Semântica /Semântica /
PragmáticaPragmática
O “E” na InterfaceO “E” na Interface
Jorge Campos
RESUMORESUMO
 A Semântica e suas InterfacesA Semântica e suas Interfaces
 ‘‘ Jorge Campos (PUCRS)Jorge Campos (PUCRS)
 A Semântica é a subteoria lingüística que investiga as propriedades do significado emA Semântica é a subteoria lingüística que investiga as propriedades do significado em
linguagem natural. Como tal, ela mantém relações internas, intradisciplinares com outras subteorias, como a Sintaxe e alinguagem natural. Como tal, ela mantém relações internas, intradisciplinares com outras subteorias, como a Sintaxe e a
Pragmática, por exemplo, e relações externas, interdisciplinares, com áreas de conexão com a Lingüística como a Lógica, asPragmática, por exemplo, e relações externas, interdisciplinares, com áreas de conexão com a Lingüística como a Lógica, as
Ciências Cognitivas, Teorias da Comunicação Social, etc. Isso é equivalente a dizer que o significado lingüístico pode serCiências Cognitivas, Teorias da Comunicação Social, etc. Isso é equivalente a dizer que o significado lingüístico pode ser
investigado numa interface externa da Lingüística com disciplinas formais, cognitivas ou sociais e numa interface interna com ainvestigado numa interface externa da Lingüística com disciplinas formais, cognitivas ou sociais e numa interface interna com a
estrutura gramatical e as inferências dependentes de contexto. Ilustremos tais investigações nas fronteiras inter/intra da Semântica,estrutura gramatical e as inferências dependentes de contexto. Ilustremos tais investigações nas fronteiras inter/intra da Semântica,
através do conetivo “e”, justamente, um objeto lógico-lingüístico na interface externa. Dada uma proposição complexa comoatravés do conetivo “e”, justamente, um objeto lógico-lingüístico na interface externa. Dada uma proposição complexa como
“João foi ao banco e pegou o dinheiro”, podemos investigar qual o papel do elemento sincategoremático “e”, para saber se há“João foi ao banco e pegou o dinheiro”, podemos investigar qual o papel do elemento sincategoremático “e”, para saber se há
equivalência ou não entre suas propriedades veritativo-funcionais no âmbito da linguagem da Lógica e suas propriedadesequivalência ou não entre suas propriedades veritativo-funcionais no âmbito da linguagem da Lógica e suas propriedades
semânticas na nossa linguagem. Uma observação trivial em nossos dias é que, enquanto o “e” lógico mantém suas condições-de-semânticas na nossa linguagem. Uma observação trivial em nossos dias é que, enquanto o “e” lógico mantém suas condições-de-
verdade na troca da ordem entre as sentenças componentes, tal troca, em nossa linguagem cotidiana, altera o significadoverdade na troca da ordem entre as sentenças componentes, tal troca, em nossa linguagem cotidiana, altera o significado
inferencial. Assim, “João foi ao Banco e pegou o dinheiro” parece significar que ele retirou o dinheiro; ao contrário, em “Joãoinferencial. Assim, “João foi ao Banco e pegou o dinheiro” parece significar que ele retirou o dinheiro; ao contrário, em “João
pegou o dinheiro e foi ao Banco”, parece que o significado implicado é que ele depositou o dinheiro. Paralelamente, as inferênciaspegou o dinheiro e foi ao Banco”, parece que o significado implicado é que ele depositou o dinheiro. Paralelamente, as inferências
tipo eliminação do “&”, em que da proposição complexa pode-se passar para qualquer das simples, parecem perfeitamentetipo eliminação do “&”, em que da proposição complexa pode-se passar para qualquer das simples, parecem perfeitamente
equivalentes na linguagem cotidiana. Uma alternativa possível é entender-se tudo como Semântica e considerar as discrepâncias deequivalentes na linguagem cotidiana. Uma alternativa possível é entender-se tudo como Semântica e considerar as discrepâncias de
inferências não-autorizadas como um conflito na interface; outra hipótese é distinguir os dois casos de inferência, a primeira comoinferências não-autorizadas como um conflito na interface; outra hipótese é distinguir os dois casos de inferência, a primeira como
pragmática e a segunda como semântica, caracterizando-se, assim, a abordagem via interface interna. Uma conseqüênciapragmática e a segunda como semântica, caracterizando-se, assim, a abordagem via interface interna. Uma conseqüência
metodológica desse tratamento é que se pode construir interface externa com várias áreas de conexão, como a formal, no exemplometodológica desse tratamento é que se pode construir interface externa com várias áreas de conexão, como a formal, no exemplo
explorado aqui e que a opção assumida determina a natureza da interface interna. Assim, numa teoria lingüística, pode-se procurarexplorado aqui e que a opção assumida determina a natureza da interface interna. Assim, numa teoria lingüística, pode-se procurar
uma interatividade formal entre Semântica/Sintaxe/Pragmática para oferecer um tratamento teórico e uniforme ao fenômeno sobuma interatividade formal entre Semântica/Sintaxe/Pragmática para oferecer um tratamento teórico e uniforme ao fenômeno sob
análise.análise.
O Debate sobre a InterfaceO Debate sobre a Interface
Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática
 1 Há um intenso debate sobre as relações entre1 Há um intenso debate sobre as relações entre
Semântica e Pragmática;Semântica e Pragmática;
 Origens teóricas: O debateOrigens teóricas: O debate
Russell/Strawson/GriceRussell/Strawson/Grice
 Referências recentes: Bach(87), Turner(99),Referências recentes: Bach(87), Turner(99),
Carston(99), Bianchi(2004), Jaszczolt(2006)Carston(99), Bianchi(2004), Jaszczolt(2006)
 A questão central é: qual a natureza da interface?A questão central é: qual a natureza da interface?
A Concepção Clássica de InterfaceA Concepção Clássica de Interface
Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática
 Dadas sentenças como (A), (B) e (C)Dadas sentenças como (A), (B) e (C)
 (A) ‘João é político, mas não é corrupto’, o dito é que João é(A) ‘João é político, mas não é corrupto’, o dito é que João é
político e que ele não é corrupto; além do dito, sugere-se quepolítico e que ele não é corrupto; além do dito, sugere-se que
político é corrupto;político é corrupto;
 (B)‘João se elegeu/A memória do eleitor é fraca’(B)‘João se elegeu/A memória do eleitor é fraca’
além do dito, sugere-se que o eleitor não deveria ter votado emalém do dito, sugere-se que o eleitor não deveria ter votado em
João;João;
 (C)’Alguns acusados voltaram ao cenário político(C)’Alguns acusados voltaram ao cenário político
Sugere-se, além do explícito, que nem todos voltaramSugere-se, além do explícito, que nem todos voltaram
Grice(75) chama tais inferências pragmáticas de implicaturasGrice(75) chama tais inferências pragmáticas de implicaturas
A Visão Clássica AmpliadaA Visão Clássica Ampliada
 A Pragmática não só complementa a Semântica atravésA Pragmática não só complementa a Semântica através
de implicaturas via dito; A sentença (D) ilustra o caso:de implicaturas via dito; A sentença (D) ilustra o caso:
(D)’Ele lidera as pesquisas para Presidente porque seu(D)’Ele lidera as pesquisas para Presidente porque seu
concorrente não está com o povoconcorrente não está com o povo
O dito depende de se ter a referência para ‘ele’, Lula,O dito depende de se ter a referência para ‘ele’, Lula,
por exemplo; também depende de se completar opor exemplo; também depende de se completar o
sintagma ‘Presidente do Brasil’, e de se desambiguarsintagma ‘Presidente do Brasil’, e de se desambiguar
‘está com o povo’‘está com o povo’
A Semântica depende da Pragmática ; a constituição doA Semântica depende da Pragmática ; a constituição do
dito depende de fatores contextuais.dito depende de fatores contextuais.
A Tese da Indeterminação daA Tese da Indeterminação da
SemânticaSemântica
 Carston / Interface e RelevânciaCarston / Interface e Relevância
 Blakemore / ExplicaturaBlakemore / Explicatura
 Bach / Dito, Implicatura e ImplicituraBach / Dito, Implicatura e Implicitura
 Levinson / Implicaturas GeneralizadasLevinson / Implicaturas Generalizadas
 Recanati / Pragmática RadicalRecanati / Pragmática Radical
O fortalecimento da tese de Strawson / daO fortalecimento da tese de Strawson / da
sentença para o enunciadosentença para o enunciado
Argumentos Problemáticos para aArgumentos Problemáticos para a
Interface Semântica/PragmáticaInterface Semântica/Pragmática
 Russel e Strawson / a questão era metodológicaRussel e Strawson / a questão era metodológica
 A Interface interna ou intradisciplinar dependeA Interface interna ou intradisciplinar depende
da Interface externa ou Interdisciplinar;da Interface externa ou Interdisciplinar;
 O objeto da Interface lingüística entreO objeto da Interface lingüística entre
Semântica/Pragmática pode ser desenhado naSemântica/Pragmática pode ser desenhado na
fronteira com a Lógica, com as Ciênciasfronteira com a Lógica, com as Ciências
Cognitivas ou com Teorias do Discurso;Cognitivas ou com Teorias do Discurso;
O significado é aquilo que a teoria do significadoO significado é aquilo que a teoria do significado
assumida diz que ele é.assumida diz que ele é.
O Conetivo ‘E’ na InterfaceO Conetivo ‘E’ na Interface
Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática
 Considere-se as sentenças (E)e (F) abaixo:Considere-se as sentenças (E)e (F) abaixo:
(E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’(E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’
(F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’(F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’
 A primeira pode ser interpretada como ele tendoA primeira pode ser interpretada como ele tendo
depositado o dinheiro e a segunda, como ele tendodepositado o dinheiro e a segunda, como ele tendo
retirado o dinheiro.retirado o dinheiro.
 Aceita tal interpretação, as condições de verdade sãoAceita tal interpretação, as condições de verdade são
diferentes para (E) e (F).diferentes para (E) e (F).
 Assumindo-se essa interpretação, fatores pragmáticos,Assumindo-se essa interpretação, fatores pragmáticos,
como a ordem, determinam as condições de verdade,como a ordem, determinam as condições de verdade,
sendo a Semântica não suficientemente determinada.sendo a Semântica não suficientemente determinada.
O Conetivo ‘E’ na InterfaceO Conetivo ‘E’ na Interface
Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática
 Nessa perspectiva, tudo ficaria esclarecido se (E) e (F)Nessa perspectiva, tudo ficaria esclarecido se (E) e (F)
fossem completadas como (E’) e (F’).fossem completadas como (E’) e (F’).
(E’) Ele pegou o dinheiro e foi ao banco depositá-lo.(E’) Ele pegou o dinheiro e foi ao banco depositá-lo.
(F’) Ele foi ao banco e pegou o dinheiro retirado.(F’) Ele foi ao banco e pegou o dinheiro retirado.
 Tais condições de complementação informativaTais condições de complementação informativa
reforçariam a tese da indeterminação semântica.reforçariam a tese da indeterminação semântica.
 Consideradas essas condições, elas certamente podemConsideradas essas condições, elas certamente podem
ser expandidas para referências de nomes , descriçõesser expandidas para referências de nomes , descrições
definidas, dêiticos, desambiguação, implícitos em geral,definidas, dêiticos, desambiguação, implícitos em geral,
etc..etc..
 Mas isso levaria a uma trivialização pragmática.Mas isso levaria a uma trivialização pragmática.
Problemas Adicionais para a Tese daProblemas Adicionais para a Tese da
Indeterminação da SemânticaIndeterminação da Semântica
 Como determinar o conjunto de informaçõesComo determinar o conjunto de informações
necessárias e suficientes para estabelecer as condições-necessárias e suficientes para estabelecer as condições-
de-verdade, ou condições-de- compreensão?de-verdade, ou condições-de- compreensão?
- Ele comeu no restaurante do centro com amigosEle comeu no restaurante do centro com amigos
- Ele quem?, comeu o quê? Qual restaurante?, centro deEle quem?, comeu o quê? Qual restaurante?, centro de
onde? Quais amigos? Quando? Quem disse isso? Ondeonde? Quais amigos? Quando? Quem disse isso? Onde
e quando? ...e quando? ...
 Como evitar a trivialização da tese de que qualquerComo evitar a trivialização da tese de que qualquer
proposição pode ser complementada pragmaticamente?proposição pode ser complementada pragmaticamente?
Confusão de InterfacesConfusão de Interfaces
 A nossa hipótese é a de que as interfaces externas (IE),A nossa hipótese é a de que as interfaces externas (IE),
ou interdisciplinares, são compromissos metodológicosou interdisciplinares, são compromissos metodológicos
primeiros que determinam as interfaces internas (II), ouprimeiros que determinam as interfaces internas (II), ou
intradisciplinares.intradisciplinares.
 Por exemplo, uma IE pode ser caracterizada a partir daPor exemplo, uma IE pode ser caracterizada a partir da
relação Lingüística/Lógica, ou Lingüística/Psicologia,relação Lingüística/Lógica, ou Lingüística/Psicologia,
etc.etc.
 Uma II pode ser ilustrada, por exemplo, pela relaçãoUma II pode ser ilustrada, por exemplo, pela relação
Sintaxe/Semântica, Semântica/Pragmática, etc.Sintaxe/Semântica, Semântica/Pragmática, etc.
Interfaces ExternasInterfaces Externas
 Interface Formal : o objeto é o argumentoInterface Formal : o objeto é o argumento
dedutivo e sua expressão em linguagem natural;dedutivo e sua expressão em linguagem natural;
 Interface Comunicativa : o objeto é intençãoInterface Comunicativa : o objeto é intenção
comunicativa, informativa e a compreensão;comunicativa, informativa e a compreensão;
 Interface Cognitiva : o objeto é o modeloInterface Cognitiva : o objeto é o modelo
cognitivo para a relação causa e efeito, porcognitivo para a relação causa e efeito, por
exemplo.exemplo.
Interfaces InternasInterfaces Internas
 Constituídas a partir das subteorias lingüísticas.Constituídas a partir das subteorias lingüísticas.
 Fonologia/Morfologia/Lexicologia/Sintaxe/Fonologia/Morfologia/Lexicologia/Sintaxe/
Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática
 Nessa direção, uma opção metodológicaNessa direção, uma opção metodológica
Lingüística/Lógica vai determinar a perspectiva de umaLingüística/Lógica vai determinar a perspectiva de uma
Semântica/Pragmática enquanto interface formal;Semântica/Pragmática enquanto interface formal;
 De maneira similar, a opção por uma IEDe maneira similar, a opção por uma IE
Lingüística/Comunicação vai determinar uma IILingüística/Comunicação vai determinar uma II
Semântica/Pragmática adequada a essa opção;Semântica/Pragmática adequada a essa opção;
 De forma análoga, a IE Lingüística/Ciência CognitivaDe forma análoga, a IE Lingüística/Ciência Cognitiva
vai determinar uma II Semântica/Pragmática cognitiva.vai determinar uma II Semântica/Pragmática cognitiva.
Ilustração FinalIlustração Final
 Suponhamos novamente (E) e (F)Suponhamos novamente (E) e (F)
(E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’(E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’
(F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’(F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’
 De um ponto de vista formal, se o argumento dedutivoDe um ponto de vista formal, se o argumento dedutivo
válido é o ponto, P & Q e Q & P são equivalentes àválido é o ponto, P & Q e Q & P são equivalentes à
medida que determinam inferências necessáriasmedida que determinam inferências necessárias
equivalentes, ou monotônicas;equivalentes, ou monotônicas;
 As inferências de depositar/retirar são canceláveis, ouAs inferências de depositar/retirar são canceláveis, ou
não-monotônicas.não-monotônicas.
 Tais diferenças inferenciais podem ser relevantes para oTais diferenças inferenciais podem ser relevantes para o
exame de uma interface formal.exame de uma interface formal.
Ilustração FinalIlustração Final
 Se se assume como relevante uma IESe se assume como relevante uma IE
Lingüística/Comunicação, então questões comoLingüística/Comunicação, então questões como
por que as pessoas entendem que P antecedepor que as pessoas entendem que P antecede
temporalmente Q, ou que P leva a crer quetemporalmente Q, ou que P leva a crer que
houve depósito e que Q dá a entender quehouve depósito e que Q dá a entender que
houve retirada, são relevantes para uma IIhouve retirada, são relevantes para uma II
Semântica/Pragmática inserida no processoSemântica/Pragmática inserida no processo
comunicacional.comunicacional.
Ilustração FinalIlustração Final
 Se uma IE Lingüística/Cognição é assumida,Se uma IE Lingüística/Cognição é assumida,
então P & Q pode ser investigada no que dizentão P & Q pode ser investigada no que diz
respeito à forma de processamento, à forma derespeito à forma de processamento, à forma de
aquisição de estruturas complexas comaquisição de estruturas complexas com
conetivos por crianças, à questão da relaçãoconetivos por crianças, à questão da relação
estruturas lingüísticas como determinandoestruturas lingüísticas como determinando
estruturas cognitivas, hipótese Sapir-Whorf, etc.estruturas cognitivas, hipótese Sapir-Whorf, etc.
ConclusãoConclusão
 Se isso é correto, seguem-se duas alternativas deSe isso é correto, seguem-se duas alternativas de
conclusão:conclusão:
(1)(1) De uma interface comunicativa, faz-se umaDe uma interface comunicativa, faz-se uma
constatação de que uma Semântica de condições deconstatação de que uma Semântica de condições de
verdade é imprópria e indeterminada. – Mas isso éverdade é imprópria e indeterminada. – Mas isso é
trivial.trivial.
(2)(2) Assume-se que a interface formal com a Lógica éAssume-se que a interface formal com a Lógica é
irrelevante. – Mas isso é quebrar uma relação queirrelevante. – Mas isso é quebrar uma relação que
desde Aristóteles foi construída na interface.desde Aristóteles foi construída na interface.

Semântica pragmática

  • 1.
    Semântica /Semântica / PragmáticaPragmática O“E” na InterfaceO “E” na Interface Jorge Campos
  • 2.
    RESUMORESUMO  A Semânticae suas InterfacesA Semântica e suas Interfaces  ‘‘ Jorge Campos (PUCRS)Jorge Campos (PUCRS)  A Semântica é a subteoria lingüística que investiga as propriedades do significado emA Semântica é a subteoria lingüística que investiga as propriedades do significado em linguagem natural. Como tal, ela mantém relações internas, intradisciplinares com outras subteorias, como a Sintaxe e alinguagem natural. Como tal, ela mantém relações internas, intradisciplinares com outras subteorias, como a Sintaxe e a Pragmática, por exemplo, e relações externas, interdisciplinares, com áreas de conexão com a Lingüística como a Lógica, asPragmática, por exemplo, e relações externas, interdisciplinares, com áreas de conexão com a Lingüística como a Lógica, as Ciências Cognitivas, Teorias da Comunicação Social, etc. Isso é equivalente a dizer que o significado lingüístico pode serCiências Cognitivas, Teorias da Comunicação Social, etc. Isso é equivalente a dizer que o significado lingüístico pode ser investigado numa interface externa da Lingüística com disciplinas formais, cognitivas ou sociais e numa interface interna com ainvestigado numa interface externa da Lingüística com disciplinas formais, cognitivas ou sociais e numa interface interna com a estrutura gramatical e as inferências dependentes de contexto. Ilustremos tais investigações nas fronteiras inter/intra da Semântica,estrutura gramatical e as inferências dependentes de contexto. Ilustremos tais investigações nas fronteiras inter/intra da Semântica, através do conetivo “e”, justamente, um objeto lógico-lingüístico na interface externa. Dada uma proposição complexa comoatravés do conetivo “e”, justamente, um objeto lógico-lingüístico na interface externa. Dada uma proposição complexa como “João foi ao banco e pegou o dinheiro”, podemos investigar qual o papel do elemento sincategoremático “e”, para saber se há“João foi ao banco e pegou o dinheiro”, podemos investigar qual o papel do elemento sincategoremático “e”, para saber se há equivalência ou não entre suas propriedades veritativo-funcionais no âmbito da linguagem da Lógica e suas propriedadesequivalência ou não entre suas propriedades veritativo-funcionais no âmbito da linguagem da Lógica e suas propriedades semânticas na nossa linguagem. Uma observação trivial em nossos dias é que, enquanto o “e” lógico mantém suas condições-de-semânticas na nossa linguagem. Uma observação trivial em nossos dias é que, enquanto o “e” lógico mantém suas condições-de- verdade na troca da ordem entre as sentenças componentes, tal troca, em nossa linguagem cotidiana, altera o significadoverdade na troca da ordem entre as sentenças componentes, tal troca, em nossa linguagem cotidiana, altera o significado inferencial. Assim, “João foi ao Banco e pegou o dinheiro” parece significar que ele retirou o dinheiro; ao contrário, em “Joãoinferencial. Assim, “João foi ao Banco e pegou o dinheiro” parece significar que ele retirou o dinheiro; ao contrário, em “João pegou o dinheiro e foi ao Banco”, parece que o significado implicado é que ele depositou o dinheiro. Paralelamente, as inferênciaspegou o dinheiro e foi ao Banco”, parece que o significado implicado é que ele depositou o dinheiro. Paralelamente, as inferências tipo eliminação do “&”, em que da proposição complexa pode-se passar para qualquer das simples, parecem perfeitamentetipo eliminação do “&”, em que da proposição complexa pode-se passar para qualquer das simples, parecem perfeitamente equivalentes na linguagem cotidiana. Uma alternativa possível é entender-se tudo como Semântica e considerar as discrepâncias deequivalentes na linguagem cotidiana. Uma alternativa possível é entender-se tudo como Semântica e considerar as discrepâncias de inferências não-autorizadas como um conflito na interface; outra hipótese é distinguir os dois casos de inferência, a primeira comoinferências não-autorizadas como um conflito na interface; outra hipótese é distinguir os dois casos de inferência, a primeira como pragmática e a segunda como semântica, caracterizando-se, assim, a abordagem via interface interna. Uma conseqüênciapragmática e a segunda como semântica, caracterizando-se, assim, a abordagem via interface interna. Uma conseqüência metodológica desse tratamento é que se pode construir interface externa com várias áreas de conexão, como a formal, no exemplometodológica desse tratamento é que se pode construir interface externa com várias áreas de conexão, como a formal, no exemplo explorado aqui e que a opção assumida determina a natureza da interface interna. Assim, numa teoria lingüística, pode-se procurarexplorado aqui e que a opção assumida determina a natureza da interface interna. Assim, numa teoria lingüística, pode-se procurar uma interatividade formal entre Semântica/Sintaxe/Pragmática para oferecer um tratamento teórico e uniforme ao fenômeno sobuma interatividade formal entre Semântica/Sintaxe/Pragmática para oferecer um tratamento teórico e uniforme ao fenômeno sob análise.análise.
  • 3.
    O Debate sobrea InterfaceO Debate sobre a Interface Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática  1 Há um intenso debate sobre as relações entre1 Há um intenso debate sobre as relações entre Semântica e Pragmática;Semântica e Pragmática;  Origens teóricas: O debateOrigens teóricas: O debate Russell/Strawson/GriceRussell/Strawson/Grice  Referências recentes: Bach(87), Turner(99),Referências recentes: Bach(87), Turner(99), Carston(99), Bianchi(2004), Jaszczolt(2006)Carston(99), Bianchi(2004), Jaszczolt(2006)  A questão central é: qual a natureza da interface?A questão central é: qual a natureza da interface?
  • 4.
    A Concepção Clássicade InterfaceA Concepção Clássica de Interface Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática  Dadas sentenças como (A), (B) e (C)Dadas sentenças como (A), (B) e (C)  (A) ‘João é político, mas não é corrupto’, o dito é que João é(A) ‘João é político, mas não é corrupto’, o dito é que João é político e que ele não é corrupto; além do dito, sugere-se quepolítico e que ele não é corrupto; além do dito, sugere-se que político é corrupto;político é corrupto;  (B)‘João se elegeu/A memória do eleitor é fraca’(B)‘João se elegeu/A memória do eleitor é fraca’ além do dito, sugere-se que o eleitor não deveria ter votado emalém do dito, sugere-se que o eleitor não deveria ter votado em João;João;  (C)’Alguns acusados voltaram ao cenário político(C)’Alguns acusados voltaram ao cenário político Sugere-se, além do explícito, que nem todos voltaramSugere-se, além do explícito, que nem todos voltaram Grice(75) chama tais inferências pragmáticas de implicaturasGrice(75) chama tais inferências pragmáticas de implicaturas
  • 5.
    A Visão ClássicaAmpliadaA Visão Clássica Ampliada  A Pragmática não só complementa a Semântica atravésA Pragmática não só complementa a Semântica através de implicaturas via dito; A sentença (D) ilustra o caso:de implicaturas via dito; A sentença (D) ilustra o caso: (D)’Ele lidera as pesquisas para Presidente porque seu(D)’Ele lidera as pesquisas para Presidente porque seu concorrente não está com o povoconcorrente não está com o povo O dito depende de se ter a referência para ‘ele’, Lula,O dito depende de se ter a referência para ‘ele’, Lula, por exemplo; também depende de se completar opor exemplo; também depende de se completar o sintagma ‘Presidente do Brasil’, e de se desambiguarsintagma ‘Presidente do Brasil’, e de se desambiguar ‘está com o povo’‘está com o povo’ A Semântica depende da Pragmática ; a constituição doA Semântica depende da Pragmática ; a constituição do dito depende de fatores contextuais.dito depende de fatores contextuais.
  • 6.
    A Tese daIndeterminação daA Tese da Indeterminação da SemânticaSemântica  Carston / Interface e RelevânciaCarston / Interface e Relevância  Blakemore / ExplicaturaBlakemore / Explicatura  Bach / Dito, Implicatura e ImplicituraBach / Dito, Implicatura e Implicitura  Levinson / Implicaturas GeneralizadasLevinson / Implicaturas Generalizadas  Recanati / Pragmática RadicalRecanati / Pragmática Radical O fortalecimento da tese de Strawson / daO fortalecimento da tese de Strawson / da sentença para o enunciadosentença para o enunciado
  • 7.
    Argumentos Problemáticos paraaArgumentos Problemáticos para a Interface Semântica/PragmáticaInterface Semântica/Pragmática  Russel e Strawson / a questão era metodológicaRussel e Strawson / a questão era metodológica  A Interface interna ou intradisciplinar dependeA Interface interna ou intradisciplinar depende da Interface externa ou Interdisciplinar;da Interface externa ou Interdisciplinar;  O objeto da Interface lingüística entreO objeto da Interface lingüística entre Semântica/Pragmática pode ser desenhado naSemântica/Pragmática pode ser desenhado na fronteira com a Lógica, com as Ciênciasfronteira com a Lógica, com as Ciências Cognitivas ou com Teorias do Discurso;Cognitivas ou com Teorias do Discurso; O significado é aquilo que a teoria do significadoO significado é aquilo que a teoria do significado assumida diz que ele é.assumida diz que ele é.
  • 8.
    O Conetivo ‘E’na InterfaceO Conetivo ‘E’ na Interface Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática  Considere-se as sentenças (E)e (F) abaixo:Considere-se as sentenças (E)e (F) abaixo: (E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’(E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’ (F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’(F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’  A primeira pode ser interpretada como ele tendoA primeira pode ser interpretada como ele tendo depositado o dinheiro e a segunda, como ele tendodepositado o dinheiro e a segunda, como ele tendo retirado o dinheiro.retirado o dinheiro.  Aceita tal interpretação, as condições de verdade sãoAceita tal interpretação, as condições de verdade são diferentes para (E) e (F).diferentes para (E) e (F).  Assumindo-se essa interpretação, fatores pragmáticos,Assumindo-se essa interpretação, fatores pragmáticos, como a ordem, determinam as condições de verdade,como a ordem, determinam as condições de verdade, sendo a Semântica não suficientemente determinada.sendo a Semântica não suficientemente determinada.
  • 9.
    O Conetivo ‘E’na InterfaceO Conetivo ‘E’ na Interface Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática  Nessa perspectiva, tudo ficaria esclarecido se (E) e (F)Nessa perspectiva, tudo ficaria esclarecido se (E) e (F) fossem completadas como (E’) e (F’).fossem completadas como (E’) e (F’). (E’) Ele pegou o dinheiro e foi ao banco depositá-lo.(E’) Ele pegou o dinheiro e foi ao banco depositá-lo. (F’) Ele foi ao banco e pegou o dinheiro retirado.(F’) Ele foi ao banco e pegou o dinheiro retirado.  Tais condições de complementação informativaTais condições de complementação informativa reforçariam a tese da indeterminação semântica.reforçariam a tese da indeterminação semântica.  Consideradas essas condições, elas certamente podemConsideradas essas condições, elas certamente podem ser expandidas para referências de nomes , descriçõesser expandidas para referências de nomes , descrições definidas, dêiticos, desambiguação, implícitos em geral,definidas, dêiticos, desambiguação, implícitos em geral, etc..etc..  Mas isso levaria a uma trivialização pragmática.Mas isso levaria a uma trivialização pragmática.
  • 10.
    Problemas Adicionais paraa Tese daProblemas Adicionais para a Tese da Indeterminação da SemânticaIndeterminação da Semântica  Como determinar o conjunto de informaçõesComo determinar o conjunto de informações necessárias e suficientes para estabelecer as condições-necessárias e suficientes para estabelecer as condições- de-verdade, ou condições-de- compreensão?de-verdade, ou condições-de- compreensão? - Ele comeu no restaurante do centro com amigosEle comeu no restaurante do centro com amigos - Ele quem?, comeu o quê? Qual restaurante?, centro deEle quem?, comeu o quê? Qual restaurante?, centro de onde? Quais amigos? Quando? Quem disse isso? Ondeonde? Quais amigos? Quando? Quem disse isso? Onde e quando? ...e quando? ...  Como evitar a trivialização da tese de que qualquerComo evitar a trivialização da tese de que qualquer proposição pode ser complementada pragmaticamente?proposição pode ser complementada pragmaticamente?
  • 11.
    Confusão de InterfacesConfusãode Interfaces  A nossa hipótese é a de que as interfaces externas (IE),A nossa hipótese é a de que as interfaces externas (IE), ou interdisciplinares, são compromissos metodológicosou interdisciplinares, são compromissos metodológicos primeiros que determinam as interfaces internas (II), ouprimeiros que determinam as interfaces internas (II), ou intradisciplinares.intradisciplinares.  Por exemplo, uma IE pode ser caracterizada a partir daPor exemplo, uma IE pode ser caracterizada a partir da relação Lingüística/Lógica, ou Lingüística/Psicologia,relação Lingüística/Lógica, ou Lingüística/Psicologia, etc.etc.  Uma II pode ser ilustrada, por exemplo, pela relaçãoUma II pode ser ilustrada, por exemplo, pela relação Sintaxe/Semântica, Semântica/Pragmática, etc.Sintaxe/Semântica, Semântica/Pragmática, etc.
  • 12.
    Interfaces ExternasInterfaces Externas Interface Formal : o objeto é o argumentoInterface Formal : o objeto é o argumento dedutivo e sua expressão em linguagem natural;dedutivo e sua expressão em linguagem natural;  Interface Comunicativa : o objeto é intençãoInterface Comunicativa : o objeto é intenção comunicativa, informativa e a compreensão;comunicativa, informativa e a compreensão;  Interface Cognitiva : o objeto é o modeloInterface Cognitiva : o objeto é o modelo cognitivo para a relação causa e efeito, porcognitivo para a relação causa e efeito, por exemplo.exemplo.
  • 13.
    Interfaces InternasInterfaces Internas Constituídas a partir das subteorias lingüísticas.Constituídas a partir das subteorias lingüísticas.  Fonologia/Morfologia/Lexicologia/Sintaxe/Fonologia/Morfologia/Lexicologia/Sintaxe/ Semântica/PragmáticaSemântica/Pragmática  Nessa direção, uma opção metodológicaNessa direção, uma opção metodológica Lingüística/Lógica vai determinar a perspectiva de umaLingüística/Lógica vai determinar a perspectiva de uma Semântica/Pragmática enquanto interface formal;Semântica/Pragmática enquanto interface formal;  De maneira similar, a opção por uma IEDe maneira similar, a opção por uma IE Lingüística/Comunicação vai determinar uma IILingüística/Comunicação vai determinar uma II Semântica/Pragmática adequada a essa opção;Semântica/Pragmática adequada a essa opção;  De forma análoga, a IE Lingüística/Ciência CognitivaDe forma análoga, a IE Lingüística/Ciência Cognitiva vai determinar uma II Semântica/Pragmática cognitiva.vai determinar uma II Semântica/Pragmática cognitiva.
  • 14.
    Ilustração FinalIlustração Final Suponhamos novamente (E) e (F)Suponhamos novamente (E) e (F) (E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’(E) Ele pegou o dinheiro e foi ao Banco’ (F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’(F) Ele foi ao Banco e pegou o dinheiro’  De um ponto de vista formal, se o argumento dedutivoDe um ponto de vista formal, se o argumento dedutivo válido é o ponto, P & Q e Q & P são equivalentes àválido é o ponto, P & Q e Q & P são equivalentes à medida que determinam inferências necessáriasmedida que determinam inferências necessárias equivalentes, ou monotônicas;equivalentes, ou monotônicas;  As inferências de depositar/retirar são canceláveis, ouAs inferências de depositar/retirar são canceláveis, ou não-monotônicas.não-monotônicas.  Tais diferenças inferenciais podem ser relevantes para oTais diferenças inferenciais podem ser relevantes para o exame de uma interface formal.exame de uma interface formal.
  • 15.
    Ilustração FinalIlustração Final Se se assume como relevante uma IESe se assume como relevante uma IE Lingüística/Comunicação, então questões comoLingüística/Comunicação, então questões como por que as pessoas entendem que P antecedepor que as pessoas entendem que P antecede temporalmente Q, ou que P leva a crer quetemporalmente Q, ou que P leva a crer que houve depósito e que Q dá a entender quehouve depósito e que Q dá a entender que houve retirada, são relevantes para uma IIhouve retirada, são relevantes para uma II Semântica/Pragmática inserida no processoSemântica/Pragmática inserida no processo comunicacional.comunicacional.
  • 16.
    Ilustração FinalIlustração Final Se uma IE Lingüística/Cognição é assumida,Se uma IE Lingüística/Cognição é assumida, então P & Q pode ser investigada no que dizentão P & Q pode ser investigada no que diz respeito à forma de processamento, à forma derespeito à forma de processamento, à forma de aquisição de estruturas complexas comaquisição de estruturas complexas com conetivos por crianças, à questão da relaçãoconetivos por crianças, à questão da relação estruturas lingüísticas como determinandoestruturas lingüísticas como determinando estruturas cognitivas, hipótese Sapir-Whorf, etc.estruturas cognitivas, hipótese Sapir-Whorf, etc.
  • 17.
    ConclusãoConclusão  Se issoé correto, seguem-se duas alternativas deSe isso é correto, seguem-se duas alternativas de conclusão:conclusão: (1)(1) De uma interface comunicativa, faz-se umaDe uma interface comunicativa, faz-se uma constatação de que uma Semântica de condições deconstatação de que uma Semântica de condições de verdade é imprópria e indeterminada. – Mas isso éverdade é imprópria e indeterminada. – Mas isso é trivial.trivial. (2)(2) Assume-se que a interface formal com a Lógica éAssume-se que a interface formal com a Lógica é irrelevante. – Mas isso é quebrar uma relação queirrelevante. – Mas isso é quebrar uma relação que desde Aristóteles foi construída na interface.desde Aristóteles foi construída na interface.