Organizadora              Cecilia Ferreira(em nome da Academia Araçatubense de Letras)CONTOSPremiados             (Contos ...
Copyright © vários autores                     Edição: Cecilia Ferreira                 Editoração e capa: Arlen Pontes   ...
24.º Concurso Internacional de Contos               da Cidade de AraçatubaCategoria Nacional1.º Lugar – Emir Rossoni – Cot...
Conto dos JulgadoresCecilia Ferreira – Insuflando adágios ............................................................. 12...
Prefácio       L                  uiz Costa Lima publicou, além de muitos outros, o livro Por                  que Literat...
cialmente – tem perdido o poder e o prestígio que até aqui mantivera, peranteum universo de pluricódigos, como o de hoje, ...
e capaz de polemizar, contestar, denunciar, além de afetar, enlevando, engran-decendo, sensibilizando e ou incomodando o s...
CategoriaNACIONAL             11
1.º Lugar                            Categoria Nacional                             Porto Alegre - RS                     ...
ponte seca feita de um raio de olhar que unia os dois prédios. E, na ponte, nãoexistia nenhuma lei, nem a lei da gravidade...
homem que não se movia?        Talvez eu fosse o grito que ele não ouviu.        “Hei!”        Talvez eu fosse a frase que...
Do alto do prédio-cimento: para o baixo da rua-cimento.         Um choque entre dois cimentos distantes e delatores; que n...
Respirei.         Respirei.         Fazia horas que não o fazia.         E, então, lá de cima, também deixei-me despencar....
pregara os olhos.        Então deixei-me derramar, cimento-líquido, e escorri junto ao corpodele. E, como o dia inteiro, q...
Menção Honrosa       Categoria Nacional       Belo Horizonte - MG                                   Di-lis                ...
de-lis, Di-lis – a única.        Ela seguia adiante. Desfeiteava.        Uma primavera: desabrochou. Temporã. Feito fosse ...
somente. Já da idade, seria. Ou tristeza, puramente.         Di-lis não entendia. Culpava-se de não sabia o quê. Teria fic...
novo. Encontrou os vestígios do caminho antigo do trem, que, agora, passavaao largo, numa linha nova, de contorno, longe d...
Menção Honrosa       Categoria Nacional       Porto Alegre - RS                            O Assessor                     ...
“Sabes bater à máquina, Brizola?” Me chamam assim pelas sobrance-lhas, sempre esfiapadas.        “Com um dedo, doutor”, fu...
Um dia, tomava meu mate e lia Sidney Sheldon bem na parte dumincêndio alucinante quando ouvi ele me chamar. Fui até o gabi...
Um dia o doutor mandou dizer pelo Beto que era pra eu me tocar aPelotas. Me entregou um celular e uma cartola cheia de coe...
boxe, por segurança. E fui dormir com o celular preso ao elástico da cueca,também por segurança; pânico de cidade grande. ...
“Fica tranquila”, eu disse, “é coisa séria”. Beijei a testa dela. Ela amole-ceu e começou a assinar, um por um, como uma b...
Menção Honrosa       Categoria Nacional       Rio de Janeiro - RJ                            Os meninos                   ...
neles. Passavam horas imóveis, atiradeiras nas mãos, espreitando a caça. En-tão um deles esticava devagar a borracha, solt...
nosso desleixo. Decidi falar com o Gomes ou com o comandante, mas, comoos dois ainda dormiam, fui tomar café e acabei me e...
divisor de águas.        Desinteressados de um poder que não nos levava a lugar algum, dei-xamos que os meninos o exercess...
Menção Honrosa       Categoria Nacional       Campo Belo - SP                            Ana Dorme                        ...
no caminhar. Isso é coisa recente, mas também não importa. Esta história nãoé sobre quem eu sou, mas sobre quem eu deixei ...
era meu ego covarde e inseguro me dizendo que aquela era a única forma deAna se tornar previsível, sob controle, diferente...
a amiga de Ana. Após duas semanas internada e múltiplas cirurgias, ela nãoresistira aos ferimentos e acabara falecendo. Fa...
do. Não vou me alongar em detalhes da visita, mas posso dizer que foi umbaque. Deitada sobre a cama estava uma mulher de m...
lidade de minha parte, mas tudo o que eu conseguia sentir era uma profundae egoísta tristeza por ver a imagem da minha Ana...
palpável. Sua presença sorrateira e constante talvez tivesse sido a única coisaverdadeiramente real em todos aqueles anos....
Menção Honrosa       Categoria Nacional       São Paulo - SP                              Sem Natal                       ...
que se revezava a cada manhã. Tudo impunha uma terrível prostração àquelamulher que tanto desejava estar inteira para vive...
viajava nos mundos que criava, na crina alucinada de uma fantasia que um diairia desmoronar. Após derrotar o sol, a noite ...
bém não teria pago em dia o aluguel de um quase barraco, o Bira era pontual,saía, de casa em casa, o colar reluzente como ...
eram movidas a eletricidade, óleo diesel, carvão e medo. Os Andrades domi-navam a economia, eram donos de todas as tecelag...
tilhada por toda a vizinhança, a molecada num frêmito a correr pralá-pracá.Um vozerio de homens e mulheres que, alternando...
moribundo. Chovia horas sem parar nas cabeceiras do rio, lá pelos lados dopico dos Caramonãs e da Serra da Onça, onde o te...
CategoriaREGIONAL             49
1.º Lugar                            Categorial Regional                              Araçatuba - SP                      ...
nossas limitações e nos fere. João tinha uma esposa tão jovem que se passavapor filha. Bela, de uma beleza que só se encon...
Então era esse o motivo de tamanha melancolia. Ora, João nunca mehavia dito nada. E olhem que ele me confiara coisas, pert...
É esta a questão que quero que examinem! Acham que houve mais algumacoisa entre eu e ela? De modo algum! Afeiçoei-me a ela...
a postura que me dava um pouco de dignidade, se é que um bêbado sabe oque é isso, e esperei com paciência, afinal éramos t...
minha. Impávido diante da paixão. Notava a jovem mãe calada em seus afaze-res pela casa. Mas o amor e a morte, meus caros,...
2.º Lugar       Categoria Regional       Penápolis - SP                       A palavra muda                              ...
Sofia.        Seus pés foram a única coisa capaz de fazer aqueles melancólicos olhosnegros erguerem-se pela primeira vez e...
3.º Lugar       Categoria Regional       Araçatuba - SP                            A Travessia                            ...
completar a empreitada com alguma tranquilidade.        Enquanto carregava as coisas para fora de casa, a família pouco a ...
Partindo do litoral onde morava, subiria em direção ao norte, margeando opaís pela praia por centenas de quilômetros. Duas...
Livro contos premiados 2011
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  1. 1. Organizadora Cecilia Ferreira(em nome da Academia Araçatubense de Letras)CONTOSPremiados (Contos Escolhidos) 3.ª Edição Araçatuba, 2011
  2. 2. Copyright © vários autores Edição: Cecilia Ferreira Editoração e capa: Arlen Pontes CTP e Impressão: Editora Somos - (18) 3636.7790 Secretaria Municipal da Cultura Rua Anita Garibaldi, 75 - CEP 16010-280 Araçatuba - SP www.secretariacult@gmail.com - (18) 3636.1270Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP Brasil) , Contos escolhidos / organizadora Cecilia Ferreira. -- 3. ed. -- Araçatuba, SP : Editora Somos, 2011. Vários autores. ISBN: 978-85-60886-37-1 1. Contos brasileiros - Coletâneas I. Ferreira, Cecilia. 11-09058 CDD-869.9308Índices para catálogo sistemático:1. Contos : Coletâneas : Literatura brasileira869.9308
  3. 3. 24.º Concurso Internacional de Contos da Cidade de AraçatubaCategoria Nacional1.º Lugar – Emir Rossoni – Cotovelos ao parapeito ......................................... 13Menção Honrosa NacionalJosé Carlos Barbosa de Aragão – Di-Lis ................................................................... 19Guilherme Azambuja Castro – O Assessor ............................................................. 23João Paulo Vaz – Os meninos ................................................................................. 29Marcelo de Campos Lilla – Ana dorme............................................................... 30Ronaldo Cagiano Barbosa – Sem Natal .............................................................. 41Categoria Regional1.º Lugar – Tarso José Ferreira – Amizade Sincera ......................................... 512.º Lugar – Danieli Elias Richart – A Palavra muda ....................................... 573.º Lugar – Mário Henrique Silveira Bueno – A Travessia.............................. 59Menção Honrosa RegionalRegina Ruth Rincón Caíres – A magia do circo ............................................... 65Odair Maurício de Albuquerque – A morte não manda recado ....................... 77Ronaldo Ruiz Galdino – Uma história de 2924 .............................................. 85Josiane da Silva Mesquita – O gato na janela .................................................. 93Wanilda Maria Meira Costa Borghi – Acerto ..................................................... 101Categoria Internacional1.º Lugar – Tânia Ganho Gomes da Silva – Perfeita simetria .................... 105Menção Honrosa InternacionalVitor Manuel Capela Batista – As Insónias....................................................... 111 5
  4. 4. Conto dos JulgadoresCecilia Ferreira – Insuflando adágios ............................................................. 121Tito Damazo – Perfeccionismo ........................................................................... 125 6
  5. 5. Prefácio L uiz Costa Lima publicou, além de muitos outros, o livro Por que Literatura (Vozes, 1969), cujo primeiro capítulo recebe o mesmo título. Ali, naquele ensaio, o professor e crítico lite-rário de renome discute as razões pelas quais a literatura, tão antiga quantoa civilização, subsiste como um organismo vivo, exposto ao tempo, ao espaçoe à história. Logo, sempre submetida a questionamentos, ameaças, crises etransformações. Esses dinamismos e metamorfoses de que se reveste a literatura sefazem, sobretudo, porque sua carnadura é essencialmente linguagem. E esta,por sua vez, é ser mutante de que derivam permanentemente, inacabadamen-te, seres e coisas, dentre os quais, a palavra, ou seja, a própria linguagem. À página 35 deste ensaio, o crítico afirma que “A arte e a literatura sejustificam por expressarem, a partir do lócus semântico do polissêmico (DellaVolpe), uma visão articulada do tempo. Visão que ao leitor ou ao expectadorconsequente não pode ser apenas motivo de contemplação, elemento de des-frute, prazer dos sentidos, porém mais do que isso, condição para o entendi-mento crítico da realidade. E quando dizemos crítico pensamos em um atoque não se encerra em compreender, mas em atuar a partir desta compre-ensão”. E mais adiante diz que “A tarefa da literatura continuará a ser, agoracomo antes, a de atingir e a de trazer na palavra a raiz das coisas onde sedeposita a raiz do homem.” Na esteira destas reflexões, podemos admitir que a literatura hoje, tantoquanto ontem, se constitui um arcabouço de conhecimentos, os quais dãoà realidade uma dimensão outra, quase sempre inusitada, problematizando,confrontando e polemizando com os paradigmas socioculturais e econômicosestabelecidos. É verdade que a literatura – objeto de linguagem verbal escrita essen- 7
  6. 6. cialmente – tem perdido o poder e o prestígio que até aqui mantivera, peranteum universo de pluricódigos, como o de hoje, em que a linguagem visual so-fisticada tem poder de comunicação excepcional e avassalador. Todavia, a despeito desta crise inevitável em que se encontra, segura-mente não perdeu seu fim e objeto, tampouco aqueles valores, os quais sepodem depreender das ponderações de Luiz Costa Lima acima transcritas. A crise, dentre outros fatores, estabelece a necessidade de se buscaremmecanismos eficazes para superação dos problemas e obstáculos surgidos.E a história mostra que é justamente na crise que a literatura, como de restoas outras artes, se redimensiona num refazimento que a renova e a reedifica,como uma fênix restabelecendo-se de sua própria cinza. Nesse sentido, cremos, é que se colocam os vários certames literários,artísticos e culturais promovidos por instituições estatais e privadas, como estejá tradicional Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, cujo resultado se con-signa nas páginas deste livro. São dignificadores do bem estar de uma sociedade eventos e ações des-ta natureza, os quais possibilitam à literatura espaços em que pode exercersua atuação como um dos fenômenos culturais fundamentais para a com-plexa construção do espírito e pensamento humanos. Autorizar espaços quegarantam aos escritores o estímulo da criação literária, de forma convicta econsciente da importância de tal acontecimento, como o faz a Secretaria daCultura do Município de Araçatuba, é um contributo de suma relevância paraa superação de uma crise que, assim, há de soçobrar. Escrever literatura não é fácil. E o fácil normalmente pode satisfazerinteresses pessoais, quase nunca os da literatura, que é um bem de interessesocial. Escrever literatura é, antes de tudo, um prazer a quem o faz, mas tam-bém um trabalho que requer empenho criador. A essência da obra literária consiste em não ser concessiva nem sub-missa. O que não quer dizer que dê ou deva dar as costas ao seu contextosocial. Pelo contrário, sua forma e conteúdo o refletem e o identificam. Mascom ele se relaciona como um objeto autônomo, que se impõe como distinto 8
  7. 7. e capaz de polemizar, contestar, denunciar, além de afetar, enlevando, engran-decendo, sensibilizando e ou incomodando o seu leitor. Esse conjunto de elementos, aqui considerados, foram pressupostosbásicos pelos quais se conduziu a comissão julgadora deste 24º Concurso deContos Cidade de Araçatuba ao cumprir esta dificílima tarefa de determinarposições a textos literários em competição. A presente obra traz no seu bojo a maioria daqueles contos que, se-gundo a comissão, vai na pegada de um fazer literário que procura preservaro papel de seu objeto e resistir aos contraventores de sua essência, cujo fim,parece, quererem inutilizar, ou banalizar, autorizando e reverenciando sub-produtos de uma escrita que procuram credenciar como obra literária. 9
  8. 8. CategoriaNACIONAL 11
  9. 9. 1.º Lugar Categoria Nacional Porto Alegre - RS Emir Rossoni é escritor e publicitário. Trabalha em agências de publicidade gaúchas como redator e diretor de criação, tendo trabalhado um ano em Portugal. Possui publicações em sete antologias de contos e uma de poesia e recebeu diversas premia- ções nacionais na área da literatura. Cotovelos ao parapeito Emir Ross S erá que era a eternidade que ele buscava? Alguns pensamentos até me disseram que sim. Mas sua posição estática a deixar apenas os cabelos moverem-se ao vento, que era forte, desper-tou muitas dúvidas. Ele parecia saber o que queria. E queria eu que seus olhos virassem asmeninas de lado um pouco, para eu capturar algum reflexo de suas inspira-ções. E como ele não se movia. E como ele parecia decidido. E como ele estavalonge e nada ouvia e ignorava qualquer movimento alheio, era hora de con-tentar-me com a imagem que queimava ao outro lado da rua, no edifício umpouco mais baixo, onde, do terraço, talvez ele aguardasse o momento certo. O momento, eu sabia – ao menos disso eu sabia – vivia dentro dele epretendia logo-logo viver fora: fugir das órbitas do que não se pode ver. Descansei minha curiosidade sobre sua imagem; acomodei-me. Fitava,encantado. E minha existência foi navegando, navegando, navegando; numa 13
  10. 10. ponte seca feita de um raio de olhar que unia os dois prédios. E, na ponte, nãoexistia nenhuma lei, nem a lei da gravidade. Cotovelos ao parapeito. Adormeci meia pálpebra; o dia mugia preguiçoso. Remoía uma tentati-va de querer saber o que o sujeito fazia de braços estendidos na beira do topode um semi-arranha-céus. Firme-leve. Olhos fechados. Boca a sentir o sabordo vento. Não. Eu não sentia medo por ele estar ali. Nem calafrios. No máximo,um pouco de tédio que sempre é menor que a curiosidade. Então, a pálpebrasonolenta despertou com o assobiar do vento. Vento que bate na vidraça: caicambaleante. Tombeia esmurrado por outro braço de vento que vem no senti-do contrário: acidentes acontessem: cai morto. Mas lá ao outro lado, o vento só encontra cabelos; e cabelos gostam devoar, porém, amarrados à cabeça do homem, não decolam. Lavava-se com osares. Purificava-se de dedos abertos e coxas contraídas. Porque não precisavamais respirar. A cabeça tombada deixa o ar entrar por conta. Ele parecia feitode nada. Seus contornos eram soltos como esboços de qualquer coisa. Entãovi que ele tinha poros abertos, muito abertos de vida, que saía e entrava e saía eentrava muitas vezes a cada piscar que eu tentava não dar. E quando tentei nãopiscar – não pisquei por bom tempo, até que agüentei não mexer as pálpebrase não verter os olhos – vi que ele podia não estar lá, e vi depois de um átimode mim que havia outro ao seu lado, idêntico, crente que ia alcançar algumacoisa. E quando a nuvem do não agüento mais enegreceu minha vista, elesnovamente misturaram-se. Dois-em-um-em-nenhum-num. No mesmo lugar. A fazer a coisa mesma. Nada. Então pensei que fosse um louco. Doido. Varrido-sozinho-fugido. Masloucos não fecham os olhos diante do vazio. Cientizam o que vêem. Amalucamos terraços aos tropeções. Trôpegos indecisos. Ele era tudo de qualquer coisa.Menos louco de momento. E o que era eu da janela fechada do apartamento a olhar por horas o 14
  11. 11. homem que não se movia? Talvez eu fosse o grito que ele não ouviu. “Hei!” Talvez eu fosse a frase que o vento derrubou enquanto atravessava aponte. “Faz o que aí?” Sobre o que eu era não vale interessar. Quis perguntar-lhe muitas coi-sas; mas o maldito não tinha ouvidos para o mundo que eu morava. E o sermais íntimo que tínhamos em comum era o vento e, esse, não gostava demim no momento. Nem adiantava pedir apresentações. Ora quando este metentava derrubar, sustentava o homem lá de cima; e ora quando eu gritava, elecarregava minha voz para o lado oposto; em compensação, me fazia ouvir osrespirares do homem; Lento-pausados. Respirava, como se o ar o alimentasse. Confesso que por instantes o odiei. Odiei, por me fazer aguardar emposição desconfortável. Odiei por ter tanto a fazer e não me desprender dajanela. Mas o odiei mais por ele estar lá, seguro e satisfeito. Enquanto a impaciência me corroía pelas bordas de dentro. Ele estava por um fio, prestes a cair no precipício de tantos andares e ocalafrio se dava em mim. Na minha espinha corcunda de roer possibilidades. Porque talvez quisesse ele heroizar-se por coisa-nada. E eu queria estarlá, vendo tudo do quase-início ao fim. Talvez ficar heroizado também, maisque ele até, por gravar as imagens com os olhos e contar depois para quemnão queria enxergar. Eu tinha esse sentimento de grandeza próxima. Mas, provável, maiorfosse o sentimento de inveja dentro. De querer que o vento me tratasse como otratava. Mas vejo agora que sua relação com o vento era a mesma que a minhacom o cimento. Com a diferença de que o cimento não é inalável, nem móvel,nem muda de formas nem vai comigo onde o convido. Talvez quisesse o homem fugir do cimento. 15
  12. 12. Do alto do prédio-cimento: para o baixo da rua-cimento. Um choque entre dois cimentos distantes e delatores; que nem o ventoconseguiria suavizar. Igual me contorcia para vê-lo, torcia para que se fosse. Se fosse logo.Para qualquer. Não queria que fosse para fora, alguns segundos andares abai-xo. Mas coçava-me para ver isso. Queria. Por quê. Queria? Eu sabia que isso mais cedo ou mais tarde aconteceria. E sentia queele, lá dentro da sua ausência, também disso sabia; ficaria lá então a cornetearminha paciência e minha fome de vê-lo espatifar-se no chão. Sentia que elesabia de tudo; e que estaria esperando um lapso de atenção minha para des-pencar lá de cima. Assim, ele me venceria. Assim eu pensava. Pensava. Pensava. Na real, eu não pensava. Eu estava é cansado. Sei agora que ele jamaisvenceria, nem eu jamais venceria, pois luta nenhuma estava sendo travada. Talvez por isso eu ainda sinta raiva dele, de sua capacidade de ser nada.De aparecer e sumir e desembarcar em minha mente a cada instante que olhoo topo vazio daquele edifício. E de ser o que bem entender. Foi vento quando pisquei os olhos. Foi pluma na imensidão dos segun-dos em que os mantive fechados. Foi pedra quando os abri. E espalhou-se empedaços de mim quando o vi na calçada. Braços estendidos, pernas descan-sando, dentes a correr soltos a se perder de vista. Era tudo dele que sobraradepois da minha distração. A essa hora, muitos pararam para ver. Polícia rodeou. Dondocas colo-caram os indicadores na testa, depois foram tomar café. Crianças juntaramalguns dentes. Todos o estavam vendo. Todos. Mas havia uma coisa que só eu ainda percebia. Sua cara de deboche. Seus olhos de vão se fu. Seu vento que abrisava de cima a baixo a lateral do prédio sem pontenem lei. 16
  13. 13. Respirei. Respirei. Fazia horas que não o fazia. E, então, lá de cima, também deixei-me despencar. Mas despenqueiapenas os joelhos à cama. Os olhos para dentro. Os pensamentos para nada. E, depois de não conseguir ficar encamado, fiz o mesmo trajeto que ohomem, rumo ao cimento da calçada, porém, de elevador. Era a primeira vez que pisava a calçada naquele dia, e era já fim de dia.Não fora por falta de tempo que não o fizera: nem por falta de vontade. Foi porfalta de olhos. Vi o homem lá no chão, espatifado. Carregava a mesma expressão denada. Vazio-cheio-de-mundo. E eu cheio-de-olhos-de-todos. Não pude evitar que me olhassem. O soljá se tinha ido e o dia era noite escura. E na penumbra apareciam dezenas depares luminosos de olhos de todas as cores. Zombeteiros-inquiridores. Queria evitar de ver os olhos. Mas, para isso, deveria olhar o homemacimentado ao solo. Já o havia olhado durante o dia inteiro e isso já era de-mais. Para talvez ser agradável àquela multidão faminta de mim, abri aboca: “Sim, eu vi”. Os olhos entreolharam-se, vesgando-se. “Vi tudo, desde sempre”. Desvesgaram-se na minha direção. “Desde manhã cedo, tomava vento e estava surdo”. Ao princípio senti medo dos curiosos que bebiam a minha própriacuriosidade. A curiosidade que eu bebera durante o dia todo. Eles tambémqueriam. E eu não sabia por quê. Abaixo dos olhos, apareciam gargantas:abrindo-fechando. Mas eu nada ouvia. Só as via. Acho que eu não sabia onde estava, nemo que eu era. Talvez o cimento me pregasse as pernas como o homem me 17
  14. 14. pregara os olhos. Então deixei-me derramar, cimento-líquido, e escorri junto ao corpodele. E, como o dia inteiro, quis chegar perto, quis gritar, e não fui ouvido,desta vez ia na direção de um caminho que eu conseguia dominar. Escorri-mesobre as lajes, untadas por cimento seco, escorri-me sobre alguns pés curio-sos. Escorri-me, sob alguns pisões. E, de escorrência em escorrência, chegueifinalmente onde os olhos não mais me incomodavam; onde o vento não so-prava. Toquei-lhe os pés e nada senti. Agregaram-se a mim-à-calçada. Sentipor bem tocar também as pernas e agreguei-as também, misturadas com umafúria de submundo que emergia em torno. E cheguei às mãos secas, apertei adireita com a minha, porosa-suada. E deixei-me ir a cobrir mais o seu corpo,ventre-peito-tronco. E fiz força para não torcer-lhe a garganta. E fiz força paranão furar seus olhos, mas estavam fechados-fechados. Fechados. Ele que tivera tantas imagens para ir ver. Estava lá, de olhos fechados.Um deles esmagado por uma nesga de pedra. E a boca mordia a língua; estanunca nada falava, podia ser engolida. Antes de cobri-lo por completo, repareiúltima vez nos seus cabelos. Estáticos. Sem vento que os levasse. Então, deiuma leve soprada: agitaram-se o suficiente. E escorri-me, em cimento, paraque ninguém mais visse vestígio dele na rua. 18
  15. 15. Menção Honrosa Categoria Nacional Belo Horizonte - MG Di-lis José Carlos Barbosa de Aragão N o tempo – dele, Jão – de escolher moça pra compromisso, escolheu Di-lis, a mais desejada. Escolha do comum acor- do das partes, que já dividiam rabos-de-olho esconsos; edas famílias. Ele, forte, garboso, cabelo domado a poder de brilhantina, cara qua-drada, de homem-homem, braços que faziam suspirar as casadoiras de aquia acolá, no longo de todos os caminhos conhecidos. Di-lis não deixava pormenos e, por ela, também suspiravam outros olhares cobiçosos, esses, de semeterem no vau profundo daquele colo farto, e daquelas ancas convidadeirasfeito as grunas da cachoeira na estiagem, onde o pacu-de-corredeira era pegode mão. Menina ainda, ind’antes da primeira volta-da-lua, já lhe crescia os olhoso Acúrcio, moço já-feito, passado, talvez, um tanto da idade de augurar prendatão jovem. Di-lis, extraindo do olhar do coitado sua vontade represa, tripudiouo que pôde, acalentando falsas esperanças – que, toda vida, o mancebo nãolhe apetecia. Por gosto, só. Outro – esse, com ela, regulava idade – mais ela até se engraçaram,quando nele já desciam os grãos e nela os pomos se insinuavam, divisandoum novo tempo. Não vingou, que ele, com a família, tomou o trem, foi veroutras terras e por lá ficou e fez filho e fortuna, longe. Pretendentes, a ela não lhe faltavam, uns declarados, outros recatados;uns falados e conhecidos, outros à moita; mas todos querendo a mais-flor, a 19
  16. 16. de-lis, Di-lis – a única. Ela seguia adiante. Desfeiteava. Uma primavera: desabrochou. Temporã. Feito fosse outono. Flor ma-dura: fruta. E Di-lis, sabida requerida e desejada, inchava os ares de fruta devez, mais, carnuda, suculenta. Casou de ser a hora de Jão, o também cobiçado galo do terreiro. Ela osabia de-ver, vez a vez, em festa de coroação e quermesses no largo da igreja;e dos comentários das outras, cada qual sonhosa de lhe servir até que a morteos separasse, mediante jura de altar. Tão desejado assim, quanto ela, havia deser aquele, então. E foi que ficou sendo ele, o escolhido. De resto, foi o tempo de se cruzarem em folguedos na praça, festas desanto e logo o fogo pegar: os dois se assoprando e revirando o próprio carvãoem brasa, em furtividades no oitão da igreja ou trilha pra cachoeira, beirandoa linha de trem... De parte a parte, celibatários e virgens disponíveis – o noivado anun-ciado e os proclamas correndo – agora resignados, buscaram consolo emnovenas, rezas, promessas e, há quem não confirme, mas... trabalhos de en-cruzilhada, até. Juntaram as tralhas numa casinhola retirada, de onde, muitas vezes,o sôfrego amor uivava e ria e pedia mais até de manhãzinha, ao testemunhode quem passava, rumo da roça ou pra abrir o comércio. Eram felizes e semereciam e se fartavam de suas forças e belezas mútuas. Usufruto do quedesejaram, reciprocamente – razão de desfeita aos outros moços e moças des-providos dessas virtudes naturais, de fachada. Tanto empenho e lhes vieram os filhos, em pencas, entra ano, sai ano,sem saltar. Onze, os que vingaram. Um morreu, afobadinho, chutador, na bar-riga de Di-lis; outro, de descuido em barranca de rio. Jão acusou mais o golpe. Descuidou-se da aparência, largou mão dabrilhantina, rápido encarquilhou-se. Pegou a beber e nunca mais se aprumou.De Di-lis, dispensou o chamego, as desavergonhices consentidas, os incêndiosde cada noite, nos lençóis de cassa alva. Não que tivesse outra: esfriou tão- 20
  17. 17. somente. Já da idade, seria. Ou tristeza, puramente. Di-lis não entendia. Culpava-se de não sabia o quê. Teria ficado velhae feia, sem atrativos? O espelho a enganava, talvez, já que ainda a refletia comtalhe de louça fina, valiosa e rara. O colo não era o mesmo, depois de tantosanos e filhos, mas não havia mais moças em pior estado, enfim? Cintura, ca-deira, coxas não exerceriam mais o poder de outrora? Não duvidava que assimfosse – nem cria. O caso é que o golpe que ela sentiu mais foi nem o de perder um filhopras águas, mas o de perder Jão, que lhe fugia como areia fina no espaço doentre os dedos. Perder Jão era mais que só perder Jão: era perder a confiançaque sempre tivera em si e em seus talentos e beleza de fêmea sonhável. E porquê? E como? Perdera, ela, o viço, devagarzinho, aos bocados, a cada barriga, acada bolsa que rebentava, a cada safra de colostro? Ou fora o eito da casa, criarmenino, dar comida, colo e roupa, o ramerrame de mãe, sem termo? A relembrança da juventude a levava à incerteza do hoje. Era fatal queo tempo lhe roubasse seus encantos, mas ela não se preparou para aquilo:perder o poder que teve, nato, dádiva de Deus. Cresceu-lhe uma vontade deconfrontar o espelho com a verdade à vera, mostrar a ele que outros aindahavia capazes de desejá-la, com a volúpia dos anos idos, com o ardor mesmoque Jão. Testar-se? Que fosse. Oferecer-se a outros – que Jão, por tudo e tudo, não merecia – e com-provar-se ainda cobiçável? Oferecer-se só até o limite de saber, ter a prova, esair limpa, para um sempre ainda possível desfrute de Jão, tardio? Decidiu-se, enfim, um dia. Fim de tarde, os meninos todos em casa de vó, Jão largado no mundo,nas erranças dele. Meteu-se num vestido antigo, discreto, de alça larga e bo-tões na frente, forrados de igual fazenda, do decote à barra, poucos, fácil de selivrar. Recendia um perfume distante, quase esquecido. Tomou rumo diverso do arruamento principal, subiu uma encosta demorro por trilhas entre restos de mata e pasto, deu a volta, desceu, subiu de 21
  18. 18. novo. Encontrou os vestígios do caminho antigo do trem, que, agora, passavaao largo, numa linha nova, de contorno, longe das casas da vila. Nem estação,parada, ali tinha mais: passageiro mesmo, só de passagem, no saracoteio dotrem entre morro e mata, afastados. Seguiu até encontrar os novos trilhos, noponto mais fechado da curva, parte rasgada em rocha bruta em explosões quese ouviram longe, tempos atrás – lembrava-se. Uma pedra grande, esquecida,restou em área terraplenada, a poucos metros dali, plataforma de observação,elevando-se a dois metros, se muito, em fácil escalada. Subiu. E esperou. O trem apitou ainda longe, confirmação de que lá vinha, fiel. Regateouna subida, um pouco, mas logo despontou na curva, já descendo na carreira,no rumo da pedra grande restada – Di-lis em riba dela. Di-lis em riba feito um anjo, miragem. Os braços, abertos; mãos esten-didas, dadeiras; os pés, firmes, plantados na rocha; o olhar revirado brancoentre cortinas baixando como quem recebe amante convidado. Os cabelos,deixou-os cair, soltos, sobre os ombros, e dançavam de par com o vento. Eainda: o colo, o ventre, pernas... e o mais. Durou pouco, tudo. Uma passada de trem, em comboio de catorze,quinze vagões – se muito. Mais tarde, em casa, Di-lis, exalava ares de felicidade, de novo segurade que ainda lhe restava algum verdor, de que era, enfim, capaz de despertardesejo e, quiçá, paixões. Ainda sentia na pele o conforto revivaz do fresco toquedos olhares dos mais de cem que a viram e cobiçaram, naquela tarde, reluzen-te, nua total, no alto da pedra grande. Flor-de-Lis Maria. Di-lis. Dilícia ainda, aos olhos dos homens nas janelas e varandas do ladoesquerdo do trem, naquela tarde sem par, sequiosos. A Di-lis, a certeza lhe valeu para o resto de sua vida toda. Podia dormirem paz, segura. Jão, nem nunca que ficou sabendo. Nem ninguém, na vila. Miragem depassageiro, na certa. 22
  19. 19. Menção Honrosa Categoria Nacional Porto Alegre - RS O Assessor Guilherme Azambuja Castro A ntes de conhecer o doutor Herculano, meu ofício era tomar mate com halls na praça, todo santo dia. Acordava seis, seis e meia, punha a chaleira no fogão, limpava a bomba comum grampo espichado, deixava a erva inchar na cuia, tudo preparado pra ver oBom Dia Rio Grande tranquilo; oito, oito e meia, saía. Até a praça dava o quê?,quatro, cinco quadras. Passava na padaria e comprava um pacote de halls pre-to – gosto de chupar halls e tomar mate, dá um choquezinho dentro da bocaque é bem bom –, daí tomava meu mate olhando o movimento. Quando nãotinha mais bala pra chupar, ia pra casa. Fritava um bife, cozinhava arroz, al-moçava tranquilo. Matava duas cumbucas de arroz-de-leite e voltava à praça.Tudo normal. Defronte à Câmara de Vereadores de Canoa Branca tem um banco, alieu sentava. Via a chegada dos vereadores, quando tinha sessão. Quando nãotinha, assistia a chegada dos funcionários, dava no mesmo; importante im-portante era o movimento. Certo dia, o Beto, um vereador que fazia questãode ir de bicicleta pra Câmara – tá que o partido proibisse mostrar carro nafrente da Câmara, mas ele que era exibido – me disse que o doutor Herculanoqueria gente pra assessor. Não que precisasse de dinheiro, tenho uma casinhaalugada que me basta, todo caso fui até o gabinete do doutor e perguntei sobreesse negócio de ser assessor. Fez uma cara de agora é que me lembro e me mandou ficar à vontade.Sentei. Abri a mateira. Sevei um mate. 23
  20. 20. “Sabes bater à máquina, Brizola?” Me chamam assim pelas sobrance-lhas, sempre esfiapadas. “Com um dedo, doutor”, fui sincero. “Me conta das tuas experiências, então”, ele prosseguiu. “Olha... Ultimamente tenho mais é tomado mate na praça, doutor.” “Então és um AMH.” “Sou?” “Analista de Movimento Humano”, me explicou o doutor. “Sim, claro”, achei interessante essa coisa. “Joice, me tira um coelhinho da cartola, sim?”, pelo telefone, ele pediuà secretária, que logo apareceu com uma folha datilografada. “Assina aqui, meu assessor”, me disse ele, riscando um xis no pé dapágina Termo de Posse, dizia. Assinei. “Agora espera que eu te chamo, tá?”. Queria saber do salário, quanto era, mas como ele não tocou no assun-to, e nem eu, ficou por isso. Voltei à praça, tinha a térmica ainda pela metade, isso dava o quê?,cinco, seis mates. Dia seguinte: seis, seis e meia, acordei. Aqueci água, pus erva pra in-char, limpei a bomba, Sidney Sheldon na mateira; pra mim, escritor é SidneySheldon; vi o Bom Dia Rio Grande tranquilo: ia chover em Pelotas. Bom, oito,oito e meia, saí. Tudo normal. Sentei no banco e logo vi o doutor Herculano chegar à Câmara. Gritei:“Ô, chefe!” Com as mãos, me mandou esperar; o portão, que fechava sozinho,me foi retirando o doutor de vista. Pensei: bom, mas que sou assessor, issoeu sou, pra mim papel assinado é o que conta. Segui tomando meu mate echupando halls. Por um mês, mais ou menos, eu gritei “ô, chefe!” quando via o doutorchegar à Câmara; e ele, com as mãos, me dizia: “calma, Brizola!” 24
  21. 21. Um dia, tomava meu mate e lia Sidney Sheldon bem na parte dumincêndio alucinante quando ouvi ele me chamar. Fui até o gabinete. “Grande Brizola!”, me recebeu com festa. “Joice, traz uns coelhinhos,sim?”. A Joice trouxe. Três. Desenhou o mesmo xis no pé das folhas: Folha-ponto, dizia. “Assina aqui, meu assessor!”. Assinei. “E aqui.” Assinei. “Mais aqui.” Tudo assinadinho. “Te chamo em seguida, fica tranquilo”, ele disse, e já me deu as cos-tas. Mas continuei ali, parado, esperando alguma ordem, sei lá, alguma coi-sa. Então ele tapou o bocal do celular e disse vai embora com outras palavras:“Fica tranquilo!”, foi o que ele disse. De fato fiquei, pra mim papel assinado éo que vale, e nesse dia assinei três coelhinhos. Não sou de me queixar, mas teve a primeira vez. É que fim do mêsrecebia em casa dez pacotes de erva-mate e cinco de halls como salário; con-seguia me manter o quê?, vinte, vinte e um dias, nem isso. Fui ao gabinete. “Tá me faltando erva, doutor”, desembuchei, todo corajoso. Foi maisfácil que pensei: me deu um aumento na hora; fecharia os trinta e um diasfolgado; a partir daí, mês de trinta sobrava o quê?, um pacote inteiro de erva.Ganhando mais, hora de mostrar trabalho, pensei. O gravador eu já tinha, um portátil da Gradiente; o crachá, mandeiimprimir colorido na Canoa Press. Ficou assim: AMH em cima, Assessor em-baixo, num canto a minha foto três por quatro de terno e gravata. A partir daí,se perguntassem qual era o meu ofício, eu respondia: sou assessor do doutorHerculano, e ainda mostrava o crachá pra quem não acreditasse. 25
  22. 22. Um dia o doutor mandou dizer pelo Beto que era pra eu me tocar aPelotas. Me entregou um celular e uma cartola cheia de coelhinhos, Missãode Estado. Cueca, meia, camisa, calça de brim, japona, três ou quatro potes deMinancora – pra mim, desodorante é Minancora –, joguei tudo na mala; amateira já carregava, e o crachá: raramente tirava do pescoço. “Mando teu salário pelo ônibus, fica tranquilo”, me disse o Beto. Fiquei mesmo. Entrei no Embaixador. O ônibus não passava de oitenta, isso dava oquê?, três horas, três horas e meia até Pelotas. Ultrapassado o pórtico de CanoaBranca, os campos de arroz surgiram no para-brisa, um verde uniforme lindode se ver; nessa hora senti pena de, por causa do meu novo ofício, ter de sairde lá, eu que só deixei a cidade uma vez, quando precisei trazer uma tia-avóde Camaquã e fui dar em Jaguarão. Todo caso, vida de assessor é assim, dura,devia eu desconfiar. Passando o Texaco, fechei a cortina, começava eu a sonhare um piparote do cobrador me acordou. “Já estamos chegando?”, perguntei, meio dormindo. “Vai pra onde, Brizola?” “Pelotas”, respondi. “Nem do Taim passamos”, ele respondeu. “São vinte reais”. O doutor havia me dado o quê?, cem, cento e vinte, mais umas quantasbolsas de supermercado com erva e halls. Um adiantamento, exigência mi-nha. Paguei os vinte e virei pro lado. Tranquilo. Pelotas, como toda cidade grande, tem mais auto que gente. Na rodoviá-ria é uma quantidade de táxi esperando, realmente, que tu pague uma fortunapra meio-metro de corrida. Me nego. Mesmo. Dar dinheiro eu pra taxista? Saía pé e achei o Naite Pelotense, um hotel em conta, pegado à rodoviária, bembonzinho: quinze cruzeiros o pernoite, direito a café da manhã e tudo: pãotorrado, café preto, iogurte e uma banana. (Quando que eu ia tomar iogurte,e de garrafinha?) Paguei dois pernoites adiantados à Baronesa, proprietáriae moradora do Naite. No quarto, escondi a cartola mais a mateira dentro do 26
  23. 23. boxe, por segurança. E fui dormir com o celular preso ao elástico da cueca,também por segurança; pânico de cidade grande. Seis, seis e meia, levantei. Crachá no pescoço, gravador com pilha novaque era pro relatório não desandar na minha primeira manhã pelotense. Nãovi o Bom dia Rio Grande – no Naite só tinha rádio –, tomei café, iogurte, eescondi a banana na mateira, pra mais tarde. Oito, oito e meia, perguntei àBaronesa onde era a praça da cidade. “A mais próxima?”, me perguntou. “Ah, tem mais de uma...” “Olha, daqui? Umas doze quadras”. Coisa muito complicada, e longe, quase que uma Canoa Branca inteira.Resolvi relaxar. Sentei na frente do hotel numa cadeira de praia. Sevei o mate.Logo a Baronesa abriu outra cadeira ao lado. “Posso?”, perguntou. E eu vounegacear? Cevei um mate pra ela. Dia seguinte cevei outro. Fui cevando, ce-vando, todos os mates que ela pedia eu sevava. Às vezes colocava capim cidróna térmica, só porque ela pedia; tava em Pelotas mesmo... Nenhum conhecidovendo é a conta; porque pra mim, mate, só com halls. Mas tinha uns olhospuxados, a Baronesa, tinha uma boca graúda ela, uma bunda que me seguravapra não beliscar quando passava rebolando. A gente foi se conhecendo melhore, no decorrer do quê?, mês, mês e meio, já chamava ela de Barô, só Barô. Com mulher no meio a coisa fica mais profissional, organizada, é ine-vitável isso. Foi ideia dela: passar a limpo e fichar os relatórios em pastinhas:por turno, dia, mês, ano. Foi ideia minha: fixar uma placa de bronze na frentedo Naite: Unidade de AMH, dizia. Ela que pagou. Outra ideia, nossa: grampearcartões de visita nos recibos dos hóspedes, que, aliás, eram praticamente dois:seu Alexandre, vendedor itinerante de alpargatas, e eu. Resgatamos uma escrivaninha de compensado abandonada no porãodo Naite. Duas, três pinceladas de tinta branca, ficou como nova. Placa naparede, cartões na praça, unidade pronta. Tirei então da cartola uns quantoscoelhinhos pra Barô assinar. “Que que é isso?”, perguntou. 27
  24. 24. “Fica tranquila”, eu disse, “é coisa séria”. Beijei a testa dela. Ela amole-ceu e começou a assinar, um por um, como uma boa fêmea deve ser, obedien-te. Todos devidamente assinados, tomei-lhe os coelhinhos e guardei na cartola.“Te ligo em seguida, minha assessora”, disse, apressado, porque o Embaixadorsaía em quê?, uma hora, hora e meia no máximo. Saí a pé; táxi me nego. 28
  25. 25. Menção Honrosa Categoria Nacional Rio de Janeiro - RJ Os meninos João Paulo Vaz N enhum de nós sabe com certeza como e quando os meni- nos começaram a aparecer. Foi durante uma daquelas tréguas que podiam se estenderpor semanas ou meses. As tréguas eram cada vez maiores e sempre bem-vindas. No início, descansávamos, lubrificávamos as armas, remendávamosuniformes. Deitávamos na sombra e a satisfação de continuar vivo nos engor-dava. Depois, vinham o tédio e a preguiça. Quando me dei conta da presençaconstante dos meninos, essa fase já havia começado. Nem é preciso dizer que nosso acampamento não é lugar para crian-ças. Na verdade, não é lugar para ser humano algum, só nós mesmos, que nãotemos outra escolha e já quase deixamos de ser humanos. O normal teria sido expulsá-los. Mas o comandante não se mexeu eninguém se sentiu na obrigação de tomar a iniciativa. Iniciativas de qualquertipo eram cada vez mais raras entre nós. A série infindável de pequenas vitóriase derrotas sem consequência havia acabado com a esperança e o medo quenos faziam bravos. Ninguém mais esperava vencer essa guerra que se diluiu notempo, na inutilidade dos tiros sem alvo visível, na falta de sentido das mortesaleatórias. O fato é que, mais por inércia nossa que por qualquer outra coisa,os meninos foram ficando. Dormiam junto à porta da cozinha, comiam os restos da nossa comida,faziam pequenos serviços – apanhavam água no poço, lavavam as panelas,matavam ratos. A matança dos ratos foi o que primeiro me fez prestar atenção 29
  26. 26. neles. Passavam horas imóveis, atiradeiras nas mãos, espreitando a caça. En-tão um deles esticava devagar a borracha, soltava e, de algum canto escuro, umguincho de desespero anunciava a precisão da pedrada. Lembro bem da tarde em que eu me debatia num sonho especialmen-te mórbido. As imagens eram as de um filme antigo, mudo, em preto e branco.Estávamos num pântano, cercados pela fuzilaria inimiga. Balas e granadassilenciosas nos arrancavam pedaços, mas ninguém morria nem se importavamuito, apenas continuávamos a chafurdar na massa escura onde já não erapossível discriminar o sangue da lama. De repente, um silvo intermitente dealarme de bombardeio quebrou o silêncio do sonho. Acordei assustado. A meulado, aos guinchos, uma ratazana arrastava desesperada a coluna partida e osquartos traseiros paralisados. Antes que eu acabasse de entender o que acon-tecia, um dos meninos surgiu na minha frente e esmagou a cabeça do bichocom uma pedrada de misericórdia. O que me surpreendeu naquele dia foi a expressão do olhar dele. Desatisfação com o próprio poder. Durou talvez uma fração de segundo, e imagi-no que só a percebi porque, mal acordado, eu me achava naquele estado emque a intuição ainda não está submetida à razão. A surpresa não foi tanto pelaexpressão em si, mas por reencontrá-la justo no olhar de um deles. Desejode poder era um sentimento que ninguém ali experimentava havia tempo. E,nos olhares dos meninos, até então, eu só tinha percebido a fragilidade dosfamintos, a paciência com que esperavam os restos das nossas refeições, asubserviência com que lavavam as panelas. A trégua se prolongou além da nossa capacidade de contabilizar otempo. Durava tanto que, embora ninguém o dissesse nem a si próprio, jácomeçávamos a dar a guerra por encerrada. Prova disso era o desinteresse pe-las armas empoeiradas, amontoadas num canto. De vez em quando, alguémlembrava que era preciso lubrificá-las. E ficava nisso. Até que um dia, ao acor-dar de manhã, dei com um dos meninos desmontando o fuzil do Gomes. “Tafazendo o que aí?” – perguntei. “O Gomes mandou”. Achei estranho. Ninguémali mexia em arma de ninguém. Aquilo mostrava a que ponto tinha chegado 30
  27. 27. nosso desleixo. Decidi falar com o Gomes ou com o comandante, mas, comoos dois ainda dormiam, fui tomar café e acabei me esquecendo do caso. Nos dias seguintes, alguns meninos desmontaram e lubrificaram ou-tros fuzis. “O meu pode deixar que eu mesmo faço” – avisei. Mas continueiadiando a tarefa e, uma semana depois, quando percebi meu fuzil tão limpoquanto os outros, não me animei a reclamar. A verdade é que meu interessepor ele, àquela altura, era nenhum. Pouco tempo depois, num final de tarde, eu acompanhava o percursode uma ratazana, à espera da pedrada que a abateria. Atrás da cozinha, haviaum muro baixo sobre o qual se erguia outro mais estreito. A ratazana vinhapelo degrau formado entre o topo de um e a base do outro. Protegida pelasombra, dava alguns passos em direção ao latão de lixo da cozinha, parava,fareja o ar, dava mais alguns passos. Sentado ao lado do latão e encostado nomuro, aproveitando ele também a proteção da sombra, o Batista se masturba-va. A ratazana vinha pouco acima dele. “Vai cair na cabeça do Batista” – penseiquando ela parou, levantou o focinho mais uma vez e eu esperei ouvir a retra-ção do elástico de uma atiradeira. Mas o que se escutou foi um tiro de fuzil. O impacto da bala jogou a ratazana para cima. O corpo se esborrachoucontra o muro e caiu despedaçado na cabeça do Batista, que, no susto, saltoude onde estava, e, saiu tropeçando na calça arriada. Aquilo tinha ultrapassado qualquer limite e a única atitude razoávelera chutar todos os meninos fora do acampamento no mesmo instante. Maso batalhão inteiro explodiu de rir com a cena do Batista, aos tropeções, carae peito salpicados do sangue da ratazana, tentando suspender a calça. Nossasgargalhadas desarmaram sua fúria e ele não fez mais que arrancar o fuzil dasmãos do menino e berrar meia-dúzia de palavrões. É curioso o modo como as mudanças acontecem. Embora, entre oinício daquela última trégua e agora, o batalhão e a própria guerra tenhammudado radicalmente, não é tão simples entender como e quando o processose deu. Mas ter permitido o acesso dos meninos às armas foi, sem dúvida, um 31
  28. 28. divisor de águas. Desinteressados de um poder que não nos levava a lugar algum, dei-xamos que os meninos o exercessem. O poder das armas. No que passaram aandar de fuzil a tiracolo, eles foram mudando de atitude. Não esperavam maisos restos das nossas refeições. Comiam junto. Não lavavam mais as panelas,não apanhavam água no poço. Promoviam caçadas coletivas em que algunsmeninos revolviam o lixão enquanto os outros alvejavam as ratazanas em fuga,e nós éramos obrigados a buscar proteção contra a fuzilaria. De vez em quando um de nós protestava, mas sempre esperando queos outros assumissem alguma atitude, e a reação não passava disso. O co-mandante não dava uma ordem havia tanto tempo que ninguém mais tomavaconhecimento dele. Quando, durante uma das caçadas, uma bala ricocheteouno muro e atravessou sua cabeça, encaramos o fato como um acidente, nadamais. Enterramos o corpo sem qualquer cerimônia especial, exceto por umasalva de tiros que os meninos resolveram disparar. Hoje entendo que, num ambiente como o nosso, as armas – sejam elasfuzis ou atiradeiras – são a principal fonte de virilidade e energia espiritual.Sem elas, chafurdamos no pântano da indolência. Não acho que isso expliquetudo. Mas o fato é que, dias atrás, quando a trégua afinal terminou, continua-mos lavando panelas. Da guerra se encarregam agora os meninos. 32
  29. 29. Menção Honrosa Categoria Nacional Campo Belo - SP Ana Dorme Marcelo Campos de Lilla “A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores” Marcel Proust; No Caminho de Swann E u gostava de olhar Ana dormir. Seu contorno suave, esculpido pela lua na janela, era para mim um litoral conhecido. Muitas noites eu adormeci perdido nas areias doces de suas praias,sem querer me lembrar que toda felicidade é efêmera. Aqueles foram anos de indolência. De preguiça. Anos arrastados e fe-lizes. Até estranho pensar que morávamos em São Paulo, nesta mesma SãoPaulo tão rápida, imediata e urgente de hoje. Para mim, aqueles dias sempreterão se passado num plano histórico e geográfico completamente à parte, umparêntese na vida, como se houvesse uma barragem capaz de represar o riodo tempo. Não se trata de nostalgia, de “como éramos felizes quando jovens”,nem nada disso. Se minhas memórias daquela época estão tomadas de tonsleves e pastéis, onde tudo se desenrola num ritmo lento, de sonho, submarino,é apenas porque Ana projetava isso ao redor de si. Sua beleza, ou sua presença,sempre teve a capacidade de distorcer todo ambiente, derreter os relógios, do-brar a realidade e, por consequência, qualquer memória dessa realidade. Hoje sou um homem amargurado, talvez por ter passado anos demaisprocurando Ana em outras mulheres. Mas nem sempre fui esse homem depedra, nem sempre tive essa rispidez nas respostas ou essa curvatura precoce 33
  30. 30. no caminhar. Isso é coisa recente, mas também não importa. Esta história nãoé sobre quem eu sou, mas sobre quem eu deixei de ser. Não tem nada de mais na maneira como eu e Ana nos conhecemos.Amiga de um amigo, um chopinho aqui, um cineminha ali, quando dei pormim, estávamos dividindo um pequeno apartamento no centro da cidade. Naépoca, eu ainda era um aspirante a escritor, ainda vivia naquele mundo perfei-to e romântico que todo escritor iniciante habita antes de se tornar famoso ousucumbir às amarguras do fracasso. Era eu, Ana, minha máquina de escrevere nossa cama. Na maioria das vezes, tudo isso ao mesmo tempo. De vez emquando, eu passava dias inteiros deitado na cama, com a máquina apoiada nabarriga, consumindo um maço de cigarro atrás do outro. E Ana ficava sempreali, ao meu lado, lendo e opinando sobre o que eu escrevia, zombando demeus erros de digitação ou da pieguice de algumas passagens. Não lembrodo que nos alimentávamos ou como pagávamos nossas contas naqueles dias,mas hoje sei que, para mim, aquele quarto desarrumado foi o mais próximodo paraíso que eu jamais conseguirei chegar. Se Deus existe, ele sabe quanto tempo eu passei tentando entender osmotivos que me levaram a fazer o que eu fiz. Talvez eu simplesmente não sejatalhado para a felicidade, afinal. Mas quanto mais eu penso, mais me convençode que eu me apavorei. O velho clichê do covarde inseguro que rejeita para nãoser rejeitado. Às vezes acho que ainda vivo preso dentro daquele momento,aprisionado naquele exato instante em que, sob a soleira da porta, carregandoa maleta com a máquina de escrever e nada mais, eu olhei para ela uma últi-ma vez. Dali da porta, estirada sobre a cama, confundindo-se aos lençóis, elaparecia um anjo com asas de linho branco. Adormecida, seus traços revelavamuma inocência e uma pureza que ela disfarçava habilmente quando estavadesperta mas que nunca falhavam em me comover. Acordada, Ana era umaexplosão de vida, uma daquelas pessoas que se tornam o centro iluminado detodo lugar por onde passam. Mas era observando o seu sono que eu sentia querealmente a amava. Quando ela dormia, eu recebia acesso exclusivo a umaoutra Ana, e era como se só então eu a possuísse de verdade. Provavelmente, 34
  31. 31. era meu ego covarde e inseguro me dizendo que aquela era a única forma deAna se tornar previsível, sob controle, diferente da mulher impulsiva e cheiade surpresas que ela era durante o dia. Mais de vinte anos depois, ainda nãosei dizer de onde tirei forças para me voltar e partir, fechar para sempre aquelaporta, mas foi o que eu fiz. Cada segundo que se seguiu depois disso foi comoa reverberação daquele momento, como as ondas circulares na superfície dalagoa depois que a pedra afunda para sempre na escuridão submersa. Cadalivro que eu lançava, cada linha que eu publicava, era para ela que eu o fazia.Tentava escrever como se ela ainda estivesse ao meu lado na cama, retirando,com seu riso provocativo e brincalhão, as folhas da máquina enquanto eu ain-da datilografava. Imaginava se ela acompanhava minha carreira, se compravae lia os livros que eu escrevia ou se ao menos os folheava desinteressadamentenas livrarias, pensando que eu havia, enfim, conseguido me tornar um escri-tor. Eu estaria mentindo se dissesse que nunca voltei a procurá-la. Mas,quando me decidi por finalmente ir atrás de seu paradeiro, já era tarde. Nin-guém sabia dizer ao certo o que havia sido feito de Ana. Diziam que havia semudado para Nova York ou Paris e que morava com um artista plástico derenome, com quem havia tido um filho. Outros diziam que ela se afundara nasdrogas ou que tinha se tornado puta. Existia até uma versão em que ela haviapartido para a Índia e encontrado a iluminação e a paz na meditação transce-dental. Eu sabia que nada disso era verdade, ou pelo menos não inteiramenteverdade. Foi apenas há cerca de um ano e meio que eu voltei a ter notíciasde Ana. Quando li seu nome no jornal, soube imediatamente que se tratavadela. Ela tinha dois sobrenomes que eram bastante incomuns, o primeiro eraitaliano e o último lituano, e a chance deles aparecerem combinados ao nomede outra Ana era mínima. Não vou revelá-los aqui, em respeito à privacidadede Ana e sua família, mas sempre achei que do inusitado casamento dessessobrenomes resultava uma sonoridade bonita e exótica. O jornal dizia que elae uma amiga haviam se envolvido num acidente de automóvel quando volta-vam de uma viagem, no final do mês anterior. A notícia, na verdade, era sobre 35
  32. 32. a amiga de Ana. Após duas semanas internada e múltiplas cirurgias, ela nãoresistira aos ferimentos e acabara falecendo. Falência múltipla dos órgãos, oucoisa que o valha. O repórter terminava o pequeno texto mencionando rapida-mente que a pessoa que dirigia o carro no momento do acidente, a empresáriaAna C**** P****, de 49 anos, permanecia em coma num hospital de SãoPaulo e respirava sem a ajuda de aparelhos. Não sei quantas vezes eu reli aque-la notinha. O nome, a idade, tudo batia. A certeza de que se tratava de Ana eraabsoluta. Aparentemente, eu a havia encontrado, enfim. Por alguns dias, fiquei absolutamente perdido, sem conseguir desviarmeus pensamentos do fato de que Ana estava num hospital a poucos quilô-metros de distância. Exaltado e ansioso, eu elocubrava mil cenas imaginárias,pesando em minha mente se devia ou não ir visitá-la, afogado em labirínticasargumentações silenciosas. No final, lógico, acabei indo, alguns talvez disses-sem que em busca de algum tipo de redenção, mas todo o tempo eu soubeque o que me movia era a simples perspectiva de vê-la novamente, de re-pousar o olhar sobre seu rosto, como se ele fosse um oásis para meus olhossedentos. Os anos passaram e eu não fiquei menos covarde por isso; admitoque só criei coragem para ir vê-la no hospital por saber que ela estaria desa-cordada, que não haveria possibilidade de confronto ou reconhecimento. Aconsciência de que ela estava deitada, adormecida, da mesma forma como eua havia deixado tantos anos antes, tornava a atração irresistível. Acho que nãohouve nada que eu tivesse desejado mais em todos aqueles anos do que podervoltar a contemplar o sono de Ana. E agora isso me era oferecido livremente,sem que existissem as desvantagens de um reencontro amargo, sem a aspere-za característica dos amores que ficaram para trás. Ver seu rosto de porcelanamergulhado num sono calmo e profundo, sem que para isso fosse precisorealizar a exumação de nosso relacionamento, inventariar antigas culpas oujustificar o injustificável. Levei comigo um vasinho de flores só para ter algo nas mãos ao entrarno quarto. É sempre complicado o protocolo das visitas hospitalares, princi-palmente quando a única pessoa que você conhece está num coma profun- 36
  33. 33. do. Não vou me alongar em detalhes da visita, mas posso dizer que foi umbaque. Deitada sobre a cama estava uma mulher de meia-idade, de cabeloscortados bem curtos e pintados de acaju. Achei primeiramente que aqueleinchaço fosse decorrente de alguma medicação, mas logo percebi a papadaque pendia de suas faces e a pele molenga de seus braços e cotovelos. Aquelasenhora podia ser uma síndica, uma bibliotecária ou uma diretora de escola.A minha Ana, jamais. Estarrecido, fiquei ali um tempo, que poderia ser umminuto ou uma hora, sentado num sofazinho ao lado de sua cama, buscandoalgum vestígio familiar naquele rosto pálido e macilento, marcado por duraslinhas de expressão e olheiras surpreendentemente profundas. Desde o início,fui absolutamente incapaz de associar aquela mulher desacordada à minhafrente à imagem – forjada, ou talvez deformada, pela excessiva repetição daslembranças – que eu tinha de Ana. Jamais me ocorrera que o tempo tambémhavia passado para ela. Para mim ela continuara sendo sempre aquela jovemlânguida, que transbordava sensualidade em todos os seus gestos, e cujos ca-belos cor de petróleo batiam na bunda redonda e arrebitada. Pensando agora, está claro que eu não estava preparado para aque-la cena. Sobrinhos, tios e parentes povoavam o quarto, como uma perfeitafamília interiorana; crianças e adolescentes conversando, velhos entediados,senhoras oferecendo chá e biscoitos, tudo excessivamente prosaico, tudo emsevero desacordo com a idéia que eu preconcebera daquele encontro. Comeceia me sentir oprimido ali dentro. Era estranha a sensação. As pessoas falavambaixinho, como se estivessem incomodando o repouso da mulher na cama,como se a qualquer momento ela fosse abrir os olhos e começar a falar. Nãoé algo natural, o coma. É cruel e devastador para os que estão de fora. É comoum funeral que se estende por meses e anos, sem que ninguém possa fecharo caixão, dizer adeus definitivamente e tocar a vida em frente. Mas o pior talvezainda seja aquela inevitável pitada de esperança, a espera passiva por algumamudança no quadro, a possibilidade, mesmo que ínfima, de um milagre. Umverdadeiro inferno emocional. Mas, apesar de reconhecer as dores e afliçõesdaquelas pessoas, eu não era capaz de compartilhá-las. Talvez fosse insensibi- 37
  34. 34. lidade de minha parte, mas tudo o que eu conseguia sentir era uma profundae egoísta tristeza por ver a imagem da minha Ana maculada por uma realidadeinclemente, eternamente empenhada em destroçar o mausoléu onde repou-sam aquelas memórias que nos são mais caras e em fazer desvanecer todaforma de sonho. Já na porta, ao sair, lancei um último olhar sobre aquela que diziamser a minha Ana, parafraseando o gesto que eu havia feito vinte e tantos anosantes, apenas para me certificar de que eu não sentia nada por aquela mulher.Nada a respeito dela se relacionava comigo ou com a Ana que habitava a minhamemória. Conforme eu atravessava o corredor em direção à saída do hospi-tal, fui sentindo um alívio cada vez maior, como se a realidade estivesse aospoucos voltando ao seu lugar à medida em que eu me afastava. Ainda no es-tacionamento, fui assaltado pelo pensamento de que naquele exato momentoexistiam duas Anas. Duas Anas igualmente estáticas, igualmente aprisionadasnum sono profundo, infinito, irremediável. Igualmente reais. A primeira erauma senhora desconhecida, vítima de uma batida de carro, e cujo rosto bran-co, iluminado por lâmpadas frias de hospital, se desintegrava em minha men-te a uma velocidade impressionante. A outra Ana era aquela conhecida ninfade feições cálidas, que dormia eternamente sob o luar, como se este fosse umdossel de prata que suavemente a envolvesse, protegendo o seu sono. EssaAna fora eu, não um acidente na estrada, quem prendera definitivamente nacama. No momento em que fechei a porta do quarto e a deixei dormindo soba janela, a condenei a viver para sempre congelada dentro daquele instante,sem poder jamais acordar. No afã de compreender tudo o que havia acabado de acontecer, umaideia começou a se formar na minha cabeça enquanto eu dirigia de volta paracasa. Hoje, está claro para mim que aquela Ana do presente, envelhecida, emcoma, era, afinal, nada mais que um espectro, uma projeção deformada daAna do passado. Um reflexo distorcido da mulher adormecida que eu ha-via abandonado. A outra Ana, aquela que inicialmente não passava de umamemória, ao contrário, mostrara ser aquilo que havia de mais consistente e 38
  35. 35. palpável. Sua presença sorrateira e constante talvez tivesse sido a única coisaverdadeiramente real em todos aqueles anos. Era como se as paredes que se-paravam matéria e memória, passado e presente, houvessem ruído de repen-te. Quando digo que é à Ana que dedico minha literatura, não me refiro àquelasenhora vegetando no hospital ou tampouco à memória da jovem esbelta echeia de vida que conheci nos anos de minha juventude, distantes e inacessí-veis. Escrevo e continuarei a escrever para a única Ana possível, a minha Ana,aquela que de alguma forma conseguiu iludir o tempo e alterar a ordem dascoisas. Intacta e perfeita, indiferente à passagem dos anos ou ao embotamentodas lembranças, esta Ana permanece viva e continua a sonhar debaixo de umalua que se mantém cheia no céu de todas as noites. 39
  36. 36. Menção Honrosa Categoria Nacional São Paulo - SP Sem Natal Ronaldo Cagiano A véspera de Natal trouxe Lindalva do trabalho em meio à má vontade do tempo. Seus planos de reunir a família, convi- dar os amigos, apesar do cansaço de mais de dez horas emfrente ao tear na Companhia Manufatora, pareciam mais uma vez esbarrar noimponderável. Não queria repetir o sem-sal e sem açúcar dos anos anteriores.Nesse, prometeu-se que seria diferente, guardou o que sobrou do 13º paracomprar uns presentes para as crianças. A Camila não cansava de pedir umvideogame, porém teria que contentar-se com uma boneca; Fabiano buzinou-lhe nos ouvidos durante ano todo, mas o autorama [febre, sonho de consumoda garotada naqueles plúmbeos anos 70, tempos de coturno e medo] nãoviria dessa vez, a grana só deu mesmo para um carrinho movido a pilha, daEstrela, comprado, a perder de vista, no Bazar René. Era o que podia ser feito.Meses inteiros de sonhos que seriam concretizados pela metade, afinal, desdeque Amarildo saiu de casa para viver com a amante na Vila Reis, que Lindalvateve que dar duro e tomar a frente de tudo, sem ajuda, sem pensão. A fatigantetarefa diária no imenso salão onde máquinas expeliam línguas de panos, amusculatura compulsória nos braços femininos cevada no empurra-leva-e-traz de carrinhos abarrotados de fardos da tinturaria, tantas vezes vigiada peloscontramestres alcoviteiros, a epiderme ressecada pela nuvem de poeira quenascia das engrenagens, as lançadeiras ziguezagueando diante de seus olhosvidrados na mistura dos fios bailarinos que não teciam outra vida, senão ceva-vam o apetite dos patrões, alimentavam dozes meses de cansaço, a sobrecarga 41
  37. 37. que se revezava a cada manhã. Tudo impunha uma terrível prostração àquelamulher que tanto desejava estar inteira para viver pelo menos uma vez na vidaum Natal em família, mesmo com a ausência do marido empanando o brilhonos olhos dos filhos. Era uma dor que ela não podia aplacar, senão já teriamudado as coisas, passando uma borracha na história e virando a página,mas Fabiano e Camila não se esqueciam do pai. Depois que foi embora, nemmesmo se lembrava, ou aparecia, na data de seus aniversários. Esperançosos, os dois acordaram pela manhã na certeza de que eleviria, um presentinho ao menos, ou um agrado que fosse pelo abraço, peloscumprimentos. Queriam o pai, a visita, ainda que trânsfuga a presença. Afinal,os amigos da vizinhança comemoravam idade com pais e mães presentes,só os dois naquele beco viviam uma espécie de orfandade de pai vivo. Nostrês últimos anos Lindalva fez das tripas coração para que não desistissem deestudar. Tinha medo de que os filhos arrumassem corriola, não saberia ondecolocar a cara se um deles repetisse de ano ou fosse maconheiro como o Tadeue o Vinícius, filhos da Gorete, que desquitou cedo e ficou sem controle sobrea casa, biscateando aqui e ali, e a Vanessa, que ficou falada de tanto biscatear.Ela tinha medo dos línguas-soltas, por isso era da fábrica pra casa, de casa prafábrica. Por isso seu coração não tinha outro destino. Preocupavam-na as lon-gas horas de silêncio com que Fabiano, debruçado sobre a janela, a sua carre-tinha de rolimã aposentada debaixo da cama, com seus olhos, esquadrinhavafeito um periscópio, a volúpia de um louva-a-deus dançarino que brincava dedesaparecer com suas coreografias no distante da rua, ou se fixava, emudeci-do, nas lesmas que escalavam os muros altos e musguentos, do minúsculoquintal lindeiro ao de seu Durval. Ou, viajante e furtiva, sua atenção migravapara os galhos da jabuticabeira, onde um pequeno enxame de marimbondosprincipiava uma casa, indiferentes à dor das redondezas. Também doía-lheo coração flagrar calada as tantas vezes em que Camila se amotinava com asbonecas debaixo da cama, fingindo uma conversa com um amigo secreto quevinha à hora marcada, substituindo a ausência paterna, essa noite que sepostergava dentro dela, mais escura que a cabana sob o colchão mijado, 42
  38. 38. viajava nos mundos que criava, na crina alucinada de uma fantasia que um diairia desmoronar. Após derrotar o sol, a noite chegava com o festim de insetosnas luzes fracas da rua e uma legião de fantasmas habitando aquele corre-dor de casas. Do 51 era possível divisar o ribeirão aos fundos, animal ferozque se insurgia em muitos dezembros, batizando as moradas precárias como tumulto de suas águas e a adversidade das cheias que desalojavam tantos,sem parcimônia, oceano de frustrações fustigando a alegria com que muitosidealizavam passar as festas de fim de ano, apesar das privações. Aquela gentepobre, se não tinha muito o que comemorar – as dificuldades prolongadasnão prenunciavam que as coisas melhorariam de repente – pelo menos umleitão encomendado com certo sacrifício no açougue do Devair podia ser espe-rado, para compartilhar uma parcela mínima de sorriso nos olhos miúdos desuas existências proletárias, mas ainda habitados de mínima esperança. Masnenhuma alegria seria completa naquela casa onde além da água que tantasvezes secava, faltava alguém; e a dor de saber que o pai comemoraria comoutros, achincalhava ainda mais os coraçõezinhos repletos de ilusão. – Mãe, o pai não vem? Quantas vezes Lindalva ouviu, embargada, osorriso interditado pela violência fulminante da pergunta dos filhos. Cada anomorria, dando lugar a outro, e a incerteza que se cristalizava a cada nova mu-dança de estação, na alternância do horóscopo. Nos últimos tempos era isso:a felicidade esquiva, o rapto das mínimas emoções pela realidade aquarteladae intransigente, apesar das vigílias. À insistência da pergunta que reverberavacomo um chicote no seu peito, Lindalva não tinha o que dizer. Nem meias-palavras, nem uma resposta paliativa que dourasse as circunstâncias. Era nabucha, e tentando mimetizar as lágrimas com os olhos vermelhos enquantofatiava uma cebola na cozinha, que ela desenganava a filha ou despistando aconversa, mandando Camila pegar o regador para aguar os vasos de avenca esamambaia da sala minúscula: – Não conte com seu pai, ele tem outra vida, esperem em Deus, queesse não falha e é graças à sua misericórdia que passamos o ano e com a ajudade sua avó, que pude cuidar de vocês. Não fosse os serões na fábrica, ela tam- 43
  39. 39. bém não teria pago em dia o aluguel de um quase barraco, o Bira era pontual,saía, de casa em casa, o colar reluzente como os dentes de ouro e a mania demascar palitos, cobrando os inquilinos, uma sangria mensal em seu salário,nem dado conta de quitar em dia a caderneta da venda do Albertino. Fazia dastripas coração para manter a casa, nunca faltar lanche na merendeira, as coi-sas em ordem e as contas sem atraso, quando a brotoeja pintou a face miúdada filhinha e trouxe uma febre inexcedível, [e o fantasma dos cortes rondavaa seção de estamparia, o Zé Batista foi despedido agora buchicham que oNestor e a Zélia vão pra rua também, porque votaram do doutor Agnelo, doMDB] quase perdeu a mão no tear, sua cabeça estava na menina, o dia inteirocomendo algodão na fábrica, e ainda ter que agüentar a língua comprida dadona Mundinha e as cantadas do Vadinho, que de seu tamborete apontan-do o jogo-de-bicho tomava conta de quem entrava de quem saía, o uniformesempre bem passado, apesar de surrado, o sacrifício que impedia que os fi-lhos parassem os estudos, afinal, com quem poderia contar amanhã, senãoa mínima instrução que lhes abrisse caminhos, Lindalva não descuidava denada, antes de dormir ainda dava uma última passada com ferro em brasanos uniformes e uma conferência dos cadernos, tentava ajudar nas lições, nospara-casa, tomava a tabuada, arguía os verbos. E os boletins de classe no fimdo mês não desmentiam, espelhavam seu esforço e sua luta: os meninos iambem. E quando já estavam os dois na cama, depois de ter aspergido o inseti-cida com a bomba de Flit para espantar os pernilongos que vinham acicatartodas as noites, desaninhados do corguinho dos fundos, ainda se desdobravapara uma passada de escovão no piso de vermelhão, ainda bem que não tinhamais que recolher as guimbas de cigarro que Amarildo deixava pelos cantosda casa, e uma espanada na mobília pobre e feia e entrando já a madrugada,a leitura de algum salmo, e pedia a Deus que a ajudasse a sair dali, sonhavaum holerite mais gordo e poder financiar uma casa decente pelo BNH ou pelaCOHAB, o socorro da fé naquela Bíblia surrada e eternizada sobre a cristaleirade pés capengas, vigiada pelo crucifixo de madeira que ela sempre limpabri-lhava com óleo de peroba. Tempos escuros aqueles. As indústrias da cidade 44
  40. 40. eram movidas a eletricidade, óleo diesel, carvão e medo. Os Andrades domi-navam a economia, eram donos de todas as tecelagens, das fábricas de papele macarrão, da fundição, do matadouro, da Força e Luz. Controlavam tudo, dasaída dos operários às conversas políticas. A Arena mandava na cidade, ondeos parentes do líder político Emanuel Andrade revezavam no poder. No Golpede 64, muita gente foi dedurada por eles ou por seus puxa-sacos, baba-ovos,cheira-peidos. Quando chegava novembro, mês de eleição, o voto de cabrestogarantia-lhes a permanência. Nada fugia ao controle. Sabiam quantos eleitoreshavia em cada urna, em cada zona eleitoral e no departamento de pessoal dascompanhias, a cópia dos títulos dos empregados era guardada como moeda detroca. O terror rondava as seções e quando algum voto migrava para [os quin-ta-colunas do Túlio farmacêutico e do Laércio do Sindicato] um candidatoa vereador ou prefeito da oposição, o funcionário recebia o bilhete vermelho,as indenizações nem sempre corretas, dali em diante não conseguiam maiscolocação na cidade, muitos iam de mala e cuia pra São Paulo tentar empregono ABC ou na construção civil. Quantos natais trouxeram o inferno para tantagente. Lindalva tinha medo também de ir pro olho da rua, por isso nunca abriaa boca na época da política, votava em quem os capachos da diretoria ou ospelegos mandavam. Nas casas de paredes-meias - eram doze, seis de cada lado, como eracomum nas vielas do Pouso Alegre - os sons algazarravam cedo. Barulhos delacres de cervejas e refrigerantes em lata se abrindo, garrafas sendo retiradasdos engradados e os estampidos dos abridores se confundindo com a músicaque escapava dos aparelhos de som ligados no máximo volume nas portas dascasas. Pagodes, sambas, boleros e sertanejos se misturavam sem divergên-cias – vitrolas vozeiravam Agnaldo Timóteo, Nalva Aguiar, Wanderley Cardoso,Lindomar Castilho, Odair José, Vanusa, Roberto Carlos, Jane e Herondi, AlmirRogério. O chiado da carne, semelhante ao som de chuviscos de uma emisso-ra de tevê fora do ar, sendo revirada em alguma grelha, disseminava o cheirodo assado que impregnava a pequena ruela que separava as casas. Enquantoadultos disputavam tira-gostos e petiscos na mesa exposta ao ar livre e compar- 45
  41. 41. tilhada por toda a vizinhança, a molecada num frêmito a correr pralá-pracá.Um vozerio de homens e mulheres que, alternando gargalhadas e gritos, pa-reciam viver a plenitude de uma felicidade não compatível com o silêncio e amodéstia com que Lindalva, Camila e Fabiano viviam noutra casa, quase umjazigo, onde noutra mesa esperava um frango assado recheado com farofa eameixas, acompanhado de uma jarra de ki-suco, testemunhados pela árvorede natal que pisca-piscava discreta num canto, onde dormitavam os presentesque os meninos abririam no virar das horas, sem a efusiva comemoração quese verificava nos outros lares. Ainda estava para sair o turno das dez horas, afábrica era um moedor de gente – faltava pouco para o sino da Matriz soaras doze badaladas, alguns insetos bailando em torno da luz fraca dos postesda rua, já se podiam ver os faróis dos carros realçando os grossos e compactosfios de chuva, deslizando pelo tabuleiro de paralelepípedos já encharcados,uma lua bêbada e intermitente entre nuvens velozes já não derramava sequeruma claridade débil sobre os telhados, indicando que um aguaceiro vinha delonge sem dó nem trégua, o campinho tá todo tomado, dona Vera – corriade um lado pro outro o Valdo doidinho avisando nas casas, mas o movimentodo lado de fora negligenciava o apetite de uma tempestade em ascensão, nin-guém ligava para os corpos molhados, para as nuvens com suas cortinas deágua chicoteando os quintais. A noite sem estrelas abria alas para o temporalque assobiava seus ventos nos eucaliptos do morro do cemitério – tudo tãocerto e tão medido para essa época do ano naquelas margens do rio Pomba.Nas últimas décadas era religioso: a chuva batizava os Natais da cidade e mui-tos foram os reveillons em que o susto e a correria substituíam os estourosdos champanhas. A opulência das nuvens não falhava de novo, trazendo ummedo antigo, papel carbono de conhecidos pesadelos, parindo tragédias nacorrosão da madrugada. Desde o final da tarde, os plantões da Rádio Catagua-ses alertavam a população sobre as condições meteorológicas, mas ninguémsintonizava o dial naquele dia, pareciam todos detidos no clima de final de ano,ensimesmados em algum preparativo. Era preciso comemorar, beber, comero peru que em alguma mesa não faltaria, preparando-se para enterrar o ano 46
  42. 42. moribundo. Chovia horas sem parar nas cabeceiras do rio, lá pelos lados dopico dos Caramonãs e da Serra da Onça, onde o tempo estava armado e feioso.Ninguém deu bola, ninguém queria se lembrar de como nos últimos anos oscéus reagiam, revelando toda sua força e brutalidade, todo seu escárnio noespetáculo intimidatório e caudaloso e suas águas. Não acreditavam que maisuma vez, depois da Missa do Galo, muita gente voltaria das igrejas sem poderchegar em casa, sem o milagre da ceia, evacuadas de mais uma esperança. Os verões chuvosos sempre foram desmancha-prazeres da vida prole-tária de Cataguases. As águas de março sempre adiantavam seu ciclo e apare-ciam no último mês do ano e impunham seu regime de exceção, como nasvelhas ditaduras. Dos subterrâneos repressivos da natureza desiludida com oshomens despencava o chumbo torturante das nuvens. Os regatos, ribeirões,lava-pés e calhas de esgoto não resistiam à pressão pluviométrica e se jun-tavam num subversiva e implacável coreografia, levando tudo que viam pelafrente. E a calha do Pomba, serpente líquida e tinhosa, já assoberbada pelovômito de outros leitos, não comportando o taliônico tempo, decretava seusdesastres. Só quando ouviram os estrondos, pleonásticos e ensurdecedores,no vácuo redundante e clarividente dos feixes de relâmpagos, perceberam quea natureza, mais uma vez, não brincava em serviço e dava suas ordens. Jáinócua aquela correria repentina, diante de um Meia-Pataca travestido numAtlântico na porta das casas. A tromba-d’água que havia caído a quilômetrosdali, chegava com fúria redobrada e toda a vila não passava de uma imensailha da qual zarpava mais um Natal. Naquela correnteza não boiavam confu-sos e sem rumo apenas os presentes que não foram entregues. Uma tristezaabsoluta e irreversível redemunhava dentro deles. 47
  43. 43. CategoriaREGIONAL 49
  44. 44. 1.º Lugar Categorial Regional Araçatuba - SP Tharso José Ferreira de Minas Gerais, residente em Araçatuba, é autor de livros didáticos, criador da revista infantil “Zé Limpinho”, desenhista, chargis- ta, palestrante, vencedor do 21°, e menção honrosa no 23° Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, em ambos na categoria municipal. Amizade Sincera Tharso José P ois bem, tentarei contar, embora isso me desagrade muito, mas me encorajo na curiosidade de todos. Se bem, e quero que disso todos saibam, isto não é um desabafo e nada doque contarei se afasta da verdade nua e crua, tal como acontecido. E aí querome safar de vez dos sorrisos de sarcasmo, quando, vez ou outra, me veem pelarua. É isso que me irrita! Aqui todos sabem que João era meu amigo! Amizade leal, franca e de-terminada. Comia em sua casa, bebia com ele noite adentro, não raro acordavaembriagado no chão de sua sala. João, amigos, era plácido, calmo e reservado,sem capacidade de ferir, nem em palavras nem em ações. Ousam-me? Tinhapor ele uma amizade sincera, honesta, coisa à qual eu dirigia esforços empreservar. Em nossa amizade existia de fato uma grande afinidade. Mas bem sabem os senhores que o destino nos faz troça. Brinca com 51
  45. 45. nossas limitações e nos fere. João tinha uma esposa tão jovem que se passavapor filha. Bela, de uma beleza que só se encontra na juventude. Era de falasuave, quase um sussurrar. Sempre de vestido ou saia. Isso lhe dava umafeminilidade que hoje as mulheres já abandonaram. Mas não pensem os se-nhores, nunca tive os olhos para ela! Mesmo quando João a maltratava e lhefazia represálias na minha presença. Me interessava mais o vinho da casa, acerveja, o corote de pinga do que sua jovem esposa. Todo sábado eu acabava por lá, era lá que eu bebia. João sabia disso eme esperava sempre, mas naquele sábado ele não apareceu e, quando fiz ogiro para voltar, sua esposa me chamou com sua voz sussurrada dizendo queele voltaria logo, que eu entrasse e aguardasse. Eu, como já disse e os senhoressabem; tenho uma queda pelo álcool, admito, é meu ponto fraco. Daí, condu-zido pelo vício, entrei. Quero que me entendam que nunca dei motivos ao amigo, ou a quemquer que fosse, de duvidar de meus respeitos com a esposa dele e essa nãoseria a ocasião de quebrar tal confiança..., maldito dia! Ela me levou aos fundos, eu me acomodei num velho sofá de cor mos-tarda, roto,perto do freezer. Era lá que ficavam as cervejas. Casa simples, anosde convívio ali. Quando me levantei, ao pegar uma cerveja, dei de cara com osolhos dela nos meus. Vi de imediato, enorme depressão, dessas que se dá emfumadores de maconha. Visível tristeza. Indisfarçável. Desviei os olhos. Nãoposso, pensei. Que tormento lhe assolava as faces? Que tinha eu com isso? Masela continuou lá imóvel feito poste. Eu repelia de meu espírito o demônio dacuriosidade embora tivesse dela penosas impressões e, no proceder dos fatos,vi que ela queria me dizer algo antes que eu me embriagasse. Desviei os olhospara o chão, mas ao levantar lá estavam os dela, me fitando com beleza notá-vel e expressão tão triste que me desconsertou. A brancura da pele e o brilhomiraculoso nos olhos causou-me sincera piedade e transpus o curto caminhoentre a lucidez e a insanidade quando lhe perguntei o que havia. – Sabe por que João me maltrata? – Perguntou com sua voz de fada –Sou estéril. 52
  46. 46. Então era esse o motivo de tamanha melancolia. Ora, João nunca mehavia dito nada. E olhem que ele me confiara coisas, perturbadoras, que nemem sonho ouso dizer, mas dessa moléstia em seu casamento nem uma pala-vra. – Fiz os exames, não sou eu, é ele o estéril. Menti para ele. – Me disseencostando os lábios em meu ouvido. – Ele não virá aqui hoje, e eu confio emvocê. Suportei até onde um homem pode. Eu sou um conhecedor de vinho,cerveja, destilados, mas de mulheres, nada! Não as entendia e nem queria.Menos ainda eu entendi quando ela se debruçou sobre mim se abrindo e meabrindo com a suavidade das penas. Eu me apiedei quando lhe vi as coxasarroxeadas pelo marido e nada disse quando ela me falou que fazia aquilo porele, pois o amava mais do que a si. Eu me converti em pedra, teso, grudado nosofá imundo. Fechei os olhos diante do pecado e formei com ela, ali no sofá,um único corpo. Por que falar aqui o que já sabem os senhores? Por que o relato dessavergonha? É odioso para mim repetir isso, codificar o acontecido em palavraspara que paire em vocês o entendimento. Ora, pois! Deixem-me apressar e evitar fervura que vejo agora em tantos olhos.Depois disso não deixei de fazer minhas visitas ao amigo.Foram meses de tar-des e mais tardes do mais fino álcool, até que o ventre de sua jovem esposase tornou volumoso e belo. Ele em êxtase, alegria total, aberto em sorrisos,atencioso, carinhoso, afetuoso, moderado na bebida. Ela ainda mais bela,mais calada, mais feliz, cantarolando pela casa. Comigo João tinha excessivacordialidade. Bebia conversando comigo, tardes inteiras, não se cabia de con-tentamento, tinha assunto sobre assunto, tagarelava o tempo todo, alteraraseus modos para melhor. Eu, oculto,calado, feliz ao extremo, entusiasmadocom a situação. Nossa amizade já viçosa obteve mais vigor ainda. Quando o rebento veio ao mundo com a cara da mãe, João se tornouabsoluto como pai, atento e zeloso com mãe e filho. Eu em estado de graça, se-cretamente. Isto me bastava. Aliança perfeita. O silêncio como aliado perpétuo. 53
  47. 47. É esta a questão que quero que examinem! Acham que houve mais algumacoisa entre eu e ela? De modo algum! Afeiçoei-me a ela fraternalmente, erao papel que me cabia. Defendia silencioso a causa de todos, e disso fui meupróprio juiz. Lembram-se do destino? Aquele que traz de surpresa benesses, benig-nidade? Ora, não nos enganemos, ele zomba de nós e traz também infortú-nios! E infortúnios como benesses são tão próximos que não os distinguimos.E como o mal e consequência do bem, o contrário também é verdade. E, comotodos sabem, o mal não havia dado as caras. E, como é da alegria que nasce atristeza, ela me disse – Ele quer outro filho – Num sussurro quase inaudível. Quero ser aqui o mais claro possível. Tinha cumprido o propósito. To-dos estavam felizes. Não havia de minha parte um porquê. Mas admito a todos,tentação havia. É justo e provável que vocês não me entendam, mas eu posso entendê-los. E eu não tenho aqui palavras adequadas para esclarecê-los do categóricoda minha negativa e, aqui, defendo a minha causa confiante. Mas ela falava docemente, devagar e, é essa a qualidade submissa queamo nas mulheres. Aquilo tirava a consistência dos meus nãos. Ela sabia, porme conhecer, que tal atitude sobre mim tinha delicioso efeito; então me tor-turava a cada dia na dose suficiente para que eu perdesse a força da negativadiante da volúpia de sua presença, seus pedidos constantes, seu cheiro. E quehomem não tomba diante do machado do desejo determinado de uma mu-lher? Mas o amor proibido está sempre próximo do perigo. Depois disso,senhores, ela passou a me evitar. Não me dirigia a palavra e nem o olhar.Quando eu entrava, ela saia. Procurava ficar sempre fora de minhas vistas,sem disfarce, exagerada. – Porque me faz isso? – Perguntei. Ela me disse que percebera amor em meus olhos, que meus desejosestavam se tornando uma ameaça ao combinado. Sabendo disso assumi uma personalidade abstrata, neutra, pus de lado 54
  48. 48. a postura que me dava um pouco de dignidade, se é que um bêbado sabe oque é isso, e esperei com paciência, afinal éramos todos companheiros. Elasempre atarefada, trabalhos domésticos infindáveis, com assuntos e mais as-suntos particulares fora de casa, numa justa tentativa de não me dar atenção. Quando nasceu o bebê, uma menina inconfundível, réplica minha,enormes orelhas de abano, pele branquinha, mãos e olhos iguais, senhores!Iguais aos meus! Tal criança arrebatou-me a alma, de imediato, me vi nela. Qualquer coisa agora que fizesse lançaria meu filho a uma condenaçãoinjusta. Calei-me feito lápide. Passei a ser uma sombra silenciosa e atenta.Minha vontade morreu diante da vida que nascia. João espalhava a sua caraalegre em tudo com uma vocação divina em fazer tudo parecer bem. Longe decensurá-lo passei a admirá-lo ainda mais num misto confuso de sentimentos.Muitas vezes ele chegava e aninhava a filha em meus braços – Pratica aí apaternidade, um dia você vai ter o seu! – Parecia saber da minha paixão pelamenina. O meu apreço pelos vapores do vinho se foi e ficou um mecanismodesconhecido, uma certa tolerância a tudo. Nesse trato novo que dei à vida,desenhei a gosto o meu próprio conceito de moralidade, honestidade, pecado.Enfim, tudo a meu gosto, ao que me convinha, que me deixasse em vantagenssobre os meus sentimentos, dando cores ao meu destino. Senhores, o que é de fato verdade? Pois na verdade todo conhecimentoé oco e cabe a cada um preenchê-lo como quiser. Eu sei que o amor se apre-senta cheio de infelicidade para aquele que ama, já que quem ama não troca-ria a ilusão do amor pela certeza da indiferença do amado, eu preferia ser oamante infeliz, ignorado, do que estar fora daquela casa, daquelas vivências. Todos sabem que o adultério é companheiro inseparável dos longos ca-samentos. Logicamente, se existe entre nós algum advogado ele terá na men-te a atitude legal de representar contra. Argumentação tipicamente jurídica,fria,estabelecida na lei, no papel. E aqui não apetece tecer comentários, aosdefensores da lei, sim, são farejadores do mal. Acomodei-me na casa do amigo. Não saía de lá. Vivia uma ilusão só 55
  49. 49. minha. Impávido diante da paixão. Notava a jovem mãe calada em seus afaze-res pela casa. Mas o amor e a morte, meus caros, são irmãos. Minha fissuraamorosa a consumia diante meus olhos de abutre, imoral, insano, perpétuoe confuso. Tal doença furiosa infectou por completo toda a casa. Ela notoutudo e acalentou para si tal angústia. Com o tempo emudeceu de vez. Silênciode morte. Quando eu me aproximava ela tinha uma espécie de ataque. Talmoléstia crescia dia a dia, sua voz leve sumiu para sempre. Nutrido pela culpapassei a cuidar de tudo desmedidamente. João tomou aquilo como respostada nossa amizade e aceitou. Ultrapassei tudo, quebrei regras, me pus servil. De nada adiantou, omal nela evoluiu e nada do que fazíamos surtia efeito, e como todos sabema vida lhe fugiu, ela faleceu num dia cinzento de outono, trazendo a mim eao João um dor irremovível. Entendem agora como vocês nos irritam quandoolham, comentam e riem quando andamos os quatro de mãos dadas pelarua? Onde está o vinho, Senhores?! 56
  50. 50. 2.º Lugar Categoria Regional Penápolis - SP A palavra muda Danieli Elias V antuiluriel. Nunca entendera porque sua mãe lhe dera esse nome tão incomum. Não, pensando melhor, esse era um nome bizar-ro. Por que não se chamava João, Carlos ou Ernesto como todos os outros aoinvés de Vantuiluriel? Sempre fora motivo de piadas por isso. Aliás, os óculosgrotescos que usava também não ajudavam muito. Com o passar dos anos acabou se entrincheirando dentro de si. Nãoqueria que rissem dele, por isso nunca falava ou olhava para os outros. An-dava cabisbaixo, sempre, como que procurando algo há muito perdido. Nãopronunciava palavra e ninguém conhecia o som da sua voz. A verdade é quea vida tornava-se menos encantadora a cada minuto e não importava o quãofeliz devesse estar, simplesmente não conseguia. Queria viver uma vida breve esem sofrimento, assim como as borboletas. Simplesmente ser! Vantuiluriel não tinha má aparência, mas seu semblante triste encobriasua beleza. Seus olhos negros, dotados de uma melancolia extrema, e seusombros encurvados pelo peso da amargura tiravam-lhe o encanto juvenil. No começo todos se sentiam desafiados por aquele simples garoto. Porque tanta infelicidade? E com o decorrer do tempo, quando Vantuiluriel passa-va, as pessoas sentiam apenas um leve sopro de ar. Já não o notavam. Morrera,enfim. Mas se deu que um dia Vantuiluriel teve uma visão divina. Algo que ofez esquecer seus problemas e desejar viver séculos. 57
  51. 51. Sofia. Seus pés foram a única coisa capaz de fazer aqueles melancólicos olhosnegros erguerem-se pela primeira vez em doze anos. Aquela era a visão maisdoce que já tivera ou imaginara poder ter. Os olhos de Sofia faiscavam e a pazemanava de seu sorriso. Vantuiluriel foi tomado por um sentimento novo, oqual não podia explicar e que nunca havia sentido. Amor! Passou anos a observá-la, notando cada mínimo detalhe: o modo comoela enrolava uma mecha de cabelo quando estava distraída, sua preferênciapor sorvete de morango com chantilly, seu olhar absorto quando lia. Foramanos alimentando-se daquela visão, sonhando... Seu peito sufocava e por maisque quisesse se prevenir não pôde evitar o único desfecho para aquela situa-ção. Seu coração clamava descompassadamente por revelação. Correria o ris-co e falaria a Sofia que a amava. Encontrou-a sozinha numa mesa da biblioteca. Sofia adorava livros.Fora lá que a vira pela primeira vez há cinco anos. Sentou-se frente a ela e afitou. Por segundos, Sofia correspondeu-lhe o olhar e depois o voltou para olivro que lia. Romeu e Julieta. Vantuiluriel diria as palavras que o atormentavam. Para os outros sem-pre falta uma palavra, mas para ele não faltaria nenhuma. Sempre fora dife-rente. Sentiu as letras juntarem-se em sua cabeça, passarem por seu coraçãoe se dirigirem para a garganta. Era agora, iria dizê-las. De repente ele engasgou-se. Sofia e os outros aoredor se assustaram. Correria. Vantuiluriel ficou roxo e o ar extinguiu-se em seus pulmões. O coração,que antes batia por Sofia, parou. Morreu. E sem dizer palavra. Se para todosfalta uma palavra para ele não foi diferente. “Ah, Sofia! Como eu...” Foi a pri-meira vez em seus vinte e dois anos de existência que se sentiu igual aos outrose uma felicidade incomum preencheu o seu ser. Finalmente era igual, mesmose chamando Vantuiluriel e não Carlos, João, Ernesto, César... 58
  52. 52. 3.º Lugar Categoria Regional Araçatuba - SP A Travessia Mário Bueno A inda era escuro quando ele acordou com o barulho do des- pertador. Apesar do sono, estava ansioso com a chegada desse dia e assim tratou logo de sair da cama. Esfregou osolhos, espreguiçou-se e caminhou rumo ao chuveiro para o costumeiro banhomatinal. Há anos sonhava com essa aventura, mas somente agora é que final-mente conseguiria realizar tão esperado sonho. Em silêncio, para não acordar a mulher, foi até a cozinha e preparouum reforçado café da manhã. O dia seria longo e cansativo, portanto precisariaestar bem alimentado. Caminhou até a sala de jantar e por um momento contemplou orgu-lhoso toda a parafernália espalhada pela mesa e chão. Aos poucos conferiu alista para certificar-se de que não se esquecera de nada e que tudo estava emordem: barraca, saco de dormir, colchonete, rede de descanso e mapas. Nosalforges roupas, calçados, produtos de higiene pessoal, ferramentas, peças so-bressalentes, primeiros socorros, fogareiro, panelas, alimentos e tantas outrascoisas necessárias para a viagem. Tinha aproximadamente uma centena de itens, organizados e separa-dos em sacolas diferentes para facilitar a localização e o acesso de qualquercoisa a qualquer momento. Ele nunca havia feito nada parecido antes, entretanto toda informaçãoque amealhara durante meses de pesquisa seria mais do que suficiente para 59
  53. 53. completar a empreitada com alguma tranquilidade. Enquanto carregava as coisas para fora de casa, a família pouco a poucofoi acordando. A mulher, os filhos, o pai, a mãe. Ainda sonolentos observavam com um misto de resignação e compla-cência o pedalante ajeitar os últimos detalhes em sua bicicleta completamentecarregada. Seu objetivo era atingir o pico do Porta do Céu, o monte mais alto dopaís, a cerca de cinco mil quilômetros distantes de casa. Faria isso pedalandopor essas estradas do mundão de seu Deus, ao longo de três ou quatro mesesde viagem, com a intenção de chegar por lá no inverno, quando poderia des-frutar de um dos céus noturnos mais belos do planeta. Tudo pronto para a partida, iniciou-se outra rodada de despedidas. Ha-via um clima de tristeza no ar. Os filhos, ainda pequenos, brincavam ao redorda bicicleta, sem entender direito o que se passava. Silenciosamente abraçouseus familiares como se fosse a última vez; todos com lágrimas nos olhoscomo que pedindo para ele ficar. Olhou para as crianças de modo tão direto e profundo, que as palavrasse tornaram desnecessárias, pois as mesmas já haviam sido ditas e reditascomo um mantra, várias e várias vezes durante o período de incubação dajornada. Finalmente montou em sua bicicleta e, reticente, partiu sem olhar paratrás. Eram seis da manhã. Assim que dobrou a esquina, a mulher, já com amão no rosto, correu em prantos para dentro de casa chorando compulsiva-mente. Para o pedalante, entretanto, todo o cenário parecia novo por mais queainda estivesse a poucos metros de casa. Os velhos e conhecidos caminhos dobairro adquiriam um aspecto totalmente diferente, como se fosse a primeiravez que estivesse passando por ali. Sua própria existência ganhava novos con-tornos. Enquanto pedalava lentamente em direção à saída da cidade, repassavaem pensamento todo o longo trajeto que percorreria nos próximos meses. 60
  54. 54. Partindo do litoral onde morava, subiria em direção ao norte, margeando opaís pela praia por centenas de quilômetros. Duas semanas de viagem, talvez.Depois, rumo ao oeste, atravessaria várias cidades, estados, culturas e costu-mes diferentes, percorrendo intrincados caminhos em zigue-zague, subidas edescidas por morros e montes, até finalmente chegar na Porta do Céu, o pontomais alto do país. Bastaram poucas pedaladas para que o asfalto ficasse para trás. Entroupor uma estreita trilha de terra, bem arborizada, fresca, e após alguns quilô-metros teve acesso à praia onde foi saudado com deslumbrante nascer do sol,de alaranjado incandescente. Agora, sim, a viagem começa de verdade, pensou. Com tudo que preci-sava a bordo, e casa nas costas, o pedalante estava por conta própria. A areia da praia, úmida e compactada, era terreno perfeito para pedalarde maneira bem cadenciada, permitindo que a bicicleta atingisse boas veloci-dades. Dessa forma era possível percorrer dezenas de quilômetros em poucashoras, fazendo rápidas paradas apenas para beber água, descansar e recuperaras energias. Ao entardecer encontrou um pequeno gramado sob algumas árvores,ligeiramente recuado da praia e bem protegido da brisa marítima. Ali montouseu acampamento e rapidamente preparou o jantar, pois a fome e o cansaçose manifestavam com intensidade. Sentado à porta da barraca, enquanto comia, admirava a noite quecalmamente se anunciava. O céu com lua cheia prometia um espetáculo àparte. Sacou um pequeno livro do bolso, cujo autor era um renomado nave-gante, e pela milésima vez leu – desta vez em voz alta – o trecho que poderiaresumir toda a sua existência: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, nãopor meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seusolhos e pés, para entender o que é seu”. E ele estava ali para isso. Seriam meses que valeriam por toda sua vida. Meses nos quais eleaprenderia muito sobre o desapego e a simplicidade; a descobrir como é bom 61

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