Artigo XI Silel Edson Soares Martins

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Trabalho apresentado no Silel, na UFU. Publicado.

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Artigo XI Silel Edson Soares Martins

  1. 1. “O AMOR DEIXARÁ DE VARIAR, SE FOR FIRME, MAS NÃO DEIXARÁ DE TRESVARIAR, SE FOR AMOR”: CONSIDERAÇÕES SOBRE A FEMINILIDADE SUBALTERNIZADA E A MELANCOLIA EM A IMITAÇÃO DA ROSA, DE CLARICE LISPECTOR Edson Soares MARTINS (UFPB) RESUMO: Este ensaio discute os processos de subjetivação disponíveis a Laura, protagonista de A imitação da rosa, postulando que estão sobredeterminados por mecanismos de subalternização impostos às mulheres e ex-pacientes manicomiais. Também se pretende analisar como os papéis da relação conjugal denunciam, sob a escrita clariceana, um jogo contínuo de subalternização da mulher. “Subalternização” é um conceito cuja delimitação vimos perseguindo e que se manifesta na pertinência sócio-grupal em que se inserem personagens, narradores, autores e suportes próprios de segmentos sobre os quais incidem estratégias de espoliação moral, econômica, política, cultural, entre outras possíveis. RESUMÉE: Notre essai discute les processus de subjectivation disponibles à Laura, protagoniste de L’imitation de la rose, et les mécanismes de subalternization imposés aux femmes et malades psychiatriques. Nous analiserons aussi comme les rôles dans le mariage dénnoncent, sous l’écriture claricienne, un jeux permanent d’un agencement de la subalternization de la femme. “Subalternization” est le concept dont la description nous porsuivons et qui peut aussi se maniféster dans l’appartenance social- groupale dont les personnagens, narrateurs, auteurs et suportes sont typiques des groupes sur lequels tombent les estrategies d’espoliation morale, politique, culturelle et plusiers d’autres types. 1. Considerações iniciais O conto A imitação da rosa foi publicado em Laços de família, de 1960. Tentaremos sintetizar-lhe as linhas de reflexão que o configuram, já que quase não podemos falar propriamente de enredo. Este conto clariceano começa e termina pelo compartilhamento da situação ansiogênica vivida por Laura, a protagonista que, tendo emergido da loucura, retorna a ela diante de nossos olhos. Contudo, vemo- nos, inicialmente, diante de uma dona de casa que apenas se esmera por fazer uso racional do tempo em benefício do seu marido, Armando. A relação entre eles, todavia, mudara após a doença e é já sabendo disso que Laura surge diante de nossos olhos. Aparentemente, essa nova condição do casamento não tem nenhuma ligação com as referências numerosas e insistentes que são feitas ao “esquecimento” de Armando, cuja felicidade parece consistir em poder esquecer-se de sua esposa. Insinua-se que, não fosse a mulher convalescente de uma moléstia tão constrangedora, seria possível tê-la, comodamente, de volta à condição de subalternidade modelar do que, na época, era o casamento pequeno-burguês. Para arrematar o quadro, Laura sofre a sua esterilidade como a perda dos filhos que nunca teve. Laura e Armando são um casal sem filhos, cuja mulher acaba de liberar-se da estada em um manicômio e que vivem na demanda de uma monotonia, que uma insuficiência ovariana e a contemplação de um buquê de rosas brancas e silvestres levarão à ruína. Antes de avançarmos, aproveitando a referência à peculiar rarefação da trama, achamos pertinente atentar para a excepcionalidade da estruturação dessa narrativa. Não estamos diante daquela forma vanguardista a que se refere Auerbach, no famoso ensaio dedicado a um trecho do romance Rumo ao farol, de Virginia Woolf. O recurso ao fluxo de consciência é bem menos operante do que nos faz crer uma visão de conjunto sugestionada pela leitura da fortuna crítica clariceana. Até podemos registrar que o efeito potencializador de uma ambiência geral formada de um misto de imprecisão e introspecção deve-se à extensividade com que o discurso indireto livre é empregado, o que difere muito do fluxo de consciência. Também não há um relaxamento da conexão entre o que é narrado e os acontecimentos exteriores. Todo o encadeamento demoníaco necessário ao esmagamento da débil compleição subjetiva de Laura está milimetricamente disposto e pronto para operar. Portanto, apesar do enredo mínimo e da aparente fortuidade do motivo da contemplação das rosas funcionar como detonador da crise neurótica, estamos mais perto de um conto composto segundo a lição antiga do efeito único e da concentração de tensão que de qualquer 495
  2. 2. vanguardismo novecentista. Passemos a outros elementos do conto, articulando-os, a partir daqui, com nossa proposta de leitura. Não circulam no conto, efetivamente, mais que três personagens; as demais são apenas citadas. Além do casal, uma empregada, Maria. Mas, no mundo lá fora, estão Carlota, a melhor amiga, e um médico, que é um tipo confiante e bondoso, além de um vendedor de flores. Comecemos pela amiga. Diversas vezes, perceberemos, nas referências que a ela são feitas, como a protagonista se intimida diante do temperamento desta Carlota, companheira dos tempos do Sacré Coeur. Um mergulho na alma de Laura nos põe advertidos a respeito desta amiga, uma mulher que trata o marido, João, como a um igual, o que chega a motivar comentários entre Laura e Armando, que não parecem ser entusiastas desse modelo de relação mais moderno. Carlota, na ambivalente afetividade da protagonista, é de uma “bondade autoritária e prática”, de quem Laura espera voltar a receber “de novo a desatenção e o vago desprezo […], a sua rudeza natural e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade” que recebera – e percebera – quando estava doente. Muito diferente da palmada nas costas, palmada forte e calorosa, que lhe dera o médico, no intento de fazê-la acreditar-se curada e, outra vez, a Laura de sempre. Um homem forte que a trata como uma mulher forte. O médico que lhe recomendara não ficar de estômago vazio e não se esforçar para conseguir voltar ao cotidiano de outrora. Diante dessa personagem, nossa espertíssima Laura não se faz de rogada, forjando uma contradição entre alimentar-se e não se esforçar e, também, adiante, recorrendo ao que ele lhe dissera para convencer-se de que não deveria abrir mão das rosas, que ela mesma resolvera dar à amiga. Ele atua como um gênio tutelar, voz oracular da memória, a permitir ou proibir aquilo que Laura quer ou não quer fazer. Há, diante desta trama de afeições e desgostos, a inevitável hipótese da ambivalência afetiva. A Laura que nos revela o narrador é alguém que ama ressentidamente e que se ressente com paixão. E, por mais que, no início, o narrador cuide em ocultá-lo, Laura é uma inteligência sutil e perspicaz, que percebe, atenta, mais do que julgam aqueles que a cercam. Desta atenção, mas não apenas dela, reverdece e se prepara para florir a loucura, que se reaproxima como um trabalho incessante que lhe consumirá, surdamente, as forças, à espera da hora certa. Estamos, portanto, diante de um complexo de elementos subalternizadores: o papel inferiorizado que se reserva à mulher no casamento burguês sofre a influência também subalternizante do valor socialmente negativo que se atribui aos pacientes ou ex-pacientes psiquiátricos, além de ser relevante o dado igualmente subalternizante da esterilidade. Sobre Laura, convergem múltiplas marcas que o contexto social das relações de produção capitalistas faz serem percebidas como incapacidades. O louco é inútil para a produção, representa um desperdício de tempo e dinheiro para a ordem familiar e social. A mulher estéril é incapaz de repor a mão-de-obra necessária à produção ou a individualidade que incrementa a esfera do consumo. Por fim, sendo apenas a mulher de Armando, suas possibilidades de subjetivação são pouco satisfatórias: falar sem ser ouvida, trabalhar sem produzir riqueza e sem obter reconhecimento ou retribuição, entregar-se ao marido. A subalternização emerge como uma categoria útil à compreensão dessa modalidade imposta de subjetivação por revelar a direcionalidade dos mecanismos de poder. Estes se encontram, do ponto de vista de suas possibilidades de realização e observação, infinitamente mais sofisticados quando, como no caso, se manifestam na urbanidade, e não no campo, o que, aliás, representa a permanência de um ideal arcaizante de pureza campesina que remonta no mínimo ao romantismo. A condição de gênero aparece no conto sob uma rede de nuanças: configurada a partir de uma educação tradicional-repressora e antiquada, debilitada pela loucura e pela esterilidade, esvaziada de autenticidade pelo matrimônio modelar e convencional. Note-se que, excluindo-se o dado do gênero, as condições sobredeterminantes seriam suficientes para arrojar na condição subalternizada qualquer sujeito, independentemente de sua organização genital ou de sua identidade de gênero. Nenhuma delas, acrescentamos, seria fruto de uma escolha deliberada, o que lhe retira todo e qualquer conteúdo contestatório, exigindo uma distinção da condição marginal, sempre mais complexa, posto que pode ser almejada e não apenas imposta. Some-se a isso tudo que nenhum desses elementos invalida o fato de que Laura ama seu marido, ainda que possa não estar nem um pouco satisfeita com sua condição atual. 496
  3. 3. 2. Uma vontade com afetos, e um entendimento sem uso: amor e queixas de Laura Vieira (2000, p. 345). afirma sobre o amor, no delicioso Sermão do Mandato de 1645, que “deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se for amor.” Que legenda acharíamos mais adequada para o amor de Laura por Armando? O firme desejo de constância, como precaução contra o retorno da loucura, é a matéria de que se compõem os pensamentos conscientes da protagonista, mil vezes reiterados, sob mil formas, na consigna implícita: “mostrar que está curada”. Mas não é só na constância da lucidez que Laura vive a firmeza do amor. Os valores do tradicionalismo, que aprisionam a mulher na subalternização de seu estilo de ser sujeito, por exemplo, manifestam-se, simbolicamente, num rito de dessexualização, de esvaziamento das reservas erogeneizantes de seu corpo, como vemos no trecho: Interrompendo a arrumação da penteadeira, Laura olhou-se ao espelho: e ela mesma, há quanto tempo? Seu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher. (LISPECTOR, 1998, p. 35) Todas as marcas apontam para uma medianidade estrutural que fixa Laura na imutabilidade de sua situação. Laura é um corpo sem atrativos. E mais: um corpo que deve ser deliberadamente sem atrativos. A expressão de valores como a fidelidade alcança o paroxismo na especulação que Laura exercita em outra passagem do texto, vagamente baseada em algo que o narrador, no uso parcimonioso de uma onisciência multisseletiva (DAL FARRA, 1978, p. 29), buscando a alma de Laura, traduz como “vontade de acertar”: Ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser. Ter cabelos pretos ou louros eram um excesso que, na sua vontade de acertar, ela nunca ambicionara. Então, em matéria de olhos verdes, parecia-lhe que se tivesse olhos verdes seria como se não dissesse tudo a seu marido. (LISPECTOR, 1998, p. 41-42) O receio de parecer adúltera – mesmo que apenas para si mesma – não implica necessariamente a existência de um desejo de ser adúltera, como algumas leitura vulgares e pretensamente psicanalíticas gostam de sugerir. O dado teórico relevante, na passagem acima, é a implicação de um superego tirânico, capaz de fazer a mera ponderação de uma hipótese ser sentida como perigo ou angústia. Levantamos, todavia – em oposição ao conteúdo semântico depositado na camada superficial do texto, na qual Laura é submissa e resignada –, a hipótese de que o sentimento de Laura por Armando está marcado por uma ambivalência de tal forma investida de intensidade que mesmo o narrador evita tornar consciente seu conteúdo, que transparece, involuntariamente, sob formas ingênuas de auto-difamação (quando o foco é concedido a Laura) ou sob uma ambígua desqualificação de Armando (quando a focalização está centrada no narrador): … e se ela era obrigada a tomar cuidado para não importunar os outros com detalhes, com Armando ela às vezes relaxava e era chatinha, o que não tinha importância porque ele fingia que ouvia mas não ouvia tudo o que ela lhe contava, o que não a magoava, ela compreendia perfeitamente bem que suas conversas cansavam um pouquinho uma pessoa, mas era bom poder lhe contar que não encontrara carne mesmo que Armando balançasse a cabeça e não ouvisse…” (LISPECTOR, 1998, p. 41) Como se fosse para tirar o retrato daquele instante, ele manteve ainda o mesmo rosto isento, como se o fotógrafo lhe pedisse apenas um rosto e não a alma. Abriu a boca e involuntariamente a cara tomou a expressão de desprendimento cômico que ele usara para esconder o vexame, quando pedira aumento ao chefe. […] (LISPECTOR, 1998, p. 53) Aproveitaremos o momento para considerar duas condições necessárias à configuração de um quadro melancólico, distinto do luto porquanto vivenciado como perda apenas na esfera psíquica. A primeira delas, mais ligada ao centro da descrição da vida psíquica de Laura seria aquele auto-envilecimento ou 497
  4. 4. autorecriminação, facilmente identificáveis na leitura do conto. Laura enuncia, aberta ou veladamente, de modo alternado, um conjunto de queixumes contra si mesma, que poderíamos tresler como acusações ao marido. No esforço interpretativo a que nos dispusemos, este tipo de comportamento deverá ser percebido como uma estratégia de contorno da necessidade de criticar o objeto amado e não como uma negativa do sentimento amoroso. Outra condição, indispensável, é que a relação erótica seja marcada pela ambivalência, como vimos no trecho citado acima. Também nesse aspecto, o conto clariceano é exemplar. Armando é visto de modo ambivalente, principalmente, pela necessidade que Laura manifesta de não decepcioná-lo, o que lhe dá um estatuto de figura tirânica cujo desapontamento é imperativo evitar a todo custo. Note-se que a opinião de Armando sobre a satisfação ou insatisfação de suas necessidades não é explorada. Uma única vez, Armando, ao dizer que aprecia as formas roliças de sua esposa, expressa-se de modo rude, já que a mulher atribui suas formas à mesma insuficiência ovariana que a faz estéril. Laura, entretanto, prefere interpretar o comentário como uma brincadeira maliciosa. A tirada de Armando é: “De que me adiantava casar com uma bailarina?”. Adiante, na compulsividade da repetição que é natural em sua condição de sofrimento psíquico, Laura repete com uma leve alteração a frase: “De que é que me adiantava ser casado com uma bailarina?”. A frase seguinte, evidência magnífica de como a ambivalência afetiva alcança um efeito importante até no nível lexical do texto, é esta: “Às vezes ele era muito sem-vergonha, ninguém diria.” Para encaminhar a conclusão desse etapa de nossa leitura, citamos o trecho em que nos baseamos para, a uma só vez, interpretar o medo de desapontar o marido e a irrupção de uma fórmula (esquecer é trair), capaz de desvendar o ressentimento inconsciente de Laura por Armando: Mas quando viu as horas lembrou-se, num sobressalto que a fez levar a mão ao peito, que se esquecera de tomar o copo de leite. Encaminhou-se para a cozinha e, como se tivesse culposamente traído com seu descuido Armando e os amigos devotados, ainda junto da geladeira bebeu os primeiros goles com um devagar ansioso, concentrando-se em cada gole com fé como se estivesse indenizando a todos e se penitenciando. (LISPECTOR, 1998, p. 36) Se Laura esquece os cuidados de si, trai aqueles que ama. Logo, deve manter sempre na memória suas obrigações, para não magoar o marido e os amigos. Por analogia, se o marido estava em paz quando podia esquecer-se dela, tirar-lhe a paz veicularia o reclame inconsciente de Laura contra Armando. Enlouquecer será fazer de si uma lembrança perene. Enlouquecer é reivindicar a atenção e o cuidado negligenciados ao longo de toda uma vida conjugal. 3. Os trabalhos do luto ou um buquê de rosas brancas ou “Flores para los muertos” A esterilidade de Laura faz com que a impossibilidade de ter filhos se desvie de um provável mecanismo sublimatório na direção de um processo lutuoso, no qual a perda dos filhos imaginários é vivida, no inconsciente, como perda real. Mas para isso impõe-se a condição de eleger um objeto apreensível pelo sistema consciente, através do qual a perda objetal possa ser revivida. Revivida, ela permitiria que o afeto vinculado ao objeto fosse gradualmente retirado e reinvestido em um outro objeto. Comparemos os dois trechos a seguir: Por acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria nesse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca tivera? (LISPECTOR, 1998, p. 35) Então devagar ela se sentou calma no sofá. Sem apoiar as costas. Só para descansar. Não, não estava zangada, oh nem um pouco. Mas o ponto ofendido no fundo dos olhos estava maior e pensativo. Olhou o jarro. “Cadê minhas rosas”, disse então muito sossegada. (LISPECTOR, 1998, p. 50) Quaisquer que tenham sido as características — perceptuais ou conceituais — daquelas rosas, parece bem aceitável que este objeto, no inconsciente de Laura, recebeu e manteve ligada a si toda a carga de afeto 498
  5. 5. que estaria naquele momento vinculada aos filhos, objeto possível cuja perda foi vivida como perda real. Os filhos, cuja existência é inteiramente alucinatória, teriam sido internalizados como um objeto parcial. Alguns outros elementos reforçam essa linha interpretativa. Vejamos como surge esse buquê: […] Como era rica a vida comum, ela que enfim voltara da extravagância. Até um jarro de flores. Olhou-o. – Ah como são lindas, exclamou seu coração de repente um pouco infantil. Eram miúdas rosas silvestres que ela comprara de manhã na feira, em parte porque o homem insistira tanto, em parte por ousadia. Arrumara-as no jarro de manhã mesmo, enquanto tomava o sagrado copo de leite das dez horas. (LISPECTOR, 1998, p. 42) Concebidas sob a presença tutelar do médico e pela insistência de um homem? Antes de concluirmos qualquer coisa, vejamos a descrição que vem mais adiante: Eram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo. Em algum momento tinham trepado com ligeira avidez umas sobre as outras mas depois, o jogo feito, haviam se imobilizado tranqüilas. Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom de rosa era quase branco Pareciam até artificiais! disse em surpresa. Poderiam dar a impressão de brancas se estivessem totalmente abertas mas, com as pétalas centrais enrodilhadas em botão, a cor se concentrava e, como num lóbulo de orelha, sentia-se o rubor circular dentro delas. Como são lindas, pensou Laura surpreendida. (LISPECTOR, 1998, p. 43) A alucinação que funde sua condição de esposa insatisfeita, estéril e ex-paciente manicomial, faz desse buquê de rosas o objeto capaz de permitir-lhe a vivência da perda dos filhos imaginários (com a subseqüente desvinculação do afeto nele investido) e, simultaneamente, a auto-reflexão que a colocava diante de si mesma e do papel que se esperava que ela representasse. A chave subalternizada de sua subjetivação, delimitada e configurada pela perspectivação permitida pela alternância do foco narrativo entre Laura e o narrador de terceira pessoa, é o verdadeiro elemento propiciador do desfecho do conto. Entre a loucura e o matrimônio a diferença é de graus de subalternidade, não é de essência. Em conflito com a subjetivação subalternizada que lhe impõem, a mulher pinta a loucura como uma condição sobre-humana, em que não há angústia nem cansaço nem qualquer forma de falibilidade. A loucura é a proteção contra a angústia da solidão da esterilidade e do matrimônio. E mesmo que se trate de uma condição socialmente desprestigiada, a loucura dificulta as formas de espoliação afetiva e moral a que Laura estava submetida, porque a loucura é temida e misteriosa. Na loucura, Laura ainda tem alguma dignidade, como se depreende das imagens de perfeição, altivez, serenidade, luminosidade. Laura, retornando à loucura, pode enxergar-se inalcançável. E tudo graças ao singelo buquê de rosas brancas e silvestres. Ali, na loucura em que a experiência humana conduz do homem inteiro ao homem inteiramente, é permitida a imitação de Cristo. Referências bibliográficas AUERBACH, Erich. A meia marrom. In: _____. Mimesis : a representação da realidade na literatura ocidental. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 471-498. DAL FARRA, Maria Lúcia. Ótica e pontos de vista. In: _____. O narrador ensimesmado: (o foco narrativo em Vergílio Ferreira). São Paulo: Ática, 1978. p. 29. (Ensaios, 47). FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: _____. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, s/d. LISPECTOR, Clarice. A imitação da rosa. In: _____. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 34- 53. VIEIRA, Antônio. Sermão do Mandato (1645). In: _____. Sermões. Organização e introdução por Alcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2000. p.345. (Tomo I). 499

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