1A MICRO-FICÇÃO/ESCRITA BREVE COMO ESTRATÉGIA INOVADORA DE PROMOÇÃO DA LEITURA E DA ESCRITA CRIATIVA(para públicos jovem e adulto)*Apresentação realizada no âmbito do Encontro inter-concelhio de grupos de trabalho das bibliotecas escolares (Faro, Silves e Lagoa)[versão aumentada]12 de Julho de 2010 Biblioteca Municipal de Silves* por Paulo Pires | Técnico Superior da BMS (programador e mediador de leitura)biblioteca@cm-silves.pt 11
MICRO + FICÇÃODefinição literal |“texto inventado em formato conciso”Ingredientes centrais |CONCISÃO (engloba os conceitos de brevidade e precisão)                                                   +                          INTENSIDADE E EFICÁCIA EXPRESSIVAS(analogia com regra da Física: maior brevidade = maior intensidade)Convenço-me agora de que a brevidade é um fim em si mesmo quando leio uma linha e me parece mais larga do que a vida, e quando, depois, leio uma novela e esta me parece mais breve do que a morte. (Gabriel Jiménez Emán)Pluralidade terminológica actual |     Micro-narrativa / escrita breve / ficção súbita     Crônica (Brasil)     Microconto / miniconto / mini-miniconto / nanoconto / conto breve / ultraconto     Short story / short short story / four minute fiction (EUA)     Microrrelato (América Latina)
3| ANTECEDENTES E INFLUÊNCIAS NA MICRO-FICÇÃOESCRITA BREVE – remonta aos inícios da literatura, há 4000 anos (em textos sumérios e egípcios), surgindo como relatos intercaladosNa literatura grega surgem como digressões imaginárias com uma unidade de sentido relativamente autónoma (como em Heródoto ou Luciano de Samotracia, entre outros). Tratam-se de textos inseridos em discursos maiores (geralmente em diálogos) e têm uma função digressiva, destinando-se a desviar o ouvinte do discurso central desses diálogos através da inserção de factos surpreendentes, pouco habituais ou extraordinários. Na Idade Média começam a discernir-se nas expressões narrativas formas diferenciadas de ficção breve, sobretudo na literatura didáctico-religiosa. 33
4A micro-ficção começa a insinuar-se no século XIX, ligada às opções e exigências editoriais das revistas literárias e jornais, sobretudo na América Latina, os quais criaram um mercado para a ficção breve, impondo-lhe uma restrição espacial que logo se confundiu com um traço genérico da mesma: a brevidade. Ao longo dos inícios do século XX vão surgindo diversas publicações que apresentam textos/contos em miniatura. A partir das décadas de 50 e 60 do século XX um número cada vez maior de escritores, nomeadamente na América Latina, vai-se demarcando das pretensões totalizadoras da narrativa convencional, deixando-se seduzir pelas possibilidades expressivas e formais da micro-ficção como registo independente, transgredindo ou alargando as fronteiras tradicionais dos géneros literários.Esta escrita tem vindo a desenvolver-se em duas direcções de difícil conciliação: ao encontro de uma herança canónica entendida como tradição (ultrapassada, mas que continua exercendo uma forte influência na compreensão do literário; e a busca de uma expressividade radicalmente nova. 44
5FORMAS DA TRADIÇÃO ORAL E DA CULTURA LIVRESCAEPIGRAMAComposição poética breve que expressa, de forma engenhosa, um único pensamento principal, festivo ou satírico.Foi criada na Grécia Clássica e usada também por diversos escritores latinos.[quando inscrita sobre estruturas tumulares recebe o nome de EPITÁFIO]Exemplo:epigrama de Catulo [Roma antiga]Odi et amo. Quare id faciam fortasse requiris. Nescio, sed fieri sentio, et excrucior.[Eu odeio-a e amo-a, não me perguntem porquê.É a maneira que sinto. Isto é tudo e lastimo.]55
6KOAN Narrativa, diálogo, questão ou afirmação no zen-budismo que contém aspectos que são inacessíveis à razão.Trata-se em regra de um enigma ou charada, que é utilizado pela corrente/escola Rinzai do zen japonês monástico. .O objectivo deste texto é propiciar a iluminação do aspirante a zen-budista.Exemplo: da tradição oral, atribuída a Hakuin Ekaku (1686-1769) [Japão]Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma [só] mão?66
7RUBA’IPoema de quatro versos (quadras), que segue um esquema rimático de tipo AABA, cujas origens remontam à poesia sufi persa (séc.VII a.C.). Exemplo:de Abu Sa’id Abi ‘l-Khayr [Pérsia]bingar bi-jahan sirr-i ilahi pinhanchun ab-ihayat dar siyahi pinhanpayda amad zi bahr mahi anbuhshud bahr zi anbuhi-yi mahi pinhan[Olhai para o mundo:o Divino Segredo está escondido.Tal como a Fonte da Vida,está escondido nas trevas.Milhões de peixes surgiram no mar – Por causa do seu número,o mar fechou-se secretamente.]77
8FÁBULAHistória narrativa, curta, que surgiu no Oriente, particularmente desenvolvido por Esopo no séc.VI a.C., na Grécia antiga, cujos protagonistas são animais. O objectivo destas histórias inverosímeis de fundo didáctico é a transmissão de sabedoria de carácter moral e exemplar aos seres humanos.[quando, nesta mesma linha temático-ideológica, as personagens são seres inanimados, objectos, a história designa-se de APÓLOGO][a PARÁBOLA, por seu lado, consiste também numa narrativa curta que tem um fundamento/objectivo moral e é protagonizada por seres humanos, apresentando habitualmente um cunho religioso]Exemplo: “A ovelha negra”, de Augusto Monterroso[Guatemala]Num país longínquo existiu há muitos anos uma Ovelha Negra. Foi fuzilada.Um século depois, o rebanho arrependido ergueu-lhe uma estátua equestre que ficou muito bem no parque.Assim, sucessivamente, de cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente trespassadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e correntes pudessem exercitar-se também na escultura. 88
9CONTO ZEN Existem várias lendas dentro da tradição Zen, transmitidas e renovadas pela tradição oral e integrantes dos costumes chineses e japoneses, que se entrelaçam com a história factual.No Japão existem as narrativas setsuwa, que são histórias breves, contadas “de um fôlego só”. São transmitidas como reais ou supostamente reais, enquadram-se nos universos chinês, indiano e japonês (algumas das quais associadas ao budismo), e resultam sobretudo de uma criação colectiva anónima.Exemplo: de autoria anónima, “A estrada enlameada”Tanzan e Ekido caminhavam juntos numa estrada enlameada. Caía ainda uma chuva forte. Junto a um cruzamento da estrada, encontraram uma bela moça que não conseguia atravessar porque não queria sujar o belo kimono de seda que trazia.– Anda moça – disse Tanzan imediatamente. E, carregando-a nos seus braços, atravessou-a para o outro lado. A partir daí, Ekido ficou calado todo o caminho que percorreram, até à noite. Ao chegarem ao templo onde ficariam a pernoitar, Ekido não conseguiu conter-se e disse a Tanzan:– Nós, os monges, não nos aproximamos de mulheres. Especialmente se são jovens e bonitas. É perigoso. Por que fizeste aquilo?– Eu deixei a moça lá atrás – disse Tanzan. – Tu ainda estás a carregá-la?99
10HAIKUDeriva de uma forma anterior de poesia, a tanka (com 5 versos), em voga no Japão entre os sécs.IX e XII, a qual versava temas religiosos ou ligados à Corte. No século XV surge a renga, que assentava numa estrutura de 3 versos (uma espécie de mote, chamado hokku, sugerido por um poeta), à qual se iam juntando outras estrofes, num jogo competitivo entre vários poetas. Essa estrofe inicial de 3 versos foi-se autonomizando, tornando-se uma forma independente de poesia que só no século XIX recebe o nome de haiku.Cada poema, composto de uma percepção sensorial e de uma percepção sugestiva, capta um momento de experiência, um modo de ver o mundo, um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado.Exemplos:3 poemas, sem título, de Matsuo Bashô (1644-1694) [Japão]Não esqueças nunca                           A água é tão fria                         Através da racha na lareira  o gosto solitário                                  Como pode a gaivota                  o gatodo orvalho                                            adormecer?                                  vai ter com a amada1010
11AFORISMOÉ uma sentença concisa, que geralmente encerra um preceito moral.Exemplos:de Hipócrates [Grécia antiga]A vida é breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil. de Carlos Drummond de Andrade [Brasil] O amor dinamita a ponte e manda o amante passar.Seria cómico, se não fosse trágico.Somos humildes na esperança de um dia sermos poderosos.O optimismo é um cheque em branco a ser preenchido pelo pessimista.1111
12ANEDOTA É uma história breve, com um desenlace cómico e, por vezes, surpreendente. Os objectivos da piada vão desde o simples entretenimento lúdico até à sátira social, recorrendo também ao humor negro, destinado a um público menos susceptível, o qual aborda usualmente temas como a morte, a religião, a doença, a orientação sexual, a violência e as relações/conflitos étnicos.Exemplo: de autoria anónima, “A dedução de Watson” Sherlock Holmes e o doutor Watson vão acampar. Após um bom jantar e uma garrafa de vinho, entram nos sacos de dormir e caem no sono. Algumas horas depois, Holmes acorda e sacode o amigo. – Watson, olhe para o céu estrelado. O que é que você deduz disso? Depois de ponderar um pouco, Watson diz: – Bem, astronomicamente, estimo que existam milhões de galáxias e potencialmente biliões de planetas. Astrologicamente, posso dizer que Saturno está em Câncer. Teologicamente, eu creio que Deus e o universo são infinitos. Também dá para supor, pela posição das estrelas, que são cerca de 3h15m da madrugada… O que você me diz, Holmes?. Sherlock responde: – Elementar, meu caro Watson. Roubaram-nos a barraca! 1212
13CADÁVER-ESQUISITO (cadavre exquis)É um jogo colectivo surrealista inventado em França cerca de 1925. Procurando subverter o discurso literário convencional, privilegia-se o automatismo e a actividade colectiva, de forma a produzir sequências/textos dominados pelo absurdo, pelo acidental/inusitado, pela ideia de ligação improvável. Numa perspectiva heterodoxa, dominada pelo humor, poeticidade da linguagem, imaginação e visão onírica, luta-se contra a rotina/hábito convencionados, e concilia-se a expressão individual com a mensagem colectiva.  Exemplo: “O vermelho e o verde”, de João Artur Silva e Mário-Henrique Leiria– De que cor é o vermelho?– É verde.– Quem é o teu pai?– É o revisor do comboio para a lua.– O que é a loucura?– É um braço solitário sorrindo para os meninos.– Quem é Deus?– É um vendedor de gravatas.– Como é a cara dele?– É bicuda, com uma maçaneta na ponta.1313
14POEMA EM PROSA“A fronteira entre poesia e prosa, quando a invenção verbal não tem outra finalidade que não seja ela própria, é puramente formal; em literaturas adultas, não é raro ambas juntarem as suas águas e o resultado podem ser coisas esplendorosas, quando assinadas por esses homens ‘que dão corpo à alma da sua língua’”. (Eugénio de Andrade)O poema em prosa surge como um meio eficaz de a poesia ensaiar novos caminhos, adquirindo, através da prosa, uma respiração diferente. O mesmo Eugénio de Andrade enfatiza, a propósito desta modalidade, o facto de esta lhe permitir, na escrita, “uma respiração mais ampla, um ritmo mais próximo do falar materno”.O texto poético apresenta assim uma dinâmica e um tom de narrativa brevíssima – traços que, não poucas vezes, podem constituir o gérmen de pequenos contos (anunciados, em alguns casos, pelos títulos do poemas que prefiguram uma dada opção genológica – exemplo: poema “Fábula”, de Eugénio de Andrade).1414
15Exemplos:  “Ligação”, de Alberto Pimentaa palavra repousa de olhos semicerradosencoberta por um véu deixando entreveruma mama: o poeta aproxima-se tenta mamar. a palavra estremece abre os olhos.o poeta afasta-se de um golpe tropeçacai sentado. a palavra percorre-se com as mãos a ver se está intacta. ficapensativa os dedos enfiados nas trançasbrincando. o poeta aproxima-se então portrás. agarra a palavra pela cinta. elatenta furtar-se ao contacto. caem. rolampor terra. a palavra continua a debaterse. o poeta mete um dedo na vulva da palavra. a palavra torce-se toda. depoisacalma. o poeta mete outro e outro dedo ainda, retira um hífen todo molhado. a palavra cai ofegante. o poeta afasta-se com um sorriso mete o hífen ao bolso e publica-o com uma palavra                    sua na capa“O Poeta”, de Manoel de Barros [Brasil]Vão dizer que não existo propriamente dito.Que sou um ente de sílabas.Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.Meu pai costumava me alertar:Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o somdas palavrasOu é ninguém ou zoró.Eu teria 13 anos.De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes quese perdia nos longes da BolíviaE veio uma iluminura em mim.Foi a primeira iluminura.Daí botei meu primeiro verso:Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.Mostrei a obra pra minha mãe.A mãe falou:Agora você vai ter que assumir as suasirresponsabilidades.Eu assumi: entrei no mundo das imagens.1515
16Exemplo: “Rã”, de Alexandre O’NeillPropus a Helena, a primeiravez que a vi, organizarmos,de parceria, um campeonatode saltos de rã. Não sei exac-tamente como a ideia malucame saltou da cabeça, antesmesmo de eu a ter pensado bem. Helena aderiulogo a ela, quase com entusiasmo.Helena tentava, por essa altura, promover tudo: encontros culturais,sessões de autógrafos, “happenings”,reuniões taparwere, musicatas,recitatas, tudo, tudo!A ideia dos saltos de rã, afinal,não era assim tão estranha comoisso:  vinha direitinha doconto de Mark Twain“A célebre rã saltadora do distritode Calaveras”.Então, eu e a Helena pusémo-nosà procura de rãs.Em Sacavém, uns rapazitos apanharam, para nós, duasrãs. Paguei cinco escudos porcada uma.Dentro da caixa de sapatos, as rãs latejavam.A meu lado, Helena seguravana caixa, na qual fizéramosdois buracos para os bichos poderemrespirar.Já em Lisboa, Helenadisse de repente:E se experimentássemos agora mesmo as rãs?Em Cabo Ruivo, a dez metros do Tejo, parei o carro. Saímos. Helena agachou-se, destapoucuidadosamente a caixa, não sem,primeiro afastar para o ladoa cabeça. Uma dasrãs saltou logo para o chão.1616
17[“A rã”, de Alexandre O’Neill (conclusão)]A outra recusou-se. Tocámos-lhecom pauzinhos, batemos na caixa – e nada.Estando a rã que saltara semcompetidora, de que se haviade lembrar o diabo da Helena?Simples! Pôs-se ao lado da rã, segurouas saias e, com enérgicos“hop lá! hop lá!”, foi saltandocom ela até que, sem darpor isso, caiu nas águas do Tejo.Tive um trabalhão para pescar a Helena etrazê-la, para minha casa,encharcada e a bater o dente.Ainda hoje lá está…1717
18| ASPECTOS PREPARATÓRIOS SOBRE A MICRO-FICÇÃO a escrita micro-ficcional resulta de um acto de releitura irónica ou paródica das convenções textuais, genológicas ou ideológicas (ou ambas), afirmando-se como uma forma de releitura (conservadora ou inovadora) e de reciclagem dos demais géneros já estabelecidos na tradição literária;
é um texto experimental de extensão mínima (visando eliminar o supérfluo, o desnecessário, o excessivo), com elementos literários de carácter moderno e pós-                                        -moderno, o qual pretende levar até ao limite o espírito de síntese e de depuração estilística;
 é necessário reler o micro-texto para reconhecer as suas múltiplas formas de ironia (as histórias são artificialmente limitadas); a micro-ficção enriquece-se a cada nova leitura: “Temos de dar algumas migalhas para o leitor fazer o resto do pão” (Rui Manuel Amaral) – estamos perante uma nova experiência de leitura;1818
“a presença da ironia (sob a forma de paródia, texto subentendido ou jogos de linguagem) funciona como uma espécie de ‘ácido retórico’ que dilui as fronteiras entre géneros literários, e entre a escrita literária e não literária” (Mariví Alonso);
 é também o género mais recente: só no final do século XX é que começou a ser considerado uma forma literária autónoma (as suas raízes residem nas vanguardas hispano-americanas do período entre guerras);
é o género mais didáctico, lúdico, irónico e fronteiriço da literatura; Rui Costa realça a sua “extrema aptidão para a promiscuidade”, enfatizando a ideia de micro-ficção enquanto não-género: “é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição”;
 o seu reconhecimento e canonização, nos anos mais recentes, coincidem com a prática crescente da escrita digital (nomeadamente através da blogosfera);temáticas mais recorrentes na micro-ficção:  bestiário, suicídio/morte, relatos do quotidiano (doméstico, muitas vezes), erotismo, morbidade, religiosidade, etc.;
desconstruir o preconceito: não se trata de preguiça de escrever; escrever pouco não é necessariamente sinónimo de escrever de forma simplista, fácil ou superficial (“Não fui breve porque não tive tempo” – disse o poeta romântico alemão Heinrich Heine). A escrita micro-ficcional apresenta um significativo desafio de imaginação, criatividade, originalidade e destreza linguística para quem a produz;
 instala a confusão entre a prosa e a poesia; ao mesmo tempo, os textos breves e os poéticos exigem mais ao leitor do que qualquer outro género (note-se que os poetas são quem melhor lida, nos domínios da literatura, com a ideia de sintético);
não obstante a sua habitual brevidade, o que importa sobretudo é o estatuto fictício (inventado) das histórias, atendendo ao estrato do universo narrado. Mais do que uma mera quantificação do número de palavras/caracteres, ou de uma medição do espaço impresso ocupado pelo texto (em termos de páginas), o que vale é a intenção de concisão máxima do autor para contar/narrar uma história.21| TRAÇOS CARACTERÍSTICOS DA ESCRITA MICRO-FICCIONALSegundo Dolores Koch e Lauro Zavala:a) prosa simples, cuidada e precisa, mas polissémica;	b) humor céptico, que utiliza como recursos o paradoxo, a ironia e a sátira;	c) recuperação de formas literárias antigas e/ou em desuso, como fábulas e bestiários, e inserção de novos formatos não literários;	d) metaficção (usar como tema ou tópico narrativo o próprio acto de escrever/identificar explicitamente os mecanismos da ficção). 12 ingredientes essenciais (segundo Dolores Koch)	1. transgressão genológica	2. surpreender o leitor com uma lógica inesperada (as “vueltas de tuerca”/volte-            -faces no final do texto)	3. produzir uma mudança de contexto que rompa as expectativas do leitor	4. contrastar passado e presente	5. concretizar uma metáfora ou um dito/expressão popular	6. escamotear ou desconstruir o significado de uma frase feita2121
227. utilizar um formato popular, não literário8. utilizar uma lógica desviante9. estabelecer falsas atribuições10. aplicar a ironia11. dessacralizar personagens conhecidas12. apresentar uma perspectiva/quadro infrequente ou únicoEM RESUMO: brevidade extrema;
 diversas estratégias de intertextualidade: hibridez genérica, silepse, alusão, citação e paródia;
diversas modalidades de metaficção (no plano narrativo: a  estrutura em abismo (“mise en abyme”), a metalepse, o diálogo/interpelação do leitor; no plano linguístico: jogos de linguagem como o lipograma, o tautograma ou as repetições lúdicas);
 várias estratégias de ambiguidade semântica: por exemplo, um final inesperado/surpreendente ou enigmático;
 diversas formas de humor (intertextual) e de ironia (necessariamente instável).2222
23| ALGUMAS TIPOLOGIAS DE TEXTOS MICROFICCIONAIS ** segundo David LagmanovichDISCURSO SUBSTITUÍDOA essência destes relatos sãos os jogos de linguagem, recorrendo a neologismos e a jogos gramaticais e de sentidoExemplo: “acordo”, de Paulo CondessaUm dos homens era do campo. O outro era da cidade. Um tinha uma horta. O outro tinha uma gráfica. Um dia acordaram os dois na mesma página e decidiram fazer um acordo. E fizeram. Um acordo horta-gráfica.DISCURSO MIMÉTICOTextos que tentam imitam o falar quotidiano e que se enquadram no discurso popularExemplo: “Urdimbre”, de Orlando Enrique Van Bredam– Tu marido es celoso? – preguntó él. – Sí. Mi marido es el oso que viene ahí – respondió ella. 2323
24REESCRITA E PARÓDIA↔ noção de intertextualidade2 modalidades:     – paráfrase de obra de um ou mais autores     – apropriação de elementos relativos à biografia, estilo de escrita ou visão que o colectivo social tem de um dado autor (ligado ou não ao mundo literário)O(s) intertexto(s) pode(m) estar oculto(s) devido ao silêncio manifestado pelo texto ou através de alusões, verdadeiras ou falsas, que pretendem desviar a atenção do leitor do rumo que vinha tomando; ou o(s) intertexto(s) pode(m) “ler-se debaixo da letra”, como um palimpsesto                                           ↓o grau de “ingrediente de impureza” que o microficcionista aplica ao material reescrito é que marca a diferença ao nível do tratamento textualESCRITA EMBLEMÁTICA Textos que transmitem uma visão transcendente da existência humana e que podem ser interpretados de um ponto de vista mítico ou religioso (não há casos abundantes)2424
25| ENQUADRAMENTO NA PÓS-MODERNIDADEEXPANSÃO E AFIRMAÇÃO DA MICRO-FICÇÃO ↔ CONTEXTO PÓS-MODERNO PÓS-MODERNIDADE (na literatura)	- privilegia a hibridez e a contaminação de temas, formas e processos	- apresenta uma propensão dominantemente paródica 	- combina, cruza e/ou alterna traços e tendências clássicas e modernas	- adopção crescente do formato portátil ** numa dupla vertente: no tamanho físico do livro/dispositivo digital de leitura (em papel ou como audio-book ou e-book) e na duração das histórias[A nível da interpretação textual] já não é suficiente dizer: “Aqui está o texto para demonstrar o que digo” [critério moderno], nem tão pouco “Aqui está a intenção do autor para certificar a análise” [critério clássico]. Em seu lugar, o que parece estar em jogo é a necessidade de dizer: “Aqui está esta leitura para desarticular a intenção do autor e a intenção evidente do texto”.(Lauro Zavala)PÓS-MODERNIDADE= hiperbolização da polissemia e da experimentação modernas + reciclagem irónica das convenções da narrativa clássica(Lauro Zavala)2525
26| TRAÇOS PÓS-MODERNOS DA MICRO-FICÇÃO- CEPTICISMO RADICAL – é o resultado da descrença nas utopias; para demonstrar a inexistência de verdades absolutas, recorre-se frequentemente ao paradoxo e ao princípio da contradição.Exemplos: [sem título], de Henrique Manuel Bento FialhoComo ninguém tomava banhos de imersão, a banheira andava deprimida. Encheu-se de água e deixou-se afogar.“os meus problemas”, de Rafael Mota Mirandaos taxistas perguntam-me sempre se não tenho mais pequeno. as mulheres, se não tenho maior.“De la ubicuidad de las manzanas”, de Ana María Shua [Argentina]La flecha disparada por la ballesta precisa de Guillermo Tell parte en dos la manzana que está a punto de caer sobre la cabeza de Newton. Eva toma una mitad y le ofrece la outra a su consorte para regocijo de la serpiente. Es así como nunca llega a formularse la ley de la gravedad.2626
27-ABOLIÇÃO DO PRINCÍPIO DA UNIDADE NARRATIVA – desaparecimento do sujeito tradicional (ou seja, de um protagonista claramente identificável), que é muitas vezes substituído por deícticos que permitem ao leitor contextualizar o micro-relato em qualquer tempo, espaço ou personagem que lhe ocorra. Nesta linha, algumas das categorias centrais/habituais da narrativa (como a acção, tempo ou espaço) podem surgir apenas sugeridas, implicitamente. Exemplos: “O Dinossauro”, de Augusto Monterroso [Guatemala]Cuando  despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.[Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.]“Literatura”, de Rui Manuel AmaralUma macieira que dá laranjas.2727

Micro ficção apresentação

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    1A MICRO-FICÇÃO/ESCRITA BREVECOMO ESTRATÉGIA INOVADORA DE PROMOÇÃO DA LEITURA E DA ESCRITA CRIATIVA(para públicos jovem e adulto)*Apresentação realizada no âmbito do Encontro inter-concelhio de grupos de trabalho das bibliotecas escolares (Faro, Silves e Lagoa)[versão aumentada]12 de Julho de 2010 Biblioteca Municipal de Silves* por Paulo Pires | Técnico Superior da BMS (programador e mediador de leitura)biblioteca@cm-silves.pt 11
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    MICRO + FICÇÃODefiniçãoliteral |“texto inventado em formato conciso”Ingredientes centrais |CONCISÃO (engloba os conceitos de brevidade e precisão) + INTENSIDADE E EFICÁCIA EXPRESSIVAS(analogia com regra da Física: maior brevidade = maior intensidade)Convenço-me agora de que a brevidade é um fim em si mesmo quando leio uma linha e me parece mais larga do que a vida, e quando, depois, leio uma novela e esta me parece mais breve do que a morte. (Gabriel Jiménez Emán)Pluralidade terminológica actual | Micro-narrativa / escrita breve / ficção súbita Crônica (Brasil) Microconto / miniconto / mini-miniconto / nanoconto / conto breve / ultraconto Short story / short short story / four minute fiction (EUA) Microrrelato (América Latina)
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    3| ANTECEDENTES EINFLUÊNCIAS NA MICRO-FICÇÃOESCRITA BREVE – remonta aos inícios da literatura, há 4000 anos (em textos sumérios e egípcios), surgindo como relatos intercaladosNa literatura grega surgem como digressões imaginárias com uma unidade de sentido relativamente autónoma (como em Heródoto ou Luciano de Samotracia, entre outros). Tratam-se de textos inseridos em discursos maiores (geralmente em diálogos) e têm uma função digressiva, destinando-se a desviar o ouvinte do discurso central desses diálogos através da inserção de factos surpreendentes, pouco habituais ou extraordinários. Na Idade Média começam a discernir-se nas expressões narrativas formas diferenciadas de ficção breve, sobretudo na literatura didáctico-religiosa. 33
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    4A micro-ficção começaa insinuar-se no século XIX, ligada às opções e exigências editoriais das revistas literárias e jornais, sobretudo na América Latina, os quais criaram um mercado para a ficção breve, impondo-lhe uma restrição espacial que logo se confundiu com um traço genérico da mesma: a brevidade. Ao longo dos inícios do século XX vão surgindo diversas publicações que apresentam textos/contos em miniatura. A partir das décadas de 50 e 60 do século XX um número cada vez maior de escritores, nomeadamente na América Latina, vai-se demarcando das pretensões totalizadoras da narrativa convencional, deixando-se seduzir pelas possibilidades expressivas e formais da micro-ficção como registo independente, transgredindo ou alargando as fronteiras tradicionais dos géneros literários.Esta escrita tem vindo a desenvolver-se em duas direcções de difícil conciliação: ao encontro de uma herança canónica entendida como tradição (ultrapassada, mas que continua exercendo uma forte influência na compreensão do literário; e a busca de uma expressividade radicalmente nova. 44
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    5FORMAS DA TRADIÇÃOORAL E DA CULTURA LIVRESCAEPIGRAMAComposição poética breve que expressa, de forma engenhosa, um único pensamento principal, festivo ou satírico.Foi criada na Grécia Clássica e usada também por diversos escritores latinos.[quando inscrita sobre estruturas tumulares recebe o nome de EPITÁFIO]Exemplo:epigrama de Catulo [Roma antiga]Odi et amo. Quare id faciam fortasse requiris. Nescio, sed fieri sentio, et excrucior.[Eu odeio-a e amo-a, não me perguntem porquê.É a maneira que sinto. Isto é tudo e lastimo.]55
  • 6.
    6KOAN Narrativa, diálogo,questão ou afirmação no zen-budismo que contém aspectos que são inacessíveis à razão.Trata-se em regra de um enigma ou charada, que é utilizado pela corrente/escola Rinzai do zen japonês monástico. .O objectivo deste texto é propiciar a iluminação do aspirante a zen-budista.Exemplo: da tradição oral, atribuída a Hakuin Ekaku (1686-1769) [Japão]Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma [só] mão?66
  • 7.
    7RUBA’IPoema de quatroversos (quadras), que segue um esquema rimático de tipo AABA, cujas origens remontam à poesia sufi persa (séc.VII a.C.). Exemplo:de Abu Sa’id Abi ‘l-Khayr [Pérsia]bingar bi-jahan sirr-i ilahi pinhanchun ab-ihayat dar siyahi pinhanpayda amad zi bahr mahi anbuhshud bahr zi anbuhi-yi mahi pinhan[Olhai para o mundo:o Divino Segredo está escondido.Tal como a Fonte da Vida,está escondido nas trevas.Milhões de peixes surgiram no mar – Por causa do seu número,o mar fechou-se secretamente.]77
  • 8.
    8FÁBULAHistória narrativa, curta,que surgiu no Oriente, particularmente desenvolvido por Esopo no séc.VI a.C., na Grécia antiga, cujos protagonistas são animais. O objectivo destas histórias inverosímeis de fundo didáctico é a transmissão de sabedoria de carácter moral e exemplar aos seres humanos.[quando, nesta mesma linha temático-ideológica, as personagens são seres inanimados, objectos, a história designa-se de APÓLOGO][a PARÁBOLA, por seu lado, consiste também numa narrativa curta que tem um fundamento/objectivo moral e é protagonizada por seres humanos, apresentando habitualmente um cunho religioso]Exemplo: “A ovelha negra”, de Augusto Monterroso[Guatemala]Num país longínquo existiu há muitos anos uma Ovelha Negra. Foi fuzilada.Um século depois, o rebanho arrependido ergueu-lhe uma estátua equestre que ficou muito bem no parque.Assim, sucessivamente, de cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente trespassadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e correntes pudessem exercitar-se também na escultura. 88
  • 9.
    9CONTO ZEN Existemvárias lendas dentro da tradição Zen, transmitidas e renovadas pela tradição oral e integrantes dos costumes chineses e japoneses, que se entrelaçam com a história factual.No Japão existem as narrativas setsuwa, que são histórias breves, contadas “de um fôlego só”. São transmitidas como reais ou supostamente reais, enquadram-se nos universos chinês, indiano e japonês (algumas das quais associadas ao budismo), e resultam sobretudo de uma criação colectiva anónima.Exemplo: de autoria anónima, “A estrada enlameada”Tanzan e Ekido caminhavam juntos numa estrada enlameada. Caía ainda uma chuva forte. Junto a um cruzamento da estrada, encontraram uma bela moça que não conseguia atravessar porque não queria sujar o belo kimono de seda que trazia.– Anda moça – disse Tanzan imediatamente. E, carregando-a nos seus braços, atravessou-a para o outro lado. A partir daí, Ekido ficou calado todo o caminho que percorreram, até à noite. Ao chegarem ao templo onde ficariam a pernoitar, Ekido não conseguiu conter-se e disse a Tanzan:– Nós, os monges, não nos aproximamos de mulheres. Especialmente se são jovens e bonitas. É perigoso. Por que fizeste aquilo?– Eu deixei a moça lá atrás – disse Tanzan. – Tu ainda estás a carregá-la?99
  • 10.
    10HAIKUDeriva de umaforma anterior de poesia, a tanka (com 5 versos), em voga no Japão entre os sécs.IX e XII, a qual versava temas religiosos ou ligados à Corte. No século XV surge a renga, que assentava numa estrutura de 3 versos (uma espécie de mote, chamado hokku, sugerido por um poeta), à qual se iam juntando outras estrofes, num jogo competitivo entre vários poetas. Essa estrofe inicial de 3 versos foi-se autonomizando, tornando-se uma forma independente de poesia que só no século XIX recebe o nome de haiku.Cada poema, composto de uma percepção sensorial e de uma percepção sugestiva, capta um momento de experiência, um modo de ver o mundo, um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado.Exemplos:3 poemas, sem título, de Matsuo Bashô (1644-1694) [Japão]Não esqueças nunca A água é tão fria Através da racha na lareira o gosto solitário Como pode a gaivota o gatodo orvalho adormecer? vai ter com a amada1010
  • 11.
    11AFORISMOÉ uma sentençaconcisa, que geralmente encerra um preceito moral.Exemplos:de Hipócrates [Grécia antiga]A vida é breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil. de Carlos Drummond de Andrade [Brasil] O amor dinamita a ponte e manda o amante passar.Seria cómico, se não fosse trágico.Somos humildes na esperança de um dia sermos poderosos.O optimismo é um cheque em branco a ser preenchido pelo pessimista.1111
  • 12.
    12ANEDOTA É umahistória breve, com um desenlace cómico e, por vezes, surpreendente. Os objectivos da piada vão desde o simples entretenimento lúdico até à sátira social, recorrendo também ao humor negro, destinado a um público menos susceptível, o qual aborda usualmente temas como a morte, a religião, a doença, a orientação sexual, a violência e as relações/conflitos étnicos.Exemplo: de autoria anónima, “A dedução de Watson” Sherlock Holmes e o doutor Watson vão acampar. Após um bom jantar e uma garrafa de vinho, entram nos sacos de dormir e caem no sono. Algumas horas depois, Holmes acorda e sacode o amigo. – Watson, olhe para o céu estrelado. O que é que você deduz disso? Depois de ponderar um pouco, Watson diz: – Bem, astronomicamente, estimo que existam milhões de galáxias e potencialmente biliões de planetas. Astrologicamente, posso dizer que Saturno está em Câncer. Teologicamente, eu creio que Deus e o universo são infinitos. Também dá para supor, pela posição das estrelas, que são cerca de 3h15m da madrugada… O que você me diz, Holmes?. Sherlock responde: – Elementar, meu caro Watson. Roubaram-nos a barraca! 1212
  • 13.
    13CADÁVER-ESQUISITO (cadavre exquis)Éum jogo colectivo surrealista inventado em França cerca de 1925. Procurando subverter o discurso literário convencional, privilegia-se o automatismo e a actividade colectiva, de forma a produzir sequências/textos dominados pelo absurdo, pelo acidental/inusitado, pela ideia de ligação improvável. Numa perspectiva heterodoxa, dominada pelo humor, poeticidade da linguagem, imaginação e visão onírica, luta-se contra a rotina/hábito convencionados, e concilia-se a expressão individual com a mensagem colectiva. Exemplo: “O vermelho e o verde”, de João Artur Silva e Mário-Henrique Leiria– De que cor é o vermelho?– É verde.– Quem é o teu pai?– É o revisor do comboio para a lua.– O que é a loucura?– É um braço solitário sorrindo para os meninos.– Quem é Deus?– É um vendedor de gravatas.– Como é a cara dele?– É bicuda, com uma maçaneta na ponta.1313
  • 14.
    14POEMA EM PROSA“Afronteira entre poesia e prosa, quando a invenção verbal não tem outra finalidade que não seja ela própria, é puramente formal; em literaturas adultas, não é raro ambas juntarem as suas águas e o resultado podem ser coisas esplendorosas, quando assinadas por esses homens ‘que dão corpo à alma da sua língua’”. (Eugénio de Andrade)O poema em prosa surge como um meio eficaz de a poesia ensaiar novos caminhos, adquirindo, através da prosa, uma respiração diferente. O mesmo Eugénio de Andrade enfatiza, a propósito desta modalidade, o facto de esta lhe permitir, na escrita, “uma respiração mais ampla, um ritmo mais próximo do falar materno”.O texto poético apresenta assim uma dinâmica e um tom de narrativa brevíssima – traços que, não poucas vezes, podem constituir o gérmen de pequenos contos (anunciados, em alguns casos, pelos títulos do poemas que prefiguram uma dada opção genológica – exemplo: poema “Fábula”, de Eugénio de Andrade).1414
  • 15.
    15Exemplos: “Ligação”,de Alberto Pimentaa palavra repousa de olhos semicerradosencoberta por um véu deixando entreveruma mama: o poeta aproxima-se tenta mamar. a palavra estremece abre os olhos.o poeta afasta-se de um golpe tropeçacai sentado. a palavra percorre-se com as mãos a ver se está intacta. ficapensativa os dedos enfiados nas trançasbrincando. o poeta aproxima-se então portrás. agarra a palavra pela cinta. elatenta furtar-se ao contacto. caem. rolampor terra. a palavra continua a debaterse. o poeta mete um dedo na vulva da palavra. a palavra torce-se toda. depoisacalma. o poeta mete outro e outro dedo ainda, retira um hífen todo molhado. a palavra cai ofegante. o poeta afasta-se com um sorriso mete o hífen ao bolso e publica-o com uma palavra sua na capa“O Poeta”, de Manoel de Barros [Brasil]Vão dizer que não existo propriamente dito.Que sou um ente de sílabas.Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.Meu pai costumava me alertar:Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o somdas palavrasOu é ninguém ou zoró.Eu teria 13 anos.De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes quese perdia nos longes da BolíviaE veio uma iluminura em mim.Foi a primeira iluminura.Daí botei meu primeiro verso:Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.Mostrei a obra pra minha mãe.A mãe falou:Agora você vai ter que assumir as suasirresponsabilidades.Eu assumi: entrei no mundo das imagens.1515
  • 16.
    16Exemplo: “Rã”, deAlexandre O’NeillPropus a Helena, a primeiravez que a vi, organizarmos,de parceria, um campeonatode saltos de rã. Não sei exac-tamente como a ideia malucame saltou da cabeça, antesmesmo de eu a ter pensado bem. Helena aderiulogo a ela, quase com entusiasmo.Helena tentava, por essa altura, promover tudo: encontros culturais,sessões de autógrafos, “happenings”,reuniões taparwere, musicatas,recitatas, tudo, tudo!A ideia dos saltos de rã, afinal,não era assim tão estranha comoisso: vinha direitinha doconto de Mark Twain“A célebre rã saltadora do distritode Calaveras”.Então, eu e a Helena pusémo-nosà procura de rãs.Em Sacavém, uns rapazitos apanharam, para nós, duasrãs. Paguei cinco escudos porcada uma.Dentro da caixa de sapatos, as rãs latejavam.A meu lado, Helena seguravana caixa, na qual fizéramosdois buracos para os bichos poderemrespirar.Já em Lisboa, Helenadisse de repente:E se experimentássemos agora mesmo as rãs?Em Cabo Ruivo, a dez metros do Tejo, parei o carro. Saímos. Helena agachou-se, destapoucuidadosamente a caixa, não sem,primeiro afastar para o ladoa cabeça. Uma dasrãs saltou logo para o chão.1616
  • 17.
    17[“A rã”, deAlexandre O’Neill (conclusão)]A outra recusou-se. Tocámos-lhecom pauzinhos, batemos na caixa – e nada.Estando a rã que saltara semcompetidora, de que se haviade lembrar o diabo da Helena?Simples! Pôs-se ao lado da rã, segurouas saias e, com enérgicos“hop lá! hop lá!”, foi saltandocom ela até que, sem darpor isso, caiu nas águas do Tejo.Tive um trabalhão para pescar a Helena etrazê-la, para minha casa,encharcada e a bater o dente.Ainda hoje lá está…1717
  • 18.
    18| ASPECTOS PREPARATÓRIOSSOBRE A MICRO-FICÇÃO a escrita micro-ficcional resulta de um acto de releitura irónica ou paródica das convenções textuais, genológicas ou ideológicas (ou ambas), afirmando-se como uma forma de releitura (conservadora ou inovadora) e de reciclagem dos demais géneros já estabelecidos na tradição literária;
  • 19.
    é um textoexperimental de extensão mínima (visando eliminar o supérfluo, o desnecessário, o excessivo), com elementos literários de carácter moderno e pós- -moderno, o qual pretende levar até ao limite o espírito de síntese e de depuração estilística;
  • 20.
    é necessárioreler o micro-texto para reconhecer as suas múltiplas formas de ironia (as histórias são artificialmente limitadas); a micro-ficção enriquece-se a cada nova leitura: “Temos de dar algumas migalhas para o leitor fazer o resto do pão” (Rui Manuel Amaral) – estamos perante uma nova experiência de leitura;1818
  • 21.
    “a presença daironia (sob a forma de paródia, texto subentendido ou jogos de linguagem) funciona como uma espécie de ‘ácido retórico’ que dilui as fronteiras entre géneros literários, e entre a escrita literária e não literária” (Mariví Alonso);
  • 22.
    é tambémo género mais recente: só no final do século XX é que começou a ser considerado uma forma literária autónoma (as suas raízes residem nas vanguardas hispano-americanas do período entre guerras);
  • 23.
    é o géneromais didáctico, lúdico, irónico e fronteiriço da literatura; Rui Costa realça a sua “extrema aptidão para a promiscuidade”, enfatizando a ideia de micro-ficção enquanto não-género: “é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição”;
  • 24.
    o seureconhecimento e canonização, nos anos mais recentes, coincidem com a prática crescente da escrita digital (nomeadamente através da blogosfera);temáticas mais recorrentes na micro-ficção: bestiário, suicídio/morte, relatos do quotidiano (doméstico, muitas vezes), erotismo, morbidade, religiosidade, etc.;
  • 25.
    desconstruir o preconceito:não se trata de preguiça de escrever; escrever pouco não é necessariamente sinónimo de escrever de forma simplista, fácil ou superficial (“Não fui breve porque não tive tempo” – disse o poeta romântico alemão Heinrich Heine). A escrita micro-ficcional apresenta um significativo desafio de imaginação, criatividade, originalidade e destreza linguística para quem a produz;
  • 26.
    instala aconfusão entre a prosa e a poesia; ao mesmo tempo, os textos breves e os poéticos exigem mais ao leitor do que qualquer outro género (note-se que os poetas são quem melhor lida, nos domínios da literatura, com a ideia de sintético);
  • 27.
    não obstante asua habitual brevidade, o que importa sobretudo é o estatuto fictício (inventado) das histórias, atendendo ao estrato do universo narrado. Mais do que uma mera quantificação do número de palavras/caracteres, ou de uma medição do espaço impresso ocupado pelo texto (em termos de páginas), o que vale é a intenção de concisão máxima do autor para contar/narrar uma história.21| TRAÇOS CARACTERÍSTICOS DA ESCRITA MICRO-FICCIONALSegundo Dolores Koch e Lauro Zavala:a) prosa simples, cuidada e precisa, mas polissémica; b) humor céptico, que utiliza como recursos o paradoxo, a ironia e a sátira; c) recuperação de formas literárias antigas e/ou em desuso, como fábulas e bestiários, e inserção de novos formatos não literários; d) metaficção (usar como tema ou tópico narrativo o próprio acto de escrever/identificar explicitamente os mecanismos da ficção). 12 ingredientes essenciais (segundo Dolores Koch) 1. transgressão genológica 2. surpreender o leitor com uma lógica inesperada (as “vueltas de tuerca”/volte- -faces no final do texto) 3. produzir uma mudança de contexto que rompa as expectativas do leitor 4. contrastar passado e presente 5. concretizar uma metáfora ou um dito/expressão popular 6. escamotear ou desconstruir o significado de uma frase feita2121
  • 28.
    227. utilizar umformato popular, não literário8. utilizar uma lógica desviante9. estabelecer falsas atribuições10. aplicar a ironia11. dessacralizar personagens conhecidas12. apresentar uma perspectiva/quadro infrequente ou únicoEM RESUMO: brevidade extrema;
  • 29.
    diversas estratégiasde intertextualidade: hibridez genérica, silepse, alusão, citação e paródia;
  • 30.
    diversas modalidades demetaficção (no plano narrativo: a estrutura em abismo (“mise en abyme”), a metalepse, o diálogo/interpelação do leitor; no plano linguístico: jogos de linguagem como o lipograma, o tautograma ou as repetições lúdicas);
  • 31.
    várias estratégiasde ambiguidade semântica: por exemplo, um final inesperado/surpreendente ou enigmático;
  • 32.
    diversas formasde humor (intertextual) e de ironia (necessariamente instável).2222
  • 33.
    23| ALGUMAS TIPOLOGIASDE TEXTOS MICROFICCIONAIS ** segundo David LagmanovichDISCURSO SUBSTITUÍDOA essência destes relatos sãos os jogos de linguagem, recorrendo a neologismos e a jogos gramaticais e de sentidoExemplo: “acordo”, de Paulo CondessaUm dos homens era do campo. O outro era da cidade. Um tinha uma horta. O outro tinha uma gráfica. Um dia acordaram os dois na mesma página e decidiram fazer um acordo. E fizeram. Um acordo horta-gráfica.DISCURSO MIMÉTICOTextos que tentam imitam o falar quotidiano e que se enquadram no discurso popularExemplo: “Urdimbre”, de Orlando Enrique Van Bredam– Tu marido es celoso? – preguntó él. – Sí. Mi marido es el oso que viene ahí – respondió ella. 2323
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    24REESCRITA E PARÓDIA↔noção de intertextualidade2 modalidades: – paráfrase de obra de um ou mais autores – apropriação de elementos relativos à biografia, estilo de escrita ou visão que o colectivo social tem de um dado autor (ligado ou não ao mundo literário)O(s) intertexto(s) pode(m) estar oculto(s) devido ao silêncio manifestado pelo texto ou através de alusões, verdadeiras ou falsas, que pretendem desviar a atenção do leitor do rumo que vinha tomando; ou o(s) intertexto(s) pode(m) “ler-se debaixo da letra”, como um palimpsesto ↓o grau de “ingrediente de impureza” que o microficcionista aplica ao material reescrito é que marca a diferença ao nível do tratamento textualESCRITA EMBLEMÁTICA Textos que transmitem uma visão transcendente da existência humana e que podem ser interpretados de um ponto de vista mítico ou religioso (não há casos abundantes)2424
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    25| ENQUADRAMENTO NAPÓS-MODERNIDADEEXPANSÃO E AFIRMAÇÃO DA MICRO-FICÇÃO ↔ CONTEXTO PÓS-MODERNO PÓS-MODERNIDADE (na literatura) - privilegia a hibridez e a contaminação de temas, formas e processos - apresenta uma propensão dominantemente paródica - combina, cruza e/ou alterna traços e tendências clássicas e modernas - adopção crescente do formato portátil ** numa dupla vertente: no tamanho físico do livro/dispositivo digital de leitura (em papel ou como audio-book ou e-book) e na duração das histórias[A nível da interpretação textual] já não é suficiente dizer: “Aqui está o texto para demonstrar o que digo” [critério moderno], nem tão pouco “Aqui está a intenção do autor para certificar a análise” [critério clássico]. Em seu lugar, o que parece estar em jogo é a necessidade de dizer: “Aqui está esta leitura para desarticular a intenção do autor e a intenção evidente do texto”.(Lauro Zavala)PÓS-MODERNIDADE= hiperbolização da polissemia e da experimentação modernas + reciclagem irónica das convenções da narrativa clássica(Lauro Zavala)2525
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    26| TRAÇOS PÓS-MODERNOSDA MICRO-FICÇÃO- CEPTICISMO RADICAL – é o resultado da descrença nas utopias; para demonstrar a inexistência de verdades absolutas, recorre-se frequentemente ao paradoxo e ao princípio da contradição.Exemplos: [sem título], de Henrique Manuel Bento FialhoComo ninguém tomava banhos de imersão, a banheira andava deprimida. Encheu-se de água e deixou-se afogar.“os meus problemas”, de Rafael Mota Mirandaos taxistas perguntam-me sempre se não tenho mais pequeno. as mulheres, se não tenho maior.“De la ubicuidad de las manzanas”, de Ana María Shua [Argentina]La flecha disparada por la ballesta precisa de Guillermo Tell parte en dos la manzana que está a punto de caer sobre la cabeza de Newton. Eva toma una mitad y le ofrece la outra a su consorte para regocijo de la serpiente. Es así como nunca llega a formularse la ley de la gravedad.2626
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    27-ABOLIÇÃO DO PRINCÍPIODA UNIDADE NARRATIVA – desaparecimento do sujeito tradicional (ou seja, de um protagonista claramente identificável), que é muitas vezes substituído por deícticos que permitem ao leitor contextualizar o micro-relato em qualquer tempo, espaço ou personagem que lhe ocorra. Nesta linha, algumas das categorias centrais/habituais da narrativa (como a acção, tempo ou espaço) podem surgir apenas sugeridas, implicitamente. Exemplos: “O Dinossauro”, de Augusto Monterroso [Guatemala]Cuando  despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.[Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.]“Literatura”, de Rui Manuel AmaralUma macieira que dá laranjas.2727