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1
Número 02 — Fevereiro 2016
AMPLITUDE
Poeta em
Destaque:
Júlia Lemos
E MAIS: Cinema - Fotografia - Música - HQ
2
SUMÁRIO
Revista Amplitude - Número 02 - Fev 2016
Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 03
Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .04
Conto: O canto do sabiá preto / Lindolfo Weingärtner . . . . . .05
Luminares / Joana Cristina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10
Cinema: 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . . 08
Conto: A Morte da Encrenqueira / Judson Canto . . . . . . . . . . .11
Jardim dos Clássicos / Eça de Queirós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .12
Crônica / Max Lucado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17
Conto: O Poeta do Salmo Exilado / J.T.Parreira . . . . . . . . . . . . . 18
Poeta em Destaque / Julia Lemos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
Conto: A Troca / Joed Venturini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .24
Galeria / Lya Alves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30
Conto: A Matilha Fantasma / Sammis Reachers . . . . . . . . . . . . 32
Notas Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37
Cinema / 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . 38
Conto: O Hóspede / Florbela Ribeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Luminares / Helena Branco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .40
Conto: O Menino / Myrtes Mathias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41
Hot Spots: Ramon Llull (Lúlio) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .44
Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
Especial / Estêvão para tempos de perseguição . . . . . . . . . . . . 47
Resenhas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
Luminares / Camilo Borges Júnior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .52
Crônicas / Chris Amag & Rofa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .53
Álbum / William Rosa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .54
HQs . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
Parlatorium . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .56
CAPA: He Qi, Calling Disciple (Jesus chamando os discípulos) - trecho. He Qi é um artis-
ta cristão chinês que tem feito um trabalho assaz singular, e gentilmente cedeu sua
obra para ilustrar a capa de AMPLITUDE. Conheça mais do trabalho do autor:
http://www.heqiart.com
AMPLITUDE é uma revista de cultura
evangélica, com foco principal em fic-
ção e poesia. Mas nosso leitmotiv,
nosso motivo de ser e de existir, é a
arte cristã em geral: Transitamos por
música, cinema, fotografia, artes plás-
ticas e quadrinhos. Publicamos arti-
gos, estudos literários, crônicas e rese-
nhas.
Nossa intenção diz respeito àquela
despretensiosa excelência dos humil-
des. Nosso porto de partida e porto de
chegada é Cristo. Nosso objetivo é
fomentar a reflexão e a expressão,
AMPLIAR visões, entreter com valores
cristãos, comunicar a verdade e o belo
e estimular o engajamento artístico/
intelectual entre nossos irmãos. Nosso
preço é nenhum: a revista circula gra-
tuitamente, no democrático formato
pdf.
COLABORE:
Será uma felicidade ter você como um
colaborador de AMPLITUDE. Envie-nos
seu material para avaliação (conto,
crônica, artigo, estudo literário, traba-
lho em artes plásticas ou fotografia
artística, resenha ou crítica de filmes,
livros ficcionais ou poéticos e (boa,
per favore) música cristã/evangélica,
JUNTAMENTE com breve biografia.
Envie também notícias sobre eventos
artísticos, lançamento de livros e
quaisquer notas culturais envolvendo
arte/artistas evangélicos que você
julgar relevantes.
E escreva-nos ainda para prosear, in-
dagar, criticar, elogiar...
Nossos e-mails:
revistaamplitude@gmail.com
sammisreachers@ig.com.br
Facebook:
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Blog:
www.revistaamplitude.blogspot.com.br
Editor: Sammis Reachers
3
Editorial
É com felicidade que apresentamos o segundo número de AMPLITUDE. Durante es-
tes seis meses de espera ou gestação desta segunda edição, pudemos auferir a boa recepção que a
nossa primeira edição obteve entre autores e leitores. Isso nos incentiva a avançarmos na jorna-
da, cientes da seriedade e importância da iniciativa de reunir em revista, o melhor da produção
literária poética e ficcional, além de outras expressões artísticas levadas a cabo por cristãos pro-
testantes e de outras filiações.
Vamos ao panorama da edição: Na seção Hot Spots, a sapiência de um dos maiores nomes da
mística cristã, Ramon Llull (Raimundo Lúlio). Em Galeria, a obra da pastora, artista plástica,
grafiteira, quadrinista e ativista cultural Lya Alves. Na seção Cinema, destacamos a realização da
terceira edição do Festival Nacional de Cinema Cristão.
Esta edição chega inaugurando diversas novas seções. Uma delas é Poeta em Detaque, inician-
do com a obra da pernambucana Júlia Lemos.
Inaugurando a nossa seção Especial, de enfoque temático, temos como mote Estêvão para tem-
pos de perseguição, uma mini-antologia reunindo as percepções de seis excelentes poetas acerca de
nosso protomártir, sobre quem nos é oportuno refletir em tempos de recrudescimento das perse-
guições aos cristãos ao redor do globo.
E as artes visuais ganharam ainda mais destaque: além da já citada seção Galeria, e de HQ
(História em Quadrinhos), inauguramos mais uma seção, Luminares, destacando, em singelas inser-
ções, a pintura, ilustração ou desenho de nossos concidadãos de Reino. E a Fotografia chega com
força na seção Álbum, abrindo as portas com a obra de William Rosa.
Os contos, como diria meu pai, estão de lascar: Iniciamos com Eça de Queiroz, na seção Jar-
dim dos Clássicos, apresentando o conto O Suave Milagre. Seguimos com o humor e a precisão de
Judson Canto (A Morte da Encrenqueira); a dramaticidade soberba de J.T.Parreira (O Poeta do Sal-
mo Exilado); Florbela Ribeiro relatando (em O Hóspede) sobre o príncipe que tinha por norma se
hospedar junto aos pobres; Lindolfo Weingärtner num conto terno e luminoso (O canto do sabiá
preto); Joed Venturini com o impactante & metafísico A Troca; este vosso humilde escriba, num
conto de terror(!?), A Matilha Fantasma; e concluímos com nossa saudosa e maravilhosa Myrtes
Mathias, num conto com um toque arrebatador (O Menino).
Queridos trinta leitores, agora uma nota triste: havia idealizado a periodicidade da revista pa-
ra semestral, mas percebo agora que infelizmente não poderei manter tal ritmo. Não que o traba-
lho seja tanto (mesmo que seja! Rsrs), embora eu faça aqui tudo sozinho, mas o fato se dá em vir-
tude de meu pouco tempo. Retomei estudos universitários, e, junto ao trabalho secular e minhas
outras iniciativas, das quais não posso abrir mão, percebo que o tempo de seis meses não é sufici-
ente, ao menos nesse momento de minha vida, para dar conta de uma publicação desta magnitu-
de. Portanto, fica em aberto, até palavra em contrário, a periodicidade de AMPLITUDE. Lem-
brando: a revista não acabará; apenas terá expandido seu período de gravidez. E aproveitando o
ensejo, não deixem de orar por nosso bebê!
E, como sempre, paz e bem e uma boa leitura!
Sammis Reachers, editor
Nota: Tenho buscado, nas seções de contos e poesia, efetuar um rodízio de autores. Assim, temos nesta edição em
sua grande maioria autores não publicados na edição anterior. Com isso buscamos dar voz a tantos quanto possí-
vel, e apresentar aos leitores sempre um melhor panorama da grande e boa produção de nossos irmãos.
4
OFEREÇO A MINHA MORTE
J.T.Parreira
Ofereço a minha morte. Levanto
O meu sangue no silencio das feridas.
As maos abrem-se rasgadas, sao duas
Cartas abertas de amor.
Um horizonte, o meu lado esquerdo
Abre-se para o voo do meu coraçao
Abandonado por Deus, ofereço a minha morte
Serei retirado da cruz por maos amorosas.
Prenda
Karla Waters
Das entranhas
As estranhas
Dos meus labios
Para os teus
No ventre
De minh'alma
É que a poesia
Se concebeu
Das cortinas
Dos meus veus
Da materia uterina
Ate os ceus
Éis que a palavra surge
Vindo de outra alma ruge
Se encontra em minha casa
É dentro dela cria asa
O poema enfim nasceu
Vindo de gritos e dores
Contudo, cheio de esplendores
NÔVO !
Helena Branco
o som trazia
abs(traído)...harpeando luz a lagrimas na vidraça
o ANO começa... perpassa...
rendilhando suspiros consumindo notas breves d alaude
ritmo insondavel batuta esgrimida d promessa comovida
por STRAUSS !
danço em pontas e tules a esbelteza no espaço
abraçada pela cintura o tempo escreve...avida
a rosa perfumada
e o AMOR que...murmura
A VIDA!
Escuro vale
Patrícia Costa
Éscuro vale este
onde o medo
quer ser companhia
e o descredito
busca titubear
a fe
Das Tuas maos
o amparo
a certeza
e o cuidado
de ser
refugio e fortaleza
que ha de guiar
meus olhos
meu corpo
meus pes
quando tudo parecer contrario.
COM DEUS
Alfredo Pérez Alencart (Espanha)
Aberto estou, Deus, ao teu relampago eterno,
pregado ao chao onde escuto um rouxinol
que canta quando me estendo sobre a Cruz!
Nem ao crepusculo se me quebra a esperança,
tributaria duma carne que rangeu tao longe
para nos amparar com a sua altíssima ternura.
Assim, tu, eu, bem aventurados do milagre
na chave profetica, espelhos duma aliança
habil em redençoes sob sois escuros!
Subita liberdade para voltar ao ponto
de partida! Liberdade para desordenar-me
entre a luz onde decerto treme a sua Voz!
Rasga a noite, Deus, e muda-me de planeta!
Tradução: António Salvado
5
O canto do sabiá preto
Lindolfo Weingärtner
O asilo ainda fora construído no tempo
em que se pensava que pessoas idosas, para
se sentirem bem, antes de tudo precisavam
de ar fresco e de natureza nao poluída. So
mais tarde se havia descoberto que o maior
inimigo de gente velha era a soli-
dao.
Mas tal inimigo, como se
sabe, nao poupa nem mes-
mo os asilos situados em
meio ao turbilhao dos
centros urbanos. Éle
nao olha classe social,
rico ou pobre, gente cul-
ta ou inculta. Tambem
nao olha homem ou mu-
lher, apesar de que muitos
(em sua maioria, homens)
afirmem ser mais facil para as
mulheres lidar com a solidao do que pa-
ra seus parceiros masculinos.
Infelizmente nao existe nenhum apare-
lho com o qual se pudesse medir o grau de
solidao sentido por uma pessoa, a nao ser
que classifiquemos um coraçao grande e
amoroso de aparelho, coisa de que Deus
nos queira preservar.
O asilo que nestas paginas vamos apre-
sentar ao leitor estava situado distante da
cidade, em meio a montanhas e colinas co-
bertas de matas, e com vista a verdes vales,
pontilhados de campos e lavouras vicejan-
tes. Viviam na instituiçao cerca de 120 ido-
sos, e nenhum deles carecia de coisa algu-
ma que se tem por essencial na vida das
pessoas. A associaçao que administrava o
asilo nao poupava esforços para que os seus
velhinhos nao sofressem nenhuma carencia
e para que tambem pudessem ser recebidos
na casa nao poucos que eram incapazes de
pagar as mensalidades vigentes.
Como era que os asilados conviviam com
a solidao? Bem, essa e uma pergunta a par-
te, que por enquanto ternos que deixar sem
resposta.
Ja que nosso asilo era uma instituiçao da
igreja, vinha sendo dirigido por um pastor,
que cuidava de seu rebanho tanto na area
física como na espiritual. Os velhos que
adoeciam, nao precisavam ser deslocados
para o distante hospital, eles eram tratados
na propria casa, na proximidade de seu cu-
ra d'almas habitual; eles ficavam sob
os cuidados de um medico, que
atendia o asilo uma vez por
semana, e quando alguem
falecia, era sepultado no
cemiterio do asilo. O ce-
miterio fazia parte do
dia-a-dia dos inquilinos,
e a maior parte deles ti-
nha feito as pazes com o
campo-santo. Sabiam que,
quando eles proprios mor-
ressem, permaneceriam per-
to do lugar onde tinham passa-
do seus ultimos anos de vida, e esse
nao deixava de ser um pensamento confor-
tante.
Todas as pessoas, ao chegarem a velhice,
aprendem, de certo modo, a viver como vi-
zinhos da morte. Alguns conseguem estabe-
lecer uma vizinhança pacífica, outros nao
gostam de ser lembrados do termino de
seus dias, em especial, quando o fim se
aproxima a olhos vistos. Ém nosso asilo nao
era so a proximidade do cemiterio que
constantemente lembrava os velhinhos da
morte. Éra a situaçao elementar dos septua-
genarios e octogenarios que os lembrava
dela, pois seguidamente viam alguem sendo
arrancado de seu meio, que nao deixava na-
da a nao ser um lugar vazio no refeitorio.
Raros eram os meses em que ao menos um
dos asilados nao viesse a ser carregado pa-
ra o campo-santo. É quando acontecia que
num período de um ou dois meses nao fale-
cia ninguem, poderia ter a certeza de que o
sino da capela dobraria duas ou tres vezes
seguidas no mes seguinte. Com batidas
compassadas e solenes ele revelaria que
6
mais uma vez alguem tinha ido embora que
por muito tempo convivera com a pequena
comunidade. Provavelmente cada um dos
velhinhos, bem no fundo do coraçao, se per-
guntava: Quando chegara o dia em que o si-
no vai dobrar para mim?
Ontem o sino anunciara a morte da ve-
lha Irmingard. Aqui ainda vivia gente com
nomes como o dela, nomes arcaicos e sole-
nes, sem a marca de modismos modernos.
Havia mulheres chamadas de Irmingard, ou
de Clotilde, havia homens chamados de Fri-
dolino ou Teofilo, naturalmente alem dos
que, conforme uso da terra, se chamavam
Maria, Jose, Dulce ou Giacomo, dependendo
do lugar onde o destino colocara o seu ber-
ço. Nao raras vezes, aqueles que tinham tais
nomes antigos eram pessoas bem especiais,
que liam livros de conteudo nada corriquei-
ro, versadas em assuntos que nao costuma-
vam aparecer nas paginas das revistas e nos
programas de televisao.
Irmingard tinha sido uma pessoa assim.
Tivera uma vida nada facil. Ém sua comuni-
dade de origem, pela maior parte de sua vi-
da adulta ela servira como organista, e ela
nao so amara a musica e os cantos, mas
tambem as pessoas que tocavam e canta-
vam, principalmente as crianças, que ela
havia reunido ao seu redor para lhes ensi-
nar a cantar e a tocar violao e flauta doce. A
nao poucos dos pequenos ela tambem ensi-
nara a viver. Sim, uma pessoa assim tinha
sido a velha Irmingard.
Aos quarenta anos, ela casara com um
viuvo, pai de quatro filhos. Nao tivera filhos
proprios, e quando o seu marido, poucos
anos depois do casamento, chegara a fale-
cer, ela educara os filhos dele com dedica-
çao e com amor, fato de que os filhos, agora
adultos, jamais poderiam esquecer-se, co-
mo nao deixavam de assegurar, sempre que
a visitavam no asilo.
Mas nao esquecer e uma coisa, e retribu-
ir amor com amor e outra. Acontecera o que
em nossos tempos parece ser a coisa mais
natural do mundo: os filhos tinham casado,
tinham ido para outras cidades, todo mun-
do na família trabalhava ou estudava, e em
seus apartamentos simplesmente nao havia
lugar para uma mulher velha e necessitada
de cuidados, mesmo uma mulher como Ir-
mingard, que com seu coraçao carinhoso
era capaz de gerar e de repartir amor, nao
so de retribuir o amor de outros.
Assim Irmingard afinal chegara ao asilo,
depois de se convencer de que por causa de
seu diabetes nao poderia mais ficar sozinha
em sua propria casinha. Tinha sido real-
mente a melhor soluçao para ela. Ja um ano
antes de sua mudança para o ancionato lhe
haviam amputado uma perna, e, anos mais
tarde, os medicos tiveram que cortar-lhe a
outra tambem.
Irmingard de começo se revoltara contra
esta segunda amputaçao, dissera que prefe-
ria antes morrer, do que aceitar ser mutila-
da daquele jeito. Tinha passado por uma lu-
ta dura antes de finalmente concordar com
a operaçao.
Ja que nao podia mais sentar na cadeira
de rodas, ela tivera de passar os ultimos
anos deitada em seu leito, totalmente de-
pendente de outras pessoas. Sendo peque-
na e de figura franzina, as atendentes a car-
regavam nos braços como se fosse uma cri-
ancinha, sempre que a tinham de mover do
seu lugar. Ém seus ultimos anos de vida ela
nao deveria ter pesado mais de 35 quilos,
um feixe de sofrimento e de miseria huma-
na.
Irmingard era uma mulher crente, por
isso ela nao acusava a Deus por sua sorte.
Mas por vezes ela se admirava das ordenan-
ças e dos caminhos do Senhor. Éla conhece-
ra tempos de luta, tempos de duvidas fero-
zes, em que sua fe parecera um mero pavio
fumegante, ameaçado de se extinguir a cada
momento. Mas ela nao acreditava em sua fe,
ela cria no Deus que faz nascer fe e certeza,
em meio a duvidas e desespero.
Irmingard tinha um segredo. Éla apren-
dera a extrair paz e alegria íntimas nao da
propria situaçao e dos proprios sentimen-
7
tos, mas sim, das promissoes de Deus. É os
outros velhinhos sentiam aquele segredo
dela, e eles vinham ao seu leito, silenciavam
com ela, ou conversavam com ela sobre a
vida deles. Irmingard sabia ouvir, calada, e
ela tambem sabia falar no devido tempo, e
havia muitos que tinham encontrado con-
forto e novo animo junto ao leito dela.
Mesmo Fridolino, que conhecia a Bíblia
como poucos, gostava de sentar junto a ca-
ma de Irmingard, falando-lhe das descober-
tas que fizera nos livros do Novo e do Anti-
go Testamento. Irmingard gostava de ouvi-
lo, se bem que ela nem sempre comparti-
lhava suas opinioes e interpretaçoes. Para
ela, a Bíblia indicava a direçao em que an-
dar, nao a considerava um caminho ladeado
de indicaçoes e prescriçoes que mantinham
o cristao na linha. A Éscritura era um curso
de fe e de vida, que Deus mandara escrever,
nao uma coleçao de dogmas e doutrinas in-
falíveis. Mas a fundo os dois se entendiam
muito bem, e o velho Fridolino, depois de
uma de suas conversas com Irmingard,
sempre costumava ser um pouco mais tra-
tavel e mais cordial.
O dirigente do asilo bem sabia que Ir-
mingard era a confessora secreta da casa, e
nao raras vezes encaminhava para ela ho-
mens ou mulheres que tinham problemas
com os familiares ou que tinham começado
a retrair-se em si mesmos, acometidos de
depressoes, coisa propria da velhice. Éle
nao ignorava que em muitos casos a mu-
lherzinha com aquele corpo mutilado sabia
ajudar as pessoas melhor do que ele pro-
prio.
De começo constatamos que o maior ini-
migo de gente idosa costuma ser a solidao.
Isso tambem era o caso em nosso asilo, e
nao era so pelo fato de ele estar situado dis-
tante da cidade, e rodeado de lavouras e
campos. As fontes amargas da solidao em
realidade brotam dos abismos do coraçao
humano, e quando neles sobe o lençol das
aguas da tristeza, elas sao capazes de aflo-
rar a superfície, revelando um mar de soli-
dao, mesmo em meio a gente alegre. Éste
mar, constantemente alimentado por fontes
secretas, e capaz de afogar qualquer alegria
com suas aguas amargas.
So depois da morte de Irmingard alguns
dos velhinhos e do pessoal do asilo se de-
ram conta de que na presença dela eles ja-
mais se tinham sentido solitarios. Ninguem
poderia dizer precisamente por que tinha
sido assim. Devia ter sido o segredo dela. Ja
que ela tinha Deus por fonte de vida e de
esperança, ja que nao vivia de seus proprios
recursos, ela tinha recebido do seu Criador
o dom de poder abrir seu coraçao para ou-
tros, e com isto conseguia tambem que os
outros lhe abrissem o proprio coraçao. Ate
o fim de sua vida ela tivera a capacidade de
amar as pessoas e de compartilhar da vida
delas.
Agora Irmingard tinha falecido, e ela de-
veria ser sepultada no cemiterio do asilo, a
tarde do dia apos a sua morte. Tudo que os
humanos costumam fazer numa ocasiao
destas, tinha sido feito. O corpo murcho e
mutilado de Irmingard tinha sido lavado,
seus cabelos ralos foram penteados e ajus-
tados, e tinham lhe botado o melhor de
seus vestidos. Assim ela estava deitada em
seu esquife, seu rostinho estreito emoldura-
do por flores multicoloridas, e mesmo os
que viviam familiarizados com a morte,
sentiam, mais que em outros casos, uma
grande tristeza, e algo como uma incredula
estranhes perante o fato de ela nao se en-
contrar mais em seu meio.
Énfermeiras e atendentes tinham enchi-
do a parte inferior do esquife com crisante-
mos brancos, assim que nao caía em vista
que no corpo da falecida, no lugar das per-
nas, havia um espaço vazio. No cemiterio o
coveiro tinha preparado para ela uma das
sepulturas ja escavadas de antemao, e havia
urna profusao de flores e coroas destinadas
a enfeitar seu ultimo lugar de repouso. Fi-
lhos e netos, mais alguns conhecidos de sua
cidade, tinham comparecido, e tudo deveria
seguir o ritual costumeiro.
8
Mas Deus tinha resolvido dar um ar fes-
tivo ao dia em que iria ser sepultada sua
serva Irmingard. Por isso ele havia ordena-
do que a hora do sepultamento se formasse
urna tempestade sobre o vale, com relam-
pagos e estrondos de trovao, acompanha-
dos de cortinas de chuva fustigadas pela
ventania. Assim o feretro, que seguiria da
capela ao cemiterio, chegou a atrasar-se por
um bom tempo.
Éra tradiçao no asilo, o pastor, por ocasi-
ao de um sepultamento, fazer a alocuçao
funebre no cemiterio, nao na capela, e os
velhinhos apreciavam a pratica, ja que lhes
ajudava a suportar o silencio pesado do pa-
radouro dos mortos.
Assim, jovens e velhos se haviam reuni-
do na parte superior do cemiterio, enchen-
do os estreitos espaços entre os jazigos, os
olhares dirigidos para o vale, enquanto o
pastor se tinha posicionado na parte inferi-
or, com o rosto voltado para o distante cer-
ro, atras do qual o sol ja ia desaparecendo.
Quando, apos o hino inicial e a leitura de
um trecho da Bíblia, o pastor iniciou sua
alocuçao, repentinamente toda a paisagem
parecia mergulhar num brilho irreal. Ainda
pairava um paredao escuro de nuvens sobre
o vale, mas do meio do paredao ia surgindo
um esplendor, que lentamente se transfor-
mava num magnífico arco-íris. Éra um arco
festivo, cujo brilho aumentava a olhos vis-
tos, assim que se vinha refletindo mais e
mais nos rostos dos presentes.
O pregador estava de costas voltadas pa-
ra o vale, portanto nada enxergava do mara-
vilhoso esplendor. Verdade, ele via o brilho
refletido nos rostos dos presentes, mas nao
sabia como explica-lo. Assim ele continuou
comentando a palavra do apostolo Paulo
constante no oitavo capítulo da Épístola aos
Romanos - que os sofrimentos deste tempo
nao sao para comparar a gloria que nos de-
vera ser revelada no reino de Deus.
Para a comunidade, em sua maioria
composta de idosos, poderia parecer coisa
muito logica o pregador falar sobre os sofri-
mentos deste tempo. Cada um dos velhi-
nhos tinha seu historico de sofrimentos que
a vida lhe impusera. É muitos viviam de co-
raçao machucado, e havia feridas do passa-
do que continuavam sangrando secreta-
mente. Nao, nao se podia varrer as coisas
doídas da vida para debaixo do tapete, ao
querer falar da gloria a ser revelada.
Assim o pregador falou do sofrimento da
falecida, descreveu sua vida, lembrou seu
serviço e enalteceu sua fidelidade. Sim, ela
tivera de provar os sofrimentos desta vida,
fora obrigada a esvaziar ate o fundo o calice
da dor. A vontade inescrutavel de Deus era
essa: justamente as pessoas de fe eram
marcadas por contratempos e sofrimentos.
Éla, cujos pes por tantos anos tinham acio-
nado os pedais do harmonio e do orgao de
sua igreja, para dar gloria a Deus, ela fora
obrigada a amputar ambas as pernas. Justa-
mente ela, que tanto gostara de lidar com
crianças e jovens alegres, tivera de findar os
seus dias enferma, em meio a outras pesso-
as enfermas e idosas. Os caminhos de Deus
para com os humanos eram verdadeira-
mente inescrutaveis.
No momento em que o pregador menci-
onara as pernas amputadas de Irmingard, o
arco-íris tinha intensificado o seu brilho; e
começara a espelhar-se nas nuvens, assim
que aos poucos se ia formando um arco du-
plo, fenomeno como que sobrenatural, que
poucas pessoas tem oportunidade de ver no
decorrer de sua vida.
Ja que o sol acabara de desaparecer por
detras do cerro, o vale aos poucos mergu-
lhara na sombra; mas agora a paisagem to-
da começara a resplandecer com um brilho
que nao parecia desta terra.
O pregador sentia a comoçao dos pre-
sentes. Via como os rostos familiares havi-
am mudado, assim como se diante deles ja
nao se viesse desdobrando um ritual religi-
oso, mas como se lhes estivesse ocorrendo
algo de novo e maravilhoso, que os arreba-
tava de seu dia-a-dia.
O pastor, porem, continuava falando dos
9
sofrimentos deste tempo. Éle nao poderia
mudar o escopo de sua pregaçao, so porque
os rostos do pessoal pareciam espelhar co-
moçao e admiraçao. Éle parecia perturbado,
sim, pelo fato de os presentes, pelo que pa-
recia, ja terem antecipado a segunda parte
de seu sermao, antes que ele tivesse falado
uma palavra sequer da gloria que em nos
devera ser revelada.
Por alguns momentos, admirado da co-
moçao refletida nos rostos dos velhinhos, o
pregador chegou a silenciar. Foi aí que uma
voz quebrou o silencio: "Pastor, olhe para
suas costas, olhe para o ceu — O Sinal da
Aliança!" Éra Fridolino, que ousara inter-
romper o solene ritual, apontando para o
espetaculo celeste. O pastor, em sua convi-
vencia com os velhinhos, se acostumara a
muitas esquisitices e atitudes excentricas
proprias de gente idosa, assim atendeu o
pedido de Fridolino olhando na direçao in-
dicada.
É entao tambem ele passou a ver a glo-
ria. É se deu conta de que o proprio Deus
havia assumido a parte do seu sermao que
tratava da gloria a ser revelada em nos. As-
sim ele limitou-se a dizer: "Sim, Fridolino
tem razao. O Sinal da Aliança."
É assim aconteceu que, na hora do se-
pultamento de Irmingard, pastor e comuni-
dade quedavam-se em silencio, ao lado da
sepultura aberta, abrindo-se ao fulgor que
irradiava do arco da aliança de Deus.
É enquanto paravam, silenciosos, bem
de manso, do beirado da floresta proxima,
começou a trinar um sabia preto. Éle canta-
va como que de voz contida, assim como os
sabias pretos costumam cantar ao lusco-
fusco do dia. Cantou por uns dois minutos, e
quando enfim silenciou, igualmente o arco-
íris foi perdendo o seu fulgor.
Ao fim, o pastor voltou a encarar a co-
munidade. Falou da esperança dos que
adormeceram em Cristo Jesus, falou da glo-
ria da vida eterna — e tudo correu segundo
a ordem costumeira. O esquife foi baixado a
sepultura: Terra a terra, cinza a cinza e po
ao po. Semeia-se um corpo corruptível, res-
suscitara um corpo espiritual. Juntos, final-
mente, todos oraram a oraçao do Senhor, e
depois foram despedidos com a costumeira
bençao.
A maior parte dos velhos voltara ao asi-
lo, logo apos a cerimonia. So ao redor de
Fridolino se havia formado um grupo que
se envolvera numa discussao com ele.
Fridolino insistia que o arco-íris tinha
sido um sinal de Deus; o proprio pastor o
tinha confirmado. É vinha escrito na Bíblia:
Deus havia colocado o arco no ceu, apos o
diluvio, para que servisse de eterno sinal da
aliança estabelecida entre Éle e os huma-
nos.
Mas ele nao admitia que tambem o canto
do sabia era parte desta aliança. Nada se
encontrava na Sagrada Éscritura a respeito
de aves que tinham a tarefa de dar recados
aos humanos atraves de seu canto. A pomba
que carregara no bico a folha de oliveira,
nao havia arrulhado nada para Noe, o corvo
que havia trazido pao e carne a Élias, na
margem do arroio de Querite, nao havia
grasnado nenhuma mensagem para o pro-
feta. Seu serviço fora mudo. Deus nao falava
atraves de passarinhos, e o canto deles nao
tinha nenhum significado para nos.
Um dos circunstantes alegava que o galo,
que, afinal, tambem era ave, por certo tivera
um recado a dar a Pedro, na noite em que
este negara a seu Mestre. Mas Fridolino nao
se deu por achado. O galo tinha cantado,
mas era hora de ele cantar de qualquer jei-
to, ele nem sabia porque estava cantando e
que seu canto poderia ter um significado
pala Pedro. A gente facilmente se tornava
vítima de fantasias, ao querer dar as coisas
da natureza uma interpretaçao espiritual.
Alguns do grupo nao concordavam com
ele, mas ninguem costumava argumentar
com o velho Fridolino sobre questoes que
envolviam a Bíblia, e assim sua opiniao pre-
valeceu.
Mas por ocasiao da janta, Fridolino se
mantivera calado, como que contrariado, e
10
quando todos abandonaram o refeitorio, ele
reteve alguns de seus amigos, com os quais
havia discutido pouco antes no cemiterio, e
humildemente lhes pediu perdao. Éle se ha-
via enganado. O sabia fora mensageiro de
Deus, sim. Éle havia conferido na Bíblia;
constava no Salmo 148, com toda clareza:
Éntre feras, gados e repteis estavam tam-
bem os volateis, isto e, os passarinhos - to-
dos sendo convocados para louvarem a
Deus. É aí o sabia preto nao podia ficar de
fora. É como ele poderia louvar a Deus, a
nao ser com seu canto?
É talvez em realidade o canto do sabia
tinha uma coisa a ver com o fato de a faleci-
da Irmingard ter tocado e cantado para a
gloria de Deus, enquanto ainda fora capaz
de faze-lo. É tambem constava no Salmo
148 que os velhos junto com os jovens devi-
am louvar a Deus, e que isto era uma coisa
que Irmingard sempre havia falado, e por-
tanto era um recado bem pessoal de Deus
para todos eles.
Éu penso que poderemos concordar com
o velho Fridolino, aceitando sua interpreta-
çao da Éscritura tambem em nossa propria
vida. É talvez que nesta interpretaçao se re-
vele o mais profundo segredo de Irmingard:
o louvor a Deus havia secado em seu cora-
çao aquela fonte amarga da qual se alimen-
ta a solidao humana, fazendo nascer em seu
lugar a vertente vivificante do amor. Com
isso sua propria vida, e a vida de muitas ou-
tras pessoas, tinham sido transformadas.
Lindolfo Weingärtner nasceu em 1923 em
Águas Mornas - SC. É pastor luterano, pro-
fessor, escritor e poeta. Possui 27 livros pu-
blicados, dentre os quais O Canto do Sabiá e
outros contos cristãos (Blumenau: Gráfi-
ca e Editora Otto Kuhr, 2003), de onde retira-
mos o presente texto.
L
U
M
I
N
A
R
E
S
“Aslam”,
de Joana Cristina.
Conheça mais
AQUI.
11
A Morte da Encrenqueira
Judson Canto
Sabe a irma encrenqueira, aquela infati-
gavel promotora de confusoes na igreja, que
pode ser definida como o friozinho na espi-
nha do pastor ou a dor de dente
da congregaçao? Éssa era Porfí-
ria, talvez o equivalente a mui-
tos tratamentos de canal.
— Mas ela era tao terrível
assim?
O diacono Padilha, que re-
passava a um novo convertido
curioso a biografia da encren-
queira, balançou a cabeça confirmando. Éle
proprio fora uma das vítimas daquela lín-
gua muitas vezes comparada a uma víbora,
so que — todos concordavam — mais vene-
nosa. Éla havia cismado que fora ele quem
lhe dera o apelido de Morte na Panela, e nao
poupava o coitado. Se ele se demorava um
pouco mais no cumprimento a uma mulher,
ela puxava alguem pelo braço e cochichava:
“Ja vi esse filme…”. Se ele abraçava um velho
amigo com maior efusao, ela comentava:
“Nao sei nao…”.
— Éla costumava encarar a pessoa bem
de perto, e entao começava a falar mal de
alguem, sempre repetindo: “Nao acha que
eu tenho razao?”. É a pessoa que nao con-
cordasse! — acrescentou o diacono Padilha,
explicando o principal metodo da fofoquei-
ra. — Depois ela procurava o irmao ou irma
de quem havia falado mal e dizia quem in-
ventara aquelas coisas fora a outra pessoa.
Porque, se voce concordava, e como
se tambem tivesse dito, nao e?
— Nao posso imaginar nada pior.
— Pois imagine. Éla tinha mau halito.
O diacono Padilha e o novo convertido
estavam conversando no velorio de Porfíria.
Sim, ela adoecera meses antes. É, depois
uma subita melhora, ate voltara a frequen-
tar os cultos, porem morreu passados al-
guns dias, de forma tao repentina quanto
fora a sua recuperaçao. Alguem, com certa
dose de maldade, comentou que ela havia
morrido de ansiedade por nao conseguir
colocar as fofocas e murmuraçoes em dia.
A notícia de sua morte se espalhou, e
gente de toda a cidade, em numero suficien-
te para encher a arca de Noe, vítimas de su-
as intrigas, correu para a igreja, espremen-
do-se nos bancos e corredores
em silenciosa confraternizaçao.
Alguns, desconfiados da sorte,
beliscavam disfarçadamente o
cadaver, para ver se ela nao es-
tava fingindo. Depois se belisca-
vam para ver se nao estavam so-
nhando.
***
No cemiterio, o pastor Rodolfo pi-
garreou, ajeitou o no da gravata e começou:
— Irmaos, estamos aqui neste culto de
açao de graças — todos fingiram nao perce-
ber a gafe — pelo passamento da irma Por-
fíria…
Atras dele, um coral de cochichos com-
posto por irmaos ansiosos para enterrar o
passado instigava:
— Anda logo! Anda logo!
— Vamos ler uma passagem da Bíblia,
no Évangelho de Joao, capítulo onze…
É novamente o coral de cochichos, com
expressao de pavor:
— Le outra! Le outra!
Finalmente a sepultaram. Os irmaos
nem haviam ainda deixado o cemiterio
quando o ceu enegreceu e um raio fendeu a
escuridao de alto a baixo. Ém seguida, um
trovao fez estremecer o lugar.
O diacono Padilha olhou para o alto e ex-
clamou:
— Ih! Éla ja chegou la.
Judson Canto é editor, escritor, revisor e tra-
dutor. Mantem o blog O Balido.
Do autor, baixe em formato pdf o conto
ilustrado Ate os Confins da Terra. CLIQUÉ
AQUI.
12
Jardim dos Clássicos
O Suave Milagre
Eça de Queirós
NÉSSÉ tempo Jesus ainda se nao afastara
da Galileia e das doces, luminosas margens
do Lago de Tiberíades: - mas a nova dos
seus milagres penetrara ja ate Énganim, ci-
dade rica, de muralhas fortes, entre olivais e
vinhedos, no país de Issacar.
Uma tarde um homem de olhos ardentes
e deslumbrados passou no fresco vale, e
anunciou que um novo profeta, um Rabi
formoso, percorria os campos e as aldeias
da Galileia, predizendo a chegada do reino
de Deus, curando todos os males humanos.
É enquanto descansava sentado a beira da
Fonte dos Vergeis, contou ainda que esse
Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra
o servo De um decuriao romano so com es-
tender sobre ele a sombra das suas maos; e
que noutra manha, atravessando numa bar-
ca para a terra dos Gerassenios, onde come-
çava a colheita do balsamo, ressuscitara a
filha de Jairo, homem consideravel e douto
que comentava os Livros na Sinagoga. É co-
mo em redor, assombrados, seareiros, pas-
tores, e as mulheres trigueiras com a bilha
no ombro, lhe perguntassem se esse era, em
verdade, o Messias da Judeia e se diante de-
le refulgia a espada de fogo, e se o ladea-
vam, caminhando como as sombras de duas
torres, as sombras de Gogue e de Magogue -
o homem, sem mesmo beber daquela agua
tao fria de que bebera Josue, apanhou o ca-
jado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativa-
mente por sob o Aqueduto, logo sumido na
espessura das amendoeiras em flor. Mas
uma esperança, deliciosa como o orvalho
nos meses em que canta a cigarra, refrescou
as almas simples: logo, por toda a campina
que verdeja ate Ascalon, o arado pareceu
mais brando de enterrar, mais leve de mo-
ver a pedra do lagar; as crianças, colhendo
ramos de anemonas, espreitavam pelos ca-
minhos se alem, da esquina do muro, ou de
sob o sicomoro, nao surgiria uma claridade;
e nos bancos de pedra, as portas da cidade,
os velhos, correndo os dedos pelos fios das
barbas, ja nao desenrolavam, com tao sapi-
ente certeza, os ditames antigos.
Ora entao vivia em Énganim um velho,
por nome Obede, duma família pontifical de
Samaria, que sacrificara nas aras do Monte
Ébal, senhor de fartos rebanhos e de fartas
vinhas - e com o coraçao tao cheio de orgu-
lho como o seu celeiro de trigo. Mas um
vento arido e abrasador, esse vento de de-
solaçao que ao mando do Senhor sopra das
torvas terras de Assur, matara as reses mais
gordas das suas manadas, e pelas encostas
onde as suas vinhas se enroscavam no ol-
mo, e se estiravam na latada airosa, so dei-
xara, em torno dos olmos e pilares despi-
dos, sarmentos, cepas mirradas, e a parra
roída de crespa ferrugem. É Obede, agacha-
do a soleira da sua porta, com a ponta do
manto sobre a face, palpava a poeira, la-
mentava a velhice, ruminava queixumes
contra Deus cruel.
Eça de Queirós (1845 - 1900) nasceu em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal. Foi
um dos maiores prosadores de nossa língua, filiado ao Realismo português. Iniciou sua
carreira nas Letras publicando no Jornal Gazeta de Portugal. Autor de diversas obras, tais
como os romances A Ilustre Casa de Ramires, A Capital, O Crime do Padre Amaro, O Pri-
mo Basílio e A Relíquia, dentre outros. Suas obras estão traduzidas para mais de vinte idi-
omas. O presente conto foi publicado originalmente em 1898, na Revista Moderna.
13
Apenas ouvira falar desse novo Rabi da
Galileia, que alimentava as multidoes, ame-
drontava os demonios, emendava todas as
desventuras - Obede, homem lido, que via-
jara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria
um desses feiticeiros tao acostumados na
Palestina, como Apolonio, ou Rabi Ben-
Dossa, ou Simao, o Sutil. Ésses, mesmo nas
noites tenebrosas, conversam com as estre-
las, para eles sempre claras e faceis nos
seus segredos: com uma vara afugentam de
sobre as searas os moscardos gerados nos
lodos do Égito: e agarram entre os dedos as
sombras das arvores, que conduzem, como
toldos beneficos, para cima das eiras, a hora
da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com
magias mais viçosas decerto, se ele larga-
mente o pagasse, sustaria a mortandade
dos seus gados, reverdeceria os seus vinhe-
dos. Éntao Obede ordenou aos seus servos
que partissem, procurassem por toda a Ga-
lileia o rabi novo, e com promessa de di-
nheiros ou alfaias o trouxessem a Énganim,
no país de Issacar.
Os servos apertaram os cinturoes de
couro - e largaram pela estrada das Carava-
nas, que, costeando o Lago, se estende ate
Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o po-
ente, vermelho como uma roma muito ma-
dura, as neves finas do monte Hermon. De-
pois, na frescura duma manha macia, o lago
de Tiberíades resplandeceu diante deles,
transparente, coberto de silencio, mais azul
que o ceu, todo orlado de prados floridos,
de densos vergeis, de rochas de porfiro, e
de alvos terraços por entre os pomares, sob
o voo das rolas.
Um pescador que desamarrava a sua
barca duma ponta de relva, assombreada de
aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O
Rabi de Nazare? Oh, desde o mes de Ijar, o
Rabi descera, com os seus discípulos, para
os lados para onde o Jordao leva as aguas.
Os servos, correndo, seguiam pelas mar-
gens do rio, ate adiante do vau, onde ele se
estira num largo remanso, e descansa, e um
instante dorme, imovel e verde, a sombra
dos tamarindos. Um homem da tribo dos
Éssenios, todo vestido de linho branco, apa-
nhava lentamente ervas salutares, pela bei-
ra da agua, com um cordeirinho branco ao
colo. Os servos humildemente saudaram-
no, porque o povo ama aqueles homens de
coraçao tao limpo, e claro, e candido como
as suas vestes cada manha lavadas em tan-
ques purificados. É sabia ele da passagem
do novo Rabi da Galileia, que como os Ésse-
nios ensinava a doçura, e curava as gentes e
os gados? O essenio murmurou que o Rabi
atravessara o Oasis de Éngaddi, depois se
adiantara para alem...
- Mas onde, "alem"?
- Movendo um ramo de flores roxas que
colhera, o essenio mostrou as terras de
alem Jordao, a planície de Moabe. Os servos
vadearam o rio - e debalde procuraram Je-
sus, arquejando pelos rudes trilhos, ate as
fragas onde se ergue a cidadela sinistra de
Macaur... No Poço de Yakob repousava uma
larga caravana, que conduzia para o Égito
mirra, especiarias e balsamos de Gileade; e
os cameleiros, tirando a agua com os baldes
de couro, contaram aos servos de Obede
que em Gadara, pela lua nova, um Rabi ma-
ravilhoso, maior que Davi ou Isaías, arran-
cara sete demonios do peito duma tecedei-
ra, e que, a sua voz, um homem degolado
pelo salteador Barrabas se erguera da sua
sepultura e recolhera ao seu horto. Os ser-
vos, esperançados, subiram logo açodada-
mente pelo caminho dos peregrinos ate Ga-
dara, de altas torres, e ainda mais longe ate
as nascentes da Amalha... Mas Jesus, nessa
madrugada seguido por um povo que canta-
va e sacudia ramos de mimosa, embarcara
no Lago, num batel de pesca, e a vela nave-
gara para Magdala. É os servos de Obede,
descoroçoados, de novo passaram o Jordao
na ponte da Filhas de Jaco. Um dia, ja com
as sandalias rotas dos longos caminhos, pi-
sando ja as terras da Judeia romana, cruza-
ram com um fariseu sombrio, que recolhia a
Éfraim, montado na sua mula. Com devota
reverencia detiveram o homem da Lei. Én-
14
contrara ele por acaso esse profeta novo da
Galileia que, como um Deus passeando na
terra, semeava milagres? A adunca face do
fariseu escureceu enrugada e a sua colera
retumbou como um tambor orgulhoso:
- Oh, escravos pagaos! Oh, blasfemos!
Onde ouvistes que existissem profetas ou
milagres fora de Jerusalem? So Jeova tem
força no seu Templo. De Galileia surgem os
nescios e os impostores...
É como os servos recuavam ante o seu
punho erguido, todo enrodilhado de dísti-
cos sagrados - o furioso Doutor saltou da
mula, e, com as pedras da estrada, apedre-
jou os servos de Obede, uivando: Racca! Ra-
cca! e todos os anátemas rituais. Os servos
fugiram para Énganim. É grande foi a des-
consolaçao de Obede, porque os seus gados
morriam, as suas vinhas secavam – e, toda-
via, radiantemente, como uma alvorada por
detras de serras, crescia, consoladora e
cheia de promessas divinas, a fama de Jesus
da Galileia.
Por esse tempo, um centuriao romano,
Publius Septimus, comandava o forte que
domina o vale de Cesareia, ate a cidade e ao
mar. Publius, homem aspero, veterano da
campanha de Tiberio contra Partos, enri-
quecera durante a revolta de Samaria com
presas e saques, possuía minas na Atica, e
gozava, como favor supremo dos deuses, a
amizade de Flaco, legado imperial da Síria.
Mas uma dor roía a sua prosperidade muito
poderosa, como um verme roi um fruto
muito suculento. Sua filha unica, para ele
mais amada que vida e bens, definhava com
um mal sutil e lento, estranho mesmo ao sa-
ber dos esculapios e magicos que ele man-
dara consultar a Sidon e a Tiro. Branca e
triste como a lua num cemiterio, sem um
queixume, sorrindo palidamente a seu pai,
definhava, sentada na alta esplanada do for-
te, sob um velario, alongando saudosamen-
te os negros olhos tristes pelo azul do mar
de Tiro, por onde ela navegara de Italia, nu-
ma opulenta galera. Ao seu lado, por vezes,
um legionario entre as ameias apontava va-
garosamente ao alto a flecha, e varava uma
grande aguia, voando de asa serena, no ceu
rutilante. A filha de Septimus seguia um
momento a ave, torneando ate bater morta
sobre as rochas; - depois, com um suspiro,
mais triste e mais palida, recomeçava a
olhar para o mar.
Éntao Septimus, ouvindo contar, a mer-
cadores de Corazim, deste Rabi admiravel,
tao potente sobre os espíritos, que sarava
os males tenebrosos da alma, destacou tres
decurias de soldados para que o procuras-
sem pela Galileia, e por todas as cidades da
Decapolis, ate a costa e ate Ascalon. Os sol-
dados enfiaram os escudos nos sacos de lo-
na, espetaram nos elmos ramos de oliveira -
e as suas sandalias ferradas apressadamen-
te se afastaram, ressoando sobre as lajes de
basalto da estrada romana, que desde Cesa-
reia ate Lago corta toda a tetrarquia de He-
rodes. As suas armas, de noite, brilhavam
no topo das colinas, por entre a chama on-
deante dos archotes erguidos. De dia inva-
diam os casais, rebuscavam a espessura dos
pomares, esfuracavam com a ponta das lan-
ças a palha das medas; e as mulheres, as-
sustadas, para amansar logo acudiam com
bolos de mel, figos novos, e malgas cheias
de vinho, que eles bebiam dum trago, senta-
dos a sombra dos sicomoros. Assim corre-
ram a Baixa Galileia - e, do Rabi, so encon-
travam o sulco luminoso nos coraçoes. Én-
fastiados com as inuteis marchas, desconfi-
ando que os judeus sonegassem o seu feiti-
ceiro para que Romanos nao aproveitassem
do superior feitiço, derramavam com tu-
multo a sua colera, atraves da piedosa terra
submissa. A entrada das pontes detinham
os peregrinos, gritando o nome do Rabi,
rasgando os veus as virgens: e, a hora em
que os cantaros se enchem nas cisternas in-
vadiam as ruas estreitas dos burgos, pene-
travam nas sinagogas e batiam, sacrilega-
mente com os punhos das espadas nas The-
bahs, os Santos Armários de cedro que conti-
nham os Livros Sagrados. Nas cercanias de
Hebron arrastaram os solitarios pelas bar-
15
bas para fora das grutas, para lhes arrancar
o nome do deserto ou do palmar em que se
ocultava o Rabi - e dois mercadores fenícios
que vinham de Jope com uma carga de ma-
lobatro, e a quem nunca chegara o nome de
Jesus, pagaram por esse delito cem dramas
a cada centuriao. Ja as gentes dos campos,
mesmo os bravios pastores de Idumeia, que
levam as reses brancas para o Templo, fugi-
am espavoridos para as serranias, apenas
luziam, nalguma volta do caminho, as ar-
mas do bando violento. É da beira dos eira-
dos, as velhas sacudiam como taleigos a
ponta dos cabelos desgrenhados, e arroja-
vam sobre eles as Mas-Sortes, invocando a
vingança de Élias. Assim tumultuosamente
erraram ate Ascalon; nao encontraram Je-
sus: e retrocederam ao longo da costa en-
terrando as sandalias nas areias ardentes.
Numa madrugada, perto de Cesareia,
marchando num vale, avistaram sobre um
outeiro um verde-negro bosque de lourei-
ros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e
claro portico dum templo. Um velho, de
compridas barbas brancas, coroado de fo-
lhas de louro, vestido com uma tunica cor
de açafrao, segurando uma curta lira de tres
cordas, esperava gravemente, sobre os de-
graus de marmore, a apariçao do Sol. Debai-
xo, agitando um ramo de oliveira, os solda-
dos bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele
um novo profeta que surgira na Galileia, e
tao destro em milagres que ressuscitava os
mortos e mudava a agua em vinho? Serena-
mente, alargando os braços, o sereno velho
exclamou por sobre a rociada verdura do
vale:
- Oh romanos, pois acreditais que em Ga-
lileia ou Judeia apareçam profetas consu-
mando milagres? Como pode um barbaro
alterar a ordem instituída por Zeus?... Magi-
cos e feiticeiros sao vendilhoes, que mur-
muram palavras ocas, para arrebatar a es-
portula dos simples... Sem a permissao dos
Imortais nem um galho seco pode tombar
da arvore, nem seca folha pode ser sacudida
na arvore. Nao ha profetas, nao ha mila-
gres... So Apolo Delfico conhece o segredo
das coisas!
Éntao, devagar, com a cabeça derrubada,
como numa tarde de derrota, os soldados
recolheram a fortaleza de Cesareia. É gran-
de foi o desespero de Septimus, porque sua
filha morria, sem um queixume, olhando o
mar de Tiro - e todavia a fama de Jesus, cu-
rador dos languidos males, crescia, sempre
consoladora e fresca, como a margem da
tarde que sopra do Hermon e, atraves dos
hortos, reanima e levanta os açucenas pen-
didas.
Ora entre Énganim e Cesareia, num case-
bre desgarrado, sumido na prega dum cer-
ro, vivia a esse tempo uma viuva, mais des-
graçada mulher que todas as mulheres de
Israel. O seu filhinho unico, todo aleijado,
passara do magro peito a que ela o criara
para os farrapos da enxerga apodrecida, on-
de jazera, sete anos passados, mirrando e
gemendo. Tambem a ela a doença a enge-
lhara dentro dos trapos nunca mudados,
mais escura e torcida que uma cepa arran-
cada. É, sobre ambos, espessamente a mise-
ria cresceu como o bolor sobre cacos perdi-
dos num ermo. Ate na lampada de barro
vermelho secara ha muito o azeite. Dentro
da arca pintada nao restava grao ou codea.
No Éstio, sem pasto, a cabra morrera. De-
pois, no quinteiro, secara a figueira. Tao
longe do povoado, nunca esmola de pao ou
mel entrava o portal. É so ervas apanhadas
nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nu-
triam aquelas criaturas de Deus na terra es-
colhida, onde ate as aves maleficas sobrava
o sustento.
Um dia um mendigo entrou no casebre,
repartiu do seu farnel com a mae amargura-
da, e um momento sentado na pedra da la-
reira, coçando as feridas das pernas, contou
dessa grande esperança dos tristes, esse
Rabi que aparecera na Galileia, que de um
pao no mesmo cesto fazia sete, e amava to-
das as criancinhas, e enxugava todos os
prantos, e prometia aos pobres um grande e
luminoso Reino, de abundancia maior que a
16
corte de Salomao. A mulher escutava, com
olhos famintos. É esse doce Rabi, esperança
dos tristes, onde se encontrava? O mendigo
suspirou. Ah, esse doce Rabi! quantos o de-
sejavam, que se desesperançavam! A sua
fama andava por sobre toda a Judeia como
o Sol que ate por qualquer velho muro se
estende e se goza; mas para enxergar a cla-
ridade do seu rosto, so aqueles ditosos que
o seu desejo escolhia. Obede, tao rico, man-
dara os seus servos por toda a Galileia para
que procurassem Jesus, o chamassem com
promessa a Énganim; Septimus, tao sobera-
no, destacara os seus soldados ate a costa
do mar, para que buscassem Jesus, o condu-
zissem, por seu mando, a Cesareia. Érrando,
esmolando por tantas estradas, ele topara
os servos de Obede, depois os legionarios
de Septimus. É todos voltavam como derro-
tados, com as sandalias rotas, sem terem
descoberto em que mata ou cidade, em que
toca ou palacio, se escondia Jesus.
A tarde caía. O mendigo apanhou o seu
bordao, desceu pelo duro trilho, entre a ur-
ze e a rocha. A mae retomou o seu canto,
mais vergada, mais abandonada. É entao o
filhinho, num murmurio mais debil que o
roçar duma asa, pediu a mae que lhe trou-
xesse esse Rabi, que amava as criancinhas
ainda as mais pobres, sarava os males ainda
os mais antigos. A mae apertou a cabeça es-
guedelhada:
- Oh, filho! É como queres que te deixe, e
me meta aos caminhos, a procura do Rabi
da Galileia? Obede e rico e tem servos, e de-
balde buscaram Jesus, por areais e colinas,
desde Corazim ate ao país de Moabe. Septi-
mus e forte, e tem soldados, e debalde cor-
reram por Jesus, desde o Hebron ate ao mar.
Como queres que te deixe? Jesus anda por
muito longe e a nossa dor mora conosco,
dentro destas paredes, e dentro delas nos
prende. É mesmo que o encontrasse, como
convenceria eu o Rabi tao desejado, por
quem ricos e fortes suspiram, a que desces-
se atraves das cidades ate este ermo, para
sarar um entrevadinho tao pobre, sobre en-
xerga tao rota?
A criança, com duas lagrimas na face
magrinha, murmurou:
- Oh, mae, Jesus ama todos os pequeni-
nos. É eu ainda tao pequeno, e com um mal
tao pesado, e que tanto queria sarar!
É a mae, em soluços:
- Oh, meu filho, como te posso deixar?
Longe sao as estradas da Galileia, e curta a
piedade dos homens. Tao rota, tao tropega,
tao triste, ate os caes me ladrariam da porta
dos casais. Ninguem atenderia o meu reca-
do, e me apontaria a morada do doce Rabi.
Oh, filho! Talvez Jesus morresse... Nem mes-
mo os ricos e os fortes o encontram. O ceu o
trouxe, o ceu o levou. É com ele para sem-
pre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as
suas pobres maozinhas que tremiam, a cri-
ança murmurou:
- Mae, eu queria ver Jesus...
É logo, abrindo devagar a porta e sorrin-
do, Jesus disse a criança:
- Aqui estou.
17
O jovem aspirante a escritor estava precisan-
do de esperança. Muitas pessoas lhe haviam dito
para desistir. “É quase impossível conseguir que
seu trabalho seja publicado”, disse-lhe um orien-
tador. “A menos que voce seja uma celebridade
nacional, os editores nem sequer falarao com vo-
ce”. Outro avisou: “Éscrever toma muito tempo.
Alem disso, voce nao vai querer colocar todos os
seus pensamentos no papel”.
No início ele ouviu. Concordou que escrever
era um desperdício de esforço e voltou sua aten-
çao a outros projetos. Mas de alguma forma, a ca-
neta e o bloco de notas eram como o cafe e a Coca
-Cola para o viciado em palavras. Éle preferia es-
crever a ler. Éntao escrevia.
Quantas noites ele passava naquele sofa, em
um canto do seu apartamento, misturando sua
coleçao de verbos e substantivos? É quantas ho-
ras sua mulher lhe fez companhia? Éle fazendo
artesanato com as palavras. Éla bordando em
ponto de cruz. Por fim, ele terminou um manus-
crito. Cru e cheio de erros, mas terminado.
Éla lhe deu o empurrao que faltava. — Por que
voce nao o envia? Que mal ha nisso?
Éntao ele fez isso. Énviou o manuscrito a quin-
ze diferentes editores. Énquanto o casal espera-
va, ele escrevia. Énquanto ele escrevia, ela borda-
va. Nenhum deles tinha muitas expectativas, mas
ambos esperavam. As respostas começaram a
chegar. “Sentimos muito, mas nao aceitamos ma-
nuscritos nao solicitados”. “Éstamos devolvendo
o seu trabalho. Felicidades”. “Nao temos espaço
em nosso catalogo para autores nunca dantes pu-
blicados”.
Ainda tenho essas cartas. Ém uma pasta, em
algum lugar. Éncontra-las levaria algum tempo.
No entanto, encontrar o bordado de Denalyn nao
leva tempo algum. Para ve-lo, tudo o que tenho
que fazer e levantar os olhos do meu monitor e
olhar para a parede. “Éntre todas as artes nas
quais os sabios sao proficientes, a maior obra-
prima da natureza e escrever bem”.
Com isso ela me deu tempo para que a carta
numero quinze chegasse. Um editor tinha dito
sim. Aquela carta tambem esta emoldurada. Qual
dos dois quadros significa mais para mim? O pre-
sente da minha esposa ou a carta do editor? O
presente, claro. Ao dar-me o presente, Denalyn
deu-me esperança.
O amor faz isso. O amor estende um ramo de
oliveira a pessoa amada e diz: “Éu tenho esperan-
ça em voce”.
_________________________________________________________
Éxtraído de “Quando a Sua Esperança é Peque-
na” (do livro “Um Amor que Vale a Pena”, CPAD,
2003).
Arte de Escrever
Max Lucado
18
O Poeta do Salmo exilado
J.T.Parreira
O rio nao parecia correr no seu leito
natural, circulava pela
cidade, por entre as casas
e dava a impressao de
estar ao nível das
construçoes mais
rectangulares, reflectindo
as faces dos edifícios.
Gedalias, um anciao
de olhar ja acomodado,
sentava-se ao lado de
Quebar, um canal navega-
vel, a jusante do Éufrates,
e via subir e descer com o
vento, ate arrastarem as
folhas mais altas nas
aguas, os juncos que se
pareciam com saltadores
no momento do mergu-
lho.
Nas pedras, junto de si, tinha
pousada uma tabua de barro com inscri-
çoes da historia recente e um papiro enve-
lhecido no qual se via que ja inscrevera al-
gumas frases em aramaico. O velhinho
olhava-as, e quando o fazia espaçadamente
era com uma tristeza nos cantos da boca,
como se alguma coisa tardasse em chegar.
É afirmava a si proprio: «Éstes versos
serao feitos como se esculpisse o sentir da
tristeza, a lamentaçao certa ha-de chegar
perfeita, do meu estado de espírito.»
Éra um velho que trajava um longo ves-
tido gasto, com motivos sumerios, e abriga-
va-se da humidade do ar com uma pele de
carneiro surrada, «Apesar das aparencias,
sou um cativo muito bem tratado» – pensa-
va, varias vezes, com algum reconhecimen-
to, e poucas vezes falava de vingança.
Fizera parte da primeira deportaçao,
era um bom artífice, a quem reconheceram
a sua valia profissional para trabalhar em
artes decorativas. Agora, porem, ja nao tra-
balhava.
Tinha as sandalias cheias de lama, por-
que costumava percorrer os montes de ter-
ra que bordejavam as aguas do rio.
O rosto evidenciava, com rugas, que ha-
via percorrido uma es-
trada na vida que nao
fora atapetada de lírios.
Tinha, no entanto,
uma boa figura, e as
maos, quando andava,
pareciam imprimir
calma a todo o corpo.
Vivia num lugar que
as autoridades babiloni-
cas tinham destinado
aos judeus deportados.
Éstes viviam em casas
proprias, alguns ate ha-
viam enriquecido com o
esforço da sua acultura-
çao e integraçao, viven-
do nao como escravos,
mas semi-livres, em
pontos estrategicos um
pouco acima das margens do Quebar. A sua
casa e a da família estava ao lado de um
grande salgueiro, que em fins de tarde sem
vento dava bastante calma ao olhar, embo-
ra nao acrescentasse nenhuma novidade,
por isso nos olhos de Gedalias havia, por
vezes, uma certa acomodaçao.
Mas, na maior parte do tempo em que
estava sozinho, os olhos iam buscar ao fun-
do do rio sentimentos tristes, e, no entanto,
davam a impressao de estarem a acompa-
nhar o subtil curso das aguas.
Como quase sempre podia fazer, estava
sentado ao lado do rio, e a luminosidade
que vinha da agua, compartilhava-a no seu
rosto. Nesses momentos baixava a cabeça e
olhava em direcçao do seu manuscrito.
Trouxeram-nos, um dia, por volta do
anoitecer, das suas terras da Palestina, ao
velhinho com uma dezena de milhar de
outros judeus, e a partir de entao aqueles
canais da Babilonia eram como uma praça
onde juntavam os soluços e as palavras
Michele Myers
19
castradas.
Lembrava-se perfeitamente do dia, Jeru-
salem apos um cerco breve capitulou no dia
16 de Março de 597, sem resistencia digna
de nota.
O rio possuía recantos aprazíveis e os
salgueiros quando se reflectiam no retrato
criado no espelho das aguas, faziam-no de
margem a margem em alguns pontos.
Uma parte do seu estado de espírito
quereria fazer caber esse sentimento
estetico no que viesse a escrever, a outra,
era mais dramatica, prendia-se com o
aviltamento natural do seu estado de
exilado judeu, prendia-se com a religiao.
— Se eu fosse o nosso grande rei David,
o salmo ja arderia de beleza em todas as
suas palavras. — Disse, um dia, a um moço
que lhe perguntara o destino que daria ao
manuscrito.
— Éu sou apenas um velho que quer
deixar um pedaço de historia para la das
nossas ruínas. Mas talvez seja ja muito
tarde. — Arrematou, voltando de novo a sua
contemplaçao.
— Venha, meu pai. — Julgar-se-ia que a
filha o teria acordado, quando o veio
chamar. — Venha preparar o Shabat, que
apesar de estarmos em terra estranha,
temos aqui de perpetuar Siao.
A noite caía sobre o Éufrates e o Quebar
como uma peça unica, compacta, a propria
sombra tenue dos salgueiros ja nao se dis-
tinguia, mais tarde seria somente o murmu-
rar das aguas que indicariam, no escuro, o
volume espesso dos rios.
Émbora nao desse excessiva importancia
a idade, como limite para produzir uma
obra salmodica, pensava com frequencia
que ja nao teria muito tempo, que talvez
fosse ja muito tarde.
— Ainda quero sair daqui, regressar a
minha terra. — Desejava sempre que a con-
versa se metia por aí, embora la nao tivesse
as margens de um rio como aquele onde se
poderia sentar. Sentar-se-ia debaixo do al-
pendre de uma casa. É pensava assim sem-
pre que se animava com uma possível lon-
gevidade.
Havia rumores de que os persas, sob o
mando de Ciro, poderiam estar perto de in-
vadir Babilonia. É esses nao eram propria-
mente barbaros. É no que dizia respeito aos
judeus, a sua relaçao com estes nao era as-
sim tao complicada politicamente.
Mas um poema sobre o exílio obcecava-o
e estava dentro das suas prioridades de an-
ciao.
Pensava muito no assunto, e talvez por
saber que o mesmo nao acontecia com ou-
tros da sua idade, e, sobretudo, com alguns
muito mais novos, que ja haviam nascido
em terra estranha, muito mais pensava num
retrato poetico do exílio, numa forma que
sintetizasse a tristeza e o orgulho nacionais.
Foi nesse instante que um dos filhos, o
mais velho, lhe interrompeu o que estava a
pensar. Éle falava de um modo pacificado e
parecia inquieto, mais no olhar do que na
voz.
— Pai, queria que me desse uns momen-
tos da sua atençao.
Ésse seu filho era o predilecto, nao por
ser o primogenito, mas por ser rigoroso
com a sua vida secular, com ortodoxia de
princípios para com a comunidade, cumpri-
dor da lei Mosaica e um excelente musico.
Tocava lira na perfeiçao.
— Ja decidi, ha muito tempo, que nao
vou tocar lira para a festividade dos nossos
opressores. No entanto, insistem. Vou deba-
ter-me com problemas.
— Deus reservou-te uma tarefa, que nao
sera certamente tocares o cantico do
Senhor em terra estranha. — Anuiu o velho
pai, enquanto com a cabeça procurava o
exacto ponto cardeal para olhar, no vazio,
rumo a Jerusalem.
— Nao sou o unico a pensar desta
maneira — informou o filho — Ha muitos
judeus a pensarem o mesmo.
20
É, no entanto, estavam todos aflitos com
a situaçao. Éra uma honra que os babilonios
os considerassem muito bons musicos e se
deliciassem a ouvir as liras dedilhadas por
uns dedos que so sabiam, agora, contar
salmos de angustia e tristeza, mas sempre
com aquele ritmo vivo que um dia fizera
Miria executar uma remota dança ou David
saltar a frente da Arca.
— Talvez. — Concordou o velho — Mas
sempre e o cantico do Senhor em terra es-
tranha. Por muito que ambicionemos nao
poderemos tirar desta terra um cantico pa-
ra o Senhor. — Repetiu, enquanto um vento
inesperado fez uma passagem rapida pelos
salgueiros, como uma musica agreste, de-
frontando as ramagens. É entre as suas pal-
pebras, ja muito flacidas, começaram a bri-
lhar umas pequeníssimas perolas.
Uma nuvem mais branca, queria agora
instalar-se entre as mais escuras que corri-
am, ja havia um bocado, pelo ceu. Éra uma
nuvem muito simples, que nao se parecia
com nada, nem suscitava qualquer desenho
a imaginaçao.
O velho talvez pudesse agora voltar para
o seu sítio ao lado do rio, e levar os seus ins-
trumentos de escrita onde esperava ainda
escrever alguma coisa a favor do mundo
que lhe roubaram. A lua era uma quilha de
um barco a subir e a descer na luminosida-
de de espuma, quase alva, de algumas nu-
vens. Nessa noite, cheia do rumor com que
as aguas, as vezes, substituem a ventania,
sentia-se com pensamentos inspirados.
— Junto dos rios da Babilónia nos assen-
tamos e choramos — disse em voz alta, e
achou que este começo do poema condizia
com a verdade, porque ja presumia a liçao
de quanto mais poetico mais verdadeiro.
Poderia ser mais narrativa que poesia, mas
era a verdade sentida.
— Filho — olhou para o primogenito —
Nao cres que esta e a melhor posiçao que
actualmente nos retrata, como um povo?
Havia no entanto, que meter dentro do
paragrafo, dissera-lhe o filho, a saudade, a
religiosidade e tambem um sentido comuni-
tario. Fizera bem em referi-lo, porque o ve-
lho concluiu os versos com «lembrando-nos
de Sião.»
Depois veio aquela referencia aos sal-
gueiros. Havia inumeros, junto as colonias
oferecidas aos judeus, nas margens do rio
Quebar. «Nos salgueiros penduramos nos-
sas harpas.»
Mas como uma centelha que sai do fundo
da fogueira que parece extinta, e revigora
todo o fogo, Gedalias recordou que nos pri-
meiros anos de cativeiro, e mesmo muitos
anos depois, os babilonios insistiam para
que cantassem as suas cançoes. Éra verda-
de, que tinham permissao para celebrar as
suas festas, embora so cultivassem uma, a
Festa das Lamentaçoes aliada ao novo cos-
tume de orarem com os olhos voltados para
Jerusalem, mas tocar para aqueles que os
levaram ao exílio, jamais.
É, assim, começou a escrever:
«Porquanto aqueles que nos levaram cati-
vos, nos pediam uma canção; e os que nos
destruíram, que os alegrássemos, dizendo:
Cantai-nos um dos cânticos de Sião.»
Mas como numa terra impura, o homem
se guarda de contaminar o corpo, sem lugar
de culto, sem referencias físicas para situar
a sua religiao, a nao ser no plano dos costu-
mes, dando maior importancia ao Sabado e
a Circuncisao, o velho e todos os outros ju-
deus que puderam, enfim, regressar a Jeru-
salem, tinham imenso orgulho em poder
afirmar, como as palavras desse poema, a
sua recusa: «Mas como entoaremos o canti-
co do Senhor em terra estranha?».
____________________________________________________
Do livro Como quem ia para longe. Baixe gratuita-
mente seu exemplar AQUI.
J.T.Parreira é poeta, escritor e ensaísta português.
Autor de seis livros de poesia e diversos e-books.
Éscreve desde 1964 na revista Novas de Alegria.
Mantem o blog Poeta Salutor.
21
RECIFE- MENINO
Ao toque do cada sino
remeto à vida do meu Recife - menino.
Nos quintais quase todos os frutos:
os que do oriente foram trazidos
e os que já se encontravam
no chão do descobrimento,
as cores dos frutos nos quintais das casas
celebravam a vida em todas as nuances
e eu adormecia sob aquele manto cintilante.
De tempos em tempos
floriam as mangabeiras,
depois era a vez das mangas
de amarelo, rosa e verde vestidas,
também as goiabeiras, os laranjais e abacateiros.
Vivíamos sob a exuberante copa dos jambeiros,
e à espera de colher as bananas d’água, da prata e do ouro.
Recife era umidamente adornada.
Outros frutos como araçás
pitombas e cajás enfeitavam
as mesas tropicais de Dezembro.
Em junho,
a chuva caía fina como uma oração.
As ruas da cidade ficavam limpas
exibindo um fulgor quase.
As águas escorriam das biqueiras,
e era um banho dos fluidos celestiais
feitos na maior brincadeira.
As tardes recebiam o enfeite das flores,
bom dia, boa tarde, boa noite,
buganvílias, jasmins, margaridas,
dálias e sempre-vivas.
Sempre as trazia comigo, pois as amava
e as flores gostam de nossos amores.
Entre as famílias
a morte quando chegava
era por natural decorrência
e sem violência levava quem ela queria.
Um véu de estrelas forrava todo o firmamento.
Era augusto este recorte que uma menina via.
Na varanda ficavam o pai, a mãe, tios e avós
a discorrer sobre fatos decorridos ou imaginários.
Do tempo dessa casa antiga
para mim ninguém partiu definitivamente.
Eles continuam a existir no meio dessa paixão
da qual as estrelas são permanentes testemunhas.
POR AMOR
Foi tanto o vexame,
lado a lado com dois vagabundos
expulsos fora de portas.
Mais que tudo:
sendo o pior de todos eles.
Chistes, esgares, - porque te
apanharam?
Desfeito de formas
diante de estranhos homens
de fala obscura.
Um deles me lançou uma praga alucinado
de rir uma risada sem dentes,
até que se exumou de vez.
Lágrimas em óleo quente.
Mais que as lanças rasgando-me juntas
e descolando carne da carne,
era a vergonha absoluta.
Entardecia, virava-me
o sol as costas. Monções de poeira
sopravam para longe
toda-paixão pelos homens.
Meu ouvido dizia: adormece !Yeshua!
Até que as cordas do coração
me soltaram e a descer, a descer,
vertiginoso preparo
para a permanência na
região do silêncio sem respostas
A noite desceu compacta e
Jerusalém mergulhava escura
no sangue de um homem sem culpas
A VISITAÇÃO
Existe um perfume onde Tu estás,
fragrância de rosas, alguma nota cítrica:
toques leves de malva e cássia.
Além do perfume com que te anuncias,
uma luz diáfana. Vens assim
em suave aragem pela minha sala.
em suave aragem pela minha sala.
22
Julia Lemos é natural de Caruaru, interior do estado de
Pernambuco, nordeste do Brasil. Radicada no Recife, tem forma-
ção em Comunicação Social, nas áreas de Publicidade e Propa-
ganda e Jornalismo, pela Universidade Federal de Pernambuco,
atuando como Coordenadora de Comunicação Social do Ministé-
rio da Saúde, bem como repórter e redatora no Jornal do Comér-
cio e na Televisão Universitária .
Atriz, estreou no teatro infantil em 1977 com “Pedacinho de Lua” (de Tonico Aguiar).
Em Olinda, fez parte do grupo de estudos do teatro de Bertold Brecht do Teatro Hermilo
Borba Filho, atuando em diversas encenações.
Co-autora do livro de receitas A Cozinha Estrangeira na Terra do Caju, com prefácio
de Gilberto Freyre, 1985; publicou os livros de poesia Carmem Antonio Migliacchio En-
louqueceu (Edições Pirata- Fundação Gilberto Freyre), e A Casa Estrelada, pela Fundação
de Cultura de Pernambuco, através da CEPE. Participou de diversas antologias.
É pós-graduada em Literatura Brasileira pela Faculdade Frassinetti do Recife e mestra
em Estudos Brasileiros pela Universidade de Lisboa. Tem inédito o livro de poesias A Ex-
posição dos Sóis e Poemas ao Rei.
UM OLHAR INEXTINGUÍVEL
Deus se amplia,
além do meu espaço,
meu gueto, meus guias.
Ele vai muito além
de meus esquadros,
usando régua e compasso
que desconheço.
Na matemática simples do dia,
enquanto ainda estou no começo,
Ele está lá no futuro
realizando promessas,
que mais próximas do meu
passado já se encontram.
Para melhor entende-lo,
serve-me de espelho
a física quântica.
Por isto, minha palavra
traz à existência o que não existe,
e, como as águas, símbolo do seu Espírito,
vou perfurando fendas na Rocha sobre
o precipício.
Olho para Deus
vendo-o criar mundos dentro de outros mundos,
e a mover-se na velocidade de uma luz
que neste momento já extinguiu tantas estrelas.
CANDEIA
O olhar soturno que Deus me deu
não é para ferir o mundo
mas para amá-lo.
Amo-o com a candura
dos olhares límpidos
e subo ao mais alto edifício
de onde eu possa ser a candeia
que ilumine toda a cidade.
LITANIA
Trago dentro de mim
uma oração como uma litania.
Pai, não trago palavras fáceis,
em vão se amontoam os pedidos,
coisas. Não era isto que eu queria
mas a ternura.
Hoje o céu está como que de chumbo,
vertigem dos joelhos
terem subido de repente.
Guardo em mim a ânsia
da terra que me foi prometida.
-Não eram os frutos
maiores aqueles
trazidos pelos espias?
Pai, não vim aqui
fazer orações compridas.
Sobre estes territórios
tão vigiados transitam
os meus sonhos jamais olvidados.
DIANTE DO TRONO
Quando cessarem
as esperanças
e o quartzo não mais refletir
meu rosto prismático,
quando todos os venenos
para curar ou para ferir
acabarem
vou-me para diante de ti.
Havendo de chegar
não lhe farei perguntas.
- Pai,
respondi tudo de forma
poética. Minha vida
foi de boemias frasais,
e fiz muitos amigos assim.
23
cobras & lagartos
Manuel Adriano Rodrigues
ha pessoas
que ja cantaram conosco velhos hinarios
pentecostais
e nos disseram distancia
e outros disseram de nos
cobras & lagartos
sem nunca terem visto o vestígio de um vício qualquer
na nossa boca
ja houve quem nos dissesse
que temos o habito de ter os olhos abertos
e que se foram embora
com medo da diferença
outros mais proximos
que no passado viram o nosso interior
temendo a nossa nudez
ficaram calados
e nao nos quiseram abraçar
mas tambem ja houve quem nos tenha dito
Amor
e isso,
e o que importa
Múmia
Rosa Leme
Éu era uma mumia no meio de
Outras mumias.
Éu entrei descontrolada
No grande salao
Éu falava gritava, gritava...
Éu gritava, mas era em vao.
Ninguem me ouvia.
Éstava sozinha.
As imagens ficavam inertes!
Varias delas eram de argila.
Outras Mumias
De louças valiosas...
As imagens eram de prata e ouro,
De artistas habilidosos.
Obra das maos dos homens.
Imagens, apenas imagens.
Tem olhos, mas nao veem;
Tem ouvidos, mas nao ouvem;
Tem boca, mas nao falam;
Nariz tem, mas nao cheiram;
Tem maos, mas nao apalpam;
Tem pes, mas nao andam;
Éu era uma mumia em forma humana.
Éu ja fui uma mumia
No meio de uma multidao.
Hoje sou apenas uma mulher
Que encontrou a salvaçao.
HEBREUS 11.1
Nira de Andrade
(Ora) sem fé é impossível agradar a Deus
(a)ssim foi escrito pelo autor aos Hebreus
(fé) é necessária para crer que Ele existe
(é) preciso para quem na oração persiste
(o) galardão daquele, que até o fim resiste...
(firme)za nas provas e nas tentações
(fundamento) dos que sofrem grandes provações
(das) mulheres e homens que nos dão lições...
(coisas) que venceram e foram campeões.
(que) dizer de Abraão, nosso pai na fé,
(se)m falar de Abel, Enoque e Noé...
(esperam) nas promessas do Jeová Jiré!
(e) xperimentam escárnios, açoites, cadeias e prisões.
(a)inda assim com fé dentro dos corações,
(prova)dos no fogo, no deserto, na cova dos leões
(das) suas falhas e fraquezas tiraram resistência
(coisas) que enfrentaram com toda a persistência
(que)rendo a prática da fé na obediência...
(se)ndo apedrejados, serrados, mortos ao fio da espada;
(não) desistiram nem abandonaram a sua jornada
(veem) na esperança sua fé aperfeiçoada!!!
DEUS SABE A HORA
William Vicente Borges
Deus sabe a hora de dizer SIM
e então sentimos a brisa da sua compreensão
Deus sabe a hora de dizer NÃO
e sentimos a fragrância da sua sabedoria
Deus sabe a hora de dizer BASTA
e todas as nossas dores se vão
Deus sabe a hora de dizer AGORA
e nossos joelhos se dobram em gratidão
Deus sabe a hora de dizer CALMA
e nossos medos são jogados ao chão
Deus sabe a hora de dizer MUDA
e nossa alma segue outra direção
Deus sabe a hora de dizer NÃO TEMAS
e sentimos o poder de suas mãos
Deus sabe a hora de dizer EU TE AMO
e se prestarmos a atenção veremos
que o diz a toda hora!
Súplica de poeta
May Sousa
Deus,
Permita-me ser:
Legenda tua!
Fazer-te conhecido, com tinta e papel.
24
Joed Venturini
Um grupo de garotos passou correndo
pela frente da porta, enquanto o velho Éuri-
co a fechava para sair. Um deles praticamen-
te esbarrou no anciao, mas Éurico parecia
nao perceber ou pelo menos nao se incomo-
dar. Éra parte de sua maneira de reagir ao
ambiente. É seu estilo poderia ser
considerado perfeito. Fazia ja
quinze anos que vivia naque-
la favela e nunca fora assal-
tado! Ninguem o molesta-
va. Vivia so e sossegado e
era respeitado.
Saía pouco, pois era
aposentado. Ia metodica-
mente a igreja evangelica
mais proxima, mas tirando
isso, e as saídas diarias a pa-
daria e semanais ao supermer-
cado, era ali mesmo, nas estreitas
ruas da comunidade pobre, que fazia sua
vida. O velho era conhecido como uma espe-
cie de operador de milagres. Distribuía
compaixao como o orvalho matinal e sua es-
pecialidade, se e que se poderia chamar as-
sim, era recuperar jovens desviados. É na
sua favela havia muito material de trabalho.
O anciao tinha uma estrategia pouco co-
mum. Poderia se dizer que ganhava pela
exaustao. Primeiro escolhia, em oraçao, um
jovem que estivesse mesmo muito mal. Ém
geral eram delinquentes envolvidos com o
trafico de drogas e membros de gangues da
favela. Éntao iniciava uma maratona de je-
jum e oraçao por aquele jovem. Quando
sentia que tinha suficiente cobertura de
oraçao, “atacava”. De tal forma procurava o
seu alvo que as vezes virava sua sombra. Ém
regra era rejeitado de início, mas ia ganhan-
do terreno ate que o jovem acabava ouvindo
o homem.
Mesmo com meios tao arcaicos a psico-
logia moderna, o anciao tinha resultados
surpreendentes. Podia citar uma lista res-
peitavel de nomes de jovens que tinham
deixado uma vida que levaria a uma morte
prematura e que tinham sido recuperados
ao ponto de se casarem, terem emprego e
serem fieis membros de igreja, e ate dois
que eram pastores.
Mas Éurico nao fazia propaganda de seu
trabalho. Seria contrario ao seu estilo e per-
sonalidade. Alem de mais ele considerava
seu ministerio como uma simples re-
tribuiçao pelo que ele mesmo
recebera. Fora, em tempos
idos, um alcoolatra que es-
tragara a vida e desgraçara
a família. Teria morrido
assim, se nao fosse o amor
paciente e perseverante
de um antigo diacono da
igreja onde agora assistia.
Éssa era sua historia. Éssa
era sua vida.
Ultimamente, porem, o ho-
mem andava um tanto preocupa-
do e nervoso. O caso que tomara parecia
nao se resolver como os anteriores. Éstava
ja ha meses orando, jejuando e lutando pela
vida de Édmilson e parecia nao haver ne-
nhuma sensibilidade da parte do rapaz. A
cada nova investida de Éurico o jovem se
afundava mais em sua vida de pecado. Co-
mo chefe de uma facçao da gangue, tinha di-
nheiro e poder sobre outros jovens. Nao se
importava com nada a nao ser usar e abusar
de seu poder sobre os assustados morado-
res da favela. Passear de carro e trocar de
namorada eram outros de seus passatem-
pos e, claro, tudo bem regado a chope e co-
caína.
Éurico nao era homem de desistir facil.
Nao sentira ainda que fosse tempo de dei-
xar de lutar pela vida e salvaçao de Édmil-
son e por isso mais uma vez apos uma se-
mana de intensa oraçao, ele se dirigia ate o
local aonde sabia que poderia encontrar o
rapaz.
O jovem nao estava em casa. Fora visto indo
25
para o topo do morro, aonde tinham uma
casa que servia como uma especie de prisao
para inimigos capturados ou devedores que
nao pagavam suas remessas de droga. Éra
ali, no terraço, que costumavam executar
aqueles que tinham atravessado o caminho
dos líderes do pedaço. Éurico estremecera,
mas nao de medo. Éstava seguro. Temia pe-
lo seu alvo. Éra pelo moço que sentia medo.
Subiu custosamente o morro, parando
varias vezes. A idade ja nao facilitava. As oi-
tenta primaveras ja tinham passado ha al-
guns anos e os musculos nao tinham a força
de outrora. Perto do local que queria alcan-
çar o anciao foi barrado por dois garotos ar-
mados, de uns dezesseis anos.
— É aí vovo, aonde e que pensa que vai?
— Vim ver o Édmilson — Éxplicou Éuri-
co com toda a naturalidade.
— Manero — riu o outro garoto - O ve-
lho, ce num acha que ta velho demais pra
andar cheirando?
Éurico baixou a cabeça cansada e levan-
tando-a, fitou o rapaz bem nos olhos, de tal
forma que o fez ficar sem jeito. Foi entao
que o outro notou a Bíblia na mao do velho
e reagiu:
— Pode passar velho, vai logo!
Mais uma vez a superstiçao local se fazia
sentir. Os traficantes, por regra, nao se meti-
am com “crentes” porque diziam que dava
azar. As evidencias confirmavam. Éurico
avançou ate a casa. Éra um casarao abando-
nado. Por todo o lado cheirava a dejetos hu-
manos e havia ratos andando em plena luz
do dia. Um despacho de macumba bem na
entrada terminava de compor o quadro ma-
cabro.
O anciao nao hesitou. Subiu as escadas
gastas. Nao havia ninguem no 1º andar, nem
no 2º. Ao chegar ao terraço ja o velho arfava
novamente. Parou e viu um jovem negro, al-
to, de soberbo aspecto, perto de um corpo
que jazia no chao em meio a uma poça de
sangue. Ao pressentir a presença do homem
o jovem apontou a arma com ar furioso e
olhos arregalados onde se evidenciavam si-
nais da ultima dose de droga.
Éurico levantou a Bíblia em sinal de
identificaçao. A arma foi baixada e os olhos
do rapaz se encheram de impaciencia e
aborrecimento.
— Ce num me larga velho? Me deixa, po!
To cansado de te aturar! Ve se me esquece!
— Boa tarde, Édmilson! — o anciao res-
pondeu em tom triste.
Um silencio pesado se seguiu.
— Nao posso desistir de voce, Édmilson.
— continuou o anciao — Voce esta no meu
coraçao. Quero ver voce salvo e seguro nos
braços de Jesus!
O Jovem riu com sarcasmo e balançou a
cabeça.
— Os braços que eu quero sao outros. —
gozou ele — Alem do que, se voce que reza
aproveita e ve se ajuda esse aqui que preci-
sa mais que eu — riu apontando o cadaver
— Éu tenho mais que fazer.
Dizendo isso o rapaz passou pelo velho
com desdem e o empurrou com violencia.
Éurico perdeu o equilíbrio e caiu sentado
junto ao muro que circundava o terraço e o
jovem se foi.
O anciao encolheu-se. Éstaria errado
desta vez? Seria Édmilson um caso realmen-
te perdido? Na verdade o livre arbítrio era
de se considerar. Éle nao podia forçar a von-
tade de alguem a quem Deus fizera livre. No
entanto o peso da alma do jovem o fazia so-
frer e as lagrimas brotavam de seu rosto
cansado. Ali ficou com a cabeça apoiada nos
joelhos chorando e clamando por uma
oportunidade de ser verdadeiramente inter-
cessor, de ficar na brecha por este rapaz.
O tempo passou. Éurico nao sabia se
muito ou pouco. Quando se deu conta havia
outra pessoa no terraço e o sol declinava ra-
pidamente no horizonte. A presença dessa
pessoa o fez erguer-se um tanto assustado.
Limpou as lagrimas do rosto e o nariz que
pingava e tentou se recompor. Mas a aproxi-
maçao da outra pessoa o deixou deveras
surpreso.
Saída como que de uma especie de nevoa
26
veio ao seu encontro uma velha de aspecto
medonho. Curvada e cheia de reumatismo
ela parecia nao ter sequer um osso que nao
fosse deformado. Érgueu o rosto para Éuri-
co e o fitou com superioridade. O anciao tre-
meu sem querer.
O rosto da velha era de tal forma enruga-
do e cheio de espinhas e pontos negros que
so o fixa-lo ja era penoso. O nariz de propor-
çoes significativas era peludo e torto. A boca
irregular de labios secos. Da cabeça quase
careca saíam uns poucos fios de cabelo gri-
salho em total desalinho. A mulher trazia
uma roupa toda negra e esfarrapada condi-
zente com seu aspecto físico. Sua presença
causava repulsa e medo, tremor e asco ao
mesmo tempo.
Depois do primeiro susto Éurico tentou
se recuperar. Pensou que fosse alguem da
família do homem morto que permanecia
no extremo do terraço e tentou ser gentil:
— Boa tarde, senhora. Veio pelo moço
acidentado? — perguntou apontando o ca-
daver.
— Acidentado? — pronunciou a velha
com sarcasmo.
Sua voz era metalica e grave. Um tanto
inesperado. Causava arrepios na medula e
parecia penetrar os ossos. Nao parecia ser
humana.
— Acidentado? — repetiu a velha.
— Bem — titubeou Éurico sem jeito —
eu, na verdade, nao sei. Quando cheguei
aqui ja estava morto.
A velha parecia nao estar interessada no
que ele dizia. Aproximou-se do anciao e o
rodeou examinando cada detalhe dele e em
especial a Bíblia em sua mao. A sua aproxi-
maçao Éurico experimentou um fenomeno
de todo inusitado. O chao parecia ter se tor-
nado frio. Como se a temperatura a volta da
mulher fosse bem mais baixa que o resto do
ar. A tal ponto se fez sentir isso que o pobre
homem quase tremia de frio e segurava o
queixo para que nao batesse.
A velha tornou a se afastar dele sem pa-
lavras como se tivesse perdido o interesse e
avançou ate o parapeito da varanda exami-
nando as redondezas. Éurico fez enorme es-
forço para sair de seu estado quase catato-
nico.
— Posso ajuda-la de alguma forma? —
perguntou com educaçao.
A velha o mirou de novo com aquele
olhar gelado e desdenhou:
— Nao e voce que quero! — respondeu
secamente.
— Éntao, quem e? — insistiu o anciao ja
com seus pressentimentos.
A mulher parecia incomodada com a
presença e a insistencia do homem e pare-
ceu ataca-lo. Voltando-se com rapidez sur-
preendente o questionou:
— Nao tem medo de mim?
Desta vez foi Éurico que ficou firme e
com olhar tranquilo e seguro sorriu e res-
pondeu:
— Deveria ter?
— A grande maioria dos homens tem…
— disse a velha com segurança.
— Parece ter muita experiencia! — refle-
tiu Éurico.
— Alguma... — devolveu a outra com
sarcasmo.
— É esta procurando... - sugeriu o an-
ciao.
— Édmilson - declarou a velha de forma
seca e voltou a perscrutar a vizinhança.
Éurico ficou abalado com a revelaçao e
se aproximou corajosamente da velha ape-
sar de que o frio que ela transmitia ser a ul-
tima coisa do mundo que queria experimen-
tar de novo. De subito, sentiu-se cheio de
ousadia para lutar pelo jovem que pretendia
ver salvo, e pressentia que esta ancia so po-
dia trazer mas notícias. Chegou-se com con-
vicçao e disparou:
— Quem e a senhora?
A velha olhou Éurico com um misto de
admiraçao e desprezo e sorriu. Um sorriso
que faria gelar o coraçao do mais corajoso.
De sua boca disforme se viam uns poucos
dentes amarelo-acastanhados e a risada
qual grito de hiena na noite africana parecia
27
vindo de outro mundo. A mulher, olhando o
homem no fundo dos olhos, pronunciou cal-
mamente:
— Sou a Morte!
— Nao pode leva-lo! — foi a reaçao ime-
diata e quase impensada do anciao.
A Morte mostrou surpresa, franzindo o
sobrolho que logo abriu em novo sorriso
desdenhoso.
— Voce vai me impedir?
— Nao posso... — reconheceu Éurico —
Mas ele nao esta pronto!
— Isso nao e problema meu. — deu de
ombros a velha — Cumpro minhas obriga-
çoes e chegou a hora do rapaz. Se nao se
preparou para me receber e problema dele.
— É meu tambem. — protestou o ho-
mem — Éu assumi a responsabilidade por
ele.
— Ninguem pode assumir a responsabi-
lidade por outro. — devolveu a Morte — Ca-
da um tem que me enfrentar sozinho e a ho-
ra de Édmilson e chegada.
— Éntao, me leve a mim. — tentou Éuri-
co ja desesperado — Éu posso ir ja, estou
pronto. Nao tenho medo de voce. Leve-me
no lugar dele!
Agora o homem parecia pela primeira
vez ter conseguido a total atençao de sua
interlocutora que o examinava com mais
cuidado ainda. A morte aproximou-se nova-
mente e o frio glaciar de ainda a pouco vol-
tou a gelar Éurico de forma desagradavel e
quase insuportavel. Tudo nele clamava por
se ver livre dessa sensaçao, mas ficou quie-
to, em seu interior lutando pela alma de seu
protegido.
A morte percebeu a luta do homem e sua
forte resoluçao e se afastou lentamente.
— Tem a certeza do que me propoe? —
questionou tentando verificar a certeza do
homem.
— Sim! — afirmou Éurico com total con-
vicçao.
— É porque faz isso? — quis saber a
morte.
— Pela salvaçao dele. — explicou o an-
ciao - Éle nao esta pronto para ir. Precisa de
mais tempo. O amor de Deus ha de vencer
em sua vida, mas precisa de mais tempo.
— É e esse tempo que voce quer com-
prar para ele? — sugeriu a velha rindo.
— Se for possível… — clamou ele.
— Possível e… — disse ela — Nao seria a
primeira vez. Tem-se feito muitas vezes e
creio que ainda se farao muitas mais.
— É ele tera tempo suficiente? — quis
saber o homem ansioso.
— Isso nao pode saber. So o Todo Pode-
roso sabe essas coisas. Pode ser que sim.
Pode ser que nao. Acha que vale a pena
mesmo assim? Morrer sem ter a certeza?
Pode ser em vao… — tentou a morte ma-
treira.
— O amor nunca e em vao! - sentenciou
Éurico — Éstou disposto a dar a Édmilson
mais uma oportunidade, nem que seja a ul-
tima!
A morte balançou a cabeça e chegou-se
ao fim do terraço aonde se via toda a favela.
Suspirou com ar cansado e olhou mais uma
vez com seus pequeninos olhos negros o
homem que a observava em suspense.
— Tanto trabalho a fazer... Voltarei por
voce... Amanha!
Antes que Éurico pudesse dizer qualquer
coisa uma nevoa vinda nao se sabe de onde
encobriu a velha e a sua figura fantasmago-
rica desapareceu.
O homem ficou muito tempo ali em pe
sem saber bem o que se passara com ele.
Fora sonho? Fora visao? Fora real? Como sa-
ber a verdade? O anciao sentia-se confuso.
Seria genuíno que ele negociara com a mor-
te e se oferecera para ir ao lugar de Édmil-
son? Isso seria possível? Seria aceito? No
dia seguinte seria a sua vez? Éstaria real-
mente tao preparado como se julgava?
Com esses pensamentos na cabeça ele
deixou o local e a medida que descia do
morro notava toda a agitaçao típica do fim
de dia, mas algo mais do que era normal. Fi-
nalmente um jovem o informou. A polícia
havia estado no morro durante a tarde. Ti-
28
nha havido troca de tiros e Édmilson fora
baleado. Éstava no hospital.
Éurico estremeceu. Tinha que verificar.
Sentia-se cansado. Na verdade exausto, mas
nao teria paz sem confirmar o que sucedera.
Questionou sobre o hospital em que o jo-
vem estaria internado e foi ate la, chegando
ja noite cerrada. Procurou o medico que
atendera Édmilson. O clínico sentou com o
anciao e parecia confuso.
— Foi algo muito estranho. — disse o
medico — O rapaz foi baleado tres vezes no
abdomen, na regiao do fígado. Chegou aqui
com hemorragia interna incontrolavel. Nao
havia nada que pudessemos fazer. Nem se o
tivessemos recebido logo apos os tiros. Mas
tinham passado mais de duas horas! Éle es-
tava a morte! O pulso estava indo e todos
nos preparavamos para deixa-lo cadaver
quando, de repente, o sangue parou. O cara
se recuperou bem ali, a nossa frente. Olha,
se eu nao tivesse visto, nao acreditaria. Se e
que existe essa coisa de milagre, este foi
um!
Éurico ouviu tudo com lagrimas nos
olhos e sentindo que, afinal, tudo o que vi-
vera fora verdade. Cheio de convicçao e cer-
teza conseguiu autorizaçao e chegou a cabe-
ceira do moço por quem se dispusera a
morrer. O jovem orgulhoso e cheio de anti-
patia que ele vira no começo do dia ja nao
estava ali. Édmilson tinha um ar assustado
de garoto pobre que era o verdadeiro esta-
do de sua alma. Olhou Éurico com vergonha
e uma pitada de esperança. Tremia ao lhe
contar.
— Foi uma emboscada. O meu pessoal
me traiu. O desgraçado do Mendes queria a
minha posiçao. Miseravel! Vai pagar caro! —
dizia com o rosto se contorcendo de dor e
raiva.
— Ainda odiando? — interrompeu Éuri-
co — Isso nao te trouxe nada de bom.
O moço parou de falar e o olhou triste.
Desta vez parecia reconhecer a verdade nas
palavras do velho.
— Éu vi a morte! — disse entao tremen-
do — É era horrível!
— Éu sei. — balançou a cabeça o anciao
— Mas nao precisa ter medo dela agora. Vo-
ce vai viver. Mas o quanto e como vai depen-
der de onde voce vai colocar o coraçao.
Na entrada do quarto uma enfermeira
fez sinal ao anciao que era hora de se reti-
rar. Édmilson segurou o braço dele com an-
gustia. Ém seus olhos ele via agora todo o
vazio de seu coraçao, toda a busca de sua
alma.
— O que e que eu faço? — perguntou
com voz embargada.
Éurico o olhou com carinho. Colocou sua
Bíblia na cabeceira. Éra a sua velha Bíblia.
Companheira de tantos anos. Ganhara aque-
le livro do homem que o levara a Cristo. Éra
seu mais precioso tesouro. Mas sentia que
agora o rapaz precisava mais dela do que
ele. Sorriu de leve e acrescentou:
— Comece lendo o livro onde esta mar-
cado. Depois, quando sair daqui procure o
pastor Joao da igreja la da favela. Éle sabera
te ajudar. Nao desperdice seu tempo, meu
filho! A vida e curta! Voce nao sabe o que
vem amanha.
— Voce vira me visitar? — quis saber o
moço.
— Nao sei. — respondeu o velho com o
olhar perdido — Tenho amanha um com-
promisso muito importante. Logo voce sa-
bera.
Com uma breve oraçao ele se despediu
do moço e saiu. Trazia o coraçao em paz.
Sentia que aquele jovem estava a caminho
da recuperaçao. Seria difícil o caminho e
muito espinhoso. As tentaçoes seriam mul-
tiplas e a luta tremenda. Mas ele queria
acreditar. Éra tudo que precisava. Fizera a
sua parte. Talvez ate demais. É com esse
pensamento enchendo sua mente chegou a
casa finalmente e dormiu um sono pesado,
sem sobressaltos, cheio de paz.
No dia seguinte, levantou-se a hora habi-
tual. Fez tudo como em qualquer outro dia.
Por que seria diferente? Foi o que pensou. O
dia inteiro, porem, esperava sentir aquela
29
presença gelada que o envolvera no dia an-
terior e que certamente o viria buscar. Mas
nada aconteceu de manha e a tarde ia ja
avançada quando se sentou em seu sofa de
leitura e adormeceu com um velho livro de
poesia no colo.
Acordou com uma sensaçao estranha e
imediatamente sentiu que nao estava so.
Um arrepio percorreu sua espinha, mas re-
cuperou depressa e levantando-se deu de
cara com uma moça que, sentada a mesa da
sala, preparava um cha.
Éra jovem e extremamente bela. Alta e
esbelta, de feiçoes finas, rosto pequeno
emoldurado por abundante cabelo castanho
claro, olhos enormes de um verde enigmati-
co, labios bem desenhados e um queixo ar-
tístico. Éra branca, muito branca e dela pa-
recia emanar um perfume doce inebriante
que o anciao sentiu ser delicioso demais.
Éurico sorriu diante de tal visao e lim-
pando a garganta, se desculpou:
— Peço desculpa nao a vi entrar, estava
lendo e creio que cochilei.
— Nao tem problema, eu tenho tempo.
— ela respondeu numa voz maviosa e musi-
cal.
É as palavras foram acompanhadas de
um sorriso que trazia a beleza sombria de
uma noite de luar. Éurico nao pode evitar
um novo arrepio, mas nao sabia como rea-
gir.
— Ém que posso servi-la? — quis saber,
sempre educado.
— Temos encontro marcado. - lembrou a
moça com certo ar de surpresa no rosto —
Certamente nao esqueceu!
O anciao recuou um passo e parou. Ésta-
va confuso e admirado. Balançou a cabeça e
fixou melhor o olhar.
— Tenho encontro marcado com a... —
nao foi capaz de dize-lo.
— Comigo! — completou a moça.
— Nao pode ser! — continuou estra-
nhando o velho.
— Porque nao? — insistiu ela.
— Nao foi voce que vi ontem!
— Ah! — riu ela e se aproximou esten-
dendo a xícara de cha fumegante e cheiroso.
A sua aproximaçao ele sentiu o frio que
lhe percorrera o corpo no dia anterior. Mas
este nao era o mesmo tipo de frio. Nao gela-
va. Nao fazia tremer. Éra mais um tipo re-
frescante, qual brisa gostosa em tarde aba-
fada.
A moça fez sinal e ele tornou a sentar-se
no sofa. Éla foi postar-se nao muito longe,
bem em frente a ele.
— Na verdade foi comigo que falou on-
tem. — continuou a morte — Mas ontem vo-
ce me viu como Édmilson me veria. Ontem
eu era a morte aos olhos dele. Hoje estou di-
ferente, ou talvez nao. Na verdade nao mu-
do. O que muda e a maneira como as pesso-
as me veem.
Éurico abanou a cabeça. Fazia sentido.
Éra mesmo bastante logico. Sorriu. Nao po-
dia evita-lo. Como temer uma morte com es-
ta cara?
— Ésta preparado?
— Sim! — disse prontamente o homem
sem hesitar — É Édmilson?
— Tera sua oportunidade.
— É sera suficiente? - insistiu ele.
— So o Todo Poderoso sabe! — decretou
ela — Tome seu cha. Voce ja fez sua parte.
Novo sorriso encheu o ar de parte a par-
te. Éle bebeu o cha e encostou a cabeça na
poltrona. Fechou os olhos sentido o perfu-
me que enchia o ar. Logo estava dormindo.
No outro dia de manha corria a notícia
na favela. O velho Éurico morrera na tarde
anterior enquanto dormia e o barbeiro que
costumava cortar-lhe o cabelo comentava:
— Isso e que e uma Bela Morte!
Baseado em João 15:13:
“Ninguém tem maior amor do que este: de dar
alguém a própria vida em favor de seus amigos."
Joed Venturini é Pastor da Terceira Igreja Batista de
Lisboa, Mestre em Missiologia, Medico especialista
em Medicina Tropical e Éscritor.
Leia mais do autor em:
http://joedventurini.blogspot.com.br/
30
Galeria Lya Alves
"Batuque"
Acrílicasobrepapel-21x30cm-ano1998
G rafit e no
‘Galerio’, enor-
me painel ao ar
livre que fica
entre a estação
Coelho Neto e a
Estação Colé-
gio, na cidade
do Rio de Janei-
ro.
31
Lya Alves Nasceu em São
Gonçalo e vive em Niterói -
RJ. Começou a pintar em
1998, e a grafitar em
2008. O eixo temático do
seu trabalho é alienação,
coisificação e fetichismo e
suas obras promovem refle-
xões e críticas ácidas sobre
o consumismo através de
fábulas visuais e antropo-
morfismos.
Além de pastora e artista
plástica, a múltipla Lya é
ainda quadrinista (HQ Guer-
reiros de Deus), grafiteira e
designer de moda, e tam-
bém ativista cultural.
Conheça mais do trabalho
da autora em
lyaalves.blogspot.com.br/
“Anastácia"
Acrílica sobre tela - 60x40 cm - ano 2008
Págiina em P/B da HQ Guerreiros de Deus
Em sentido ho-
rário: Lya grafi-
tando um de
seus temas
prediletos, a
Águia; Grafite;
grafitando uma
rosa; Águia de
Fogo (ilustração
digital).
32
Sammis Reachers
Sabia o nome dela das notas de entrega:
Norma ou Dona Norma. Nunca conversava-
mos muito, – Boa noite, oi meu filho, e voce,
que bom, voce e o mais simpatico,
aquele outro rapaz e meio
grosso...
– Éle e gente boa, dona
Norma, veio do interior, e
mais assustado do que
grosso... – Éssa foi nossa
maior conversa.
Um dia encontrei-a na
rua Bras Cubas, proxima a Acli-
maçao, a longos quilometros de sua casa.
Éu estava indo para meu turno na pizzaria,
que ia das 15h00 as 23h30. Éla tentava apa-
nhar um caozinho que estava embaixo de
um carro estacionado. Parei a moto e fiquei
observando-a. Éla ja idosa, tinha dificulda-
des. Desmontei para ajuda-la.
– Ola dona Norma! Quer ajuda aí? – disse
-lhe, ja me agachando do outro lado do veí-
culo e chamando o cachorrinho. Consegui
apanha-lo, era bem mansinho e magricela.
Éla o colocou numa dessas caixas especiais
para o transporte de pets.
Sempre imaginara que ela era uma pro-
tetora de animais, dados os muitos latidos
que ouvia, disparados de dentro de seu
quintal, mas nunca tive certeza. Perguntei:
– Éste tambem e da senhora? Ésta longe
de casa hein!
– Nao, meu filho, este esta abandonado.
Éu sempre que posso recolho elezinhos e
levo pra casa...
* * *
Depois daquele dia, passamos a conver-
sar mais, e eu sempre perguntava pelos
caes. Éla familiarizou-se ainda mais comigo,
passou a relatar das dificuldades no trato
dos exatos trinta e dois caes. Comecei a co-
laborar com a obra dela, uma vez por mes
levava um saco de raçao para de alguma
maneira somar nas despesas. Nesses dias
ela convidava-me para entrar, e passei a fa-
miliarizar-me tambem com os caes.
Éra professora aposentada da USP. Tinha
um filho apenas, funcionario de uma agen-
cia do Banco do Brasil nos ÉUA.
É assim nossa amizade foi es-
treitando-se, tanto entre mim
e dona Norma, como com
os caes.
Havia em sua casa um
patio coberto que servia
de quintal, onde ela fizera
pequenas celas de canil, de
um lado e outro. Os animais
mais ferozes, ou que sempre arruma-
vam encrenca, permaneciam presos a maior
parte do tempo, e eram liberados apenas
quando os demais estavam nas celas. Den-
tre eles, Drago, um pitbull que matara tres
cachorros e ainda ferira um homem que o
tentara matar, e que ela salvou de ser poste-
riormente sacrificado; Lonlon, nome singelo
para um dogue alemao especialmente hos-
til; e a cereja do bolo: Sem Matilha, um lobo
Guara, com a aparencia marcial, marcado de
combates, que ela adotou quando o circo
que o mantinha, impedido de continuar
com animais selvagens devido a uma lei de
2005, foi obrigado a desfazer-se dos mes-
mos. O dono do circo, como ela gostava de
dizer, ‘espanhol morenao de Zaragoza’, de-
veria doa-lo para um zoologico, como a mai-
oria dos demais animais. Mas nao apareceu
zoologico algum interessado em apanhar o
lobo, os dias foram passando e o dono do
mesmo resolveu da-lo para dona Norma.
Com o tempo, ja nao me estranhavam, e
passei a alimenta-los tambem.
* * *
Fui acordado pelos socos que ameaça-
vam derrubar minha porta. Levantei-me
desnorteado, sonhava com a namorada que
eu nao tinha. Abri a porta.
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  • 1. 1 Número 02 — Fevereiro 2016 AMPLITUDE Poeta em Destaque: Júlia Lemos E MAIS: Cinema - Fotografia - Música - HQ
  • 2. 2 SUMÁRIO Revista Amplitude - Número 02 - Fev 2016 Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 03 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .04 Conto: O canto do sabiá preto / Lindolfo Weingärtner . . . . . .05 Luminares / Joana Cristina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10 Cinema: 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . . 08 Conto: A Morte da Encrenqueira / Judson Canto . . . . . . . . . . .11 Jardim dos Clássicos / Eça de Queirós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .12 Crônica / Max Lucado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17 Conto: O Poeta do Salmo Exilado / J.T.Parreira . . . . . . . . . . . . . 18 Poeta em Destaque / Julia Lemos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Conto: A Troca / Joed Venturini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .24 Galeria / Lya Alves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30 Conto: A Matilha Fantasma / Sammis Reachers . . . . . . . . . . . . 32 Notas Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37 Cinema / 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . 38 Conto: O Hóspede / Florbela Ribeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 Luminares / Helena Branco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .40 Conto: O Menino / Myrtes Mathias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41 Hot Spots: Ramon Llull (Lúlio) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .44 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Especial / Estêvão para tempos de perseguição . . . . . . . . . . . . 47 Resenhas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50 Luminares / Camilo Borges Júnior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .52 Crônicas / Chris Amag & Rofa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .53 Álbum / William Rosa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .54 HQs . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 Parlatorium . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .56 CAPA: He Qi, Calling Disciple (Jesus chamando os discípulos) - trecho. He Qi é um artis- ta cristão chinês que tem feito um trabalho assaz singular, e gentilmente cedeu sua obra para ilustrar a capa de AMPLITUDE. Conheça mais do trabalho do autor: http://www.heqiart.com AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em fic- ção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plás- ticas e quadrinhos. Publicamos arti- gos, estudos literários, crônicas e rese- nhas. Nossa intenção diz respeito àquela despretensiosa excelência dos humil- des. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entreter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/ intelectual entre nossos irmãos. Nosso preço é nenhum: a revista circula gra- tuitamente, no democrático formato pdf. COLABORE: Será uma felicidade ter você como um colaborador de AMPLITUDE. Envie-nos seu material para avaliação (conto, crônica, artigo, estudo literário, traba- lho em artes plásticas ou fotografia artística, resenha ou crítica de filmes, livros ficcionais ou poéticos e (boa, per favore) música cristã/evangélica, JUNTAMENTE com breve biografia. Envie também notícias sobre eventos artísticos, lançamento de livros e quaisquer notas culturais envolvendo arte/artistas evangélicos que você julgar relevantes. E escreva-nos ainda para prosear, in- dagar, criticar, elogiar... Nossos e-mails: revistaamplitude@gmail.com sammisreachers@ig.com.br Facebook: www.facebook.com/RevistaAmplitude Blog: www.revistaamplitude.blogspot.com.br Editor: Sammis Reachers
  • 3. 3 Editorial É com felicidade que apresentamos o segundo número de AMPLITUDE. Durante es- tes seis meses de espera ou gestação desta segunda edição, pudemos auferir a boa recepção que a nossa primeira edição obteve entre autores e leitores. Isso nos incentiva a avançarmos na jorna- da, cientes da seriedade e importância da iniciativa de reunir em revista, o melhor da produção literária poética e ficcional, além de outras expressões artísticas levadas a cabo por cristãos pro- testantes e de outras filiações. Vamos ao panorama da edição: Na seção Hot Spots, a sapiência de um dos maiores nomes da mística cristã, Ramon Llull (Raimundo Lúlio). Em Galeria, a obra da pastora, artista plástica, grafiteira, quadrinista e ativista cultural Lya Alves. Na seção Cinema, destacamos a realização da terceira edição do Festival Nacional de Cinema Cristão. Esta edição chega inaugurando diversas novas seções. Uma delas é Poeta em Detaque, inician- do com a obra da pernambucana Júlia Lemos. Inaugurando a nossa seção Especial, de enfoque temático, temos como mote Estêvão para tem- pos de perseguição, uma mini-antologia reunindo as percepções de seis excelentes poetas acerca de nosso protomártir, sobre quem nos é oportuno refletir em tempos de recrudescimento das perse- guições aos cristãos ao redor do globo. E as artes visuais ganharam ainda mais destaque: além da já citada seção Galeria, e de HQ (História em Quadrinhos), inauguramos mais uma seção, Luminares, destacando, em singelas inser- ções, a pintura, ilustração ou desenho de nossos concidadãos de Reino. E a Fotografia chega com força na seção Álbum, abrindo as portas com a obra de William Rosa. Os contos, como diria meu pai, estão de lascar: Iniciamos com Eça de Queiroz, na seção Jar- dim dos Clássicos, apresentando o conto O Suave Milagre. Seguimos com o humor e a precisão de Judson Canto (A Morte da Encrenqueira); a dramaticidade soberba de J.T.Parreira (O Poeta do Sal- mo Exilado); Florbela Ribeiro relatando (em O Hóspede) sobre o príncipe que tinha por norma se hospedar junto aos pobres; Lindolfo Weingärtner num conto terno e luminoso (O canto do sabiá preto); Joed Venturini com o impactante & metafísico A Troca; este vosso humilde escriba, num conto de terror(!?), A Matilha Fantasma; e concluímos com nossa saudosa e maravilhosa Myrtes Mathias, num conto com um toque arrebatador (O Menino). Queridos trinta leitores, agora uma nota triste: havia idealizado a periodicidade da revista pa- ra semestral, mas percebo agora que infelizmente não poderei manter tal ritmo. Não que o traba- lho seja tanto (mesmo que seja! Rsrs), embora eu faça aqui tudo sozinho, mas o fato se dá em vir- tude de meu pouco tempo. Retomei estudos universitários, e, junto ao trabalho secular e minhas outras iniciativas, das quais não posso abrir mão, percebo que o tempo de seis meses não é sufici- ente, ao menos nesse momento de minha vida, para dar conta de uma publicação desta magnitu- de. Portanto, fica em aberto, até palavra em contrário, a periodicidade de AMPLITUDE. Lem- brando: a revista não acabará; apenas terá expandido seu período de gravidez. E aproveitando o ensejo, não deixem de orar por nosso bebê! E, como sempre, paz e bem e uma boa leitura! Sammis Reachers, editor Nota: Tenho buscado, nas seções de contos e poesia, efetuar um rodízio de autores. Assim, temos nesta edição em sua grande maioria autores não publicados na edição anterior. Com isso buscamos dar voz a tantos quanto possí- vel, e apresentar aos leitores sempre um melhor panorama da grande e boa produção de nossos irmãos.
  • 4. 4 OFEREÇO A MINHA MORTE J.T.Parreira Ofereço a minha morte. Levanto O meu sangue no silencio das feridas. As maos abrem-se rasgadas, sao duas Cartas abertas de amor. Um horizonte, o meu lado esquerdo Abre-se para o voo do meu coraçao Abandonado por Deus, ofereço a minha morte Serei retirado da cruz por maos amorosas. Prenda Karla Waters Das entranhas As estranhas Dos meus labios Para os teus No ventre De minh'alma É que a poesia Se concebeu Das cortinas Dos meus veus Da materia uterina Ate os ceus Éis que a palavra surge Vindo de outra alma ruge Se encontra em minha casa É dentro dela cria asa O poema enfim nasceu Vindo de gritos e dores Contudo, cheio de esplendores NÔVO ! Helena Branco o som trazia abs(traído)...harpeando luz a lagrimas na vidraça o ANO começa... perpassa... rendilhando suspiros consumindo notas breves d alaude ritmo insondavel batuta esgrimida d promessa comovida por STRAUSS ! danço em pontas e tules a esbelteza no espaço abraçada pela cintura o tempo escreve...avida a rosa perfumada e o AMOR que...murmura A VIDA! Escuro vale Patrícia Costa Éscuro vale este onde o medo quer ser companhia e o descredito busca titubear a fe Das Tuas maos o amparo a certeza e o cuidado de ser refugio e fortaleza que ha de guiar meus olhos meu corpo meus pes quando tudo parecer contrario. COM DEUS Alfredo Pérez Alencart (Espanha) Aberto estou, Deus, ao teu relampago eterno, pregado ao chao onde escuto um rouxinol que canta quando me estendo sobre a Cruz! Nem ao crepusculo se me quebra a esperança, tributaria duma carne que rangeu tao longe para nos amparar com a sua altíssima ternura. Assim, tu, eu, bem aventurados do milagre na chave profetica, espelhos duma aliança habil em redençoes sob sois escuros! Subita liberdade para voltar ao ponto de partida! Liberdade para desordenar-me entre a luz onde decerto treme a sua Voz! Rasga a noite, Deus, e muda-me de planeta! Tradução: António Salvado
  • 5. 5 O canto do sabiá preto Lindolfo Weingärtner O asilo ainda fora construído no tempo em que se pensava que pessoas idosas, para se sentirem bem, antes de tudo precisavam de ar fresco e de natureza nao poluída. So mais tarde se havia descoberto que o maior inimigo de gente velha era a soli- dao. Mas tal inimigo, como se sabe, nao poupa nem mes- mo os asilos situados em meio ao turbilhao dos centros urbanos. Éle nao olha classe social, rico ou pobre, gente cul- ta ou inculta. Tambem nao olha homem ou mu- lher, apesar de que muitos (em sua maioria, homens) afirmem ser mais facil para as mulheres lidar com a solidao do que pa- ra seus parceiros masculinos. Infelizmente nao existe nenhum apare- lho com o qual se pudesse medir o grau de solidao sentido por uma pessoa, a nao ser que classifiquemos um coraçao grande e amoroso de aparelho, coisa de que Deus nos queira preservar. O asilo que nestas paginas vamos apre- sentar ao leitor estava situado distante da cidade, em meio a montanhas e colinas co- bertas de matas, e com vista a verdes vales, pontilhados de campos e lavouras vicejan- tes. Viviam na instituiçao cerca de 120 ido- sos, e nenhum deles carecia de coisa algu- ma que se tem por essencial na vida das pessoas. A associaçao que administrava o asilo nao poupava esforços para que os seus velhinhos nao sofressem nenhuma carencia e para que tambem pudessem ser recebidos na casa nao poucos que eram incapazes de pagar as mensalidades vigentes. Como era que os asilados conviviam com a solidao? Bem, essa e uma pergunta a par- te, que por enquanto ternos que deixar sem resposta. Ja que nosso asilo era uma instituiçao da igreja, vinha sendo dirigido por um pastor, que cuidava de seu rebanho tanto na area física como na espiritual. Os velhos que adoeciam, nao precisavam ser deslocados para o distante hospital, eles eram tratados na propria casa, na proximidade de seu cu- ra d'almas habitual; eles ficavam sob os cuidados de um medico, que atendia o asilo uma vez por semana, e quando alguem falecia, era sepultado no cemiterio do asilo. O ce- miterio fazia parte do dia-a-dia dos inquilinos, e a maior parte deles ti- nha feito as pazes com o campo-santo. Sabiam que, quando eles proprios mor- ressem, permaneceriam per- to do lugar onde tinham passa- do seus ultimos anos de vida, e esse nao deixava de ser um pensamento confor- tante. Todas as pessoas, ao chegarem a velhice, aprendem, de certo modo, a viver como vi- zinhos da morte. Alguns conseguem estabe- lecer uma vizinhança pacífica, outros nao gostam de ser lembrados do termino de seus dias, em especial, quando o fim se aproxima a olhos vistos. Ém nosso asilo nao era so a proximidade do cemiterio que constantemente lembrava os velhinhos da morte. Éra a situaçao elementar dos septua- genarios e octogenarios que os lembrava dela, pois seguidamente viam alguem sendo arrancado de seu meio, que nao deixava na- da a nao ser um lugar vazio no refeitorio. Raros eram os meses em que ao menos um dos asilados nao viesse a ser carregado pa- ra o campo-santo. É quando acontecia que num período de um ou dois meses nao fale- cia ninguem, poderia ter a certeza de que o sino da capela dobraria duas ou tres vezes seguidas no mes seguinte. Com batidas compassadas e solenes ele revelaria que
  • 6. 6 mais uma vez alguem tinha ido embora que por muito tempo convivera com a pequena comunidade. Provavelmente cada um dos velhinhos, bem no fundo do coraçao, se per- guntava: Quando chegara o dia em que o si- no vai dobrar para mim? Ontem o sino anunciara a morte da ve- lha Irmingard. Aqui ainda vivia gente com nomes como o dela, nomes arcaicos e sole- nes, sem a marca de modismos modernos. Havia mulheres chamadas de Irmingard, ou de Clotilde, havia homens chamados de Fri- dolino ou Teofilo, naturalmente alem dos que, conforme uso da terra, se chamavam Maria, Jose, Dulce ou Giacomo, dependendo do lugar onde o destino colocara o seu ber- ço. Nao raras vezes, aqueles que tinham tais nomes antigos eram pessoas bem especiais, que liam livros de conteudo nada corriquei- ro, versadas em assuntos que nao costuma- vam aparecer nas paginas das revistas e nos programas de televisao. Irmingard tinha sido uma pessoa assim. Tivera uma vida nada facil. Ém sua comuni- dade de origem, pela maior parte de sua vi- da adulta ela servira como organista, e ela nao so amara a musica e os cantos, mas tambem as pessoas que tocavam e canta- vam, principalmente as crianças, que ela havia reunido ao seu redor para lhes ensi- nar a cantar e a tocar violao e flauta doce. A nao poucos dos pequenos ela tambem ensi- nara a viver. Sim, uma pessoa assim tinha sido a velha Irmingard. Aos quarenta anos, ela casara com um viuvo, pai de quatro filhos. Nao tivera filhos proprios, e quando o seu marido, poucos anos depois do casamento, chegara a fale- cer, ela educara os filhos dele com dedica- çao e com amor, fato de que os filhos, agora adultos, jamais poderiam esquecer-se, co- mo nao deixavam de assegurar, sempre que a visitavam no asilo. Mas nao esquecer e uma coisa, e retribu- ir amor com amor e outra. Acontecera o que em nossos tempos parece ser a coisa mais natural do mundo: os filhos tinham casado, tinham ido para outras cidades, todo mun- do na família trabalhava ou estudava, e em seus apartamentos simplesmente nao havia lugar para uma mulher velha e necessitada de cuidados, mesmo uma mulher como Ir- mingard, que com seu coraçao carinhoso era capaz de gerar e de repartir amor, nao so de retribuir o amor de outros. Assim Irmingard afinal chegara ao asilo, depois de se convencer de que por causa de seu diabetes nao poderia mais ficar sozinha em sua propria casinha. Tinha sido real- mente a melhor soluçao para ela. Ja um ano antes de sua mudança para o ancionato lhe haviam amputado uma perna, e, anos mais tarde, os medicos tiveram que cortar-lhe a outra tambem. Irmingard de começo se revoltara contra esta segunda amputaçao, dissera que prefe- ria antes morrer, do que aceitar ser mutila- da daquele jeito. Tinha passado por uma lu- ta dura antes de finalmente concordar com a operaçao. Ja que nao podia mais sentar na cadeira de rodas, ela tivera de passar os ultimos anos deitada em seu leito, totalmente de- pendente de outras pessoas. Sendo peque- na e de figura franzina, as atendentes a car- regavam nos braços como se fosse uma cri- ancinha, sempre que a tinham de mover do seu lugar. Ém seus ultimos anos de vida ela nao deveria ter pesado mais de 35 quilos, um feixe de sofrimento e de miseria huma- na. Irmingard era uma mulher crente, por isso ela nao acusava a Deus por sua sorte. Mas por vezes ela se admirava das ordenan- ças e dos caminhos do Senhor. Éla conhece- ra tempos de luta, tempos de duvidas fero- zes, em que sua fe parecera um mero pavio fumegante, ameaçado de se extinguir a cada momento. Mas ela nao acreditava em sua fe, ela cria no Deus que faz nascer fe e certeza, em meio a duvidas e desespero. Irmingard tinha um segredo. Éla apren- dera a extrair paz e alegria íntimas nao da propria situaçao e dos proprios sentimen-
  • 7. 7 tos, mas sim, das promissoes de Deus. É os outros velhinhos sentiam aquele segredo dela, e eles vinham ao seu leito, silenciavam com ela, ou conversavam com ela sobre a vida deles. Irmingard sabia ouvir, calada, e ela tambem sabia falar no devido tempo, e havia muitos que tinham encontrado con- forto e novo animo junto ao leito dela. Mesmo Fridolino, que conhecia a Bíblia como poucos, gostava de sentar junto a ca- ma de Irmingard, falando-lhe das descober- tas que fizera nos livros do Novo e do Anti- go Testamento. Irmingard gostava de ouvi- lo, se bem que ela nem sempre comparti- lhava suas opinioes e interpretaçoes. Para ela, a Bíblia indicava a direçao em que an- dar, nao a considerava um caminho ladeado de indicaçoes e prescriçoes que mantinham o cristao na linha. A Éscritura era um curso de fe e de vida, que Deus mandara escrever, nao uma coleçao de dogmas e doutrinas in- falíveis. Mas a fundo os dois se entendiam muito bem, e o velho Fridolino, depois de uma de suas conversas com Irmingard, sempre costumava ser um pouco mais tra- tavel e mais cordial. O dirigente do asilo bem sabia que Ir- mingard era a confessora secreta da casa, e nao raras vezes encaminhava para ela ho- mens ou mulheres que tinham problemas com os familiares ou que tinham começado a retrair-se em si mesmos, acometidos de depressoes, coisa propria da velhice. Éle nao ignorava que em muitos casos a mu- lherzinha com aquele corpo mutilado sabia ajudar as pessoas melhor do que ele pro- prio. De começo constatamos que o maior ini- migo de gente idosa costuma ser a solidao. Isso tambem era o caso em nosso asilo, e nao era so pelo fato de ele estar situado dis- tante da cidade, e rodeado de lavouras e campos. As fontes amargas da solidao em realidade brotam dos abismos do coraçao humano, e quando neles sobe o lençol das aguas da tristeza, elas sao capazes de aflo- rar a superfície, revelando um mar de soli- dao, mesmo em meio a gente alegre. Éste mar, constantemente alimentado por fontes secretas, e capaz de afogar qualquer alegria com suas aguas amargas. So depois da morte de Irmingard alguns dos velhinhos e do pessoal do asilo se de- ram conta de que na presença dela eles ja- mais se tinham sentido solitarios. Ninguem poderia dizer precisamente por que tinha sido assim. Devia ter sido o segredo dela. Ja que ela tinha Deus por fonte de vida e de esperança, ja que nao vivia de seus proprios recursos, ela tinha recebido do seu Criador o dom de poder abrir seu coraçao para ou- tros, e com isto conseguia tambem que os outros lhe abrissem o proprio coraçao. Ate o fim de sua vida ela tivera a capacidade de amar as pessoas e de compartilhar da vida delas. Agora Irmingard tinha falecido, e ela de- veria ser sepultada no cemiterio do asilo, a tarde do dia apos a sua morte. Tudo que os humanos costumam fazer numa ocasiao destas, tinha sido feito. O corpo murcho e mutilado de Irmingard tinha sido lavado, seus cabelos ralos foram penteados e ajus- tados, e tinham lhe botado o melhor de seus vestidos. Assim ela estava deitada em seu esquife, seu rostinho estreito emoldura- do por flores multicoloridas, e mesmo os que viviam familiarizados com a morte, sentiam, mais que em outros casos, uma grande tristeza, e algo como uma incredula estranhes perante o fato de ela nao se en- contrar mais em seu meio. Énfermeiras e atendentes tinham enchi- do a parte inferior do esquife com crisante- mos brancos, assim que nao caía em vista que no corpo da falecida, no lugar das per- nas, havia um espaço vazio. No cemiterio o coveiro tinha preparado para ela uma das sepulturas ja escavadas de antemao, e havia urna profusao de flores e coroas destinadas a enfeitar seu ultimo lugar de repouso. Fi- lhos e netos, mais alguns conhecidos de sua cidade, tinham comparecido, e tudo deveria seguir o ritual costumeiro.
  • 8. 8 Mas Deus tinha resolvido dar um ar fes- tivo ao dia em que iria ser sepultada sua serva Irmingard. Por isso ele havia ordena- do que a hora do sepultamento se formasse urna tempestade sobre o vale, com relam- pagos e estrondos de trovao, acompanha- dos de cortinas de chuva fustigadas pela ventania. Assim o feretro, que seguiria da capela ao cemiterio, chegou a atrasar-se por um bom tempo. Éra tradiçao no asilo, o pastor, por ocasi- ao de um sepultamento, fazer a alocuçao funebre no cemiterio, nao na capela, e os velhinhos apreciavam a pratica, ja que lhes ajudava a suportar o silencio pesado do pa- radouro dos mortos. Assim, jovens e velhos se haviam reuni- do na parte superior do cemiterio, enchen- do os estreitos espaços entre os jazigos, os olhares dirigidos para o vale, enquanto o pastor se tinha posicionado na parte inferi- or, com o rosto voltado para o distante cer- ro, atras do qual o sol ja ia desaparecendo. Quando, apos o hino inicial e a leitura de um trecho da Bíblia, o pastor iniciou sua alocuçao, repentinamente toda a paisagem parecia mergulhar num brilho irreal. Ainda pairava um paredao escuro de nuvens sobre o vale, mas do meio do paredao ia surgindo um esplendor, que lentamente se transfor- mava num magnífico arco-íris. Éra um arco festivo, cujo brilho aumentava a olhos vis- tos, assim que se vinha refletindo mais e mais nos rostos dos presentes. O pregador estava de costas voltadas pa- ra o vale, portanto nada enxergava do mara- vilhoso esplendor. Verdade, ele via o brilho refletido nos rostos dos presentes, mas nao sabia como explica-lo. Assim ele continuou comentando a palavra do apostolo Paulo constante no oitavo capítulo da Épístola aos Romanos - que os sofrimentos deste tempo nao sao para comparar a gloria que nos de- vera ser revelada no reino de Deus. Para a comunidade, em sua maioria composta de idosos, poderia parecer coisa muito logica o pregador falar sobre os sofri- mentos deste tempo. Cada um dos velhi- nhos tinha seu historico de sofrimentos que a vida lhe impusera. É muitos viviam de co- raçao machucado, e havia feridas do passa- do que continuavam sangrando secreta- mente. Nao, nao se podia varrer as coisas doídas da vida para debaixo do tapete, ao querer falar da gloria a ser revelada. Assim o pregador falou do sofrimento da falecida, descreveu sua vida, lembrou seu serviço e enalteceu sua fidelidade. Sim, ela tivera de provar os sofrimentos desta vida, fora obrigada a esvaziar ate o fundo o calice da dor. A vontade inescrutavel de Deus era essa: justamente as pessoas de fe eram marcadas por contratempos e sofrimentos. Éla, cujos pes por tantos anos tinham acio- nado os pedais do harmonio e do orgao de sua igreja, para dar gloria a Deus, ela fora obrigada a amputar ambas as pernas. Justa- mente ela, que tanto gostara de lidar com crianças e jovens alegres, tivera de findar os seus dias enferma, em meio a outras pesso- as enfermas e idosas. Os caminhos de Deus para com os humanos eram verdadeira- mente inescrutaveis. No momento em que o pregador menci- onara as pernas amputadas de Irmingard, o arco-íris tinha intensificado o seu brilho; e começara a espelhar-se nas nuvens, assim que aos poucos se ia formando um arco du- plo, fenomeno como que sobrenatural, que poucas pessoas tem oportunidade de ver no decorrer de sua vida. Ja que o sol acabara de desaparecer por detras do cerro, o vale aos poucos mergu- lhara na sombra; mas agora a paisagem to- da começara a resplandecer com um brilho que nao parecia desta terra. O pregador sentia a comoçao dos pre- sentes. Via como os rostos familiares havi- am mudado, assim como se diante deles ja nao se viesse desdobrando um ritual religi- oso, mas como se lhes estivesse ocorrendo algo de novo e maravilhoso, que os arreba- tava de seu dia-a-dia. O pastor, porem, continuava falando dos
  • 9. 9 sofrimentos deste tempo. Éle nao poderia mudar o escopo de sua pregaçao, so porque os rostos do pessoal pareciam espelhar co- moçao e admiraçao. Éle parecia perturbado, sim, pelo fato de os presentes, pelo que pa- recia, ja terem antecipado a segunda parte de seu sermao, antes que ele tivesse falado uma palavra sequer da gloria que em nos devera ser revelada. Por alguns momentos, admirado da co- moçao refletida nos rostos dos velhinhos, o pregador chegou a silenciar. Foi aí que uma voz quebrou o silencio: "Pastor, olhe para suas costas, olhe para o ceu — O Sinal da Aliança!" Éra Fridolino, que ousara inter- romper o solene ritual, apontando para o espetaculo celeste. O pastor, em sua convi- vencia com os velhinhos, se acostumara a muitas esquisitices e atitudes excentricas proprias de gente idosa, assim atendeu o pedido de Fridolino olhando na direçao in- dicada. É entao tambem ele passou a ver a glo- ria. É se deu conta de que o proprio Deus havia assumido a parte do seu sermao que tratava da gloria a ser revelada em nos. As- sim ele limitou-se a dizer: "Sim, Fridolino tem razao. O Sinal da Aliança." É assim aconteceu que, na hora do se- pultamento de Irmingard, pastor e comuni- dade quedavam-se em silencio, ao lado da sepultura aberta, abrindo-se ao fulgor que irradiava do arco da aliança de Deus. É enquanto paravam, silenciosos, bem de manso, do beirado da floresta proxima, começou a trinar um sabia preto. Éle canta- va como que de voz contida, assim como os sabias pretos costumam cantar ao lusco- fusco do dia. Cantou por uns dois minutos, e quando enfim silenciou, igualmente o arco- íris foi perdendo o seu fulgor. Ao fim, o pastor voltou a encarar a co- munidade. Falou da esperança dos que adormeceram em Cristo Jesus, falou da glo- ria da vida eterna — e tudo correu segundo a ordem costumeira. O esquife foi baixado a sepultura: Terra a terra, cinza a cinza e po ao po. Semeia-se um corpo corruptível, res- suscitara um corpo espiritual. Juntos, final- mente, todos oraram a oraçao do Senhor, e depois foram despedidos com a costumeira bençao. A maior parte dos velhos voltara ao asi- lo, logo apos a cerimonia. So ao redor de Fridolino se havia formado um grupo que se envolvera numa discussao com ele. Fridolino insistia que o arco-íris tinha sido um sinal de Deus; o proprio pastor o tinha confirmado. É vinha escrito na Bíblia: Deus havia colocado o arco no ceu, apos o diluvio, para que servisse de eterno sinal da aliança estabelecida entre Éle e os huma- nos. Mas ele nao admitia que tambem o canto do sabia era parte desta aliança. Nada se encontrava na Sagrada Éscritura a respeito de aves que tinham a tarefa de dar recados aos humanos atraves de seu canto. A pomba que carregara no bico a folha de oliveira, nao havia arrulhado nada para Noe, o corvo que havia trazido pao e carne a Élias, na margem do arroio de Querite, nao havia grasnado nenhuma mensagem para o pro- feta. Seu serviço fora mudo. Deus nao falava atraves de passarinhos, e o canto deles nao tinha nenhum significado para nos. Um dos circunstantes alegava que o galo, que, afinal, tambem era ave, por certo tivera um recado a dar a Pedro, na noite em que este negara a seu Mestre. Mas Fridolino nao se deu por achado. O galo tinha cantado, mas era hora de ele cantar de qualquer jei- to, ele nem sabia porque estava cantando e que seu canto poderia ter um significado pala Pedro. A gente facilmente se tornava vítima de fantasias, ao querer dar as coisas da natureza uma interpretaçao espiritual. Alguns do grupo nao concordavam com ele, mas ninguem costumava argumentar com o velho Fridolino sobre questoes que envolviam a Bíblia, e assim sua opiniao pre- valeceu. Mas por ocasiao da janta, Fridolino se mantivera calado, como que contrariado, e
  • 10. 10 quando todos abandonaram o refeitorio, ele reteve alguns de seus amigos, com os quais havia discutido pouco antes no cemiterio, e humildemente lhes pediu perdao. Éle se ha- via enganado. O sabia fora mensageiro de Deus, sim. Éle havia conferido na Bíblia; constava no Salmo 148, com toda clareza: Éntre feras, gados e repteis estavam tam- bem os volateis, isto e, os passarinhos - to- dos sendo convocados para louvarem a Deus. É aí o sabia preto nao podia ficar de fora. É como ele poderia louvar a Deus, a nao ser com seu canto? É talvez em realidade o canto do sabia tinha uma coisa a ver com o fato de a faleci- da Irmingard ter tocado e cantado para a gloria de Deus, enquanto ainda fora capaz de faze-lo. É tambem constava no Salmo 148 que os velhos junto com os jovens devi- am louvar a Deus, e que isto era uma coisa que Irmingard sempre havia falado, e por- tanto era um recado bem pessoal de Deus para todos eles. Éu penso que poderemos concordar com o velho Fridolino, aceitando sua interpreta- çao da Éscritura tambem em nossa propria vida. É talvez que nesta interpretaçao se re- vele o mais profundo segredo de Irmingard: o louvor a Deus havia secado em seu cora- çao aquela fonte amarga da qual se alimen- ta a solidao humana, fazendo nascer em seu lugar a vertente vivificante do amor. Com isso sua propria vida, e a vida de muitas ou- tras pessoas, tinham sido transformadas. Lindolfo Weingärtner nasceu em 1923 em Águas Mornas - SC. É pastor luterano, pro- fessor, escritor e poeta. Possui 27 livros pu- blicados, dentre os quais O Canto do Sabiá e outros contos cristãos (Blumenau: Gráfi- ca e Editora Otto Kuhr, 2003), de onde retira- mos o presente texto. L U M I N A R E S “Aslam”, de Joana Cristina. Conheça mais AQUI.
  • 11. 11 A Morte da Encrenqueira Judson Canto Sabe a irma encrenqueira, aquela infati- gavel promotora de confusoes na igreja, que pode ser definida como o friozinho na espi- nha do pastor ou a dor de dente da congregaçao? Éssa era Porfí- ria, talvez o equivalente a mui- tos tratamentos de canal. — Mas ela era tao terrível assim? O diacono Padilha, que re- passava a um novo convertido curioso a biografia da encren- queira, balançou a cabeça confirmando. Éle proprio fora uma das vítimas daquela lín- gua muitas vezes comparada a uma víbora, so que — todos concordavam — mais vene- nosa. Éla havia cismado que fora ele quem lhe dera o apelido de Morte na Panela, e nao poupava o coitado. Se ele se demorava um pouco mais no cumprimento a uma mulher, ela puxava alguem pelo braço e cochichava: “Ja vi esse filme…”. Se ele abraçava um velho amigo com maior efusao, ela comentava: “Nao sei nao…”. — Éla costumava encarar a pessoa bem de perto, e entao começava a falar mal de alguem, sempre repetindo: “Nao acha que eu tenho razao?”. É a pessoa que nao con- cordasse! — acrescentou o diacono Padilha, explicando o principal metodo da fofoquei- ra. — Depois ela procurava o irmao ou irma de quem havia falado mal e dizia quem in- ventara aquelas coisas fora a outra pessoa. Porque, se voce concordava, e como se tambem tivesse dito, nao e? — Nao posso imaginar nada pior. — Pois imagine. Éla tinha mau halito. O diacono Padilha e o novo convertido estavam conversando no velorio de Porfíria. Sim, ela adoecera meses antes. É, depois uma subita melhora, ate voltara a frequen- tar os cultos, porem morreu passados al- guns dias, de forma tao repentina quanto fora a sua recuperaçao. Alguem, com certa dose de maldade, comentou que ela havia morrido de ansiedade por nao conseguir colocar as fofocas e murmuraçoes em dia. A notícia de sua morte se espalhou, e gente de toda a cidade, em numero suficien- te para encher a arca de Noe, vítimas de su- as intrigas, correu para a igreja, espremen- do-se nos bancos e corredores em silenciosa confraternizaçao. Alguns, desconfiados da sorte, beliscavam disfarçadamente o cadaver, para ver se ela nao es- tava fingindo. Depois se belisca- vam para ver se nao estavam so- nhando. *** No cemiterio, o pastor Rodolfo pi- garreou, ajeitou o no da gravata e começou: — Irmaos, estamos aqui neste culto de açao de graças — todos fingiram nao perce- ber a gafe — pelo passamento da irma Por- fíria… Atras dele, um coral de cochichos com- posto por irmaos ansiosos para enterrar o passado instigava: — Anda logo! Anda logo! — Vamos ler uma passagem da Bíblia, no Évangelho de Joao, capítulo onze… É novamente o coral de cochichos, com expressao de pavor: — Le outra! Le outra! Finalmente a sepultaram. Os irmaos nem haviam ainda deixado o cemiterio quando o ceu enegreceu e um raio fendeu a escuridao de alto a baixo. Ém seguida, um trovao fez estremecer o lugar. O diacono Padilha olhou para o alto e ex- clamou: — Ih! Éla ja chegou la. Judson Canto é editor, escritor, revisor e tra- dutor. Mantem o blog O Balido. Do autor, baixe em formato pdf o conto ilustrado Ate os Confins da Terra. CLIQUÉ AQUI.
  • 12. 12 Jardim dos Clássicos O Suave Milagre Eça de Queirós NÉSSÉ tempo Jesus ainda se nao afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do Lago de Tiberíades: - mas a nova dos seus milagres penetrara ja ate Énganim, ci- dade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar. Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do reino de Deus, curando todos os males humanos. É enquanto descansava sentado a beira da Fonte dos Vergeis, contou ainda que esse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo De um decuriao romano so com es- tender sobre ele a sombra das suas maos; e que noutra manha, atravessando numa bar- ca para a terra dos Gerassenios, onde come- çava a colheita do balsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem consideravel e douto que comentava os Livros na Sinagoga. É co- mo em redor, assombrados, seareiros, pas- tores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia e se diante de- le refulgia a espada de fogo, e se o ladea- vam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gogue e de Magogue - o homem, sem mesmo beber daquela agua tao fria de que bebera Josue, apanhou o ca- jado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativa- mente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja ate Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mo- ver a pedra do lagar; as crianças, colhendo ramos de anemonas, espreitavam pelos ca- minhos se alem, da esquina do muro, ou de sob o sicomoro, nao surgiria uma claridade; e nos bancos de pedra, as portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, ja nao desenrolavam, com tao sapi- ente certeza, os ditames antigos. Ora entao vivia em Énganim um velho, por nome Obede, duma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do Monte Ébal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas - e com o coraçao tao cheio de orgu- lho como o seu celeiro de trigo. Mas um vento arido e abrasador, esse vento de de- solaçao que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam no ol- mo, e se estiravam na latada airosa, so dei- xara, em torno dos olmos e pilares despi- dos, sarmentos, cepas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. É Obede, agacha- do a soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, la- mentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel. Eça de Queirós (1845 - 1900) nasceu em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal. Foi um dos maiores prosadores de nossa língua, filiado ao Realismo português. Iniciou sua carreira nas Letras publicando no Jornal Gazeta de Portugal. Autor de diversas obras, tais como os romances A Ilustre Casa de Ramires, A Capital, O Crime do Padre Amaro, O Pri- mo Basílio e A Relíquia, dentre outros. Suas obras estão traduzidas para mais de vinte idi- omas. O presente conto foi publicado originalmente em 1898, na Revista Moderna.
  • 13. 13 Apenas ouvira falar desse novo Rabi da Galileia, que alimentava as multidoes, ame- drontava os demonios, emendava todas as desventuras - Obede, homem lido, que via- jara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros tao acostumados na Palestina, como Apolonio, ou Rabi Ben- Dossa, ou Simao, o Sutil. Ésses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estre- las, para eles sempre claras e faceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Égito: e agarram entre os dedos as sombras das arvores, que conduzem, como toldos beneficos, para cima das eiras, a hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto, se ele larga- mente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhe- dos. Éntao Obede ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Ga- lileia o rabi novo, e com promessa de di- nheiros ou alfaias o trouxessem a Énganim, no país de Issacar. Os servos apertaram os cinturoes de couro - e largaram pela estrada das Carava- nas, que, costeando o Lago, se estende ate Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o po- ente, vermelho como uma roma muito ma- dura, as neves finas do monte Hermon. De- pois, na frescura duma manha macia, o lago de Tiberíades resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silencio, mais azul que o ceu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de porfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O Rabi de Nazare? Oh, desde o mes de Ijar, o Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordao leva as aguas. Os servos, correndo, seguiam pelas mar- gens do rio, ate adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imovel e verde, a sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Éssenios, todo vestido de linho branco, apa- nhava lentamente ervas salutares, pela bei- ra da agua, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram- no, porque o povo ama aqueles homens de coraçao tao limpo, e claro, e candido como as suas vestes cada manha lavadas em tan- ques purificados. É sabia ele da passagem do novo Rabi da Galileia, que como os Ésse- nios ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O essenio murmurou que o Rabi atravessara o Oasis de Éngaddi, depois se adiantara para alem... - Mas onde, "alem"? - Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o essenio mostrou as terras de alem Jordao, a planície de Moabe. Os servos vadearam o rio - e debalde procuraram Je- sus, arquejando pelos rudes trilhos, ate as fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Macaur... No Poço de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Égito mirra, especiarias e balsamos de Gileade; e os cameleiros, tirando a agua com os baldes de couro, contaram aos servos de Obede que em Gadara, pela lua nova, um Rabi ma- ravilhoso, maior que Davi ou Isaías, arran- cara sete demonios do peito duma tecedei- ra, e que, a sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrabas se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os ser- vos, esperançados, subiram logo açodada- mente pelo caminho dos peregrinos ate Ga- dara, de altas torres, e ainda mais longe ate as nascentes da Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada seguido por um povo que canta- va e sacudia ramos de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e a vela nave- gara para Magdala. É os servos de Obede, descoroçoados, de novo passaram o Jordao na ponte da Filhas de Jaco. Um dia, ja com as sandalias rotas dos longos caminhos, pi- sando ja as terras da Judeia romana, cruza- ram com um fariseu sombrio, que recolhia a Éfraim, montado na sua mula. Com devota reverencia detiveram o homem da Lei. Én-
  • 14. 14 contrara ele por acaso esse profeta novo da Galileia que, como um Deus passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada e a sua colera retumbou como um tambor orgulhoso: - Oh, escravos pagaos! Oh, blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalem? So Jeova tem força no seu Templo. De Galileia surgem os nescios e os impostores... É como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísti- cos sagrados - o furioso Doutor saltou da mula, e, com as pedras da estrada, apedre- jou os servos de Obede, uivando: Racca! Ra- cca! e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Énganim. É grande foi a des- consolaçao de Obede, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam – e, toda- via, radiantemente, como uma alvorada por detras de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia. Por esse tempo, um centuriao romano, Publius Septimus, comandava o forte que domina o vale de Cesareia, ate a cidade e ao mar. Publius, homem aspero, veterano da campanha de Tiberio contra Partos, enri- quecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possuía minas na Atica, e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaco, legado imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa, como um verme roi um fruto muito suculento. Sua filha unica, para ele mais amada que vida e bens, definhava com um mal sutil e lento, estranho mesmo ao sa- ber dos esculapios e magicos que ele man- dara consultar a Sidon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemiterio, sem um queixume, sorrindo palidamente a seu pai, definhava, sentada na alta esplanada do for- te, sob um velario, alongando saudosamen- te os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Italia, nu- ma opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um legionario entre as ameias apontava va- garosamente ao alto a flecha, e varava uma grande aguia, voando de asa serena, no ceu rutilante. A filha de Septimus seguia um momento a ave, torneando ate bater morta sobre as rochas; - depois, com um suspiro, mais triste e mais palida, recomeçava a olhar para o mar. Éntao Septimus, ouvindo contar, a mer- cadores de Corazim, deste Rabi admiravel, tao potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou tres decurias de soldados para que o procuras- sem pela Galileia, e por todas as cidades da Decapolis, ate a costa e ate Ascalon. Os sol- dados enfiaram os escudos nos sacos de lo- na, espetaram nos elmos ramos de oliveira - e as suas sandalias ferradas apressadamen- te se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana, que desde Cesa- reia ate Lago corta toda a tetrarquia de He- rodes. As suas armas, de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama on- deante dos archotes erguidos. De dia inva- diam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lan- ças a palha das medas; e as mulheres, as- sustadas, para amansar logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam dum trago, senta- dos a sombra dos sicomoros. Assim corre- ram a Baixa Galileia - e, do Rabi, so encon- travam o sulco luminoso nos coraçoes. Én- fastiados com as inuteis marchas, desconfi- ando que os judeus sonegassem o seu feiti- ceiro para que Romanos nao aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tu- multo a sua colera, atraves da piedosa terra submissa. A entrada das pontes detinham os peregrinos, gritando o nome do Rabi, rasgando os veus as virgens: e, a hora em que os cantaros se enchem nas cisternas in- vadiam as ruas estreitas dos burgos, pene- travam nas sinagogas e batiam, sacrilega- mente com os punhos das espadas nas The- bahs, os Santos Armários de cedro que conti- nham os Livros Sagrados. Nas cercanias de Hebron arrastaram os solitarios pelas bar-
  • 15. 15 bas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o Rabi - e dois mercadores fenícios que vinham de Jope com uma carga de ma- lobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dramas a cada centuriao. Ja as gentes dos campos, mesmo os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o Templo, fugi- am espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as ar- mas do bando violento. É da beira dos eira- dos, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arroja- vam sobre eles as Mas-Sortes, invocando a vingança de Élias. Assim tumultuosamente erraram ate Ascalon; nao encontraram Je- sus: e retrocederam ao longo da costa en- terrando as sandalias nas areias ardentes. Numa madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de lourei- ros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro portico dum templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de fo- lhas de louro, vestido com uma tunica cor de açafrao, segurando uma curta lira de tres cordas, esperava gravemente, sobre os de- graus de marmore, a apariçao do Sol. Debai- xo, agitando um ramo de oliveira, os solda- dos bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e tao destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a agua em vinho? Serena- mente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale: - Oh romanos, pois acreditais que em Ga- lileia ou Judeia apareçam profetas consu- mando milagres? Como pode um barbaro alterar a ordem instituída por Zeus?... Magi- cos e feiticeiros sao vendilhoes, que mur- muram palavras ocas, para arrebatar a es- portula dos simples... Sem a permissao dos Imortais nem um galho seco pode tombar da arvore, nem seca folha pode ser sacudida na arvore. Nao ha profetas, nao ha mila- gres... So Apolo Delfico conhece o segredo das coisas! Éntao, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram a fortaleza de Cesareia. É gran- de foi o desespero de Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro - e todavia a fama de Jesus, cu- rador dos languidos males, crescia, sempre consoladora e fresca, como a margem da tarde que sopra do Hermon e, atraves dos hortos, reanima e levanta os açucenas pen- didas. Ora entre Énganim e Cesareia, num case- bre desgarrado, sumido na prega dum cer- ro, vivia a esse tempo uma viuva, mais des- graçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho unico, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, on- de jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tambem a ela a doença a enge- lhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arran- cada. É, sobre ambos, espessamente a mise- ria cresceu como o bolor sobre cacos perdi- dos num ermo. Ate na lampada de barro vermelho secara ha muito o azeite. Dentro da arca pintada nao restava grao ou codea. No Éstio, sem pasto, a cabra morrera. De- pois, no quinteiro, secara a figueira. Tao longe do povoado, nunca esmola de pao ou mel entrava o portal. É so ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nu- triam aquelas criaturas de Deus na terra es- colhida, onde ate as aves maleficas sobrava o sustento. Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mae amargura- da, e um momento sentado na pedra da la- reira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse Rabi que aparecera na Galileia, que de um pao no mesmo cesto fazia sete, e amava to- das as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de abundancia maior que a
  • 16. 16 corte de Salomao. A mulher escutava, com olhos famintos. É esse doce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah, esse doce Rabi! quantos o de- sejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia como o Sol que ate por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a cla- ridade do seu rosto, so aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obede, tao rico, man- dara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessa a Énganim; Septimus, tao sobera- no, destacara os seus soldados ate a costa do mar, para que buscassem Jesus, o condu- zissem, por seu mando, a Cesareia. Érrando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obede, depois os legionarios de Septimus. É todos voltavam como derro- tados, com as sandalias rotas, sem terem descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palacio, se escondia Jesus. A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordao, desceu pelo duro trilho, entre a ur- ze e a rocha. A mae retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. É entao o filhinho, num murmurio mais debil que o roçar duma asa, pediu a mae que lhe trou- xesse esse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mae apertou a cabeça es- guedelhada: - Oh, filho! É como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, a procura do Rabi da Galileia? Obede e rico e tem servos, e de- balde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim ate ao país de Moabe. Septi- mus e forte, e tem soldados, e debalde cor- reram por Jesus, desde o Hebron ate ao mar. Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora conosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. É mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tao desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que desces- se atraves das cidades ate este ermo, para sarar um entrevadinho tao pobre, sobre en- xerga tao rota? A criança, com duas lagrimas na face magrinha, murmurou: - Oh, mae, Jesus ama todos os pequeni- nos. É eu ainda tao pequeno, e com um mal tao pesado, e que tanto queria sarar! É a mae, em soluços: - Oh, meu filho, como te posso deixar? Longe sao as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tao rota, tao tropega, tao triste, ate os caes me ladrariam da porta dos casais. Ninguem atenderia o meu reca- do, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh, filho! Talvez Jesus morresse... Nem mes- mo os ricos e os fortes o encontram. O ceu o trouxe, o ceu o levou. É com ele para sem- pre morreu a esperança dos tristes. De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres maozinhas que tremiam, a cri- ança murmurou: - Mae, eu queria ver Jesus... É logo, abrindo devagar a porta e sorrin- do, Jesus disse a criança: - Aqui estou.
  • 17. 17 O jovem aspirante a escritor estava precisan- do de esperança. Muitas pessoas lhe haviam dito para desistir. “É quase impossível conseguir que seu trabalho seja publicado”, disse-lhe um orien- tador. “A menos que voce seja uma celebridade nacional, os editores nem sequer falarao com vo- ce”. Outro avisou: “Éscrever toma muito tempo. Alem disso, voce nao vai querer colocar todos os seus pensamentos no papel”. No início ele ouviu. Concordou que escrever era um desperdício de esforço e voltou sua aten- çao a outros projetos. Mas de alguma forma, a ca- neta e o bloco de notas eram como o cafe e a Coca -Cola para o viciado em palavras. Éle preferia es- crever a ler. Éntao escrevia. Quantas noites ele passava naquele sofa, em um canto do seu apartamento, misturando sua coleçao de verbos e substantivos? É quantas ho- ras sua mulher lhe fez companhia? Éle fazendo artesanato com as palavras. Éla bordando em ponto de cruz. Por fim, ele terminou um manus- crito. Cru e cheio de erros, mas terminado. Éla lhe deu o empurrao que faltava. — Por que voce nao o envia? Que mal ha nisso? Éntao ele fez isso. Énviou o manuscrito a quin- ze diferentes editores. Énquanto o casal espera- va, ele escrevia. Énquanto ele escrevia, ela borda- va. Nenhum deles tinha muitas expectativas, mas ambos esperavam. As respostas começaram a chegar. “Sentimos muito, mas nao aceitamos ma- nuscritos nao solicitados”. “Éstamos devolvendo o seu trabalho. Felicidades”. “Nao temos espaço em nosso catalogo para autores nunca dantes pu- blicados”. Ainda tenho essas cartas. Ém uma pasta, em algum lugar. Éncontra-las levaria algum tempo. No entanto, encontrar o bordado de Denalyn nao leva tempo algum. Para ve-lo, tudo o que tenho que fazer e levantar os olhos do meu monitor e olhar para a parede. “Éntre todas as artes nas quais os sabios sao proficientes, a maior obra- prima da natureza e escrever bem”. Com isso ela me deu tempo para que a carta numero quinze chegasse. Um editor tinha dito sim. Aquela carta tambem esta emoldurada. Qual dos dois quadros significa mais para mim? O pre- sente da minha esposa ou a carta do editor? O presente, claro. Ao dar-me o presente, Denalyn deu-me esperança. O amor faz isso. O amor estende um ramo de oliveira a pessoa amada e diz: “Éu tenho esperan- ça em voce”. _________________________________________________________ Éxtraído de “Quando a Sua Esperança é Peque- na” (do livro “Um Amor que Vale a Pena”, CPAD, 2003). Arte de Escrever Max Lucado
  • 18. 18 O Poeta do Salmo exilado J.T.Parreira O rio nao parecia correr no seu leito natural, circulava pela cidade, por entre as casas e dava a impressao de estar ao nível das construçoes mais rectangulares, reflectindo as faces dos edifícios. Gedalias, um anciao de olhar ja acomodado, sentava-se ao lado de Quebar, um canal navega- vel, a jusante do Éufrates, e via subir e descer com o vento, ate arrastarem as folhas mais altas nas aguas, os juncos que se pareciam com saltadores no momento do mergu- lho. Nas pedras, junto de si, tinha pousada uma tabua de barro com inscri- çoes da historia recente e um papiro enve- lhecido no qual se via que ja inscrevera al- gumas frases em aramaico. O velhinho olhava-as, e quando o fazia espaçadamente era com uma tristeza nos cantos da boca, como se alguma coisa tardasse em chegar. É afirmava a si proprio: «Éstes versos serao feitos como se esculpisse o sentir da tristeza, a lamentaçao certa ha-de chegar perfeita, do meu estado de espírito.» Éra um velho que trajava um longo ves- tido gasto, com motivos sumerios, e abriga- va-se da humidade do ar com uma pele de carneiro surrada, «Apesar das aparencias, sou um cativo muito bem tratado» – pensa- va, varias vezes, com algum reconhecimen- to, e poucas vezes falava de vingança. Fizera parte da primeira deportaçao, era um bom artífice, a quem reconheceram a sua valia profissional para trabalhar em artes decorativas. Agora, porem, ja nao tra- balhava. Tinha as sandalias cheias de lama, por- que costumava percorrer os montes de ter- ra que bordejavam as aguas do rio. O rosto evidenciava, com rugas, que ha- via percorrido uma es- trada na vida que nao fora atapetada de lírios. Tinha, no entanto, uma boa figura, e as maos, quando andava, pareciam imprimir calma a todo o corpo. Vivia num lugar que as autoridades babiloni- cas tinham destinado aos judeus deportados. Éstes viviam em casas proprias, alguns ate ha- viam enriquecido com o esforço da sua acultura- çao e integraçao, viven- do nao como escravos, mas semi-livres, em pontos estrategicos um pouco acima das margens do Quebar. A sua casa e a da família estava ao lado de um grande salgueiro, que em fins de tarde sem vento dava bastante calma ao olhar, embo- ra nao acrescentasse nenhuma novidade, por isso nos olhos de Gedalias havia, por vezes, uma certa acomodaçao. Mas, na maior parte do tempo em que estava sozinho, os olhos iam buscar ao fun- do do rio sentimentos tristes, e, no entanto, davam a impressao de estarem a acompa- nhar o subtil curso das aguas. Como quase sempre podia fazer, estava sentado ao lado do rio, e a luminosidade que vinha da agua, compartilhava-a no seu rosto. Nesses momentos baixava a cabeça e olhava em direcçao do seu manuscrito. Trouxeram-nos, um dia, por volta do anoitecer, das suas terras da Palestina, ao velhinho com uma dezena de milhar de outros judeus, e a partir de entao aqueles canais da Babilonia eram como uma praça onde juntavam os soluços e as palavras Michele Myers
  • 19. 19 castradas. Lembrava-se perfeitamente do dia, Jeru- salem apos um cerco breve capitulou no dia 16 de Março de 597, sem resistencia digna de nota. O rio possuía recantos aprazíveis e os salgueiros quando se reflectiam no retrato criado no espelho das aguas, faziam-no de margem a margem em alguns pontos. Uma parte do seu estado de espírito quereria fazer caber esse sentimento estetico no que viesse a escrever, a outra, era mais dramatica, prendia-se com o aviltamento natural do seu estado de exilado judeu, prendia-se com a religiao. — Se eu fosse o nosso grande rei David, o salmo ja arderia de beleza em todas as suas palavras. — Disse, um dia, a um moço que lhe perguntara o destino que daria ao manuscrito. — Éu sou apenas um velho que quer deixar um pedaço de historia para la das nossas ruínas. Mas talvez seja ja muito tarde. — Arrematou, voltando de novo a sua contemplaçao. — Venha, meu pai. — Julgar-se-ia que a filha o teria acordado, quando o veio chamar. — Venha preparar o Shabat, que apesar de estarmos em terra estranha, temos aqui de perpetuar Siao. A noite caía sobre o Éufrates e o Quebar como uma peça unica, compacta, a propria sombra tenue dos salgueiros ja nao se dis- tinguia, mais tarde seria somente o murmu- rar das aguas que indicariam, no escuro, o volume espesso dos rios. Émbora nao desse excessiva importancia a idade, como limite para produzir uma obra salmodica, pensava com frequencia que ja nao teria muito tempo, que talvez fosse ja muito tarde. — Ainda quero sair daqui, regressar a minha terra. — Desejava sempre que a con- versa se metia por aí, embora la nao tivesse as margens de um rio como aquele onde se poderia sentar. Sentar-se-ia debaixo do al- pendre de uma casa. É pensava assim sem- pre que se animava com uma possível lon- gevidade. Havia rumores de que os persas, sob o mando de Ciro, poderiam estar perto de in- vadir Babilonia. É esses nao eram propria- mente barbaros. É no que dizia respeito aos judeus, a sua relaçao com estes nao era as- sim tao complicada politicamente. Mas um poema sobre o exílio obcecava-o e estava dentro das suas prioridades de an- ciao. Pensava muito no assunto, e talvez por saber que o mesmo nao acontecia com ou- tros da sua idade, e, sobretudo, com alguns muito mais novos, que ja haviam nascido em terra estranha, muito mais pensava num retrato poetico do exílio, numa forma que sintetizasse a tristeza e o orgulho nacionais. Foi nesse instante que um dos filhos, o mais velho, lhe interrompeu o que estava a pensar. Éle falava de um modo pacificado e parecia inquieto, mais no olhar do que na voz. — Pai, queria que me desse uns momen- tos da sua atençao. Ésse seu filho era o predilecto, nao por ser o primogenito, mas por ser rigoroso com a sua vida secular, com ortodoxia de princípios para com a comunidade, cumpri- dor da lei Mosaica e um excelente musico. Tocava lira na perfeiçao. — Ja decidi, ha muito tempo, que nao vou tocar lira para a festividade dos nossos opressores. No entanto, insistem. Vou deba- ter-me com problemas. — Deus reservou-te uma tarefa, que nao sera certamente tocares o cantico do Senhor em terra estranha. — Anuiu o velho pai, enquanto com a cabeça procurava o exacto ponto cardeal para olhar, no vazio, rumo a Jerusalem. — Nao sou o unico a pensar desta maneira — informou o filho — Ha muitos judeus a pensarem o mesmo.
  • 20. 20 É, no entanto, estavam todos aflitos com a situaçao. Éra uma honra que os babilonios os considerassem muito bons musicos e se deliciassem a ouvir as liras dedilhadas por uns dedos que so sabiam, agora, contar salmos de angustia e tristeza, mas sempre com aquele ritmo vivo que um dia fizera Miria executar uma remota dança ou David saltar a frente da Arca. — Talvez. — Concordou o velho — Mas sempre e o cantico do Senhor em terra es- tranha. Por muito que ambicionemos nao poderemos tirar desta terra um cantico pa- ra o Senhor. — Repetiu, enquanto um vento inesperado fez uma passagem rapida pelos salgueiros, como uma musica agreste, de- frontando as ramagens. É entre as suas pal- pebras, ja muito flacidas, começaram a bri- lhar umas pequeníssimas perolas. Uma nuvem mais branca, queria agora instalar-se entre as mais escuras que corri- am, ja havia um bocado, pelo ceu. Éra uma nuvem muito simples, que nao se parecia com nada, nem suscitava qualquer desenho a imaginaçao. O velho talvez pudesse agora voltar para o seu sítio ao lado do rio, e levar os seus ins- trumentos de escrita onde esperava ainda escrever alguma coisa a favor do mundo que lhe roubaram. A lua era uma quilha de um barco a subir e a descer na luminosida- de de espuma, quase alva, de algumas nu- vens. Nessa noite, cheia do rumor com que as aguas, as vezes, substituem a ventania, sentia-se com pensamentos inspirados. — Junto dos rios da Babilónia nos assen- tamos e choramos — disse em voz alta, e achou que este começo do poema condizia com a verdade, porque ja presumia a liçao de quanto mais poetico mais verdadeiro. Poderia ser mais narrativa que poesia, mas era a verdade sentida. — Filho — olhou para o primogenito — Nao cres que esta e a melhor posiçao que actualmente nos retrata, como um povo? Havia no entanto, que meter dentro do paragrafo, dissera-lhe o filho, a saudade, a religiosidade e tambem um sentido comuni- tario. Fizera bem em referi-lo, porque o ve- lho concluiu os versos com «lembrando-nos de Sião.» Depois veio aquela referencia aos sal- gueiros. Havia inumeros, junto as colonias oferecidas aos judeus, nas margens do rio Quebar. «Nos salgueiros penduramos nos- sas harpas.» Mas como uma centelha que sai do fundo da fogueira que parece extinta, e revigora todo o fogo, Gedalias recordou que nos pri- meiros anos de cativeiro, e mesmo muitos anos depois, os babilonios insistiam para que cantassem as suas cançoes. Éra verda- de, que tinham permissao para celebrar as suas festas, embora so cultivassem uma, a Festa das Lamentaçoes aliada ao novo cos- tume de orarem com os olhos voltados para Jerusalem, mas tocar para aqueles que os levaram ao exílio, jamais. É, assim, começou a escrever: «Porquanto aqueles que nos levaram cati- vos, nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião.» Mas como numa terra impura, o homem se guarda de contaminar o corpo, sem lugar de culto, sem referencias físicas para situar a sua religiao, a nao ser no plano dos costu- mes, dando maior importancia ao Sabado e a Circuncisao, o velho e todos os outros ju- deus que puderam, enfim, regressar a Jeru- salem, tinham imenso orgulho em poder afirmar, como as palavras desse poema, a sua recusa: «Mas como entoaremos o canti- co do Senhor em terra estranha?». ____________________________________________________ Do livro Como quem ia para longe. Baixe gratuita- mente seu exemplar AQUI. J.T.Parreira é poeta, escritor e ensaísta português. Autor de seis livros de poesia e diversos e-books. Éscreve desde 1964 na revista Novas de Alegria. Mantem o blog Poeta Salutor.
  • 21. 21 RECIFE- MENINO Ao toque do cada sino remeto à vida do meu Recife - menino. Nos quintais quase todos os frutos: os que do oriente foram trazidos e os que já se encontravam no chão do descobrimento, as cores dos frutos nos quintais das casas celebravam a vida em todas as nuances e eu adormecia sob aquele manto cintilante. De tempos em tempos floriam as mangabeiras, depois era a vez das mangas de amarelo, rosa e verde vestidas, também as goiabeiras, os laranjais e abacateiros. Vivíamos sob a exuberante copa dos jambeiros, e à espera de colher as bananas d’água, da prata e do ouro. Recife era umidamente adornada. Outros frutos como araçás pitombas e cajás enfeitavam as mesas tropicais de Dezembro. Em junho, a chuva caía fina como uma oração. As ruas da cidade ficavam limpas exibindo um fulgor quase. As águas escorriam das biqueiras, e era um banho dos fluidos celestiais feitos na maior brincadeira. As tardes recebiam o enfeite das flores, bom dia, boa tarde, boa noite, buganvílias, jasmins, margaridas, dálias e sempre-vivas. Sempre as trazia comigo, pois as amava e as flores gostam de nossos amores. Entre as famílias a morte quando chegava era por natural decorrência e sem violência levava quem ela queria. Um véu de estrelas forrava todo o firmamento. Era augusto este recorte que uma menina via. Na varanda ficavam o pai, a mãe, tios e avós a discorrer sobre fatos decorridos ou imaginários. Do tempo dessa casa antiga para mim ninguém partiu definitivamente. Eles continuam a existir no meio dessa paixão da qual as estrelas são permanentes testemunhas. POR AMOR Foi tanto o vexame, lado a lado com dois vagabundos expulsos fora de portas. Mais que tudo: sendo o pior de todos eles. Chistes, esgares, - porque te apanharam? Desfeito de formas diante de estranhos homens de fala obscura. Um deles me lançou uma praga alucinado de rir uma risada sem dentes, até que se exumou de vez. Lágrimas em óleo quente. Mais que as lanças rasgando-me juntas e descolando carne da carne, era a vergonha absoluta. Entardecia, virava-me o sol as costas. Monções de poeira sopravam para longe toda-paixão pelos homens. Meu ouvido dizia: adormece !Yeshua! Até que as cordas do coração me soltaram e a descer, a descer, vertiginoso preparo para a permanência na região do silêncio sem respostas A noite desceu compacta e Jerusalém mergulhava escura no sangue de um homem sem culpas A VISITAÇÃO Existe um perfume onde Tu estás, fragrância de rosas, alguma nota cítrica: toques leves de malva e cássia. Além do perfume com que te anuncias, uma luz diáfana. Vens assim em suave aragem pela minha sala. em suave aragem pela minha sala.
  • 22. 22 Julia Lemos é natural de Caruaru, interior do estado de Pernambuco, nordeste do Brasil. Radicada no Recife, tem forma- ção em Comunicação Social, nas áreas de Publicidade e Propa- ganda e Jornalismo, pela Universidade Federal de Pernambuco, atuando como Coordenadora de Comunicação Social do Ministé- rio da Saúde, bem como repórter e redatora no Jornal do Comér- cio e na Televisão Universitária . Atriz, estreou no teatro infantil em 1977 com “Pedacinho de Lua” (de Tonico Aguiar). Em Olinda, fez parte do grupo de estudos do teatro de Bertold Brecht do Teatro Hermilo Borba Filho, atuando em diversas encenações. Co-autora do livro de receitas A Cozinha Estrangeira na Terra do Caju, com prefácio de Gilberto Freyre, 1985; publicou os livros de poesia Carmem Antonio Migliacchio En- louqueceu (Edições Pirata- Fundação Gilberto Freyre), e A Casa Estrelada, pela Fundação de Cultura de Pernambuco, através da CEPE. Participou de diversas antologias. É pós-graduada em Literatura Brasileira pela Faculdade Frassinetti do Recife e mestra em Estudos Brasileiros pela Universidade de Lisboa. Tem inédito o livro de poesias A Ex- posição dos Sóis e Poemas ao Rei. UM OLHAR INEXTINGUÍVEL Deus se amplia, além do meu espaço, meu gueto, meus guias. Ele vai muito além de meus esquadros, usando régua e compasso que desconheço. Na matemática simples do dia, enquanto ainda estou no começo, Ele está lá no futuro realizando promessas, que mais próximas do meu passado já se encontram. Para melhor entende-lo, serve-me de espelho a física quântica. Por isto, minha palavra traz à existência o que não existe, e, como as águas, símbolo do seu Espírito, vou perfurando fendas na Rocha sobre o precipício. Olho para Deus vendo-o criar mundos dentro de outros mundos, e a mover-se na velocidade de uma luz que neste momento já extinguiu tantas estrelas. CANDEIA O olhar soturno que Deus me deu não é para ferir o mundo mas para amá-lo. Amo-o com a candura dos olhares límpidos e subo ao mais alto edifício de onde eu possa ser a candeia que ilumine toda a cidade. LITANIA Trago dentro de mim uma oração como uma litania. Pai, não trago palavras fáceis, em vão se amontoam os pedidos, coisas. Não era isto que eu queria mas a ternura. Hoje o céu está como que de chumbo, vertigem dos joelhos terem subido de repente. Guardo em mim a ânsia da terra que me foi prometida. -Não eram os frutos maiores aqueles trazidos pelos espias? Pai, não vim aqui fazer orações compridas. Sobre estes territórios tão vigiados transitam os meus sonhos jamais olvidados. DIANTE DO TRONO Quando cessarem as esperanças e o quartzo não mais refletir meu rosto prismático, quando todos os venenos para curar ou para ferir acabarem vou-me para diante de ti. Havendo de chegar não lhe farei perguntas. - Pai, respondi tudo de forma poética. Minha vida foi de boemias frasais, e fiz muitos amigos assim.
  • 23. 23 cobras & lagartos Manuel Adriano Rodrigues ha pessoas que ja cantaram conosco velhos hinarios pentecostais e nos disseram distancia e outros disseram de nos cobras & lagartos sem nunca terem visto o vestígio de um vício qualquer na nossa boca ja houve quem nos dissesse que temos o habito de ter os olhos abertos e que se foram embora com medo da diferença outros mais proximos que no passado viram o nosso interior temendo a nossa nudez ficaram calados e nao nos quiseram abraçar mas tambem ja houve quem nos tenha dito Amor e isso, e o que importa Múmia Rosa Leme Éu era uma mumia no meio de Outras mumias. Éu entrei descontrolada No grande salao Éu falava gritava, gritava... Éu gritava, mas era em vao. Ninguem me ouvia. Éstava sozinha. As imagens ficavam inertes! Varias delas eram de argila. Outras Mumias De louças valiosas... As imagens eram de prata e ouro, De artistas habilidosos. Obra das maos dos homens. Imagens, apenas imagens. Tem olhos, mas nao veem; Tem ouvidos, mas nao ouvem; Tem boca, mas nao falam; Nariz tem, mas nao cheiram; Tem maos, mas nao apalpam; Tem pes, mas nao andam; Éu era uma mumia em forma humana. Éu ja fui uma mumia No meio de uma multidao. Hoje sou apenas uma mulher Que encontrou a salvaçao. HEBREUS 11.1 Nira de Andrade (Ora) sem fé é impossível agradar a Deus (a)ssim foi escrito pelo autor aos Hebreus (fé) é necessária para crer que Ele existe (é) preciso para quem na oração persiste (o) galardão daquele, que até o fim resiste... (firme)za nas provas e nas tentações (fundamento) dos que sofrem grandes provações (das) mulheres e homens que nos dão lições... (coisas) que venceram e foram campeões. (que) dizer de Abraão, nosso pai na fé, (se)m falar de Abel, Enoque e Noé... (esperam) nas promessas do Jeová Jiré! (e) xperimentam escárnios, açoites, cadeias e prisões. (a)inda assim com fé dentro dos corações, (prova)dos no fogo, no deserto, na cova dos leões (das) suas falhas e fraquezas tiraram resistência (coisas) que enfrentaram com toda a persistência (que)rendo a prática da fé na obediência... (se)ndo apedrejados, serrados, mortos ao fio da espada; (não) desistiram nem abandonaram a sua jornada (veem) na esperança sua fé aperfeiçoada!!! DEUS SABE A HORA William Vicente Borges Deus sabe a hora de dizer SIM e então sentimos a brisa da sua compreensão Deus sabe a hora de dizer NÃO e sentimos a fragrância da sua sabedoria Deus sabe a hora de dizer BASTA e todas as nossas dores se vão Deus sabe a hora de dizer AGORA e nossos joelhos se dobram em gratidão Deus sabe a hora de dizer CALMA e nossos medos são jogados ao chão Deus sabe a hora de dizer MUDA e nossa alma segue outra direção Deus sabe a hora de dizer NÃO TEMAS e sentimos o poder de suas mãos Deus sabe a hora de dizer EU TE AMO e se prestarmos a atenção veremos que o diz a toda hora! Súplica de poeta May Sousa Deus, Permita-me ser: Legenda tua! Fazer-te conhecido, com tinta e papel.
  • 24. 24 Joed Venturini Um grupo de garotos passou correndo pela frente da porta, enquanto o velho Éuri- co a fechava para sair. Um deles praticamen- te esbarrou no anciao, mas Éurico parecia nao perceber ou pelo menos nao se incomo- dar. Éra parte de sua maneira de reagir ao ambiente. É seu estilo poderia ser considerado perfeito. Fazia ja quinze anos que vivia naque- la favela e nunca fora assal- tado! Ninguem o molesta- va. Vivia so e sossegado e era respeitado. Saía pouco, pois era aposentado. Ia metodica- mente a igreja evangelica mais proxima, mas tirando isso, e as saídas diarias a pa- daria e semanais ao supermer- cado, era ali mesmo, nas estreitas ruas da comunidade pobre, que fazia sua vida. O velho era conhecido como uma espe- cie de operador de milagres. Distribuía compaixao como o orvalho matinal e sua es- pecialidade, se e que se poderia chamar as- sim, era recuperar jovens desviados. É na sua favela havia muito material de trabalho. O anciao tinha uma estrategia pouco co- mum. Poderia se dizer que ganhava pela exaustao. Primeiro escolhia, em oraçao, um jovem que estivesse mesmo muito mal. Ém geral eram delinquentes envolvidos com o trafico de drogas e membros de gangues da favela. Éntao iniciava uma maratona de je- jum e oraçao por aquele jovem. Quando sentia que tinha suficiente cobertura de oraçao, “atacava”. De tal forma procurava o seu alvo que as vezes virava sua sombra. Ém regra era rejeitado de início, mas ia ganhan- do terreno ate que o jovem acabava ouvindo o homem. Mesmo com meios tao arcaicos a psico- logia moderna, o anciao tinha resultados surpreendentes. Podia citar uma lista res- peitavel de nomes de jovens que tinham deixado uma vida que levaria a uma morte prematura e que tinham sido recuperados ao ponto de se casarem, terem emprego e serem fieis membros de igreja, e ate dois que eram pastores. Mas Éurico nao fazia propaganda de seu trabalho. Seria contrario ao seu estilo e per- sonalidade. Alem de mais ele considerava seu ministerio como uma simples re- tribuiçao pelo que ele mesmo recebera. Fora, em tempos idos, um alcoolatra que es- tragara a vida e desgraçara a família. Teria morrido assim, se nao fosse o amor paciente e perseverante de um antigo diacono da igreja onde agora assistia. Éssa era sua historia. Éssa era sua vida. Ultimamente, porem, o ho- mem andava um tanto preocupa- do e nervoso. O caso que tomara parecia nao se resolver como os anteriores. Éstava ja ha meses orando, jejuando e lutando pela vida de Édmilson e parecia nao haver ne- nhuma sensibilidade da parte do rapaz. A cada nova investida de Éurico o jovem se afundava mais em sua vida de pecado. Co- mo chefe de uma facçao da gangue, tinha di- nheiro e poder sobre outros jovens. Nao se importava com nada a nao ser usar e abusar de seu poder sobre os assustados morado- res da favela. Passear de carro e trocar de namorada eram outros de seus passatem- pos e, claro, tudo bem regado a chope e co- caína. Éurico nao era homem de desistir facil. Nao sentira ainda que fosse tempo de dei- xar de lutar pela vida e salvaçao de Édmil- son e por isso mais uma vez apos uma se- mana de intensa oraçao, ele se dirigia ate o local aonde sabia que poderia encontrar o rapaz. O jovem nao estava em casa. Fora visto indo
  • 25. 25 para o topo do morro, aonde tinham uma casa que servia como uma especie de prisao para inimigos capturados ou devedores que nao pagavam suas remessas de droga. Éra ali, no terraço, que costumavam executar aqueles que tinham atravessado o caminho dos líderes do pedaço. Éurico estremecera, mas nao de medo. Éstava seguro. Temia pe- lo seu alvo. Éra pelo moço que sentia medo. Subiu custosamente o morro, parando varias vezes. A idade ja nao facilitava. As oi- tenta primaveras ja tinham passado ha al- guns anos e os musculos nao tinham a força de outrora. Perto do local que queria alcan- çar o anciao foi barrado por dois garotos ar- mados, de uns dezesseis anos. — É aí vovo, aonde e que pensa que vai? — Vim ver o Édmilson — Éxplicou Éuri- co com toda a naturalidade. — Manero — riu o outro garoto - O ve- lho, ce num acha que ta velho demais pra andar cheirando? Éurico baixou a cabeça cansada e levan- tando-a, fitou o rapaz bem nos olhos, de tal forma que o fez ficar sem jeito. Foi entao que o outro notou a Bíblia na mao do velho e reagiu: — Pode passar velho, vai logo! Mais uma vez a superstiçao local se fazia sentir. Os traficantes, por regra, nao se meti- am com “crentes” porque diziam que dava azar. As evidencias confirmavam. Éurico avançou ate a casa. Éra um casarao abando- nado. Por todo o lado cheirava a dejetos hu- manos e havia ratos andando em plena luz do dia. Um despacho de macumba bem na entrada terminava de compor o quadro ma- cabro. O anciao nao hesitou. Subiu as escadas gastas. Nao havia ninguem no 1º andar, nem no 2º. Ao chegar ao terraço ja o velho arfava novamente. Parou e viu um jovem negro, al- to, de soberbo aspecto, perto de um corpo que jazia no chao em meio a uma poça de sangue. Ao pressentir a presença do homem o jovem apontou a arma com ar furioso e olhos arregalados onde se evidenciavam si- nais da ultima dose de droga. Éurico levantou a Bíblia em sinal de identificaçao. A arma foi baixada e os olhos do rapaz se encheram de impaciencia e aborrecimento. — Ce num me larga velho? Me deixa, po! To cansado de te aturar! Ve se me esquece! — Boa tarde, Édmilson! — o anciao res- pondeu em tom triste. Um silencio pesado se seguiu. — Nao posso desistir de voce, Édmilson. — continuou o anciao — Voce esta no meu coraçao. Quero ver voce salvo e seguro nos braços de Jesus! O Jovem riu com sarcasmo e balançou a cabeça. — Os braços que eu quero sao outros. — gozou ele — Alem do que, se voce que reza aproveita e ve se ajuda esse aqui que preci- sa mais que eu — riu apontando o cadaver — Éu tenho mais que fazer. Dizendo isso o rapaz passou pelo velho com desdem e o empurrou com violencia. Éurico perdeu o equilíbrio e caiu sentado junto ao muro que circundava o terraço e o jovem se foi. O anciao encolheu-se. Éstaria errado desta vez? Seria Édmilson um caso realmen- te perdido? Na verdade o livre arbítrio era de se considerar. Éle nao podia forçar a von- tade de alguem a quem Deus fizera livre. No entanto o peso da alma do jovem o fazia so- frer e as lagrimas brotavam de seu rosto cansado. Ali ficou com a cabeça apoiada nos joelhos chorando e clamando por uma oportunidade de ser verdadeiramente inter- cessor, de ficar na brecha por este rapaz. O tempo passou. Éurico nao sabia se muito ou pouco. Quando se deu conta havia outra pessoa no terraço e o sol declinava ra- pidamente no horizonte. A presença dessa pessoa o fez erguer-se um tanto assustado. Limpou as lagrimas do rosto e o nariz que pingava e tentou se recompor. Mas a aproxi- maçao da outra pessoa o deixou deveras surpreso. Saída como que de uma especie de nevoa
  • 26. 26 veio ao seu encontro uma velha de aspecto medonho. Curvada e cheia de reumatismo ela parecia nao ter sequer um osso que nao fosse deformado. Érgueu o rosto para Éuri- co e o fitou com superioridade. O anciao tre- meu sem querer. O rosto da velha era de tal forma enruga- do e cheio de espinhas e pontos negros que so o fixa-lo ja era penoso. O nariz de propor- çoes significativas era peludo e torto. A boca irregular de labios secos. Da cabeça quase careca saíam uns poucos fios de cabelo gri- salho em total desalinho. A mulher trazia uma roupa toda negra e esfarrapada condi- zente com seu aspecto físico. Sua presença causava repulsa e medo, tremor e asco ao mesmo tempo. Depois do primeiro susto Éurico tentou se recuperar. Pensou que fosse alguem da família do homem morto que permanecia no extremo do terraço e tentou ser gentil: — Boa tarde, senhora. Veio pelo moço acidentado? — perguntou apontando o ca- daver. — Acidentado? — pronunciou a velha com sarcasmo. Sua voz era metalica e grave. Um tanto inesperado. Causava arrepios na medula e parecia penetrar os ossos. Nao parecia ser humana. — Acidentado? — repetiu a velha. — Bem — titubeou Éurico sem jeito — eu, na verdade, nao sei. Quando cheguei aqui ja estava morto. A velha parecia nao estar interessada no que ele dizia. Aproximou-se do anciao e o rodeou examinando cada detalhe dele e em especial a Bíblia em sua mao. A sua aproxi- maçao Éurico experimentou um fenomeno de todo inusitado. O chao parecia ter se tor- nado frio. Como se a temperatura a volta da mulher fosse bem mais baixa que o resto do ar. A tal ponto se fez sentir isso que o pobre homem quase tremia de frio e segurava o queixo para que nao batesse. A velha tornou a se afastar dele sem pa- lavras como se tivesse perdido o interesse e avançou ate o parapeito da varanda exami- nando as redondezas. Éurico fez enorme es- forço para sair de seu estado quase catato- nico. — Posso ajuda-la de alguma forma? — perguntou com educaçao. A velha o mirou de novo com aquele olhar gelado e desdenhou: — Nao e voce que quero! — respondeu secamente. — Éntao, quem e? — insistiu o anciao ja com seus pressentimentos. A mulher parecia incomodada com a presença e a insistencia do homem e pare- ceu ataca-lo. Voltando-se com rapidez sur- preendente o questionou: — Nao tem medo de mim? Desta vez foi Éurico que ficou firme e com olhar tranquilo e seguro sorriu e res- pondeu: — Deveria ter? — A grande maioria dos homens tem… — disse a velha com segurança. — Parece ter muita experiencia! — refle- tiu Éurico. — Alguma... — devolveu a outra com sarcasmo. — É esta procurando... - sugeriu o an- ciao. — Édmilson - declarou a velha de forma seca e voltou a perscrutar a vizinhança. Éurico ficou abalado com a revelaçao e se aproximou corajosamente da velha ape- sar de que o frio que ela transmitia ser a ul- tima coisa do mundo que queria experimen- tar de novo. De subito, sentiu-se cheio de ousadia para lutar pelo jovem que pretendia ver salvo, e pressentia que esta ancia so po- dia trazer mas notícias. Chegou-se com con- vicçao e disparou: — Quem e a senhora? A velha olhou Éurico com um misto de admiraçao e desprezo e sorriu. Um sorriso que faria gelar o coraçao do mais corajoso. De sua boca disforme se viam uns poucos dentes amarelo-acastanhados e a risada qual grito de hiena na noite africana parecia
  • 27. 27 vindo de outro mundo. A mulher, olhando o homem no fundo dos olhos, pronunciou cal- mamente: — Sou a Morte! — Nao pode leva-lo! — foi a reaçao ime- diata e quase impensada do anciao. A Morte mostrou surpresa, franzindo o sobrolho que logo abriu em novo sorriso desdenhoso. — Voce vai me impedir? — Nao posso... — reconheceu Éurico — Mas ele nao esta pronto! — Isso nao e problema meu. — deu de ombros a velha — Cumpro minhas obriga- çoes e chegou a hora do rapaz. Se nao se preparou para me receber e problema dele. — É meu tambem. — protestou o ho- mem — Éu assumi a responsabilidade por ele. — Ninguem pode assumir a responsabi- lidade por outro. — devolveu a Morte — Ca- da um tem que me enfrentar sozinho e a ho- ra de Édmilson e chegada. — Éntao, me leve a mim. — tentou Éuri- co ja desesperado — Éu posso ir ja, estou pronto. Nao tenho medo de voce. Leve-me no lugar dele! Agora o homem parecia pela primeira vez ter conseguido a total atençao de sua interlocutora que o examinava com mais cuidado ainda. A morte aproximou-se nova- mente e o frio glaciar de ainda a pouco vol- tou a gelar Éurico de forma desagradavel e quase insuportavel. Tudo nele clamava por se ver livre dessa sensaçao, mas ficou quie- to, em seu interior lutando pela alma de seu protegido. A morte percebeu a luta do homem e sua forte resoluçao e se afastou lentamente. — Tem a certeza do que me propoe? — questionou tentando verificar a certeza do homem. — Sim! — afirmou Éurico com total con- vicçao. — É porque faz isso? — quis saber a morte. — Pela salvaçao dele. — explicou o an- ciao - Éle nao esta pronto para ir. Precisa de mais tempo. O amor de Deus ha de vencer em sua vida, mas precisa de mais tempo. — É e esse tempo que voce quer com- prar para ele? — sugeriu a velha rindo. — Se for possível… — clamou ele. — Possível e… — disse ela — Nao seria a primeira vez. Tem-se feito muitas vezes e creio que ainda se farao muitas mais. — É ele tera tempo suficiente? — quis saber o homem ansioso. — Isso nao pode saber. So o Todo Pode- roso sabe essas coisas. Pode ser que sim. Pode ser que nao. Acha que vale a pena mesmo assim? Morrer sem ter a certeza? Pode ser em vao… — tentou a morte ma- treira. — O amor nunca e em vao! - sentenciou Éurico — Éstou disposto a dar a Édmilson mais uma oportunidade, nem que seja a ul- tima! A morte balançou a cabeça e chegou-se ao fim do terraço aonde se via toda a favela. Suspirou com ar cansado e olhou mais uma vez com seus pequeninos olhos negros o homem que a observava em suspense. — Tanto trabalho a fazer... Voltarei por voce... Amanha! Antes que Éurico pudesse dizer qualquer coisa uma nevoa vinda nao se sabe de onde encobriu a velha e a sua figura fantasmago- rica desapareceu. O homem ficou muito tempo ali em pe sem saber bem o que se passara com ele. Fora sonho? Fora visao? Fora real? Como sa- ber a verdade? O anciao sentia-se confuso. Seria genuíno que ele negociara com a mor- te e se oferecera para ir ao lugar de Édmil- son? Isso seria possível? Seria aceito? No dia seguinte seria a sua vez? Éstaria real- mente tao preparado como se julgava? Com esses pensamentos na cabeça ele deixou o local e a medida que descia do morro notava toda a agitaçao típica do fim de dia, mas algo mais do que era normal. Fi- nalmente um jovem o informou. A polícia havia estado no morro durante a tarde. Ti-
  • 28. 28 nha havido troca de tiros e Édmilson fora baleado. Éstava no hospital. Éurico estremeceu. Tinha que verificar. Sentia-se cansado. Na verdade exausto, mas nao teria paz sem confirmar o que sucedera. Questionou sobre o hospital em que o jo- vem estaria internado e foi ate la, chegando ja noite cerrada. Procurou o medico que atendera Édmilson. O clínico sentou com o anciao e parecia confuso. — Foi algo muito estranho. — disse o medico — O rapaz foi baleado tres vezes no abdomen, na regiao do fígado. Chegou aqui com hemorragia interna incontrolavel. Nao havia nada que pudessemos fazer. Nem se o tivessemos recebido logo apos os tiros. Mas tinham passado mais de duas horas! Éle es- tava a morte! O pulso estava indo e todos nos preparavamos para deixa-lo cadaver quando, de repente, o sangue parou. O cara se recuperou bem ali, a nossa frente. Olha, se eu nao tivesse visto, nao acreditaria. Se e que existe essa coisa de milagre, este foi um! Éurico ouviu tudo com lagrimas nos olhos e sentindo que, afinal, tudo o que vi- vera fora verdade. Cheio de convicçao e cer- teza conseguiu autorizaçao e chegou a cabe- ceira do moço por quem se dispusera a morrer. O jovem orgulhoso e cheio de anti- patia que ele vira no começo do dia ja nao estava ali. Édmilson tinha um ar assustado de garoto pobre que era o verdadeiro esta- do de sua alma. Olhou Éurico com vergonha e uma pitada de esperança. Tremia ao lhe contar. — Foi uma emboscada. O meu pessoal me traiu. O desgraçado do Mendes queria a minha posiçao. Miseravel! Vai pagar caro! — dizia com o rosto se contorcendo de dor e raiva. — Ainda odiando? — interrompeu Éuri- co — Isso nao te trouxe nada de bom. O moço parou de falar e o olhou triste. Desta vez parecia reconhecer a verdade nas palavras do velho. — Éu vi a morte! — disse entao tremen- do — É era horrível! — Éu sei. — balançou a cabeça o anciao — Mas nao precisa ter medo dela agora. Vo- ce vai viver. Mas o quanto e como vai depen- der de onde voce vai colocar o coraçao. Na entrada do quarto uma enfermeira fez sinal ao anciao que era hora de se reti- rar. Édmilson segurou o braço dele com an- gustia. Ém seus olhos ele via agora todo o vazio de seu coraçao, toda a busca de sua alma. — O que e que eu faço? — perguntou com voz embargada. Éurico o olhou com carinho. Colocou sua Bíblia na cabeceira. Éra a sua velha Bíblia. Companheira de tantos anos. Ganhara aque- le livro do homem que o levara a Cristo. Éra seu mais precioso tesouro. Mas sentia que agora o rapaz precisava mais dela do que ele. Sorriu de leve e acrescentou: — Comece lendo o livro onde esta mar- cado. Depois, quando sair daqui procure o pastor Joao da igreja la da favela. Éle sabera te ajudar. Nao desperdice seu tempo, meu filho! A vida e curta! Voce nao sabe o que vem amanha. — Voce vira me visitar? — quis saber o moço. — Nao sei. — respondeu o velho com o olhar perdido — Tenho amanha um com- promisso muito importante. Logo voce sa- bera. Com uma breve oraçao ele se despediu do moço e saiu. Trazia o coraçao em paz. Sentia que aquele jovem estava a caminho da recuperaçao. Seria difícil o caminho e muito espinhoso. As tentaçoes seriam mul- tiplas e a luta tremenda. Mas ele queria acreditar. Éra tudo que precisava. Fizera a sua parte. Talvez ate demais. É com esse pensamento enchendo sua mente chegou a casa finalmente e dormiu um sono pesado, sem sobressaltos, cheio de paz. No dia seguinte, levantou-se a hora habi- tual. Fez tudo como em qualquer outro dia. Por que seria diferente? Foi o que pensou. O dia inteiro, porem, esperava sentir aquela
  • 29. 29 presença gelada que o envolvera no dia an- terior e que certamente o viria buscar. Mas nada aconteceu de manha e a tarde ia ja avançada quando se sentou em seu sofa de leitura e adormeceu com um velho livro de poesia no colo. Acordou com uma sensaçao estranha e imediatamente sentiu que nao estava so. Um arrepio percorreu sua espinha, mas re- cuperou depressa e levantando-se deu de cara com uma moça que, sentada a mesa da sala, preparava um cha. Éra jovem e extremamente bela. Alta e esbelta, de feiçoes finas, rosto pequeno emoldurado por abundante cabelo castanho claro, olhos enormes de um verde enigmati- co, labios bem desenhados e um queixo ar- tístico. Éra branca, muito branca e dela pa- recia emanar um perfume doce inebriante que o anciao sentiu ser delicioso demais. Éurico sorriu diante de tal visao e lim- pando a garganta, se desculpou: — Peço desculpa nao a vi entrar, estava lendo e creio que cochilei. — Nao tem problema, eu tenho tempo. — ela respondeu numa voz maviosa e musi- cal. É as palavras foram acompanhadas de um sorriso que trazia a beleza sombria de uma noite de luar. Éurico nao pode evitar um novo arrepio, mas nao sabia como rea- gir. — Ém que posso servi-la? — quis saber, sempre educado. — Temos encontro marcado. - lembrou a moça com certo ar de surpresa no rosto — Certamente nao esqueceu! O anciao recuou um passo e parou. Ésta- va confuso e admirado. Balançou a cabeça e fixou melhor o olhar. — Tenho encontro marcado com a... — nao foi capaz de dize-lo. — Comigo! — completou a moça. — Nao pode ser! — continuou estra- nhando o velho. — Porque nao? — insistiu ela. — Nao foi voce que vi ontem! — Ah! — riu ela e se aproximou esten- dendo a xícara de cha fumegante e cheiroso. A sua aproximaçao ele sentiu o frio que lhe percorrera o corpo no dia anterior. Mas este nao era o mesmo tipo de frio. Nao gela- va. Nao fazia tremer. Éra mais um tipo re- frescante, qual brisa gostosa em tarde aba- fada. A moça fez sinal e ele tornou a sentar-se no sofa. Éla foi postar-se nao muito longe, bem em frente a ele. — Na verdade foi comigo que falou on- tem. — continuou a morte — Mas ontem vo- ce me viu como Édmilson me veria. Ontem eu era a morte aos olhos dele. Hoje estou di- ferente, ou talvez nao. Na verdade nao mu- do. O que muda e a maneira como as pesso- as me veem. Éurico abanou a cabeça. Fazia sentido. Éra mesmo bastante logico. Sorriu. Nao po- dia evita-lo. Como temer uma morte com es- ta cara? — Ésta preparado? — Sim! — disse prontamente o homem sem hesitar — É Édmilson? — Tera sua oportunidade. — É sera suficiente? - insistiu ele. — So o Todo Poderoso sabe! — decretou ela — Tome seu cha. Voce ja fez sua parte. Novo sorriso encheu o ar de parte a par- te. Éle bebeu o cha e encostou a cabeça na poltrona. Fechou os olhos sentido o perfu- me que enchia o ar. Logo estava dormindo. No outro dia de manha corria a notícia na favela. O velho Éurico morrera na tarde anterior enquanto dormia e o barbeiro que costumava cortar-lhe o cabelo comentava: — Isso e que e uma Bela Morte! Baseado em João 15:13: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor de seus amigos." Joed Venturini é Pastor da Terceira Igreja Batista de Lisboa, Mestre em Missiologia, Medico especialista em Medicina Tropical e Éscritor. Leia mais do autor em: http://joedventurini.blogspot.com.br/
  • 30. 30 Galeria Lya Alves "Batuque" Acrílicasobrepapel-21x30cm-ano1998 G rafit e no ‘Galerio’, enor- me painel ao ar livre que fica entre a estação Coelho Neto e a Estação Colé- gio, na cidade do Rio de Janei- ro.
  • 31. 31 Lya Alves Nasceu em São Gonçalo e vive em Niterói - RJ. Começou a pintar em 1998, e a grafitar em 2008. O eixo temático do seu trabalho é alienação, coisificação e fetichismo e suas obras promovem refle- xões e críticas ácidas sobre o consumismo através de fábulas visuais e antropo- morfismos. Além de pastora e artista plástica, a múltipla Lya é ainda quadrinista (HQ Guer- reiros de Deus), grafiteira e designer de moda, e tam- bém ativista cultural. Conheça mais do trabalho da autora em lyaalves.blogspot.com.br/ “Anastácia" Acrílica sobre tela - 60x40 cm - ano 2008 Págiina em P/B da HQ Guerreiros de Deus Em sentido ho- rário: Lya grafi- tando um de seus temas prediletos, a Águia; Grafite; grafitando uma rosa; Águia de Fogo (ilustração digital).
  • 32. 32 Sammis Reachers Sabia o nome dela das notas de entrega: Norma ou Dona Norma. Nunca conversava- mos muito, – Boa noite, oi meu filho, e voce, que bom, voce e o mais simpatico, aquele outro rapaz e meio grosso... – Éle e gente boa, dona Norma, veio do interior, e mais assustado do que grosso... – Éssa foi nossa maior conversa. Um dia encontrei-a na rua Bras Cubas, proxima a Acli- maçao, a longos quilometros de sua casa. Éu estava indo para meu turno na pizzaria, que ia das 15h00 as 23h30. Éla tentava apa- nhar um caozinho que estava embaixo de um carro estacionado. Parei a moto e fiquei observando-a. Éla ja idosa, tinha dificulda- des. Desmontei para ajuda-la. – Ola dona Norma! Quer ajuda aí? – disse -lhe, ja me agachando do outro lado do veí- culo e chamando o cachorrinho. Consegui apanha-lo, era bem mansinho e magricela. Éla o colocou numa dessas caixas especiais para o transporte de pets. Sempre imaginara que ela era uma pro- tetora de animais, dados os muitos latidos que ouvia, disparados de dentro de seu quintal, mas nunca tive certeza. Perguntei: – Éste tambem e da senhora? Ésta longe de casa hein! – Nao, meu filho, este esta abandonado. Éu sempre que posso recolho elezinhos e levo pra casa... * * * Depois daquele dia, passamos a conver- sar mais, e eu sempre perguntava pelos caes. Éla familiarizou-se ainda mais comigo, passou a relatar das dificuldades no trato dos exatos trinta e dois caes. Comecei a co- laborar com a obra dela, uma vez por mes levava um saco de raçao para de alguma maneira somar nas despesas. Nesses dias ela convidava-me para entrar, e passei a fa- miliarizar-me tambem com os caes. Éra professora aposentada da USP. Tinha um filho apenas, funcionario de uma agen- cia do Banco do Brasil nos ÉUA. É assim nossa amizade foi es- treitando-se, tanto entre mim e dona Norma, como com os caes. Havia em sua casa um patio coberto que servia de quintal, onde ela fizera pequenas celas de canil, de um lado e outro. Os animais mais ferozes, ou que sempre arruma- vam encrenca, permaneciam presos a maior parte do tempo, e eram liberados apenas quando os demais estavam nas celas. Den- tre eles, Drago, um pitbull que matara tres cachorros e ainda ferira um homem que o tentara matar, e que ela salvou de ser poste- riormente sacrificado; Lonlon, nome singelo para um dogue alemao especialmente hos- til; e a cereja do bolo: Sem Matilha, um lobo Guara, com a aparencia marcial, marcado de combates, que ela adotou quando o circo que o mantinha, impedido de continuar com animais selvagens devido a uma lei de 2005, foi obrigado a desfazer-se dos mes- mos. O dono do circo, como ela gostava de dizer, ‘espanhol morenao de Zaragoza’, de- veria doa-lo para um zoologico, como a mai- oria dos demais animais. Mas nao apareceu zoologico algum interessado em apanhar o lobo, os dias foram passando e o dono do mesmo resolveu da-lo para dona Norma. Com o tempo, ja nao me estranhavam, e passei a alimenta-los tambem. * * * Fui acordado pelos socos que ameaça- vam derrubar minha porta. Levantei-me desnorteado, sonhava com a namorada que eu nao tinha. Abri a porta.