O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
Expressões, 12.º ano
A obra de Saramago subverte
[…] o estatuto do narrador,
estilhaçando as diversas
modalidades por que este é
habitualmente classificado. O
narrador dos livros de José
Saramago é “tudo de todas as
maneiras”, simultaneamente
exterior e interior, ausente e
participante, majestático e
empenhado, individual e
coletivo, reflexivo e descritivo,
memorialístico e atual…
Narrador polivalente
Cumpre diversas funções
Narrador heterodiegético:
“El-rei foi a Mafra escolher
o sítio onde há de ser
levantado o convento.” (l. 7)
Narrador homodiegético:
“[…] porém sosseguemos,
a pobre não emprestes, a
rico não devas, a frade não
prometas, e D. João V é rei
de palavra. Haveremos
convento.” (ll. 5-6)
Narrador reflexivo
e descritivo:
“[…] um homem pode ser
grande voador, mas é-lhe
muito conveniente que saia
bacharel, licenciado e doutor,
e então, ainda que não voe, o
consideram.” (ll. 13-15)
“[…] estava a abegoaria em
abandono, dispersos pelo
chão os materiais que não
valera a pena arrumar,
ninguém adivinharia o que ali
se andara perpetrando. Dentro
do casarão esvoaçavam
pardais […]” (ll. 17-20)
De certo modo, o narrador
identifica-se com uma espécie de
cruzamento teórico e prático
entre vox populi, vox Dei e
consciência moral individual
[…], que lhe permite tanto
descrever o acontecimento
quanto julgá-lo, quanto, ainda,
inscrevê-lo numa ordem
histórica em ordem a um futuro
prenunciado.
REAL, Miguel, “A herança do escritor” in Jornal de
Letras, Artes e Ideias, n.º 1037, 30 de junho de 2010
Narrador sentenciador
e moralizador:
“Nem sempre se pode ter
tudo […]” (l. 1)
“[…] a pobre não
emprestes, a rico não
devas, a frade não
prometas […]” (ll. 5-6)
Narrador crítico
e irónico:
“[…] com todas as disposições,
licenças e matriculações
necessárias, partiu o padre
Bartolomeu Lourenço para
Coimbra […]” (ll. 25-28)
“[…] uma multidão de homens,
exagero será dizer multidão,
enfim, umas centenas deles
[…]” (ll. 36-38)
“[…] como se vê não há
diferença nenhuma.” (ll. 50-51)
Narrador omnisciente
(gestor da matéria
histórica e ficcional)
“Haveremos convento.” (l.
6)
“Até à vila de Mafra, aonde
primeiro vai, não tem a
viagem história, salvo a das
pessoas que por estes
lugares moram […].”
(ll. 29-32)
Expressões, 12.º ano
O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
Narrador polivalente
Cumpre diversas funções
Narrador polivalente
Cumpre diversas funções
NarraNarra
DescreveDescreve
RefleteReflete
ComentaComenta CriticaCritica IronizaIroniza
Manipula (o tempo/a História/a ficção)Manipula (o tempo/a História/a ficção)
Conversa com o(s)
narrador(es)
Conversa com o(s)
narrador(es) JulgaJulga
MoralizaMoraliza
Recorda e prenunciaRecorda e prenuncia
Adaptado de REAL, Miguel, 1996. Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em
Memorial do Convento de José Saramago. Lisboa: Caminho
Expressões, 12.º ano
O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)

MemorialdoConvento_narrador_exp12

  • 1.
    O narrador emMemorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303) Expressões, 12.º ano A obra de Saramago subverte […] o estatuto do narrador, estilhaçando as diversas modalidades por que este é habitualmente classificado. O narrador dos livros de José Saramago é “tudo de todas as maneiras”, simultaneamente exterior e interior, ausente e participante, majestático e empenhado, individual e coletivo, reflexivo e descritivo, memorialístico e atual… Narrador polivalente Cumpre diversas funções Narrador heterodiegético: “El-rei foi a Mafra escolher o sítio onde há de ser levantado o convento.” (l. 7) Narrador homodiegético: “[…] porém sosseguemos, a pobre não emprestes, a rico não devas, a frade não prometas, e D. João V é rei de palavra. Haveremos convento.” (ll. 5-6) Narrador reflexivo e descritivo: “[…] um homem pode ser grande voador, mas é-lhe muito conveniente que saia bacharel, licenciado e doutor, e então, ainda que não voe, o consideram.” (ll. 13-15) “[…] estava a abegoaria em abandono, dispersos pelo chão os materiais que não valera a pena arrumar, ninguém adivinharia o que ali se andara perpetrando. Dentro do casarão esvoaçavam pardais […]” (ll. 17-20)
  • 2.
    De certo modo,o narrador identifica-se com uma espécie de cruzamento teórico e prático entre vox populi, vox Dei e consciência moral individual […], que lhe permite tanto descrever o acontecimento quanto julgá-lo, quanto, ainda, inscrevê-lo numa ordem histórica em ordem a um futuro prenunciado. REAL, Miguel, “A herança do escritor” in Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1037, 30 de junho de 2010 Narrador sentenciador e moralizador: “Nem sempre se pode ter tudo […]” (l. 1) “[…] a pobre não emprestes, a rico não devas, a frade não prometas […]” (ll. 5-6) Narrador crítico e irónico: “[…] com todas as disposições, licenças e matriculações necessárias, partiu o padre Bartolomeu Lourenço para Coimbra […]” (ll. 25-28) “[…] uma multidão de homens, exagero será dizer multidão, enfim, umas centenas deles […]” (ll. 36-38) “[…] como se vê não há diferença nenhuma.” (ll. 50-51) Narrador omnisciente (gestor da matéria histórica e ficcional) “Haveremos convento.” (l. 6) “Até à vila de Mafra, aonde primeiro vai, não tem a viagem história, salvo a das pessoas que por estes lugares moram […].” (ll. 29-32) Expressões, 12.º ano O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
  • 3.
    Narrador polivalente Cumpre diversasfunções Narrador polivalente Cumpre diversas funções NarraNarra DescreveDescreve RefleteReflete ComentaComenta CriticaCritica IronizaIroniza Manipula (o tempo/a História/a ficção)Manipula (o tempo/a História/a ficção) Conversa com o(s) narrador(es) Conversa com o(s) narrador(es) JulgaJulga MoralizaMoraliza Recorda e prenunciaRecorda e prenuncia Adaptado de REAL, Miguel, 1996. Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em Memorial do Convento de José Saramago. Lisboa: Caminho Expressões, 12.º ano O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)