_____Psicologia &m foco
                                                                                          Vol. 2 (1). Jan./jun 2009




    FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA:                                que se volta a) e o objeto visado pela
    UMA RELAÇÃO EPISTEMOLÓGICA                                 consciência (o que se revela a esta).
                                                               Distingue-se, assim, do modelo clássico de
                                                               ciência, que pressupõe a separação radical
    Fernando Antônio Nascimento da Silva1                      entre sujeito e objeto.
        Faculdade Pio Décimo/Sergipe
                                                                            A fenomenologia pura, cujo caminho
                                                                            aqui queremos encontrar, cuja posição
                                                                            única em relação a todas demais ciências
RESUMO:O presente texto trata-se de uma                                     queremos caracterizar e cuja condição de
                                                                            ciência    fundamental      da    filosofia
reflexão das relações entre Psicologia e                                    queremos comprovar, é uma ciência
Fenomenologia, no que diz respeito aos seus                                 essencialmente nova, distante do pensar
fundamentos. Apresenta a Fenomenologia,                                     natural em virtude de sua peculiaridade
                                                                            de principio e que, por isso, só em nossos
como ciência dos fenômenos, como uma                                        dias passou a exigir desenvolvimento.
alternativa ao modelo clássico de ciência, no                               Ela se denomina uma ciência do
âmbito das ciências humanas e sociais,                                      ‘fenômeno’” (HUSSERL, 2006, pg. 25).

passando por uma rápida referência aos
                                                               O QUE É A FENOMENOLOGIA?
fundamentos epistemológicos da Psicologia.
Por fim, discute as relações entre ambas, no                                O exercício da fenomenologia
que diz respeito à apropriação do método                       implica numa experiência singular, pouco
fenomenológico pela Psicologia.                                usual: a suspensão de todo e qualquer juízo a
                                                               respeito do fenômeno para o qual a nossa
                                                               consciência se volta. Deixar de lado todo
INTRODUÇÃO                                                     conhecimento ou crença a respeito do
                                                               fenômeno pesquisado, como se dele nada
             O presente texto não se propõe a                  soubesse, como se nunca tivéssemos passado
um discurso sobre o método fenomenológico                      pela experiência de amar, de nos
e, portanto, não tem como preocupação a                        envergonharmos, de ter sofrido alguma
elucidação dos seus conceitos nem das suas                     violência ou ter sido violento, por exemplo.
regras metodológicas. Volta-se para uma                        Como se fosse a primeira vez que entramos
pequena reflexão sobre a relação entre                         em contato com o fenômeno sobre o qual nos
psicologia e fenomenologia, no sentido de                      debruçamos.
clarificar, de modo sucinto, como esta pode                                 Deixar que o fenômeno se mostre
contribuir com a psicologia, enquanto                          tal qual é, sem nenhuma interferência de
alternativa de um modelo científico distinto                   valor, científica, religiosa ou do conhecimento
da perspectiva da ciência Moderna.                             cotidiano, de modo que possamos apreendê-lo
             A    fenomenologia,      segundo                  na sua essência, no seu modo próprio de ser,
Husserl, pode ser definida como a ciência dos                  que o distingue das outras coisas, tornando-o
fenômenos, entendendo estes, como o que se                     evidente para a nossa consciência; dá-se o
mostra à consciência por si mesmo. Trata-se,                   nome de redução fenomenológica ou epoché a
pois, de uma ciência que se centra na relação                  este movimento de suspensão dos juízos a
indissociável entre sujeito (uma consciência                   respeito das coisas.
                                                                            Com a redução fenomenológica
                                                               temos a emergência do fenômeno, que se
1
 Psicólogo; Professor da Faculdade Pio Décimo;                 apresenta de modo distinto das outras coisas,
Mestrando em Ensino de Ciências e Matemática                   constituindo-se numa relação direta entre
(NPGECIMA/UFS)                                                 fenômeno e consciência. Ou seja, à medida


Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009
                                                                                                          Página 139
_____Psicologia &m foco
                                                                                          Vol. 2 (1). Jan./jun 2009




que o nosso saber a respeito das coisas                        explicação racional. Do mesmo modo, a
visadas (noema) encontra-se entre parênteses,                  fenomenologia tem a evidência como uma
temos que a consciência obtém um acesso                        exigência de configuração, pois só assim pode
direto ao objeto visado. Temos, assim, a                       se sustentar como possibilidade de
apreensão do fenômeno tal qual nos aparece                     conhecimento válido das coisas.
originariamente à nossa consciência, ao qual                               O modelo clássico de ciência,
doamos um sentido.                                             herdado dos modernos, fundado na
             Por esta característica (exigência),              quantificação     e     na     experimentação
a fenomenologia distingue-se da ciência. Esta                  vislumbrando o domínio e o controle das
se apresenta como um conhecimento,                             coisas, possui seu espaço de validade. Não
portadora de um saber, um discurso a respeito                  podemos negar a contribuição deste modelo
do objeto visado, exterior ao sujeito que                      para     o   conhecimento       humano,     no
conhece. A metodologia científica clássica                     desenvolvimento da tecnologia e para o
funda-se na distinção clara e inequívoca entre                 avanço da própria ciência. Configurava-se
sujeito e objeto, que é explicado, e sobre o                   como uma visão própria do seu tempo, no
qual se procura formular teorias e leis,                       qual o homem buscava o rompimento de
levando-a à apropriação do mesmo.                              barreiras culturais e religiosas que o
             A formulação de hipóteses                         impediam de usufruir de toda a sua
apresenta-se como um exemplo típico do                         capacidade criativa e de investigação a
modo como a ciência, no paradigma vigente,                     respeito de si mesmo e do seu mundo.
busca conhecer as coisas. Antes do contato                     Romper com preconceitos, crenças e dogmas
com o fenômeno, já enunciamos algo sobre o                     exigiu do homem moderno um novo modo de
mesmo. Sobre ele já é dito alguma coisa                        ser, de ver a si mesmo como construtor da
pressupondo, assim, a existência de algum                      realidade, como sujeito.
conhecimento por parte do pesquisador a                                    A ciência desconsidera a relação
respeito do que pretende conhecer, um quê                      que se estabelece entre o homem e o mundo
mínimo. Na verdade, um conhecimento que                        ao seu redor, partindo do pressuposto da
pode dizer mais a respeito do pesquisador do                   possibilidade da objetividade, hoje já não tão
que daquilo que é pesquisado.                                  acreditada    como       outrora.    Para    a
             Tal divergência, no entanto, não                  fenomenologia conhecer é apropriar-se das
invalida a aproximação entre fenomenologia e                   essências das coisas, o que só é possível a
ciência. O projeto “husserliano” sustentava-se                 partir da atribuição de sentido por uma
na fenomenologia como fundamento das                           consciência, ou seja, o fenômeno é
ciências. Fenomenologia e ciência se                           indissociável da subjetividade.        Daí a
interceptam na medida em que partem do que                     possibilidade de se propor a uma psicologia
é evidente e buscam o rigor na apreensão dos                   fenomenológica.
fenômenos. O rigor na perspectiva da ciência
é a condição “sine qua non” no método                          A PSICOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA
científico, para a validação do conhecimento.
Por outro lado, a descrição rigorosa dos                                  As ciências humanas se deram
modos como os fenômenos se apresentam à                        conta de que o modelo clássico de ciência não
consciência, sem a emissão de quaisquer                        abarca o homem como sujeito, mas nem por
juízos sobre os mesmos, constitui a exigência                  isso deixaram de ocorrer tentativas de
maior da fenomenologia. A evidência, por                       aproximação. Augusto Comte talvez seja o
outro lado, “autoriza” a emergência do status                  maior exemplo da tentativa de formatar as
de objeto científico a um dado fenômeno. A                     ciências humanas aos moldes da ciência
falta de evidência implica a possibilidade da                  Moderna, que o diga, também a Psicologia,
sua inexistência, de questionamentos, de uma


Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009
                                                                                                     Página 140
_____Psicologia &m foco
                                                                                          Vol. 2 (1). Jan./jun 2009




no seu “nascimento” enquanto ciência com o                     complexidade inerente ao próprio objeto,
laboratório de Wundt.                                          como pelo fato de que se trata do humano
             A psicologia é uma ciência muito                  voltando-se para o humano.
jovem, pensando do ponto de vista do seu                                   Assim, o desafio da Psicologia,
reconhecimento acadêmico, na perspectiva da                    como também das ciências ditas humanas,
ciência positiva. Mas, trata-se de um                          constitui na busca de referenciais que
conhecimento milenar, que se encontra                          superem os limites das fronteiras da ciência
presente, por exemplo, em Aristóteles. No                      clássica, mas também não perca o seu estatuto
sentido epistemológico, no que diz respeito ao                 de cientificidade, de rigor, a partir da
seu objeto e método(s), tem-se uma                             evidência dos fatos. Nesta busca corre-se o
diversidade conceitual e teórica, constituindo                 sério risco de perder seus referenciais
um espectro e abrangendo modelos que                           científicos e produzir um conhecimento
assumem o paradigma científico experimental                    fundado na mera intuição sem o necessário
a modelos cujo rigor metodológico não                          rigor metodológico.
apresenta tanta rigidez.                                                   A pluralidade conceitual e
             Neste sentido, no que diz respeito                metodológica da Psicologia demonstra,
às teorias psicológicas e seus respectivos                     inequivocamente, o quanto é difícil o caminho
métodos, apresentam-se tão complexas quanto                    por ela percorrido, no sentido da busca por
à questão do seu objeto. Diferentes matizes                    uma “unidade epistemológica”; talvez não
permeiam o universo da psicologia, numa                        desejável nem possível, haja vista a variadas
gama variada de referências, coexistindo                       possibilidades de ser do ser humano.
perspectivas diametralmente opostas com
princípios inconciliáveis. Trata-se, pois, de                  O FAZER PSICOLÓGICO FUNDADO
uma questão epistemológica ainda aberta e                      NUM FAZER FENOMENOLÓGICO
muito      complexa,      considerando     que
contemporaneamente temos uma emergência                                    Diante da crise das ciências com a
de novas teorias, abordagens e áreas de                        qual se depara, Husserl se propõe a constituir
atuação.                                                       uma ciência que seja o fundamento da
             Com Wundt, a Psicologia busca o                   filosofia. Não que ele se oponha ao modelo
reconhecimento como um saber científico, a                     Moderno de ciência, mas por entender que
partir de estudos experimentais. No entanto, a                 esta tinha se contaminado por um objetivismo
complexidade da condição humana não é                          extremado, a ponto de impossibilitá-la de
possível de ser aprendida meramente entre os                   chegar ao fenômeno tal qual se apresenta, ao
instrumentos dos laboratórios: O ser humano                    desconsiderar que a relação entre sujeito e
transcende aos seus limites físicos e                          objeto é determinante na constituição do
observáveis, a existência humana implica uma                   objeto científico.
relação     de    alteridade,   temporalidade,
fantasias, sentimentos, buscas e tantas outras                              “O que Husserl acusa com suas questões
questões às quais nos foge a possibilidade de                               é que, com a prosperidade das ciências
                                                                            positiva, houve um desvio das questões
medir, observar diretamente e estabelecer leis.                             decisivas para a humanidade, em outras
             Se de um lado as ciências                                      palavras, um completo esquecimento da
humanas e sociais não se conformam ao                                       subjetividade” (GOTO, 2008, pg. 106)
paradigma positivista, por outro a Psicologia,
por ser uma ciência humana do humano,                                     Para Husserl, a psicologia trilha
apresenta-se, de modo peculiar, mais                           pelo mesmo caminho. No dizer de Goto
desconfortável, por se tratar de um                            (2008), “da mesma maneira que pergunta
conhecimento cujo objeto de estudo se mostra                   sobre uma possível crise nas ciências e na
bastante complexo. Tanto por ser uma                           cultura, Husserl indaga se a Psicologia (...)


Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009
                                                                                                      Página 141
_____Psicologia &m foco
                                                                                          Vol. 2 (1). Jan./jun 2009




também não sofre uma crise em sua                              CONCLUSÃO
cientificidade.” No sentido de fundar-se
cientificamente, a psicologia busca a                                      Na medida em que se volta para
compreensão dos fenômenos psicológicos a                       os fenômenos, a fenomenologia impõe uma
partir dos pressupostos da ciência positiva.                   crítica à ciência meramente empírica, por
            A relação entre Psicologia e                       entendê-la incapaz de apreensão das coisas
Fenomenologia é bastante próxima. Nasce                        nas suas constituições originárias, em virtude
com o próprio Husserl, ao fazer a crítica da                   do seu compromisso com a objetividade. Esta
Psicologia     enquanto     ciência positiva,                  se apresenta comprometida, ao olhar
vislumbrando           uma            psicologia               husserliano, uma vez que toda relação entre
fenomenológica. Entende a necessidade da                       sujeito e objeto se dá mediada pela
Psicologia se voltar para a subjetividade como                 consciência que lhe atribui um significado.
objeto próprio dela, diferenciando-se da                                   Considerando o contexto no qual
ciência clássica, que via na questão da                        a ciência psicológica encontra-se emersa, de
subjetividade um empecilho para o                              uma multiplicidade de abordagens e teorias
conhecimento.                                                  que procuram desvendar os fenômenos
                                                               psicológicos a partir dos mais distintos, e, não
              “Toda a análise que ele propõe através           raro,    contraditórios      referenciais,     a
              do processo da redução à essência, ou            fenomenologia se apresenta como uma
              redução transcendental, via entender
              como o ser humano é feito. O filosofo
                                                               herdeira legítima e direta da filosofia,
              Husserl     busca     assim     oferecer         comprometida com o saber científico a partir
              instrumentos de base para poder                  da evidência e do rigor, na fundamentação e
              construir uma psicologia positiva e, (...)       recurso metodológico para a Psicologia.
              institui a análise fenomenológica da
              subjetividade transcendental como base
              para a psicologia” (BELLO, 2004, pg.             REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
              129)
                                                               BELLO, Angela Ales. Fenomenologia e
            Em Husserl a fenomenologia,                        ciência humanas. Bauru, SP: EDUSC, 2004.
mais do que uma orientação metódica, vai se
constituir num fundamento para a Psicologia                    GOTO, Tommy Akira. Introdução à
ao colocar a subjetividade no âmago da                         psicologia fenomenológica. A nova psicologia
própria ciência. Ao assim fazer, temos uma                     de Edmund Husserl. São Paulo: Paulus, 2008.
ruptura com o paradigma clássico de ciência,                   HUSSERL, Edmund. Ideias para uma
que permite a Psicologia avançar na                            fenomenologia pura e para uma filosofia
constituição do seu objeto, bem como na                        fenomenológica. Aparecida, SP: Idéias &
proposição do modo de se fazer ciência, na                     Letras, 2006.
medida, e mesmo lidando de modo muito
intimo com a subjetividade se mantém no
rigor.
            Se a fenomenologia possibilita
uma fundamentação epistemológica e
metódica da Psicologia enquanto ciência ao
construir rigorosamente o conhecimento
psicológico, por outro lado, “também abre
possibilidades para ampliar o entendimento da
psicologia como profissão, seja no âmbito
clínico ou social” (GOTO, 2008, pg. 237).



Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009
                                                                                                     Página 142

Psicologia.fenomenologia

  • 1.
    _____Psicologia &m foco Vol. 2 (1). Jan./jun 2009 FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA: que se volta a) e o objeto visado pela UMA RELAÇÃO EPISTEMOLÓGICA consciência (o que se revela a esta). Distingue-se, assim, do modelo clássico de ciência, que pressupõe a separação radical Fernando Antônio Nascimento da Silva1 entre sujeito e objeto. Faculdade Pio Décimo/Sergipe A fenomenologia pura, cujo caminho aqui queremos encontrar, cuja posição única em relação a todas demais ciências RESUMO:O presente texto trata-se de uma queremos caracterizar e cuja condição de ciência fundamental da filosofia reflexão das relações entre Psicologia e queremos comprovar, é uma ciência Fenomenologia, no que diz respeito aos seus essencialmente nova, distante do pensar fundamentos. Apresenta a Fenomenologia, natural em virtude de sua peculiaridade de principio e que, por isso, só em nossos como ciência dos fenômenos, como uma dias passou a exigir desenvolvimento. alternativa ao modelo clássico de ciência, no Ela se denomina uma ciência do âmbito das ciências humanas e sociais, ‘fenômeno’” (HUSSERL, 2006, pg. 25). passando por uma rápida referência aos O QUE É A FENOMENOLOGIA? fundamentos epistemológicos da Psicologia. Por fim, discute as relações entre ambas, no O exercício da fenomenologia que diz respeito à apropriação do método implica numa experiência singular, pouco fenomenológico pela Psicologia. usual: a suspensão de todo e qualquer juízo a respeito do fenômeno para o qual a nossa consciência se volta. Deixar de lado todo INTRODUÇÃO conhecimento ou crença a respeito do fenômeno pesquisado, como se dele nada O presente texto não se propõe a soubesse, como se nunca tivéssemos passado um discurso sobre o método fenomenológico pela experiência de amar, de nos e, portanto, não tem como preocupação a envergonharmos, de ter sofrido alguma elucidação dos seus conceitos nem das suas violência ou ter sido violento, por exemplo. regras metodológicas. Volta-se para uma Como se fosse a primeira vez que entramos pequena reflexão sobre a relação entre em contato com o fenômeno sobre o qual nos psicologia e fenomenologia, no sentido de debruçamos. clarificar, de modo sucinto, como esta pode Deixar que o fenômeno se mostre contribuir com a psicologia, enquanto tal qual é, sem nenhuma interferência de alternativa de um modelo científico distinto valor, científica, religiosa ou do conhecimento da perspectiva da ciência Moderna. cotidiano, de modo que possamos apreendê-lo A fenomenologia, segundo na sua essência, no seu modo próprio de ser, Husserl, pode ser definida como a ciência dos que o distingue das outras coisas, tornando-o fenômenos, entendendo estes, como o que se evidente para a nossa consciência; dá-se o mostra à consciência por si mesmo. Trata-se, nome de redução fenomenológica ou epoché a pois, de uma ciência que se centra na relação este movimento de suspensão dos juízos a indissociável entre sujeito (uma consciência respeito das coisas. Com a redução fenomenológica temos a emergência do fenômeno, que se 1 Psicólogo; Professor da Faculdade Pio Décimo; apresenta de modo distinto das outras coisas, Mestrando em Ensino de Ciências e Matemática constituindo-se numa relação direta entre (NPGECIMA/UFS) fenômeno e consciência. Ou seja, à medida Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009 Página 139
  • 2.
    _____Psicologia &m foco Vol. 2 (1). Jan./jun 2009 que o nosso saber a respeito das coisas explicação racional. Do mesmo modo, a visadas (noema) encontra-se entre parênteses, fenomenologia tem a evidência como uma temos que a consciência obtém um acesso exigência de configuração, pois só assim pode direto ao objeto visado. Temos, assim, a se sustentar como possibilidade de apreensão do fenômeno tal qual nos aparece conhecimento válido das coisas. originariamente à nossa consciência, ao qual O modelo clássico de ciência, doamos um sentido. herdado dos modernos, fundado na Por esta característica (exigência), quantificação e na experimentação a fenomenologia distingue-se da ciência. Esta vislumbrando o domínio e o controle das se apresenta como um conhecimento, coisas, possui seu espaço de validade. Não portadora de um saber, um discurso a respeito podemos negar a contribuição deste modelo do objeto visado, exterior ao sujeito que para o conhecimento humano, no conhece. A metodologia científica clássica desenvolvimento da tecnologia e para o funda-se na distinção clara e inequívoca entre avanço da própria ciência. Configurava-se sujeito e objeto, que é explicado, e sobre o como uma visão própria do seu tempo, no qual se procura formular teorias e leis, qual o homem buscava o rompimento de levando-a à apropriação do mesmo. barreiras culturais e religiosas que o A formulação de hipóteses impediam de usufruir de toda a sua apresenta-se como um exemplo típico do capacidade criativa e de investigação a modo como a ciência, no paradigma vigente, respeito de si mesmo e do seu mundo. busca conhecer as coisas. Antes do contato Romper com preconceitos, crenças e dogmas com o fenômeno, já enunciamos algo sobre o exigiu do homem moderno um novo modo de mesmo. Sobre ele já é dito alguma coisa ser, de ver a si mesmo como construtor da pressupondo, assim, a existência de algum realidade, como sujeito. conhecimento por parte do pesquisador a A ciência desconsidera a relação respeito do que pretende conhecer, um quê que se estabelece entre o homem e o mundo mínimo. Na verdade, um conhecimento que ao seu redor, partindo do pressuposto da pode dizer mais a respeito do pesquisador do possibilidade da objetividade, hoje já não tão que daquilo que é pesquisado. acreditada como outrora. Para a Tal divergência, no entanto, não fenomenologia conhecer é apropriar-se das invalida a aproximação entre fenomenologia e essências das coisas, o que só é possível a ciência. O projeto “husserliano” sustentava-se partir da atribuição de sentido por uma na fenomenologia como fundamento das consciência, ou seja, o fenômeno é ciências. Fenomenologia e ciência se indissociável da subjetividade. Daí a interceptam na medida em que partem do que possibilidade de se propor a uma psicologia é evidente e buscam o rigor na apreensão dos fenomenológica. fenômenos. O rigor na perspectiva da ciência é a condição “sine qua non” no método A PSICOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA científico, para a validação do conhecimento. Por outro lado, a descrição rigorosa dos As ciências humanas se deram modos como os fenômenos se apresentam à conta de que o modelo clássico de ciência não consciência, sem a emissão de quaisquer abarca o homem como sujeito, mas nem por juízos sobre os mesmos, constitui a exigência isso deixaram de ocorrer tentativas de maior da fenomenologia. A evidência, por aproximação. Augusto Comte talvez seja o outro lado, “autoriza” a emergência do status maior exemplo da tentativa de formatar as de objeto científico a um dado fenômeno. A ciências humanas aos moldes da ciência falta de evidência implica a possibilidade da Moderna, que o diga, também a Psicologia, sua inexistência, de questionamentos, de uma Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009 Página 140
  • 3.
    _____Psicologia &m foco Vol. 2 (1). Jan./jun 2009 no seu “nascimento” enquanto ciência com o complexidade inerente ao próprio objeto, laboratório de Wundt. como pelo fato de que se trata do humano A psicologia é uma ciência muito voltando-se para o humano. jovem, pensando do ponto de vista do seu Assim, o desafio da Psicologia, reconhecimento acadêmico, na perspectiva da como também das ciências ditas humanas, ciência positiva. Mas, trata-se de um constitui na busca de referenciais que conhecimento milenar, que se encontra superem os limites das fronteiras da ciência presente, por exemplo, em Aristóteles. No clássica, mas também não perca o seu estatuto sentido epistemológico, no que diz respeito ao de cientificidade, de rigor, a partir da seu objeto e método(s), tem-se uma evidência dos fatos. Nesta busca corre-se o diversidade conceitual e teórica, constituindo sério risco de perder seus referenciais um espectro e abrangendo modelos que científicos e produzir um conhecimento assumem o paradigma científico experimental fundado na mera intuição sem o necessário a modelos cujo rigor metodológico não rigor metodológico. apresenta tanta rigidez. A pluralidade conceitual e Neste sentido, no que diz respeito metodológica da Psicologia demonstra, às teorias psicológicas e seus respectivos inequivocamente, o quanto é difícil o caminho métodos, apresentam-se tão complexas quanto por ela percorrido, no sentido da busca por à questão do seu objeto. Diferentes matizes uma “unidade epistemológica”; talvez não permeiam o universo da psicologia, numa desejável nem possível, haja vista a variadas gama variada de referências, coexistindo possibilidades de ser do ser humano. perspectivas diametralmente opostas com princípios inconciliáveis. Trata-se, pois, de O FAZER PSICOLÓGICO FUNDADO uma questão epistemológica ainda aberta e NUM FAZER FENOMENOLÓGICO muito complexa, considerando que contemporaneamente temos uma emergência Diante da crise das ciências com a de novas teorias, abordagens e áreas de qual se depara, Husserl se propõe a constituir atuação. uma ciência que seja o fundamento da Com Wundt, a Psicologia busca o filosofia. Não que ele se oponha ao modelo reconhecimento como um saber científico, a Moderno de ciência, mas por entender que partir de estudos experimentais. No entanto, a esta tinha se contaminado por um objetivismo complexidade da condição humana não é extremado, a ponto de impossibilitá-la de possível de ser aprendida meramente entre os chegar ao fenômeno tal qual se apresenta, ao instrumentos dos laboratórios: O ser humano desconsiderar que a relação entre sujeito e transcende aos seus limites físicos e objeto é determinante na constituição do observáveis, a existência humana implica uma objeto científico. relação de alteridade, temporalidade, fantasias, sentimentos, buscas e tantas outras “O que Husserl acusa com suas questões questões às quais nos foge a possibilidade de é que, com a prosperidade das ciências positiva, houve um desvio das questões medir, observar diretamente e estabelecer leis. decisivas para a humanidade, em outras Se de um lado as ciências palavras, um completo esquecimento da humanas e sociais não se conformam ao subjetividade” (GOTO, 2008, pg. 106) paradigma positivista, por outro a Psicologia, por ser uma ciência humana do humano, Para Husserl, a psicologia trilha apresenta-se, de modo peculiar, mais pelo mesmo caminho. No dizer de Goto desconfortável, por se tratar de um (2008), “da mesma maneira que pergunta conhecimento cujo objeto de estudo se mostra sobre uma possível crise nas ciências e na bastante complexo. Tanto por ser uma cultura, Husserl indaga se a Psicologia (...) Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009 Página 141
  • 4.
    _____Psicologia &m foco Vol. 2 (1). Jan./jun 2009 também não sofre uma crise em sua CONCLUSÃO cientificidade.” No sentido de fundar-se cientificamente, a psicologia busca a Na medida em que se volta para compreensão dos fenômenos psicológicos a os fenômenos, a fenomenologia impõe uma partir dos pressupostos da ciência positiva. crítica à ciência meramente empírica, por A relação entre Psicologia e entendê-la incapaz de apreensão das coisas Fenomenologia é bastante próxima. Nasce nas suas constituições originárias, em virtude com o próprio Husserl, ao fazer a crítica da do seu compromisso com a objetividade. Esta Psicologia enquanto ciência positiva, se apresenta comprometida, ao olhar vislumbrando uma psicologia husserliano, uma vez que toda relação entre fenomenológica. Entende a necessidade da sujeito e objeto se dá mediada pela Psicologia se voltar para a subjetividade como consciência que lhe atribui um significado. objeto próprio dela, diferenciando-se da Considerando o contexto no qual ciência clássica, que via na questão da a ciência psicológica encontra-se emersa, de subjetividade um empecilho para o uma multiplicidade de abordagens e teorias conhecimento. que procuram desvendar os fenômenos psicológicos a partir dos mais distintos, e, não “Toda a análise que ele propõe através raro, contraditórios referenciais, a do processo da redução à essência, ou fenomenologia se apresenta como uma redução transcendental, via entender como o ser humano é feito. O filosofo herdeira legítima e direta da filosofia, Husserl busca assim oferecer comprometida com o saber científico a partir instrumentos de base para poder da evidência e do rigor, na fundamentação e construir uma psicologia positiva e, (...) recurso metodológico para a Psicologia. institui a análise fenomenológica da subjetividade transcendental como base para a psicologia” (BELLO, 2004, pg. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 129) BELLO, Angela Ales. Fenomenologia e Em Husserl a fenomenologia, ciência humanas. Bauru, SP: EDUSC, 2004. mais do que uma orientação metódica, vai se constituir num fundamento para a Psicologia GOTO, Tommy Akira. Introdução à ao colocar a subjetividade no âmago da psicologia fenomenológica. A nova psicologia própria ciência. Ao assim fazer, temos uma de Edmund Husserl. São Paulo: Paulus, 2008. ruptura com o paradigma clássico de ciência, HUSSERL, Edmund. Ideias para uma que permite a Psicologia avançar na fenomenologia pura e para uma filosofia constituição do seu objeto, bem como na fenomenológica. Aparecida, SP: Idéias & proposição do modo de se fazer ciência, na Letras, 2006. medida, e mesmo lidando de modo muito intimo com a subjetividade se mantém no rigor. Se a fenomenologia possibilita uma fundamentação epistemológica e metódica da Psicologia enquanto ciência ao construir rigorosamente o conhecimento psicológico, por outro lado, “também abre possibilidades para ampliar o entendimento da psicologia como profissão, seja no âmbito clínico ou social” (GOTO, 2008, pg. 237). Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009 Página 142