A “caça às bruxas”: uma           interpretação feminista    A “caça às bruxas é um elemento histórico da Idade Média. Ent...
realizada pela Igreja e pela classe dominante contra as mulheres da população rural. Essacampanha foi assumida, tanto pela...
1.2. A “caça às bruxas e o “Tribunal da Inquisição”   Com a ascensão da Igreja Católica, o patriarcado imperou, até mesmo ...
Católica o chamado “Malleus Maleficarum”, mais conhecido como “Martelo das Bruxas”.Este livro continha uma lista de requer...
sofrimento das vítimas. Na Itália e Espanha, as bruxas eram sempre queimadas vivas. Ospostos de caçadores de bruxas e info...
destas mulheres e em acabar com seu poder na sociedade, ao ponto de se arranjaremmeios de as exterminar.   O feminismo pro...
Livro: A escritora espanhola Maria Pilar Queralt del Hierro, no seu livroMULHERES DE VIDA APAIXONADA , faz uma reflexão so...
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A "Caça às Bruxas": uma interpretação feminista

  1. 1. A “caça às bruxas”: uma interpretação feminista A “caça às bruxas é um elemento histórico da Idade Média. Entre os séculos XV e XVI o “teocentrismo” – Deus como o centro de tudo – decai dando lugar ao “antropocentrismo“, onde o ser humano passa a ocupar o centro. Assim, a arte, a ciência e a filosofia desvincularam-se cada vez mais da teologia cristã, conduzindo, com isso a uma instabilidade e descentralização do poder da Igreja. Como uma forma de reconquistar o centro das atenções e o poder perdido, a Igreja Católica instaurou os “Tribunais da Inquisição”, efetivando-se assim a “caça às bruxas“. Mas quem eram, afinal, as mulheres que fizeram parte de um capítulo tão horrendo da história da humanidade, e por que é que o feminismo retoma as bruxas como um dos seus principais símbolos? 1. A “caça às bruxas” A “caça às bruxas” durou mais de quatro séculos e ocorreu, principalmente, na Europa,iniciando-se, de facto, em 1450 e tendo o seu fim somente por volta de 1750, com aascensão do Iluminismo. A “caça às bruxas” assumiu diferentes formas, dependendo das regiões em que ocorreu,no entanto, não perdeu a sua característica principal: uma massiva campanha judicial 1
  2. 2. realizada pela Igreja e pela classe dominante contra as mulheres da população rural. Essacampanha foi assumida, tanto pela Igreja Católica, como pela Igreja Protestante e até pelopróprio Estado, tendo um significado religioso, político e sexual. Estima-se que aproximadamente 9 milhões de pessoas foram acusadas, julgadas e mortasneste período, onde mais de 80% eram mulheres, incluindo crianças e jovens, que haviam“herdado este mal”, alegadamente através de sinais distintivos: manchas de pele, verrugas,sinais, deformidades físicas ou mentais, doenças estranhas ou incompreendidas ou, pelocontrário, excessiva beleza ou inteligência. 1.1. Quem eram as bruxas Ao procurarmos uma definição do termo “bruxa” em dicionários, logo se pode percebera direta vinculação com uma figura maléfica, feia e perigosa. Neste sentido, também oslivros infanto-juvenis costumam descrever histórias onde existe uma fada boa e linda e umabruxa má e horrível. Ao analisarmos o contexto histórico da Idade Média, vemos que bruxas eram asparteiras, as enfermeiras e as assistentes. Conheciam e entendiam sobre o emprego deplantas medicinais para curar enfermidades e epidemias nas comunidades em que viviam e,consequentemente, eram portadoras de um elevado poder social. Estas mulheres eram,muitas vezes, a única possibilidade de atendimento médico para mulheres e pessoas pobres.Elas foram por um longo período médicas sem título. Aprendiam o ofício umas com asoutras e passavam esse conhecimento para as suas filhas, vizinhas e amigas. Segundo afirmam, as bruxas não surgiram espontaneamente, mas foram fruto de umacampanha de terror realizada pela classe dominante. Poucas dessas mulheres realmentepertenciam à bruxaria, porém, criou-se uma histeria generalizada na população, de formaque muitas das mulheres acusadas passavam a acreditar que eram mesmo bruxas e quepossuíam um “pacto com o demónio”. O estereótipo das bruxas era caracterizado, principalmente, por mulheres de aparênciadesagradável ou com alguma deficiência física, idosas, mentalmente perturbadas, mastambém por mulheres bonitas que haviam ferido o ego de poderosos ou que despertavamdesejos em padres celibatários ou homens casados. 2
  3. 3. 1.2. A “caça às bruxas e o “Tribunal da Inquisição” Com a ascensão da Igreja Católica, o patriarcado imperou, até mesmo porque Jesus eraum homem. Neste contexto, tudo o que a mulher tentava realizar, por conta própria, eravisto como uma imoralidade. Os costumes pagãos, em que adoravam deuses e deusas,passaram a ser considerados uma ameaça. Em 1233, o papa Gregório IX instituiu oTribunal Católico Romano, conhecido como “Inquisição” ou “Tribunal do Santo Ofício”,que tinha o objetivo de terminar com a heresia e com os que não praticavam o catolicismo.Em 1320, a Igreja declarou oficialmente que a bruxaria e a antiga religião pagã Wicca (deonde deriva o nome de bruxa, em inglês: “wicca” -> “witch” = “bruxa”), representavam umaameaça ao cristianismo, iniciando-se assim, lentamente, a perseguição aos hereges. A “caça às bruxas” coincidiu com grandes mudanças sociais em curso na Europa. A novaconjuntura gerou instabilidade e descentralização no poder da Igreja. Além disso, a Europafoi assolada neste período por muitas guerras, cruzadas, pragas e revoltas camponesas, eprocuravam-se culpados para tudo isso. Sendo assim, não foi difícil para a Igreja encontrarmotivos para a perseguição das bruxas. Para reconquistar o centro das atenções e o poder, a Igreja Católica efetivou a conhecida“caça às bruxas”. Com o apoio do Estado, criou tribunais, os chamados “Tribunais daInquisição” ou “Tribunais do Santo Ofício”, que perseguiam, julgavam e condenavam todasas pessoas que representavam algum tipo de ameaça às doutrinas cristãs. As penas variavamentre a prisão temporária até a morte na fogueira. Em 1484 foi publicado pela Igreja 3
  4. 4. Católica o chamado “Malleus Maleficarum”, mais conhecido como “Martelo das Bruxas”.Este livro continha uma lista de requerimentos e indícios para se condenar uma bruxa.Numa das suas passagens, afirmava claramente, que as mulheres deveriam ser mais visadasneste processo, pois estas seriam, “naturalmente”, mais propensas às feitiçarias. 1. 3. Os “crimes” praticados pelas bruxas No contexto da “caça às bruxas” havia várias acusações contra as mulheres. As vítimaseram acusadas de praticar crimes sexuais contra os homens, tendo firmado um “pacto como demónio”. Também eram culpadas por se organizarem em grupos – quando geralmentese reuniam para trocar conhecimentos acerca de ervas medicinais, conversar sobreproblemas comuns ou transmitir notícias. Outra acusação levantada contra elas era de quepossuíam “poderes mágicos”, os quais provocavam problemas de saúde na população,problemas espirituais e catástrofes naturais. Além disso, o facto dessas mulheres usarem os seus conhecimentos para a cura dedoenças e epidemias ocorridas nos seus povoados, acabou por despertar a ira da instituiçãomédica masculina em ascensão, que viu na Inquisição um bom método de eliminar as suasconcorrentes económicas, aliando-se a ela. 1.4. Perseguição e condenação à fogueira Qualquer pessoa podia ser denunciada ao “Tribunal da Inquisição”. Os suspeitos, nasua grande maioria mulheres, eram presos e considerados culpados até provarem a suainocência. Geralmente, não podiam ser mortos antes de confessarem a sua ligação com odemónio. Na busca de provas de culpabilidade ou da confissão do crime, eram utilizadosprocedimentos de tortura como: raspar os pêlos de todo o corpo em busca de marcas dodiabo, que podiam ser verrugas ou sardas; perfuração da língua; imersão em água quente;tortura em rodas; perfuração do corpo da vítima com agulhas, na busca de uma parteindolor do corpo, parte esta que teria sido “tocada pelo diabo”; tareias violentas; estuproscom objetos cortantes; corte dos seios. A intenção era torturar as vítimas até queassinassem confissões preparadas pelos inquisitores. Geralmente, quem sustentava a suainocência, acabava por ser queimada viva. Já as que confessavam, tinham uma morte maismisericordiosa: eram estranguladas antes de serem queimadas. Em alguns países, comoAlemanha e França, eram usadas madeiras verdes nas fogueiras para prolongar o 4
  5. 5. sofrimento das vítimas. Na Itália e Espanha, as bruxas eram sempre queimadas vivas. Ospostos de caçadores de bruxas e informantes eram financeiramente muito rentáveis. Estes,eram pagos pelo Tribunal, por cada condenação ocorrida, e os bens dos condenados eramtodos confiscados para a Igreja. O fim da “caça às bruxas” ocorreu somente no século XVIII, sendo a última fogueiraacesa em 1782, na Suíça. Porém, a Lei da Igreja Católica que fundou os “Tribunais daInquisição”, permaneceu em vigor até meados do século XX. A “caça às bruxas” foi, semdúvida, um processo bem organizado, financiado e realizado conjuntamente pela Igreja e oEstado. 2. O feminismo e o resgate da imagem das bruxas Diante de tantas mortes de mulheres acusadas por bruxaria durante este período,podemos afirmar que se tratou de um verdadeiro genocídio contra o sexo feminino, com afinalidade de manter o poder da Igreja e punir as mulheres que ousavam manifestar seusconhecimentos médicos, políticos ou religiosos. Existem registos de que, em algumasregiões da Europa, a bruxaria era compreendida como uma revolta de camponesesconduzida pelas mulheres. Nesse contexto político, pode-se citar a camponesa JoanaD`Arc, que, aos 17 anos, em 1429, comandou o exército francês, lutando contra aocupação inglesa. Ela acabou traída pelos franceses e julgada como feiticeira e herege pelaInquisição inglesa, e queimada na fogueira antes de completar 20 anos. Diante disso,configurava-se a clara intenção da classe dominante em conter um avanço da atuação 5
  6. 6. destas mulheres e em acabar com seu poder na sociedade, ao ponto de se arranjaremmeios de as exterminar. O feminismo procura resgatar a verdadeira imagem das bruxas na nossa história,analisando não somente os aspetos religiosos, mas também políticos e sociais queenvolveram a “caça às bruxas” na Idade Média. No olhar feminista, as bruxas, através dosseus conhecimentos medicinais e da sua atuação nas suas comunidades, exerciam umcontra-poder, afrontando o patriarcado e, principalmente, o poder da Igreja. Na verdade,elas nada mais foram do que vítimas do patriarcado. Atualmente, as mulheres aindacontinuam a ser discriminadas e duramente criticadas por lutarem pela igualdade degénero e a divisão do poder social e económico, que ainda é predominantementemasculino, continuando vítimas do patriarcado. Por isto, as bruxas representam para omovimento feminista não somente resistência, força e coragem, mas também arebeldia na busca de novos horizontes emancipadores. Sugestões: Filme: As Bruxas de Salém ( The Crucibles , 1996), realizado por NicholasHytner, com os atores Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen e PaulScolfield nos principais papéis. Este filme é baseado numa peça teatral dogrande dramaturgo americano Arthur Miller, sobre os factos históricossucedidos em 1962, em Salém, no estado do Massachussetts, E.U.A. 6
  7. 7. Livro: A escritora espanhola Maria Pilar Queralt del Hierro, no seu livroMULHERES DE VIDA APAIXONADA , faz uma reflexão sobre a condiçãofeminina ao longo da História e exalta todas as mulheres (rotuladas de«bruxas» ou não) que, à custa do sacrifício da própria vida, lutaram pararealizar os seus sonhos. Livro que vale a pena ler! 7

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