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REVISTA DE (IN)FORMAÇÃO PARA AGENTES DE LEITURA | ANO 9 | FASCÍCULO 19 | PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR | DISTRIBUIÇÃO DIRIGIDA




PRINCESAS                                                                       AFRICANAS
LEITURASCOMPARTILHADAS
                                                                                     REVISTA DE (IN)FORMAÇÃO PARA AGENTES DE LEITURA | ANO 9 | FASCÍCULO 19 | PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR | DISTRIBUIÇÃO DIRIGIDA




                        Leituras Compartilhadas
                              Março/2009




                                                                                                                            Princesas
                        Diretor Responsável: Jason Prado
                            Editor: Ana Claudia Maia
      Conselho Editorial: Ana Lúcia Silva Souza e Sueli de Oliveira Rocha




                                                                                                                            Africanas
         Direção de Arte e Produção Gráfica: Suzana Lustosa da Fonseca
                             Ilustrações: Taisa Borges
                                Outras Ilustrações:
     Montagens feitas por Suzana Lustosa da Fonseca a partir de ilustrações
             de Taisa Borges (págs. 18, 19, 38, 39, 56, 57, 66, 71).
                            Banco de Imagens: Fotolia


                        Revisão: Sueli de Oliveira Rocha
                        Colaboração: Márcio Von Kriiger
                           Tiragem: 10.000 exemplares


            Leituras Compartilhadas é uma publicação do Leia Brasil
                distribuída gratuitamente às escolas conveniadas.


    Todos os direitos foram cedidos pelos autores para os fins aqui descritos.
Quaisquer reproduções (parciais ou integrais) deverão ser autorizadas previamente.
           Os artigos assinados refletem o pensamento de seus autores.
          Leia Brasil e Leituras Compartilhadas são marcas registradas.


                              Impresso na Ediouro.


                 Visite www.leiabrasil.org.br e veja como utilizar
                  esta publicação em atividades de sala de aula.
O
                               África dos meus sonhos


                 potencial de sustentabilidade         A nova edição do Leituras Compartilhadas
    de todo e qualquer empreendimento é um         mostra o desejo constante do Programa em
    dos fatores que confere excelência à inicia-   atender as demandas de nossos maiores




                                                                                                  LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19
    tiva. E, para isso, a gestão participativa –   parceiros: os mais de nove mil professores
    processo em que as partes envolvidas           e 300 mil alunos que constroem o sucesso
    expõem suas possibilidades e necessidades      desta ação nas 310 escolas onde o Petrobras
    – é fundamental na conquista dos bons          Programa de Leitura Bacia de Campos é
    resultados. Assim é o Petrobras Programa       desenvolvido. As Princesas Africanas condu-
    de Leitura Bacia de Campos, iniciativa         zirão um estudo menos superficial da África,
    social apoiada pelas unidades de Negócio       continente que esconde suas riquezas na
    da Bacia de Campos e do Rio de Janeiro         pluralidade de tradições que remontam à
    em 17 municípios da área de influência da      origem da humanidade.
    maior província petrolífera do país.               A sustentabilidade de nossas ações
        Por seu constante alinhamento às           depende dessa disposição em aprofundar
    demandas de seu público-alvo, alunos e         os conhecimentos, tanto no passado quanto
    professores da rede pública de ensino das      nos desafios impostos pelas novas eras que




                                                                                                  PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR
    cidades atendidas, o Petrobras Programa de     virão. Assim a Petrobras conduz seus inves-
    Leitura Bacia de Campos vem contribuindo       timentos empresariais e sociais. Para que
    para a melhoria dos índices que mensuram       chegássemos ao imenso tesouro escondido
    a educação. Exemplo disso, a pontuação         na camada pré-sal, tivemos que buscar as
    que as escolas e municípios atendidos con-     regiões mais distantes, profundas. E para
    quistaram na pesquisa que mediu o Índice       que exploremos aquela riqueza, necessário
    de Desenvolvimento da Educação Básica, o       será aprimorar o conhecimento adquirido
    IDEB, em 2007.                                 até aqui.
        Em Macaé, onde o programa é desenvol-          Como o que ora é proposto pelo Leituras
    vido desde 1994, todas as 37 escolas atendi-   Compartilhadas. Como a ostra que guarda o
    das pelo caminhão-biblioteca atingiram         tesouro dentro de si, a África será aqui
    pontuação acima da média nacional, tendo o     revelada pelo que esconde de mais precio-
    Colégio Municipal do Sana obtido média 6,5,    so: sua dignidade, sua nobreza, mergulho
    índice maior que a meta estipulada pelo        esse conduzido pelo mais rico dos univer-
    Governo Federal (6) para o ano de 2021.        sos, o literário.




4                                                                                                     5
Princesas africanas


       D
                                              Jason Prado


                uas palavras, tantos sentidos.        morte, leoas no exercício da função mater-
        Quando ouvi a sugestão de publicar um         na, mulheres com vontades e desejos...
    Caderno de Leituras Compartilhadas com               Para além disso, mulheres especiais, que




                                                                                                          LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19
    este tema, não me dei conta dos desvãos do        se distinguem das outras em sua superiori-
    caminho.                                          dade, seja em graça, beleza ou astúcia.
        Era uma tarde fria de junho e eu estava       Guerreiras, sensíveis, capazes de perceber um
    na Refinaria do Paraná, fazendo o terceiro        grão de ervilha sob pilhas de colchões de plumas.
    de uma série de encontros sobre a participa-      Ungidas pelos deuses no nascimento e
    ção africana na formação cultural brasileira.     donas do direito divino de povoar as cabe-
        Foi quando Analu me desafiou: por que         ças dos homens.
    vocês não fazem um Caderno sobre as princesas         Princesas, qual promessa de flor, também
    negras?                                           à espera dos varões que as farão reinar em
        Ana Lúcia1 é uma dessas pessoas de            seus próprios castelos.
    vontade forte, com formação e conteúdo                Mas também africanas. Em sua maioria,
    invejáveis, cheia de fé no que diz. É, ela        negras, exuberantes e fortes como a guer-
    mesma, a própria imagem da guerreira              reira que projetou a atriz jamaicana de




                                                                                                          PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR
    africana.                                         Conan, ou como tantas outras que conhe-
        Como se não bastasse, Rogério Andrade         cemos no dia-a-dia. Vindas – para a maioria
    Barbosa tinha passado a manhã daquele dia         de nós brasileiros, seus descendentes – de
    falando de suas viagens pelas nações africa-      um universo desconhecido, povoado com
    nas, das culturas exóticas, de ritos tribais...   imagens de animais ferozes, de lanças cru-
        Nos subsolos da minha mente já se agi-        zando os céus e tan-tans em frenesi, de cor-
    tava a figura emblemática e saltitante de         pos esguios e fome. Muita fome – somali,
    Grace Jones num filme trash dos anos 802,         etíope, biafrense... Africanas, brancas e
    como a incentivar a empreitada. Não pude          negras. Submetidas e espoliadas por sécu-
    evitar as armadilhas de minha própria ima-        los, como seu continente, até se perderem
    ginação: topei o desafio.                         de si mesmas.
        Aos poucos, como os animais que “mas-             Para esta edição de Leituras Compartilhadas
    tigam” muito depois de engolir, fui me            – em que o “eu” torna-se “nós”, no compar-
    dando conta dos conteúdos ali envolvidos.         tilhamento das minhas ponderações com a
    Logo de cara, uma bifurcação: princesas;          equipe da ONG Leia Brasil –, evoluímos
    portanto, mulheres.                               para Princesas Africanas, curvando-nos não
        Não apenas mulheres, em suas dimensões        só à grandiosidade do continente mas tam-
    humanas: heroínas na luta pelo pão-nosso e        bém à Cleópatra, à Rainha de Sabá e a

6                                                                                                                 7
    pela sobrevivência diária, frágeis diante da      todas as mulheres que remontam à mais
ilustre e desconhecida de todas as prince-       cesas são a matéria-prima de nossa organi-      frustra nossas expectativas e subverte a civi-   preconceituoso e o preconceito é rasteiro,
    sas: Lucy3, a africana que todos temos no        zação social.                                   lidade, nos pilhamos dizendo: “isso é coisa      imprevisível, dissimulado e elitista. E quan-
    sangue.                                              Em meados do século XVI, surgiu na          de preto”?                                       do falo em elite, caio mais uma vez na pan-
        Durante os meses necessários para que        Inglaterra uma expressão que se atribui a          Isso posto, toquemos num ponto nevrál-        tanosa questão das classes sociais, dos
    os artigos e textos fossem encomendados e        um jurista inglês5, e que se tornou a base      gico: a questão africana.                        dominantes e dominados, dos príncipes e
    escritos, para que essas belíssimas ilustra-     da Bill of Rights, expressivo nome de um           Partindo de Lucy, somos todos afro-des-       mendigos...
    ções fossem produzidas e a edição come-          capítulo da Constituição norte-americana:       cendentes. Uns mais, outros menos. E o               Voltando ao preconceito, o problema é
    çasse a ganhar forma, muitas foram as            a man’s home is his castle – a casa de um       que é mais importante ainda, estamos jun-        que ele dói, mas nem é crime. Embora a
    dúvidas que, pouco a pouco, se materializa-      homem é o seu castelo6.                         tos na humanidade.                               manifestação do preconceito seja crime
    ram como bolhas que levantam da fervura.             Tudo bem que essa frase tenha servido          Por que é tão difícil que a descendência      (tipificado pela Lei nº 7.716, de 05/01/89),
    A mais inquietante delas, talvez, seja relati-   para assegurar a inviolabilidade do lar, mas    negra ganhe cidadania no Brasil, a ponto de      seu sentimento não pode ser criminalizado.
    va à questão Princesa. Dúvidas não pro-          não caberia perguntar: quem mora em cas-        ser necessária a criação de um movimento         Ninguém pode ser punido por associar um
    priamente quanto às funções tribais da filha     telos? E por que pessoas de todas as classes    pela consciência negra e a promulgação de        negro, numa rua deserta, à noite, a uma
    do chefe, mas quanto a esse conceito que         sociais – inclusive nas sociedades de castas    uma lei que obrigue as escolas a ensinar a       situação de iminente perigo. Mas deve
    permeia nossa vida e nos faz chamar nossas       – se referem assim às suas herdeiras?           História e a Cultura Africana7?                  doer (e revoltar) a qualquer jovem negro
    filhas de princesas, que permite às mulheres         Será demais remeter o conteúdo ideoló-         Mais uma vez, volto a particularizar          assistir a um estranho desviando de seu
    se atribuírem esse título, sempre tão impreg-    gico das princesas (e toda a sua entourage)     minha fala e recorro aos significados.           caminho.
    nado de bondade.                                 às questões da família, da propriedade e do     Embora não tenha autoridade para falar a             Do outro lado desse comportamento
        No romance Peixe dourado4, um belíssi-       estado? Será puro maniqueísmo?                  esse respeito, vou me permitir ser opiniáti-     está, por exemplo, a clara leitura que
    mo livro sobre princesas africanas, Jean-            Por outro lado, por que valorizamos         co: não creio que o movimento tenha se           podemos fazer da miséria a que as elites
    Marie Clézio (Prêmio Nobel de Literatura         tanto esse negócio de realeza, nobreza e        constituído apenas em decorrência da dor         condenaram os negros no Brasil. Miseráveis
    de 2008) usa o termo princesa centenas de        outras iniqüidades coroadas?                    ainda viva de nossos avós amarrados no           famintos – como os escravos “libertos”
    vezes, a maior parte delas para se referir às        Há 16 anos – em 1993, na reta final do      pelourinho, muito menos pela imoralidade         pela Lei Áurea, sem teto e sem perspectivas
    moças de um prostíbulo marroquino, bus-          século XX – nosso Congresso promoveu, a         do tráfico, que aniquilou milhões e, pela        – são marginais potenciais. Mas essa lógica
    cando assim suavizar o caráter do ganha-         um custo financeiro exorbitante, um plebis-     escravidão, transformou outro tanto em           nunca ocupou espaços na sociedade, que é
    pão dessas mulheres.                             cito (referendo popular) sobre a forma de       mortos-vivos.                                    preconceituosa (de certa forma, o senti-
        Que mágica tem essa palavra? De onde         governo no Brasil. Nada menos que 6,8              Embora sejam recentes, esses fatos            mento do preconceito exime e protege de
    vem sua força?                                   milhões de brasileiros votaram a favor da       remontam ao já longínquo século XIX. É           culpa as pessoas). O preconceito só se des-
        Deixando de lado as razões teosóficas        monarquia, pensando seriamente em entre-        preciso falar deles porque somos um país         monta com educação, com a lógica. E essa
    (ou o pseudo “direito divino” de alguém ser      gar a coroa (e nós, as caras) aos portugueses                                                    decorre de um pensamento arejado, da
    melhor que os outros e, a partir dessa lógi-     que exportaram nossas riquezas e importa-                                                                 compreensão de cada componente
    ca, praticar todas as vilanias possíveis con-    ram da África, como mercadoria, seres                                                                          do todo.
    tra a humanidade), em que pensamos quan-         humanos.                                                                                                                Com essas considera-
    do empregamos essa palavra?                          Por que, mesmo sabendo disso (da                                                                                     ções, retomo o propó-
        Em primeira e última instância, prince-      vergonha e sofrimento que nos cau-                                                                                           sito desta edição
    sas são as herdeiras do rei. São elas que        sam os que se julgam acima do bem                                                                                               de Leituras
    viabilizam a constituição de novos reinados      e do mal; da podridão que alicerça a                                                                                           Compartilhadas:
    (famílias), garantindo a transição entre um      aristocracia), quando alguém tem uma                                                                                       criada para ajudar
    antigo e um novo regime. Se é verdade que        atitude digna, elogiável, quase beata, dize-                                                     os professores a reconhecer e positivar as
    as histórias tecem o terreno por onde cons-      mos que foi um “gesto nobre”? E por que,                                                         diferenças, combater o racismo e o precon-
    truímos nossas noções de mundo, as prin-         no extremo oposto, quando algo inesperado                                                        ceito étnico-racial, ela não pode se propor
8                                                                                                                                                                                                     9
a oferecer respostas, mas a ajudar a instalar
                                                perguntas que desconstruam comportamen-
                                                tos e pré-julgamentos.
                                                    Sendo assim, com o excepcional conteúdo
                                                que se segue e que é oferecido às futuras
                                                gerações de brasileiros, deixo no ar uma




                                                                                                              Princesas
                                                homenagem a todas as princesas negras
                                                (e africanas) que nunca estiveram em nosso
                                                imaginário e às outras tantas que não pude-
                                                ram comparecer a esta edição.
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                                                                                                              Africanas
                                                    Notas:
                                                    1 Ana Lúcia Silva Souza (Analu) é socióloga, dou-
                                                toranda em Lingüística Aplicada (Unicamp - Instituto
                                                de Estudos da Linguagem), mestre em Ciências Sociais
                                                pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Parti-
                                                cipa desta edição de Leituras Compartilhadas como
                                                articulista e conselheira editorial.
                                                    2   Conan, o destruidor, de 1984.
                                                    3 Lucy Dinqines (que significa você é maravilhosa) –
                                                nome do esqueleto da fêmea hominídea de 3,2 milhões
                                                de anos encontrado na Etiópia; é a mais antiga ances-
                                                tral da humanidade.
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                                                    4 Peixe dourado, de Jean-Marie Clézio, Companhia

                                                das Letras, 2001.
                                                    5   Sir Edward Coke, Inglaterra, 1552-1634.
                                                    6 É curioso que esse respeito à privacidade e esse

                                                reconhecimento à inviolabilidade do lar tenham se
                                                consolidado duzentos anos depois, ao tempo da inde-
                                                pendência americana, que coincide com a Revolução
                                                Industrial e o fim do Feudalismo, no qual as pessoas
                                                serviam à nobreza e sequer possuíam a roupa do corpo,
                                                quanto mais uma casa.
                                                    7 Lei 10.639 / 2003 – altera a Lei de Diretrizes e
                                                Bases da Educação Nacional (LDB) e estabelece a
                                                obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-
                                                brasileira e Africana no Brasil.




                                                    Jason Prado é jornalista, criador e Diretor                   Uma contribuição para o estudo da
                                                Executivo da Leia Brasil – ONG de promoção                   cultura afro-brasileira nas escolas públicas.
                                                da leitura.                                                        (De acordo com a Lei 10.639/2003)

10                                                                                                                                                           11
Índice



                                                                                                              •   África dos meus sonhos - Petrobras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .5
                                                                                                                  Princesas africanas - Jason Prado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7
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                                                                                                              •

                                                                                                              •   O sonho de ser princesa - Andréa Bastos Tigre - Rossely Peres . . . . . . . . . . . . . . . .15
                                                                                                              •   As princesas nos contos de fadas - Sonia Rodrigues . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17
                                                                                                              •   São outras as nossas princesas - Sueli de Oliveira Rocha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .21
                                                                                                              •   Que fada é essa? - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque . . . . . . . . . . . . . . . . . . .25
                                                                                                              •   A donzela, o sapo e o filho do chefe - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque . . . . . .27
                                                                                                              •   Rainhas negras na África e no Brasil - Luiz Geraldo Silva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31
                                                                                                              •   As princesas africanas - Braulio Tavares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .33
                                                                                                              •   O casamento da princesa - Celso Sisto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37
                                                                                                              •   Minha princesa africana - Márcio Vassalo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41
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                                                                                                              •   Uma princesa em São Tomé e Príncipe - Ana Lúcia Silva Souza . . . . . . . . . . . . . . .43
                                                                                                              •   Princesa de África, o filme - Uma entrevista com Juan Laguna . . . . . . . . . . . . . . . .47
                                                                                                              •   Iya Ibeji, a mãe dos gêmeos - A leitura dos símbolos nagô - Marco Aurélio Luz . . . . . .51
                                                                                                              •   A lenda da princesa negra que incendiou o mar - Geraldo Maia . . . . . . . . . . . . . . .55
                                                    Taisa Borges tem formação em artes plásticas e estilis-   •   Nas malhas das imagens e nas trilhas da resistência: . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
                                                                                                                  heroínas negras de ontem e de hoje - Andréia Lisboa de Sousa . . . . . . . . . . . . . . .59
                                                mo. Ilustrou para a Folha de S. Paulo, Vogue, entre outros.


                                                                                                                  Uma guerreira - Julio Emilio Braz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .63
                                                É autora do livro de imagem O rouxinol e o imperador, ins-
                                                pirado no conto de Andersen do mesmo nome, lançado
                                                                                                              •

                                                                                                                  Princesa, não. Mas... - Marina Colasanti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .65
                                                em 2005, obra selecionada para o PNBE 2005 e para o
                                                PNLD SP/2006, merecedor do prêmio de o Melhor livro de        •

                                                                                                                  Os três cocos - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .69
                                                imagens de 2005 pela Fundação Nacional do Livro Infantil
                                                                                                              •

                                                                                                                  Uma princesa afrodescendente - Sueli de Oliveira Rocha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .73
                                                e Juvenil (FNLIJ). Em 2006, publicou na mesma coleção
                                                João e Maria, inspirado em um conto dos irmãos Grimm,
                                                                                                              •

                                                                                                                  Princesa descombinada - Janaína Michalski . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .77
                                                também selecionado para o PNBE 2006 e para o PNLD
                                                SP/2007. O livro A bela adormecida, de Charles Perrault,      •

                                                                                                                  Princesas africanas e algumas histórias - Tiely Queen (Atiely Santos) . . . . . . . . . . . .79
                                                lançado em 2007, fechou seu projeto de homenagens aos
                                                contos de fadas.                                              •

                                                                                                              •   Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .83

12                                                                                                                                                                                                                                                       13
O sonho de ser princesa...
                                                                                                                      Andréa Bastos Tigre - Rossely Peres




                                                                                                Q
                                                     Princesa Desalento
                                                                                                       Pise macio porque você está pisando nos    impotência frente aos mais fortes, da solidão
                                                                                                                                 meus sonhos.1    e do isolamento, dos segredos e sobressaltos
                                                                                                                                    W. B. Yeats   de se ter um corpo. São legados que nos




                                                                                                                                                                                                    LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19
                                                 Minh'alma é a Princesa Desalento,
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                                                                                                                                                  vêm de longe, de uma tradição oral que, no

                                                Como um Poeta lhe chamou, um dia.
                                                                                                          ue menina não sonhou, um dia,           correr do tempo, vieram a ser escritas, num

                                                   É revoltada, trágica, sombria,
                                                                                                em ser ou vir a ser uma princesa? O apelo         encontro de papel, pluma e desejo de um

                                                 Como galopes infernais de vento!
                                                                                                da beleza, da riqueza, do fausto das festas e     autor. Um longo caminho de “Era uma
                                                                                                palácios e do “viveram felizes para sempre”       vez...”, “Num certo país...”, “Há muitos e

                                                É frágil como o sonho dum momento,
                                                                                                traz a magia da palavra, com seus sons e          muitos anos atrás...”, para tentar responder

                                                   Soturna como preces de agonia,
                                                                                                encantamentos, alimento da imaginação             aos enigmas: que mundo é esse? Como

                                                     Vive do riso duma boca fria!               infantil.                                         viver nele? Quem sou eu?

                                                  Minh'alma é a Princesa Desalento...               A linguagem fantástica - a da poesia, do          As histórias e os contos tomam a angús-
                                                                                                conto, das fábulas, com seus ritmos e ima-        tia do existir a sério, dirigem-se a ela, à
                                                  Altas horas da noite ela vagueia...           gens - permite à criança “viver outras vidas”     escura incerteza do que vai acontecer.
                                                  E ao luar suavíssimo, que anseia,             e, assim, construir um arcabouço imaginá-         Endereçam-se ao futuro guiando a criança
                                                 Põe-se a falar de tanta coisa morta!           rio necessário e fundamental para “viver a        através de caminhos que ela pode aceitar e
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                                                                                                                                                                                                    PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR
                                                                                                própria vida”. Que lugar tem, na economia         compreender – princesas, cavaleiros e damas,
                                                 O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,            psíquica de uma criança, histórias de prín-       animais falantes, duendes e anões conduzem-
                                                  E vai traçar, fantástico e gelado,
                                                 A sombra duma cruz à tua porta...
                                                                                                cipes e princesas?                                na, pela mão, a seu mundo dos sonhos.
                                                                                                    As palavras apresentam o mundo, a coisa           A fantasia e poesia da linguagem nos
                                                                                                não existe sem elas, elas lhe dão existência.     transportam para um país onde tudo pode
                                                Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"                                                     acontecer. A magia da palavra lida ou ouvi-
                                                                                                        ... Digo “sol”, e a palavra brilha;       da faz existir o sonho e, ao afastar-se do
                                                                                                        Digo “pomba”, e a palavra voa;            real, permite a margem do mais além, do
                                                                                                        Digo “maçã”, e a palavra floresce.2       outro, do impossível, do espelho com suas
                                                                                                                                                  entradas e saídas secretas. Um texto que é
                                                                                                   E podemos acrescentar:                         recebido no nível intelectual, mas que toca
                                                                                                   Digo “princesa”, e a vida brilha, a imagi-     também a sensibilidade, ganhando na escuta
                                                                                                nação voa, a felicidade floresce.                 da palavra significação afetiva e imaginativa.
                                                                                                   São as histórias e os contos que, ao dar           O próprio da linguagem poética e fan-
                                                                                                nome, ao pôr em palavras, permitem dar            tástica é ser múltipla em sua essência. O
                                                                                                contorno e limite a sentimentos obscuros e        convite a uma viagem ao país das palavras
                                                                                                angustiantes que assombram crianças –             abre a porta para a criança usufruir do uso
                                                                                                medo da vida e da morte, do futuro incerto        da linguagem e, com ela, brincar, sonhar,

14                                                                                                                                                                                                  15
                                                                                                do quem sou e quem serei, da raiva e da           rir, acariciar, girar, ir e retornar. Lá não há
As princesas nos contos de fadas


                                                                                                                    N
     uso ridículo ou absurdo da linguagem, o          de sugerir o desconhecido, o imprevisível,


                                                                                                                                                    Sonia Rodrigues
     desbloqueio do imaginário recria a fascina-      implicando o ouvinte-leitor no trabalho de
     ção da palavra e permite: “eu sou princesa”.     preencher lacunas, absorver o intuído, asso-
        A vida não pára de se escrever; e a histó-    ciar som, imagem, textura, ritmo e cor. Se é
     ria, em sua letra, se conserva através do        uma trama proposta por um autor-narrador,
     tempo. É a permanência do texto que sus-         cabe a cada ouvinte-leitor torná-la sua.
     tenta a imortalidade das obras, e, entre elas,      Longa vida aos contos de príncipes e
                                                                                                                             os contos maravilhosos que          comuns a toda humanidade e fornecem a
     a de princesas que, nórdicas, africanas, asiá-   princesas!
                                                                                                                 aparecem na cultura ocidental, as princesas     base das religiões, dos mitos e dos contos
     ticas ou indígenas permitem à criança olhar
                                                                                                                 costumam ocupar dois papéis: o do prêmio,       maravilhosos.




                                                                                                                                                                                                                LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19
     o cotidiano da vida de um jeito diferente            Notas:
                                                                                                                 ou, mais raramente, o de herói. São contos          Monteiro Lobato, fundador da literatura
     àquilo que se apresenta como igual, pois a           1W. B. Yeats: He wishes for the cloths of heaven in    de fantasia, freqüentemente chamados con-       para crianças no Brasil, teve em relação
     própria repetição num vir a ser inaugural        The Collected Poems. Nova York, Macmillan, 1956.
                                                                                                                 tos de fadas, em geral passados na Idade        aos contos de fadas, basicamente, três
     ganha novos sentidos. Não serão as lem-              2 Alain Bosquet: Quatre testaments et autres poèmes.
                                                                                                                 Média européia.                                 atitudes estéticas em seus livros: a crítica
     branças das histórias que nos permitem           Paris, Gallimard.
                                                                                                                     Autores importantes na nossa cultura        aos contos embolorados da Carochinha
     uma leitura singular de nosso mundo?
                                                                                                                 leram esses contos com visões diferentes        ou ao que Emília classificava como boba-
         As palavras de todos os dias quando reu-         Andréa Bastos Tigre e Rossely Peres são                que podem contribuir para que nossa leitu-      gens do folclore; a admiração à produção
     nidas numa bela história adquirem o poder        psicanalistas da Escola Letra Freudiana - RJ.              ra se enriqueça na concordância ou amplia-      literária a partir deles feita pelos irmãos
                                                                                                                 ção de suas opiniões.                           Grimm, Perrault, Andersen; e a incorpora-
                                                                                                                     Freud entendia o conto de fadas como        ção das princesas ao seu próprio universo
                                                                                                                 uma forma atenuada dos mitos e esses            ficcional.
                                                                                                                 como deformações das fantasias de desejo            Vladimir Propp definiu como conto
                                                                                                                 das nações, da espécie humana como um           maravilhoso ou de magia toda narrativa




                                                                                                                                                                                                                PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR
                                                                                                                 todo. O conto estaria ligado à socialização,    que, partindo de uma carência ou dano e
                                                                                                                 à aquisição pela criança das normas morais,     passando por um desenvolvimento interme-
                                                                                                                 representadas pelo superego.                    diário, termina com casamento, recompen-
                                                                                                                     Para os freudianos, Bettelheim inclusive,   sa, obtenção do objeto procurado, repara-
                                                                                                                 as pulsões criam os contos populares por        ção ou salvamento de uma perseguição
                                                                                                                 transformações análogas às do trabalho do       (Propp: 85).
                                                                                                                 sonho.                                              Propp está mais voltado para entender
                                                                                                                     Para Jung e os junguianos, os contos de     como se estruturam os contos de fadas do
                                                                                                                 fadas representam, além do material             que para interpretá-los. Em Morfologia do
                                                                                                                 inconsciente recalcado que mantém rela-         conto maravilhoso, descreve como, no decor-
                                                                                                                 ções com os sonhos e as fantasias, fenôme-      rer da narrativa, o herói torna-se o possui-
                                                                                                                 nos arquetípicos e sugerem simbolicamente       dor de um objeto ou auxiliar mágico “que o
                                                                                                                 a necessidade de uma renovação interior         utiliza ou que se serve dele.” A magia em si
                                                                                                                 pela integração do inconsciente pessoal e       pode estar no auxiliar ou no objeto mágico
                                                                                                                 do inconsciente coletivo à personalidade do     que é doado ao herói; nas características do
                                                                                                                 indivíduo.                                      próprio; no antagonista-agressor que pode
                                                                                                                     De acordo com esse ponto de vista, os       ser um dragão, um bruxo, um ogre ou
                                                                                                                 arquétipos são dinamismos inconscientes         outras criaturas fantásticas na função de

16                                                                                                                                                                                                              17
                                                                                                                 ligados a imagens primordiais ou símbolos       “antagonista”.
Aplicando os conceitos de Propp, consi-    histórias que defendem a moral e os bons              Propp enumera os papéis distribuídos                  e. Percurso do herói até sua desti-
     dero que um personagem é sempre um per-        costumes, histórias nas quais o mal é puni-       entre as personagens concretas dos con-                nação, vitória do herói. Aqui pode
     sonagem, mas os papéis variam segundo a        do e o bem triunfa, histórias, enfim, que         tos maravilhosos como: o herói, o antago-              ocorrer um desdobramento que pro-
     interação do personagem com a trama. Uma       enganariam seus pequenos leitores levan-          nista (ou agressor), o doador, o auxiliar, a           longue a narrativa: perseguição ao
     princesa pode ser afilhada de fadas, como      do-os a acreditar em um mundo irreal.             princesa ou seu pai, o mandante e o falso              herói, aparecimento do falso herói,
     em A Bela Adormecida ou Pele de Asno. O           Contos de fadas são contos épicos, con-        herói.                                                 retorno do herói;
     papel a ser desempenhado dependerá de          tos que tratam da jornada do herói, na qual           Os contos poderiam ser chamados tam-                  f. A seqüência f, é lógico, depende
     como o enredo se articula.                     este repara a perda ou dano ocorrido no           bém de “contos dos sete personagens”, ape-             do prolongamento da narrativa. O
         No conto A Bela Adormecida, a princesa     início da narrativa. Esta reparação é que         sar de nem todos aparecerem em todos os                herói chega incógnito, encontra as
     se limita a furar o dedo – inadvertidamente,   distingue o conto de fadas da tragédia, na        contos, claro. Porque existem contos mais               pretensões infundadas do falso herói,
     estimulada por uma fada rancorosa – numa       qual o herói é levado, por suas próprias          simples, como o da Menina da Capinha                    é submetido a uma tarefa difícil para
     roca. Em seguida, ela dorme – graças à         características, a cometer uma falha irreme-      Vermelha, e mais extensos, como o Veado                 ser distinguido do falso herói, realiza a
     intervenção de uma fada boa – junto com        diável que o faz ultrapassar a medida e ser       encantado.                                              tarefa, é reconhecido e desmascara o
     todo o reino, até que um príncipe a salve.     arrastado para uma situação sem saída.                A trama dos contos de fadas, de uma                 outro, que é castigado. O herói casa ou
         Em Pele de Asno, a princesa é desejada         No conto de fadas, o final é feliz porque     maneira geral, é enxuta, utilizando o míni-             é entronizado.
     pelo pai enlouquecido, resiste ao incestuoso   aquela ou aquele que está envolvido na            mo de idas e vindas, ao contrário de narra-           É interessante notar que o estudo de
     pedido de casamento e, com o auxílio da        reparação da perda (a princesa, em muitos         tivas como a Odisséia.                            Propp se refere ao herói como aquele que
     fada madrinha, foge para uma trajetória de     exemplos) se submete, temporariamente, às             Os enredos dos contos, ainda segundo          repara o dano. Nos exemplos citados por
     agruras até conquistar o coração de um         intempéries. Em Os três cães, ela, por medo       Propp, não fogem muito da seguinte dispo-         ele, o herói é um rapaz de origem simples
     príncipe.                                      de morrer, aceita dizer ao rei, seu pai, que      sição dos acontecimentos:                         ou príncipe, e a princesa é, quase sempre,
         No primeiro, o protagonista é o príncipe   foi o cocheiro desonesto que a salvou do                    a. Situação inicial, que define espa-   prêmio. Quando a figura feminina ocupa
     e, no segundo, a princesa é herói, e o prín-   dragão. Aceita ser prometida em casamento               ço, tempo, personagens principais           um papel mais ativo, ela costuma não ser da
     cipe, prêmio.                                  ao impostor. O que ela faz é estabelecer                (fora o antagonista), seus atributos e      realeza ou é da realeza, mas está disfarçada.
         No conto maravilhoso, nem sempre apa-      uma resistência passiva, pela tristeza, para            antecedentes;                               É filha de mercador, em A Bela e a Fera,
     rece o elemento mágico, mesmo quando           adiar o casamento durante três anos.                        b. Parte preparatória, onde aparece     órfã pobre em O Veado Encantado, de ori-
     estão articulados princesa, prêmio e recom-    Tempo suficiente para o verdadeiro salva-               algum tipo de proibição e a transgres-      gem desconhecida e beleza estonteante em
     pensas variadas. É o caso de A princesa e o    dor voltar, com seus cães mágicos, para des-            são da proibição, o dano ou carência e      A Moura Torta ou uma princesa em trajes
     grão de ervilha, no qual não existe magia e,   mascarar o falso pretendente. E casar com a             o antagonista com seus embustes. Em         pobres, como em A princesa e o grão de ervilha.
     sim, reconhecimento da princesa como           princesa, claro.                                        Rapunzel fica muito claro este par de           Apesar das críticas da boneca Emília,
     herói de si mesma, porque ela, apesar dos         Pelo parentesco com a epopéia e não                  elementos: proibição e transgressão.        nos contos folclóricos narrados por Tia
     farrapos, é uma princesa real cuja pele se     por moralismo ou irrealidade, o conto                   Em A Moura Torta, o dano ou carência        Nastácia, aparecem várias princesas em
     ressente de um grão de ervilha sob 12 col-     maravilhoso termina na reparação da perda,              está no feitiço colocado pela usurpa-       papel de herói ou auxiliar de herói. É o
     chões.                                         culmina no triunfo do herói. Odisséia, de               dora.                                       caso do Bicho Manjaléu. Aparecem também
         A articulação entre os papéis de herói e   Homero, é a matriz ocidental (ou o mais                     c. O nó da intriga: uma personagem      princesas no papel de adversário, como no
     prêmio está presente nos contos de fadas       abrangente exemplo da cultura ocidental)                se revela como herói ao reagir à ação       conto A Princesa Ladrona.
     em que a princesa faz parte do conjunto de     desse triunfo. Na Odisséia, a princesa (rainha)         do antagonista que provocou o dano.            A princesa como adversário do herói
     personagens que assumem o papel de             está no papel de prêmio. Penélope faz a                      d. Aparece(m) o(s) auxiliar(es) do     também aparece em A Pequena Sereia, de
     representar o Bem. Vale a pena pensar um       mesma coisa que a princesa sem nome do                  herói, com todas as particularidades        Andersen, conto no qual a princesa é a
     pouco sobre o significado de “Bem”, por-       conto Os três cães. Protela a escolha de um             dele(s) e do(s) objeto(s) mágico(s),        usurpadora, inventa que salvou o príncipe
     que, às vezes, acontece dos contos de fadas    pretendente usurpador até o retorno de                  incluindo aí as provas necessárias ao       para casar com ele e derrota, assim, a
     serem lidos como histórias de final feliz,     Ulisses.                                                herói;                                      pequena sereia.
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São outras as nossas princesas


                                                                                                                                                                S
                                                   Não conheço, no entanto, nenhuma lei-              CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos. Rio de
                                                                                                   Janeiro: José Olympio, 1988.


                                                                                                                                                                                           Sueli de Oliveira Rocha
                                                tura criativa mais audaciosa do papel da
                                                princesa nos contos de fadas do que a                 COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São
                                                                                                   Paulo: Ática. Série Princípios. 1987.
                                                empreendida pelo autor inglês Neil Gaiman,
                                                                                                       FRANZ, Marie Louise von. A interpretação dos
                                                no seu conto Neve. Neste, Branca de Neve
                                                                                                   contos de fadas. Rio de Janeiro: Achiamé, 1981.
                                                deixa de ser herói de si mesma, de ser prê-
                                                                                                       FREUD, Sigmund. Delírios e sonho na Gradiva de
                                                mio do príncipe que, ao final, a resgata.
                                                                                                   Jensen. Rio de Janeiro: Imago (Coleção Standard, v.                 ão lindas, geralmente de pele         do Atlântico, muitas famílias reais africanas
                                                Não, a princesa é antagonista cruel da mãe,        IV), 1968.                                                muito clara e de cabelos loiros. Algumas        foram escravizadas e enviadas para outros
                                                do pai e da madrasta.
                                                                                                      GAIMAN, Neil. Fumaça e espelhos. São Paulo:            ainda crianças, outras mal entradas na ado-     lugares do mundo, em especial para as




                                                                                                                                                                                                                                                             LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19
                                                   Seria possível passar horas e horas ao
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                                                                                                   Conrad. 2000.                                             lescência. Têm uma vida tranqüila e feliz,      Américas. No mapa da diáspora africana1,
                                                redor da fogueira, dias e dias numa biblio-            JUNG, Carl G. et alli. O homem e seus símbolos. Rio   até que, em determinado momento, passam         o Brasil figura no primeiro lugar do mundo.
                                                teca, muito tempo frente a um computador           de Janeiro: Nova Fronteira, s/d.                          por provas e provações, mas são salvas por      Nosso país tem a maior população de ori-
                                                ouvindo, lendo, pensando e recriando a                 LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre. São Paulo:       jovens príncipes, belos, educados e ricos,      gem africana fora da África, ou seja, tem
                                                partir das princesas dos contos de fadas.          Brasiliense, s/d. Histórias de Tia Nastácia.
                                                                                                                                                             que por elas arriscam a própria vida e com      85.783.143 afrodescendentes. Esse número
                                                   Porque a princesa é a jovem mulher                  PROPP Vladimir I. Morfologia do conto maravilhoso.
                                                                                                              ,                                              os quais elas se casam, sendo, então, “feli-    representa 44,7%2 da nossa população. Ou
                                                convivendo com o mundo, com o inevitável,          Trad. Jasna Paravich Sarhan. Org. Boris Schnaider-
                                                                                                                                                             zes para sempre”. Pertencem aos contos de       seja, quase metade da população brasileira
                                                com o transcendente. Lidando, portanto,            man. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984.
                                                                                                                                                             fadas, são européias e suas histórias aconte-   é formada por descendentes dos negros
                                                com a vida e com todos nós.
                                                                                                                                                             ceram há muito e muitos anos.                   africanos que para cá vieram e trabalharam
                                                                                                       Sonia Rodrigues, doutora em literatura e                  Mas nem todas as princesas são as dos       sob péssimas condições, formando a mão-
                                                   Bibliografia:                                   autora da Coleção Reconstruir, Formato Edito-             contos de fadas da Europa, a bela, gloriosa     de-obra escrava nos engenhos de açúcar e
                                                    BETTELHEIM, Bruno. Psicanálise dos contos de   rial. Para mais informações sobre a autora,               e deslumbrante irmã. A África, por exemplo,     nas minas de ouro, durante o período que
                                                fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.          consulte: www.autoria.com.br                              deu ao mundo princesas famosas, como            foi de 1530 a 1888. É aqui, portanto, em
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                                                                                                                                                                                                                                                             PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR
                                                                                                                                                             Nefertiti, célebre por sua beleza, e Cleópa-    nosso país, que está a maioria dos descen-
                                                                                                                                                             tra, imortalizada nas telas do cinema por       dentes das famílias africanas (da realeza ou
                                                                                                                                                             Elizabeth Taylor, dona de lindos e famosos      não) trazidas como escravas na época do
                                                                                                                                                             olhos de cor azul-violeta.                      Brasil Colônia. Seus filhos - juntamente
                                                                                                                                                                 Na África de nosso imaginário, fundem-      com indígenas, europeus e asiáticos - com-
                                                                                                                                                             se dois mundos. De um lado, a África da         põem a população brasileira e fazem parte
                                                                                                                                                             ciência, do nascimento da geometria às          de diversas estatísticas.
                                                                                                                                                             margens do Nilo, da biblioteca de Alexan-           As crianças e adolescentes com ascen-
                                                                                                                                                             dria, da opulência dos tesouros dos faraós,     dência africana - príncipes e princesas ou
                                                                                                                                                             da imponência das pirâmides e do exotismo       não - aparecem no Censo Escolar, uma pes-
                                                                                                                                                             dos safáris. De outro lado, a África da misé-   quisa que abrange as diferentes etapas e
                                                                                                                                                             ria, do fornecimento de mão-de-obra escra-      modalidades da Educação Básica no Brasil.
                                                                                                                                                             va, da fome e desnutrição das crianças de       Realizado anualmente pelo Instituto Nacio-
                                                                                                                                                             Biafra, a África da diáspora, a África, irmã    nal de Estudos e Pesquisas Educacionais
                                                                                                                                                             pobre.                                          Anísio Teixeira (Inep/MEC), o Censo Esco-
                                                                                                                                                                 Cleópatra e Nefertiti estão longe no        lar pesquisa escolas públicas e privadas de
                                                                                                                                                             tempo. Na história mais recente, para onde      todo o país, trazendo à tona alguns dados
                                                                                                                                                             foram e onde estão as princesas africanas?      interessantes, merecedores de uma leitura

20                                                                                                                                                                                                                                                           21
                                                                                                                                                             No período em que durou o tráfico negreiro      mais atenta.
Desde 2005, o Censo Escolar vem incluin-                     e, para que fossem impedidos de fugir,                           No Brasil: 10.661.197 = 51,2%                   Notas:

     do em seu questionário o quesito cor/raça3.                     eram acorrentados. Nas reminiscências                            Na Educação Infantil: 1.900.436 = 49,6%        1 Publicado em 1990, de autoria de Joseph Harris,

     Em 2007, na modalidade ensino regular, o                        dessas humilhações pode estar embutido                           No Ensino Fundamental: 6.108.266 = 50,9%    um historiador norte-americano.

     Censo Escolar revelou os seguintes núme-                        o desconforto do adolescente do Ensino                           No Ensino Médio: 1.278.241 = 47,6%              2 Esse número aumenta quando os critérios são as
     ros de alunos, para esse quesito:                               Médio, que prefere não declarar a própria                        Ou seja, no total do ensino regular da      pesquisas genéticas, segundo as quais 86% dos brasilei-
                                                                                                                                                                                  ros têm algum grau de ascendência africana. De acordo
                                                                                                                                  Educação Básica Brasileira, a distribuição
                                                                                                                                                                                  com esses estudos, os genes africanos variam de 10 a
                 NÚMERO DE ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL, POR RAÇA/COR EM 30/5/2007                                         cor/raça está equilibrada entre a branca,       100% de ancestralidade no brasileiro, que pode ou não
                                                                                                                                  com 46,9%, e a negra/parda, com 51,2%.          apresentar traços de fisionomia negra, devido ao alto
                                                           ENSINO REGULAR                                                         A maioria dos alunos brasileiros é de des-      grau de miscigenação ocorrida em nosso país.

                                                                     Total da Educação     Total do Ensino      Total do Ensino   cendência africana e se declara de cor/raça         3 As variáveis branca, preta, parda, amarela e indíge-
                                                 Total do Brasil
                                                                          Infantil          Fundamental             Médio         negra ou parda. Nesse contingente estão as      na, para aferir o quesito cor/raça, foram definidas pelo

                                                    52.179.530           6.417.502            31.733.198            8.264.816
                                                                                                                                                                                  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
               Total de matrículas                                                                                                princesas afrodescendentes que, do Infantil
                                                                                                                                                                                  As respostas ao questionário para aferição desse item
                                                                                                                                  ao Ensino Médio, recebem uma educação
                                                    8.264.816             2.549.841           19.801.732            5.583.355
                             Não declarada
                                                                                                                                                                                  são obtidas por documento comprobatório, por auto-
                                                      15,8%                39,7%                62.4%                 67,5%       baseada em pressupostos europocêntricos         declaração do aluno quando maior de 18 anos, ou por

                                                    20.773.976           3.867.661            11.971.466            2.681.461
                               Declarada
                                                                                                                                  que reproduzem relações sociais marcadas        declaração do responsável.
                                                      84,2%                60,3%                37,6%                 32,5%       por uma suposta superioridade branca.
                                                    9.761.190            1.913.831            5.602.236             1.360.620
                                Branca                                                                                                Entretanto, mesmo com a tradição
                                                     46,9%                 49,4%                46,7%                 50,7%
                                                                                                                                  represada, a influência africana no Brasil se       Sueli de Oliveira Rocha é coordenadora, na
                                                    1.244.319             200.247              688.129              153.031
                                 Preta
          Raça/cor
                                                      5,9%                 5,7%                 5,7%                 5,7%
                                                                                                                                  faz presente na música (o ritmo), na dança      Baixada Santista, do Programa de Leitura da
                                                    9.416.878            1.700.189             5.420.137            1.125.210
                                                                                                                                  (os movimentos assimétricos), na culinária      Petrobras-RPBC pela Leia Brasil, ONG de pro-
                                Parda
                                                      45,3%                43,9%                 45,2%                41,9%       (o vatapá), na medicina popular (as ervas,      moção da leitura. Foi também membro da equi-
                                                     179.082               31.801              105.125               25.195
                               Amarela
                                                                                                                                  as simpatias, as benzeduras), na religião       pe pedagógica do Gruhbas Projetos Educacio-
                                                      0,8%                  0,8%                0,8%                  0,9%
                                                                                                                                  (umbanda e candomblé), na língua (angu,         nais e Culturais e do conselho editorial dos jor-
                                                     172.507               21.593              115.839               17.405
                               Indígena
                                                      0,8%                  0,5%                0,9%                  0,6%
                                                                                                                                  batuque, cachaça, fubá, miçanga, quitute,       nais “Bolando Aula”, “Bolando Aula de Histó-
                                                                                                                                  samba), na formação de população, apenas        ria” e “Subsídio”.
       Fonte. http://inep.gov.br. Censo Escolar 2007, tabelas 1.2; 1.7; 1.19; e 1.31.
       Observação: Para efeito deste texto, apenas o ensino regular foi considerado. Ficaram, pois, fora dele a Educação de
                                                                                                                                  para lembrar alguns exemplos.
                     Jovens e Adultos, a Educação Especial e a Educação Profissionalizante.                                           Um caminho para mudar essa escola
                                                                                                                                  que desconsidera a presença africana em
         Entre as várias ponderações que podem                       cor/raça no questionário do censo Escolar,                   nossa cultura é dotar os conteúdos por ela
     ser desenvolvidas a partir da análise das                       evitando qualquer possibilidade de discri-                   oferecidos de referenciais africanos positi-
     informações produzidas pelo Censo Esco-                         minação.                                                     vos; é trabalhar com os alunos a valorização
     lar, alguns dados chamam a atenção. Um                             Outra constatação é que, no Ensino                        de protagonistas negros, buscando produzir
     deles é que, à medida que a escolaridade                        Médio, enquanto a população branca                           um efeito positivo na construção da identi-
     avança, aumenta o número dos que não                            aumenta (50,7%), diminui a presença                          dade desses príncipes e princesas brasilei-
     desejam declarar sua cor/raça. É preciso                        negra/parda (47,6%). A pergunta que não                      ros afrodescendentes. Esse é um caminho
     lembrar que durante o período da escravi-                       cala é: quantos conseguirão chegar ao Ensi-                  para podermos contar outras histórias,
     dão, os negros escravizados trabalhavam                         no Superior?                                                 essas também com final feliz. E delas um
     de sol a sol, recebendo uma alimentação                            Outro fato importante é que, somando                      dia se poderá dizer:
     de péssima qualidade, não podiam prati-                         os resultados referentes à raça/cor preta e                      São lindas, geralmente de pele negra.
     car a própria religião nem a própria lín-                       parda, indicativa da afrodescendência,                       Algumas ainda crianças, outras mal entradas
     gua; suas festas e rituais eram proibidos;                      encontramos:                                                 na adolescência...
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Que fada é essa?


        A
                           Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque


                  costumados à imagem européia         de sua raça e capaz de sentimentos menos
     das fadas que ilustram os contos desde o          nobres, fosse uma espécie de traição a uma
     início da literatura infantil, fica difícil nos   concepção há muito enraizada em nosso




                                                                                                       LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19
     descolarmos da figura da fada sempre tão          imaginário.
     loura, tão esguia e tão doce que nos foi             No entanto, as histórias clássicas, os
     imposta, e conseguirmos contextualizá-la          mitos gregos, as lendas dos mais variados
     nos contos das diferentes culturas.               países nos falam o tempo todo das altera-
        Nas diferentes cidades em que dou ofici-       ções físicas e de humor dessa figura atem-
     nas de contadores de histórias, costumo           poral que habita nossa imaginação.
     contar uma história escrita por Gail Harley,         Não podemos nos esquecer que, no clás-
     chamada O Baú das Histórias. Trata-se de          sico A Bela Adormecida, foi uma fada, e não
     uma antiga história da cultura yorubá, que        uma bruxa, que lançou sobre uma recém-
     nos conta como Ananse, o homem aranha,            nascida uma sentença de morte por não ter
     conseguiu comprar de Nyame, o Deus do             sido convidada para o banquete de seu
     Céu, histórias que ficavam encerradas den-        batizado; que na história As fadas, recolhida
     tro de um baú, para espalhá-las pelo mundo.       por Perrault, a mesma fada que deu a uma




                                                                                                       PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR
     Para tanto, o Deus lhe impõs três tarefas,        menina o dom de, ao falar, verter pela boca
     entre elas, que ele lhe trouxesse Moatia, “a      rosas e pérolas, condenou outra a cuspir
     fada que nenhum homem viu”.                       sapos, escorpiões e toda sorte de animais
        Após contá-la, costumo passar o vídeo da       peçonhentos a cada vez que pronunciasse
     história. A reação invariavelmente é a mesma:     uma palavra. Melusina, que se transformava
     como, uma fada negra? “Como, uma fada             em serpente a cada sábado, Morgana, ora
     tão diferente?...uma fada que se irrita?...       jovem, ora velha, as Moiras, implacáveis
     que ameaça bater numa boneca de piche?”           donas do destino temidas até por Zeus, são
        Embora eu enfatize a procedência afri-         apenas alguns exemplos das oscilações de
     cana da história enquanto a narro, embora         humor e das transformações das quais essas
     a narrativa esteja pontuada por palavras          criaturas mágicas são capazes.
     estranhas e conserve as onomatopéias                 Antero de Quental, em seu poema As
     características dos contos yorubá, a apari-       fadas, nos fala sobre elas e nos adverte:
     ção de Moatia - trajada com uma saia de
     palha, com um turbante na cabeça e desa-                  (...) Quem as ofende...cautela!
     fiando uma boneca de piche que não res-                   A mais risonha, a mais bela,
     ponde suas perguntas - sempre causa estra-                Torna-se logo tão má,
     nhamento. É como que se a imagem de                       Tão cruel, tão vingativa!

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     uma fada humanizada, com características                  É inimiga agressiva,
A donzela, o sapo e o filho do chefe


                                                                                         H
     É serpente que ali está!           Nesta revista, temos uma excelente opor-


                                                                                                          Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque
     E têm vinganças terríveis!      tunidade de refletir não só sobre a natureza
     Semeiam coisas horríveis,       das fadas, mas também sobre o que faz com
     Que nascem logo do chão...      que essas histórias se espalhem, quase que
     Línguas de fogo que estalam!    por magia, por todos os cantos do mundo,
     Sapos com asas, que falam!      ganhando em cada canto um novo colorido,
     Um anão preto! Um dragão!       uma nova roupagem, um novo cenário, mas
                                                                                                   avia uma vez um chefe africano       pegou água no poço, nem lenha na floresta.
                                     falando sempre, embora com os sotaques
                                                                                      que tinha duas mulheres e com cada uma                Então ela voltou para fazer esses traba-
     Ou deitam sortes na gente...    mais variados, das necessidades e sentimen-
                                                                                      delas tinha uma filha.                            lhos e o sapo passou o dia inteiro esperan-




                                                                                                                                                                                        LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19
     O nariz faz-se serpente,        tos mais básicos do ser humano.
                                                                                          Aconteceu que, um dia, a primeira             do por ela.
     A dar pulos, a crescer...
                                                                                      mulher morreu, e sua filha teve de ir morar           Ao entardecer, assim que acabou todo o
     É-se morcego ou veado...            Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque é
                                                                                      com a segunda mulher, que não gostava             serviço, ela correu para o poço e lá estava o
     E anda-se assim encantado,      psicóloga, especialista em Literatura Infanto-
                                                                                      nem um pouquinho dela e logo passou a             velho sapo, que foi logo dizendo:
     Enquanto a fada quiser! (...)   juvenil (UFF) e Leitura (PUC-Rio) e contadora
                                                                                      maltratá-la de todas as maneiras.                     – Tsc, tsc. Esperei por você desde de
                                     de histórias do Confabulando.
                                                                                          Era ela quem cuidava dos animais, tirava      manhã e você não veio.
                                                                                      água do poço, cortava lenha, e como se                – Velho amigo – respondeu a menina -
                                                                                      tudo isso não bastasse, ainda tinha de moer       eu sou uma escrava. Minha mãe morreu e
                                                                                      o tuwo1 e o fura2, e dar de comer a toda a        eu me mudei para a cabana da outra mulher
                                                                                      família. O pior, é que depois de todo o tra-      de meu pai. Ela me faz trabalhar sem parar
                                                                                      balho feito, a madrasta só permitia que ela       e só me dá restos de comida para comer.
                                                                                      comesse as raspas queimadas que sobravam              O sapo, então, disse:
                                                                                      no fundo da panela.                                   – Menina, dê-me sua mão.




                                                                                                                                                                                        PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR
                                                                                          Sem nada poder fazer, a menina sentava-           Ela estendeu-lhe a mão e pularam jun-
                                                                                      se perto de um poço e comia o que conse-          tos para dentro d’água.
                                                                                      guia. O resto, jogava para os sapos que               Aí, ele a levantou, engoliu-a e depois a
                                                                                      moravam dentro d’água.                            vomitou.
                                                                                          E assim aconteceu dia após dia, até que           – Boa gente – disse ele para os outros
                                                                                      ao lugar chegaram mensageiros de uma              sapos - Olhem e digam-me. Ela está reta ou
                                                                                      aldeia vizinha, anunciando que haveria uma        torta?
                                                                                      grande festa no dia do Festival da Colheita.          Os sapos se entreolharam e responde-
                                                                                          Nesta tarde, quando ela foi para o poço       ram: “Ela está torta para a esquerda”.
                                                                                      comer as raspas que a madrasta lhe dera,              Então ele novamente a levantou, engo-
                                                                                      ela encontrou um enorme sapo, que foi             liu-a, vomitou-a e novamente perguntou
                                                                                      logo dizendo:                                     aos outros sapos:
                                                                                          – Donzela, amanhã é o dia do Festival.            – Boa gente. Olhem e digam-me. Ela
                                                                                      Venha até aqui assim que o sol raiar e nós a      está reta ou torta?
                                                                                      ajudaremos.                                           – Ela está bem reta agora – coaxaram os
                                                                                          Na manhã seguinte, porém, quando ela          sapos.
                                                                                      estava indo para o poço, a meia irmã lhe disse:       Então ele vomitou roupas, pulseiras,
                                                                                          – Volte aqui, sua menina inútil! Você         anéis e um par de sapatos, um de prata e

26                                                                                                                                                                                      27
                                                                                      não mexeu o tuwo, nem moeu o fura, nem            outro de ouro, e disse:
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  • 4. O África dos meus sonhos potencial de sustentabilidade A nova edição do Leituras Compartilhadas de todo e qualquer empreendimento é um mostra o desejo constante do Programa em dos fatores que confere excelência à inicia- atender as demandas de nossos maiores LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 tiva. E, para isso, a gestão participativa – parceiros: os mais de nove mil professores processo em que as partes envolvidas e 300 mil alunos que constroem o sucesso expõem suas possibilidades e necessidades desta ação nas 310 escolas onde o Petrobras – é fundamental na conquista dos bons Programa de Leitura Bacia de Campos é resultados. Assim é o Petrobras Programa desenvolvido. As Princesas Africanas condu- de Leitura Bacia de Campos, iniciativa zirão um estudo menos superficial da África, social apoiada pelas unidades de Negócio continente que esconde suas riquezas na da Bacia de Campos e do Rio de Janeiro pluralidade de tradições que remontam à em 17 municípios da área de influência da origem da humanidade. maior província petrolífera do país. A sustentabilidade de nossas ações Por seu constante alinhamento às depende dessa disposição em aprofundar demandas de seu público-alvo, alunos e os conhecimentos, tanto no passado quanto professores da rede pública de ensino das nos desafios impostos pelas novas eras que PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR cidades atendidas, o Petrobras Programa de virão. Assim a Petrobras conduz seus inves- Leitura Bacia de Campos vem contribuindo timentos empresariais e sociais. Para que para a melhoria dos índices que mensuram chegássemos ao imenso tesouro escondido a educação. Exemplo disso, a pontuação na camada pré-sal, tivemos que buscar as que as escolas e municípios atendidos con- regiões mais distantes, profundas. E para quistaram na pesquisa que mediu o Índice que exploremos aquela riqueza, necessário de Desenvolvimento da Educação Básica, o será aprimorar o conhecimento adquirido IDEB, em 2007. até aqui. Em Macaé, onde o programa é desenvol- Como o que ora é proposto pelo Leituras vido desde 1994, todas as 37 escolas atendi- Compartilhadas. Como a ostra que guarda o das pelo caminhão-biblioteca atingiram tesouro dentro de si, a África será aqui pontuação acima da média nacional, tendo o revelada pelo que esconde de mais precio- Colégio Municipal do Sana obtido média 6,5, so: sua dignidade, sua nobreza, mergulho índice maior que a meta estipulada pelo esse conduzido pelo mais rico dos univer- Governo Federal (6) para o ano de 2021. sos, o literário. 4 5
  • 5. Princesas africanas D Jason Prado uas palavras, tantos sentidos. morte, leoas no exercício da função mater- Quando ouvi a sugestão de publicar um na, mulheres com vontades e desejos... Caderno de Leituras Compartilhadas com Para além disso, mulheres especiais, que LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 este tema, não me dei conta dos desvãos do se distinguem das outras em sua superiori- caminho. dade, seja em graça, beleza ou astúcia. Era uma tarde fria de junho e eu estava Guerreiras, sensíveis, capazes de perceber um na Refinaria do Paraná, fazendo o terceiro grão de ervilha sob pilhas de colchões de plumas. de uma série de encontros sobre a participa- Ungidas pelos deuses no nascimento e ção africana na formação cultural brasileira. donas do direito divino de povoar as cabe- Foi quando Analu me desafiou: por que ças dos homens. vocês não fazem um Caderno sobre as princesas Princesas, qual promessa de flor, também negras? à espera dos varões que as farão reinar em Ana Lúcia1 é uma dessas pessoas de seus próprios castelos. vontade forte, com formação e conteúdo Mas também africanas. Em sua maioria, invejáveis, cheia de fé no que diz. É, ela negras, exuberantes e fortes como a guer- mesma, a própria imagem da guerreira reira que projetou a atriz jamaicana de PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR africana. Conan, ou como tantas outras que conhe- Como se não bastasse, Rogério Andrade cemos no dia-a-dia. Vindas – para a maioria Barbosa tinha passado a manhã daquele dia de nós brasileiros, seus descendentes – de falando de suas viagens pelas nações africa- um universo desconhecido, povoado com nas, das culturas exóticas, de ritos tribais... imagens de animais ferozes, de lanças cru- Nos subsolos da minha mente já se agi- zando os céus e tan-tans em frenesi, de cor- tava a figura emblemática e saltitante de pos esguios e fome. Muita fome – somali, Grace Jones num filme trash dos anos 802, etíope, biafrense... Africanas, brancas e como a incentivar a empreitada. Não pude negras. Submetidas e espoliadas por sécu- evitar as armadilhas de minha própria ima- los, como seu continente, até se perderem ginação: topei o desafio. de si mesmas. Aos poucos, como os animais que “mas- Para esta edição de Leituras Compartilhadas tigam” muito depois de engolir, fui me – em que o “eu” torna-se “nós”, no compar- dando conta dos conteúdos ali envolvidos. tilhamento das minhas ponderações com a Logo de cara, uma bifurcação: princesas; equipe da ONG Leia Brasil –, evoluímos portanto, mulheres. para Princesas Africanas, curvando-nos não Não apenas mulheres, em suas dimensões só à grandiosidade do continente mas tam- humanas: heroínas na luta pelo pão-nosso e bém à Cleópatra, à Rainha de Sabá e a 6 7 pela sobrevivência diária, frágeis diante da todas as mulheres que remontam à mais
  • 6. ilustre e desconhecida de todas as prince- cesas são a matéria-prima de nossa organi- frustra nossas expectativas e subverte a civi- preconceituoso e o preconceito é rasteiro, sas: Lucy3, a africana que todos temos no zação social. lidade, nos pilhamos dizendo: “isso é coisa imprevisível, dissimulado e elitista. E quan- sangue. Em meados do século XVI, surgiu na de preto”? do falo em elite, caio mais uma vez na pan- Durante os meses necessários para que Inglaterra uma expressão que se atribui a Isso posto, toquemos num ponto nevrál- tanosa questão das classes sociais, dos os artigos e textos fossem encomendados e um jurista inglês5, e que se tornou a base gico: a questão africana. dominantes e dominados, dos príncipes e escritos, para que essas belíssimas ilustra- da Bill of Rights, expressivo nome de um Partindo de Lucy, somos todos afro-des- mendigos... ções fossem produzidas e a edição come- capítulo da Constituição norte-americana: cendentes. Uns mais, outros menos. E o Voltando ao preconceito, o problema é çasse a ganhar forma, muitas foram as a man’s home is his castle – a casa de um que é mais importante ainda, estamos jun- que ele dói, mas nem é crime. Embora a dúvidas que, pouco a pouco, se materializa- homem é o seu castelo6. tos na humanidade. manifestação do preconceito seja crime ram como bolhas que levantam da fervura. Tudo bem que essa frase tenha servido Por que é tão difícil que a descendência (tipificado pela Lei nº 7.716, de 05/01/89), A mais inquietante delas, talvez, seja relati- para assegurar a inviolabilidade do lar, mas negra ganhe cidadania no Brasil, a ponto de seu sentimento não pode ser criminalizado. va à questão Princesa. Dúvidas não pro- não caberia perguntar: quem mora em cas- ser necessária a criação de um movimento Ninguém pode ser punido por associar um priamente quanto às funções tribais da filha telos? E por que pessoas de todas as classes pela consciência negra e a promulgação de negro, numa rua deserta, à noite, a uma do chefe, mas quanto a esse conceito que sociais – inclusive nas sociedades de castas uma lei que obrigue as escolas a ensinar a situação de iminente perigo. Mas deve permeia nossa vida e nos faz chamar nossas – se referem assim às suas herdeiras? História e a Cultura Africana7? doer (e revoltar) a qualquer jovem negro filhas de princesas, que permite às mulheres Será demais remeter o conteúdo ideoló- Mais uma vez, volto a particularizar assistir a um estranho desviando de seu se atribuírem esse título, sempre tão impreg- gico das princesas (e toda a sua entourage) minha fala e recorro aos significados. caminho. nado de bondade. às questões da família, da propriedade e do Embora não tenha autoridade para falar a Do outro lado desse comportamento No romance Peixe dourado4, um belíssi- estado? Será puro maniqueísmo? esse respeito, vou me permitir ser opiniáti- está, por exemplo, a clara leitura que mo livro sobre princesas africanas, Jean- Por outro lado, por que valorizamos co: não creio que o movimento tenha se podemos fazer da miséria a que as elites Marie Clézio (Prêmio Nobel de Literatura tanto esse negócio de realeza, nobreza e constituído apenas em decorrência da dor condenaram os negros no Brasil. Miseráveis de 2008) usa o termo princesa centenas de outras iniqüidades coroadas? ainda viva de nossos avós amarrados no famintos – como os escravos “libertos” vezes, a maior parte delas para se referir às Há 16 anos – em 1993, na reta final do pelourinho, muito menos pela imoralidade pela Lei Áurea, sem teto e sem perspectivas moças de um prostíbulo marroquino, bus- século XX – nosso Congresso promoveu, a do tráfico, que aniquilou milhões e, pela – são marginais potenciais. Mas essa lógica cando assim suavizar o caráter do ganha- um custo financeiro exorbitante, um plebis- escravidão, transformou outro tanto em nunca ocupou espaços na sociedade, que é pão dessas mulheres. cito (referendo popular) sobre a forma de mortos-vivos. preconceituosa (de certa forma, o senti- Que mágica tem essa palavra? De onde governo no Brasil. Nada menos que 6,8 Embora sejam recentes, esses fatos mento do preconceito exime e protege de vem sua força? milhões de brasileiros votaram a favor da remontam ao já longínquo século XIX. É culpa as pessoas). O preconceito só se des- Deixando de lado as razões teosóficas monarquia, pensando seriamente em entre- preciso falar deles porque somos um país monta com educação, com a lógica. E essa (ou o pseudo “direito divino” de alguém ser gar a coroa (e nós, as caras) aos portugueses decorre de um pensamento arejado, da melhor que os outros e, a partir dessa lógi- que exportaram nossas riquezas e importa- compreensão de cada componente ca, praticar todas as vilanias possíveis con- ram da África, como mercadoria, seres do todo. tra a humanidade), em que pensamos quan- humanos. Com essas considera- do empregamos essa palavra? Por que, mesmo sabendo disso (da ções, retomo o propó- Em primeira e última instância, prince- vergonha e sofrimento que nos cau- sito desta edição sas são as herdeiras do rei. São elas que sam os que se julgam acima do bem de Leituras viabilizam a constituição de novos reinados e do mal; da podridão que alicerça a Compartilhadas: (famílias), garantindo a transição entre um aristocracia), quando alguém tem uma criada para ajudar antigo e um novo regime. Se é verdade que atitude digna, elogiável, quase beata, dize- os professores a reconhecer e positivar as as histórias tecem o terreno por onde cons- mos que foi um “gesto nobre”? E por que, diferenças, combater o racismo e o precon- truímos nossas noções de mundo, as prin- no extremo oposto, quando algo inesperado ceito étnico-racial, ela não pode se propor 8 9
  • 7. a oferecer respostas, mas a ajudar a instalar perguntas que desconstruam comportamen- tos e pré-julgamentos. Sendo assim, com o excepcional conteúdo que se segue e que é oferecido às futuras gerações de brasileiros, deixo no ar uma Princesas homenagem a todas as princesas negras (e africanas) que nunca estiveram em nosso imaginário e às outras tantas que não pude- ram comparecer a esta edição. PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR Africanas Notas: 1 Ana Lúcia Silva Souza (Analu) é socióloga, dou- toranda em Lingüística Aplicada (Unicamp - Instituto de Estudos da Linguagem), mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Parti- cipa desta edição de Leituras Compartilhadas como articulista e conselheira editorial. 2 Conan, o destruidor, de 1984. 3 Lucy Dinqines (que significa você é maravilhosa) – nome do esqueleto da fêmea hominídea de 3,2 milhões de anos encontrado na Etiópia; é a mais antiga ances- tral da humanidade. LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 4 Peixe dourado, de Jean-Marie Clézio, Companhia das Letras, 2001. 5 Sir Edward Coke, Inglaterra, 1552-1634. 6 É curioso que esse respeito à privacidade e esse reconhecimento à inviolabilidade do lar tenham se consolidado duzentos anos depois, ao tempo da inde- pendência americana, que coincide com a Revolução Industrial e o fim do Feudalismo, no qual as pessoas serviam à nobreza e sequer possuíam a roupa do corpo, quanto mais uma casa. 7 Lei 10.639 / 2003 – altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e estabelece a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro- brasileira e Africana no Brasil. Jason Prado é jornalista, criador e Diretor Uma contribuição para o estudo da Executivo da Leia Brasil – ONG de promoção cultura afro-brasileira nas escolas públicas. da leitura. (De acordo com a Lei 10.639/2003) 10 11
  • 8. Índice • África dos meus sonhos - Petrobras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .5 Princesas africanas - Jason Prado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7 PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR • • O sonho de ser princesa - Andréa Bastos Tigre - Rossely Peres . . . . . . . . . . . . . . . .15 • As princesas nos contos de fadas - Sonia Rodrigues . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17 • São outras as nossas princesas - Sueli de Oliveira Rocha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .21 • Que fada é essa? - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque . . . . . . . . . . . . . . . . . . .25 • A donzela, o sapo e o filho do chefe - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque . . . . . .27 • Rainhas negras na África e no Brasil - Luiz Geraldo Silva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31 • As princesas africanas - Braulio Tavares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .33 • O casamento da princesa - Celso Sisto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37 • Minha princesa africana - Márcio Vassalo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41 LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 • Uma princesa em São Tomé e Príncipe - Ana Lúcia Silva Souza . . . . . . . . . . . . . . .43 • Princesa de África, o filme - Uma entrevista com Juan Laguna . . . . . . . . . . . . . . . .47 • Iya Ibeji, a mãe dos gêmeos - A leitura dos símbolos nagô - Marco Aurélio Luz . . . . . .51 • A lenda da princesa negra que incendiou o mar - Geraldo Maia . . . . . . . . . . . . . . .55 Taisa Borges tem formação em artes plásticas e estilis- • Nas malhas das imagens e nas trilhas da resistência: . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . heroínas negras de ontem e de hoje - Andréia Lisboa de Sousa . . . . . . . . . . . . . . .59 mo. Ilustrou para a Folha de S. Paulo, Vogue, entre outros. Uma guerreira - Julio Emilio Braz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .63 É autora do livro de imagem O rouxinol e o imperador, ins- pirado no conto de Andersen do mesmo nome, lançado • Princesa, não. Mas... - Marina Colasanti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .65 em 2005, obra selecionada para o PNBE 2005 e para o PNLD SP/2006, merecedor do prêmio de o Melhor livro de • Os três cocos - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .69 imagens de 2005 pela Fundação Nacional do Livro Infantil • Uma princesa afrodescendente - Sueli de Oliveira Rocha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .73 e Juvenil (FNLIJ). Em 2006, publicou na mesma coleção João e Maria, inspirado em um conto dos irmãos Grimm, • Princesa descombinada - Janaína Michalski . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .77 também selecionado para o PNBE 2006 e para o PNLD SP/2007. O livro A bela adormecida, de Charles Perrault, • Princesas africanas e algumas histórias - Tiely Queen (Atiely Santos) . . . . . . . . . . . .79 lançado em 2007, fechou seu projeto de homenagens aos contos de fadas. • • Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .83 12 13
  • 9. O sonho de ser princesa... Andréa Bastos Tigre - Rossely Peres Q Princesa Desalento Pise macio porque você está pisando nos impotência frente aos mais fortes, da solidão meus sonhos.1 e do isolamento, dos segredos e sobressaltos W. B. Yeats de se ter um corpo. São legados que nos LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 Minh'alma é a Princesa Desalento, PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR vêm de longe, de uma tradição oral que, no Como um Poeta lhe chamou, um dia. ue menina não sonhou, um dia, correr do tempo, vieram a ser escritas, num É revoltada, trágica, sombria, em ser ou vir a ser uma princesa? O apelo encontro de papel, pluma e desejo de um Como galopes infernais de vento! da beleza, da riqueza, do fausto das festas e autor. Um longo caminho de “Era uma palácios e do “viveram felizes para sempre” vez...”, “Num certo país...”, “Há muitos e É frágil como o sonho dum momento, traz a magia da palavra, com seus sons e muitos anos atrás...”, para tentar responder Soturna como preces de agonia, encantamentos, alimento da imaginação aos enigmas: que mundo é esse? Como Vive do riso duma boca fria! infantil. viver nele? Quem sou eu? Minh'alma é a Princesa Desalento... A linguagem fantástica - a da poesia, do As histórias e os contos tomam a angús- conto, das fábulas, com seus ritmos e ima- tia do existir a sério, dirigem-se a ela, à Altas horas da noite ela vagueia... gens - permite à criança “viver outras vidas” escura incerteza do que vai acontecer. E ao luar suavíssimo, que anseia, e, assim, construir um arcabouço imaginá- Endereçam-se ao futuro guiando a criança Põe-se a falar de tanta coisa morta! rio necessário e fundamental para “viver a através de caminhos que ela pode aceitar e LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR própria vida”. Que lugar tem, na economia compreender – princesas, cavaleiros e damas, O luar ouve a minh'alma, ajoelhado, psíquica de uma criança, histórias de prín- animais falantes, duendes e anões conduzem- E vai traçar, fantástico e gelado, A sombra duma cruz à tua porta... cipes e princesas? na, pela mão, a seu mundo dos sonhos. As palavras apresentam o mundo, a coisa A fantasia e poesia da linguagem nos não existe sem elas, elas lhe dão existência. transportam para um país onde tudo pode Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" acontecer. A magia da palavra lida ou ouvi- ... Digo “sol”, e a palavra brilha; da faz existir o sonho e, ao afastar-se do Digo “pomba”, e a palavra voa; real, permite a margem do mais além, do Digo “maçã”, e a palavra floresce.2 outro, do impossível, do espelho com suas entradas e saídas secretas. Um texto que é E podemos acrescentar: recebido no nível intelectual, mas que toca Digo “princesa”, e a vida brilha, a imagi- também a sensibilidade, ganhando na escuta nação voa, a felicidade floresce. da palavra significação afetiva e imaginativa. São as histórias e os contos que, ao dar O próprio da linguagem poética e fan- nome, ao pôr em palavras, permitem dar tástica é ser múltipla em sua essência. O contorno e limite a sentimentos obscuros e convite a uma viagem ao país das palavras angustiantes que assombram crianças – abre a porta para a criança usufruir do uso medo da vida e da morte, do futuro incerto da linguagem e, com ela, brincar, sonhar, 14 15 do quem sou e quem serei, da raiva e da rir, acariciar, girar, ir e retornar. Lá não há
  • 10. As princesas nos contos de fadas N uso ridículo ou absurdo da linguagem, o de sugerir o desconhecido, o imprevisível, Sonia Rodrigues desbloqueio do imaginário recria a fascina- implicando o ouvinte-leitor no trabalho de ção da palavra e permite: “eu sou princesa”. preencher lacunas, absorver o intuído, asso- A vida não pára de se escrever; e a histó- ciar som, imagem, textura, ritmo e cor. Se é ria, em sua letra, se conserva através do uma trama proposta por um autor-narrador, tempo. É a permanência do texto que sus- cabe a cada ouvinte-leitor torná-la sua. tenta a imortalidade das obras, e, entre elas, Longa vida aos contos de príncipes e os contos maravilhosos que comuns a toda humanidade e fornecem a a de princesas que, nórdicas, africanas, asiá- princesas! aparecem na cultura ocidental, as princesas base das religiões, dos mitos e dos contos ticas ou indígenas permitem à criança olhar costumam ocupar dois papéis: o do prêmio, maravilhosos. LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 o cotidiano da vida de um jeito diferente Notas: ou, mais raramente, o de herói. São contos Monteiro Lobato, fundador da literatura àquilo que se apresenta como igual, pois a 1W. B. Yeats: He wishes for the cloths of heaven in de fantasia, freqüentemente chamados con- para crianças no Brasil, teve em relação própria repetição num vir a ser inaugural The Collected Poems. Nova York, Macmillan, 1956. tos de fadas, em geral passados na Idade aos contos de fadas, basicamente, três ganha novos sentidos. Não serão as lem- 2 Alain Bosquet: Quatre testaments et autres poèmes. Média européia. atitudes estéticas em seus livros: a crítica branças das histórias que nos permitem Paris, Gallimard. Autores importantes na nossa cultura aos contos embolorados da Carochinha uma leitura singular de nosso mundo? leram esses contos com visões diferentes ou ao que Emília classificava como boba- As palavras de todos os dias quando reu- Andréa Bastos Tigre e Rossely Peres são que podem contribuir para que nossa leitu- gens do folclore; a admiração à produção nidas numa bela história adquirem o poder psicanalistas da Escola Letra Freudiana - RJ. ra se enriqueça na concordância ou amplia- literária a partir deles feita pelos irmãos ção de suas opiniões. Grimm, Perrault, Andersen; e a incorpora- Freud entendia o conto de fadas como ção das princesas ao seu próprio universo uma forma atenuada dos mitos e esses ficcional. como deformações das fantasias de desejo Vladimir Propp definiu como conto das nações, da espécie humana como um maravilhoso ou de magia toda narrativa PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR todo. O conto estaria ligado à socialização, que, partindo de uma carência ou dano e à aquisição pela criança das normas morais, passando por um desenvolvimento interme- representadas pelo superego. diário, termina com casamento, recompen- Para os freudianos, Bettelheim inclusive, sa, obtenção do objeto procurado, repara- as pulsões criam os contos populares por ção ou salvamento de uma perseguição transformações análogas às do trabalho do (Propp: 85). sonho. Propp está mais voltado para entender Para Jung e os junguianos, os contos de como se estruturam os contos de fadas do fadas representam, além do material que para interpretá-los. Em Morfologia do inconsciente recalcado que mantém rela- conto maravilhoso, descreve como, no decor- ções com os sonhos e as fantasias, fenôme- rer da narrativa, o herói torna-se o possui- nos arquetípicos e sugerem simbolicamente dor de um objeto ou auxiliar mágico “que o a necessidade de uma renovação interior utiliza ou que se serve dele.” A magia em si pela integração do inconsciente pessoal e pode estar no auxiliar ou no objeto mágico do inconsciente coletivo à personalidade do que é doado ao herói; nas características do indivíduo. próprio; no antagonista-agressor que pode De acordo com esse ponto de vista, os ser um dragão, um bruxo, um ogre ou arquétipos são dinamismos inconscientes outras criaturas fantásticas na função de 16 17 ligados a imagens primordiais ou símbolos “antagonista”.
  • 11. Aplicando os conceitos de Propp, consi- histórias que defendem a moral e os bons Propp enumera os papéis distribuídos e. Percurso do herói até sua desti- dero que um personagem é sempre um per- costumes, histórias nas quais o mal é puni- entre as personagens concretas dos con- nação, vitória do herói. Aqui pode sonagem, mas os papéis variam segundo a do e o bem triunfa, histórias, enfim, que tos maravilhosos como: o herói, o antago- ocorrer um desdobramento que pro- interação do personagem com a trama. Uma enganariam seus pequenos leitores levan- nista (ou agressor), o doador, o auxiliar, a longue a narrativa: perseguição ao princesa pode ser afilhada de fadas, como do-os a acreditar em um mundo irreal. princesa ou seu pai, o mandante e o falso herói, aparecimento do falso herói, em A Bela Adormecida ou Pele de Asno. O Contos de fadas são contos épicos, con- herói. retorno do herói; papel a ser desempenhado dependerá de tos que tratam da jornada do herói, na qual Os contos poderiam ser chamados tam- f. A seqüência f, é lógico, depende como o enredo se articula. este repara a perda ou dano ocorrido no bém de “contos dos sete personagens”, ape- do prolongamento da narrativa. O No conto A Bela Adormecida, a princesa início da narrativa. Esta reparação é que sar de nem todos aparecerem em todos os herói chega incógnito, encontra as se limita a furar o dedo – inadvertidamente, distingue o conto de fadas da tragédia, na contos, claro. Porque existem contos mais pretensões infundadas do falso herói, estimulada por uma fada rancorosa – numa qual o herói é levado, por suas próprias simples, como o da Menina da Capinha é submetido a uma tarefa difícil para roca. Em seguida, ela dorme – graças à características, a cometer uma falha irreme- Vermelha, e mais extensos, como o Veado ser distinguido do falso herói, realiza a intervenção de uma fada boa – junto com diável que o faz ultrapassar a medida e ser encantado. tarefa, é reconhecido e desmascara o todo o reino, até que um príncipe a salve. arrastado para uma situação sem saída. A trama dos contos de fadas, de uma outro, que é castigado. O herói casa ou Em Pele de Asno, a princesa é desejada No conto de fadas, o final é feliz porque maneira geral, é enxuta, utilizando o míni- é entronizado. pelo pai enlouquecido, resiste ao incestuoso aquela ou aquele que está envolvido na mo de idas e vindas, ao contrário de narra- É interessante notar que o estudo de pedido de casamento e, com o auxílio da reparação da perda (a princesa, em muitos tivas como a Odisséia. Propp se refere ao herói como aquele que fada madrinha, foge para uma trajetória de exemplos) se submete, temporariamente, às Os enredos dos contos, ainda segundo repara o dano. Nos exemplos citados por agruras até conquistar o coração de um intempéries. Em Os três cães, ela, por medo Propp, não fogem muito da seguinte dispo- ele, o herói é um rapaz de origem simples príncipe. de morrer, aceita dizer ao rei, seu pai, que sição dos acontecimentos: ou príncipe, e a princesa é, quase sempre, No primeiro, o protagonista é o príncipe foi o cocheiro desonesto que a salvou do a. Situação inicial, que define espa- prêmio. Quando a figura feminina ocupa e, no segundo, a princesa é herói, e o prín- dragão. Aceita ser prometida em casamento ço, tempo, personagens principais um papel mais ativo, ela costuma não ser da cipe, prêmio. ao impostor. O que ela faz é estabelecer (fora o antagonista), seus atributos e realeza ou é da realeza, mas está disfarçada. No conto maravilhoso, nem sempre apa- uma resistência passiva, pela tristeza, para antecedentes; É filha de mercador, em A Bela e a Fera, rece o elemento mágico, mesmo quando adiar o casamento durante três anos. b. Parte preparatória, onde aparece órfã pobre em O Veado Encantado, de ori- estão articulados princesa, prêmio e recom- Tempo suficiente para o verdadeiro salva- algum tipo de proibição e a transgres- gem desconhecida e beleza estonteante em pensas variadas. É o caso de A princesa e o dor voltar, com seus cães mágicos, para des- são da proibição, o dano ou carência e A Moura Torta ou uma princesa em trajes grão de ervilha, no qual não existe magia e, mascarar o falso pretendente. E casar com a o antagonista com seus embustes. Em pobres, como em A princesa e o grão de ervilha. sim, reconhecimento da princesa como princesa, claro. Rapunzel fica muito claro este par de Apesar das críticas da boneca Emília, herói de si mesma, porque ela, apesar dos Pelo parentesco com a epopéia e não elementos: proibição e transgressão. nos contos folclóricos narrados por Tia farrapos, é uma princesa real cuja pele se por moralismo ou irrealidade, o conto Em A Moura Torta, o dano ou carência Nastácia, aparecem várias princesas em ressente de um grão de ervilha sob 12 col- maravilhoso termina na reparação da perda, está no feitiço colocado pela usurpa- papel de herói ou auxiliar de herói. É o chões. culmina no triunfo do herói. Odisséia, de dora. caso do Bicho Manjaléu. Aparecem também A articulação entre os papéis de herói e Homero, é a matriz ocidental (ou o mais c. O nó da intriga: uma personagem princesas no papel de adversário, como no prêmio está presente nos contos de fadas abrangente exemplo da cultura ocidental) se revela como herói ao reagir à ação conto A Princesa Ladrona. em que a princesa faz parte do conjunto de desse triunfo. Na Odisséia, a princesa (rainha) do antagonista que provocou o dano. A princesa como adversário do herói personagens que assumem o papel de está no papel de prêmio. Penélope faz a d. Aparece(m) o(s) auxiliar(es) do também aparece em A Pequena Sereia, de representar o Bem. Vale a pena pensar um mesma coisa que a princesa sem nome do herói, com todas as particularidades Andersen, conto no qual a princesa é a pouco sobre o significado de “Bem”, por- conto Os três cães. Protela a escolha de um dele(s) e do(s) objeto(s) mágico(s), usurpadora, inventa que salvou o príncipe que, às vezes, acontece dos contos de fadas pretendente usurpador até o retorno de incluindo aí as provas necessárias ao para casar com ele e derrota, assim, a serem lidos como histórias de final feliz, Ulisses. herói; pequena sereia. 18 19
  • 12. São outras as nossas princesas S Não conheço, no entanto, nenhuma lei- CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988. Sueli de Oliveira Rocha tura criativa mais audaciosa do papel da princesa nos contos de fadas do que a COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática. Série Princípios. 1987. empreendida pelo autor inglês Neil Gaiman, FRANZ, Marie Louise von. A interpretação dos no seu conto Neve. Neste, Branca de Neve contos de fadas. Rio de Janeiro: Achiamé, 1981. deixa de ser herói de si mesma, de ser prê- FREUD, Sigmund. Delírios e sonho na Gradiva de mio do príncipe que, ao final, a resgata. Jensen. Rio de Janeiro: Imago (Coleção Standard, v. ão lindas, geralmente de pele do Atlântico, muitas famílias reais africanas Não, a princesa é antagonista cruel da mãe, IV), 1968. muito clara e de cabelos loiros. Algumas foram escravizadas e enviadas para outros do pai e da madrasta. GAIMAN, Neil. Fumaça e espelhos. São Paulo: ainda crianças, outras mal entradas na ado- lugares do mundo, em especial para as LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 Seria possível passar horas e horas ao PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR Conrad. 2000. lescência. Têm uma vida tranqüila e feliz, Américas. No mapa da diáspora africana1, redor da fogueira, dias e dias numa biblio- JUNG, Carl G. et alli. O homem e seus símbolos. Rio até que, em determinado momento, passam o Brasil figura no primeiro lugar do mundo. teca, muito tempo frente a um computador de Janeiro: Nova Fronteira, s/d. por provas e provações, mas são salvas por Nosso país tem a maior população de ori- ouvindo, lendo, pensando e recriando a LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre. São Paulo: jovens príncipes, belos, educados e ricos, gem africana fora da África, ou seja, tem partir das princesas dos contos de fadas. Brasiliense, s/d. Histórias de Tia Nastácia. que por elas arriscam a própria vida e com 85.783.143 afrodescendentes. Esse número Porque a princesa é a jovem mulher PROPP Vladimir I. Morfologia do conto maravilhoso. , os quais elas se casam, sendo, então, “feli- representa 44,7%2 da nossa população. Ou convivendo com o mundo, com o inevitável, Trad. Jasna Paravich Sarhan. Org. Boris Schnaider- zes para sempre”. Pertencem aos contos de seja, quase metade da população brasileira com o transcendente. Lidando, portanto, man. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984. fadas, são européias e suas histórias aconte- é formada por descendentes dos negros com a vida e com todos nós. ceram há muito e muitos anos. africanos que para cá vieram e trabalharam Sonia Rodrigues, doutora em literatura e Mas nem todas as princesas são as dos sob péssimas condições, formando a mão- Bibliografia: autora da Coleção Reconstruir, Formato Edito- contos de fadas da Europa, a bela, gloriosa de-obra escrava nos engenhos de açúcar e BETTELHEIM, Bruno. Psicanálise dos contos de rial. Para mais informações sobre a autora, e deslumbrante irmã. A África, por exemplo, nas minas de ouro, durante o período que fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. consulte: www.autoria.com.br deu ao mundo princesas famosas, como foi de 1530 a 1888. É aqui, portanto, em LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR Nefertiti, célebre por sua beleza, e Cleópa- nosso país, que está a maioria dos descen- tra, imortalizada nas telas do cinema por dentes das famílias africanas (da realeza ou Elizabeth Taylor, dona de lindos e famosos não) trazidas como escravas na época do olhos de cor azul-violeta. Brasil Colônia. Seus filhos - juntamente Na África de nosso imaginário, fundem- com indígenas, europeus e asiáticos - com- se dois mundos. De um lado, a África da põem a população brasileira e fazem parte ciência, do nascimento da geometria às de diversas estatísticas. margens do Nilo, da biblioteca de Alexan- As crianças e adolescentes com ascen- dria, da opulência dos tesouros dos faraós, dência africana - príncipes e princesas ou da imponência das pirâmides e do exotismo não - aparecem no Censo Escolar, uma pes- dos safáris. De outro lado, a África da misé- quisa que abrange as diferentes etapas e ria, do fornecimento de mão-de-obra escra- modalidades da Educação Básica no Brasil. va, da fome e desnutrição das crianças de Realizado anualmente pelo Instituto Nacio- Biafra, a África da diáspora, a África, irmã nal de Estudos e Pesquisas Educacionais pobre. Anísio Teixeira (Inep/MEC), o Censo Esco- Cleópatra e Nefertiti estão longe no lar pesquisa escolas públicas e privadas de tempo. Na história mais recente, para onde todo o país, trazendo à tona alguns dados foram e onde estão as princesas africanas? interessantes, merecedores de uma leitura 20 21 No período em que durou o tráfico negreiro mais atenta.
  • 13. Desde 2005, o Censo Escolar vem incluin- e, para que fossem impedidos de fugir, No Brasil: 10.661.197 = 51,2% Notas: do em seu questionário o quesito cor/raça3. eram acorrentados. Nas reminiscências Na Educação Infantil: 1.900.436 = 49,6% 1 Publicado em 1990, de autoria de Joseph Harris, Em 2007, na modalidade ensino regular, o dessas humilhações pode estar embutido No Ensino Fundamental: 6.108.266 = 50,9% um historiador norte-americano. Censo Escolar revelou os seguintes núme- o desconforto do adolescente do Ensino No Ensino Médio: 1.278.241 = 47,6% 2 Esse número aumenta quando os critérios são as ros de alunos, para esse quesito: Médio, que prefere não declarar a própria Ou seja, no total do ensino regular da pesquisas genéticas, segundo as quais 86% dos brasilei- ros têm algum grau de ascendência africana. De acordo Educação Básica Brasileira, a distribuição com esses estudos, os genes africanos variam de 10 a NÚMERO DE ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL, POR RAÇA/COR EM 30/5/2007 cor/raça está equilibrada entre a branca, 100% de ancestralidade no brasileiro, que pode ou não com 46,9%, e a negra/parda, com 51,2%. apresentar traços de fisionomia negra, devido ao alto ENSINO REGULAR A maioria dos alunos brasileiros é de des- grau de miscigenação ocorrida em nosso país. Total da Educação Total do Ensino Total do Ensino cendência africana e se declara de cor/raça 3 As variáveis branca, preta, parda, amarela e indíge- Total do Brasil Infantil Fundamental Médio negra ou parda. Nesse contingente estão as na, para aferir o quesito cor/raça, foram definidas pelo 52.179.530 6.417.502 31.733.198 8.264.816 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Total de matrículas princesas afrodescendentes que, do Infantil As respostas ao questionário para aferição desse item ao Ensino Médio, recebem uma educação 8.264.816 2.549.841 19.801.732 5.583.355 Não declarada são obtidas por documento comprobatório, por auto- 15,8% 39,7% 62.4% 67,5% baseada em pressupostos europocêntricos declaração do aluno quando maior de 18 anos, ou por 20.773.976 3.867.661 11.971.466 2.681.461 Declarada que reproduzem relações sociais marcadas declaração do responsável. 84,2% 60,3% 37,6% 32,5% por uma suposta superioridade branca. 9.761.190 1.913.831 5.602.236 1.360.620 Branca Entretanto, mesmo com a tradição 46,9% 49,4% 46,7% 50,7% represada, a influência africana no Brasil se Sueli de Oliveira Rocha é coordenadora, na 1.244.319 200.247 688.129 153.031 Preta Raça/cor 5,9% 5,7% 5,7% 5,7% faz presente na música (o ritmo), na dança Baixada Santista, do Programa de Leitura da 9.416.878 1.700.189 5.420.137 1.125.210 (os movimentos assimétricos), na culinária Petrobras-RPBC pela Leia Brasil, ONG de pro- Parda 45,3% 43,9% 45,2% 41,9% (o vatapá), na medicina popular (as ervas, moção da leitura. Foi também membro da equi- 179.082 31.801 105.125 25.195 Amarela as simpatias, as benzeduras), na religião pe pedagógica do Gruhbas Projetos Educacio- 0,8% 0,8% 0,8% 0,9% (umbanda e candomblé), na língua (angu, nais e Culturais e do conselho editorial dos jor- 172.507 21.593 115.839 17.405 Indígena 0,8% 0,5% 0,9% 0,6% batuque, cachaça, fubá, miçanga, quitute, nais “Bolando Aula”, “Bolando Aula de Histó- samba), na formação de população, apenas ria” e “Subsídio”. Fonte. http://inep.gov.br. Censo Escolar 2007, tabelas 1.2; 1.7; 1.19; e 1.31. Observação: Para efeito deste texto, apenas o ensino regular foi considerado. Ficaram, pois, fora dele a Educação de para lembrar alguns exemplos. Jovens e Adultos, a Educação Especial e a Educação Profissionalizante. Um caminho para mudar essa escola que desconsidera a presença africana em Entre as várias ponderações que podem cor/raça no questionário do censo Escolar, nossa cultura é dotar os conteúdos por ela ser desenvolvidas a partir da análise das evitando qualquer possibilidade de discri- oferecidos de referenciais africanos positi- informações produzidas pelo Censo Esco- minação. vos; é trabalhar com os alunos a valorização lar, alguns dados chamam a atenção. Um Outra constatação é que, no Ensino de protagonistas negros, buscando produzir deles é que, à medida que a escolaridade Médio, enquanto a população branca um efeito positivo na construção da identi- avança, aumenta o número dos que não aumenta (50,7%), diminui a presença dade desses príncipes e princesas brasilei- desejam declarar sua cor/raça. É preciso negra/parda (47,6%). A pergunta que não ros afrodescendentes. Esse é um caminho lembrar que durante o período da escravi- cala é: quantos conseguirão chegar ao Ensi- para podermos contar outras histórias, dão, os negros escravizados trabalhavam no Superior? essas também com final feliz. E delas um de sol a sol, recebendo uma alimentação Outro fato importante é que, somando dia se poderá dizer: de péssima qualidade, não podiam prati- os resultados referentes à raça/cor preta e São lindas, geralmente de pele negra. car a própria religião nem a própria lín- parda, indicativa da afrodescendência, Algumas ainda crianças, outras mal entradas gua; suas festas e rituais eram proibidos; encontramos: na adolescência... 22 23
  • 14. Que fada é essa? A Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque costumados à imagem européia de sua raça e capaz de sentimentos menos das fadas que ilustram os contos desde o nobres, fosse uma espécie de traição a uma início da literatura infantil, fica difícil nos concepção há muito enraizada em nosso LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 descolarmos da figura da fada sempre tão imaginário. loura, tão esguia e tão doce que nos foi No entanto, as histórias clássicas, os imposta, e conseguirmos contextualizá-la mitos gregos, as lendas dos mais variados nos contos das diferentes culturas. países nos falam o tempo todo das altera- Nas diferentes cidades em que dou ofici- ções físicas e de humor dessa figura atem- nas de contadores de histórias, costumo poral que habita nossa imaginação. contar uma história escrita por Gail Harley, Não podemos nos esquecer que, no clás- chamada O Baú das Histórias. Trata-se de sico A Bela Adormecida, foi uma fada, e não uma antiga história da cultura yorubá, que uma bruxa, que lançou sobre uma recém- nos conta como Ananse, o homem aranha, nascida uma sentença de morte por não ter conseguiu comprar de Nyame, o Deus do sido convidada para o banquete de seu Céu, histórias que ficavam encerradas den- batizado; que na história As fadas, recolhida tro de um baú, para espalhá-las pelo mundo. por Perrault, a mesma fada que deu a uma PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR Para tanto, o Deus lhe impõs três tarefas, menina o dom de, ao falar, verter pela boca entre elas, que ele lhe trouxesse Moatia, “a rosas e pérolas, condenou outra a cuspir fada que nenhum homem viu”. sapos, escorpiões e toda sorte de animais Após contá-la, costumo passar o vídeo da peçonhentos a cada vez que pronunciasse história. A reação invariavelmente é a mesma: uma palavra. Melusina, que se transformava como, uma fada negra? “Como, uma fada em serpente a cada sábado, Morgana, ora tão diferente?...uma fada que se irrita?... jovem, ora velha, as Moiras, implacáveis que ameaça bater numa boneca de piche?” donas do destino temidas até por Zeus, são Embora eu enfatize a procedência afri- apenas alguns exemplos das oscilações de cana da história enquanto a narro, embora humor e das transformações das quais essas a narrativa esteja pontuada por palavras criaturas mágicas são capazes. estranhas e conserve as onomatopéias Antero de Quental, em seu poema As características dos contos yorubá, a apari- fadas, nos fala sobre elas e nos adverte: ção de Moatia - trajada com uma saia de palha, com um turbante na cabeça e desa- (...) Quem as ofende...cautela! fiando uma boneca de piche que não res- A mais risonha, a mais bela, ponde suas perguntas - sempre causa estra- Torna-se logo tão má, nhamento. É como que se a imagem de Tão cruel, tão vingativa! 24 25 uma fada humanizada, com características É inimiga agressiva,
  • 15. A donzela, o sapo e o filho do chefe H É serpente que ali está! Nesta revista, temos uma excelente opor- Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque E têm vinganças terríveis! tunidade de refletir não só sobre a natureza Semeiam coisas horríveis, das fadas, mas também sobre o que faz com Que nascem logo do chão... que essas histórias se espalhem, quase que Línguas de fogo que estalam! por magia, por todos os cantos do mundo, Sapos com asas, que falam! ganhando em cada canto um novo colorido, Um anão preto! Um dragão! uma nova roupagem, um novo cenário, mas avia uma vez um chefe africano pegou água no poço, nem lenha na floresta. falando sempre, embora com os sotaques que tinha duas mulheres e com cada uma Então ela voltou para fazer esses traba- Ou deitam sortes na gente... mais variados, das necessidades e sentimen- delas tinha uma filha. lhos e o sapo passou o dia inteiro esperan- LEITURASCOMPARTILHADAS | ANO 9 | FASCÍCULO 19 O nariz faz-se serpente, tos mais básicos do ser humano. Aconteceu que, um dia, a primeira do por ela. A dar pulos, a crescer... mulher morreu, e sua filha teve de ir morar Ao entardecer, assim que acabou todo o É-se morcego ou veado... Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque é com a segunda mulher, que não gostava serviço, ela correu para o poço e lá estava o E anda-se assim encantado, psicóloga, especialista em Literatura Infanto- nem um pouquinho dela e logo passou a velho sapo, que foi logo dizendo: Enquanto a fada quiser! (...) juvenil (UFF) e Leitura (PUC-Rio) e contadora maltratá-la de todas as maneiras. – Tsc, tsc. Esperei por você desde de de histórias do Confabulando. Era ela quem cuidava dos animais, tirava manhã e você não veio. água do poço, cortava lenha, e como se – Velho amigo – respondeu a menina - tudo isso não bastasse, ainda tinha de moer eu sou uma escrava. Minha mãe morreu e o tuwo1 e o fura2, e dar de comer a toda a eu me mudei para a cabana da outra mulher família. O pior, é que depois de todo o tra- de meu pai. Ela me faz trabalhar sem parar balho feito, a madrasta só permitia que ela e só me dá restos de comida para comer. comesse as raspas queimadas que sobravam O sapo, então, disse: no fundo da panela. – Menina, dê-me sua mão. PRINCESAS AFRICANAS | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR Sem nada poder fazer, a menina sentava- Ela estendeu-lhe a mão e pularam jun- se perto de um poço e comia o que conse- tos para dentro d’água. guia. O resto, jogava para os sapos que Aí, ele a levantou, engoliu-a e depois a moravam dentro d’água. vomitou. E assim aconteceu dia após dia, até que – Boa gente – disse ele para os outros ao lugar chegaram mensageiros de uma sapos - Olhem e digam-me. Ela está reta ou aldeia vizinha, anunciando que haveria uma torta? grande festa no dia do Festival da Colheita. Os sapos se entreolharam e responde- Nesta tarde, quando ela foi para o poço ram: “Ela está torta para a esquerda”. comer as raspas que a madrasta lhe dera, Então ele novamente a levantou, engo- ela encontrou um enorme sapo, que foi liu-a, vomitou-a e novamente perguntou logo dizendo: aos outros sapos: – Donzela, amanhã é o dia do Festival. – Boa gente. Olhem e digam-me. Ela Venha até aqui assim que o sol raiar e nós a está reta ou torta? ajudaremos. – Ela está bem reta agora – coaxaram os Na manhã seguinte, porém, quando ela sapos. estava indo para o poço, a meia irmã lhe disse: Então ele vomitou roupas, pulseiras, – Volte aqui, sua menina inútil! Você anéis e um par de sapatos, um de prata e 26 27 não mexeu o tuwo, nem moeu o fura, nem outro de ouro, e disse: