 70% do superávit poupado do restante do mundo. Enquanto isso,dentro dos Estados Unidos, a razão de endividamento dos lares em relação ao PIB saltou de66%, em 1997, para 100% uma década depois. Saltos ainda maiores no endividamento dos 4
  5. 5. lares ocorreram no Reino Unido. Estes aumentos nas dívidas dos lares foram apoiados, porsua vez, por sistemas financeiros altamente elásticos e inovadores e, nos Estados Unidos, porprogramas do governo.Gillian Tett (2009) afirma que estamos testemunhando a crise financeira mais profunda, ampla e perigosa desde os anos 1930. Como os professores Reinhart e Rogoff argumentam em outro trabalho, "as crises bancárias estão associadas a profundos declínios na produção e emprego". Isto se deve em parte aos balancetes estendidos além do limite: nos Estados Unidos, a dívida geral atingiu o pico recorde de pouco menos de 350% do PIB - 85% dela privada. Isto em comparação a pouco mais de 160% em 1980. Entre os resultados possíveis deste choque estão déficits fiscais imensos e prolongados nos países com grandes déficits externos, à medida que tentam manter a demanda, uma recessão mundial prolongada, um ajuste brutal da balança global de pagamentos, um colapso do dólar, alta da inflação e protecionismo. A transformação certamente será mais profunda no próprio setor financeiro.Segundo Gillian Tett (2009), o brilhante novo sistema financeiro - apesar de todos seusparticipantes talentosos, apesar de todas as suas ricas recompensas - fracassou no teste demercado. Em um recente trabalho, Andrew Haldane, o diretor executivo de estabilidadefinanceira do Banco da Inglaterra, mostra quão pouco os bancos entendiam os riscos quesupostamente deveriam administrar. Ele atribui estes fracassos a uma "miopia de desastre" (atendência de subestimar os riscos), uma falta de consciência da "rede de externalidades"(contaminações de uma instituição para outras) e "incentivos desalinhados" (o lado positivopara os empregados e o lado negativo para os acionistas e contribuintes).Gillian Tett (2009) afirma ainda que após a crise, nós certamente "veremos um setor financeiro menos orgulhoso". Os mercados imporão uma disciplina brutal, mesmo que temporária. A regulamentação governamental também endurecerá. Menos claro é se os autores de políticas contemplarão soluções estruturais com uma separação do sistema bancário comercial do sistema bancário de investimento ou uma redução forçada do tamanho e complexidade das instituições consideradas grandes demais ou interconectadas demais para falirem. Também é possível imaginar um retorno de grande parte da atividade bancária ao mercado doméstico, à medida que os governos cada vez mais dêem as cartas. Neste caso, haveria uma "desglobalização". 5
  6. 6. Outra conclusão de Gillian Tett (2009) é o de que o colapso financeiro provocaria umadesaceleração industrial mundial. Ela também está se espalhando por todo setor significativoda economia real, grande parte da qual está clamando por assistência e que a busca porsegurança fortalecerá o controle político sobre os mercados. Uma mudança das políticassignifica privilegiar uma mudança para o nacional e longe do global. Isto já está evidente nasfinanças. Também é visto na determinação de resgatar os produtores nacionais. Mas aintervenção protecionista provavelmente se estenderá muito além dos casos vistos até agoraque é só o começo.Paul Krugman3 (2009) afirma que, o fato é que os recentes números econômicos são assustadores, não apenas nos Estados Unidos, mas ao redor do mundo. O setor manufatureiro, em particular, está despencando em toda parte. Os bancos não estão emprestando, as empresas e os consumidores não estão gastando. Não vamos medir palavras: isto se parece muito com o início da segunda Grande Depressão.O economista francês François Chesnais4 (2008) afirma que o efeito da crise financeira sobrea economia real atingiu os mercados emergentes mais duramente do que as economiasdesenvolvidas, com o colapso dos fluxos de comércio e uma queda dramática nos preços das“commodities”. Está claro que aqueles mais duramente atingidos serão os mais pobres-especialmente na África- que possuem menos com que contar. Depois desses, os maisduramente atingidos serão os produtores de “commodities” que sempre enfrentaram grandesproblemas sociais e demográficos, como os ricos em energia (Rússia, Irã, Nigéria eVenezuela). Até mesmo os produtores de petróleo do Golfo foram afetados. Todos seacostumaram à exportação e receitas inchadas e estão enfrentando ajustes.Gillian Tett (2009) afirma que a capacidade do Ocidente em geral e dos Estados Unidos em particular de influenciar o curso dos eventos futuros será também comprometida. O colapso do sistema financeiro ocidental, enquanto a3 Paul Krugman, economista, colunista do The New York Times, professor de Economia e AssuntosInternacionais da Universidade Princeton, é detentor do Nobel de Economia de 2008.4 François Chesnais, especialista em economia industrial e economia da inovação tecnológica, membro doLaboratório de Pesquisa Larea-Cere na Universidade de Paris-X Nanterre e professor da Universidade de Paris-XIII Villetaneuse, foi economista da Direção de Ciência, Tecnologia e Indústria (DSTI) da Organização deCooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 6
  7. 7. China floresce, marca um fim humilhante para o "momento unipolar", isto é, de dominação dos Estados Unidos. Enquanto os autores de políticas ocidentais enfrentam dificuldades, a credibilidade deles está arruinada. Quem ainda confia nos professores? Estas mudanças colocarão em risco a capacidade do mundo não apenas de administrar a economia global, mas também de lidar com os desafios estratégicos representado por Estados frágeis, terrorismo, mudança climática e a ascensão de novas grandes potências. No extremo, a integração da economia global da qual quase todos agora dependem pode ser revertida.Gillian Tett (2009) afirma que a era da liberalização financeira acabou. Mas, diferente dosanos 1930, não existe nenhuma alternativa à vista para a economia de mercado. Segundo Tett(2009), para saber para onde o capitalismo está rumando, é imperativo entender maisclaramente o que ocorreu de tão errado com o sistema financeiro do século 21. Sem dúvida oque não falta são potenciais culpados: ganância desbragada, regulações destituídas de rigor,políticas monetárias excessivamente flexíveis, empréstimos fraudulentos e fracasso gerencial.Tudo isso desempenhou um papel - conforme ocorreu em períodos anteriores de prosperidadee crise. Um outro problema que influiu na crise foi a extraordinária complexidade e opacidadedo sistema financeiro moderno. Nas duas últimas décadas, uma onda de inovação remodelou aforma como os mercados funcionam, de uma maneira que dava a impressão de resultar emgrandes benefícios para todas as partes. Mas essa inovação tornou-se tão intensa queatropelou a capacidade de compreensão dos banqueiros mais comuns - isso para nãomencionar os reguladores.Michel Chossudovsky5 (2009) afirma que a leitura conjunta dos livros de Paul Jorion — Vers la crise du capitalisme américain? — e de Aglietta e Berrebi (Désordres dans le capitalisme mondial. Paris: Odile Jacob, 2007) é muito útil. O primeiro permite compreender por que era quase inevitável que o choque ocorresse no setor hipotecário norte-americano. Paul Jorion lança um olhar bem severo sobre práticas financeiras que ele não hesita em caracterizar como quase permanente e intrinsecamente fraudulentas, mesmo nos casos em que, como no da Enron, não se abriu nenhum processo penal. Aglietta e Berrebi, por seu turno, explicam de que modo a atual fase do capitalismo só pode gerar, em intervalos próximos, crises financeiras cujo epicentro é os Estados Unidos.5 Michel Chossudovsky, economista canadense, professor visitante de instituições acadêmicas na Europa,América Latina e Sudeste da Ásia, tem atuado como assessor econômico de países em desenvolvimento e comoconsultor de organizações internacionais. 7
  8. 8. Um dos grandes problemas enfrentados pelo sistema capitalista mundial é o da necessidade deexpansão da demanda para dar sustentação à produção de bens e serviços. Chossudovsky(2009) afirma que para manter um nível de atividade elevado no planeta, “é necessária uma demanda dinâmica”. Ao menos por enquanto, ela não provém dos países emergentes (China, Índia, Brasil), onde a distribuição de renda e as relações entre cidade e campo freiam o crescimento do consumo interno e onde os excedentes externos asseguram o financiamento dos déficits dos Estados Unidos. A demanda também não pode ter como origem as rendas salariais, cujo crescimento é fraco. Ela provém das rendas distribuídas aos acionistas e à elite dirigente, mas sua massa global é insuficiente para sustentar uma demanda agregada em crescimento rápido. A resposta a esse dilema encontra-se no poder de expansão do crédito. É aí que o capitalismo contemporâneo encontra a demanda que permite realizar as exigências do valor acionário.O economista francês François Chesnais (2008) afirma que um dos meios utilizados para superar os limites do capital das economias centrais foi que todas elas recorreram a criação de formas totalmente artificiais de ampliação da demanda efetiva, que, somando-se a outras formas de criação de capital fictício, geraram as condições para a crise financeira que está se desenvolvendo hoje. para Marx, o capital fictício é a acumulação de títulos que são “sombra de investimentos” já feitas mas que, como títulos de bônus e de ações aparecem com o aspecto de capital aos seus possuidores. Não o são para o sistema como um todo, para o processo de acumulação, mas o são para os seus possuidores e, em condições normais de fechamento dos processos de valorização do capital, rendem aos seus donos dividendos e rendimentos. Mas seu caráter fictício se revela em situações de crise. Quando sobrevêm crises de superprodução, quebra de empresas, etc, se adverte que esse capital não existia. é devido ao capital fictício que se pode ler às vezes nos jornais que tal ou qual a quantidade de capital desapareceu em alguma “sacudida do mercado”. Essas somas nunca haviam existido como capital propriamente dito, apesar de que, para os donos dessas ações, representavam títulos que davam direito a dividendos. Um dos grandes problemas de hoje é que em muitos países os sistemas de aposentadoria estão baseados no capital fictício, com pretensões de participação nos resultados de uma produção capitalista que pode desaparecer em momentos de crise. o processo de liberalização e globalização financeira dos anos 1980 e 1990 esteve baseado na acumulação de capital fictício, sobretudo nas mãos de fundos de investimentos, fundo de pensões, fundos financeiros. E a grande novidade desde finais ou meados dos anos 1990 e ao longo dos anos 8
  9. 9. 2000 foi, nos Estados Unidos e na Grã Bretanha em particular, o impulso extraordinário que se deu à criação do capital fictício na forma de crédito. De crédito a empresas, mas também e, sobretudo, de crédito habitacional, créditos ao consumo e a maior parte em créditos hipotecários. isso contribuiu para dar um salto na massa de capital fictício criado, originando formas ainda mais agudas de vulnerabilidade e fragilidade, inclusive frente a choques menores, inclusive frente a episódios absolutamente previsíveis. Por exemplo, se sabia que um “boom” imobiliário termina inexoravelmente e que no mercado acionário existia a ilusão de que não havia limites para a alta no preço das ações. Com base em toda a história prévia se sabia que a expansão não seria sustentável nem no setor imobiliário nem no mercado de ações. Quando se trata de edifícios e casas e mercado de ações é inevitável que chegue o momento em que o “boom” acaba. o fim da prosperidade, que era um fato normal e previsível, se transformou numa crise tremenda. Acrescenta-se a tudo isto, o fato de que, durante os últimos dois anos, os empréstimos foram feitos nos Estados Unidos a famílias sem a menor capacidade de pagamento. E, além disso, tudo se combinou com as novas “técnicas” financeiras permitindo-se assim que os bancos vendessem bônus em condições tais que ninguém podia saber exatamente o que estava comprando até a forte explosão dos “subprime”em 2007.François Chesnais (2008) levanta uma grande indagação se, a curto prazo, a demanda internada China poderá passar a ser o lugar que garanta esse momento de realização da mais-valia(taxa de exploração, segundo Marx, que corresponde à diferença entre o valor produzido pelotrabalho e o salário pago ao trabalhador) que se dava nos Estados Unidos. A acumulação decapital na China se fez com base em processos internos, mas também com base em algo queestá perfeitamente documentado, mas pouco comentado: o deslocamento de uma parteimportantíssima do Setor II da economia, o setor da produção de bens de consumo, dosEstados Unidos para a China. E isto tem muito a ver com o volume dos déficits americanos (ocomercial e o fiscal), que só poderiam reverter-se por meio de uma reindustrialização dosEstados Unidos.Isto significa dizer que se estabeleceram novas relações entre os Estados Unidos e China. Nãose trata já mais das relações de uma potência imperialista com um país semicolonial. OsEstados Unidos criaram relações de novo tipo, que agora têm dificuldades de reconhecer eassumir. Com base no superávit comercial, a China acumula milhões e milhões de dólares,que logo empresta aos Estados Unidos. São relações internacionais de um tipo totalmentenovo. 9
  10. 10. Na Europa é evidente a tendência a uma aceleração da destruição de forças produtivas e depostos de trabalho para deslocar-se para o único paraíso do mundo capitalista hoje que é aChina. Na China se deu internamente um processo de competição entre capitais, que secombinou com processos de competição no aparato político chinês, e de competição paraatrair empresas estrangeiras, o que resultou num processo de criação de imensas capacidadesde produção. Além da capacidade de violentar a natureza em enorme escala, também naChina se concentra uma superacumulação de capital que em um dado momento se tornaráinsustentável.Segundo Chesnais (2008), as fases desta crise são distintas das de 1929, porque a crise desuperprodução dos Estados Unidos se constatou desde os primeiros momentos. Da mesmaforma que ocorreu com a crise de 1929 e nos anos 1930, ainda que em condições e formasdistintas, a crise se combinará com a necessidade, para o capitalismo, de uma reorganizaçãototal da expressão de suas relações de forças econômicas no contexto mundial, marcando omomento em que os Estados Unidos verão que sua superioridade militar é somente umelemento, e um elemento bastante subordinado, para renegociar suas relações com a China eoutras partes do mundo. Ou chegará o momento no qual se dará o salto a uma aventura militarde imprevisíveis consequências.Chesnais (2008) constata também que estamos diante do risco de uma catástrofe, mas já não do capitalismo, e sim de uma catástrofe da humanidade. De certa forma, se levarmos em conta a crise climática, possivelmente já existe algo deste tipo. ocorreu em 2008, uma verdadeira ruptura que deixa para trás uma longa fase de expansão da economia capitalista mundial; e que essa ruptura marcou o início de um processo de crise com características que são comparáveis com a crise de 1929, ainda que venha a se desenvolver em um contexto muito distinto. Estamos frente a um destes momentos em que a crise vem expressar os limites históricos do sistema capitalista. entramos numa fase onde está colocada a possibilidade real de uma crise da humanidade, dentro de complexas relações onde estão também os acontecimentos bélicos, mas o mais importante é que, mesmo excluindo a possibilidade de uma guerra de grande amplitude que no presente só poderia ser uma guerra atômica, estamos enfrentando um novo tipo de crise, a uma combinação desta crise econômica que se iniciou com uma situação na qual a natureza, tratada sem a menor consideração e 10
  11. 11. golpeada pelo homem no marco do capitalismo, reage agora de forma brutal. Isto é algo quase excluído de nossas discussões, mas que vai se impor como um fato central. o processo de liberalização e desregulamentação levadas à cabo em escala mundial, com a incorporação do antigo campo soviético e a incorporação e modificação das relações de produção na China significou o desmantelamento dos poucos elementos regulatórios que se construíram no marco mundial ao sair da Segunda Guerra Mundial, para entrar em um capitalismo totalmente desregulamentado. Não somente desregulamentado, mas também um capitalismo que criou realmente o mercado mundial no sentido pleno da expressão, transformando em realidade o que era para Marx uma intuição ou uma antecipação.Chesnais (2008) advoga a tese de que durante os últimos quinze anos se desenvolveram, em determinados pontos do sistema, grupos industriais capazes de integrarem-se como sócios de pleno direito aos oligopólios mundiais. Tanto na Índia como na China se conformaram verdadeiros e fortes grupos econômicos capitalistas. E no plano financeiro, como expressão do rentismo e do parasitismo puro, os chamados Fundos Soberanos (instrumento financeiro adotado por alguns países que administram as imensas reservas de divisas dos países exportadores que tiveram suas receitas multiplicadas de maneira formidável nos últimos anos e vem sendo utilizadas, na maioria das vezes, para adquirir participações em empresas estrangeiras, com objetivos financeiros e estratégicos) se converteram em importantes pontos de centralização do capital em forma de dinheiro, que são meros satélites dos Estados Unidos, têm estratégias e dinâmicas próprias e modificam de muitas maneiras as relações geopolíticas dos pontos chave em que a vida do capital se faz e se fará.Chesnais (2008) opina que estamos diante de um perigo iminente. O fato de que tudo istoocorra depois de uma tão longa fase, sem paralelos na história do capitalismo, de 50 anos deacumulação ininterrupta (salvo uma pequeníssima ruptura em 1974/1975), assim comotambém tudo o que os círculos capitalistas dirigentes, e em particular os bancos centrais,aprenderam da crise de 1929, tudo isso faz com que a crise avance de maneira bastante lenta.Os bancos centrais e os governos podem proclamar que acordarão entre si e colaborarão paraimpedir a crise, mas Chesnais (2008) não crê que se possa introduzir a cooperação no espaçomundial convertido em cenário de uma tremenda competição entre capitais. E agora, acompetição entre capitais vai muito além das relações entre os capitais das partes mais antigase desenvolvidas do sistema mundial com os setores menos desenvolvidos sob o ponto de vistacapitalista. Porque em formas particulares e inclusive muito parasitárias, no cenário mundialse deram processos de centralização do capital por fora do marco tradicional dos centros 11
  12. 12. imperialistas: em relação com eles, mas em condições que também introduzem algototalmente novo na cena mundial.2. Cenários da economia mundialOcorreu em 2008, uma verdadeira ruptura que deixa para trás uma longa fase de expansão daeconomia capitalista mundial e que essa ruptura marcou o início de um processo de crise comcaracterísticas que são comparáveis com a crise de 1929, ainda que venha a se desenvolverem um contexto muito distinto. Da mesma forma que em 1929, os bancos estiveram noepicentro da crise, e no início do ano parecia que muitos deles poderiam falir como o LehmanBrothers ou serem estatizados, como de fato ocorreu com alguns deles. Esse quadro se refletiuem forte queda nas bolsas, um aumento recorde nos “spreads” de risco em operações decrédito, inclusive nos empréstimos interbancários, e uma fuga para os títulos públicos.O ano de 2009 começou sob a ameaça de nova depressão econômica que a economia mundialnão enfrentava desde a década de 1930. O sistema capitalista mundial só não entrou emdepressão após a crise de 2008 graças às intervenções governamentais realizadas em todo omundo. Diferentemente do que aconteceu na década de 1930, o setor público reagiurapidamente à queda na demanda e no crédito privados, expandindo suas atividades compacotes de gastos, isenções tributárias e farta oferta de crédito, inclusive por meio dos bancoscentrais, como nos Estados Unidos, área do euro e Reino Unido. Junto com o Japão, essespaíses também passaram o ano com taxas de juros próximas a zero. Na China, o governo nãosó adotou um grande pacote tributário, como expandiu o crédito numa escala nunca antesregistrada.O colapso financeiro do sistema capitalista mundial provocou uma desaceleração industrialmundial em 2009. Ela também está se espalhando por toda a economia real, grande parte daqual ainda está clamando por assistência. A busca por segurança está fortalecendo o controlepolítico dos Estados nacionais sobre os mercados. O mundo termina 2009 com a economiamundial em recessão contabilizando um prejuízo acumulado muito grande. No seuprognóstico, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que em 2009 o PIB mundialcairia e o comércio internacional contrairia como de fato aconteceu.O ano de 2010 foi um ano com taxas de desemprego ainda altas na economia global e com 12
  13. 13. volatilidade acima do normal no mercado financeiro mundial. Com o PIB mundial crescendoabaixo do potencial, a geração de empregos foi insuficiente para absorver todos osdesempregados e os novos ingressantes no mercado de trabalho. As dúvidas sobre a saúdefinanceira das empresas, em especial dos bancos, e, crescentemente, das contas públicas aindasão muitas. O alto desemprego persistente em todo o mundo e um baixo crescimento daeconomia mundial poderão até mesmo ameaçar a própria globalização.As fraquezas fundamentais do setor financeiro mundial ainda não foram solucionadas.Dúvidas também permanecem sobre o funcionamento do sistema monetário internacionalbaseado no dólar cujo valor se encontra em queda, os alvos corretos para a política monetária,a gestão dos fluxos globais de capital, a vulnerabilidade das economias dos países emergentes,como demonstrado na Europa central e oriental, e, também, a fragilidade financeirademonstrada ao longo das últimas três décadas. Ainda estão à espera de solução os problemasrelacionados com a regulação da economia mundial. Sem esta regulação, o sistema capitalistamundial estará sempre sujeito a crises sucessivas.Há muita especulação quanto à evolução futura da economia mundial. Alguns analistasadvogaram a tese de que a economia mundial teria uma evolução em “V”, isto é, apresentariano primeiro momento recessão com queda no crescimento cuja retomada aconteceriaimediatamente após atingir o ponto mais baixo. Outros consideraram o crescimento em “U”,isto é, haveria recessão com a queda no crescimento econômico seguida de um longo períodode depressão após a qual ocorreria a retomada do crescimento e os mais pessimistas,defenderam uma evolução em “L”, isto é, haveria recessão seguida de depressão semperspectiva de crescimento. Neste último caso, a retomada do crescimento só aconteceria coma edificação de uma nova ordem econômica mundial.Nouriel Roubini (2009) apresentou nova forma de evolução da economia mundial, em “W”,em seu artigo “Cresce o risco de nova contração”. Neste artigo, Roubini afirma que, existem duas razões para que exista risco ascendente de uma recessão de duplo mergulho, em forma de W. Para começar, existem riscos associados às estratégias de saída para o grande relaxamento da política monetária e de estímulo fiscal: as autoridades serão criticadas por agir e também por não agir. Caso decidam levar a sério os grandes déficits fiscais e decretem aumento de impostos, corte de gastos e redução da liquidez excessiva poderão solapar a recuperação e levar a economia a uma estagdeflação (recessão e deflação). 13
  14. 14. O jornal Folha de São Paulo (2009) informava que o Fundo Monetário Internacional (FMI)afirmava que o mundo já ensaiava sair da pior recessão do pós-Segunda Guerra, mas que umarecuperação mais firme poderá demandar mais tempo do que o previsto. Segundo o FMI a boanotícia é que as forças que vinham empurrando a economia global para baixo estão perdendoforça. Mas a má notícia é que ainda é muito fraca a força que nos empurra para cima, disse oeconomista-chefe do Fundo, Olivier Blanchard, ao anunciar as novas previsões contidas norelatório "Panorama da Economia Mundial". Isto significa dizer que o FMI defendia umaevolução entre “V” e “U” para a economia mundial.O futuro da economia mundial depende da solução que seja dada às relações econômicasentre os Estados Unidos e a China, à gigantesca dívida pública dos Estados Unidos, àrecuperação do sistema financeiro mundial, à regulação da economia mundial e aos potenciaisconflitos sociais. O primeiro problema que precisa ser solucionado é o das relaçõeseconômicas entre Estados Unidos e a China. Este problema decorre, de um lado, do fato dasreservas monetárias chinesas estarem financiando decisivamente o crescimento do déficit dosEstados Unidos e, de outro, o mercado dos Estados Unidos representar o principal destino dasexportações chinesas. Com a receita gerada por enormes excedentes comerciais com osEstados Unidos - e as políticas que mantêm sua moeda artificialmente baixa - Pequim é omaior investidor em títulos do Tesouro norte-americano.O aparente controle financeiro da China sobre os Estados Unidos vem ganhando grandedestaque. Ressalte-se que o acúmulo por parte da China de uma enorme reserva em divisasestrangeiras (US$ 2 trilhões) é efeito colateral de um modelo econômico demasiadodependente das exportações. O enorme superávit comercial da China é fruto de um Yuansubvalorizado que vem permitindo que outros países consumam bens chineses às custas daprópria população chinesa. A China não pode vender as reservas de seu Tesouro semdesencadear o próprio colapso do dólar que supostamente teme. Um aspecto fundamental aconsiderar é que se os Estados Unidos adotarem a política de reduzir seus déficits levaria opaís a comprar menos produtos chineses.A cúpula entre os governos chinês e norte-americano realizada em 2009 teve por objetivoiniciar conversações para procurar soluções conjuntas, apesar das divergências sobre a moeda,para o déficit orçamentário norte-americano e o fosso comercial (exportações – importações) 14
  15. 15. entre os dois países, entre outros. O governo Obama manteve a intenção de se centrar nadiferença na balança comercial frisando que a China não deve contar com os consumidoresnorte-americanos para fazer a economia global sair da recessão, porque o consumo dasfamílias norte-americanas estava em contração. Isto significa dizer que a China teria quenecessariamente impulsionar o consumo interno para manter seu crescimento econômico econtribuir para uma mais rápida, porém mais equilibrada e sustentável recuperação global.Os Estados Unidos se defrontam com um pesado déficit em conta corrente, tornando-se omaior detentor de dívida externa do mundo. Se os Estados Unidos não apertarem o cinto,colocando em xeque o “american way of life”, e começarem a perseguir déficits em contacorrente menores e balança comercial superavitária vão ter que decretar moratória. Ressalte-se que as obrigações dos Estados Unidos devem somar um montante superior a 3 trilhões dedólares. No entanto, se os Estados Unidos adotarem a política de apertar o cinto, reduzirdéficits e tornar superavitária sua balança comercial haveria o comprometimento do comérciointernacional dado o peso da economia norte-americana. Isto significa dizer que, qualquer queseja a solução para a economia norte-americana, a crise global atual terá continuidadeavançando da recessão em que se encontra à depressão crônica. A evolução da economiamundial seria, portanto, em “L”.Martin Wolf (2009), articulista do Financial Times, perguntava se “a economia mundial estásaindo da crise? O mundo aprendeu as lições certas? A resposta para ambas as perguntas é:até certo ponto. Nós fizemos algumas coisas acertadas e aprendemos algumas das liçõescertas. Mas nem fizemos o suficiente e nem aprendemos o suficiente”. Wolf afirma ainda quedevemos colocar estas notícias, por mais bem-vindas que sejam, em contexto. O pior da crisefinanceira pode ter ficado para trás, mas o sistema financeiro continua subcapitalizado ecarregando um fardo ainda desconhecido de ativos duvidosos. Pelo contrário, ele estáescorado por um imenso apoio explícito e implícito dos contribuintes. A probabilidade deprejuízo à frente é próxima de 100%.A subcapitalização do sistema financeiro impacta negativamente sobre a economia realinibindo o financiamento do setor produtivo e do comércio internacional. Muitos países estãosofrendo quedas acentuadas em suas receitas de exportação devido à redução da demandamundial resultante da recessão global, mas também em conseqüência da retração do créditopara exportação. Teme-se que, na tentativa de cada país estimular sua própria economia na 15
  16. 16. conjuntura atual associada à adoção de medidas protecionistas, leve a uma reação em cadeia.Isso reduziria o comércio internacional, aumentaria o desemprego e autoalimentaria a criseem cada país e em escala global. A busca de vantagens em cada país levaria ao pior cenáriopara todos: a depressão da economia mundial. Muitos analistas temiam que se repetisse o queaconteceu durante a Grande Depressão, nos anos 1930. A volta doprotecionismo representaria um sério risco para a continuidade do processo de globalização.Martin Wolf (2009) afirmava também que por trás do excesso de capacidade e dos enormesaumentos nos déficits fiscais estava o desaparecimento do consumidor que gasta muito,principalmente nos Estados Unidos. A prudência do setor privado provavelmente perduraráem um mundo pós-bolha caracterizado por montanhas de dívida. Aqueles que esperam umretorno rápido aos negócios de costume de 2006 estão fantasiando. Uma recuperação lenta edifícil, dominada pela desalavancagem e riscos deflacionários, era a perspectiva maisprovável. Os déficits fiscais permanecerão imensos por anos. As alternativas -liquidação doexcesso de dívida por meio de um aumento da inflação ou falência em massa- não serãopermitidas. A alta dependência de uma expansão monetária imensa e déficits fiscais nospaíses que antes consumiam muito serão insustentáveis no final. A visão de Wolf é a de que aevolução da economia mundial ocorreria em “U”.Segundo Martin Wolf (2008), o mundo está sem tomadores de empréstimo privados dispostos e dignos de crédito. O colapso espetacular do sistema financeiro ocidental é um sintoma deste grande fato. A curto prazo, os governos substituirão os setores privados como tomadores de empréstimos. Mas isso não pode durar para sempre. A longo prazo, a economia global terá que se reequilibrar. Se os países com superávit não expandirem a demanda doméstica em relação à produção potencial, a economia do mundo aberto poderá até mesmo quebrar. Como nos anos 30, este agora é um risco real.Analisando a economia mundial, Chesnais (2008) constatou que seria preciso encontrar remédios para a taxa de poupança. Ela é baixa demais em alguns países, alta demais em outros. Os Estados Unidos, onde ela se tornou negativa, e a China representam os polos extremos dessa distorção. A reconstituição de uma taxa de poupança que deixasse de fazer dos Estados Unidos a sede, quando não o transmissor mais imediato, de crises financeiras sucessivas “requer uma consolidação orçamentária incompatível com as orientações políticas da maioria conservadora no poder. Implica, sobretudo, uma recuperação considerável da poupança das 16
  17. 17. famílias. Isso supõe uma revisão dilacerante do consumo a crédito, combinado com o desperdício aterrorizante dos recursos não renováveis, que constitui o modo de vida norte-americano.Para Wolf (2009), quanto mais forte for o crescimento da demanda nos países com superávit,em relação ao PIB potencial, e mais poderoso for o reequilíbrio global, mais saudável seria arecuperação global. Isso vai acontecer? Wolf duvida. O alto desemprego persistente e umbaixo crescimento poderão até mesmo ameaçar a própria globalização. As fraquezasfundamentais do setor financeiro ainda não foram tratadas. Dúvidas também permanecemsobre o funcionamento do sistema monetário internacional baseado no dólar, os alvos corretospara a política monetária, a gestão dos fluxos globais de capital, a vulnerabilidade daseconomias emergentes, como demonstrado na Europa central e oriental, e, também, afragilidade financeira demonstrada com tanta frequência e tão dolorosamente ao longo dasúltimas três décadas.3. Cenários mundiais no campo socialO principal problema social resultante da crise econômica e financeira mundial de 2008 é odesemprego que já está assumindo proporções gigantescas. O Diário da Manhã publicouartigo de Marcos Cintra6 (2009) sob o título Desemprego no mundo e no Brasil. O texto doartigo é o seguinte: A Organização Internacional do Trabalho (OIT) produziu o relatório “Global Employment Trends” e nele estima que a recessão global pode gerar em 2009, relativamente a 2007, um contingente adicional de desempregados entre 18 milhões e 30 milhões de pessoas, mas esse número pode chegar a 50 milhões caso o quadro continue se deteriorando. O relatório da OIT aponta que em economias ricas como os Estados Unidos, Canadá, União Europeia, Japão, entre outras, os desempregados adicionais poderão variar entre 4 milhões e 11 milhões de pessoas. No Leste e Sul da Ásia o desemprego pode atingir entre 8 milhões e 26 milhões de trabalhadores. Na Europa Oriental, Oriente Médio e África esse contingente ficaria entre 3 milhões e 10 milhões. A OIT não disponibiliza no relatório dados referentes a países, fazendo-o apenas para regiões. No caso dos Brasil as informações estão contidas na América Latina e Caribe, onde a estimativa é que os desempregados poderão variar entre 2 milhões e 4 milhões de trabalhadores nos quase 50 países que compõem a região.6 Marcos Cintra, doutor em Economia pela Universidade Harvard, é professor e vice-presidente da FundaçãoGetulio Vargas. 17
  18. 18. Os dados da OIT revelam que a turbulência econômica mundial iniciada nos Estados Unidos terá um impacto mais devastador sobre o mercado de trabalho nos países ricos. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de desempregados hoje já é de 12,5 milhões de pessoas, sendo que esse contingente era de pouco mais de 7 milhões em 2007. Na Europa o desemprego atingiu 8% em dezembro do ano passado, a mais alta dos últimos dois anos, e no Japão a indústria anuncia com frequência cortes de funcionários e a estimativa é que cerca de 30 mil dekasseguis voltem ao Brasil por conta disso. A situação do mercado de trabalho no Brasil em função da crise global é relativamente boa quando comparada com a dos países ricos da Europa, América do Norte e Japão. O desemprego preocupa por aqui, mas a situação é mais dramática lá fora, como projeta a OIT. O governo federal vem reorientando as diretrizes da política macroeconômica fortalecendo o mercado interno para compensar a retração mundial. Mas é preciso dissipar o ambiente extremamente ruim que se criou, e que aumenta o drama dos trabalhadores brasileiros, e buscar alternativas que evitem cortes de funcionários. Uma alternativa que coloco em debate poderia distribuir melhor o impacto da crise sobre o setor produtivo. Em vez de simplesmente cortar postos de trabalho as empresas poderiam negociar com os sindicatos uma redução nos salários na exata proporção das pretendidas demissões. Se uma empresa concluísse que teria que cortar, por exemplo, 20% de sua folha salarial, essa redução se daria não com cortes de pessoal, mas através da diminuição de salários nessa mesma proporção. Certamente, haveria um consenso dentre os trabalhadores, que prefeririam manter seus empregos, mesmo que recebendo menos, do que perder o emprego e conviver com rendimento zero. Além disso, a tendência é que mesmo que encontre outro trabalho, numa situação de crise, sua remuneração para o mesmo cargo provavelmente seja reduzida.O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, declarou ao jornal El País (2009) daEspanha que havia o risco de uma "grave crise humana e social", por causa da criseeconômica atual, se não forem tomadas as medidas adequadas a tempo. O titular do BancoMundial alertou que o cenário atual ainda era imprevisível e que é melhor "estar preparado"."O que começou como uma grande crise financeira e se converteu em profunda criseeconômica, agora está derivando para uma grande crise de desemprego".O titular do Banco Mundial não rechaçou a hipótese de uma retomada da economia mundial,como várias autoridades dos países mais desenvolvidos têm sugerido. Mas advertiu que "será 18
  19. 19. uma recuperação de baixa intensidade, durante um tempo prolongado", e acrescentou: "odesemprego vai continuar crescendo". "A probabilidade de uma grande depressão é baixa,porém nunca nula", afirmou.O Jornal de Notícias (2009) publicou texto em 04/05/2009 sob o título Aumento do desemprego pode provocar crise social. Este texto informava o seguinte: O presidente do Eurogrupo, o também primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, afirmou que o desemprego está a crescer até "níveis inquietantes". Os ministros das Finanças da zona euro (Eurogrupo) alertaram para o risco de que a crise econômica e financeira que afeta a Europa traga consigo uma "crise social", provocada pelo aumento acentuado do desemprego. No final da reunião mensal do Eurogrupo, o seu presidente, o também primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, afirmou que o desemprego está a crescer até "níveis inquietantes" e considerou que os governos da região devem dirigir "todos os seus esforços" para combater a situação. Segundo as novas previsões econômicas publicadas hoje pela Comissão Europeia, a taxa de desemprego nos países da zona euro deverá crescer até aos 9,9 por cento em 2009, devendo atingir os 11,5 por cento em 2010. Jean-Claude Juncker pediu ainda "responsabilidade social" às empresas, advertindo que no atual contexto devem evitar recorrer às demissões coletivas como medida de redução de custos. O presidente do Eurogrupo sublinhou que não se pode subestimar o "caráter explosivo" que tem o aumento do desemprego e os problemas que pode gerar, lembrando ainda que os mais prejudicados por este elemento são os estratos sociais mais baixos. No seu encontro de hoje, dedicado quase exclusivamente à análise das novas previsões econômicas de Bruxelas, os responsáveis da política econômica da Zona Euro concordaram ainda que, de momento, não são necessárias mais medidas de impulso conjuntural na Europa. Jean-Claude Juncker insistiu que o esforço que a Europa realizou para combater a crise é equivalente ao dos Estados Unidos e reiterou que "não se vê necessidade de aumentar o volume" de fundos injetados na economia.O site Terra.com.br (2009) publicou texto em 22 de abril de 2009 sob o título Crisefinanceira pode levar à crise social na Ásia, diz OIT . O texto é o seguinte: A Organização Internacional do Trabalho (OIT) disse nesta quarta-feira, em reunião em Manila, nas Filipinas, que a crise econômica e financeira internacional pode trazer o risco de uma crise 19
  20. 20. social na Ásia, onde a agência prevê que haverá mais 23,3 milhões de desempregados e mais de 140 milhões de pobres este ano. "Se enfrentarmos uma crise financeira prolongada, existe o perigo de cairmos em uma crise social na região", disse o economista da OIT Gyorgy Sziraczki, da OIT, aos participantes de 11 países. A diretora regional da OIT, Sachiko Yamamoto, disse, em seu discurso, que é "um cenário real" que tende a se formar com "uma magnitude e uma rapidez assombrosa", porque o impacto da crise financeira "está sendo sentido profundamente nos países industrializados e emergentes da Ásia". Um estudo desta agência estima que 23,3 milhões de trabalhadores perderão o emprego este ano e se unirão aos 90 milhões de desempregado que havia nessa região do mundo no final de 2008, e prevê "um aumento dramático da pobreza em mais de 140 milhões de pessoas em 2009". O relatório afirma que cerca de 60 milhões de trabalhadores passarão do setor formal ao informal este ano, com o risco de perdas salariais e de proteção social. O documento destaca que a Ásia gastará 3,9% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em planos de estímulo econômico e, no entanto, os governos asiáticos são os que destinam menos dinheiro à proteção social de todo o mundo. O relatório afirma que "o arrefecimento econômico substancial levará ao congelamento ou à diminuição dos salários", e essa situação aumentará potencialmente as disputas trabalhistas. A OIT pediu que os governos da região atuem agora para enfrentar estes problemas, e o Banco Asiático de Desenvolvimento lembrou que qualquer medida deverá incluir fórmulas para criar trabalhos e infra-estruturas que beneficiem aos pobres. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) disse nesta quarta-feira, em reunião em Manila, nas Filipinas, que a crise econômica e financeira internacional pode trazer o risco de uma crise social na Ásia, onde a agência prevê que haverá mais 23,3 milhões de desempregados e mais de 140 milhões de pobres este ano.O site Rumo Sustentável (2009) publicou texto sob o título Crise atual pode ser mais intensa do que a de 1929, diz sociólogo. Neste texto, é apresentada entrevista com Ricardo Antunes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em temas do mercado de trabalho. Nesta entrevista Ricardo Antunes afirma que as empresas, antes da crise atual, passaram por processos de “liofilização” e enxugaram suas “substâncias vivas”, os trabalhadores, por meio da modernização tecnológica e da reestruturação produtiva. O resultado disso foi o crescimento do chamado desemprego estrutural, que poderá aumentar em muito com a crise econômica mundial de hoje.Para Ricardo Antunes a crise econômica e financeira mundial já tem um resultado devastadorpara a classe trabalhadora. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez a previsão de 20
  21. 21. novos 50 milhões de desempregados em 2009, o que elevava o número de desempregadospara até 340 milhões de pessoas no mundo. Este número era uma estimativa moderada. Só aChina anunciou que 26 milhões de ex-trabalhadores rurais, que estavam ocupados nascidades, perderam o emprego. A tragédia que se abateu entre os trabalhadores é monumental,a começar pelos imigrantes à cata de trabalho nos países do hemisfério norte, mas também aclasse trabalhadora em geral, que estava empregada na indústria metal-mecânica, têxtil, nosetor alimentício, etc. A primeira providência que o empresariado toma na eminência de umacrise é o corte nos postos de trabalho. É emblemático que os Estados Unidos, a Inglaterra e oJapão vivem a maior taxa de desemprego das últimas décadas.Ricardo Antunes afirma que o governo brasileiro tentou nos vender a idéia, completamentefalsa, de que estávamos imunes à crise. A verdade, no entanto, é que nós, no final de 2009,tivemos 640 mil novos desempregados. De lá para cá, os dados melhoraram, porque ogoverno tomou medidas, como a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados)dos automóveis e dos produtos de linha branca para impedir que a recessão fosse mais dura.Mas essas medidas teriam fôlego curto. A economia brasileira é muito globalizada. O Brasildepende muito do mercado externo por causa das commodities. O desfecho da crise brasileiraestá bastante atado ao desfecho da crise internacional. Não podemos ter uma ilusão de que opaís é uma ilha rósea em um mar turbulento.4. Mudanças geopolíticas futurasGiovanni Arrighi (1996) afirma que existiram quatro ciclos sistêmicos de acumulação decapital durante a evolução do capitalismo como sistema mundial: um ciclo genovês, doSéculo XV ao início do Século XVII; um ciclo holandês, do fim do Século XVI até decorridaa maior parte do Século XVIII; um ciclo britânico, da segunda metade do Século XVIIII até oinício do Século XX; um ciclo norte-americano, iniciado no fim do Século XIX e queprossegue na atual fase de expansão financeira. Ainda segundo o autor, o regime genovêsdurou 160 anos, o holandês 140 anos, o britânico 160 anos e o norte-americano 100 anos.Giovanni Arrighi defende a tese de que, em cada um dos ciclos de acumulação do capital, aexpansão comercial e da produção ocorrida no início deu lugar no final a uma especializaçãomais concentrada nas altas finanças, isto é, na especulação e na intermediação financeira. Estaé a situação que prevalece na economia mundial na atualidade. Segundo François Chesnais 21
  22. 22. (2008), a crise do sistema capitalista mundial que eclodiu em 2008 tem como outra de suasdimensões a de marcar o fim da etapa em que os Estados Unidos puderam atuar comopotência mundial sem paralelo.Na opinião de Chesnais (2008), vivenciamos um momento em que os Estados Unidos, estãosendo submetidos à prova. Em um prazo temporal muito curto, todas as relações mundiais dosEstados Unidos se modificaram devendo, na melhor das hipóteses, renegociar e reordenartodas as suas relações com base no fato de que terão de compartilhar o poder em escalamundial. A era em que os Estados Unidos procuravam impor sua vontade no cenáriointernacional acabou. É o que já está ocorrendo a partir do governo Barack Obama.Há uma suposição em muitas partes do mundo de que a crise geral do sistema capitalistamundial, representada pelo congelamento do sistema financeiro, acelerará a mudançageopolítica de longo prazo, anunciando o declínio do poder americano e da influênciaeuropeia. "A crise enfatiza o fato de a China ser um agente mundial chave", disse Bobo Lo(2008). Segundo Bobo Lo, "ela pode ainda não ser uma superpotência mundial, mas acelerouesta tendência”.O jornal Estado de São Paulo publicou em 21/11/2008 artigo sob o título Força dos EUA nomundo diminuirá, diz inteligência americana. O texto é o seguinte: O Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, parte do aparato de segurança de Washington, publicou uma previsão impressionante. O sistema internacional como elaborado após a Segunda Guerra Mundial estaria, como previsto, "irreconhecível" em 2025, graças à globalização, a ascensão dos poderes emergentes e "uma transferência histórica de riqueza relativa e poder econômico do Ocidente para o Oriente". Nesta publicação constata-se que "os próximos 20 anos de transição para um novo sistema serão repletos de riscos". "As rivalidades estratégicas provavelmente girarão em torno do comércio, investimentos e inovação e aquisição tecnológica, mas não podemos descartar um cenário do século 19 de corrida armamentista, expansão territorial e rivalidades militares".Este relatório foi escrito antes da força plena da crise financeira e econômica se tornar real.Todavia, seus autores estavam convencidos de que o momento unipolar da hegemonia nãodesafiada norte-americana pós-queda do Muro de Berlim já estava chegando ao fim. A futuraordem mundial seria multipolar. A China caminha para se tornar um agente dominante em umFundo Monetário Internacional e Banco Mundial fortalecidos. A China é atualmente o país 22
  23. 23. que mais cresce no mundo que, por essa razão, tem se destacado no cenário geopolíticomundial.A China tem exercido grande influência política, militar e econômica no cenário asiático einternacional graças à grande extensão de seu território (ocupa o terceiro lugar em dimensãoterritorial no planeta), elevadíssimo número de habitantes (cerca de 1,3 bilhão, o maispopuloso do mundo) e o dinamismo de sua economia (atualmente é a economia que apresentamaiores índices de crescimento em todo o planeta).Nesse ínterim, a velocidade e a ousadia da expansão mundial da China seguem surpreendendoos analistas e os governantes de todo o mundo. O país está se transformando na primeirasociedade não branca e não européia que se transformará em uma superpotência política,econômica e militar global. E tudo indica que não haverá recuo nesta tendência. O século XXIassistirá, certamente, à consolidação do maior Estado nacional do Extremo Oriente, aRepública Popular da China, como a maior potência econômica, política e militar do mundo.Tudo leva a crer que, em substituição à hegemonia global norte-americana, haverá no curtoprazo a construção de um sistema mundial multipolar sob a liderança conjunta da China e dosEstados Unidos, num quadro de equilíbrio de poder. Isto se deve ao fato de a acumulação decapital na China se fazer com base em processos internos, mas também com base em algo queestá perfeitamente documentado que é o deslocamento de uma parte importantíssima do setorda produção de bens de consumo, dos Estados Unidos para a China. E isto tem muito a vercom o volume dos déficits comercial e fiscal norte-americanos.Mas o que ocorre nas entranhas da China? Na China se deu internamente um processo decompetição entre capitais, que se combinou com processos de competição no aparato políticochinês, e de competição para atrair empresas estrangeiras, o que resultou num processo decriação de imensas capacidades de produção. Isto significa dizer que se estabeleceram novasrelações entre os Estados Unidos e China. Não se trata já mais das relações de uma potênciaimperialista com um país semicolonial. Com base no superávit comercial, a China acumulamilhões e milhões de dólares, que logo empresta aos Estados Unidos. São relaçõesinternacionais interdependentes de um tipo totalmente novo. 23
  24. 24. O impacto econômico da China, e agora da Índia, com a população combinada próxima de 2,4bilhões de pessoas, já é evidente. Só a população da China já é maior do que a da AméricaLatina e da África Subsaariana juntas. Além disso, os gigantes não estão sozinhos. A ascensãoda China e, também, da Índia como potências mundiais é tão significativa quanto à dosEstados Unidos, Alemanha, Japão e Rússia ocorrida no fim do século XIX. Historicamente, aascensão das potências emergentes contribuiu para o acirramento da competição econômica edas contradições entre as classes dominantes desses países desencadeadores de conflitosinternacionais como aconteceu em 1914 com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e em1939 com o advento da Segunda Grande Guerra.A ascensão da China e da Índia poderá desencadear conflitos internacionais intransponíveiscomo aconteceu no passado? A resposta a esta questão depende do que possa vir a ocorrer narelação econômica interdependente entre a China e Estados Unidos e da capacidade queambos os países possuam de administrar o condomínio de poder mundial sob suas liderançase evitar o desencadeamento de conflitos internacionais. De outro lado, a emergência deconflitos poderá acontecer se, no âmbito das atuais potências dominantes em declínio,ocorrerem desestabilizações políticas resultantes da crise do sistema capitalista mundial e aascensão ao poder de setores políticos fascistas e belicistas de difícil solução pelo condomíniode poder mundial liderado pela China e Estados Unidos.BIBLIOGRAFIAAGLIETTA, Michel & BERREBI, Laurent. Désordres dans le capitalisme mondial. Paris:Odile Jacob, 2007.ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. São Paulo: UNESP, 1996.BOBO LO. Axis of Convenience: Moscow, Beijing, and the New Geopolitics. Kindle Edition, 2008.CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.CHESNAIS, François. Texto de François Chesnais sobre crise financeira. Blog IZB,2/11/2008. Disponível em: http://blog.zequinhabarreto.org.br/2008/11/02/texto-de-francois-chesnais-sobre-crise-financeira.CHOSSUDOVSKY, Michel. A Grande Depressão do século XXI: Colapso da economia real. 14/03/2009. Disponível em: <http://agal- 24
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