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Baixar para ler offline
— Vamos partir por ares nunca antes navegados — infor-
mou o Ch’i lin.— Preparem o espírito e o corpo para o que
der e vier. E lembrem-se de que, sendo os perigos dife-
rentes, diferentes devem ser as maneiras de os enfrentar.
Mantenham-se unidos, mantenham a calma e procurem
fazer a escolha mais adequada, a escolha mais inteligente
para cada caso.
Aqueles conselhos, se eram sábios, também eram
inquietantes. Noutras circunstâncias, Matilde, Rodrigo
e Luís talvez se assustassem. Mas, deslizando a grande
velocidade por entre nuvens que, ora tapavam o sol, ora
refletiam raios dourados e ofuscantes, não conseguiam
pensar. Sentiam uma espécie de vertigem mental em que
havia entusiasmo e pasmo. Pouco depois, foram arreba-
tados por um turbilhão de ventos em remoinho que de-
pressa se transformaram num tufão dos mais violentos.
— Socorro! Socorro!
Por muito que gritassem, a voz não lhes saía da gar-
ganta, mas pior do que isso foi verem o carro e o Ch’i lin
desvanecerem-se. Entregues à sua sorte, flutuavam agora
entre o céu e a terra. Ou seria entre o hoje e o amanhã?
Ou entre o mundo real e o mundo virtual?
Descoberta inesperada
jantar estava ótimo, mas Rodrigo já tinha comido
tudo, sentia-se empanturrado e gostaria de se levantar
da mesa. O problema era ser visita naquela quinta de
Freixo de Espada à Cinta que pertencia a uns amigos dos
pais. Ainda lançou um olhar à mãe, a ver se lhe dava
ordem de marcha, só que ela, ocupada com a papa do
irmão mais novo, não captou a mensagem. Quanto ao
pai, conversava animadamente com os donos da casa
sobre um tal Jorge Álvares que nascera ali na terra, há
500 anos, e tinha uma estátua no largo principal. Todos
pareciam admirá-lo imenso e não se cansavam de repe-
tir frases do tipo: «Devia ser um homem extraordinário,
porque partiu pobre, de mãos a abanar, e conseguiu fa-
zer fortuna.» «Extraordinário e corajoso. Lembrem-se de
que viajar a bordo das naus rumo à Índia e à China não
era nada fácil.» «Pois não. Vocês já pensaram nos riscos
que corriam? Meses sem fim a bordo de navios sem con-
forto, falta de mantimentos, ataques de inimigos… E a
natureza em fúria: ondas gigantescas, relâmpagos que
incendiavam navios, ventos ciclónicos…»
As palavras que o dono da casa acabava de pronunciar
tiveram uma espécie de efeito mágico, pois rebentou-lhes
em cima uma inesperada tempestade violentíssima, com
raios a atravessar o céu de uma ponta à outra, trovões
ensurdecedores e uma carga de água monumental.
Por um instante fez-se silêncio, depois o bebé come-
çou a choramingar e alguém comentou, na brincadeira:
— Se em vez de estarmos debaixo de telha estivésse-
mos a bordo de uma nau seria bem pior…
E de novo as palavras pareceram desagradar aos céus,
porque caiu um raio no jardim, ouviu-se outro tipo de
estrondo e faltou a luz.
— Ora esta, ora esta…
O dono da casa precipitou-se para o quadro da eletri-
cidade e regressou desiludido.
— Nada feito! É geral.
De facto, através da janela, as únicas luzes que se
vislumbravam eram as da natureza que continuava a
festejar a primavera de forma desconcertante, pois brin-
dava os habitantes da zona com raios azuis e roxos a um
ritmo alucinante.
O bebé agora berrava a plenos pulmões, a mãe vas-
culhava no saco à procura da chupeta, os donos da casa
foram buscar velas. Pouco depois, a sala de jantar pare-
cia uma sala de outros tempos, com zonas de sombras
e recantos misteriosos. Os copos rebrilhavam de outra
maneira, os talheres faiscavam como se fossem de prata,
e os bolos, aqueles belos bolos já meio comidos, muda-
ram de cor. Rodrigo, embora empanturrado, não resis-
tiu e serviu-se de mais uma fatia do pudim que passara
do tom amarelo inicial a um castanho acobreado. Não
fazia frio, mas o temporal pedia lume. Felizmente, a la-
reira era na sala ao lado. Alguém propôs mudarem-se
para lá, toda a gente se levantou e ele, Rodrigo, ficou li-
vre para ir para onde lhe apetecesse. Convencido de que
podia lançar-se sobre o computador, estabelecer contac-
tos via internet e esquecer a tristeza que há uma semana
lhe pesava sobre o coração, esgueirou-se para a bibliote-
ca da casa onde o tinha deixado. Mas, azar dos azares, o
computador estava sem bateria e a falta de eletricidade
impedia-o de o pôr a carregar.
— Era só o que faltava! — resmungou. — Não me fal-
tava mais nada!
Aborrecido, deixou-se cair num sofá de cabedal e re-
costou a cabeça para trás. Lá fora, a tempestade con-
tinuava num desvario de rajadas violentas, trovões pa-
vorosos e relâmpagos sucessivos. De súbito, um clarão
ainda mais intenso iluminou a parede em frente e fez
rebrilhar a lombada de um livro grosso arrumado na
última prateleira da estante, junto ao teto. Por um ins-
tante, as letras que o identificavam pareceram saltar da
lombada e rodopiar, soltas, até terminarem reduzidas a
partículas luminosas.
Rodrigo pestanejou, perturbado com o estranho fe-
nómeno.
— Hum… deve ter sido uma ilusão de ótica!
No minuto seguinte, os clarões de um raio inci-
diram sobre a estante de tal modo que ele quase só
viu as mesmas letras a saltarem do lugar e descaírem
de mansinho até ao chão, desta vez afogando-se no ta-
pete e espalhando em volta respingos gordos, em tons
de ouro. Surpreendido, levantou-se do sofá e remexeu
no tapete.
«Talvez seja um livro velho, com letras mal coladas.
Se calhar soltaram-se devido às vibrações da tempesta-
de», pensou.
Como não encontrou nada no tapete, ergueu os
olhos para o livro e quis pegar-lhe. Puxou o pequeno
escadote de madeira que lhe permitiria alcançá-lo, subiu
rapidamente e voltou para baixo com um volume grosso
de páginas amarelecidas, que à luz da vela adquiriam um
reflexo fabuloso. Tentou ler, mas nem o título conseguiu
decifrar.
— Escrita antiga, numa língua que desconheço. Im-
possível!
A única coisa que pôde verificar foi que a inscrição da
lombada se encontrava intacta.
— Tudo ilusão de ótica — concluiu.
Preparava-se para repor o livro na estante quando de
entre as páginas escorregou uma folha de papel de rebor-
do comido pelas traças. Escrita à mão, num português
de outros tempos, em todo o caso decifrável. Curioso,
chegou-se mais para junto da vela que ardia em cima da
mesa e tentou ler a mensagem que alguém ali guardara
ou escondera em tempos. À medida que ia percorren-
do as linhas e o texto ganhava sentido, a curiosidade
aumentava.
— Que engraçado! Que coincidência isto vir-me pa-
rar às mãos assim, sem mais nem menos!
Um último relâmpago e os trovões que se afastavam
levando a chuva com eles deixaram-no pensativo.
«Há coisas que não se entendem, mas têm piada.
Será que descobri esta carta por acaso? Ou chegou até
mim devido ao magnetismo da tempestade?»
Voltou a trepar ao escadote, repôs o livro no lugar e
dirigiu-se ao quarto, de computador debaixo do braço,
vela na mão direita, a carta bem segura na esquerda por-
que queria lê-la outra vez e com calma.
O mistério das garrafas
Jorge Álvares
epois de ter lido e relido a carta à luz da vela,
Rodrigo pousou-a na mesa de cabeceira e pensou em
voz alta.
— Bom, vamos lá ver o que consegui ficar a saber
com certeza absoluta.
Contando pelos dedos, prosseguiu:
— Primeiro, a carta foi escrita por um homem cha-
mado Samuel Andrade que também era daqui de Freixo
de Espada à Cinta e tinha cá família.
«Segundo, conhecia o Jorge Álvares e estavam am-
bos a fazer negócios em Patane, terra de que eu nunca
ouvi falar, mas pela conversa percebe-se que fica entre
a Índia e a China.
«Terceiro, nesta carta, que o Samuel mandou aos
pais em 1552, fala de um jantar em casa do seu amigo
Jorge Álvares, que pelos vistos ficava à beira-mar.
«Quarto, nesse jantar os convidados eram todos na-
vegadores, homens de negócios portugueses e estran-
geiros, e também lá estava um adivinho chinês.
Ao chegar a este ponto, encolheu os ombros e con-
tinuou a falar consigo próprio.
— O problema é que o mais interessante não se con-
segue perceber bem porque as letras estão desbotadas e
algumas até desapareceram. Deixa cá ver em contraluz.
Ergueu o papel e colocou-o em frente da chama da
vela, com cuidado para não o queimar. Não adiantou, pois
só pôde ver claramente palavras que já decifrara antes.
— Prenda especial… garrafas de loiça… ele disse vão
viajar para várias partes do mundo e durar séculos…
ocultar tesouro… pó de fortun.
Entretido com aquela espécie de enigma que lhe es-
picaçara a curiosidade, não se apercebeu de que a tem-
pestade passara, a eletricidade voltara, e o candeeiro
do teto se encontrava de novo aceso. Passeando de um
lado para o outro em cima do tapete, pôs-se a magicar.
— Tesouro, tesouro, que tesouro será? Moedas de
ouro ocultas em garrafas de loiça? Hum… impossível
porque tilintariam. Será pó? Mas aqui diz «pó de for-
tun». Pó de fortun… Não estou a ver o que seja. E quem
terá dito que as garrafas iam viajar por todo o mundo e
durar séculos? O adivinho chinês?
Sem resposta para as suas perguntas, estendeu-se
ao comprido na cama. Só então reparou nas lâmpa-
das acesas e logo se levantou de um salto para ligar o
computador.
— Se as garrafas viajaram para várias partes do
mundo, talvez uma tenha vindo parar aqui, e eu, com
sorte, seja capaz de encontrar o tal tesouro ou o tal pó
de fortun.
Ao ligar o computador, levantou-se-lhe uma dúvida.
— Para fazer a pesquisa, o que hei-de escrever?
Ocorreu-lhe que o jantar em casa de Jorge Álvares
pudesse ter sido uma festa de anos e as garrafas de loiça,
prendas especiais que lhe oferecessem.
— Se calhar, cheias de vinho ou de outras bebidas
exóticas daquelas bandas.
Optou então por escrever «garrafas Jorge Álvares» no
motor de busca. O resultado não se fez esperar. No ecrã
apareceram imediatamente uma data de informações
que começavam por «Fundação Jorge Álvares». Clicou e
logo surgiram fotografias de uma garrafa de loiça branca
com desenhos azuis.
— Cá está! Acho que acertei! Vamos lá ver aonde é
que esta pesquisa me leva.
Pouco depois já sabia muito mais sobre o assunto.
— Pelos vistos, enganei-me. As garrafas foram pren-
das que o próprio dono da casa ofereceu aos convidados
naquele jantar.
A prova estava numa frase inscrita à volta do gargalo.
Faltavam letras, mas percebia-se o que significavam:
Isto mandou fazer Jorge Alvrz na era de 1552 reina.
— Não há qualquer dúvida, e até a data coincide com
a da carta, 1552.
O texto do site explicava que pelo menos nove gar-
rafas tinham resistido ao tempo e se encontravam espa-
lhadas por museus e casas particulares de várias partes
do mundo.
— Ou seja, se foi o adivinho a fazer as previsões, acer-
tou. Agora só me falta descobrir se alguma delas ainda
esconde um tesouro e onde é que essa está.
Concentrado no ecrã, percebeu o que a palavra reina
fazia no meio daquilo tudo porque um historiador dera-
-se ao trabalho de acrescentar que a frase pintada à volta
do gargalo tinha ficado incompleta por falta de espaço.
Na opinião desse historiador, o resto só podia ser «rei-
nando em Portugal D. João III».
— O que para mim pouca importância tem. Que-
ro é pôr-me em campo e descobrir o tesouro escondido
dentro de uma garrafa, na noite em que Jorge Álvares
deu uma festa em sua casa, lá para as bandas do Sol
nascente.
Sentado diante do computador, esqueceu por mo-
mentos aquele enredo porque tomou consciência de que
se sentia leve e bem-disposto.
— Realmente, quando uma pessoa está entretida, es-
quece os problemas.
Levou a mão à camisola e sacudiu-a como se o gesto
lhe permitisse afastar para longe a lembrança da cole-
ga Marina. Tinha gostado dela de uma maneira especial
desde o primeiro dia de aulas, andavam sempre juntos
com um grupo de amigos, e afinal na semana antes das
férias da Páscoa a estúpida resolvera mudar de grupo.
Não explicara porquê, mas ele sabia que tinha sido por
causa do parvo do Júlio, sempre a armar em bom, a di-
zer piadas, a segui-la com olhos faiscantes. Se pudesse,
esmurrava-o até o pôr a sangrar do nariz. Infelizmente,
não tinha tido oportunidade, e entretanto meteram-se
as férias.
— Que semana horrível!
Na viagem com os pais até à quinta de Freixo de Es-
pada à Cinta quase não abrira a boca porque sentia um
peso no peito. Ao jantar continuara acabrunhado, mas
agora, à conta daquela carta antiquíssima, quase esque-
cera a Marina, o Júlio e a traição.
— Tenho de agradecer ao Jorge Álvares, ao Samuel
Andrade e ao adivinho chinês! Ora, qual é melhor manei-
ra de agradecer? Encontrar o tesouro de que fala a carta!
Como na internet havia uma lista dos locais onde
se encontravam as garrafas Jorge Álvares, começou por
pensar que seria fácil. Mas, depois de identificar esses
locais, desanimou. Três estavam em Portugal, mas as
outras encontravam-se espalhadas pelos quatro cantos
do mundo.
— Paris, Londres, Brasil, Estados Unidos, Irão… E ain-
da por cima todas em museus ou em coleções particula-
res. Se assim é, valem muito dinheiro e com certeza estão
muito bem guardadas. Não há qualquer hipótese de eu
as examinar.
Nesse preciso momento, que surpresa! A cara da
Matilde, a prima preferida com quem habitualmente
conversava através do skype, apareceu no ecrã.
— Ainda bem! Estava mesmo a precisar de companhia!
Clicou no rato e o ecrã ficou totalmente preenchido
pela cara risonha que o saudava.
— Olá, Rodrigo!
— Olá!
— Onde estás?
— Nem queiras saber.
— Ai quero, quero.
— Então ouve. É uma história incrível.
Preparava-se para fazer o relato quando o Luís surgiu
no ecrã, a pedir para entrar na conversa. Novos cliques
e o ecrã ficou dividido ao meio: de um lado, a Matilde;
do outro, o Luís, que também se mostrou interessado
na história incrível que o Rodrigo ansiava contar. E ele
fê-lo escolhendo frases expressivas e incluindo o pro-
jeto louco de ir em busca das garrafas espalhadas pelo
mundo, a fim de descobrir se guardavam ou não um
tesouro.
Luís riu-se com vontade.
— Tens cada ideia… Só tu é que te lembravas de uma
dessas!
Em vez de concordar, Rodrigo decidiu fingir que se
mantinha na sua.
— Sabes muito bem que sempre gostei de missões
impossíveis!
— Eu alinho — disse a Matilde meio a brincar, meio
a sério.
— Nesse caso, eu também — disse o Luís no mesmo
tom. — E o melhor é começarmos pelo museu do Irão,
que fica perto e deve ter lá empregados à nossa espe-
ra para abrirem as vitrines e nos deixarem remexer em
tudo o que quisermos.
Matilde interrompeu-o.
— Eu por mim preferia partir já para Londres ou Paris.
E até tenho a certeza de que encontramos o tesouro.
O problema é que pode ser só pó de fortun.
Rodrigo riu-se, mas depois perguntou:
— Olhem lá, algum de vocês sabe o que é pó de fortun?
Luís deu uma gargalhada.
— Com esse nome, palpita-me que seja uma espécie
de areia malcheirosa, ou então dentes de macaco moí-
dos. E se foram guardados na garrafa há mais de quatro-
centos anos, nem imagino o pivete! Ah! Ah! Ah!
A patetice caiu-lhe no goto e por instantes desapare-
ceu de cena. Quando voltou, a Matilde acabava de intro-
duzir um elemento novo na conversa.
— Pensando bem, se calhar falta aí uma letra. Não
é pó de fortun, é pó de fortuna. E, nesse caso, talvez seja
ouro em pó. Que dizem?
— Que sim! — responderam os rapazes.
Matilde ficou pensativa uns segundos e reconsiderou.
— A palavra fortuna tem dois significados possíveis.
Pode ser riqueza ou…
— Sorte! — disseram os três em coro.
Sem entenderem porquê, as caras sumiram-se e de-
ram lugar à imagem de uma das garrafas de loiça pinta-
das de azul. E por acaso até era a que pertencia à Funda-
ção Jorge Álvares. Só que agora aparecia-lhes ampliada
e podiam ver melhor os desenhos. Perceberam que um
deles representava a figura de um animal estranho, gé-
nero dragão, com pernas finas, nariz e olhos redondos
e uma haste que lhe saía da testa e devia ser mole, pois
agitava-se suavemente.
— O que é isto? — balbuciaram, estupefactos.
— Sou um Ch’i lin — respondeu-lhes a figura abrindo
a boca enorme e sorridente. — Ch’i lin… Ch’i lin.
Tinha uma voz doce, que lembrava sinos, sinos pe-
quenos ou sopro de flautas, como se, em vez de falar,
emitisse acordes musicais estonteantes.
— Ch’i lin… Ch’i lin…
Já nenhum deles sabia se estava acordado ou a dor-
mir, se aquela voz os deixara zonzos ou se queria emba-
lá-los até mergulharem todos juntos no mesmo sonho.
O Ch’i lin
e o triângulo da força
udos de espanto, aperceberam-se que aquele es-
tranho ser realmente não falava, exprimia-se através de
uma música desconhecida que na cabeça deles se trans-
formava em frases com significado.
— Estou aqui porque vocês me chamaram.
— Nós?
— Sim. Quando olharam os três ao mesmo tempo
para a minha imagem pintada na garrafa e disseram a pa-
lavra sorte, formaram um triângulo de força chamativa.
— Hum?
O Ch’i lin como que dançou no ecrã e prosseguiu:
— Os triângulos de força são raros e têm efeitos
especiais.
— E como é que se formam? — perguntou a Matilde.
— Quando se reúnem três elementos muito podero-
sos: amizade, curiosidade, vontade.
— Isso não nos falta — disse o Luís em surdina.
— Eu sei. É por isso que aqui estou.
— Vais revelar-nos o mistério da garrafa?
— Não, porque não me compete. As descobertas exi-
gem esforço por parte do descobridor. Se se sentem fir-
mes no desejo de desvendar o mistério, se estão dispos-
tos a enfrentar as três provas necessárias para satisfazer
a vossa curiosidade, o que posso é ajudá-los a iniciar o
percurso.
— Como?
— Conduzindo-os ao ponto de partida e deixando
que sejam vocês a percorrer os caminhos que permitem
atingir o ponto de chegada, a meta, o lugar onde tudo
se revelará!
Calou-se e eles ficaram em silêncio. À volta de cada
um adensara-se uma bolha de escuridão em que brilha-
va apenas a figura azul do Ch’i lin ondulante, repetindo
no seu tom brando:
— Querem vir comigo? Querem vir comigo?
— Queremos — responderam por fim, a uma só voz.
No mesmo instante foram sugados para bordo de
um carro de luz atrelado ao Ch’i lin, que entretanto mu-
dara de aspeto. Em vez de ser todo azul, tinha o corpo às
manchas de várias cores e a barriga amarela. Mas a ex-
pressão dos olhos redondos, serena e amável, não metia
medo a ninguém.
— Vamos partir por ares nunca antes navegados —
informou. — Preparem o espírito e o corpo para o que
der e vier. E lembrem-se de que, sendo os perigos dife-
rentes, diferentes devem ser as maneiras de os enfrentar.
Mantenham-se unidos, mantenham a calma e procu-
rem fazer a escolha mais adequada, a escolha mais inte-
ligente para cada caso.
Aqueles conselhos, se eram sábios, também eram
inquietantes. Noutras circunstâncias, talvez se assus-
tassem. Mas, deslizando a grande velocidade por entre
nuvens que, ora tapavam o sol, ora refletiam raios dou-
rados e ofuscantes, não conseguiam pensar em nada.
No entanto, não se sentiam inseguros. Sentiam, isso
sim, uma espécie de vertigem mental em que havia en-
tusiasmo e pasmo. Pouco depois, foram arrebatados por
um turbilhão de ventos em remoinho que depressa se
transformaram num tufão dos mais violentos.
— Socorro! Socorro!
Por muito que gritassem, a voz não lhes saía da gar-
ganta, mas pior do que isso foi verem o carro e o Ch’i lin
desvanecerem-se. Entregues à sua sorte, flutuavam ago-
ra entre o céu e a terra. Ou seria entre o hoje e o ama-
nhã? Ou entre o mundo real e o mundo virtual? Fosse lá
o que fosse, tratava-se certamente do primeiro desafio.
Veio-lhes então à ideia um dos conselhos: mantenham-se
unidos. Matilde, que estava entre os rapazes, abraçou-os
pelos ombros e apertou-os de encontro a si, de modo a
formarem um bloco único.
— Calma! Calma! — dizia o Rodrigo.
— O melhor é não dar luta — gritou o Luís. — Não
se pode lutar contra ventos tão fortes. Segurem-se bem
e deixem-se levar…
Apesar do ruído insuportável da desvairada ventania,
entreouviram as palavras do amigo, compreenderam
que tinha razão, não ofereceram resistência e deixaram-
-se levar como se fossem plumas. O vento enrolava-se
e acabou por tomar a forma de um tubo em espiral.
Girando ao sabor das rajadas, foram perdendo altura
como se escorregassem por uma rampa encaracolada,
que acabou por cuspi-los no mar.
O mergulho obrigou-os a soltarem-se. Dentro de
água, era cada um por si. Esbracejaram para vir à tona e
poder respirar. Ainda completamente atarantados, veri-
ficaram que o tufão se afastava para longe, mas ao longe
crescia uma onda gigantesca.
— Que horror!
— E agora?
Enfrentar desafios
— gora mudamos de tática. Se nos deixarmos
levar pela onda como nos deixámos levar pelo vento,
ela enrola-nos, arrasta-nos e afoga-nos. Temos de mer-
gulhar bem fundo para impedir que a crista nos apanhe
e depois furar a onda no sítio certo.
— E no momento certo. Vamos esperar que a onda
se aproxime e mergulhamos antes que rebente em cima
de nós!
De olhos postos na massa de água que se erguia amea-
çadora, procuravam manter-se à tona e controlar a res-
piração para não perder o fôlego.
«Calma! Calma!», dizia cada um a si próprio. «Calma!»
Quando o caracol da rebentação já estava quase for-
mado, gritaram uns aos outros: «Agora!». E então enche-
ram os pulmões de ar, mergulharam com determinação
e aguentaram-se o máximo tempo possível antes de vir
à tona, para o poderem fazer com segurança. Correu
tudo bem. A onda já lá ia, desfeita em espuma, a avançar
em direção a uma tira de areia branca. Não foi preciso
combinarem o que fazer a seguir: nadaram todos para
a praia, tendo o cuidado de olhar para trás, não fosse
surgir entretanto outra onda gigantesca. Felizmente não
aconteceu e puderam aproveitar a força da ondulação
para atingirem terra. Mal pisaram o areal, ergueram-se
ofegantes e afastaram-se da beira-mar aos tropeções.
Adiante, estenderam-se na areia seca, exaustos do es-
forço, mas contentíssimos por terem escapado. Durante
alguns minutos não trocaram palavra, nem levantaram
a cabeça. Quem os veio despertar do torpor morno que
lhes tinha tomado conta do corpo e do espírito foi uma
tartaruga enorme, de carapaça rugosa, que avançava pa-
chorrenta, deixando atrás de si um sulco grosso a assi-
nalar a passagem pelo areal.
— Onde é que estamos? — perguntou o Luís olhando
em volta.
— Não faço ideia.
— Nem eu.
Nas três cabeças pairavam outras dúvidas demasiado
inquietantes para serem formuladas em voz alta. Teriam
sido lançados numa ilha deserta perdida no oceano?
Para lá do maciço de árvores que avistavam haveria gen-
te? E, se houvesse, seria gente de bem, pronta a ajudá-
-los? Ou iam tratá-los muito mal? Quanto a animais,
além da tartaruga e dos pássaros que esvoaçavam sobre
as árvores, que outras espécies se arriscavam a encon-
trar? Mansas ou ferozes?
Muito quietos, debateram-se com uma dúvida mais
profunda: afinal de contas, tudo o que lhes acontecera
desde que se tinham reunido a conversar sobre as garrafas
Jorge Álvares seria real ou não passaria de um sonho exó-
tico que os três partilhavam por motivos inexplicáveis?
Sem saberem o que pensar, ergueram-se a custo e
dirigiram-se à zona do arvoredo na intenção de desco-
brir o que havia do lado de lá. Mas o cansaço e o peso da
roupa molhada obrigavam-nos a caminhar devagarinho.
E, talvez devido a uma ilusão, quanto mais andavam,
mais o arvoredo lhes parecia distante. De nariz no ar e
sapatos na mão, nenhum deles reparava no sítio onde
punha os pés. A certa altura, Rodrigo deu um berro:
— Aiii!
Tropeçara, caíra e gritava agarrado ao pé esquerdo.
— Ai! Aleijei-me!
— Na areia?
— Não. Tropecei numa coisa dura.
— Deve ser uma pedra.
— Se for, é bicuda e afiada.
Luís e Matilde olharam para baixo e ambos captaram
na areia um reflexo cintilante que os levou a ajoelha-
rem-se e a escavar em volta.
— Olha o que te fez tropeçar!
Maravilhados, desenterraram um punhal de mode-
lo antiquíssimo e cabo de prata cravejado de esmeral-
das e rubis.
— Uma arma — disseram os rapazes.
— Arma? Isto é uma joia! — atalhou Matilde.
— Já viram o tamanho das pedras preciosas? Duvido que
alguém alguma vez tenha lutado com isto. Devia ser um
punhal para trazer à cintura em dias de festa.
O inesperado da descoberta travou-lhes a marcha e
ficaram ali a observar a peça valiosíssima que tinham de-
senterrado.
O céu, ainda há pouco limpo, começou a cobrir-se
de nuvens, primeiro brancas, depois cinzentas, a seguir
negras. O mar tomou a cor de chumbo dos dias maus.
— Vem aí outra bruta tempestade.
— Temos de nos abrigar.
— Mas onde?
Como já havia faíscas por entre as nuvens, desataram
a correr para o arvoredo. De caminho, porém, lembra-
ram-se de que se caíssem raios era perigoso estarem de-
baixo de uma árvore. Ora, os raios não se fizeram esperar.
Uns atrás dos outros, caíam cada vez mais perto e a uma
velocidade aterradora.
— E não chove — balbuciou o Rodrigo. — Trovoada
seca é pior…
O ar carregado de eletricidade, e eles ali, sem proteção
possível, completamente desamparados. Matilde cravara
os dedos no cabo do punhal com tanta força, que a mão
lhe doía, mas o medo de ser atingida por uma faísca era
mais forte do que a dor.
— É melhor deitarmo-nos ao comprido, porque
em pé podemos funcionar como para-raios e morrer
fulminados!
Não foi preciso repetir, pois no mesmo instante es-
tenderam-se todos na areia. Matilde continuava agar-
rada ao punhal, Rodrigo reparou e deu-lhe um grito:
— O metal atrai raios! Atira isso fora!
Ela obedeceu de imediato. O magnífico punhal,
com anos e anos de existência, mais o seu cabo de
prata maciça cravejado de pedras preciosas, voou para
longe e espetou-se na areia. Minutos depois desapare-
ceu, fulminado por uma chuva de raios. No chão ficou
apenas uma mancha de líquido escuro que a areia ab-
sorveu prontamente. E eles num sufoco a pensar que
podiam ter tido o mesmo destino. Não tardou que as
nuvens negras se afastassem, para dar lugar a nuvens
brancas e cinzentas, entre as quais brilhou um raio de
luz azulada.
— O Ch’i lin! O Ch’i lin!
De facto, vinha lá o Ch’i lin e o carro onde tinham
viajado.
— Vem-nos buscar! Vem-nos buscar!
Não se enganavam. A música que lembrava sinos e
flautas voltou a ressoar-lhes na cabeça e a transformar-
-se em palavras muito nítidas.
— Terminaram as provas. Foram três e das três saí-
ram vencedores, porque procederam com sabedoria.
Contra o tufão, souberam que não podiam lutar. Con-
tra a onda, souberam que a deviam furar. Contra o
raio, souberam que a peça valiosa tinham de sacrificar.
Eles queriam responder, mas gaguejavam, atrapa-
lhados.
O Ch’i lin reforçou os elogios:
— Como enfrentaram e venceram a prova do ar,
a prova da água e a prova do fogo, pode considerar-se
que o percurso está completo. Vou levá-los ao lugar
onde tudo se revelará.
Outros espaços,
outros tempos
viagem foi rápida, mas quando começaram a per-
der altura perceberam que tinham ido para muito longe.
— Que engraçado, aqui é tudo tão diferente!
De facto, a paisagem não tinha nada a ver com aqui-
lo a que estavam habituados. A zona era de penínsulas
esguias com grandes recortes, ilhas, ilhotas e ilhéus co-
bertos de vegetação cerrada, exuberante, em tons inima-
gináveis de verde. As casas que se avistavam por entre a
folhagem exibiam materiais de construção e formatos
pouco vulgares. No mar calmo, balançavam navios an-
tigos de todos os tamanhos, muitos com grandes velas
de esteira, alguns com velas de pano. A atmosfera era
quente e húmida.
O Ch’i lin transportara-os no tempo, rumo a um
país longínquo.
— Preparem-se para aterrar no jardim da casa de
Jorge Álvares.
— O das garrafas?
— Sim.
— Vamos conhecê-lo?
— De certo modo. Vocês vão conhecê-lo, mas ele
nunca suspeitará de que estiveram presentes.
— Não percebo.
— Pois é simples. Vou instalá-los numa bolha invi-
sível e à prova de som, para que possam ver sem serem
vistos e falar sem serem ouvidos. Mas, atenção: o tempo
que têm para desvendar o mistério que vos intrigou é li-
mitado. Ao fim de uma hora, a bolha começa a desfazer-
-se. Em poucos minutos desaparece e deixa-vos à mostra.
— Isso é um problema?
— Sim, devido à desconfiança que vão provocar. No
tempo de Jorge Álvares nunca ninguém viu pessoas ves-
tidas como vocês se vestem, penteadas como vocês se
penteiam, calçadas como vocês se calçam e até a falar
como vocês falam. Por isso, se vos virem, pensam que
são feiticeiros ou demónios, com certeza prendem-vos e
o mais certo é matarem-vos. Tenham cuidado e fiquem
atentos ao relógio. Poucos minutos de atraso podem ser
fatais. Mal se cumpra a hora, venham ter comigo.
— Aonde?
— Ao recanto do jardim onde vos deixo.
O jardim não era muito grande, mas era muito bo-
nito. Cheio de flores exóticas, palmeiras e árvores fron-
dosas, de raízes aéreas, cujos ramos cantavam ao som
do vento. A terra estava totalmente coberta por um au-
têntico tapete de verdura. Por toda a parte esvoaçavam
borboletas amarelas, azuis, cor de laranja ou às riscas
e pintas que formavam desenhos geométricos. Ao fun-
do do jardim havia um ancoradouro privativo onde se
alinhavam vários navios. A casa, semi-oculta pelas co-
pas das árvores, fora construída em madeira sobre esta-
cas, tinha uma varanda larga e telhado de palha grossa.
A tarde caía, o sol distribuía generosamente reflexos de
oiro pela terra e pelo mar.
Encantados com a beleza quase mágica do ambiente,
permaneceram alguns minutos no jardim a observar o
que os rodeava, a ouvir o canto dos pássaros àquela hora
de regresso aos ninhos e a ouvir também as vozes e os
risos que chegavam até eles através das janelas da casa.
Janelas sem vidros, protegidas por esteiras finíssimas.
As vozes eram exclusivamente masculinas e a conversa
decorria em várias línguas.
— Estamos aqui muito bem, mas, se queremos ver
o que se passa lá dentro, é melhor despacharmo-nos —
disse o Luís.
Os outros concordaram e encaminharam-se para a
escadinha de madeira que dava acesso à varanda. A bo-
lha da invisibilidade obrigava-os a manterem-se próxi-
mos uns dos outros, mas oferecia espaço suficiente para
se movimentarem sem atropelos.
A varanda comunicava com uma sala grande onde se
encontravam oito homens reunidos em torno de uma
grande mesa retangular. A luz do fim do dia, filtrada pe-
las cortinas de esteira, tornava o ambiente um pouco
sombrio. Ainda assim, perceberam de imediato que en-
tre aqueles homens havia três portugueses, três chineses
e dois cujas terras de origem não sabiam identificar.
— Qual será o Jorge Álvares?
Em casa de Jorge Álvares
— dono da casa costuma sentar-se à cabeceira
da mesa.
— Então é aquele ali.
— Tem boa pinta e expressão de inteligente.
Olharam-no, curiosos, mas logo se distraíram por-
que entraram na sala duas mulheres esguias, de cabe-
lo preto muito liso, enfeitado com flores. Envergavam
uma espécie de túnicas de tecido leve, que as cobriam
até aos pés, e transportavam tabuleiros vermelhos com
velas grossas, já acesas. Deslizando em silêncio, distri-
buíram-nas pela mesa e por outros móveis encostados
às paredes e encimados por espelhos. Depois saíram tão
silenciosamente como tinham entrado e a sala ficou tão
bela que mais parecia um cenário de teatro.
Os homens continuaram a conversar e a banque-
tear-se. Em vez de travessas, a comida era servida em
grandes tigelas de loiça que exibiam arroz, legumes va-
riados, camarões, bocados de carne e uns fiapos esbran-
quiçados de aspeto bem apetitoso. Na frente de cada
um, em vez de prato, estava uma tigelinha de loiça, e,
em vez de garfo e faca, pauzinhos como eles já tinham
visto nos restaurantes chineses.
— Estou com fome.
— Também eu.
— Pelos vistos a bolha de invisibilidade deixa passar
os cheiros.
— E o cheiro desta comida é divinal.
— Se provássemos?
Luís ia a estender o braço para a tigela dos fiapos,
Matilde travou-lhe o gesto.
— Não faças isso!
— Porquê?
— Porque podes rebentar a bolha, ou ficar de braço
à mostra.
— Ah! Pois é!
A pena de não provar aquele petisco desvaneceu-se quan-
do um dos portugueses, que acabara de o engolir, gabou:
— Ó Jorge, o teu cozinheiro sabe temperar carne de co-
bra como ninguém. Está óptima!
Luís olhou os amigos, estarrecido.
— Cobra aos fiapos? Que horror! Ainda bem que
não comi.
— Pelos vistos os portugueses que para aqui andam
já se habituaram às comidas da terra!
De facto, Jorge Álvares parecia perfeitamente à von-
tade entre os seus convidados, e os outros que falavam
português também se mostravam ambientadíssimos.
Quem seriam? A resposta não se fez tardar e Rodrigo,
ao ouvir os nomes, ficou arrepiado dos pés à cabeça.
Porque o dono da casa tratou um só pelo nome próprio:
Fernão. Mas a outro, por qualquer motivo, interpelou-o
pelo nome todo, e o nome era Samuel Andrade.
— O homem que escreveu a carta! A carta que eu li!
Que coisa espantosa!
O entusiasmo levara-o a falar altíssimo, sem proble-
ma por ser a bolha à prova de som.
— Deixa lá a carta e cala-te, para ouvirmos o que eles
dizem, senão passa o tempo e ficamos sem saber nada.
De início julgaram quase impossível seguir a conver-
sa porque falavam em várias línguas e às vezes todos ao
mesmo tempo. Foi necessário concentrarem-se, para a
pouco e pouco captarem o essencial.
— Estão a discutir negócios.
— E que negócios! Todos têm navios a circular daqui
para a China, da China para o Japão, do Japão para aqui…
— Para comprar e vender tanta coisa! Vocês ouvi-
ram? Espadas, loiças, móveis, sedas…
— Pshiu… Cala-te.
— Porquê?
— Porque agora estão a falar de ouro e prata.
— Em lingotes.
— E em pó!
— Será o tal pó de fortuna?
A hipótese deixou-os ao rubro e apuraram o ouvido,
mas a conversa de repente tomou outro rumo porque
entrou na sala mais um homem, um homenzarrão de
barba em bico, calças tufadas, chapéu enfeitado de plu-
mas. Vinha com ar apressado e a pedir desculpa pelo
atraso. Jorge Álvares levantou-se para o receber e sau-
dou-o com fortes palmadas nas costas.
— Diogo Pereira, Diogo Pereira! Estava só à tua espe-
ra para oferecer os presentes que encomendei na China!
O recém-chegado tirou o chapéu, cumprimentou
toda a gente, serviu-se de uma bebida que despejou pela
goela abaixo com visível prazer e esfregou as mãos como
quem se sente feliz.
— Ora vamos lá então ver essas prendas!
O dono da casa fez sinal para que o seguissem para
a sala ao lado. Rodrigo e os amigos foram atrás e, num
misto de surpresa e excitação, confirmaram as suspeitas.
Jorge Álvares ia oferecer aos convidados as garrafas
de porcelana azul e branca onde, além de desenhos,
mandara pintar uma frase que incluía o seu nome.
E isso mesmo explicou, comovido:
— Consegui realizar um velho sonho. E olhem que
não foi fácil. Todos vocês sabem que os nossos negócios
com a China estão proibidos…
— Pois é — brincou Samuel. — Mas nós, portugueses,
temos uma habilidade especial para quebrar regras e fu-
rar proibições, não é?
— É… No entanto não deixa de ser arriscado. E eu ar-
risquei. Com a ajuda de certos parceiros, consegui enco-
mendar estas garrafas numa fábrica chinesa de Jiangxi.
Com ar triunfante, pegou numa delas e mostrou
a frase que mandara pintar.
— Ora vejam só o que aqui está escrito!
Os convidados leram em voz alta:
— «Isto mandou fazer Jorge Alvrz na era de 1552
reina.»
— Que tal, hã? É verdade que faltam algumas letras
do meu nome, mas não faz mal. Percebe-se perfeita-
mente que sou eu. E está aí a data que não engana. Fiz a
encomenda num ano que os portugueses se encontram
impedidos de entrar na China. — Era óbvio que a proe-
za o enchia de satisfação. — Eu queria que ficasse escrito
«reinando D. João III», mas o espaço não chegou para
completar a frase. Também não faz mal, porque toda a
gente sabe que no ano 1552 no trono de Portugal está
el-rei D. João III! Ah! Ah! Ah!
— E que na China o imperador é Jiajing da dinastia
Ming! Ih!Ih!Ih!
Quem agora ria era o mais novo dos convidados chi-
neses. Todos acharam graça, todos gabaram as garrafas e
todos giraram em volta da mesa a admirá-las.
— Para mim esta é a mais bonita — disse o Samuel. —
Porque está decorada com peixes e eu adoro peixes!
— Então fica com ela. E vocês escolham à vontade a
que preferirem. Mandei fazer um conjunto para ofere-
cer. Começo pelos maiores amigos, as outras guardo-as
para futuras ocasiões.
A escolha demorou bastante porque hesitavam.
— São belas peças, hã?
— Magníficas!
Dentro da bolha, o trio acompanhava a movimenta-
ção com curiosidade. Qual daqueles homens escolheria
a garrafa que tinha o Ch’i lin pintado no bojo?
O adivinho chinês
m dos chineses, que era bastante mais velho do que
todos os homens presentes no jantar, pouco tinha fala-
do. Já dera várias voltas à sala, observando as garrafas de
loiça com especial atenção. De vez em quando parava,
dizia umas palavrinhas tão baixo que ninguém o ouvia,
e depois estendia as mãos sobre os gargalos e ficava imó-
vel, de olhos fechados, como se tivesse adormecido em
pé. Talvez os companheiros estivessem habituados àque-
las atitudes bizarras porque não lhe prestaram atenção.
Ou talvez não ligassem por se encontrarem entretidos a
escolher a garrafa que queriam de presente. Mas quando
ele elevou a voz, todos se imobilizaram, prontos a ouvi-
-lo no mais respeitoso silêncio.
— Tenho uma informação a dar.
— E nós agradecemos. É uma honra poder contar
com um adivinho chinês entre nós — disse Jorge Álvares.
— Fale, mestre.
— As garrafas em que mandaste pintar o teu nome
vão correr mundo. Para algumas, a vida será curta e ter-
minarão em fragmentos.
— Ou seja, caem ao chão e ficam feitas em cacos —
murmurou o Samuel.
O adivinho ignorou o comentário e continuou a fa-
lar, imperturbável.
— Para outras garrafas a vida será longa. Hão-de
atravessar oceanos e hão-de manter-se intactas ou qua-
se intactas durante séculos. Hão-de passar de mão em
mão, cada vez mais apreciadas, cada vez mais valorizadas
para alegria de quem as tiver em seu poder. No entanto,
uma e só uma ocultará o verdadeiro tesouro que é o pó
da fortuna.
— E qual é? — perguntaram várias vozes em coro.
O adivinho sorriu ao de leve e os olhos adquiriram
uma expressão enigmática.
— Pouco interessa, porque o pó apenas se libertará
do interior da garrafa quando se constituir um triângu-
lo de força capaz de unir o passado e o presente, num
momento único.
— Sempre acreditei nas tuas palavras sábias — disse
o Jorge Álvares. — Regozijo-me com a ideia de que uma
destas minhas garrafas ocultará o pó da fortuna durante
séculos. Se não me beneficia a mim, paciência. Aliás, não
me posso queixar da vida. Tenho sido feliz e bem-sucedi-
do. E hoje mesmo tu próprio me deste mais uma alegria.
Adorei saber que algumas das minhas garrafas, lindas
mas frágeis por serem de loiça, vão resistir ao tempo.
A repetição da palavra tempo funcionou como mar-
telada na cabeça da Matilde, que olhou para o relógio e
ficou aflitíssima.
— Já passam alguns segundos da hora que nos deu
o Ch’i lin!
Aterrada, verificou que os pés dela e os dos rapazes já
estavam à vista porque a bolha que os protegia começara
a encolher.
— Vamos embora! Depressa!
Saíram porta fora numa correria, mas um dos con-
vidados, que tinha ido à varanda para observar a garrafa
escolhida à luz da Lua, ouviu ranger a madeira e quan-
do baixou a cabeça quase desmaiou de susto ao deparar
com três pares de pés sem corpo a descer a escada e a
correr pela relva do jardim.
— O que é isto?
Tal foi o choque, que largou a preciosa prenda e crás,
uma das garrafas Jorge Álvares terminou logo ali, desfeita
em pedaços e confirmando a tese do adivinho que ainda
há pouco garantia: para algumas a vida será curta.
O estoiro atraíra todos os convivas à varanda. Ne-
nhum avistou os pés fugitivos porque já se encontravam
a bordo do carro de luz, prontos a empreender a viagem
de regresso. Matilde é que ainda viu de relance o adivi-
nho a gesticular no meio dos outros, agitando a mão es-
querda. Na direita segurava com mil cuidados a garrafa
que escolhera para si: a que tinha o Ch’i lin pintado em
tons de azul forte, certamente a que guardaria no inte-
rior durante séculos o misterioso pó de fortuna.
O pó de fortuna
uando voltaram a comunicar, estavam outra vez
cada um diante do seu computador e nenhum era capaz
de recordar o que sucedera depois de fugirem do jardim
de Jorge Álvares.
— Não me lembro de nada!
— Nem eu!
— Se não tivéssemos lá estado os três, convencia-me
de que a viagem não passou de um sonho!
— Também eu.
— E agora? Esquecemos o assunto?
— Nem penses! Eu quero ir à procura da garrafa que
tem o Ch’i lin.
Após breve hesitação, Matilde confessou:
— Pode parecer uma idiotice, mas adorei o Ch’i lin e
estou com saudades dele.
Os rapazes sentiam o mesmo e também ansiavam
voltar a ver aquela criatura estranhíssima, ouvi-la falar
através de música e por enigmas.
— Querem tentar?
— Queremos. Mas como?
— Usamos a internet para procurar a imagem em
que o Ch’i lin está pintado. Logo que aparecer, dizemos
outra vez ao mesmo tempo: «Sorte.» Talvez funcione.
— Isso! Vamos a isso!
Apanhar a garrafa no ecrã foi fácil, mas, por muito
que repetissem em coro a palavra «sorte», o fenómeno
que permitira a comunicação entre eles e o ser mítico
não se repetiu.
— Acham que perdemos a capacidade de formar um
triângulo de força chamativa?
— Não sei.
— Se calhar o Ch’i lin só se manifesta uma vez de
cem em cem anos.
— Espera aí, Rodrigo. Há uma coisa que podemos fa-
zer. Aliás, eu até acho que devemos fazer.
— O que é?
— Ir procurar a garrafa no museu onde ela estiver e
tentar libertar o pó da fortuna.
— Certo, Matilde. E até te digo mais: tenho quase
a certeza de que o Ch’i lin veio ter connosco para nos
encarregar dessa missão. Quer que libertemos o pó da
fortuna guardado há séculos.
— Quer dizer que chegou a hora!
Retomando a pesquisa na internet, descobriram de
imediato o paradeiro da garrafa.
— Está no Museu do Centro Científico e Cultural de
Macau.
— E a morada?
— Olha ali, escrita com todas as letras. É em Lisboa.
— O pior é que eu estou em Freixo de Espada à Cinta
a passar o fim de semana — queixou-se o Rodrigo.
— E eu no Porto, em casa dos meus avós — disse o Luís.
— Não desanimem, porque eu estou em Lisboa mas
prometo esperar por vocês para irmos juntos.
— És a maior!
Só se puderam reunir num dos últimos dias das fé-
rias da Páscoa. Tomaram o autocarro e apearam-se na
Rua da Junqueira, em grande alvoroço. A garrafa estaria
em exposição? Seria possível tocarem-lhe? E, se assim
fosse, aconteceria alguma coisa especial, ou regressa-
riam a casa de orelha murcha?
O primeiro impacto deixou-os perplexos porque,
embora o edifício fosse bonito e acolhedor, as pessoas
que se encontravam lá dentro mostravam-se agitadas e
irritadiças. Máquinas de filmar, microfones e holofotes
indicavam que boa parte daquela gente pertencia a uma
equipa da televisão. E, pela maneira como discutiam,
percebia-se que tinham sido encarregues de fazer um
programa sobre o museu e não se entendiam. Um deles
não se cansava de lembrar:
— Isto não é um concurso nem é um programa có-
mico, é um programa cultural! Não podes fazer essas
caras nem esses sorrisinhos apalermados!
A rapariga a quem competia a apresentação parecia à
beira de um ataque de nervos.
— Estás a chamar-me palerma, é?
— Não! Só quero que te lembres que este programa
é sério.
— Se for sério demais torna-se uma seca de morte!
— Que eu saiba, nunca matei ninguém!
— Nem tu nem nós, porque trabalhamos em equipa!
Mas tens a mania que não valemos nada e que sabes tudo.
— Eu?
A discussão azedava e a funcionária do museu ouvia-
-os com desagrado e impaciência. De vez em quando re-
bolava os olhos como quem pensa «quem me dera que se
fossem todos embora e depressa». Tinha um telemóvel
pousadonamesaedeitava-lhemiradasdeumtipoquenão
engana: aguardava notícias, e receava que fossem más.
Matilde, Rodrigo e Luís preferiram esperar a ver se
aquela tempestade emocional abrandava para poderem
ir à procura da garrafa Jorge Álvares sem sobressaltos.
De súbito, porém, viram-na. E relativamente perto, pois
encontrava-se na sala da entrada, elegante, discreta, ocu-
pando sozinha uma vitrine que só podia ter sido mandada
fazer de propósito, para que ali repousasse em segurança,
à vista do público. No bojo, lá estava o Ch’i lin, com o
seu estranho corpo a lembrar um dragão, mas de pernas
finas, nariz e olhos redondos, a haste que lhe saía da ca-
beça. Tencionaria falar-lhes? Ou agora teriam de se con-
tentar em admirar-lhe o retrato pintado há séculos em
tons de azul? Emocionados, precipitaram-se a comprar
bilhete. A empregada abanou a cabeça negativamente.
— Não podemos entrar?
— Podem, mas não pagam! Para pessoas da vossa
idade o museu é de graça!
Se o que dizia não podia ser mais simpático, os mo-
dos não podiam ser mais ríspidos. Não lhes ligou ne-
nhuma e continuou fixa no telemóvel que não tocava.
De início ninguém pareceu importar-se — ou sequer
notar — que eles os três se tivessem plantado em frente
à vitrine da garrafa Jorge Álvares e ali ficassem especados
uma eternidade. As discussões da equipa de filmagens
continuavam e subiam de tom, a funcionária de vez em
quando soltava suspiros profundos. A certa altura, apa-
receu uma outra a perguntar:
— Então? O Zé já deu notícias?
— Claro que não! Se desse, eu dizia! — foi a respos-
ta brusca, acompanhada por gestos desajeitados que
por pouco não projetavam o telemóvel contra a barriga
da colega.
Luís, que arregalava os olhos para a vitrine, sussur-
rou aos amigos:
— Se aproveitássemos a malta estar distraída para
abrir o vidro e sacudir a garrafa? Se não lhe pegamos,
nunca saberemos se o tal pó de fortuna existe ou não
existe.
— Eu acho que existe — disse a Matilde.
— Então vê lá se tens uma ideia para podermos cum-
prir a nossa missão sem estardalhaço.
Nas voltas e reviravoltas à procura de um fecho ou
de um encaixe que permitisse o acesso à garrafa, acaba-
ram por se colocar de tal modo que formaram um triân-
gulo. Nesse momento, ressoou pela sala um inesperado
tilintar agudo, intenso e tão exótico que toda a gente se
calou. De início, as outras pessoas presentes não loca-
lizaram a origem do som, mas depressa se aperceberam
de que provinha da vitrine onde se encontrava a garrafa
Jorge Álvares. E, para estupefação geral, o vidro que a
protegia deslizou até ao soalho, onde pousou, intacto.
O gargalo da garrafa, agora sem proteção, soprava, sol-
tando assobios como se contivesse no interior um pe-
queno génio prestes a saltar cá para fora e a libertar-se
de um longo cativeiro.
O pessoal, atónito, não movia um músculo, e em
todas as cabeças perpassava a mesma pergunta:
«O que é isto? O que é isto?»
Só eles os três julgavam saber a resposta.
— É o pó da fortuna!
— E assobia?
— Talvez seja a maneira de se anunciar.
Não se enganara o Luís, pois do gargalo brotou um
jato, não de pó, mas de poalha esbranquiçada, que se foi
espalhando primeiro por aquela sala, depois pelas escadas
acima, em pouco tempo por todo o museu, empapando a
atmosfera como se fosse uma nuvem. Nem quente nem
fria, sem cheiro nem sabor, não afetava a respiração, não
humedecia a roupa, nem irritava a pele. Ninguém reagiu,
e, antes que tivessem tido tempo de fazer comentários,
a nuvem começou a encolher, esbateu-se, ficou reduzida
a pequenas farripas que flutuavam a diferentes alturas.
A estupefação geral redobrou, porque o vidro, deslizan-
do em sentido inverso, retomou o seu lugar na vitrine.
Ainda gaguejavam de espanto quando os telemóveis
começaram a tocar. E então, que loucura! A funcioná-
ria do museu, primeiro lívida, depois escarlate, desatou
a chorar de alegria e a dizer em altos berros:
ilustração
— O meu filho arranjou emprego! Já tinha ido a dez
entrevistas para nada e agora contrataram-no!
As lágrimas corriam-lhe pela cara a quatro e quatro.
A outra funcionária correu a abraçá-la, por pouco não
se punham a dançar para dar largas à satisfação.
Quanto à equipa de filmagens, dançava mesmo e aos
pulos, porque acabava de receber a melhor das notícias:
tinha ganhado o Globo de Ouro dos programas culturais!
— Somos os maiores!
— Não há equipa como a nossa!
Também se abraçavam, riam e comemoravam o su-
cesso dizendo graçolas:
— Somos sensacionais porque nunca discutimos!
— Nunca nos zangamos!
— É a boa harmonia que garante o êxito! Ah! Ah!
Ah! Nunca houve melhor equipa no mundo!
Dir-se-ia que as plantas do jardim participavam na
festa, pois arrebitaram-se, de repente mais verdes e vi-
çosas. Um último toque de telemóvel introduziu na sala,
onde toda a gente parecia ter enlouquecido, mais uma
notícia de arromba.
— Vou ser pai! — berrou o rapaz dos microfones.
— A minha mulher ligou a dizer que vou ser pai! O mí-
nimo que vocês podem fazer é cantar-me os parabéns!
Rodrigo, Matilde e Luís não tinham a menor dúvida
de que tudo aquilo era efeito do pó de fortuna e sen-
tiam-se felicíssimos por terem sido capazes de cumprir a
extraordinária missão que lhes fora confiada. Trocaram
olhares, sorrisos e repetiam entre si:
— O pó de fortuna…
— Acertámos em cheio! Neste caso «fortuna» queria
dizer sorte!
A equipa das filmagens demorou a acalmar. Quando
acalmou, todos se interrogaram sobre o que ali se passa-
ra, sem chegarem a conclusão nenhuma.
— O vidro para baixo e para cima, a garrafa a asso-
biar, nuvens de pó, nuvens de notícias boas… Alguém
sabe interpretar isto?
O grupo, num impulso, resolveu arriscar:
— Nós sabemos.
Claro que a reação inicial foi de dúvida, mas, em
todo o caso, decidiram ouvi-los.
— Se sabem, digam o que têm a dizer.
— Talvez não acreditem, mas nós os três vivemos
uma experiência espantosa e inexplicável.
Não era fácil resumir a história, mas, como quanto
mais falavam, mais os outros se interessavam, lá foram
descrevendo os acontecimentos, a partir da descoberta
de uma carta entre as páginas de um livro guardado em
Freixo de Espada à Cinta.
A equipa das filmagens exultou. Ninguém se deu
ao trabalho de dizer se acreditava ou não, porque todos
adoraram aquele enredo.
— Vamos incluí-lo na reportagem sobre o Museu e é já!
— Queremos entrevistá-los.
— E vamos encomendar efeitos especiais para recons-
tituir as cenas que vocês viveram na ilha.
— E em casa de Jorge Álvares!
— Eu até tenho um amigo que pode fazer o papel de
adivinho chinês.
— E eu sei quem se vai encarregar do guarda-roupa.
— Olhem lá, vocês os três querem entrar no filme, não
querem? Estão dispostos a representar o vosso próprio
papel?
— Sim!
— Já calculávamos.
— Aposto que vamos ganhar o próximo Globo de Ouro.
— E o de prata e o do bronze.
— Talvez até um Oscar, não?
A visita ao Museu de Macau terminou em euforia total.
Seguiu-se um período de autêntico delírio, a darem en-
trevistas para a rádio e para os jornais, a conviver com
atores, a ensaiar, a participar em filmagens. Curiosa-
mente, o tempo chegava-lhes para tudo, até para estudar
e ter boas notas. Na escola eram tratados como heróis.
A própria Marina quis voltar ao grupo do Rodrigo, mas ele
desinteressara-se dela e recomendou-lhe amigavelmente:
— Acho melhor continuares a andar com a malta do
Júlio porque eu tenho muito que fazer!
Ao dizer aquilo, descobriu que se libertara de um des-
gosto amargo e profundo e sentiu-se tão leve como as
farripas que vira a esvoaçar no museu. Ficou gratíssimo
ao adivinho chinês que há séculos usara poderes ocultos
para introduzir numa das garrafas Jorge Álvares o mara-
vilhoso pó de fortuna.
Personagens
e factos históricos
Jorge Álvares nasceu em Freixo de Espada à Cinta. Não
se sabe ao certo em que data, mas pensa-se que tenha
sido no ano 1509 ou 1510. Era um homem do povo e,
como outros portugueses do seu tempo, decidiu embar-
car nas naus da carreira da Índia e procurar melhor vida
Quem era Jorge Álvares
no Oriente. A maneira como conduziu o seu destino e
o facto de ter enriquecido permitem pensar que era for-
te, corajoso, capaz de resistir aos perigos das viagens que
o levaram primeiro à Índia, depois a Malaca, à China
e depois ao Japão, país que foi um dos primeiros europeus
a visitar. Pode concluir-se também que era astuto, inteli-
gente e que soube adaptar-se a climas diferentes, a novos
tipos de alimentação, a novos hábitos e costumes. Tudo
indica que terá aprendido outras línguas, talvez não com
grande profundidade, mas dominando vocabulário sufi-
ciente para poder comunicar, comerciar e fazer sociedades
com mercadores dos vários locais que percorreu.
Jorge Álvares vivia a maior parte do tempo na sua
casa de Patane, perto de Malaca. Possuía vários navios
que circulavam no oceano Índico, nos mares da China
e do Japão carregados de mercadoria que comprava e
vendia conseguindo bons lucros. De uma maneira geral,
os seus navios partiam de Malaca carregados de especia-
rias, de plantas tintureiras e de madeiras preciosas para
vender na China, onde os seus colaboradores compra-
vam porcelanas, papéis, tecidos de seda e de algodão.
Depois levavam esses produtos ao Japão e trocavam-
-nos por sabres, espadas, prata e ouro em lingotes ou em
pó. Do Japão voltavam à China e daí a Malaca, sempre
a fazer comércio pelo caminho.
Naquela época, a maior parte dos portugueses, sobre-
tudo sendo homens do povo, não sabia ler nem escrever.
No entanto, Jorge Álvares, fosse lá como fosse, aprendeu
e a ele se deve o primeiro texto escrito por um europeu
sobre o Japão, texto que veio a ser publicado mais tarde
com o título Informação das Coisas do Japão. Ignora-se
se Jorge Álvares morreu no Oriente ou se regressou a
Portugal. Em Freixo de Espada à Cinta foi erguida uma
estátua em memória deste ilustre filho da terra.
▲  Mapa com os locais por onde Jorge Álvares viajou.
Jorge Álvares relacionou-se com vários grupos de nave-
gadores, mercadores, comerciantes e missionários que
conheceu no Oriente. Alguns eram naturais de regiões
tão variadas como, por exemplo, a Índia, a Malásia, a
China e o Japão. Outros eram portugueses e alguns pas-
saram à história, como Fernão Mendes Pinto e Diogo
Pereira. Entre os amigos de Jorge Álvares figurou tam-
bém S. Francisco Xavier, que nasceu em Navarra mas
seguiu para o Oriente como missionário, enviado pelo
rei de Portugal D. João III.
Os amigos de Jorge Álvares
Filho de uma família pobre de Montemor-o-Velho, par-
tiu muito novo para o Oriente. Durante 21 anos nave-
gou entre a Índia, a Insulíndia, Malaca, China e Japão.
Sobreviveu a todas as adversidades, enriqueceu, regres-
sou a Portugal já velho e escreveu um livro fabuloso a
que deu o título Peregrinação. Nesse livro relata as suas
aventuras, descreve com minúcia locais que visitou,
povos que conheceu. Deixou registado que foi feito
13 vezes prisioneiro e vendido 17 vezes como escravo.
A Peregrinação teve sucesso imediato. Traduzida em vá-
rias línguas, tornou-se um verdadeiro best-seller e ainda
hoje é uma obra que se lê com prazer.
Como Fernão Mendes Pinto fez parte do grupo de
Jorge Álvares, decidimos incluir um amigo chamado
Fernão no jantar em que as garrafas foram oferecidas
aos convidados.
Fernão Mendes Pinto
Francisco Xavier nasceu no reino de Navarra, em 1497,
no castelo de Xavier, que pertencia à sua família, uma
família nobre. Na juventude foi estudar para Paris, onde
frequentou a única universidade que então existia em
França, a Sorbonne. Aí conheceu Inácio de Loyola, de
quem se tornou muito amigo.
S. Francisco Xavier
Inácio de Loyola, Francisco Xavier e mais cinco com-
panheiros fundaram uma organização religiosa a que
chamaram Companhia de Jesus, ou Jesuítas. Esta com-
panhia destinava-se ao ensino, ao tratamento de doen-
tes e a espalhar a fé cristã pelo mundo.
Em 1541, Francisco Xavier partiu para a Índia como
missionário, chefiando um grupo que pertencia ao pa-
droado português, protegido pelo rei D. João III. Desen-
volveu uma ação notável junto dos povos do Oriente
que visitou, sobretudo na Índia, em Malaca, na China
e no Japão. Morreu no ano de 1552, numa cabana que
pertencia a Jorge Álvares, situada na ilha Sanchoão,
na China. Os seus restos mortais foram transladados
para a Índia e o seu túmulo encontra-se na Igreja de
S. Francisco em Goa.
Tendo-lhe sido atribuídos vários milagres, foi cano-
nizado pelo papa Gregório XV, no ano de 1662. Passou
então a ser venerado como S. Francisco Xavier. O seu
túmulo em Goa atrai visitantes e muitos peregrinos.
S. Francisco Xavier conheceu pessoalmente e convi-
veu com Fernão Mendes Pinto e com Jorge Álvares.
Diogo Pereira pertencia a uma família nobre. Partiu para
o Oriente como capitão de naus da Coroa e distinguiu-
-se na luta contra os inimigos dos portugueses. Adquiriu
navios, desenvolveu uma próspera atividade comercial
e enriqueceu. Viajou até ao Japão e foi ele quem liderou
o grupo que veio a instalar-se em Macau. Mais tarde,
obteve permissão das autoridades chinesas para os por-
tugueses ali se estabelecerem permanentemente e pode-
rem fazer os seus negócios.
Diogo Pereira
A porcelana chinesa era um produto valiosíssimo e mui-
to apreciado na Europa porque os fabricantes europeus
de loiça não conheciam o segredo que permitia obter pe-
ças finíssimas, mas leves e resistentes, conforme saíam
das fábricas da China. As primeiras porcelanas que che-
garam à Europa foram consideradas autênticos tesouros.
Quando, em 1498, Vasco da Gama regressou da via-
gem em que descobriu o caminho marítimo para a Índia,
ofereceu ao rei D. Manuel I algumas peças de porcelana
chinesa compradas na Índia. A corte mostrou-se ma-
ravilhada. Os navegadores seguintes fizeram questão de
trazer sempre porcelana para agradar ao rei e à nobreza.
Chegaram aos nossos dias belas peças decoradas com
a esfera armilar e o escudo de D. Manuel I, e também
peças decoradas com os brasões de famílias nobres.
No reinado de D. João III estalaram conflitos entre
portugueses e chineses e em 1522 os portugueses foram
proibidos de entrar na China e de ali comprar ou vender
fosse o que fosse. Para não se verem privados dos negó-
cios que tanto convinham aos mercadores portugueses
como aos chineses, estabeleceu-se uma rede de contac-
tos clandestinos, que se manteve até 1554, data em que
a proibição foi levantada.
A porcelana da China
▲  Gomil
Porcelana da China de exportação
Dinastia Ming, reinado Zhengde (1506-1521)
C. 1519-1520
© Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa
▲  Kendi
Porcelana da China de exportação
Dinastia Ming, reinado Jiajing (1522-1566)
© Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa
▲  Taça
Porcelana da China de exportação
Dinastia Ming, período de Jiajing (1522-1566)
C. 1540-1550
© Fundação Carmona e Costa, Lisboa
▲  Pote
Porcelana da China de exportação
Dinastia Ming, reinado de Wanli (1573-1620)
© Museu do Centro Científico e Cultural
de Macau, Lisboa
Garrafas de porcelana chinesa azul e branca
China, dinastia Ming, reinado de Jiajing, 1552
▼
(1)  Alt. 24,8 cm
Contém a inscrição O MANOOU FACER
JORGE ALVRZ 1552
© Victoria and Albert Museum, Londres
(2)  Alt. 25,4 cm
Contém a inscrição JORGE ALVRZ N EGEO
NAM DOU – A ERA DE 1552 REINA
© The Walters Art Museum, Baltimore
(3)  Alt. 23,7 cm
Contém a inscrição ISTO MANDOU FAZER
JORGE ALVRZ NA//A ERA DE 1552 REINA
© Fundação Jorge Álvares, Lisboa
Em plena época de proibição, houve mercadores abas-
tados que se lembraram de encomendar peças identi-
ficadas com o seu próprio nome e com a data da enco-
menda. Um deles foi Jorge Álvares. Para o poder fazer,
tinha de ser já um homem bem-sucedido, rico e ousado.
A frase que mandou pintar foi: Isto mandou fazer Jorge
Álvares na era de 1552 reinando D. João III. A frase saiu
um pouco diferente, decerto porque os artistas chineses
não conheciam o alfabeto ocidental e esqueceram algu-
mas letras. Também não completaram a frase, o que se
explica por falta de espaço. De modo que ficou assim:
Isto mandou fazer Jorge Alvrz1
na era de 1552 reina.
1
«Alvrz» é a abreviatura de Álvares.
(1) (2) (3)
As garrafas Jorge Álvares
)
Não se sabe ao certo quantas garrafas Jorge Álvares
terá encomendado. Supõe-se que as ofereceu a amigos
a quem quis distinguir com uma prenda especial, pois
isso era costume na época. Muitas se terão partido e de-
saparecido, mas há nove que chegaram aos nossos dias
e se encontram em museus ou em coleções particulares.
Uma no Walters Art Museum, na cidade de Baltimore,
Estados Unidos da América, outra no Museu Guimet de
Paris, uma terceira no Museu de Artes Islâmicas no Irão,
uma quarta no Museu Victoria and Albert em Londres
e uma quinta no Brasil, numa coleção particular. Em
Portugal encontram-se quatro garrafas — uma pertence
a uma coleção particular e outras três encontram-se em
museus, onde podem ser admiradas pelos visitantes: no
Museu do Caramulo, no Museu da Fundação Carmona
e Costa e a que ostenta a figura mítica que é o Ch’i lin
pertence à Fundação Jorge Álvares e pode ser admirada
no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau,
que fica na Rua da Junqueira, em Lisboa.
A civilização chinesa atribui valor de símbolo especial
a vários animais míticos, como, por exemplo: o dragão,
a fénix, a tartaruga e o Ch’i lin. As imagens destes ani-
mais são utilizadas há milénios na arte como elementos
decorativos.
O Ch’i lin e outros
amigos míticos chineses
Para os chineses, o dragão é um ser benéfico e poderoso e
um expoente máximo de segurança. A religião da China
Antiga considerava o dragão como mensageiro dos deuses,
guardião dos tesouros divinos e símbolo do imperador.
Da tradição chinesa fazem parte vários tipos de dra-
gões, todos associados a características positivas. Ao lon-
go dos tempos, os artistas chineses foram representando
esses dragões na pintura, na escultura e noutras artes, de
acordo com padrões definidos pela religião e invariavel-
mente associados à imagem do imperador e da família
imperial.
Na nossa época já não há imperador da China, mas
o dragão continua a estar presente na arte, na imagina-
ção, na poesia, nas tradições e nas festas chinesas.
O dragão chinês nada tem a ver com os dragões ima-
ginados pelos europeus no tempo dos castelos. Estes eram
monstros perigosos que os cavaleiros e os santos se viam
na obrigação de combater.
O Dragão
A fénix, tal como o dragão, só existe como criatura ima-
ginária. Tem a forma de um pássaro com grande cauda
de plumas e grandes asas. As suas penas têm cinco cores,
o seu canto lembra a música de um instrumento com
cinco modulações. Também é benevolente, não faz mal
a nenhum ser vivo, só bebe água das fontes mais puras
e alimenta-se exclusivamente de plantas. Este animal
mítico é considerado símbolo do bem, da beleza, do sol
e das boas colheitas. Aparece sempre em momentos de
paz e prosperidade. Os artistas representam muitas ve-
zes a fénix a olhar para uma bola de fogo.
As vestes das imperatrizes eram frequentemente de-
coradas com esta maravilhosa ave, bordada a fios de
seda, ouro e prata.
Nos países da Europa, a fénix é também um animal
simbólico, com forma de pássaro, mas com uma dife-
rença em relação à fénix chinesa. Segundo a tradição,
a fénix europeia tem a capacidade de renascer das suas
próprias cinzas, ou seja, de voltar à vida depois da morte.
Isso torna-a um símbolo da renovação e renascimento.
A Fénix
A tartaruga é o único animal mítico chinês que também
existe na natureza. Segundo a tradição, representa o uni-
verso. A carapaça, em forma de cúpula, representa o céu.
A barriga representa a terra, que se consegue mover na
água. Como na realidade vive muito mais anos do que
a maioria dos animais, tornou-se símbolo da imortali-
dade. Os escritores, poetas e artistas chineses tornaram
a tartaruga uma fonte de inspiração para histórias tra-
dicionais, histórias exemplares, poemas e obras de arte.
A tartaruga aparece também com frequência esculpida
em pedra, na base de edifícios grandiosos.
Nos templos budistas há geralmente tanques onde
nadam tartarugas e os visitantes alimentam-nas com
carinho e respeito.
A Tartaruga
O Ch’i lin é um ser imaginário que tem o corpo
parecido com o dos veados, dos cavalos e dos dragões,
patas de cavalo, cabeça grande de olhos redondos e uma
haste na testa parecida com a dos unicórnios imagina-
dos pelos povos da Europa. A ponta dessa haste é macia
porque não serve para agredir.
O corpo do Ch’i lin é coberto de escamas de cinco
cores: amarelo, encarnado, azul, branco e preto. A sua
voz lembra campainhas, sininhos, flautas ou outros ins-
trumentos musicais.
Este simpático Ch’i lin representa harmonia, bene-
volência, retidão. Por isso não faz mal a ninguém e os
chineses consideram-no símbolo da perfeição e do bem.
Tal como os outros animais míticos, o Ch’i lin é muito
utilizado pelos artistas na decoração das suas obras.
Na Europa, o ser imaginário que mais semelhanças
apresenta com o Ch’i lin é o unicórnio, pois tem corpo
de cavalo, um corno pontiagudo na testa e também sim-
boliza perfeição, pureza e bondade.
O Ch’i lin
© Reservados todos os direitos, Fundação Jorge Álvares
Fundação Jorge Álvares
Av. Miguel Bombarda, n.º 133 – 4.º E
1050–164 Lisboa, Portugal
fundacao@jorgealvares.com
Lisboa, abril de 2014
Depósito legal n.º 371 745/14
Edição não comercial  —  PROIBIDA A VENDA
Para escrever esta história contámos com o apoio precioso,
que muito agradecemos, dos especialistas: Dr.ª Maria
Antónia Pinto de Matos, diretora do Museu do Azulejo;
Professor Luís Filipe Barreto, presidente do Centro
Científico e Cultural de Macau; Dr. António Abreu.
Ana Maria Magalhães
Isabel Alçada
Carlos Marques
Maria de Fátima Carmo
TVM Designers	
Multitipo, Artes Gráficas, Lda.
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  • 1. — Vamos partir por ares nunca antes navegados — infor- mou o Ch’i lin.— Preparem o espírito e o corpo para o que der e vier. E lembrem-se de que, sendo os perigos dife- rentes, diferentes devem ser as maneiras de os enfrentar. Mantenham-se unidos, mantenham a calma e procurem fazer a escolha mais adequada, a escolha mais inteligente para cada caso. Aqueles conselhos, se eram sábios, também eram inquietantes. Noutras circunstâncias, Matilde, Rodrigo e Luís talvez se assustassem. Mas, deslizando a grande velocidade por entre nuvens que, ora tapavam o sol, ora refletiam raios dourados e ofuscantes, não conseguiam pensar. Sentiam uma espécie de vertigem mental em que havia entusiasmo e pasmo. Pouco depois, foram arreba- tados por um turbilhão de ventos em remoinho que de- pressa se transformaram num tufão dos mais violentos. — Socorro! Socorro! Por muito que gritassem, a voz não lhes saía da gar- ganta, mas pior do que isso foi verem o carro e o Ch’i lin desvanecerem-se. Entregues à sua sorte, flutuavam agora entre o céu e a terra. Ou seria entre o hoje e o amanhã? Ou entre o mundo real e o mundo virtual?
  • 2.
  • 3.
  • 5.
  • 6. jantar estava ótimo, mas Rodrigo já tinha comido tudo, sentia-se empanturrado e gostaria de se levantar da mesa. O problema era ser visita naquela quinta de Freixo de Espada à Cinta que pertencia a uns amigos dos pais. Ainda lançou um olhar à mãe, a ver se lhe dava ordem de marcha, só que ela, ocupada com a papa do irmão mais novo, não captou a mensagem. Quanto ao pai, conversava animadamente com os donos da casa sobre um tal Jorge Álvares que nascera ali na terra, há 500 anos, e tinha uma estátua no largo principal. Todos pareciam admirá-lo imenso e não se cansavam de repe- tir frases do tipo: «Devia ser um homem extraordinário, porque partiu pobre, de mãos a abanar, e conseguiu fa- zer fortuna.» «Extraordinário e corajoso. Lembrem-se de que viajar a bordo das naus rumo à Índia e à China não era nada fácil.» «Pois não. Vocês já pensaram nos riscos que corriam? Meses sem fim a bordo de navios sem con- forto, falta de mantimentos, ataques de inimigos… E a natureza em fúria: ondas gigantescas, relâmpagos que incendiavam navios, ventos ciclónicos…» As palavras que o dono da casa acabava de pronunciar tiveram uma espécie de efeito mágico, pois rebentou-lhes
  • 7. em cima uma inesperada tempestade violentíssima, com raios a atravessar o céu de uma ponta à outra, trovões ensurdecedores e uma carga de água monumental. Por um instante fez-se silêncio, depois o bebé come- çou a choramingar e alguém comentou, na brincadeira: — Se em vez de estarmos debaixo de telha estivésse- mos a bordo de uma nau seria bem pior… E de novo as palavras pareceram desagradar aos céus, porque caiu um raio no jardim, ouviu-se outro tipo de estrondo e faltou a luz. — Ora esta, ora esta… O dono da casa precipitou-se para o quadro da eletri- cidade e regressou desiludido. — Nada feito! É geral. De facto, através da janela, as únicas luzes que se vislumbravam eram as da natureza que continuava a festejar a primavera de forma desconcertante, pois brin- dava os habitantes da zona com raios azuis e roxos a um ritmo alucinante. O bebé agora berrava a plenos pulmões, a mãe vas- culhava no saco à procura da chupeta, os donos da casa foram buscar velas. Pouco depois, a sala de jantar pare- cia uma sala de outros tempos, com zonas de sombras e recantos misteriosos. Os copos rebrilhavam de outra maneira, os talheres faiscavam como se fossem de prata, e os bolos, aqueles belos bolos já meio comidos, muda- ram de cor. Rodrigo, embora empanturrado, não resis- tiu e serviu-se de mais uma fatia do pudim que passara do tom amarelo inicial a um castanho acobreado. Não
  • 8. fazia frio, mas o temporal pedia lume. Felizmente, a la- reira era na sala ao lado. Alguém propôs mudarem-se para lá, toda a gente se levantou e ele, Rodrigo, ficou li- vre para ir para onde lhe apetecesse. Convencido de que podia lançar-se sobre o computador, estabelecer contac- tos via internet e esquecer a tristeza que há uma semana lhe pesava sobre o coração, esgueirou-se para a bibliote- ca da casa onde o tinha deixado. Mas, azar dos azares, o computador estava sem bateria e a falta de eletricidade impedia-o de o pôr a carregar. — Era só o que faltava! — resmungou. — Não me fal- tava mais nada! Aborrecido, deixou-se cair num sofá de cabedal e re- costou a cabeça para trás. Lá fora, a tempestade con- tinuava num desvario de rajadas violentas, trovões pa- vorosos e relâmpagos sucessivos. De súbito, um clarão ainda mais intenso iluminou a parede em frente e fez rebrilhar a lombada de um livro grosso arrumado na última prateleira da estante, junto ao teto. Por um ins- tante, as letras que o identificavam pareceram saltar da lombada e rodopiar, soltas, até terminarem reduzidas a partículas luminosas. Rodrigo pestanejou, perturbado com o estranho fe- nómeno. — Hum… deve ter sido uma ilusão de ótica! No minuto seguinte, os clarões de um raio inci- diram sobre a estante de tal modo que ele quase só viu as mesmas letras a saltarem do lugar e descaírem de mansinho até ao chão, desta vez afogando-se no ta-
  • 9. pete e espalhando em volta respingos gordos, em tons de ouro. Surpreendido, levantou-se do sofá e remexeu no tapete. «Talvez seja um livro velho, com letras mal coladas. Se calhar soltaram-se devido às vibrações da tempesta- de», pensou. Como não encontrou nada no tapete, ergueu os olhos para o livro e quis pegar-lhe. Puxou o pequeno escadote de madeira que lhe permitiria alcançá-lo, subiu rapidamente e voltou para baixo com um volume grosso de páginas amarelecidas, que à luz da vela adquiriam um reflexo fabuloso. Tentou ler, mas nem o título conseguiu decifrar. — Escrita antiga, numa língua que desconheço. Im- possível! A única coisa que pôde verificar foi que a inscrição da lombada se encontrava intacta. — Tudo ilusão de ótica — concluiu. Preparava-se para repor o livro na estante quando de entre as páginas escorregou uma folha de papel de rebor- do comido pelas traças. Escrita à mão, num português de outros tempos, em todo o caso decifrável. Curioso, chegou-se mais para junto da vela que ardia em cima da mesa e tentou ler a mensagem que alguém ali guardara ou escondera em tempos. À medida que ia percorren- do as linhas e o texto ganhava sentido, a curiosidade aumentava. — Que engraçado! Que coincidência isto vir-me pa- rar às mãos assim, sem mais nem menos!
  • 10.
  • 11. Um último relâmpago e os trovões que se afastavam levando a chuva com eles deixaram-no pensativo. «Há coisas que não se entendem, mas têm piada. Será que descobri esta carta por acaso? Ou chegou até mim devido ao magnetismo da tempestade?» Voltou a trepar ao escadote, repôs o livro no lugar e dirigiu-se ao quarto, de computador debaixo do braço, vela na mão direita, a carta bem segura na esquerda por- que queria lê-la outra vez e com calma.
  • 12. O mistério das garrafas Jorge Álvares
  • 13.
  • 14. epois de ter lido e relido a carta à luz da vela, Rodrigo pousou-a na mesa de cabeceira e pensou em voz alta. — Bom, vamos lá ver o que consegui ficar a saber com certeza absoluta. Contando pelos dedos, prosseguiu: — Primeiro, a carta foi escrita por um homem cha- mado Samuel Andrade que também era daqui de Freixo de Espada à Cinta e tinha cá família. «Segundo, conhecia o Jorge Álvares e estavam am- bos a fazer negócios em Patane, terra de que eu nunca ouvi falar, mas pela conversa percebe-se que fica entre a Índia e a China. «Terceiro, nesta carta, que o Samuel mandou aos pais em 1552, fala de um jantar em casa do seu amigo Jorge Álvares, que pelos vistos ficava à beira-mar. «Quarto, nesse jantar os convidados eram todos na- vegadores, homens de negócios portugueses e estran- geiros, e também lá estava um adivinho chinês. Ao chegar a este ponto, encolheu os ombros e con- tinuou a falar consigo próprio.
  • 15. — O problema é que o mais interessante não se con- segue perceber bem porque as letras estão desbotadas e algumas até desapareceram. Deixa cá ver em contraluz. Ergueu o papel e colocou-o em frente da chama da vela, com cuidado para não o queimar. Não adiantou, pois só pôde ver claramente palavras que já decifrara antes. — Prenda especial… garrafas de loiça… ele disse vão viajar para várias partes do mundo e durar séculos… ocultar tesouro… pó de fortun. Entretido com aquela espécie de enigma que lhe es- picaçara a curiosidade, não se apercebeu de que a tem- pestade passara, a eletricidade voltara, e o candeeiro do teto se encontrava de novo aceso. Passeando de um lado para o outro em cima do tapete, pôs-se a magicar. — Tesouro, tesouro, que tesouro será? Moedas de ouro ocultas em garrafas de loiça? Hum… impossível porque tilintariam. Será pó? Mas aqui diz «pó de for- tun». Pó de fortun… Não estou a ver o que seja. E quem terá dito que as garrafas iam viajar por todo o mundo e durar séculos? O adivinho chinês? Sem resposta para as suas perguntas, estendeu-se ao comprido na cama. Só então reparou nas lâmpa- das acesas e logo se levantou de um salto para ligar o computador. — Se as garrafas viajaram para várias partes do mundo, talvez uma tenha vindo parar aqui, e eu, com sorte, seja capaz de encontrar o tal tesouro ou o tal pó de fortun. Ao ligar o computador, levantou-se-lhe uma dúvida.
  • 16. — Para fazer a pesquisa, o que hei-de escrever? Ocorreu-lhe que o jantar em casa de Jorge Álvares pudesse ter sido uma festa de anos e as garrafas de loiça, prendas especiais que lhe oferecessem. — Se calhar, cheias de vinho ou de outras bebidas exóticas daquelas bandas. Optou então por escrever «garrafas Jorge Álvares» no motor de busca. O resultado não se fez esperar. No ecrã apareceram imediatamente uma data de informações que começavam por «Fundação Jorge Álvares». Clicou e logo surgiram fotografias de uma garrafa de loiça branca com desenhos azuis. — Cá está! Acho que acertei! Vamos lá ver aonde é que esta pesquisa me leva. Pouco depois já sabia muito mais sobre o assunto. — Pelos vistos, enganei-me. As garrafas foram pren- das que o próprio dono da casa ofereceu aos convidados naquele jantar. A prova estava numa frase inscrita à volta do gargalo. Faltavam letras, mas percebia-se o que significavam: Isto mandou fazer Jorge Alvrz na era de 1552 reina. — Não há qualquer dúvida, e até a data coincide com a da carta, 1552. O texto do site explicava que pelo menos nove gar- rafas tinham resistido ao tempo e se encontravam espa- lhadas por museus e casas particulares de várias partes do mundo.
  • 17. — Ou seja, se foi o adivinho a fazer as previsões, acer- tou. Agora só me falta descobrir se alguma delas ainda esconde um tesouro e onde é que essa está. Concentrado no ecrã, percebeu o que a palavra reina fazia no meio daquilo tudo porque um historiador dera- -se ao trabalho de acrescentar que a frase pintada à volta do gargalo tinha ficado incompleta por falta de espaço. Na opinião desse historiador, o resto só podia ser «rei- nando em Portugal D. João III». — O que para mim pouca importância tem. Que- ro é pôr-me em campo e descobrir o tesouro escondido dentro de uma garrafa, na noite em que Jorge Álvares deu uma festa em sua casa, lá para as bandas do Sol nascente. Sentado diante do computador, esqueceu por mo- mentos aquele enredo porque tomou consciência de que se sentia leve e bem-disposto. — Realmente, quando uma pessoa está entretida, es- quece os problemas. Levou a mão à camisola e sacudiu-a como se o gesto lhe permitisse afastar para longe a lembrança da cole- ga Marina. Tinha gostado dela de uma maneira especial desde o primeiro dia de aulas, andavam sempre juntos com um grupo de amigos, e afinal na semana antes das férias da Páscoa a estúpida resolvera mudar de grupo. Não explicara porquê, mas ele sabia que tinha sido por causa do parvo do Júlio, sempre a armar em bom, a di- zer piadas, a segui-la com olhos faiscantes. Se pudesse, esmurrava-o até o pôr a sangrar do nariz. Infelizmente,
  • 18. não tinha tido oportunidade, e entretanto meteram-se as férias. — Que semana horrível! Na viagem com os pais até à quinta de Freixo de Es- pada à Cinta quase não abrira a boca porque sentia um peso no peito. Ao jantar continuara acabrunhado, mas agora, à conta daquela carta antiquíssima, quase esque- cera a Marina, o Júlio e a traição. — Tenho de agradecer ao Jorge Álvares, ao Samuel Andrade e ao adivinho chinês! Ora, qual é melhor manei- ra de agradecer? Encontrar o tesouro de que fala a carta! Como na internet havia uma lista dos locais onde se encontravam as garrafas Jorge Álvares, começou por pensar que seria fácil. Mas, depois de identificar esses locais, desanimou. Três estavam em Portugal, mas as outras encontravam-se espalhadas pelos quatro cantos do mundo. — Paris, Londres, Brasil, Estados Unidos, Irão… E ain- da por cima todas em museus ou em coleções particula- res. Se assim é, valem muito dinheiro e com certeza estão muito bem guardadas. Não há qualquer hipótese de eu as examinar. Nesse preciso momento, que surpresa! A cara da Matilde, a prima preferida com quem habitualmente conversava através do skype, apareceu no ecrã. — Ainda bem! Estava mesmo a precisar de companhia! Clicou no rato e o ecrã ficou totalmente preenchido pela cara risonha que o saudava. — Olá, Rodrigo!
  • 19. — Olá! — Onde estás? — Nem queiras saber. — Ai quero, quero. — Então ouve. É uma história incrível. Preparava-se para fazer o relato quando o Luís surgiu no ecrã, a pedir para entrar na conversa. Novos cliques e o ecrã ficou dividido ao meio: de um lado, a Matilde; do outro, o Luís, que também se mostrou interessado na história incrível que o Rodrigo ansiava contar. E ele fê-lo escolhendo frases expressivas e incluindo o pro- jeto louco de ir em busca das garrafas espalhadas pelo mundo, a fim de descobrir se guardavam ou não um tesouro. Luís riu-se com vontade. — Tens cada ideia… Só tu é que te lembravas de uma dessas! Em vez de concordar, Rodrigo decidiu fingir que se mantinha na sua. — Sabes muito bem que sempre gostei de missões impossíveis! — Eu alinho — disse a Matilde meio a brincar, meio a sério. — Nesse caso, eu também — disse o Luís no mesmo tom. — E o melhor é começarmos pelo museu do Irão, que fica perto e deve ter lá empregados à nossa espe- ra para abrirem as vitrines e nos deixarem remexer em tudo o que quisermos. Matilde interrompeu-o.
  • 20. — Eu por mim preferia partir já para Londres ou Paris. E até tenho a certeza de que encontramos o tesouro. O problema é que pode ser só pó de fortun. Rodrigo riu-se, mas depois perguntou: — Olhem lá, algum de vocês sabe o que é pó de fortun? Luís deu uma gargalhada. — Com esse nome, palpita-me que seja uma espécie de areia malcheirosa, ou então dentes de macaco moí- dos. E se foram guardados na garrafa há mais de quatro- centos anos, nem imagino o pivete! Ah! Ah! Ah! A patetice caiu-lhe no goto e por instantes desapare- ceu de cena. Quando voltou, a Matilde acabava de intro- duzir um elemento novo na conversa.
  • 21. — Pensando bem, se calhar falta aí uma letra. Não é pó de fortun, é pó de fortuna. E, nesse caso, talvez seja ouro em pó. Que dizem? — Que sim! — responderam os rapazes. Matilde ficou pensativa uns segundos e reconsiderou. — A palavra fortuna tem dois significados possíveis. Pode ser riqueza ou… — Sorte! — disseram os três em coro. Sem entenderem porquê, as caras sumiram-se e de- ram lugar à imagem de uma das garrafas de loiça pinta- das de azul. E por acaso até era a que pertencia à Funda- ção Jorge Álvares. Só que agora aparecia-lhes ampliada e podiam ver melhor os desenhos. Perceberam que um deles representava a figura de um animal estranho, gé- nero dragão, com pernas finas, nariz e olhos redondos e uma haste que lhe saía da testa e devia ser mole, pois agitava-se suavemente. — O que é isto? — balbuciaram, estupefactos. — Sou um Ch’i lin — respondeu-lhes a figura abrindo a boca enorme e sorridente. — Ch’i lin… Ch’i lin. Tinha uma voz doce, que lembrava sinos, sinos pe- quenos ou sopro de flautas, como se, em vez de falar, emitisse acordes musicais estonteantes. — Ch’i lin… Ch’i lin… Já nenhum deles sabia se estava acordado ou a dor- mir, se aquela voz os deixara zonzos ou se queria emba- lá-los até mergulharem todos juntos no mesmo sonho.
  • 22. O Ch’i lin e o triângulo da força
  • 23.
  • 24. udos de espanto, aperceberam-se que aquele es- tranho ser realmente não falava, exprimia-se através de uma música desconhecida que na cabeça deles se trans- formava em frases com significado. — Estou aqui porque vocês me chamaram. — Nós? — Sim. Quando olharam os três ao mesmo tempo para a minha imagem pintada na garrafa e disseram a pa- lavra sorte, formaram um triângulo de força chamativa. — Hum? O Ch’i lin como que dançou no ecrã e prosseguiu: — Os triângulos de força são raros e têm efeitos especiais. — E como é que se formam? — perguntou a Matilde. — Quando se reúnem três elementos muito podero- sos: amizade, curiosidade, vontade. — Isso não nos falta — disse o Luís em surdina. — Eu sei. É por isso que aqui estou. — Vais revelar-nos o mistério da garrafa? — Não, porque não me compete. As descobertas exi- gem esforço por parte do descobridor. Se se sentem fir- mes no desejo de desvendar o mistério, se estão dispos-
  • 25. tos a enfrentar as três provas necessárias para satisfazer a vossa curiosidade, o que posso é ajudá-los a iniciar o percurso. — Como? — Conduzindo-os ao ponto de partida e deixando que sejam vocês a percorrer os caminhos que permitem atingir o ponto de chegada, a meta, o lugar onde tudo se revelará! Calou-se e eles ficaram em silêncio. À volta de cada um adensara-se uma bolha de escuridão em que brilha- va apenas a figura azul do Ch’i lin ondulante, repetindo no seu tom brando: — Querem vir comigo? Querem vir comigo? — Queremos — responderam por fim, a uma só voz. No mesmo instante foram sugados para bordo de um carro de luz atrelado ao Ch’i lin, que entretanto mu- dara de aspeto. Em vez de ser todo azul, tinha o corpo às manchas de várias cores e a barriga amarela. Mas a ex- pressão dos olhos redondos, serena e amável, não metia medo a ninguém. — Vamos partir por ares nunca antes navegados — informou. — Preparem o espírito e o corpo para o que der e vier. E lembrem-se de que, sendo os perigos dife- rentes, diferentes devem ser as maneiras de os enfrentar. Mantenham-se unidos, mantenham a calma e procu- rem fazer a escolha mais adequada, a escolha mais inte- ligente para cada caso. Aqueles conselhos, se eram sábios, também eram inquietantes. Noutras circunstâncias, talvez se assus-
  • 26. tassem. Mas, deslizando a grande velocidade por entre nuvens que, ora tapavam o sol, ora refletiam raios dou- rados e ofuscantes, não conseguiam pensar em nada. No entanto, não se sentiam inseguros. Sentiam, isso sim, uma espécie de vertigem mental em que havia en- tusiasmo e pasmo. Pouco depois, foram arrebatados por um turbilhão de ventos em remoinho que depressa se transformaram num tufão dos mais violentos. — Socorro! Socorro! Por muito que gritassem, a voz não lhes saía da gar- ganta, mas pior do que isso foi verem o carro e o Ch’i lin desvanecerem-se. Entregues à sua sorte, flutuavam ago- ra entre o céu e a terra. Ou seria entre o hoje e o ama- nhã? Ou entre o mundo real e o mundo virtual? Fosse lá o que fosse, tratava-se certamente do primeiro desafio. Veio-lhes então à ideia um dos conselhos: mantenham-se unidos. Matilde, que estava entre os rapazes, abraçou-os pelos ombros e apertou-os de encontro a si, de modo a formarem um bloco único. — Calma! Calma! — dizia o Rodrigo. — O melhor é não dar luta — gritou o Luís. — Não se pode lutar contra ventos tão fortes. Segurem-se bem e deixem-se levar… Apesar do ruído insuportável da desvairada ventania, entreouviram as palavras do amigo, compreenderam que tinha razão, não ofereceram resistência e deixaram- -se levar como se fossem plumas. O vento enrolava-se e acabou por tomar a forma de um tubo em espiral. Girando ao sabor das rajadas, foram perdendo altura
  • 27.
  • 28.
  • 29. como se escorregassem por uma rampa encaracolada, que acabou por cuspi-los no mar. O mergulho obrigou-os a soltarem-se. Dentro de água, era cada um por si. Esbracejaram para vir à tona e poder respirar. Ainda completamente atarantados, veri- ficaram que o tufão se afastava para longe, mas ao longe crescia uma onda gigantesca. — Que horror! — E agora?
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  • 32. — gora mudamos de tática. Se nos deixarmos levar pela onda como nos deixámos levar pelo vento, ela enrola-nos, arrasta-nos e afoga-nos. Temos de mer- gulhar bem fundo para impedir que a crista nos apanhe e depois furar a onda no sítio certo. — E no momento certo. Vamos esperar que a onda se aproxime e mergulhamos antes que rebente em cima de nós! De olhos postos na massa de água que se erguia amea- çadora, procuravam manter-se à tona e controlar a res- piração para não perder o fôlego. «Calma! Calma!», dizia cada um a si próprio. «Calma!» Quando o caracol da rebentação já estava quase for- mado, gritaram uns aos outros: «Agora!». E então enche- ram os pulmões de ar, mergulharam com determinação e aguentaram-se o máximo tempo possível antes de vir à tona, para o poderem fazer com segurança. Correu
  • 33. tudo bem. A onda já lá ia, desfeita em espuma, a avançar em direção a uma tira de areia branca. Não foi preciso combinarem o que fazer a seguir: nadaram todos para a praia, tendo o cuidado de olhar para trás, não fosse surgir entretanto outra onda gigantesca. Felizmente não aconteceu e puderam aproveitar a força da ondulação para atingirem terra. Mal pisaram o areal, ergueram-se ofegantes e afastaram-se da beira-mar aos tropeções. Adiante, estenderam-se na areia seca, exaustos do es- forço, mas contentíssimos por terem escapado. Durante alguns minutos não trocaram palavra, nem levantaram a cabeça. Quem os veio despertar do torpor morno que lhes tinha tomado conta do corpo e do espírito foi uma tartaruga enorme, de carapaça rugosa, que avançava pa- chorrenta, deixando atrás de si um sulco grosso a assi- nalar a passagem pelo areal. — Onde é que estamos? — perguntou o Luís olhando em volta. — Não faço ideia. — Nem eu. Nas três cabeças pairavam outras dúvidas demasiado inquietantes para serem formuladas em voz alta. Teriam sido lançados numa ilha deserta perdida no oceano? Para lá do maciço de árvores que avistavam haveria gen- te? E, se houvesse, seria gente de bem, pronta a ajudá- -los? Ou iam tratá-los muito mal? Quanto a animais, além da tartaruga e dos pássaros que esvoaçavam sobre as árvores, que outras espécies se arriscavam a encon- trar? Mansas ou ferozes?
  • 34. Muito quietos, debateram-se com uma dúvida mais profunda: afinal de contas, tudo o que lhes acontecera desde que se tinham reunido a conversar sobre as garrafas Jorge Álvares seria real ou não passaria de um sonho exó- tico que os três partilhavam por motivos inexplicáveis? Sem saberem o que pensar, ergueram-se a custo e dirigiram-se à zona do arvoredo na intenção de desco- brir o que havia do lado de lá. Mas o cansaço e o peso da roupa molhada obrigavam-nos a caminhar devagarinho. E, talvez devido a uma ilusão, quanto mais andavam, mais o arvoredo lhes parecia distante. De nariz no ar e sapatos na mão, nenhum deles reparava no sítio onde punha os pés. A certa altura, Rodrigo deu um berro: — Aiii! Tropeçara, caíra e gritava agarrado ao pé esquerdo. — Ai! Aleijei-me! — Na areia? — Não. Tropecei numa coisa dura. — Deve ser uma pedra. — Se for, é bicuda e afiada. Luís e Matilde olharam para baixo e ambos captaram na areia um reflexo cintilante que os levou a ajoelha- rem-se e a escavar em volta. — Olha o que te fez tropeçar! Maravilhados, desenterraram um punhal de mode- lo antiquíssimo e cabo de prata cravejado de esmeral- das e rubis. — Uma arma — disseram os rapazes. — Arma? Isto é uma joia! — atalhou Matilde.
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  • 36. — Já viram o tamanho das pedras preciosas? Duvido que alguém alguma vez tenha lutado com isto. Devia ser um punhal para trazer à cintura em dias de festa. O inesperado da descoberta travou-lhes a marcha e ficaram ali a observar a peça valiosíssima que tinham de- senterrado. O céu, ainda há pouco limpo, começou a cobrir-se de nuvens, primeiro brancas, depois cinzentas, a seguir negras. O mar tomou a cor de chumbo dos dias maus. — Vem aí outra bruta tempestade. — Temos de nos abrigar. — Mas onde? Como já havia faíscas por entre as nuvens, desataram a correr para o arvoredo. De caminho, porém, lembra- ram-se de que se caíssem raios era perigoso estarem de- baixo de uma árvore. Ora, os raios não se fizeram esperar. Uns atrás dos outros, caíam cada vez mais perto e a uma velocidade aterradora. — E não chove — balbuciou o Rodrigo. — Trovoada seca é pior… O ar carregado de eletricidade, e eles ali, sem proteção possível, completamente desamparados. Matilde cravara os dedos no cabo do punhal com tanta força, que a mão lhe doía, mas o medo de ser atingida por uma faísca era mais forte do que a dor. — É melhor deitarmo-nos ao comprido, porque em pé podemos funcionar como para-raios e morrer fulminados!
  • 37. Não foi preciso repetir, pois no mesmo instante es- tenderam-se todos na areia. Matilde continuava agar- rada ao punhal, Rodrigo reparou e deu-lhe um grito: — O metal atrai raios! Atira isso fora! Ela obedeceu de imediato. O magnífico punhal, com anos e anos de existência, mais o seu cabo de prata maciça cravejado de pedras preciosas, voou para longe e espetou-se na areia. Minutos depois desapare- ceu, fulminado por uma chuva de raios. No chão ficou apenas uma mancha de líquido escuro que a areia ab- sorveu prontamente. E eles num sufoco a pensar que podiam ter tido o mesmo destino. Não tardou que as nuvens negras se afastassem, para dar lugar a nuvens brancas e cinzentas, entre as quais brilhou um raio de luz azulada. — O Ch’i lin! O Ch’i lin! De facto, vinha lá o Ch’i lin e o carro onde tinham viajado. — Vem-nos buscar! Vem-nos buscar! Não se enganavam. A música que lembrava sinos e flautas voltou a ressoar-lhes na cabeça e a transformar- -se em palavras muito nítidas. — Terminaram as provas. Foram três e das três saí- ram vencedores, porque procederam com sabedoria. Contra o tufão, souberam que não podiam lutar. Con- tra a onda, souberam que a deviam furar. Contra o raio, souberam que a peça valiosa tinham de sacrificar. Eles queriam responder, mas gaguejavam, atrapa- lhados.
  • 38. O Ch’i lin reforçou os elogios: — Como enfrentaram e venceram a prova do ar, a prova da água e a prova do fogo, pode considerar-se que o percurso está completo. Vou levá-los ao lugar onde tudo se revelará.
  • 39.
  • 41.
  • 42. viagem foi rápida, mas quando começaram a per- der altura perceberam que tinham ido para muito longe. — Que engraçado, aqui é tudo tão diferente! De facto, a paisagem não tinha nada a ver com aqui- lo a que estavam habituados. A zona era de penínsulas esguias com grandes recortes, ilhas, ilhotas e ilhéus co- bertos de vegetação cerrada, exuberante, em tons inima- gináveis de verde. As casas que se avistavam por entre a folhagem exibiam materiais de construção e formatos pouco vulgares. No mar calmo, balançavam navios an- tigos de todos os tamanhos, muitos com grandes velas de esteira, alguns com velas de pano. A atmosfera era quente e húmida. O Ch’i lin transportara-os no tempo, rumo a um país longínquo. — Preparem-se para aterrar no jardim da casa de Jorge Álvares. — O das garrafas? — Sim. — Vamos conhecê-lo? — De certo modo. Vocês vão conhecê-lo, mas ele nunca suspeitará de que estiveram presentes.
  • 43. — Não percebo. — Pois é simples. Vou instalá-los numa bolha invi- sível e à prova de som, para que possam ver sem serem vistos e falar sem serem ouvidos. Mas, atenção: o tempo que têm para desvendar o mistério que vos intrigou é li- mitado. Ao fim de uma hora, a bolha começa a desfazer- -se. Em poucos minutos desaparece e deixa-vos à mostra. — Isso é um problema? — Sim, devido à desconfiança que vão provocar. No tempo de Jorge Álvares nunca ninguém viu pessoas ves- tidas como vocês se vestem, penteadas como vocês se penteiam, calçadas como vocês se calçam e até a falar como vocês falam. Por isso, se vos virem, pensam que são feiticeiros ou demónios, com certeza prendem-vos e o mais certo é matarem-vos. Tenham cuidado e fiquem atentos ao relógio. Poucos minutos de atraso podem ser fatais. Mal se cumpra a hora, venham ter comigo. — Aonde? — Ao recanto do jardim onde vos deixo. O jardim não era muito grande, mas era muito bo- nito. Cheio de flores exóticas, palmeiras e árvores fron- dosas, de raízes aéreas, cujos ramos cantavam ao som do vento. A terra estava totalmente coberta por um au- têntico tapete de verdura. Por toda a parte esvoaçavam borboletas amarelas, azuis, cor de laranja ou às riscas e pintas que formavam desenhos geométricos. Ao fun- do do jardim havia um ancoradouro privativo onde se alinhavam vários navios. A casa, semi-oculta pelas co- pas das árvores, fora construída em madeira sobre esta-
  • 44.
  • 45. cas, tinha uma varanda larga e telhado de palha grossa. A tarde caía, o sol distribuía generosamente reflexos de oiro pela terra e pelo mar. Encantados com a beleza quase mágica do ambiente, permaneceram alguns minutos no jardim a observar o que os rodeava, a ouvir o canto dos pássaros àquela hora de regresso aos ninhos e a ouvir também as vozes e os risos que chegavam até eles através das janelas da casa. Janelas sem vidros, protegidas por esteiras finíssimas. As vozes eram exclusivamente masculinas e a conversa decorria em várias línguas. — Estamos aqui muito bem, mas, se queremos ver o que se passa lá dentro, é melhor despacharmo-nos — disse o Luís. Os outros concordaram e encaminharam-se para a escadinha de madeira que dava acesso à varanda. A bo- lha da invisibilidade obrigava-os a manterem-se próxi- mos uns dos outros, mas oferecia espaço suficiente para se movimentarem sem atropelos. A varanda comunicava com uma sala grande onde se encontravam oito homens reunidos em torno de uma grande mesa retangular. A luz do fim do dia, filtrada pe- las cortinas de esteira, tornava o ambiente um pouco sombrio. Ainda assim, perceberam de imediato que en- tre aqueles homens havia três portugueses, três chineses e dois cujas terras de origem não sabiam identificar. — Qual será o Jorge Álvares?
  • 46. Em casa de Jorge Álvares
  • 47.
  • 48. — dono da casa costuma sentar-se à cabeceira da mesa. — Então é aquele ali. — Tem boa pinta e expressão de inteligente. Olharam-no, curiosos, mas logo se distraíram por- que entraram na sala duas mulheres esguias, de cabe- lo preto muito liso, enfeitado com flores. Envergavam uma espécie de túnicas de tecido leve, que as cobriam até aos pés, e transportavam tabuleiros vermelhos com velas grossas, já acesas. Deslizando em silêncio, distri- buíram-nas pela mesa e por outros móveis encostados às paredes e encimados por espelhos. Depois saíram tão silenciosamente como tinham entrado e a sala ficou tão bela que mais parecia um cenário de teatro. Os homens continuaram a conversar e a banque- tear-se. Em vez de travessas, a comida era servida em grandes tigelas de loiça que exibiam arroz, legumes va- riados, camarões, bocados de carne e uns fiapos esbran- quiçados de aspeto bem apetitoso. Na frente de cada um, em vez de prato, estava uma tigelinha de loiça, e, em vez de garfo e faca, pauzinhos como eles já tinham visto nos restaurantes chineses.
  • 49. — Estou com fome. — Também eu. — Pelos vistos a bolha de invisibilidade deixa passar os cheiros. — E o cheiro desta comida é divinal. — Se provássemos? Luís ia a estender o braço para a tigela dos fiapos, Matilde travou-lhe o gesto. — Não faças isso! — Porquê? — Porque podes rebentar a bolha, ou ficar de braço à mostra. — Ah! Pois é!
  • 50. A pena de não provar aquele petisco desvaneceu-se quan- do um dos portugueses, que acabara de o engolir, gabou: — Ó Jorge, o teu cozinheiro sabe temperar carne de co- bra como ninguém. Está óptima! Luís olhou os amigos, estarrecido. — Cobra aos fiapos? Que horror! Ainda bem que não comi. — Pelos vistos os portugueses que para aqui andam já se habituaram às comidas da terra! De facto, Jorge Álvares parecia perfeitamente à von- tade entre os seus convidados, e os outros que falavam português também se mostravam ambientadíssimos. Quem seriam? A resposta não se fez tardar e Rodrigo, ao ouvir os nomes, ficou arrepiado dos pés à cabeça.
  • 51. Porque o dono da casa tratou um só pelo nome próprio: Fernão. Mas a outro, por qualquer motivo, interpelou-o pelo nome todo, e o nome era Samuel Andrade. — O homem que escreveu a carta! A carta que eu li! Que coisa espantosa! O entusiasmo levara-o a falar altíssimo, sem proble- ma por ser a bolha à prova de som. — Deixa lá a carta e cala-te, para ouvirmos o que eles dizem, senão passa o tempo e ficamos sem saber nada. De início julgaram quase impossível seguir a conver- sa porque falavam em várias línguas e às vezes todos ao mesmo tempo. Foi necessário concentrarem-se, para a pouco e pouco captarem o essencial. — Estão a discutir negócios. — E que negócios! Todos têm navios a circular daqui para a China, da China para o Japão, do Japão para aqui… — Para comprar e vender tanta coisa! Vocês ouvi- ram? Espadas, loiças, móveis, sedas… — Pshiu… Cala-te. — Porquê? — Porque agora estão a falar de ouro e prata. — Em lingotes. — E em pó! — Será o tal pó de fortuna? A hipótese deixou-os ao rubro e apuraram o ouvido, mas a conversa de repente tomou outro rumo porque entrou na sala mais um homem, um homenzarrão de barba em bico, calças tufadas, chapéu enfeitado de plu- mas. Vinha com ar apressado e a pedir desculpa pelo
  • 52. atraso. Jorge Álvares levantou-se para o receber e sau- dou-o com fortes palmadas nas costas. — Diogo Pereira, Diogo Pereira! Estava só à tua espe- ra para oferecer os presentes que encomendei na China! O recém-chegado tirou o chapéu, cumprimentou toda a gente, serviu-se de uma bebida que despejou pela goela abaixo com visível prazer e esfregou as mãos como quem se sente feliz. — Ora vamos lá então ver essas prendas! O dono da casa fez sinal para que o seguissem para a sala ao lado. Rodrigo e os amigos foram atrás e, num misto de surpresa e excitação, confirmaram as suspeitas. Jorge Álvares ia oferecer aos convidados as garrafas de porcelana azul e branca onde, além de desenhos, mandara pintar uma frase que incluía o seu nome. E isso mesmo explicou, comovido: — Consegui realizar um velho sonho. E olhem que não foi fácil. Todos vocês sabem que os nossos negócios com a China estão proibidos… — Pois é — brincou Samuel. — Mas nós, portugueses, temos uma habilidade especial para quebrar regras e fu- rar proibições, não é? — É… No entanto não deixa de ser arriscado. E eu ar- risquei. Com a ajuda de certos parceiros, consegui enco- mendar estas garrafas numa fábrica chinesa de Jiangxi. Com ar triunfante, pegou numa delas e mostrou a frase que mandara pintar. — Ora vejam só o que aqui está escrito! Os convidados leram em voz alta:
  • 53. — «Isto mandou fazer Jorge Alvrz na era de 1552 reina.» — Que tal, hã? É verdade que faltam algumas letras do meu nome, mas não faz mal. Percebe-se perfeita- mente que sou eu. E está aí a data que não engana. Fiz a encomenda num ano que os portugueses se encontram impedidos de entrar na China. — Era óbvio que a proe- za o enchia de satisfação. — Eu queria que ficasse escrito «reinando D. João III», mas o espaço não chegou para completar a frase. Também não faz mal, porque toda a gente sabe que no ano 1552 no trono de Portugal está el-rei D. João III! Ah! Ah! Ah! — E que na China o imperador é Jiajing da dinastia Ming! Ih!Ih!Ih! Quem agora ria era o mais novo dos convidados chi- neses. Todos acharam graça, todos gabaram as garrafas e todos giraram em volta da mesa a admirá-las. — Para mim esta é a mais bonita — disse o Samuel. — Porque está decorada com peixes e eu adoro peixes! — Então fica com ela. E vocês escolham à vontade a que preferirem. Mandei fazer um conjunto para ofere- cer. Começo pelos maiores amigos, as outras guardo-as para futuras ocasiões. A escolha demorou bastante porque hesitavam. — São belas peças, hã? — Magníficas! Dentro da bolha, o trio acompanhava a movimenta- ção com curiosidade. Qual daqueles homens escolheria a garrafa que tinha o Ch’i lin pintado no bojo?
  • 55.
  • 56. m dos chineses, que era bastante mais velho do que todos os homens presentes no jantar, pouco tinha fala- do. Já dera várias voltas à sala, observando as garrafas de loiça com especial atenção. De vez em quando parava, dizia umas palavrinhas tão baixo que ninguém o ouvia, e depois estendia as mãos sobre os gargalos e ficava imó- vel, de olhos fechados, como se tivesse adormecido em pé. Talvez os companheiros estivessem habituados àque- las atitudes bizarras porque não lhe prestaram atenção. Ou talvez não ligassem por se encontrarem entretidos a escolher a garrafa que queriam de presente. Mas quando ele elevou a voz, todos se imobilizaram, prontos a ouvi- -lo no mais respeitoso silêncio. — Tenho uma informação a dar. — E nós agradecemos. É uma honra poder contar com um adivinho chinês entre nós — disse Jorge Álvares. — Fale, mestre. — As garrafas em que mandaste pintar o teu nome vão correr mundo. Para algumas, a vida será curta e ter- minarão em fragmentos. — Ou seja, caem ao chão e ficam feitas em cacos — murmurou o Samuel.
  • 57. O adivinho ignorou o comentário e continuou a fa- lar, imperturbável. — Para outras garrafas a vida será longa. Hão-de atravessar oceanos e hão-de manter-se intactas ou qua- se intactas durante séculos. Hão-de passar de mão em mão, cada vez mais apreciadas, cada vez mais valorizadas para alegria de quem as tiver em seu poder. No entanto, uma e só uma ocultará o verdadeiro tesouro que é o pó da fortuna. — E qual é? — perguntaram várias vozes em coro. O adivinho sorriu ao de leve e os olhos adquiriram uma expressão enigmática. — Pouco interessa, porque o pó apenas se libertará do interior da garrafa quando se constituir um triângu- lo de força capaz de unir o passado e o presente, num momento único. — Sempre acreditei nas tuas palavras sábias — disse o Jorge Álvares. — Regozijo-me com a ideia de que uma destas minhas garrafas ocultará o pó da fortuna durante séculos. Se não me beneficia a mim, paciência. Aliás, não me posso queixar da vida. Tenho sido feliz e bem-sucedi- do. E hoje mesmo tu próprio me deste mais uma alegria. Adorei saber que algumas das minhas garrafas, lindas mas frágeis por serem de loiça, vão resistir ao tempo. A repetição da palavra tempo funcionou como mar- telada na cabeça da Matilde, que olhou para o relógio e ficou aflitíssima. — Já passam alguns segundos da hora que nos deu o Ch’i lin!
  • 58.
  • 59. Aterrada, verificou que os pés dela e os dos rapazes já estavam à vista porque a bolha que os protegia começara a encolher. — Vamos embora! Depressa! Saíram porta fora numa correria, mas um dos con- vidados, que tinha ido à varanda para observar a garrafa escolhida à luz da Lua, ouviu ranger a madeira e quan- do baixou a cabeça quase desmaiou de susto ao deparar com três pares de pés sem corpo a descer a escada e a correr pela relva do jardim. — O que é isto? Tal foi o choque, que largou a preciosa prenda e crás, uma das garrafas Jorge Álvares terminou logo ali, desfeita em pedaços e confirmando a tese do adivinho que ainda há pouco garantia: para algumas a vida será curta. O estoiro atraíra todos os convivas à varanda. Ne- nhum avistou os pés fugitivos porque já se encontravam a bordo do carro de luz, prontos a empreender a viagem de regresso. Matilde é que ainda viu de relance o adivi- nho a gesticular no meio dos outros, agitando a mão es- querda. Na direita segurava com mil cuidados a garrafa que escolhera para si: a que tinha o Ch’i lin pintado em tons de azul forte, certamente a que guardaria no inte- rior durante séculos o misterioso pó de fortuna.
  • 60. O pó de fortuna
  • 61.
  • 62. uando voltaram a comunicar, estavam outra vez cada um diante do seu computador e nenhum era capaz de recordar o que sucedera depois de fugirem do jardim de Jorge Álvares. — Não me lembro de nada! — Nem eu! — Se não tivéssemos lá estado os três, convencia-me de que a viagem não passou de um sonho! — Também eu. — E agora? Esquecemos o assunto? — Nem penses! Eu quero ir à procura da garrafa que tem o Ch’i lin. Após breve hesitação, Matilde confessou: — Pode parecer uma idiotice, mas adorei o Ch’i lin e estou com saudades dele. Os rapazes sentiam o mesmo e também ansiavam voltar a ver aquela criatura estranhíssima, ouvi-la falar através de música e por enigmas. — Querem tentar? — Queremos. Mas como? — Usamos a internet para procurar a imagem em que o Ch’i lin está pintado. Logo que aparecer, dizemos
  • 63. outra vez ao mesmo tempo: «Sorte.» Talvez funcione. — Isso! Vamos a isso! Apanhar a garrafa no ecrã foi fácil, mas, por muito que repetissem em coro a palavra «sorte», o fenómeno que permitira a comunicação entre eles e o ser mítico não se repetiu. — Acham que perdemos a capacidade de formar um triângulo de força chamativa? — Não sei. — Se calhar o Ch’i lin só se manifesta uma vez de cem em cem anos. — Espera aí, Rodrigo. Há uma coisa que podemos fa- zer. Aliás, eu até acho que devemos fazer. — O que é? — Ir procurar a garrafa no museu onde ela estiver e tentar libertar o pó da fortuna. — Certo, Matilde. E até te digo mais: tenho quase a certeza de que o Ch’i lin veio ter connosco para nos encarregar dessa missão. Quer que libertemos o pó da fortuna guardado há séculos. — Quer dizer que chegou a hora! Retomando a pesquisa na internet, descobriram de imediato o paradeiro da garrafa. — Está no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau. — E a morada? — Olha ali, escrita com todas as letras. É em Lisboa. — O pior é que eu estou em Freixo de Espada à Cinta a passar o fim de semana — queixou-se o Rodrigo.
  • 64. — E eu no Porto, em casa dos meus avós — disse o Luís. — Não desanimem, porque eu estou em Lisboa mas prometo esperar por vocês para irmos juntos. — És a maior! Só se puderam reunir num dos últimos dias das fé- rias da Páscoa. Tomaram o autocarro e apearam-se na Rua da Junqueira, em grande alvoroço. A garrafa estaria em exposição? Seria possível tocarem-lhe? E, se assim fosse, aconteceria alguma coisa especial, ou regressa- riam a casa de orelha murcha? O primeiro impacto deixou-os perplexos porque, embora o edifício fosse bonito e acolhedor, as pessoas que se encontravam lá dentro mostravam-se agitadas e irritadiças. Máquinas de filmar, microfones e holofotes indicavam que boa parte daquela gente pertencia a uma equipa da televisão. E, pela maneira como discutiam, percebia-se que tinham sido encarregues de fazer um programa sobre o museu e não se entendiam. Um deles não se cansava de lembrar: — Isto não é um concurso nem é um programa có- mico, é um programa cultural! Não podes fazer essas caras nem esses sorrisinhos apalermados! A rapariga a quem competia a apresentação parecia à beira de um ataque de nervos. — Estás a chamar-me palerma, é? — Não! Só quero que te lembres que este programa é sério. — Se for sério demais torna-se uma seca de morte! — Que eu saiba, nunca matei ninguém!
  • 65. — Nem tu nem nós, porque trabalhamos em equipa! Mas tens a mania que não valemos nada e que sabes tudo. — Eu? A discussão azedava e a funcionária do museu ouvia- -os com desagrado e impaciência. De vez em quando re- bolava os olhos como quem pensa «quem me dera que se fossem todos embora e depressa». Tinha um telemóvel pousadonamesaedeitava-lhemiradasdeumtipoquenão engana: aguardava notícias, e receava que fossem más. Matilde, Rodrigo e Luís preferiram esperar a ver se aquela tempestade emocional abrandava para poderem ir à procura da garrafa Jorge Álvares sem sobressaltos. De súbito, porém, viram-na. E relativamente perto, pois encontrava-se na sala da entrada, elegante, discreta, ocu- pando sozinha uma vitrine que só podia ter sido mandada fazer de propósito, para que ali repousasse em segurança, à vista do público. No bojo, lá estava o Ch’i lin, com o seu estranho corpo a lembrar um dragão, mas de pernas finas, nariz e olhos redondos, a haste que lhe saía da ca- beça. Tencionaria falar-lhes? Ou agora teriam de se con- tentar em admirar-lhe o retrato pintado há séculos em tons de azul? Emocionados, precipitaram-se a comprar bilhete. A empregada abanou a cabeça negativamente. — Não podemos entrar? — Podem, mas não pagam! Para pessoas da vossa idade o museu é de graça! Se o que dizia não podia ser mais simpático, os mo- dos não podiam ser mais ríspidos. Não lhes ligou ne- nhuma e continuou fixa no telemóvel que não tocava.
  • 66. De início ninguém pareceu importar-se — ou sequer notar — que eles os três se tivessem plantado em frente à vitrine da garrafa Jorge Álvares e ali ficassem especados uma eternidade. As discussões da equipa de filmagens continuavam e subiam de tom, a funcionária de vez em quando soltava suspiros profundos. A certa altura, apa- receu uma outra a perguntar: — Então? O Zé já deu notícias? — Claro que não! Se desse, eu dizia! — foi a respos- ta brusca, acompanhada por gestos desajeitados que por pouco não projetavam o telemóvel contra a barriga da colega. Luís, que arregalava os olhos para a vitrine, sussur- rou aos amigos: — Se aproveitássemos a malta estar distraída para abrir o vidro e sacudir a garrafa? Se não lhe pegamos, nunca saberemos se o tal pó de fortuna existe ou não existe. — Eu acho que existe — disse a Matilde. — Então vê lá se tens uma ideia para podermos cum- prir a nossa missão sem estardalhaço. Nas voltas e reviravoltas à procura de um fecho ou de um encaixe que permitisse o acesso à garrafa, acaba- ram por se colocar de tal modo que formaram um triân- gulo. Nesse momento, ressoou pela sala um inesperado tilintar agudo, intenso e tão exótico que toda a gente se calou. De início, as outras pessoas presentes não loca- lizaram a origem do som, mas depressa se aperceberam de que provinha da vitrine onde se encontrava a garrafa
  • 67. Jorge Álvares. E, para estupefação geral, o vidro que a protegia deslizou até ao soalho, onde pousou, intacto. O gargalo da garrafa, agora sem proteção, soprava, sol- tando assobios como se contivesse no interior um pe- queno génio prestes a saltar cá para fora e a libertar-se de um longo cativeiro. O pessoal, atónito, não movia um músculo, e em todas as cabeças perpassava a mesma pergunta: «O que é isto? O que é isto?» Só eles os três julgavam saber a resposta. — É o pó da fortuna! — E assobia? — Talvez seja a maneira de se anunciar. Não se enganara o Luís, pois do gargalo brotou um jato, não de pó, mas de poalha esbranquiçada, que se foi espalhando primeiro por aquela sala, depois pelas escadas acima, em pouco tempo por todo o museu, empapando a atmosfera como se fosse uma nuvem. Nem quente nem fria, sem cheiro nem sabor, não afetava a respiração, não humedecia a roupa, nem irritava a pele. Ninguém reagiu, e, antes que tivessem tido tempo de fazer comentários, a nuvem começou a encolher, esbateu-se, ficou reduzida a pequenas farripas que flutuavam a diferentes alturas. A estupefação geral redobrou, porque o vidro, deslizan- do em sentido inverso, retomou o seu lugar na vitrine. Ainda gaguejavam de espanto quando os telemóveis começaram a tocar. E então, que loucura! A funcioná- ria do museu, primeiro lívida, depois escarlate, desatou a chorar de alegria e a dizer em altos berros:
  • 69. — O meu filho arranjou emprego! Já tinha ido a dez entrevistas para nada e agora contrataram-no! As lágrimas corriam-lhe pela cara a quatro e quatro. A outra funcionária correu a abraçá-la, por pouco não se punham a dançar para dar largas à satisfação. Quanto à equipa de filmagens, dançava mesmo e aos pulos, porque acabava de receber a melhor das notícias: tinha ganhado o Globo de Ouro dos programas culturais! — Somos os maiores! — Não há equipa como a nossa! Também se abraçavam, riam e comemoravam o su- cesso dizendo graçolas: — Somos sensacionais porque nunca discutimos! — Nunca nos zangamos! — É a boa harmonia que garante o êxito! Ah! Ah! Ah! Nunca houve melhor equipa no mundo! Dir-se-ia que as plantas do jardim participavam na festa, pois arrebitaram-se, de repente mais verdes e vi- çosas. Um último toque de telemóvel introduziu na sala, onde toda a gente parecia ter enlouquecido, mais uma notícia de arromba. — Vou ser pai! — berrou o rapaz dos microfones. — A minha mulher ligou a dizer que vou ser pai! O mí- nimo que vocês podem fazer é cantar-me os parabéns! Rodrigo, Matilde e Luís não tinham a menor dúvida de que tudo aquilo era efeito do pó de fortuna e sen- tiam-se felicíssimos por terem sido capazes de cumprir a extraordinária missão que lhes fora confiada. Trocaram olhares, sorrisos e repetiam entre si:
  • 70. — O pó de fortuna… — Acertámos em cheio! Neste caso «fortuna» queria dizer sorte! A equipa das filmagens demorou a acalmar. Quando acalmou, todos se interrogaram sobre o que ali se passa- ra, sem chegarem a conclusão nenhuma. — O vidro para baixo e para cima, a garrafa a asso- biar, nuvens de pó, nuvens de notícias boas… Alguém sabe interpretar isto? O grupo, num impulso, resolveu arriscar: — Nós sabemos. Claro que a reação inicial foi de dúvida, mas, em todo o caso, decidiram ouvi-los. — Se sabem, digam o que têm a dizer. — Talvez não acreditem, mas nós os três vivemos uma experiência espantosa e inexplicável. Não era fácil resumir a história, mas, como quanto mais falavam, mais os outros se interessavam, lá foram descrevendo os acontecimentos, a partir da descoberta de uma carta entre as páginas de um livro guardado em Freixo de Espada à Cinta. A equipa das filmagens exultou. Ninguém se deu ao trabalho de dizer se acreditava ou não, porque todos adoraram aquele enredo. — Vamos incluí-lo na reportagem sobre o Museu e é já! — Queremos entrevistá-los. — E vamos encomendar efeitos especiais para recons- tituir as cenas que vocês viveram na ilha. — E em casa de Jorge Álvares!
  • 71. — Eu até tenho um amigo que pode fazer o papel de adivinho chinês. — E eu sei quem se vai encarregar do guarda-roupa. — Olhem lá, vocês os três querem entrar no filme, não querem? Estão dispostos a representar o vosso próprio papel? — Sim! — Já calculávamos. — Aposto que vamos ganhar o próximo Globo de Ouro. — E o de prata e o do bronze. — Talvez até um Oscar, não? A visita ao Museu de Macau terminou em euforia total. Seguiu-se um período de autêntico delírio, a darem en- trevistas para a rádio e para os jornais, a conviver com atores, a ensaiar, a participar em filmagens. Curiosa- mente, o tempo chegava-lhes para tudo, até para estudar e ter boas notas. Na escola eram tratados como heróis. A própria Marina quis voltar ao grupo do Rodrigo, mas ele desinteressara-se dela e recomendou-lhe amigavelmente: — Acho melhor continuares a andar com a malta do Júlio porque eu tenho muito que fazer! Ao dizer aquilo, descobriu que se libertara de um des- gosto amargo e profundo e sentiu-se tão leve como as farripas que vira a esvoaçar no museu. Ficou gratíssimo ao adivinho chinês que há séculos usara poderes ocultos para introduzir numa das garrafas Jorge Álvares o mara- vilhoso pó de fortuna.
  • 72.
  • 73.
  • 75. Jorge Álvares nasceu em Freixo de Espada à Cinta. Não se sabe ao certo em que data, mas pensa-se que tenha sido no ano 1509 ou 1510. Era um homem do povo e, como outros portugueses do seu tempo, decidiu embar- car nas naus da carreira da Índia e procurar melhor vida Quem era Jorge Álvares
  • 76. no Oriente. A maneira como conduziu o seu destino e o facto de ter enriquecido permitem pensar que era for- te, corajoso, capaz de resistir aos perigos das viagens que o levaram primeiro à Índia, depois a Malaca, à China e depois ao Japão, país que foi um dos primeiros europeus a visitar. Pode concluir-se também que era astuto, inteli- gente e que soube adaptar-se a climas diferentes, a novos tipos de alimentação, a novos hábitos e costumes. Tudo indica que terá aprendido outras línguas, talvez não com grande profundidade, mas dominando vocabulário sufi- ciente para poder comunicar, comerciar e fazer sociedades com mercadores dos vários locais que percorreu. Jorge Álvares vivia a maior parte do tempo na sua casa de Patane, perto de Malaca. Possuía vários navios que circulavam no oceano Índico, nos mares da China e do Japão carregados de mercadoria que comprava e vendia conseguindo bons lucros. De uma maneira geral, os seus navios partiam de Malaca carregados de especia- rias, de plantas tintureiras e de madeiras preciosas para vender na China, onde os seus colaboradores compra- vam porcelanas, papéis, tecidos de seda e de algodão. Depois levavam esses produtos ao Japão e trocavam- -nos por sabres, espadas, prata e ouro em lingotes ou em pó. Do Japão voltavam à China e daí a Malaca, sempre a fazer comércio pelo caminho. Naquela época, a maior parte dos portugueses, sobre- tudo sendo homens do povo, não sabia ler nem escrever. No entanto, Jorge Álvares, fosse lá como fosse, aprendeu e a ele se deve o primeiro texto escrito por um europeu
  • 77. sobre o Japão, texto que veio a ser publicado mais tarde com o título Informação das Coisas do Japão. Ignora-se se Jorge Álvares morreu no Oriente ou se regressou a Portugal. Em Freixo de Espada à Cinta foi erguida uma estátua em memória deste ilustre filho da terra. ▲  Mapa com os locais por onde Jorge Álvares viajou.
  • 78. Jorge Álvares relacionou-se com vários grupos de nave- gadores, mercadores, comerciantes e missionários que conheceu no Oriente. Alguns eram naturais de regiões tão variadas como, por exemplo, a Índia, a Malásia, a China e o Japão. Outros eram portugueses e alguns pas- saram à história, como Fernão Mendes Pinto e Diogo Pereira. Entre os amigos de Jorge Álvares figurou tam- bém S. Francisco Xavier, que nasceu em Navarra mas seguiu para o Oriente como missionário, enviado pelo rei de Portugal D. João III. Os amigos de Jorge Álvares
  • 79. Filho de uma família pobre de Montemor-o-Velho, par- tiu muito novo para o Oriente. Durante 21 anos nave- gou entre a Índia, a Insulíndia, Malaca, China e Japão. Sobreviveu a todas as adversidades, enriqueceu, regres- sou a Portugal já velho e escreveu um livro fabuloso a que deu o título Peregrinação. Nesse livro relata as suas aventuras, descreve com minúcia locais que visitou, povos que conheceu. Deixou registado que foi feito 13 vezes prisioneiro e vendido 17 vezes como escravo. A Peregrinação teve sucesso imediato. Traduzida em vá- rias línguas, tornou-se um verdadeiro best-seller e ainda hoje é uma obra que se lê com prazer. Como Fernão Mendes Pinto fez parte do grupo de Jorge Álvares, decidimos incluir um amigo chamado Fernão no jantar em que as garrafas foram oferecidas aos convidados. Fernão Mendes Pinto
  • 80. Francisco Xavier nasceu no reino de Navarra, em 1497, no castelo de Xavier, que pertencia à sua família, uma família nobre. Na juventude foi estudar para Paris, onde frequentou a única universidade que então existia em França, a Sorbonne. Aí conheceu Inácio de Loyola, de quem se tornou muito amigo. S. Francisco Xavier
  • 81. Inácio de Loyola, Francisco Xavier e mais cinco com- panheiros fundaram uma organização religiosa a que chamaram Companhia de Jesus, ou Jesuítas. Esta com- panhia destinava-se ao ensino, ao tratamento de doen- tes e a espalhar a fé cristã pelo mundo. Em 1541, Francisco Xavier partiu para a Índia como missionário, chefiando um grupo que pertencia ao pa- droado português, protegido pelo rei D. João III. Desen- volveu uma ação notável junto dos povos do Oriente que visitou, sobretudo na Índia, em Malaca, na China e no Japão. Morreu no ano de 1552, numa cabana que pertencia a Jorge Álvares, situada na ilha Sanchoão, na China. Os seus restos mortais foram transladados para a Índia e o seu túmulo encontra-se na Igreja de S. Francisco em Goa. Tendo-lhe sido atribuídos vários milagres, foi cano- nizado pelo papa Gregório XV, no ano de 1662. Passou então a ser venerado como S. Francisco Xavier. O seu túmulo em Goa atrai visitantes e muitos peregrinos. S. Francisco Xavier conheceu pessoalmente e convi- veu com Fernão Mendes Pinto e com Jorge Álvares.
  • 82. Diogo Pereira pertencia a uma família nobre. Partiu para o Oriente como capitão de naus da Coroa e distinguiu- -se na luta contra os inimigos dos portugueses. Adquiriu navios, desenvolveu uma próspera atividade comercial e enriqueceu. Viajou até ao Japão e foi ele quem liderou o grupo que veio a instalar-se em Macau. Mais tarde, obteve permissão das autoridades chinesas para os por- tugueses ali se estabelecerem permanentemente e pode- rem fazer os seus negócios. Diogo Pereira
  • 83. A porcelana chinesa era um produto valiosíssimo e mui- to apreciado na Europa porque os fabricantes europeus de loiça não conheciam o segredo que permitia obter pe- ças finíssimas, mas leves e resistentes, conforme saíam das fábricas da China. As primeiras porcelanas que che- garam à Europa foram consideradas autênticos tesouros. Quando, em 1498, Vasco da Gama regressou da via- gem em que descobriu o caminho marítimo para a Índia, ofereceu ao rei D. Manuel I algumas peças de porcelana chinesa compradas na Índia. A corte mostrou-se ma- ravilhada. Os navegadores seguintes fizeram questão de trazer sempre porcelana para agradar ao rei e à nobreza. Chegaram aos nossos dias belas peças decoradas com a esfera armilar e o escudo de D. Manuel I, e também peças decoradas com os brasões de famílias nobres. No reinado de D. João III estalaram conflitos entre portugueses e chineses e em 1522 os portugueses foram proibidos de entrar na China e de ali comprar ou vender fosse o que fosse. Para não se verem privados dos negó- cios que tanto convinham aos mercadores portugueses como aos chineses, estabeleceu-se uma rede de contac- tos clandestinos, que se manteve até 1554, data em que a proibição foi levantada. A porcelana da China
  • 84. ▲  Gomil Porcelana da China de exportação Dinastia Ming, reinado Zhengde (1506-1521) C. 1519-1520 © Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa ▲  Kendi Porcelana da China de exportação Dinastia Ming, reinado Jiajing (1522-1566) © Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa ▲  Taça Porcelana da China de exportação Dinastia Ming, período de Jiajing (1522-1566) C. 1540-1550 © Fundação Carmona e Costa, Lisboa ▲  Pote Porcelana da China de exportação Dinastia Ming, reinado de Wanli (1573-1620) © Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, Lisboa
  • 85. Garrafas de porcelana chinesa azul e branca China, dinastia Ming, reinado de Jiajing, 1552 ▼ (1)  Alt. 24,8 cm Contém a inscrição O MANOOU FACER JORGE ALVRZ 1552 © Victoria and Albert Museum, Londres (2)  Alt. 25,4 cm Contém a inscrição JORGE ALVRZ N EGEO NAM DOU – A ERA DE 1552 REINA © The Walters Art Museum, Baltimore (3)  Alt. 23,7 cm Contém a inscrição ISTO MANDOU FAZER JORGE ALVRZ NA//A ERA DE 1552 REINA © Fundação Jorge Álvares, Lisboa Em plena época de proibição, houve mercadores abas- tados que se lembraram de encomendar peças identi- ficadas com o seu próprio nome e com a data da enco- menda. Um deles foi Jorge Álvares. Para o poder fazer, tinha de ser já um homem bem-sucedido, rico e ousado. A frase que mandou pintar foi: Isto mandou fazer Jorge Álvares na era de 1552 reinando D. João III. A frase saiu um pouco diferente, decerto porque os artistas chineses não conheciam o alfabeto ocidental e esqueceram algu- mas letras. Também não completaram a frase, o que se explica por falta de espaço. De modo que ficou assim: Isto mandou fazer Jorge Alvrz1 na era de 1552 reina. 1 «Alvrz» é a abreviatura de Álvares. (1) (2) (3) As garrafas Jorge Álvares
  • 86. )
  • 87. Não se sabe ao certo quantas garrafas Jorge Álvares terá encomendado. Supõe-se que as ofereceu a amigos a quem quis distinguir com uma prenda especial, pois isso era costume na época. Muitas se terão partido e de- saparecido, mas há nove que chegaram aos nossos dias e se encontram em museus ou em coleções particulares. Uma no Walters Art Museum, na cidade de Baltimore, Estados Unidos da América, outra no Museu Guimet de Paris, uma terceira no Museu de Artes Islâmicas no Irão, uma quarta no Museu Victoria and Albert em Londres e uma quinta no Brasil, numa coleção particular. Em Portugal encontram-se quatro garrafas — uma pertence a uma coleção particular e outras três encontram-se em museus, onde podem ser admiradas pelos visitantes: no Museu do Caramulo, no Museu da Fundação Carmona e Costa e a que ostenta a figura mítica que é o Ch’i lin pertence à Fundação Jorge Álvares e pode ser admirada no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, que fica na Rua da Junqueira, em Lisboa.
  • 88. A civilização chinesa atribui valor de símbolo especial a vários animais míticos, como, por exemplo: o dragão, a fénix, a tartaruga e o Ch’i lin. As imagens destes ani- mais são utilizadas há milénios na arte como elementos decorativos. O Ch’i lin e outros amigos míticos chineses
  • 89. Para os chineses, o dragão é um ser benéfico e poderoso e um expoente máximo de segurança. A religião da China Antiga considerava o dragão como mensageiro dos deuses, guardião dos tesouros divinos e símbolo do imperador. Da tradição chinesa fazem parte vários tipos de dra- gões, todos associados a características positivas. Ao lon- go dos tempos, os artistas chineses foram representando esses dragões na pintura, na escultura e noutras artes, de acordo com padrões definidos pela religião e invariavel- mente associados à imagem do imperador e da família imperial. Na nossa época já não há imperador da China, mas o dragão continua a estar presente na arte, na imagina- ção, na poesia, nas tradições e nas festas chinesas. O dragão chinês nada tem a ver com os dragões ima- ginados pelos europeus no tempo dos castelos. Estes eram monstros perigosos que os cavaleiros e os santos se viam na obrigação de combater. O Dragão
  • 90.
  • 91.
  • 92. A fénix, tal como o dragão, só existe como criatura ima- ginária. Tem a forma de um pássaro com grande cauda de plumas e grandes asas. As suas penas têm cinco cores, o seu canto lembra a música de um instrumento com cinco modulações. Também é benevolente, não faz mal a nenhum ser vivo, só bebe água das fontes mais puras e alimenta-se exclusivamente de plantas. Este animal mítico é considerado símbolo do bem, da beleza, do sol e das boas colheitas. Aparece sempre em momentos de paz e prosperidade. Os artistas representam muitas ve- zes a fénix a olhar para uma bola de fogo. As vestes das imperatrizes eram frequentemente de- coradas com esta maravilhosa ave, bordada a fios de seda, ouro e prata. Nos países da Europa, a fénix é também um animal simbólico, com forma de pássaro, mas com uma dife- rença em relação à fénix chinesa. Segundo a tradição, a fénix europeia tem a capacidade de renascer das suas próprias cinzas, ou seja, de voltar à vida depois da morte. Isso torna-a um símbolo da renovação e renascimento. A Fénix
  • 93.
  • 94. A tartaruga é o único animal mítico chinês que também existe na natureza. Segundo a tradição, representa o uni- verso. A carapaça, em forma de cúpula, representa o céu. A barriga representa a terra, que se consegue mover na água. Como na realidade vive muito mais anos do que a maioria dos animais, tornou-se símbolo da imortali- dade. Os escritores, poetas e artistas chineses tornaram a tartaruga uma fonte de inspiração para histórias tra- dicionais, histórias exemplares, poemas e obras de arte. A tartaruga aparece também com frequência esculpida em pedra, na base de edifícios grandiosos. Nos templos budistas há geralmente tanques onde nadam tartarugas e os visitantes alimentam-nas com carinho e respeito. A Tartaruga
  • 95. O Ch’i lin é um ser imaginário que tem o corpo parecido com o dos veados, dos cavalos e dos dragões, patas de cavalo, cabeça grande de olhos redondos e uma haste na testa parecida com a dos unicórnios imagina- dos pelos povos da Europa. A ponta dessa haste é macia porque não serve para agredir. O corpo do Ch’i lin é coberto de escamas de cinco cores: amarelo, encarnado, azul, branco e preto. A sua voz lembra campainhas, sininhos, flautas ou outros ins- trumentos musicais. Este simpático Ch’i lin representa harmonia, bene- volência, retidão. Por isso não faz mal a ninguém e os chineses consideram-no símbolo da perfeição e do bem. Tal como os outros animais míticos, o Ch’i lin é muito utilizado pelos artistas na decoração das suas obras. Na Europa, o ser imaginário que mais semelhanças apresenta com o Ch’i lin é o unicórnio, pois tem corpo de cavalo, um corno pontiagudo na testa e também sim- boliza perfeição, pureza e bondade. O Ch’i lin
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  • 97. © Reservados todos os direitos, Fundação Jorge Álvares Fundação Jorge Álvares Av. Miguel Bombarda, n.º 133 – 4.º E 1050–164 Lisboa, Portugal fundacao@jorgealvares.com Lisboa, abril de 2014 Depósito legal n.º 371 745/14 Edição não comercial  —  PROIBIDA A VENDA Para escrever esta história contámos com o apoio precioso, que muito agradecemos, dos especialistas: Dr.ª Maria Antónia Pinto de Matos, diretora do Museu do Azulejo; Professor Luís Filipe Barreto, presidente do Centro Científico e Cultural de Macau; Dr. António Abreu. Ana Maria Magalhães Isabel Alçada Carlos Marques Maria de Fátima Carmo TVM Designers Multitipo, Artes Gráficas, Lda. 75 000 exemplares Agradecimentos