NEPP-NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS
EM PSICANÁLISE
Email: nepp@nepp.com.br
Site: www.nepp.com.br
Prof.Sergio Costa
Núcleo de Estudos e Pesquisas
em Psicanálise
Av.Cristiano Machado,640-Sl:1501
Bairro Sagrada Família
Belo Horizonte – MG
CEP.: 31.140-660
Telefax: (31) 3241-2042
www.nepp.com.br
Publicação Semestral
Belo Horizonte –MG
Maio/Junho 2013
Número 1
PSICANÁLISE
Revista do Núcleo de Estudos
e Pesquisas em Psicanálise
Comissão Editorial
Irani Adalgisa dos Santos Araújo
Ricardo Cunha Falcão
Rosiane Cláudia da Silva
Sérgio Costa
Apoio
Livraria do Psicólogo
Propaganda/Marketing
Revisão de Texto
Geraldo Oliveira
Elaine De Paoli
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
O conteúdo dos artigos, aqui p ublicados, é d e inteira
responsab ilid ade de seus autores.
É proibid a qualquer m odalid ade d e reprodução desta
revis ta, seja to tal ou p arcial, sob pena da lei.
Indice
Editorial
Apresentação
Mem ória e Elementos Sensoriais e não sensorialidade
advindas dos desejos em análise
Sérgio Costa
Poema de Época
Sérgio Costa
Adolescência, Violência Urbana e Responsabilidade
Psicossocial
Ricardo Falcão
Culto ao Corpo, Anabolizantes e Adolescência
Va léria T rinchero
Frágua-Freudiana
Sérgio Costa
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Introdução e Fundamentos de uma Sociedade de Espetáculos
Sérgio Costa
Psicanálise e Direito de Família
Sérgio Costa
Irani Araújo
Maira Teixeira
Poema: Depressão
Sérgio Costa
Pacientes Somatizadores
David Zimerman
Neurose Obsessiva: Neurose ou Transtorno?
Transtorno de Personalidade Bordeline
Irani Adalgisa dos Santos Araujo
Editorial
Uma Psicanálise genuinamente brasileira para brasileiros
Já passou um século e a Psicanálise continua tão viva e intensa como nos
anos 1886, quando foi criada. O NEPP (Núcleo de Estudos e Pesquisas em
Psicanálise) vem refazendo o percurso de sua história e vem apresentar, com
a 1a. Edição de sua revista, uma Psicanálise genuinamente brasileira para
brasileiros.
Acredita que a criação humana não é obra de um único autor, mas de uma
coletividade motivada por um pai carismático e por um objetivo
compartilhado.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Todo desequilíbrio psíquico decorre das experiências e da imaginação de um
povo, de acordo com o espírito da época. Além disso, depara-se com forças
contraditórias que se alternam e entrelaçam incessantemente.
Para atender a expectativa do eterno desejo do homem pela felicidade, o
NEPP desenvolve uma Psicanálise a partir da realidade brasileira,
acreditando que essa é una e em constante processo de mudanças, e que os
homens brasileiros de hoje não são os de ontem, e nem serão os de amanhã.
Segundo o Diretor do NEPP, Dr Sérgio Costa, esta revista tem como meta
levar o leitor a refletir sobre a nossa realidade, e sobre a necessidade de
estar buscando força para sobreviver psiquicamente dentro dessa
comunidade, que, atualmente, se encontra sem uma referência paterna, ou
seja, diante de um Estado adoecido.
Esta 1a. Edição traz temas reais, que são estudos e pesquisas relevantes
sobre o que há de mais atual no nosso cotidiano, e propõe chamar atenção
para a construção de um saber genuinamente brasileiro, atendendo as
exigências dos tempos em que vivemos: a necessidade de uma Psicanálise
para todos.
Alcebino de Souza Santana
Apresentação
A Psicanálise é a ciência do inconsciente, criada por Sigmund Freud (1856-
1939), neurologista, austríaco e judeu.
É uma forma de terapia psicodinâmica baseada na idéia de que as neuroses
são manifestações de traumas ocultos no inconsciente, e que ao rememorar
e analisar esse material é possível romper as barreiras prejudiciais. É um
processo longo, pois parte do princípio de que o eu interior está preso a uma
luta com mensagens conflitantes provenientes do ego, do id e do superego,
em especial no tocante às questões da sexualidade controlada pela libido.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Presum e-se qu e a realidade representada pelos tem ores e desejos
inconscientes, e não as impressões conscientes ou a realidade objetiva, é o
mais im portante fator determinante do com portamento e da au to-imagem do
paciente. Acredita-se que a capacidade hum ana diante do conflito psíquico é
equilibrada por u ma postura de “síntese criativa”, que perm ite a adaptação e
cura, através do processo da livre associação, interpretação de sonh os,
análise dos atos falhos e da resistência.
O NEPP (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise) é um a associação,
fundada em 02 de setembro de 2002, regida por um estatuto aprovado por
Assembléia G eral, sem vinculação político-partidária ou religiosa, sem
distinção de raça, cor, sexo ou nacionalidade.
A su a sede administrativa é em Belo Horizonte-MG, onde atu a sem limites
ou restrições, tanto geográficas com o políticas. Tem como exercício social,
coincidente com o ano civil, e prazo inde terminado para o exercício de suas
atividades. É administrada por u ma dire toria e um conselho fiscal.
É constituído por psicanalistas clínicos voltados para o estudo con tínuo da
Psicanálise.
Tem a missão de contribuir e estimular o desenvolvim ento da Psicanálise, de
acordo com as norm as e finalidades legais.
Para tan to, oferece cursos, en contros científicos, estudos de casos clínicos,
análises de film es, projetos voltados para a educação, a análise das cau sas e
efeitos da violência social, as famílias etc. Oferece, ain da, um a biblioteca rica
e uma videoteca para pesquisas e estudos.
Procura formar psicanalistas e estudiosos, desenvolvendo a escu ta
psicanalítica apoiada n a transferência, e o conhecim en to do sujeito e suas
organizações patológicas, associadas às demandas do m undo
con tem porâneo.
Além da transmissão da Psicanálise baseada nas obras freudianas, estuda-
se outros autores. Apresenta como re qu isitos essen ciais à formação, a
supervisão individu al do trabalho clínico, análises pessoais e didáticas,
participação dos gru pos de estudos e a execu ção de trabalhos científicos
mensais e conclu sivos.
MEM ÓRIA E ELEM ENTOS SENSORIAIS E NÃO
SENSORIALIDADE ADVINDAS DOS DESEJOS EM ANÁLISE
Sérgio Costa
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
RESUMO : As experiências vividas na infância até a
adolescência são permeadas de elem entos fundamentais para
o aprim oramento do ser humano n a fase adulta, porém presos
a uma valorização mitológica da função da mãe. O indivíduo,
insatisfeito com o m odelo aprendido na sua dinâmica fam iliar,
busca um compan heiro para a constituição de um a família,
on de se repete o modelo apreendido e produz um
relacionamento conturbado. Com o fracasso caem por terra
todos valores e vários sintom as manifestam-se como uma
depressão por um relacionam ento desgastado e destruído. Na
busca da Psicanálise acontece o recordar, reviver e elaborar, e
isso só ocorre se houver uma neurose de transferência,
possível desenvolver somente com um analista.
PALAVRAS CHAVE: Infân cia – Mãe – Neurose de
Transferência
Gostaria de começar o m eu artigo com trecho da letra do Gilberto Gil, “Se eu
quiser falar com Deus...”. Tal música me rem ete a uma fase de vida, que ante
a dificuldade da crian ça, saindo da primeira infância e tendo contato com o
con hecimento da morte, e já em estado de prontidão para a socialização, se
perturba com tantas modificações psíquicas profundas. Sua mãe lhe ensina
a rezar ou até “conversar com Deus”, para não ter noites de sonhos de
angústia.
Estas observações nos remetem à aflição da pessoa “desejando não ter
desejos”, ou não se esquecendo nunca, que não devem ter m emória.
As crianças gostam de ver film es de terror e as mães perm item. Depois,
morrem de medo ao dormir. Parece que essas crianças ficam à mercê do
material imprimido no psiquismo: gostam e sentem excitação, e no medo de
serem destruídas, devoradas, suas m ães as acalentam e pedem para não
pensarem e, ao mesm o tempo, pedirem a D eus a proteção para um bom
son o.
Neste jogo de prazer x desprazer, todo o material libidinal (EROS x
TANATOS) impõe a sua luta para sobrepor o destino do sujeito na form ação
e no recalcamento do m aterial psíquico na vida adulta. Ora a m ãe estim ula
a pulsão de vida, ora permite o trânsito da pulsão de morte. Assim, o m ito se
impõe e, futuram ente, atuará como um elemento ansiogênico, e gerará um
esforço para alcançar o equilíbrio, em con traposição a uma sugestão
tranqüilizadora de um exercício e busca de disciplina do sujeito, ante os
seus medos, cujos objetivos podem, talvez,
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
nunca se realizarem, ou podem inúm eras vezes ser alcançados, perdidos e
recuperados.
O vento que sopra com força, faz tremer a janela e assovia. Passos que se
escutam. Temores que alguém vai aparecer e destruir seu corpo, despedaçar,
devorá-lo vivo. Aquilo que não se pode falar, aquilo que dá prazer gera
emoções e sensações sexuais fortes. Talvez o gozo, ou próximo ao gozo da
morte, o profano, o vampiro que suga o sangue, o psicótico que esfaqueia as
pessoas, os hom ens que estupram as mulheres, as mulheres que se
entregam aos homens, vão lhe fazer mal, m atar, comer e comer, esquartejar.
Não sabem lidar com a presença do perigo, porque estão em estado de êxtase
e se entregam ao mal, mas num clima e energia de sedução. Cria-se êxtase,
prazer, pecado, punição. Jovens indefesas nas mãos de homens
sanguinários. Cria-se, então, o “vazio” ou a “iluminação”, a “coisa”!?. A
questão é transportarmos aos umbrais do místico, quando a sugestão
através dos sons que estão impregnando o nosso aparelho psíquico, é que
estaríamos lidando com a essência irredutível a qualquer linguagem, e que
se revela somente ao coração e à intuição. Seria algo do instinto...,
sobrevivência..., primeiros contatos com o sobrenatural, com o profano,
aquilo que não se pode falar, mas pode-se pedir ajuda à outra força, a do
bem . A luta do bem x o m al.
O grito de socorro pela mãe (...), a ajuda da mãe, a santificação da mãe (...).
Não existe mulher no m undo melhor do que ela. Ela deixa de ser m ulher
porque não pode ser a mulher do filho. Ela deixa de ser mulher porque a
filha é uma mulher e seria a concorrente de ser possuída em seu lugar.
Passa a ser, então, algo sagrado sem sexo, sem odores; uma santa que em
seu nome somos capazes até de destruir quem dela falar mal. E ela passa a
ter um companheiro, que é o pai, m as que também tem que ser desprovido
do papel de hom em. Quando alguns sussurros são ouvidos, vindos do
quarto do casal, m il fantasias rolam e persistem por muitos anos na cabeça
dos filhos: “Será que meu pai está machucando a minha mãe?” “Porque é que
na manhã seguinte ela levanta tão feliz?” “O que eles estão fazendo de porta
fechada?” “Porque minha mãe briga com o meu pai por causa da secretária,
da vizinha?” “Porque meu pai faz a minha mãe chorar tanto?” “Eu não
entendo porque depois das brigas eles se sentem felizes e dóceis um com o
outro.”
As experiências ou pseudoexperiências vividas na infância até a adolescência, dentro do lar,
são a meu ver, componentes fundamentais para o aprimoramento do ser humano na fase
adulta. Torna-se insatisfeito com o modelo aprendido no convívio do relacionamento e
dinâmica familiar, pois nessa fase é o namoro e a procura por um companheiro para a
constituição de uma família. Nós pensamos em fazer e sermos diferentes do modelo que nos
foi passado. Até mesmo, quando nos casamos procuramos, na repetição, um nível de
insatisfação própria, e criamos uma dinâmica conturbada de relacionamento. Só aí é que se
caem por
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
terra todos os nossos valores e a manifestação da ansiedade por causa do
fracasso. Um complexo de Édipo, mal resolvido vai nos remeter à procura de
uma psicoterapia, por várias maneiras de manifestações de sintomas, como
uma depressão por um relacionamento destruído.
Dentro da postura mística, agora perante a destruição de toda uma vida
idealizada na busca do parceiro perfeito (...), o sujeito analítico passa a
“exigir” de si próprio, que trabalhe veja e reveja suas experiências ou
aprenda com elas, o que lhe traz tantos conflitos e como manejá-los para
evitar tantas dores e dissabores. Atestando a proposta de liberdade de sua
“alma” (psique), que ele faz segundo as suas próprias limitações, em função
de suas angústias de defesa.
Reduzindo os seus aspectos formais em análise, na transferência promove
até o surgimento de expressões clássicas como: “não tenho contato” ou “não
dou conta de tais experiências”. Simplesmente não está sendo aprendido o
particular contato que aquela pessoa está podendo estabelecer, naquele
determinado momento, ou mesmo, não participa da experiência. Algo
impossível para quem está vinculado a um ideal de ego, a um superego
rígido, ou o ego presente ou ausente de contatos com o mundo real.
O que me passa e parece ocorrer na sua vida, é que não está de forma
alguma sendo compartilhado, ou melhor, participando da forma que o desejo
quer satisfazer o seu eu. E a sua forma de atuação é desproporcional e
atemporal aos seus verdadeiros motivos de inter-relacionamento com o
mundo.
Qualquer estímulo leva o sujeito à atuação que não tem nada a ver com a
sua pessoa, agindo sob o mito de que é preciso experimentar. Viver na
experiência, algo inevitável, natural e espontâneo, que se processa de fora
para dentro, onde o desejo não é consultado e nem permitido se manifestar.
Destaco, que neste momento, o sujeito é tomado de uma regressão e o ser
desejante fica substituído pelo “desejo de ser”, o alcançar o que se é, é
substituído pelo alcançar o que se deve ser. Vira uma busca desesperada
pela mãe da infância, que o salva dos vampiros e Fred Krugers.
No passo seguinte ao sujeito na busca da sua redenção, a escolha do par
analítico é de grande importância para que haja a transferência. Assim, se se
criar a transferência, cria-se uma região, um portal intermediário entre a
doença e a vida real, através da qual se faz a transição de uma para a outra.
A nova condição assume o comando de todas as características da doença;
mas ela representa uma doença artificial que é, em todos os pontos,
acessível à intervenção do analista.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Dou aqui, a ênfase na natureza artificial da neurose de transferência, de um
trabalho que só pode ser realizado por um analista. Cito a Conferência
Introdutória (1916-1917) para sustentar as bases e o desenrolar de
sensações presas num passado de valorização mitológica da função mãe,
que só pode ser desmistificada através da transferência.
Freud define a transferência, mas também enfatiza, energicamente, como a
neurose de transferência concentra tudo num “ponto único”, a relação do
paciente com o analista. Nós já não estamos preocupados com a doença
anterior do paciente, mas com a neurose recém-criada e transformada que
tomou o lugar da anterior.
Assim, o analista faz com que todos os sintomas do paciente abandonem seu
significado original e assumam um novo sentido baseados numa relação com
a transferência, ou só persistirão aqueles sintomas capazes de sofrer tal
transformação.
Mas o domínio dessa nova neurose artificial, aos poucos, vai debelando tais
sentimentos confusos e ansiogênicos no trato do sujeito com os seus desejos
pessoais. Suas sensações energéticas, capazes de sofrer tais transformações,
se tornam possíveis com a realização da nossa tarefa terapêutica.
Em “Além do Princípio do Prazer” (1920), Freud enfatizou a neurose de
transferência com a essência e o concentrado da transferência, vista como
uma repetição, “uma expressão da compulsão à repetição”, a serviço de evitar
o recordar: o sujeito é obrigado a repetir o material reprimido como uma
experiência contemporânea (...), e estar sempre buscando o ideal de mulher
que o salve de seu desejo de sugar e sorver a mulher desejosa por um
vampiro, que lhe extraia a essência e preencha o vazio ou a iluminação da
sua alma.
Talvez o trecho que melhor nos explique o não dito, seria da música de
Belchior “...eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno; viver a
divina comédia humana, onde nada é eterno.”
SUMMARY
MEMORY AND SENSORIAL ELEMENTS AND NOT
PERCEPTION THAT CAME FROM DESIRES IN
ANALISYS
The experiences lived between childhood and adolescence are composed of
basic elements to the human being improvement in the adult phase, however
attached to a
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
m y tho lo gical valuatio n o f the function o f the m o ther. The
individ ual, u nsatisfied w ith th e m o del learned in h is/her
fam ily, loo ks fo r a partner to con stitute a fam ily, w here the
m o del learned repeats itself and pro duces a confu sed
relatio nship. W ith the failu re every value falls ap art and
several sy m pto m s reveal them selves as a dep ression of a
stressed an d destroy ed relatio nship. In th e qu est o f
psy ch oanaly sis, the “rem em ber, liv e ag ain an d ela bora te”
happ ens and this o nly h ap pens if there is a neuro sis of
transference that only an analyst can develop .
K E Y W O R D S: C hildho od – M o ther – Neuro sis of tran sference
Sobre o Au tor
S érg io C osta – Psican alista Did ata – D ire tor e pr ofe ssor d o N ú cle o d e Estu do s
e Pesq uisas Psic an alític as.
Po em a d e ép oca
S érg io C os ta
O peito o prim id o
C au sa rep ulsa no pensar e cala a bo ca no falar.
Não ventila o cérebro
E não deixa p ensar...
A falta de se exp ressar
Leva o ho m em a se acab ar.
A fom e d eix a a vo ntade de viver
Pra lá.
O s governantes ao nde estão?
Q ue nesse m o m ento desap arecem co m o o s pais
Q ue não m e deixam fazer o m eu ficar...
D iante do m und o qu e não po de m e abrigar.
O s governantes ao nde estão?
Q ue neste m om ento desaparecem com o o s p ais
E m e rem etem ao p assad o d a infância...
Q ue não m e deixam fazer o m eu ficar...
D iante do m und o qu e não po de m e abrigar.
F ico diante d e um m undo que não p od e m e ab rigar
E é no sinto m a que vou m e instalar.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
ADOLESCÊNCIA, VIOLÊNCIAURBANA
ERESPONSABILIDADEPSICOSSOCIAL.
RicardoFalcão
“Violênciado desejo que se perpetuanarepetição, violênciado pai que se instalano superego,
violênciadacastração que bloqueiao amor, violênciadaculturaque internalizao terror,
violênciado conflito defensivo que incapacitao neurótico; violência, enfim, do próprio discurso
do paciente, doverbo doanalista,darealidade que impõe seutributo e liquidaas ilusões. A
guerrae asmetáforasmilitares(...) setornamo referencial parapensar o homem, folhasolta
natempestade dassuas paixõese dos obstáculos que osoutroshomens se vêemforçados a
erguer contraabestadesenfreadaque se agitapor trásdasuamáscaracivilizada.”.
(Renato Mezan, Freud: Atrama dos Conceitos)
RESUMO: O presente artigo traz reflexões acerca dos
adolescentes e sua participação como protagonistas
nocenário deviolência urbana da sociedademoderna.
Através de algumas matrizes teóricas do pensamento
psicanalítico freudiano, tais como: Complexode Édipo,
Ideal de Ego, Superego, serão feitas considerações a
respeito do excesso de gozo e a ausência da lei que
permeia o nosso atual momento histórico e suas
influênciasnoquetangeviolência.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
U N ITE R M O S : V iolência U rban a –
A dolescência -
R espon sabilidad e
P sicosoc ial
Atu alm en te, som os co n fro n tad os ca d a v ez m a is com situa ções d e vio lên cia
urb an a q ue têm co m o p ro ta gon ista s p rin cipa is: o s ad olescen tes.
As in stituiçõ es so cia is q u e con stituem a n o ssa so cieda d e d em on stra m
cla ra m en te em sua s a titu des - o n ã o sa ber o q u e fa zer de form a co n creta e
a rticula da fren te a esta realida de.
Ta l a firm a çã o n ã o n ega q u e h a ja in cu rsões d a so cieda d e o rg an iza d a n a
ten tativa de reso lver esta situa çã o, a p en as po n dera q ue a in d a é p reciso um a
a tua çã o m a is profun da sob re o gru po socia l a do lescen te.
As a çõ es d evem ter com o a lvo à s ca usa s e n ã o os sin tom as, o rigo r m o ra l
com o ún ico in strum en to d e a tua ção n o co m p orta m en to vio len to do s
a do lescen tes pro voca u m a lh eam en to d a dispo siçã o in stin tua l, resu lta n do
n o s fen ô m en o s rea tivo s de deso rd en s n eurótica s.
A essência m ais pr ofunda d a natureza hum ana consiste em im pulsos instin tuais de
natureza elem entar (...) E m si m esm os, esse s im p ulsos não são nem b ons nem m aus.
Classific am os esses im pulsos seg und o sua relaç ão com as necessidades e as
exigências da com unid ade hum ana.1
Pa ra q u e realm en te possa m os a g ir efetiva m en te e em determ in ad o fen ôm en o
de n atu rez a psico ssocia l, é d e sum a im po rtâ n cia a reflexã o p rofun d a de su a s
ca usa s, p a ra po steriorm en te in tervirm os n os sin to m a s a cu rto , m édio e
lon go pra zo .
D e ve m os ter cl aro q u e qu e stõe s re la tiva s a sta tu s, c la sse soc ia l, be ns d e
c on su m o, e sté tic a, é tic a , a rte , e sp o rte, p olític a , le i, e c on om ia ,
e d u ca ç ã o, bio lo gia , p siqu e , m erc a d o d e tra ba lho , fa m íl ia , m íd ia ,
história , re lig iã o, a fe tos, de sa fe tos, se xu a lid ad e e e sta d o a fe ta m a
vivê nc ia e a c o nstitu iç ã o
1
A D esilusão da G uerra, S.E., XIV , p.317.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
afeto s, desafeto s, sex ualid ad e e estado afetam a vivência e a co nstituição d o
ser a d olescente.
O s ad olescentes rep resentam um percentu al da so cied ade b rasileira que
po ssui form as específicas d e com p ortam ento, dem andando um apo io e um a
atenção esp ecial, para o d irecio nam ento equ ilib rad o da transição d o ser
criança-ado lescente-adu lto.
O co nhecim ento desta fase pertinente a u m a etapa do desenvo lvim ento
hum ano está sujeito às variações histórico -culturais, po rém , não perde a
criticid ad e quanto a d im en são d o conflito ex istencial p eculiar a u m p erío do
de transição físico , p síqu ico e so cial.
As transform açõ es do m und o glo baliz ad o d em andam do s ado lescentes u m a
velo cid ade na adaptação às constantes m u danças da realid ade, ob rigand o-o s
a fazer escolhas sob re su a cond uta d e vida. Po rém , ao m esm o tem po em que
estas escolhas são feitas, os com p on en te s vulneráveis desta fase se to rnam
evid entes e p assíveis d e m anip ulação social.
A sociedade glob aliz ada, co m su as prerrogativas, cria um d esco m p asso d as
aspiraçõ es d os ad olescentes frente às instituiçõ es so cializ ad oras, envo lvend o
am b as as partes em conflito s qu e resultam na deso rientação , em busca de
valo res e referenciais, o casionand o com po rtam ento s extrem os e
con traditório s de co nvivência e o rg anização so cial.
E sta m ud ança radical d os cód ig os d e co nvivência em que estam os im erso s e
a inversão d e valores provo cam colapso s p síqu ico s em to da a coletividade.
Nem se deve constituir surpresa que esse relaxamento de todos os laços m orais en tre
os ind ivíduos coletivos d a humanidade deva ter r epercussões sobre a mor alidade dos
indivíd uo s.1
Nesse sentid o, a vio lência urbana é u m ex em plo destes colapso s,
representam inscriçõ es d e co nflito no im aginário ado lescente.É ex pressão e
con seqü ência d e u m a p ato lo gia so cial, e através d e su a intensidad e,
po dem os identificar a deso rd em da vida psicosso cial.
E ste co ntexto dem and a a necessid ade d e se criar um esp aço, o nde o s
sujeito s d a so cied ade encontrem um tem p o p ara o recolhim ento e a reflex ão
em p rofund id ade d e suas p ró prias exp eriências individ uais e coletivas no
que diz respeito à ad olescência.
1
A Desilusão da G uerra, S.E ., X IV , p.312.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
E ssa fo rm a de ag ir resultaria profícua, princip alm ente na p ro du ção d e novas
perspectivas p ara lidar com a subjetividad e d os ado lescentes frente ao s
paradigm as d a m od ernidad e.
A P sicanálise sendo um a área d o conhecim ento, que b usca refletir e
entender o co m po rtam ento hum ano , d eve prom over, a p artir d e su as
m atriz es teó ricas, co nhecim ento s que visem m ino rar co nflitos e confro nto s
que pro m o vam a d esag regação so cial.
Para o criad or e fu ndado r da P sicanálise, F reu d, o “C om plex o d e Éd ip o” é a
princip al articulação estru tu rante do psiquism o hu m ano.
N a sua infância, os seres hum an os não po ssuem sentid o de m o ral e nem
interd itos em ocionais que sejam eficientes no controle d as d em and as d o
Id. Esta função é ex ercida inicialm ente pelas figu ras p arentais. N o decorrer
de seu d esenvolvim ento psíquico oco rre a vivência d o co m plex o de É dipo ,
fase em qu e se d á o pro cesso de identificação e as escolhas ob jetais.
Se o pro cesso de identificação o correu de fo rm a satisfató ria, o Su perego
com o um a instância parental, tam b ém o fo i. Po steriorm ente, o Su perego se
afasta das figuras p arentais p ara se ap ro x im ar e receb er influ ên cias d as
fig uras cu lturais, que tam b ém contrib uem p ara a sua form ação.
C o m a equ ilib rad a resolução d o com plexo d e É dipo , a criança tem inserid o
em sua p siqu e a cu ltura. E la aband on a o princíp io d o prazer e aceita o
princíp io d a realidad e; garantind o a instauração do su perego com o
representante da m oral, d as leis, d as norm as, d os aco rdo s tácitos criado s ao
longo da vid a hum ana em so ciedad e.
A c ivilização foi alcançada através da renúncia à satisfaç ão instintual, exigindo ela,
por sua vez, a mesma renúnc ia de cad a recém -cheg ad o. No decorrer da vida de um
indivíd uo há uma substitu ição constante d a com pulsão externa pela in terna.1
A o rdem do sim b ólico é acessada, instru m ento de fund am ental im p ortân cia
na criação do s cam in hos pelos quais percorrerão o s seus desejos.
A so ciedad e m od ern a glob alizad a, infelizm ente, tem se caracterizad o po r u m
am b iente dicotôm ico n eg ativo: falta (d e lei) e o excesso (go zo), criando u m a
pred ispo sição para rup tura do p acto edípico , p ro piciand o o ressu rgim ento do
recalcado .
A p artir d este referencial, o ad olescente enco ntra-se em um a situação
fertilizad ora d e traum as: a v ivência p lena d os d esejos sem o
recon hecim ento d a d iferença e d a alterid ade.
1
A Desilusão da G uerra, S.E., XIV , p.319.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
O d ique d o recalque rom pido libera um a g rand e e fo rte correnteza de pu lsõ es
con tidas, p red isp ond o o surgim ento de co ndições intra e extrap síqu icas para
a instauração do com po rtam ento vio lento em so cied ade.
O s im pulsos primitivos, selvagens e maus d a hum anidad e não desapareceram em
qualquer de seus membros individuais, m as pe rsistem, num estad o reprim ido, no
inconsciente e aguardam as oportunidades par a se tornarem ativos mais uma vez 1
A nossa sociedade precisa garantir com equidade e alteridad e o s direito s
civis, sociais e po lítico s, p ara oferecer u m a vid a d igna ao s sujeito s qu e a
con stituem .
Sem tal feito, à co esão e a integração d o tecido so cial não oco rrerá, p ois não
haverá valo res d e co nsistência m o ral e é tica qu e estruturem o ideal d e ego
da socied ade. N a ausência d este id eal de eg o, a referên cia de id entificação
entre o s sujeitos não se fará p ro m o vendo a d esag reg ação .
A violência u rb ana é a fo rm a perversa d e protesto d os ad olescen tes à esta
situ ação : o falecim ento e a usurpação d os d ireito s civis, so ciais e p olíticos.
M esm o assim , as institu içõ es socializadoras têm qu e ser p reservadas. N ão se
po de som en te criticá-las sem ap re sentar alternativas institucion ais
con strutivas.
E xistem muito mais hipócritas cultur ais do que homens verdad eiramente civilizados
(...) a manutenção da civilização, mesmo numa base tão dúbia, for nece a perspec tiva
de, a cad a nova g eraç ão, preparar o c aminho para uma tr ansfor maç ão de maio r
alcance do instinto, a q ual será veículo d e um a civilizaç ão m elhor.2
Se nos in titulam os “So cied ad e O rg anizad a” d evem os tom ar consciência do s
efeito s d estru id ores da om issão m oral em relação à fo rm ação p sico sso cial
do s nosso s ad olescentes, ou a errad icação da violência neste grup o será u m
m ero pro cedim ento id eológico destinado a encob rir a n ossa resp on sab ilid ade
social.
Para aqueles q ue ach am q ue esta realid ad e é n orm al, co m o p arte
in tegran te d o fruir evolutivo do s tem p os, só n os resta p arafrasear
G ilberto G il: - quem sabe J A N O 3 venha n os restituir a p ru dência, a p az e
a cap acid ade d e ver o futuro co m o co nseqüência d e um p assado . E ,
com o
1
Carta a Frederik Van E eden, S.E., XIV, p. 340.
2
A desilusão da Guerra, S. E., XIV, p.323.
3
Deus grego, que recebeu de Saturno o dom da prudência e de ver o passado e o futuro, é
aquele que preside os caminhos e traz a paz. CO MM ELIN, P. Nova Mitologia G rega e
Rom ana.Itatiaia Ltda.1997, Bhte, p.144.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
um Deus benevolente, nos livre do continuum da repetição e recordação,
elaborando de vez o rumo desta história.
SUMMARY
This present article brings reflections respective about
adolescents and their participation how main characters in
setting urban violence of modern society. Through some
teorics matrixes the psychoanalytic thought Freudian, such in
those cases: Oedipus Complex, Ego Ideal, Superego, will make
considerations respective enjoyment excess and the absence
of law that which our moment historic current and their
influences respect for violence.
UNITERMS:Urban Violence –
Adolescence - Psychosocial
Responsibility
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Sigmund. A Dissecção da Personalidade Psíquica. Vol. XXII, Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
Imago, 1997.
FREUD, Sigmund. Reflexões Para os Tempos de Guerra e Morte. Vol. XIV,
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund
Freud. Imago, 1997.
FREUD, Sigmund. A Dissolução do Complexo de Édipo. Vol. XIX, Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
Imago, 1997
Sobre o Autor
Ricardo Falcão – Sociólogo – Psicopedagogo – Sexólogo e Psicanalista (NEPP)
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Culto ao Corpo, Anabolizantes e Adolescência
Valéria Trinchero
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Resumo: Sabe-se que, quando ingeridos sem indicação
médica, os esteróides anabolizantes causam efeitos
deletérios graves e até mesmo fatais. A facilidade de obtenção
destas drogas, aliada a idealização do corpo existente em
nossa sociedade, levou ao consumo de anabolizantes e pela
faixa de maior risco: a adolescência.
O presente estudo procurou discutir algumas questões acerca
da estrutura psíquica dos usuários destas drogas, e buscar as
modificações estruturais necessárias para perm itir o auto-
conhecimento e auto-aceitação, levando-os a com preensão de
que a perfeição, im posta pelo mom ento social vigente,é
ilusória e inatingível.
Unitermos: Adolescência – Anabolizantes - Estrutura
Histérica - Culto ao Corpo.
Introdução
Para a geração nascida entre as guerras, portadora de moral burguesa de
classe média, a preocupação excessiva pela musculatura e pela forma
corporal era vista com certo desdém, indício de um a inteligência escassa, ou
de um lamentável desinteresse por ocupações verdadeiramente importantes,
pelos valores espirituais, intelectuais, econômicos ou profissionais.
Porém, a vida sedentária e cômoda do homem moderno, seus vícios de
alimentação tem m ostrado seus efeitos adversos. O exercício popular
regularizado se converteu em necessidade, em um mecanismo de regulação e
com pensação homeostática de uma cultura voltada paradoxalmente para o
mínimo esforço corporal. Grande parte do progresso do século XX nos trouxe
economia de movim entos. Por um lado, muito do desenvolvimento econôm ico
e do avanço tecnológico e científico teve como meta maior com odidade, por
outro lado, os seres humanos se viram obrigados a inventar toda uma
cultura de novas ocupações e atividades que lhes permitam reativar ,em
seus hem isférios cerebrais, todos os movimentos que sua capacidade de
abstração havia economizado.
É difícil, entretanto, processar a dupla mensagem de uma civilização
esquizóide, que primeiro nos envolve e seduz com a magia de artefatos que
reduzem ao m ínimo nossa atividade corporal, oferecendo um clim a de
sedentarismo e repouso, para logo nos obrigar a consumir freneticamente
toda esta energia que havíam os economizado.
Em nossa sociedade, a aparência física, tem sido determinante no modo
com o as pessoas são vistas em seu meio social. A escravização a padrões
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
de beleza impostos por uma sociedade esquizóide, tem sido um dos fatores
associados ao aumento da incidência de transtornos dismórficos (anorexia,
bulimia, vigorexia ) e conseqüentemente ao uso de drogas que possibilitem
alcançar o corpo ideal – esteróides anabolizantes, anorexígenos,...
A dissociação mente-corpo, que nos parecia superada, retorna com força
total se convertendo em obsessão pela perfeição das formas e doenças
psíquicas acompanhadas de grande ansiedade. A imposição maciça de um
ideal absoluto de perfeição do corpo tiraniza o sujeito e sua família, e conduz
ao empobrecimento da atividade psíquica, afetando o rendimento intelectual
tão importante para o êxito no campo escolar, durante o período da
adolescência. A sensação de músculos poderosos e tensos que lhes
pertencem, fazem cumprir, em seu interior, uma inefável sensação de
totalidade existencial.
O termo “Dismorfia Corporal” foi proposto em 1886, pelo italiano Morselli, e
significa um transtorno emocional, onde há sofrimento significativo, e uma
reiterada obsessão com alguma parte do corpo que impeça uma vida normal.
Quando o quadro todo se fixa na questão muscular, o transtorno se
denomina vigorexia ou transtorno dismórfico muscular. Freud descreveu o
caso do “Homem Lobo”, uma pessoa que apesar de ter um excesso de pelos
pelo corpo, centrava sua excessiva preocupação na forma e tamanho de seu
nariz.
Não é causalidade que o nome vigorexia rime com anorexia; as duas doenças
promovem a distorção da imagem que o paciente tem sobre si mesmo:o
anoréxico nunca se acha suficientemente magro, o vigoréxico nunca se acha
suficientemente musculoso.
Ambas podem ser consideradas patologias do narcisismo, que se
caracterizam pelas exigências arcaicas sobre o self, dependência desregrada
de aclamação por parte de outros e relações objetais más, ou deterioradas.
Manifestam-se por um senso de ter direito a tudo, uma incansável
perseguição da auto perfeição e o prejuízo da capacidade de ter interesse,
empatia e amor pelos outros.
Os sintomas de vigorexia se evidenciam pela insatisfação com o corpo e pela
obsessão em tornar-se musculosos. Essas pessoas olham-se constantemente
no espelho e, apesar de musculosos, podem ver-se enfraquecidos ou
distantes de seus ideais. Para alcançar estes ideais o sujeito abandona suas
atividades e se isola numa academia dia e noite. Temos então, o risco de
usarem anabolizantes, mesmo quando alertados quanto aos graves efeitos
colaterais.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
A Estrutura H istérica com o Fator Predisponente aos Transtornos
Dism órficos
Atualmente o conceito de h isteria tornou-se anacrônico. O quadro foi
fracion ado em vários outros m ales – depressão, angústia, conversão,
transtornos alimentares – nos quais não se reconhece um a unidade, o que
gera um tratam ento m edicamentoso e sintomático, levando em consideração
apenas o sintom a dom inante.
Nos dias de hoje, não vemos mais a histeria com a força diagnóstica de
outrora, talvez por sua plasticidade e sua capacidade de transformação, a
patologia tenha derivado dos conh ecidos quadros clássicos para
manifestações “atípicas” que não são sequer reconh ecidas por nossos
colegas.
A histeria sempre existiu e acom panha o homem desde o inicio da
civilização. Descrições de quadros histéricos são encontrados nos papiros
egípcios que datam de 4 mil anos, como o de “kahun”. Ataques aparatosos
são raros, restam hoje as “crises de nervos”, estados de angústia, de cólera e
agitação, que se apresentam com o uma insatisfação generalizada com o
viver.
A religiosa dedicação ao exercício, a quantidade de pessoas que se
submetem repetidamente a todo tipo de dietas, correm, fazem “aeróbica”,
yoga, nadam , andam de bicicleta, nos leva a pensar numa possessão do
corpo, tal qual os casos de histeria coletiva em épocas passadas, onde o
corpo forçava sua aparição através da possessão das Ménades, frenéticas
seguidoras de Dionísio. O incessan te m ovimento de repetição reaparece nas
academias como forma de “esculpir” o corpo.
Do ponto de vista social, pessoas com estrutura histérica são vistas como
norm ais e valorizadas como extremam ente sedutoras. Academ ias de
ginástica, consultórios de medicina estética e de cirurgia plástica estão
abarrotados de nossos adolescentes, tentando seguir um padrão imposto
pela mídia de perfeição das form as.
Geralm en te nutrem uma intensa rejeição pelo próprio corpo, entrando em
con flito toda vez que se olham no espelho. A problemática fundam ental,
assim como na histeria, é a má relação com o próprio corpo, com sua
sexualidade, com seus instin tos, enfim, com sua própria natureza. Para
seguir o modelo vigente na sociedade e alcançar as “graças” de um corpo
“sarado”, tudo se torna lícito – anabolizantes, moderadores de apetite, dietas
restritivas,...
Podem os pensar então num processo de estruturação patológica ideal de
ego/ego ideal afetando e redirecionando o fun cionam ento psíquico em
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
torno da auto -imagem e da auto -estima, alterando o processo de aceitação
do próprio corpo pelo adolescente.
Histórico dos Anabolizantes
O uso de substâncias para melhorar o desempenho do atleta é descrito
desde a antiguidade. Filistrato e Galeano referem, em sua época, que os
competidores olímpicos ingeriam testículos de touro –ricos em testosterona-
para melhorar suas marcas.
Os esteróides anabolizantes são derivados da testosterona e foram
sintetizados em 1935, para fins terapêuticos, tendo as seguintes indicações
médicas:
- Deficiência de testosterona
- Câncer de mama
- Anemia aplástica
- Edema de origem indeterminado
- Tratamento da Síndrome de Turner
- Estímulo do crescimento em caso de puberdade tardia em
homens.
O uso não terapêutico dos anabolizantes tem sido descrito desde 1950, por
atletas profissionais e amadores, com objetivo de aumentar a massa e força
muscular. Atualmente, este uso está sendo divulgado entre “não atletas”
visando aumentar habilidade e atuação atléticas e, principalmente melhorar
a aparência física.
No Brasil, a facilidade de obtenção dos anabolizantes favoreceu seu uso. A
grande atração, para o consumo destas drogas, se fundamenta nos seus
efeitos visíveis e relativamente duradouros (cerca de nove meses após o
término da ingestão). Estas duas características somadas ao apelo, a
aparência física, existente em nossa sociedade, levou ao aumento do
consumo de esteróides pela faixa etária de maior risco : a adolescência.
É importante ressaltar, que a aquisição destes produtos é feita dentro das
próprias academias, e que a indicação e a venda das drogas é feita pelos
próprios instrutores, que se vangloriam do ganho de massa e força muscular
de seus alunos.
Numa tentativa de diminuir o uso de anabolizantes, em 1990, os EUA
tornou-os “medicamentos controlados” o que gerou, na verdade, um grande
mercado negro deste produto sem obter a redução de uso desejada
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Definição de And rógenos
Os testículos secretam vários hormônios sexuais
masculinos, coletivamente denominados andrógenos,
incluindo a testosterona, diidrotestosterona e
androstenediona. Todavia, a testosterona pode ser
considerada como o hormônio testicular fundamental.
A testosterona é responsável pelas características peculiares do corpo
masculino, incluin do o crescimento do pênis e bolsa escrotal ,
desenvolvimento da glândula prostática, vesículas seminais e ductos genitais
masculinos. Outras funções da testosterona são:
- Estimular descida dos testículos para a bolsa escrotal;
- Aum entar pêlos sobre o púbis, face e peito;
- Dim inuir o crescim ento do cabelo no alto da cabeça gerando, às
vezes, calvície;
- Hipertrofiar a mucosa da laringe e aumentar este órgão
ocasionando, inicialm ente voz discordante e após a voz grave
masculina;
- Aum entar a espessura da pele em todo o corpo;
- Aum entar o índice de secreção das glândulas sebáceas,
principalmente na face, resultando em acne;
- Aum entar a espessura dos ossos;
- Aum entar o índice metabólico basal;
- Aum entar o número de hem ácias por m l de sangue;
- Aum entar a reabsorção de sódio pelo rim.
Muitos dos derivados da testosterona foram preparados e testados na
procura de com postos que pudessem prom over o crescim ento geral do corpo
sem produzir efeitos m asculinizantes. Estes com postos são denominados
esteróides anabolizantes. O grau de dissociação dos efeitos androgênicos e
anabolizantes dos vários compostos depende dos bioensaios utilizados e,
com freqüência é assunto de discussão. A própria testosterona é um dos
mais potentes esteróides anabolizantes e , atualmente, é im possível separar
totalmente as duas funções.
No entan to, seria muito desejável ter compostos anabolizan tes que não
fossem androgênicos, pois isto torn aria possível o seu uso em m ulheres sem
induzir a masculinização, e em crianças sem causar efeitos indesejáveis
sobre o desenvolvimento sexual e crescimento ósseo.
Mecanismo de Ação dos Esteróides Anabolizantes
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Os anabolizantes são conhecidos pelo seu potencial de m elhorar o
desem penho do atleta, o que seria resultado de diferentes ações com binadas,
nem todas conhecidas.
As ações conhecidas atualmente são :
- Efeito placebo : efeito a nível psicológico pelo fato de usar uma
droga que “melhora” o seu desempenho;
- Estimulação do sistema nervoso central : produz efeito
eufrorizante diminuindo a sensação de fadiga durante os treinos;
- Efeito anti-catabolizante : diminuem a ação catabólica dos
corticosteróides liberados durante o stress diminuindo a perda de
massa muscular;
- Aum entam a utilização da proteína ingerida.
Efeitos Colaterais
O uso de esteróides anabolizantes com fins estéticos é
injustificável devido aos seus inúmeros efeitos colaterais;
são associados a várias alterações indesejáveis, clínicas e
psíquicas. A ocorrência de efeitos colaterais fatais ou
potencialmente letais é rara, apesar de existirem tais
relatos na literatura médica principalmente com as drogas
de uso por via oral.
Os efeitos colaterais, m ais comuns, tendem a serem reversíveis com a
interrupção de seu uso, com exceção para as mulheres e crianças incluindo
os adolescentes.
Pela variedade do padrão de uso dos anabolizantes e a escassez de estudos
sobre seu uso prolongado não há como assegurar a ausência de efeitos
colaterais, nem prever o aparecimento e gravidade destes.
Efeitos sobre o sistema cardiovascular
Os anabolizantes alteram o metabolismo do colesterol, dim inuindo a
lipoproteína de alta densidade (HDL), e aumentam a lipoproteína de baixa
densidade (LDL) com conseqüente aumento do risco de doenças
coronarianas.
Alguns estudos referem aumento significativo da pressão arterial.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Efeitos sobre o sistema reprodutor
Alteram-se os níveis de hormônios sexuais pela baixa de hormônio folículo
estimulante (FSH) e hormônio luteinizante (LH). Nos homens pode ocorrer:
hipertrofia prostática, atrofia testicular e esterilidade por diminuição da
espermatogênese. Estas alterações são reversíveis com a interrupção do uso
das drogas. A ginecomastia, que também ocorre em homens, nem sempre é
reversível.
Nas mulheres temos atrofia de tecido mamário, ciclos menstruais
irregulares, esterilidade, crescimento de pêlos com distribuição masculina,
hipertrofia de clitóris, Os dois últimos efeitos descritos –efeitos androgênicos-
são irreversíveis.
Efeitos sobre as enzimas hepáticas
Leva a alterações nos testes de função hepática, icterícia, peliose hepática e
tumores hepáticos. Em alguns casos, os efeitos são reversíveis com a
interrupção do uso dos anabolizantes.
Efeito sobre as crianças e adolescentes
Nas crianças e adolescentes, os esteróides anabolizantes causam fechamento
prematuro das epífises ósseas, levando à maturação esquelética precoce e,
conseqüentemente, baixa estatura, puberdade acelerada, levando também a
um crescimento raquítico.
Outros efeitos colaterais
Vários são os outros efeitos indesejáveis incluindo calvície, acne, policitemia, exacerbação da
apnéia do sono e estrias. Temos maior tendência à lesões do aparelho locomotor, pois as
articulações não estão aptas para o aumento da força muscular. Além dos descritos acima,
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
aqueles u su ários que injetam esteróides anabolizantes, ainda correm o risco
de compartilhar seringas e contam inar-se com o vírus da A IDS ou hepatite,
dentre ou tros.
É sempre bom ter em mente, que a hipe rtrofia mu scular associada à acne,
ginecom astia e estrias estão presentes em um terço dos usu ários de
esteróides anabolizantes.
Para minim izar os efeitos colaterais ou potencializar os efeitos dos
anabolizantes, seus usu ários costumam lan çar m ão do u so de ou tras drogas
também preju diciais - analgésicos, horm ônio do crescim en to, insu lina,
gonadotrofina coriônica.
Efeitos sobre o psiquismo
Os esteróides anabolizantes são drogas psicoativas que podem alterar o
psiquismo de cada u suário de forma individual. Vários estudos têm
dem onstrado que 83 a 85% dos usu ários tiveram algum tipo de alteração em
seu psiquismo. A probabilidade desorde ns estruturais de ordem histérica,
pela própria plasticidade da patologia histeria, levem ao u so destas drogas
deve ser sem pre considerada.
De acordo com u ma pesquisa pu blicada na revista British Jou rnal of Sports
Medicin e, o consumo de anabolizantes provoca distúrbios de personalidade
significativos, com traços de paranóia, narcisismo e agressividade, entre
outros. Transtorno de personalidade é u m diagnóstico psiquiátrico que se
aplica quando, por exemplo, a pessoa exam inada se mostra com capacidade
diminuída de se adaptar ao meio. Apon tar a arm a contra a própria mãe,
chutar com pu lsivam ente carros estacionados, foram dois comportam entos
observados neste estu do.
O uso ilícito de anabolizantes tem sido associado a quadros de depressão,
mania sintomas esquizofreniformes, agressividade marcante, suicídios e
homicídios. Algu ns dos quadros não regrediram mesmo após a interrupção
do u so das drogas.Os resultados de outro estu do mostraram m aior
incidência de diagnósticos de psicose (12,2% ), mania (12,2% ) e
depressão(12,2% ), durante os períodos de uso, incluindo os três primeiros
meses após a interrupção do uso, qu ando comparados com períodos de não-
uso. Episódios depressivos típicos tendem a ocorrer mais nos três primeiros
meses de abstinência.
Nu m estu do realizado na un iversidade de Cape Town, África do Sul, as
alterações de personalidade são significativas, debilitando o fu ncionamento
pessoal e social dessas pessoas; elas destroem o relacionam ento que esses
usu ários tem com suas fam ílias. O traço de person alidade mais intenso era o
paranóico. Traços de personalidade narcísica (preocu pação excessiva consigo
mesm o e falta de empatia com
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
os outros) vieram em segundo lugar, e em terceiro os de personalidade
passivo-agressiva (desprezo pelas obrigações sociais, mas sem desafiá-las; a
resistência a elas é de forma dissimulada).
Potencial para causar dependência
Em 1980, foi levantada pela primeira vez a possibilidade dos anabolizantes
causarem dependência. Estudo recente mostrou que, todos os critérios
utilizados pelo DSM-III-R para diagnóstico de dependência foram
preenchidos, incluindo sintomas de abstinência, tolerância, perda de
controle do consum o e continuação do uso apesar do conhecim ento de
conseqüências deletérias. Os sintom as de abstinência podem se apresentar
com o humor depressivo, fadiga, inquietação, perda do apetite, insônia,
diminuição da libido e cefaléia. A prevalência da dependência varia de 14 a
57% conform e população estudada. Um dos fatores aparentem ente
associados à dependência é a distorção da percepção da auto-im agem com a
impressão de que “ nunca se tem músculos o bastante.”
Trabalhos mostram que, concom itantemente ao uso e abuso de esteróides
anabolizantes, há um consumo aumentado de outras drogas - álcool, tabaco,
maconha, cocaína, anfetam inas - principalmente em adolescentes. A taxa de
uso de drogas, entre amostras selecionadas de usuários de anabolizantes,
varia de 14 a 30%. O abuso do álcool é o mais freqüente, seguido do uso da
maconha.
Perfil do Usuário
No Brasil, não há estudos sobre incidência e prevalência do uso ilícito de
esteróides anabolizantes, mas sabe-se que o consumidor preferencial está
entre 18 e 34 anos de idade e em geral é do sexo masculino.
Nos EUA, foram realizadas algum as pesquisas com o objetivo de quantificar
o uso indevido de anabolizantes e verificou-se que, entre estudantes de
segundo grau 4 a 11% dos homens e 0,5 a 2,5% das mulheres já haviam
utilizado este tipo de droga. Estudos prospectivos comparando a prevalência
do uso de anabolizantes, ao longo dos últimos cinco anos, mostram que a
idade de início de consumo com objetivo de melhorar aparência e
desem penho esportivo, se situa entre 15 e 18 anos, ou seja, estudantes de
segundo grau.
Numa pesquisa feita em Nebraska, em 1991, com objetivo de avaliar a
distribuição dem ográfica, porcentagem de usuários e com portamento de
risco para uso de esteróides entre os estudantes de segundo grau observou-
se que:
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
- A incidência do uso de esteróides é maior no sexo masculino que
no feminin o;
- Nos últim os 30 dias, 2,5% dos estudantes relataram ter usado
an abolizantes;
- A maioria dos usuários são esportistas am adores;
- As razões apontadas para o uso são : melhorar desem penho
esportivo e aparên cia física.
Em 1994, nos EUA, foi estimado que mais de 1 milhão de jovens já teria m
feito uso de esteróides anabolizantes.
Conclusão
Os efeitos adversos à saúde física e m ental da ingestão, sem
indicação m édica, de esteróides anabolizantes estão sendo
cada vez mais docum entados na literatura. Ao conhecermos
a estrutura psíquica destes usuários, tornaremos possível a
prevenção desta adicção através de mudanças estrutuais.
Mudanças estruturais estão aqui conceituadas como
modificações dentro de cada um a das instâncias do
aparelho psíquico, que reduziriam conflitos entre estas
instâncias, abrandando as pressões sobre o ego, que se
tornaria m enos vulnerável aos apelos atuais de sedução
ambiental. Vivenciamos, atualm ente, época de intensa
sedução ambiental, onde a busca por formas corporais
idealizadas é vista como normal e saudável, não importando
os meios utilizados ou seus efeitos deletérios para alcançar
tais objetivos.
“Um indivíduo norm al, em um ambiente bom , tem um superego que o impulsione a
viver bem, satisfazendo o id em seus objetos exteriores. Criam-se assim, condições
favoráveis para que o ego possa realizar, sem contratempos, sua função executiva e
harmonizadora de exigências psíquicas. Em condições distintas, o ego, sem poder
modificar adequadam ente o am biente exterior, realizando o que se chama aloplastia,
tem que modificar-se a si próprio e a sua personalidade, quer dizer, fazer uma
au toplastia. Tem que enfrentar-se com a personalidade de que forma parte, ou seja,
com seu id e seu superego, empregando contra si os chamados m ecanismo s de defesa
do ego”.
SUMMARY
W hen are in gests with out medical prescription the steroids cause harmful
effects even fatal. The facility to get this
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
drugs with the idealization of body that exist in our
societybring to consume of the teen agers.
This study discuss some question s about psical structure of
the users and get the changes necessaries to lead to
knowledge h imself leading to comprehension that the
perfection is illusory.
UN ITERMS : Adolescen t - Anabolic Steroid – Hysterical
Structure – Body B uild
Referências Bibliográficas
1. Comitte on Sports and Fitness – Adolescentes and Anabolic Steroids : A
subject review – American Academy of Pediatrics (1997)
2. C ooper, C. J; Naakes, T. D. ; D unne, t. ; Lambert, M. I. ; Ford, K.R. ; - A
High prevalence of abnorm al personality traits in chronic use of
anabolic – androgenic steroids – British Journal of Sports Medicine.
Vol. 30, N 3, 246-250pp. (1996)
3. Gll, G. V. – Anabolic Steroids induced hypogonadism treated wthi h uman
chorionic gonadotroph in – Post G raduate Medical J ournal. Vol. 74, 45-
46pp. (1998)
4. Evans, N. A. – Gym and Tonic: Aprofile of 100 rales steroids use – B ritish
Journal of Sports Medicin e. Vol. 31,N.1, 54-58pp. (1997)
5. Goodm an e Gilman – As Bases Farmacológicas da Terapêutica – 6 Edição.
Vol.2, Cap.62, 1267-1282pp.
6. Guyton, A. C . – Tratado de Fisiologia M édica 7 Edição, 761-763pp.
7. Mac Indol, J. H .; Perry, P. J.; Yates, W . R.; H olman, T. L .; Ellingrad, V. L.;
Scott, S.D.- Testosterone Suspension of the HTP Axis– Journal of
Investigate Medicine Vol.45,441-447pp. (1997)
8. Monografia apresentada no curso de .pós graduação de Hebiatria da
Faculdade de Ciências Médicas de Minas G erais – Adolescentes e
Anabolizantes : Uma Prática de Risco Parenton i,J. N.; Castro, S. S.;
Trinchero, V. M. P.-(2000)
9. Neto, W . M. G. – Musculação- Anabolismo total
10. Schiwerin, M. J.; Corcoron, K. J.; Fisten, L.; Patersson, D.; Askew, W .;
Olrich, T.; Shanks, S. – Social Physique Anxiety , Body Esteem, an d
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Social Anxiety in Bodybuilders an d Self-Reported Anabolic Steroids Users –
Addictive Behavior,Vol21,N. 1, 1-8pp. (1996)
11.Scott, D. R.; W agner, J. C.; Bonlow, T. W. – Anabolic SSteroids Use
Among Adolescents in Nebraska Schools – Am erican Journal of Health
– System Pharmacy- Vol 53, N. 17,2068-2072pp. (1996)
12.Scviletto, S .; Releiros, A. R.A.S. – Anabolizantes entre esportistas : Uma
pratica sem riscos ? – Revista ABP- APAL Vol16, N.4, 136-142pp.(1994)
13.Wrobleviska, A. R. – Androgenic-Anabolic Steroids and Body Dismorfia in
Young Men – Journal of Psycosomatic Rexand Vlo.42 n .3 225-234pp.
(1997)
14.Yater,Rachel; Reed,Charles; Ulrich,Irm a; Monise,Anthony;
Borach,Mark; - Resistance Traum ed Ath lets Using on Not Using
Anabolic Steroids Compored to Runners : Effects on Cardiorespiratory
Variables, body Composition and Plasm a Lipids – Brithish Journal of
Sports Medicine Vol. 30 N. 1 11-14pp. (1996)
Sobre o Autor
Valéria Trinchero – M édica Pediatra – H ebiatra - Psicanalista (NEPP)
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
FRÁGUA – FREUDIANA
Frágua: do latim fábrica
Forja, fornalha.
Oficina de ferreiro e outros; artífice.
Fig. Autor, inventor.
Sigmund Freud nos deixou um legado, que foi construído em
uma fornalha e, hoje, após mais de um século, encontra-se mais
atual que nunca.
O NEPP propõe uma continuidade da Frágua
Freudiana, no sentido de forja, que é uma oficina,
onde Freud como artífice, criou Psicanálise.
Mediante as transformações sociais, culturais e
econômicas, os códigos de valores são alterados,
logo, essa instituição visa trabalhar dentro de uma
realidade, apresentando uma Psicanálise de
brasileiros para brasileiros, acompanhando a
velocidade das mudanças, que é bastante
expressiva.
Sérgio Costa
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Introdução e Fundamentos de uma Sociedade de Espetáculos
Sérgio Costa
O nosso temário propõe uma introdução sobre o que nos parecem ser os
“fundamentos”, os pontos básicos do pensamento freudiano. No entanto, antes
dos fundamentos freudianos sobre a neurose com pulsiva obsessiva, m e parece
útil colocar alguns conceitos próprios, para que se possa saber de que ponto de
vista falamos e acompan har a nossa contribuição.
Referindo-se ao item Introdução, onde fala-se de pontos ideológicos, formas de
leitura, objetivação e aplicação das teorias freudianas, a nossa equipe, que
nasceu com o propósito de estudar Freud, na sua essência, vem ressaltar a sua
prática, aliada ao nosso m entor Prof. Sérgio Costa: o idealismo de uma
Psicanálise, sem perder o pilar central do nosso grande m estre Sigm und Freud,
com uma leitura e uma ideologia própria elaborada por brasileiros para o povo
brasileiro.
Não queremos banalizar a estrutura psíquica do homem, n em tão pouco a
descrição do “meio”, que por sua irracionalidade seria o principal fator etiológico
da neurose. No fundo, filiado ao determinism o que repousa sobre o indivíduo
ingênuo, por um lado, e a sociedade do outro, que o influencia de form as e graus
variados, ignorando que o indivíduo é, em si, um produto social, assim como
ignora o próprio conflito indivíduo-sociedade.
Quanto mais profundamente a Psicanálise sonda as zonas inconscientes do
sujeito analítico, mais, nós psicanalistas, nos assustamos quando percebem os
com o os m ecanismos sociais produziram a individualidade. Sob um m anto de
culpa que o encobre, esse sujeito se traduz em sintomas obsessivos que, aliás, o
Estado estimula, mas em contrapartida, não consegue manter um a boa política
de saúde mental, para aplacá-los, contribuindo assim para o caos em que
vivem os.
Concluím os que quanto m aior a aplicação de categorias sociológicas e
psicológicas, mais superficial se torna a interação entre o psiquismo e o social. A
estrutura contraditória da sociedade é vista em term os moralistas. A concorrência
aparece como o prin cípio dominan te da esfera social, e dela derivam os con flitos
psíquicos. Segundo H.Horney o narcisista se caracteriza por um a
sobrevalorização do ego, por uma espécie de inflação psíquica que, como a
inflação econ ômica, oferece valores superiores aos que de fato existem .
E não foi o que acon teceu neste último carnaval em BH? Nem o prefeito, nem
tampouco o nosso governador se sensibilizaram com o fracasso do nosso
carn aval, impedindo até o desfile da Banda Mole, evento que acontece (ou
acontecia) há mais de 20 anos n a cidade sendo, portanto, tradicional. Soldados
da PM foram colocados nas ruas para impedir a livre expressão de alegria (aliás,
bem pouca ultimamente) do povo belorizontino. Tudo em nom e da “boa família”
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
mineira?! Mas, no entanto, nosso “pai totêm ico” expressou a sua alegria (e como!)
desfilando na Sapucaí. Assistindo pela tv, lembrei-me daqueles pais, que tantas
vezes deparo nos relatos de pacientes, os quais gastavam com a cerveja nas rodas
de amigos, m as que nunca tinham dinheiro para um chocolate pro filho e, até
mesm o, nem sequer lembravam ou se preocupavam.
E é aqui que se encon tram os destinos do desejo: num a direção marcadamente
exibicionista e autocen trada, que tem como contrapartida o esvaziam ento do
intersubjetivo e o desinvestim ento nas trocas inter-humanas. Esse é o trágico
cenário para a im plosão e a explosão da violência que m arcam a atualidade.
No que se refere aos fundamentos de uma sociedade de espetáculos, no seu bojo
narcísico, o individualismo e o autocentram ento atingiram seu ponto m áximo,
com o conseqüente apagamento da alteridade e da intersubjetividade ao lado de
um en altecim ento exacerbado de si m esmo.
A identificação da massa com o líder é obtida através da técnica de identificação,
mesm o que parcialmente, do líder com a massa. A idealização é uma forma de
narcisismo: o objeto idealizado é parte do próprio sujeito e, amá-lo significa amar-
se a si mesmo. A relação entre a massa e o seu pai totêm ico segue o mesm o
padrão.
Estam os na terceira capital do Brasil, mas com uma população individualista e
perdida...
A relação indivíduo-líder é assim com o um jogo de espelhos: não se sabe o que é
real e o que é reflexo. E a identificação do indivíduo com o líder, que se torna pai
totêmico, parece representar a outra face da identificação do líder com o
indivíduo.
O rito tem sua origem no prazer infantil com a repetição (fase anal) de sons e com
a articulação de palavras, qualquer que seja o seu sentido e, principalmente, nas
atitudes do pai. Neste estágio a criança descobre que não tem ego e tem que
tentar lidar com isso.
A indústria cultural põe a arte a serviço da vida, e isso implica o estím ulo da
capacidade criativa. Sua poética tende não somente à im itação do real, mas à
fusão com o real.
E o que tem sido estimulado, nos últimos tempos, é a pulsão de morte, repressão
e recalque como expressão da vida; é cada um pra si e por si; só se estimula “eu
para eu mesmo”; o narcisismo acima de tudo; “eu posso tudo”, “eu sou o
máxim o”.
Freud distingue a projeção do patológico da projeção do norm al. A projeção do
norm al permite ao sujeito diferenciar entre a própria contribuição e a do real, na
estrutura do objeto percebido, num certo sentido, toda a percepção e projeção. O
mundo dos objetos é constituído pela im pressão recebida pelos sentidos,
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
acom panhado pelo trabalho de reflexão, no qual o sujeito elabora deste material
de descaso. De um a cidade que não tem o que fazer no carnaval, só pensa nos
impostos a pagar e em trabalhar...
Na cultura do narcisism o e na sociedade do espetáculo, a fragm en tação da
subjetividade pelo paradoxo entre autocentramento e exterioridade, ocupa
posição fundamental. Trata-se de uma nova forma de subjetivação, por m eio da
qual são forjadas outras modalidades na atualidade, o que con stitui o
fundamento da atual psicopatologia.
A psicopatologia da pós-modernidade define-se, justamente, pelo fracasso de
muitos sujeitos deprim idos, toxicômanos e pan icados, em realizar a glorificação
do eu e a estetização da existência. Essas patologias têm recebido maciço
investimento financeiro de grandes laboratórios farmacêuticos internacionais,
para a realização de pesquisas, predom inantemente, de ordem biológica e
psicofarmacológica. Deixa de olhar o m undo dos objetos, os sentidos humanos e
suas implicações.
Freud descreveu com o nom e de “W iederh olungrzway” a com pulsão de repetição:
o processo incoercível pelo qual o sujeito repete, interminavelm ente, experiências
passadas sem se recordar do protótipo, com a im pressão de que percebe e age de
acordo com elementos da situação presente.
E nessa frágua freudiana, nós como membros do N EPP, pensamos numa
Psicanálise para brasileiros, pois tem os uma cultura fundamentada em pequenos
burgueses narcisistas, que só pensam em si próprios, e em uma forma de cada
vez m ais humilhar e rechaçar àqueles que os elegeram. Afinal, não souberam
votar ou faltou-lhes um outro que pudesse honrar e zelar pelos seus filhos, já
adoecidos por um ethos social.
Quero ressaltar que Freud busca o “sentido principal”das compulsões e
proibições obsessivas, que passa por bom tempo despercebido com a ação do
mecanismo de deslocamento psíquico.
Esse movimento de substituição de sentido, conforme o texto de Freud de 1907, é
o que nos perm ite diferenciar, com a utilização da técnica psicanalítica de
investigação do inconsciente, o ato obsessivo do ritual religioso. Será que é por
isso que o chavão perm anece, “A família Tradicional Mineira”?
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Psicanálise e Direito de Família
Sérgio Costa
Irani Araújo
Maira Teixeira
“Para o psicanalista francês Jacques Lacan, a fam ília não se constitui apenas de
um homem, uma mulher e filhos, ainda que casados solenemente. Ela é antes de
tudo, uma estruturação psíquica, onde cada um de seus mem bros ocupa um
lugar definido. Lugar do pai, da m ãe e dos filhos sem, entretanto, estarem
necessariamente ligados.”
Levando em consideração que a família é uma organização cultural, o lugar do
par parental é de extrema importância, não tendo por isso obrigatoriedade que
essa ligação seja consangüínea .
Sem a estrutura, onde o indivíduo possa existir com o cidadão e, onde há um
lugar definido para cada mem bro, o indivíduo seria psicótico. Por relações
inadequadas ou insatisfatórias, podemos pensar nas patologias que apareceram
em diversas fases do desenvolvim ento da criança e quando se tornar adulto. É aí
que se estabelecem as leis psíquicas. Quando estas se ausentam, faz-se
necessária a lei jurídica para sobrevivência do próprio indivíduo e da sociedade.
PSICANÁLISE E DIREITO DE FAM ÍLIA
Dra Maira de Melo Teixeira, advogada e mem bro de NEPP (Núcleo de Estudos e
Pesquisas Psicanalíticas) relata:
“Em m ais de vinte e sete anos de militância na área jurídica, em especial na
área de família, transcrevo aqui a minha experiência, que ao mesmo tempo
em que muito ajuda nas lides familiares, tam bém nos angustia e oprim e, ao
vermos agressividade, imaturidade, e desam or entre os cônjuges. Por m ais
que o advogado se esforce para que o processo de separação não seja uma
tarefa árdua, e para não se deixar atingir pelas ações que patrocina, o
profissional do direito lida com o sentim ento mais profundo das pessoas e
torna-se inevitável tal envolvimento.
O que se vê, na maioria das vezes, nas causas de família, em especial nos
casos de ‘separação/divórcio’ são duas pessoas se agredindo, se ferindo,
desrespeitando uma a outra. A partilha dos bens, a guarda dos filhos, uma
verdadeira batalha jurídica e judicial, com cad a parte querendo levar m ais
vantagem.
Tanto o pai quanto a mãe, na verdade, ‘usam’ os filhos para agredir o outro
genitor. Não se lem bram que, com tais atitudes, podem causar nos filhos, de
qualquer idade, recalques de difíceis e até impossíveis reparações.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Os progenitores, vítimas do avanço da causa feminista, perdem a afeição dos
seus filhos pela ação conjugada das mães emancipadas e dos juízes
impregnados de estereótipos ultrapassados. Assim, o destino desses pais é
infeliz, pois foram ejetados, desestabilizados, desvalorizados, sob efeitos
nefastos de sua exclusão da tríade parental sobre o desenvolvimento dos
filhos.
O resultado do afastamento da figura paterna, do representante das leis na
estrutura familiar:- filhos “perdidos”, drogaditos e entregues à
marginalidade.
Cumpre ressaltar, que todos nós, profissionais do Direito, que militamos
amiúde na área de família, podemos sim, e muito, contribuir para uma
melhor solução das ações familiares, desde que aliados à Psicanálise,
considerando que somos seres de desejo, e este não é legislável. Além do
que, todas as relações são regidas, também, pelo inconscientes. Dessa
forma, pra efetivarmos a lei e ‘afetivarmos’ o desejo, nosso trabalho deverá
buscar sempre o interesse dos seres humanos, dotados de sentimentos e
emoções, e uma equilibrada convivência futura da família, após a
separação/divórcio. Essas medidas têm que envolver os poderes
constituídos, especialmente a justiça e os profissionais que nela atuam.
Que a separação conjugal possa dar lugar a uma vontade vital de
renascimento e uma nova aliança entre os amantes desunidos. Tudo isto em
prol dos pais excluídos, nos interesses de mães abandonadas, mas acima de
tudo no real interesse dos filhos ‘fragmentados’.”
Além do exposto pela Dra Maira, acrescentaríamos que não podemos esquecer
que a família sempre existiu. O que muda é a sua constituição, num conceito
mais amplo. É preciso entendê-la acima da história:
1. Hoje a família está diferente. Isso se deve a busca pelo espaço de
liberdade;
2. Os vínculos familiais não fogem da natureza humana: amamos e
odiamos;
3. As relações familiares são complexas e sujeitas as normas afetivas,
sociais e jurídicas e, ainda, a elementos inconscientes.
O que mais nos deparamos em consultório são com as conseqüências de todo o
processo de uma separação, que ora atinge mais os filhos, ora mais os
progenitores.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
O Dr Walter Soares Oliveira, advogado, especialista em Direito de Família, relata
sobre as conseqüências afetivas proporcionadas pelo “Direito Disciplinador”, nos
indivíduos envolvidos em processo de separação/divórcio:
“Gostaria de ressaltar que o Direito não disciplina o comportamento humano,
mas sim normatiza as conseqüências do comportamento humano no que
tange às suas relações sociais, e cuida de dirimir as controvérsias de
interesses (quase sempre antagônicos) decorrentes do comportamento e das
relações dos cidadãos.
As conseqüências emocionais e afetivas têm uma diversidade muito grande,
variando seus reflexos de pessoa para pessoa. Em geral o rompimento de
uma relação conjugal é precedida de uma perda expressiva de energia, pois
o clima tenso de uma relação em fase terminal provoca grandes tensões e
inseguranças.
Esta perda de energia costuma ter longa duração porque ela acompanha
todo o processo, ou seja, desde quando uma relação começa a se deteriorar
até o dia que se põe fim ao problema pelas vias judiciais, demora muito,
porque costuma, via de regra, ocorrer uma longa espera e as pessoas não
tomam a providência necessária com brevidade, eis que há sempre uma
esperança de normalizar a relação e há também o fator “sentimento de
culpa” que envolve as partes, o que faz com que eles retardem uma tomada
de posição mais incisiva.
Neste momento as pessoas têm uma tendência a serem tomadas por
sentimentos, ações e reações passionais, tornando a questão muito
melindrosa e, enfrentar os fatos e a realidade de frente é sempre bastante
desagradável; por isto as pessoas têm também uma tendência a se
acomodar, deixando os acontecimentos irem determinando as providências, o
que acaba gerando muita ansiedade, agressividade (ou o contrário, a pessoa
fica passiva e desmotivada), gerando, de qualquer forma, um sofrimento
continuado. É como o autoflagelo.
Os adiamentos se devem, principalmente, ao sentimento de perda, de medo e
de insegurança. Perda de status, de patrimônio, porto, convívio; Medo de
assumir a sua dificuldade, o seu erro, de recomeçar, etc.
Neste processo de espera e de adiamentos, afora os danos causados ao
casal propriamente, os efeitos nos filhos também são bastante danosos.
Assim, procuramos sempre recomendar ao casal o diálogo racional,
estimulando-os através da percepção dos efeitos positivos que isto poderá
trazer, ou seja, a reconciliação ou a decisão definitiva da separação.
Quando esta proposta é feita com critério e ética às partes, quase sempre há
um bom começo, que pode ser do fim ou mesmo do reinício.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Ao longo de nossa experiência, percebemos que em muitos casos de
desentendimentos entre casais, os motivos estão ligados à competição entre
eles.
Entre as causas de competição, destaca-se o fato de um deles, geralmente a
mulher, após o casamento, continuar a manter relacionamento muito intenso
com a família de origem e as partes não conseguem administrar os conflitos
daí advindos. Nesta situação, com nosso esforço de reconciliação, que faz
parte de nossa atuação, a separação quase sempre não se efetiva, mas gera
excessivo desgaste da relação.
Em casais com problemas de relacionamento, um dos primeiros sintomas que
se percebe é uma brusca queda na auto-estima dos envolvidos, muitas vezes
em razão da frustração e o sentimento de fracasso que a separação gera nas
pessoas.”
Expressou, ainda, sua opinião sobre o Direito, com o ciência universalizadora das
questões éticas sobre a legalidade, se esta ocupa o necessário com a afetividade
do indivíduo, quando se trata da separação de casais, principalmente no que diz
respeito aos filhos.
“Nada, absolutamente nada. O excessivo volume de processos, faz com que
tudo ande a toque de caixa. O aspecto social e humano fica relegado a
nenhuma importância. A lei é fria e os juizes se ocupam apenas do aspecto
da legalidade e do processo. O Ministério Público que tem presença e atuação
obrigatória nos processo de direito de família, por sua vez, cuida apenas da
fiscalização da aplicação da lei.
As partes são tratadas apenas com um número de processo, com raras
exceções feitas para alguns juízes, que dotados de maior sensibilid ade com a
questão humana, dedicam alguma atenção a tal questão, mas isto acaba
sendo passageiro porque, com o tempo, ele também passa a se ocupar, tão
somente, do processo e não das partes envolvidas. É sistêmico.
Até mesmo a importante tarefa da tentativa de reconciliação das partes que,
segundo a lei processual, seria exercida pelo juiz, foi declinada ou
transferida para leigos; Ou seja, foi criado o Juízo de Conciliação Prévia, cujo
trabalho de tentativa de conciliação é conduzido por estagiários do curso de
Direito, os quais “data venia” não reúnem condições técnicas profissionais
para tal mister.
Aliás, tal trabalho teria maior eficácia se exercido por profissionais ligados a
área da Psicanálise ou da psicologia, poderia até ser desenvolvido junto com
um estagiário do direito, já que ele não reúne conhecimentos nem
argumentos suficientes para um trabalho eficaz. Acreditamos que tal medida,
além de estar colocando “cad a macaco no seu galho” ocasionaria um grande
beneficio social.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Assim, os juizes já não se ocupam da tarefa prevista em lei, de dedicar
tempo e esforço à reconciliação das partes e, a criação daquele Juízo Prévio
de Conciliação teve mais a finalidade de desafogar o excessivo número de
processos e audiências, do que propriamente tentar a reconciliação das
partes.
É oportuno destacar, que entendemos que aquele Juizado Prévio de
Conciliação, na forma que está funcionando é ilegal, em face do princípio do
segredo de justiça que envolve as questões ligadas ao direito de família.”
O advogado fam iliarista encontra-se diante de questões que transcendem a lei.
Tais problemas, na maioria das vezes, não são de ordem jurídica, por isso é
necessário perceber o que há nas entrelinhas. Se aprimorar a escuta, perceberá o
que se encontra além das norm as.
Diante disto, Dr Walter argum enta sobre a adm issão de um a
interdisciplinaridade entre o Direito e a Psicanálise, principalmente no que tange
ao processo de separação/divórcio.
“Sem nenhuma dúvida. Conforme já falamos acima, muitas das vezes a
solução não é a separação, e também muitas vezes as pessoas não
conseguem ter este discernimento. É comum vermos pessoas que já
passaram por vários casamentos ou relações. O problema não é o
casamento, é a pessoa com toda sua história de vida e suas peculiaridades,
que demandam atenção no campo psíquico.
Na grande maioria dos casos, a solução passaria por um tratamento
psicanalítico do casal ou de um dos cônjuges.
Há um outro fator que sempre será relevante, não obstante a cad a dia, as
pessoas atribuírem menor relevância a ele: o amor, que traz consigo o
sentimento de compreensão, de ajuda, de solidariedade e porque não, de
tolerância e etc. Assim, se o modismo da facilidade da separação persistir
ante aos pequenos problemas ou dificuldades, ao contrário da vontade de
acertar e corrigir, não há nenhum tratamento que possa ser efetivo.
O advogado tem, até mesmo por força do código de ética e do rito processual,
antes do processo litigioso ou amigável de separação, a obrigação de tentar
conciliar ou reconciliar as partes e muitas vezes lhe falta subsídios para esta
tarefa. Diria até que, ante ao modismo da separação, esta função tem sido
desconsiderada ou relegada à importância secundária.
Assim a interdisciplinaridade entre o Direito e Psicanálise não só ajudaria na
minimização dos efeitos negativos que a má condução do processo de
separação/divórcio gera, mas também atuando no processo de reconciliação
entre as partes e na impossibilidade desta, na reconciliação do indivíduo
consigo próprio e com a sua vida que prosseguirá, separado ou divorciado.”
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Para Freud, a primeira identificação do sujeito está relacionada com o pai.
Podemos considerá-la equivalente à incorporação do nome do Pai, por
conseguinte o ideal do eu é sempre o ideal do outro, em geral o pai. É o produto
da identificação simbólica na condição de puro significante que, ao barrar a mãe,
institui o desejo.
É com base no ideal do outro, internalizado como ideal do eu, que as coordenadas
simbólicas do desejo do sujeito se constituem.
É dentro desta pesquisa e preocupação das crescentes demandas de violência e
desestruturação familiar é que o NEPP se coloca.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Pacientes Somatizadores
Manual de Técnicas Psicanalíticas, C ap. 31,
David Zimerman, Artmed Editora S.A., Porto Alegre-RS
Quando o sofrimento não pode expressar-se pelo pranto,
Ele faz chorarem os outros órgãos.
W. M otsloy (médico)
Se você pensa positivamente, o seu sistema imunológico
também responde positivamente.
CONCEITUAÇÕO
Sempre houve um a tendência – tanto no cam po da filosofia quanto no da
primitiva ciência médica – de separar o corpo da mente. Mais especificam ente no
que se refere à Psicanálise, ainda hoje muitos se perguntam se a doença
psicossomática é um campo de saber à parte dos princípios psicanalíticos ou se
estes últim os representam uma extensão, um desenvolvimento e um novo cam po
mais abrangente da Psicanálise, assim fa cilitando a com preensão e o manejo dos
pacientes somatizadores. O fato incontestável é que os psicanalistas têm sido os
grandes fomentadores do m ovimento psicossom ático, logo, de uma medicina
integrada, holística e de um a visão hum anística da existência.
O term o “psico-somático” (tal como está grafado, com um hífen nitidamente
separador entre psique e soma) apareceu pela primeira vez na literatura m édica
há aproxim adamente 200 anos, em um texto de Heinroth, clínico e psiquiatra
alem ão, no qual o autor buscava adjetivar um a forma particular de insônia. Essa
concepção pioneira foi fortemente atacada por grande parte do conservadorismo
científico da época, enquanto algumas outras vozes tímidas apontavam para
aquela concepção integradora. Um dos seguidores desta linha de pensamento
médico foi William Motsloy, que há m ais de 100 anos, em Fisiologia da mente,
dem onstrando um alto grau de intuição, escreveu que quando o sofrimento não
pode expressar-se pelo pranto, ele faz chorarem os outros órgãos. A partir do final
da década de 40, o term o “psicossom ático” passou a ser em pregado como
substantivo, para designar, no cam po da m edicina, a decisiva influência dos
fatores psicológicos na determinação das doenças orgânicas, já admitindo uma
inseparabilidade entre elas.
Aliás, ninguém m ais contesta a inequívoca interação entre o psiquism o
determinando alterações somáticas e vice-versa, o que permitiria a ilustração com
exem plos clínicos que vão desde os mais simples (a corriqueira evidência de
estados de raiva ou medo produzindo palidez e taquicardia; vergonha levando a
um enrubescim ento; um estado gripal desencadeando uma reação depressiva e,
reciprocamente, um estado depressivo facilitando o surgimento de uma gripe,
etc.), passando por situações relativam ente complexas. Assim, é conhecido o fato
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
bastante freqüente de mulheres que, embora desejosas de engravidar, mantém-se
inférteis durante um longo período de anos até que, após a adoção de uma
criança pelo casal, comecem a engravidar com facilidade. Igualmente as
psicossomatizações podem atingir níveis bastante mais com plexos e ain da
inexplicáveis, conforme com provam os modern os estudos da psicoimunologia e
dados da observação clínica, como o da instalação de quadros cancerígenos
diante de perdas importantes, etc.
Da m esm a forma, as correntes expressões populares, como “estou me cagando de
medo”, “cego de ódio”, “estômago em brulhado de tanto nojo”, dentre tantos,
atestam claram ente o quanto a sabedoria popular, de forma intuitiva, captou a
existência de uma estreita e incon testável relação entre os estados m entais e os
corporais. Os exemplos clínicos poderiam ser m ultiplicados ao infinito, sendo que
esse fato, juntamente com a m ultiplicidade de vértices de abordagem e de
inúmeros fatores etiológicos em jogo, evidencia a enorm e com plexidade do
fenôm eno de psicossomatização. Para dar um único exem plo, somente o
prestigioso Instituto de Psicossomática de Paris descreveu cinco tipos de
“personalidade asmática”, cada uma delas privilegiando uma compreensão e um
tratamento distinto do outro.
O que importa é que a somatização com o resposta à dor mental é uma das
respostas psíquicas mais comuns que o ser humano é capaz; no entanto, a
recíproca também é verdadeira, isto é, o sofrimento orgânico, em alguma form a e
grau, igualmente repercute no psiquismo. O melhor seria dizer que ambos, o
psiquismo e o soma, são indissociáveis e estão em um a constante interação,
influenciando-se reciprocam ente. Não obstante, creio ser necessário enfatizar
que, por vezes, o fator predom inante no desencadeamento de uma reação
psicossomática é nitidamente de origem de alguma forma de conflito em ocional,
enquanto em muitas outras situações, o fator desencadeante é, de longe, de
natureza estritam ente orgânica (nesse últim o caso, talvez o nome mais adequado
fosse o de fenômeno “som atopsíquico”).
Aliás, entendo que, a rigor, tais denom inações diferenciadas, priorizando um ou
outro fator – ora o orgânico, ora o psicológico –, não passam de um preciosism o
inútil, pois se o critério for o de exatidão ter-se-ia que convir que unicamente o
binômio corpo-mente é muito escasso para explicar toda a com plexidade que
dem anda ficar m ais com pletada na tríade biopsicossocial, porquanto ninguém
mais duvida da enorme influência que os fatores sociais, econômicos, políticos,
culturais, familiares, espirituais, dentre tantos exercem na resposta do organismo
de toda e qualquer pessoa, como um todo.
Seguindo essa linha de raciocínio de que existe um a perm anente interação entre
múltiplas partes diferentes, em bora indissociadas entre si, agindo sobre um
mesm o indivíduo, muitos advogam a idéia de abolir a terminologia de
“psicossomatização” e seus term os derivados, com o argum ento de isto é um a
redun dância, pois toda situação clínica, por definição, é sem pre psicossomática,
de modo a simplesm ente usar a denominação am pla e geral de “medicina da
pessoa”, conforme propõe Perestrello (1974).
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Meu posicionamento pessoal a este respeito é de continuar empregando a
expressão “paciente psicossomático”, já que esse n ome está consagrado, embora
saibamos que os fenôm enos expressados na mente, ou no corpo, ou em am bos
con comitantem ente, não são tão simples e lineares como essa denominação
reducion ista pode fazer supor. Creio que o m ais adequado é considerar que todo
paciente funciona como uma gestalt, isto é, um conjunto composto por uma
“figura” (no caso, é a doença) e um “fundo” (a pessoa como um ser h umano),
porém com a predominância, ou com o desencadeante, ora do orgânico, ora do
psíquico, ora do social.
Entre 1930 e 1960, floresceu o movimento da “medicina psicossomática”, m ais
notadamente pelas contribuições de F. Alexander que, na Escola de Chicago,
estudou e descreveu as “sete doenças psicossom áticas” (asm a brônquica, úlcera
gástrica, artrite reumatóide, retocolite ulcerativa, neuroderm atose, tireotoxicose e
hipertensão essen cial), atribuindo a cada uma delas um a especificidade do
con flito psicogênico. Assim, segundo essa Escola, os indivíduos reagiriam de
forma diferen te con forme predominasse neles uma hiperatividade do sistema
simpático (sistema do organismo que implica a predominância de reações
adrenalínicas, com tendências ativas e agressivas, porque esse “sistema
sim pático” está embriologicamente determ inado a se defender contra perigos
externos) ou uma hipoatividade do “sistema parassimpático”, também conhecido
com o “vagal” (que alude ao sistem a responsável pela tendên cia aos estados de
repouso e lentificação, com uma propensão à passividade, razão pela qual esse
sistema está determ inado a se defender contra os perigos internos, ou seja, a
um a am eaça ao equilíbrio homeostático do organismo).
ALGUNS INFORM ES SOBRE NEU RO CIÊNC IAS
As últimas considerações representam os estudos introdutórios ao campo das
neurociências que, cada vez m ais, estão ganh ando um a crescente importância na
Psicanálise em geral e nos fenômenos psicossomáticos, em particular. As
neurociências demonstram como as emoções se desenvolveram para aumentar a
sobrevivência e garantir a existência da espécie – em qualquer espécie animal -
por propiciar e organizar soluções mais adaptativas aos problemas inerentes aos
seres vivos, tal como é a busca de uma homeostasia corporal, a necessidade de
alimentos e demais demandas pulsionais, a fuga de perigos, a reprodução, os
cuidados com a prole e as relações sociais.
Deste modo, as neurociências objetivam ilum inar os circuitos cerebrais das
emoções, assim comprovando o fato de que, por vias neuronais, através de partes
do cérebro com o tálam o, amígdala (funciona em nível subcortical, com respostas
rápidas, curtas, em bloco), hipocampo (funciona em nível cortical, com respostas
mais lentas e lon gas, porque ele registra a “memória do perigo”, o que lhe
possibilita, pelo “m edo”, a prevenção em espaços e circunstâncias delimitadas, de
maneira que, nos casos de lesão do hipocampo, o medo se generaliza), córtex
ocipital (m ais destin ada a reações impulsivas contra os supostos perigos) e córtex
pré-frontal (responsável pela atenção dirigida e pela tomada de decisões, com um a
escolha de respostas adequadas, baseadas em experiências prévias), juntamente
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
com a secreção de serotoninas, cortisol, entre outras, determinarão respostas
corporais que são hormonais, viscerais e da musculatura esquelética.
Por exemplo, um determinado estresse provocará uma excessiva excitação do
sistema nervoso autônomo e, através do eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal, este
último elevará o nível de cortisol, o qual, por sua vez, promove prejuízos tanto no
sistema imunológico (determinando quadros de cólon irritável, asma, úlcera...)
quanto no sistema cognitivo (promovendo uma diminuição da memória,
concentração, capacidade para pensar, agir com coerência, uma certa confusão e
dificuldade de usar as outras pessoas que, normalmente, por intermédio da
função de “reconhecimento”, exercem o papel de auto-reguladores das emoções). A
ausência dessa última condição favorece o surgimento de uma “alexitimia”, ou
seja, de uma incapacidade para ler as emoções, enquanto o pensamento adquire
uma natureza operatória, pois as fantasias, fazendo um curto-circuito, em vez de
ficarem conscientes, drenam através do corpo, assim alimentando um círculo
vicioso.
Ainda dentro do campo das investigações que cercam as inter-relações entre os
processos mentais e os orgânicos, impõem-se mencionar duas importantes
fontes: uma é a provinda dos estudos dos norte-americanos Sifneos e Nemiah,
que introduziram a noção da alexitimia, antes mencionada. Conforme designa a
etimologia dessa palavra, que deriva dos étimos a (quer dizer: “privação de”) + lex
(leitura) + timos (glândula que era considerada a responsável pelo humor), o
conceito de alexitimia alude à dificuldade de os pacientes somatizadores
conseguirem “ler” as suas emoções e, por isso, elas se expressam pelo corpo,
assim caracterizando uma dificuldade neurobiológica de simbolização. A segunda
fonte procede da Escola de Psicossomática de Paris, que aportou o conceito de
pensamento operatório, ou seja, o somatizador tem dificuldades de fantasiar, de
sorte que o ego não consegue processar, elaborar e representar as pulsões, do
que resulta que ele superlibidinizar o corpo de forma concreta.
Cabe consignar que alguns cientistas contemporâneos estão descrevendo o
princípio da auto-organização, segundo o qual existe um estado de “regulação
mútua” entre duas pessoas, que é baseada em uma troca de informações por
meio dos sistemas perceptivo e afetivo (por exemplo, de que maneira e com qual
tipo de afeto os pais significam para a criança determinadas experiências, como a
de ela andar pela primeira vez de escorregador...) Assim, o bebê, a criança
pequena, internaliza esse processo de regulação mútua, de sorte que desde cedo
aprende a conhecer as formas de abordagem afetiva que são rejeitadas ou bem-
aceitas pelos pais, enquanto as emoções despertadas, pela via dos circuitos
cerebrais, conectam corpo e mente. A emoção processa-se no inconsciente,
independentemente do consciente. Neste contexto não se está fazendo referência
ao inconsciente de Freud, mas, sim, ao inconsciente biológico, aquele que é
comandado pela neurofisiologia. Especula-se também a possibilidade cientifica de
que cada emoção tenha seu próprio circuito com características particulares. As
respostas corporais são hormonais, viscerais e músculo-esqueléticas. Os medos,
uma vez estabelecidos, ficam permanentes e requerem um recondicionamento.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Psicoimu nologia
Diretamente ligado aos processos estu dados pelas n eu rociências, o sistem a
imunológico de toda pessoa sofre u ma sensível influ ência dos fatores emocionais,
desem penhando u m importantíssim o papel n o corpo em geral e, m ais
particu larmente, nas doenças som áticas que são resu ltantes de ataqu es “auto-
imunes”. O que não resta dúvida é o fato de que, conforme foi mencionado na
epígrafe deste capítulo, quando o su jeito “pensa” positivamente, o seu sistema
imunológico responde também de forma positiva para a saúde, e a recíproca é
verdadeira.
UM A BREVE RESENHA DE PRINCIPAIS AUTORES
Do ponto de vista psicanalítico, são muitos os au tores que têm contribuído com
enfoqu es distintos, porém complem entares entre si. C itam-se algumas das
principais contribu ições desses au tores que, ao longo dos anos, estudaram – e
mu itos outros continuam estudando – o fenômeno das psicossomatizações.
Comecemos por Freud. De forma esquem ática, pode-se sintetizar suas
con tribuições, tanto as diretas quanto as indiretas, nos seguintes nove itens:
1. O seu conceito de representação-coisa e de rep resentação-palavra. A
importância disso no su jeito somatizador reside no fato de que os
acontecimentos e os sentim entos das experiên cias afetivas vivenciadas
no passado estão im pressos e representados no ego, porém , se estas
pretéritas vivências emocionais ainda não passaram para o pré-
conscien te e não foram simbolizadas e denom inadas como palavras, elas
vão se expressar corporalm ente. Relativamente às representações do
corpo no ego, creio ser ú til acrescentar que também as interações entre
nosso corpo e o m undo inanimado – por exem plo, andar de bicicleta –
fazem parte da representação do ego corporal.
2. Complacência somática é o nom e que Freud deu ao fenôm en o de que
uma determinada somatização não é específica de algum quadro clínico
especial, m as, sim , existem órgãos particu larmente sensíveis – ou por
razões de constituição orgânica, ou por fatores psíqu icos, como os de
fantasias inconscien tes localizadas e fixadas em um certo órgão – que,
então, fu ncionam com o caixa de ressonância do conflito.
3. O fenômeno das conversões, que, como o nom e su gere, alude ao fato de
qu e determinado conflito psíquico que não consegue ser sim bolizado,
logo tampouco conhecido e pensado conscien tem ente, converte-se em
uma m anifestação corporal, em algum órgão dos sentidos, ou em
algu ma zona de muscu latura volu ntária. N esse caso de fenômeno
conversivo, os sintom as narram, sem palavras, uma história
inconsciente.
Neuroses atuais, cuja causa, segundo Freud, era o bloqueio das excitações
libidinais, conseqüentes tanto de uma privação de satisfação sexu al quanto de
um excesso de estimulação, com o seria o caso de uma masturbação excessiva.
Dizendo de outra form a, o conceito de neu rose
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
1. atual alude a um excesso de estimulação que o ego não consegue
processar, de sorte que o corpo funciona como um dreno do excesso. A
noção de neurose atual implica a aceitação da teoria econômica das
energias pulsionais, razão pela qual caiu em descrédito na Psicanálise,
hibernando em um longo ostracismo, até que, na atualidade, ela
ressurge revigorada e com teorias mais sofisticadas.
2. Processos primário e secundário. De forma reduzida, cabe afirmar que as
somatizações correspondem às falhas dos processos de simbolização, os
quais estão unicamente presentes no processo secundário de
pensamento. Nos casos em que haja falha do processo secundário, logo
da abstração dos pensamentos, predominará a concretude dos
sintomas, próprias do processo primário.
3. Ego corporal. A clássica afirmativa de Freud de que “o ego, antes de
tudo, é corporal” permite depreender, nos processos somatoformes, a
importância das representações do corpo “no ego” e de uma cenarização
dos conflitos do ego “no corpo”. Tais concepções adquirem capital
importância na Psicanálise atual, tanto para o entendimento dos
transtornos da imagem corporal quanto para a participação do corpo
como um cenário dos diversos “teatros” da mente.
4. Identificações patôgenas. Freud, em Luto e melancolia, afirmou que a
sombra do objeto recai sobre o ego, isto é, forma-se uma identificação do
sujeito com o objeto perdido, de duração transitória no caso de “luto”
normal ou de forma definitiva nos casos de “melancolia”. Nesta última
situação, deve ter havido uma relação de conflito com a pessoa que foi
atacada e perdida, de sorte a forçar um tipo de identificação patológica,
que venho propondo chamar de identificação com a vítima. Quando isso
acontece, o sujeito sente-se como que obrigado a ser igual em tudo ao
objeto perdido, o que adquire uma especial importância nos processos
psicossomáticos, pois tal identificação, com grande freqüência, faz-se
com os sintomas clínicos da doença que acompanhou ou que vitimou a
pessoa que ambivalentemente ele amou e odiou.
5. Para evidenciar a valorização que Freud sempre atribuiu às íntimas
conexões que existem entre psique e o soma, cabe consignar a sua visão
profética quando, em 1938, preconizou que o futuro poderá ensinar-nos
a influir diretamente no psiquismo mediante substâncias químicas
particulares. Essa profecia de que substâncias químicas seriam
utilizadas para compensar a patologia da química celular encontra plena
confirmação na moderna psicofarmacologia, como são os excelentes
resultados clínicos que os medicamentos propiciam em casos de
doenças afetivas ou nos de transtorno do pânico, por exemplo.
6. Também vale consignar que coube a Freud o pioneirismo de assinalar
que nem toda comunicação é unicamente verbal, e que, de alguma
forma, o corpo também comunica, tal como se pode depreender desta
frase, a propósito do “Caso Dora” (1905): “nenhum mortal pode guardar
um segredo; se sua boca permanece em silêncio, falarão as pontas de
seus dedos [...]”.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
As contribuições de M. Klein que, indiretam ente, facilitam o entendimento dos
fenôm enos relativos às som atizações podem ser resumidas às fundamentais
con cepções de: 1) fantasias inconscientes (que impregnam os órgãos). 2) O
fenôm eno da despersonalização (conseqüente de um excessivo jogo de
identificações projetivas e introjetivas). Daí também resulta o sério problem a da
distorção da imagem corporal. 3) O seu conceito de memória de sentimentos
(sensações e em oções primitivas, que não conseguem expressar-se pela
linguagem verbal, podem estar gravada s em algum can to da memória do ego
corporal). 4) A explicação que Klein dá para o processo psicopatológico da
hipocondria, com o sendo a da introjeção de objetos persecutórios que se alojam
dentro de órgãos e, daí, ameaçam a saúde e a vida do sujeito. 5) De m odo geral, a
escola kleiniana considera que toda doença psicossom ática é a expressão de um
luto patológico (vingativo-persecutório) do objeto perdido dentro do ego. Indica que
houve predomin ância do ódio durante a representação da mãe, precedendo tais
manifestações som áticas, o surgimento das fobias. Cabe acrescentar que
geralm ente a separação deu-se antes de concluída a fase de sim biose, o que isso
leva tais pacientes a uma inalcançável busca de novas simbioses.
A Escola Francesa de Psicanálise emprestou as seguintes contribuições: Lacan
con cebeu a noção de: 1) Corpo espedaçado: o bebê, ou o futuro adulto m uito
regredido, é capaz de vivenciar o seu corpo como que feito de, ou em, pedaços
dispersos. 2) A crença da criança de que ela está alienada no corpo da mãe, com
ela ficando confundida corporalmente. 3) O discurso dos pais na m odelação do
inconsciente da criança, de modo a poder inscrever significantes de natureza
psicossomática.
Dentro dessa Escola, o Instituto de Psicossomática, de Paris, conceitua: 4) O
pensamento operatório (equivale ao conceito de “alexitimia” antes descrito) que
este Instituto descreve nos pacientes som atizadores. 5) A relação branca, isto é,
aqueles pacientes que na relação com o analista m ostram uma afetividade
esvaziada e só parecem ligados aos aspectos con cretos dos fatos narrados.
A renom ada psicanalista Joyce MacDougall acrescentou as conceituações de: 6)
Uma primitiva relação diádica fusional da m ãe com o lactante, que pode chegar a
um ponto de tal intensidade que a autora cunhou a expressão um corpo para
dois. 7) Na história dos pacientes somatizadores sempre existiu uma im ago
materna que falhou, ou exagerou, na função de paraexcitação, isto é, a de conter
e desintoxicar o excesso de estímulos provindos de várias fontes, de modo que a
mãe não conseguiu ajudar a crian ça a pensar, a decodificar e a simbolizar o seu
universo pré-simbólico, razão por que eles se expressam pelo corpo. 8)O corpo
primário e fragmentário da mais tenra infância deixa traços psíquicos a partir do
com eço da vida, de modo que com põem uma história sem palavras, tendo o corpo
com o cenário. 9) O s processos que operam na somatização podem ser
con siderados semelhantes aos oníricos, chegando MacD ougall a asseverar que o
sintoma psicossomático é um sonho inexitoso. 10) Em relação à organização
edipiana desse pacientes, a autora considera que ela está construída sobre uma
organização bastante mais primitiva, na qual predom ina um a imago materna que
usa a criança tanto como uma extensão narcísica quanto um a extensão erótica e
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
corporal dela própria, enquanto a figura do pai fica bastante desqualificada e
ausente do discurso simbólico. 11) Dessa forma, todo afeto é sentido como
perigoso, e o corpo defende-se como se estivesse em perigo.
Bion, por sua vez, também trouxe uma inestimável colaboração para a
compreensão da dinâmica do paciente somatizador, por meio de conceituações
originais, como: 1) A existência de um psiquismo fetal. Segundo Bion, o feto já
tem uma vida psíquica e as arcaicas sensações experimentadas ficam de alguma
forma impressas nos primitivos sistemas neuronal e corporal do feto, de sorte que
as manifestações orgânicas podem ser reexperimentadas na vida adulta, sem que
haja uma causa aparente. Creio que essa concepção possa ser uma boa
explicação para o fato de que um estado mental demasiadamente regressivo
restabelece a conexão com a corporalidade, de modo que aciona um determinado
código psicossomático. 2) O discurso de uma mãe hipocondríaca, que desvirtua as
angústias manifestas pela criança, dando-lhe uma explicação de causa orgânica,
atribuindo a responsabilidade do estado ansioso do filho para algum determinado
órgão. Por exemplo, se a criança chora alegando um determinado tipo de medo,
ou pânico, a mãe logo acha uma explicação somatoforme: “É o seu fígado que não
está funcionando bem”. A conseqüência futura é que toda vez que esse filho,
agora adulto, sentir algum tipo de angústia sem causa explícita, muito
provavelmente ele a expressará referindo através de uma queixa localizada no
fígado... Esse tipo de mãe pode ser incluída naquela categoria que, creio, se pode
chamar de mães psicossomatizantes. 3) A falha na capacidade para pensar: nesse
caso, as experiências emocionais penosas, no lugar de serem pensadas,
funcionam como protopensamentos, isto é, elementos beta, cujo destino é o de
evacuação, tanto para fora, sob a forma de actings, quanto para dentro dos
órgãos, em cujo caso se expressam por psicossomatizações.
A DOR
Penso que, dentre as manifestações do paciente somatizador, cabe incluir os
aspectos referentes ao problema da dor; nas suas múltiplas manifestações, aguda
ou crônica, a de origem orgânica ou traumática com repercussões psíquicas ou a
de origem inicialmente psicógena com repercussões orgânicas, assim como a dor
que é comunicada de forma superlativa, ou aquela que o sujeito sofre
silenciosamente, etc.
Relativamente à psiconeurofisiologia da dor, quatro fatores essenciais devem ser
levados em conta: 1) Limiar fisiológico: alude ao momento em que surge a dor; o
limiar é igual em todos os indivíduos, como, por exemplo, quando se usa o calor
como fator estimulante, o limiar à dor situa-se em torno de 44 graus. 2) Limiar de
tolerância: refere ao ponto em que o estímulo alcança um grau intolerável, o que
varia um pouco conforme o indivíduo, de modo que muitas pessoas toleram bem
48 graus. 3) Resistência à dor: varia de uma pessoa para outra, para mais ou
para menos, em função de fatores emocionais, circunstanciais e espirituais.
Assim, um sujeito em transe místico ou um preso político submetido à tortura
física, quando está em um estado de extrema fidelidade à sua ideologia e aos seus
companheiros, elevam sua resistência à dor a níveis inacreditáveis. 4) Quantidade
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
e intensidade da dor: é importante que se estabeleça uma distinção entre a
quantidade do estímulo doloroso, físico ou emocional, e a intensidade da reação
que o estímulo desencadeia em uma determinada pessoa, o que varia com a
sensibilidade da área psíquica que foi atingida.
ZONA CORPORAL
Um aspecto que também merece ser destacado como relevante é o que diz
respeito à zona corporal na qual o conflito se manifesta. Um exemplo de minha
clínica privada pode ser mais esclarecedor: no curso de uma sessão de análise, a
paciente, deitada no divã, relatava-me que desde que começou a amadurecer
emocionalmente está pagando um alto preço cobrado pelos seus familiares,
porquanto esses a solicitam para tudo e, cada vez mais, esperam que ela resolva
toda a sorte de problemas, de todos. Enquanto o relato prosseguia, a paciente
começou a acusar um desconforto no ombro direito, que foi aumentando de
intensidade a ponto de adquirir as características de uma dor aguda
insuportável, que ela atribuía a uma possível posição viciosa de como dormira na
véspera ou de como deitara no divã da presente sessão. A dor no ombro atingiu
tal intensidade que a paciente não mais conseguia fazer nenhum movimento e
estava começando a dar sinais de surgimento de uma forte angústia. Nesse
momento decidi intervir psicanaliticamente e assinalei o fato da coincidência de
que a dor no seu ombro surgiu exatamente no momento em que ela me narrava
que estava carregando as mazelas da família nos seus ombros, de modo que o
seu corpo falava, através da linguagem da dor no ombro, o quanto o seu papel de
sustentáculo da família estava sendo penoso e dolorido para ela. Ao término de
minha fala a dor desapareceu instantânea e totalmente, tendo a sessão
prosseguido de modo normal.
OUTRAS SOMATIZAÇÕES
Talvez o exemplo anterior não seja o mais adequado, pois as resoluções das
somatizações não se passam assim tão facilmente, além de que na vinheta
ilustrativa trata-se de uma situação conversiva, em cujo caso não chega a existir
uma lesão somática; além disso, sabe-se que as conversões permitem uma leitura
simbólica do significado dos sintomas, o que não acontece na psicossomatização
propriamente dita. Não obstante esta ressalva, a situação descrita ilustra a
íntima conexão que pode existir entre os fatores emocionais e a utilização do
corpo como cenário para a dramatização simbólica de um determinado conflito.
Em síntese, o importante a destacar é que, como antes foi referido, o corpo fala! –
e falam especialmente aqueles sentimentos que ainda não puderam ser expressos
com o simbolismo das palavras. Assim, alguma parte do corpo que estiver mais
sensibilizada por um determinado conflito psíquico pode funcionar tanto como
uma caixa de ressonância (à moda daquele ditado popular de que “a corda
rebenta na parte mais frágil”), como também a área corporal escolhida – trata-se
de uma vulnerabilidade psicossomática – pode se constituir com um “cenário” no
qual são representados dramas íntimos, com as respectivas fantasias
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
inconscientes. Adem ais, m uito cedo o bebê aprende a conhecer as formas de
abordagem afetiva que serão rejeitadas ou bem acolhidas pelos pais.
Esses fatos, aliados à constelação de outros fatores, com o, por exemplo, os da
repercussões imunológicas, adquirem uma significativa importância em todo e
qualquer ato médico, de sorte que cada especialidade m édica permite, até certo
ponto, é claro, a decodificação dos com ponentes emocionais im plícitos em
determinados sintom as orgânicos específicos de uma determinada especialidade.
Assim, os gastrenterologistas conhecem bem as fantasias orais que acom panham
a ingestão e m etabolização de alim entos (ou medicamentos) e as fantasias ligadas
à analidade que se manifestam nos problemas de diarréia, prisão de ventre, etc.
Da mesma forma, os cardiologistas facilmente identificam o quanto algum
sintoma cardíaco está ligado aos temores de m orte, por exemplo. Em bora seja
fascinante a idéia de esmiuçar, estabelecer conexões e particularizar os aspectos
psicossomáticos que cada especialidade comporta, não cabe, aqui, fazer esse
aprofundamento; cabe, no entanto, lembrar que, já no início da Psicanálise,
Freud descrevia casos de paralisias histéricas e, em 1910, publicou o elucidativo
trabalho A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão.
MANEJO TÉCNICO
1. Em algum grau, em qualquer análise, praticamente sem pre surgirá
algum a m anifestação de natureza psicossom ática; no entanto, as
considerações relativas ao manejo técnico, no presente capítulo, estão
restritas aos pacientes que manifestam uma m arcante continuidade de
diferentes formas de som atização.
2. Muitos autores postulam a hipótese de que existe uma estrutura
psíquica própria do paciente psicossomático, à sem elhança do que
ocorre com as estruturas neurótica, psicótica, narcisista, perversa, etc.
Igualm ente, uma questão que freqüentem ente é levantada concerne a se
deve existir um a clínica especializada para doenças psicossom áticas ou
se, pelo menos, existem técnicas psicanalíticas específicas para estes
casos. A resposta depende da conjunção de um a série de fatores que
intervêm no processo, como: a tipificação singular das
psicossom atizações de cada um dos pacientes; o esquema referencial
utilizado pelo psicanalista; o tipo de leitura que o analista faz dos
sintom as orgânicos manifestos; o tipo de interação vincular
transferencial-contratransferencial própria de um determinado
m om ento da análise; as intercorrências ambientais, os aspectos bio-
psicossociais e espirituais; os m odelos interpretativos e os de
abordagem analítica. Em síntese, creio que os aspectos que seguem
enumerados merecem ser considerados no que diz respeito ao manejo
técnico com pacientes som atizadores.
Parece que predomina entre os autores um a opinião consensual de que é
necessário haver uma modificação na técnica psicanalítica que habitualm ente é
utilizada com pacientes simplesmente neuróticos. Assim, o analista deve levar em
conta que os pacientes somatizadores, genericam ente, apresentam dificuldades
não só quanto à capacidade
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
1. para produzir fantasias inconscientes, mas também, estão prejudicados
no que tange à formação de símbolos e, conseqüentemente, às
capacidades de abstração, conceituação e de generalização, que cedem
lugar a uma predominância do pensamento concreto.
2. É necessário deixar claro que nesses pacientes o prejuízo na formação
de símbolos, logo, o de pensar abstratamente, não significa que haja
uma total ausência dessas capacidades; antes, o referido prejuízo
costuma ser parcial e seletivo, ou seja, uma pessoa pode ser bastante
bem-sucedida em áreas importantes e complexas de sua vida, porém
para uma outra ordem de sentimentos que necessitariam ser pensados,
simbolizados e verbalizados, essa mesma pessoa pode fazer um
bloqueio, de sorte que tais sentimentos falarão através do corpo.
3. Assim, diante de pacientes francamente psicossomáticos,
freqüentemente os analistas os consideram no limite do analisável. Os
hipocondríacos, por exemplo, raramente chegam à análise, e, quando
algum chega, revelam uma forma concreta de pensar, ao mesmo tempo
em que passa grande parte das sessões manifestando algum grau de
desespero, assim convidando o analista a fazer uma aliança de
comiseração com o seu corpo, que está fragilizado, devido a uma
sensação do paciente de que alguma parte desse seu corpo esteja sendo
invadida por inimigos.
4. É indispensável que o analista esteja atento para a profunda
problemática e para a estrutura psíquica regressiva, subjacentes aos
defensivos recursos psicossomatizantes, como, por exemplo, a de um
temor do paciente de ele cair em uma grave depressão. Aliás, um
expressivo número de trabalhos correlaciona as somatizações com as
situações de separações, perdas e baixa auto-estima.
5. No paciente somatizador, é bastante freqüente a constatação de que a
mãe usava o corpo do filho como se fosse um prolongamento do dela, de
sorte que essas crianças, futuros adultos, ficam muito vulneráveis
paras situações de separações.
6. Aliás, ninguém mais contesta que o corpo do bebê, no início não-
integrado e sentido por ele como sendo feito de pedaços (“despedaçado”),
vai se unificar e integrar graças a uma, suficientemente boa,
maternagem da mãe, à sua voz, ao seu olhar, à sua continência, suas
exclamações laudatórias ou desqualificatórias, aos toques de suas
mãos, mãos essas que vão deslizar sobre o corpo da criancinha,
unificando os seus pedaços, definindo os seus contornos, estabelecendo
os limites com a realidade exterior e transformando o corpo, até então
unicamente biológico, em um corpo erógeno.
Assim, o corpo é o cenário das primitivas inscrições dessa relação mãe-bebê; o
corpo é a memória do inconsciente, dos sentimentos primários, dos significados
do discurso e do desejo materno. Isso equivale à atitude e à atividade
interpretativa que toca a sensibilidade do paciente somatizador e, da mesma
forma, também creio que toque a do analista, juntamente com a sua função de
continência, contribuindo decisivamente para a construção de uma segunda pele
para certos
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
1. pacientes necessitados de um a delimitação com o mundo exterior,
conforme a conceituação de Esther B ick (1968).
2. A propósito, é im prescindível que o terapeuta sempre considere o fato de
que o corpo representa, fala (às vezes, narra um a história), serve de
cenário e descarrega primitivas sensações e emoções, que não foram
representadas com palavras ou que ficaram fortemente negadas. Por
exemplo, no fenômeno conversivo, o histérico faz um jogo concomitante
de, através do corpo, ocultar (eludir) e de dem onstrar (aludir) o
verdadeiro conflito psíquico subjacente.
3. É importante que o analista valorize o fato de que o paciente
psicossom ático tem um a form a peculiar de pensamento, linguagem e de
lidar com as emoções e vínculos afetivos. Green denomina relação branca
o vínculo afetivo que caracteriza estes pacientes. Assim , na relação
analítica o paciente e o analista estão presentes, um frente ao outro,
porém, am bos sen tem -se vazios porque predomina no prim eiro uma
atitude do tipo “deu, isto é tudo”, ou seja, ele já disse qual é a sua
necessidade e agora cabe ao terapeuta resolvê-la de forma concreta e, de
preferência, imediata. Às vezes, não há uma negação do reconhecim ento
das em oções, porém transparece uma ausência de afetos.
4. Por essa razão a resposta contratransferencial costuma ser muito difícil,
de sorte que é bastante com um que o analista sinta sentimentos de
vazio, frustração, impotência, tédio e de um a paralisação interior, com o
se ele estivesse “alexitímico”, tal como o seu paciente é. Isso representa
um risco analítico, pois o paciente somatizador tem um a grande parte
infantil, ou seja, um a parte de infans (em latim , significa “incapacidade
para falar”).
5. Assim cabe à mãe com seu filhinho – ou ao analista com o seu paciente
– nomear os sentimentos que estão anestesiados e ainda sem nom e,
propiciar a verbalização de fantasias e afetos e servir como modelo que
desenvolva a sua capacidade para pensar. Sabe-se que, pelo contrário,
não raramente os pais confundem m ais ainda os afetos da criança,
como na clássica sentença “m en ino que é homem não chora” ou “faz
como eu, não deixe ninguém saber o que você está sentindo”, etc.
6. A fim de ilustrar a im portância de o paciente psicossomático entrar em
contato e verbalizar os seus sentimentos depressivos e de vazio, cabe
citar J. MacD ougall, que após analisar sete pacientes com tuberculose
disse que “[...) por não terem sido capazes de abrir o seu coração para o
luto, abriram o pulmão para o bacilo de Koch”.
7. Assim , a linguagem em pregada pelo analista deve ser clara, sim ples e
direta, devido às prováveis dificuldades de o paciente conseguir abstrair
e decodificar as interpretações m ais sofisticadas.
8. Igualm ente, é útil que haja um papel mais ativo por parte do analista,
com um a atividade interpretativa que permita o uso de claream entos,
confrontos, assinalam entos de paradoxos e contraditórios e,
especialmente, o emprego de perguntas, não as interrogativas, m as,
sim, as estimulativas, que instiguem o paciente a fazer reflexões.
De fato, é fundam en tal que o analista também proceda à análise das funções do
ego consciente, sobretudo as que se referem à capacidade
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
1. para pensar os protopensamentos (isto é, aquelas prim itivas sensações
e experiências em ocionais que ainda não foram representadas com
palavras), as sensações e os sentimentos, de modo a estabelecer um
trânsito de comunicação entre o consciente e o inconsciente do paciente
somatizador, além de fazê-lo com prom eter-se afetivam ente com aquilo
que diz intelectualmente.
2. Um bom recurso técnico consiste no emprego do método dialético, isto é,
à tese do paciente (“o meu único problem a é a m inha colite ulcerativa,
eu enlouqueço de angústia quando evacuo fezes mucossangüinolentas,
não fosse isso eu estaria ótim o...”), o analista contrapõe uma antítese
(“acha possível que o caminho seja in verso, ou seja, que é justamente
quan do você está ansioso é que surgem os sintomas da sua colite?”),
que leve o paciente a fazer reflexões de modo a propiciar uma possível
construção de uma síntese (na situação analítica isso corresponde à
aquisição de um insight), síntese essa que funciona com o uma nova
tese, movim entando um círculo virtuoso crescente e expansivo, próprios
do m ovimento dialético.
3. Se o paciente m anifesta dificuldades em dar acesso às interpretações
rigorosam ente transferenciais (o que é bastan te com um com os
pacientes som atizadores), é recom endável que o analista não insista
nessa tecla, pelo menos temporariamente, e em troca valorize e utilize
os assinalam entos interpretativos que são sugeridos pelas narrativas
extratransferenciais (isto é, aquelas que estão contidas nas narrativas
de fatos e do cotidiano do paciente), para, a partir daí, poder construir
com o seu paciente um a verdadeira relação transferencial.
4. D a m esm a forma, o emprego de metáforas simples e facilmente
compreensíveis, que possibilitem a junção do pensam ento com o
sentimento e com a im agem visual sugerida pela m etáfora, tem revelado
em inúmeras vezes um excelente resultado.
5. Um outro aspecto que deve merecer um a atenção especial do terapeuta
diz respeito à possibilidade de que o surgim en to da som atização esteja
coin cidindo com o aniversário de morte de alguma pessoa que foi
especialmente importante na vida do paciente, de modo que, em nossa
prática clínica, não raramente encontraremos vários pontos de
sem elhança entre o sintoma psicossom ático manifesto pelo nosso
paciente e sintomas de doença que vitimou aquela pessoa significativa.
Isso acontece m ais comumente naqueles casos a que antes aludi com o
nome de identificação com a vítima.
6. É útil que o terapeuta leve em conta que as emoções conectam não
apenas a m ente e o corpo de cada indivíduo em separado, m as também
as mentes e os corpos entre os indivíduos com os quais o paciente
convive, em uma interação que pode estar sendo de matiz patogênica.
Assim, na prática clínica não basta apenas que os pacientes psicossom áticos
percebam os seus sentim en tos; o analista deve ajudá-los a que os expressem para
os outros, logo, para o analista na situação analítica, porquanto isto desem penha
um papel im portante na – fundam ental – função de regulação da atividade
emocional. Ademais, diante de sin tomas som áticos que são desconhecidos e
incapazes de
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
1. serem nomeados com palavras pelo pacie nte, cabe ao analista, mediante
su a função interpretativa, transformar meras sensações corporais em
palavras capazes de simbolizarem a emoção qu e está subjacente ao
sintom a somático, assim preenchendo um enorme vazio in terior.
2. C reio desnecessário enfatizar qu e mesmo diante de tantas evidências da
intervenção das emoções no fenômeno das somatizações, o analista deve
estar atento à possibilidade de ele encam inhar o seu paciente para um
m édico clínico, para u ma avaliação de possíveis cau sas orgânicas, com
vistas à detecção de algum a situação m ais grave.
3. Por fim, cabe dizer qu e a ação analítica somente terá eficácia quando os
assinalamentos interpretativos do analista vierem acom panhados de
u ma autêntica atitude p sicanalítica inte rna dele, que englobe, entre
tantos ou tros atributos, como os de co ntinência e emp atia, também o de
u m re speito pelos sintomas m anifestos, juntamente com um sincero
bem qu erer e crença nas capacidades constru tivas latentes desse tipo
de paciente. Igu almente, é im prescindível que o terapeuta possu a o
atributo de ser coe rente e ve rdade iro com aqu ilo que ele diz, faz e o que,
de fato, é!
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
NEUROSE OBSESSIVA:
NEUROSE OU TRANSTORNO?
Sergio Costa
RESUMO: Mais de cem anos se passaram e volta a tona o antigo
conceito de sujeito: o sujeito da ciência, porém, hoje, acompanhado
e manipulado pelo discurso capitalista. Desaparece o sujeito do
inconsciente na imensidão dessa aldeia global e um novo é
incentivado a existir: o sujeito consumista e com uso compulsivo
de medicamentos. Enquanto Freud em 1896 retira a neurose
obsessiva do quadro das psicoses, essa nomenclatura é banida dos
manuais psiquiátricos e é reduzida a um mero Transtorno
Obsessivo Compulsivo.
PALAVRAS CHAVE: Neurose Obsessiva – Psicanálise – Desejo
Introdução:
O ser humano, diferentemente dos demais animais, assim que chega ao mundo, é
colocado em total estado de dependência. É a partir de uma linguagem, que lhe é
peculiar, representada inicialmente por sussurros, gestos ou expressões faciais,
ele é interpretado pelo outro para obter ou não a satisfação.
Uma linguagem que tem a função de evocar o desejo, e não de representa-lo, e
ainda possibilita a imaginação do outro para se alcançar o desejado.
É neste contexto que as necessidades se tornam demandas e se instala o desejo
inconsciente, com suas pulsões de vida. Desejos que advêm da compreensão ou
não do outro, da total, parcial e nenhuma satisfação destes.
É nesse vai e vem de desejos alcançados, reprimidos ou sublimados, que o sujeito
é capaz de inventar, criar, mudar e seguir em frente.
Com esse constante movimento se produzem as neuroses, que são os impasses
diante do desejo inconsciente.
A Neurose Obsessiva
Com o trabalho intitulado “A Hereditariedade e a etiologia das neuroses” (1896),
Freud lança uma inovação nosográfica, colocando ao lado da histeria a neurose
obsessiva. Até então ela fazia parte do quadro das psicoses.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
F reu d lança, aind a, nova p ro po sição qu anto aos distú rb io s sexu ais, que eram
sem p re sub ord inado s à hered itariedad e: “...qu e e ssas mo dificaç ões pato lóg ica s
fu nc ion ais têm com o fon te c omu m a vid a s exu al d o s ujeito, q uer resida m n u m
d istú rbio d e su a v id a sexu al co nte mpor âne a, q uer e m fatos impor tan tes d e s ua
vid a pa ssad a.”1
Para ele a natureza da ne uros e o bsess iva resum e- se na segu inte fórm u la: “A s
id éias ob sess ivas são (...) au to -acu saç õe s tran sformad a s q ue ree me rgiram d o
rec alc amen to e qu e se mpre se relacio na m co m a lgu m a to sex ua l pr atic ad o co m
praze r n a infân cia .”2
Na ne uros e o bsess iva o enco ntro com o sex o é acom panhado po r u m prazer, que
leva à cu lp a ou à auto -recrim inação . Cria -se o recalqu e e, a partir d isso , o afeto é
deslocad o po r um a idéia sub stitutiva. É p or isso que o ob sessivo crê na
representação recalcad a, e é essa crença qu e o leva á dú vid a. É essa a su a defesa
prim ária: a escrup ulosidade.
Oco rrem , aind a, ou tras d efesas, d itad as po r F reu d com o secu ndárias: o
ensim esm am ento o bsessivo , acu m ulação de o bjeto s, d ip som ania, rituais
o bsessivo s.
A neu rose ob sess iva se instala a partir do deslocam ento das p ro ibiçõ es, do s
tabus, e isso oco rre desde a m ais tenra idad e. D . Winnicott d iz: “O primeir o
esp elh o d a criatu ra hu man a é o rosto d a mã e: a su a ex press ão, o s eu o lh ar, a s u a
voz (...) É co mo se o beb ê pe ns asse : olh o e sou visto, lo go, e xis to!”3
O desejo no ob sessivo é contra-lei, é p roib id o pela m ãe. Ele transita sem p re entre
o sagrado e o p rofano, estab elecend o um a certez a interna, qu e envo lve renún cias
e restriçõ es, co nstituind o os atos o bsessivo s ou com p ulsivo s.
Em T otem e Tab u (1 913 ), F reud resu m e a sem elhança en tre as práticas do tab u e
o s sintom as o bsessivo s, com o :
“1. o a to d e faltar às atribu içõ es qu alq ue r motiv o atrib uíve l;
2. o fato de se rem ma n tid as por u ma nec ess id ad e inte rna ;
3. o fato de sere m facilmen te de sloc áv eis e d e h aver um risc o d e infecç ão
prov eniente d o proibido ; e
4. o fato de c riare m in jun ções p ara a re aliza ção d e ato s c erimoniais .”4
1
A hereditariedade e a etiologia das neuroses (1896). In: Ed. Standard Brasileira, vol. III: 1996. pág. 148.
2
A natureza e o M ecanismo da neruose obsessiva (1896). In: Ed. Standard Brasileira, vol. III: 1996, pág.169.
3
In: Zimerman, David. Manual de Técnica Psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre:Artmed, 2004, pág.347.
4
Totem e Tabu (1913). In: Ed. Standard Brasileira, vol XIII: 1996, pág. 46
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Não po dem o s deixar d e citar que o tabu é u m a pro ib ição im po sta p or algu ém de
fora, e dirige-se sem p re co ntra o s desejos d o su jeito. E sse algu ém nada m ais é
que a m ãe, qu e é o prim eiro o bjeto d e am or na vida d e to do s os seres hu m anos.
Segu ndo H artm ann (19 39 )1
, a m ãe é o “esc ud o prote tor” da criança até à sua
ado lescência. É quem reforça as leis: o perm itid o e o proibido ... É quem faz
disting uir o id d o e go...
Tu do isso acontece devid o ao to tal d esam p aro co m que um a criança ch eg a ao
m u ndo , quand o a m ãe, po r sua vez, co m tod as as su as lim itações de vid a, a leva
para um estado de dep endência.
Não ex iste evid ência física que sustente um a criança. Ela po ssu i u m co njunto de
pu lsõ es au to-eróticas d esgovernadas e d esco o rd enadas. Para a co nstituição do
seu eu dep enderá do reco nhecim ento d e sua im agem , só qu e essa d ep enderá
sem p re d a p alavra d o o utro.
Se a m ãe é b em sucedida, a criança terá co nsciência de seu am o r, bem co m o
pro m o verá u m b om desenvo lvim ento estru tu ral, e d ar-se-á a p assag em da
dep endência p rim ária para a dep endência relativa, com o bem coloca W innicott
(196 0)2
.
Já o fracasso se dá m uitas vezes d evid o às necessid ad es e co nflitos pessoais da
m ãe, pois essa deve e tem que desapontar o id e não eg o da criança. Send o
assim , cria-se as po ssibilid ad es da instalação das neu ro ses, co m o acentu a Anna
F reu d (1 95 8): “...algu m lug ar su til es tá sen do inflig id o à crianç a, e q ue s ua s
co nseq üê ncias se m a nifes ta rão em d a ta futu ra..”3
Um a neurose o u um tran storno ?
F reu d, no R ascun ho H (18 95), cham a a atenção para o fato de qu e na p siquiatria,
as idéias d elirantes da paranó ia se en co ntravam ao lado d as idéias ob sessivas
com o d istúrbio s intelectuais.
Já, em 1 89 6, ele descreve que as id éias o bsessivas são pro duto s d e um
com prom isso . A su a exp eriência com o sexo é trau m ática, m as acom p anhada p or
um go zo excessivo que irá acarretar a cu lpa e a auto -recrim inação . E le diz qu e “a
id éia ob sessiva pod e ser con trá ria a qu alqu er lóg ica, e m bor a s ua força co m pulsiv a
seja ina balável.”4
Já na paran óia, a ex periência traum ática é aco m p anhada tam bém p elo goz o
excessivo, que acarreta a culpa, m as não fo rm a a auto -recrim inação , e a culpa
passa a ser pro jetada no o utro. O p aranó ico é d escrente, po r isso não d uvida, o
que é o o po sto do neurótico o bsessivo .
1
In: KHAN, Masud R. Psicanálise: Teoria Técnica e Casos C línicos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1984, pág.62
2
Ibid, pág. 65
3
Op cit, pág. 75
4
RIBEIRO, Maria Anita Carneiro. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pág.16.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
O neurótico obsessivo se com porta através de rituais, que para ele é como um a
religião particular. São atos m ágicos que revelam a onipotência do pensamento
do sujeito, que nada m enos é do que indícios da onipotência infantil.
A partir dessas diferenças apresentadas, observa-se que o sujeito da Psicanálise,
apesar de ser o mesmo sujeito da ciência, e de ser reconhecido como um sujeito
político, não se encontra submetido aos interesses do capital. Ele é, ao m esmo
tempo, o sujeito do desejo e o sujeito desconhecido que apresenta na falha, no
sonho, no sintom a...
Hoje, a neurose obsessiva está enquadrada como TOC (Transtorno Obsessivo
Compulsivo). Mesmo com todo o avanço científico, principalmente no campo da
neurofarmacologia, deve-se atentar que, a obsessão pode estar presente em
várias pessoas, porém é preciso distinguir os traços obsessivos de uma pessoa
“normal” ou de uma pessoa de estrutura neurótica m ista, perversa ou psicótica; o
caráter severamente obsessivo e o transtorno obsessivo com pulsivo.
Uma pessoa com traços obsessivos ou m esmo de caráter obsessivo, normalmente,
não significa adoecimento, não existe alteração de sua harmonia.
Já o T.O.C. (Transtorno Obsessivo Com pulsivo) implica em sofrim ento tanto de si
com o de outros, podendo prejudicar até quem vive ao seu lado. Pode levar o
sujeito à incapacidade para viver livrem ente.
É im portante saber que apresentar um diagnóstico de “obsessivo” é necessária a
escuta. Uma escuta não somente de cinqüenta minutos, pois os quadros são
semelhantes, mas são m anifestados de formas diferentes.
Conclusão
A Psicanálise trata e fala do desejo. Assim, para tratar uma neurose obsessiva é
necessário ocupar o lugar do objeto da fantasia, colocando-o em posição ativa,
para despertar o desejo; enquanto que, na ciência, o objeto permanece passivo
diante do desejo do experimentador.
Freud, na prática de sua análise, descobriu que pode operar sobre a fantasia
inconsciente do sujeito, e modificar a sua realidade psíquica, sua forma de ver e
estar no mundo.
A ciência, diante do interjogo político, transforma o sujeito em vítima do seu
funcionam ento cerebral, tornando-o, cada dia, mais sem forma e descrente... e
novas neuroses são estabelecidas.
A política que rege a Psicanálise está longe dos discursos da ciência regidos pelo
capitalism o selvagem e imperialista desta aldeia global. Para a Psicanálise o que
importa é o desejo: a política do desejo!
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
SUMMARY
Obsessive neuosis: neurosis or disuption?
More than one hundred years had passed and the old concept of
individual cam e back: the individual of science, however, today, is
followed and manipulated by a capitalist speech. The individual
of unconscious disappears in the largeness of this global village
and a new is stimulated to exist: the consumer individual and
with com pulsive use of m edicines. While Freud, in 1896, removes
the obsessive neurosis of the psychoses list, this nomenclature is
banished from the psychiatric manuals and it's reduced to a m ere
Compulsory Obsessive Disruption.
KEY WORDS: obsessive neurosis – psychoanalysis – desire
Bibliografia:
1.BRENNER, Charles. Noções básicas de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago,
1987.
2.FREUD, Sigm und. Obras Completas. Rio de Janeiro: Im ago, 1996. v.1;v.3;
v.10; v.13; v.17 (Eição stantard brasileira)
3.KHAN, Masud R. Psicanálise: Teoria Técnica e Casos Clínicos. Rio de
Janeiro: F. Alves, 1984.
4.KUSNETZOFF, Juan Carlos. Introdução à psicopatología psicanalítica. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
5. LAPLANCHE E PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
6.RIBEIRO, Maria Anita Carneiro. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 2003.
7..ZIMERMAN, David E. Manual da Técnica Psicanalítica: uma re-visão. Porto
Alegre: Artmed, 2004.
Sobre o autor:
Sergio Costa- Professor– Psicanalista (NEPP)
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE
Irani Araujo
RESUMO: Os pacientes portadores do Transtorno de Caráter
Borderline não possuem claramente uma identidade de si mesmos,
com um projeto de vida ou uma escala de valores duradoura, até
quanto à própria sexualidade. A instabilidade é tão intensa que
incomoda até mesmo o paciente que, em determinados momentos,
rejeita a si próprio; por isso a insatisfação sexual é constante.
Possuem rápida variação das emoções passando de um estado de
irritação para angústia e depois para depressão (não
necessariamente nesta ordem).
UNITERMOS: Personalidade, caráter, Borderline
INTRODUÇÃO
Ao usar a terminologia específica da Psicanálise, falaremos sobre “TRANSTORNO
DE CARÁTER BORDERLINE”, já que temos conhecimento que o caráter se forma
a partir do nascimento e sendo a personalidade inata, pertence à natureza de um
ser. Para Otto Fenichel, o caráter ou a personalidade é o modo habitual de
conduta de uma pessoa. Essa conduta, por sua vez, é o resultado final de uma
série de complexos e operações referentes aos modos habituais de adaptação do
EGO ao mundo externo, ao ID e ao SUPEREGO.
Assim a personalidade, o caráter e a conduta são todos aspectos ligados ao ego,
resultados de sua impossível tarefa de equilibrar-se entre as exigências das três
instâncias psíquicas, definidas por Freud, com grande propriedade.(O Ego e o Id)
1923.
TRANSTORNO / CARÁTER
Com relação ao funcionamento do ego, os transtornos de caráter não foram
matéria especial para Freud, que se dedicava mais ao mapeamento e descrição do
inconsciente. Mesmo assim, ele fez as primeiras descrições do quadro, em “Três
Ensaios sobre uma Teoria da Sexualidade” (1905): “O que descrevemos como
caráter de uma pessoa é construído em grande parte com o material de excitações
sexuais e, se compõe de instintos que foram fixados desde a infância, de
construções alcançadas por meio de sublimação e, de outras construções
empregadas para eficazmente conter os impulsos perversos que foram
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
reconhecidos como inutilizáveis. A disposição sexual perversa multiforme da
infância pode assim ser considerada a fonte de várias de nossas virtudes, através
da formação reativa, estimula o desenvolvimento delas”.
Assim, com a descrição do “caráter”, passamos a entender que o caráter é, ele
mesmo, o “transtorno”, pois constatamos que determinados padrões de conduta
na vida diária têm origem defensiva, seria uma adaptação aos conflitos
inconscientes, uma tentativa de resolvê-los do melhor modo possível. Essa
alteração do ego, ou vai favorecer descargas pulsionais, quando teremos
caracteres “sublimados”, ou vai impedir tais descargas, quando teremos
caracteres “reativos”. Tais alterações no ego os regidificam, tirando-lhe toda
flexibilidade e liberdade.
Fenichel organiza os transtornos de personalidade em três categorias:
A) os decorrentes de conduta patológica frente ao ID (frigidez, pseudoemotividade,
defesas contra a angústia, racionalização, traços anais, orais, fálicos, uretrais,
castração, caráter fálico e genital).
B) os decorrentes de conduta patológica frente ao SUPEREGO (defesa contra as
culpas, masoquismo moral, don juanismo, falta aparente de sentimento de culpa,
criminalidade e má identificação, atuação, neurose, destino).
C) os decorrentes de conduta patológica frente a objetos externos (fixação em
etapas prévias do amor, inibições sociais, ciúmes, ambivalência, pseudo-
sexualidade).
ETIMOLOGIA: BORDERLINE
Do Inglês border  fronteira, margem
line  linha, reta
Fronteiriço, limítrofe.
DEFINIÇÃO
Aquele que, sem ter a psicose verdadeira, mostra traços e mecanismos singulares
do tipo esquizofrênico. Tem sido chamado como esquizóide .No que diz respeito
aos mecanismos patogênicos atuantes, esses casos na verdade são neurose e
psicose. Pacientes muito comprometidos psiquicamente mas que não podem ser
considerados como autênticos. São insuficientes para se chegar a um diagnóstico
correto, um prognóstico preciso. Robert Knight (1953).
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
AUTOR ANO DENOMINAÇÃO
Pinel 1801 Mania sem delírio
Prichard 1835 Insanidade moral
Kahlbaum 1884/90 Adolescentes hebóides
Bleuler 1911 Esquizofrenia latente
Reich 1925 Caráter im pulsivo
Stern 1938 Neuroses borderline
Fairbairn 1940 Mecanismos esquizóides
Zilborg 1941 Esquizofrenia ambulatorial
Deutsch 1942 Personalidades "como se"
Hoch&Polatin 1949 Esquizofrenia pseudoneurótica
Knight 1953 Estados borderline
CID-9 1976 Esquizofrenia latente ou borderline
DSM-III 1980
Transtorno de personalidade
borderline
CID-10 1992
Transtorno de personalidade
emocionalmente instável, tipo
borderline
DSM-IV 1994
Transtorno de personalidade
borderline
Jovino Camargo Jr. 1994 Estruturas-virtuais
MOMENTOS SIGNIFICATIVOS NA PESQUISA SOBRE OS
"FRONTEIRIÇOS"
CARACTERÍSTICAS
A característica essencial do Transtorno de Caráter Borderline é um padrão
invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e
afetos e acentuada im pulsividade que começa no início da idade adulta e está
presente numa variedade de contextos. Seu com portamento impulsivo é,
freqüentem ente, autodestrutivo e se desviam acentuadam ente das expectativas
da cultura m anifestada em pelo menos duas das seguintes áreas: cognição,
afetividade, funcionam ento interpessoal ou controle dos impulsos. Este padrão
persistente e inflexível abrange um a am pla faixa de situações pessoais e sociais,
provoca sofrim ento clínico significativo, prejuízo no funcionamento ocupacional
ou em outras áreas importantes.
Os indivíduos com esse transtorno, freqüentemente, parecem dram áticos,
emotivos ou erráticos. São instáveis em suas emoções. Fazem esforços frenéticos
para evitarem um abandono real ou imaginado (até tentativa de suicídio;
completado entre 8 e 10% desses indivíduos) e atos de mutilação.Têm rom pantes
de raiva inadequada. As pessoas à sua volta são consideradas ótimas, mas frente
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
a recusas tornam-se, rapidamente, péssimas. A percepção da separação ou
rejeição iminente ou, a perda da estrutura externa podem ocasionar profundas
alterações na auto-imagem, afeto, cognição e comportamento. Esses indivíduos
são muito sensíveis às circunstâncias ambientais. Têm padrões de
relacionamentos instáveis, intensos, e desorganizados. Na realidade, os pacientes
com essa patologia têm sérias limitações para usufruírem as disponibilidades de
opções emocionais diante dos estímulos do cotidiano e, por causa disso,
pequenos estressores são capazes de enfurecê-los. Eles podem idealizar
potenciais cuidadores ou amantes, já no primeiro ou segundo encontro, exigir
que passem muito tempo juntos e compartilhar detalhes extremamente íntimos
na fase inicial de um relacionamento. Pode haver, entretanto, uma rápida
passagem da idealização para a desvalorização, por achar que a outra pessoa não
se importa o suficiente com ele. Esses indivíduos podem sentir simpatia e carinho
por outras pessoas, mas apenas com a expectativa de que a “outra pessoa estará
lá”, para também atender às suas próprias necessidades quando exigido. Os
indivíduos podem exibir constantes mudanças em seus objetivos, valores e
aspirações profissionais, e também de opiniões e planos acerca da carreira, vida
sexual, valores e tipos de amigos. Podem mudar subitamente de papel de pessoa
suplicante e carente de auxílio para um vingador implacável de maus tratos
passados; embora tenham, geralmente, uma auto-imagem de malvados, os
indivíduos com esse transtorno, por vezes, têm o sentimento de não existir em
absoluto. Podem jogar, fazer gastos irresponsáveis, comer em excesso, engajar-se
em sexo inseguro ou dirigir de forma imprudente.
Os indivíduos com Transtorno de Caráter Borderline, facilmente entediados,
podem estar sempre procurando algo para fazer. Experienciam intensos temores
de abandono e raiva inadequada, mesmo diante de uma separação real de tempo
limitado ou quando existem mudanças inevitáveis em seus planos (por exemplo,
reação de súbito desespero quando o clínico anuncia o final da sessão; pânico ou
fúria quando alguém que lhes é importante se atrasa por apenas alguns minutos
ou precisa cancelar um encontro). Esse medo do abandono está relacionado a
uma intolerância à solidão e a uma necessidade de ter outras pessoas consigo.
Os indivíduos com esse transtorno sentem-se mais seguros deslocando e
expressando seus afetos para objetos transacionais, isto é, um animal de
estimação ou a posse de um objeto inanimado, do que em relações interpessoais.
É um tipo de deslocamento associado à postergação, e condensam nesses objetos
o seu amor e valores morais não expressos ao seu meio. Além de Freud,
Winnicott também falou sobre esse objeto muito especial, transacional,que é
“metade” objeto,"metade”fantasia- daí o nome transição, entre pura projeção e a
percepção do mundo externo. Essa fantasia,que por algum motivo,em vez de
suavemente ir dando lugar à percepção da realidade externa,é em algum
momento “cortada” abruptamente, provocará um déficit de onipotência que a
criança reencontra no objeto transacional.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
CURSO
O padrão mais comum é de instabilidade crônica no início da idade adulta, com
episódios de sérios descontroles afetivos e impulsos de alto nível na utilização de
serviços de saúde mental. O prejuízo resultante do transtorno e o risco de
suicídio são maiores nos anos iniciais da idade adulta e diminuem gradualmente
com o avanço da idade. Na faixa dos 30 a 40 anos, a maioria dos indivíduos com
transtorno, adquire maior estabilidade em seus relacionamentos e funcionamento
profissional.
PADRÃO FAMILIAL
O Transtorno de Caráter Borderline é cerca de cinco vezes mais comum entre os
parentes biológicos em primeiro grau dos indivíduos com o transtorno, que na
população em geral. Existe, também, um risco familiar aumentado para
Transtornos Relacionados a Substâncias, Transtorno da Personalidade Anti-
social e Transtorno de Humor.Além do genótipo, as crianças recebem as toxinas
que lhe foram engendradas por seus primeiros objetos de desejo, pela ordem,
MÃE e PAI ou quem exerce tais funções.
CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS
Não me sentiria muito à vontade em continuar a discorrer sobre tal assunto, se
não citasse o critério de diagnóstico diferencial do CID-10 pois, não podemos, no
mundo de hoje, nos esquecermos que tivemos avanços profundos na área de
diagnósticos de tal patologia, e nem teríamos alcançado tais objetivos se não
tivéssemos podido contar com as teorias freudianas.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
Critérios Diagnósticos para F60.31 301.83 Transtorno da
Personalidade Borderline
Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos
interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que
começa no início da idade adulta e está presente emuma variedade
de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes
critérios:
(1) esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado.
Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto
no Critério 5[617];
(2) umpadrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos,
caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e
desvalorização;
(3) perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente
da auto-imagem ou do sentimento de self;
(4) impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente
prejudiciais à própria pessoa (por exemplo, gastos financeiros, sexo,
abuso de substâncias, direçãoimprudente, comer compulsivamente).
Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto
no Critério 5;
(5) recorrência de comportamento, gestos ouameaças suicidas ou de
comportamento automutilante;
(6) instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do
humor (por exemplo, episódios de intensa disforia, irritabilidade ou
ansiedade, geralmente durando algumas horas e apenas raramente
mais de alguns dias);
(7) sentimentos crônicos de vazio;
(8) raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva
(por exemplo, demonstrações freqüentes de irritação, raiva
constante, lutas corporais recorrentes);
(9) ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ouseveros
sintomas dissociativos.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
ORIGEMNAINFÂNCIA
Os estudos realizados em pacientes com Transtornos de Caráter Borderline,
quanto às ocorrências na infância, enfocaram basicamente a privação na criança
da presença dos pais (principalmente da mãe), e problemas familiares intensos.
Nos últimos anos, passou-se ainvestigar a relaçãoentre abusosexual na infância
e o caráter borderline. Esses estudos foram inclusivos, mas ficou demonstrada
esta relação. Outras formas de abusos também foram encontradas com maior
freqüência que o abuso sexual isoladamente: - abandono, humilhações,
frustrações, mensagens ambíguas, serem postos em situações de solução
impossível, consideradas como abuso emocional. Provavelmente, o caráter
borderline é multicausal, e vários tipos de estudos aindadevemser feitos.
CASO CLÍNICO
O trabalho, com um analisando de 14 anos de idade, foi iniciado pelos trâmites
normais da Psicanálise, e seguindo as orientações técnicas psicanalíticas
freudianas.
Ao encontrar dificuldades em compreender a nosografia, pela péssima dicção
usada, e percebendo que esse recurso, nada mais era que mecanismos de defesa
como: resistência, deslocamento; presença freqüente da cisão, foi acrescentada às
nossas sessões ométododa fixaçãocognitivade situaçõesdiversas.
Debates com temas atuais: “Eleições presidenciais” “Efetividade e afetividade do
adolescente”, “Globalização”, “Esportes”, “A informática na atualidade” etc. O
analisando demonstrava umbomnível de informações e a comunicação tornava-
se clara, enquanto debatíamos o tema. Quando voltava a temática para as
situações de sua vida, fazendo a prática analítica, denegava imediatamente suas
implicações emocionais, fazendo a cisão, dificultando a compreensão na
transmissão de suas respostas, que eram frases curtas quando sentia a minha
insistência na questão. Exemplo: “nãolembro”, “nãosei”, “talvez”, “pode ser ...”.
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
As sessões transcorriam-se num clima diferente do desejado e precisava-se
comprovar empiricamente a hipótese diagnóstica alcançada.
Em estudo, cheguei à conclusão que poderia apoiar-me na técnica de Winnicott-
“Criatividade”
Uma vez que o potencial inato é inacessível ao conhecimento direto, só podemos
conhecer a singularidade de sugestões num meio cultural determinado. A obra
winnicottiana é uma expressão dessa singularidade e a relação das idéias de
Winnicott, com a teoria psicanalítica de Freud e Melainie Klein, ressaltam apenas
a maneira de como ele as utiliza.
“...é impossível ser original sem apoiar sobre a tradição, diz:-os adultos
amadurecidos levam vitalidade para o que é antigo e ortodoxo, recriando após
destruí-lo”. (Winnicott)
Destruição para Winnicott nesse contexto não tem sentido negativo, e sim, está
no processo de destruição e recriação de objetos. Essa idéia faz parte da teoria
das relações objetais (Freud) . O seio materno, em relação ao bebê, propõe que a
destruição do objeto-seio, na fantasia, preceda o uso criativo dos novos objetos.
Sua contribuição original à Psicanálise pode ser entendida como um esforço do
analisando de recriar, de maneira pessoal, aspectos de uma teoria
imaginariamente destruída por ele.
Apoiada na teoria da CRIATIVIDADE, estimulei o analisando a desenhar, a dar
asas à sua imaginação, ora temas livres, ora temas sugeridos . Durante um bom
tempo, ficamos neste trabalho. Ao final, o analisando já produzia estórias em
quadrinhos, caricaturas, esboço de paisagens... e todas as suas produções eram
frutos da sua própria vida. Era sua história de vida.
Traços, posições, performance, ideologia, lógica, simbologia, tudo foi estudado e
avaliado. O analisando voltou para o divã e, através da técnica da livre
associação, que participou com grande desenvoltura, pude concluir :
Confirmado. O prognóstico passou a ser diagnóstico: o analisando é portador do
Transtorno de Caráter Borderline.
O seu tratamento teve início a partir do diagnóstico.
Outros casos aconteceram, trocamos experiências em reuniões supervisionadas
e, por várias vezes, lançamos mão dessa experiência positiva obtida, alcançando
assim, prognósticos, diagnósticos e, partindo para o tratamento, procuramos
conduzir os analisandos para fora do labirinto .
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
SUMMARY
The patients who carry upheaval of borderline character do not
have an Identity of themselves, do not have a project for their lives
or values.That might linger throughout their lives. They do not
even have an Identity of their own sexuality. The instability is so
intense that the Patience sometimes rejects him/herself, due to
that the sexual Insatisfaction is constant. They shift moods and
emotions very fast, Changing from an angry state to anguish and
then depression (not necessarily in this order).
UNITERMS: Personality, character, Borderline
BIBLIOGRAFIA
1. FREUD, S. Obras Completas. 2a. ed. Rio de Janeiro:Editora Imago,1987.
2. KERNBERG , O. F. Transtornos Graves de Personalidade. Porto Alegre, Editora
Artes Médicas, 1995.
3. FENICHEL, O. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo, Editora Atheneu,
2001.
4. LAPLANCHE JEAN & J.B. PONTALIS. Vocabulário de Psicanálise, São Paulo,
Editora Martins Campos, 2001.
5. WINNICOTT, D.W. - Panorama da Teoria de Winnicott
6. DSM - 4
7. CID –10
Sobre o autor:
Irani Araújo – Professora de Língua Portuguesa – Psicanalista (NEPP)
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA PARA PESQUISAS:
Editora Imago:
As Normas de Freud para a
Interpretação dos Sonhos
Grinstein, Alexander
Impasse e Interpretação
Rosenfeld, Herbert
Crença e Im aginação
Britton, Ronald
Direito de Fam ília e Psicanálise
Groeninga, Giselle Câmara &
Pereira, Rodrigo da Cunha
Na Sala de Análise
Ferro, Antônio
Psicanálise e Discurso
Mahoni ,Patrick
Refúgios Psíquicos
Steiner ,John
A Psicologia do Self
Kohut, Heinz
A Vida e a Obra de Sigmund
Freud. (3 volum es)
Jones, Hernest
A Correspondência Completa de
Sigm und Freud
Masson , Jeffrey M.
Casa do Psicólogo
Adolescência o Segundo Desafio
Ferrari, Armando B.
Adolescência Reflexões
Psicanalíticas
Levisky, David Leo
Além do Divã
Pessanha, Antônio Luiz Serpa
Contratransferência
Figueira, S. Augusto
Contribuições ao Conceito de
Objeto em Psicanálise
Baranger, W.
Diálogo entre a Psicanálise e a
Neurociência, Um
Andrade, Vítor Manoel
O Pensar – Do Eu-Pele ao Eu-
Pensante
Anzieu, Didier
Sobre a Construção do
Significado
Grandesso, Marilene
Psicanálise e Linguagem – do
Corpo á Fala
Anzieur, Didier e Outros
Provérbios e o Inconsciente
Cohen, Cláudio
Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013

Revista nepp 01

  • 1.
    NEPP-NÚCLEO DE ESTUDOSE PESQUISAS EM PSICANÁLISE Email: nepp@nepp.com.br Site: www.nepp.com.br Prof.Sergio Costa
  • 2.
    Núcleo de Estudose Pesquisas em Psicanálise Av.Cristiano Machado,640-Sl:1501 Bairro Sagrada Família Belo Horizonte – MG CEP.: 31.140-660 Telefax: (31) 3241-2042 www.nepp.com.br Publicação Semestral Belo Horizonte –MG Maio/Junho 2013 Número 1
  • 3.
    PSICANÁLISE Revista do Núcleode Estudos e Pesquisas em Psicanálise Comissão Editorial Irani Adalgisa dos Santos Araújo Ricardo Cunha Falcão Rosiane Cláudia da Silva Sérgio Costa Apoio Livraria do Psicólogo Propaganda/Marketing Revisão de Texto Geraldo Oliveira Elaine De Paoli Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 4.
    O conteúdo dosartigos, aqui p ublicados, é d e inteira responsab ilid ade de seus autores. É proibid a qualquer m odalid ade d e reprodução desta revis ta, seja to tal ou p arcial, sob pena da lei. Indice Editorial Apresentação Mem ória e Elementos Sensoriais e não sensorialidade advindas dos desejos em análise Sérgio Costa Poema de Época Sérgio Costa Adolescência, Violência Urbana e Responsabilidade Psicossocial Ricardo Falcão Culto ao Corpo, Anabolizantes e Adolescência Va léria T rinchero Frágua-Freudiana Sérgio Costa Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 5.
    Introdução e Fundamentosde uma Sociedade de Espetáculos Sérgio Costa Psicanálise e Direito de Família Sérgio Costa Irani Araújo Maira Teixeira Poema: Depressão Sérgio Costa Pacientes Somatizadores David Zimerman Neurose Obsessiva: Neurose ou Transtorno? Transtorno de Personalidade Bordeline Irani Adalgisa dos Santos Araujo Editorial Uma Psicanálise genuinamente brasileira para brasileiros Já passou um século e a Psicanálise continua tão viva e intensa como nos anos 1886, quando foi criada. O NEPP (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise) vem refazendo o percurso de sua história e vem apresentar, com a 1a. Edição de sua revista, uma Psicanálise genuinamente brasileira para brasileiros. Acredita que a criação humana não é obra de um único autor, mas de uma coletividade motivada por um pai carismático e por um objetivo compartilhado. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 6.
    Todo desequilíbrio psíquicodecorre das experiências e da imaginação de um povo, de acordo com o espírito da época. Além disso, depara-se com forças contraditórias que se alternam e entrelaçam incessantemente. Para atender a expectativa do eterno desejo do homem pela felicidade, o NEPP desenvolve uma Psicanálise a partir da realidade brasileira, acreditando que essa é una e em constante processo de mudanças, e que os homens brasileiros de hoje não são os de ontem, e nem serão os de amanhã. Segundo o Diretor do NEPP, Dr Sérgio Costa, esta revista tem como meta levar o leitor a refletir sobre a nossa realidade, e sobre a necessidade de estar buscando força para sobreviver psiquicamente dentro dessa comunidade, que, atualmente, se encontra sem uma referência paterna, ou seja, diante de um Estado adoecido. Esta 1a. Edição traz temas reais, que são estudos e pesquisas relevantes sobre o que há de mais atual no nosso cotidiano, e propõe chamar atenção para a construção de um saber genuinamente brasileiro, atendendo as exigências dos tempos em que vivemos: a necessidade de uma Psicanálise para todos. Alcebino de Souza Santana Apresentação A Psicanálise é a ciência do inconsciente, criada por Sigmund Freud (1856- 1939), neurologista, austríaco e judeu. É uma forma de terapia psicodinâmica baseada na idéia de que as neuroses são manifestações de traumas ocultos no inconsciente, e que ao rememorar e analisar esse material é possível romper as barreiras prejudiciais. É um processo longo, pois parte do princípio de que o eu interior está preso a uma luta com mensagens conflitantes provenientes do ego, do id e do superego, em especial no tocante às questões da sexualidade controlada pela libido. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 7.
    Presum e-se que a realidade representada pelos tem ores e desejos inconscientes, e não as impressões conscientes ou a realidade objetiva, é o mais im portante fator determinante do com portamento e da au to-imagem do paciente. Acredita-se que a capacidade hum ana diante do conflito psíquico é equilibrada por u ma postura de “síntese criativa”, que perm ite a adaptação e cura, através do processo da livre associação, interpretação de sonh os, análise dos atos falhos e da resistência. O NEPP (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise) é um a associação, fundada em 02 de setembro de 2002, regida por um estatuto aprovado por Assembléia G eral, sem vinculação político-partidária ou religiosa, sem distinção de raça, cor, sexo ou nacionalidade. A su a sede administrativa é em Belo Horizonte-MG, onde atu a sem limites ou restrições, tanto geográficas com o políticas. Tem como exercício social, coincidente com o ano civil, e prazo inde terminado para o exercício de suas atividades. É administrada por u ma dire toria e um conselho fiscal. É constituído por psicanalistas clínicos voltados para o estudo con tínuo da Psicanálise. Tem a missão de contribuir e estimular o desenvolvim ento da Psicanálise, de acordo com as norm as e finalidades legais. Para tan to, oferece cursos, en contros científicos, estudos de casos clínicos, análises de film es, projetos voltados para a educação, a análise das cau sas e efeitos da violência social, as famílias etc. Oferece, ain da, um a biblioteca rica e uma videoteca para pesquisas e estudos. Procura formar psicanalistas e estudiosos, desenvolvendo a escu ta psicanalítica apoiada n a transferência, e o conhecim en to do sujeito e suas organizações patológicas, associadas às demandas do m undo con tem porâneo. Além da transmissão da Psicanálise baseada nas obras freudianas, estuda- se outros autores. Apresenta como re qu isitos essen ciais à formação, a supervisão individu al do trabalho clínico, análises pessoais e didáticas, participação dos gru pos de estudos e a execu ção de trabalhos científicos mensais e conclu sivos. MEM ÓRIA E ELEM ENTOS SENSORIAIS E NÃO SENSORIALIDADE ADVINDAS DOS DESEJOS EM ANÁLISE Sérgio Costa Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 8.
    RESUMO : Asexperiências vividas na infância até a adolescência são permeadas de elem entos fundamentais para o aprim oramento do ser humano n a fase adulta, porém presos a uma valorização mitológica da função da mãe. O indivíduo, insatisfeito com o m odelo aprendido na sua dinâmica fam iliar, busca um compan heiro para a constituição de um a família, on de se repete o modelo apreendido e produz um relacionamento conturbado. Com o fracasso caem por terra todos valores e vários sintom as manifestam-se como uma depressão por um relacionam ento desgastado e destruído. Na busca da Psicanálise acontece o recordar, reviver e elaborar, e isso só ocorre se houver uma neurose de transferência, possível desenvolver somente com um analista. PALAVRAS CHAVE: Infân cia – Mãe – Neurose de Transferência Gostaria de começar o m eu artigo com trecho da letra do Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus...”. Tal música me rem ete a uma fase de vida, que ante a dificuldade da crian ça, saindo da primeira infância e tendo contato com o con hecimento da morte, e já em estado de prontidão para a socialização, se perturba com tantas modificações psíquicas profundas. Sua mãe lhe ensina a rezar ou até “conversar com Deus”, para não ter noites de sonhos de angústia. Estas observações nos remetem à aflição da pessoa “desejando não ter desejos”, ou não se esquecendo nunca, que não devem ter m emória. As crianças gostam de ver film es de terror e as mães perm item. Depois, morrem de medo ao dormir. Parece que essas crianças ficam à mercê do material imprimido no psiquismo: gostam e sentem excitação, e no medo de serem destruídas, devoradas, suas m ães as acalentam e pedem para não pensarem e, ao mesm o tempo, pedirem a D eus a proteção para um bom son o. Neste jogo de prazer x desprazer, todo o material libidinal (EROS x TANATOS) impõe a sua luta para sobrepor o destino do sujeito na form ação e no recalcamento do m aterial psíquico na vida adulta. Ora a m ãe estim ula a pulsão de vida, ora permite o trânsito da pulsão de morte. Assim, o m ito se impõe e, futuram ente, atuará como um elemento ansiogênico, e gerará um esforço para alcançar o equilíbrio, em con traposição a uma sugestão tranqüilizadora de um exercício e busca de disciplina do sujeito, ante os seus medos, cujos objetivos podem, talvez, Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 9.
    nunca se realizarem,ou podem inúm eras vezes ser alcançados, perdidos e recuperados. O vento que sopra com força, faz tremer a janela e assovia. Passos que se escutam. Temores que alguém vai aparecer e destruir seu corpo, despedaçar, devorá-lo vivo. Aquilo que não se pode falar, aquilo que dá prazer gera emoções e sensações sexuais fortes. Talvez o gozo, ou próximo ao gozo da morte, o profano, o vampiro que suga o sangue, o psicótico que esfaqueia as pessoas, os hom ens que estupram as mulheres, as mulheres que se entregam aos homens, vão lhe fazer mal, m atar, comer e comer, esquartejar. Não sabem lidar com a presença do perigo, porque estão em estado de êxtase e se entregam ao mal, mas num clima e energia de sedução. Cria-se êxtase, prazer, pecado, punição. Jovens indefesas nas mãos de homens sanguinários. Cria-se, então, o “vazio” ou a “iluminação”, a “coisa”!?. A questão é transportarmos aos umbrais do místico, quando a sugestão através dos sons que estão impregnando o nosso aparelho psíquico, é que estaríamos lidando com a essência irredutível a qualquer linguagem, e que se revela somente ao coração e à intuição. Seria algo do instinto..., sobrevivência..., primeiros contatos com o sobrenatural, com o profano, aquilo que não se pode falar, mas pode-se pedir ajuda à outra força, a do bem . A luta do bem x o m al. O grito de socorro pela mãe (...), a ajuda da mãe, a santificação da mãe (...). Não existe mulher no m undo melhor do que ela. Ela deixa de ser m ulher porque não pode ser a mulher do filho. Ela deixa de ser mulher porque a filha é uma mulher e seria a concorrente de ser possuída em seu lugar. Passa a ser, então, algo sagrado sem sexo, sem odores; uma santa que em seu nome somos capazes até de destruir quem dela falar mal. E ela passa a ter um companheiro, que é o pai, m as que também tem que ser desprovido do papel de hom em. Quando alguns sussurros são ouvidos, vindos do quarto do casal, m il fantasias rolam e persistem por muitos anos na cabeça dos filhos: “Será que meu pai está machucando a minha mãe?” “Porque é que na manhã seguinte ela levanta tão feliz?” “O que eles estão fazendo de porta fechada?” “Porque minha mãe briga com o meu pai por causa da secretária, da vizinha?” “Porque meu pai faz a minha mãe chorar tanto?” “Eu não entendo porque depois das brigas eles se sentem felizes e dóceis um com o outro.” As experiências ou pseudoexperiências vividas na infância até a adolescência, dentro do lar, são a meu ver, componentes fundamentais para o aprimoramento do ser humano na fase adulta. Torna-se insatisfeito com o modelo aprendido no convívio do relacionamento e dinâmica familiar, pois nessa fase é o namoro e a procura por um companheiro para a constituição de uma família. Nós pensamos em fazer e sermos diferentes do modelo que nos foi passado. Até mesmo, quando nos casamos procuramos, na repetição, um nível de insatisfação própria, e criamos uma dinâmica conturbada de relacionamento. Só aí é que se caem por Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 10.
    terra todos osnossos valores e a manifestação da ansiedade por causa do fracasso. Um complexo de Édipo, mal resolvido vai nos remeter à procura de uma psicoterapia, por várias maneiras de manifestações de sintomas, como uma depressão por um relacionamento destruído. Dentro da postura mística, agora perante a destruição de toda uma vida idealizada na busca do parceiro perfeito (...), o sujeito analítico passa a “exigir” de si próprio, que trabalhe veja e reveja suas experiências ou aprenda com elas, o que lhe traz tantos conflitos e como manejá-los para evitar tantas dores e dissabores. Atestando a proposta de liberdade de sua “alma” (psique), que ele faz segundo as suas próprias limitações, em função de suas angústias de defesa. Reduzindo os seus aspectos formais em análise, na transferência promove até o surgimento de expressões clássicas como: “não tenho contato” ou “não dou conta de tais experiências”. Simplesmente não está sendo aprendido o particular contato que aquela pessoa está podendo estabelecer, naquele determinado momento, ou mesmo, não participa da experiência. Algo impossível para quem está vinculado a um ideal de ego, a um superego rígido, ou o ego presente ou ausente de contatos com o mundo real. O que me passa e parece ocorrer na sua vida, é que não está de forma alguma sendo compartilhado, ou melhor, participando da forma que o desejo quer satisfazer o seu eu. E a sua forma de atuação é desproporcional e atemporal aos seus verdadeiros motivos de inter-relacionamento com o mundo. Qualquer estímulo leva o sujeito à atuação que não tem nada a ver com a sua pessoa, agindo sob o mito de que é preciso experimentar. Viver na experiência, algo inevitável, natural e espontâneo, que se processa de fora para dentro, onde o desejo não é consultado e nem permitido se manifestar. Destaco, que neste momento, o sujeito é tomado de uma regressão e o ser desejante fica substituído pelo “desejo de ser”, o alcançar o que se é, é substituído pelo alcançar o que se deve ser. Vira uma busca desesperada pela mãe da infância, que o salva dos vampiros e Fred Krugers. No passo seguinte ao sujeito na busca da sua redenção, a escolha do par analítico é de grande importância para que haja a transferência. Assim, se se criar a transferência, cria-se uma região, um portal intermediário entre a doença e a vida real, através da qual se faz a transição de uma para a outra. A nova condição assume o comando de todas as características da doença; mas ela representa uma doença artificial que é, em todos os pontos, acessível à intervenção do analista. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 11.
    Dou aqui, aênfase na natureza artificial da neurose de transferência, de um trabalho que só pode ser realizado por um analista. Cito a Conferência Introdutória (1916-1917) para sustentar as bases e o desenrolar de sensações presas num passado de valorização mitológica da função mãe, que só pode ser desmistificada através da transferência. Freud define a transferência, mas também enfatiza, energicamente, como a neurose de transferência concentra tudo num “ponto único”, a relação do paciente com o analista. Nós já não estamos preocupados com a doença anterior do paciente, mas com a neurose recém-criada e transformada que tomou o lugar da anterior. Assim, o analista faz com que todos os sintomas do paciente abandonem seu significado original e assumam um novo sentido baseados numa relação com a transferência, ou só persistirão aqueles sintomas capazes de sofrer tal transformação. Mas o domínio dessa nova neurose artificial, aos poucos, vai debelando tais sentimentos confusos e ansiogênicos no trato do sujeito com os seus desejos pessoais. Suas sensações energéticas, capazes de sofrer tais transformações, se tornam possíveis com a realização da nossa tarefa terapêutica. Em “Além do Princípio do Prazer” (1920), Freud enfatizou a neurose de transferência com a essência e o concentrado da transferência, vista como uma repetição, “uma expressão da compulsão à repetição”, a serviço de evitar o recordar: o sujeito é obrigado a repetir o material reprimido como uma experiência contemporânea (...), e estar sempre buscando o ideal de mulher que o salve de seu desejo de sugar e sorver a mulher desejosa por um vampiro, que lhe extraia a essência e preencha o vazio ou a iluminação da sua alma. Talvez o trecho que melhor nos explique o não dito, seria da música de Belchior “...eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno; viver a divina comédia humana, onde nada é eterno.” SUMMARY MEMORY AND SENSORIAL ELEMENTS AND NOT PERCEPTION THAT CAME FROM DESIRES IN ANALISYS The experiences lived between childhood and adolescence are composed of basic elements to the human being improvement in the adult phase, however attached to a Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 12.
    m y tholo gical valuatio n o f the function o f the m o ther. The individ ual, u nsatisfied w ith th e m o del learned in h is/her fam ily, loo ks fo r a partner to con stitute a fam ily, w here the m o del learned repeats itself and pro duces a confu sed relatio nship. W ith the failu re every value falls ap art and several sy m pto m s reveal them selves as a dep ression of a stressed an d destroy ed relatio nship. In th e qu est o f psy ch oanaly sis, the “rem em ber, liv e ag ain an d ela bora te” happ ens and this o nly h ap pens if there is a neuro sis of transference that only an analyst can develop . K E Y W O R D S: C hildho od – M o ther – Neuro sis of tran sference Sobre o Au tor S érg io C osta – Psican alista Did ata – D ire tor e pr ofe ssor d o N ú cle o d e Estu do s e Pesq uisas Psic an alític as. Po em a d e ép oca S érg io C os ta O peito o prim id o C au sa rep ulsa no pensar e cala a bo ca no falar. Não ventila o cérebro E não deixa p ensar... A falta de se exp ressar Leva o ho m em a se acab ar. A fom e d eix a a vo ntade de viver Pra lá. O s governantes ao nde estão? Q ue nesse m o m ento desap arecem co m o o s pais Q ue não m e deixam fazer o m eu ficar... D iante do m und o qu e não po de m e abrigar. O s governantes ao nde estão? Q ue neste m om ento desaparecem com o o s p ais E m e rem etem ao p assad o d a infância... Q ue não m e deixam fazer o m eu ficar... D iante do m und o qu e não po de m e abrigar. F ico diante d e um m undo que não p od e m e ab rigar E é no sinto m a que vou m e instalar. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 13.
    ADOLESCÊNCIA, VIOLÊNCIAURBANA ERESPONSABILIDADEPSICOSSOCIAL. RicardoFalcão “Violênciado desejoque se perpetuanarepetição, violênciado pai que se instalano superego, violênciadacastração que bloqueiao amor, violênciadaculturaque internalizao terror, violênciado conflito defensivo que incapacitao neurótico; violência, enfim, do próprio discurso do paciente, doverbo doanalista,darealidade que impõe seutributo e liquidaas ilusões. A guerrae asmetáforasmilitares(...) setornamo referencial parapensar o homem, folhasolta natempestade dassuas paixõese dos obstáculos que osoutroshomens se vêemforçados a erguer contraabestadesenfreadaque se agitapor trásdasuamáscaracivilizada.”. (Renato Mezan, Freud: Atrama dos Conceitos) RESUMO: O presente artigo traz reflexões acerca dos adolescentes e sua participação como protagonistas nocenário deviolência urbana da sociedademoderna. Através de algumas matrizes teóricas do pensamento psicanalítico freudiano, tais como: Complexode Édipo, Ideal de Ego, Superego, serão feitas considerações a respeito do excesso de gozo e a ausência da lei que permeia o nosso atual momento histórico e suas influênciasnoquetangeviolência. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 14.
    U N ITER M O S : V iolência U rban a – A dolescência - R espon sabilidad e P sicosoc ial Atu alm en te, som os co n fro n tad os ca d a v ez m a is com situa ções d e vio lên cia urb an a q ue têm co m o p ro ta gon ista s p rin cipa is: o s ad olescen tes. As in stituiçõ es so cia is q u e con stituem a n o ssa so cieda d e d em on stra m cla ra m en te em sua s a titu des - o n ã o sa ber o q u e fa zer de form a co n creta e a rticula da fren te a esta realida de. Ta l a firm a çã o n ã o n ega q u e h a ja in cu rsões d a so cieda d e o rg an iza d a n a ten tativa de reso lver esta situa çã o, a p en as po n dera q ue a in d a é p reciso um a a tua çã o m a is profun da sob re o gru po socia l a do lescen te. As a çõ es d evem ter com o a lvo à s ca usa s e n ã o os sin tom as, o rigo r m o ra l com o ún ico in strum en to d e a tua ção n o co m p orta m en to vio len to do s a do lescen tes pro voca u m a lh eam en to d a dispo siçã o in stin tua l, resu lta n do n o s fen ô m en o s rea tivo s de deso rd en s n eurótica s. A essência m ais pr ofunda d a natureza hum ana consiste em im pulsos instin tuais de natureza elem entar (...) E m si m esm os, esse s im p ulsos não são nem b ons nem m aus. Classific am os esses im pulsos seg und o sua relaç ão com as necessidades e as exigências da com unid ade hum ana.1 Pa ra q u e realm en te possa m os a g ir efetiva m en te e em determ in ad o fen ôm en o de n atu rez a psico ssocia l, é d e sum a im po rtâ n cia a reflexã o p rofun d a de su a s ca usa s, p a ra po steriorm en te in tervirm os n os sin to m a s a cu rto , m édio e lon go pra zo . D e ve m os ter cl aro q u e qu e stõe s re la tiva s a sta tu s, c la sse soc ia l, be ns d e c on su m o, e sté tic a, é tic a , a rte , e sp o rte, p olític a , le i, e c on om ia , e d u ca ç ã o, bio lo gia , p siqu e , m erc a d o d e tra ba lho , fa m íl ia , m íd ia , história , re lig iã o, a fe tos, de sa fe tos, se xu a lid ad e e e sta d o a fe ta m a vivê nc ia e a c o nstitu iç ã o 1 A D esilusão da G uerra, S.E., XIV , p.317. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 15.
    afeto s, desafetos, sex ualid ad e e estado afetam a vivência e a co nstituição d o ser a d olescente. O s ad olescentes rep resentam um percentu al da so cied ade b rasileira que po ssui form as específicas d e com p ortam ento, dem andando um apo io e um a atenção esp ecial, para o d irecio nam ento equ ilib rad o da transição d o ser criança-ado lescente-adu lto. O co nhecim ento desta fase pertinente a u m a etapa do desenvo lvim ento hum ano está sujeito às variações histórico -culturais, po rém , não perde a criticid ad e quanto a d im en são d o conflito ex istencial p eculiar a u m p erío do de transição físico , p síqu ico e so cial. As transform açõ es do m und o glo baliz ad o d em andam do s ado lescentes u m a velo cid ade na adaptação às constantes m u danças da realid ade, ob rigand o-o s a fazer escolhas sob re su a cond uta d e vida. Po rém , ao m esm o tem po em que estas escolhas são feitas, os com p on en te s vulneráveis desta fase se to rnam evid entes e p assíveis d e m anip ulação social. A sociedade glob aliz ada, co m su as prerrogativas, cria um d esco m p asso d as aspiraçõ es d os ad olescentes frente às instituiçõ es so cializ ad oras, envo lvend o am b as as partes em conflito s qu e resultam na deso rientação , em busca de valo res e referenciais, o casionand o com po rtam ento s extrem os e con traditório s de co nvivência e o rg anização so cial. E sta m ud ança radical d os cód ig os d e co nvivência em que estam os im erso s e a inversão d e valores provo cam colapso s p síqu ico s em to da a coletividade. Nem se deve constituir surpresa que esse relaxamento de todos os laços m orais en tre os ind ivíduos coletivos d a humanidade deva ter r epercussões sobre a mor alidade dos indivíd uo s.1 Nesse sentid o, a vio lência urbana é u m ex em plo destes colapso s, representam inscriçõ es d e co nflito no im aginário ado lescente.É ex pressão e con seqü ência d e u m a p ato lo gia so cial, e através d e su a intensidad e, po dem os identificar a deso rd em da vida psicosso cial. E ste co ntexto dem and a a necessid ade d e se criar um esp aço, o nde o s sujeito s d a so cied ade encontrem um tem p o p ara o recolhim ento e a reflex ão em p rofund id ade d e suas p ró prias exp eriências individ uais e coletivas no que diz respeito à ad olescência. 1 A Desilusão da G uerra, S.E ., X IV , p.312. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 16.
    E ssa form a de ag ir resultaria profícua, princip alm ente na p ro du ção d e novas perspectivas p ara lidar com a subjetividad e d os ado lescentes frente ao s paradigm as d a m od ernidad e. A P sicanálise sendo um a área d o conhecim ento, que b usca refletir e entender o co m po rtam ento hum ano , d eve prom over, a p artir d e su as m atriz es teó ricas, co nhecim ento s que visem m ino rar co nflitos e confro nto s que pro m o vam a d esag regação so cial. Para o criad or e fu ndado r da P sicanálise, F reu d, o “C om plex o d e Éd ip o” é a princip al articulação estru tu rante do psiquism o hu m ano. N a sua infância, os seres hum an os não po ssuem sentid o de m o ral e nem interd itos em ocionais que sejam eficientes no controle d as d em and as d o Id. Esta função é ex ercida inicialm ente pelas figu ras p arentais. N o decorrer de seu d esenvolvim ento psíquico oco rre a vivência d o co m plex o de É dipo , fase em qu e se d á o pro cesso de identificação e as escolhas ob jetais. Se o pro cesso de identificação o correu de fo rm a satisfató ria, o Su perego com o um a instância parental, tam b ém o fo i. Po steriorm ente, o Su perego se afasta das figuras p arentais p ara se ap ro x im ar e receb er influ ên cias d as fig uras cu lturais, que tam b ém contrib uem p ara a sua form ação. C o m a equ ilib rad a resolução d o com plexo d e É dipo , a criança tem inserid o em sua p siqu e a cu ltura. E la aband on a o princíp io d o prazer e aceita o princíp io d a realidad e; garantind o a instauração do su perego com o representante da m oral, d as leis, d as norm as, d os aco rdo s tácitos criado s ao longo da vid a hum ana em so ciedad e. A c ivilização foi alcançada através da renúncia à satisfaç ão instintual, exigindo ela, por sua vez, a mesma renúnc ia de cad a recém -cheg ad o. No decorrer da vida de um indivíd uo há uma substitu ição constante d a com pulsão externa pela in terna.1 A o rdem do sim b ólico é acessada, instru m ento de fund am ental im p ortân cia na criação do s cam in hos pelos quais percorrerão o s seus desejos. A so ciedad e m od ern a glob alizad a, infelizm ente, tem se caracterizad o po r u m am b iente dicotôm ico n eg ativo: falta (d e lei) e o excesso (go zo), criando u m a pred ispo sição para rup tura do p acto edípico , p ro piciand o o ressu rgim ento do recalcado . A p artir d este referencial, o ad olescente enco ntra-se em um a situação fertilizad ora d e traum as: a v ivência p lena d os d esejos sem o recon hecim ento d a d iferença e d a alterid ade. 1 A Desilusão da G uerra, S.E., XIV , p.319. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 17.
    O d iqued o recalque rom pido libera um a g rand e e fo rte correnteza de pu lsõ es con tidas, p red isp ond o o surgim ento de co ndições intra e extrap síqu icas para a instauração do com po rtam ento vio lento em so cied ade. O s im pulsos primitivos, selvagens e maus d a hum anidad e não desapareceram em qualquer de seus membros individuais, m as pe rsistem, num estad o reprim ido, no inconsciente e aguardam as oportunidades par a se tornarem ativos mais uma vez 1 A nossa sociedade precisa garantir com equidade e alteridad e o s direito s civis, sociais e po lítico s, p ara oferecer u m a vid a d igna ao s sujeito s qu e a con stituem . Sem tal feito, à co esão e a integração d o tecido so cial não oco rrerá, p ois não haverá valo res d e co nsistência m o ral e é tica qu e estruturem o ideal d e ego da socied ade. N a ausência d este id eal de eg o, a referên cia de id entificação entre o s sujeitos não se fará p ro m o vendo a d esag reg ação . A violência u rb ana é a fo rm a perversa d e protesto d os ad olescen tes à esta situ ação : o falecim ento e a usurpação d os d ireito s civis, so ciais e p olíticos. M esm o assim , as institu içõ es socializadoras têm qu e ser p reservadas. N ão se po de som en te criticá-las sem ap re sentar alternativas institucion ais con strutivas. E xistem muito mais hipócritas cultur ais do que homens verdad eiramente civilizados (...) a manutenção da civilização, mesmo numa base tão dúbia, for nece a perspec tiva de, a cad a nova g eraç ão, preparar o c aminho para uma tr ansfor maç ão de maio r alcance do instinto, a q ual será veículo d e um a civilizaç ão m elhor.2 Se nos in titulam os “So cied ad e O rg anizad a” d evem os tom ar consciência do s efeito s d estru id ores da om issão m oral em relação à fo rm ação p sico sso cial do s nosso s ad olescentes, ou a errad icação da violência neste grup o será u m m ero pro cedim ento id eológico destinado a encob rir a n ossa resp on sab ilid ade social. Para aqueles q ue ach am q ue esta realid ad e é n orm al, co m o p arte in tegran te d o fruir evolutivo do s tem p os, só n os resta p arafrasear G ilberto G il: - quem sabe J A N O 3 venha n os restituir a p ru dência, a p az e a cap acid ade d e ver o futuro co m o co nseqüência d e um p assado . E , com o 1 Carta a Frederik Van E eden, S.E., XIV, p. 340. 2 A desilusão da Guerra, S. E., XIV, p.323. 3 Deus grego, que recebeu de Saturno o dom da prudência e de ver o passado e o futuro, é aquele que preside os caminhos e traz a paz. CO MM ELIN, P. Nova Mitologia G rega e Rom ana.Itatiaia Ltda.1997, Bhte, p.144. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 18.
    um Deus benevolente,nos livre do continuum da repetição e recordação, elaborando de vez o rumo desta história. SUMMARY This present article brings reflections respective about adolescents and their participation how main characters in setting urban violence of modern society. Through some teorics matrixes the psychoanalytic thought Freudian, such in those cases: Oedipus Complex, Ego Ideal, Superego, will make considerations respective enjoyment excess and the absence of law that which our moment historic current and their influences respect for violence. UNITERMS:Urban Violence – Adolescence - Psychosocial Responsibility BIBLIOGRAFIA FREUD, Sigmund. A Dissecção da Personalidade Psíquica. Vol. XXII, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago, 1997. FREUD, Sigmund. Reflexões Para os Tempos de Guerra e Morte. Vol. XIV, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago, 1997. FREUD, Sigmund. A Dissolução do Complexo de Édipo. Vol. XIX, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago, 1997 Sobre o Autor Ricardo Falcão – Sociólogo – Psicopedagogo – Sexólogo e Psicanalista (NEPP) Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 19.
    Culto ao Corpo,Anabolizantes e Adolescência Valéria Trinchero Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 20.
    Resumo: Sabe-se que,quando ingeridos sem indicação médica, os esteróides anabolizantes causam efeitos deletérios graves e até mesmo fatais. A facilidade de obtenção destas drogas, aliada a idealização do corpo existente em nossa sociedade, levou ao consumo de anabolizantes e pela faixa de maior risco: a adolescência. O presente estudo procurou discutir algumas questões acerca da estrutura psíquica dos usuários destas drogas, e buscar as modificações estruturais necessárias para perm itir o auto- conhecimento e auto-aceitação, levando-os a com preensão de que a perfeição, im posta pelo mom ento social vigente,é ilusória e inatingível. Unitermos: Adolescência – Anabolizantes - Estrutura Histérica - Culto ao Corpo. Introdução Para a geração nascida entre as guerras, portadora de moral burguesa de classe média, a preocupação excessiva pela musculatura e pela forma corporal era vista com certo desdém, indício de um a inteligência escassa, ou de um lamentável desinteresse por ocupações verdadeiramente importantes, pelos valores espirituais, intelectuais, econômicos ou profissionais. Porém, a vida sedentária e cômoda do homem moderno, seus vícios de alimentação tem m ostrado seus efeitos adversos. O exercício popular regularizado se converteu em necessidade, em um mecanismo de regulação e com pensação homeostática de uma cultura voltada paradoxalmente para o mínimo esforço corporal. Grande parte do progresso do século XX nos trouxe economia de movim entos. Por um lado, muito do desenvolvimento econôm ico e do avanço tecnológico e científico teve como meta maior com odidade, por outro lado, os seres humanos se viram obrigados a inventar toda uma cultura de novas ocupações e atividades que lhes permitam reativar ,em seus hem isférios cerebrais, todos os movimentos que sua capacidade de abstração havia economizado. É difícil, entretanto, processar a dupla mensagem de uma civilização esquizóide, que primeiro nos envolve e seduz com a magia de artefatos que reduzem ao m ínimo nossa atividade corporal, oferecendo um clim a de sedentarismo e repouso, para logo nos obrigar a consumir freneticamente toda esta energia que havíam os economizado. Em nossa sociedade, a aparência física, tem sido determinante no modo com o as pessoas são vistas em seu meio social. A escravização a padrões Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 21.
    de beleza impostospor uma sociedade esquizóide, tem sido um dos fatores associados ao aumento da incidência de transtornos dismórficos (anorexia, bulimia, vigorexia ) e conseqüentemente ao uso de drogas que possibilitem alcançar o corpo ideal – esteróides anabolizantes, anorexígenos,... A dissociação mente-corpo, que nos parecia superada, retorna com força total se convertendo em obsessão pela perfeição das formas e doenças psíquicas acompanhadas de grande ansiedade. A imposição maciça de um ideal absoluto de perfeição do corpo tiraniza o sujeito e sua família, e conduz ao empobrecimento da atividade psíquica, afetando o rendimento intelectual tão importante para o êxito no campo escolar, durante o período da adolescência. A sensação de músculos poderosos e tensos que lhes pertencem, fazem cumprir, em seu interior, uma inefável sensação de totalidade existencial. O termo “Dismorfia Corporal” foi proposto em 1886, pelo italiano Morselli, e significa um transtorno emocional, onde há sofrimento significativo, e uma reiterada obsessão com alguma parte do corpo que impeça uma vida normal. Quando o quadro todo se fixa na questão muscular, o transtorno se denomina vigorexia ou transtorno dismórfico muscular. Freud descreveu o caso do “Homem Lobo”, uma pessoa que apesar de ter um excesso de pelos pelo corpo, centrava sua excessiva preocupação na forma e tamanho de seu nariz. Não é causalidade que o nome vigorexia rime com anorexia; as duas doenças promovem a distorção da imagem que o paciente tem sobre si mesmo:o anoréxico nunca se acha suficientemente magro, o vigoréxico nunca se acha suficientemente musculoso. Ambas podem ser consideradas patologias do narcisismo, que se caracterizam pelas exigências arcaicas sobre o self, dependência desregrada de aclamação por parte de outros e relações objetais más, ou deterioradas. Manifestam-se por um senso de ter direito a tudo, uma incansável perseguição da auto perfeição e o prejuízo da capacidade de ter interesse, empatia e amor pelos outros. Os sintomas de vigorexia se evidenciam pela insatisfação com o corpo e pela obsessão em tornar-se musculosos. Essas pessoas olham-se constantemente no espelho e, apesar de musculosos, podem ver-se enfraquecidos ou distantes de seus ideais. Para alcançar estes ideais o sujeito abandona suas atividades e se isola numa academia dia e noite. Temos então, o risco de usarem anabolizantes, mesmo quando alertados quanto aos graves efeitos colaterais. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 22.
    A Estrutura Histérica com o Fator Predisponente aos Transtornos Dism órficos Atualmente o conceito de h isteria tornou-se anacrônico. O quadro foi fracion ado em vários outros m ales – depressão, angústia, conversão, transtornos alimentares – nos quais não se reconhece um a unidade, o que gera um tratam ento m edicamentoso e sintomático, levando em consideração apenas o sintom a dom inante. Nos dias de hoje, não vemos mais a histeria com a força diagnóstica de outrora, talvez por sua plasticidade e sua capacidade de transformação, a patologia tenha derivado dos conh ecidos quadros clássicos para manifestações “atípicas” que não são sequer reconh ecidas por nossos colegas. A histeria sempre existiu e acom panha o homem desde o inicio da civilização. Descrições de quadros histéricos são encontrados nos papiros egípcios que datam de 4 mil anos, como o de “kahun”. Ataques aparatosos são raros, restam hoje as “crises de nervos”, estados de angústia, de cólera e agitação, que se apresentam com o uma insatisfação generalizada com o viver. A religiosa dedicação ao exercício, a quantidade de pessoas que se submetem repetidamente a todo tipo de dietas, correm, fazem “aeróbica”, yoga, nadam , andam de bicicleta, nos leva a pensar numa possessão do corpo, tal qual os casos de histeria coletiva em épocas passadas, onde o corpo forçava sua aparição através da possessão das Ménades, frenéticas seguidoras de Dionísio. O incessan te m ovimento de repetição reaparece nas academias como forma de “esculpir” o corpo. Do ponto de vista social, pessoas com estrutura histérica são vistas como norm ais e valorizadas como extremam ente sedutoras. Academ ias de ginástica, consultórios de medicina estética e de cirurgia plástica estão abarrotados de nossos adolescentes, tentando seguir um padrão imposto pela mídia de perfeição das form as. Geralm en te nutrem uma intensa rejeição pelo próprio corpo, entrando em con flito toda vez que se olham no espelho. A problemática fundam ental, assim como na histeria, é a má relação com o próprio corpo, com sua sexualidade, com seus instin tos, enfim, com sua própria natureza. Para seguir o modelo vigente na sociedade e alcançar as “graças” de um corpo “sarado”, tudo se torna lícito – anabolizantes, moderadores de apetite, dietas restritivas,... Podem os pensar então num processo de estruturação patológica ideal de ego/ego ideal afetando e redirecionando o fun cionam ento psíquico em Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 23.
    torno da auto-imagem e da auto -estima, alterando o processo de aceitação do próprio corpo pelo adolescente. Histórico dos Anabolizantes O uso de substâncias para melhorar o desempenho do atleta é descrito desde a antiguidade. Filistrato e Galeano referem, em sua época, que os competidores olímpicos ingeriam testículos de touro –ricos em testosterona- para melhorar suas marcas. Os esteróides anabolizantes são derivados da testosterona e foram sintetizados em 1935, para fins terapêuticos, tendo as seguintes indicações médicas: - Deficiência de testosterona - Câncer de mama - Anemia aplástica - Edema de origem indeterminado - Tratamento da Síndrome de Turner - Estímulo do crescimento em caso de puberdade tardia em homens. O uso não terapêutico dos anabolizantes tem sido descrito desde 1950, por atletas profissionais e amadores, com objetivo de aumentar a massa e força muscular. Atualmente, este uso está sendo divulgado entre “não atletas” visando aumentar habilidade e atuação atléticas e, principalmente melhorar a aparência física. No Brasil, a facilidade de obtenção dos anabolizantes favoreceu seu uso. A grande atração, para o consumo destas drogas, se fundamenta nos seus efeitos visíveis e relativamente duradouros (cerca de nove meses após o término da ingestão). Estas duas características somadas ao apelo, a aparência física, existente em nossa sociedade, levou ao aumento do consumo de esteróides pela faixa etária de maior risco : a adolescência. É importante ressaltar, que a aquisição destes produtos é feita dentro das próprias academias, e que a indicação e a venda das drogas é feita pelos próprios instrutores, que se vangloriam do ganho de massa e força muscular de seus alunos. Numa tentativa de diminuir o uso de anabolizantes, em 1990, os EUA tornou-os “medicamentos controlados” o que gerou, na verdade, um grande mercado negro deste produto sem obter a redução de uso desejada Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 24.
    Definição de Andrógenos Os testículos secretam vários hormônios sexuais masculinos, coletivamente denominados andrógenos, incluindo a testosterona, diidrotestosterona e androstenediona. Todavia, a testosterona pode ser considerada como o hormônio testicular fundamental. A testosterona é responsável pelas características peculiares do corpo masculino, incluin do o crescimento do pênis e bolsa escrotal , desenvolvimento da glândula prostática, vesículas seminais e ductos genitais masculinos. Outras funções da testosterona são: - Estimular descida dos testículos para a bolsa escrotal; - Aum entar pêlos sobre o púbis, face e peito; - Dim inuir o crescim ento do cabelo no alto da cabeça gerando, às vezes, calvície; - Hipertrofiar a mucosa da laringe e aumentar este órgão ocasionando, inicialm ente voz discordante e após a voz grave masculina; - Aum entar a espessura da pele em todo o corpo; - Aum entar o índice de secreção das glândulas sebáceas, principalmente na face, resultando em acne; - Aum entar a espessura dos ossos; - Aum entar o índice metabólico basal; - Aum entar o número de hem ácias por m l de sangue; - Aum entar a reabsorção de sódio pelo rim. Muitos dos derivados da testosterona foram preparados e testados na procura de com postos que pudessem prom over o crescim ento geral do corpo sem produzir efeitos m asculinizantes. Estes com postos são denominados esteróides anabolizantes. O grau de dissociação dos efeitos androgênicos e anabolizantes dos vários compostos depende dos bioensaios utilizados e, com freqüência é assunto de discussão. A própria testosterona é um dos mais potentes esteróides anabolizantes e , atualmente, é im possível separar totalmente as duas funções. No entan to, seria muito desejável ter compostos anabolizan tes que não fossem androgênicos, pois isto torn aria possível o seu uso em m ulheres sem induzir a masculinização, e em crianças sem causar efeitos indesejáveis sobre o desenvolvimento sexual e crescimento ósseo. Mecanismo de Ação dos Esteróides Anabolizantes Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 25.
    Os anabolizantes sãoconhecidos pelo seu potencial de m elhorar o desem penho do atleta, o que seria resultado de diferentes ações com binadas, nem todas conhecidas. As ações conhecidas atualmente são : - Efeito placebo : efeito a nível psicológico pelo fato de usar uma droga que “melhora” o seu desempenho; - Estimulação do sistema nervoso central : produz efeito eufrorizante diminuindo a sensação de fadiga durante os treinos; - Efeito anti-catabolizante : diminuem a ação catabólica dos corticosteróides liberados durante o stress diminuindo a perda de massa muscular; - Aum entam a utilização da proteína ingerida. Efeitos Colaterais O uso de esteróides anabolizantes com fins estéticos é injustificável devido aos seus inúmeros efeitos colaterais; são associados a várias alterações indesejáveis, clínicas e psíquicas. A ocorrência de efeitos colaterais fatais ou potencialmente letais é rara, apesar de existirem tais relatos na literatura médica principalmente com as drogas de uso por via oral. Os efeitos colaterais, m ais comuns, tendem a serem reversíveis com a interrupção de seu uso, com exceção para as mulheres e crianças incluindo os adolescentes. Pela variedade do padrão de uso dos anabolizantes e a escassez de estudos sobre seu uso prolongado não há como assegurar a ausência de efeitos colaterais, nem prever o aparecimento e gravidade destes. Efeitos sobre o sistema cardiovascular Os anabolizantes alteram o metabolismo do colesterol, dim inuindo a lipoproteína de alta densidade (HDL), e aumentam a lipoproteína de baixa densidade (LDL) com conseqüente aumento do risco de doenças coronarianas. Alguns estudos referem aumento significativo da pressão arterial. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 26.
    Efeitos sobre osistema reprodutor Alteram-se os níveis de hormônios sexuais pela baixa de hormônio folículo estimulante (FSH) e hormônio luteinizante (LH). Nos homens pode ocorrer: hipertrofia prostática, atrofia testicular e esterilidade por diminuição da espermatogênese. Estas alterações são reversíveis com a interrupção do uso das drogas. A ginecomastia, que também ocorre em homens, nem sempre é reversível. Nas mulheres temos atrofia de tecido mamário, ciclos menstruais irregulares, esterilidade, crescimento de pêlos com distribuição masculina, hipertrofia de clitóris, Os dois últimos efeitos descritos –efeitos androgênicos- são irreversíveis. Efeitos sobre as enzimas hepáticas Leva a alterações nos testes de função hepática, icterícia, peliose hepática e tumores hepáticos. Em alguns casos, os efeitos são reversíveis com a interrupção do uso dos anabolizantes. Efeito sobre as crianças e adolescentes Nas crianças e adolescentes, os esteróides anabolizantes causam fechamento prematuro das epífises ósseas, levando à maturação esquelética precoce e, conseqüentemente, baixa estatura, puberdade acelerada, levando também a um crescimento raquítico. Outros efeitos colaterais Vários são os outros efeitos indesejáveis incluindo calvície, acne, policitemia, exacerbação da apnéia do sono e estrias. Temos maior tendência à lesões do aparelho locomotor, pois as articulações não estão aptas para o aumento da força muscular. Além dos descritos acima, Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 27.
    aqueles u suários que injetam esteróides anabolizantes, ainda correm o risco de compartilhar seringas e contam inar-se com o vírus da A IDS ou hepatite, dentre ou tros. É sempre bom ter em mente, que a hipe rtrofia mu scular associada à acne, ginecom astia e estrias estão presentes em um terço dos usu ários de esteróides anabolizantes. Para minim izar os efeitos colaterais ou potencializar os efeitos dos anabolizantes, seus usu ários costumam lan çar m ão do u so de ou tras drogas também preju diciais - analgésicos, horm ônio do crescim en to, insu lina, gonadotrofina coriônica. Efeitos sobre o psiquismo Os esteróides anabolizantes são drogas psicoativas que podem alterar o psiquismo de cada u suário de forma individual. Vários estudos têm dem onstrado que 83 a 85% dos usu ários tiveram algum tipo de alteração em seu psiquismo. A probabilidade desorde ns estruturais de ordem histérica, pela própria plasticidade da patologia histeria, levem ao u so destas drogas deve ser sem pre considerada. De acordo com u ma pesquisa pu blicada na revista British Jou rnal of Sports Medicin e, o consumo de anabolizantes provoca distúrbios de personalidade significativos, com traços de paranóia, narcisismo e agressividade, entre outros. Transtorno de personalidade é u m diagnóstico psiquiátrico que se aplica quando, por exemplo, a pessoa exam inada se mostra com capacidade diminuída de se adaptar ao meio. Apon tar a arm a contra a própria mãe, chutar com pu lsivam ente carros estacionados, foram dois comportam entos observados neste estu do. O uso ilícito de anabolizantes tem sido associado a quadros de depressão, mania sintomas esquizofreniformes, agressividade marcante, suicídios e homicídios. Algu ns dos quadros não regrediram mesmo após a interrupção do u so das drogas.Os resultados de outro estu do mostraram m aior incidência de diagnósticos de psicose (12,2% ), mania (12,2% ) e depressão(12,2% ), durante os períodos de uso, incluindo os três primeiros meses após a interrupção do uso, qu ando comparados com períodos de não- uso. Episódios depressivos típicos tendem a ocorrer mais nos três primeiros meses de abstinência. Nu m estu do realizado na un iversidade de Cape Town, África do Sul, as alterações de personalidade são significativas, debilitando o fu ncionamento pessoal e social dessas pessoas; elas destroem o relacionam ento que esses usu ários tem com suas fam ílias. O traço de person alidade mais intenso era o paranóico. Traços de personalidade narcísica (preocu pação excessiva consigo mesm o e falta de empatia com Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 28.
    os outros) vieramem segundo lugar, e em terceiro os de personalidade passivo-agressiva (desprezo pelas obrigações sociais, mas sem desafiá-las; a resistência a elas é de forma dissimulada). Potencial para causar dependência Em 1980, foi levantada pela primeira vez a possibilidade dos anabolizantes causarem dependência. Estudo recente mostrou que, todos os critérios utilizados pelo DSM-III-R para diagnóstico de dependência foram preenchidos, incluindo sintomas de abstinência, tolerância, perda de controle do consum o e continuação do uso apesar do conhecim ento de conseqüências deletérias. Os sintom as de abstinência podem se apresentar com o humor depressivo, fadiga, inquietação, perda do apetite, insônia, diminuição da libido e cefaléia. A prevalência da dependência varia de 14 a 57% conform e população estudada. Um dos fatores aparentem ente associados à dependência é a distorção da percepção da auto-im agem com a impressão de que “ nunca se tem músculos o bastante.” Trabalhos mostram que, concom itantemente ao uso e abuso de esteróides anabolizantes, há um consumo aumentado de outras drogas - álcool, tabaco, maconha, cocaína, anfetam inas - principalmente em adolescentes. A taxa de uso de drogas, entre amostras selecionadas de usuários de anabolizantes, varia de 14 a 30%. O abuso do álcool é o mais freqüente, seguido do uso da maconha. Perfil do Usuário No Brasil, não há estudos sobre incidência e prevalência do uso ilícito de esteróides anabolizantes, mas sabe-se que o consumidor preferencial está entre 18 e 34 anos de idade e em geral é do sexo masculino. Nos EUA, foram realizadas algum as pesquisas com o objetivo de quantificar o uso indevido de anabolizantes e verificou-se que, entre estudantes de segundo grau 4 a 11% dos homens e 0,5 a 2,5% das mulheres já haviam utilizado este tipo de droga. Estudos prospectivos comparando a prevalência do uso de anabolizantes, ao longo dos últimos cinco anos, mostram que a idade de início de consumo com objetivo de melhorar aparência e desem penho esportivo, se situa entre 15 e 18 anos, ou seja, estudantes de segundo grau. Numa pesquisa feita em Nebraska, em 1991, com objetivo de avaliar a distribuição dem ográfica, porcentagem de usuários e com portamento de risco para uso de esteróides entre os estudantes de segundo grau observou- se que: Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 29.
    - A incidênciado uso de esteróides é maior no sexo masculino que no feminin o; - Nos últim os 30 dias, 2,5% dos estudantes relataram ter usado an abolizantes; - A maioria dos usuários são esportistas am adores; - As razões apontadas para o uso são : melhorar desem penho esportivo e aparên cia física. Em 1994, nos EUA, foi estimado que mais de 1 milhão de jovens já teria m feito uso de esteróides anabolizantes. Conclusão Os efeitos adversos à saúde física e m ental da ingestão, sem indicação m édica, de esteróides anabolizantes estão sendo cada vez mais docum entados na literatura. Ao conhecermos a estrutura psíquica destes usuários, tornaremos possível a prevenção desta adicção através de mudanças estrutuais. Mudanças estruturais estão aqui conceituadas como modificações dentro de cada um a das instâncias do aparelho psíquico, que reduziriam conflitos entre estas instâncias, abrandando as pressões sobre o ego, que se tornaria m enos vulnerável aos apelos atuais de sedução ambiental. Vivenciamos, atualm ente, época de intensa sedução ambiental, onde a busca por formas corporais idealizadas é vista como normal e saudável, não importando os meios utilizados ou seus efeitos deletérios para alcançar tais objetivos. “Um indivíduo norm al, em um ambiente bom , tem um superego que o impulsione a viver bem, satisfazendo o id em seus objetos exteriores. Criam-se assim, condições favoráveis para que o ego possa realizar, sem contratempos, sua função executiva e harmonizadora de exigências psíquicas. Em condições distintas, o ego, sem poder modificar adequadam ente o am biente exterior, realizando o que se chama aloplastia, tem que modificar-se a si próprio e a sua personalidade, quer dizer, fazer uma au toplastia. Tem que enfrentar-se com a personalidade de que forma parte, ou seja, com seu id e seu superego, empregando contra si os chamados m ecanismo s de defesa do ego”. SUMMARY W hen are in gests with out medical prescription the steroids cause harmful effects even fatal. The facility to get this Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 30.
    drugs with theidealization of body that exist in our societybring to consume of the teen agers. This study discuss some question s about psical structure of the users and get the changes necessaries to lead to knowledge h imself leading to comprehension that the perfection is illusory. UN ITERMS : Adolescen t - Anabolic Steroid – Hysterical Structure – Body B uild Referências Bibliográficas 1. Comitte on Sports and Fitness – Adolescentes and Anabolic Steroids : A subject review – American Academy of Pediatrics (1997) 2. C ooper, C. J; Naakes, T. D. ; D unne, t. ; Lambert, M. I. ; Ford, K.R. ; - A High prevalence of abnorm al personality traits in chronic use of anabolic – androgenic steroids – British Journal of Sports Medicine. Vol. 30, N 3, 246-250pp. (1996) 3. Gll, G. V. – Anabolic Steroids induced hypogonadism treated wthi h uman chorionic gonadotroph in – Post G raduate Medical J ournal. Vol. 74, 45- 46pp. (1998) 4. Evans, N. A. – Gym and Tonic: Aprofile of 100 rales steroids use – B ritish Journal of Sports Medicin e. Vol. 31,N.1, 54-58pp. (1997) 5. Goodm an e Gilman – As Bases Farmacológicas da Terapêutica – 6 Edição. Vol.2, Cap.62, 1267-1282pp. 6. Guyton, A. C . – Tratado de Fisiologia M édica 7 Edição, 761-763pp. 7. Mac Indol, J. H .; Perry, P. J.; Yates, W . R.; H olman, T. L .; Ellingrad, V. L.; Scott, S.D.- Testosterone Suspension of the HTP Axis– Journal of Investigate Medicine Vol.45,441-447pp. (1997) 8. Monografia apresentada no curso de .pós graduação de Hebiatria da Faculdade de Ciências Médicas de Minas G erais – Adolescentes e Anabolizantes : Uma Prática de Risco Parenton i,J. N.; Castro, S. S.; Trinchero, V. M. P.-(2000) 9. Neto, W . M. G. – Musculação- Anabolismo total 10. Schiwerin, M. J.; Corcoron, K. J.; Fisten, L.; Patersson, D.; Askew, W .; Olrich, T.; Shanks, S. – Social Physique Anxiety , Body Esteem, an d Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 31.
    Social Anxiety inBodybuilders an d Self-Reported Anabolic Steroids Users – Addictive Behavior,Vol21,N. 1, 1-8pp. (1996) 11.Scott, D. R.; W agner, J. C.; Bonlow, T. W. – Anabolic SSteroids Use Among Adolescents in Nebraska Schools – Am erican Journal of Health – System Pharmacy- Vol 53, N. 17,2068-2072pp. (1996) 12.Scviletto, S .; Releiros, A. R.A.S. – Anabolizantes entre esportistas : Uma pratica sem riscos ? – Revista ABP- APAL Vol16, N.4, 136-142pp.(1994) 13.Wrobleviska, A. R. – Androgenic-Anabolic Steroids and Body Dismorfia in Young Men – Journal of Psycosomatic Rexand Vlo.42 n .3 225-234pp. (1997) 14.Yater,Rachel; Reed,Charles; Ulrich,Irm a; Monise,Anthony; Borach,Mark; - Resistance Traum ed Ath lets Using on Not Using Anabolic Steroids Compored to Runners : Effects on Cardiorespiratory Variables, body Composition and Plasm a Lipids – Brithish Journal of Sports Medicine Vol. 30 N. 1 11-14pp. (1996) Sobre o Autor Valéria Trinchero – M édica Pediatra – H ebiatra - Psicanalista (NEPP) Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 32.
    FRÁGUA – FREUDIANA Frágua:do latim fábrica Forja, fornalha. Oficina de ferreiro e outros; artífice. Fig. Autor, inventor. Sigmund Freud nos deixou um legado, que foi construído em uma fornalha e, hoje, após mais de um século, encontra-se mais atual que nunca. O NEPP propõe uma continuidade da Frágua Freudiana, no sentido de forja, que é uma oficina, onde Freud como artífice, criou Psicanálise. Mediante as transformações sociais, culturais e econômicas, os códigos de valores são alterados, logo, essa instituição visa trabalhar dentro de uma realidade, apresentando uma Psicanálise de brasileiros para brasileiros, acompanhando a velocidade das mudanças, que é bastante expressiva. Sérgio Costa Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 33.
    Introdução e Fundamentosde uma Sociedade de Espetáculos Sérgio Costa O nosso temário propõe uma introdução sobre o que nos parecem ser os “fundamentos”, os pontos básicos do pensamento freudiano. No entanto, antes dos fundamentos freudianos sobre a neurose com pulsiva obsessiva, m e parece útil colocar alguns conceitos próprios, para que se possa saber de que ponto de vista falamos e acompan har a nossa contribuição. Referindo-se ao item Introdução, onde fala-se de pontos ideológicos, formas de leitura, objetivação e aplicação das teorias freudianas, a nossa equipe, que nasceu com o propósito de estudar Freud, na sua essência, vem ressaltar a sua prática, aliada ao nosso m entor Prof. Sérgio Costa: o idealismo de uma Psicanálise, sem perder o pilar central do nosso grande m estre Sigm und Freud, com uma leitura e uma ideologia própria elaborada por brasileiros para o povo brasileiro. Não queremos banalizar a estrutura psíquica do homem, n em tão pouco a descrição do “meio”, que por sua irracionalidade seria o principal fator etiológico da neurose. No fundo, filiado ao determinism o que repousa sobre o indivíduo ingênuo, por um lado, e a sociedade do outro, que o influencia de form as e graus variados, ignorando que o indivíduo é, em si, um produto social, assim como ignora o próprio conflito indivíduo-sociedade. Quanto mais profundamente a Psicanálise sonda as zonas inconscientes do sujeito analítico, mais, nós psicanalistas, nos assustamos quando percebem os com o os m ecanismos sociais produziram a individualidade. Sob um m anto de culpa que o encobre, esse sujeito se traduz em sintomas obsessivos que, aliás, o Estado estimula, mas em contrapartida, não consegue manter um a boa política de saúde mental, para aplacá-los, contribuindo assim para o caos em que vivem os. Concluím os que quanto m aior a aplicação de categorias sociológicas e psicológicas, mais superficial se torna a interação entre o psiquismo e o social. A estrutura contraditória da sociedade é vista em term os moralistas. A concorrência aparece como o prin cípio dominan te da esfera social, e dela derivam os con flitos psíquicos. Segundo H.Horney o narcisista se caracteriza por um a sobrevalorização do ego, por uma espécie de inflação psíquica que, como a inflação econ ômica, oferece valores superiores aos que de fato existem . E não foi o que acon teceu neste último carnaval em BH? Nem o prefeito, nem tampouco o nosso governador se sensibilizaram com o fracasso do nosso carn aval, impedindo até o desfile da Banda Mole, evento que acontece (ou acontecia) há mais de 20 anos n a cidade sendo, portanto, tradicional. Soldados da PM foram colocados nas ruas para impedir a livre expressão de alegria (aliás, bem pouca ultimamente) do povo belorizontino. Tudo em nom e da “boa família” Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 34.
    mineira?! Mas, noentanto, nosso “pai totêm ico” expressou a sua alegria (e como!) desfilando na Sapucaí. Assistindo pela tv, lembrei-me daqueles pais, que tantas vezes deparo nos relatos de pacientes, os quais gastavam com a cerveja nas rodas de amigos, m as que nunca tinham dinheiro para um chocolate pro filho e, até mesm o, nem sequer lembravam ou se preocupavam. E é aqui que se encon tram os destinos do desejo: num a direção marcadamente exibicionista e autocen trada, que tem como contrapartida o esvaziam ento do intersubjetivo e o desinvestim ento nas trocas inter-humanas. Esse é o trágico cenário para a im plosão e a explosão da violência que m arcam a atualidade. No que se refere aos fundamentos de uma sociedade de espetáculos, no seu bojo narcísico, o individualismo e o autocentram ento atingiram seu ponto m áximo, com o conseqüente apagamento da alteridade e da intersubjetividade ao lado de um en altecim ento exacerbado de si m esmo. A identificação da massa com o líder é obtida através da técnica de identificação, mesm o que parcialmente, do líder com a massa. A idealização é uma forma de narcisismo: o objeto idealizado é parte do próprio sujeito e, amá-lo significa amar- se a si mesmo. A relação entre a massa e o seu pai totêm ico segue o mesm o padrão. Estam os na terceira capital do Brasil, mas com uma população individualista e perdida... A relação indivíduo-líder é assim com o um jogo de espelhos: não se sabe o que é real e o que é reflexo. E a identificação do indivíduo com o líder, que se torna pai totêmico, parece representar a outra face da identificação do líder com o indivíduo. O rito tem sua origem no prazer infantil com a repetição (fase anal) de sons e com a articulação de palavras, qualquer que seja o seu sentido e, principalmente, nas atitudes do pai. Neste estágio a criança descobre que não tem ego e tem que tentar lidar com isso. A indústria cultural põe a arte a serviço da vida, e isso implica o estím ulo da capacidade criativa. Sua poética tende não somente à im itação do real, mas à fusão com o real. E o que tem sido estimulado, nos últimos tempos, é a pulsão de morte, repressão e recalque como expressão da vida; é cada um pra si e por si; só se estimula “eu para eu mesmo”; o narcisismo acima de tudo; “eu posso tudo”, “eu sou o máxim o”. Freud distingue a projeção do patológico da projeção do norm al. A projeção do norm al permite ao sujeito diferenciar entre a própria contribuição e a do real, na estrutura do objeto percebido, num certo sentido, toda a percepção e projeção. O mundo dos objetos é constituído pela im pressão recebida pelos sentidos, Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 35.
    acom panhado pelotrabalho de reflexão, no qual o sujeito elabora deste material de descaso. De um a cidade que não tem o que fazer no carnaval, só pensa nos impostos a pagar e em trabalhar... Na cultura do narcisism o e na sociedade do espetáculo, a fragm en tação da subjetividade pelo paradoxo entre autocentramento e exterioridade, ocupa posição fundamental. Trata-se de uma nova forma de subjetivação, por m eio da qual são forjadas outras modalidades na atualidade, o que con stitui o fundamento da atual psicopatologia. A psicopatologia da pós-modernidade define-se, justamente, pelo fracasso de muitos sujeitos deprim idos, toxicômanos e pan icados, em realizar a glorificação do eu e a estetização da existência. Essas patologias têm recebido maciço investimento financeiro de grandes laboratórios farmacêuticos internacionais, para a realização de pesquisas, predom inantemente, de ordem biológica e psicofarmacológica. Deixa de olhar o m undo dos objetos, os sentidos humanos e suas implicações. Freud descreveu com o nom e de “W iederh olungrzway” a com pulsão de repetição: o processo incoercível pelo qual o sujeito repete, interminavelm ente, experiências passadas sem se recordar do protótipo, com a im pressão de que percebe e age de acordo com elementos da situação presente. E nessa frágua freudiana, nós como membros do N EPP, pensamos numa Psicanálise para brasileiros, pois tem os uma cultura fundamentada em pequenos burgueses narcisistas, que só pensam em si próprios, e em uma forma de cada vez m ais humilhar e rechaçar àqueles que os elegeram. Afinal, não souberam votar ou faltou-lhes um outro que pudesse honrar e zelar pelos seus filhos, já adoecidos por um ethos social. Quero ressaltar que Freud busca o “sentido principal”das compulsões e proibições obsessivas, que passa por bom tempo despercebido com a ação do mecanismo de deslocamento psíquico. Esse movimento de substituição de sentido, conforme o texto de Freud de 1907, é o que nos perm ite diferenciar, com a utilização da técnica psicanalítica de investigação do inconsciente, o ato obsessivo do ritual religioso. Será que é por isso que o chavão perm anece, “A família Tradicional Mineira”? Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 36.
    Psicanálise e Direitode Família Sérgio Costa Irani Araújo Maira Teixeira “Para o psicanalista francês Jacques Lacan, a fam ília não se constitui apenas de um homem, uma mulher e filhos, ainda que casados solenemente. Ela é antes de tudo, uma estruturação psíquica, onde cada um de seus mem bros ocupa um lugar definido. Lugar do pai, da m ãe e dos filhos sem, entretanto, estarem necessariamente ligados.” Levando em consideração que a família é uma organização cultural, o lugar do par parental é de extrema importância, não tendo por isso obrigatoriedade que essa ligação seja consangüínea . Sem a estrutura, onde o indivíduo possa existir com o cidadão e, onde há um lugar definido para cada mem bro, o indivíduo seria psicótico. Por relações inadequadas ou insatisfatórias, podemos pensar nas patologias que apareceram em diversas fases do desenvolvim ento da criança e quando se tornar adulto. É aí que se estabelecem as leis psíquicas. Quando estas se ausentam, faz-se necessária a lei jurídica para sobrevivência do próprio indivíduo e da sociedade. PSICANÁLISE E DIREITO DE FAM ÍLIA Dra Maira de Melo Teixeira, advogada e mem bro de NEPP (Núcleo de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas) relata: “Em m ais de vinte e sete anos de militância na área jurídica, em especial na área de família, transcrevo aqui a minha experiência, que ao mesmo tempo em que muito ajuda nas lides familiares, tam bém nos angustia e oprim e, ao vermos agressividade, imaturidade, e desam or entre os cônjuges. Por m ais que o advogado se esforce para que o processo de separação não seja uma tarefa árdua, e para não se deixar atingir pelas ações que patrocina, o profissional do direito lida com o sentim ento mais profundo das pessoas e torna-se inevitável tal envolvimento. O que se vê, na maioria das vezes, nas causas de família, em especial nos casos de ‘separação/divórcio’ são duas pessoas se agredindo, se ferindo, desrespeitando uma a outra. A partilha dos bens, a guarda dos filhos, uma verdadeira batalha jurídica e judicial, com cad a parte querendo levar m ais vantagem. Tanto o pai quanto a mãe, na verdade, ‘usam’ os filhos para agredir o outro genitor. Não se lem bram que, com tais atitudes, podem causar nos filhos, de qualquer idade, recalques de difíceis e até impossíveis reparações. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 37.
    Os progenitores, vítimasdo avanço da causa feminista, perdem a afeição dos seus filhos pela ação conjugada das mães emancipadas e dos juízes impregnados de estereótipos ultrapassados. Assim, o destino desses pais é infeliz, pois foram ejetados, desestabilizados, desvalorizados, sob efeitos nefastos de sua exclusão da tríade parental sobre o desenvolvimento dos filhos. O resultado do afastamento da figura paterna, do representante das leis na estrutura familiar:- filhos “perdidos”, drogaditos e entregues à marginalidade. Cumpre ressaltar, que todos nós, profissionais do Direito, que militamos amiúde na área de família, podemos sim, e muito, contribuir para uma melhor solução das ações familiares, desde que aliados à Psicanálise, considerando que somos seres de desejo, e este não é legislável. Além do que, todas as relações são regidas, também, pelo inconscientes. Dessa forma, pra efetivarmos a lei e ‘afetivarmos’ o desejo, nosso trabalho deverá buscar sempre o interesse dos seres humanos, dotados de sentimentos e emoções, e uma equilibrada convivência futura da família, após a separação/divórcio. Essas medidas têm que envolver os poderes constituídos, especialmente a justiça e os profissionais que nela atuam. Que a separação conjugal possa dar lugar a uma vontade vital de renascimento e uma nova aliança entre os amantes desunidos. Tudo isto em prol dos pais excluídos, nos interesses de mães abandonadas, mas acima de tudo no real interesse dos filhos ‘fragmentados’.” Além do exposto pela Dra Maira, acrescentaríamos que não podemos esquecer que a família sempre existiu. O que muda é a sua constituição, num conceito mais amplo. É preciso entendê-la acima da história: 1. Hoje a família está diferente. Isso se deve a busca pelo espaço de liberdade; 2. Os vínculos familiais não fogem da natureza humana: amamos e odiamos; 3. As relações familiares são complexas e sujeitas as normas afetivas, sociais e jurídicas e, ainda, a elementos inconscientes. O que mais nos deparamos em consultório são com as conseqüências de todo o processo de uma separação, que ora atinge mais os filhos, ora mais os progenitores. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 38.
    O Dr WalterSoares Oliveira, advogado, especialista em Direito de Família, relata sobre as conseqüências afetivas proporcionadas pelo “Direito Disciplinador”, nos indivíduos envolvidos em processo de separação/divórcio: “Gostaria de ressaltar que o Direito não disciplina o comportamento humano, mas sim normatiza as conseqüências do comportamento humano no que tange às suas relações sociais, e cuida de dirimir as controvérsias de interesses (quase sempre antagônicos) decorrentes do comportamento e das relações dos cidadãos. As conseqüências emocionais e afetivas têm uma diversidade muito grande, variando seus reflexos de pessoa para pessoa. Em geral o rompimento de uma relação conjugal é precedida de uma perda expressiva de energia, pois o clima tenso de uma relação em fase terminal provoca grandes tensões e inseguranças. Esta perda de energia costuma ter longa duração porque ela acompanha todo o processo, ou seja, desde quando uma relação começa a se deteriorar até o dia que se põe fim ao problema pelas vias judiciais, demora muito, porque costuma, via de regra, ocorrer uma longa espera e as pessoas não tomam a providência necessária com brevidade, eis que há sempre uma esperança de normalizar a relação e há também o fator “sentimento de culpa” que envolve as partes, o que faz com que eles retardem uma tomada de posição mais incisiva. Neste momento as pessoas têm uma tendência a serem tomadas por sentimentos, ações e reações passionais, tornando a questão muito melindrosa e, enfrentar os fatos e a realidade de frente é sempre bastante desagradável; por isto as pessoas têm também uma tendência a se acomodar, deixando os acontecimentos irem determinando as providências, o que acaba gerando muita ansiedade, agressividade (ou o contrário, a pessoa fica passiva e desmotivada), gerando, de qualquer forma, um sofrimento continuado. É como o autoflagelo. Os adiamentos se devem, principalmente, ao sentimento de perda, de medo e de insegurança. Perda de status, de patrimônio, porto, convívio; Medo de assumir a sua dificuldade, o seu erro, de recomeçar, etc. Neste processo de espera e de adiamentos, afora os danos causados ao casal propriamente, os efeitos nos filhos também são bastante danosos. Assim, procuramos sempre recomendar ao casal o diálogo racional, estimulando-os através da percepção dos efeitos positivos que isto poderá trazer, ou seja, a reconciliação ou a decisão definitiva da separação. Quando esta proposta é feita com critério e ética às partes, quase sempre há um bom começo, que pode ser do fim ou mesmo do reinício. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 39.
    Ao longo denossa experiência, percebemos que em muitos casos de desentendimentos entre casais, os motivos estão ligados à competição entre eles. Entre as causas de competição, destaca-se o fato de um deles, geralmente a mulher, após o casamento, continuar a manter relacionamento muito intenso com a família de origem e as partes não conseguem administrar os conflitos daí advindos. Nesta situação, com nosso esforço de reconciliação, que faz parte de nossa atuação, a separação quase sempre não se efetiva, mas gera excessivo desgaste da relação. Em casais com problemas de relacionamento, um dos primeiros sintomas que se percebe é uma brusca queda na auto-estima dos envolvidos, muitas vezes em razão da frustração e o sentimento de fracasso que a separação gera nas pessoas.” Expressou, ainda, sua opinião sobre o Direito, com o ciência universalizadora das questões éticas sobre a legalidade, se esta ocupa o necessário com a afetividade do indivíduo, quando se trata da separação de casais, principalmente no que diz respeito aos filhos. “Nada, absolutamente nada. O excessivo volume de processos, faz com que tudo ande a toque de caixa. O aspecto social e humano fica relegado a nenhuma importância. A lei é fria e os juizes se ocupam apenas do aspecto da legalidade e do processo. O Ministério Público que tem presença e atuação obrigatória nos processo de direito de família, por sua vez, cuida apenas da fiscalização da aplicação da lei. As partes são tratadas apenas com um número de processo, com raras exceções feitas para alguns juízes, que dotados de maior sensibilid ade com a questão humana, dedicam alguma atenção a tal questão, mas isto acaba sendo passageiro porque, com o tempo, ele também passa a se ocupar, tão somente, do processo e não das partes envolvidas. É sistêmico. Até mesmo a importante tarefa da tentativa de reconciliação das partes que, segundo a lei processual, seria exercida pelo juiz, foi declinada ou transferida para leigos; Ou seja, foi criado o Juízo de Conciliação Prévia, cujo trabalho de tentativa de conciliação é conduzido por estagiários do curso de Direito, os quais “data venia” não reúnem condições técnicas profissionais para tal mister. Aliás, tal trabalho teria maior eficácia se exercido por profissionais ligados a área da Psicanálise ou da psicologia, poderia até ser desenvolvido junto com um estagiário do direito, já que ele não reúne conhecimentos nem argumentos suficientes para um trabalho eficaz. Acreditamos que tal medida, além de estar colocando “cad a macaco no seu galho” ocasionaria um grande beneficio social. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 40.
    Assim, os juizesjá não se ocupam da tarefa prevista em lei, de dedicar tempo e esforço à reconciliação das partes e, a criação daquele Juízo Prévio de Conciliação teve mais a finalidade de desafogar o excessivo número de processos e audiências, do que propriamente tentar a reconciliação das partes. É oportuno destacar, que entendemos que aquele Juizado Prévio de Conciliação, na forma que está funcionando é ilegal, em face do princípio do segredo de justiça que envolve as questões ligadas ao direito de família.” O advogado fam iliarista encontra-se diante de questões que transcendem a lei. Tais problemas, na maioria das vezes, não são de ordem jurídica, por isso é necessário perceber o que há nas entrelinhas. Se aprimorar a escuta, perceberá o que se encontra além das norm as. Diante disto, Dr Walter argum enta sobre a adm issão de um a interdisciplinaridade entre o Direito e a Psicanálise, principalmente no que tange ao processo de separação/divórcio. “Sem nenhuma dúvida. Conforme já falamos acima, muitas das vezes a solução não é a separação, e também muitas vezes as pessoas não conseguem ter este discernimento. É comum vermos pessoas que já passaram por vários casamentos ou relações. O problema não é o casamento, é a pessoa com toda sua história de vida e suas peculiaridades, que demandam atenção no campo psíquico. Na grande maioria dos casos, a solução passaria por um tratamento psicanalítico do casal ou de um dos cônjuges. Há um outro fator que sempre será relevante, não obstante a cad a dia, as pessoas atribuírem menor relevância a ele: o amor, que traz consigo o sentimento de compreensão, de ajuda, de solidariedade e porque não, de tolerância e etc. Assim, se o modismo da facilidade da separação persistir ante aos pequenos problemas ou dificuldades, ao contrário da vontade de acertar e corrigir, não há nenhum tratamento que possa ser efetivo. O advogado tem, até mesmo por força do código de ética e do rito processual, antes do processo litigioso ou amigável de separação, a obrigação de tentar conciliar ou reconciliar as partes e muitas vezes lhe falta subsídios para esta tarefa. Diria até que, ante ao modismo da separação, esta função tem sido desconsiderada ou relegada à importância secundária. Assim a interdisciplinaridade entre o Direito e Psicanálise não só ajudaria na minimização dos efeitos negativos que a má condução do processo de separação/divórcio gera, mas também atuando no processo de reconciliação entre as partes e na impossibilidade desta, na reconciliação do indivíduo consigo próprio e com a sua vida que prosseguirá, separado ou divorciado.” Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 41.
    Para Freud, aprimeira identificação do sujeito está relacionada com o pai. Podemos considerá-la equivalente à incorporação do nome do Pai, por conseguinte o ideal do eu é sempre o ideal do outro, em geral o pai. É o produto da identificação simbólica na condição de puro significante que, ao barrar a mãe, institui o desejo. É com base no ideal do outro, internalizado como ideal do eu, que as coordenadas simbólicas do desejo do sujeito se constituem. É dentro desta pesquisa e preocupação das crescentes demandas de violência e desestruturação familiar é que o NEPP se coloca. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 42.
    Pacientes Somatizadores Manual deTécnicas Psicanalíticas, C ap. 31, David Zimerman, Artmed Editora S.A., Porto Alegre-RS Quando o sofrimento não pode expressar-se pelo pranto, Ele faz chorarem os outros órgãos. W. M otsloy (médico) Se você pensa positivamente, o seu sistema imunológico também responde positivamente. CONCEITUAÇÕO Sempre houve um a tendência – tanto no cam po da filosofia quanto no da primitiva ciência médica – de separar o corpo da mente. Mais especificam ente no que se refere à Psicanálise, ainda hoje muitos se perguntam se a doença psicossomática é um campo de saber à parte dos princípios psicanalíticos ou se estes últim os representam uma extensão, um desenvolvimento e um novo cam po mais abrangente da Psicanálise, assim fa cilitando a com preensão e o manejo dos pacientes somatizadores. O fato incontestável é que os psicanalistas têm sido os grandes fomentadores do m ovimento psicossom ático, logo, de uma medicina integrada, holística e de um a visão hum anística da existência. O term o “psico-somático” (tal como está grafado, com um hífen nitidamente separador entre psique e soma) apareceu pela primeira vez na literatura m édica há aproxim adamente 200 anos, em um texto de Heinroth, clínico e psiquiatra alem ão, no qual o autor buscava adjetivar um a forma particular de insônia. Essa concepção pioneira foi fortemente atacada por grande parte do conservadorismo científico da época, enquanto algumas outras vozes tímidas apontavam para aquela concepção integradora. Um dos seguidores desta linha de pensamento médico foi William Motsloy, que há m ais de 100 anos, em Fisiologia da mente, dem onstrando um alto grau de intuição, escreveu que quando o sofrimento não pode expressar-se pelo pranto, ele faz chorarem os outros órgãos. A partir do final da década de 40, o term o “psicossom ático” passou a ser em pregado como substantivo, para designar, no cam po da m edicina, a decisiva influência dos fatores psicológicos na determinação das doenças orgânicas, já admitindo uma inseparabilidade entre elas. Aliás, ninguém m ais contesta a inequívoca interação entre o psiquism o determinando alterações somáticas e vice-versa, o que permitiria a ilustração com exem plos clínicos que vão desde os mais simples (a corriqueira evidência de estados de raiva ou medo produzindo palidez e taquicardia; vergonha levando a um enrubescim ento; um estado gripal desencadeando uma reação depressiva e, reciprocamente, um estado depressivo facilitando o surgimento de uma gripe, etc.), passando por situações relativam ente complexas. Assim, é conhecido o fato Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 43.
    bastante freqüente demulheres que, embora desejosas de engravidar, mantém-se inférteis durante um longo período de anos até que, após a adoção de uma criança pelo casal, comecem a engravidar com facilidade. Igualmente as psicossomatizações podem atingir níveis bastante mais com plexos e ain da inexplicáveis, conforme com provam os modern os estudos da psicoimunologia e dados da observação clínica, como o da instalação de quadros cancerígenos diante de perdas importantes, etc. Da m esm a forma, as correntes expressões populares, como “estou me cagando de medo”, “cego de ódio”, “estômago em brulhado de tanto nojo”, dentre tantos, atestam claram ente o quanto a sabedoria popular, de forma intuitiva, captou a existência de uma estreita e incon testável relação entre os estados m entais e os corporais. Os exemplos clínicos poderiam ser m ultiplicados ao infinito, sendo que esse fato, juntamente com a m ultiplicidade de vértices de abordagem e de inúmeros fatores etiológicos em jogo, evidencia a enorm e com plexidade do fenôm eno de psicossomatização. Para dar um único exem plo, somente o prestigioso Instituto de Psicossomática de Paris descreveu cinco tipos de “personalidade asmática”, cada uma delas privilegiando uma compreensão e um tratamento distinto do outro. O que importa é que a somatização com o resposta à dor mental é uma das respostas psíquicas mais comuns que o ser humano é capaz; no entanto, a recíproca também é verdadeira, isto é, o sofrimento orgânico, em alguma form a e grau, igualmente repercute no psiquismo. O melhor seria dizer que ambos, o psiquismo e o soma, são indissociáveis e estão em um a constante interação, influenciando-se reciprocam ente. Não obstante, creio ser necessário enfatizar que, por vezes, o fator predom inante no desencadeamento de uma reação psicossomática é nitidamente de origem de alguma forma de conflito em ocional, enquanto em muitas outras situações, o fator desencadeante é, de longe, de natureza estritam ente orgânica (nesse últim o caso, talvez o nome mais adequado fosse o de fenômeno “som atopsíquico”). Aliás, entendo que, a rigor, tais denom inações diferenciadas, priorizando um ou outro fator – ora o orgânico, ora o psicológico –, não passam de um preciosism o inútil, pois se o critério for o de exatidão ter-se-ia que convir que unicamente o binômio corpo-mente é muito escasso para explicar toda a com plexidade que dem anda ficar m ais com pletada na tríade biopsicossocial, porquanto ninguém mais duvida da enorme influência que os fatores sociais, econômicos, políticos, culturais, familiares, espirituais, dentre tantos exercem na resposta do organismo de toda e qualquer pessoa, como um todo. Seguindo essa linha de raciocínio de que existe um a perm anente interação entre múltiplas partes diferentes, em bora indissociadas entre si, agindo sobre um mesm o indivíduo, muitos advogam a idéia de abolir a terminologia de “psicossomatização” e seus term os derivados, com o argum ento de isto é um a redun dância, pois toda situação clínica, por definição, é sem pre psicossomática, de modo a simplesm ente usar a denominação am pla e geral de “medicina da pessoa”, conforme propõe Perestrello (1974). Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 44.
    Meu posicionamento pessoala este respeito é de continuar empregando a expressão “paciente psicossomático”, já que esse n ome está consagrado, embora saibamos que os fenôm enos expressados na mente, ou no corpo, ou em am bos con comitantem ente, não são tão simples e lineares como essa denominação reducion ista pode fazer supor. Creio que o m ais adequado é considerar que todo paciente funciona como uma gestalt, isto é, um conjunto composto por uma “figura” (no caso, é a doença) e um “fundo” (a pessoa como um ser h umano), porém com a predominância, ou com o desencadeante, ora do orgânico, ora do psíquico, ora do social. Entre 1930 e 1960, floresceu o movimento da “medicina psicossomática”, m ais notadamente pelas contribuições de F. Alexander que, na Escola de Chicago, estudou e descreveu as “sete doenças psicossom áticas” (asm a brônquica, úlcera gástrica, artrite reumatóide, retocolite ulcerativa, neuroderm atose, tireotoxicose e hipertensão essen cial), atribuindo a cada uma delas um a especificidade do con flito psicogênico. Assim, segundo essa Escola, os indivíduos reagiriam de forma diferen te con forme predominasse neles uma hiperatividade do sistema simpático (sistema do organismo que implica a predominância de reações adrenalínicas, com tendências ativas e agressivas, porque esse “sistema sim pático” está embriologicamente determ inado a se defender contra perigos externos) ou uma hipoatividade do “sistema parassimpático”, também conhecido com o “vagal” (que alude ao sistem a responsável pela tendên cia aos estados de repouso e lentificação, com uma propensão à passividade, razão pela qual esse sistema está determ inado a se defender contra os perigos internos, ou seja, a um a am eaça ao equilíbrio homeostático do organismo). ALGUNS INFORM ES SOBRE NEU RO CIÊNC IAS As últimas considerações representam os estudos introdutórios ao campo das neurociências que, cada vez m ais, estão ganh ando um a crescente importância na Psicanálise em geral e nos fenômenos psicossomáticos, em particular. As neurociências demonstram como as emoções se desenvolveram para aumentar a sobrevivência e garantir a existência da espécie – em qualquer espécie animal - por propiciar e organizar soluções mais adaptativas aos problemas inerentes aos seres vivos, tal como é a busca de uma homeostasia corporal, a necessidade de alimentos e demais demandas pulsionais, a fuga de perigos, a reprodução, os cuidados com a prole e as relações sociais. Deste modo, as neurociências objetivam ilum inar os circuitos cerebrais das emoções, assim comprovando o fato de que, por vias neuronais, através de partes do cérebro com o tálam o, amígdala (funciona em nível subcortical, com respostas rápidas, curtas, em bloco), hipocampo (funciona em nível cortical, com respostas mais lentas e lon gas, porque ele registra a “memória do perigo”, o que lhe possibilita, pelo “m edo”, a prevenção em espaços e circunstâncias delimitadas, de maneira que, nos casos de lesão do hipocampo, o medo se generaliza), córtex ocipital (m ais destin ada a reações impulsivas contra os supostos perigos) e córtex pré-frontal (responsável pela atenção dirigida e pela tomada de decisões, com um a escolha de respostas adequadas, baseadas em experiências prévias), juntamente Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 45.
    com a secreçãode serotoninas, cortisol, entre outras, determinarão respostas corporais que são hormonais, viscerais e da musculatura esquelética. Por exemplo, um determinado estresse provocará uma excessiva excitação do sistema nervoso autônomo e, através do eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal, este último elevará o nível de cortisol, o qual, por sua vez, promove prejuízos tanto no sistema imunológico (determinando quadros de cólon irritável, asma, úlcera...) quanto no sistema cognitivo (promovendo uma diminuição da memória, concentração, capacidade para pensar, agir com coerência, uma certa confusão e dificuldade de usar as outras pessoas que, normalmente, por intermédio da função de “reconhecimento”, exercem o papel de auto-reguladores das emoções). A ausência dessa última condição favorece o surgimento de uma “alexitimia”, ou seja, de uma incapacidade para ler as emoções, enquanto o pensamento adquire uma natureza operatória, pois as fantasias, fazendo um curto-circuito, em vez de ficarem conscientes, drenam através do corpo, assim alimentando um círculo vicioso. Ainda dentro do campo das investigações que cercam as inter-relações entre os processos mentais e os orgânicos, impõem-se mencionar duas importantes fontes: uma é a provinda dos estudos dos norte-americanos Sifneos e Nemiah, que introduziram a noção da alexitimia, antes mencionada. Conforme designa a etimologia dessa palavra, que deriva dos étimos a (quer dizer: “privação de”) + lex (leitura) + timos (glândula que era considerada a responsável pelo humor), o conceito de alexitimia alude à dificuldade de os pacientes somatizadores conseguirem “ler” as suas emoções e, por isso, elas se expressam pelo corpo, assim caracterizando uma dificuldade neurobiológica de simbolização. A segunda fonte procede da Escola de Psicossomática de Paris, que aportou o conceito de pensamento operatório, ou seja, o somatizador tem dificuldades de fantasiar, de sorte que o ego não consegue processar, elaborar e representar as pulsões, do que resulta que ele superlibidinizar o corpo de forma concreta. Cabe consignar que alguns cientistas contemporâneos estão descrevendo o princípio da auto-organização, segundo o qual existe um estado de “regulação mútua” entre duas pessoas, que é baseada em uma troca de informações por meio dos sistemas perceptivo e afetivo (por exemplo, de que maneira e com qual tipo de afeto os pais significam para a criança determinadas experiências, como a de ela andar pela primeira vez de escorregador...) Assim, o bebê, a criança pequena, internaliza esse processo de regulação mútua, de sorte que desde cedo aprende a conhecer as formas de abordagem afetiva que são rejeitadas ou bem- aceitas pelos pais, enquanto as emoções despertadas, pela via dos circuitos cerebrais, conectam corpo e mente. A emoção processa-se no inconsciente, independentemente do consciente. Neste contexto não se está fazendo referência ao inconsciente de Freud, mas, sim, ao inconsciente biológico, aquele que é comandado pela neurofisiologia. Especula-se também a possibilidade cientifica de que cada emoção tenha seu próprio circuito com características particulares. As respostas corporais são hormonais, viscerais e músculo-esqueléticas. Os medos, uma vez estabelecidos, ficam permanentes e requerem um recondicionamento. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 46.
    Psicoimu nologia Diretamente ligadoaos processos estu dados pelas n eu rociências, o sistem a imunológico de toda pessoa sofre u ma sensível influ ência dos fatores emocionais, desem penhando u m importantíssim o papel n o corpo em geral e, m ais particu larmente, nas doenças som áticas que são resu ltantes de ataqu es “auto- imunes”. O que não resta dúvida é o fato de que, conforme foi mencionado na epígrafe deste capítulo, quando o su jeito “pensa” positivamente, o seu sistema imunológico responde também de forma positiva para a saúde, e a recíproca é verdadeira. UM A BREVE RESENHA DE PRINCIPAIS AUTORES Do ponto de vista psicanalítico, são muitos os au tores que têm contribuído com enfoqu es distintos, porém complem entares entre si. C itam-se algumas das principais contribu ições desses au tores que, ao longo dos anos, estudaram – e mu itos outros continuam estudando – o fenômeno das psicossomatizações. Comecemos por Freud. De forma esquem ática, pode-se sintetizar suas con tribuições, tanto as diretas quanto as indiretas, nos seguintes nove itens: 1. O seu conceito de representação-coisa e de rep resentação-palavra. A importância disso no su jeito somatizador reside no fato de que os acontecimentos e os sentim entos das experiên cias afetivas vivenciadas no passado estão im pressos e representados no ego, porém , se estas pretéritas vivências emocionais ainda não passaram para o pré- conscien te e não foram simbolizadas e denom inadas como palavras, elas vão se expressar corporalm ente. Relativamente às representações do corpo no ego, creio ser ú til acrescentar que também as interações entre nosso corpo e o m undo inanimado – por exem plo, andar de bicicleta – fazem parte da representação do ego corporal. 2. Complacência somática é o nom e que Freud deu ao fenôm en o de que uma determinada somatização não é específica de algum quadro clínico especial, m as, sim , existem órgãos particu larmente sensíveis – ou por razões de constituição orgânica, ou por fatores psíqu icos, como os de fantasias inconscien tes localizadas e fixadas em um certo órgão – que, então, fu ncionam com o caixa de ressonância do conflito. 3. O fenômeno das conversões, que, como o nom e su gere, alude ao fato de qu e determinado conflito psíquico que não consegue ser sim bolizado, logo tampouco conhecido e pensado conscien tem ente, converte-se em uma m anifestação corporal, em algum órgão dos sentidos, ou em algu ma zona de muscu latura volu ntária. N esse caso de fenômeno conversivo, os sintom as narram, sem palavras, uma história inconsciente. Neuroses atuais, cuja causa, segundo Freud, era o bloqueio das excitações libidinais, conseqüentes tanto de uma privação de satisfação sexu al quanto de um excesso de estimulação, com o seria o caso de uma masturbação excessiva. Dizendo de outra form a, o conceito de neu rose Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 47.
    1. atual aludea um excesso de estimulação que o ego não consegue processar, de sorte que o corpo funciona como um dreno do excesso. A noção de neurose atual implica a aceitação da teoria econômica das energias pulsionais, razão pela qual caiu em descrédito na Psicanálise, hibernando em um longo ostracismo, até que, na atualidade, ela ressurge revigorada e com teorias mais sofisticadas. 2. Processos primário e secundário. De forma reduzida, cabe afirmar que as somatizações correspondem às falhas dos processos de simbolização, os quais estão unicamente presentes no processo secundário de pensamento. Nos casos em que haja falha do processo secundário, logo da abstração dos pensamentos, predominará a concretude dos sintomas, próprias do processo primário. 3. Ego corporal. A clássica afirmativa de Freud de que “o ego, antes de tudo, é corporal” permite depreender, nos processos somatoformes, a importância das representações do corpo “no ego” e de uma cenarização dos conflitos do ego “no corpo”. Tais concepções adquirem capital importância na Psicanálise atual, tanto para o entendimento dos transtornos da imagem corporal quanto para a participação do corpo como um cenário dos diversos “teatros” da mente. 4. Identificações patôgenas. Freud, em Luto e melancolia, afirmou que a sombra do objeto recai sobre o ego, isto é, forma-se uma identificação do sujeito com o objeto perdido, de duração transitória no caso de “luto” normal ou de forma definitiva nos casos de “melancolia”. Nesta última situação, deve ter havido uma relação de conflito com a pessoa que foi atacada e perdida, de sorte a forçar um tipo de identificação patológica, que venho propondo chamar de identificação com a vítima. Quando isso acontece, o sujeito sente-se como que obrigado a ser igual em tudo ao objeto perdido, o que adquire uma especial importância nos processos psicossomáticos, pois tal identificação, com grande freqüência, faz-se com os sintomas clínicos da doença que acompanhou ou que vitimou a pessoa que ambivalentemente ele amou e odiou. 5. Para evidenciar a valorização que Freud sempre atribuiu às íntimas conexões que existem entre psique e o soma, cabe consignar a sua visão profética quando, em 1938, preconizou que o futuro poderá ensinar-nos a influir diretamente no psiquismo mediante substâncias químicas particulares. Essa profecia de que substâncias químicas seriam utilizadas para compensar a patologia da química celular encontra plena confirmação na moderna psicofarmacologia, como são os excelentes resultados clínicos que os medicamentos propiciam em casos de doenças afetivas ou nos de transtorno do pânico, por exemplo. 6. Também vale consignar que coube a Freud o pioneirismo de assinalar que nem toda comunicação é unicamente verbal, e que, de alguma forma, o corpo também comunica, tal como se pode depreender desta frase, a propósito do “Caso Dora” (1905): “nenhum mortal pode guardar um segredo; se sua boca permanece em silêncio, falarão as pontas de seus dedos [...]”. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 48.
    As contribuições deM. Klein que, indiretam ente, facilitam o entendimento dos fenôm enos relativos às som atizações podem ser resumidas às fundamentais con cepções de: 1) fantasias inconscientes (que impregnam os órgãos). 2) O fenôm eno da despersonalização (conseqüente de um excessivo jogo de identificações projetivas e introjetivas). Daí também resulta o sério problem a da distorção da imagem corporal. 3) O seu conceito de memória de sentimentos (sensações e em oções primitivas, que não conseguem expressar-se pela linguagem verbal, podem estar gravada s em algum can to da memória do ego corporal). 4) A explicação que Klein dá para o processo psicopatológico da hipocondria, com o sendo a da introjeção de objetos persecutórios que se alojam dentro de órgãos e, daí, ameaçam a saúde e a vida do sujeito. 5) De m odo geral, a escola kleiniana considera que toda doença psicossom ática é a expressão de um luto patológico (vingativo-persecutório) do objeto perdido dentro do ego. Indica que houve predomin ância do ódio durante a representação da mãe, precedendo tais manifestações som áticas, o surgimento das fobias. Cabe acrescentar que geralm ente a separação deu-se antes de concluída a fase de sim biose, o que isso leva tais pacientes a uma inalcançável busca de novas simbioses. A Escola Francesa de Psicanálise emprestou as seguintes contribuições: Lacan con cebeu a noção de: 1) Corpo espedaçado: o bebê, ou o futuro adulto m uito regredido, é capaz de vivenciar o seu corpo como que feito de, ou em, pedaços dispersos. 2) A crença da criança de que ela está alienada no corpo da mãe, com ela ficando confundida corporalmente. 3) O discurso dos pais na m odelação do inconsciente da criança, de modo a poder inscrever significantes de natureza psicossomática. Dentro dessa Escola, o Instituto de Psicossomática, de Paris, conceitua: 4) O pensamento operatório (equivale ao conceito de “alexitimia” antes descrito) que este Instituto descreve nos pacientes som atizadores. 5) A relação branca, isto é, aqueles pacientes que na relação com o analista m ostram uma afetividade esvaziada e só parecem ligados aos aspectos con cretos dos fatos narrados. A renom ada psicanalista Joyce MacDougall acrescentou as conceituações de: 6) Uma primitiva relação diádica fusional da m ãe com o lactante, que pode chegar a um ponto de tal intensidade que a autora cunhou a expressão um corpo para dois. 7) Na história dos pacientes somatizadores sempre existiu uma im ago materna que falhou, ou exagerou, na função de paraexcitação, isto é, a de conter e desintoxicar o excesso de estímulos provindos de várias fontes, de modo que a mãe não conseguiu ajudar a crian ça a pensar, a decodificar e a simbolizar o seu universo pré-simbólico, razão por que eles se expressam pelo corpo. 8)O corpo primário e fragmentário da mais tenra infância deixa traços psíquicos a partir do com eço da vida, de modo que com põem uma história sem palavras, tendo o corpo com o cenário. 9) O s processos que operam na somatização podem ser con siderados semelhantes aos oníricos, chegando MacD ougall a asseverar que o sintoma psicossomático é um sonho inexitoso. 10) Em relação à organização edipiana desse pacientes, a autora considera que ela está construída sobre uma organização bastante mais primitiva, na qual predom ina um a imago materna que usa a criança tanto como uma extensão narcísica quanto um a extensão erótica e Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 49.
    corporal dela própria,enquanto a figura do pai fica bastante desqualificada e ausente do discurso simbólico. 11) Dessa forma, todo afeto é sentido como perigoso, e o corpo defende-se como se estivesse em perigo. Bion, por sua vez, também trouxe uma inestimável colaboração para a compreensão da dinâmica do paciente somatizador, por meio de conceituações originais, como: 1) A existência de um psiquismo fetal. Segundo Bion, o feto já tem uma vida psíquica e as arcaicas sensações experimentadas ficam de alguma forma impressas nos primitivos sistemas neuronal e corporal do feto, de sorte que as manifestações orgânicas podem ser reexperimentadas na vida adulta, sem que haja uma causa aparente. Creio que essa concepção possa ser uma boa explicação para o fato de que um estado mental demasiadamente regressivo restabelece a conexão com a corporalidade, de modo que aciona um determinado código psicossomático. 2) O discurso de uma mãe hipocondríaca, que desvirtua as angústias manifestas pela criança, dando-lhe uma explicação de causa orgânica, atribuindo a responsabilidade do estado ansioso do filho para algum determinado órgão. Por exemplo, se a criança chora alegando um determinado tipo de medo, ou pânico, a mãe logo acha uma explicação somatoforme: “É o seu fígado que não está funcionando bem”. A conseqüência futura é que toda vez que esse filho, agora adulto, sentir algum tipo de angústia sem causa explícita, muito provavelmente ele a expressará referindo através de uma queixa localizada no fígado... Esse tipo de mãe pode ser incluída naquela categoria que, creio, se pode chamar de mães psicossomatizantes. 3) A falha na capacidade para pensar: nesse caso, as experiências emocionais penosas, no lugar de serem pensadas, funcionam como protopensamentos, isto é, elementos beta, cujo destino é o de evacuação, tanto para fora, sob a forma de actings, quanto para dentro dos órgãos, em cujo caso se expressam por psicossomatizações. A DOR Penso que, dentre as manifestações do paciente somatizador, cabe incluir os aspectos referentes ao problema da dor; nas suas múltiplas manifestações, aguda ou crônica, a de origem orgânica ou traumática com repercussões psíquicas ou a de origem inicialmente psicógena com repercussões orgânicas, assim como a dor que é comunicada de forma superlativa, ou aquela que o sujeito sofre silenciosamente, etc. Relativamente à psiconeurofisiologia da dor, quatro fatores essenciais devem ser levados em conta: 1) Limiar fisiológico: alude ao momento em que surge a dor; o limiar é igual em todos os indivíduos, como, por exemplo, quando se usa o calor como fator estimulante, o limiar à dor situa-se em torno de 44 graus. 2) Limiar de tolerância: refere ao ponto em que o estímulo alcança um grau intolerável, o que varia um pouco conforme o indivíduo, de modo que muitas pessoas toleram bem 48 graus. 3) Resistência à dor: varia de uma pessoa para outra, para mais ou para menos, em função de fatores emocionais, circunstanciais e espirituais. Assim, um sujeito em transe místico ou um preso político submetido à tortura física, quando está em um estado de extrema fidelidade à sua ideologia e aos seus companheiros, elevam sua resistência à dor a níveis inacreditáveis. 4) Quantidade Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 50.
    e intensidade dador: é importante que se estabeleça uma distinção entre a quantidade do estímulo doloroso, físico ou emocional, e a intensidade da reação que o estímulo desencadeia em uma determinada pessoa, o que varia com a sensibilidade da área psíquica que foi atingida. ZONA CORPORAL Um aspecto que também merece ser destacado como relevante é o que diz respeito à zona corporal na qual o conflito se manifesta. Um exemplo de minha clínica privada pode ser mais esclarecedor: no curso de uma sessão de análise, a paciente, deitada no divã, relatava-me que desde que começou a amadurecer emocionalmente está pagando um alto preço cobrado pelos seus familiares, porquanto esses a solicitam para tudo e, cada vez mais, esperam que ela resolva toda a sorte de problemas, de todos. Enquanto o relato prosseguia, a paciente começou a acusar um desconforto no ombro direito, que foi aumentando de intensidade a ponto de adquirir as características de uma dor aguda insuportável, que ela atribuía a uma possível posição viciosa de como dormira na véspera ou de como deitara no divã da presente sessão. A dor no ombro atingiu tal intensidade que a paciente não mais conseguia fazer nenhum movimento e estava começando a dar sinais de surgimento de uma forte angústia. Nesse momento decidi intervir psicanaliticamente e assinalei o fato da coincidência de que a dor no seu ombro surgiu exatamente no momento em que ela me narrava que estava carregando as mazelas da família nos seus ombros, de modo que o seu corpo falava, através da linguagem da dor no ombro, o quanto o seu papel de sustentáculo da família estava sendo penoso e dolorido para ela. Ao término de minha fala a dor desapareceu instantânea e totalmente, tendo a sessão prosseguido de modo normal. OUTRAS SOMATIZAÇÕES Talvez o exemplo anterior não seja o mais adequado, pois as resoluções das somatizações não se passam assim tão facilmente, além de que na vinheta ilustrativa trata-se de uma situação conversiva, em cujo caso não chega a existir uma lesão somática; além disso, sabe-se que as conversões permitem uma leitura simbólica do significado dos sintomas, o que não acontece na psicossomatização propriamente dita. Não obstante esta ressalva, a situação descrita ilustra a íntima conexão que pode existir entre os fatores emocionais e a utilização do corpo como cenário para a dramatização simbólica de um determinado conflito. Em síntese, o importante a destacar é que, como antes foi referido, o corpo fala! – e falam especialmente aqueles sentimentos que ainda não puderam ser expressos com o simbolismo das palavras. Assim, alguma parte do corpo que estiver mais sensibilizada por um determinado conflito psíquico pode funcionar tanto como uma caixa de ressonância (à moda daquele ditado popular de que “a corda rebenta na parte mais frágil”), como também a área corporal escolhida – trata-se de uma vulnerabilidade psicossomática – pode se constituir com um “cenário” no qual são representados dramas íntimos, com as respectivas fantasias Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 51.
    inconscientes. Adem ais,m uito cedo o bebê aprende a conhecer as formas de abordagem afetiva que serão rejeitadas ou bem acolhidas pelos pais. Esses fatos, aliados à constelação de outros fatores, com o, por exemplo, os da repercussões imunológicas, adquirem uma significativa importância em todo e qualquer ato médico, de sorte que cada especialidade m édica permite, até certo ponto, é claro, a decodificação dos com ponentes emocionais im plícitos em determinados sintom as orgânicos específicos de uma determinada especialidade. Assim, os gastrenterologistas conhecem bem as fantasias orais que acom panham a ingestão e m etabolização de alim entos (ou medicamentos) e as fantasias ligadas à analidade que se manifestam nos problemas de diarréia, prisão de ventre, etc. Da mesma forma, os cardiologistas facilmente identificam o quanto algum sintoma cardíaco está ligado aos temores de m orte, por exemplo. Em bora seja fascinante a idéia de esmiuçar, estabelecer conexões e particularizar os aspectos psicossomáticos que cada especialidade comporta, não cabe, aqui, fazer esse aprofundamento; cabe, no entanto, lembrar que, já no início da Psicanálise, Freud descrevia casos de paralisias histéricas e, em 1910, publicou o elucidativo trabalho A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. MANEJO TÉCNICO 1. Em algum grau, em qualquer análise, praticamente sem pre surgirá algum a m anifestação de natureza psicossom ática; no entanto, as considerações relativas ao manejo técnico, no presente capítulo, estão restritas aos pacientes que manifestam uma m arcante continuidade de diferentes formas de som atização. 2. Muitos autores postulam a hipótese de que existe uma estrutura psíquica própria do paciente psicossomático, à sem elhança do que ocorre com as estruturas neurótica, psicótica, narcisista, perversa, etc. Igualm ente, uma questão que freqüentem ente é levantada concerne a se deve existir um a clínica especializada para doenças psicossom áticas ou se, pelo menos, existem técnicas psicanalíticas específicas para estes casos. A resposta depende da conjunção de um a série de fatores que intervêm no processo, como: a tipificação singular das psicossom atizações de cada um dos pacientes; o esquema referencial utilizado pelo psicanalista; o tipo de leitura que o analista faz dos sintom as orgânicos manifestos; o tipo de interação vincular transferencial-contratransferencial própria de um determinado m om ento da análise; as intercorrências ambientais, os aspectos bio- psicossociais e espirituais; os m odelos interpretativos e os de abordagem analítica. Em síntese, creio que os aspectos que seguem enumerados merecem ser considerados no que diz respeito ao manejo técnico com pacientes som atizadores. Parece que predomina entre os autores um a opinião consensual de que é necessário haver uma modificação na técnica psicanalítica que habitualm ente é utilizada com pacientes simplesmente neuróticos. Assim, o analista deve levar em conta que os pacientes somatizadores, genericam ente, apresentam dificuldades não só quanto à capacidade Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 52.
    1. para produzirfantasias inconscientes, mas também, estão prejudicados no que tange à formação de símbolos e, conseqüentemente, às capacidades de abstração, conceituação e de generalização, que cedem lugar a uma predominância do pensamento concreto. 2. É necessário deixar claro que nesses pacientes o prejuízo na formação de símbolos, logo, o de pensar abstratamente, não significa que haja uma total ausência dessas capacidades; antes, o referido prejuízo costuma ser parcial e seletivo, ou seja, uma pessoa pode ser bastante bem-sucedida em áreas importantes e complexas de sua vida, porém para uma outra ordem de sentimentos que necessitariam ser pensados, simbolizados e verbalizados, essa mesma pessoa pode fazer um bloqueio, de sorte que tais sentimentos falarão através do corpo. 3. Assim, diante de pacientes francamente psicossomáticos, freqüentemente os analistas os consideram no limite do analisável. Os hipocondríacos, por exemplo, raramente chegam à análise, e, quando algum chega, revelam uma forma concreta de pensar, ao mesmo tempo em que passa grande parte das sessões manifestando algum grau de desespero, assim convidando o analista a fazer uma aliança de comiseração com o seu corpo, que está fragilizado, devido a uma sensação do paciente de que alguma parte desse seu corpo esteja sendo invadida por inimigos. 4. É indispensável que o analista esteja atento para a profunda problemática e para a estrutura psíquica regressiva, subjacentes aos defensivos recursos psicossomatizantes, como, por exemplo, a de um temor do paciente de ele cair em uma grave depressão. Aliás, um expressivo número de trabalhos correlaciona as somatizações com as situações de separações, perdas e baixa auto-estima. 5. No paciente somatizador, é bastante freqüente a constatação de que a mãe usava o corpo do filho como se fosse um prolongamento do dela, de sorte que essas crianças, futuros adultos, ficam muito vulneráveis paras situações de separações. 6. Aliás, ninguém mais contesta que o corpo do bebê, no início não- integrado e sentido por ele como sendo feito de pedaços (“despedaçado”), vai se unificar e integrar graças a uma, suficientemente boa, maternagem da mãe, à sua voz, ao seu olhar, à sua continência, suas exclamações laudatórias ou desqualificatórias, aos toques de suas mãos, mãos essas que vão deslizar sobre o corpo da criancinha, unificando os seus pedaços, definindo os seus contornos, estabelecendo os limites com a realidade exterior e transformando o corpo, até então unicamente biológico, em um corpo erógeno. Assim, o corpo é o cenário das primitivas inscrições dessa relação mãe-bebê; o corpo é a memória do inconsciente, dos sentimentos primários, dos significados do discurso e do desejo materno. Isso equivale à atitude e à atividade interpretativa que toca a sensibilidade do paciente somatizador e, da mesma forma, também creio que toque a do analista, juntamente com a sua função de continência, contribuindo decisivamente para a construção de uma segunda pele para certos Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 53.
    1. pacientes necessitadosde um a delimitação com o mundo exterior, conforme a conceituação de Esther B ick (1968). 2. A propósito, é im prescindível que o terapeuta sempre considere o fato de que o corpo representa, fala (às vezes, narra um a história), serve de cenário e descarrega primitivas sensações e emoções, que não foram representadas com palavras ou que ficaram fortemente negadas. Por exemplo, no fenômeno conversivo, o histérico faz um jogo concomitante de, através do corpo, ocultar (eludir) e de dem onstrar (aludir) o verdadeiro conflito psíquico subjacente. 3. É importante que o analista valorize o fato de que o paciente psicossom ático tem um a form a peculiar de pensamento, linguagem e de lidar com as emoções e vínculos afetivos. Green denomina relação branca o vínculo afetivo que caracteriza estes pacientes. Assim , na relação analítica o paciente e o analista estão presentes, um frente ao outro, porém, am bos sen tem -se vazios porque predomina no prim eiro uma atitude do tipo “deu, isto é tudo”, ou seja, ele já disse qual é a sua necessidade e agora cabe ao terapeuta resolvê-la de forma concreta e, de preferência, imediata. Às vezes, não há uma negação do reconhecim ento das em oções, porém transparece uma ausência de afetos. 4. Por essa razão a resposta contratransferencial costuma ser muito difícil, de sorte que é bastante com um que o analista sinta sentimentos de vazio, frustração, impotência, tédio e de um a paralisação interior, com o se ele estivesse “alexitímico”, tal como o seu paciente é. Isso representa um risco analítico, pois o paciente somatizador tem um a grande parte infantil, ou seja, um a parte de infans (em latim , significa “incapacidade para falar”). 5. Assim cabe à mãe com seu filhinho – ou ao analista com o seu paciente – nomear os sentimentos que estão anestesiados e ainda sem nom e, propiciar a verbalização de fantasias e afetos e servir como modelo que desenvolva a sua capacidade para pensar. Sabe-se que, pelo contrário, não raramente os pais confundem m ais ainda os afetos da criança, como na clássica sentença “m en ino que é homem não chora” ou “faz como eu, não deixe ninguém saber o que você está sentindo”, etc. 6. A fim de ilustrar a im portância de o paciente psicossomático entrar em contato e verbalizar os seus sentimentos depressivos e de vazio, cabe citar J. MacD ougall, que após analisar sete pacientes com tuberculose disse que “[...) por não terem sido capazes de abrir o seu coração para o luto, abriram o pulmão para o bacilo de Koch”. 7. Assim , a linguagem em pregada pelo analista deve ser clara, sim ples e direta, devido às prováveis dificuldades de o paciente conseguir abstrair e decodificar as interpretações m ais sofisticadas. 8. Igualm ente, é útil que haja um papel mais ativo por parte do analista, com um a atividade interpretativa que permita o uso de claream entos, confrontos, assinalam entos de paradoxos e contraditórios e, especialmente, o emprego de perguntas, não as interrogativas, m as, sim, as estimulativas, que instiguem o paciente a fazer reflexões. De fato, é fundam en tal que o analista também proceda à análise das funções do ego consciente, sobretudo as que se referem à capacidade Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 54.
    1. para pensaros protopensamentos (isto é, aquelas prim itivas sensações e experiências em ocionais que ainda não foram representadas com palavras), as sensações e os sentimentos, de modo a estabelecer um trânsito de comunicação entre o consciente e o inconsciente do paciente somatizador, além de fazê-lo com prom eter-se afetivam ente com aquilo que diz intelectualmente. 2. Um bom recurso técnico consiste no emprego do método dialético, isto é, à tese do paciente (“o meu único problem a é a m inha colite ulcerativa, eu enlouqueço de angústia quando evacuo fezes mucossangüinolentas, não fosse isso eu estaria ótim o...”), o analista contrapõe uma antítese (“acha possível que o caminho seja in verso, ou seja, que é justamente quan do você está ansioso é que surgem os sintomas da sua colite?”), que leve o paciente a fazer reflexões de modo a propiciar uma possível construção de uma síntese (na situação analítica isso corresponde à aquisição de um insight), síntese essa que funciona com o uma nova tese, movim entando um círculo virtuoso crescente e expansivo, próprios do m ovimento dialético. 3. Se o paciente m anifesta dificuldades em dar acesso às interpretações rigorosam ente transferenciais (o que é bastan te com um com os pacientes som atizadores), é recom endável que o analista não insista nessa tecla, pelo menos temporariamente, e em troca valorize e utilize os assinalam entos interpretativos que são sugeridos pelas narrativas extratransferenciais (isto é, aquelas que estão contidas nas narrativas de fatos e do cotidiano do paciente), para, a partir daí, poder construir com o seu paciente um a verdadeira relação transferencial. 4. D a m esm a forma, o emprego de metáforas simples e facilmente compreensíveis, que possibilitem a junção do pensam ento com o sentimento e com a im agem visual sugerida pela m etáfora, tem revelado em inúmeras vezes um excelente resultado. 5. Um outro aspecto que deve merecer um a atenção especial do terapeuta diz respeito à possibilidade de que o surgim en to da som atização esteja coin cidindo com o aniversário de morte de alguma pessoa que foi especialmente importante na vida do paciente, de modo que, em nossa prática clínica, não raramente encontraremos vários pontos de sem elhança entre o sintoma psicossom ático manifesto pelo nosso paciente e sintomas de doença que vitimou aquela pessoa significativa. Isso acontece m ais comumente naqueles casos a que antes aludi com o nome de identificação com a vítima. 6. É útil que o terapeuta leve em conta que as emoções conectam não apenas a m ente e o corpo de cada indivíduo em separado, m as também as mentes e os corpos entre os indivíduos com os quais o paciente convive, em uma interação que pode estar sendo de matiz patogênica. Assim, na prática clínica não basta apenas que os pacientes psicossom áticos percebam os seus sentim en tos; o analista deve ajudá-los a que os expressem para os outros, logo, para o analista na situação analítica, porquanto isto desem penha um papel im portante na – fundam ental – função de regulação da atividade emocional. Ademais, diante de sin tomas som áticos que são desconhecidos e incapazes de Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 55.
    1. serem nomeadoscom palavras pelo pacie nte, cabe ao analista, mediante su a função interpretativa, transformar meras sensações corporais em palavras capazes de simbolizarem a emoção qu e está subjacente ao sintom a somático, assim preenchendo um enorme vazio in terior. 2. C reio desnecessário enfatizar qu e mesmo diante de tantas evidências da intervenção das emoções no fenômeno das somatizações, o analista deve estar atento à possibilidade de ele encam inhar o seu paciente para um m édico clínico, para u ma avaliação de possíveis cau sas orgânicas, com vistas à detecção de algum a situação m ais grave. 3. Por fim, cabe dizer qu e a ação analítica somente terá eficácia quando os assinalamentos interpretativos do analista vierem acom panhados de u ma autêntica atitude p sicanalítica inte rna dele, que englobe, entre tantos ou tros atributos, como os de co ntinência e emp atia, também o de u m re speito pelos sintomas m anifestos, juntamente com um sincero bem qu erer e crença nas capacidades constru tivas latentes desse tipo de paciente. Igu almente, é im prescindível que o terapeuta possu a o atributo de ser coe rente e ve rdade iro com aqu ilo que ele diz, faz e o que, de fato, é! Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 56.
    NEUROSE OBSESSIVA: NEUROSE OUTRANSTORNO? Sergio Costa RESUMO: Mais de cem anos se passaram e volta a tona o antigo conceito de sujeito: o sujeito da ciência, porém, hoje, acompanhado e manipulado pelo discurso capitalista. Desaparece o sujeito do inconsciente na imensidão dessa aldeia global e um novo é incentivado a existir: o sujeito consumista e com uso compulsivo de medicamentos. Enquanto Freud em 1896 retira a neurose obsessiva do quadro das psicoses, essa nomenclatura é banida dos manuais psiquiátricos e é reduzida a um mero Transtorno Obsessivo Compulsivo. PALAVRAS CHAVE: Neurose Obsessiva – Psicanálise – Desejo Introdução: O ser humano, diferentemente dos demais animais, assim que chega ao mundo, é colocado em total estado de dependência. É a partir de uma linguagem, que lhe é peculiar, representada inicialmente por sussurros, gestos ou expressões faciais, ele é interpretado pelo outro para obter ou não a satisfação. Uma linguagem que tem a função de evocar o desejo, e não de representa-lo, e ainda possibilita a imaginação do outro para se alcançar o desejado. É neste contexto que as necessidades se tornam demandas e se instala o desejo inconsciente, com suas pulsões de vida. Desejos que advêm da compreensão ou não do outro, da total, parcial e nenhuma satisfação destes. É nesse vai e vem de desejos alcançados, reprimidos ou sublimados, que o sujeito é capaz de inventar, criar, mudar e seguir em frente. Com esse constante movimento se produzem as neuroses, que são os impasses diante do desejo inconsciente. A Neurose Obsessiva Com o trabalho intitulado “A Hereditariedade e a etiologia das neuroses” (1896), Freud lança uma inovação nosográfica, colocando ao lado da histeria a neurose obsessiva. Até então ela fazia parte do quadro das psicoses. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 57.
    F reu dlança, aind a, nova p ro po sição qu anto aos distú rb io s sexu ais, que eram sem p re sub ord inado s à hered itariedad e: “...qu e e ssas mo dificaç ões pato lóg ica s fu nc ion ais têm com o fon te c omu m a vid a s exu al d o s ujeito, q uer resida m n u m d istú rbio d e su a v id a sexu al co nte mpor âne a, q uer e m fatos impor tan tes d e s ua vid a pa ssad a.”1 Para ele a natureza da ne uros e o bsess iva resum e- se na segu inte fórm u la: “A s id éias ob sess ivas são (...) au to -acu saç õe s tran sformad a s q ue ree me rgiram d o rec alc amen to e qu e se mpre se relacio na m co m a lgu m a to sex ua l pr atic ad o co m praze r n a infân cia .”2 Na ne uros e o bsess iva o enco ntro com o sex o é acom panhado po r u m prazer, que leva à cu lp a ou à auto -recrim inação . Cria -se o recalqu e e, a partir d isso , o afeto é deslocad o po r um a idéia sub stitutiva. É p or isso que o ob sessivo crê na representação recalcad a, e é essa crença qu e o leva á dú vid a. É essa a su a defesa prim ária: a escrup ulosidade. Oco rrem , aind a, ou tras d efesas, d itad as po r F reu d com o secu ndárias: o ensim esm am ento o bsessivo , acu m ulação de o bjeto s, d ip som ania, rituais o bsessivo s. A neu rose ob sess iva se instala a partir do deslocam ento das p ro ibiçõ es, do s tabus, e isso oco rre desde a m ais tenra idad e. D . Winnicott d iz: “O primeir o esp elh o d a criatu ra hu man a é o rosto d a mã e: a su a ex press ão, o s eu o lh ar, a s u a voz (...) É co mo se o beb ê pe ns asse : olh o e sou visto, lo go, e xis to!”3 O desejo no ob sessivo é contra-lei, é p roib id o pela m ãe. Ele transita sem p re entre o sagrado e o p rofano, estab elecend o um a certez a interna, qu e envo lve renún cias e restriçõ es, co nstituind o os atos o bsessivo s ou com p ulsivo s. Em T otem e Tab u (1 913 ), F reud resu m e a sem elhança en tre as práticas do tab u e o s sintom as o bsessivo s, com o : “1. o a to d e faltar às atribu içõ es qu alq ue r motiv o atrib uíve l; 2. o fato de se rem ma n tid as por u ma nec ess id ad e inte rna ; 3. o fato de sere m facilmen te de sloc áv eis e d e h aver um risc o d e infecç ão prov eniente d o proibido ; e 4. o fato de c riare m in jun ções p ara a re aliza ção d e ato s c erimoniais .”4 1 A hereditariedade e a etiologia das neuroses (1896). In: Ed. Standard Brasileira, vol. III: 1996. pág. 148. 2 A natureza e o M ecanismo da neruose obsessiva (1896). In: Ed. Standard Brasileira, vol. III: 1996, pág.169. 3 In: Zimerman, David. Manual de Técnica Psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre:Artmed, 2004, pág.347. 4 Totem e Tabu (1913). In: Ed. Standard Brasileira, vol XIII: 1996, pág. 46 Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 58.
    Não po demo s deixar d e citar que o tabu é u m a pro ib ição im po sta p or algu ém de fora, e dirige-se sem p re co ntra o s desejos d o su jeito. E sse algu ém nada m ais é que a m ãe, qu e é o prim eiro o bjeto d e am or na vida d e to do s os seres hu m anos. Segu ndo H artm ann (19 39 )1 , a m ãe é o “esc ud o prote tor” da criança até à sua ado lescência. É quem reforça as leis: o perm itid o e o proibido ... É quem faz disting uir o id d o e go... Tu do isso acontece devid o ao to tal d esam p aro co m que um a criança ch eg a ao m u ndo , quand o a m ãe, po r sua vez, co m tod as as su as lim itações de vid a, a leva para um estado de dep endência. Não ex iste evid ência física que sustente um a criança. Ela po ssu i u m co njunto de pu lsõ es au to-eróticas d esgovernadas e d esco o rd enadas. Para a co nstituição do seu eu dep enderá do reco nhecim ento d e sua im agem , só qu e essa d ep enderá sem p re d a p alavra d o o utro. Se a m ãe é b em sucedida, a criança terá co nsciência de seu am o r, bem co m o pro m o verá u m b om desenvo lvim ento estru tu ral, e d ar-se-á a p assag em da dep endência p rim ária para a dep endência relativa, com o bem coloca W innicott (196 0)2 . Já o fracasso se dá m uitas vezes d evid o às necessid ad es e co nflitos pessoais da m ãe, pois essa deve e tem que desapontar o id e não eg o da criança. Send o assim , cria-se as po ssibilid ad es da instalação das neu ro ses, co m o acentu a Anna F reu d (1 95 8): “...algu m lug ar su til es tá sen do inflig id o à crianç a, e q ue s ua s co nseq üê ncias se m a nifes ta rão em d a ta futu ra..”3 Um a neurose o u um tran storno ? F reu d, no R ascun ho H (18 95), cham a a atenção para o fato de qu e na p siquiatria, as idéias d elirantes da paranó ia se en co ntravam ao lado d as idéias ob sessivas com o d istúrbio s intelectuais. Já, em 1 89 6, ele descreve que as id éias o bsessivas são pro duto s d e um com prom isso . A su a exp eriência com o sexo é trau m ática, m as acom p anhada p or um go zo excessivo que irá acarretar a cu lpa e a auto -recrim inação . E le diz qu e “a id éia ob sessiva pod e ser con trá ria a qu alqu er lóg ica, e m bor a s ua força co m pulsiv a seja ina balável.”4 Já na paran óia, a ex periência traum ática é aco m p anhada tam bém p elo goz o excessivo, que acarreta a culpa, m as não fo rm a a auto -recrim inação , e a culpa passa a ser pro jetada no o utro. O p aranó ico é d escrente, po r isso não d uvida, o que é o o po sto do neurótico o bsessivo . 1 In: KHAN, Masud R. Psicanálise: Teoria Técnica e Casos C línicos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1984, pág.62 2 Ibid, pág. 65 3 Op cit, pág. 75 4 RIBEIRO, Maria Anita Carneiro. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pág.16. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 59.
    O neurótico obsessivose com porta através de rituais, que para ele é como um a religião particular. São atos m ágicos que revelam a onipotência do pensamento do sujeito, que nada m enos é do que indícios da onipotência infantil. A partir dessas diferenças apresentadas, observa-se que o sujeito da Psicanálise, apesar de ser o mesmo sujeito da ciência, e de ser reconhecido como um sujeito político, não se encontra submetido aos interesses do capital. Ele é, ao m esmo tempo, o sujeito do desejo e o sujeito desconhecido que apresenta na falha, no sonho, no sintom a... Hoje, a neurose obsessiva está enquadrada como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Mesmo com todo o avanço científico, principalmente no campo da neurofarmacologia, deve-se atentar que, a obsessão pode estar presente em várias pessoas, porém é preciso distinguir os traços obsessivos de uma pessoa “normal” ou de uma pessoa de estrutura neurótica m ista, perversa ou psicótica; o caráter severamente obsessivo e o transtorno obsessivo com pulsivo. Uma pessoa com traços obsessivos ou m esmo de caráter obsessivo, normalmente, não significa adoecimento, não existe alteração de sua harmonia. Já o T.O.C. (Transtorno Obsessivo Com pulsivo) implica em sofrim ento tanto de si com o de outros, podendo prejudicar até quem vive ao seu lado. Pode levar o sujeito à incapacidade para viver livrem ente. É im portante saber que apresentar um diagnóstico de “obsessivo” é necessária a escuta. Uma escuta não somente de cinqüenta minutos, pois os quadros são semelhantes, mas são m anifestados de formas diferentes. Conclusão A Psicanálise trata e fala do desejo. Assim, para tratar uma neurose obsessiva é necessário ocupar o lugar do objeto da fantasia, colocando-o em posição ativa, para despertar o desejo; enquanto que, na ciência, o objeto permanece passivo diante do desejo do experimentador. Freud, na prática de sua análise, descobriu que pode operar sobre a fantasia inconsciente do sujeito, e modificar a sua realidade psíquica, sua forma de ver e estar no mundo. A ciência, diante do interjogo político, transforma o sujeito em vítima do seu funcionam ento cerebral, tornando-o, cada dia, mais sem forma e descrente... e novas neuroses são estabelecidas. A política que rege a Psicanálise está longe dos discursos da ciência regidos pelo capitalism o selvagem e imperialista desta aldeia global. Para a Psicanálise o que importa é o desejo: a política do desejo! Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 60.
    SUMMARY Obsessive neuosis: neurosisor disuption? More than one hundred years had passed and the old concept of individual cam e back: the individual of science, however, today, is followed and manipulated by a capitalist speech. The individual of unconscious disappears in the largeness of this global village and a new is stimulated to exist: the consumer individual and with com pulsive use of m edicines. While Freud, in 1896, removes the obsessive neurosis of the psychoses list, this nomenclature is banished from the psychiatric manuals and it's reduced to a m ere Compulsory Obsessive Disruption. KEY WORDS: obsessive neurosis – psychoanalysis – desire Bibliografia: 1.BRENNER, Charles. Noções básicas de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1987. 2.FREUD, Sigm und. Obras Completas. Rio de Janeiro: Im ago, 1996. v.1;v.3; v.10; v.13; v.17 (Eição stantard brasileira) 3.KHAN, Masud R. Psicanálise: Teoria Técnica e Casos Clínicos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1984. 4.KUSNETZOFF, Juan Carlos. Introdução à psicopatología psicanalítica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. 5. LAPLANCHE E PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 6.RIBEIRO, Maria Anita Carneiro. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 7..ZIMERMAN, David E. Manual da Técnica Psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2004. Sobre o autor: Sergio Costa- Professor– Psicanalista (NEPP) Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 61.
    TRANSTORNO DE PERSONALIDADEBORDERLINE Irani Araujo RESUMO: Os pacientes portadores do Transtorno de Caráter Borderline não possuem claramente uma identidade de si mesmos, com um projeto de vida ou uma escala de valores duradoura, até quanto à própria sexualidade. A instabilidade é tão intensa que incomoda até mesmo o paciente que, em determinados momentos, rejeita a si próprio; por isso a insatisfação sexual é constante. Possuem rápida variação das emoções passando de um estado de irritação para angústia e depois para depressão (não necessariamente nesta ordem). UNITERMOS: Personalidade, caráter, Borderline INTRODUÇÃO Ao usar a terminologia específica da Psicanálise, falaremos sobre “TRANSTORNO DE CARÁTER BORDERLINE”, já que temos conhecimento que o caráter se forma a partir do nascimento e sendo a personalidade inata, pertence à natureza de um ser. Para Otto Fenichel, o caráter ou a personalidade é o modo habitual de conduta de uma pessoa. Essa conduta, por sua vez, é o resultado final de uma série de complexos e operações referentes aos modos habituais de adaptação do EGO ao mundo externo, ao ID e ao SUPEREGO. Assim a personalidade, o caráter e a conduta são todos aspectos ligados ao ego, resultados de sua impossível tarefa de equilibrar-se entre as exigências das três instâncias psíquicas, definidas por Freud, com grande propriedade.(O Ego e o Id) 1923. TRANSTORNO / CARÁTER Com relação ao funcionamento do ego, os transtornos de caráter não foram matéria especial para Freud, que se dedicava mais ao mapeamento e descrição do inconsciente. Mesmo assim, ele fez as primeiras descrições do quadro, em “Três Ensaios sobre uma Teoria da Sexualidade” (1905): “O que descrevemos como caráter de uma pessoa é construído em grande parte com o material de excitações sexuais e, se compõe de instintos que foram fixados desde a infância, de construções alcançadas por meio de sublimação e, de outras construções empregadas para eficazmente conter os impulsos perversos que foram Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 62.
    reconhecidos como inutilizáveis.A disposição sexual perversa multiforme da infância pode assim ser considerada a fonte de várias de nossas virtudes, através da formação reativa, estimula o desenvolvimento delas”. Assim, com a descrição do “caráter”, passamos a entender que o caráter é, ele mesmo, o “transtorno”, pois constatamos que determinados padrões de conduta na vida diária têm origem defensiva, seria uma adaptação aos conflitos inconscientes, uma tentativa de resolvê-los do melhor modo possível. Essa alteração do ego, ou vai favorecer descargas pulsionais, quando teremos caracteres “sublimados”, ou vai impedir tais descargas, quando teremos caracteres “reativos”. Tais alterações no ego os regidificam, tirando-lhe toda flexibilidade e liberdade. Fenichel organiza os transtornos de personalidade em três categorias: A) os decorrentes de conduta patológica frente ao ID (frigidez, pseudoemotividade, defesas contra a angústia, racionalização, traços anais, orais, fálicos, uretrais, castração, caráter fálico e genital). B) os decorrentes de conduta patológica frente ao SUPEREGO (defesa contra as culpas, masoquismo moral, don juanismo, falta aparente de sentimento de culpa, criminalidade e má identificação, atuação, neurose, destino). C) os decorrentes de conduta patológica frente a objetos externos (fixação em etapas prévias do amor, inibições sociais, ciúmes, ambivalência, pseudo- sexualidade). ETIMOLOGIA: BORDERLINE Do Inglês border  fronteira, margem line  linha, reta Fronteiriço, limítrofe. DEFINIÇÃO Aquele que, sem ter a psicose verdadeira, mostra traços e mecanismos singulares do tipo esquizofrênico. Tem sido chamado como esquizóide .No que diz respeito aos mecanismos patogênicos atuantes, esses casos na verdade são neurose e psicose. Pacientes muito comprometidos psiquicamente mas que não podem ser considerados como autênticos. São insuficientes para se chegar a um diagnóstico correto, um prognóstico preciso. Robert Knight (1953). Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 63.
    AUTOR ANO DENOMINAÇÃO Pinel1801 Mania sem delírio Prichard 1835 Insanidade moral Kahlbaum 1884/90 Adolescentes hebóides Bleuler 1911 Esquizofrenia latente Reich 1925 Caráter im pulsivo Stern 1938 Neuroses borderline Fairbairn 1940 Mecanismos esquizóides Zilborg 1941 Esquizofrenia ambulatorial Deutsch 1942 Personalidades "como se" Hoch&Polatin 1949 Esquizofrenia pseudoneurótica Knight 1953 Estados borderline CID-9 1976 Esquizofrenia latente ou borderline DSM-III 1980 Transtorno de personalidade borderline CID-10 1992 Transtorno de personalidade emocionalmente instável, tipo borderline DSM-IV 1994 Transtorno de personalidade borderline Jovino Camargo Jr. 1994 Estruturas-virtuais MOMENTOS SIGNIFICATIVOS NA PESQUISA SOBRE OS "FRONTEIRIÇOS" CARACTERÍSTICAS A característica essencial do Transtorno de Caráter Borderline é um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada im pulsividade que começa no início da idade adulta e está presente numa variedade de contextos. Seu com portamento impulsivo é, freqüentem ente, autodestrutivo e se desviam acentuadam ente das expectativas da cultura m anifestada em pelo menos duas das seguintes áreas: cognição, afetividade, funcionam ento interpessoal ou controle dos impulsos. Este padrão persistente e inflexível abrange um a am pla faixa de situações pessoais e sociais, provoca sofrim ento clínico significativo, prejuízo no funcionamento ocupacional ou em outras áreas importantes. Os indivíduos com esse transtorno, freqüentemente, parecem dram áticos, emotivos ou erráticos. São instáveis em suas emoções. Fazem esforços frenéticos para evitarem um abandono real ou imaginado (até tentativa de suicídio; completado entre 8 e 10% desses indivíduos) e atos de mutilação.Têm rom pantes de raiva inadequada. As pessoas à sua volta são consideradas ótimas, mas frente Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 64.
    a recusas tornam-se,rapidamente, péssimas. A percepção da separação ou rejeição iminente ou, a perda da estrutura externa podem ocasionar profundas alterações na auto-imagem, afeto, cognição e comportamento. Esses indivíduos são muito sensíveis às circunstâncias ambientais. Têm padrões de relacionamentos instáveis, intensos, e desorganizados. Na realidade, os pacientes com essa patologia têm sérias limitações para usufruírem as disponibilidades de opções emocionais diante dos estímulos do cotidiano e, por causa disso, pequenos estressores são capazes de enfurecê-los. Eles podem idealizar potenciais cuidadores ou amantes, já no primeiro ou segundo encontro, exigir que passem muito tempo juntos e compartilhar detalhes extremamente íntimos na fase inicial de um relacionamento. Pode haver, entretanto, uma rápida passagem da idealização para a desvalorização, por achar que a outra pessoa não se importa o suficiente com ele. Esses indivíduos podem sentir simpatia e carinho por outras pessoas, mas apenas com a expectativa de que a “outra pessoa estará lá”, para também atender às suas próprias necessidades quando exigido. Os indivíduos podem exibir constantes mudanças em seus objetivos, valores e aspirações profissionais, e também de opiniões e planos acerca da carreira, vida sexual, valores e tipos de amigos. Podem mudar subitamente de papel de pessoa suplicante e carente de auxílio para um vingador implacável de maus tratos passados; embora tenham, geralmente, uma auto-imagem de malvados, os indivíduos com esse transtorno, por vezes, têm o sentimento de não existir em absoluto. Podem jogar, fazer gastos irresponsáveis, comer em excesso, engajar-se em sexo inseguro ou dirigir de forma imprudente. Os indivíduos com Transtorno de Caráter Borderline, facilmente entediados, podem estar sempre procurando algo para fazer. Experienciam intensos temores de abandono e raiva inadequada, mesmo diante de uma separação real de tempo limitado ou quando existem mudanças inevitáveis em seus planos (por exemplo, reação de súbito desespero quando o clínico anuncia o final da sessão; pânico ou fúria quando alguém que lhes é importante se atrasa por apenas alguns minutos ou precisa cancelar um encontro). Esse medo do abandono está relacionado a uma intolerância à solidão e a uma necessidade de ter outras pessoas consigo. Os indivíduos com esse transtorno sentem-se mais seguros deslocando e expressando seus afetos para objetos transacionais, isto é, um animal de estimação ou a posse de um objeto inanimado, do que em relações interpessoais. É um tipo de deslocamento associado à postergação, e condensam nesses objetos o seu amor e valores morais não expressos ao seu meio. Além de Freud, Winnicott também falou sobre esse objeto muito especial, transacional,que é “metade” objeto,"metade”fantasia- daí o nome transição, entre pura projeção e a percepção do mundo externo. Essa fantasia,que por algum motivo,em vez de suavemente ir dando lugar à percepção da realidade externa,é em algum momento “cortada” abruptamente, provocará um déficit de onipotência que a criança reencontra no objeto transacional. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 65.
    CURSO O padrão maiscomum é de instabilidade crônica no início da idade adulta, com episódios de sérios descontroles afetivos e impulsos de alto nível na utilização de serviços de saúde mental. O prejuízo resultante do transtorno e o risco de suicídio são maiores nos anos iniciais da idade adulta e diminuem gradualmente com o avanço da idade. Na faixa dos 30 a 40 anos, a maioria dos indivíduos com transtorno, adquire maior estabilidade em seus relacionamentos e funcionamento profissional. PADRÃO FAMILIAL O Transtorno de Caráter Borderline é cerca de cinco vezes mais comum entre os parentes biológicos em primeiro grau dos indivíduos com o transtorno, que na população em geral. Existe, também, um risco familiar aumentado para Transtornos Relacionados a Substâncias, Transtorno da Personalidade Anti- social e Transtorno de Humor.Além do genótipo, as crianças recebem as toxinas que lhe foram engendradas por seus primeiros objetos de desejo, pela ordem, MÃE e PAI ou quem exerce tais funções. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS Não me sentiria muito à vontade em continuar a discorrer sobre tal assunto, se não citasse o critério de diagnóstico diferencial do CID-10 pois, não podemos, no mundo de hoje, nos esquecermos que tivemos avanços profundos na área de diagnósticos de tal patologia, e nem teríamos alcançado tais objetivos se não tivéssemos podido contar com as teorias freudianas. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 66.
    Critérios Diagnósticos paraF60.31 301.83 Transtorno da Personalidade Borderline Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente emuma variedade de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios: (1) esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado. Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5[617]; (2) umpadrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização; (3) perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self; (4) impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por exemplo, gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direçãoimprudente, comer compulsivamente). Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5; (5) recorrência de comportamento, gestos ouameaças suicidas ou de comportamento automutilante; (6) instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por exemplo, episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade, geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias); (7) sentimentos crônicos de vazio; (8) raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por exemplo, demonstrações freqüentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes); (9) ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ouseveros sintomas dissociativos. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 67.
    ORIGEMNAINFÂNCIA Os estudos realizadosem pacientes com Transtornos de Caráter Borderline, quanto às ocorrências na infância, enfocaram basicamente a privação na criança da presença dos pais (principalmente da mãe), e problemas familiares intensos. Nos últimos anos, passou-se ainvestigar a relaçãoentre abusosexual na infância e o caráter borderline. Esses estudos foram inclusivos, mas ficou demonstrada esta relação. Outras formas de abusos também foram encontradas com maior freqüência que o abuso sexual isoladamente: - abandono, humilhações, frustrações, mensagens ambíguas, serem postos em situações de solução impossível, consideradas como abuso emocional. Provavelmente, o caráter borderline é multicausal, e vários tipos de estudos aindadevemser feitos. CASO CLÍNICO O trabalho, com um analisando de 14 anos de idade, foi iniciado pelos trâmites normais da Psicanálise, e seguindo as orientações técnicas psicanalíticas freudianas. Ao encontrar dificuldades em compreender a nosografia, pela péssima dicção usada, e percebendo que esse recurso, nada mais era que mecanismos de defesa como: resistência, deslocamento; presença freqüente da cisão, foi acrescentada às nossas sessões ométododa fixaçãocognitivade situaçõesdiversas. Debates com temas atuais: “Eleições presidenciais” “Efetividade e afetividade do adolescente”, “Globalização”, “Esportes”, “A informática na atualidade” etc. O analisando demonstrava umbomnível de informações e a comunicação tornava- se clara, enquanto debatíamos o tema. Quando voltava a temática para as situações de sua vida, fazendo a prática analítica, denegava imediatamente suas implicações emocionais, fazendo a cisão, dificultando a compreensão na transmissão de suas respostas, que eram frases curtas quando sentia a minha insistência na questão. Exemplo: “nãolembro”, “nãosei”, “talvez”, “pode ser ...”. Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 68.
    As sessões transcorriam-senum clima diferente do desejado e precisava-se comprovar empiricamente a hipótese diagnóstica alcançada. Em estudo, cheguei à conclusão que poderia apoiar-me na técnica de Winnicott- “Criatividade” Uma vez que o potencial inato é inacessível ao conhecimento direto, só podemos conhecer a singularidade de sugestões num meio cultural determinado. A obra winnicottiana é uma expressão dessa singularidade e a relação das idéias de Winnicott, com a teoria psicanalítica de Freud e Melainie Klein, ressaltam apenas a maneira de como ele as utiliza. “...é impossível ser original sem apoiar sobre a tradição, diz:-os adultos amadurecidos levam vitalidade para o que é antigo e ortodoxo, recriando após destruí-lo”. (Winnicott) Destruição para Winnicott nesse contexto não tem sentido negativo, e sim, está no processo de destruição e recriação de objetos. Essa idéia faz parte da teoria das relações objetais (Freud) . O seio materno, em relação ao bebê, propõe que a destruição do objeto-seio, na fantasia, preceda o uso criativo dos novos objetos. Sua contribuição original à Psicanálise pode ser entendida como um esforço do analisando de recriar, de maneira pessoal, aspectos de uma teoria imaginariamente destruída por ele. Apoiada na teoria da CRIATIVIDADE, estimulei o analisando a desenhar, a dar asas à sua imaginação, ora temas livres, ora temas sugeridos . Durante um bom tempo, ficamos neste trabalho. Ao final, o analisando já produzia estórias em quadrinhos, caricaturas, esboço de paisagens... e todas as suas produções eram frutos da sua própria vida. Era sua história de vida. Traços, posições, performance, ideologia, lógica, simbologia, tudo foi estudado e avaliado. O analisando voltou para o divã e, através da técnica da livre associação, que participou com grande desenvoltura, pude concluir : Confirmado. O prognóstico passou a ser diagnóstico: o analisando é portador do Transtorno de Caráter Borderline. O seu tratamento teve início a partir do diagnóstico. Outros casos aconteceram, trocamos experiências em reuniões supervisionadas e, por várias vezes, lançamos mão dessa experiência positiva obtida, alcançando assim, prognósticos, diagnósticos e, partindo para o tratamento, procuramos conduzir os analisandos para fora do labirinto . Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 69.
    SUMMARY The patients whocarry upheaval of borderline character do not have an Identity of themselves, do not have a project for their lives or values.That might linger throughout their lives. They do not even have an Identity of their own sexuality. The instability is so intense that the Patience sometimes rejects him/herself, due to that the sexual Insatisfaction is constant. They shift moods and emotions very fast, Changing from an angry state to anguish and then depression (not necessarily in this order). UNITERMS: Personality, character, Borderline BIBLIOGRAFIA 1. FREUD, S. Obras Completas. 2a. ed. Rio de Janeiro:Editora Imago,1987. 2. KERNBERG , O. F. Transtornos Graves de Personalidade. Porto Alegre, Editora Artes Médicas, 1995. 3. FENICHEL, O. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo, Editora Atheneu, 2001. 4. LAPLANCHE JEAN & J.B. PONTALIS. Vocabulário de Psicanálise, São Paulo, Editora Martins Campos, 2001. 5. WINNICOTT, D.W. - Panorama da Teoria de Winnicott 6. DSM - 4 7. CID –10 Sobre o autor: Irani Araújo – Professora de Língua Portuguesa – Psicanalista (NEPP) Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  • 70.
    BIBLIOGRAFIA SUGERIDA PARAPESQUISAS: Editora Imago: As Normas de Freud para a Interpretação dos Sonhos Grinstein, Alexander Impasse e Interpretação Rosenfeld, Herbert Crença e Im aginação Britton, Ronald Direito de Fam ília e Psicanálise Groeninga, Giselle Câmara & Pereira, Rodrigo da Cunha Na Sala de Análise Ferro, Antônio Psicanálise e Discurso Mahoni ,Patrick Refúgios Psíquicos Steiner ,John A Psicologia do Self Kohut, Heinz A Vida e a Obra de Sigmund Freud. (3 volum es) Jones, Hernest A Correspondência Completa de Sigm und Freud Masson , Jeffrey M. Casa do Psicólogo Adolescência o Segundo Desafio Ferrari, Armando B. Adolescência Reflexões Psicanalíticas Levisky, David Leo Além do Divã Pessanha, Antônio Luiz Serpa Contratransferência Figueira, S. Augusto Contribuições ao Conceito de Objeto em Psicanálise Baranger, W. Diálogo entre a Psicanálise e a Neurociência, Um Andrade, Vítor Manoel O Pensar – Do Eu-Pele ao Eu- Pensante Anzieu, Didier Sobre a Construção do Significado Grandesso, Marilene Psicanálise e Linguagem – do Corpo á Fala Anzieur, Didier e Outros Provérbios e o Inconsciente Cohen, Cláudio Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013