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-Mas terei de me casar com Ian! Como pode aceitar isso?-Era isso que eu queria, sua tola! Agora teremos tanto dinheiro qua...
deixar de molho as barras e então passar sabonete de lilás no tecido.A jovem moça era empregada na casa do lord Ian McGreg...
-Ainda não, senhora Perpétua. Tenho que lavar os ladrilhos do quarto de milady Dorothea, e abiblioteca também.Dorothea era...
-Não fique envergonhada. Você entrou e praticamente correu às prateleiras. Foi uma experiênciaespecial observar seus olhos...
-Você vai gostar... - afirmou Ian, já disposto a contar a história do livro para ela.No entanto, naquele exato momento, Pe...
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A rosa entre espinhos

  1. 1. A Rosa entre Espinhos Josiane Veiga Prólogo Inglaterra, 1842A A noite chegou, trazendo consigo o mais intenso breu que os olhos azuis da loira já haviam visto. Era primavera. Era o dia de seu casamento. Toda a cerimônia e festa haviam sido perfeitas, poéticas e de um romantismo ímpar. No entanto, aquele que deveria ter sido o dia mais feliz da vidade Eleanor acabou sendo o dia de seu maior suplício.Ali estava ela, no auge de seus vinte e poucos anos, preparando-se para a mais pavorosa noite denúpcias que uma mulher poderia sonhar. E isso a angustiava. Desestabilizava-a. Não fora isso queambicionou.Era bem verdade que todo o planejamento que fizera desde que o jovem duque Ian haviaretornado de Londres incluía o casamento. Mas, após isso, seus sonhos partiam para umaromântica fuga ao lado do ardente Benjamin.Olhou-se no espelho. Estava linda. O vento que adentrava pela janela enorme sacudia seu vestidoclaro, fazendo-o deslizar pelo maravilhoso corpo de formas perfeitas.Apesar disso, uma sensação ruim preenchia sua alma. O ar quente da noite não lhe trazia calmaou paz, antes parecia gritar seu nome, chamando-a...Eleanor sabia que Ian era jovem, rico, e, diziam, até bonito, mas ela nunca o desejara. O noivadocom aquele homem de intensos olhos negros deu-seapenas para satisfazer sua ambiciosa família.Mal tinha visto o rapaz em toda a sua vida, contudo era sua noiva desde o nascimento. Nunca lhefoi concedida a oportunidade de escolha.Ian fora estudar em Londres, enquanto Eleanor ficou na cidade deYork, sendo educada pelafamília para ser uma boa esposa. Quando enfim o conheceu, na festa de noivado, não pôde dizerque ficara decepcionada com a aparência dele. Era moreno, contradizendo sua ascendênciaescocesa por parte do avô paterno, mas tinha olhos frios. Ela, fogosa e vivaz, não suportaria passaro resto da vida ao lado de um homem tão gélido como ele. Ao passo que a vida com o aventureiroBem parecia muito mais convidativa, excitante.Havia se encontrado com Benjamin às escondidas e proposto o normal para a situação. Afinal,amava o pobre rapaz.-Está louca? - Ele gritou. - Não fugirei com você!
  2. 2. -Mas terei de me casar com Ian! Como pode aceitar isso?-Era isso que eu queria, sua tola! Agora teremos tanto dinheiro quanto pudermos gastar! E vocêconseguirá tudo daquele idiota!-Como pode aceitar me dividir com ele? Achei que me amasse!-E amo... - a voz dele amenizou. - Mas como sobreviveríamos sem um tostão no bolso? Precisamosdo dinheiro dele...Foi então que Eleanor compreendeu tudo.-Você me usou! – Disse, consternada. - Nesta noite, contarei tudo a Ian! Não vou mais enganá-lo!No entanto, a revelação não aconteceu na noite da discussão, e tampouco nos dias seguintes.Agora, Eleanor e Ian haviam acabado de se casar, e a moça ainda não contara a verdade.Eleanor suspirou. Naquele dia, Ben saiu batendo a porta do quarto vagabundo da pousada - omesmo que por diversas vezes fora usado para seus encontros -, deixando Eleanor ali, chorandosozinha.Sentou-se na cama. Logo o marido entraria pela porta, e ela teria que contar-lhe a verdade. Só nãosabia se seria antes ou depois de ele perceberque não era mais virgem.Respirando fundo, ergueu-se e foi até o espelho. Encarou a imagem refletida, analisando suaspossibilidades. Pensou que talvez sua situação não fosse tão terrível. Afinal, alguém com suaaparência poderia dominar omarido sem grandes esforços. Olhou o colar no pescoço com aenorme pedra de diamantes. Era uma relíquia, e devia custar alguns milhares de libras. Pertenceraà Rainha Matilde, que após uma guerra civil presenteou um antepassado de Ian pela lealdade, e setornara a jóia mais importante da família. Recebeu-o na festa de noivado, e pensara em vendê-loassim que fugisse com Ben. Mas então, ao descobrir os verdadeiros motivos do amante para estarcom ela, abandonou a ideia.De repente, um barulho do lado de fora interrompeu lhe os pensamentos. Em poucos instantes,adentrou pela porta uma figura que quase a fez gritar. Mal teve tempo de esboçar uma reação,mãos firmes puxaram o colar de seu pescoço e jogaram-na contra a janela de vidro, que nãoresistiu e quebrou, derrubando-a do quarto andar.O silêncio reinou.Lá embaixo, apenas um corpo morto - o corpo de uma moça que um dia fora linda, mas que agorajazia fria ao chão - quebrava o ar de calma do lugar.Capítulo IM airi jogou por cima dos ombros cansados o latão de água quente. Mal podia suportar as próprias pernas. Felizmente, logo acabaria aquela atividade. Lavar os vestidos caríssimos de lady Dorothea era um inferno. Tinha primeiramente que esquentar a água,
  3. 3. deixar de molho as barras e então passar sabonete de lilás no tecido.A jovem moça era empregada na casa do lord Ian McGreggor desde criança, mas nunca seacostumara à rotina de escrava imposta pela governanta, senhora Perpétua.Órfã de pai e mãe, a linda moça de cabelos castanhos e olhos tão azuis quanto o céu nuncaconheceu outra vida. Trabalhava dia e noite alheia ao que acontecia fora do seu mundinho que eraa cozinha e, eventualmente,o lago da mansão de seu lord. Também não tinha ideia de como suaaparência era meiga e fascinante, e de como sua pele clara formava um conjunto perfeito com seucorpo exuberante.Mairi poderia facilmente sair da vida de empregada e torna-se amante de algum lord rico. Masnunca sequer cogitou isso. Apesar de ser uma moça pobre, tinha caráter. E também jamais paroupra pensar no quanto sua vida era triste. Nunca tivera uma família, não conhecia o significado dapalavra carinho. Tratada como um animal, ela se escondia pelos cantos, com medo de tudo.Quase um ano antes, só uma pessoa havia quebrado a autoproteção que a envolvia. O jovem Ben,rapaz belo, de cabelos escuros como a noite, e olhos tão dominadores que quase a fizeram seapaixonar. Poderia-se dizer que eles foram simplesmente amigos, mas seria mentir ao coraçãosolitário da moça; afinal, o maldito órgão palpitava no peito quando o via chegar à mansão, paraentregar as verduras encomendadas na banca de seu pai na feira.Porém, alguns meses após alimentar aquela admiração secreta,descobriu os motivos que levaramo jovem mancebo a se aproximar dela, a empregada que limpava os ladrilhos: a belíssima LadyEleanor. Triste, admitiu que o homem só havia firmado amizade com Mairi para se aproximar danoiva de lord Ian. Magoada, não conversou mais com Bem, passando a ignorá-lo assim que o viacom a charrete. Entretanto, sempre carregou o peso de, mesmo involuntariamente, ter ajudado orapaz a se aproximar da falecida nobre.Mairi sabia que eles haviam se tornado amantes, mas nunca falou nada disso a ninguém. Já tinhaas tarefas cansativas da mansão dos McGreggor para se preocupar. Além disso, apesar de ser umamoça fina, Eleanor nunca havia lhe tratado mal. Até lhe sorrira certa vez. Então, porque haveria detentar atrapalhar aquele sentimento?A empregada também foi uma testemunha da tristeza de Eleanor no dia do seu casamento, e viu ocorpo dela estirado no piso de concreto logo após o fim da festa de suas núpcias. Algumas pessoasdiziam que a moça havia se suicidado, atirando-se da janela do quarto de casal, ou que foraassaltada, já que o colar de diamantes que ela ganhou no noivado havia desaparecido. Mas outrasfalavam que lord Ian a matara. A verdade nuncaapareceu, mas a polícia ainda estava investigando.Mairi não sabia o que pensar, pois não conhecia o lordpessoalmente. Ian havia saído de Yorkmuito jovem para estudar em Londres,e retornou há pouco tempo para se casar com a sua noiva,prometida desde o nascimento. Mesmo agora que ele regressara, nunca lhe foi permitido entrar nasala dos patrões ou se aproximar. Ela ficava apenas no porão ou nas salas em que se lavavam asroupas do castelo. E foi nas lavanderias que ela acabou descobrindo a única coisa que sabia de seulord "Ele tem um cheiro muito bom", é o que sempre pensava ao pegar as suas camisas para lavar.-Já acabou, Mairi? - A governanta berrou ainda no corredor, aproximando-se.
  4. 4. -Ainda não, senhora Perpétua. Tenho que lavar os ladrilhos do quarto de milady Dorothea, e abiblioteca também.Dorothea era a mãe de Ian. Mulher rígida, nunca lhe dirigiu um olhar. Bom, era de se esperar;afinal, a moça de cabelos castanhos não passava de um bichinho medroso pela enorme casa.-Pois vá logo! Parece até que não tem gratidão pela bondosa ladyDorothea ter recolhido você darua e lhe dado teto e comida! Deveria fazer seu serviço com mais rapidez, sua lerda!-Estou indo! – Replicou, movendo-se apressadamente. Demorou quase uma hora para limpar asricas cerâmicas do quarto, e não pôde deixar de pensar que não precisava ser assim tão grata peloacolhimento de ladyDorothea, já que não ganhava um centavo para tanto trabalho.Na verdade, desconfiava que os ricos Lords pagassem sua labuta, mas o dinheiro nunca chegou asuas mãos. Provavelmente, a governanta não pensava que ela necessitasse daqueles trocados.Pensando em seu quarto, e no quanto desejava sua estreita cama de colchão de palha, Mairi foi àbiblioteca. Entrou cabisbaixa sem olhar direito o ambiente, e se dirigiu a uma das prateleiras delivros. Pegou um deles e o olhou, sonhadora.Ivanhoé... Era seu livro favorito. Aprendeu a ler com um bondoso reverendo que havia morado emYork. Ele a ensinou na Bíblia, ela pegou gosto pela coisa, e logo começou a tomar emprestadosalguns livros do castelo e os levar para o quarto por algum tempo, mas depois sempre devolvia.Esse era seu modo de escapar da realidade, e com Ivanhoé ela até se apaixonou pela primeira vez:Wilfred, personagem principal do livro.O escritor escocês, Walter Scott, tornou-se seu autor favorito, e a história de Rowena e Wilfred, ocasal de Ivanhoé, se tornara a sua história preferida.-Também gosto muito de Ivanhoé...Mairi quase derrubou o livro no chão, tamanho seu susto. Olhou para o canto de onde a voz haviasaído e mal podia acreditar em seus olhos. O homem que havia falado era exatamente como elaimaginava o protagonista de Ivanhoé.Wilfred estava à sua frente. Belo e alto... Talvez sua cabeça chegasse ao queixo dele, e, comoconsiderava ter boa altura, a moça realmente pensou no quanto aquele homem parecia grande. Osolhos negros eram ornados por espessos cílios escuros, e o corpo esbelto, definido pelo requintadotraje,tornava aquela presença ainda mais dominante e marcante.Mairi sentiu as pernas adormecerem e, ainda descrente, pensou se o amado herói não teria saídoda história para se tornar seu príncipe encantado e tirá-la daquela sua vida miserável.-Acabou a inspeção? - Perguntou ele, sorrindo.Envergonhada, saiu de seu devaneio, e guardou rapidamente o livro na prateleira.-Me desculpe, senhor. Não percebi que estava no recinto.
  5. 5. -Não fique envergonhada. Você entrou e praticamente correu às prateleiras. Foi uma experiênciaespecial observar seus olhos ao puxar daliIvanhoé, que é meu livro preferido.-Eu não pretendia danificá-lo...-Ora, não se preocupe. Eu tenho vários livros de Walter Scott... Inclusive outro Ivanhoé, pode levareste com você se quiser...A moça revirou os olhos.-Gostaria muito... – foi sincera - mas não posso – recusou. - Se a senhora Perpétua o vir comigo,achará que eu roubei. – Explicou, ajeitando a touca na cabeça.O rapaz ficou encantado com a figura exótica à sua frente."Linda como o sol, e tão meiga, chega a ser difícil resistir."-Não se preocupe. Sou o dono da casa, e se lhe estou dando algo, a senhora Perpétua não tem nadaque ver com isso.Mairi abaixou os olhos, e com o livro nos braços, ia deixando a biblioteca, quando o rapaz achamou.-Espere!Mairi estancou no lugar.-Como se chama? - indagou.-Mairi... - respondeu tímida, pensando consigo que aquilo parecia uma brincadeira: um lordquerendo saber seu nome.-Mairi? Mairi... Parece música. – Comentou, encantado.Ela não pôde conter um leve sorriso.Aquele, que só podia ser o lord Ian, teve ímpetos de pedir a jovem que tirasse a touca, para quepudesse ver-lhe os cabelos, já que, de alguma forma, aquele moça lhe lembrara a Rowena do livro.-Leu algum outro livro do senhor Scott, Mairi?Viu-a negando com a cabeça.-Então, pegue este também. – Ofereceu, tirando um livro da gaveta na escrivaninha.-Waverly... - falou ela, gaguejando um pouco.A moça não tinha uma dicção muito boa, mas foi maravilhoso para Ian ver os olhos dela brilharemde ansiedade diante do livro. O duque nunca havia conhecido alguém como ela.
  6. 6. -Você vai gostar... - afirmou Ian, já disposto a contar a história do livro para ela.No entanto, naquele exato momento, Perpétua entrou na biblioteca.-Oh! Perdão, lord Ian! – Exclamou. - Eu não sabia que estava aqui. – Voltou-se para a estante, ondeMairi se encontrava. – Essa desastrada está o incomodando? – Seus olhos tornaram-serecriminadores. - Mairi, quantas vezes já disse para não incomodar os nobres? Vamos!Ian sentiu uma vontade louca de protegê-la, pois a governanta sempre foi muito dura com oscriados, contudo, ele próprio não sabia bem como lidar com os empregados. Além do que, em setratando de Perpétua, até James, o orgulhoso mordomo da família, parecia ter receio de levantar avoz. Mesmo assim, precisava interferir de algum modo.-Senhora Perpétua... - disse alto, ganhando a atenção da mulher. - Ela não está me incomodando.Inclusive, falávamos sobre Walter Scott e seus livros. Aliás, presenteei Mairi com dois livros egostaria de pedir a senhora que a liberasse mais cedo de seus afazeres, para que possa ler meuspresentes.A governanta arregalou os olhos. Sem saída, apenas consentiu com a cabeça. Logo depois ela eMairi se retiraram da biblioteca.-Ele é lord Ian? - perguntou Mairi a mulher, com a voz baixa.-Sim... – confirmou. - Pobre lord Ian, vive trancado naquela biblioteca desde a morte de ladyEleanor.Ouvir aquilo entristeceu o coração da jovem empregada.

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