Mary wine a impostora - grh

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Mary wine a impostora - grh

  1. 1. Mary WineA Impostora Realização/Créditos: Tradução/Pesquisas: GRH Revisão Inicial: Joelma Revisão Final: Nadia Cortez Formatação e Arte: Ana Paula G. G 1
  2. 2. Resumo Anne se sentia acuada, pois a esposa de seu pai pretendia casá-la com um escocês selvagem no lugar de sua meia- irmã, filha legítima e ela não poderia fazer nada, pois era apenas a filha bastarda. Brodick escolhera uma esposa inglesa por causa de seu dote e estava preparado para todos os problemas que ocorreriam por isso, ele era um valoroso guerreiro e laird de seu clã e conseguiria dominá-la Anne aprendera amar seu marido e esperava um filho seu, mas ela deveria retorna para Inglaterra, pois assim sua senhora o exigia para entregar seu filho a sua irmã, em troca da vida de sua mãe e irmãos. E agora o que seria dela?2
  3. 3. Revisão Final: Nadia Cortez Achei o livro muito bem estruturado e desenvolvido, está nacategoria dos gostosos de ler, algumas passagens são bemquentes a ponto de soltar fagulhas, mas não chegam a sergrosseiros. A personagem feminina é uma mistura de donzela tímida emulher valente, pois no ínicio sabe se impor, só que durante apasssagem do tempo ela se torna muito submissa ao marido. Ele é o guerreiro belo, forte e poderoso, que na verdade todamulher gostaria de encontrar pelo menos uma vez na vida. Massabe ser humano e correto como lider do clã. Eu apreciei o romance, mas não existe cenas de luta nemgrandes conflitos, entretanto o enredo envolve e satisfaz nofinal. Nota da Moderação do GRH: Quando começamos a revisão deste livro, ele ainda nãohavia sido digitalizado.Quando foi, conversando com a revisorainicial, concordamos em continuar a revisão porqueduvidávamos que a versão brasileira mantivesse as partes hotsdeste livro, sem cortes. E acertamos! Leiam os dois ecomparem!! Fora vários trechos que foram suprimidos naversão lançada no Brasil! 3
  4. 4. Capítulo 1 Castelo de Warwick, 1578 — Não tocará nas minhas pérolas! A condessa de Warwickshire era uma mulherformosa, no entanto tinha os lábios retorcidos, numa arrepiante expressão, enquantofulminava com o olhar a amante de seu marido. — É obvio que as tocará, esposa. O conde entrou no quarto sem fazer ruído, nemsequer suas esporas emitiram algum som. Manteve a voz serena embora houvesseum inconfundível timbre autoritário nela. Todos os criados presentes na residênciaabaixaram a cabeça num gesto de deferência ao senhor da casa, antes de continuarcom as suas tarefas. Entretanto, eles escutavam atentos tudo o que se dizia, já queseguiam com interesse a evolução do crescente descontentamento da condessa. Eeste tinha aumentado desde o dia que souberam que a amante do conde estavagrávida, e fazia tempo que esperavam um desenlace para semelhante situação. — Levará as pérolas e as novas roupas, que a encarreguei de providenciar paraquando a criança nascesse. Lady Philipa mordeu o lábio inferior para reprimir amordaz resposta que lhe veio à mente. Não se atreveu a expressá-la em voz altaporque sabia quão volúveis eram os homens quando a paixão cruzava em seucaminho. Em lugar disso, seus lábios formaram uma careta ao mesmo tempo em quefazia uma reverência ao seu marido. Ao levantar o rosto, seus lábios estavamrelaxados de novo, um testemunho dos anos de aprendizagem nas mãos de sua aia.As mulheres tinham que saber controlar-se muito mais do que os homens, pois, 4
  5. 5. naquele mundo que lhes havia tocado viver, seus destinos estavam em mãos de seusmaridos. — Milorde acaso eu não vou usufruir de nenhuma comodidade? Terei que me verrebaixada a ver meus melhores adornos em sua amante? Deseja por acaso me verdesonrada em minha própria casa? O conde se colocou diante de sua esposa e ergueuum dedo acusatório diante de seu nariz enquanto percorria seu rosto com um olharescuro. — Não é mais que uma rameira, Philipa. Uma rameira malcriada e ressentida quenem sequer tem a dignidade de cumprir com seu único dever. Sua mão se fechou emum punho que agitou em frente aos alarmados olhos da condessa. — Escute bem! Não haverá mais hipocrisias nesta casa! Alegue diante de uma sópessoa ou diante todos que não desfruta dos privilégios de sua categoria e farei quedesapareçam de seus aposentos as tapeçarias, tapetes. Seus finos vestidos e suasjóias estarão fora de seu alcance e se fechará com chave o armário das especiariaspara que possa viver, realmente, sem comodidades. A condessa soltou um gritoabafado, mas cobriu a boca por temor que lhe escapasse uma furiosa réplica e selarassim seu destino. O conde assentiu com a cabeça reafirmando suas próprias palavrasantes de agarrá-la pelo braço, para fazê-la virar-se para sua amante, Ivy Copper, queestava deitada na cama abraçando a recém-nascida. O bebê dava suspiros e apertavaum punho gordinho contra o peito de sua mãe enquanto mamava. Ninguém tinha seimportado de vestir a menina, já que os tecidos custavam dinheiro e Ivy não tinhanem voz nem voto em relação ao que lhe entregavam. Os serviçais, por sua parte,estavam às ordens de Philipa e ela não tinha indicado ninguém para que tomasseprovidências de envolver ao bebê para assegurar-se de seu perfeito crescimento, porisso a menina apenas vestia um longo vestido, como se fosse filha de um camponês. 5
  6. 6. O cabelo de Ivy estava escovado e brilhava suavemente sobre seu ombro, poiscomemorava o primeiro dia que havia saído da cama. Philipa tinha alimentado asecreta esperança de que a amante de seu marido morresse de febre depois do parto,mas estava ali sentada representando a viva imagem da boa saúde. Inclusive lhe tinhasubido o leite para garantir que sua filha bastarda crescesse forte. — É certo que foi envergonhada, esposa, mas foi sua própria covardia que a levou aesta situação. O Conde a fez virar-se para que o olhasse, fazendo um estremecimentopercorrer Philipa ao captar seu aroma másculo, seu débil corpo feminino o desfrutou,e teve que admitir que evitar o leito conjugal requeria disciplina. — É uma covarde,esposa. Abandonou meu leito por medo do parto. Olhe a minha nova filha, Philipa.Deus honra aos corajosos. Seu olhar suavizou por um momento e seus olhosrefletiram bondade. — É minha esposa, retorna a minha cama e assuma seu dever. Seo fizer, juro que nenhuma outra ocupará seu lugar. Nenhum bastardo se colocará porcima de seus filhos. Philipa agitou a cabeça de um lado a outro enquanto tentavaescapar dele. O medo a sufocou, a impedindo de falar. Dar a luz era perigoso, mortal!Mais da metade de suas amigas tinham acabado mortas, depois do parto por causa defebres ou, pior ainda, haviam falecido depois de sofrer durante horas em dolorosaagonia para os bebês abandonar o corpo de suas mães. O conde bufou indignado, apontou-lhe o dedo e sua voz ressoou através dos murosdo castelo. — Irá se encarregar pessoalmente de colocar o colar de pérolas ao redor do pescoçode minha amante e de segui-la até a igreja. E também será a madrinha de minha novafilha. — Pretende reconhecer à bastarda? Conturbada, Philipa sentiu que lhe tremia olábio inferior. — E quanto a Mary? Dei-lhe uma filha, Milorde! 6
  7. 7. — E por isso a honrei como devia. Soltou-lhe o braço e deslizou o dorso de sua mãopela face dela. – A honrarei de novo e esquecerei tudo isto se retornar ao meu leitocomo deve. Abaixou a voz para que Ivy não pudesse ouvi-lo. – Deixá-la-ei, de lado,Philipa, por ti e por um filho legítimo, pense nisso. Mas não recorrerei à violação, nãopermitirei que me imponha semelhante peso, estamos casados e seu dever, igual aomeu, é conceber filhos no leito conjugal. Depois de dizer aquelas palavras, o conde seafastou de Philipa para unir-se ao grupo de visitantes que festejavam o fato de que Ivytivesse sobrevivido ao parto. Nas próximas duas semanas, se ainda vivesse, a novamãe iria à igreja para ser purificada pelo Clérigo do castelo e, a partir de então, lheseria permitido assistir de novo aos ofícios religiosos. A bastarda logo seria batizada, pois as tradições deviam ser seguidas, tal e comovinha acontecendo há séculos. Se Ivy morresse antes de ir à igreja, ela não seriaenterrada em solo sagrada e se o bebê falecesse sem ser batizado, também lhe serianegado à sepultura em solo santo. Os suaves sons que a menina emitia ao mamarecoavam no quarto, enquanto Philipa observava como seu marido se inclinava parabeijar a sua amante. A cama era o vivo exemplo do luxo. Grossas tapeçarias de lãcobriam o dossel e caíam como cortinas nas laterais. Seus lençóis, agora limpos, eramdo fio mais fino, e o lençol manchado do dia do parto se mostrava com orgulho juntoà janela, onde todos os visitantes podiam tocá-lo ao passar, para que lhes desse, boasorte. Ivy usava um vestido comprido procedente do próprio armário de Philipa e odelicado tecido resplandecia sobre sua cremosa e suave pele. Havia vinho quente adisposição da nova mãe e bolos assados com especiarias da reserva particular doconde. Tudo fora preparado tão grandiosamente como quando ela tinha sido mãe epermitiu que sua filha Mary fosse vista pela primeira vez. A única diferença era queuma ama de leite tinha amamentado a sua menina, porque, como uma mulherpertencente à nobreza, a condessa podia permitir-se ao luxo de não ter que atender 7
  8. 8. as necessidades básicas de um recém-nascido. Philipa olhou os seios de Ivy eobservou que o leite deslizava pela bochecha do bebê. O conde riu e a limpou comsua própria mão. A amante de seu marido sorria satisfeita diante dos cuidados que elae sua filha recebiam, aquela imagem produziu em Philipa um amargo sabor na bocaque a fez se estremecer, ao dar-se conta, o que precisaria fazer, para ganhar aatenção de seu marido, afastando-o assim de sua amante. Não poderia fazê-lo. Outravez não. Havia padecido dois dias para trazer sua filha ao mundo. Dois longos,dolorosos e intermináveis dias, e na realidade, ela não pudera amamentar seu bebê,porque a odiava por tê-la feito sofrer daquela maneira horrível. Esse ódio, além disso,estendeu-se ao seu marido e a sua exigência de ter mais filhos. Sua mãe tivera quesuportar o mesmo de seu pai, mas agora tudo era diferente. A Inglaterra era governada por uma Rainha e Mary poderia herdar tudo. ElizabethTudor se encarregaria para que assim fosse. Os homens já não tinham o poderabsoluto sobre as mulheres de suas famílias, Philipa se virou fazendo brilhar suasanáguas de seda e partiu. Que aquela bastarda fosse reconhecida! Isso não alteraria ofato de que ela era a senhora do castelo. O conde voltaria a ser chamado à corte eentão, Ivy e sua filha estariam a sua mercê. Capela de Warwick: 8
  9. 9. — Que nome colocará na menina? Os participantes da cerimônia contiveram arespiração esperando escutar o nome do bebê, pois nunca se dava nome a umacriança antes de ser batizado para que o diabo não pudesse enviar um dos seusservidores com o fim de lhe arrebatar a alma. — Anne. Philipa falou com clareza quando o sacerdote a olhou, já que comomadrinha era a encarregada de decidir o nome. — Igual à querida e defunta mãe daRainha. O padre, nervoso e com os olhos totalmente abertos, quase deixou cair à menina napia batismal. Philipa, no entanto, pestanejou com ar inocente e ignorou o murmúrioque se estendeu entre os paroquianos diante do fato de que a bastarda levasse umnome maldito. Anne Bolena tinha sido executada por ordens do Enrique VIII muitoantes que sua filha ostentasse a coroa da Inglaterra. Ninguém objetou a decisão daCondessa. Nem sequer os pais da recém-nascida puderam protestar, já que não lhesfoi permitido assistir ao batismo na intenção de purificar à menina por completo sema presença de seus progenitores. Philipa fulminou com o olhar o sacerdote e estemergulhou o bebê na água com muita mais força do que era habitual nele. Annegritou quando a tiraram da pia batismal, Philipa franziu o cenho ao observar que obebê ficava avermelhado e ao escutar que os fiéis lançavam vivas de aceitação. Se amenina não tivesse gritado para expulsar o diabo, teria sido rechaçada pela Igreja.Mas Anne gritou tempo suficiente para alcançar até o último banco do templo. Aomenos, Philipa tinha conseguido dar àquela criança um nome portador de má sorte. Opároco resmungou uma oração de despedida antes de envolver a menina numatoalha e entregá-la a sua madrinha. A condessa controlou o impulso de ostentar um ar depreciativo ao sair da capelacom sua afilhada, mas assim que entraram no corredor particular que ia para seusaposentos entregou-a bruscamente a uma criada lhe dando as costas. Por isso não viu 9
  10. 10. os olhares de desaprovação que lhe lançaram suas criadas enquanto embalavam eacalmavam a menina que consideravam como uma das suas. Anne soltou vários gemidos, antes que se aninhasse nos braços que a sustentava epermitiu que acariciassem seu escuro cabelo. A governanta lançou um olhar para ocorredor por onde se afastava sua senhora e franziu o cenho. — Algumas pessoas não têm coração. Não o têm absolutamente! Um bebê sempreé uma bênção para o castelo! Todo mundo sabe. A senhora se envenenará com tantamesquinharia e atrairá tempos escuros para os habitantes destas terras. — Guardem bem o que lhes digo. As duas criadas à suas ordens se limitaram aguardar silêncio, já que falar mal da Senhora do castelo era motivo para ser mandadoembora. Mas, por outro lado, nenhuma delas reconheceria ter ouvido nada do quedissera a governanta, conscientes de que ter a antipatia daquela mulher significavaencarregar-se das piores tarefas, assim se limitaram a acariciar a recém-nascida,fazendo sorrir a aqueles diminutos lábios rosa. Um bebê saudável trazia consigo sortepara todo mundo. A vida era dura e teria que desfrutar dos bons momentos sempreque fosse possível. Warwickshire, na primavera seguinte: 10
  11. 11. — Mãe, veja, os cisnes estão nascendo. Philipa sorriu ao contemplar como sua filhabrincava de correr pelo corredor, seguida de perto por sua babá. — Pois claro quemamãe irá ver minha menina preciosa. A condessa seguiu sua filha. Abaixou o olhar e sorriu ao ver o modo como o cabelode Mary brilhava sob o sol. Não havia dúvida de que por suas veias corria sanguenobre, tudo nela era suave e delicado. Diferente da bastarda de Ivy, sua filha Mary eraperfeita e legítima, seu coração se encheu de alegria ao pensá-lo, mas essa sensaçãomorreu no instante que olhou para o outro lado do pátio e viu o Ivy e aquela rameiraque voltara a ficar grávida e todos auguravam que o bebê seria um menino. — Mãe, venha, olhe! Mary apontou com a mão gordinha os cisnes, sem saber quePhilipa tinha deixado de desfrutar do momento. A condessa lançou um olhar furioso àamante de seu marido, enquanto Alice, sua dama de companhia, falava-lhe em vozbaixa: — Deveria reconsiderar Milady, e convidar seu marido de novo ao seu leito. Acondessa, vestida com a mais fina lã, voltou-se para a Alice com fúria, mas sua damade companhia se manteve firme diante de seu aborrecimento, apesar de que agoraPhilipa ostentava um título aristocrático, Alice a tinha criado e sabia manter-seimperturbável diante da desaprovação que havia em seus olhos. Para ela, sua senhoraainda era uma menina a quem podia repreender. — Poderia divorciar-se de você e a devolver ao seu pai, milady. É seu dever, só teriaque lhe dar um filho varão. — Mas, e se eu der à luz a outra filha inútil? Philipa estremeceu. Já escutou àparteira, Alice, meus quadris são muito estreitos. Se Mary tivesse sido um bebêmaior... Eu poderia... Haveria... Nem sequer pôde acabar a frase, Alice meneou acabeça lhe oferecendo sua compaixão. 11
  12. 12. — Milady, o primeiro parto é sempre o mais difícil. Dê um filho varão ao senhor esua posição estará assegurada, logo, deixe que essa rameira conceba o resto. Umviolento estremecimento sacudiu Philipa ao mesmo tempo em que unia as coxas comforça sob as saias. O simples fato de pensar no parto fazia com que seu corpoadquirisse uma friagem mortal. Não poderia fazê-lo. Queria viver, não morrer emmeio de um atoleiro formado por seu próprio sangue. — Não o farei, Alice. —Não voltarei a deitar-me com meu marido! Juro-o! Emboraisso signifique que ele me envie de volta para meu pai. Philipa sentiu as lágrimassulcando suas faces enquanto olhava Ivy. A inveja a encharcou, mas ela acolheuagradecida a chegada daquele sentimento porque fez desaparecer o medo. O ódiocomeçou a aumentar ao mesmo tempo em que abraçava sua ira. Uma intensaaversão por Ivy, seus bastardos e por tudo que os deslumbrassem, inundou seucoração. Odiava-os. Odiava-os, odiava-os... Odiava-os Capítulo 2 Castelo de Warwick, 12
  13. 13. — Se apresse Anne. A senhora está de muito mau humor hoje. — Que novidade. Joyce, a governanta, lançou um severo olhar à jovem que estava ao seu cargo eenrugou o nariz. — Cuidado com essa língua. A condessa é superior a você e foi Deus quem a pôs aí.Anne inclinou a cabeça enquanto mantinha em equilíbrio a bandeja do café da manhãda senhora do castelo. Era certo que tinha que morder a língua, embora não o faziapor ela mesma. De fato, importava-lhe pouco seu próprio conforto, mas a jovemestava bem consciente de que Lady Philipa não castigaria só a ela, ficaria encantadade descarregar sua cólera também sobre sua mãe, a amante do conde. Com umsuspiro, seguiu Joyce para a ala oeste, apressando-se para que a bandeja estivesseainda quente quando a condessa despertasse. Uma grande terrina de prata polida protegia o variado café da manhã. Cada terrinaestava adornada com gravuras de flores e pássaros, e eram aquecidas sobre o fogoantes de ser colocadas sobre cada prato para mantê-lo quente. Anne tinha levantadocom os primeiros raios do amanhecer com o intuito de atender à condessa quandodespertasse. Estava encarregada daquele dever desde que iniciou seu fluxomenstrual. Os primeiros meses lhe tinham doído os braços devido ao excessivo pesoda bandeja com toda aquela prata, mas agora se movia sem problemas. Philipatambém tinha ordenado que Anne a vestisse cada manhã para se assegurar de quedormisse atrás da cozinha, junto às outras criadas, e sob a vigilância da governanta.Desse modo não conheceria nenhum homem e permaneceria virgem, a razão erasingela. Anne era filha bastarda de um conde, e apesar de que Philipa detestava vê-lae a seus irmãos, não era nenhuma estúpida. Sabia que Anne poderia ser de utilidadeem alguma negociação de matrimônio. Havia cavalheiros de posições inferiores que 13
  14. 14. dariam valor ao sangue nobre numa esposa, embora também fosse possível que acondessa tivesse intenções de convertê-la em rameira, ao serviço dos caprichos dealgum gordo mercador. Fosse o que fosse, o que a condessa tinha em mente, aindanão a preocupava. Anne permaneceu de pé em silêncio enquanto abriam as cortinasda cama e Philipa virava a cabeça para o pessoal que esperava suas ordens, seus olhosinspecionaram cada um das criadas, da apertada touca à prega da saia. A condessanão tolerava nenhuma falha, seus lábios nunca pareciam sorrir e em seu rosto sedistinguiam as rugas que eram prova disso. Uma pintura no salão inferior a mostravaem sua juventude como uma alegre recém casada, mas não havia nenhuma alegria namulher que estava recostada no leito. Anne observou Philipa através de suas pestanasquando a fila de criadas inclinou a cabeça em sinal de deferência. — Senti frio nos pésesta noite, retiraram-lhe as mantas para que se acomodasse e lhe colocaram unsalmofadões macios nas costas. — O fogo não foi aceso como deveria e as brasas não mantiveram seu calor,nenhuma das criadas disse uma só palavra, abaixavam a cabeça cada vez que Philipafalava e se moviam pelo quarto como se fizessem movimentos ensaiados. Abriram aspesadas cortinas de tapeçaria de par em par com muito cuidado, conscientes de quãocaro era aquele tecido. Limparam rapidamente as cinzas da enorme lareira eacenderam outro fogo para esquentar a alcova. Anne aguardou até parecer que a senhora estava o suficientemente confortável,para colocar o café da manhã sobre seu colo, assegurando-se de que as pequenasalças douradas da bandeja deslizassem suavemente por ambos os lados das pernas dacondessa sem sequer roçá-la. Carrancuda, Philipa começou a inspecionar o que haviaoculto sob as grandes tampas de prata polida que cobriam seu café da manhã. Umsegundo depois, apertou os lábios numa dura linha e deixou cair uma tampa sobre oque a cozinheira tinha preparado. 14
  15. 15. — Diga à cozinheira que se apresente diante de mim ao meio-dia. As criadas seretesaram visivelmente, já que todas elas tinham sido em alguma ocasião objeto dodesgosto da senhora. A cozinheira não teria um dia agradável, Philipa começou acomer de um dos pratos enquanto observava às criadas com olhar crítico. Todasaprenderam a mover-se com passos suaves e cuidadosos para passar totalmentedespercebidas, e mantinham o olhar baixo por medo a chamar a atenção. — Estou pronta para me levantar. Philipa largou os talheres desleixadamente e umacriada lhe retirou a bandeja quase no mesmo instante, enquanto outra retirava asmantas até os pés da cama. Anne trouxe água e se uniu ao resto das criadas,dependendo do humor de Philipa, podia custar até duas horas vesti-la. As criadas semoveram com eficiência ao redor da condessa, lhe lavando os pés e as mãos antes dedeslizar as meias de lã por suas pernas. Cobriram-na com uma fina camisa e depoiscom umas anáguas forradas. A roupa não podia ser mais luxuosa, a lã mais ásperaficava coberta pelo caro algodão da Índia, e os arremates estavam adornados comelaborados desenhos. As criadas trabalhavam em excesso para abrigar a sua senhoraapesar da chegada da primavera, porque o condado de Warwickshire ficava muito aonorte. Era o último território sob comando inglês antes da temível fronteira escocesa.De fato, o conde era requisitado continuamente na corte por sua importância comodono e senhor de terras fronteiriças. Anne sentia muito a falta de seu pai. Tudo eramais fácil quando o conde se encontrava no castelo. Os lábios da jovem tremeramnervosamente e, ao se dar conta disso, apressou-se a apertá-los numa fina linha commedo de ofender a Philipa. No entanto, não podia evitar que seu coração se enchessede alegria ao pensar em seu pai. Sua mãe transbordava felicidade quando eleretornava e, apesar dos anos transcorridos, sempre dançava ao ver que os primeiroscavaleiros atravessavam as portas do castelo para anunciar a chegada do senhor. Pordesgraça, seu pai tinha passado todo o inverno na corte, quatro longos meses nos 15
  16. 16. quais a família de Anne tinha suportado o azedo temperamento de Philipa sem oscarinhosos cuidados do conde. Entretanto, apesar de que o senhor do castelo adoravaseus filhos bastardos, agarrava-se à tradição, no que implicava que Anne estivesse sobas ordens de Philipa. Mesmo assim, aquilo era melhor do que muitos tinham, pois aomenos a jovem dispunha de um teto onde cobrir-se e comida na mesa dos servos.Usava um bom vestido de lã e botas feitas sob medida. Tinha que sentir-se agradecidade muitas coisas, porque, certamente, estar ao serviço de uma mulher como acondessa era menos do que muitos sofriam. Por sorte, Mary não se encontrava em casa. Anne estremeceu. Sabia muito bem quea herdeira legítima do castelo era realmente perversa, Mary choramingava como umbebê e tinha violentos ataques de raiva, inclusive chegava ao ponto de rasgar tecidosde boa qualidade porque não eram tão finas como as que luziam algumas de suasamigas na corte. Philipa, por sua parte, consentia, e sempre encontrava dinheiro noscofres do conde para comprar as coisas que sua filha exigia. Quando teve certeza deque Philipa não podia vê-la, Anne franzia o cenho severamente, era ela queencontrava os recursos que faziam Lady Mary deixar de dar gritos, por tradição, oslivros de contas deveriam ser administrados pela Philipa, que tinha a obrigação deensinar aquele dever a Mary, mas esse não era o caso no Warwickshire. Depois deajudar a vestir à condessa, Anne tinha que passar o resto das horas do dia, e inclusivealgumas da noite, fazendo a contabilidade dos livros. Seu pai tinha insistido para queela e seus irmãos estudassem, mas tinha deixado que Philipa decidisse onde aplicar aeducação recebida. O dever de Anne eram os livros de contas e assegurar-se de queestivessem de acordo, assim cada vez que Lady Mary pedia mais ouro, era Anne quemse encarregava de encontrá-lo onde o senhor não pudesse sentir falta. Conseguia odinheiro da venda de cordeiros ou da roupa tecida pelo pessoal do castelo, apesar deque realmente odiava tanto esbanjamento, Warwickshire seria muito mais forte se 16
  17. 17. não fosse saqueada tão freqüentemente por pura vaidade. De repente, ouviu-se umforte golpe na porta e uma faxineira se apressou a abrir, quando o amplo painel demadeira deixou passar uma criada, escutou-se claramente o repique dos sinos damuralha. — O Conde retornou Milady, informou-lhe a recém chegada, Philipa franziu o cenho.— Bem, acabem de me vestir, estúpidas, todo mundo se apressou a seguir com suastarefas mantendo o olhar baixo. Anne se limitou a entregar as coisas às outras criadas,tinha aprendido a ficar fora do alcance da condessa quando estava se preparandopara receber seu marido, pois Philipa estava acostumada golpear as serviçais antes deseus encontros com o conde por puro nervosismo. Provando a teoria de Anne, acondessa desferiu um sonoro bofetão numa das criadas quando ela deixou cair umsapato. –Fora! A criada abaixou a cabeça e retrocedeu para a porta aberta, umaintensa mancha vermelha marcava seu rosto. Ao ver aquilo, Anne reuniu coragem e seajoelhou para recolher o sapato. — Por que tenho a desgraça de contar com os piores servos da Inglaterra? Asfamílias de Warwickshire só criam filhas idiotas. Ninguém falou, mas os olhos dascriadas se encontraram a costas da senhora para compartilhar seu descontentamentocom olhadas silenciosas. Anne se levantou, agradecida de ter acabado com sua tarefa,mas não conseguiu inclinar a cabeça a tempo e Philipa a repreendeu. — Bastarda! Anne se apressou a abaixar a cabeça e a condessa lhe dedicou umacareta de desprezo. — Nascer bastardo significa ter sido concebido em pecado. Será melhor queagradeça a Igreja por ter sido misericordiosa, porque, de outro modo, nunca teria sidobatizada. 17
  18. 18. — Sim, milady. Suas palavras não lhe doeram, tinha suportado muitos insultos damalvada língua de Philipa e sabia que era melhor que receber suas bofetadas. Mary, recém chegada da corte, surpreendeu a todos ao entrar a toda pressa naestadia em um revôo de saias de seda. — Pai me prometeu! OH, mãe, não quero ir à Escócia, lançou-se sobre a condessa egemeu ruidosamente sobre seu peito. — Diga a ele, que não terei que ir, mamãe. Por favor! Começou a chorar com umaviolência inusitada, enormes lágrimas alagavam seus olhos ao mesmo tempo em quese agarrava ao vestido de Lady Philipa. — Me diga que não terei que ir ao leito de nenhum escocês. — Já basta, Mary! Rugiu o conde da soleira. Todos os presentes se viraram quando osenhor do castelo irrompeu no cômodo, seu cabelo salpicado de prata não diminuía opoder da sua imponente presença, inclusive Philipa inclinou a cabeça num gesto dedeferência, arrastando sua filha com ela. — Não permitirei que me envergonhe, filha. Advertiu-lhe o conde. — Assumi um compromisso firme com o jovem Brodick e o cumprirei, além disso,possui um título nobiliário. — Mas é escocês! Os lábios de Mary formaram uma careta quando choramingou. —Os tempos estão mudando, filha. Logo seremos uma única nação, governados sob umrei escocês. Brodick McJames é uma boa escolha, muito melhor que qualquer de seusamigos da corte. O senhor do castelo olhou em direção a sua esposa e de repente seus olhosrepararam em Anne, que não pôde evitar que seus lábios se curvassem para cima lhe 18
  19. 19. dando a boas-vindas ao mesmo tempo em que inclinava a cabeça, uma faíscailuminou os olhos do conde e Mary soltou um grave som ao ver a troca de olhares.Observou sua meia-irmã por cima do ombro de sua mãe e o ódio resplandeceu emseus olhos. Seu pai ficou tenso ao dar-se conta do que estava ocorrendo e voltou adirigir o olhar para sua esposa. — Os homens do Conde do Alcaon chegarão esta semana, o rei só me permitiupartir para escoltar Mary em sua volta a casa, devo voltar para a corte na alvorada.Assinalou a Mary com um dedo. — Assumirá seu lugar tal e como o arranjei e nãohaverá mais lágrimas. Amadureça de uma vez! Encarregue-se disso, esposa. — Deve casar-se? Perguntou Philipa. O conde franziu o cenho. — Por Deus santo, mulher! Tem vinte e seis anos edesprezou a todos os pretendentes que lhe tenho proposto, não haverá maisdiscussões, tudo isto é minha culpa por permitir que vocês duas me influíssem, Marydevia ter-se casado faz quatro anos, mas tentei esperar até que aceitasse a algumpretendente ou me apresentasse algum de sua própria preferência. – Milady passou-se oito anos desde que a levamos a corte! — Mas é escocês, pai. — É um Conde. Mary se encolheu ao ver que o senhor do castelo avançava para ela,um homem cujas terras fronteiriças com as nossas, o qual o transforma numa boaescolha como marido para você. Mary soluçou mais forte, fazendo que seu paiemitisse um grave grunhido de desgosto e dirigisse sua irritação para a Philipa. — Vêisto, esposa? É a única filha que tem que se encarregar e a transformou numa criançachorona que não sabe agradecer a boa sorte que a vida lhe oferece. — O que quer demim, filha? Acaso você gostaria de ficar solteira para sempre? Ou se converter numarameira como essas amigas cortesãs, com bastardos crescendo em seus ventres? Não 19
  20. 20. há muitos nobres que a queiram devido ao fato de que sua mãe nunca concebeu umfilho varão. Aterrorizada, Mary negou com a cabeça, estremeceu e ficou em pé com os olhostotalmente abertos sob o duro olhar de seu pai. Anne sentiu realmente dó de suameia-irmã a sociedade era cruel ao carregar às filhas com o estigma de suas mães.Como Philipa se negou dar a seu marido um herdeiro, suspeitava-se que Mary seguiriaseu exemplo. — Sim, agora começa a enxergar a verdade do assunto, um ano mais e quem tequererá? É hora de se casar e ter filhos. Isto não é um compromisso, filha, e sim umaaliança por poderes. O Laird do clã McJames não quer esperar que se organize umacelebração, o assunto está resolvido. Agora é uma esposa com deveres para atender.Sem mais, o conde deu meia volta, e saiu fazendo que suas esporas ressoassem sobreo chão de pedra. Seus homens, que tinham presenciado toda a cena, apressaram-se aseguir seus passos, Philipa ignorou as criadas presentes na alcova, a intimidade eraum luxo extremo, e, como esposa de um conde, Mary teria que aprender a convivercom os muitos olhos que conheceriam todos e cada um de seus movimentos. Eramelhor que se acostumasse agora do que num castelo que se esperava que dirigisse. — Mãe, terá que me ceder a Anne para que faça os livros de contabilidade, disseMary de repente. — Não sei como fazê-los. A garganta de Anne se fechou ao captar o olhar que sua meia-irmã lhe lançou,parecia a maneira, que alguém, analisava uma nova égua que estivesse considerandocomprar. Philipa se virou para considerar a idéia e Anne abaixou a cabeça apesar deque a fúria começava a bulir com força em seu interior. — Todo mundo, fora! Anne,você fica. Joyce lhe dirigiu um olhar de impotência enquanto fazia sair ao resto dascriadas do quarto. 20
  21. 21. — Venha aqui, Anne. Philipa estava em seu elemento e sua voz transbordavaautoridade, a jovem se aproximou dela sem que se ouvisse o menor som de suasbotas. Era obrigada a servir à condessa, mas não lhe tinha medo. O medo era para osmeninos e os idiotas. — Tire a toca. Anne desabotoou o botão que prendia a touca de linho com uma fitano pescoço e olhou à condessa com o cabelo solto para ver o que desejava os olhosde Philipa a estudaram durante um longo momento com atenção. — Vá! Anne voltou a por touca e já tinha chegado à porta quando Philipa a deteve.— Prestou atenção aos seus estudos, moça? A jovem virou-se para encarar a Condessa e respondeu: — Sim, Milady. Mas não porsuas ordens, Anne tinha um forte temperamento e às vezes não podia evitar quesurgisse, mas também residia em seu interior um firme desejo de aprender, de saber,por isso tinha absorvido com avidez tudo o que tinham lhe ensinado. — Vá ocupar-se dos livros e não saia dali. Anne abaixou a cabeça, já que nãoconfiava em que sua voz pudesse ser suave ou chegasse a ser minimamenterespeitosa. O fato de que Lady Mary se casasse não era razão suficiente para que acondessa liberasse o seu mau humor. Todos estiveram aguardando por essa noticiadurante anos, era incrível que seu pai precisara arrastá-la de volta para casa. Marytinha sorte que seu marido desconhecesse sua maneira de ser, pois, se não fosseassim, poderia realizar o desejo de ser recusada. Mas isso faria os falatóriosaumentarem e as suspeitas crescerem, pois todo mundo se perguntaria por que Maryresistia tanto a envolver-se num matrimônio que lhe proporcionaria uma enormepropriedade para governar mais rica inclusive que do seu pai, com a união de seudote às terras de seu marido, seus filhos viveriam melhor do que eles o faziam. Eramumas magníficas bodas. Entretanto, Lady Mary era muito obtusa para compreender 21
  22. 22. como aparecia comida na mesa quando ela se sentava. Anne, pelo contrário, conheciaa procedência de cada grão, de cada pedaço de pão, e sabia quando a colheita foraescassa ou a razão de que as ovelhas não parissem tão freqüentemente comodevessem, requeria-se um grande engenho para ajustar a contabilidade e assegurar-se de que houvesse suficiente estoque para manter aos habitantes do castelo duranteo inverno. Se, vendesse muito haveria estômagos vazios. E nessa época tinha que serverdadeiramente inteligente para governar um castelo e se encarregar com asresponsabilidades de dirigir uma grande propriedade. — O que queria? Perguntou-lhe Joyce a governanta, que se escondia num rincão eretorcia o avental enquanto aguardava para escutar o que tinha acontecido depois deter abandonado o quarto. — Ordenou-me que me encarrega-se dos livros,arrumando-o, pois planeja saquear de novo os cofres para destinar o ouro ao armáriode Mary. — Essa tua língua herdou de seu pai, só um nobre falaria assim, será melhor quetome cuidado moça, a condessa não a aprecia absolutamente nada. — Sei muito bem. Joyce suavizou seu severo olhar. — OH, pequena, sinto muito. Ela não sabe o que éa bondade e você é uma filha leal. Seu pai deveria estar orgulhoso de você ao vercomo mostra respeito a essa amargurada mulher. Anne sentiu que seu rostoresplandecia. Seu pai estava em casa e poderia desfrutar de sua presença nosaposentos de sua mãe essa noite. Sempre ia ali quando estava em casa, por mais queisso despertasse o ódio de Philipa. Entretanto, às vezes, Anne suspeitava que ela ofizesse para enfurecer a sua esposa de sangue azul. ***** 22
  23. 23. Depois do pôr-do-sol... Anne se apressou ao cruzar o corredor, seus deveres a tinham entretido até tardeessa noite. Um sorriso começou a iluminar seu rosto à medida que se aproximava doquarto de sua mãe, que se achava no extremo norte do castelo. Era fria no inverno,mas Ivy se negou a abandoná-la mesmo quando o conde o sugeriu. Ivy não queriaproblemas, já que sua família tinha que viver com a Philipa enquanto o conde seencontrasse na corte. Philipa havia designado aquele cômodo, assim se conformariacom ele por mais frio que fosse. Anne abriu a porta e viu que o quarto estavailuminado pela suave luz das velas. — Aqui minha menina, Philipa afirma que é a pior criada que já teve que tolerar. —Boa noite, pai. Anne inclinou a cabeça num gesto de sincero respeito. Seu pai assentiusatisfeito e seu rosto permaneceu indecifrável durante um longo momento até queabriu os braços. Imediatamente, a jovem correu a refugiar-se neles, rendendo-seenquanto ele a estreitava com força, finalmente a soltou e lhe tocou no nariz com umdedo. — É uma boa garota por não se queixar, não é culpa sua que nada agrade a minhaesposa. — Prometo me esforçar mais amanhã, pai. O Conde sorriu. — Sei que o fará, também sei que Philipa seguirá insatisfeita. Masnão estou aqui para falar de minha esposa, lançando uma gargalhada, estreitou Ivyentre seus braços e lhe deu um beijo na face. — Senti falta de todos. — Nos fale da corte, por favor. Bonnie, a menor, aguardava com impaciência ashistórias de seu pai. 23
  24. 24. O conde levantou um grosso dedo. — Suponho que poderia lhes falar da máscaraque o conde do Southampton levou a semana passada... Bonnie se moveu inquieta ese dispôs a escutar sob o carinhoso olhar de Anne. Sorrindo, a jovem agarrou umafruta seca que havia num prato, a humilde mesa que freqüentemente só continhapapa e soro de leite, nessa noite oferecia frutas, pães-doces e cerveja enfraquecidacom água. Brenda levou várias torteletes de fruta para ressarcir-se dos insultos quelhe tinha dirigido Philipa essa manhã, aquele tipo de manjar só se preparava para acondessa, mas como à senhora do castelo não fazia nem a mínima idéia de comopreparar uma comida, seus serviçais podiam vingar-se usando mais quantidade doexigido. Philipa daria um ataque se visse que os meninos de Ivy comiam o mesmo queela e Mary. Isso fazia as torteletes parecerem muito melhor, pensou Anne, que tentouinutilmente repreender a si mesma por ter pensamentos tão mesquinhos. Os ricos manjares contribuíam para criar um ambiente festivo, no entanto era apresença de seu pai que alegrava a todos os presentes, havia luz no quarto até bemtarde da noite e as risadas escapavam através das frestas da porta. Quando Annefinalmente foi à cama, sentia o coração transbordante de felicidade. Não, os insultosde Philipa nunca poderiam manchar o amor que Anne recebia do conde. Pode ser quea condessa se sentisse poderosa, mas não poderia romper nunca o vínculo que seu paicompartilhava com ela. Todo mundo tinha que suportar algo desagradável em suavida e lhe havia tocado lidar o desprezo de Philipa, mas não era nada do que tivesseque preocupar-se. A verdade é que não era importante. ***** Ao amanhecer O Conde de Warwickshire saltou sobre seu cavalo com a mesma destreza quequalquer guerreiro de seu séquito. Não usava finas roupas, além da grossa lã inglesa 24
  25. 25. para proteger do frio. Anne e sua irmã Bonnie observavam sua partida de uma janelado segundo andar que tinha as portinhas abertas. — Acredita que o papai lhe trará um marido da próxima vez que vier? Bonnie, dequatorze anos, ainda não era consciente da dura realidade de ter nascido fora domatrimônio, é obvio, toda a família se esforçava por protegê-la, apesar de que Bonnielogo cresceria e teria que enfrentar à verdade. — Não sei tesouro, mas tentarei não me preocupar com isso. Papai sempre cuida denós. Bonnie riu e seus olhos azuis lançaram belos brilhos. — Irá trazer-lhe um homemque ganhou suas esporas com uma nobre façanha e que foi nomeado cavalheiro pelarainha. Bonnie suspirou absorta em suas fantasias, e Anne não pôde evitar desfrutardaquele momento. Inclusive gostava de acreditar em finais felizes. — Provavelmente esse cavalheiro esteja esperando que você cresça. Alisou-lhe ocabelo e lhe sorriu. Os olhos do Bonnie resplandeceram ao tempo mesmo que abria aboca de par em par surpreendida. — Realmente crê que poderia estar me esperando? — Sim. Todos os povoadosdaqui a Londres sabem quão bela você é e certamente terá que escolher entre váriospretendentes. — Zomba de mim. O lábio do Bonnie tremeu ligeiramente. — Isso não é muitoengraçado, além disso, poderia me tornar vaidosa. — Vamos tesouro, só me junto a ti no seu sonho, não irá negar-me esse prazer,verdade? Quando o Conde esporeou sua montaria e se dirigiu para o portão externo, Bonnielevantou uma mão para despedir-se. Entretanto, Anne deixou as mãos apoiadas sobreo marco de madeira da janela, consciente de que seu pai não se voltaria para olhar. 25
  26. 26. Nunca o fazia, Philipa e Mary se encontravam de pé na escada dianteira, em seu lugarcomo senhoras da casa, e o conde jamais se virava para despedir-se delas. — Você se casará Anne, sonhei ontem à noite. Anne fechou a portinhola,assegurando-se de passar bem o fecho. Em seguida deu uma olhada de um lado aooutro do corredor, e sacudiu a cabeça em direção a sua irmã. — Bonnie, já sabe o que mãe disse sobre seus sonhos. A menina se negou a ceder eergueu o queixo em teima. — Virá para você, só lhe digo isso para que estejapreparada, ficará grávida na primavera e terá um varão antes da lua cheia de outono.Vi. Não tema, não morrerá. Um estremecimento percorreu a espinha dorsal de Anneenquanto olhava fixamente sua irmã, Bonnie tinha um dom, toda a família sabia etentava encobri-lo, já que corria o risco de ser queimada na fogueira como bruxa,devido à avançada idade da rainha, os magistrados exerciam seu poder com extremacrueldade. — Não falou a ninguém mais? Bonnie negou com a cabeça. — Sabe que prometi a mãe que não falaria de meus sonhos a ninguém que nãopertencesse à família, e não tenho quebrado minha palavra. — Muito bem, tesouro, mas não conte a ninguém mais, os cavalheiros não gostamdas mulheres que não param de falar durante todo o dia. — Mas virá, irmã. Vi-o sobre um corcel negro leva uma enorme espada nas costas,como os escoceses que vimos na feira na primavera passada. Anne negou com acabeça. — É Lady Mary quem está casada por contrato com um escocês, não eu. Foi isso oque viu. 26
  27. 27. — Não, lhe vi. E ele estava entrando a cavalo no pátio inferior para lhe pegar. Seusolhos são como a meia-noite. Uma parte de Anne se sentiu tentada a escutar suairmã, entretanto, controlou-se imediatamente. A vida era dura e consolar-se comsonhos infantis não a ajudaria. Quão único conseguiria seria que lhe resultasse maisdifícil levar a carga que Philipa decidisse colocar sobre seus ombros. Joyce e o resto dopessoal doméstico podiam sonhar com o amor, mas ela não. Bonnie também odescobriria muito em breve. O sangue de seu pai era tanto uma maldição como umabênção, e era impossível que ela pudesse chegar algum dia a apaixonar—se.Impossível. ***** Terras dos McJames — Está mais irascível que de costume, pensava que isto era o que desejava. BrodickMcJames grunhiu em direção ao seu irmão e Cullen riu baixo a modo de resposta. — Não posso me casar seguindo meus próprios desejos, Cullen. As propriedadesdele divisam com as nossas e seu dote incrementará a riqueza dos McJames. E não setrata só de terras, mas sim de terras férteis com água, se seu pai não tiver mais filhoslegítimos, todas suas posses passarão algum dia as nossas mãos. — Mesmo assim, continuo dizendo que parece muito furioso, tendo em conta oquão benéfico será para todos. Cullen agarrou um bolo de aveia, mas não o mordeu. — Provavelmente é o leito conjugal o que o incomoda. — Não se preocupe irmão,nem todos os homens são tão bem dotados como eu, não deveria invejar minhahabilidade com as mulheres. Isso é pecado. — Também o é gabar-se, disse Brodick. 27
  28. 28. Cullen sorriu-lhe mostrando os dentes. — Não o faço, só digo a verdade. Meumembro é... — Reserva-o para suas conquistas, irmão. Cullen riu acompanhado pelo coroformado pelo grupo de homens que se sentavam perto. Brodick, por sua parte,levantou-se e começou a caminhar afastando do acampamento. Cullen estava certo, não poderia estar com o humor pior, ir à busca de sua esposadeveria ser um prazer, não um dever. Era uma boa união, tinha que reconhecer. Boapara sua gente, boa para seus filhos, mas isso não alterava o fato de que lhe davapavor ter que levar a uma dama da corte inglesa a suas terras. Estivera nessa corte eseria feliz se morresse sem ter que pôr os pés nela novamente, estava repleto derameiras, criaturas falsas com mais pintura em seus rostos, do que usavam oshighlanders na batalha. Seus grossos e pesados vestidos exibiam muito seus seios eocultavam o resto de seus corpos, fazendo desaparecer qualquer interesse quepudessem despertar nele. Sua ira cresceu ao recordar que aquelas mulheres atémaquiavam seus mamilos, devido aos decotes dos vestidos que permitiam que osvissem quase continuamente. Não era um homem ciumento por natureza, mas suamulher teria que lhe conservar fidelidade e só ele veria seus mamilos. Aquelespensamentos só conseguiram enfurecê-lo mais ainda. Olhou para baixo na fronteira, e se amaldiçoou por entre os dentes, apesar daproximidade de suas terras com as da esposa, eles não poderiam ser mais diferentescomo o dia e a noite. Nunca lhe permitiria que se comportasse de um modo tãovergonhoso e isso a faria odiá-lo, assim sua união tinha poucas possibilidades de serpacífica e muito menos agradável. Não obstante, por muito que lhe pesasse, era seu dever como primogênito, casar-secom aquela mulher e apesar de saber tudo aquilo, Cullen ainda se perguntava por que 28
  29. 29. estava tão furioso. Com um bufo, Brodick deu um pontapé numa pedra. A tradição oobrigava a tomar uma esposa que melhorasse a vida de seu povo, e o fato de que issonão o fizesse feliz não importava. Ele era o Conde do Alcaon. Sorveu uma profunda inspiração, sentindo que o orgulhoo inundava. Ter um título nobiliário não significava tão somente que as pessoasinclinassem suas cabeças a sua passagem, ganhou também o respeito de seusvassalos ao longo dos anos e tinha direito de ostentar o título. Suas terras fronteiriçasdo norte não eram tão pacíficas como as do sul e quando seu pai recebeu umamachadada na perna durante uma escaramuça, correspondeu ao Brodick àresponsabilidade de liderar ao clã dos McJames. Em muitos aspectos, preferia abatalha ao matrimônio, fortalecendo sua determinação, olhou ao redor das terrasinglesas que logo seriam suas. De algum modo, o matrimônio era exatamente como abatalha, só os fortes saíam vitoriosos. Reclamaria a sua esposa inglesa junto com seudote e logo teria um herdeiro, ele era o Laird do clã McJames, um homem que nãoconhecia a derrota. ***** Castelo do Warwick — Lady Mary deseja tomar um banho e você a atenderá. Brenda, a cozinheira,proferiu aquelas palavras por cima do ruído que a água fazia ao encher duas jarrasidênticas de cobre que estavam sobre um enorme fogão, Brenda atiçou o fogo eacrescentou um grosso pedaço de lenha. — Espere até que esteja pronta a água. Anne observou a fogão, então esfregou osolhos, as chamas prenderam seu cansado olhar enquanto lutava contra fechar aspálpebras para descansar uns minutos. 29
  30. 30. —Né, moça. Não pode dormir agora. Anne riu em resposta. — A noite de ontem foi muito longa, mas bonita. Brenda sorriu. A água ferveufinalmente e Anne colocou um suporte de madeira sobre os ombros para carregar asduas jarras. — Vá com cuidado e não se queime, recomendou-lhe a cozinheira. Anne seapressou em subir as escadas com passos muito curtos até o andar superior. Assenhoras da casa se banhavam em seus aposentos, que exigia transportar a água atéali. O vapor subia das jarras de cobre quando bateu na porta de serviço que lhepermitiria acessar aos aposentos da condessa através de uma pequena entradalateral, a maior parte dos habitantes do castelo ignoravam a existência daquelaentrada, só a conheciam pessoas de confiança designadas pela governanta ou acozinheira. — Adiante. Mary ainda estava totalmente vestida. Anne ficou olhando-a confusaenquanto levava a água quente até a tina que aguardava junto ao fogo, metros delinho se esquentavam sobre um fogareiro e mais jarras de água estavam alinhadas nochão. Um caro sutiã francês repousava sobre uma bandeja de prata, esperando a serusado. — Tranca a porta, Mary. Mary pareceu tão assombrada como Anne ao ouvir a ordem de Philipa, ao ver aindecisão de sua filha, a condessa a olhou carrancuda. — Depressa! Nós precisamos de absoluto segredo sobre isso, não quero que corramrumores entre os serviçais, a menos que tenha mudado de idéia, nesse caso, deveria 30
  31. 31. se banhar. Mary negou com a cabeça, correu para a porta e deixou cair à pesada vigade madeira antes de dar a volta para olhar fixamente a sua meia-irmã. — Coloque a água na tina, Anne. — Claro... A jovem apertou a mandíbula com força ao dar-se conta de que estavafalando, algo que não lhe era permitido ouvir. Os olhos de Philipa se entreabriram aoobservar que um tênue rubor coloria o rosto de Anne, que agarrou uma das jarrasenvolvendo parte da asa quente com a saia, à espera que a condessa a repreendesse.Entretanto, nada à exceção do som da água se escutou na alcova. Surpresa, Anneagarrou a segunda jarra e verteu a água quente na tina. — Agora tire esse vestido e se coloque dentro. Anne se virou e ficou olhando àcondessa, convencida de que não a tinha entendido bem. Mas Philipa a estavaobservando atentamente e seus olhos refulgiam com firme autoridade. — Vai banhar-se, Anne. Mary e eu a ajudaremos. — Aqui? Anne não se importou que sua voz não soasse tão suave ou fraca comodeveria ter sido. Sem dúvida, Philipa tinha bebido muito aquela noite. A condessa riuentre dentes e o horripilante som fez que um estremecimento percorresse a espinhadorsal de Anne. — Sim, aqui. Philipa deu uma palmada e sorriu, entrará na tina e se lavará dos pés acabeça, finalmente vai pagar até o último xelim de prata que fui obrigada a gastarcom sua mãe e irmãos. — Se dispa, agora! Anne ficou olhando assombrada à condessa. O ódio deformava horrivelmente seusolhos, agora compreendia por que tinha mudado tanto desde que pintaram seuretrato; sua alma estava cheia de ódio. — Se dispa Anne. Vai substituir a Mary comesse conde escocês. 31
  32. 32. — Não! Não farei tal coisa, afirmou Anne com rudeza, à comoção não lhe permitiusuavizar sua resposta. Mary soltou um grito sufocado ao escutar o tom de sua voz, mas Anne mal prestouatenção. — Não? Fará o que lhe digo ou jogarei a sua mãe daqui esta noite mesmo. Philipadeixou que um lento sorriso surgisse em seus lábios, provocando novamente umestremecimento em Anne. — Meu pai não permitirá, replicou a jovem sentindo que o horror a invadia. — Meu marido não está aqui, e se a expulso, estará morta muito antes que eleretorne. Anne levantou uma mão para cobrir a boca e ocultar a indignação que aafligia. — Isso seria assassinato, Milady, cometeria um pecado mortal. — Eu chamo justiça! Philipa tremeu de raiva, mas se recuperou e arqueou umasobrancelha. — Só você pode evitá-lo, Mary é muito delicada para suportar o contatode um homem. Você, por outro lado, é o feto de uma rameira, assim que o fato deque um homem use seu corpo umas quantas noites não deveria lhe resultarcomplicado. — Minha mãe é fiel ao meu pai, não tem outros amantes. Philipa agitou a mão, desprezando suas palavras. — Se for uma mulher com certocaráter, melhor. Espero que tenha sido educada com um pouco do sentido deresponsabilidade, se sua mãe for tão honrada como diz. A condessa estendeu o braçopara a fita que mantinha presa a touca de Anne abriu o botão e a tirou de sua cabeça.— Irá banhar-se e se vestirá como eu lhe disser. 32
  33. 33. — Não posso. A voz de Anne não tremeu apesar de que jamais tinha discutido asordens da senhora da casa. Philipa lançou um suspiro irritado. — Irá fazê-lo. E terá que interpretar o papel àperfeição se não desejar que seus irmãos sofram destinos pior que o seu. Anne abriuos olhos de par em par e a condessa riu entre dentes ao perceber o horror da jovem.— Vejo que agora tenho sua atenção, assumirá o lugar de Mary, ou me encarregareide que sua irmã se encontre casada antes que amanheça com o homem mais horrívelque possa encontrar! E a respeito a seus irmãos, conheço umas quantas prostitutasque necessitam maridos. Temos que ser piedosos com esse tipo de mulheres, omatrimônio poderia ser justo o que necessitam para fazê-las arrependerem-se da vidaque levam. — São desprezíveis. Anne se negou a morder a língua. Nem sequer Deus acondenaria por afirmar algo tão certo. — Sou a senhora desta casa e minha palavra é lei. Philipa a olhou fixamente com osolhos resplandecentes pelo triunfo e assinalou a tina com o rosto impassível. — Não sei mentir, asseverou Anne. Não saberia como enganar a um homem. A condessa voltou a agitar a mão, não haverá necessidade de mentir. É filha de meumarido, simplesmente mantenha a boca fechada, se coloque na cama do escocês, etudo irá bem. Uma vez que fique grávida, pedirá que lhe permita retornar para casapara ter a sua mãe perto quando chegar a hora de dar a luz. Vê? É muito simples. — Pensam que o conde é estúpido e que não se dará conta da mudança? Philipa moveu a mão de forma desdenhosa. – Esse homem é escocês e, portanto,amante da guerra, Provavelmente a tomará várias vezes, garantirá que esteja grávidae partirá em busca de mais guerras, os homens perdem interesse quando suas 33
  34. 34. esposas estão grávidas e este não será diferente. Certamente tem uma amante e aabandonará assim que souber que vai ter um herdeiro. Quando o bebê tiver nascido edesejar ver seu filho, terá passado mais de um ano e Mary, como é costume entre anobreza já terá ido à corte depois de ter cumprido com seu dever de esposa, não teráque vê-lo, além disso, nem sequer recordará de que cor são seus olhos. Por outrolado, minha filha e você se parecem muito. Mas escuta bem, moça terá que seassegurar de conceber um filho varão ou todo o plano virá abaixo. — Não posso fazer parte deste engano, meu pai já entregou Mary a esse homem. — E eu vou lhe entregar sua filha, outra diferente, mas, mesmo assim, filha dele.Tenho autoridade para fazê-lo. — Não lhe deu o poder de mentir a respeito. Serão condenadas por fazer algo assim.Philipa franziu o cenho. — Você decide. Tire o vestido e se banhe, ou se prepare para ver como sua mãe saipelo portão enquanto seus irmãos se vêem obrigados a permanecer no castelo, umaacusação de roubo contra ela deverá ser suficiente para convencer os guardas de quea expulsem da fortaleza. Com seu pai na corte, em quem pensa que o capitãoacreditará? À senhora da casa ou em você? 34
  35. 35. Capítulo 3 A maldade Anne ficou olhando Philipa e soube que o que brilhava em seus olhos era puramaldade, nunca imaginara que alguém fosse capaz de ter algo assim em seu interior.Apenas um olhar para Mary, bastou para Anne entender que ela valorizava o seuconforto, acima das vidas dos criados que o proporcionava. Tampouco havia o menor 35
  36. 36. rastro de compaixão em seu rosto, só um leve medo de que sua meia-irmã não sedobrasse ao capricho de sua mãe. Ocupar o lugar dela no leito nupcial... Anne estremeceu incapaz de assimilarsemelhante idéia. Aceitar algo assim, quase a transformaria numa prostituta, umamulher que deixaria que usassem seu corpo em troca do que necessitava. Masrealmente não tinha escolha, o amor por sua família estava acima dela, assim ergueua mão para o botão do avental e o abriu. — Bem. Alegra-me que se comporte de um modo razoável. Philipa parecia satisfeita.Ajude-a, Mary, temos que acabar com isso antes que alguma das criadas suspeite dealgo. O avental de Anne caiu no chão e Mary se encarregou do laço que amarrava acintura da saia, o traje formou redemoinhos ao redor de seus tornozelos deixando-aapenas com a camisa e o espartilho. Anne sentiu como os dedos de Mary afrouxavamos laços das poucas roupas que a cobriam e as tirava pela cabeça até que seus seiosficaram expostos. Em qualquer outra ocasião, teria saboreado a liberdade de nãoestar apertada pelo espartilho, mas os olhos de Philipa inspecionaram seu corpo comatenção e seus lábios se curvaram num gesto de desprezo. — Com esse peito tão grande, não terá problema em conceber logo, grunhiu aCondessa. — Tomei uma sábia decisão quando me encarreguei de que a mantivessesob vigilância, se não o fizesse, agora teria tantos bastardos como sua mãe. — Não sou promíscua! Philipa a fulminou com o olhar. — Mas é propensa a esquecer com facilidade suaposição social. Anne se sentou num pequeno tamborete para se descalçar, ocultou sua ira aoconcentrar o olhar nos laços das botas, consciente de que se dissesse o que pensava, 36
  37. 37. sua família sofreria a ira de Philipa. Entretanto, ansiava pronunciar cada palavra quesempre havia reprimindo. Aquela mulher era maquiavélica, capaz de qualquer coisapara ver seus desejos realizados. — Se apresse! Mary se ajoelhou e começou a tirar a outra bota, não temos muitotempo, seus olhos resplandeceram de alegria quando conseguiu descalçá-la e abaixara grossa meia num puxão. De repente Anne sentiu vergonha, porque nunca estiveranua diante de ninguém, Mary ficou em pé e se dirigiu a suas costas para desfazer suatrança. Apesar de que nunca fizera aquilo, saiu-se melhor do que Anne imaginou. Emseguida sua meia-irmã pegou uma escova e começou a desembaraçar-lhe o cabelo.Parecia que Mary aprendera algo na corte enquanto servira à rainha. — Levante-se, quero vê-la. Anne obedeceu, cobrindo-se o máximo possível com as mãos. — Deixe de se encolher ordenou-lhe a Condessa estalando os dedos furiosos, ajovem deixou cair às mãos ao lado do corpo. Philipa percorreu seu corpo com o olharenquanto apertava os lábios numa linha dura. — Entre na tina, esse escocês, espera que sua esposa tome banho antes de suachegada. A água ainda estava quente e Anne se sentiu ainda mais furiosa pelo fato de não sercapaz de desfrutar do momento, sempre tomara banho com a camisa, porque a tinaque os serviçais de Warwickshire utilizavam não se encontrava num cômodoresguardado. Além disso, todos precisavam de auxílio para lavar o cabelo, se nãoquisessem correr o risco de manchar o chão quando usavam a água para enxaguar-se.Agora, a visão de seus próprios mamilos a distraiu levemente, já que raras vezes osolhava. 37
  38. 38. A barra de sabão caiu de repente diante dela, lhe salpicando água nos olhos, esticoua mão instintivamente e o agarrou num gesto automático, normalmente, ninguémjogava desse modo um item tão caro. Ninguém exceto Philipa, um suave aroma delavanda inundou seus sentidos, quando Mary jogou uma jarra de água sobre suacabeça. Estava fria e fez cócegas no nariz, seguiu-se mais água até que seu cabeloficou totalmente molhado. Mas o fogo queimava e esquentava sua pele nua. Nuncadesfrutara de um banho tão delicioso, nem de um sabão perfumado. O sabão francês deslizou sobre sua pele e, de repente, compreendeu por que Philipagostava tanto de banhar-se. De fato, se lhe permitissem fazê-lo nessas condições,também aproveitaria o máximo possível. Entretanto, Mary a fez apressar-se lheesfregando o cabelo com movimentos bruscos. Após, apenas um quarto de hora,Anne se encontrava diante do fogo com o corpo envolto em linho. O desesperotentou apropriar-se de sua mente. Não era tarefa fácil resistir a ela, mas sabia que opânico só ajudaria Philipa. — Isso não vai funcionar. E se o Conde desejar, permanecer aqui, algumas noites nocastelo Warwickshire antes de retornar as suas terras? A condessa escarneceu das palavras de Anne. — É escocês e sem dúvida desejaráretornar as suas terras o quanto antes, ouvi que os clãs se atacam entre si quandoseus senhores não estão presentes, mais um motivo pelo qual eu não enviarei minhaúnica filha a essa terra de bárbaros. Philipa sacudiu uma camisa íntima, e se decidirficar, não haverá nenhum problema, lhe direi que minha filha está doente e vocêpermanecerá oculta até que esteja tudo preparado para partir. — Coloque isso, Marylhe estendeu tão finas meias, que Anne ficou olhando-as, já vestira Philipa comaquelas belas e diminutas peças, mas nunca sonhou usá-las. Logo estará pronta,também lhe entregou uma fina camisa, um espartilho e anáguas bordadas, depois aajudaram a por um vestido que pertencia a Mary. A faixa da cintura parecia lã grossa 38
  39. 39. para viajar, mas a única finalidade do luxuoso cós que o rodeava, era a vaidade.Finalmente, Mary lhe escovou o cabelo até que ficasse seco e em seguida o trançou. — Já está pronta, usará um véu quando se encontrar com esse escocês para quenenhum servo possa suspeitar e ficará no quarto até que eu vá buscá-la. — Nãocometa nenhum engano, ouviu-me? Contrarie-me, e expulsarei sua mãe daqui semnenhum pedaço de pão e nenhuma capa. Dito isso, Philipa agitou a mão em direção às escadas de trás. Anne seguiu suasinstruções, mas não abaixou a cabeça antes de mover-se. Em lugar disso, olhoudiretamente à Condessa negando-se a mostrar respeito. O rosto da mulher adquiriuentão um vivo tom vermelho devido à ira. — Suba essas escadas e medite sobre o que pode acontecer para sua famíliaqualquer outro ato de rebeldia de sua parte. Vá! Voltou-se para sua filha e ordenou.— Mary, recolhe esse uniforme, terá que vestir isso para sair de Warwickshire, nãopode deixar que ninguém a veja ou todos nossos esforços serão inúteis. As escadas de trás estavam envoltas numa inquietante escuridão um lance comdegraus estreitos, levava a uma torre usada pelos arqueiros em tempos de ataque. Nomomento, era onde se encontravam os livros contábeis do castelo, e não havianenhum modo de acessá-los a não ser através dos aposentos da senhora. Anne subiuenvolvendo seu corpo com os braços, ao sentir o gélido vento se infiltrar até os ossos,parecia que aquele frio vinha do seu interior, e provavelmente assim fosse, doía-lhe ocoração nunca saíra dos domínios de Warwickshire. Dormia no quarto das criadas, eisso era o mais afastado que já estivera de sua mãe. Podia ser uma loucura quelamentasse abandonar o castelo, mas era o único lar que conhecera. Não foi capaz dereprimir um calafrio ao chegar ao pequeno cômodo, era realmente minúsculo eentrava pouca luz devido aos muros cobertos de pedras cinzentas, o vento assobiou 39
  40. 40. através das estreitas aberturas, provocando mais calafrios. Sem sombra de dúvidaestava sonhando, certamente tudo que acontecera nas últimas horas, não era maisque um pesadelo e que logo despertaria. Seus dedos acariciaram a frente da saia eencontraram os luxuosos bordados. Ajudara a fazer alguns deles com suas própriasmãos, sentada junto às outras criadas, depois que adicionavam lenha ao fogo parapassar a noite, pois, devido à ânsia de Mary pela moda, até o último par de mãosauxiliava a fazer seus trajes. O vestido era magnífico, mas não fora confeccionadopara ela, o espartilho ficava comprido na cintura e cravava nos quadris. Teria queajustá-lo, mas não se atreveu a fazê-lo nesse momento, porque o marido de sua meia-irmã podia chegar a qualquer momento. “Bem, na realidade, seu marido”. Anne pensou nisso, os homens não lhe davam medo, entretanto não sabia nadasobre eles, ao ter sido submetida a uma rigorosa vigilância, obrigou a si mesma a nãoolhar para os servos que tentavam conquistar sua atenção. Proibiram-na de flertar eagora esse fato podia voltar-se contra ela, e se não gostasse do escocês? Não saberiacomo atraí-lo ao seu leito. Um estremecimento a sacudiu ao pensar nesse dever.Provavelmente deveria evitá-lo. Se afinal concebesse o bebê que Philipa exigia, já nãoseria necessária e possivelmente ela seria capaz de assassiná-la. Um gélido terror lheenvolveu o coração enquanto considerava a mentira que a condessa estava decidida alevar a cabo. Anne engoliu o nó que formara na garganta e ordenou a si mesma, nãodeixar-se levar pelo pânico, tinha que pensar era imperioso que descobrisse um modode levar as notícias ao seu pai. Não podia falar com escocês do golpe, pois a enviariade volta para casa, sob o cuidado de Philipa. A idéia de ver sua doce irmã Bonniecasada fez o estômago se revolver. Seu pai era o único que tinha poder para protegê-la, a ela e a sua família. E o faria, estava segura disso, tinha que acreditar porque era sua única esperança.Iria escrever-lhe uma carta, virou-se e olhou para a mesa onde tinha passado tantas 40
  41. 41. horas com os livros de contas. Sim, havia papel de pergaminho e tinta. Mas, como afaria chegar? A corte era um lugar incerto onde os nobres formavam redemoinhos aoredor da rainha. Só um homem com determinação poderia encarregar-se de que umacarta chegasse às poderosas mãos de seu pai. De fato, seu mordomo-mor mantinhaem seu poder manuscritos durante meses antes de entregar ao Conde. Mesmo assim,negava-se a aceitar docilmente seu destino Philipa a mataria uma vez que desse a luzestava segura disso. Porque se vivesse, sempre existiria o perigo de que pudesseexpor a verdade. Sentou-se e abriu um pequeno tinteiro de cerâmica que continhauma generosa quantidade de tinta escura, levantou uma pluma e a imergiu antes deapoiar a ponta sobre o papel e escreveu com cuidado, riscando as letras com destrezaenquanto escutava com atenção, temerosa de ouvir passadas que interrompessemsua tarefa. Depois que acabou de relatar o que estava ocorrendo, lacrou a carta, masnão lhe pôs o selo da casa. Colocou-a com cuidado nos livros de contas e rezou paraque seu pai estivesse em casa no primeiro dia do próximo semestre, quando pagariaos criados, faltavam ainda quatro meses, mas era esperado que o Conde pagasse cadaservo pessoalmente. Seu pai mantinha essa tradição, desde quando Anne podia serecordar, ele colocava sobre sua palma a prata que ela mesma ganhava desde que setornou grande o suficiente para merecê-la, não podia lhe entregar à carta, mas adeixaria onde pudesse descobri-la. Sem o selo, ninguém saberia de onde vinha àmissiva e com sorte, iria deixá-la ali para que fosse o senhor quem a abrisse. Dessavez, a vadiagem de Philipa seria uma bênção. Anne rezou como nunca o fizera paraque assim fosse. Enquanto isso, ela teria que empregar qualquer tática queconseguisse imaginar, para evitar que o escocês consumasse a união. Precisava detempo, uma pontada de culpa a assaltou, mas se obrigou a deixar de lado. Não podiatratar com honestidade aquele homem, era a primeira vez que planejava serdesagradável com um desconhecido, embora soubesse muito bem, que não tinhaescolha, evitaria seu contato o maior tempo possível, e rezaria para que Deus lhe 41
  42. 42. concedesse a habilidade de manter distância dele. Era sem dúvida a prece maisestranha que seus lábios já tinham murmurado. O tempo passava lentamente, umavez que os livros estavam em ordem, Anne incapaz de ficar sentada, começou acaminhar. Não estava acostumada a não fazer nada e o estômago roncou durantehoras até que Mary apareceu com comida, pouco antes do pôr-do-sol. Sua meia-irmãencolheu os ombros a modo de desculpa. — Não estou acostumada a servir, por issoesqueci trazer algo no meio do dia. Deixou a bandeja com um som metálico, voltou-see olhou a pequena sala. —Mamãe disse que irá dormir aqui, tenho que conseguir algo para você poderdeitar e esperar que o escocês apareça. Mamãe diz que não poderei retornar a corteaté que tenha um bebê, Oxalá seja rápido. Maldita egoísta! Anne aguardou que Mary começasse a descer os degraus de pedrapara amaldiçoá-la. Ela era mais que um ventre fecundo para filha legítima da casa.Mesmo assim, foi bastante prudente para morder língua, aquela sala seria muito friade noite sem um fogo e só esperava que sua meia-irmã se lembrasse de trazer algocom o que se agasalhar. Não havia tampas de prata para manter os pratos quentes,tampouco era variada a comida. Uma terrina de sopa fria, queijo e pão duro, duastartaletas sobressaíam entre a pobreza dos pratos que Mary levara. Uma lágrimaardeu no olho ao recordar que compartilhara uma com Brenda poucas horas antes,mas Anne enxugou aquela única lágrima, negando-se a se deixar levar pelacompaixão, a vida era dura e chorar era para crianças, que ainda não enfrentaram àrealidade. Sentiu que o estômago rangia então pegou o prato de sopa, faminta queestava, achou o gosto suportável. Não tinha talheres, assim teve que arrumar-se semeles, havia uma pequena jarra de soro de leite junto à terrina, Anne franziu o cenhoenquanto o bebia. O soro era a parte menos valorizada do leite, pois era extraídodepois que fosse separado a nata para a manteiga, mas ao menos a ajudava a engolir 42
  43. 43. a sopa fria, já que não tinha água, nem cerveja ou cidra. Alguns passos nas escadas ainterromperam. — Isto terá que bastar, bufou Mary quando chegou ao alto dos degraus. Não possotirar nenhum colchão dos quartos dos criados, sem levantar suspeitas, deixou cair nochão o que trazia entre as mãos e se virou, partindo a toda pressa. É uma bênção quenenhum dos cavalos esteja ao seu cargo... Anne franziu o cenho ao notar que estavafalando consigo mesma. Lavou os dedos com um pouco de soro e os secou na pregada saia, odiava sujar a roupa, mas não lhe ocorreu nenhuma outra solução.Aproximou-se da pilha de pano que havia no chão, pegou-o e o estendeu com umasacudida, era uma capa de viagem de grossa lã, tinha um enorme capuz para protegerdas intempéries, quem a usasse, o vento soprava através das janelas, fazendo que asala fosse tão fria como o pátio que havia em baixo. Mesmo com a capa, passaria anoite tremendo. Ao menos, usava anáguas forradas, Anne se virou com um bufo eolhou as tartaletas e o pão. Deu-lhe água na boca, mas resistiu o impulso de comer,pois ignorava quando lhe levariam mais comida, o melhor seria guardar algo, umestômago meio cheio era mais fácil de suportar do que um vazio. O sol declinou e a luz atenuou, as velas eram guardadas a chave num armário juntoà cozinha e usavam com cuidado para conservar os recursos, de pé junto a umajanela, Anne observou o pátio uma luz tremulava no estábulo, enquanto os serviçaisconcluíam as últimas tarefas e os, sentinelas caminhavam pelas muralhas, vigiandocomo sempre faziam. Ficou tentada em descer as escadas, às escondidas paraentregar a carta ao capitão, mas era muito arriscado, Philipa dirigia seus domínioscom punho de ferro. Tinha banido mais de um servo sem se importar com suasituação pessoal e o capitão certamente entregaria a carta à condessa em lugar deseu senhor, porque, com o conde na corte tão amiúde, muitos dos habitantes deWarwickshire ansiavam ganhar a boa vontade de Philipa. O desespero a dominou 43
  44. 44. enquanto recolhia a capa, e umas garras enregeladas envolveram seu coração aocobrir seu corpo com a peça de lã, estava muito perto de todos aqueles que ela amavae, no entanto, nem sequer poderia despedir-se deles, a solidão encheu seus olhos delágrimas apesar de seus esforços por manter-se firme. Com a escuridão como únicacompanheira, não teve força suficiente para evitar o pranto. Escorregou pela parede eaproximou os joelhos ao corpo porque a noite estava cada vez mais fria, sem sabercomo, adormeceu e sonhou com o fogo que ardia na sala de Philipa, tentouaproximar-se dele para aquecer-se, mas parecia que não podia se mover, o seu corpotremia tanto que não conseguia afastar-se do muro de pedra. Despertou maiscansada do que o estava antes de dormir, os olhos ardiam e as mãos doíam desegurar as extremidades da capa e uni-las no peito. Tinha o corpo rígido depois de terdormido sobre o chão duro, e os dedos dos pés gelados apesar das botas. Era tãodoloroso mover-se como ficar quieta, quando os primeiros raios do amanheceralcançaram as janelas, infiltrando-se até onde ela se encontrava, a jovem se levantoue ergueu o rosto para sentir como o calor banhava sua face gelada. — Cavaleiros à vista! Anne abriu os olhos de par em par ao ouvir o grito que chegava do pátio,aproximou-se apressadamente da janela e viu que os portões ainda encontravam-sefechados além da muralha externa, um estandarte azul e dourado ondeava nadistância. Era imperceptível e dançava sem cessar porque o cavaleiro que o levavaavançava com rapidez. O capitão se apressou a subir pelas escadas até o alto dasmuralhas em mangas de camisa, pois era evidente que acabava de levantar-se dacama, usou um cristal de aumento para estudar o estandarte durante um extensomomento e depois gritou: — Guerreiros de Alcaon. Que se reúnam todos os homens.O segundo em comando fez soar um grande sino preso muralha de pedra externa eimediatamente começaram a sair ao pátio, homens provenientes dos barracões 44
  45. 45. abotoando-se armaduras e embainhando espadas. O estandarte ainda se achavalonge devido ao castelo ser construído sobre uma colina. “Então enfim chegara omomento.” Que Deus a perdoasse o suficiente para lhe permitir viver. — Se apresse! Mary estava sem fôlego e nem sequer chegou até o último degrau.Lívida, fez sinais frenéticos com uma mão para que Anne a acompanhasse ao quartode Philipa, Um nó formou no estômago de Anne, enquanto descia a escada, certa deque sua alma se dirigia mais e mais para a condenação em cada degrau. — Ai está! Espero que a noite tenha melhorado sua atitude e aceite seu destino.Philipa já estava vestida e parecia nervosa, coisa estranha. — Mary coloque-lhe essa touca francesa marrom com o véu, sua filha obedeceucom presteza. A touca cobriria o cabelo de Anne e cobriria suas orelhas por completo,um acessório de lã fina, a parte de trás da touca manteria abrigado seu pescoço, e umcomprido véu confeccionado com fino algodão da Índia ocultaria seu rosto. Poderiaver através dele, embora não muito bem, as damas freqüentemente usavam véusparecidos nas viagens, para proteger a maquiagem, porque os pós para o rostomanchavam, quando os flocos de neve derretiam sobre a pele. Mary colocou a touca sobre o cabelo de Anne sem se importar que as bordasapertassem seu rosto, logo pôs o véu em seu lugar, bloqueando a maior parte da luzdo amanhecer. – Perfeito! Isso evitará que alguém descubra, Mary esboçou umsorriso triunfal enquanto os lábios de Anne formavam uma dura linha. Por costume,começou a inclinar a cabeça, mas se deteve antes de completar o respeitosomovimento, ao perceber seu gesto, sua meia-irmã franziu o cenho e o desgostoretesou seu rosto. Um forte golpe soou na porta de repente. — Se esconda Mary, rápido minha menina! Mary se virou e correu para as escadasque davam na saleta dos livros. Philipa sorriu ao olhá-la com uma estranha felicidade 45
  46. 46. resplandecendo em seus olhos, mas desvaneceu no exato momento que sua atençãorecaiu sobre Anne. — Será melhor que recorde o que lhe disse, assim que estivergrávida, diga para esse homem que deseja retornar para junto de sua mãe, nemsequer um selvagem como ele lhe negará semelhante conforto. Voltaram a soar golpes na porta. – Adiante! Ordenou a condessa. O capitão da guarda apareceu na soleira, inclinando-se diante de Philipa. — O Conde de Alcaon a aguarda no pátio, Milady. — Estamos preparadas. Philipa segurou Anne pelo braço, lhe enterrando os dedosna carne, certamente que estamos. Não! Anne não estava preparada absolutamente, nem o estaria nunca. — Deus santo! — Anne ficou paralisada ao ver pela primeira vez os homens queestavam esperando, eles eram enormes, Ela era virgem e não tinha flertado para nãose arriscar em despertar a ira de Philipa, mas sabia que aparência os homens tinham,mais ou menos. Aqueles diante dela, eram muito maiores do que qualquer um que serecordava, à exceção de um ou dois dos aldeãos. Eram fortes e musculosos, os olhos de Anne demoraram nas mangas enroladas e naquantidade de pele nua à vista. O frio da manhã não parecia incomodá-los e davam aimpressão de gozar de uma excelente saúde, vários usavam saias, de fato, as calçaseram a exceção entre eles. Em lugar de camisas, cobriam-se com peças de amplasmangas e sem punhos, seus coletes eram feitos de pele e a maioria estava apenasenrolada algumas vezes na altura do estômago. Usavam botas amarradas napanturrilha com tiras de pele e utilizavam botões de chifre de animais para prendê-las, suas roupas não eram absolutamente elegantes, mas sim práticas, com exceçãodas saias, confeccionadas com largas tiras de pano tecidos com vários tons de cor para 46
  47. 47. formar tartans azuis, amarelos e laranjas. A única coisa que se repetia no trajedaqueles homens era que a ponta dos tartans descansava sobre o ombro de cada umdeles e que mantinham o tecido preso por grandes alfinetes de metal, não pareciahaver nenhum homem entre eles que não estivesse em forma, e todos e cada umlevavam enormes espadas presas com uma correia nas costas. “Virá por ti...” As palavras de Bonnie repercutiram na mente de Anne quando umdeles desmontou e se separou de outros, seu cabelo era tão negro como a noite eseus olhos de um azul muito escuro. Usava as mangas da camisa amarradas ao ombromostrando os poderosos bíceps de seus braços. Parecia uma estátua romana, sómúsculo. — Sou Brodick McJames. Philipa se inclinou, puxando o pulso de Anne para assegurar-se de que fazia omesmo. — Bem vindo a Warwickshire, Milorde. Por favor, aceitem nossa hospitalidade! Areverência de Philipa foi profunda e mais delicadamente do que Anne já havia visto.Mas o escocês não estava interessado em sua mostra de respeito, evitou à senhora docastelo e cravou seu olhar na silenciosa silhueta de Anne. Estudou sua cabeçainclinada, tentando ver através do véu, e a jovem rezou em silêncio para que oescocês aceitasse o convite de Philipa e ficassem algumas noites, isso desarmaria ocruel plano da condessa, antes sequer que se colocasse em marcha. — Lamento, mas não tenho tempo para desfrutar de seu amável convite, devoretornar as minhas terras imediatamente. 47
  48. 48. — Compreendo. Philipa quase falou muito rápido, embora conseguisse dissimularseu regozijo com um grave gemido, garanto que entendo. O escocês pareceusurpreso, mas esqueceu aquela sensação rapidamente. — Bem. Sua voz era sonora e profunda, e seu tom mostrava que estava habituado amandar. Dou-lhe minha palavra de que sua filha terá uma escolta segura, subiu osdegraus dianteiros, tornando-se maior com cada passo que dava, quando estava nomesmo patamar que elas, seus ombros ficaram acima do nariz de Anne. — Obrigada, Milorde. Anne nunca ouvira Philipa com um tom de voz tão dócil,voltou à cabeça para olhar fixamente aquela mulher, atônita ao ver como interpretavasemelhante farsa, as sobrancelhas da condessa se arquearam levemente. — Agora Mary, cumpra com seu dever e trate seu senhor respeitosamente. Umbrilho de ira surgiu em seus olhos Anne conhecia bem esse olhar. — Milorde, disse a jovem em voz baixa. Inclinou a cabeça e ficou assim durante umlongo tempo. — Milady. O escocês lhe estendeu a mão com a palma para cima e um calafriopercorreu na Anne, quando a olhou. Eva deve ter sentido o mesmo calafrio quandoenfrentou à serpente. Philipa lhe deu um beliscão e a jovem colocou sua pequenamão sobre a dele, era muito maior. Com controlada força, os dedos do escocêsenvolveram sua mão por completo e usou-a para atraí-la para si, enquanto tentavaver através do véu. O fato de não conseguir não pareceu ser um motivo de demora,porque se virou e a fez descer as escadas ao seu lado. Um de seus homens seguravacom firmeza uma égua enquanto o conde a guiava até ela. Anne agarrou a saia parasubir o pé até o estribo e deixou escapar um grito abafado ao sentir que as mãos deseu marido a seguravam inesperadamente pela cintura, seus pés abandonaramrapidamente o chão quando ele a ergueu sobre o lombo da égua. Nesse instante, seus 48
  49. 49. homens lançaram vitórias e risadas ao ar da manhã. O conde lhe dedicou um sorrisoque transformou seu rosto por um momento no de um menino, antes que sedesvanecesse na segurança de um homem, observou como Anne se agarrava à partedianteira da sela e acomodava seus quadris de forma que ficasse equilibrada com asduas pernas para o mesmo lado. — Em marcha! O escocês gritou a ordem ao mesmo tempo em que saltava sobreseu próprio corcel, o cavalo era negro como o carvão e seus olhos resplandeciam. “Ovi sobre um corcel negro...” Anne ergueu o olhar para o homem que lhe tinhareservado o destino e observou como enrolava as rédeas ao redor de uma poderosamão e guiava o animal com habilidade. Seus olhos estavam fixos nela, tentandopenetrar seu véu, e seu kilt de madra escocesa deixava ver a maneira de como suasmusculosas pernas sujeitavam o cavalo. Anne pôde comprovar então que eram tãopoderosas como seus braços. Quando o viu girar, ficou olhando a espada presa nasuas costas e as palavras de Bonnie fizeram seu coração se contrair. “Terá um bebêantes da lua cheia de outono” Não, isso não podia ser, precisava haver um modo deevitá-lo. O homem que dominava suas rédeas não as soltou quando montou sobreseu próprio cavalo, e começou mandar para que o seguisse. Anne estremeceu aoescutar que os habitantes do castelo se despediam, gritando seus melhores desejos.Não voltou a cabeça e olhando tensamente as amplas e fortes costas dos homens quetinha diante dela, muito consciente do poder que irradiava de seu líder ao atravessaros portões do castelo. Sua égua seguiu ao grupo de escoceses, aumentando o ritmoquando eles transpuseram a muralha externa, reforçando sua determinação, Annenão olhou para trás em lugar disso, cravou o olhar nas costas do homem que teria queenganar. Encontraria a maneira de fazê-lo, isso foi à única coisa que teve tempo depensar, o sonho do Bonnie não se cumpriria daquela vez, ela faria que assim fosse.Não havia Santos suficientes, Anne se encolheu com mais força na sela, lamentando a 49
  50. 50. falta de ouvidos celestiais a quem dirigir suas preces. Considerando sua prementesituação, necessitava que mais Santos intercedessem em seu nome. Seu olhar vagousobre os ombros do Conde, tinha uma compleição tão poderosa que certamente nãoacreditaria ser real, se não tivesse visto por si mesma. Nem sequer estava certa se eranormal que os homens fossem tão grandes. Entretanto, o escocês parecia em perfeitaharmonia com o enorme corcel que montava. Ambos exalavam confiança enquantoaquelas firmes mãos seguravam as rédeas e suas fortes pernas apertavam com forçaos flancos do animal, mantendo as costas retas na dura escalada daquele morro.Guardar distância com aquele homem iria ser uma provação para ele, ela era suaesposa. Sim precisava de muito mais Santos. Anne franziu o cenho. Rezar fazia muitobem, mas devia elaborar um plano sólido se quisesse dar tempo ao seu pai paradescobrir sua desesperada situação. Seu estômago protestou ao mesmo tempo emque sentia que puxavam seu cavalo para que avançasse pelo caminho. O castelo deWarwickshire foi diminuindo à medida que o sol se movia sobre eles riscando um arcopara o oeste. O espartilho, muito comprido se enterrava no quadril, mas ao mudar deposição só conseguiu transferir a dor de um ponto ao outro até que o corpo palpitouem protesto, tentou dissimular seu mal-estar trocando de posição quando o cavalo semovia. Por causa disso todos os homens que acompanhavam o conde tinham ummotivo para olhá-la. Tentavam disfarçar, observando o caminho que ficava atrás deAnne ou examinando as adagas que tinham embainhado na parte superior da bota.Fosse como fosse, a questão era que seus curiosos olhos sempre encontravam umarazão para olhar em sua direção. De sua parte, Anne também se sentia atraída por eles, seus joelhos nus adesconcertava. Warwickshire estava nas terras fronteiriças e para os ingleses era umlugar frio. O último par de joelhos inglês que vira fora no quarto de banho e fora deum dos jovens ajudantes do estábulo e era um menino que estava acostumado a se 50
  51. 51. esquecer de vestir-se adequadamente. Entretanto, os homens que a acompanhavamnão tinham problemas, levavam os coletes abertos, deixando que o ar da tardeagitasse o linho de suas camisas, e todos tinham arregaçado as mangas como fossemclaramente desnecessárias para proteger do frio. Anne, entretanto, estremecia todasó de ver que usavam o pescoço descoberto. Mas nenhum deles parecia ter frio e issochamou sua atenção, todos pareciam bem e impaciente por chegar a casa, e suasmontarias avançavam confiantes através do atalho rochoso. Não podia culpá-los porsua alegria, porque o fato de saber que retornavam ao seu lar devia ser uma sensaçãomaravilhosa. Uma sensação que ela desejava e fez que a inveja se instalasse em seupeito. Nem sequer tinham permitido despedir-se de sua família. Resistiu ao impulso de olhar para trás. Ver Warwickshire tão longe na distância seriamuito doloroso. Ao menos, evitaria as lágrimas, chorar era inútil. De fato, elaconsiderara Lady Mary um ser impotente por chorar com tanta freqüência, essepensamento redobrou sua determinação de manter-se serena à medida que o dia seprolongou. O conde deteve seus homens duas vezes. Em ambas as ocasiões, pararamperto de um rio para que os cavalos pudessem beber. Anne tinha os pés amortecidose ao desmontar sentiu pontadas de dor que subiram por suas pernas inchadas, nuncacavalgara durante tanto tempo, já que não tivera nenhuma necessidade de fazê-lo. Oscavalos eram muito dispendiosos, sua comida era cara e geravam gastos nosestábulos. Além disso, sua vida se limitava ao Warwickshire e às aldeias que ocircundava e lhe bastava seus pés para chegar até elas. Sabia que, em todo um ano,não ganharia o suficiente para comprar um cavalo tão magnífico como o que montavaesse dia, Anne deu um tapinha na égua, e passou os dedos por sua brilhante pelagem. —É um bom animal, sem dúvida. Ao ouvir aquilo, a jovem voltou à cabeça e sedeparou com um dos guerreiros McJames a menos de um metro a suas costas. O 51
  52. 52. homem a analisava com olhos do mesmo tom que um céu celestial, tinha o cabeloclaro, ao contrário do conde. — A verdade é que é muito bonito. O homem levantou uma mão para aplaudir comfirmeza os quartos traseiros do cavalo. — Forte isso é o que importa. Anne soltou as rédeas e deixou à égua livre, que com um suave relincho, seguiu osoutros cavalos para a margem do rio. — Provém dos estábulos pessoais de meu irmão, os cavalos McJames são osmelhores de Escócia, continuou ele. — Entendo. O escocês a olhou com atenção tentando ver mais por trás do véu. Como Anne nãoo levantou, seu olhar deslizou por sua silhueta, examinando-a do mesmo modo comofizera com a égua. — Imaginava que as damas inglesas usavam luvas para manter suas mãos suaves.Anne agradeceu o véu, porque a ajudou a ocultar a repentina expressão de surpresaem seus olhos. Sem poder evitá-lo, dobrou seus gelados dedos formando punhos. — Esqueci essa manhã. Retraiu-se, consciente de que cometera um erro, nenhumadama viajava sem luvas. Quando me avisaram de sua chegada, fiquei nervosa e nãoreparei que não as usava. Um sorriso atravessou o rosto do escocês. — Não diga isso ao meu irmão, seu egonão precisa de nenhuma adulação, lhe piscou um olho e sua divertida expressão adeixou pasmada. Não imaginava que os escoceses pudessem mostrar-se tão abertos. 52
  53. 53. — Bem, será melhor que se ocupe em satisfazer suas necessidades antes quevoltemos a montar, o escocês assinalou uma grande saliência entre as rochas e orosto de Anne ficou de uma viva cor vermelha. — Sim obrigada, disse com voz fraca ao mesmo tempo em que o rubor seacentuava. Quando se dirigiu às rochas, sentiu-se como se todos os olhos estivessemcravados nela. Retornar lhe custou uma grande quantidade de disciplina e ordenou asi mesma agir com sensatez. O corpo tinha necessidades, não era um motivo pararuborizar-se. Agora mais homens a olhavam, observando a maneira como seaproximava da água. O conde montava de novo seu corcel e esquadrinhava ohorizonte de sua privilegiada altura com o rosto convertido em pedra. Não pareciarufião e nem ocioso, uma sólida determinação emanava dele enquanto percorria como olhar a zona que os rodeava antes de posar seus olhos nela. Anne sentiu que o calorvoltava a lhe subir pela face e que uma comichão atravessava sua pele, mordeu olábio inferior e tirou a boina lhe devolvendo o olhar sem poder romper a conexão. Elefranziu o cenho antes de girar a cabeça, gesto que feriu o orgulho de Anne e que aenfureceu ao sentir de novo um ardente calor no rosto, como podia ruborizar por ele?E por que não o agradava? Sua própria ira a deixou assombrada, paralisando suamente enquanto tentava descobrir por que se importava com o que aquele homempensasse dela. Era melhor que não a achasse atraente, pois certamente isso a ajudariaa evitar sua cama. Mesmo assim ela não pôde negar a onda de decepção que aatravessou, fora tão real como aqueles homens vestidos com saias que estavam juntodela. Bastante inesperada, mas verdade. — Os dois terão que esperar zombou o irmão do conde ao aproximar-se com a égua,provocando gargalhadas entre os homens, Cullen dedicou um sorriso a Anne e lheofereceu uma mão para ajudá-la a montar. A jovem, irritada, estendeu um braço para 53
  54. 54. o pomo da sela, apoiou um pé sobre o estribo e ergueu seu corpo no ar sem ajuda.Podia arrumar-se muito bem sozinha. — Oh! Nunca conheci uma dama inglesa que pudesse fazer isso. Provavelmentemeu irmão fez uma escolha melhor do que imagina, Anne abaixou o olhar e se sentiutentada a retirar o véu para que aquele homem pudesse ver o olhar carrancudo quelhe dirigia. Foi outro impulso, um que pareceu muito difícil de resistir, no entanto aodescobrir o escocês sorrindo de orelha a orelha e com aqueles olhos azuis como océu, cintilando com alegria, sua raiva desapareceu imediatamente, já que ele a fez selembrar muito de Bonnie. — Sabe muito sobre mulheres inglesas, não é? Os lábios do escocês deixaram de sorrir, adotando uma expressão pensativa. —Estive na corte de sua rainha com meu irmão, sendo assim sim, conheço-as. Seusolhos resplandeceram com algo que parecia desconfiança, embora reconheça quevocê não é exatamente o que esperava, quando meu irmão me disse que viríamosbuscá-la. Olhou-a com olhar crítico, um gesto que fez a jovem se perguntar o que era,na opinião dele, o que lhe faltava. — Como não nos conhecemos, replicou Anne, recuso-me a formar uma opiniãosobre você ou seu irmão até que passe um pouco de tempo. Uma das sobrancelhas do escocês se arqueou. Uma suave zombaria surgiu em seuslábios e seus olhos voltaram a brilhar com diversão. — Oh, Deus, eis aí um tom queme lembro muito bem. As mulheres inglesas são tão frias como as Valkirias,poderosas guerreiras nórdicas, gélidas como a neve quando pretendem pôr a umhomem em seu lugar. 54
  55. 55. O primeiro impulso de Anne ao escutar aquilo foi desculpar-se, mas as palavras dePhilipa fizeram que se reprimisse. Familiarizar-se com um daqueles homens não seria prudente, tendo em conta aprecária posição de sua família. Mesmo assim, não era sua natureza ser grosseira elamentava suas palavras. — Meu nome é Cullen. O escocês lhe entregou um pano dobrado, aqui têm algopara comer, a viagem até o castelo do Sterling dura dois dias a cavalo, assim precisaráser forte. — Obrigada, disse em voz baixa enquanto segurava o que ele lhe oferecia. Cullenpendurou no pomo de sua sela a alça de um odre com vinho, as faces de Annecoloriram-se dessa vez envergonhada por ser tão direta em seu comentário. Nãodeveria permitir que Philipa a transformasse numa pessoa ressentida, mas guardoupara si suas palavras, selando assim os lábios, por temor do que pudesse acontecercom sua família. Teria que interpretar esse papel, até seu pai descobrir a situação emque se encontrava. Cullen assentiu. — Bem-vinda à família. Sua voz estava áspera, embora com certeza, Anne merecesse por ser tão altiva. Umapontada de arrependimento fez seu estômago contrair, enquanto o escocês se dirigiaao seu próprio cavalo. Entretanto, não podia agir de outra maneira, não podia ser elamesma, sabia que a amabilidade era a melhor maneira de enfrentar novas situações,contudo, mesmo assim, devia mostrar-se grosseira, encontrava-se numa encruzilhadaque se tornava mais escura, a cada palavra que pronunciava. O ódio de Philipa a tinhacolocado numa situação impossível e ser correta não a ajudaria na sua atual situação.Todos os raciocínios e justificativas apoiados no fato dela ser a vítima não conseguiamaplacar a culpa que a estava devorando. Era uma impostora e não acreditava que 55
  56. 56. erguer preces aos Santos a ajudasse em algo, pois no fim, a maioria dos Santos tinhaaceitado seu martírio, para não agir de um modo não cristão. Apesar de saber isso,não descerrou os lábios, manteve-os totalmente fechados resolvidos a interpretar opapel de esposa que lhe fora atribuído, enquanto o conde os fazia avançar. Capítulo 4 Uma esposa falsa. O conde não parou a marcha até o sol quase se pôr. Só uma mancha rosa coloria ohorizonte quando levantou a mão para que o grupo se detivesse, parecia que seushomens sabiam exatamente o que aquele gesto significava, porque em seguidadesmontaram e começaram a organizar o acampamento. O lugar escolhido estavaresguardado por árvores, os ramos tinham poucas folhas, mas um grupo de grandesrochas fazia o lugar ser perfeito para passarem despercebidos. Uma rocha estavamanchada com escura fuligem negra e dois dos guerreiros se dispuseram a prepararali uma pequena fogueira, enquanto outros dois reuniam os cavalos. Tiraram as selasdas montarias, mas se certificaram de que todas as bridas estivessem bem presas,depois prenderam os cavalos entre si, deixando alguns metros de distância entre eles 56

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