54 reportagem 55 
Psicologia das 
Marcas definem temáticas de suas coleções 
traduzindo as tendências e o conceito de 
seus negócios através das matizes 
POR Kairne Brandt fotos: © firstVIEW e divulgação 
Já imaginou um mundo preto e branco? Parece chato e sem vida. É aí que as cores 
entram, não apenas para colorir, mas também para dar vida e significado tanto 
para as pessoas quanto para peças, produtos e locais. Elas expressam sentimentos, 
passam informações, definem estilos, influenciam o ser humano de forma fisiológica e 
psicológica, produzem impressões, sensações e reflexos sensoriais. Mas, principalmente, 
são a essência da moda. Nesta reportagem, entrevistamos a distribuidora da Pantone, 
Blanca Liane, que nos contou sobre as pesquisas da empresa, além de marcas e 
estilistas que revelaram suas preferências em tonalidades que definem seus conceitos e 
produtos. Acompanhe:
56 reportagem 57 
A teoria das cores é complexa assim 
como sua história é antiga. E desde sua 
“descoberta” passou por transformações, 
ditando tendências no comportamento das 
pessoas. Em cada década, tons reinaram, 
em sincronia com o contexto histórico que 
influenciaram e movimentaram a cultura da 
época. A primeira notícia que se tem sobre cores 
é do filósofo grego Aristóteles, que concluiu 
que elas eram uma propriedade dos objetos, 
classificando-as em seis, o vermelho, o verde, 
azul, amarelo, preto e branco. 
De lá para cá, teorias foram formuladas para 
explicar o que é cor e como ela é formada. 
A cor não tem existência material, é apenas a 
sensação provocada pela luz sobre a visão. 
Portanto, só existe em função de dois elementos: 
luz (como estímulo) e olho (como receptor). 
Formada por ondas e raios eletromagnéticos, 
ela se torna visível ao nosso olho devido às 
ondas de luz visíveis que estimulam a retina, 
através das 130 milhões de células que 
transmitem para o centro visual. 
A infinidade de tons e suas diferenças pouco 
perceptíveis a um olhar leigo torna o estudo 
dessa arte ainda mais desafiadora. Segundo a 
expert em cores, fundadora da Lexus Groupe e 
distribuidora da Pantone no Brasil, Blanca Liane, 
o número de nuances que podem ser recriadas 
em diversas técnicas é infinito. “O sistema 
Pantone Moda+Casa apresenta 2.100 cores 
reproduzidas em algodão e com versão em 
papel também, sendo este número bem próximo 
do máximo de cores que podem ser produzidas 
com real diferença entre elas, a partir do olho 
humano comum. Em laboratório, as cores 
podem ser diferentes, mas o olho humano leigo 
capta diferenciações mais acentuadas e para 
tanto as cores tem que ser realmente diferentes 
sob condições de luz diferentes também”. 
As matizes que já existem na natureza precisam 
de padrões técnicos específicos para reprodução 
da mesma e, dessa forma consolidar sua 
existência. “Os tons mais sombreados, 
açucarados ou aguados são elaborados de 
acordo com o modo de uma época, pois 
são variáveis de uma cor já consolidada. A 
identificação de novas cores e sua entrada no 
sistema Pantone é um processo muito longo que 
envolve primeiramente a comprovação que esta 
será utilizada no mercado.” 
Frida Kahlo (1907-1954) 
Foi uma famosa pintora mexicana que até hoje, 
através de seu estilo e suas obras, influencia coleções 
de diversas marcas na área de vestuário e design. 
Enquanto as demais pessoas usavam roupas produzidas 
na Europa, Frida comprava tecidos exóticos da China, 
renda da Europa e adereços coloridos do México. 
E sob sua orientação, a costureira produzia as peças 
inventadas pela artista. 
O seu lar, conhecido como Casa Azul de Frida, também 
refletia essa abundância de cores. Atualmente, a casa é 
um museu, que preserva o local do mesmo jeito quando 
a pintora vivia ali. 
Para o verão 
2014/15, a coleção 
de Rebecca Minkoff 
foi inspirada por 
fortes mulheres 
latino-americanas 
como Frida Kahlo 
As cores estavam tão presentes na sua vida, 
que em seu famoso diário Frida relatou os 
significados delas em suas obras e casa. 
Para ela, verde representava boa luz quente; 
o amarelo loucura, doença, medo, mas 
também parte do sol e da alegria, e o 
azul-cobalto a eletricidade, pureza e amor. 
A importância 
e a evolução das cores 
A utilização simbólica das cores esteve presente 
no cotidiano de todas as civilizações, numa 
ordem mítica ou religiosa, desde a antiguidade. 
Mas, foi com o fim da Segunda Guerra Mundial 
e do racionamento de tecidos, que a mulher a 
partir dos anos 1950, tornou-se mais feminina e 
diferentes tipos de tons começaram a surgir. Nos 
anos 1960, com a revolução social reinaram as 
cores psicodélicas; em 1970, com a recessão e 
a época de ouro da Disco comandaram as cores 
terrosas; nos anos 1980, com a retomada da 
economia e o surgimento da MTV predominaram 
as cores vibrantes; nos anos 1990, meios tons 
em contrapartida ao grunge e grafite, e nos anos 
2000, com a revolução tecnológica, globalização 
e o minimalismo x individualismo se destacam as 
cores expressivas. 
Desde que a importância da cor dentro e fora 
do mercado fashion foi reconhecida, ela se 
tornou objeto de estudo de muitos pesquisadores. 
Para a professora do curso de Moda da 
Universidade Feevale e de especialização em 
Moda, Mídia e Inovação na Senac em Porto 
Alegre, Marina Seibert Cezar, “as cores são a 
essência para pensar na criação de qualquer 
produto, não só de moda como um vestuário, 
calçado ou acessório, mas essa preocupação 
se mostra desde gastronomia até o universo 
automobilístico”. Blanca complementa que a cor 
é a primeira coisa que notamos em qualquer 
situação e é a última que esquecemos. “A cor 
tem tanta importância, pois imprime em nós uma 
sensação emocional, física e espiritual que é 
absorvida pela memória e passa a ter significado 
interno e pessoal. No mercado da moda, a 
sedução se dá inicialmente pela cor e esta tem o 
papel de marcar uma estação e até mesmo uma 
época, que por sua vez transmite uma mensagem 
e deixa um imprint na história do ser humano.” 
Desde a criação de o visual merchandising de 
uma vitrine ao desenvolvimento de uma nova 
coleção, a cor está presente. E para definir 
qual será a nuance do ano, ou os tons que vão 
marcar a estação, profissionais de diversas áreas 
como os cool hunters fazem pesquisas profundas 
e detalhadas para chegar a um denominador 
comum. “Ainda que possa parecer tarefa fácil 
ou mesmo aleatória, os escritórios de estilo 
internacionais buscam inúmeras referências para 
edificar as escolhas de matizes das estações, 
na intenção de conseguirem representar de 
uma forma visual, os anseios das pessoas. 
Esses estudos visam compreender a moda 
como um fenômeno social que necessita de 
um entendimento cultural. Em momentos de 
restrições, por exemplo, os cidadãos naturalmente 
priorizam as tonalidades mais escuras, tanto 
como um indício de um espírito de tempo, 
quanto de funcionalidade. Esses pesquisadores 
identificam com até dois anos de antecedência 
qual será a cartela de cores da temporada”, 
explica a professora Marina. Essas pesquisas 
envolvem questões econômicas e políticas 
de cada nação, envolvendo a preferência 
de cores em várias áreas como a cosmética, 
automobilística, artes, cinema entre outros. 
“O cruzamento de dados de pesquisa como 
o uso de determinados tons em certas 
épocas e ou mercados também é levado 
em consideração. Ou seja, é uma cesta 
de fatores, mas o fator humano é o mais 
importante”, complementa Blanca.
58 reportagem 59 
Verde 
Sugere calma, tranquilidade, 
frescor, natureza, esperança, 
liberdade, juventude, além de 
bem-estar e saúde. Verde é a 
cor da esperança, da força, da 
longevidade, assim como 
da imortalidade. 
Fontes: “A cor como informação: a construção biofísica, linguística e cultural da simbologia das cores”, autor 
Luciano Guimarães. E “Psicodinâmica das cores” dos autores Modesto Farina, Clotide Perez e Dorinho Bastos. 
Vermelho 
O vermelho lembra sangue, 
pecado e proibição, mas também 
significa atenção, paixão e amor, 
e transmite dinamismo, força, 
energia e excitação. 
Amarelo 
É a cor que sugere 
espontaneidade, ação, 
dinamismo, ansiedade, 
impaciência, irracionalidade, 
além de ter conexões com 
prosperidade e riqueza. 
Verde 
Sugere calma, tranquilidade, 
frescor, natureza, esperança, 
liberdade, juventude, além de 
bem-estar e saúde. Verde é a 
cor da esperança, da força, da 
longevidade, assim como 
da imortalidade. 
Azul 
O azul é considerado a 
cor do divino, do eterno, 
da espiritualidade e, por 
isso, simboliza solenidade, 
relaxamento, tranquilidade, 
confiança, seriedade, leveza, 
inteligência, frieza e falta 
de emoção. 
Violeta 
Em tons escuros, o violeta está 
ligado às ideias de saudade, 
ciúme, angústia e melancolia, 
tornando-se deprimente, além 
de violência, engano, mistério, 
misticismo e profundidade. 
Em tons claros, é alegre, calmo, 
lembra autocontrole, fantasia, 
misticismo, delicadeza e leveza. 
Rosa 
É considerada uma cor 
tipicamente feminina, pois 
simboliza encanto, carinho, 
jovialidade, amabilidade, 
além de remeter à inocência, 
doçura, intimidade 
e suavidade. 
Marrom 
Remete ao outono, terra, sujeira, 
humildade, mas também ao 
calor, aconchego, sensualidade, 
fecundidade, resistência, 
confiabilidade e vigor. 
Branco 
Indica paz (no Ocidente), 
luz, neutralidade, pureza, 
castidade, inocência, liberdade, 
criatividade, limpeza, mas 
também indica vazio, carência, 
solidão, o nada, o fim 
e a morte (no Oriente). 
A cor como 
uma fonte de inspiração 
O que começou como uma brincadeira entre 
amigas, hoje se tornou um site que é referência 
em diversas áreas que abordam a questão 
das cores. Follow the Colours, criado pela 
publicitária Carol T. More, está no ar desde 
2009, e conta com diversos colaboradores de 
conteúdo. “Para mim, é também uma forma 
de estudo, de conhecer coisas novas, ideias 
bacanas e pessoas interessantes que tem a 
mesma afinidade pelos assuntos abordados”. 
A paixão pelas cores iniciou na infância e 
desde então Carol repara em tudo ao seu 
redor e, segundo ela, o blog foi uma forma 
de expressar o interesse pelo assunto. “Estou 
sempre de olho em sites e blogs que tenho 
como referência. Entro, pesquiso, saio, entro em 
outro, pesquiso, até achar algo bacana para 
postar. Acho que acabei virando uma curadora 
de conteúdo mesmo. Quando eu saio para a 
rua, viajo, observo sempre as pessoas, estou 
sempre pensando em o que viraria uma matéria 
legal para postar. O que era uma seleção 
pessoal acabou caindo no gosto dos leitores 
do blog, que curtem design, cores, arte e boas 
inspirações”. 
Para Carol, cada cor tem um significado, sendo 
que ela influencia diretamente no humor e 
também na cartela de uma coleção de roupas 
ou de um ambiente. “Se hoje você vê uma 
pessoa com uma blusa azul na rua, saiba 
que nada é por acaso. Há uma equipe que 
trabalhou em cima de tendências e momentos 
em que o mundo está vivendo. 
O que está por trás de algo, muitas vezes não 
tem sentido para a maioria do público”, frisa. 
A escolha de um determinado tom é resultado 
de muitas pesquisas, que envolvem tendências, 
comportamento, análises e uma série de outros 
fatores, que são traduzidos em uma infinidade 
de cores, influenciando o dia o dia das pessoas. 
As cores 
pelas marcas 
Deixar o gosto pessoal de lado e estar 
atualizado são apenas alguns dos cuidados 
básicos que se deve ter na hora da definição 
da cartela cromática. “A paleta de cores para 
uma coleção precisa ser coerente entre si 
e possuir uma clareza sobre o que se quer 
expressar. Vale lembrar também que o criador, 
além de estar sempre atualizado, precisa 
ter um cuidado cultural para saber respeitar 
os costumes e crenças locais”, aconselha a 
professora Marina. Para a estilista da marca 
de camisas TricTric, Simone Beckel, é preciso 
também estar atento as tendências de cores e 
estampas apresentadas pelo mercado a cada 
estação. “Ao mesmo tempo, como consumidor 
ou estilista, acho que não devemos deixar de 
lado nossas individualidades, nossas referências 
próprias e apostar na personalidade”. 
Em algumas marcas, as cores são definidas 
de acordo com a temática da coleção. “Influi, 
quando escolho uma cor, imagino logo um 
vestido, uma blusa, uma ocasião, um look. 
Como aquela cor se comporta na modelagem 
do produto, e no corpo da mulher, passam 
mil coisas na cabeça e vai desde os primeiros 
desenhos até o produto acabado na loja 
pronto para venda”, conta a coordenadora de 
estilo da marca Enjoy, Adriana Assunção. Um 
exemplo dessa influência é a coleção de verão 
2014 da marca infantil Forrozinho de Gala, 
que tem como tema Jardim. Na produção 
das peças, foi usado tonalidades vivas como 
verde, azul, vermelha e estampas de flores, 
folhas e joaninhas. “No nosso trabalho, as 
cores adequadas podem definir o sucesso ou o 
fracasso comercial de uma coleção”, afirma a 
sócia da marca Patrícia Fagundes. 
Os estudos de cartelas cromáticas oferecidas 
em vários bureaus de moda e os desfiles 
internacionais servem de fontes para as 
marcas. “Deles extraímos o que mais se 
parece com nossa marca, depois à ela vamos 
acrescentando cores que amamos, que têm 
a ver com o tema da coleção, por exemplo. 
Também não podemos esquecer nunca das 
cores (ou ausência delas) que independem de 
moda e que sempre vendem em bijus, como 
marfim, preto, marrom, vermelho, etc”, frisa 
a designer de joias Mary Figueiredo Arantes. 
A marca de calçados Keds estrutura suas 
coleções com um ano de antecedência. “O 
perfil do consumidor que queremos seduzir 
interfere diretamente na escolha das cores, por 
isso é importante observar comportamentos, 
tendências de consumo e para onde esse 
público está indo”, destaca Janete Reis Silva, 
gerente de produto da BlendSport. 
A cultura bem particular do Brasil é outra 
Tênis Keds 
Vestido 
Forrozinho 
de Gala 
aposta de muitas marcas na hora de 
desenvolver uma coleção. “A minha tem como 
referência a brasilidade, nosso sol e nosso 
colorido imenso! Ela é totalmente movida à 
cor. Na minha vida pessoal, tenho uma forma 
de vestir muito própria, amo estampa, cor e 
bordado, minhas roupas têm sempre muita 
informação. Percebo também que minha casa 
é um resultado disso, desse amor pela arte 
e artesanato brasileiro, do que me influencia 
como pessoa e estilista. Uma das coisas 
que acho perceptível no mercado é o gosto 
do brasileiro pelas cores. No inverno, por 
exemplo, em que determinadas regiões do 
país, ele nem acontece, nem pensar em fazer 
uma cartela sombria. Ser brasileiro significa ser 
pessoa colorida”, conta Mary. 
As cores têm papel de protagonistas nas 
coleções, traduzindo as tendências de uma 
estação e o conceito de cada marca. “São elas 
que dão vida às formas, conceitos e traduzem 
o enredo da coleção, e nos ajudam também a 
atualizar modelos clássicos do guarda-roupa 
com uma nova cor, fazendo uma releitura ou 
até mesmo criando algo novo”, argumentou 
Adriana Assunção, que escolhe suas roupas de 
acordo com seu estado de espírito. 
Para a Keds, as matizes são o ponto de 
partida da coleção que auxilia também na 
identificação de seu público-alvo. “Cada gama 
tem uma vibração diferente e graças a variação 
delas conseguimos contar histórias diferentes 
a cada estação. Sem elas, fica impossível 
mostrar a força dos temas, sua origem e, 
principalmente, despertar sentimentos nos 
consumidores. A influência das composições 
cromáticas são fundamentais nas nossas 
coleções, pois despertam emoções, memórias e 
sentimentos que tem relação direta com nosso 
público”, salienta Janete. 
Pulseira 
May Design 
Camisa 
TricTric 
Vestido 
Enjoy 
Laranja 
É uma cor terciária, tem 
característica luminosa, 
e transmite sensação de 
euforia, energia, prazer, senso 
de humor, além de fertilidade, 
generosidade e força.

Psicologia das Cores

  • 1.
    54 reportagem 55 Psicologia das Marcas definem temáticas de suas coleções traduzindo as tendências e o conceito de seus negócios através das matizes POR Kairne Brandt fotos: © firstVIEW e divulgação Já imaginou um mundo preto e branco? Parece chato e sem vida. É aí que as cores entram, não apenas para colorir, mas também para dar vida e significado tanto para as pessoas quanto para peças, produtos e locais. Elas expressam sentimentos, passam informações, definem estilos, influenciam o ser humano de forma fisiológica e psicológica, produzem impressões, sensações e reflexos sensoriais. Mas, principalmente, são a essência da moda. Nesta reportagem, entrevistamos a distribuidora da Pantone, Blanca Liane, que nos contou sobre as pesquisas da empresa, além de marcas e estilistas que revelaram suas preferências em tonalidades que definem seus conceitos e produtos. Acompanhe:
  • 2.
    56 reportagem 57 A teoria das cores é complexa assim como sua história é antiga. E desde sua “descoberta” passou por transformações, ditando tendências no comportamento das pessoas. Em cada década, tons reinaram, em sincronia com o contexto histórico que influenciaram e movimentaram a cultura da época. A primeira notícia que se tem sobre cores é do filósofo grego Aristóteles, que concluiu que elas eram uma propriedade dos objetos, classificando-as em seis, o vermelho, o verde, azul, amarelo, preto e branco. De lá para cá, teorias foram formuladas para explicar o que é cor e como ela é formada. A cor não tem existência material, é apenas a sensação provocada pela luz sobre a visão. Portanto, só existe em função de dois elementos: luz (como estímulo) e olho (como receptor). Formada por ondas e raios eletromagnéticos, ela se torna visível ao nosso olho devido às ondas de luz visíveis que estimulam a retina, através das 130 milhões de células que transmitem para o centro visual. A infinidade de tons e suas diferenças pouco perceptíveis a um olhar leigo torna o estudo dessa arte ainda mais desafiadora. Segundo a expert em cores, fundadora da Lexus Groupe e distribuidora da Pantone no Brasil, Blanca Liane, o número de nuances que podem ser recriadas em diversas técnicas é infinito. “O sistema Pantone Moda+Casa apresenta 2.100 cores reproduzidas em algodão e com versão em papel também, sendo este número bem próximo do máximo de cores que podem ser produzidas com real diferença entre elas, a partir do olho humano comum. Em laboratório, as cores podem ser diferentes, mas o olho humano leigo capta diferenciações mais acentuadas e para tanto as cores tem que ser realmente diferentes sob condições de luz diferentes também”. As matizes que já existem na natureza precisam de padrões técnicos específicos para reprodução da mesma e, dessa forma consolidar sua existência. “Os tons mais sombreados, açucarados ou aguados são elaborados de acordo com o modo de uma época, pois são variáveis de uma cor já consolidada. A identificação de novas cores e sua entrada no sistema Pantone é um processo muito longo que envolve primeiramente a comprovação que esta será utilizada no mercado.” Frida Kahlo (1907-1954) Foi uma famosa pintora mexicana que até hoje, através de seu estilo e suas obras, influencia coleções de diversas marcas na área de vestuário e design. Enquanto as demais pessoas usavam roupas produzidas na Europa, Frida comprava tecidos exóticos da China, renda da Europa e adereços coloridos do México. E sob sua orientação, a costureira produzia as peças inventadas pela artista. O seu lar, conhecido como Casa Azul de Frida, também refletia essa abundância de cores. Atualmente, a casa é um museu, que preserva o local do mesmo jeito quando a pintora vivia ali. Para o verão 2014/15, a coleção de Rebecca Minkoff foi inspirada por fortes mulheres latino-americanas como Frida Kahlo As cores estavam tão presentes na sua vida, que em seu famoso diário Frida relatou os significados delas em suas obras e casa. Para ela, verde representava boa luz quente; o amarelo loucura, doença, medo, mas também parte do sol e da alegria, e o azul-cobalto a eletricidade, pureza e amor. A importância e a evolução das cores A utilização simbólica das cores esteve presente no cotidiano de todas as civilizações, numa ordem mítica ou religiosa, desde a antiguidade. Mas, foi com o fim da Segunda Guerra Mundial e do racionamento de tecidos, que a mulher a partir dos anos 1950, tornou-se mais feminina e diferentes tipos de tons começaram a surgir. Nos anos 1960, com a revolução social reinaram as cores psicodélicas; em 1970, com a recessão e a época de ouro da Disco comandaram as cores terrosas; nos anos 1980, com a retomada da economia e o surgimento da MTV predominaram as cores vibrantes; nos anos 1990, meios tons em contrapartida ao grunge e grafite, e nos anos 2000, com a revolução tecnológica, globalização e o minimalismo x individualismo se destacam as cores expressivas. Desde que a importância da cor dentro e fora do mercado fashion foi reconhecida, ela se tornou objeto de estudo de muitos pesquisadores. Para a professora do curso de Moda da Universidade Feevale e de especialização em Moda, Mídia e Inovação na Senac em Porto Alegre, Marina Seibert Cezar, “as cores são a essência para pensar na criação de qualquer produto, não só de moda como um vestuário, calçado ou acessório, mas essa preocupação se mostra desde gastronomia até o universo automobilístico”. Blanca complementa que a cor é a primeira coisa que notamos em qualquer situação e é a última que esquecemos. “A cor tem tanta importância, pois imprime em nós uma sensação emocional, física e espiritual que é absorvida pela memória e passa a ter significado interno e pessoal. No mercado da moda, a sedução se dá inicialmente pela cor e esta tem o papel de marcar uma estação e até mesmo uma época, que por sua vez transmite uma mensagem e deixa um imprint na história do ser humano.” Desde a criação de o visual merchandising de uma vitrine ao desenvolvimento de uma nova coleção, a cor está presente. E para definir qual será a nuance do ano, ou os tons que vão marcar a estação, profissionais de diversas áreas como os cool hunters fazem pesquisas profundas e detalhadas para chegar a um denominador comum. “Ainda que possa parecer tarefa fácil ou mesmo aleatória, os escritórios de estilo internacionais buscam inúmeras referências para edificar as escolhas de matizes das estações, na intenção de conseguirem representar de uma forma visual, os anseios das pessoas. Esses estudos visam compreender a moda como um fenômeno social que necessita de um entendimento cultural. Em momentos de restrições, por exemplo, os cidadãos naturalmente priorizam as tonalidades mais escuras, tanto como um indício de um espírito de tempo, quanto de funcionalidade. Esses pesquisadores identificam com até dois anos de antecedência qual será a cartela de cores da temporada”, explica a professora Marina. Essas pesquisas envolvem questões econômicas e políticas de cada nação, envolvendo a preferência de cores em várias áreas como a cosmética, automobilística, artes, cinema entre outros. “O cruzamento de dados de pesquisa como o uso de determinados tons em certas épocas e ou mercados também é levado em consideração. Ou seja, é uma cesta de fatores, mas o fator humano é o mais importante”, complementa Blanca.
  • 3.
    58 reportagem 59 Verde Sugere calma, tranquilidade, frescor, natureza, esperança, liberdade, juventude, além de bem-estar e saúde. Verde é a cor da esperança, da força, da longevidade, assim como da imortalidade. Fontes: “A cor como informação: a construção biofísica, linguística e cultural da simbologia das cores”, autor Luciano Guimarães. E “Psicodinâmica das cores” dos autores Modesto Farina, Clotide Perez e Dorinho Bastos. Vermelho O vermelho lembra sangue, pecado e proibição, mas também significa atenção, paixão e amor, e transmite dinamismo, força, energia e excitação. Amarelo É a cor que sugere espontaneidade, ação, dinamismo, ansiedade, impaciência, irracionalidade, além de ter conexões com prosperidade e riqueza. Verde Sugere calma, tranquilidade, frescor, natureza, esperança, liberdade, juventude, além de bem-estar e saúde. Verde é a cor da esperança, da força, da longevidade, assim como da imortalidade. Azul O azul é considerado a cor do divino, do eterno, da espiritualidade e, por isso, simboliza solenidade, relaxamento, tranquilidade, confiança, seriedade, leveza, inteligência, frieza e falta de emoção. Violeta Em tons escuros, o violeta está ligado às ideias de saudade, ciúme, angústia e melancolia, tornando-se deprimente, além de violência, engano, mistério, misticismo e profundidade. Em tons claros, é alegre, calmo, lembra autocontrole, fantasia, misticismo, delicadeza e leveza. Rosa É considerada uma cor tipicamente feminina, pois simboliza encanto, carinho, jovialidade, amabilidade, além de remeter à inocência, doçura, intimidade e suavidade. Marrom Remete ao outono, terra, sujeira, humildade, mas também ao calor, aconchego, sensualidade, fecundidade, resistência, confiabilidade e vigor. Branco Indica paz (no Ocidente), luz, neutralidade, pureza, castidade, inocência, liberdade, criatividade, limpeza, mas também indica vazio, carência, solidão, o nada, o fim e a morte (no Oriente). A cor como uma fonte de inspiração O que começou como uma brincadeira entre amigas, hoje se tornou um site que é referência em diversas áreas que abordam a questão das cores. Follow the Colours, criado pela publicitária Carol T. More, está no ar desde 2009, e conta com diversos colaboradores de conteúdo. “Para mim, é também uma forma de estudo, de conhecer coisas novas, ideias bacanas e pessoas interessantes que tem a mesma afinidade pelos assuntos abordados”. A paixão pelas cores iniciou na infância e desde então Carol repara em tudo ao seu redor e, segundo ela, o blog foi uma forma de expressar o interesse pelo assunto. “Estou sempre de olho em sites e blogs que tenho como referência. Entro, pesquiso, saio, entro em outro, pesquiso, até achar algo bacana para postar. Acho que acabei virando uma curadora de conteúdo mesmo. Quando eu saio para a rua, viajo, observo sempre as pessoas, estou sempre pensando em o que viraria uma matéria legal para postar. O que era uma seleção pessoal acabou caindo no gosto dos leitores do blog, que curtem design, cores, arte e boas inspirações”. Para Carol, cada cor tem um significado, sendo que ela influencia diretamente no humor e também na cartela de uma coleção de roupas ou de um ambiente. “Se hoje você vê uma pessoa com uma blusa azul na rua, saiba que nada é por acaso. Há uma equipe que trabalhou em cima de tendências e momentos em que o mundo está vivendo. O que está por trás de algo, muitas vezes não tem sentido para a maioria do público”, frisa. A escolha de um determinado tom é resultado de muitas pesquisas, que envolvem tendências, comportamento, análises e uma série de outros fatores, que são traduzidos em uma infinidade de cores, influenciando o dia o dia das pessoas. As cores pelas marcas Deixar o gosto pessoal de lado e estar atualizado são apenas alguns dos cuidados básicos que se deve ter na hora da definição da cartela cromática. “A paleta de cores para uma coleção precisa ser coerente entre si e possuir uma clareza sobre o que se quer expressar. Vale lembrar também que o criador, além de estar sempre atualizado, precisa ter um cuidado cultural para saber respeitar os costumes e crenças locais”, aconselha a professora Marina. Para a estilista da marca de camisas TricTric, Simone Beckel, é preciso também estar atento as tendências de cores e estampas apresentadas pelo mercado a cada estação. “Ao mesmo tempo, como consumidor ou estilista, acho que não devemos deixar de lado nossas individualidades, nossas referências próprias e apostar na personalidade”. Em algumas marcas, as cores são definidas de acordo com a temática da coleção. “Influi, quando escolho uma cor, imagino logo um vestido, uma blusa, uma ocasião, um look. Como aquela cor se comporta na modelagem do produto, e no corpo da mulher, passam mil coisas na cabeça e vai desde os primeiros desenhos até o produto acabado na loja pronto para venda”, conta a coordenadora de estilo da marca Enjoy, Adriana Assunção. Um exemplo dessa influência é a coleção de verão 2014 da marca infantil Forrozinho de Gala, que tem como tema Jardim. Na produção das peças, foi usado tonalidades vivas como verde, azul, vermelha e estampas de flores, folhas e joaninhas. “No nosso trabalho, as cores adequadas podem definir o sucesso ou o fracasso comercial de uma coleção”, afirma a sócia da marca Patrícia Fagundes. Os estudos de cartelas cromáticas oferecidas em vários bureaus de moda e os desfiles internacionais servem de fontes para as marcas. “Deles extraímos o que mais se parece com nossa marca, depois à ela vamos acrescentando cores que amamos, que têm a ver com o tema da coleção, por exemplo. Também não podemos esquecer nunca das cores (ou ausência delas) que independem de moda e que sempre vendem em bijus, como marfim, preto, marrom, vermelho, etc”, frisa a designer de joias Mary Figueiredo Arantes. A marca de calçados Keds estrutura suas coleções com um ano de antecedência. “O perfil do consumidor que queremos seduzir interfere diretamente na escolha das cores, por isso é importante observar comportamentos, tendências de consumo e para onde esse público está indo”, destaca Janete Reis Silva, gerente de produto da BlendSport. A cultura bem particular do Brasil é outra Tênis Keds Vestido Forrozinho de Gala aposta de muitas marcas na hora de desenvolver uma coleção. “A minha tem como referência a brasilidade, nosso sol e nosso colorido imenso! Ela é totalmente movida à cor. Na minha vida pessoal, tenho uma forma de vestir muito própria, amo estampa, cor e bordado, minhas roupas têm sempre muita informação. Percebo também que minha casa é um resultado disso, desse amor pela arte e artesanato brasileiro, do que me influencia como pessoa e estilista. Uma das coisas que acho perceptível no mercado é o gosto do brasileiro pelas cores. No inverno, por exemplo, em que determinadas regiões do país, ele nem acontece, nem pensar em fazer uma cartela sombria. Ser brasileiro significa ser pessoa colorida”, conta Mary. As cores têm papel de protagonistas nas coleções, traduzindo as tendências de uma estação e o conceito de cada marca. “São elas que dão vida às formas, conceitos e traduzem o enredo da coleção, e nos ajudam também a atualizar modelos clássicos do guarda-roupa com uma nova cor, fazendo uma releitura ou até mesmo criando algo novo”, argumentou Adriana Assunção, que escolhe suas roupas de acordo com seu estado de espírito. Para a Keds, as matizes são o ponto de partida da coleção que auxilia também na identificação de seu público-alvo. “Cada gama tem uma vibração diferente e graças a variação delas conseguimos contar histórias diferentes a cada estação. Sem elas, fica impossível mostrar a força dos temas, sua origem e, principalmente, despertar sentimentos nos consumidores. A influência das composições cromáticas são fundamentais nas nossas coleções, pois despertam emoções, memórias e sentimentos que tem relação direta com nosso público”, salienta Janete. Pulseira May Design Camisa TricTric Vestido Enjoy Laranja É uma cor terciária, tem característica luminosa, e transmite sensação de euforia, energia, prazer, senso de humor, além de fertilidade, generosidade e força.