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consiste a educação dum sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para avirgindade: isto é, para a supressão viole...
que nos chama, que nos faz quase esquecer o enquadramento em que se encontra.Sob a manta (ou saia) que o cobre, mostra-se ...
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para o seu sorriso que se opõe ao rosto fechado do homem que nos fita sempre, semcessar, e pensamos no conhecimento da gra...
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Do realismo do pecado chpr[final]ao

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Do realismo do pecado chpr[final]ao

  1. 1. Do Realismo do Pecado: Ler Eça ∗em Paula Rêgo «Quem não quer ver o que há de elevado num homem olha com maior agudeza para aquilo que nele é baixo e superficial – e assim se revela a si mesmo.» Friedrich Nietzsche, in "Para Além de Bem e Mal" Seria possível começar assim: «A sua figura amarelada e magrita pedia aqueledestino recolhido: era já afeiçoado às coisas de capela, e o seu encanto era estaraninhado ao pé das mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo falar de santas.», maso desejo de ser claro e procurando recentrar toda a argumentação num fio lógico faz-me partir do simples olhar sobre a obra «Entre Mulheres» de Paula Rego e elevar osentido de provocação começando pelo fim. Refaço e crio um novo começo: «- Aí temo abade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistência às maisjustas solicitações da natureza, e resistência aos mais elevados movimentos da razão.Preparar um padre é criar um monstro que há de passar a sua desgraçada existêncianuma batalha desesperada contra os dois factos irresistíveis do universo – a força daMatéria e a força da Razão!». Feita a abertura da linha de pensamento sigo para ondeme leva uma leitura da obra de Eça de Queirós, «O Crime do Padre Amaro» na obra dePaula Rego. É desta trindade de figuras que podemos criar um olhar mais interpretativo ecolocar na pele ou no vestido das duas mulheres presentes na cena estes papéis deMatéria e Razão. Da carne jovem da rapariga, essa ideia de pecado real, emerge aMatéria. Da mulher que cose abstraída do real, a Razão. Quase somos transportadospara uma lógica a que Eça nos habitua no ambiente em que nos submerge na sua obra.Uma dualidade entre moralidade (ou moral) e fé. «- Estou a dizer a verdade. Em que 1
  2. 2. consiste a educação dum sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para avirgindade: isto é, para a supressão violenta dos sentimentos mais naturais. Secundo:em evitar todo o conhecimento e toda a ideia que seja capaz de abalar a fé católica;isto é, a supressão forçada do espírito de indagação e de exame, portanto de toda aciência real e humana…». É nesta dualidade que o nosso pequeno ensaio se balança.Quase como cada uma das personagens que surgem, quase vivas, das duas obras.Quase nos provocando esse pensamento reflexivo sobre o peso da nossa moral sobrea nossa fé. Quase tornando real o pecado, na noção evocada e emanada do velhoConcílio de Trento, um pecado que é objeto, coisa, que tem algo de original, de prisãoda condição humana. Faltava a Eça a liberdade que Paula Rego teve de pintar o pecadorepresentado, real, mas o pecado descrito já numa era do Concílio Vaticano II. Umpecado que pode ser desculpado. Pecado que sendo carne, real, tem muito do que oespírito transporta em si na verdadeira luta constante suspensa na dignidade dapessoa humana. Desta trindade representada na obra de Paula Rego, a lembrarreligiosamente as figuras ilustrativas da Matéria e da Razão, colocamo-nos fixos noolhar sobre a dualidade Homem/Mulher. O homem colocado em Paula Rego, como emEça, como personagem principal e, seguro e preso em todas as suas relações,movimentos e espaços pela mulher. As mulheres, neste caso, espaço elas mesmo denarrativas perfeitas e ilustrações de um mundo interior de dimensão maior do quequalquer reflexão que sobre estas se possa tecer. Erasmo de Roterdão escreveria em1509 «Quereis prova mais evidente de que só a loucura constitui o ascendente dasmulheres sobre os homens? Os homens tudo concedem às mulheres por causa davolúpia e, por conseguinte, só com a loucura é que as mulheres agradam aos homens.Para confirmar ainda mais esta conclusão, basta refletir nas tolices que se dizem, nasloucuras que se fazem com as mulheres, quando se anseia por extinguir o fogo doamor.». Se podemos deixar, por momentos, à distância estas reflexões sobre aabordagem religiosa e moral das obras de Eça de Queirós e Paula Rego, o mesmo nãopodemos fazer quanto à representação real das personagens e do realismo do pecadoque nelas se aflora e se apresenta diante dos nossos olhos como imensa, envolvente etransfiguradora. Nem Eça, nem Paula Rego são, neste pequeno ensaio, alvo da análise completae complexa de correntes, orientações, lógicas de pensamento ou aprofundadasramificações racionais sobre as duas realidades artísticas. Seria, da minha parte, umaestultícia pensar em tal caminho. Como em todas as realidades representadas, ler Eçaem Paula Rego é um desafio imperfeito. Será necessário abrir caminho. Procurar novosângulos, novas perspetivas de visão e interpretação. Refazer a leitura das obras econtrariar as deduções básicas. Volto a Eça para dar o primeiro passo: «Punha-seentão a pensar nos três inimigos da alma – Mundo, Diabo e Carne. E apareciam à suaimaginação em três figuras vivas: uma mulher muito formosa; uma figura negra deolho de brasa e pé de cabra: e o mundo, coisa vaga e maravilhosa…». Eis os pilares danossa análise. O foco de toda a atenção para a análise pedida e necessária: os trêsinimigos da alma. Tomemos, então, a obra «Entre Mulheres» de Paula Rego para servir de base àlinha que fiará o nosso pensamento. Um homem, deitado e coberto por uma manta,fixa-nos na sua posição quase fetal. Um olhar que não nos solta nem por um instante.Um olhar presente mas distante sobre um rosto seco e quase sem expressão. Um olhar 2
  3. 3. que nos chama, que nos faz quase esquecer o enquadramento em que se encontra.Sob a manta (ou saia) que o cobre, mostra-se a dobra escura de uma batina(?) querevela o seu lado escondido. Um segredo revelado para quem estiver atento ou umasimples distração de quem não consegue esconder a sua natureza moral. Este homemé ladeado por duas mulheres. Não resisto a ir a Eça agora e descrever: «Pelo meio dodia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar onde a S. Joaneira e Améliacosturavam. (…) A S. Joaneira, numa cadeira pequena, ao pé da janela, com o gatoaninhado na roda do vestido de merino, cosia de luneta na ponta do nariz. Amélia,junto da mesa, trabalhava com o cesto de costura ao lado: a cabeça inclinada sobre otrabalho mostrava a sua risca fina, nítida, um pouco afogada na abundância do cabelo;os seus grandes brincos de ouro, em forma de pingos de cera, oscilavam, faziamtremer e crescer sobre a finura do seu pescoço uma pequenina sombra; as olheirasleves cor de bistre esbatiam-se delicadamente sobre a pele de um trigueiro mimoso,que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava devagar. Às vezes,cravando a agulha na fazenda, espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada.». E láestão, ladeando o homem a quem chamarei Amaro, duas mulheres. Uma mais velha euma mais nova. Uma mulher longe da cena, centrada nos panos que lhe cobrem aspernas e que costura, a mulher mais velha, parece destinada a pensamentos própriossendo nos dada a conhecer pelo seu distanciamento do nosso lugar de observação.Podemos mesmo quase dizer que se podia criar um quadro só para aquela figura, tirá-la daquele momento e ela não daria por essa mudança de tão concentrada no universodas suas mãos em que se encontra. Este triângulo quase clássico na pintura transportaa mulher mais nova para o centro da narrativa acompanhando o homem. Chamarei àrepresentação da mulher mais nova, Amélia. Assim, na mesma linha visual e na mesmacena narrativa temos o homem, Amaro e a mulher mais nova, Amélia. Sobre eles tudose passa neste quadro e é sobre eles que toda a atenção se centra. Veremos que não ébem assim no decurso desta breve narrativa de análise, mas fechemos os olhos àmulher mais velha, a quem chamarei de S. Joaneira, (e apresento-a «… e a figura da S.Joaneira destacava plenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda, alta, muitobranca, de aspeto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham já em redor a peleengelhada; os cabelos arrepiados, com um enfeite escarlate, eram já raros aos cantosda testa e no começo da risca; mas percebiam-se uns braços rechonchudos, um colocopioso, e roupas asseadas.») reservando-a para o fim desta leitura imaginada. No quadro «Entre Mulheres» de Paula Rego, o homem é a figura central, mas anarrativa é o foco. Amaro, como lhe chamei, olha-nos diretamente. A mulher maisnova, Amélia, como lhe chamei, olha Amaro. Se formos a Carlos Drummond deAndrade buscar a sua Quadrilha «João amava Teresa que amava Raimundo…»podemos criar, na mesma lógica, uma leitura para esta imagem de uma mulher queolha um homem que nos olha a nós. E qual a razão desta linha (in)visível que nosperturba? Vamos olhar para o olhar de Amélia, nesta obra, pegando na dualidade queEça lhe dá, tal como a Amaro, no seu crime. Olhemos para o olhar de Amélia quandoela olha para Amaro assim: «Amélia, sentada sobre os calcanhares, com a facebanhada num sorriso, admirava-lhe o perfil, a cabeça bem feita os paramentosdourados – e lembrava-se quando o vira pela primeira vez descendo a escada da Ruada Misericórdia, com o seu cigarro na mão.». Olhemos para aquela mulher jovemapenas com a inocência do repente de um instante em que nos centramosconcentrados nessa linha desenhada entre um homem e uma mulher quando a 3
  4. 4. inocência existe, de facto, por esse mesmo instante preso num tempo que se desfaz aomínimo gesto. É que, de facto, são os gestos, a posição do corpo, o movimento quePaula Rego coloca no corpo da jovem mulher que nos faz pensar se todo aqueleenquadramento se faz com base nesta “Amélia” inocente. Amaro, o homem, olha-nos.Mas terá olhado Amélia? A mulher jovem? Diz-nos Eça como Amaro viu Amélia numprimeiro momento: «Amaro olhou para ela, então, pela primeira vez. Tinha um vestidoazul muito justo ao seio bonito; o pescoço branco e cheio saía dum colarinho voltado;entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte dos dentes brilhava; e pareceu aopároco que um buçozinho lhe punha aos cantos da boca uma sombra subtil e doce.».Este é o olhar do homem que, na obra «Entre Mulheres» nos olha fixamente. Coloquemos a inocência da mulher jovem, Amélia, em reserva por um instante.Aquele instante que passa num tempo tão rápido como fugaz partida do olhardistraído do observador da cena e olhemos para Amélia que sente assim: «Queriaentão rezar; folheava o livro, mas vinha-lhe à ideia o que Libaninho nessa manhãdissera: “O senhor pároco tinha uma pelezinha tão branca como um arcanjo…”. Devia-a ter decerto muito delicada, muito terna… Um desejo intenso queimava-a…».Guardemos esta ideia de Amélia como mulher, para um pensamento tardio que sejuntará a este olhar um pouco mais tarde. A verdade é que, deixamos agora as duaspersonagens principais deste enredo neste limbo, entre o Mundo e a Carne, entre ainocência da paixão e a fugacidade carnal dos limites inquebráveis para um e dastentações da alma e do corpo para ambos. Talvez numa inocência não consentida ounão real nesta narrativa visual que exploramos de forma imaginada. Voltemos a olhar a obra. Ao fundo, quase no mesmo segredo que parecemcontar e numa representação quase “em espelho”, uma figura não identificada parecedizer qualquer coisa em segredo à mulher mais velha cujas costas e vestido sãofacilmente identificados. A S. Joaneira, como a identifiquei, ouve algo contado emsurdina. Este é um dos aspetos mais abertos desta narrativa. Talvez aqui resida o valormais racional, moral e aberto da narrativa que a obra, «Entre Mulheres», e esta leituracruzada entre a obra de Eça e Paula Rego nos pode levar enquanto espectadoresparticipantes. Regressemos ao «Crime do Padre Amaro» em choque com a realidadeque nos falta para a leitura ficar completa: «Amaro abria abruptamente a porta doescritório e fechou-a de repelão, e sem mesmo dar os bons-dias ao colega exclamou: -A rapariga está grávida!». Não é sem razão que Amaro não diz ao cónego: « - A Améliaestá grávida!» e usa o termo distante «rapariga». Agora, ao olharmos o quadro dePaula Rego, vemos, de facto, uma rapariga em contraponto com a mulher mais velha.Aquela é, de facto, uma rapariga e não só uma mulher. E é nesta linha que jogamostoda a narrativa que a obra nos propõe agora. Teremos que recorrer a uma simples,mas muito eficaz, questão. E se? Deixamos o desafio de adivinhar o que seria osussurro contado pela figura enigmática no plano de fundo para voltarmos a Amélia,rapariga, e olhar para o que sente sobre aquele homem que nos aparece deitado emposição quase fetal e sobre o qual a mulher mais jovem, Amélia, olha constantementee prende com o seu pé a manta ou saia que o cobre. Será uma forma de poder sobreaquela figura estranha masculina que ainda não parou de nos olhar ou simplesmentelhe passam os pensamentos que Eça lhe coloca no rosto, no olhar quando diz: «O quê?Ele punha-a naquele estado e agora queria descartar-se dela e passá-la a outro? Eraela porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre?». Olhamos para Améliaque agora nos aponta, com o seu braço e a sua mão esquerda, o seu ventre. Olhamos 4
  5. 5. para o seu sorriso que se opõe ao rosto fechado do homem que nos fita sempre, semcessar, e pensamos no conhecimento da gravidez, de que era mulher e não raparigacomo Amaro lhe chamara, que tinha ali o seu desejo de ser mulher consumado dadivisão entre o possível e o impossível e que tinha, sobre os seus pés, aquele homem,indefeso, fraco e quase em gestos e posições pueris. Mas um segredo, mesmo que sussurrado, tem uma relevância extrema paraesta nossa narrativa imaginada entre Eça e Paula Rego. Aquele segredo, em segundoplano, que desfará a complexidade ou adensará a nossa perplexidade sobre a naturezahumana, fator que Eça e Paula Rego colocam em confronto, quer nas palavras, quernas imagens. «Mas a controvérsia não recomeçou: diante daquela mãe que acordavadepois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado paralonge e para sempre…». Olhemos para a cena que nos aparece agora diante dos olhos.Eça de Queirós fez, como Paula Rego, com que a mulher mais velha, chamemos-lhe S.Janoeira, como já referi, fosse arredada de “saber” do crime de Amaro e Amélia. Elaprópria, amante do cónego, ela própria mulher formosa a quem podemos chamar deDiabo na tentação da alma, não precisava saber para conhecer o crime exposto ousimplesmente foi poupada por Eça, mas não o foi por Paula Rego. Ou talvez não tenhasido poupada de conhecer a realidade por nenhum dos artistas/autores. Ela sabia. Porum sussurro ou por ser o que o seu olhar tecia, como as suas mãos o faziam comtecidos, aquela mulher arredada da narrativa é, na sua essência, razão da mesma. Delapartem todas as dúvidas. Do seu olhar sobre si, em culpa ou vida vivida em segredo, dasua inocência de paixão escondida ou simples tempo passado sobre a vida, sabia-o.Sabia que aquele homem que descansa sobre as suas pernas e aquela rapariga emulher que o olha tinham traçado o seu destino simplesmente nas mesmas dúvidasque Paula Rego nos propõe nesta obra. As dúvidas sobre a moralidade da inocência ouda diabólica vontade da carne. Olhemos para Amaro que nos olha. O homem em descanso. «- A criança?exclamou Amaro. Depois de um momento, ela respondeu, sem perturbação: - Nem mefale nisso, que me tem dado um desgosto… Ontem mesmo, duas horas depois de terchegado… O pobre anjinho começa a fazer-se roxo, e ali me morreu debaixo dosolhos.» Olhemos agora para Amaro, aquele homem que nos olhou este tempo todopreso entre mulheres e deixemo-lo entre a culpa e a procura de refúgio/perdão. Eolhemos uma última vez para a mulher jovem, Amélia, e vejamos o seu desejo devingança ou simples desejo profundo de descanso e de fim da mágoa. É nesta linhaque o Mundo, o Diabo e a Carne se tecem diante dos nossos olhos situando-se entre aspalavras limpas e abertas de Eça e a leitura clara e pura de Paula Rego. Do realismo do pecado, como se tudo fosse esta narrativa aberta e imaginada,em traços e rasgos de tinta, em letras e frases gravadas em papel se grava uma visãosobre a natureza humana no que de livre e suspenso se encontra em cada uma daspersonagens criadas nesta breve análise sobre a obra de Eça de Queirós e Paula Rego. João Lima 2011 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico∗ Todas as citações feitas sem identificação do autor são da obra “O Crime do Padre Amaro – Cenas da VidaDevota”, de Eça de Queirós, na edição da Editorial Presença (2005), conforme o texto da edição crítica preparadapor Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha. 5

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