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“Sermão de Sãnto Antonio”
De Padre António Vieira
o Quem pregou? Padre António Viera
o Onde? São Luís do Maranhão (Nordeste do Brasil)
o Quando? 13 de junho de 1634 (dia de Santo António – séc. XII) (Século XVII,)”três dias
antes de embarcar ocultamente para o Reino, a procurar remédio da Salvação dos índios.”
o Para quem? Ouvintes de São Luís do Maranhão (colonos e suas famílias)
o Em que contexto? No contexto da luta de Viera pela libertação dos índios contra a
exploração dos clonos. A reacção dos colonos foi tão negativa que ele teve de partir
clandestinamente para Lisboa pouco depois da sua pregação.
Estrutura externa do sermão
Exórdio - capítulo I - apresentação do tema que vai ser tratado no sermão, a partir do conceito
predicável (vós sois o sal da terra) e das ideias a defender e que, geralmente, termina com uma
breve oração, invocando a Virgem. Esta parte reveste-se de grande importância dado que é o
primeiro passo para captar a atenção e benevolência dos ouvintes.
Exposição e confirmação - capítulos II a V - Retoma a explicitação do assunto, com uma breve
explicação da organização do discurso; desenvolvimento e enumeração dos argumentos, contra-
argumentos, seguidos de exemplos e/ou citações. A exposição situa-se desde o início do capítulo
II até … Santo António abria a sua [boca] contra os que não se queriam lavar. , no capítulo III; e a
confirmação começa a partir de Ah moradores do Maranhão, enquanto eu vos pudera agora
dizer neste caso! e termina no final do capítulo V.
Peroração/epílogo - capítulo VI - conclusão do raciocínio com destaque para os argumentos
mais importantes. Saliente-se que esta é a parte que a memória dos ouvintes melhor retém, pelo
que deverá conter os aspectos principais desenvolvidos no sermão, de modo a deixar clara a
mensagem veiculada e a levar os ouvintes a pôr em prática os seus ensinamentos.
Capítulo I (Exórdio ou Intróito)
Ideia sumária da matéria que vai ser tratada; baseia-se num conceito predicável (“Vos estis sal
terrae”) extraído normalmente da Sagrada Escritura.
 Função do Sal: impedir a corrupção
 Figura elogiada ao longo do excerto: Santo António, o protótipo de pregador (usou a
palavra para converter os homens)
 Decisão tomada pelo orador/pregador: Quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me
da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes.”
2
O Padre António Vieira apresenta o conceito predicável, “Vós sois o sal da Terra” e explica as
razões pelas quais a terra está tão corrupta. Ou a culpa está no sal (pregadores), ou na terra
(ouvintes). Se a culpa está no sal, é porque os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou
porque dizem uma coisa e fazem outra ou porque se pregam a si e não a Cristo. Se a culpa está na
terra, é porque os ouvintes não querem receber a doutrina, ou antes imitam os pregadores e não o
que eles dizem, ou porque servem os seus apetites e não os de Cristo.
Alegoria: a alegoria estabelece dois planos; o da realidade e o do pensamento. Pode apresentar-
se sob a forma metafórica ou imagem, que associa uma realidade abstracta a um termo metafórico
concreto.
ALEGORIA DO SAL
Termo concreto: “sal” – conservar; impedir a corrupção  Terra
Termo abstracto: “pregadores e sua doutrina” – regenerar, purificar  Colonos
Os pregadores, ao pregarem a mensagem Evangélica têm, na terra, a mesma função do sal, que
consiste em evitar a corrupção. Assim, é criada uma analogia entre a função regeneradora e
purificadora da mensagem Evangélica dos pregadores e a função de conservação do sal.
A estruturação do raciocínio de forma simétrica (“ou é porque o sal não salga (…) ou porque a
terra se não deixa salgar”) facilita a compreensão da mensagem por parte do auditório. O autor
vai acrescentando sucessivas hipóteses em alternativa, imprimindo ao sermão um ritmo binário
que facilita a captação da mensagem por parte de que o ouve.
A interrogação retórica serve para manter o auditório “preso” ao discurso, pois implica a
mudança de tom, ao mesmo tempo que convoca a sua reflexão sobre o tema tratado.
O Padre António Vieira cita Cristo, tratando-se de um argumento de autoridade. O
reconhecido valor das palavras de Cristo confere credibilidade à argumentação de Vieira.
O pregador recorre ao exemplo de Santo António fazendo-lhe um panegírico, dado que este se
revelou persistente na vontade de pregar a palavra de Deus e conseguiu vencer a hostilidade do
auditório através de uma estratégia que o Padre António Vieira vai utilizar, para ser eficaz e que
consiste em pregar aos peixes (exemplos linha 35, (…)).
Ao longo do panegírico a Santo António, Padre António Vieira evidencia as inúmeras
qualidades deste Santo. / O orador descreve-o como um homem puro, “a que se não pegou nada
da Terra”, um pregador virtuoso (“o zelo da glória divina que ardia naquele peito”),
profundamente persistente, já que, apesar das hostilidades que enfrentou na sua missão de
evangelização, nunca desistiu. / Em suma, Padre António Vieira demonstra claramente a sua
enorme admiração por Santo António, vendo-o como um modelo a seguir na sua vida.
3
Ao longo do terceiro parágrafo (mais concretamente a partir da linha 30), é possível constatar
que o orador, numa tentativa de tornar o seu discurso mais vivo e interventivo, recorre a
diferentes processos que se traduzem em constantes mudanças de ritmo.
A primeira dessas situações de alteração do ritmo do discurso corresponde à sucessão de frases
curtas e interrogativas, visível no seguinte excerto: «Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia?
Dissimularia?». Desta forma, o pregador imprime ao discurso um ritmo rápido e assegura uma
interação constante com o auditório, que contribuem para que este esteja atento às suas palavras.
Na segunda situação de mudança de ritmo, é utilizada uma simetria lexical e morfossintática
que confere ao discurso um ritmo binário: «Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se
ao mar». A mudança de ritmo concorre, mais uma vez, para imprimir dinamismo/vivacidade ao
discurso, não deixando que público ouvinte desvie a atenção.
Por fim, o uso das frases exclamativas e das interjeições – «Oh maravilhas do Altíssimo! Oh
poderes do que criou o mar e a terra! – visa atingir o «coração» dos ouvintes, apelando às suas
emoções (“delectare” e “movere”)
Invocação: o orador invoca o auxílio do divino para a exposição de ideias.
 Pedido de invocação: A Maria, a Senhora do mar (“Domina maris”). Por um lado, porque o
assunto é “desusado”, ou seja, não está habituado a falar para os peixes, logo necessita de
uma inspiração especial (“espero que me não falte com a costumada graça”); em segundo
lugar, porque o nome Maria significa “Senhora do mar”, o que se adequa ao facto de Vieira
se encontrar junto do mar.
Capítulo II (Exposição)
Exposição – referência às obrigações do sal; indicação das virtudes dos peixes; crítica
aos homens.
 Preposição: até ”E onde há bons, e maus, há que louvar, e que repreender.” – apresentação
do assunto do sermão
 Início da alegoria: “Suposto isto, pare que procedamos com clareza (…) ”
A partir deste capítulo todo o sermão é uma alegoria porque os peixes são metáfora dos
Homens. As suas virtudes são, por contraste, metáforas dos defeitos dos Homens e os seus
vícios são diretamente metáfora dos defeitos dos homens. O pregador fala aos peixes, mas o
alvo é o Homem.
 Divisão: desde “Suposto isto” até “vossos vícios”
 Louvores em geral: a partir de “Começando pois pelos vossos louvores (…) ” –
Exemplificação: “Ia Jonas pregador do mesmo Deus (…) “
Peixes Homens
“quietos e devotos” “furiosos e obstinados”
“atentos e suspensos”
LOUVOR AFRONTA
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As duas qualidades de ouvinte: ouvir e não falar.  Auditório ideal, pois estão muito atentos,
a acompanhar o que se está a dizer.
Retoma o conceito predicável – “Vos estis sal terrae”.
As duas propriedades do sal – “conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa.”
As propriedades das pregações de Santo António:
1. Louvar o bem (“para o conservar”).
2. Repreender o mal (“para preservar dele”).
O Sermão aos peixes (e, obviamente, aos homens) será, pois, dividido em dois pontos:
1. Louvar as qualidades;
2. Repreender os vícios.
Interrogação retórica: trata-se de uma estratégia retórica ou de uma figura de estilo que
consiste na formulação de uma frase interrogativa, dirigida a um destinatário presente ou ausente,
sem que se espere obter resposta. No «Sermão de Santo António», Vieira recorre a esta figura de
estilo para, por um lado, tornar o discurso mais vivo e, por outro, suscitar a curiosidade do
auditório em relação ao assunto que vai expor.
Quiasmo: figura de estilo que consiste na disposição de quatro elementos, agrupados dois a
dois, segundo o esquema da letra “X”, isto é, a segunda parte da construção contém os mesmos
elementos, mas pela ordem inversa de sucessão.
Homens: a razão sem o uso
Peixes: o uso sem a razão
OS LOUVORES EM GERAL
As qualidades e as virtudes dos peixes:
o Ouvem e não falam;
o Foram os primeiros seres que Deus criou (“vós fostes os primeiros que Deus criou”);
o São melhores que os homens (“e nas provisões (...) os primeiros nomeados foram os peixes”)
o Existem em maior número (“entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os
maiores”);
o Revelam obediência (“aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de
vosso Criador e Senhor”);
o Revelam respeito e devoção ao ouvirem a palavra de Deus, (“aquela ordem, quietação e
atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca do seu servo António. (...) Os homens
perseguindo a António (...) e no mesmo tempo os peixes (...) acudindo a sua voz, atentos e
suspensos às suas palavras, escutando com silêncio (...) o que não entendiam.”);
o Seu “retiro” e afastamento dos homens (meditação que permite a proximidade com Deus;
paz e pureza de espírito, porque se afastam dos vícios mundanos);
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o Não se deixam domesticar (“só eles entre todos os animais se não domam nem
domesticam”)
Estas qualidades são, por antítese, os defeitos dos homens.
No contraste estabelecido entre os peixes e os outros animais, convém realçar a enumeração, a
variedade verbal, a riqueza e a propriedade vocabular e a vivacidade da descrição:
Cante-lhes aos homens o rouxinol mas na sua gaiola;
diga-lhes ditos o papagaio mas na sua cadeia;
vá com eles à caça o açor mas nas suas piozes
faça-lhe bufonerias o bugio mas no seu cepo;
contente-se de lhe roer
um osso
o cão mas levado onde não
quer pela trela;
preze-se de lhe
chamarem fermoso ou
fidalgo
o boi mas com o jugo sobre a
cerviz, puxando pelo
arado e pelo carro;
glorie-se de mastigar
freios dourados
o cavalo mas debaixo da vara e
da espora;
e se comem a ração de
carne que não caçaram
nos bosques
os tigres e os leões sejam presos e
encerrados com grades
de ferro.
“E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias,
vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água.”
“Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente.” (ll. 3 e 4) – Padre
António Vieira afirma que o facto de os peixes não se converterem lhe causa um sofrimento a que
já se acostumou, já que os seres humanos também não se querem converter, isto é, não aceitam os
ensinamentos do pregador no sentido de se purificarem. Logo, essa dor, por ser tão sua conhecida,
já não lhe cause sofrimento.
Concluindo, o orador manifesta o seu cansaço ao ver que a sua palava não dá frutos em São
Luís do Maranhão.
À semelhança de Santo António, o pregador aplicará as propriedades do sal (“conservar o são
e preservá-lo, para que se não corrompa”) ao seu sermão. O texto assim recupera a alegoria que o
estrutura (“vos estis sal terrae”): numa primeira fase o orador louvará os peixes, o bem; numa
segunda fase repreenderá os seus vícios, o mal.
6
Capítulo III (Louvores em particular) – Confirmação
1. PEIXE DE TOBIAS: simboliza a bondade, o poder purificador da palavra de Deus – o seu
fel era bom para sarar a cegueira e o coração para lançar fora os demónios.
Os homens, ao contrário de Tobias, não quiseram aproveitar o fel de Santo António para
curar a cegueira (falta de fé), nem o seu coração para se livrarem dos demónios (limpeza
das almas), como fez Asmodeu.
2. RÉMORA: simboliza a força e o poder que a palavra do pregador tem para ser guia das
almas – pequeno no corpo, mas grande na força, pelo poder orientador e controlador.
Prende e amarra as naus, impedindo-as de avançar.
Os homens não souberam dar valor ao poder e à força da palavra (língua) de Santo António
que domou a fúria das paixões humanas (Soberba, Vingança, Cobiça, Sensualidade),
impedindo as pessoas de caírem nas mais variadas desgraças (naufrágios).
3. TORPEDO: simboliza o poder que a palavra de Deus tem de fazer tremer os pescadores
que pescam na terra tudo quanto apanham – a sua energia tem a capacidade de fazer
tremer a mão do pescador, impedindo-o de pescar.
Os homens, “pescadores em terra”, não temem a Deus porque são ambiciosos e não se
deixam converter ao caminho reto. No entanto, 22 pescadores destes tremeram ouvindo as
palavras de Santo António e converteram-se.
4. QUATRO-OLHOS: simboliza a prudência que os cristãos devem ter, afastando os olhos da
vaidade terrena – dois olhos olham para cima (vigiam os predadores do ar) e os outros dois
para baixo (vigiam os predadores do mar), defendendo-se assim de diversos tipos de males.
Os homens esquecem-se que há Céu (em cima) e Inferno (em baixo).
CONCLUSÃO: 1ª os homens pescam muito e tremem pouco; 2ª “Se eu pregara aos homens e
tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer.”; 3ª os peixes são o sustento dos pobres e dos
ricos; ajudam à abstinência nas quaresmas; sustentam as Cartuxas e os Buçacos (ordens religiosas
que recusavam a carne); com eles, Cristo festejou a Páscoa; ajudam a ir ao Céu; multiplicam-se
rapidamente (os que são consumidos pelos pobres).
Trocadilho: “(…) que o Peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua contra
os que não se queriam lavar.” (l. 31) – 1º Tirar a sujidade; 2º Sentido metafórico/moral: purificar.
Tom apelativo – MOVERE (convencer): quer levar a uma tomada de consciência por parte do
auditório; quer que eles estejam receptivos à mensagem Evangélica; despertar emoções.
Comparação a Santo António: “ Se alguma rémora houve na terra, foi a língua de Santo António
(…).” - “Língua” simboliza a palavra e o seu poder regenerador.
«Oh se houvera uma Rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos
haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo!» (ll. 41 e 42) - Na frase transcrita, Padre
7
António Vieira estabelece uma relação de associação (semelhança) entre as virtudes da Rémora e
as das pregações de Santo António. De facto, o orador louva as virtudes deste “peixezinho”
pequeno, mas cuja força e poder lhe permitem prender e amarrar as naus, impedindo-as de
avançar. Posteriormente, ao extrapolar estas virtudes para o plano dos homens, o orador exprime
a necessidade de haver na terra alguém com a mesma força para guiar os homens para o bem,
evitando que estes sucumbam às mais variadas desgraças, chegando à conclusão de que a língua
de Santo António foi “rémora da terra”, pois este santo, com a pregação da doutrina, domou a
fúria das paixões humanas (a Soberba, ou seja, a Vaidade, a Vingança, a Cobiça, a Sensualidade),
evitando muitos “naufrágios”.
Padre António Vieira ao citar S. Gregório Nazianzeno recorre a um argumento de autoridade
para legitimar/reforçar o que o pregador afirma sobre Santo António.
Paralelismo anafórico  Pescar simbólico: “ No mar, pescam as canas, na terra pescam as varas
(…), pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões e até os ceptros pescam, e pescam
mais que todos, porque pescam Cidades e Reinos inteiros.”  Gradação crescente ou ascendente.
Varas  juízes / ginetas militares / bengalas  comerciantes / bastões  nobres / ceptros  reis
O Torpedo faz tremer o braço do pescador devido a uma descarga elétrica. Na terra, os juízes,
os militares, etc., “pescam” muito, usurpam/tiram proveito dos outros, mas não “tremem”, ou seja,
não manifestam qualquer arrependimento, logo não dão indícios de pretenderem converter-se.
Comparação a Santo António: “ Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo António, eu
os fizera temer [arrependimento]. [EXEMPLO] Vinte e dois pescadores (…) e se emendaram.” (ll.
67 a 72). - Repetição de “tremer”.
Discurso maniqueísta (discurso que opõe dois polos; ex.: Céu vs. Inferno; bom vs. mau): “ (…)
para cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me que há Inferno. (ll. 97 e 98)
Padre António Vieira afirma, com toda a humildade, ter aprendido com o Quatro-olhos como
orientar as suas ações sabendo que há Céu e que há Inferno, logo, com prudência, deve defender-
se dos diferentes
tipos de males e
praticar o bem.
8
Capítulo IV (Repreensão em geral)
o Os peixes comem-se uns aos outros;
o Os peixes grandes comem os pequenos;
o São ignorantes e cegos, deixando-se enganar facilmente por qualquer isco.
Nos dez primeiros parágrafos, que constituem o ponto alto deste sermão, aponta-se o terrível
defeito que os peixes/homens têm de se comerem (explorarem) uns aos outros devido à sua
cobiça desmedida, o que prova a sua crueldade, a sua maldade, a sua injustiça. Também se
deixam enganar facilmente, movidos pela vaidade.
o Os grandes comem os pequenos (1º parágrafo)
o Andam sempre à procura de como se hão-de comer (2º parágrafo)
o Comem-se os mortos (comem-no, entre outros, os herdeiros, os testamenteiros, os credores,
a mulher, o coveiro, o padre) (3º parágrafo)
o Comem-se os vivos (p.ex., a um réu comem-no o carcereiro, o inquiridor, a testemunha, o
juiz) (4º parágrafo)
No último parágrafo, o orador tenta persuadir o auditório a mudar a sua conduta de
antropafagia social (vício de se comerem uns aos outros), mostrando que é uma loucura os homens
deixarem-se ir atrás de dois pedaços de pano, por vaidade, gastando nisso toda a sua vida. Aponta
o exemplo de Santo António, o jovem nobre que deixou “as galas do mundo”, trocando-as pela
“sarja e pelo burel e a correia pela corda”.
Paralelismo invertido (ll. 12 e 13):
Santo Agostinho Padre António Vieira
Pregava aos homens Pregava aos peixes
Exemplifica com os peixes Exemplifica com os homens
Polissemia: “(...) ainda o pobre defunto o não comeu a terra [sentido literal – pretérito perfeito
do indicativo – acção pontual e perfectiva (concluída)], e já o tem comido toda a terra [pessoas,
sociedade – pretérito perfeito do conjuntivo – aspeto interactivo (repetição da ação)].
Sertão (selva)  “lá”  Tapuias (canibais)
Cidade  “cá”  brancos – antropofagia social
Os Homens não se comem apenas quando estão mortos, mas também quando estão vivos. 
“São piores os homens que os corvos.” – os corvos são necrófagos da mesma forma que os
Homens são implacáveis.
9
Capítulo V (Confirmação (cont. ) – Repreensão em particular )
Peixes Características Vícios/defeitos humanos
criticados
Exemplos de homens
Roncadores Pequenos; roncam Arrogância, ostentação, vaidade S. Pedro; o gigante
Golias;
Caifás e Pilatos
Pegadores Pequenos; pegam-se aos
maiores, vivendo à sua custa
Oportunismo, parasitismo Herodes
Adão e Eva
Voadores Grandes barbatanas que usam
como asas
Ambição desmedida; ganância Simão Mago
Polvo Aspeto de santo, belo e calmo Traição; hipocrisia; deslealdade;
falsidade; dissimulação.
Judas
1. Roncadores: “peixinhos pequeninos”, mas “ as roncas do mar” - muita arrogância, pouca
firmeza  Simbolizam a arrogância, a soberba, a vaidade – não param de roncar, apesar da
sua fragilidade. Os homens, atraídos pelo saber e pelo poder, falam demasiado em vez de
se calarem e imitarem Santo António.
Exemplos de homens: Pedro (sozinho avançou para o exército romano; se todos fraquejassem, só
ele permaneceria até à morte → só ele fraquejou; Cristo pediu-lhe que estivesse atento no horto →
encontrou-o dormindo), Golias (quarenta dias consecutivos esteve armado no campo → bastou
um pastorzinho com um cajado e uma funda para o aniquilar), Caifás («roncava de saber») e
Pilatos («roncava de poder»).
2. PEGADORES: simbolizam o parasitismo, o oportunismo, a adulação, a ignorância – são
peixes pequenos que vivem à custa de outros maiores. Morrem com eles. Os homens,
movidos pela cobiça, também se apegam por interesse, por exemplo, a governadores.
Exemplos de homens: Vice-Rei ou Governador (parte para as conquistas; Rodeado de pegadores
→ para que cá lhe matem a fome → acontece-lhes o mesmo que as pegadores do mar), Família da
corte de Herodes (morto Herodes morreu toda a família), Adão e Eva (Homens desgraçados →
outrem comeu e nós pagamos → mas limpamo-nos no pecado original com água).
3. VOADORES: simbolizam a ambição, a presunção, o capricho, a vaidade. São pescados
como peixes e caçados como aves. Morrem queimados. Os homens, movidos pela ambição
desmedida, acabam por perder tudo.
Exemplos de homens: Simão Mago (arte mágica pela qual havia de subir ao céu); S. Máximo
(começou a voar muito alto, caindo quebrou os pés → «quem tem pés para andar, e quer asas para
voar, justo é que perca as asas, e mais os pés.»)
10
4. POLVO: simboliza a traição, a dissimulação, o fingimento, o engano, mimetismo. Os
homens, devido à sua maldade, traem-se mutuamente, preparando armadilhas, ciladas.
Exemplos de homens: Judas (abraçou a Cristo, mas os outros prenderam-no → o polvo abraça e
prende; com os braços fez o sinal → o polvo dos braços faz as cordas; planeou a traição às escuras,
mas executou-a às claras → o polvo planeia e executa às escuras as traições).
Em contraponto aos defeitos dos peixes criticados, Padre António Vieira sublinha as virtudes
de Santo António.
Peixes Santo António
Roncadores: soberbos e orgulhosos, facilmente
pescados
Tendo tanto saber e tanto poder, não se orgulhou disso, antes se
calou. A sua voz ficou para sempre. Por ser humilde, tornou-se
célebre. (“E porque tanto calou, por isso deu tanto brado” –
trocadilho entre “gritar” e “ser célebre”.)
Pegadores: parasitas, aduladores, pescados com
os grandes
Pegou-se com Cristo a Deus e tornou-se imortal.
Voadores: ambiciosos e presunçosos
Tinha duas asas: a sabedoria natural e a sabedoria sobrenatural,
mas não as usou por ambição (humildade). Considerado leigo e
sem ciência, tornou-se sábio para sempre.
Polvo: traidor Foi o maior exemplo de candura, de sinceridade e verdade, em
quem nunca houve mentira (“dolo, fingimento ou engano”)..
Aforismo (espécie de provérbio que termina um ensinamento): “O muito roncar antes de ocasião, é
sinal de dormir nela.” (l. 20)
Conselho: “Medi-vos, e logo vereis o quão pouco fundamento tendes de blasonar [gabar], nem
roncar.” (l. 22)
Discurso exortativo (apelativo) e Conselho: “Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal
maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.” (ll. 91 e 92)
Quiasmo: “Não contente com ser peixe, quiseste ser ave, e já não és ave nem peixe.” (l.121)
peixe ave
ave peixe
“A Natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar, e eu já te vejo posto ao fogo.” (l. 122)
Conselho: “Peixes, contente-se cada um com o seu elemento.” (l. 123)
Aforismo (com rima e repetição): “Quem quer mais do que o que lhe convém, perde o que quer e o
que tem.” (ll. 126 e 127)
Paralelismo Anafórico: “Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está
no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se
da cor da mesma pedra.” (ll. 174 a 176)
Ar (3º elemento)
Água (2º elemento) Fogo (2º elemento)
11
Episódio do Polvo
Divisão em partes:
o Introdução: a aparência do polvo “O polvo […] mansidão” (ll. 166-169).
o Desenvolvimento: a realidade “E debaixo […] pedra” (ll. 169-176).
o Conclusão: a consequência “E daqui […] fá-lo prisioneiro” (ll. 176-178).
o Comparação: “Fizera […] traidor” (ll. 178-184).
Caraterização do polvo
o “ aparência tão modesta” – aparenta simplicidade e inocência
o “ hipocrisia tão santa” – apresenta um ar santo, mas encobre uma cruel realidade; tem a
máscara (em grego, hipócrita significava a representação do ator), o fingimento de inofensivo. Esta
expressão contém um paradoxo (oximoro) porque a hipocrisia (fingimento) nunca é santa (da
tensão entre duas características).
O mimetismo é usado para enganar: o polvo faz-se da cor do local ou dos objetos onde se
instala para atacar os inocentes à traição.
No camaleão, o mimetismo é um artifício de defesa contra os agressores, no polvo é um
artifício para atacar os peixes desacautelados (desprevenidos).
Lenda de Proteu (deidade marinha da mitologia grega) – Proteu metamorfoseava-se para se
defender de quem o perseguia; o polvo, ao contrário, usa essa qualidade para atacar.
A traição é o elemento comum entre Judas e o polvo: Judas apenas abraçou Cristo, outros o
prenderam; o polvo abraça e prende. Judas abraçou Cristo à luz das lanternas; o polvo escurece-se,
roubando a luz para que os outros peixes não vejam as suas cores. A traição de Judas é de grau
inferior à do polvo.
Aparência vs. Realidade  “parece” vs. “é” (ll. 167 a 171)
“Mas ponde os olhos em António, vosso Pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura
[honestidade], da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo [engano], fingimento ou
engano. E sabei que para haver tudo isto em cada um de nós bastava antigamente ser Português,
não era necessário ser Santo”. (ll.198 a 201) – As pessoas antigamente eram mais humildes,
integras, agora são o oposto.
capelo na cabeça monge santidade
raios estendidos estrela beleza
ausência de osso ou espinha mansidão, brandura bondade
12
Capítulo VI (Peroração – epílogo)
«Com esta advertência vos despido» - assim começa o último capítulo do Sermão de Santo
António que constitui a peroração, ou seja, a conclusão final.
Tópicos:
o A condição dos peixes é superior à dos outros animais
o A condição dos peixes é superior à do pregador Vieira
o Apelo aos ouvintes
o Hino de louvor final
Síntese
Três objetivos programáticos da eloquência:
o Docere: instruir o auditório, provando a veracidade das afirmações (o pregador transmite
informação, faz citações, fornece conceitos, apresenta argumentos);
o Delectare: agradar ao auditório através de uma argumentação “brilhante” (o pregador,
através do seu estilo muito próprio, torna os seus textos agradáveis e cativantes, recorrendo
a várias figuras de estilo, de forma a envolver emotivamente o auditório);
o Movere: convencer o auditório, levando-o a transformar a sua conduta em favor da causa
defendida (o pregador tenta cativar a atenção do auditório, seduzi-lo, fazê-lo pensar e levá-
lo a mudar comportamentos; para isso, recorre muitas vezes a um discurso apelativo
(exortativo), a exemplos, usa interrogações retóricas).
Nota: A numeração das páginas está de acordo com o manual “Página Seguinte – 11ºAno”.
Documento produzido por:
A. Torrado, docente do
Colégio M.B.

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Sermão de Santo António - Resumo

  • 1. 1 “Sermão de Sãnto Antonio” De Padre António Vieira o Quem pregou? Padre António Viera o Onde? São Luís do Maranhão (Nordeste do Brasil) o Quando? 13 de junho de 1634 (dia de Santo António – séc. XII) (Século XVII,)”três dias antes de embarcar ocultamente para o Reino, a procurar remédio da Salvação dos índios.” o Para quem? Ouvintes de São Luís do Maranhão (colonos e suas famílias) o Em que contexto? No contexto da luta de Viera pela libertação dos índios contra a exploração dos clonos. A reacção dos colonos foi tão negativa que ele teve de partir clandestinamente para Lisboa pouco depois da sua pregação. Estrutura externa do sermão Exórdio - capítulo I - apresentação do tema que vai ser tratado no sermão, a partir do conceito predicável (vós sois o sal da terra) e das ideias a defender e que, geralmente, termina com uma breve oração, invocando a Virgem. Esta parte reveste-se de grande importância dado que é o primeiro passo para captar a atenção e benevolência dos ouvintes. Exposição e confirmação - capítulos II a V - Retoma a explicitação do assunto, com uma breve explicação da organização do discurso; desenvolvimento e enumeração dos argumentos, contra- argumentos, seguidos de exemplos e/ou citações. A exposição situa-se desde o início do capítulo II até … Santo António abria a sua [boca] contra os que não se queriam lavar. , no capítulo III; e a confirmação começa a partir de Ah moradores do Maranhão, enquanto eu vos pudera agora dizer neste caso! e termina no final do capítulo V. Peroração/epílogo - capítulo VI - conclusão do raciocínio com destaque para os argumentos mais importantes. Saliente-se que esta é a parte que a memória dos ouvintes melhor retém, pelo que deverá conter os aspectos principais desenvolvidos no sermão, de modo a deixar clara a mensagem veiculada e a levar os ouvintes a pôr em prática os seus ensinamentos. Capítulo I (Exórdio ou Intróito) Ideia sumária da matéria que vai ser tratada; baseia-se num conceito predicável (“Vos estis sal terrae”) extraído normalmente da Sagrada Escritura.  Função do Sal: impedir a corrupção  Figura elogiada ao longo do excerto: Santo António, o protótipo de pregador (usou a palavra para converter os homens)  Decisão tomada pelo orador/pregador: Quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes.”
  • 2. 2 O Padre António Vieira apresenta o conceito predicável, “Vós sois o sal da Terra” e explica as razões pelas quais a terra está tão corrupta. Ou a culpa está no sal (pregadores), ou na terra (ouvintes). Se a culpa está no sal, é porque os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou porque dizem uma coisa e fazem outra ou porque se pregam a si e não a Cristo. Se a culpa está na terra, é porque os ouvintes não querem receber a doutrina, ou antes imitam os pregadores e não o que eles dizem, ou porque servem os seus apetites e não os de Cristo. Alegoria: a alegoria estabelece dois planos; o da realidade e o do pensamento. Pode apresentar- se sob a forma metafórica ou imagem, que associa uma realidade abstracta a um termo metafórico concreto. ALEGORIA DO SAL Termo concreto: “sal” – conservar; impedir a corrupção  Terra Termo abstracto: “pregadores e sua doutrina” – regenerar, purificar  Colonos Os pregadores, ao pregarem a mensagem Evangélica têm, na terra, a mesma função do sal, que consiste em evitar a corrupção. Assim, é criada uma analogia entre a função regeneradora e purificadora da mensagem Evangélica dos pregadores e a função de conservação do sal. A estruturação do raciocínio de forma simétrica (“ou é porque o sal não salga (…) ou porque a terra se não deixa salgar”) facilita a compreensão da mensagem por parte do auditório. O autor vai acrescentando sucessivas hipóteses em alternativa, imprimindo ao sermão um ritmo binário que facilita a captação da mensagem por parte de que o ouve. A interrogação retórica serve para manter o auditório “preso” ao discurso, pois implica a mudança de tom, ao mesmo tempo que convoca a sua reflexão sobre o tema tratado. O Padre António Vieira cita Cristo, tratando-se de um argumento de autoridade. O reconhecido valor das palavras de Cristo confere credibilidade à argumentação de Vieira. O pregador recorre ao exemplo de Santo António fazendo-lhe um panegírico, dado que este se revelou persistente na vontade de pregar a palavra de Deus e conseguiu vencer a hostilidade do auditório através de uma estratégia que o Padre António Vieira vai utilizar, para ser eficaz e que consiste em pregar aos peixes (exemplos linha 35, (…)). Ao longo do panegírico a Santo António, Padre António Vieira evidencia as inúmeras qualidades deste Santo. / O orador descreve-o como um homem puro, “a que se não pegou nada da Terra”, um pregador virtuoso (“o zelo da glória divina que ardia naquele peito”), profundamente persistente, já que, apesar das hostilidades que enfrentou na sua missão de evangelização, nunca desistiu. / Em suma, Padre António Vieira demonstra claramente a sua enorme admiração por Santo António, vendo-o como um modelo a seguir na sua vida.
  • 3. 3 Ao longo do terceiro parágrafo (mais concretamente a partir da linha 30), é possível constatar que o orador, numa tentativa de tornar o seu discurso mais vivo e interventivo, recorre a diferentes processos que se traduzem em constantes mudanças de ritmo. A primeira dessas situações de alteração do ritmo do discurso corresponde à sucessão de frases curtas e interrogativas, visível no seguinte excerto: «Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia?». Desta forma, o pregador imprime ao discurso um ritmo rápido e assegura uma interação constante com o auditório, que contribuem para que este esteja atento às suas palavras. Na segunda situação de mudança de ritmo, é utilizada uma simetria lexical e morfossintática que confere ao discurso um ritmo binário: «Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar». A mudança de ritmo concorre, mais uma vez, para imprimir dinamismo/vivacidade ao discurso, não deixando que público ouvinte desvie a atenção. Por fim, o uso das frases exclamativas e das interjeições – «Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! – visa atingir o «coração» dos ouvintes, apelando às suas emoções (“delectare” e “movere”) Invocação: o orador invoca o auxílio do divino para a exposição de ideias.  Pedido de invocação: A Maria, a Senhora do mar (“Domina maris”). Por um lado, porque o assunto é “desusado”, ou seja, não está habituado a falar para os peixes, logo necessita de uma inspiração especial (“espero que me não falte com a costumada graça”); em segundo lugar, porque o nome Maria significa “Senhora do mar”, o que se adequa ao facto de Vieira se encontrar junto do mar. Capítulo II (Exposição) Exposição – referência às obrigações do sal; indicação das virtudes dos peixes; crítica aos homens.  Preposição: até ”E onde há bons, e maus, há que louvar, e que repreender.” – apresentação do assunto do sermão  Início da alegoria: “Suposto isto, pare que procedamos com clareza (…) ” A partir deste capítulo todo o sermão é uma alegoria porque os peixes são metáfora dos Homens. As suas virtudes são, por contraste, metáforas dos defeitos dos Homens e os seus vícios são diretamente metáfora dos defeitos dos homens. O pregador fala aos peixes, mas o alvo é o Homem.  Divisão: desde “Suposto isto” até “vossos vícios”  Louvores em geral: a partir de “Começando pois pelos vossos louvores (…) ” – Exemplificação: “Ia Jonas pregador do mesmo Deus (…) “ Peixes Homens “quietos e devotos” “furiosos e obstinados” “atentos e suspensos” LOUVOR AFRONTA
  • 4. 4 As duas qualidades de ouvinte: ouvir e não falar.  Auditório ideal, pois estão muito atentos, a acompanhar o que se está a dizer. Retoma o conceito predicável – “Vos estis sal terrae”. As duas propriedades do sal – “conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa.” As propriedades das pregações de Santo António: 1. Louvar o bem (“para o conservar”). 2. Repreender o mal (“para preservar dele”). O Sermão aos peixes (e, obviamente, aos homens) será, pois, dividido em dois pontos: 1. Louvar as qualidades; 2. Repreender os vícios. Interrogação retórica: trata-se de uma estratégia retórica ou de uma figura de estilo que consiste na formulação de uma frase interrogativa, dirigida a um destinatário presente ou ausente, sem que se espere obter resposta. No «Sermão de Santo António», Vieira recorre a esta figura de estilo para, por um lado, tornar o discurso mais vivo e, por outro, suscitar a curiosidade do auditório em relação ao assunto que vai expor. Quiasmo: figura de estilo que consiste na disposição de quatro elementos, agrupados dois a dois, segundo o esquema da letra “X”, isto é, a segunda parte da construção contém os mesmos elementos, mas pela ordem inversa de sucessão. Homens: a razão sem o uso Peixes: o uso sem a razão OS LOUVORES EM GERAL As qualidades e as virtudes dos peixes: o Ouvem e não falam; o Foram os primeiros seres que Deus criou (“vós fostes os primeiros que Deus criou”); o São melhores que os homens (“e nas provisões (...) os primeiros nomeados foram os peixes”) o Existem em maior número (“entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os maiores”); o Revelam obediência (“aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor”); o Revelam respeito e devoção ao ouvirem a palavra de Deus, (“aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca do seu servo António. (...) Os homens perseguindo a António (...) e no mesmo tempo os peixes (...) acudindo a sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio (...) o que não entendiam.”); o Seu “retiro” e afastamento dos homens (meditação que permite a proximidade com Deus; paz e pureza de espírito, porque se afastam dos vícios mundanos);
  • 5. 5 o Não se deixam domesticar (“só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam”) Estas qualidades são, por antítese, os defeitos dos homens. No contraste estabelecido entre os peixes e os outros animais, convém realçar a enumeração, a variedade verbal, a riqueza e a propriedade vocabular e a vivacidade da descrição: Cante-lhes aos homens o rouxinol mas na sua gaiola; diga-lhes ditos o papagaio mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor mas nas suas piozes faça-lhe bufonerias o bugio mas no seu cepo; contente-se de lhe roer um osso o cão mas levado onde não quer pela trela; preze-se de lhe chamarem fermoso ou fidalgo o boi mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se de mastigar freios dourados o cavalo mas debaixo da vara e da espora; e se comem a ração de carne que não caçaram nos bosques os tigres e os leões sejam presos e encerrados com grades de ferro. “E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água.” “Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente.” (ll. 3 e 4) – Padre António Vieira afirma que o facto de os peixes não se converterem lhe causa um sofrimento a que já se acostumou, já que os seres humanos também não se querem converter, isto é, não aceitam os ensinamentos do pregador no sentido de se purificarem. Logo, essa dor, por ser tão sua conhecida, já não lhe cause sofrimento. Concluindo, o orador manifesta o seu cansaço ao ver que a sua palava não dá frutos em São Luís do Maranhão. À semelhança de Santo António, o pregador aplicará as propriedades do sal (“conservar o são e preservá-lo, para que se não corrompa”) ao seu sermão. O texto assim recupera a alegoria que o estrutura (“vos estis sal terrae”): numa primeira fase o orador louvará os peixes, o bem; numa segunda fase repreenderá os seus vícios, o mal.
  • 6. 6 Capítulo III (Louvores em particular) – Confirmação 1. PEIXE DE TOBIAS: simboliza a bondade, o poder purificador da palavra de Deus – o seu fel era bom para sarar a cegueira e o coração para lançar fora os demónios. Os homens, ao contrário de Tobias, não quiseram aproveitar o fel de Santo António para curar a cegueira (falta de fé), nem o seu coração para se livrarem dos demónios (limpeza das almas), como fez Asmodeu. 2. RÉMORA: simboliza a força e o poder que a palavra do pregador tem para ser guia das almas – pequeno no corpo, mas grande na força, pelo poder orientador e controlador. Prende e amarra as naus, impedindo-as de avançar. Os homens não souberam dar valor ao poder e à força da palavra (língua) de Santo António que domou a fúria das paixões humanas (Soberba, Vingança, Cobiça, Sensualidade), impedindo as pessoas de caírem nas mais variadas desgraças (naufrágios). 3. TORPEDO: simboliza o poder que a palavra de Deus tem de fazer tremer os pescadores que pescam na terra tudo quanto apanham – a sua energia tem a capacidade de fazer tremer a mão do pescador, impedindo-o de pescar. Os homens, “pescadores em terra”, não temem a Deus porque são ambiciosos e não se deixam converter ao caminho reto. No entanto, 22 pescadores destes tremeram ouvindo as palavras de Santo António e converteram-se. 4. QUATRO-OLHOS: simboliza a prudência que os cristãos devem ter, afastando os olhos da vaidade terrena – dois olhos olham para cima (vigiam os predadores do ar) e os outros dois para baixo (vigiam os predadores do mar), defendendo-se assim de diversos tipos de males. Os homens esquecem-se que há Céu (em cima) e Inferno (em baixo). CONCLUSÃO: 1ª os homens pescam muito e tremem pouco; 2ª “Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer.”; 3ª os peixes são o sustento dos pobres e dos ricos; ajudam à abstinência nas quaresmas; sustentam as Cartuxas e os Buçacos (ordens religiosas que recusavam a carne); com eles, Cristo festejou a Páscoa; ajudam a ir ao Céu; multiplicam-se rapidamente (os que são consumidos pelos pobres). Trocadilho: “(…) que o Peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua contra os que não se queriam lavar.” (l. 31) – 1º Tirar a sujidade; 2º Sentido metafórico/moral: purificar. Tom apelativo – MOVERE (convencer): quer levar a uma tomada de consciência por parte do auditório; quer que eles estejam receptivos à mensagem Evangélica; despertar emoções. Comparação a Santo António: “ Se alguma rémora houve na terra, foi a língua de Santo António (…).” - “Língua” simboliza a palavra e o seu poder regenerador. «Oh se houvera uma Rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo!» (ll. 41 e 42) - Na frase transcrita, Padre
  • 7. 7 António Vieira estabelece uma relação de associação (semelhança) entre as virtudes da Rémora e as das pregações de Santo António. De facto, o orador louva as virtudes deste “peixezinho” pequeno, mas cuja força e poder lhe permitem prender e amarrar as naus, impedindo-as de avançar. Posteriormente, ao extrapolar estas virtudes para o plano dos homens, o orador exprime a necessidade de haver na terra alguém com a mesma força para guiar os homens para o bem, evitando que estes sucumbam às mais variadas desgraças, chegando à conclusão de que a língua de Santo António foi “rémora da terra”, pois este santo, com a pregação da doutrina, domou a fúria das paixões humanas (a Soberba, ou seja, a Vaidade, a Vingança, a Cobiça, a Sensualidade), evitando muitos “naufrágios”. Padre António Vieira ao citar S. Gregório Nazianzeno recorre a um argumento de autoridade para legitimar/reforçar o que o pregador afirma sobre Santo António. Paralelismo anafórico  Pescar simbólico: “ No mar, pescam as canas, na terra pescam as varas (…), pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões e até os ceptros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam Cidades e Reinos inteiros.”  Gradação crescente ou ascendente. Varas  juízes / ginetas militares / bengalas  comerciantes / bastões  nobres / ceptros  reis O Torpedo faz tremer o braço do pescador devido a uma descarga elétrica. Na terra, os juízes, os militares, etc., “pescam” muito, usurpam/tiram proveito dos outros, mas não “tremem”, ou seja, não manifestam qualquer arrependimento, logo não dão indícios de pretenderem converter-se. Comparação a Santo António: “ Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo António, eu os fizera temer [arrependimento]. [EXEMPLO] Vinte e dois pescadores (…) e se emendaram.” (ll. 67 a 72). - Repetição de “tremer”. Discurso maniqueísta (discurso que opõe dois polos; ex.: Céu vs. Inferno; bom vs. mau): “ (…) para cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me que há Inferno. (ll. 97 e 98) Padre António Vieira afirma, com toda a humildade, ter aprendido com o Quatro-olhos como orientar as suas ações sabendo que há Céu e que há Inferno, logo, com prudência, deve defender- se dos diferentes tipos de males e praticar o bem.
  • 8. 8 Capítulo IV (Repreensão em geral) o Os peixes comem-se uns aos outros; o Os peixes grandes comem os pequenos; o São ignorantes e cegos, deixando-se enganar facilmente por qualquer isco. Nos dez primeiros parágrafos, que constituem o ponto alto deste sermão, aponta-se o terrível defeito que os peixes/homens têm de se comerem (explorarem) uns aos outros devido à sua cobiça desmedida, o que prova a sua crueldade, a sua maldade, a sua injustiça. Também se deixam enganar facilmente, movidos pela vaidade. o Os grandes comem os pequenos (1º parágrafo) o Andam sempre à procura de como se hão-de comer (2º parágrafo) o Comem-se os mortos (comem-no, entre outros, os herdeiros, os testamenteiros, os credores, a mulher, o coveiro, o padre) (3º parágrafo) o Comem-se os vivos (p.ex., a um réu comem-no o carcereiro, o inquiridor, a testemunha, o juiz) (4º parágrafo) No último parágrafo, o orador tenta persuadir o auditório a mudar a sua conduta de antropafagia social (vício de se comerem uns aos outros), mostrando que é uma loucura os homens deixarem-se ir atrás de dois pedaços de pano, por vaidade, gastando nisso toda a sua vida. Aponta o exemplo de Santo António, o jovem nobre que deixou “as galas do mundo”, trocando-as pela “sarja e pelo burel e a correia pela corda”. Paralelismo invertido (ll. 12 e 13): Santo Agostinho Padre António Vieira Pregava aos homens Pregava aos peixes Exemplifica com os peixes Exemplifica com os homens Polissemia: “(...) ainda o pobre defunto o não comeu a terra [sentido literal – pretérito perfeito do indicativo – acção pontual e perfectiva (concluída)], e já o tem comido toda a terra [pessoas, sociedade – pretérito perfeito do conjuntivo – aspeto interactivo (repetição da ação)]. Sertão (selva)  “lá”  Tapuias (canibais) Cidade  “cá”  brancos – antropofagia social Os Homens não se comem apenas quando estão mortos, mas também quando estão vivos.  “São piores os homens que os corvos.” – os corvos são necrófagos da mesma forma que os Homens são implacáveis.
  • 9. 9 Capítulo V (Confirmação (cont. ) – Repreensão em particular ) Peixes Características Vícios/defeitos humanos criticados Exemplos de homens Roncadores Pequenos; roncam Arrogância, ostentação, vaidade S. Pedro; o gigante Golias; Caifás e Pilatos Pegadores Pequenos; pegam-se aos maiores, vivendo à sua custa Oportunismo, parasitismo Herodes Adão e Eva Voadores Grandes barbatanas que usam como asas Ambição desmedida; ganância Simão Mago Polvo Aspeto de santo, belo e calmo Traição; hipocrisia; deslealdade; falsidade; dissimulação. Judas 1. Roncadores: “peixinhos pequeninos”, mas “ as roncas do mar” - muita arrogância, pouca firmeza  Simbolizam a arrogância, a soberba, a vaidade – não param de roncar, apesar da sua fragilidade. Os homens, atraídos pelo saber e pelo poder, falam demasiado em vez de se calarem e imitarem Santo António. Exemplos de homens: Pedro (sozinho avançou para o exército romano; se todos fraquejassem, só ele permaneceria até à morte → só ele fraquejou; Cristo pediu-lhe que estivesse atento no horto → encontrou-o dormindo), Golias (quarenta dias consecutivos esteve armado no campo → bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda para o aniquilar), Caifás («roncava de saber») e Pilatos («roncava de poder»). 2. PEGADORES: simbolizam o parasitismo, o oportunismo, a adulação, a ignorância – são peixes pequenos que vivem à custa de outros maiores. Morrem com eles. Os homens, movidos pela cobiça, também se apegam por interesse, por exemplo, a governadores. Exemplos de homens: Vice-Rei ou Governador (parte para as conquistas; Rodeado de pegadores → para que cá lhe matem a fome → acontece-lhes o mesmo que as pegadores do mar), Família da corte de Herodes (morto Herodes morreu toda a família), Adão e Eva (Homens desgraçados → outrem comeu e nós pagamos → mas limpamo-nos no pecado original com água). 3. VOADORES: simbolizam a ambição, a presunção, o capricho, a vaidade. São pescados como peixes e caçados como aves. Morrem queimados. Os homens, movidos pela ambição desmedida, acabam por perder tudo. Exemplos de homens: Simão Mago (arte mágica pela qual havia de subir ao céu); S. Máximo (começou a voar muito alto, caindo quebrou os pés → «quem tem pés para andar, e quer asas para voar, justo é que perca as asas, e mais os pés.»)
  • 10. 10 4. POLVO: simboliza a traição, a dissimulação, o fingimento, o engano, mimetismo. Os homens, devido à sua maldade, traem-se mutuamente, preparando armadilhas, ciladas. Exemplos de homens: Judas (abraçou a Cristo, mas os outros prenderam-no → o polvo abraça e prende; com os braços fez o sinal → o polvo dos braços faz as cordas; planeou a traição às escuras, mas executou-a às claras → o polvo planeia e executa às escuras as traições). Em contraponto aos defeitos dos peixes criticados, Padre António Vieira sublinha as virtudes de Santo António. Peixes Santo António Roncadores: soberbos e orgulhosos, facilmente pescados Tendo tanto saber e tanto poder, não se orgulhou disso, antes se calou. A sua voz ficou para sempre. Por ser humilde, tornou-se célebre. (“E porque tanto calou, por isso deu tanto brado” – trocadilho entre “gritar” e “ser célebre”.) Pegadores: parasitas, aduladores, pescados com os grandes Pegou-se com Cristo a Deus e tornou-se imortal. Voadores: ambiciosos e presunçosos Tinha duas asas: a sabedoria natural e a sabedoria sobrenatural, mas não as usou por ambição (humildade). Considerado leigo e sem ciência, tornou-se sábio para sempre. Polvo: traidor Foi o maior exemplo de candura, de sinceridade e verdade, em quem nunca houve mentira (“dolo, fingimento ou engano”).. Aforismo (espécie de provérbio que termina um ensinamento): “O muito roncar antes de ocasião, é sinal de dormir nela.” (l. 20) Conselho: “Medi-vos, e logo vereis o quão pouco fundamento tendes de blasonar [gabar], nem roncar.” (l. 22) Discurso exortativo (apelativo) e Conselho: “Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.” (ll. 91 e 92) Quiasmo: “Não contente com ser peixe, quiseste ser ave, e já não és ave nem peixe.” (l.121) peixe ave ave peixe “A Natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar, e eu já te vejo posto ao fogo.” (l. 122) Conselho: “Peixes, contente-se cada um com o seu elemento.” (l. 123) Aforismo (com rima e repetição): “Quem quer mais do que o que lhe convém, perde o que quer e o que tem.” (ll. 126 e 127) Paralelismo Anafórico: “Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra.” (ll. 174 a 176) Ar (3º elemento) Água (2º elemento) Fogo (2º elemento)
  • 11. 11 Episódio do Polvo Divisão em partes: o Introdução: a aparência do polvo “O polvo […] mansidão” (ll. 166-169). o Desenvolvimento: a realidade “E debaixo […] pedra” (ll. 169-176). o Conclusão: a consequência “E daqui […] fá-lo prisioneiro” (ll. 176-178). o Comparação: “Fizera […] traidor” (ll. 178-184). Caraterização do polvo o “ aparência tão modesta” – aparenta simplicidade e inocência o “ hipocrisia tão santa” – apresenta um ar santo, mas encobre uma cruel realidade; tem a máscara (em grego, hipócrita significava a representação do ator), o fingimento de inofensivo. Esta expressão contém um paradoxo (oximoro) porque a hipocrisia (fingimento) nunca é santa (da tensão entre duas características). O mimetismo é usado para enganar: o polvo faz-se da cor do local ou dos objetos onde se instala para atacar os inocentes à traição. No camaleão, o mimetismo é um artifício de defesa contra os agressores, no polvo é um artifício para atacar os peixes desacautelados (desprevenidos). Lenda de Proteu (deidade marinha da mitologia grega) – Proteu metamorfoseava-se para se defender de quem o perseguia; o polvo, ao contrário, usa essa qualidade para atacar. A traição é o elemento comum entre Judas e o polvo: Judas apenas abraçou Cristo, outros o prenderam; o polvo abraça e prende. Judas abraçou Cristo à luz das lanternas; o polvo escurece-se, roubando a luz para que os outros peixes não vejam as suas cores. A traição de Judas é de grau inferior à do polvo. Aparência vs. Realidade  “parece” vs. “é” (ll. 167 a 171) “Mas ponde os olhos em António, vosso Pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura [honestidade], da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo [engano], fingimento ou engano. E sabei que para haver tudo isto em cada um de nós bastava antigamente ser Português, não era necessário ser Santo”. (ll.198 a 201) – As pessoas antigamente eram mais humildes, integras, agora são o oposto. capelo na cabeça monge santidade raios estendidos estrela beleza ausência de osso ou espinha mansidão, brandura bondade
  • 12. 12 Capítulo VI (Peroração – epílogo) «Com esta advertência vos despido» - assim começa o último capítulo do Sermão de Santo António que constitui a peroração, ou seja, a conclusão final. Tópicos: o A condição dos peixes é superior à dos outros animais o A condição dos peixes é superior à do pregador Vieira o Apelo aos ouvintes o Hino de louvor final Síntese Três objetivos programáticos da eloquência: o Docere: instruir o auditório, provando a veracidade das afirmações (o pregador transmite informação, faz citações, fornece conceitos, apresenta argumentos); o Delectare: agradar ao auditório através de uma argumentação “brilhante” (o pregador, através do seu estilo muito próprio, torna os seus textos agradáveis e cativantes, recorrendo a várias figuras de estilo, de forma a envolver emotivamente o auditório); o Movere: convencer o auditório, levando-o a transformar a sua conduta em favor da causa defendida (o pregador tenta cativar a atenção do auditório, seduzi-lo, fazê-lo pensar e levá- lo a mudar comportamentos; para isso, recorre muitas vezes a um discurso apelativo (exortativo), a exemplos, usa interrogações retóricas). Nota: A numeração das páginas está de acordo com o manual “Página Seguinte – 11ºAno”. Documento produzido por: A. Torrado, docente do Colégio M.B.