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Módulo I
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Autora do conteúdo: Ana Paula Veiga (Psicóloga/Sexóloga)
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Sumário
Introdução.....................................................................................................................3
Unidade 1 – Conhecendo a Psicanálise........................................................................12
1.1 – Freud e a criação da psicanálise......................................................................12
1.2 – Escolas psicanalísticas....................................................................................22
1.3 – Jung e a psicologia analítica ...........................................................................23
1.4 – Wilhelm Reich e a psicologia do corpo...........................................................33
1.5 – J. Lacan e sua contribuição à psicanálise.........................................................43
1.6 – A psicanálise no Brasil ...................................................................................54
Unidade 2 – Fundamentos da Psicanálise....................................................................56
2.1 – Primeira tópica: consciente, pré-consciente e inconsciente..............................57
2.2 – Narcisismo .....................................................................................................60
2.3 – Segunda tópica: id, ego e superego .................................................................64
2.4 – Resistências....................................................................................................69
2.5 – A psicanálise e os sonhos ...............................................................................78
2.6 – O setting analítico...........................................................................................81
2.7 – A alta em psicanálise......................................................................................83
Conclusão do Módulo I...............................................................................................85
3
Introdução
Sigmund Freud (1856-1939) postulou um método de investigação que se
resume, essencialmente, em clarificar o significado inconsciente das ações do sujeito.
Desse modo, para a psicanálise existem conteúdos escondidos na vida mental de todos
nós. Baseado no método de associação livre, que garante a validade das interpretações
desde que sejam controladas certas resistências inerentes, a psicanálise foi o primeiro
esforço científico para o tratamento das questões psicológicas. Antes de Freud, o
tratamento das desordens emocionais era além de pré-científicos e ineficazes, mas
potencialmente perigosos.
O modismo de tal teoria levou muitos à produção em nome da psicanálise
daquilo que não deveria ser assim nominado, já que o conteúdo, o método utilizado e,
até mesmo, os resultados obtidos, não condiziam com o pressuposto original. O que
vemos por aí é que Freud e suas ideias foram tão popularizados que seus conceitos,
muitas vezes, são veiculados de modo errôneo ou distorcido.
Um erro comumente visto, em profissionais de formação apressada, é o de
pensar que as diferentes teorias que surgiram da psicanálise são trabalhos que falam
sobre a mesma coisa, mas de maneira diferente, ou seja, abordagens distintas sobre o ser
humano, que visam e apontam para um mesmo resultado.
Sabemos que a psicanálise ultrapassa os seus pouco mais de 100 anos de criação.
Ainda assim, é inegável o valor daquilo que foi construído durante os anos no decorrer
da vida de Freud. Tamanha a sua dedicação e cuidado em tornar claros seus
pensamentos, em dividir suas angústias e as suas releituras, que podemos nos deleitar
com aquilo que foi estudado pelo criador.
Sabemos que a psicanálise se fez a partir de certezas e incertezas de Freud.
Incertezas essas que construíram com muita propriedade a sua obra, pois, se voltarmos
atrás, perceberemos que o método freudiano foi desenvolvido, além do próprio contato
com seus pacientes, mas também nos fracassos que se apresentavam diante daquilo que
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não se esperava ou era sabido. Foi o não conseguir entender que o fez seguir em frente e
estudar cada vez mais a fundo a mente humana. Cabe apostar que é isso que ele
esperaria de todos nós, ao falarmos e passarmos adiante a teoria criada para que a
humanidade pudesse se sentir um pouco protegida dentro da sua desproteção inerente.
Ainda assim, vale dizer que a verdade não está nas respostas elaboradas pela
psicanálise. A completa, o êxito, a evitação do sofrimento e das doenças, é algo buscado
por todos nós e por diferentes leituras da mente humana.
Ao estudarmos este caso de amor que recebeu o nome de Psicanálise,
percebemos que Freud nos pede que tomemos cuidado com os seus conceitos
chamados, por ele próprio, de fundamentais. É preciso desfazer equívocos criados não
apenas pelos leigos, mas especialmente por aqueles que detêm o saber, e, que, por se
considerarem conhecedores, ao fazer uso parcial da psicanálise, são capazes de causar
prejuízos que refletirão justamente no público leigo.
É mais do que preciso a consciência da necessária formação do analista,
enquanto um processo extra-acadêmico, onde seja viável se preparar para lidar com o
futuro paciente, isolando os elementos psíquicos de si próprio. Formação esta que, ao
passar pela análise pessoal, visa a superação das próprias resistências a fim de que elas
não interfiram e, assim, prejudiquem o processo analítico daqueles interessados nos
cuidados profissionais desse futuro analista.
“Os ensinamentos da Psicanálise baseiam-se em um
número incalculável de observações e experiências, e somente
alguém que tenha repetido estas observações em si próprio e em
outras pessoas, acha-se em posição de chegar a um julgamento
próprio sobre ela.” (FREUD, 1940, livro 7, p.16. Ed. Bras)
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O mesmo foi levantado por Fradiman e Frager (1986):
“Em 1922, no Congresso da Associação Psicanalítica
Internacional, concordou-se que uma análise didática com um
analista já declarado, seria obrigatória para qualquer candidato
a analista. Desse modo, este analista tornar-se-ia consciente de
seus modos de enfrentar a realidade. E, então, quando ele ou ela
trabalhasse com pacientes, não haveria confusão entre as
necessidades do analista e as do paciente.” (p. 27)
De qualquer forma, seria leviano de nossa parte, esquecer que o psicanalista é
um ser humano, com seus problemas, conflitos e limitações. Com sua própria história e
formas de interpretar a sua escuta, que estudou, fez terapia analítica e supervisionou
casos, mas, ainda assim, continua sendo, antes de tudo isso, uma pessoa sensível,
afetuosa, entediada, irritável e que também se angustia e sofre.
O que é a psicanálise?
Dentro da psicologia encontramos várias abordagens psicoterapêuticas que
englobam tendências teóricas um tanto diferentes e, com isso, diversas formas de
tratamentos. Apesar disso, conforme levantado por Cavalcanti e Cavalcanti (2006),
nenhum molde psicoterápico pode ser, indistinto e vantajosamente, aplicado a todos em
todos os casos. As características do próprio indivíduo permitem uma abordagem
terapêutica mais adaptável à condição apresentada por ele.
Via de regra, o que todas as linhas concordam, ainda que haja até mesmo certa
competição entre elas, em relação à importância e aceitação, é que o comportamento
humano é resultado da interação entre as variáveis biológicas, aquelas que são herdadas
e as variáveis, que são adquiridas através da aprendizagem e da experiência pessoal.
A tática terapêutica freudiana consiste em trazer o material do inconsciente para
a superfície, ou seja, para o nível da consciência, onde é possível ser trabalhado e
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resolvido ao descobrir os motivos que originaram determinados comportamentos ou
sintomas. Desta forma, a compreensão interna, chamada de insight, e a resolução dos
conflitos subjacentes são os objetivos primários desta concepção. Porém, tal esforço
ocorre junto à resistência, tanto mais forte quanto mais profundo estiver o material a ser
trabalhado.
Vale lembrar que a psicanálise não inviabiliza, assim como não substitui, a
necessidade de acompanhamento médico ou medicamentoso. Ao analista cabe
interpretar a fala do seu paciente, o significado inconsciente das palavras, das ações e do
conteúdo imaginativo expressado através dos sonhos ou fantasias. Seu objetivo é a
reeducação emocional ao promover o autoconhecimento e o autocontrole, uma melhoria
na qualidade de vida com a redução dos sintomas apresentados, além das mudanças em
si mesmo, características essas que não competem com o tratamento feito através da
medicação.
Atualmente, a psicanálise não está limitada à prática, centrada em outros
cenários por sua amplitude de pesquisa. Há até quem diga que a psicanálise é uma
psicologia própria. Nas palavras do criador:
“Psicanálise é o nome de (1) um procedimento para a
investigação de processos mentais que são quase inacessíveis
por qualquer outro modo, (2) um método (baseado nessa
investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos, e (3)
uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo
dessas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova
disciplina científica” (FREUD, 1923, livro 15, p. 107. Ed Bras)
Propomos outra tradução ao afirmar que a psicanálise é ainda mais do que isso.
É aquela ideia que nos envolve de uma tentativa sincera dos entendimentos de nossas
limitações e angústias. Apesar disso, ainda que as teorias ou suas racionalizações
expliquem de forma tão completa o nosso sofrimento, por vezes, precisamos ir além
delas para que seja possível a diminuição das aflições daqueles que nos procuram.
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Precisamos, claro, nos apoiar na teoria, mas não podemos correr o risco de nos
perdermos nela e esquecermos de quem está à nossa frente.
A contribuição de Freud
É verdade que, passados mais de 150 anos do seu nascimento, Freud continua
polêmico. Hoje, sua teoria recebe questionamentos que vão desde a psicologia
cognitivo-comportamental à neurociência, responsável pelo estudo das bases biológicas
da mente. Apesar disso, a importância de Freud para a ciência é um assunto
inquestionável. O descobrimento da sexualidade infantil, por exemplo, possibilitou o
estudo de uma área que, até então, era reinada pela ignorância tanto na ciência quanto
na filosofia, contribuindo para a formação de um novo campo conceitual bem mais
abrangente e diversificado.
Além disso, outros
conceitos foram de suma
utilidade em diversos ramos da
psicologia, permitindo, assim, o
avanço de tal ciência para além
de um complemento da
psiquiatria. Desde então, a
psicologia pode explicar os
processos psíquicos do ser
humano, não se limitando
somente no tratamento dos
distúrbios emocionais.
De tudo, fica que a
psicanálise pretende esclarecer o
funcionamento da mente humana e tem como fundamento a crença de que os processos
psíquicos, em sua maioria, fazem parte do inconsciente, isto é, a consciência nada mais
é do que somente uma fração da nossa vida psíquica.
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Porém, o modo de examinar a pessoa que nos pede por auxílio varia de acordo
com as concepções teóricas elegidas. Inúmeras correntes tentam explicar a gênese dos
distúrbios emocionais que afligem milhões de pessoas no mundo todo. De acordo com
seus esquemas explicativos, as abordagens teóricas assinalam orientações terapêuticas
que consideram mais aplicáveis e eficientes.
Sabemos da possibilidade existente, graças aos vários e grandes estudiosos dos
processos mentais, de examinarmos o nosso mundo interior com o intuito de buscar
pistas que demonstrem as razões dos nossos comportamentos. Contudo, tal tarefa, é
extremamente difícil, pois, escondemos, por alguma razão, de nós mesmos, tais pistas,
seja de forma ricamente elaborada ou com baixo sucesso.
Os instrumentos existentes para alcançarmos o alívio do sofrimento emocional
existem para que utilizemos como almejemos ou como consideremos a melhor escolha.
Freud foi somente um dos teóricos que escreveu sobre a maneira como utilizou os
instrumentos, sobre aquilo que ele descobriu e o que concluiu com as suas descobertas.
Embora suas conclusões ainda sejam discutidas, é certo que seus instrumentos
abriram o caminho para diversos outros sistemas e que podem ser das mais duradouras
contribuições para o estudo da personalidade.
Objetivo do processo analítico
Muitos pedidos são feitos aos terapeutas. Muitas vezes procurados por último,
após anos de angústia e sofrimento, depois da ansiedade fazer parte da vida desses
indivíduos tão intimamente que chegam a se confundirem com ela, nos perguntam e nos
perguntamos até que ponto podemos ajudá-los?
O psicanalista não está ali a fim de responder de forma incondicional ao pedido
de ajuda que lhe é feito. O trabalho do analista vai depender do desejo em conjunto com
o seu paciente, tanto na função do sujeito do suposto saber como na função de objeto,
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isto é, no sustento do lugar do vazio para que seja possível deslocar a fala do paciente a
esse lugar e, assim, se dê a possibilidade de tratamento.
Isso ocorre, pois a função da terapia é estabelecer a conexão entre o evento
mental reprimido e as manifestações neuróticas do paciente, de forma que este se
perceba, compreendendo e, então, podendo neutralizar os efeitos da experiência
original. Dito de outra forma, com base em um interrogatório dirigido, o paciente é
induzido a trazer, à memória, uma ideia que havia estado guardada por muito tempo e à
qual ele não teria acesso em outras condições. De tal forma, podemos perceber que a
função da terapia é permitir a interação dos conteúdos dos sistemas presentes na mente
do indivíduo.
Mas quem nos busca por ajuda, quer alcançar muitas vezes uma plena felicidade
e acredita que o analista tem o caminho que ele procura. Cabe ao analista saber que tal
felicidade imaginária, por muitas vezes, entra em choque com a realidade, não cabendo
ser alcançada. Estamos pré-destinados a nunca nos satisfazermos em um mundo
calculado, ainda que a sociedade do espetáculo nos tente provar o contrário, imprimindo
uma ideia de fornecimento de prazeres ilimitados, seja pelo consumo ou seja pelo
espetáculo.
Público alvo
Este curso destina-se a todos aqueles interessados em adquirir conhecimento
sobre a teoria da psicanálise, ou seja, tanto aos que querem aprender a dinâmica dos
problemas emocionais e afetivos de acordo com tal pressuposto, quanto aos que
desejam dedicar-se à psicanálise como terapeutas. Apesar disso, se faz necessário saber,
como já levantado, que um programa de formação em psicanálise pede por um tripé
estabelecido pelo próprio criador: conhecimentos teóricos, supervisão e análise pessoal.
Vale dizer que tal trabalho, voltado para o público leigo, não pretende
popularizar a psicanálise, até porque, como veremos, o inconsciente só poderia ser
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desvendado através da própria análise. Nossa ideia é incentivar o desenvolvimento
pessoal e a realização intelectual.
Objetivos gerais
• Promover os principais conceitos da psicanálise e dos fundamentos da
técnica psicanalítica, possibilitando ao estudante a sua atuação na
promoção da saúde psíquica, através de ações preventivas e intervenções
psicanalíticas educativas;
• Favorecer o conhecimento, a reflexão e o debate sobre questões
referentes à teoria psicanalítica;
• Capacitar a melhora da qualificação profissional, ao proporcionar os
conhecimentos e habilidades para o crescimento profissional.
Objetivos específicos
• Identificar os principais fundamentos da psicanálise e de outras poucas
escolas;
• Permitir que o aluno compreenda o campo dos fenômenos e dos
processos psíquicos (comportamento, consciência e inconsciente);
• Revelar o funcionamento de complexos, traumas, desejos ocultos ou
qualquer outro conteúdo mental que perturbe o adequado equilíbrio
emocional do paciente.
Definições importantes
É cotidiana a confusão feita entre algumas qualificações do terreno “psi”. Por
isso, é necessário clarificarmos alguns conceitos, para que possamos seguir adiante com
a clara e necessária diferenciação dos principais termos.
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Comecemos pela palavra psicologia. Ela é a ciência que estuda os aspectos
mentais (sentimentos, pensamentos, razão etc) e comportamentais. Para realizar seu
ofício, o psicólogo precisa escolher uma abordagem baseada em uma teoria específica
como método de trabalho. Para a obtenção do título é preciso frequentar um curso
superior de duração de cinco anos, onde o estudante passa por um processo
complementar ao desenvolvimento teórico com estágios supervisionados.
Além disso, um psicólogo pode aprender pelos livros e se aprimorar
intelectualmente mesmo que nunca tenha praticado ou se submetido a um processo
terapêutico também chamado de psicoterapia, ou seja, a ferramenta clínica do
conhecimento da psicologia.
Diferentemente, um psicanalista1
, aquele profissional que possui uma formação
em psicanálise, só tem sentido através do seu trabalho clínico. Sem bastar o estudo
sobre sua área, é preciso se submeter à própria análise com outro analista, visando a
explicação do seu funcionamento psíquico o que, geralmente, avança por alguns anos.
Além disso, tal teoria pode ser utilizada por um psicólogo ou por alguém que tenha feito
uma formação em psicanálise, sem necessariamente ter cursado a faculdade de
psicologia nem qualquer outro curso universitário.
Já a psiquiatria é uma especialização da medicina que, ao tentar delimitar os
problemas do paciente a partir de uma perspectiva médica, ou seja, orgânica, tem a
prerrogativa de prescrever drogas para o tratamento dos sintomas relacionados,
habilidade esta não designada ao psicólogo. O estudante de medicina opta pela
especialização em psiquiatria, que é composta de 2 ou 3 anos e abrange estudos em
neurologia, psicofarmacologia e treinamento específico para diferentes modalidades de
atendimento.
1
Quando ainda no século XIX Freud inventou a psicanálise, a carreira de psicologia ainda não existia. Assim,
inicialmente quase todos os psicanalistas eram psiquiatras.
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Unidade 1 – Conhecendo a Psicanálise
Psicanálise é o nome dado ao campo clínico e teórico de investigação da psique
humana que originou efeitos importantes na cultura ocidental. Independente da
psicologia, ela se desenvolveu através dos estudos do médico neurologista austríaco
Sigmund Schlomo Freud (1856-1939), que tinha como primordial objetivo compreender
os sintomas neuróticos e/ou histéricos. Com os conhecimentos advindos da investigação
feita por ele, pode-se superar a falha existente no tratamento médico de tais pacientes.
A proposta de Freud, da cura pela palavra e sua teoria sobre o inconsciente, o
tornaram popular ainda na primeira metade do século XX, e fez da psicanálise um
método de investigação dos processos mentais impenetráveis por qualquer outro modo.
1.1 – Freud e a criação da psicanálise
“A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido.
Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.”
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Nascido em maio de 1856, em Freiberg, Moravia, hoje Pribor, atual República
Tcheca, seu pai, um comerciante que trabalhava com lãs e com os negócios em baixa, se
viu obrigado a mudar-se para Viena quando Freud tinha apenas quatro anos. Vinte anos
mais velho do que sua mãe, era uma figura severa e autoritária, bem diferente dela, uma
pessoa carinhosa, com quem Freud desenvolveu uma profunda ligação.
Com mais sete irmãos, ele era o único a ter, em seu quarto, lamparina e óleo que,
naquela época, eram verdadeiras regalias. Além disso, para que pudesse estudar melhor,
era proibido que seus irmãos fizessem barulho pela casa.
Pelo fato de ser judeu, todas as carreiras fora medicina e direito eram proibidas
na época. Interessado pelos trabalhos de Charles Darwin e Johann Goethe optou por
estudar medicina na Universidade de Viena. Ao ingressar na universidade, Freud sofreu
grande preconceito por ser judeu. Tal fato deve ter servido para que ele se acostumasse
a ser uma figura na oposição.
O jovem estudante Freud desenvolveu trabalhos em neurologia e fisiologia,
comandando pesquisas sobre as glândulas sexuais das enguias. Fora isso, entrou para o
laboratório de Brücke para estudar o sistema nervoso dos peixes. Os estudos de
medicina, com exceção da psiquiatria, nunca o atraiam. Isto fez com que ele levasse oito
anos para se formar, em 1881. É desta época, mais precisamente em 1882, que datam os
primórdios da psicanálise, quando Freud ainda era recém-formado.
Apesar da sua vontade, como sua condição financeira não permitia que seguisse
estudando no laboratório acadêmico, começou a atender pacientes, clinicando como
neurologista e tratando essencialmente de mulheres burguesas que sofriam de distúrbios
histéricos. Além do mais, ele tinha se apaixonado e percebeu que, casando-se, precisaria
de um cargo mais bem remunerado.
Freud percebeu que, na histeria, os pacientes apresentavam sintomas que são
anatomicamente inviáveis. Por exemplo, na "anestesia de luva" a pessoa não tem
nenhuma sensibilidade na mão, ainda que apresente sensações normais no punho e no
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braço. Porém, visto que os nervos têm um percurso ininterrupto do ombro até a mão,
não pode haver nenhuma causa física para este sintoma. Assim, tal doença carecia de
uma explicação psicológica.
Na clínica psiquiátrica, notou que os problemas dos pacientes estavam
relacionados ao fato deles terem seus desejos reprimidos, subordinados ao inconsciente,
sendo muitos deles de natureza
sexual. Ao procurar aliviar o
sofrimento psíquico das pacientes,
Freud, durante um ano, ainda fez uso
dos métodos terapêuticos da época:
eletroterapia, massagens e
hidroterapia.
De 1884 a 1887, fez algumas
das primeiras pesquisas com cocaína
e, ao descobrir as propriedades
analgésicas, não sendo naquela época
proibida, ficou impressionado com suas propriedades e escreveu a respeito de seus
possíveis usos para os distúrbios, tanto os físicos como os mentais: “Eu mesmo
experimentei uma dúzia de vezes o efeito da coca, que impede a fome, o sono e o
cansaço e robustece o esforço intelectual.” (1963)
Por pouco tempo foi um defensor, mas depois tornou-se apreensivo em relação
às suas propriedades viciantes e interrompeu sua pesquisa. Porém, tal estudo abriu
portas para que esta substância fosse disseminada na Europa e nos Estados Unidos.
Terminando sua residência, Freud conquistou uma bolsa de estudos no
Salpetrière, em Paris, onde trabalhou com Charcot (1825-1893), figura de papel
fundamental na formação do jovem Sigmund. Ele percebeu em Freud um estudante
capaz e inteligente, e deu-lhe permissão para traduzir seus escritos para o alemão
quando Freud voltou à Viena.
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Nesta época, a histeria era a mais misteriosa de todas as doenças nervosas, e, não
só os pacientes histéricos, como, também, os médicos que demonstravam interesse por
tratá-la, eram desacreditados. Charcot contribuiu decisivamente para a mudança de tal
quadro, recuperando não só a dignidade dos pacientes, como abrindo um espaço para
que eles fossem ouvidos.
Para ele, a histeria não poderia ser considerada como uma enfermidade
imaginária. Era uma neurose que não estava restrita ao universo feminino,
contradizendo a própria origem do nome (hystera= útero). Tanto um quanto o outro se
mostraram interessados na autenticidade e na normalidade dos fenômenos histéricos e
em sua aparição na população masculina.
Apesar disso, Freud não havia concordado com a ideia de Charcot, que dizia que
a causa fundamental de tal distúrbio era a hereditariedade. Ainda assim, ficou encantado
quando percebeu que a hipnose era um caminho para a explicação. Desta forma,
podemos dizer que a maneira como Charcot tratava seus pacientes histéricos foi o ponto
decisivo para que Freud começasse a olhar em direção à criação de sua metapsicologia.
Porém, seguindo em seus estudos, Freud passou a achar os ensinamentos de Charcot
discutíveis.
Ainda antes de voltar à Viena, Freud foi a Berlim estudar sobre as enfermidades
infantis, onde publicou alguns trabalhos sobre paralisia cerebral das crianças. E, em
1886, já de volta, além de ter se casado com Martha Bernays, com quem teria seis
filhos, estabeleceu sua clínica particular e passou por um período de grande resistência
por parte das autoridades médicas em relação às suas inovações científicas. Assim, foi
questão de tempo a sua retirada da vida acadêmica e da relação profissional com a
sociedade de médicos.
Algumas circunstâncias já o tinham feito abandonar o uso da eletroterapia e a
utilizar como ferramenta de trabalho a hipnose, método que permitia ao paciente a
entrada em um estado de sugestão (hipnótica), onde seria possível revelar a história da
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gênese dos sintomas e sobre o qual era inviável o acesso em estado normal de
consciência.
Este fato foi descoberto ao perceber que a hipnose era uma condição que
atenuava a vigilância da censura, possibilitando evocar fatos perdidos que estavam
relacionados com o sintoma. Assim, em hipnose, uma situação era recordada e possível
de realizar o ato psíquico, antes reprimido, permitindo, de tal forma, um livre curso do
afeto correspondente e o consequente desaparecimento do sintoma. Estas reconstruções
da situação traumática inicial eram seguidas de explosões emocionais, chamadas de
catarse, e acompanhadas pelo desaparecimento sintomático. Nas palavras de Freud
(1914): “Os sintomas de pacientes histéricos baseiam-se em cenas do seu passado que
lhes causaram grande impressão, mas foram esquecidas (traumas); a terapêutica, nisto
apoiada, consistia em fazê-los lembrar e reproduzir essas experiências num estado de
hipnose (catarse).” (Ed. Bras, livro 6, p. 17)
Aliou-se a Josef Breuer2
(1842-1925), com quem continuou suas investigações
exploratórias da dinâmica da histeria. Juntos, Breuer e Freud, escreveram, em 1895,
“Estudos sobre a histeria”. A ideia do livro não era a de se fixar na natureza de tal
distúrbio, mas esclarecer a gênese de seus sintomas, acentuando, portanto, a
contribuição da vida afetiva e a importância da distinção entre atos psíquicos
inconscientes e conscientes. Porém, alvo de crítica, o livro, escrito a quatro mãos, serviu
de corte no caminho dos dois. Se, para Breuer, o tratamento estava completo com a
ajuda hipnótica, para Freud ainda faltava entender outras questões. Desta forma, Freud
tornou conhecidos os inconvenientes deste procedimento: não era possível hipnotizar
todos os doentes, visto que nem todos eram sugestionáveis e, por sua vez, nem todos os
médicos conseguiam hipnotizar de forma tão profunda quanto necessário.
2 Sua paciente mais conhecida foi Bertha Pappenheim, sob o pseudônimo de Anna O., que será a primeira paciente
histérica de Freud. Na época, responsável pelos cuidados de seu pai gravemente doente, Anna O. sofria de um
variado quadro sintomático que incluía paralisia, contrações musculares, inibições e estados de perturbação psíquica.
Em estado de vigília, a paciente era tão incapaz como os outros de entender a origem de seus sintomas ou as
conexões com a sua vida. Porém, hipnotizada, achava-se o que faltava. Com seu pai, a paciente se viu forçada a
reprimir um pensamento-impulso, cuja representação havia revelado o sintoma. Seu tratamento e sua hipnose
permitiram revelar os pensamentos e afetos reprimidos como o desejo de que o seu pai morresse.
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Para Breuer, a origem da histeria está ligada às lembranças traumáticas que
foram reprimidas por algum mecanismo do plano inconsciente da vida mental, isto é, ao
reprimir a carga do afeto da lembrança, originam-se os sintomas histéricos. Era preciso
um método catártico para se conseguir o retorno do afeto (utilizado para manter o
sintoma) e que por ter pego um ‘caminho falso’, não podia ser descarregado. Freud não
estava satisfeito com tais ideias, pois
não acreditava que os sintomas
tivessem sido originados em qualquer
cena desagradável. Para ele, tais cenas
traumáticas estavam ligadas à
sexualidade.
Seguindo o seu caminho
novamente sozinho, ampliou os
limites da histeria, começando pela
investigação da vida sexual dos
neurastênicos. Em meio disso, Freud
percebeu que o método da hipnose, no
lugar de eliminar os sintomas
causadores do sofrimento, por vezes, gerava novos sintomas no lugar daqueles
suprimidos.
Claro que esta descoberta, ainda que não tire o valor do método hipnótico, o
impõe limites. E, por isso, a hipnose deixou de ser o método ideal para os propósitos de
Freud, que mudou a sua abordagem, escolhendo trabalhar com os pacientes deitados,
enquanto ele se colocava por trás, de maneira que poderia ver, mas não ser visto.
Com esta postura, ele pretendia encorajar seus pacientes a falarem livremente,
sem reservas, sem omissão e julgamento, independente da aparente relação com seus
sintomas, isto é, sem preocupações de certo ou errado, reflexões ou conexões lógicas. A
ideia era buscar a origem dos sintomas através daquilo que era verbalizado, vencendo,
primeiramente, as resistências que impedem o acesso ao inconsciente. Visto que o
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analista, por sua vez, tem a função de reunir e significar o material descoberto3
, um
terapeuta psicanalista tradicional tem uma postura mais passiva e calada, ansiando do
seu paciente seus próprios insights.
Esta técnica foi chamada por ele de “Associação Livre”, onde o material
inconsciente viria à tona, com essas ajudas “espontâneas”, relatadas pelo próprio
paciente através dos sonhos, dos atos falhos e dos esquecimentos. Como aquilo que foi
esquecido tinha sido penoso, temível ou doloroso, para fazê-lo consciente era preciso
dominar o que se revelava contra o sujeito, impondo-se ao profissional tal esforço, tanto
maior quanto a gravidade do esquecido e a resistência do paciente. É neste momento
que surge a teoria da repressão4
, ponto central psicanalítico, onde o conflito leva à luta
entre duas forças: instinto e resistência.
Assim, os sintomas se fazem como o resultado de uma satisfação substituída,
porém alterada e desviada dos seus propósitos, por conta da resistência do ego. Desta
forma, os sintomas neuróticos não estariam ligados diretamente aos acontecimentos
reais senão a fantasias optativas, onde a realidade psíquica é mais importante do que a
realidade material.
Foi em 1894, que Freud descobriu o conceito de transferência. No final do ano
seguinte, nasce Anna Freud, sua filha mais nova e que se tornaria psicanalista, fundando
sua própria corrente e tornando-se uma célebre psicanalista de crianças.
E é por volta desta época que surge, pela primeira vez, o termo psicanálise, mais
precisamente em 1986, para indicar um método particular da psicoterapia. Neste mesmo
3
Vale ressaltar, como símbolo de curiosidade, que como Freud anotava somente depois de algumas horas o discurso
de seus pacientes, acredita-se que pode ter havido certas omissões. Outra crítica é que ele pode ter reinterpretado e ter
sido guiado pelo desejo de encontrar material de apoio às palavras transcritas.
4
A repressão é um mecanismo primário de defesa análoga à tentativa de fuga e antecessor da futura solução normal
por julgamento e condenação do impulso repulsivo. Como consequência, o ego precisa se proteger por meio de um
permanente esforço contra a pressão do impulso reprimido, sofrendo assim um empobrecimento. Além disso, o
reprimido, ao se transformar em inconsciente, pode alcançar uma descarga e satisfação substituída por caminhos
indiretos, fazendo fracassar o propósito da repressão.
19
ano, no qual inclusive o seu pai morre, a correspondência entre Fliess5
e Freud exibe a
expressão "aparelho psíquico" e os seus três componentes: consciente, pré-consciente e
inconsciente. É através de tais correspondências que Freud inicia o que ele chamaria de
sua autoanálise. Em paralelo, reconhece a sexualidade infantil e o complexo de Édipo.
Poucos anos depois, publica “A Interpretação dos Sonhos", com data de 1900, ainda que
tenha sido publicado no final de 1899. Datada, a pedido dele mesmo, de 1900, para
“abrir o século”, foi considerada por muitos como seu mais importante trabalho, apesar
de, na época, não ter recebido quase nenhuma atenção.
Em 1902, é criada a primeira sociedade psicanalista do mundo, em Viena, com o
nome de “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”. No ano seguinte, é a primeira vez
que Freud analisa uma criança de cinco anos. E é neste mesmo ano que ele descobre a
primeira teoria das pulsões: pulsão sexual e pulsão do Eu. Logo em seguida, Freud
revelou os estágios da sexualidade infantil e conheceu Jung, com quem começou a se
corresponder e com quem, em sete anos, já somava 359 cartas.
Jung que já tinha uma percepção de inconsciente e do psiquismo quando se
aproximou de Freud, criou, em 1907, a “Sociedade Freud”, em Zurique, que, mais tarde,
se tornou a “Associação Psicanalítica de Zurique”. Além disso, Jung teve tal
importância para Freud visto que, além de muito inteligente e esperto, não era judeu e
Freud receava que o progresso da psicanálise fosse ameaçado pelo antissemitismo.
Porém, alguns anos depois, a amizade ficou abalada após Jung tentar convencê-lo a
dessexualizar sua doutrina.
Freud, em 1911, descobriu o conceito de narcisismo ao estudar sobre a psicose
paranóica. No próximo ano, Freud publica alguns livros como “A Dinâmica da
Transferência” e “Totem e Tabu”, onde pesquisa sobre a interdição generalizada do
incesto, enraizada em diferentes culturas e sociedades.
5
Wilhelm Fliess (1858-1928) foi um médico alemão importante na pré-história da psicanálise. Por sugestão de
Breuer, Fliess se encontrou com Freud, em 1887, formando um forte laço de amizade. Mais do que um ouvinte crítico
de Freud, fez algumas contribuições científicas como a da bissexualidade inerente a todos os seres humanos.
Suspeitando que suas ideias estivessem sendo plagiadas por Freud, a amizade se desfez em 1902. Sua
correspondência com Fliess encontra-se atualmente reunida sob o nome de “O Nascimento da Psicanálise”.
20
Já na década de 20, Freud nos conta sobre sua segunda teoria do aparelho
psíquico: Isso (Id), Eu (Ego), Supereu (Superego) e sobre a segunda teoria das pulsões:
pulsão de vida e pulsão de morte.
No mesmo ano, em que está se dedicando à teoria estrutural ou à segunda tópica,
Freud escreveu "O Ego e o Id" (1923) e descobriu um câncer no maxilar, o que o levaria
a passar por 33 cirurgias, além de perder o maxilar superior, instalando, com isso, uma
prótese com a finalidade de separar sua boca.
Em 1930, Freud, já adoentado, através de Anna, sua filha e representante, recebe
o prêmio Goethe (de literatura), a única premiação que foi entregue em vida. Alguns
anos depois, entre 1933 e 1939, houve um importante avanço do antissemitismo na
Alemanha.
Além disso, em 1933, a terminologia freudiana é excluída do vocabulário da
psiquiatria e da psicologia da Alemanha, e a psicanálise passa a ser considerada como
uma ciência judaica. Assim, Freud tem seus livros queimados em praça pública pelos
nazistas, em Berlim. Nesta mesma época, há uma profunda emigração de psicanalistas
alemães para a Argentina, Inglaterra e Estados Unidos.
Apesar disso, em 1938, em meio à
ascensão do nazismo, a princesa Marie
Bonaparte, graças a sua estima, consegue levar
Freud, sua esposa e filhos, para Londres.
Fugindo do nazismo, passa a morar na
Inglaterra onde, no ano seguinte, aos 83 anos,
morre em função do câncer desenvolvido há
mais de dez anos.
Para que consigamos compreender sua
obra, é preciso olhá-la dentro da sua perspectiva histórica, cultural e científica. A cura
das enfermidades físicas e mentais, por meio do diálogo, foi uma inovação desenvolvida
21
por Freud a partir de suas observações. Até então, a área da psicoterapia só contava com
o apoio da terapia, ou seja, com banhos, sangrias e outros métodos obsoletos. Dessa
forma, sua contribuição, não só para a psicologia ou medicina, como para outras áreas
do conhecimento (sociologia, literatura, antropologia, entre outras) é inquestionável.
Suas ideias permitiram uma revolução de pensamento e o início da revisão de vários
preconceitos.
Freud explorou inúmeras áreas da psique que eram sabidamente encobertas,
tanto pela moral como pela filosofia vitorianas. Por contestar tabus culturais, religiosos,
sociais e científicos, descobriu novas abordagens para o tratamento da doença mental,
com ideias que se tornaram parte da herança comum da cultura ocidental.
“Sigmund Freud, pelo poder de sua obra, pela amplitude
e audácia de suas especulações, revolucionou o pensamento, as
vidas e a imaginação de uma Era... Seria difícil encontrar na
história das idéias, mesmo na história da religião, alguém cuja
influência fosse tão imediata, tão vasta e tão profunda.”
(Wollheim, 1980, p. IX)
Freud escreveu incansavelmente, suas obras completas somam 24 volumes e
abrangem ensaios referentes aos aspectos delicados da prática clínica, além de uma série
de conferências que esboçam toda a teoria sobre questões religiosas e culturais.
22
1.2 – Escolas psicanalíticas
Durante o trajeto da psicanálise,
muitos foram os estudiosos que se
encontraram e se encantaram com as
descobertas de Freud. Pelo caminho,
muitos formaram alianças e muitos se
separaram, dando destinos diferentes às
suas ideias.
De toda forma, não deve nos causar
surpresa o fato de que estudiosos brilhantes
discordem tanto. O estudo da consciência
humana é controverso em sua natureza porque há menos evidências e mais deduções.
Ainda que saibamos que, após o olhar de Freud, vários foram aqueles que
contribuíram para a expansão e o desenvolvimento da psicanálise, seria impossível
abarcar todas as figuras importantes no presente trabalho. Tal fato, não desmerece
nenhum deles, só tem como objetivo permitir-nos um curso mais focado. Para um
estudo mais aprofundado sobre as escolas psicanalíticas, sugerimos ver algumas ideias
de livros expostos na referência bibliográfica, presente na apostila do módulo II.
23
1.3 – Jung e a psicologia analítica
"Só aquilo que somos realmente tem o verdadeiro poder de curar-nos."
Responsável por ter desenvolvido importantes conceitos da psicologia como
personalidades introvertidas/extrovertidas e inconsciente coletivo/arquétipos, sua análise
sobre a natureza humana envolveu investigações acerca das religiões ocidentais, alquimia,
parapsicologia e mitologia. Assim, dentro de amplo conhecimento cultural e intelectual
que possuía, Jung fundou a psicologia analítica, uma das linhas de estudo da psicanálise
que entendia os distúrbios mentais como uma forma patológica de procurar pela
autorrealização pessoal e espiritual.
Um dos alunos mais conhecidos de Freud, Carl Gustav Jung, nasceu em uma
aldeia suíça, em 1875. Tanto seu pai como vários parentes próximos eram pastores
luteranos e, desta forma, já durante sua infância, percebe-se o quanto foi tocado
profundamente por questões tanto religiosas quanto espirituais. Filho único, formou-se
em medicina pela Universidade da Basiléia, em 1900, e apresentou, em 1902, sua tese
de psiquiatria sobre “Os chamados fenômenos ocultos”. Começou a trabalhar com
esquizofrênicos, no hospital psiquiátrico Burgholzi, em Zurique, tornando-se grande
admirador de Freud. Estava tão entusiasmado com as novas perspectivas abertas pela
psicanálise, que decidiu conhecê-lo pessoalmente, indo a Viena, em 1907.
De acordo com Taboada (2004), de início, a identificação foi instantânea. Não só
pela convergência de ideias, como a relação interior que ambos acreditavam existir
entre os processos associativos alterados e os fenômenos psicopatológicos, como pela
24
concepção de que tal acontecimento se dava por um fator inconsciente, com forte carga
afetiva que exercia influência sobre a vida psíquica e sobre o comportamento dos
indivíduos. Dessa maneira, ambos percebiam que os fatos retidos no inconsciente
podiam permanecer ativos por muito tempo e desencadear perturbações da vida mental.
Porém, a identidade de pensamentos não foi capaz de esconder diferenças
fundamentais, surgindo divergências de pensamentos. A união foi então rompida devido
à discordância em pontos fundamentais. Jung não aceitava a insistência de Freud de que
as causas da repressão dos conteúdos inconscientes eram sempre originadas devido a
traumas sexuais não elaborados pela consciência. Com isso, conforme lembrado por
Taboada (2004), ele não pretendia negar a importância das cargas emocionais ligadas à
sexualidade nem o poder patogênico dos traumas.
Somente acreditava que, para que o trauma exercesse a sua ação patogênica, era
preciso que houvesse uma “predisposição interior específica”. Além disso, por sua vez,
como era de se esperar, Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos
mitológicos, espirituais e ocultos: “O positivismo científico materialista de Freud não
perdoou o discípulo que buscou o fundamento criativo da religião.” (BYNGTON,
2004, p.7). O rompimento definitivo se deu em 1912, e cada um seguiu caminhos
diferentes com ressentimento de ambos os lados.
Depois de um tempo recolhido, Jung continuou a sua trajetória e desenvolveu o
método de associação de palavras, que visava o estudo das associações do pensamento,
com a finalidade de buscar o acesso aos fenômenos irracionais da psique. Visando
analisar a conexão entre associação e alterações da atenção, Jung pôde perceber que
certos eventos, tidos como falhas irrelevantes eram, na verdade, interferências
emocionais sobre o padrão de resposta. “As investigações sobre o conteúdo e o aspecto
afetivo subjacente levavam a conteúdos inconscientes com forte carga emocional.”
(TABOADA, 2004, p. 19)
Algumas palavras indutoras provocavam reações perturbadoras capazes de
demonstrar a relação com conteúdos emocionais ocultos. Esses conteúdos, descobertos
25
por Jung durante tais experimentos, foram denominados de complexos, definidos como
um agrupamento de conteúdo psíquico, carregado de afetividade, que estabelece
associações com outros elementos. De tal forma, os complexos são capazes de interferir
na vida consciente, nos envolvendo em situações contraditórias, perturbando a memória
e arquitetando sonhos, por exemplo.
Assim, podemos perceber que o bem-estar depende dos complexos que possuem
maior ou menor autonomia, dependendo da conexão com a totalidade da organização
psíquica. Apesar do mal-estar que podem causar, não são considerados elementos
patológicos, mas sinal de conteúdos conflitivos que não foram assimilados. Para que
isso ocorra, por sua vez, é preciso compreender os conflitos em termos intelectuais e
exteriorizar os afetos envolvidos.
Em 1917, Jung publicou o livro "A Psicologia do Inconsciente" com seus
estudos sobre o inconsciente coletivo, também conhecido como impessoal ou
transpessoal. Detentor de recordações, sentimentos e pensamentos capazes de
condicionar os sujeitos, o inconsciente coletivo contém arquétipos, isto é, tendências
herdadas e armazenadas que levam o indivíduo a se comportar de modo semelhante aos
seus ancestrais. Desta forma, seja em momentos individuais ou durante manifestações
de elementos culturais, como é o caso das religiões e dos mitos, o material psíquico
universal, e não estabelecido em nossa experiência pessoal, encontra-se no inconsciente
coletivo. Assim, repleto de material representativo, possui uma forte carga afetiva
comum a toda humanidade como, por exemplo, essa sensação universal da existência de
Deus.
De acordo com Alves (2005), Jung concluiu que o inconsciente era mais do que
um depósito de desejos reprimidos expressos em sonhos, como entendia Freud. Ainda
que não negasse a existência do inconsciente individual, ele acreditava em um
inconsciente mais profundo e não pessoal, comum a todos os homens e culturas,
expresso através de símbolos que vêm à tona em sonhos, mitos e expressões artísticas.
Todos os indivíduos compartilham os mesmos símbolos, ainda que, em cada cultura,
eles tenham roupagem própria.
26
Seguindo em sua teoria, o processo de individuação é tido, por ele, como a nossa
grande tarefa existencial. Tal processo costuma ser deflagrado espontaneamente no
indivíduo já adulto, o que o fez ter tanto interesse no estudo desta fase da vida. Para
Jung, o que nos acontece na primeira metade da vida é uma espécie de preparação para
o nosso processo de individuação, a descoberta de nossa identidade profunda, que
ocorre somente através da realização de nossos potenciais.
De acordo com Ramos e Machado (2004), o processo de individuação, que
percorre toda a evolução humana, tanto individual como coletiva, refere-se ao processo
de se tornar uno, indivisível, isto é, um ser único através do autoconhecimento. Ainda
que tal processo de desenvolvimento da personalidade seja algo idealizado, é, ao mesmo
tempo, aquilo que motiva o ser humano, desde o seu nascimento à velhice, o guiando
em suas escolhas afetivas e profissionais.
Paradoxal como pode parecer, este processo resulta da interação do indivíduo
com o coletivo. Visto que, individuar-se não é individualizar-se, é impossível a
ocorrência deste processo fora da interação com o outro. “De certo modo, o processo de
individuar-se depende dessa fina sintonia com o que podemos chamar de nossa
essência e que, embora dependa da genética, da educação e do ambiente familiar e
cultural, certamente a todos transcende.” (RAMOS e MACHADO, 2004, p.42)
27
Já, para Vargas (2004), o termo individuar é entendido como “tornar-se si
mesmo”, atingindo os potenciais próprios de cada um. Para o autor, a individuação é um
processo espontâneo de amadurecimento, por meio do qual o indivíduo se torna o que
está “destinado a ser”, desde o início.
Precisamos lembrar que é através do processo de individuação que entramos em
contato com os arquétipos. E, de acordo com Vargas (2004), Jung discriminou em
quatro fases este processo: a conscientização da persona, o confronto com a sombra, o
encontro com a anima (para o homem) ou com o animus (para a mulher) e, finalmente,
o encontro com o Self (ou si mesmo).
Antes de entrarmos na explicação de tais termos levantados agora, precisamos
esclarecer que, ao investigar as criações artísticas das antigas civilizações, Jung
percebeu alguns símbolos de arquétipos comuns, mesmo entre culturas distantes no
tempo e no espaço. Diferentemente dos arquétipos que não têm um conteúdo definido,
os símbolos podem ser individuais ou coletivos, ter um significado óbvio com uma
conotação específica e só podem ser considerados como tal, quando evoca algo mais do
que o seu simples significado. “O símbolo representa a conexão com a energia
arquetípica necessária para a consecução de feitos que alteram o estado das coisas e
podem trazer novas soluções para conflitos aparentemente insolúveis.” (RAMOS e
MACHADO, 2004, p. 46)
Para Jung, o símbolo
aponta um vínculo entre
aspectos conscientes e
inconscientes de um mesmo
elemento, contendo uma esfera
irracional e um enorme poder de
mobilização. Desta forma, a
palavra símbolo passou a ser
28
utilizada com a finalidade de assinalar a união de opostos, do conhecido e do
desconhecido. Além disso, como o que desconhecemos carrega o seu valor afetivo, o
símbolo sempre é capaz de despertar emoção.
Ramos e Machado (2004) salientam a importância de entendermos que Jung
usou o conceito de símbolo baseado em sua etiologia: sym (juntar) e balein (em direção
a). De tal forma, symbalein significava, na Grécia Antiga, o ato de unir duas metades de
uma mesma moeda que fora partida na separação de duas pessoas.
“Quando uma delas desejava enviar uma mensagem
importante à outra, o mensageiro trazia consigo uma das
metades da moeda. Desse modo, o destinatário da mensagem
poderia verificar sua autenticidade ao constatar a perfeita
união das duas metades (uma conhecida, outra incógnita).”
(RAMOS e MACHADO, 2004, p. 45)
Agora, voltando só um pouco ao que vimos acima sobre os complexos,
precisamos completar que eles fazem parte do nosso inconsciente pessoal6
, isto é, da
“sombra”, e são, de acordo com Ramos e Machado (2004), responsáveis, em grande
parte, pelos nossos comportamentos mais aberrantes e desadaptativos à realidade.
Temos acesso à sombra através da jornada do autoconhecimento. Aquilo que
escondemos é necessário ser revelado para que seja possível transcender a tais
conteúdos. Sem limparmos esse conteúdo é impossível que sejamos livres, pois não
pertencer à esfera da consciência não quer dizer que a sombra não influencie as atitudes
humanas. Em outras palavras, sem a conscientização da natureza da sombra, não existe
processo de individuação.
6
Vale lembrar, como já ressaltado por Ramos e Machado (2004), o conceito junguiano de inconsciente como fonte
de criatividade e potencialidade e não somente como depositário de conteúdos reprimidos, imagens ou vivências
dolorosas bloqueadas pelo mecanismo do ego. É de lá que surgem os impulsos que tomam forma na matéria, de
acordo com o espaço e o tempo de uma pessoa.
29
Porém, a necessidade de nos adaptarmos à vida em sociedade, como as
exigências culturais, nos leva a desenvolver o que Jung nomeou de persona, uma
máscara coletivamente reconhecível e aceitável. Nas palavras de Ramos e Machado
(2004):
“Quando extremamente rígida, a persona pode cindir
com os aspectos mais profundos do ser e passa a expressar
apenas um aspecto desejado externamente, sem refletir o
caráter mais ontológico do “si mesmo”. Quando integrada, a
persona é criativa e possibilita a expressão de diferentes facetas
do indivíduo.”(p. 47)
Outro conceito importante na psicologia analítica, diz respeito a um aspecto do
inconsciente observado indiretamente: a anima e o animus, contrapartes sexuais do
homem e da mulher que funcionam como elo entre o mundo interno e o ego. Da mesma
forma como existem aspectos biológicos masculinos na mulher, igualmente, existem
aspectos psicológicos masculinos correspondentes ao arquétipo do animus. Assim, um e
outro possuem qualidades humanas que faltam na disposição consciente.
“As projeções românticas têm a função de estabelecer
um confronto com o inconsciente, e sua retirada permite uma
expansão do autoconhecimento. Mediante a relação com o sexo
oposto podemos conhecer a realidade de nosso potencial, pois
tornar-se consciente não é um projeto isolado. Embora requeira
certa dose de introspecção, essa jornada implica convívio com o
outro para se realizar.” (RAMOS e MACHADO, 2004, P. 47)
Foi em 1921, em seu livro "Tipos Psicológicos", uma de suas obras mais
conhecidas, que Jung propôs que cada indivíduo possuía uma maneira singular de
apreender o mundo. Para caracterizar esta tipologia, dinâmica e desenvolvida, ao longo
da vida, Jung descreveu duas atitudes (extroversão e introversão) e quatro funções da
consciência (pensamento, sentimento, sensação e intuição).
30
De acordo com Fadiman e Frager (1986), a energia dos introvertidos segue de
forma mais natural em direção a seu mundo interno, enquanto que a energia do
extrovertido é mais focada no mundo externo. Os interesses primários dos introvertidos
se concentram em seus próprios pensamentos e sentimentos, ou seja, em seu mundo
interior. Por sua vez, os extrovertidos envolvem-se com o mundo externo das pessoas e
das coisas e têm uma tendência mais social, necessitando de proteção para não serem
dominados pelo mundo de fora e se alienarem de seus próprios processos internos.
Vale ressaltar que essas atitudes, ainda que não sejam totalmente cristalizadas, se
excluem mutuamente, visto que seria impossível manter as duas ao mesmo tempo. O
ideal é que o ser humano tenha uma cota de flexibilidade, podendo adotar ambas,
quando apropriado for e, assim, sem responder de uma maneira fixa ao mundo,
operando em termos de um equilíbrio.
As quatro funções da consciência levantadas acima estariam, para Jung,
dispostas em dois pares de opostos, um racional (pensamento e sentimento) e o outro
irracional (sensação e intuição). Cada função pode ser combinada e experimentada de
uma forma introvertida ou extrovertida.
“Para que possamos nos orientar, precisamos de uma
função que nos afirme que algo está aqui (sensação), outra
função que nos demonstre o que é (pensamento), uma terceira
que declare se isto é ou não apropriado (sentimento) e uma
quarta que indique de onde isso veio e para onde vai
(intuição).” (JUNG, 1942, p. 167)
Para Jung, o pensamento é a alternativa de elaborar os julgamentos e de tomar as
decisões. As pessoas que funcionam com o predomínio de tal função psíquica são
chamadas de reflexivas, por serem grandes planejadores que se agarram aos planos e às
teorias, ainda que sejam confrontados com evidências. Por sua vez, o sentimento age
como uma função orientada para o aspecto emocional da experiência, baseada em
emoções intensas ainda que negativas. Aqui, a tomada de decisões está atrelada aos
31
julgamentos de valores próprios como certo e errado. De maneira simplificada,
podemos dizer que, enquanto o pensamento nos diz o que é esse algo, o sentimento nos
diz se esse algo é agradável ou não.
Já a sensação, classificada junto com a intuição, é uma forma de apreender
informações, ou seja, é a percepção dos detalhes e de fatos concretos. Os tipos
sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, lidando de forma eficiente
com todos os tipos de emergência. Jung via a intuição como uma forma de processar a
informação em termos passados, objetivos futuros e processos inconscientes. Assim, as
consequências são mais importantes do que a experiência. Seus tipos nos falam de
pessoas que processam as informações rapidamente, relacionando automaticamente a
experiência passada com informações da experiência imediata. Uma maneira de
simplificar o conceito apresentado é dizendo que a sensação nos expõe que algo existe e
a intuição nos diz de onde esse algo vem e pra onde vai.
“Ninguém desenvolve igualmente todas as quatro
funções. Cada um tem uma função dominante e uma auxiliar
parcialmente desenvolvida. As outras duas funções são, em
geral, inconscientes e a eficácia de sua ação é bem menor.
Quanto mais desenvolvidas e conscientes estiverem as funções
dominantes e a auxiliar, mais profundamente serão os seus
opostos.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 48)
De acordo com Vargas (2004), ainda que o tipo psicológico, essencialmente
herdado, conserve-se o mesmo ao longo da vida, com o amadurecimento incide uma
tendência à maior integração à consciência das funções menos desenvolvidas. Com isso,
ocorre uma maior harmonização da personalidade quanto ao uso das quatro funções e
das duas atitudes.
Em 1928, Jung se interessou pelos trabalhos de Reich e, juntos, passaram a
estudar alquimia, comungando a ideia da natureza humana original e criativa, que se
32
esconde atrás de um homem massificado, que há muito perdeu a conexão com a
totalidade da vida e com suas raízes mais profundas.
No mesmo ano que lançou o livro “Psicologia e Alquimia”, Jung sofreu um
infarto, resolvendo renunciar às atividades docentes. Nesta obra, Jung fala do
simbolismo da alquimia como intimamente relacionado com o processo analítico. No
estudo deste livro, utilizou uma amostra de sonhos de um paciente, mostrando como os
símbolos utilizados pelos alquimistas ocorrem na psique, como parte do depósito de
imagens mitológicas utilizadas pelo indivíduo em seu estado de sono.
De acordo com Jung, a terapia é um esforço em conjunto do analista e do
analisado, que trabalham junto como iguais, em um relacionamento onde o analisado
deve ser visto por inteiro, sem procurar consertar partes isoladas de sua psique,
alcançando, finalmente, o seu estado de individuação.
Apesar de tantos conceitos apresentados aqui, foi o esforço de Jung evitar a
ênfase em uma teoria ou em técnicas específicas no processo terapêutico. Seu medo era
o de transformar o comportamento do analista em algo mecânico e, assim, prejudicar o
contato com o analisado. Jung não queria a existência de junguianos, objetivando, com
tal afirmação, que quem concordasse com a sua psicologia, experimentasse um caminho
próprio. De acordo com Vargas (2004):
“Para que cada junguiano, dentro de sua individuação,
possa se exercer como analista, ele necessita de uma formação
ampla e profunda, que implica a aquisição de conhecimentos
teóricos, técnicos e vivenciais. A clínica junguiana, vasta e
muito rica, com inúmeras aplicações, pode utilizar-se de
diferentes técnicas, conforme o analista e o cliente.” (p. 74)
Jung morreu aos 86 anos, em 1961, após ter levado uma vida que marcou a
antropologia, a sociologia e a psicologia, além de campos como a arte, a mitologia e a
literatura.
33
1.4 – Wilhelm Reich e a psicologia do corpo
“Do irreal resulta a impotência;
o que não somos capazes de conceber
não podemos dominar.”
Reich foi o fundador do que poderíamos chamar de psicoterapia orientada para o corpo,
visto que seu trabalho objetivava a libertação de emoções através deste. Enfatizou a
necessidade de lidar com os aspectos físicos do caráter, em especial os modelos de
tensão muscular crônica, tendo como principais contribuições os conceitos de caráter e
couraça, que se desenvolveriam a partir do conceito freudiano da necessidade do Ego
em se defender contra forças instintivas.
Wilhelm Reich7
nasceu, em 1897, na Galícia, mais precisamente em
Dobrzynica, uma parte da Áustria germano-ucraniana. Filho de fazendeiro judeu de
classe média, seu pai era uma figura autoritária de forte temperamento e sua mãe, uma
mulher bem atraente que se suicidou quando ele tinha 14 anos, aparentemente depois de
Reich ter revelado ao seu pai que ela tinha um caso com o seu tutor. Seu pai morreu de
tuberculose três anos mais tarde e seu único irmão quando Reich tinha 26 anos.
7
Como título de curiosidade, vale ressaltar que tanto a religião quanto as observâncias judaicas não tiveram nenhum
papel significativo na educação de Reich.
34
Foi pouco depois da 1ª Guerra Mundial que Reich alistou-se no exército
austríaco, onde chegou ao posto de tenente e entrou em serviço ativo na Itália. Ao final
da guerra, foi para Viena, como um veterano de apenas 21 anos.
Em 1918, Reich ingressou na escola médica, na
Universidade de Viena, decidindo, quase que
instantaneamente, dedicar-se à psiquiatria.
Profundamente interessado na sexualidade humana, em
1919, procurou Freud com a finalidade de organizar
um seminário sobre sexologia na escola que
frequentava. Apenas um ano depois, aos 23 anos de
idade, Reich começou a participar das reuniões da
“Sociedade Psicanalítica de Viena” como membro
efetivo. Assim, a clínica psicanalítica fundada por
Freud, em Viena, o teve como primeiro assistente
clínico. Destinada a pacientes que não podiam pagar pelo tratamento, a demanda era
enorme. Tal fato, na percepção de Reich, demonstrava que a neurose era uma doença de
massa, que precisava ser tratada além dos limites da psicanálise.
De acordo com Kignel (2004), em 1921, Reich iniciou a sua prática
psicanalítica, antes mesmo de ter sido analisado, passando a atender os pacientes
encaminhados por Freud, em um profundo exemplo de admiração pelo seu trabalho.
“Em 1927, Reich procurou fazer análise com Freud, que
se recusou a fazer uma exceção à sua política de não tratar
membros do círculo psicanalítico profundo. Nesta época,
desenvolveu-se um sério conflito entre ambos que começou, em
parte, pela recusa de Freud em analisá-lo e, por outro lado,
com o aumento das divergências teóricas que resultaram do
envolvimento marxista de Reich e sua insistência de que toda
neurose era baseada numa falta de satisfação sexual.”
(FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 89)
35
Somado a isso, segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006), enquanto Freud
considerava a neurose decorrência de uma perturbação sexual – e sexo precisa ser
percebido em um sentido amplo, como o foi para ele –, Reich assegurava que a neurose
era uma perturbação sexual em sentido restrito, isto é, uma falha na capacidade de
atingir o orgasmo. Por tal motivo, a neurose não só bloqueia a capacidade de entrega
como retém a energia em couraças musculares8
, impedindo a descarga sexual. Desta
forma, para Reich, a gratificação sexual plena, além da função profilática, por evitar o
desencadeamento do processo neurótico, também desempenha uma função terapêutica
contra a própria neurose. Isso porque, para ele, quando se atinge a satisfação orgástica é
descarregada toda a energia do organismo, não restando nada para determinar e/ou
manter o sintoma neurótico.
Assim, segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006), quando esse alívio é bloqueado
ou insuficiente, segundo Reich, o sistema nervoso autônomo se sobrecarrega de energia
e a excitação sexual crescente, não liberada, se exterioriza sob a forma de angústia. Em
outras palavras, a ausência do orgasmo, portanto, seria o mecanismo central
determinante da angustia e, por conseguinte, da neurose.
Outra grande divergência com os conceitos da psicanálise freudiana foi a ideia
de Reich, de que a libido é uma força, sobretudo orgânica e mensurável, e não uma
energia psíquica. Sua proposta tem, no orgasmo, a visão de que ele é capaz de
descarregar o excesso de energia do organismo. Por tal razão, resumidamente, sua meta
terapêutica visava a libertação dos bloqueios corporais e a obtenção plena da capacidade
orgásmica.
Vale ressaltar que a psicoterapia realizada antes de Reich, basicamente, ignorava
os processos corporais. Foi ele quem passou a pensar no corpo como fonte e resolução
dos conflitos. Segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006), é inegável que a psicossomática
já correlacionava as doenças físicas com os conflitos psíquicos, mas em termos de
8
Tal conceito será explicado em breve. Por enquanto, nos basta a ideia levantada por Cavalcanti e Cavalcanti (2006),
que afirmam a couraça muscular como sendo um padrão geral de tensão muscular crônica do corpo que funciona
como um escudo, retendo energia que não pode ser descarregada.
36
terapia psicanalítica, as sensações orgânicas eram apenas trabalhadas verbal e
mentalmente.
“A psicanálise, de modo geral, ainda não tinha se
alertado para o fato de que o organismo vivo se expressa mais
claramente pelos movimentos corporais do que por palavras. O
corpo fala por meio da linguagem viva da postura, da expressão
fisionômica, dos gestos; uma língua que antecede, precede e
transcende a expressão oral. Quando se admite que o físico e o
psíquico são apenas níveis de uma mesma realidade, torna-se
evidente a possibilidade de operar modificações psíquicas por
intermédio da estrutura orgânica.” (CAVALCANTI e
CAVALCANTI, 2006, p. 20)
Foi Reich que nos trouxe este olhar para a relação da mente e do corpo. E, de tal
forma, interessado no papel da sociedade na criação de inibições, fundou uma
psicologia orientada para o corpo.
“Assim, por volta de 1950, Reich ocupou-se com
experimentos envolvendo acumuladores de energia orgônica:
caixas e outras invenções que, segundo ele, armazenam e
concentram energia orgônica. Reich descobriu que várias
doenças que resultavam de distúrbios do “aparelho
automático“, podiam ser tratadas com graus variados de
sucesso, pelo restabelecimento de um fluxo normal de energia
orgônica do indivíduo. Isto poderia ser conseguido pela
exposição a altas concentrações de energia orgônica nos
acumuladores. Estas doenças incluíam câncer, angina de peito,
asma, hipertensão e epilepsia.” (FADIMAN e FRAGNER,
1986, p. 90)
37
Ele percebeu que era possível isolar a energia da vida, guardando-a em
acumuladores conhecidos como caixa de orgone. Ao posicionar os doentes dentro de
tais caixas, ele acreditava estar tratando de doenças sérias. Tudo isso porque, para ele,
tal Energia Orgônica, termo derivado a partir do organismo e orgasmo, flui
naturalmente por todo o corpo, de cima a baixo, paralela à espinha. Livre de massa, essa
energia vital e necessária ao funcionamento humano, não possui inércia ou peso,
encontra-se presente em qualquer parte, embora em diferentes concentrações. Além
disso, por estar em constante movimento, pode ser observada em condições apropriadas,
e por governar o organismo total, além de se expressar nas emoções e nos movimentos
biofísicos dos órgãos, torna-se o centro da atividade criativa.
Em outro estudo, Reich nomeou o
caráter como aquilo que é composto pelas
atitudes habituais de uma pessoa e de seu
padrão consistente de respostas para diversas
situações. O conceito inclui, não só modos e
valores conscientes, como, também, o estilo de
comportamento e as atitudes físicas.
De acordo com Fadiman e Fragner
(1986), o caráter se forma como uma defesa
contra a ansiedade, criada pelos intensos
sentimentos sexuais da criança e o consequente medo da punição. A primeira defesa
contra este medo é o mecanismo de defesa do ego conhecido por repressão, o qual
refreia os impulsos sexuais por algum tempo. À medida que as defesas do ego se tornam
cronicamente ativas e automáticas, elas evoluem para traços ou couraça caracterológica,
como resultado de todas as forças defensivas repressoras, instituídas de forma mais ou
menos lógica dentro do próprio ego.
Além disso, para ele, cada atitude de caráter tem uma atitude física
correspondente, ou seja, o caráter do indivíduo é anunciado no corpo, em termos de
rigidez muscular ou couraça muscular. Como não somente de recalque vive o
38
inconsciente, mas de representações contidas no organismo como um todo, ele tenta
ativar o inconsciente através da observação, ação e interpretação das expressões não
verbais. Para isso, Reich analisava seus pacientes pela avaliação da natureza e da função
de seu caráter, ao invés de decompor seus sintomas.
Assim, como o psiquismo e suas fixações podem ser acessados de diferentes
maneiras – além das livres associações verbais – é missão do terapeuta reichano não só
avaliar o que acompanha a história verbal do seu paciente, mas também ler a dinâmica
da expressão corporal.
Visto que o indivíduo que se encontra encouraçado é incapaz de expressar as
emoções biológicas primitivas, o maior obstáculo presente ao crescimento são as
couraças, que tem o papel de reduzir o livre fluxo de energia e a livre expressão de
emoções, transformando-se em uma importante amarra, tanto física quanto emocional.
Pensando sobre isso, com a finalidade de liberar emoções e fantasias contidas,
Reich começou a trabalhar de forma direta no relaxamento da couraça muscular, pois,
para ele, a liberação das emoções, através do trabalho com o corpo, produz uma
vivência muito mais intensa do que aquela que desperta o material infantil como forma
de trabalho. Para tanto, conforme levantado por Cavalcanti e Cavalcanti (2006), Reich
utilizava a respiração profunda como procedimento terapêutico a fim de neutralizar tais
couraças, com a colaboração ativa do paciente que, por sua vez, precisa enfrentar
abertamente suas resistências ou restrições que surgem pelo caminho.
Além disso, outra técnica utilizada dizia respeito à intensificação da tensão, que
fazia os pacientes mais conscientes dela, aumentando a possibilidade de aliviar o que
estava preso em determinada parte do corpo. Fadiman e Fragner (1986) acrescentaram
que, para que seus pacientes se conscientizassem de seus traços neuróticos de caráter,
Reich imitava com frequência suas características, gestos ou posturas, fazendo com que
repetissem ou exagerassem uma faceta habitual do comportamento.
39
“Reich começou primeiramente com a aplicação de
técnicas de analise de caráter a atitudes físicas. Ele analisava,
em detalhes, a postura de seus pacientes e seus hábitos físicos, a
fim de conscientizá-los de como reprimiam sentimentos vitais
em diferentes partes do corpo. Reich fazia os pacientes
intensificarem uma tensão particular a fim de se tornarem mais
conscientes dela e de eliciar a emoção que havia sido presa
naquela parte do corpo. Ele descobriu que só depois que a
emoção “engarrafada” fosse expressa, é que a tensão crônica
poderia ser abandonada por completo.” (FADIMAN e
FRAGNER, 1986, p.93)
Além de analisar de forma detalhada a postura dos seus pacientes e seus hábitos
físicos para que pudessem ser conscientizados da forma como reprimiam os sentimentos
vitais em diferentes partes do corpo, Reich descobriu que as tensões musculares
crônicas servem para bloquear uma das três excitações biológicas: a excitação sexual, a
ansiedade ou a raiva.
Como vimos, o desenvolvimento de um traço neurótico de caráter marcaria a
solução de uma questão que foi reprimida ou transformaria a repressão em uma
formação relativamente rígida e aceitável pelo ego. Faz-se importante salientar que
traços de caráter são conceitos, para Reich, diferentes dos sintomas neuróticos.
Enquanto esses últimos são experimentados como estranhos ao indivíduo (tais como
fobias ou medos), os traços de caráter são vividos como parte integrante da
personalidade. Assim, as defesas de caráter, além de particularmente efetivas, são
difíceis de serem erradicadas, por estarem bem racionalizadas pelo indivíduo e,
portanto, experimentadas como parte do seu autoconceito.
Voltando ao conceito da couraça muscular, precisamos salientar a sua
organização em sete básicos segmentos de armadura, compostos por músculos e órgãos
com funções expressivas relacionadas. Formando uma série de anéis mais ou menos
40
horizontais e em ângulo reto com a espinha e o torso, os principais segmentos da
couraça destacados por Fadiman e Fragner (1986), segundo Reich são:
• Olhos: Expressada pela imobilidade da testa e por uma expressão vazia dos
olhos, tal couraça é dissolvida, abrindo fortemente os olhos, imitando uma
expressão de espanto para que mobilize as pálpebras e a testa e, de tal forma,
encorajar a expressão emocional. Os olhos também devem movimentar
livremente, tanto em círculos como olhando de lado a lado.
• Boca: Inclui os músculos da garganta, parte de trás da cabeça e o queixo. O
maxilar pode ser demasiadamente preso ou frouxo de uma forma que não é
natural. A ideia de soltar tal couraça passa por encorajar o paciente a imitar o
choro, reproduzir sons que mobilizem os lábios e o morder.
• Pescoço: Inclui os músculos profundos do pescoço e a língua. Como essa
couraça é a responsável por segurar a raiva ou o choro, para soltar tal
seguimento seria preciso berrar, por exemplo.
• Tórax: Este segmento contém os músculos longos do tórax, os músculos dos
ombros e da omoplata, toda a caixa torácica, as mãos e os braços. Sua função é
inibir o riso, a raiva, o desejo e a tristeza. Como consequência, a respiração
também se torna bloqueada. Assim, além de trabalhar com a respiração, deve-se
trabalhar a utilização dos braços e das mãos para bater ou rasgar.
• Diafragma: Este segmento abarca o diafragma, o estômago, o plexo solar, os
vários órgãos internos e os músculos ao longo das vértebras torácicas baixas.
Sua função é inibir a raiva.
• Abdômen: Inclui os músculos abdominais longos e os músculos das costas,
relacionada com a inibição do rancor, capaz de produzir instabilidade.
41
• Pelve: Abarca todos os músculos da pelve e membros inferiores. Tal couraça
serve para impedir a raiva e o prazer, sendo impossível de experimentá-lo antes
de liberar a raiva contida dos músculos pélvicos.
Para Reich, o crescimento psicológico é um processo de dissolução da nossa
couraça psicológica e física, o que nos torna seres humanos mais livres e capazes de
orgasmos plenos e satisfatórios. Porém, citando Fadiman e Fragner (1986): “aprender a
equilibrar o autocontrole e a livre expressão permanece como parte de um contínuo
processo de crescimento.” (p. 104)
Da mesma forma, dentro da visão de tal linha, o terapeuta reichiano precisa ter
atingido um apreciável progresso em seu crescimento pessoal, visto que, para trabalhar
psicológica e fisicamente com um indivíduo, ele precisa ter ultrapassado os medos das
produções ativas de seu corpo, permitindo um livre movimento de energia corpórea.
Vale ressaltar, ainda, que de acordo com o que foi levantado por Fadiman e
Fragner (1986), a extensa pesquisa feita por Reich sobre energia orgônica e tópicos
relacionados, foi ignorada ou repudiada pela maioria dos cientistas e críticos. Visto que
o seu programa de orientação sexual é controverso ainda hoje, sabemos que suas ideias
foram bastante contestáveis para a sua época. Para termos uma base, por volta de 1933 e
42
1934, em um período de seis meses, Reich havia sido expulso de suas duas principais
filiações profissionais, políticas e sociais, além de três países diferentes.
A vida de Reich ocorre em paralelo a perseguições, entre outras, do FBI e FDA
(Food and Drug Administration9
). Esta última expediu uma imposição, impedindo a
distribuição das caixas de orgone, afirmando que as pretensões a respeito do resultado
divulgado por Reich eram de natureza fraudulenta. Reich recusou a interdição, sendo
acusado de desrespeito e condenado a dois anos de prisão, devido à ação movida pelo
órgão responsável pelo controle de medicamentos dos Estados Unidos.
Depois de preso, foi diagnosticado como paranóico, precisando ser transferido a
uma penitenciária com instalações para tratamento psiquiátrico. Suas obras foram
apreendidas e todas as cópias de seus livros e revistas nos EUA foram queimadas, antes
de seu julgamento, em praça pública.
Suas opiniões radicais a respeito da sexualidade resultaram em consideráveis
equívocos e distorções por outros autores, despertando ataques difamatórios e
infundados. Ainda que sua trajetória nos conte de obras proibidas de serem impressas
ou divulgadas e que seu trabalho não deixe de ter falhas experimentais, sua pesquisa
nunca foi recusada ou revista com cuidado por qualquer científico respeitável.
Reich acabou enlouquecendo na prisão, onde morreu, em 1957, de um ataque
cardíaco. Seu corpo recebeu sepultura simples, em seu local de trabalho e moradia.
9
Agência governamental americana que lida com o controle das indústrias alimentícias e de medicamentos.
Em 1931, apresentou um programa em um congresso, em Dusseldorf, com a seguinte
proposta: Kignel (2004)
• Distribuição livre de preservativos a todos que não pudessem obtê-los através de
caminhos normais e uma massiva propaganda pra o controle de natalidade;
• Abolição das leis contra o aborto. Providências para liberá-lo em clínicas públicas,
salvaguardas financeiras e medicas para mulheres grávidas e novas mães.
43
1.5 – J. Lacan e sua contribuição à psicanálise
“O sintoma é a inscrição do simbólico no real.”
• Abolição de qualquer distinção entre casados e não casados. Liberdade para o
divórcio; eliminação da prostituição através de mudanças econômicas e sexo-
econômicas para erradicar suas causas;
• Eliminação de doenças venéreas através de um abrangente programa de educação
sexual;
• Prevenção de neuroses e problemas sexuais por meio de educação afirmativa da
vida; estudo de princípios pedagógicos sexuais; estabelecimento de clínicas
terapêuticas.
• Treinamento de médicos, professores e trabalhadores sociais em todos aspectos
relevantes para higiene sexual.
• Tratamento em substituição à punição em casos de abuso ou crime sexual; proteção
das crianças e dos adolescentes contra sedução de adultos.
44
Suas ideias de fundo estruturalista abalaram o cenário psicanalítico da França a partir da
década de 60. Conhecido por não ser um autor de fácil leitura, uma vez que seus textos
apresentam grande complexidade conceitual, além de terem sido escritos em estilo elíptico,
seus conceitos demandam uma inversão do pensamento linear e racional, o qual a cultura
ocidental está acostumada. Suas percepções vão bem além dos muros do seu uso clínico,
constituindo-se em interlocutora de campos como a estética, a filosofia e a crítica literária.
Em 1901, nasceu, na França, Jacques Marie Émile Lacan (1901-1981),
psiquiatra e psicanalista francês, responsável por reformular a obra freudiana, dando-lhe
um caráter mais filosófico e tirando-lhe o substrato biológico. Primogênito de uma
próspera família de forte influência católica e burguesa de origem provinciana, sua
família paterna era de vinagreiros de Orléans e de sólida tradição católica.
Por conta desta tradição, Lacan estudou no Colégio Stanislas, uma célebre
instituição dirigida por jesuítas, onde adquiriu uma nobre formação que incluía estudos
de alemão, latim, grego, retórica, matemática e filosofia.
Mostrou uma impressionante atração pela psicanálise, em uma época em que as
ideias de Freud estavam ganhando espaço dentro do pensamento francês, ainda que os
preconceitos impedissem a sua disseminação no país. Além deste fato, seu interesse
desde cedo pela filosofia, o permitiu uma base intelectual que os psicanalistas do seu
tempo não possuíam.
Assim, Lacan teve
contato com a psicanálise através
do surrealismo, a partir de 1951.
Para ele, os pós-freudianos
haviam se desviado muito das
ideias de Freud. Sua visão era
retomá-la através da linguística
de Saussure e da antropologia
estrutural de Lévi-Strauss.
45
Estudou medicina, e, depois de formado, passou a atuar como neurologista e
psiquiatra. Por volta de 1932, já estava envolvido com a “Sociedade de Neurologia”, a
“Sociedade de Psiquiatria” e a “Sociedade de Saúde Mental”, estando completamente
integrado nos círculos de neurologia e psiquiatria. Na sua tese de medicina, escreveu e
publicou seu primeiro trabalho sob o título de: “A psicose paranóica e suas relações
com a personalidade”, momento inaugural da carreira deste médico psiquiatra,
praticamente desconsiderado pelo meio da época.
Para se ter uma ideia, no mesmo ano da sua publicação, em 1932, Lacan enviou
para Freud sua tese, recebendo como resposta apenas um cartão postal. Eles nunca
chegaram a se encontrar.
Em 1934, Lacan casa-se com a sua primeira mulher, Marie-Louise Blondin, filha
de um homem de destaque na medicina, com quem teve três filhos: Caroline (1937),
Thibault (1939) e Sybille (1940). No mesmo ano, se afiliou a “Société Psychanalytique
de Paris” (SPP), fundada oito anos antes.
Lacan era tido como um intelectual brilhante fora dos meios psicanalíticos
franceses, porém o abalava o fato de não ser reconhecido pela SPP, onde os seus
trabalhos não só não eram levados em conta, como o seu anticonformismo produzia
profunda irritação.
Assim, ele próprio se demitiu junto com Daniel Lagache, J. Favez-Boutonier e
F. Dolto, fundando, os quatro, a “Sociedade Francesa de Psicanálise”, que durou 30
anos. Com tal decomposição, surge uma nova Escola onde Lacan passou a fazer uma
seleção das demandas.
Em 1941, Lacan separa-se de Marie-Louise. E, no mesmo ano, nasce Judith
Sophie, filha de Lacan com sua 2ª mulher, Sylvia Bataille.
Autor polêmico e de importância singular, Lacan interrompe as sessões
conforme sua vontade, recebendo as pessoas sem ao menos marcar hora. Sua técnica foi
46
alvo de constantes contestações, inclusive da comissão de ensino, que exigiu que
regularizasse tal situação. A lógica de Lacan nos diz que se o inconsciente é atemporal,
não faz sentido insistir sobre sessões padronizadas.
Porém, conforme foi levantado por Goldenberg (2004), as sessões curtas não
podem ser confundidas com o embasamento teórico do tempo lógico. O uso lógico do
tempo é a tentativa de reduzir a duração da sessão, curta ou longa, ao tempo do
acontecimento discursivo, cujas consequências serão elaboradas pelo paciente fora do
consultório enquanto cuida da vida.
Outra forma de ver Lacan nos foi proposta por Oliveira (2004), que o divide em
três tempos. Inicialmente, uma visão do futuro, da família ocidental, somada à visão
social mais geral do mundo é um primeiro Lacan. Em seguida, e a partir de 1945, ocorre
o movimento estruturalista de Lacan, descoberto através da leitura de Lévi-Strauss,
onde se faz possível a elaboração de uma nova concepção do inconsciente e da
linguagem. Já o 3º Lacan está voltado à pesquisa matemática, onde tentou, através de
modelos lógicos, encontrar uma solução que pudesse responder a questão da
formalização do inconsciente e da loucura.
Há quem afirme que Lacan sofria de inibições de escrita, visto que o ensino de
sua teoria e a transmissão de seus conceitos e pesquisas ocorreram de forma
primordialmente oral, por meio de seminários e conferências, que constituíram o núcleo
de seu trabalho teórico, ainda que a maioria deles transcrita e posteriormente publicada.
Tal fato parece curioso, se pensarmos que sua vertente foi estudar a linguística e
a lógica para reconfigurar a teoria do inconsciente, em um trabalho não só teórico como
clínico. A linguagem se fez o centro de suas preocupações, visto que é a condição
principal de existência do inconsciente, que só existe no sujeito falante. De acordo com
Forbes (2004), para Lacan, palavras não são só palavras. Não há nada a ser buscado
além delas e sim nelas.
47
Segundo Battaglia (2004), Freud afirmou que o ser humano quando nasce é um
caos resultante de um corpo ainda fragmentado e descontínuo. Se, para Freud tal
unidade só pode ser apreendida a partir de um esquema mental, por sua vez, Lacan
afirma que esse esquema mental não é da ordem do natural, mas antecipado através de
um Outro antes mesmo da capacidade motora da criança de se expressar, permitindo
que haja a instalação das experiências subjetivas e cognitivas. Dizendo de outra forma,
o Outro traduz a sua leitura pessoal de mundo para a criança e, neste sentido, a
interpretação é obrigatória e repressiva, embora também imprescindível para que a
criança se estabeleça. Assim, passamos a entender quando Lacan afirma que o
conhecimento vem daquilo que é exterior ao conhecimento que o sujeito tem de si
mesmo.
“Parte de nós nos ultrapassa, visto que a linguagem
“nos fala” muito antes que falemos através dela. O sujeito
entendido pela psicanálise se faz como efeito da intervenção do
Outro e da incidência da Lei na relação do Outro com o ser. O
objetivo do trabalho analítico não é eliminar a divisão do
sujeito, mas permitir que ele não responda cegamente ao desejo
inconsciente – que é sempre desejo (de se fazer objeto) do
desejo de um Outro – com a finalidade de se tornar capaz de se
responsabilizar por sua condição desejante, a qual consiste,
justamente, na impossibilidade de satisfazer plenamente o
desejo e, portanto, na permanente tarefa de realizá-lo na
produção simbólica.” (KEHL, 2004, p. 49)
Assim, percebe-se que Lacan afirmava a importância do Eu frente ao inconsciente. De
acordo com Cesarotto (2004), os humanos só podem existir graças à fala. O registro do
simbólico tem, na linguagem, a expressão mais concentrada, regendo o sujeito do
inconsciente: “Ele é a causa e o efeito da cultura, onde a lei da palavra interdita o
incesto e nos torna completamente diferente dos animais” (p. 25)
48
Além disso, se antes Freud falava de relações bem estruturadas pela hierarquia,
para Lacan tais relações se davam de modo mais horizontal e, assim, as figuras de
autoridade perdem o lugar simbólico de poder e excelência. Bom exemplo disso é o
complexo de Édipo, uma estrutura que privilegia o eixo vertical das identificações, basta
ver o papel fundamental do pai em tal modelo. Porém, ao fazermos parte de uma era
globalizada, quando a horizontalidade é mais importante do que a verticalidade anterior,
Lacan propõe uma análise além das significações consagradas no ideal paterno e de seus
representantes. É a análise de um sujeito de uma nova era.
Outra importante releitura se faz entre a proposta do id, ego e superego de Freud.
Na teoria lacaniana, o aparelho psíquico é uma organização única formada pelo Real e
pelos registros do Imaginário e do Simbólico (RSI), que se representam em torno do
furo inicial do objeto a. De acordo com o que foi levantado por Kehl (2004), o Real nos
diz sobre aquilo que é irrepresentável, que tentamos permanentemente simbolizar. Já, de
acordo com Cesarotto (2004), por sua vez, o Real é referido pela negativa, isto é, seria
aquilo que, carecendo de sentido, não pode ser simbolizado, nem integrado
imaginariamente.
Voltamos a Kehl (2004), para buscar sua ideia sobre o Simbólico e acharmos
que ele é o registro em que o trabalho psíquico se faz através do significante. Podemos
dizer que o simbólico tem na linguagem a sua forma mais concreta, governando o
sujeito do inconsciente, assim, ele se faz como o responsável pelas transformações do
sujeito.
“Ao contrário do imaginário, onde se produz a
consistência e a fixidez das representações, no Simbólico a
arbitrariedade da relação entre o significante e o significado
permite uma mobilidade muito grande ao trabalho
representacional do psiquismo. Se no Imaginário nos parece
que as coisas “são o que são” – já que nada se parece mais
com a verdade de uma coisa do que sua imagem – no Simbólico,
o significante desliza, muda de sentido, desestabiliza a relação
49
do falante com a suposta verdade de sua fala.” (KEHL, 2004, p.
50)
Por último, o Imaginário é entendido, pela mesma autora, (2004), como o registro onde
as representações psíquicas se apoiam sobre as imagens, ganhando uma consistência
que parece ser a expressão da verdade.
Algum tempo se passou e Lacan mostrou que os três registros, essenciais da realidade
humana, não podem ser isolados por se apresentarem unidos de modo indissociável na
topologia do nó Borromeano, onde os elos estão dispostos de forma que, se cortarmos
um deles, todos se desligariam simultaneamente. Vale ressaltar que cada uma das três
categorias é autônoma e distinta das outras, ainda que todas estejam amarradas de
maneira interdependente.
Até o momento, Lacan acreditava que o desejo era a causa das formações do
inconsciente, porém ao colocar o gozo em tal lugar, opera-se uma mudança de vital
importância, visto que o gozo, ponto fundamental para Lacan, é entendido como uma
mistura de prazer e de insatisfação. Expressando a conjunção de Eros e Tanatos, é ele
que alimenta os sintomas, inibições ou as angústias, sem se completar visto que está
sempre extravasando.
50
Para Forbes (2004), enquanto Freud fez uma Sociedade de analistas, Lacan fez
uma Escola de psicanálise. O fato de não haver psicanálise sem psicanalistas, faz da sua
formação um problema crucial. Por sua vez, a formação lacaniana é complexa e bem
mais exigente do que a universitária, visto que não é padronizada, o que impede o
cumprimento de fórmulas prontas ou de tarefas pré-estabelecidas.
Precisamos dizer que Lacan foi o único intérprete a dar à obra de Freud uma
estrutura filosófica e a tirá-la do seu ancoramento biológico, sem que isso o fizesse cair
no espiritualismo. Pelo contrário, ele criou um sistema de pensamento que reconstruiu
inteiramente a doutrina e a clínica de Freud, com conceitos e técnica originais, podendo
ser considerado o seguidor que mais contribuiu e deu continuidade à sua obra. Suas
ideias ampliaram os terrenos da psicanálise, questionando mentalidades e
potencializando a ciência do inconsciente.
De acordo com Oliveira (2004), Lacan renovou não somente a teoria de Freud
como o conjunto de práticas e clínica psicanalítica. Independente das críticas, nós
precisamos dizer que ele ocupou um lugar fundamental ao dar vida nova à obra de
Freud. Por isso, visto que sua obra está totalmente integrada à história da psicanálise,
suas concepções são essenciais para os militantes da área clínica da psicanálise.
Na visão de Kehl (2004),
Lacan atraiu a psicanálise para a
arena dos grandes sistemas de
pensamento da segunda metade
do século XX, estendendo o seu
alcance ao fazê-la dialogar com a
linguística e o estruturalismo.
Por outro lado, os críticos
alegam que a obscuridade das
suas ideias protege quem fala ou
escreve do risco de ser
contestado. Lacan ocupa um
51
lugar único na história da psicanálise da segunda metade do século XX.
De acordo com Lacan, a psicanálise não é uma ciência, uma filosofia ou mesmo
uma visão particular de mundo. Ela é uma prática comandada pela elaboração da noção
do sujeito e esta noção, para Lacan, conduz o sujeito em sua dependência significante.
Nas palavras de Goldenberg (2004): “A sessão analítica é como uma encenação de
teatro, cujo diretor é o paciente, e na qual o psicanalista aceita o papel de ator
coadjuvante, com o intuito de apreender o roteiro que ambos seguem sem saber.” (p.
45)
Fazia parte do trabalho de Lacan seu especial cuidado para não interferir no
discurso do seu paciente. Assim, ele visava que o próprio, analisando, pudesse descobrir
as próprias questões, visto que o risco da interpretação engloba o analista passar os seus
significantes ao paciente.
“O que pode parecer aos olhos do leigo um excesso de
“frieza” manifestado pelo silêncio do analista é consequência
do objetivo de permitir que aquele que fala se aproprie
gradualmente do saber inconsciente que se insinua nas brechas,
nos lapsos, no sintoma e nos deslizes sem sentido de sua fala.”
(KEHL, 2004, p. 49)
Em 1967, Lacan propõe a criação do “passe”, dispositivo regulador da formação
do analista. Assim como o fim da análise pessoal, o passe é requisito vital para a
formação profissional. Ele se faz através de uma ordenação simbólica que implica em
um certo ritual ao constituir um valor específico perante a comunidade.
Em 1981, Lacan morre, em Paris, atingido por distúrbios cerebrais e por uma
afasia parcial, após uma extração de um tumor maligno do cólon. Porém, ainda depois
de sua morte, sua obra surpreende pela novidade. Ela não tem como ser ignorada, pois
seu efeito está longe de ser reduzido meramente aos consultórios psicanalíticos.
52
Lacan é um clássico que resiste ao tempo visto que não se encontra em nenhuma
interpretação classificatória: “Sempre há mais Lacan do que aquilo que se pode
apreender.” (FORBES, 2004, p. 12). E, como se não satisfizesse aquilo que já temos
publicado em seu nome, há também os Outros escritos, que possui 600 páginas
adicionadas às anteriores.
Pertencente à segunda geração da psicanálise francesa, Lacan foi o único
herdeiro de Freud a repensar todo o sistema criado pelo fundador da psicanálise10
. Ao
inseri-la no campo da linguagem, permitindo sobressair à função da fala, a psicanálise
foi, por ele, inovada nos anos 70. Lacan pode, assim, oferecer uma alternativa aos
termos freudianos, incluindo um novo vocabulário, empregando termos, como: sujeito
barrado, o Outro (assim mesmo, com letra maiúscula) e objeto “a” que enriqueceram as
formulações clínicas e que, infelizmente, saia do propósito, deste trabalho, detalhá-los
como cada um deles mereceria.
Seminários Jacques Lacan
1954
Seminário I: Os escritos técnicos de Freud
(Les écrits techniques de Freud)
1955
Seminário II: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (Le moi dans la
théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyse)
1956
Seminário III: As psicoses
(Le Séminaire III " Les Psychoses")
1957
Seminário IV: A relação de objeto
(Le Séminaire IV " La relation d'objet")
1958
Seminário V: As formações do inconsciente
(Le Séminaire V " Les formations de l'inconscient")
1959 Seminário VI: Le désir et son interpretation, não publicado.
1960
Seminário VII: A ética da psicanálise
(Le Séminaire VII " L'éthique de la psychanalyse")
1961
Seminário VIII: A transferência
(Le Séminaire VIII " Le transfert")
10
Por conta da complexidade de sua teoria, optamos por não aprofundá-la com o simples intuito de seguirmos o
nosso proposto inicial.
53
1962 Seminário IX: L'identification, não publicado.
1963
Seminário X: L'angoisse
(Le Séminaire X " L'angoisse")
1964
Seminário XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
(Le Séminaire XI, Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse)
1965 Seminário XII: Problèmes cruciaux pour la psychanalyse, não publicado.
1966 Seminário XIII: L'objet de la psychanalyse, não publicado.
1967 Seminário XIV: La logique du fantasme, não publicado.
1968 Seminário XV: L'acte psychanalytique, não publicado.
1969 Seminário XVI: D'un Autre à l'autre, não publicado.
1970
Seminário XVII: O avesso da psicanálise
(Le Séminaire XVII " L'envers de la psychanalyse")
1971
Seminário XVIII: D'un discours qui ne serait pas du semblant, não
publicado.
1972 Seminário XIX: ...ou pire, não publicado.
1973
Seminário XX: Mais, ainda
(Le Séminaire XX " Encore")
1974 Seminário XXI: Les non-dupes errent, não publicado.
1975 Seminário XXII: R.S.I, não publicado.
1976
Seminário XXIII: O sintoma
(Le Séminaire XXIII “Le sinthome”)
1977
Seminário XXIV: L'insu que sait de l'une bévue s'aile à mourre, não
publicado.
1978 Seminário XXV: Le moment de conclure, não publicado.
1979 Seminário XXVI: La topologie et le temps, não publicado.
1980 Seminário XXVII: La Dissolution, não publicado.
54
1.6 – A psicanálise no Brasil
Foi em 1873 que nasceu
Juliano Moreira, médico baiano que,
depois de se formar em psiquiatria
dinâmica na Europa, foi um dos
introdutores das ideias freudianas no
Brasil.
Já se contava o ano de 1900,
quando nasceu Durval Ballegardi
Marcondes que, com 20 anos, tomou
conhecimento das obras de Freud e
veio a se transformar, em 1927, junto com Francisco Franco da Rocha, um dos médicos
fundadores da “Sociedade Brasileira de Psicanálise” (SBP), em São Paulo, a primeira
sociedade freudiana da América Latina.
Além disso, em 1920, Francisco Franco da Rocha publicou no Brasil, um dos
primeiros livros com o objetivo de divulgar os achados freudianos: “O pan-sexualismo
na doutrina de Freud”.
Alguns anos se passaram quando, em 1936, Adelheid Lucy Koch veio ao Brasil.
Ela foi a primeira psicanalista didática, responsável por iniciar Durval Marcondes e
outros na psicanálise. Koch contribuiu para que a “Sociedade Brasileira de Psicanálise”
fosse reconhecida pela IPA.
A América do Sul, em destaque para Argentina e o Brasil, detém um lugar
notório na geopolítica do movimento psicanalítico. Só no Brasil, temos centenas de
instituições localizadas nos principais centros urbanos, que, com seu trabalho e esforço,
disseminam as ideias freudianas e instruem a população.
55
Segundo Massimi e Guedes (2004), há uma dúvida se a psicanálise entrou no
nosso país pela Bahia, pelas mãos do psiquiatra baiano Juliano Moreira, em meados dos
anos 20, ou se foi em São Paulo. De qualquer forma, vale dizer que a prática clínica dos
nossos médicos era uma prática autodidática e dirigida apenas pela leitura de livros
sobre psicanálise. Uma das fortes características de autodidatismo foi o fato de ser
espontânea, isto é, ao gosto de cada um, sem ter uma preocupação alarmante com as
recomendações técnicas de Freud em seus escritos.
Assim, os psicólogos foram dominando a clínica, exercendo a função de
terapeutas e até mesmo de supervisores. Apesar disso, sabemos que o processo foi
recheado de barreiras. Para se ter uma ideia, foi somente em 1962 que a profissão
passou a ser regulamentada, possibilitando a sua prática clínica.
Entendida, primeiramente, como uma técnica de persuasão, a psicanálise
convenceu os médicos ao ser aplicada e confirmada não só pelos seus pacientes como,
também, em sua própria experiência pessoal. Assim, ultrapassando as resistências da
nossa sociedade e dos seus estudiosos, ela foi tomando corpo e, hoje, podemos dizer que
se encontra integrada de modo definitivo no âmbito científico e sociocultural do
ocidente, revelando um poderoso instrumento, não só em relação ao desvendamento dos
mistérios da alma humana, como na avaliação dos dolorosos conflitos sociais da
atualidade.
56
Unidade 2 – Fundamentos da Psicanálise
Foram as tentativas de Freud de sistematizar a estrutura e o funcionamento do
psiquismo que permitiram a divisão do aparelho psíquico em inconsciente, pré-
consciente e consciente, ficando essa divisão conhecida como primeira tópica, também
levando o nome de topográfica, visto que se trata da sua primeira tentativa em descrever
como o psiquismo é formado. Este ensaio foi de grande utilidade, em um momento em
que sua teoria estava voltada para a compreensão das formações inconscientes e dos
recalques.
Um estudo iniciado por Freud que abriu o caminho para o desenvolvimento de
uma psicologia voltada para as relações do amor e para o entendimento de quadros
psicóticos, foi o estudo do narcisismo. Freud percebeu que todos os indivíduos passam
por algum tipo de narcisismo durante a infância, representando um modo particular de
relação com a sexualidade. É válido ressaltar que este conceito foi crucial para a
formação da teoria psicanalítica tal qual conhecemos hoje.
Assim, quando o foco da sua pesquisa voltou-se para o ego, a divisão do
aparelho psíquico conhecida até então, passou a ser insuficiente. Podemos dizer que,
enquanto a primeira tópica foi movida pela análise dos sonhos e da histeria, após 1920,
mais precisamente a partir do seu importante trabalho metapsicológico “Além do
princípio do prazer”, a segunda tópica surge como uma tentativa de elaborar uma
resposta aos problemas da psicose. Vale dizer que esta teoria não tinha a pretensão de
invalidar a 1ª tópica, mas aperfeiçoar a descrição do aparelho psíquico. É preciso ter
cuidado com os equívocos que possam surgir ao tentar relacionar as antigas instâncias
às novas.
Paralelo a isso, ele percebeu que algumas resistências funcionam como barreira
ao processo analítico. Assim, Freud nos falou sobre transferência e contratransferência,
conceitos centrais na psicanálise, visto que são formas típicas de projeção resultantes da
relação terapêutica. Podendo ser positiva (sentimentos de afeto e admiração) ou
57
negativa (sentimentos de resistência e agressividade), a transferência e a
contratransferência são vínculos que se estabelecem entre o paciente e o analista,
dependentes dos laços emocionais inconscientes que se manifestam nessas relações.
Freud estudou também sobre os mecanismos de defesa e descobriu algumas
forças mentais que se opõem umas às outras, batalhando entre si, com a finalidade de
solucionar conflitos não resolvidos ao nível da consciência.
Também revelou-nos que os sonhos são muito mais do que aquilo que poderia
ser imaginado desde então. A interpretação deles é a via real capaz de levar ao
conhecimento das atividades inconscientes da mente.
Freud também não deixou de se preocupar com a criação de um setting analítico
e da existência da alta em psicanálise, ainda que ele não parecia estar preocupado com a
duração do processo, visto que, em sua enorme maioria dos casos, era preciso anos de
dedicação ao processo de mergulhar no interior de si mesmo.
2.1 – Primeira tópica: consciente, pré-consciente e inconsciente
Em sua obra intitulada de
“A Interpretação dos Sonhos”
(1900), ao tentar explicar o
psiquismo humano, Freud criou
uma topografia do aparelho
psíquico, parte essencial de suas
teorias.
Este fato se deu ao perceber
que os sintomas histéricos, ainda
que não sejam lembrados, são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências
traumáticas ligadas à sexualidade infantil. Com isso em mente, o pai da psicanálise
58
apreendeu a existência de uma instância psíquica que não era consciente, mas onde
estariam guardadas todas as experiências de um indivíduo. E assim, ao propor a teoria
topográfica, Freud tentou explicar como ocorria o conflito intrapsíquico entre os desejos
sexuais e suas forças inibidoras.
Para tanto, Freud dividiu o aparelho psíquico em três sistemas: inconsciente, pré-
consciente e consciente, cada um deles com seu tipo de processo, investimento e
funções demarcadas. Ao consciente, denominado também de sistema percepção-
consciência, na maioria das vezes, caberia somente uma pequena parte responsável por
receber informações provenientes das excitações do exterior e do interior, que ficam
registradas qualitativamente de acordo com o prazer e/ou desprazer que elas
proporcionam.
Por sua vez, enquanto que no consciente encontramos as informações às quais o
indivíduo pode voltar a sua atenção em um determinado instante, no pré-consciente
localizamos as representações que podem se tornar conscientes, mas que, no momento,
não pertencem à consciência, apesar de serem, relativamente, de fácil acesso. Contudo,
ainda que o pré-consciente se encontre articulado com o consciente, este primeiro
funciona como uma barreira capaz de selecionar aquilo que pode ou não passar para
esfera do consciente.
Freud também percebeu que, para que algo se torne consciente, era necessário
que antes disso, tal elemento passasse pelo pré-consciente, através da associação e
resíduos verbais correspondentes.
Este assunto já foi levantado por Fadiman e Fragner (1986, p. 7, 8):
“Estritamente falando, o pré-consciente é uma parte do inconsciente, mas uma parte
que pode se tornar consciente com facilidade. As porções da memória que são
acessíveis fazem parte do pré-consciente.”
Já o inconsciente é a parte mais arcaica do aparelho psíquico, lugar onde nos
deparamos com elementos instintivos não acessíveis à consciência. Lá encontramos as
59
representações que já foram conscientes, mas que foram expulsas por causarem grande
sofrimento, com a ajuda da repressão ou mesmo da censura. Apesar disso, dotado por
uma grandiosa fonte de energia, seus conteúdos funcionam como invasores,
perturbando a mente ao despejar seus derivados na consciência.
Vale levantar que, nesta instância, encontramos todas as informações às quais o
indivíduo teve acesso durante a sua vida, ainda aquelas que ele não tenha dado
importância. Isso porque, no inconsciente, nenhuma informação é perdida, todas ficam
guardadas em seus traços mnêmicos sem poderem ser apagadas.
Com isso, precisamos dizer que não há confissões a se fazer do inconsciente.
Como não pode ser abordado diretamente, não se pode ser racional nesta instância. Em
outras palavras: podemos conhecê-lo através de atos falhos, sonhos11
, chistes e
sintomas, expressos através do nosso próprio corpo.
“A premissa inicial de Freud era de que há conexões
entre todos os eventos mentais. Quando um pensamento ou
sentimento parece não estar relacionado aos pensamentos e
sentimentos que o precedem, as conexões estão no inconsciente.
11
Para Freud, a interpretação dos sonhos é uma maneira simples, porém, sólida, que se tem de conhecer o
inconsciente.
60
Uma vez que estes elos inconscientes são descobertos, a
aparente descontinuidade está resolvida.” (FADIMAN e
FRAGNER, 1986, p. 7)
Voltando um pouco às ideias apresentadas até aqui, este modelo do aparelho
psíquico também é demarcado por seus aspectos dinâmico e econômico. O primeiro nos
fala sobre o movimento de informações entre as instâncias mencionadas, por exemplo, o
material do pré-consciente pode ir à consciência sem grande esforço. Por sua vez, o
aspecto econômico refere-se à sua oposição de funcionamento baseado no princípio do
prazer-desprazer. Enquanto o inconsciente quer descarregar a sua tensão com a
finalidade de obter o prazer, o pré-consciente esforça-se para proibir que tal descarga
aconteça, já que esta produziria uma sensação oposta no consciente, isto é, de desprazer.
2.2 – Narcisismo
De acordo com Laplanche e Pontalis
(1996), o termo narcisismo aparece pela
primeira vez em Freud em 1910, como uma
tentativa de explicar a escolha de objeto nos
homossexuais. Freud acreditava que a
homossexualidade se dava quando o
indivíduo tomava a si próprio como eleição
sexual.
Porém, foi somente em sua obra
escrita em 1914, “Introdução do Conceito de
Narcisismo”, que Freud registrou, em parte como resposta a Jung, a sua teoria do
narcisismo12
, colocando as pulsões do Eu, também chamadas de autoconservação, entre
as pulsões sexuais. Assim, fica claro que, para ele, neste momento, o objeto sexual da
12
Palavra derivada da Mitologia Grega refere-se ao mito de Narciso que ao ver a sua própria imagem na água, se
apaixona perdidamente por si próprio e acaba por morrer afogado.
61
pulsão do Eu é o próprio eu. Neste estudo, Freud dividiu o narcisismo em duas fases: o
narcisismo primário e o narcisismo secundário.
• O narcisismo primário se localiza no momento em que temos apenas dois
objetos sexuais: nós e a nossa mãe. Assim, podemos caracterizá-lo como uma
fase autoerótica, visto que as pulsões buscam cada qual por si, de forma
independente pela satisfação no próprio corpo. Neste período, ainda não temos
presente uma unidade do Ego nem uma diferenciação real do mundo externo.
• Já o narcisismo secundário se dá em dois momentos: o primeiro é o de
investimento objetal e o segundo é o retorno deste investimento para o ego.
Ocorre quando a criança, por conseguir diferenciar seu corpo do mundo externo,
se torna capaz de identificar suas necessidades e eleger objetos para satisfazê-
las, que em geral se dirigem para a mãe, assim como para o seio como objeto
parcial.
De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), o narcisismo primário designa um
estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. É quando a
criança toma a si como objeto de amor, momento este que ocorre antes de escolher
objetos exteriores. Já o narcisismo secundário nos fala sobre um retorno ao ego da
libido e da retirada dos seus investimentos objetais, definindo-se como o investimento
da imagem do eu, sendo tal imagem constituída pelas identificações do eu com as
imagens dos objetos.
Ainda que os mesmos autores (1996) nos avisem que “estes termos têm na
literatura psicanalítica e, mesmo apenas, na obra de Freud, acepções muito diversas,
que nos impedem de apresentar uma definição unívoca mais exata do que aquela que
propomos” (p.290), tentaremos resumi-los aqui de forma breve.
Antes de nascer, encontramos sob a criança uma alta cota de expectativas.
Nascemos imersos em fantasias de nossos pais, em um retorno ao próprio narcisismo
62
deles, transformado em amor objetal. Por isso, aqui, podemos entender que a criança é
capaz de completar a falta da mãe e de ser o seu único objeto de amor.
Porém, chega o dia em que a criança descobre que não é tão perfeita como a
fizeram acreditar. Com isso, ela vai tentar buscar pelo o Ideal do Eu13
, motivo este que a
acompanhará para o resto da vida e que permitirá que ela incorpore, através do
mecanismo da identificação, características dos objetos de amor perdido.
“Com o tempo, a criança vai percebendo que ela não é o
único desejo da mãe, que ela não é tudo para ela; sua
majestade, o bebê começa a ser destronado. Essa é a ferida
infligida no narcisismo primário da criança. A partir daí, o
objetivo consistirá em fazer-se amar pelo outro, em agradá-lo
para reconquistar o seu amor; mas isso só pode ser feito através
da satisfação de certas exigências; a do ideal do seu eu.”
(Nasio, 1988, p. 59)
Em 1914, escrevendo “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud nos fala da
esfera narcísica do amor parental, onde buscamos, através dos filhos, nossa infância e
sonhos perdidos. Revivemos o nosso passado na figura da criança, e, assim, ao mesmo
tempo em que é fundamental o investimento parental para que a criança se desenvolva,
por outro, aquele que desconsidere a singularidade infantil pode gerar um grande
desconforto emocional.
O narcisismo em excesso é caracterizado como um estado patológico chamado
de transtorno de personalidade narcisista, onde o indivíduo se julga grandioso, ainda
que possua uma necessidade de admiração e aprovação em excesso.
13
De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), apesar de na obra “o ego e o id”, tal termo ter sido apresentado como
sinônimo do superego, em outros textos ele passou a ser atribuído a uma instância diferenciada. Os mesmos autores o
consideram como uma “instância da personalidade resultante da convergência do narcisismo (idealizações do ego) e
das identificações com os pais, com os seus substitutos e com os ideais coletivos. Enquanto instância diferenciada, o
ideal do ego constitui um modelo ao que o sujeito procura conformar-se.” (p. 222)
63
“Esses tipos de condição abrangem padrões de
comportamento profundamente arraigados e permanentes,
manifestando-se como respostas inflexíveis a uma ampla série
de situações pessoais e sociais. Eles representam desvios
extremos ou significativos do modo como o indivíduo médio, em
uma dada cultura, percebe, pensa, sente e, particularmente, se
relaciona com os outros. Tais padrões de comportamento
tendem a ser estáveis e a abranger múltiplos domínios de
comportamento e funcionamento psicológico. Eles estão
frequentemente, mas não sempre, associados a graus variados
de angústia subjetiva e a problemas no funcionamento e
desempenho sociais.” (CID 10, 1993, p. 196)
Estamos falando de indivíduos que apresentam uma necessidade excessiva de
serem amados e/ou admirados. São pessoas que estão constantemente buscando por
elogios e que se sentem inferiores ao serem criticados. Assim, possuem pouca
habilidade de perceber o outro, o que os levam a uma vida emocional superficial, o que
reflete diretamente na relação terapêutica.
O narcisismo não constitui, por si só, em uma patologia. Ele é um integrador e
protetor da personalidade e do psiquismo. Ele permite que criemos uma imagem
unificada e inteira de nós mesmos e, assim, que ultrapassemos o autoerotismo capaz de
fornecer a integração de uma figura positiva e diferenciada do outro.
64
2.3 – Segunda tópica: id, ego e superego
Freud elaborou uma segunda
tópica sobre o aparelho psíquico,
onde dividia a mente em três sistemas
com funções específicas, interligadas
entre si e que ocupam certo lugar na
mente: id, ego e superego. Tais
instâncias psíquicas, funcionando de
modo integrado, estruturariam a
personalidade do indivíduo e
originariam alguns conflitos.
“As observações de Freud a respeito de seus pacientes
revelaram uma série interminável de conflitos e acordos
psíquicos. A um instinto opunha-se outro; proibições sociais
bloqueavam pulsões biológicas e os modos de enfrentar
situações que, frequentemente, chocavam-se uns com os outros.
Ele tentou ordenar este caos, aparentemente, propondo três
componentes básicos estruturais da psique: o id, o ego e o
superego.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 10)
Assim, seguindo a demonstração de que o comportamento humano era
dependente de variáveis (biológicas, nomeada de id; psicológicas, nomeada de ego;
sociológicas, nomeada de superego) Freud percebeu que, ao nascer, o indivíduo é
praticamente reduzido ao id, isto é, a satisfação das necessidades instintivas. A busca
pelo prazer e a evitação dos estados de tensão e dor são a máxima representativa desta
fase. Contudo, na interação com o meio e a entrada em contato com a cultura, vão se
formando códigos de valores e imprimindo padrões de comportamento desejáveis pela
sociedade. Desta maneira, forma-se o superego. Por sua vez, entre o id e o superego,
encontra-se o ego, grande fator de equilíbrio e de mediação entre os instintos e a cultura.
65
“Enquanto o Id visa o prazer e o Superego, as
exigências da sociedade, o Ego é lógico, realista, moderador,
consciente. Controlando as forças irracionais e inconscientes
do Id, ele as compatibiliza com as exigências do Superego,
buscando naturalmente o prazer e a adequação ao grupo
social.” (CAVALCANTI e CAVALCANTI, 2006, p. 10)
Também, em alguns textos chamados de “Isso”, o id é a instância composta
pelas pulsões inatas e por conteúdos como, por exemplo, os desejos recalcados. Grande
depósito das pulsões, que visam a procura do prazer e uma satisfação imediata, não é
regido por qualquer preocupação lógica. Sua atividade é inconsciente e sem juízo de
valores. Podemos dizer que sua estrutura formada pelos representantes mentais dos
impulsos instintuais, se faz em fonte eficaz de energia mental para todo ao aparelho
psíquico. Assim, no id encontramos os desejos que nos exigem gratificação e que leva o
ego a agir. Além disso, ainda podemos dizer que tal instância é uma estrutura de
personalidade original e básica, sujeita às exigências somáticas do corpo como aos
efeitos do ego e do superego.
De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), do ponto de vista “econômico”, o
id é, para Freud, a fonte e o depósito de toda a energia psíquica do indivíduo; e do ponto
de vista “dinâmico” é quem se relaciona com as funções do ego e com os objetos, tanto
os da realidade exterior como aqueles que, introjetados, residem no superego. Do ponto
de vista “funcional”, o id é dirigido pelo princípio do prazer, isto é, busca a satisfação
direta e imediata a um estímulo instintivo, sem considerar as circunstâncias da
realidade.
Do ponto de vista “topográfico”, o inconsciente, como instância psíquica,
virtualmente coincide com o id, a única instância considerada totalmente inconsciente.
Na verdade, podemos dizer que os conteúdos do id são mais do que inconscientes, mas
hereditários e inatos, além de adquiridos e recalcados. Contudo, é interessante que
ressaltemos que, na segunda tópica, o inconsciente passa a ser uma característica
atribuída às instâncias psíquicas.
66
Por sua vez, a parte que se relaciona com o meio ambiente, funcionando como
mediador das pulsões do id, as exigências do superego e as demandas do exterior, o ego
tenta negociar com as restrições do superego, se adaptando à realidade que o cerca.
Entretanto, ele é a instância responsável pelo despejo das excitações, pelo recalque e
pela censura onírica, além da motilidade motora.
Segundo Fadiman e Fragner (1986), o ego é a parte do aparelho psíquico que
está em contato com a realidade externa e que se desenvolve a partir do id, à medida que
o bebê se torna ciente de sua própria identidade, para atender e aplacar as frequentes
exigências desta última.
Com a difícil missão de servir ao mundo externo, ao id e ao superego, o ego
tenta subjulgar o princípio do prazer ao princípio de realidade, aceitando somente aquilo
que é viável ao mundo externo, sem que provoque mal-estar, o que, por vezes, faz com
que seja necessário que abra mão da satisfação dos desejos do id. É o ego que decide se
as exigências das pulsões devem ser satisfeitas ou não, adiando a satisfação para
ocasiões mais propícias ou reprimindo de forma integral ou parcial as excitações
pulsionais.
“Assim, o ego é originalmente criado pelo id na
tentativa de enfrentar a necessidade de reduzir a tensão e
aumentar o prazer. Contudo, para fazer isto, o ego, por sua vez,
tem de controlar ou regular os impulsos do id de modo que o
indivíduo possa buscar soluções menos imediatas e mais
realistas.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 11)
Freud percebeu, a partir da escuta das suas pacientes histéricas, que a resistência,
que surge em suas associações, não são formações conscientes. Concluiu, então, que a
parte do ego responsável pela resistência seria uma parte inconsciente, responsável
pelos mecanismos de defesa, entre eles, o recalque e resistência.
67
Assim, Freud precisou mudar a concepção de que o ego era totalmente situado
no consciente ou no pré-consciente e desconsiderar a visão de que o conflito psíquico
ocorreria entre o ego consciente, que não quer admitir certos tipos de pensamentos, e a
soma inconsciente desses pensamentos recalcados. Freud passou a ver o ego como uma
parte do id, que, por influência do mundo externo, sofreu uma diferenciação.
Explicando de outra forma: podemos perceber que, se existe algo que demonstre
que determinados pensamentos estão inconscientes, isto é, recalcados, é a dificuldade
que encontramos no paciente de se lembrar ou mesmo de falar sobre o assunto. Dessa
forma, tal fato significa que o ego bloqueia o acesso de tais representações mentais
recalcadas e se o paciente não tem consciência desta resistência, ela não pode ser
considerada um fenômeno consciente, ainda que seja uma função do ego. Por isso, o
conflito psíquico não pode estar fundamentado em uma oposição entre ego e
inconsciente, o que não quer dizer que o ego não seja um dos polos do conflito psíquico.
Entretanto, Freud, além de concluir que o ego não é totalmente consciente,
afirmou, como consequência, que a maior parte do aparelho psíquico é inconsciente,
lugar este onde encontramos os principais determinantes da personalidade, as fontes de
energia psíquica e os instintos. Também é esta porção, inconsciente, responsável pela
produção de angústias, fenômenos de identificação e mecanismos de defesa, que
estrutura o sentimento de identidade e autoestima do indivíduo.
Ao grupo de funções psíquicas ligado às idealizações, às exigências e às
proibições, dá-se o nome de superego: zona do psiquismo que corresponde à
interiorização das normas, dos valores sociais e morais. Sua origem encontra-se na
identificação com as figuras parentais, principalmente com seus aspectos éticos e
morais, capazes de formar a nossa personalidade moral e social. Por isso, o superego
passou a ser conhecido como um grande ditador que julga e critica, devido ao processo
de interiorização. Assim, esta instância é quem censura os impulsos que a sociedade
proíbe ao id, impedindo, desta forma, a plena satisfação dos instintos e desejos.
68
“O Superego de uma criança é, com efeito, construído
segundo o modelo não de seus pais, mas do Superego de seus
pais; os conteúdos que ele encerra são os mesmos e se torna
veículo da tradição e de todos os duradouros julgamentos de
valores que, dessa forma, se transmitiram de geração em
geração.” (FREUD, 1933, livro 28, p.87. Ed. Bras.)
Se inicialmente o superego é demonstrado pela autoridade parental, somente
quando a criança renuncia à satisfação edipiana é que as proibições externas são
internalizadas e o superego é formado.
Segundo Fadiman e Fragner (1986), Freud descreveu as funções do superego em
três formas:
• Consciência: age para restringir, proibir ou julgar as atividades conscientes ou
inconscientemente como forma de compulsão ou proibição, e que faz o sujeito
comportar-se, dominado por um sentimento de culpa do qual ele não sabe de
nada;
• Auto-observação: desenvolvida pela capacidade do superego de avaliar
atividades independentemente das pulsões do id e do ego;
• Formação de ideias: ligada ao desenvolvimento do próprio superego.
A meta fundamental da psique é manter – ou recuperar, quando perdido – um
nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximiza o prazer e minimiza o desprazer. A
energia que é usada para acionar o sistema nasce no id, que, conforme falamos, é de
natureza primitiva e instintiva. É nossa missão, como terapeutas, o fortalecimento do
ego, tornando-o, à medida do possível, independente do superego, ao possibilitar a
ampliação do seu campo de percepção e da expansão de sua organização, de forma que
possa assenhorar-se de novas partes do id.
69
Podemos perceber que a segunda tópica atrai uma vantagem extraordinária em
relação à primeira. A teoria estrutural autoriza uma abordagem dinâmica do psiquismo,
nos fazendo entender os mecanismos do nosso desenvolvimento, sem que estejamos
forçados a um único princípio regido unicamente pelos desejos sexuais. Esta nova
compreensão permite a utilização de justificativas além do recalcamento e nos autoriza
escolhas baseadas nos interesses do eu, e, sobretudo, permite a visão de um
comportamento patológico de origem em traumas.
2.4 – Resistências
Chegar tarde aos atendimentos ou
esquecer a hora da consulta, estes e outros
comportamentos, Freud, já em 1892,
chamava de resistência, separando-as em
conscientes e inconscientes. A primeira nos
fala sobre o desejo de causar uma boa
impressão ou mesmo sobre o medo de ser
rejeitado. A segunda, mais significativa e de
difícil resolução, é causada pelas mesmas
forças que produzem o recalque.
De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), o conceito de resistência,
introduzido ainda cedo por Freud, nos fala de todos os mecanismos que impedem o
acesso ao inconsciente. Assim, “chama-se de resistência a tudo o que, nos atos e
palavras do analisando, durante o tratamento psicanalítico, se opõe ao acesso deste ao
seu inconsciente.” (p. 458)
A resistência, em resumo, nos fala de uma força conservadora que se esforça
para manter um status quo (estado atual). Por conta disso, ela é vista como condição
inerente ao tratamento psicanalítico.
70
Transferência e contratransferência
Transferência é um conceito utilizado pela primeira vez em 1895, quando Freud
percebeu que em qualquer tratamento analítico se estabelecia, sem que houvesse um
controle médico, uma intensa relação sentimental do paciente para com o analista.
Inexplicável por nenhuma circunstância real, este termo demonstrava um obstáculo à
análise, sendo entendido, primeiramente, como uma forma de resistência ao processo
analítico.
Santos (1994) nos lembra que, ainda que o analista não saiba de início para onde
está sendo levado na série psíquica do seu paciente, ele sabe que é preciso ser incluído
em um determinado arranjo, para que seja possível colocar as exigências do paciente em
movimento e vinculá-las às reivindicações e às metas próprias ao tratamento analítico.
Apesar disso, o paciente, passa a se interessar por eventos relacionados à figura do
terapeuta, impondo a isso, por vezes, maior importância do que é a demonstrada em
próprias questões, neste momento, estamos diante de uma relação transferencial, onde o
paciente parece desviar sua atenção de suas próprias questões.
O mesmo autor (1994) ainda salienta que, via de regra, no início do tratamento,
temos um vínculo sustentado pela supervalorização das qualidades do terapeuta. É a
transferência positiva que facilita o processo analítico, tornando o paciente mais
suscetível à influência do analista ao alimentar por tal figura, sentimentos como
admiração e empatia, capazes de baixar as resistências que por ventura existam. Porém,
dificuldades no tratamento, tornam o paciente resistente e caso a situação não seja
esclarecida, o processo analítico pode entrar em risco.
Percebemos então que esta relação, que pode ser positiva ou negativa (embora
quase sempre com o predomínio de uma delas), constitui o verdadeiro motor do
trabalho analítico. É ainda Santos (1994) que voltando a Freud, nos lembra que, para
ele, a transferência negativa é a mais ameaçadora, pois, este tipo de vinculação reflete,
de forma direta, a resistência ao trabalho analítico. A diferença da transferência positiva
à negativa reflete o deslocamento de impulsos agressivos em vez de libidinais. Vale
71
dizer que os sentimentos afetuosos se escondem atrás da hostilidade, visto que, tanto
quanto os sentimentos afetuosos, os hostis sugerem a presença de um vínculo afetivo,
ainda que com um sinal de menos. De qualquer forma, esses sentimentos, precisam ser
considerados como sendo transferenciais, uma vez que também não podem ser
creditados à situação analítica.
Ressaltemos que é a situação e não o analista que é a fonte do sentimento por
parte do seu paciente. “Assim, de acordo com Freud, a transferência não diz respeito ao
tratamento, mas ao processo de neurose, visto que a necessidade de amor, não podendo
ser satisfeita plenamente na realidade, faz com que futuras aproximações sejam feitas
visando à busca de amor e aprovação.” (BARTOLOMEI, 2008)
O conceito da neurose de transferência, postulado por Freud, nos conta como
que os relacionamentos prévios, componentes da própria neurose, influenciam os
sentimentos do paciente em relação ao terapeuta. O que acontece é que o paciente repete
o material reprimido como uma vivência atual devido à compulsão e à repetição, não
entendendo esse fato como algo do seu passado. Repetindo Isolan (2005), Freud
argumentou que, ainda sem recordar, o paciente é capaz de expressar o fato pela
atuação, reproduzindo não como uma lembrança, mas como uma ação repetitiva e
inconsciente.
De acordo com Santos (1994), a doença do paciente converge para o ponto da
relação com o analista e este passa a ocupar um lugar dentro das séries psíquicas do
paciente. Por isso, ele afirma que não se trata mais da neurose anterior do paciente, que
serviu de matéria prima, mas de uma neurose recente, criada na e pela situação analítica,
e que assumiu o lugar da antiga doença.
Acontece que, nesta nova edição, o analista desempenha papel fundamental, já
que se encontra no centro da situação, mesmo que esse seja um ponto não desejado e
não provocado intencionalmente. Dessa forma, podemos perceber que a relação com o
analista compõe-se, assim, de suma importância, por ter se convertido em alvo maciço
dos investimentos libidinais do paciente. Por sua vez, segundo Sterba (1929), ao analista
72
cabe uma difícil condição por se transformar no destinatário, ou seja, no objeto da
reprodução emocional que o paciente cria, justamente para impedir as lembranças.
De acordo com Freud (1912), o impasse desta relação, originada com a
transferência, demarcava impasses na terapia, de modo que a sua solução era o ponto
chave para o sucesso terapêutico. Percebemos, agora, uma mudança no seu pensamento:
se antes a transferência servia exclusivamente à resistência e funcionava somente como
uma ameaça à continuidade do tratamento, Freud passa a vê-la como sendo o melhor
instrumento terapêutico. Assim, o paradoxo da transferência é que, ela, ao mesmo
tempo em que é condição para que o tratamento ocorra, também é a maior defesa que se
pode perceber no tratamento.
Apesar de, não raras vezes, trazer dificuldades no seu manejo, trata-se de uma
manifestação que, se adequadamente percebida e trabalhada, pode se transformar em
uma ferramenta útil para o processo terapêutico. Assim, seu aproveitamento e manejo
constituem, de todos os modos, a parte mais importante da técnica analítica.
Por sua vez, a contratransferência é o resultado da ação do paciente sob os
sentimentos inconscientes do terapeuta. Dito de outra forma, enquanto transferência são
as projeções emocionais do paciente dirigidas à figura do analista, a contratransferência
nos conta das sensações e dos sentimentos que surgem no terapeuta, como resposta às
manifestações do paciente e o efeito que tais percepções provocam no profissional.
Ainda nas palavras de Laplanche e Pontalis (1996), contratransferência é o conjunto das
reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à
transferência deste.
Por muitas vezes, os sentimentos despertados pelo terapeuta, durante a análise
do seu paciente, são consequências da sua experiência clínica e da sua própria análise.
Contudo, fica claro perceber também a necessidade da contratransferência ser superada
para que o analista possa trabalhar em condições adequadas. Segundo Laplanche e
Pontalis (1996) é de vital importância que se reduza o máximo possível as
manifestações contratransferênciais conquistada através da análise pessoal. Desta
73
maneira, a situação analítica pode ser estruturada como uma superfície projetiva, apenas
pela transferência do paciente.
Por sua vez, Freud, ainda que tenha declarado a sua existência e a necessidade
de ser controlada, não nos deixou nenhum estudo sobre a contratransferência. Apesar
disso, podemos dizer que ela é uma reação inevitável, causada no analista. Porém,
quanto mais analisado for o terapeuta, menos sucumbirá aos seus efeitos.
“São raras as passagens que Freud alude àquilo que
chamou de contratransferência. Porém, ele percebeu tal termo
como o resultado da influencia do doente sobre os sentimentos
inconscientes do médico. Porém, os mesmos autores destacaram
que, do ponto de vista da delimitação do conceito, inúmeras
variações são encontradas, visto que certos autores percebem
por contratransferência tudo aquilo que é da personalidade do
analista e pode interferir no tratamento. Enquanto isso, outros,
por sua vez, limitam a contratransferência aos processos
inconscientes que a transferência do analisando provoca no
analista” (LAPLANCHE e PONTALIS, 1996, p.102)
Mecanismos de defesa
Quando certos eventos ou pensamentos são conflitantes com as ideias do
consciente, entram em ação os mecanismos de defesa do ego. Eles têm a função de
auxiliar o indivíduo a se resguardar da ansiedade provocada por algum conflito,
impedindo que componentes dos conteúdos mentais
indesejáveis cheguem à consciência de forma
disfarçada.
Tais processos psíquicos inconscientes têm a
função de suavizar o ego do estado de tensão
psíquica oriunda do id, do superego e das pressões
74
que surgem da realidade externa. Vale dizer que essa é uma tentativa inconsciente do
ego de se adaptar e amortecer o impacto dos desejos inaceitáveis, para que possam ser
expressos de forma melhor aceita.
De acordo com Laplanche e Pontalis (1996): “Mecanismos de defesa são
diferentes tipos de operações em que a defesa pode ser especificada. Os mecanismos
predominantes diferem segundo o tipo de afecção considerando, a etapa genética, o
grau de elaboração do conflito defensivo etc.” (p. 277)
Podemos destacar diversos deles, uns mais eficientes do que outros e cada um
com uma forma específica de funcionamento. Existem vários tipos conhecidos e
explicados, mas os principais mecanismos de defesa que serão descritos aqui são:
negação, projeção, fixação, racionalização, sublimação, deslocamento, repressão,
formação reativa, recalque e introjecão.
A negação é um mecanismo pouco eficiente, que pode ser traduzido pela recusa
consciente em compreender fatos perturbadores, isto é, uma tentativa de não aceitar
como real um fato que perturba o ego, ocorrendo, assim, o bloqueio do reconhecimento
de uma verdade incontestável. Acontece que, ao negar as sensações de desprazer, o
indivíduo perde, não só a percepção necessária, como a capacidade de sobrevivência
adequada. Para Laplanche e Pontalis (1996), a negação é o processo onde, ao formular
os desejos, pensamentos ou sentimentos até então recalcado, o sujeito defende-se dele,
negando que lhe pertença.
Por sua vez, a projeção ocorre quando os aspectos da personalidade de um
indivíduo são deslocados para o meio externo. Com isso, sentimentos indesejáveis ou
impulsos próprios inaceitáveis são dirigidos a outras pessoas, atribuindo a eles um
desejo falso. Vale dizer que os conteúdos são desconhecidos pela pessoa que projeta,
justamente pelo fato de terem sido negados como uma forma de evitar o confronto com
tal conteúdo. Para Laplanche e Pontalis (1996), estamos de frente com tal mecanismo de
defesa quando o indivíduo expulsa de si e localiza no outro, seja uma pessoa ou uma
coisa, qualidades e sentimentos que desconhece como sendo seus.
75
A fixação é uma atividade defensiva regressiva, que consiste na cessação do
desdobramento psicossexual em determinado ponto do processo de desenvolvimento da
personalidade em uma etapa, sem que a independência seja completa ou madura. Esse
mecanismo de defesa mostra-nos que o indivíduo não podendo se satisfazer
normalmente, no tempo certo, suas necessidades, permanece então procurando por essa
satisfação.
Como a racionalização é a substituição de algo assustador por uma explicação
razoável e segura, podemos dizer que esse mecanismo nos conta sobre um processo de
achar motivos aceitáveis para pensamentos ou ações que são inaceitáveis, ao fazer com
que o sujeito apresente uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável
do ponto de vista moral. Podemos dizer que racionalizamos para justificar
comportamentos, quando nossas razões não são recomendáveis. De acordo com
Fadiman e Fragner (1986), a racionalização é um modo de aceitar a pressão do
superego, disfarçando os motivos e tornando nossas ações moralmente aceitáveis.
A sublimação ocorre quando parte da energia dos impulsos sexuais é direcionada
para a execução de tarefas socialmente aceitáveis. Porém, para ser caracterizado como
sublimação, o desvio e a descarga precisam nos contar sobre a substituição de um
impulso inoportuno para uma atividade socialmente aceita que não deve causar
ressentimento ou sofrimento. Para Freud, encontramos exemplos de sublimação em
algumas carreiras como a de lutador, de cirurgião ou de artista, por exemplo.
O deslocamento é um mecanismo de defesa que está ligado a uma troca, onde a
representação muda de lugar, passando a ser reproduzida por outra, ou seja, ele ocorre
quando um sentimento ou impulso é transferido de uma parte para um todo e vice-versa.
De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), “o deslocamento ocorre quando a
importância, o interesse ou a intensidade de uma representação é suscetível de se
destacar dela, passando para outras representações originariamente pouco intensas e
ligadas à primeira por uma cadeia associativa. O livre deslocamento desta energia é
uma das principais características do modo como o processo primário rege o
funcionamento do sistema inconsciente.” (p.116)
76
A repressão ocorre quando existe a retirada de ideias, afetos ou desejos da
consciência, vistos, como perturbadores, inoportunos ou desagradáveis. Esse
mecanismo, de acordo com Barros (2004), tem como objetivo proteger o ego da
ansiedade excessiva que é produzida pelo contato com a experiência que não pode ser
assimilada.
Porém, o afastamento da consciência da fonte ansiogênica acaba por impedir
qualquer solução possível, visto que, ao eliminar os conteúdos mentais da consciência,
acabam por interferir no acesso à realidade, ou seja, não significa sua aniquilação, pois,
ao ser impedido de se revelar claramente, ele vai procurar por outras formas de
manifestação em atos substitutivos, produzindo efeitos diversos.
De acordo com Freud, este fenômeno se dá pela existência no psiquismo de uma
instância chamada de censura, cujo papel é o de classificar o que pode e o que não pode
permanecer na consciência. Ela também determina a que nível o evento deverá ser
reprimido. De forma geral, quanto maior o nível da ansiedade gerado, mais profundo o
evento será guardado.
A formação reativa é uma forma de substituir comportamentos e sentimentos
que são opostos ao desejo real em uma inversão clara e, em geral, inconsciente do
desejo. Dito de outra forma é quando ocorre a fixação de uma ideia, desejo ou afeto na
consciência que são opostos ao impulso temido, isto é, caracteriza-se pelo pensamento
contrário, e, por tal motivo, pela adoção de um comportamento exatamente oposto
àquele impulso original que foi recalcado e que se manteve como conteúdo
inconsciente. Para Fadiman e Fragner (1986), é possível evidenciar tal mecanismo de
defesa em qualquer comportamento que seja excessivo.
Já o recalque é um mecanismo de defesa, universal e necessário, visto que é
através dele que se estabelece o inconsciente como sistema separado do restante do
psiquismo. Conceito surgido pela observação do fenômeno da resistência, o recalque
nos conta sobre o afastamento de elementos do campo da consciência o que, como já
vimos, não impede que o representante pulsional continue a existir. Porém, por não
77
condizerem aos nossos ideais, tais elementos tentam descarregar a energia vinculada a
eles através de esquecimentos, sonhos ou sintomas neuróticos.
Nosso último mecanismo de defesa a estudar é a introjeção, nome do processo
pelo qual a criança incorpora valores dos pais e da sociedade de modo geral e os
transforma em seus. Percebemos, então, que o mecanismo de introjeção, nesse momento
de vida, tem um importante papel na formação do superego.
Laplanche e Pontalis (1996) afirmam que a introjeção está intimamente ligada ao
processo de identificação. Para os autores, este mecanismo de defesa ocorre quando: “o
sujeito faz passar, de um modo fantasístico, de ‘fora’ para ‘dentro’, objetos e
qualidades inerentes a esses objetos.” (p.248)
Os mecanismos de defesa...
... quando falham, podem ocorrer
transformações importantes no
comportamento do indivíduo (psicose).
...utilizados de forma excessiva podem
gerar consequências sérias no
ajustamento funcional à vida.
... dependem da natureza da situação somada
às características pessoais.
pessoas diferentes fazem uso de
diferentes mecanismos de defesa em
igual situação.
... mais eficazes tendem a ser utilizados com
maior frequência.
... não são escolhidos pela consciência.
... bem-sucedidos diminuem a ansiedade e os
ineficazes, além de não reduzirem a
ansiedade ou o medo, constroem um ciclo de
repetições.
... ao serem desvendados, intensificam-
se o conflito.
...fazem parte de todos os indivíduos, só se
tornando maléficos com o seu excesso.
... são as manifestações do ego diante
das exigências das outras instâncias
psíquicas (id e superego).
78
... são ações psicológicas que buscam reduzir
as manifestações iminentemente perigosas ao
Ego.
... ao controlar as tensões, permite que
nenhum sintoma se desenvolva, apesar
de limitar das potencialidades do ego.
2.5 – A psicanálise e os sonhos
Considerados na antiguidade
clássica como profecia, a ciência
moderna não sabia nada deles, sendo
abandonados à superstição. Até Freud,
era impossível admitir que um trabalho
científico pudesse usar o sonho como
ferramenta.
Porém, as numerosas ocorrências
de sujeitos que tinham sonhado nos
levaram ao conhecimento de um produto
mental que não podia mais ser
qualificado de absurdo e, assim, além de demonstrar que os sonhos possuíam um
sentido capaz de ser adivinhado, Freud defendeu a ideia de que o sonho é uma atividade
psíquica organizada com suas próprias leis de funcionamento.
Segundo o pai da psicanálise, do ponto de vista biológico, a função dos sonhos é
a de permitir que o sono não seja perturbado. Além disso, sonhar é uma forma de
canalizar os desejos que não foram realizados através da consciência, sem que o corpo
seja despertado.
Para Freud, cada sonho apresenta a mistura de dois tipos de conteúdos:
manifesto e latente. O conteúdo manifesto é aquilo que aparece propriamente nos
sonhos, são as lembranças que temos dele ou ainda o seu relato descritivo. Dito de outra
79
maneira, o conteúdo manifesto é a reprodução dos desejos inconscientes utilizando
outra forma de expressão e, por isso, passíveis de serem recordadas.
Enquanto isso, os resíduos diurnos responsáveis pela formação dos conteúdos
manifestos do sonho, servem como estrutura do conteúdo latente ou dos desejos
disfarçados. Assim, por sua vez, o conteúdo latente é um conteúdo oculto, que só
conseguimos descobrir por meio da sua análise. Entretanto, o conteúdo latente é a
estrutura recalcada que tenta emergir, ou seja, é o desejo oculto do sonho.
Como ressaltado por Laplanche e Pontalis (1996), o conteúdo manifesto é o
produto do trabalho no sonho e o conteúdo latente o do trabalho inverso, o da
interpretação.
Mas, vale lembrar que, um sonho não acontece simplesmente, o seu
desenvolvimento visa atingir necessidades específicas, ainda que não sejam descritas de
maneira clara pelo seu conteúdo manifesto.
Freud demonstrou que a elaboração onírica é um processo de seleção, distorção,
transformação, inversão, deslocamento e outras modificações de um desejo original.
Tais transformações ocorrem como uma condição do desejo expresso através dele se
tornar aceitável ao ego.
“Quase todo sonho pode ser compreendido como a
realização de um desejo. O sonho é um caminho alternativo
para satisfazer os desejos do id. Quando em estado de vigília, o
ego esforça-se para proporcionar prazer e reduzir o desprazer.
Durante o sono, necessidades não satisfeitas são escolhidas,
combinadas e arranjadas de modo que as sequências do sonho
permitam uma satisfação adicional ou redução de tensão. Para
o id, não é importante o fato de a satisfação ocorrer na
realidade físico-sensorial ou na imaginada realidade interna do
80
sonho. Em ambos os casos, energias acumuladas são
descarregadas.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 17)
“(...) o sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou
recalcado.)” (FREUD, 1900, Vol. 1, p. 193). Este pode não ser reconhecido de forma
imediata, por conta da influência da censura a qual foram submetidos no processo de
sua elaboração.
“De um modo geral, os desejos que não realizamos
durante o dia, porque são contrários aos nossos princípios,
costumam-se, aproveitando do sono, para se manifestarem. À
noite, enquanto estamos dormindo, os guardas da Censura
deixam de trabalhar com a mesma vigilância que os caracteriza
durante o dia. Os desejos, então, se aproveitam do fato de que
os guardas estão semi-adormecidos e tentam passar
sorrateiramente para o outro lado da fronteira.” (ESTEVAN,
s.d, p. 63)
Para Freud, o sonho é a nossa porta para o inconsciente, visto que, durante o
sono, ocorre esse afrouxamento da censura e, assim, o desejo recalcado tenta se
aproveitar desta ocasião para se manifestar. Apesar disso, o pré-consciente reconhece o
desejo e, em uma tentativa de proteger o sono, disfarça o seu conteúdo. A esta situação,
Freud deu o nome de deslocamento, isto é, a substituição de um representante psíquico
por outro, de menor valor, mas que reporta ao primeiro.
Estevan (s.d) nos garante que o deslocamento é o artifício pelo qual a carga
afetiva, que é desprendida durante o sonho, não recai, como seria natural, sobre o seu
verdadeiro objeto: a carga afetiva afasta sua direção e vai incidir sobre um objeto
secundário, aparentemente, insignificante.
81
Existem outros mecanismos pelo qual o conteúdo latente do sonho se transforma
em conteúdo manifesto. Além do deslocamento, encontramos a condensação que nada
mais é do que a síntese do desejo.
“O sonho costuma ser curto, pobre e lacônico, ao passo
que as causas que provocam o sonho são muito mais ricas,
profundas e complexas. Podemos dizer, assim, que aquilo que
aparece nos sonhos é quase sempre uma abreviação, um
pequeno resumo, de uma grande série de processos psíquicos
que estão se desenrolando no inconsciente durante o sonho.”
(ESTEVAN, s.d, p. 71)
Para que se consiga revelar os desejos inconscientes, escondidos pelos sonhos, é
necessário incentivar a associação livre de quem sonhou com os próprios elementos do
sonho.
2.6 – O setting analítico
Podemos entender o setting
analítico como a soma dos
procedimentos que buscam organizar e
normatizar o ambiente psicanalítico,
como uma forma de possibilitar o
processo. Esse grupo de orientações e
atitudes, que dizem respeito ao contrato
analítico, tem como objetivo criar uma
atmosfera de confiabilidade e
estabilidade, funcionando, assim, como
um importante fator terapêutico.
82
É importante que o profissional respeite e valorize o espaço do seu paciente.
Pretendemos dizer, com isso, que é importante que ele evite atrasos, desmarcações,
atender ligações ou mesmo comer enquanto ouve o que o paciente está trazendo à
sessão. É preciso esclarecer com o paciente, por outro lado, quanto tempo durará cada
sessão, pagamentos, férias (tanto a dele quanto a do terapeuta), faltas e desmarcações ou
necessidades relativas às mudanças de horário.
Assim, é objetivo do setting introduzir e delimitar os contornos da relação,
determinando o conjunto de aspectos plurais da análise. Claro que, apesar do que foi
acordado e, dependendo da flexibilidade do analista, o setting pode sofrer alterações
daquelas originalmente estabelecidas, mas sempre mantendo a confiança e o vínculo
construídos durante os atendimentos.
De acordo com D’Abreu (2012), além das características pessoais do analista e
do seu referencial teórico, existem alguns limites, como horário, duração dos
atendimentos ou honorários, que funcionam a favor do trabalho analítico. Existem
também, aqueles que, menos fechados, se estabelecem sem que tenham sido
evidenciados, ficando à mercê de características próprias da dupla analista/paciente.
Por sua vez, um bom resumo de setting terapêutico foi proposto por Santos
(1994), como sendo a derivação da posição interna do analista que dá consistência ao
tratamento.
Muitos acreditam que o espaço planejado para a psicanálise deve conservar-se
em um lugar fechado. São aqueles que argumentam que, fora do ambiente do setting
terapêutico, não é possível a neutralidade analítica ideal, complicando o
desenvolvimento da transferência. Assim, para eles é o setting que permite a criação de
um espaço onde aconteça o despejo dos aspectos infantis no vínculo transferêncial. De
acordo com D’Abreu (2012), é através da segurança desse espaço que o paciente pode
levar sua intimidade, permitir a regressão dos seus aspectos infantis e o afloramento da
neurose de transferência.
83
Pensemos e esclareçamos, ao mesmo tempo, que, por vezes, é disso que o
analisando precisa: de um espaço não só, para si próprio, mas para descarregar suas
angústias. Seria exigir demasiadamente do analisando que ele se coloque em qualquer
outro espaço que não o conhecido e neutro, oferecido pela estrutura psicanalítica. Mais
ainda, fazer isso seria fugir do acordo da psicanálise.
Apesar desta visão, outros psicanalistas afirmam que tal fato se dá pela
insegurança do terapeuta de não conseguir estar em uma posição de confiança fora do
seu espaço seguro. Esse grupo, por sua vez, diz que o setting móvel é uma possibilidade
de atingir aqueles que não suportariam o setting fechado, permitindo que esses também
possam tirar proveito do mesmo benefício das intervenções psicanalíticas.
E o que falar do, uma figura tão conhecida e
reconhecida como personagem necessário à psicanálise? Este
interlocutor da dinâmica psicanalítica se tornou tão
fortemente o símbolo da psicanálise tão quanto nós é o
próprio Freud. Assim, o que seria a figura do divã sem a figura do Freud? O divã para a
psicanálise deixou de ser uma mobília, mas uma peça irremovível do cenário
psicanalítico.
2.7 – A alta em psicanálise
Quando o paciente deve receber
alta de um processo psicoanalítico?
Esta é uma pergunta que envolve muita
polêmica e controvérsia. Afinal,
quando se encerra um trabalho
terapêutico?
84
Para o próprio Freud, liberar um paciente dos seus sintomas é uma tarefa que
consome tempo. Assim, para uma intervenção de curto prazo, que visa acabar com os
sintomas focais de determinada doença, é mais fácil falar de alta ou cura. Por outro lado,
para a psicanálise, basear os atendimentos psicoterapêuticos em um tempo cronológico
beira a irrealidade, pois esse tempo não tem como ser demarcado, caso contrário não
estaríamos considerando as particularidades de cada indivíduo.
Se anteriormente, foi possível dizer que se é condição para o desenvolvimento
da análise o estabelecimento da transferência, para o final da análise precisamos que
ocorra o término da transferência. Assim, a alta deve ser pensada quando o paciente
deixa de ser sujeito da posição alienada para uma posição de analisante, isto é, quando
ele sai do discurso alienante para o discurso do analista.
O final da análise, por assim dizer, pode ser entendido como o momento em que
o paciente está apto a trabalhar em benefício próprio. Assim, é mais do que claro que,
na ocasião em que o paciente deixa de sofrer com os seus sintomas, superando as
ansiedades, é possível pensar na alta terapêutica. É certo que o sujeito sempre terá
alguma questão, mas essa não é a ideia da alta em psicanálise. O objeto da análise é
aprender a lidar melhor com suas demandas, não fazer com que o analisando saia do
processo sem questões.
Porém, mais importante do que o tempo dedicado ao tratamento é saber quais os
benefícios que a relação com o terapeuta traz ao paciente. E como se faz isso? Pensando
no progresso do paciente, na vontade que ele tem de mudar, confiando na figura do
terapeuta e nas propostas do processo. Assim, outra boa forma de se pensar em alta
terapêutica é aquela quando o paciente e o terapeuta percebem que não há mais
progressos na relação.
85
Conclusão do Módulo I
Olá, aluno(a)!
Você está quase chegando ao fim da primeira etapa do nosso curso de
Psicanálise, oferecido pelos Cursos 24 Horas.
Para passar para o próximo módulo, você deverá realizar uma avaliação
referente a este módulo já estudado. A avaliação encontra-se em sua sala virtual. Fique
tranquilo(a) e faça sua avaliação quando se sentir preparado!
Desejamos um bom estudo, boa sorte e uma boa avaliação!
Até logo!

Módulo 1

  • 1.
    PPssiiccaannáálliissee Módulo I Parabéns porparticipar de um curso dos Cursos 24 Horas. Você está investindo no seu futuro! Esperamos que este seja o começo de um grande sucesso em sua carreira. Desejamos boa sorte e bom estudo! Em caso de dúvidas, contate-nos pelo site www.Cursos24Horas.com.br Atenciosamente Equipe Cursos 24 Horas Autora do conteúdo: Ana Paula Veiga (Psicóloga/Sexóloga) Contato: http://www.wix.com/ana_paula_veiga/atendimento
  • 2.
    Sumário Introdução.....................................................................................................................3 Unidade 1 –Conhecendo a Psicanálise........................................................................12 1.1 – Freud e a criação da psicanálise......................................................................12 1.2 – Escolas psicanalísticas....................................................................................22 1.3 – Jung e a psicologia analítica ...........................................................................23 1.4 – Wilhelm Reich e a psicologia do corpo...........................................................33 1.5 – J. Lacan e sua contribuição à psicanálise.........................................................43 1.6 – A psicanálise no Brasil ...................................................................................54 Unidade 2 – Fundamentos da Psicanálise....................................................................56 2.1 – Primeira tópica: consciente, pré-consciente e inconsciente..............................57 2.2 – Narcisismo .....................................................................................................60 2.3 – Segunda tópica: id, ego e superego .................................................................64 2.4 – Resistências....................................................................................................69 2.5 – A psicanálise e os sonhos ...............................................................................78 2.6 – O setting analítico...........................................................................................81 2.7 – A alta em psicanálise......................................................................................83 Conclusão do Módulo I...............................................................................................85
  • 3.
    3 Introdução Sigmund Freud (1856-1939)postulou um método de investigação que se resume, essencialmente, em clarificar o significado inconsciente das ações do sujeito. Desse modo, para a psicanálise existem conteúdos escondidos na vida mental de todos nós. Baseado no método de associação livre, que garante a validade das interpretações desde que sejam controladas certas resistências inerentes, a psicanálise foi o primeiro esforço científico para o tratamento das questões psicológicas. Antes de Freud, o tratamento das desordens emocionais era além de pré-científicos e ineficazes, mas potencialmente perigosos. O modismo de tal teoria levou muitos à produção em nome da psicanálise daquilo que não deveria ser assim nominado, já que o conteúdo, o método utilizado e, até mesmo, os resultados obtidos, não condiziam com o pressuposto original. O que vemos por aí é que Freud e suas ideias foram tão popularizados que seus conceitos, muitas vezes, são veiculados de modo errôneo ou distorcido. Um erro comumente visto, em profissionais de formação apressada, é o de pensar que as diferentes teorias que surgiram da psicanálise são trabalhos que falam sobre a mesma coisa, mas de maneira diferente, ou seja, abordagens distintas sobre o ser humano, que visam e apontam para um mesmo resultado. Sabemos que a psicanálise ultrapassa os seus pouco mais de 100 anos de criação. Ainda assim, é inegável o valor daquilo que foi construído durante os anos no decorrer da vida de Freud. Tamanha a sua dedicação e cuidado em tornar claros seus pensamentos, em dividir suas angústias e as suas releituras, que podemos nos deleitar com aquilo que foi estudado pelo criador. Sabemos que a psicanálise se fez a partir de certezas e incertezas de Freud. Incertezas essas que construíram com muita propriedade a sua obra, pois, se voltarmos atrás, perceberemos que o método freudiano foi desenvolvido, além do próprio contato com seus pacientes, mas também nos fracassos que se apresentavam diante daquilo que
  • 4.
    4 não se esperavaou era sabido. Foi o não conseguir entender que o fez seguir em frente e estudar cada vez mais a fundo a mente humana. Cabe apostar que é isso que ele esperaria de todos nós, ao falarmos e passarmos adiante a teoria criada para que a humanidade pudesse se sentir um pouco protegida dentro da sua desproteção inerente. Ainda assim, vale dizer que a verdade não está nas respostas elaboradas pela psicanálise. A completa, o êxito, a evitação do sofrimento e das doenças, é algo buscado por todos nós e por diferentes leituras da mente humana. Ao estudarmos este caso de amor que recebeu o nome de Psicanálise, percebemos que Freud nos pede que tomemos cuidado com os seus conceitos chamados, por ele próprio, de fundamentais. É preciso desfazer equívocos criados não apenas pelos leigos, mas especialmente por aqueles que detêm o saber, e, que, por se considerarem conhecedores, ao fazer uso parcial da psicanálise, são capazes de causar prejuízos que refletirão justamente no público leigo. É mais do que preciso a consciência da necessária formação do analista, enquanto um processo extra-acadêmico, onde seja viável se preparar para lidar com o futuro paciente, isolando os elementos psíquicos de si próprio. Formação esta que, ao passar pela análise pessoal, visa a superação das próprias resistências a fim de que elas não interfiram e, assim, prejudiquem o processo analítico daqueles interessados nos cuidados profissionais desse futuro analista. “Os ensinamentos da Psicanálise baseiam-se em um número incalculável de observações e experiências, e somente alguém que tenha repetido estas observações em si próprio e em outras pessoas, acha-se em posição de chegar a um julgamento próprio sobre ela.” (FREUD, 1940, livro 7, p.16. Ed. Bras)
  • 5.
    5 O mesmo foilevantado por Fradiman e Frager (1986): “Em 1922, no Congresso da Associação Psicanalítica Internacional, concordou-se que uma análise didática com um analista já declarado, seria obrigatória para qualquer candidato a analista. Desse modo, este analista tornar-se-ia consciente de seus modos de enfrentar a realidade. E, então, quando ele ou ela trabalhasse com pacientes, não haveria confusão entre as necessidades do analista e as do paciente.” (p. 27) De qualquer forma, seria leviano de nossa parte, esquecer que o psicanalista é um ser humano, com seus problemas, conflitos e limitações. Com sua própria história e formas de interpretar a sua escuta, que estudou, fez terapia analítica e supervisionou casos, mas, ainda assim, continua sendo, antes de tudo isso, uma pessoa sensível, afetuosa, entediada, irritável e que também se angustia e sofre. O que é a psicanálise? Dentro da psicologia encontramos várias abordagens psicoterapêuticas que englobam tendências teóricas um tanto diferentes e, com isso, diversas formas de tratamentos. Apesar disso, conforme levantado por Cavalcanti e Cavalcanti (2006), nenhum molde psicoterápico pode ser, indistinto e vantajosamente, aplicado a todos em todos os casos. As características do próprio indivíduo permitem uma abordagem terapêutica mais adaptável à condição apresentada por ele. Via de regra, o que todas as linhas concordam, ainda que haja até mesmo certa competição entre elas, em relação à importância e aceitação, é que o comportamento humano é resultado da interação entre as variáveis biológicas, aquelas que são herdadas e as variáveis, que são adquiridas através da aprendizagem e da experiência pessoal. A tática terapêutica freudiana consiste em trazer o material do inconsciente para a superfície, ou seja, para o nível da consciência, onde é possível ser trabalhado e
  • 6.
    6 resolvido ao descobriros motivos que originaram determinados comportamentos ou sintomas. Desta forma, a compreensão interna, chamada de insight, e a resolução dos conflitos subjacentes são os objetivos primários desta concepção. Porém, tal esforço ocorre junto à resistência, tanto mais forte quanto mais profundo estiver o material a ser trabalhado. Vale lembrar que a psicanálise não inviabiliza, assim como não substitui, a necessidade de acompanhamento médico ou medicamentoso. Ao analista cabe interpretar a fala do seu paciente, o significado inconsciente das palavras, das ações e do conteúdo imaginativo expressado através dos sonhos ou fantasias. Seu objetivo é a reeducação emocional ao promover o autoconhecimento e o autocontrole, uma melhoria na qualidade de vida com a redução dos sintomas apresentados, além das mudanças em si mesmo, características essas que não competem com o tratamento feito através da medicação. Atualmente, a psicanálise não está limitada à prática, centrada em outros cenários por sua amplitude de pesquisa. Há até quem diga que a psicanálise é uma psicologia própria. Nas palavras do criador: “Psicanálise é o nome de (1) um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo, (2) um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos, e (3) uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova disciplina científica” (FREUD, 1923, livro 15, p. 107. Ed Bras) Propomos outra tradução ao afirmar que a psicanálise é ainda mais do que isso. É aquela ideia que nos envolve de uma tentativa sincera dos entendimentos de nossas limitações e angústias. Apesar disso, ainda que as teorias ou suas racionalizações expliquem de forma tão completa o nosso sofrimento, por vezes, precisamos ir além delas para que seja possível a diminuição das aflições daqueles que nos procuram.
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    7 Precisamos, claro, nosapoiar na teoria, mas não podemos correr o risco de nos perdermos nela e esquecermos de quem está à nossa frente. A contribuição de Freud É verdade que, passados mais de 150 anos do seu nascimento, Freud continua polêmico. Hoje, sua teoria recebe questionamentos que vão desde a psicologia cognitivo-comportamental à neurociência, responsável pelo estudo das bases biológicas da mente. Apesar disso, a importância de Freud para a ciência é um assunto inquestionável. O descobrimento da sexualidade infantil, por exemplo, possibilitou o estudo de uma área que, até então, era reinada pela ignorância tanto na ciência quanto na filosofia, contribuindo para a formação de um novo campo conceitual bem mais abrangente e diversificado. Além disso, outros conceitos foram de suma utilidade em diversos ramos da psicologia, permitindo, assim, o avanço de tal ciência para além de um complemento da psiquiatria. Desde então, a psicologia pode explicar os processos psíquicos do ser humano, não se limitando somente no tratamento dos distúrbios emocionais. De tudo, fica que a psicanálise pretende esclarecer o funcionamento da mente humana e tem como fundamento a crença de que os processos psíquicos, em sua maioria, fazem parte do inconsciente, isto é, a consciência nada mais é do que somente uma fração da nossa vida psíquica.
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    8 Porém, o modode examinar a pessoa que nos pede por auxílio varia de acordo com as concepções teóricas elegidas. Inúmeras correntes tentam explicar a gênese dos distúrbios emocionais que afligem milhões de pessoas no mundo todo. De acordo com seus esquemas explicativos, as abordagens teóricas assinalam orientações terapêuticas que consideram mais aplicáveis e eficientes. Sabemos da possibilidade existente, graças aos vários e grandes estudiosos dos processos mentais, de examinarmos o nosso mundo interior com o intuito de buscar pistas que demonstrem as razões dos nossos comportamentos. Contudo, tal tarefa, é extremamente difícil, pois, escondemos, por alguma razão, de nós mesmos, tais pistas, seja de forma ricamente elaborada ou com baixo sucesso. Os instrumentos existentes para alcançarmos o alívio do sofrimento emocional existem para que utilizemos como almejemos ou como consideremos a melhor escolha. Freud foi somente um dos teóricos que escreveu sobre a maneira como utilizou os instrumentos, sobre aquilo que ele descobriu e o que concluiu com as suas descobertas. Embora suas conclusões ainda sejam discutidas, é certo que seus instrumentos abriram o caminho para diversos outros sistemas e que podem ser das mais duradouras contribuições para o estudo da personalidade. Objetivo do processo analítico Muitos pedidos são feitos aos terapeutas. Muitas vezes procurados por último, após anos de angústia e sofrimento, depois da ansiedade fazer parte da vida desses indivíduos tão intimamente que chegam a se confundirem com ela, nos perguntam e nos perguntamos até que ponto podemos ajudá-los? O psicanalista não está ali a fim de responder de forma incondicional ao pedido de ajuda que lhe é feito. O trabalho do analista vai depender do desejo em conjunto com o seu paciente, tanto na função do sujeito do suposto saber como na função de objeto,
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    9 isto é, nosustento do lugar do vazio para que seja possível deslocar a fala do paciente a esse lugar e, assim, se dê a possibilidade de tratamento. Isso ocorre, pois a função da terapia é estabelecer a conexão entre o evento mental reprimido e as manifestações neuróticas do paciente, de forma que este se perceba, compreendendo e, então, podendo neutralizar os efeitos da experiência original. Dito de outra forma, com base em um interrogatório dirigido, o paciente é induzido a trazer, à memória, uma ideia que havia estado guardada por muito tempo e à qual ele não teria acesso em outras condições. De tal forma, podemos perceber que a função da terapia é permitir a interação dos conteúdos dos sistemas presentes na mente do indivíduo. Mas quem nos busca por ajuda, quer alcançar muitas vezes uma plena felicidade e acredita que o analista tem o caminho que ele procura. Cabe ao analista saber que tal felicidade imaginária, por muitas vezes, entra em choque com a realidade, não cabendo ser alcançada. Estamos pré-destinados a nunca nos satisfazermos em um mundo calculado, ainda que a sociedade do espetáculo nos tente provar o contrário, imprimindo uma ideia de fornecimento de prazeres ilimitados, seja pelo consumo ou seja pelo espetáculo. Público alvo Este curso destina-se a todos aqueles interessados em adquirir conhecimento sobre a teoria da psicanálise, ou seja, tanto aos que querem aprender a dinâmica dos problemas emocionais e afetivos de acordo com tal pressuposto, quanto aos que desejam dedicar-se à psicanálise como terapeutas. Apesar disso, se faz necessário saber, como já levantado, que um programa de formação em psicanálise pede por um tripé estabelecido pelo próprio criador: conhecimentos teóricos, supervisão e análise pessoal. Vale dizer que tal trabalho, voltado para o público leigo, não pretende popularizar a psicanálise, até porque, como veremos, o inconsciente só poderia ser
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    10 desvendado através daprópria análise. Nossa ideia é incentivar o desenvolvimento pessoal e a realização intelectual. Objetivos gerais • Promover os principais conceitos da psicanálise e dos fundamentos da técnica psicanalítica, possibilitando ao estudante a sua atuação na promoção da saúde psíquica, através de ações preventivas e intervenções psicanalíticas educativas; • Favorecer o conhecimento, a reflexão e o debate sobre questões referentes à teoria psicanalítica; • Capacitar a melhora da qualificação profissional, ao proporcionar os conhecimentos e habilidades para o crescimento profissional. Objetivos específicos • Identificar os principais fundamentos da psicanálise e de outras poucas escolas; • Permitir que o aluno compreenda o campo dos fenômenos e dos processos psíquicos (comportamento, consciência e inconsciente); • Revelar o funcionamento de complexos, traumas, desejos ocultos ou qualquer outro conteúdo mental que perturbe o adequado equilíbrio emocional do paciente. Definições importantes É cotidiana a confusão feita entre algumas qualificações do terreno “psi”. Por isso, é necessário clarificarmos alguns conceitos, para que possamos seguir adiante com a clara e necessária diferenciação dos principais termos.
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    11 Comecemos pela palavrapsicologia. Ela é a ciência que estuda os aspectos mentais (sentimentos, pensamentos, razão etc) e comportamentais. Para realizar seu ofício, o psicólogo precisa escolher uma abordagem baseada em uma teoria específica como método de trabalho. Para a obtenção do título é preciso frequentar um curso superior de duração de cinco anos, onde o estudante passa por um processo complementar ao desenvolvimento teórico com estágios supervisionados. Além disso, um psicólogo pode aprender pelos livros e se aprimorar intelectualmente mesmo que nunca tenha praticado ou se submetido a um processo terapêutico também chamado de psicoterapia, ou seja, a ferramenta clínica do conhecimento da psicologia. Diferentemente, um psicanalista1 , aquele profissional que possui uma formação em psicanálise, só tem sentido através do seu trabalho clínico. Sem bastar o estudo sobre sua área, é preciso se submeter à própria análise com outro analista, visando a explicação do seu funcionamento psíquico o que, geralmente, avança por alguns anos. Além disso, tal teoria pode ser utilizada por um psicólogo ou por alguém que tenha feito uma formação em psicanálise, sem necessariamente ter cursado a faculdade de psicologia nem qualquer outro curso universitário. Já a psiquiatria é uma especialização da medicina que, ao tentar delimitar os problemas do paciente a partir de uma perspectiva médica, ou seja, orgânica, tem a prerrogativa de prescrever drogas para o tratamento dos sintomas relacionados, habilidade esta não designada ao psicólogo. O estudante de medicina opta pela especialização em psiquiatria, que é composta de 2 ou 3 anos e abrange estudos em neurologia, psicofarmacologia e treinamento específico para diferentes modalidades de atendimento. 1 Quando ainda no século XIX Freud inventou a psicanálise, a carreira de psicologia ainda não existia. Assim, inicialmente quase todos os psicanalistas eram psiquiatras.
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    12 Unidade 1 –Conhecendo a Psicanálise Psicanálise é o nome dado ao campo clínico e teórico de investigação da psique humana que originou efeitos importantes na cultura ocidental. Independente da psicologia, ela se desenvolveu através dos estudos do médico neurologista austríaco Sigmund Schlomo Freud (1856-1939), que tinha como primordial objetivo compreender os sintomas neuróticos e/ou histéricos. Com os conhecimentos advindos da investigação feita por ele, pode-se superar a falha existente no tratamento médico de tais pacientes. A proposta de Freud, da cura pela palavra e sua teoria sobre o inconsciente, o tornaram popular ainda na primeira metade do século XX, e fez da psicanálise um método de investigação dos processos mentais impenetráveis por qualquer outro modo. 1.1 – Freud e a criação da psicanálise “A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.”
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    13 Nascido em maiode 1856, em Freiberg, Moravia, hoje Pribor, atual República Tcheca, seu pai, um comerciante que trabalhava com lãs e com os negócios em baixa, se viu obrigado a mudar-se para Viena quando Freud tinha apenas quatro anos. Vinte anos mais velho do que sua mãe, era uma figura severa e autoritária, bem diferente dela, uma pessoa carinhosa, com quem Freud desenvolveu uma profunda ligação. Com mais sete irmãos, ele era o único a ter, em seu quarto, lamparina e óleo que, naquela época, eram verdadeiras regalias. Além disso, para que pudesse estudar melhor, era proibido que seus irmãos fizessem barulho pela casa. Pelo fato de ser judeu, todas as carreiras fora medicina e direito eram proibidas na época. Interessado pelos trabalhos de Charles Darwin e Johann Goethe optou por estudar medicina na Universidade de Viena. Ao ingressar na universidade, Freud sofreu grande preconceito por ser judeu. Tal fato deve ter servido para que ele se acostumasse a ser uma figura na oposição. O jovem estudante Freud desenvolveu trabalhos em neurologia e fisiologia, comandando pesquisas sobre as glândulas sexuais das enguias. Fora isso, entrou para o laboratório de Brücke para estudar o sistema nervoso dos peixes. Os estudos de medicina, com exceção da psiquiatria, nunca o atraiam. Isto fez com que ele levasse oito anos para se formar, em 1881. É desta época, mais precisamente em 1882, que datam os primórdios da psicanálise, quando Freud ainda era recém-formado. Apesar da sua vontade, como sua condição financeira não permitia que seguisse estudando no laboratório acadêmico, começou a atender pacientes, clinicando como neurologista e tratando essencialmente de mulheres burguesas que sofriam de distúrbios histéricos. Além do mais, ele tinha se apaixonado e percebeu que, casando-se, precisaria de um cargo mais bem remunerado. Freud percebeu que, na histeria, os pacientes apresentavam sintomas que são anatomicamente inviáveis. Por exemplo, na "anestesia de luva" a pessoa não tem nenhuma sensibilidade na mão, ainda que apresente sensações normais no punho e no
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    14 braço. Porém, vistoque os nervos têm um percurso ininterrupto do ombro até a mão, não pode haver nenhuma causa física para este sintoma. Assim, tal doença carecia de uma explicação psicológica. Na clínica psiquiátrica, notou que os problemas dos pacientes estavam relacionados ao fato deles terem seus desejos reprimidos, subordinados ao inconsciente, sendo muitos deles de natureza sexual. Ao procurar aliviar o sofrimento psíquico das pacientes, Freud, durante um ano, ainda fez uso dos métodos terapêuticos da época: eletroterapia, massagens e hidroterapia. De 1884 a 1887, fez algumas das primeiras pesquisas com cocaína e, ao descobrir as propriedades analgésicas, não sendo naquela época proibida, ficou impressionado com suas propriedades e escreveu a respeito de seus possíveis usos para os distúrbios, tanto os físicos como os mentais: “Eu mesmo experimentei uma dúzia de vezes o efeito da coca, que impede a fome, o sono e o cansaço e robustece o esforço intelectual.” (1963) Por pouco tempo foi um defensor, mas depois tornou-se apreensivo em relação às suas propriedades viciantes e interrompeu sua pesquisa. Porém, tal estudo abriu portas para que esta substância fosse disseminada na Europa e nos Estados Unidos. Terminando sua residência, Freud conquistou uma bolsa de estudos no Salpetrière, em Paris, onde trabalhou com Charcot (1825-1893), figura de papel fundamental na formação do jovem Sigmund. Ele percebeu em Freud um estudante capaz e inteligente, e deu-lhe permissão para traduzir seus escritos para o alemão quando Freud voltou à Viena.
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    15 Nesta época, ahisteria era a mais misteriosa de todas as doenças nervosas, e, não só os pacientes histéricos, como, também, os médicos que demonstravam interesse por tratá-la, eram desacreditados. Charcot contribuiu decisivamente para a mudança de tal quadro, recuperando não só a dignidade dos pacientes, como abrindo um espaço para que eles fossem ouvidos. Para ele, a histeria não poderia ser considerada como uma enfermidade imaginária. Era uma neurose que não estava restrita ao universo feminino, contradizendo a própria origem do nome (hystera= útero). Tanto um quanto o outro se mostraram interessados na autenticidade e na normalidade dos fenômenos histéricos e em sua aparição na população masculina. Apesar disso, Freud não havia concordado com a ideia de Charcot, que dizia que a causa fundamental de tal distúrbio era a hereditariedade. Ainda assim, ficou encantado quando percebeu que a hipnose era um caminho para a explicação. Desta forma, podemos dizer que a maneira como Charcot tratava seus pacientes histéricos foi o ponto decisivo para que Freud começasse a olhar em direção à criação de sua metapsicologia. Porém, seguindo em seus estudos, Freud passou a achar os ensinamentos de Charcot discutíveis. Ainda antes de voltar à Viena, Freud foi a Berlim estudar sobre as enfermidades infantis, onde publicou alguns trabalhos sobre paralisia cerebral das crianças. E, em 1886, já de volta, além de ter se casado com Martha Bernays, com quem teria seis filhos, estabeleceu sua clínica particular e passou por um período de grande resistência por parte das autoridades médicas em relação às suas inovações científicas. Assim, foi questão de tempo a sua retirada da vida acadêmica e da relação profissional com a sociedade de médicos. Algumas circunstâncias já o tinham feito abandonar o uso da eletroterapia e a utilizar como ferramenta de trabalho a hipnose, método que permitia ao paciente a entrada em um estado de sugestão (hipnótica), onde seria possível revelar a história da
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    16 gênese dos sintomase sobre o qual era inviável o acesso em estado normal de consciência. Este fato foi descoberto ao perceber que a hipnose era uma condição que atenuava a vigilância da censura, possibilitando evocar fatos perdidos que estavam relacionados com o sintoma. Assim, em hipnose, uma situação era recordada e possível de realizar o ato psíquico, antes reprimido, permitindo, de tal forma, um livre curso do afeto correspondente e o consequente desaparecimento do sintoma. Estas reconstruções da situação traumática inicial eram seguidas de explosões emocionais, chamadas de catarse, e acompanhadas pelo desaparecimento sintomático. Nas palavras de Freud (1914): “Os sintomas de pacientes histéricos baseiam-se em cenas do seu passado que lhes causaram grande impressão, mas foram esquecidas (traumas); a terapêutica, nisto apoiada, consistia em fazê-los lembrar e reproduzir essas experiências num estado de hipnose (catarse).” (Ed. Bras, livro 6, p. 17) Aliou-se a Josef Breuer2 (1842-1925), com quem continuou suas investigações exploratórias da dinâmica da histeria. Juntos, Breuer e Freud, escreveram, em 1895, “Estudos sobre a histeria”. A ideia do livro não era a de se fixar na natureza de tal distúrbio, mas esclarecer a gênese de seus sintomas, acentuando, portanto, a contribuição da vida afetiva e a importância da distinção entre atos psíquicos inconscientes e conscientes. Porém, alvo de crítica, o livro, escrito a quatro mãos, serviu de corte no caminho dos dois. Se, para Breuer, o tratamento estava completo com a ajuda hipnótica, para Freud ainda faltava entender outras questões. Desta forma, Freud tornou conhecidos os inconvenientes deste procedimento: não era possível hipnotizar todos os doentes, visto que nem todos eram sugestionáveis e, por sua vez, nem todos os médicos conseguiam hipnotizar de forma tão profunda quanto necessário. 2 Sua paciente mais conhecida foi Bertha Pappenheim, sob o pseudônimo de Anna O., que será a primeira paciente histérica de Freud. Na época, responsável pelos cuidados de seu pai gravemente doente, Anna O. sofria de um variado quadro sintomático que incluía paralisia, contrações musculares, inibições e estados de perturbação psíquica. Em estado de vigília, a paciente era tão incapaz como os outros de entender a origem de seus sintomas ou as conexões com a sua vida. Porém, hipnotizada, achava-se o que faltava. Com seu pai, a paciente se viu forçada a reprimir um pensamento-impulso, cuja representação havia revelado o sintoma. Seu tratamento e sua hipnose permitiram revelar os pensamentos e afetos reprimidos como o desejo de que o seu pai morresse.
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    17 Para Breuer, aorigem da histeria está ligada às lembranças traumáticas que foram reprimidas por algum mecanismo do plano inconsciente da vida mental, isto é, ao reprimir a carga do afeto da lembrança, originam-se os sintomas histéricos. Era preciso um método catártico para se conseguir o retorno do afeto (utilizado para manter o sintoma) e que por ter pego um ‘caminho falso’, não podia ser descarregado. Freud não estava satisfeito com tais ideias, pois não acreditava que os sintomas tivessem sido originados em qualquer cena desagradável. Para ele, tais cenas traumáticas estavam ligadas à sexualidade. Seguindo o seu caminho novamente sozinho, ampliou os limites da histeria, começando pela investigação da vida sexual dos neurastênicos. Em meio disso, Freud percebeu que o método da hipnose, no lugar de eliminar os sintomas causadores do sofrimento, por vezes, gerava novos sintomas no lugar daqueles suprimidos. Claro que esta descoberta, ainda que não tire o valor do método hipnótico, o impõe limites. E, por isso, a hipnose deixou de ser o método ideal para os propósitos de Freud, que mudou a sua abordagem, escolhendo trabalhar com os pacientes deitados, enquanto ele se colocava por trás, de maneira que poderia ver, mas não ser visto. Com esta postura, ele pretendia encorajar seus pacientes a falarem livremente, sem reservas, sem omissão e julgamento, independente da aparente relação com seus sintomas, isto é, sem preocupações de certo ou errado, reflexões ou conexões lógicas. A ideia era buscar a origem dos sintomas através daquilo que era verbalizado, vencendo, primeiramente, as resistências que impedem o acesso ao inconsciente. Visto que o
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    18 analista, por suavez, tem a função de reunir e significar o material descoberto3 , um terapeuta psicanalista tradicional tem uma postura mais passiva e calada, ansiando do seu paciente seus próprios insights. Esta técnica foi chamada por ele de “Associação Livre”, onde o material inconsciente viria à tona, com essas ajudas “espontâneas”, relatadas pelo próprio paciente através dos sonhos, dos atos falhos e dos esquecimentos. Como aquilo que foi esquecido tinha sido penoso, temível ou doloroso, para fazê-lo consciente era preciso dominar o que se revelava contra o sujeito, impondo-se ao profissional tal esforço, tanto maior quanto a gravidade do esquecido e a resistência do paciente. É neste momento que surge a teoria da repressão4 , ponto central psicanalítico, onde o conflito leva à luta entre duas forças: instinto e resistência. Assim, os sintomas se fazem como o resultado de uma satisfação substituída, porém alterada e desviada dos seus propósitos, por conta da resistência do ego. Desta forma, os sintomas neuróticos não estariam ligados diretamente aos acontecimentos reais senão a fantasias optativas, onde a realidade psíquica é mais importante do que a realidade material. Foi em 1894, que Freud descobriu o conceito de transferência. No final do ano seguinte, nasce Anna Freud, sua filha mais nova e que se tornaria psicanalista, fundando sua própria corrente e tornando-se uma célebre psicanalista de crianças. E é por volta desta época que surge, pela primeira vez, o termo psicanálise, mais precisamente em 1986, para indicar um método particular da psicoterapia. Neste mesmo 3 Vale ressaltar, como símbolo de curiosidade, que como Freud anotava somente depois de algumas horas o discurso de seus pacientes, acredita-se que pode ter havido certas omissões. Outra crítica é que ele pode ter reinterpretado e ter sido guiado pelo desejo de encontrar material de apoio às palavras transcritas. 4 A repressão é um mecanismo primário de defesa análoga à tentativa de fuga e antecessor da futura solução normal por julgamento e condenação do impulso repulsivo. Como consequência, o ego precisa se proteger por meio de um permanente esforço contra a pressão do impulso reprimido, sofrendo assim um empobrecimento. Além disso, o reprimido, ao se transformar em inconsciente, pode alcançar uma descarga e satisfação substituída por caminhos indiretos, fazendo fracassar o propósito da repressão.
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    19 ano, no qualinclusive o seu pai morre, a correspondência entre Fliess5 e Freud exibe a expressão "aparelho psíquico" e os seus três componentes: consciente, pré-consciente e inconsciente. É através de tais correspondências que Freud inicia o que ele chamaria de sua autoanálise. Em paralelo, reconhece a sexualidade infantil e o complexo de Édipo. Poucos anos depois, publica “A Interpretação dos Sonhos", com data de 1900, ainda que tenha sido publicado no final de 1899. Datada, a pedido dele mesmo, de 1900, para “abrir o século”, foi considerada por muitos como seu mais importante trabalho, apesar de, na época, não ter recebido quase nenhuma atenção. Em 1902, é criada a primeira sociedade psicanalista do mundo, em Viena, com o nome de “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”. No ano seguinte, é a primeira vez que Freud analisa uma criança de cinco anos. E é neste mesmo ano que ele descobre a primeira teoria das pulsões: pulsão sexual e pulsão do Eu. Logo em seguida, Freud revelou os estágios da sexualidade infantil e conheceu Jung, com quem começou a se corresponder e com quem, em sete anos, já somava 359 cartas. Jung que já tinha uma percepção de inconsciente e do psiquismo quando se aproximou de Freud, criou, em 1907, a “Sociedade Freud”, em Zurique, que, mais tarde, se tornou a “Associação Psicanalítica de Zurique”. Além disso, Jung teve tal importância para Freud visto que, além de muito inteligente e esperto, não era judeu e Freud receava que o progresso da psicanálise fosse ameaçado pelo antissemitismo. Porém, alguns anos depois, a amizade ficou abalada após Jung tentar convencê-lo a dessexualizar sua doutrina. Freud, em 1911, descobriu o conceito de narcisismo ao estudar sobre a psicose paranóica. No próximo ano, Freud publica alguns livros como “A Dinâmica da Transferência” e “Totem e Tabu”, onde pesquisa sobre a interdição generalizada do incesto, enraizada em diferentes culturas e sociedades. 5 Wilhelm Fliess (1858-1928) foi um médico alemão importante na pré-história da psicanálise. Por sugestão de Breuer, Fliess se encontrou com Freud, em 1887, formando um forte laço de amizade. Mais do que um ouvinte crítico de Freud, fez algumas contribuições científicas como a da bissexualidade inerente a todos os seres humanos. Suspeitando que suas ideias estivessem sendo plagiadas por Freud, a amizade se desfez em 1902. Sua correspondência com Fliess encontra-se atualmente reunida sob o nome de “O Nascimento da Psicanálise”.
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    20 Já na décadade 20, Freud nos conta sobre sua segunda teoria do aparelho psíquico: Isso (Id), Eu (Ego), Supereu (Superego) e sobre a segunda teoria das pulsões: pulsão de vida e pulsão de morte. No mesmo ano, em que está se dedicando à teoria estrutural ou à segunda tópica, Freud escreveu "O Ego e o Id" (1923) e descobriu um câncer no maxilar, o que o levaria a passar por 33 cirurgias, além de perder o maxilar superior, instalando, com isso, uma prótese com a finalidade de separar sua boca. Em 1930, Freud, já adoentado, através de Anna, sua filha e representante, recebe o prêmio Goethe (de literatura), a única premiação que foi entregue em vida. Alguns anos depois, entre 1933 e 1939, houve um importante avanço do antissemitismo na Alemanha. Além disso, em 1933, a terminologia freudiana é excluída do vocabulário da psiquiatria e da psicologia da Alemanha, e a psicanálise passa a ser considerada como uma ciência judaica. Assim, Freud tem seus livros queimados em praça pública pelos nazistas, em Berlim. Nesta mesma época, há uma profunda emigração de psicanalistas alemães para a Argentina, Inglaterra e Estados Unidos. Apesar disso, em 1938, em meio à ascensão do nazismo, a princesa Marie Bonaparte, graças a sua estima, consegue levar Freud, sua esposa e filhos, para Londres. Fugindo do nazismo, passa a morar na Inglaterra onde, no ano seguinte, aos 83 anos, morre em função do câncer desenvolvido há mais de dez anos. Para que consigamos compreender sua obra, é preciso olhá-la dentro da sua perspectiva histórica, cultural e científica. A cura das enfermidades físicas e mentais, por meio do diálogo, foi uma inovação desenvolvida
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    21 por Freud apartir de suas observações. Até então, a área da psicoterapia só contava com o apoio da terapia, ou seja, com banhos, sangrias e outros métodos obsoletos. Dessa forma, sua contribuição, não só para a psicologia ou medicina, como para outras áreas do conhecimento (sociologia, literatura, antropologia, entre outras) é inquestionável. Suas ideias permitiram uma revolução de pensamento e o início da revisão de vários preconceitos. Freud explorou inúmeras áreas da psique que eram sabidamente encobertas, tanto pela moral como pela filosofia vitorianas. Por contestar tabus culturais, religiosos, sociais e científicos, descobriu novas abordagens para o tratamento da doença mental, com ideias que se tornaram parte da herança comum da cultura ocidental. “Sigmund Freud, pelo poder de sua obra, pela amplitude e audácia de suas especulações, revolucionou o pensamento, as vidas e a imaginação de uma Era... Seria difícil encontrar na história das idéias, mesmo na história da religião, alguém cuja influência fosse tão imediata, tão vasta e tão profunda.” (Wollheim, 1980, p. IX) Freud escreveu incansavelmente, suas obras completas somam 24 volumes e abrangem ensaios referentes aos aspectos delicados da prática clínica, além de uma série de conferências que esboçam toda a teoria sobre questões religiosas e culturais.
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    22 1.2 – Escolaspsicanalíticas Durante o trajeto da psicanálise, muitos foram os estudiosos que se encontraram e se encantaram com as descobertas de Freud. Pelo caminho, muitos formaram alianças e muitos se separaram, dando destinos diferentes às suas ideias. De toda forma, não deve nos causar surpresa o fato de que estudiosos brilhantes discordem tanto. O estudo da consciência humana é controverso em sua natureza porque há menos evidências e mais deduções. Ainda que saibamos que, após o olhar de Freud, vários foram aqueles que contribuíram para a expansão e o desenvolvimento da psicanálise, seria impossível abarcar todas as figuras importantes no presente trabalho. Tal fato, não desmerece nenhum deles, só tem como objetivo permitir-nos um curso mais focado. Para um estudo mais aprofundado sobre as escolas psicanalíticas, sugerimos ver algumas ideias de livros expostos na referência bibliográfica, presente na apostila do módulo II.
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    23 1.3 – Junge a psicologia analítica "Só aquilo que somos realmente tem o verdadeiro poder de curar-nos." Responsável por ter desenvolvido importantes conceitos da psicologia como personalidades introvertidas/extrovertidas e inconsciente coletivo/arquétipos, sua análise sobre a natureza humana envolveu investigações acerca das religiões ocidentais, alquimia, parapsicologia e mitologia. Assim, dentro de amplo conhecimento cultural e intelectual que possuía, Jung fundou a psicologia analítica, uma das linhas de estudo da psicanálise que entendia os distúrbios mentais como uma forma patológica de procurar pela autorrealização pessoal e espiritual. Um dos alunos mais conhecidos de Freud, Carl Gustav Jung, nasceu em uma aldeia suíça, em 1875. Tanto seu pai como vários parentes próximos eram pastores luteranos e, desta forma, já durante sua infância, percebe-se o quanto foi tocado profundamente por questões tanto religiosas quanto espirituais. Filho único, formou-se em medicina pela Universidade da Basiléia, em 1900, e apresentou, em 1902, sua tese de psiquiatria sobre “Os chamados fenômenos ocultos”. Começou a trabalhar com esquizofrênicos, no hospital psiquiátrico Burgholzi, em Zurique, tornando-se grande admirador de Freud. Estava tão entusiasmado com as novas perspectivas abertas pela psicanálise, que decidiu conhecê-lo pessoalmente, indo a Viena, em 1907. De acordo com Taboada (2004), de início, a identificação foi instantânea. Não só pela convergência de ideias, como a relação interior que ambos acreditavam existir entre os processos associativos alterados e os fenômenos psicopatológicos, como pela
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    24 concepção de quetal acontecimento se dava por um fator inconsciente, com forte carga afetiva que exercia influência sobre a vida psíquica e sobre o comportamento dos indivíduos. Dessa maneira, ambos percebiam que os fatos retidos no inconsciente podiam permanecer ativos por muito tempo e desencadear perturbações da vida mental. Porém, a identidade de pensamentos não foi capaz de esconder diferenças fundamentais, surgindo divergências de pensamentos. A união foi então rompida devido à discordância em pontos fundamentais. Jung não aceitava a insistência de Freud de que as causas da repressão dos conteúdos inconscientes eram sempre originadas devido a traumas sexuais não elaborados pela consciência. Com isso, conforme lembrado por Taboada (2004), ele não pretendia negar a importância das cargas emocionais ligadas à sexualidade nem o poder patogênico dos traumas. Somente acreditava que, para que o trauma exercesse a sua ação patogênica, era preciso que houvesse uma “predisposição interior específica”. Além disso, por sua vez, como era de se esperar, Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos mitológicos, espirituais e ocultos: “O positivismo científico materialista de Freud não perdoou o discípulo que buscou o fundamento criativo da religião.” (BYNGTON, 2004, p.7). O rompimento definitivo se deu em 1912, e cada um seguiu caminhos diferentes com ressentimento de ambos os lados. Depois de um tempo recolhido, Jung continuou a sua trajetória e desenvolveu o método de associação de palavras, que visava o estudo das associações do pensamento, com a finalidade de buscar o acesso aos fenômenos irracionais da psique. Visando analisar a conexão entre associação e alterações da atenção, Jung pôde perceber que certos eventos, tidos como falhas irrelevantes eram, na verdade, interferências emocionais sobre o padrão de resposta. “As investigações sobre o conteúdo e o aspecto afetivo subjacente levavam a conteúdos inconscientes com forte carga emocional.” (TABOADA, 2004, p. 19) Algumas palavras indutoras provocavam reações perturbadoras capazes de demonstrar a relação com conteúdos emocionais ocultos. Esses conteúdos, descobertos
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    25 por Jung durantetais experimentos, foram denominados de complexos, definidos como um agrupamento de conteúdo psíquico, carregado de afetividade, que estabelece associações com outros elementos. De tal forma, os complexos são capazes de interferir na vida consciente, nos envolvendo em situações contraditórias, perturbando a memória e arquitetando sonhos, por exemplo. Assim, podemos perceber que o bem-estar depende dos complexos que possuem maior ou menor autonomia, dependendo da conexão com a totalidade da organização psíquica. Apesar do mal-estar que podem causar, não são considerados elementos patológicos, mas sinal de conteúdos conflitivos que não foram assimilados. Para que isso ocorra, por sua vez, é preciso compreender os conflitos em termos intelectuais e exteriorizar os afetos envolvidos. Em 1917, Jung publicou o livro "A Psicologia do Inconsciente" com seus estudos sobre o inconsciente coletivo, também conhecido como impessoal ou transpessoal. Detentor de recordações, sentimentos e pensamentos capazes de condicionar os sujeitos, o inconsciente coletivo contém arquétipos, isto é, tendências herdadas e armazenadas que levam o indivíduo a se comportar de modo semelhante aos seus ancestrais. Desta forma, seja em momentos individuais ou durante manifestações de elementos culturais, como é o caso das religiões e dos mitos, o material psíquico universal, e não estabelecido em nossa experiência pessoal, encontra-se no inconsciente coletivo. Assim, repleto de material representativo, possui uma forte carga afetiva comum a toda humanidade como, por exemplo, essa sensação universal da existência de Deus. De acordo com Alves (2005), Jung concluiu que o inconsciente era mais do que um depósito de desejos reprimidos expressos em sonhos, como entendia Freud. Ainda que não negasse a existência do inconsciente individual, ele acreditava em um inconsciente mais profundo e não pessoal, comum a todos os homens e culturas, expresso através de símbolos que vêm à tona em sonhos, mitos e expressões artísticas. Todos os indivíduos compartilham os mesmos símbolos, ainda que, em cada cultura, eles tenham roupagem própria.
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    26 Seguindo em suateoria, o processo de individuação é tido, por ele, como a nossa grande tarefa existencial. Tal processo costuma ser deflagrado espontaneamente no indivíduo já adulto, o que o fez ter tanto interesse no estudo desta fase da vida. Para Jung, o que nos acontece na primeira metade da vida é uma espécie de preparação para o nosso processo de individuação, a descoberta de nossa identidade profunda, que ocorre somente através da realização de nossos potenciais. De acordo com Ramos e Machado (2004), o processo de individuação, que percorre toda a evolução humana, tanto individual como coletiva, refere-se ao processo de se tornar uno, indivisível, isto é, um ser único através do autoconhecimento. Ainda que tal processo de desenvolvimento da personalidade seja algo idealizado, é, ao mesmo tempo, aquilo que motiva o ser humano, desde o seu nascimento à velhice, o guiando em suas escolhas afetivas e profissionais. Paradoxal como pode parecer, este processo resulta da interação do indivíduo com o coletivo. Visto que, individuar-se não é individualizar-se, é impossível a ocorrência deste processo fora da interação com o outro. “De certo modo, o processo de individuar-se depende dessa fina sintonia com o que podemos chamar de nossa essência e que, embora dependa da genética, da educação e do ambiente familiar e cultural, certamente a todos transcende.” (RAMOS e MACHADO, 2004, p.42)
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    27 Já, para Vargas(2004), o termo individuar é entendido como “tornar-se si mesmo”, atingindo os potenciais próprios de cada um. Para o autor, a individuação é um processo espontâneo de amadurecimento, por meio do qual o indivíduo se torna o que está “destinado a ser”, desde o início. Precisamos lembrar que é através do processo de individuação que entramos em contato com os arquétipos. E, de acordo com Vargas (2004), Jung discriminou em quatro fases este processo: a conscientização da persona, o confronto com a sombra, o encontro com a anima (para o homem) ou com o animus (para a mulher) e, finalmente, o encontro com o Self (ou si mesmo). Antes de entrarmos na explicação de tais termos levantados agora, precisamos esclarecer que, ao investigar as criações artísticas das antigas civilizações, Jung percebeu alguns símbolos de arquétipos comuns, mesmo entre culturas distantes no tempo e no espaço. Diferentemente dos arquétipos que não têm um conteúdo definido, os símbolos podem ser individuais ou coletivos, ter um significado óbvio com uma conotação específica e só podem ser considerados como tal, quando evoca algo mais do que o seu simples significado. “O símbolo representa a conexão com a energia arquetípica necessária para a consecução de feitos que alteram o estado das coisas e podem trazer novas soluções para conflitos aparentemente insolúveis.” (RAMOS e MACHADO, 2004, p. 46) Para Jung, o símbolo aponta um vínculo entre aspectos conscientes e inconscientes de um mesmo elemento, contendo uma esfera irracional e um enorme poder de mobilização. Desta forma, a palavra símbolo passou a ser
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    28 utilizada com afinalidade de assinalar a união de opostos, do conhecido e do desconhecido. Além disso, como o que desconhecemos carrega o seu valor afetivo, o símbolo sempre é capaz de despertar emoção. Ramos e Machado (2004) salientam a importância de entendermos que Jung usou o conceito de símbolo baseado em sua etiologia: sym (juntar) e balein (em direção a). De tal forma, symbalein significava, na Grécia Antiga, o ato de unir duas metades de uma mesma moeda que fora partida na separação de duas pessoas. “Quando uma delas desejava enviar uma mensagem importante à outra, o mensageiro trazia consigo uma das metades da moeda. Desse modo, o destinatário da mensagem poderia verificar sua autenticidade ao constatar a perfeita união das duas metades (uma conhecida, outra incógnita).” (RAMOS e MACHADO, 2004, p. 45) Agora, voltando só um pouco ao que vimos acima sobre os complexos, precisamos completar que eles fazem parte do nosso inconsciente pessoal6 , isto é, da “sombra”, e são, de acordo com Ramos e Machado (2004), responsáveis, em grande parte, pelos nossos comportamentos mais aberrantes e desadaptativos à realidade. Temos acesso à sombra através da jornada do autoconhecimento. Aquilo que escondemos é necessário ser revelado para que seja possível transcender a tais conteúdos. Sem limparmos esse conteúdo é impossível que sejamos livres, pois não pertencer à esfera da consciência não quer dizer que a sombra não influencie as atitudes humanas. Em outras palavras, sem a conscientização da natureza da sombra, não existe processo de individuação. 6 Vale lembrar, como já ressaltado por Ramos e Machado (2004), o conceito junguiano de inconsciente como fonte de criatividade e potencialidade e não somente como depositário de conteúdos reprimidos, imagens ou vivências dolorosas bloqueadas pelo mecanismo do ego. É de lá que surgem os impulsos que tomam forma na matéria, de acordo com o espaço e o tempo de uma pessoa.
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    29 Porém, a necessidadede nos adaptarmos à vida em sociedade, como as exigências culturais, nos leva a desenvolver o que Jung nomeou de persona, uma máscara coletivamente reconhecível e aceitável. Nas palavras de Ramos e Machado (2004): “Quando extremamente rígida, a persona pode cindir com os aspectos mais profundos do ser e passa a expressar apenas um aspecto desejado externamente, sem refletir o caráter mais ontológico do “si mesmo”. Quando integrada, a persona é criativa e possibilita a expressão de diferentes facetas do indivíduo.”(p. 47) Outro conceito importante na psicologia analítica, diz respeito a um aspecto do inconsciente observado indiretamente: a anima e o animus, contrapartes sexuais do homem e da mulher que funcionam como elo entre o mundo interno e o ego. Da mesma forma como existem aspectos biológicos masculinos na mulher, igualmente, existem aspectos psicológicos masculinos correspondentes ao arquétipo do animus. Assim, um e outro possuem qualidades humanas que faltam na disposição consciente. “As projeções românticas têm a função de estabelecer um confronto com o inconsciente, e sua retirada permite uma expansão do autoconhecimento. Mediante a relação com o sexo oposto podemos conhecer a realidade de nosso potencial, pois tornar-se consciente não é um projeto isolado. Embora requeira certa dose de introspecção, essa jornada implica convívio com o outro para se realizar.” (RAMOS e MACHADO, 2004, P. 47) Foi em 1921, em seu livro "Tipos Psicológicos", uma de suas obras mais conhecidas, que Jung propôs que cada indivíduo possuía uma maneira singular de apreender o mundo. Para caracterizar esta tipologia, dinâmica e desenvolvida, ao longo da vida, Jung descreveu duas atitudes (extroversão e introversão) e quatro funções da consciência (pensamento, sentimento, sensação e intuição).
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    30 De acordo comFadiman e Frager (1986), a energia dos introvertidos segue de forma mais natural em direção a seu mundo interno, enquanto que a energia do extrovertido é mais focada no mundo externo. Os interesses primários dos introvertidos se concentram em seus próprios pensamentos e sentimentos, ou seja, em seu mundo interior. Por sua vez, os extrovertidos envolvem-se com o mundo externo das pessoas e das coisas e têm uma tendência mais social, necessitando de proteção para não serem dominados pelo mundo de fora e se alienarem de seus próprios processos internos. Vale ressaltar que essas atitudes, ainda que não sejam totalmente cristalizadas, se excluem mutuamente, visto que seria impossível manter as duas ao mesmo tempo. O ideal é que o ser humano tenha uma cota de flexibilidade, podendo adotar ambas, quando apropriado for e, assim, sem responder de uma maneira fixa ao mundo, operando em termos de um equilíbrio. As quatro funções da consciência levantadas acima estariam, para Jung, dispostas em dois pares de opostos, um racional (pensamento e sentimento) e o outro irracional (sensação e intuição). Cada função pode ser combinada e experimentada de uma forma introvertida ou extrovertida. “Para que possamos nos orientar, precisamos de uma função que nos afirme que algo está aqui (sensação), outra função que nos demonstre o que é (pensamento), uma terceira que declare se isto é ou não apropriado (sentimento) e uma quarta que indique de onde isso veio e para onde vai (intuição).” (JUNG, 1942, p. 167) Para Jung, o pensamento é a alternativa de elaborar os julgamentos e de tomar as decisões. As pessoas que funcionam com o predomínio de tal função psíquica são chamadas de reflexivas, por serem grandes planejadores que se agarram aos planos e às teorias, ainda que sejam confrontados com evidências. Por sua vez, o sentimento age como uma função orientada para o aspecto emocional da experiência, baseada em emoções intensas ainda que negativas. Aqui, a tomada de decisões está atrelada aos
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    31 julgamentos de valorespróprios como certo e errado. De maneira simplificada, podemos dizer que, enquanto o pensamento nos diz o que é esse algo, o sentimento nos diz se esse algo é agradável ou não. Já a sensação, classificada junto com a intuição, é uma forma de apreender informações, ou seja, é a percepção dos detalhes e de fatos concretos. Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, lidando de forma eficiente com todos os tipos de emergência. Jung via a intuição como uma forma de processar a informação em termos passados, objetivos futuros e processos inconscientes. Assim, as consequências são mais importantes do que a experiência. Seus tipos nos falam de pessoas que processam as informações rapidamente, relacionando automaticamente a experiência passada com informações da experiência imediata. Uma maneira de simplificar o conceito apresentado é dizendo que a sensação nos expõe que algo existe e a intuição nos diz de onde esse algo vem e pra onde vai. “Ninguém desenvolve igualmente todas as quatro funções. Cada um tem uma função dominante e uma auxiliar parcialmente desenvolvida. As outras duas funções são, em geral, inconscientes e a eficácia de sua ação é bem menor. Quanto mais desenvolvidas e conscientes estiverem as funções dominantes e a auxiliar, mais profundamente serão os seus opostos.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 48) De acordo com Vargas (2004), ainda que o tipo psicológico, essencialmente herdado, conserve-se o mesmo ao longo da vida, com o amadurecimento incide uma tendência à maior integração à consciência das funções menos desenvolvidas. Com isso, ocorre uma maior harmonização da personalidade quanto ao uso das quatro funções e das duas atitudes. Em 1928, Jung se interessou pelos trabalhos de Reich e, juntos, passaram a estudar alquimia, comungando a ideia da natureza humana original e criativa, que se
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    32 esconde atrás deum homem massificado, que há muito perdeu a conexão com a totalidade da vida e com suas raízes mais profundas. No mesmo ano que lançou o livro “Psicologia e Alquimia”, Jung sofreu um infarto, resolvendo renunciar às atividades docentes. Nesta obra, Jung fala do simbolismo da alquimia como intimamente relacionado com o processo analítico. No estudo deste livro, utilizou uma amostra de sonhos de um paciente, mostrando como os símbolos utilizados pelos alquimistas ocorrem na psique, como parte do depósito de imagens mitológicas utilizadas pelo indivíduo em seu estado de sono. De acordo com Jung, a terapia é um esforço em conjunto do analista e do analisado, que trabalham junto como iguais, em um relacionamento onde o analisado deve ser visto por inteiro, sem procurar consertar partes isoladas de sua psique, alcançando, finalmente, o seu estado de individuação. Apesar de tantos conceitos apresentados aqui, foi o esforço de Jung evitar a ênfase em uma teoria ou em técnicas específicas no processo terapêutico. Seu medo era o de transformar o comportamento do analista em algo mecânico e, assim, prejudicar o contato com o analisado. Jung não queria a existência de junguianos, objetivando, com tal afirmação, que quem concordasse com a sua psicologia, experimentasse um caminho próprio. De acordo com Vargas (2004): “Para que cada junguiano, dentro de sua individuação, possa se exercer como analista, ele necessita de uma formação ampla e profunda, que implica a aquisição de conhecimentos teóricos, técnicos e vivenciais. A clínica junguiana, vasta e muito rica, com inúmeras aplicações, pode utilizar-se de diferentes técnicas, conforme o analista e o cliente.” (p. 74) Jung morreu aos 86 anos, em 1961, após ter levado uma vida que marcou a antropologia, a sociologia e a psicologia, além de campos como a arte, a mitologia e a literatura.
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    33 1.4 – WilhelmReich e a psicologia do corpo “Do irreal resulta a impotência; o que não somos capazes de conceber não podemos dominar.” Reich foi o fundador do que poderíamos chamar de psicoterapia orientada para o corpo, visto que seu trabalho objetivava a libertação de emoções através deste. Enfatizou a necessidade de lidar com os aspectos físicos do caráter, em especial os modelos de tensão muscular crônica, tendo como principais contribuições os conceitos de caráter e couraça, que se desenvolveriam a partir do conceito freudiano da necessidade do Ego em se defender contra forças instintivas. Wilhelm Reich7 nasceu, em 1897, na Galícia, mais precisamente em Dobrzynica, uma parte da Áustria germano-ucraniana. Filho de fazendeiro judeu de classe média, seu pai era uma figura autoritária de forte temperamento e sua mãe, uma mulher bem atraente que se suicidou quando ele tinha 14 anos, aparentemente depois de Reich ter revelado ao seu pai que ela tinha um caso com o seu tutor. Seu pai morreu de tuberculose três anos mais tarde e seu único irmão quando Reich tinha 26 anos. 7 Como título de curiosidade, vale ressaltar que tanto a religião quanto as observâncias judaicas não tiveram nenhum papel significativo na educação de Reich.
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    34 Foi pouco depoisda 1ª Guerra Mundial que Reich alistou-se no exército austríaco, onde chegou ao posto de tenente e entrou em serviço ativo na Itália. Ao final da guerra, foi para Viena, como um veterano de apenas 21 anos. Em 1918, Reich ingressou na escola médica, na Universidade de Viena, decidindo, quase que instantaneamente, dedicar-se à psiquiatria. Profundamente interessado na sexualidade humana, em 1919, procurou Freud com a finalidade de organizar um seminário sobre sexologia na escola que frequentava. Apenas um ano depois, aos 23 anos de idade, Reich começou a participar das reuniões da “Sociedade Psicanalítica de Viena” como membro efetivo. Assim, a clínica psicanalítica fundada por Freud, em Viena, o teve como primeiro assistente clínico. Destinada a pacientes que não podiam pagar pelo tratamento, a demanda era enorme. Tal fato, na percepção de Reich, demonstrava que a neurose era uma doença de massa, que precisava ser tratada além dos limites da psicanálise. De acordo com Kignel (2004), em 1921, Reich iniciou a sua prática psicanalítica, antes mesmo de ter sido analisado, passando a atender os pacientes encaminhados por Freud, em um profundo exemplo de admiração pelo seu trabalho. “Em 1927, Reich procurou fazer análise com Freud, que se recusou a fazer uma exceção à sua política de não tratar membros do círculo psicanalítico profundo. Nesta época, desenvolveu-se um sério conflito entre ambos que começou, em parte, pela recusa de Freud em analisá-lo e, por outro lado, com o aumento das divergências teóricas que resultaram do envolvimento marxista de Reich e sua insistência de que toda neurose era baseada numa falta de satisfação sexual.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 89)
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    35 Somado a isso,segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006), enquanto Freud considerava a neurose decorrência de uma perturbação sexual – e sexo precisa ser percebido em um sentido amplo, como o foi para ele –, Reich assegurava que a neurose era uma perturbação sexual em sentido restrito, isto é, uma falha na capacidade de atingir o orgasmo. Por tal motivo, a neurose não só bloqueia a capacidade de entrega como retém a energia em couraças musculares8 , impedindo a descarga sexual. Desta forma, para Reich, a gratificação sexual plena, além da função profilática, por evitar o desencadeamento do processo neurótico, também desempenha uma função terapêutica contra a própria neurose. Isso porque, para ele, quando se atinge a satisfação orgástica é descarregada toda a energia do organismo, não restando nada para determinar e/ou manter o sintoma neurótico. Assim, segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006), quando esse alívio é bloqueado ou insuficiente, segundo Reich, o sistema nervoso autônomo se sobrecarrega de energia e a excitação sexual crescente, não liberada, se exterioriza sob a forma de angústia. Em outras palavras, a ausência do orgasmo, portanto, seria o mecanismo central determinante da angustia e, por conseguinte, da neurose. Outra grande divergência com os conceitos da psicanálise freudiana foi a ideia de Reich, de que a libido é uma força, sobretudo orgânica e mensurável, e não uma energia psíquica. Sua proposta tem, no orgasmo, a visão de que ele é capaz de descarregar o excesso de energia do organismo. Por tal razão, resumidamente, sua meta terapêutica visava a libertação dos bloqueios corporais e a obtenção plena da capacidade orgásmica. Vale ressaltar que a psicoterapia realizada antes de Reich, basicamente, ignorava os processos corporais. Foi ele quem passou a pensar no corpo como fonte e resolução dos conflitos. Segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006), é inegável que a psicossomática já correlacionava as doenças físicas com os conflitos psíquicos, mas em termos de 8 Tal conceito será explicado em breve. Por enquanto, nos basta a ideia levantada por Cavalcanti e Cavalcanti (2006), que afirmam a couraça muscular como sendo um padrão geral de tensão muscular crônica do corpo que funciona como um escudo, retendo energia que não pode ser descarregada.
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    36 terapia psicanalítica, assensações orgânicas eram apenas trabalhadas verbal e mentalmente. “A psicanálise, de modo geral, ainda não tinha se alertado para o fato de que o organismo vivo se expressa mais claramente pelos movimentos corporais do que por palavras. O corpo fala por meio da linguagem viva da postura, da expressão fisionômica, dos gestos; uma língua que antecede, precede e transcende a expressão oral. Quando se admite que o físico e o psíquico são apenas níveis de uma mesma realidade, torna-se evidente a possibilidade de operar modificações psíquicas por intermédio da estrutura orgânica.” (CAVALCANTI e CAVALCANTI, 2006, p. 20) Foi Reich que nos trouxe este olhar para a relação da mente e do corpo. E, de tal forma, interessado no papel da sociedade na criação de inibições, fundou uma psicologia orientada para o corpo. “Assim, por volta de 1950, Reich ocupou-se com experimentos envolvendo acumuladores de energia orgônica: caixas e outras invenções que, segundo ele, armazenam e concentram energia orgônica. Reich descobriu que várias doenças que resultavam de distúrbios do “aparelho automático“, podiam ser tratadas com graus variados de sucesso, pelo restabelecimento de um fluxo normal de energia orgônica do indivíduo. Isto poderia ser conseguido pela exposição a altas concentrações de energia orgônica nos acumuladores. Estas doenças incluíam câncer, angina de peito, asma, hipertensão e epilepsia.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 90)
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    37 Ele percebeu queera possível isolar a energia da vida, guardando-a em acumuladores conhecidos como caixa de orgone. Ao posicionar os doentes dentro de tais caixas, ele acreditava estar tratando de doenças sérias. Tudo isso porque, para ele, tal Energia Orgônica, termo derivado a partir do organismo e orgasmo, flui naturalmente por todo o corpo, de cima a baixo, paralela à espinha. Livre de massa, essa energia vital e necessária ao funcionamento humano, não possui inércia ou peso, encontra-se presente em qualquer parte, embora em diferentes concentrações. Além disso, por estar em constante movimento, pode ser observada em condições apropriadas, e por governar o organismo total, além de se expressar nas emoções e nos movimentos biofísicos dos órgãos, torna-se o centro da atividade criativa. Em outro estudo, Reich nomeou o caráter como aquilo que é composto pelas atitudes habituais de uma pessoa e de seu padrão consistente de respostas para diversas situações. O conceito inclui, não só modos e valores conscientes, como, também, o estilo de comportamento e as atitudes físicas. De acordo com Fadiman e Fragner (1986), o caráter se forma como uma defesa contra a ansiedade, criada pelos intensos sentimentos sexuais da criança e o consequente medo da punição. A primeira defesa contra este medo é o mecanismo de defesa do ego conhecido por repressão, o qual refreia os impulsos sexuais por algum tempo. À medida que as defesas do ego se tornam cronicamente ativas e automáticas, elas evoluem para traços ou couraça caracterológica, como resultado de todas as forças defensivas repressoras, instituídas de forma mais ou menos lógica dentro do próprio ego. Além disso, para ele, cada atitude de caráter tem uma atitude física correspondente, ou seja, o caráter do indivíduo é anunciado no corpo, em termos de rigidez muscular ou couraça muscular. Como não somente de recalque vive o
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    38 inconsciente, mas derepresentações contidas no organismo como um todo, ele tenta ativar o inconsciente através da observação, ação e interpretação das expressões não verbais. Para isso, Reich analisava seus pacientes pela avaliação da natureza e da função de seu caráter, ao invés de decompor seus sintomas. Assim, como o psiquismo e suas fixações podem ser acessados de diferentes maneiras – além das livres associações verbais – é missão do terapeuta reichano não só avaliar o que acompanha a história verbal do seu paciente, mas também ler a dinâmica da expressão corporal. Visto que o indivíduo que se encontra encouraçado é incapaz de expressar as emoções biológicas primitivas, o maior obstáculo presente ao crescimento são as couraças, que tem o papel de reduzir o livre fluxo de energia e a livre expressão de emoções, transformando-se em uma importante amarra, tanto física quanto emocional. Pensando sobre isso, com a finalidade de liberar emoções e fantasias contidas, Reich começou a trabalhar de forma direta no relaxamento da couraça muscular, pois, para ele, a liberação das emoções, através do trabalho com o corpo, produz uma vivência muito mais intensa do que aquela que desperta o material infantil como forma de trabalho. Para tanto, conforme levantado por Cavalcanti e Cavalcanti (2006), Reich utilizava a respiração profunda como procedimento terapêutico a fim de neutralizar tais couraças, com a colaboração ativa do paciente que, por sua vez, precisa enfrentar abertamente suas resistências ou restrições que surgem pelo caminho. Além disso, outra técnica utilizada dizia respeito à intensificação da tensão, que fazia os pacientes mais conscientes dela, aumentando a possibilidade de aliviar o que estava preso em determinada parte do corpo. Fadiman e Fragner (1986) acrescentaram que, para que seus pacientes se conscientizassem de seus traços neuróticos de caráter, Reich imitava com frequência suas características, gestos ou posturas, fazendo com que repetissem ou exagerassem uma faceta habitual do comportamento.
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    39 “Reich começou primeiramentecom a aplicação de técnicas de analise de caráter a atitudes físicas. Ele analisava, em detalhes, a postura de seus pacientes e seus hábitos físicos, a fim de conscientizá-los de como reprimiam sentimentos vitais em diferentes partes do corpo. Reich fazia os pacientes intensificarem uma tensão particular a fim de se tornarem mais conscientes dela e de eliciar a emoção que havia sido presa naquela parte do corpo. Ele descobriu que só depois que a emoção “engarrafada” fosse expressa, é que a tensão crônica poderia ser abandonada por completo.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p.93) Além de analisar de forma detalhada a postura dos seus pacientes e seus hábitos físicos para que pudessem ser conscientizados da forma como reprimiam os sentimentos vitais em diferentes partes do corpo, Reich descobriu que as tensões musculares crônicas servem para bloquear uma das três excitações biológicas: a excitação sexual, a ansiedade ou a raiva. Como vimos, o desenvolvimento de um traço neurótico de caráter marcaria a solução de uma questão que foi reprimida ou transformaria a repressão em uma formação relativamente rígida e aceitável pelo ego. Faz-se importante salientar que traços de caráter são conceitos, para Reich, diferentes dos sintomas neuróticos. Enquanto esses últimos são experimentados como estranhos ao indivíduo (tais como fobias ou medos), os traços de caráter são vividos como parte integrante da personalidade. Assim, as defesas de caráter, além de particularmente efetivas, são difíceis de serem erradicadas, por estarem bem racionalizadas pelo indivíduo e, portanto, experimentadas como parte do seu autoconceito. Voltando ao conceito da couraça muscular, precisamos salientar a sua organização em sete básicos segmentos de armadura, compostos por músculos e órgãos com funções expressivas relacionadas. Formando uma série de anéis mais ou menos
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    40 horizontais e emângulo reto com a espinha e o torso, os principais segmentos da couraça destacados por Fadiman e Fragner (1986), segundo Reich são: • Olhos: Expressada pela imobilidade da testa e por uma expressão vazia dos olhos, tal couraça é dissolvida, abrindo fortemente os olhos, imitando uma expressão de espanto para que mobilize as pálpebras e a testa e, de tal forma, encorajar a expressão emocional. Os olhos também devem movimentar livremente, tanto em círculos como olhando de lado a lado. • Boca: Inclui os músculos da garganta, parte de trás da cabeça e o queixo. O maxilar pode ser demasiadamente preso ou frouxo de uma forma que não é natural. A ideia de soltar tal couraça passa por encorajar o paciente a imitar o choro, reproduzir sons que mobilizem os lábios e o morder. • Pescoço: Inclui os músculos profundos do pescoço e a língua. Como essa couraça é a responsável por segurar a raiva ou o choro, para soltar tal seguimento seria preciso berrar, por exemplo. • Tórax: Este segmento contém os músculos longos do tórax, os músculos dos ombros e da omoplata, toda a caixa torácica, as mãos e os braços. Sua função é inibir o riso, a raiva, o desejo e a tristeza. Como consequência, a respiração também se torna bloqueada. Assim, além de trabalhar com a respiração, deve-se trabalhar a utilização dos braços e das mãos para bater ou rasgar. • Diafragma: Este segmento abarca o diafragma, o estômago, o plexo solar, os vários órgãos internos e os músculos ao longo das vértebras torácicas baixas. Sua função é inibir a raiva. • Abdômen: Inclui os músculos abdominais longos e os músculos das costas, relacionada com a inibição do rancor, capaz de produzir instabilidade.
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    41 • Pelve: Abarcatodos os músculos da pelve e membros inferiores. Tal couraça serve para impedir a raiva e o prazer, sendo impossível de experimentá-lo antes de liberar a raiva contida dos músculos pélvicos. Para Reich, o crescimento psicológico é um processo de dissolução da nossa couraça psicológica e física, o que nos torna seres humanos mais livres e capazes de orgasmos plenos e satisfatórios. Porém, citando Fadiman e Fragner (1986): “aprender a equilibrar o autocontrole e a livre expressão permanece como parte de um contínuo processo de crescimento.” (p. 104) Da mesma forma, dentro da visão de tal linha, o terapeuta reichiano precisa ter atingido um apreciável progresso em seu crescimento pessoal, visto que, para trabalhar psicológica e fisicamente com um indivíduo, ele precisa ter ultrapassado os medos das produções ativas de seu corpo, permitindo um livre movimento de energia corpórea. Vale ressaltar, ainda, que de acordo com o que foi levantado por Fadiman e Fragner (1986), a extensa pesquisa feita por Reich sobre energia orgônica e tópicos relacionados, foi ignorada ou repudiada pela maioria dos cientistas e críticos. Visto que o seu programa de orientação sexual é controverso ainda hoje, sabemos que suas ideias foram bastante contestáveis para a sua época. Para termos uma base, por volta de 1933 e
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    42 1934, em umperíodo de seis meses, Reich havia sido expulso de suas duas principais filiações profissionais, políticas e sociais, além de três países diferentes. A vida de Reich ocorre em paralelo a perseguições, entre outras, do FBI e FDA (Food and Drug Administration9 ). Esta última expediu uma imposição, impedindo a distribuição das caixas de orgone, afirmando que as pretensões a respeito do resultado divulgado por Reich eram de natureza fraudulenta. Reich recusou a interdição, sendo acusado de desrespeito e condenado a dois anos de prisão, devido à ação movida pelo órgão responsável pelo controle de medicamentos dos Estados Unidos. Depois de preso, foi diagnosticado como paranóico, precisando ser transferido a uma penitenciária com instalações para tratamento psiquiátrico. Suas obras foram apreendidas e todas as cópias de seus livros e revistas nos EUA foram queimadas, antes de seu julgamento, em praça pública. Suas opiniões radicais a respeito da sexualidade resultaram em consideráveis equívocos e distorções por outros autores, despertando ataques difamatórios e infundados. Ainda que sua trajetória nos conte de obras proibidas de serem impressas ou divulgadas e que seu trabalho não deixe de ter falhas experimentais, sua pesquisa nunca foi recusada ou revista com cuidado por qualquer científico respeitável. Reich acabou enlouquecendo na prisão, onde morreu, em 1957, de um ataque cardíaco. Seu corpo recebeu sepultura simples, em seu local de trabalho e moradia. 9 Agência governamental americana que lida com o controle das indústrias alimentícias e de medicamentos. Em 1931, apresentou um programa em um congresso, em Dusseldorf, com a seguinte proposta: Kignel (2004) • Distribuição livre de preservativos a todos que não pudessem obtê-los através de caminhos normais e uma massiva propaganda pra o controle de natalidade; • Abolição das leis contra o aborto. Providências para liberá-lo em clínicas públicas, salvaguardas financeiras e medicas para mulheres grávidas e novas mães.
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    43 1.5 – J.Lacan e sua contribuição à psicanálise “O sintoma é a inscrição do simbólico no real.” • Abolição de qualquer distinção entre casados e não casados. Liberdade para o divórcio; eliminação da prostituição através de mudanças econômicas e sexo- econômicas para erradicar suas causas; • Eliminação de doenças venéreas através de um abrangente programa de educação sexual; • Prevenção de neuroses e problemas sexuais por meio de educação afirmativa da vida; estudo de princípios pedagógicos sexuais; estabelecimento de clínicas terapêuticas. • Treinamento de médicos, professores e trabalhadores sociais em todos aspectos relevantes para higiene sexual. • Tratamento em substituição à punição em casos de abuso ou crime sexual; proteção das crianças e dos adolescentes contra sedução de adultos.
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    44 Suas ideias defundo estruturalista abalaram o cenário psicanalítico da França a partir da década de 60. Conhecido por não ser um autor de fácil leitura, uma vez que seus textos apresentam grande complexidade conceitual, além de terem sido escritos em estilo elíptico, seus conceitos demandam uma inversão do pensamento linear e racional, o qual a cultura ocidental está acostumada. Suas percepções vão bem além dos muros do seu uso clínico, constituindo-se em interlocutora de campos como a estética, a filosofia e a crítica literária. Em 1901, nasceu, na França, Jacques Marie Émile Lacan (1901-1981), psiquiatra e psicanalista francês, responsável por reformular a obra freudiana, dando-lhe um caráter mais filosófico e tirando-lhe o substrato biológico. Primogênito de uma próspera família de forte influência católica e burguesa de origem provinciana, sua família paterna era de vinagreiros de Orléans e de sólida tradição católica. Por conta desta tradição, Lacan estudou no Colégio Stanislas, uma célebre instituição dirigida por jesuítas, onde adquiriu uma nobre formação que incluía estudos de alemão, latim, grego, retórica, matemática e filosofia. Mostrou uma impressionante atração pela psicanálise, em uma época em que as ideias de Freud estavam ganhando espaço dentro do pensamento francês, ainda que os preconceitos impedissem a sua disseminação no país. Além deste fato, seu interesse desde cedo pela filosofia, o permitiu uma base intelectual que os psicanalistas do seu tempo não possuíam. Assim, Lacan teve contato com a psicanálise através do surrealismo, a partir de 1951. Para ele, os pós-freudianos haviam se desviado muito das ideias de Freud. Sua visão era retomá-la através da linguística de Saussure e da antropologia estrutural de Lévi-Strauss.
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    45 Estudou medicina, e,depois de formado, passou a atuar como neurologista e psiquiatra. Por volta de 1932, já estava envolvido com a “Sociedade de Neurologia”, a “Sociedade de Psiquiatria” e a “Sociedade de Saúde Mental”, estando completamente integrado nos círculos de neurologia e psiquiatria. Na sua tese de medicina, escreveu e publicou seu primeiro trabalho sob o título de: “A psicose paranóica e suas relações com a personalidade”, momento inaugural da carreira deste médico psiquiatra, praticamente desconsiderado pelo meio da época. Para se ter uma ideia, no mesmo ano da sua publicação, em 1932, Lacan enviou para Freud sua tese, recebendo como resposta apenas um cartão postal. Eles nunca chegaram a se encontrar. Em 1934, Lacan casa-se com a sua primeira mulher, Marie-Louise Blondin, filha de um homem de destaque na medicina, com quem teve três filhos: Caroline (1937), Thibault (1939) e Sybille (1940). No mesmo ano, se afiliou a “Société Psychanalytique de Paris” (SPP), fundada oito anos antes. Lacan era tido como um intelectual brilhante fora dos meios psicanalíticos franceses, porém o abalava o fato de não ser reconhecido pela SPP, onde os seus trabalhos não só não eram levados em conta, como o seu anticonformismo produzia profunda irritação. Assim, ele próprio se demitiu junto com Daniel Lagache, J. Favez-Boutonier e F. Dolto, fundando, os quatro, a “Sociedade Francesa de Psicanálise”, que durou 30 anos. Com tal decomposição, surge uma nova Escola onde Lacan passou a fazer uma seleção das demandas. Em 1941, Lacan separa-se de Marie-Louise. E, no mesmo ano, nasce Judith Sophie, filha de Lacan com sua 2ª mulher, Sylvia Bataille. Autor polêmico e de importância singular, Lacan interrompe as sessões conforme sua vontade, recebendo as pessoas sem ao menos marcar hora. Sua técnica foi
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    46 alvo de constantescontestações, inclusive da comissão de ensino, que exigiu que regularizasse tal situação. A lógica de Lacan nos diz que se o inconsciente é atemporal, não faz sentido insistir sobre sessões padronizadas. Porém, conforme foi levantado por Goldenberg (2004), as sessões curtas não podem ser confundidas com o embasamento teórico do tempo lógico. O uso lógico do tempo é a tentativa de reduzir a duração da sessão, curta ou longa, ao tempo do acontecimento discursivo, cujas consequências serão elaboradas pelo paciente fora do consultório enquanto cuida da vida. Outra forma de ver Lacan nos foi proposta por Oliveira (2004), que o divide em três tempos. Inicialmente, uma visão do futuro, da família ocidental, somada à visão social mais geral do mundo é um primeiro Lacan. Em seguida, e a partir de 1945, ocorre o movimento estruturalista de Lacan, descoberto através da leitura de Lévi-Strauss, onde se faz possível a elaboração de uma nova concepção do inconsciente e da linguagem. Já o 3º Lacan está voltado à pesquisa matemática, onde tentou, através de modelos lógicos, encontrar uma solução que pudesse responder a questão da formalização do inconsciente e da loucura. Há quem afirme que Lacan sofria de inibições de escrita, visto que o ensino de sua teoria e a transmissão de seus conceitos e pesquisas ocorreram de forma primordialmente oral, por meio de seminários e conferências, que constituíram o núcleo de seu trabalho teórico, ainda que a maioria deles transcrita e posteriormente publicada. Tal fato parece curioso, se pensarmos que sua vertente foi estudar a linguística e a lógica para reconfigurar a teoria do inconsciente, em um trabalho não só teórico como clínico. A linguagem se fez o centro de suas preocupações, visto que é a condição principal de existência do inconsciente, que só existe no sujeito falante. De acordo com Forbes (2004), para Lacan, palavras não são só palavras. Não há nada a ser buscado além delas e sim nelas.
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    47 Segundo Battaglia (2004),Freud afirmou que o ser humano quando nasce é um caos resultante de um corpo ainda fragmentado e descontínuo. Se, para Freud tal unidade só pode ser apreendida a partir de um esquema mental, por sua vez, Lacan afirma que esse esquema mental não é da ordem do natural, mas antecipado através de um Outro antes mesmo da capacidade motora da criança de se expressar, permitindo que haja a instalação das experiências subjetivas e cognitivas. Dizendo de outra forma, o Outro traduz a sua leitura pessoal de mundo para a criança e, neste sentido, a interpretação é obrigatória e repressiva, embora também imprescindível para que a criança se estabeleça. Assim, passamos a entender quando Lacan afirma que o conhecimento vem daquilo que é exterior ao conhecimento que o sujeito tem de si mesmo. “Parte de nós nos ultrapassa, visto que a linguagem “nos fala” muito antes que falemos através dela. O sujeito entendido pela psicanálise se faz como efeito da intervenção do Outro e da incidência da Lei na relação do Outro com o ser. O objetivo do trabalho analítico não é eliminar a divisão do sujeito, mas permitir que ele não responda cegamente ao desejo inconsciente – que é sempre desejo (de se fazer objeto) do desejo de um Outro – com a finalidade de se tornar capaz de se responsabilizar por sua condição desejante, a qual consiste, justamente, na impossibilidade de satisfazer plenamente o desejo e, portanto, na permanente tarefa de realizá-lo na produção simbólica.” (KEHL, 2004, p. 49) Assim, percebe-se que Lacan afirmava a importância do Eu frente ao inconsciente. De acordo com Cesarotto (2004), os humanos só podem existir graças à fala. O registro do simbólico tem, na linguagem, a expressão mais concentrada, regendo o sujeito do inconsciente: “Ele é a causa e o efeito da cultura, onde a lei da palavra interdita o incesto e nos torna completamente diferente dos animais” (p. 25)
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    48 Além disso, seantes Freud falava de relações bem estruturadas pela hierarquia, para Lacan tais relações se davam de modo mais horizontal e, assim, as figuras de autoridade perdem o lugar simbólico de poder e excelência. Bom exemplo disso é o complexo de Édipo, uma estrutura que privilegia o eixo vertical das identificações, basta ver o papel fundamental do pai em tal modelo. Porém, ao fazermos parte de uma era globalizada, quando a horizontalidade é mais importante do que a verticalidade anterior, Lacan propõe uma análise além das significações consagradas no ideal paterno e de seus representantes. É a análise de um sujeito de uma nova era. Outra importante releitura se faz entre a proposta do id, ego e superego de Freud. Na teoria lacaniana, o aparelho psíquico é uma organização única formada pelo Real e pelos registros do Imaginário e do Simbólico (RSI), que se representam em torno do furo inicial do objeto a. De acordo com o que foi levantado por Kehl (2004), o Real nos diz sobre aquilo que é irrepresentável, que tentamos permanentemente simbolizar. Já, de acordo com Cesarotto (2004), por sua vez, o Real é referido pela negativa, isto é, seria aquilo que, carecendo de sentido, não pode ser simbolizado, nem integrado imaginariamente. Voltamos a Kehl (2004), para buscar sua ideia sobre o Simbólico e acharmos que ele é o registro em que o trabalho psíquico se faz através do significante. Podemos dizer que o simbólico tem na linguagem a sua forma mais concreta, governando o sujeito do inconsciente, assim, ele se faz como o responsável pelas transformações do sujeito. “Ao contrário do imaginário, onde se produz a consistência e a fixidez das representações, no Simbólico a arbitrariedade da relação entre o significante e o significado permite uma mobilidade muito grande ao trabalho representacional do psiquismo. Se no Imaginário nos parece que as coisas “são o que são” – já que nada se parece mais com a verdade de uma coisa do que sua imagem – no Simbólico, o significante desliza, muda de sentido, desestabiliza a relação
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    49 do falante coma suposta verdade de sua fala.” (KEHL, 2004, p. 50) Por último, o Imaginário é entendido, pela mesma autora, (2004), como o registro onde as representações psíquicas se apoiam sobre as imagens, ganhando uma consistência que parece ser a expressão da verdade. Algum tempo se passou e Lacan mostrou que os três registros, essenciais da realidade humana, não podem ser isolados por se apresentarem unidos de modo indissociável na topologia do nó Borromeano, onde os elos estão dispostos de forma que, se cortarmos um deles, todos se desligariam simultaneamente. Vale ressaltar que cada uma das três categorias é autônoma e distinta das outras, ainda que todas estejam amarradas de maneira interdependente. Até o momento, Lacan acreditava que o desejo era a causa das formações do inconsciente, porém ao colocar o gozo em tal lugar, opera-se uma mudança de vital importância, visto que o gozo, ponto fundamental para Lacan, é entendido como uma mistura de prazer e de insatisfação. Expressando a conjunção de Eros e Tanatos, é ele que alimenta os sintomas, inibições ou as angústias, sem se completar visto que está sempre extravasando.
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    50 Para Forbes (2004),enquanto Freud fez uma Sociedade de analistas, Lacan fez uma Escola de psicanálise. O fato de não haver psicanálise sem psicanalistas, faz da sua formação um problema crucial. Por sua vez, a formação lacaniana é complexa e bem mais exigente do que a universitária, visto que não é padronizada, o que impede o cumprimento de fórmulas prontas ou de tarefas pré-estabelecidas. Precisamos dizer que Lacan foi o único intérprete a dar à obra de Freud uma estrutura filosófica e a tirá-la do seu ancoramento biológico, sem que isso o fizesse cair no espiritualismo. Pelo contrário, ele criou um sistema de pensamento que reconstruiu inteiramente a doutrina e a clínica de Freud, com conceitos e técnica originais, podendo ser considerado o seguidor que mais contribuiu e deu continuidade à sua obra. Suas ideias ampliaram os terrenos da psicanálise, questionando mentalidades e potencializando a ciência do inconsciente. De acordo com Oliveira (2004), Lacan renovou não somente a teoria de Freud como o conjunto de práticas e clínica psicanalítica. Independente das críticas, nós precisamos dizer que ele ocupou um lugar fundamental ao dar vida nova à obra de Freud. Por isso, visto que sua obra está totalmente integrada à história da psicanálise, suas concepções são essenciais para os militantes da área clínica da psicanálise. Na visão de Kehl (2004), Lacan atraiu a psicanálise para a arena dos grandes sistemas de pensamento da segunda metade do século XX, estendendo o seu alcance ao fazê-la dialogar com a linguística e o estruturalismo. Por outro lado, os críticos alegam que a obscuridade das suas ideias protege quem fala ou escreve do risco de ser contestado. Lacan ocupa um
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    51 lugar único nahistória da psicanálise da segunda metade do século XX. De acordo com Lacan, a psicanálise não é uma ciência, uma filosofia ou mesmo uma visão particular de mundo. Ela é uma prática comandada pela elaboração da noção do sujeito e esta noção, para Lacan, conduz o sujeito em sua dependência significante. Nas palavras de Goldenberg (2004): “A sessão analítica é como uma encenação de teatro, cujo diretor é o paciente, e na qual o psicanalista aceita o papel de ator coadjuvante, com o intuito de apreender o roteiro que ambos seguem sem saber.” (p. 45) Fazia parte do trabalho de Lacan seu especial cuidado para não interferir no discurso do seu paciente. Assim, ele visava que o próprio, analisando, pudesse descobrir as próprias questões, visto que o risco da interpretação engloba o analista passar os seus significantes ao paciente. “O que pode parecer aos olhos do leigo um excesso de “frieza” manifestado pelo silêncio do analista é consequência do objetivo de permitir que aquele que fala se aproprie gradualmente do saber inconsciente que se insinua nas brechas, nos lapsos, no sintoma e nos deslizes sem sentido de sua fala.” (KEHL, 2004, p. 49) Em 1967, Lacan propõe a criação do “passe”, dispositivo regulador da formação do analista. Assim como o fim da análise pessoal, o passe é requisito vital para a formação profissional. Ele se faz através de uma ordenação simbólica que implica em um certo ritual ao constituir um valor específico perante a comunidade. Em 1981, Lacan morre, em Paris, atingido por distúrbios cerebrais e por uma afasia parcial, após uma extração de um tumor maligno do cólon. Porém, ainda depois de sua morte, sua obra surpreende pela novidade. Ela não tem como ser ignorada, pois seu efeito está longe de ser reduzido meramente aos consultórios psicanalíticos.
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    52 Lacan é umclássico que resiste ao tempo visto que não se encontra em nenhuma interpretação classificatória: “Sempre há mais Lacan do que aquilo que se pode apreender.” (FORBES, 2004, p. 12). E, como se não satisfizesse aquilo que já temos publicado em seu nome, há também os Outros escritos, que possui 600 páginas adicionadas às anteriores. Pertencente à segunda geração da psicanálise francesa, Lacan foi o único herdeiro de Freud a repensar todo o sistema criado pelo fundador da psicanálise10 . Ao inseri-la no campo da linguagem, permitindo sobressair à função da fala, a psicanálise foi, por ele, inovada nos anos 70. Lacan pode, assim, oferecer uma alternativa aos termos freudianos, incluindo um novo vocabulário, empregando termos, como: sujeito barrado, o Outro (assim mesmo, com letra maiúscula) e objeto “a” que enriqueceram as formulações clínicas e que, infelizmente, saia do propósito, deste trabalho, detalhá-los como cada um deles mereceria. Seminários Jacques Lacan 1954 Seminário I: Os escritos técnicos de Freud (Les écrits techniques de Freud) 1955 Seminário II: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyse) 1956 Seminário III: As psicoses (Le Séminaire III " Les Psychoses") 1957 Seminário IV: A relação de objeto (Le Séminaire IV " La relation d'objet") 1958 Seminário V: As formações do inconsciente (Le Séminaire V " Les formations de l'inconscient") 1959 Seminário VI: Le désir et son interpretation, não publicado. 1960 Seminário VII: A ética da psicanálise (Le Séminaire VII " L'éthique de la psychanalyse") 1961 Seminário VIII: A transferência (Le Séminaire VIII " Le transfert") 10 Por conta da complexidade de sua teoria, optamos por não aprofundá-la com o simples intuito de seguirmos o nosso proposto inicial.
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    53 1962 Seminário IX:L'identification, não publicado. 1963 Seminário X: L'angoisse (Le Séminaire X " L'angoisse") 1964 Seminário XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (Le Séminaire XI, Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse) 1965 Seminário XII: Problèmes cruciaux pour la psychanalyse, não publicado. 1966 Seminário XIII: L'objet de la psychanalyse, não publicado. 1967 Seminário XIV: La logique du fantasme, não publicado. 1968 Seminário XV: L'acte psychanalytique, não publicado. 1969 Seminário XVI: D'un Autre à l'autre, não publicado. 1970 Seminário XVII: O avesso da psicanálise (Le Séminaire XVII " L'envers de la psychanalyse") 1971 Seminário XVIII: D'un discours qui ne serait pas du semblant, não publicado. 1972 Seminário XIX: ...ou pire, não publicado. 1973 Seminário XX: Mais, ainda (Le Séminaire XX " Encore") 1974 Seminário XXI: Les non-dupes errent, não publicado. 1975 Seminário XXII: R.S.I, não publicado. 1976 Seminário XXIII: O sintoma (Le Séminaire XXIII “Le sinthome”) 1977 Seminário XXIV: L'insu que sait de l'une bévue s'aile à mourre, não publicado. 1978 Seminário XXV: Le moment de conclure, não publicado. 1979 Seminário XXVI: La topologie et le temps, não publicado. 1980 Seminário XXVII: La Dissolution, não publicado.
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    54 1.6 – Apsicanálise no Brasil Foi em 1873 que nasceu Juliano Moreira, médico baiano que, depois de se formar em psiquiatria dinâmica na Europa, foi um dos introdutores das ideias freudianas no Brasil. Já se contava o ano de 1900, quando nasceu Durval Ballegardi Marcondes que, com 20 anos, tomou conhecimento das obras de Freud e veio a se transformar, em 1927, junto com Francisco Franco da Rocha, um dos médicos fundadores da “Sociedade Brasileira de Psicanálise” (SBP), em São Paulo, a primeira sociedade freudiana da América Latina. Além disso, em 1920, Francisco Franco da Rocha publicou no Brasil, um dos primeiros livros com o objetivo de divulgar os achados freudianos: “O pan-sexualismo na doutrina de Freud”. Alguns anos se passaram quando, em 1936, Adelheid Lucy Koch veio ao Brasil. Ela foi a primeira psicanalista didática, responsável por iniciar Durval Marcondes e outros na psicanálise. Koch contribuiu para que a “Sociedade Brasileira de Psicanálise” fosse reconhecida pela IPA. A América do Sul, em destaque para Argentina e o Brasil, detém um lugar notório na geopolítica do movimento psicanalítico. Só no Brasil, temos centenas de instituições localizadas nos principais centros urbanos, que, com seu trabalho e esforço, disseminam as ideias freudianas e instruem a população.
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    55 Segundo Massimi eGuedes (2004), há uma dúvida se a psicanálise entrou no nosso país pela Bahia, pelas mãos do psiquiatra baiano Juliano Moreira, em meados dos anos 20, ou se foi em São Paulo. De qualquer forma, vale dizer que a prática clínica dos nossos médicos era uma prática autodidática e dirigida apenas pela leitura de livros sobre psicanálise. Uma das fortes características de autodidatismo foi o fato de ser espontânea, isto é, ao gosto de cada um, sem ter uma preocupação alarmante com as recomendações técnicas de Freud em seus escritos. Assim, os psicólogos foram dominando a clínica, exercendo a função de terapeutas e até mesmo de supervisores. Apesar disso, sabemos que o processo foi recheado de barreiras. Para se ter uma ideia, foi somente em 1962 que a profissão passou a ser regulamentada, possibilitando a sua prática clínica. Entendida, primeiramente, como uma técnica de persuasão, a psicanálise convenceu os médicos ao ser aplicada e confirmada não só pelos seus pacientes como, também, em sua própria experiência pessoal. Assim, ultrapassando as resistências da nossa sociedade e dos seus estudiosos, ela foi tomando corpo e, hoje, podemos dizer que se encontra integrada de modo definitivo no âmbito científico e sociocultural do ocidente, revelando um poderoso instrumento, não só em relação ao desvendamento dos mistérios da alma humana, como na avaliação dos dolorosos conflitos sociais da atualidade.
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    56 Unidade 2 –Fundamentos da Psicanálise Foram as tentativas de Freud de sistematizar a estrutura e o funcionamento do psiquismo que permitiram a divisão do aparelho psíquico em inconsciente, pré- consciente e consciente, ficando essa divisão conhecida como primeira tópica, também levando o nome de topográfica, visto que se trata da sua primeira tentativa em descrever como o psiquismo é formado. Este ensaio foi de grande utilidade, em um momento em que sua teoria estava voltada para a compreensão das formações inconscientes e dos recalques. Um estudo iniciado por Freud que abriu o caminho para o desenvolvimento de uma psicologia voltada para as relações do amor e para o entendimento de quadros psicóticos, foi o estudo do narcisismo. Freud percebeu que todos os indivíduos passam por algum tipo de narcisismo durante a infância, representando um modo particular de relação com a sexualidade. É válido ressaltar que este conceito foi crucial para a formação da teoria psicanalítica tal qual conhecemos hoje. Assim, quando o foco da sua pesquisa voltou-se para o ego, a divisão do aparelho psíquico conhecida até então, passou a ser insuficiente. Podemos dizer que, enquanto a primeira tópica foi movida pela análise dos sonhos e da histeria, após 1920, mais precisamente a partir do seu importante trabalho metapsicológico “Além do princípio do prazer”, a segunda tópica surge como uma tentativa de elaborar uma resposta aos problemas da psicose. Vale dizer que esta teoria não tinha a pretensão de invalidar a 1ª tópica, mas aperfeiçoar a descrição do aparelho psíquico. É preciso ter cuidado com os equívocos que possam surgir ao tentar relacionar as antigas instâncias às novas. Paralelo a isso, ele percebeu que algumas resistências funcionam como barreira ao processo analítico. Assim, Freud nos falou sobre transferência e contratransferência, conceitos centrais na psicanálise, visto que são formas típicas de projeção resultantes da relação terapêutica. Podendo ser positiva (sentimentos de afeto e admiração) ou
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    57 negativa (sentimentos deresistência e agressividade), a transferência e a contratransferência são vínculos que se estabelecem entre o paciente e o analista, dependentes dos laços emocionais inconscientes que se manifestam nessas relações. Freud estudou também sobre os mecanismos de defesa e descobriu algumas forças mentais que se opõem umas às outras, batalhando entre si, com a finalidade de solucionar conflitos não resolvidos ao nível da consciência. Também revelou-nos que os sonhos são muito mais do que aquilo que poderia ser imaginado desde então. A interpretação deles é a via real capaz de levar ao conhecimento das atividades inconscientes da mente. Freud também não deixou de se preocupar com a criação de um setting analítico e da existência da alta em psicanálise, ainda que ele não parecia estar preocupado com a duração do processo, visto que, em sua enorme maioria dos casos, era preciso anos de dedicação ao processo de mergulhar no interior de si mesmo. 2.1 – Primeira tópica: consciente, pré-consciente e inconsciente Em sua obra intitulada de “A Interpretação dos Sonhos” (1900), ao tentar explicar o psiquismo humano, Freud criou uma topografia do aparelho psíquico, parte essencial de suas teorias. Este fato se deu ao perceber que os sintomas histéricos, ainda que não sejam lembrados, são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências traumáticas ligadas à sexualidade infantil. Com isso em mente, o pai da psicanálise
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    58 apreendeu a existênciade uma instância psíquica que não era consciente, mas onde estariam guardadas todas as experiências de um indivíduo. E assim, ao propor a teoria topográfica, Freud tentou explicar como ocorria o conflito intrapsíquico entre os desejos sexuais e suas forças inibidoras. Para tanto, Freud dividiu o aparelho psíquico em três sistemas: inconsciente, pré- consciente e consciente, cada um deles com seu tipo de processo, investimento e funções demarcadas. Ao consciente, denominado também de sistema percepção- consciência, na maioria das vezes, caberia somente uma pequena parte responsável por receber informações provenientes das excitações do exterior e do interior, que ficam registradas qualitativamente de acordo com o prazer e/ou desprazer que elas proporcionam. Por sua vez, enquanto que no consciente encontramos as informações às quais o indivíduo pode voltar a sua atenção em um determinado instante, no pré-consciente localizamos as representações que podem se tornar conscientes, mas que, no momento, não pertencem à consciência, apesar de serem, relativamente, de fácil acesso. Contudo, ainda que o pré-consciente se encontre articulado com o consciente, este primeiro funciona como uma barreira capaz de selecionar aquilo que pode ou não passar para esfera do consciente. Freud também percebeu que, para que algo se torne consciente, era necessário que antes disso, tal elemento passasse pelo pré-consciente, através da associação e resíduos verbais correspondentes. Este assunto já foi levantado por Fadiman e Fragner (1986, p. 7, 8): “Estritamente falando, o pré-consciente é uma parte do inconsciente, mas uma parte que pode se tornar consciente com facilidade. As porções da memória que são acessíveis fazem parte do pré-consciente.” Já o inconsciente é a parte mais arcaica do aparelho psíquico, lugar onde nos deparamos com elementos instintivos não acessíveis à consciência. Lá encontramos as
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    59 representações que jáforam conscientes, mas que foram expulsas por causarem grande sofrimento, com a ajuda da repressão ou mesmo da censura. Apesar disso, dotado por uma grandiosa fonte de energia, seus conteúdos funcionam como invasores, perturbando a mente ao despejar seus derivados na consciência. Vale levantar que, nesta instância, encontramos todas as informações às quais o indivíduo teve acesso durante a sua vida, ainda aquelas que ele não tenha dado importância. Isso porque, no inconsciente, nenhuma informação é perdida, todas ficam guardadas em seus traços mnêmicos sem poderem ser apagadas. Com isso, precisamos dizer que não há confissões a se fazer do inconsciente. Como não pode ser abordado diretamente, não se pode ser racional nesta instância. Em outras palavras: podemos conhecê-lo através de atos falhos, sonhos11 , chistes e sintomas, expressos através do nosso próprio corpo. “A premissa inicial de Freud era de que há conexões entre todos os eventos mentais. Quando um pensamento ou sentimento parece não estar relacionado aos pensamentos e sentimentos que o precedem, as conexões estão no inconsciente. 11 Para Freud, a interpretação dos sonhos é uma maneira simples, porém, sólida, que se tem de conhecer o inconsciente.
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    60 Uma vez queestes elos inconscientes são descobertos, a aparente descontinuidade está resolvida.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 7) Voltando um pouco às ideias apresentadas até aqui, este modelo do aparelho psíquico também é demarcado por seus aspectos dinâmico e econômico. O primeiro nos fala sobre o movimento de informações entre as instâncias mencionadas, por exemplo, o material do pré-consciente pode ir à consciência sem grande esforço. Por sua vez, o aspecto econômico refere-se à sua oposição de funcionamento baseado no princípio do prazer-desprazer. Enquanto o inconsciente quer descarregar a sua tensão com a finalidade de obter o prazer, o pré-consciente esforça-se para proibir que tal descarga aconteça, já que esta produziria uma sensação oposta no consciente, isto é, de desprazer. 2.2 – Narcisismo De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), o termo narcisismo aparece pela primeira vez em Freud em 1910, como uma tentativa de explicar a escolha de objeto nos homossexuais. Freud acreditava que a homossexualidade se dava quando o indivíduo tomava a si próprio como eleição sexual. Porém, foi somente em sua obra escrita em 1914, “Introdução do Conceito de Narcisismo”, que Freud registrou, em parte como resposta a Jung, a sua teoria do narcisismo12 , colocando as pulsões do Eu, também chamadas de autoconservação, entre as pulsões sexuais. Assim, fica claro que, para ele, neste momento, o objeto sexual da 12 Palavra derivada da Mitologia Grega refere-se ao mito de Narciso que ao ver a sua própria imagem na água, se apaixona perdidamente por si próprio e acaba por morrer afogado.
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    61 pulsão do Eué o próprio eu. Neste estudo, Freud dividiu o narcisismo em duas fases: o narcisismo primário e o narcisismo secundário. • O narcisismo primário se localiza no momento em que temos apenas dois objetos sexuais: nós e a nossa mãe. Assim, podemos caracterizá-lo como uma fase autoerótica, visto que as pulsões buscam cada qual por si, de forma independente pela satisfação no próprio corpo. Neste período, ainda não temos presente uma unidade do Ego nem uma diferenciação real do mundo externo. • Já o narcisismo secundário se dá em dois momentos: o primeiro é o de investimento objetal e o segundo é o retorno deste investimento para o ego. Ocorre quando a criança, por conseguir diferenciar seu corpo do mundo externo, se torna capaz de identificar suas necessidades e eleger objetos para satisfazê- las, que em geral se dirigem para a mãe, assim como para o seio como objeto parcial. De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), o narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. É quando a criança toma a si como objeto de amor, momento este que ocorre antes de escolher objetos exteriores. Já o narcisismo secundário nos fala sobre um retorno ao ego da libido e da retirada dos seus investimentos objetais, definindo-se como o investimento da imagem do eu, sendo tal imagem constituída pelas identificações do eu com as imagens dos objetos. Ainda que os mesmos autores (1996) nos avisem que “estes termos têm na literatura psicanalítica e, mesmo apenas, na obra de Freud, acepções muito diversas, que nos impedem de apresentar uma definição unívoca mais exata do que aquela que propomos” (p.290), tentaremos resumi-los aqui de forma breve. Antes de nascer, encontramos sob a criança uma alta cota de expectativas. Nascemos imersos em fantasias de nossos pais, em um retorno ao próprio narcisismo
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    62 deles, transformado emamor objetal. Por isso, aqui, podemos entender que a criança é capaz de completar a falta da mãe e de ser o seu único objeto de amor. Porém, chega o dia em que a criança descobre que não é tão perfeita como a fizeram acreditar. Com isso, ela vai tentar buscar pelo o Ideal do Eu13 , motivo este que a acompanhará para o resto da vida e que permitirá que ela incorpore, através do mecanismo da identificação, características dos objetos de amor perdido. “Com o tempo, a criança vai percebendo que ela não é o único desejo da mãe, que ela não é tudo para ela; sua majestade, o bebê começa a ser destronado. Essa é a ferida infligida no narcisismo primário da criança. A partir daí, o objetivo consistirá em fazer-se amar pelo outro, em agradá-lo para reconquistar o seu amor; mas isso só pode ser feito através da satisfação de certas exigências; a do ideal do seu eu.” (Nasio, 1988, p. 59) Em 1914, escrevendo “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud nos fala da esfera narcísica do amor parental, onde buscamos, através dos filhos, nossa infância e sonhos perdidos. Revivemos o nosso passado na figura da criança, e, assim, ao mesmo tempo em que é fundamental o investimento parental para que a criança se desenvolva, por outro, aquele que desconsidere a singularidade infantil pode gerar um grande desconforto emocional. O narcisismo em excesso é caracterizado como um estado patológico chamado de transtorno de personalidade narcisista, onde o indivíduo se julga grandioso, ainda que possua uma necessidade de admiração e aprovação em excesso. 13 De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), apesar de na obra “o ego e o id”, tal termo ter sido apresentado como sinônimo do superego, em outros textos ele passou a ser atribuído a uma instância diferenciada. Os mesmos autores o consideram como uma “instância da personalidade resultante da convergência do narcisismo (idealizações do ego) e das identificações com os pais, com os seus substitutos e com os ideais coletivos. Enquanto instância diferenciada, o ideal do ego constitui um modelo ao que o sujeito procura conformar-se.” (p. 222)
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    63 “Esses tipos decondição abrangem padrões de comportamento profundamente arraigados e permanentes, manifestando-se como respostas inflexíveis a uma ampla série de situações pessoais e sociais. Eles representam desvios extremos ou significativos do modo como o indivíduo médio, em uma dada cultura, percebe, pensa, sente e, particularmente, se relaciona com os outros. Tais padrões de comportamento tendem a ser estáveis e a abranger múltiplos domínios de comportamento e funcionamento psicológico. Eles estão frequentemente, mas não sempre, associados a graus variados de angústia subjetiva e a problemas no funcionamento e desempenho sociais.” (CID 10, 1993, p. 196) Estamos falando de indivíduos que apresentam uma necessidade excessiva de serem amados e/ou admirados. São pessoas que estão constantemente buscando por elogios e que se sentem inferiores ao serem criticados. Assim, possuem pouca habilidade de perceber o outro, o que os levam a uma vida emocional superficial, o que reflete diretamente na relação terapêutica. O narcisismo não constitui, por si só, em uma patologia. Ele é um integrador e protetor da personalidade e do psiquismo. Ele permite que criemos uma imagem unificada e inteira de nós mesmos e, assim, que ultrapassemos o autoerotismo capaz de fornecer a integração de uma figura positiva e diferenciada do outro.
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    64 2.3 – Segundatópica: id, ego e superego Freud elaborou uma segunda tópica sobre o aparelho psíquico, onde dividia a mente em três sistemas com funções específicas, interligadas entre si e que ocupam certo lugar na mente: id, ego e superego. Tais instâncias psíquicas, funcionando de modo integrado, estruturariam a personalidade do indivíduo e originariam alguns conflitos. “As observações de Freud a respeito de seus pacientes revelaram uma série interminável de conflitos e acordos psíquicos. A um instinto opunha-se outro; proibições sociais bloqueavam pulsões biológicas e os modos de enfrentar situações que, frequentemente, chocavam-se uns com os outros. Ele tentou ordenar este caos, aparentemente, propondo três componentes básicos estruturais da psique: o id, o ego e o superego.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 10) Assim, seguindo a demonstração de que o comportamento humano era dependente de variáveis (biológicas, nomeada de id; psicológicas, nomeada de ego; sociológicas, nomeada de superego) Freud percebeu que, ao nascer, o indivíduo é praticamente reduzido ao id, isto é, a satisfação das necessidades instintivas. A busca pelo prazer e a evitação dos estados de tensão e dor são a máxima representativa desta fase. Contudo, na interação com o meio e a entrada em contato com a cultura, vão se formando códigos de valores e imprimindo padrões de comportamento desejáveis pela sociedade. Desta maneira, forma-se o superego. Por sua vez, entre o id e o superego, encontra-se o ego, grande fator de equilíbrio e de mediação entre os instintos e a cultura.
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    65 “Enquanto o Idvisa o prazer e o Superego, as exigências da sociedade, o Ego é lógico, realista, moderador, consciente. Controlando as forças irracionais e inconscientes do Id, ele as compatibiliza com as exigências do Superego, buscando naturalmente o prazer e a adequação ao grupo social.” (CAVALCANTI e CAVALCANTI, 2006, p. 10) Também, em alguns textos chamados de “Isso”, o id é a instância composta pelas pulsões inatas e por conteúdos como, por exemplo, os desejos recalcados. Grande depósito das pulsões, que visam a procura do prazer e uma satisfação imediata, não é regido por qualquer preocupação lógica. Sua atividade é inconsciente e sem juízo de valores. Podemos dizer que sua estrutura formada pelos representantes mentais dos impulsos instintuais, se faz em fonte eficaz de energia mental para todo ao aparelho psíquico. Assim, no id encontramos os desejos que nos exigem gratificação e que leva o ego a agir. Além disso, ainda podemos dizer que tal instância é uma estrutura de personalidade original e básica, sujeita às exigências somáticas do corpo como aos efeitos do ego e do superego. De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), do ponto de vista “econômico”, o id é, para Freud, a fonte e o depósito de toda a energia psíquica do indivíduo; e do ponto de vista “dinâmico” é quem se relaciona com as funções do ego e com os objetos, tanto os da realidade exterior como aqueles que, introjetados, residem no superego. Do ponto de vista “funcional”, o id é dirigido pelo princípio do prazer, isto é, busca a satisfação direta e imediata a um estímulo instintivo, sem considerar as circunstâncias da realidade. Do ponto de vista “topográfico”, o inconsciente, como instância psíquica, virtualmente coincide com o id, a única instância considerada totalmente inconsciente. Na verdade, podemos dizer que os conteúdos do id são mais do que inconscientes, mas hereditários e inatos, além de adquiridos e recalcados. Contudo, é interessante que ressaltemos que, na segunda tópica, o inconsciente passa a ser uma característica atribuída às instâncias psíquicas.
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    66 Por sua vez,a parte que se relaciona com o meio ambiente, funcionando como mediador das pulsões do id, as exigências do superego e as demandas do exterior, o ego tenta negociar com as restrições do superego, se adaptando à realidade que o cerca. Entretanto, ele é a instância responsável pelo despejo das excitações, pelo recalque e pela censura onírica, além da motilidade motora. Segundo Fadiman e Fragner (1986), o ego é a parte do aparelho psíquico que está em contato com a realidade externa e que se desenvolve a partir do id, à medida que o bebê se torna ciente de sua própria identidade, para atender e aplacar as frequentes exigências desta última. Com a difícil missão de servir ao mundo externo, ao id e ao superego, o ego tenta subjulgar o princípio do prazer ao princípio de realidade, aceitando somente aquilo que é viável ao mundo externo, sem que provoque mal-estar, o que, por vezes, faz com que seja necessário que abra mão da satisfação dos desejos do id. É o ego que decide se as exigências das pulsões devem ser satisfeitas ou não, adiando a satisfação para ocasiões mais propícias ou reprimindo de forma integral ou parcial as excitações pulsionais. “Assim, o ego é originalmente criado pelo id na tentativa de enfrentar a necessidade de reduzir a tensão e aumentar o prazer. Contudo, para fazer isto, o ego, por sua vez, tem de controlar ou regular os impulsos do id de modo que o indivíduo possa buscar soluções menos imediatas e mais realistas.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 11) Freud percebeu, a partir da escuta das suas pacientes histéricas, que a resistência, que surge em suas associações, não são formações conscientes. Concluiu, então, que a parte do ego responsável pela resistência seria uma parte inconsciente, responsável pelos mecanismos de defesa, entre eles, o recalque e resistência.
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    67 Assim, Freud precisoumudar a concepção de que o ego era totalmente situado no consciente ou no pré-consciente e desconsiderar a visão de que o conflito psíquico ocorreria entre o ego consciente, que não quer admitir certos tipos de pensamentos, e a soma inconsciente desses pensamentos recalcados. Freud passou a ver o ego como uma parte do id, que, por influência do mundo externo, sofreu uma diferenciação. Explicando de outra forma: podemos perceber que, se existe algo que demonstre que determinados pensamentos estão inconscientes, isto é, recalcados, é a dificuldade que encontramos no paciente de se lembrar ou mesmo de falar sobre o assunto. Dessa forma, tal fato significa que o ego bloqueia o acesso de tais representações mentais recalcadas e se o paciente não tem consciência desta resistência, ela não pode ser considerada um fenômeno consciente, ainda que seja uma função do ego. Por isso, o conflito psíquico não pode estar fundamentado em uma oposição entre ego e inconsciente, o que não quer dizer que o ego não seja um dos polos do conflito psíquico. Entretanto, Freud, além de concluir que o ego não é totalmente consciente, afirmou, como consequência, que a maior parte do aparelho psíquico é inconsciente, lugar este onde encontramos os principais determinantes da personalidade, as fontes de energia psíquica e os instintos. Também é esta porção, inconsciente, responsável pela produção de angústias, fenômenos de identificação e mecanismos de defesa, que estrutura o sentimento de identidade e autoestima do indivíduo. Ao grupo de funções psíquicas ligado às idealizações, às exigências e às proibições, dá-se o nome de superego: zona do psiquismo que corresponde à interiorização das normas, dos valores sociais e morais. Sua origem encontra-se na identificação com as figuras parentais, principalmente com seus aspectos éticos e morais, capazes de formar a nossa personalidade moral e social. Por isso, o superego passou a ser conhecido como um grande ditador que julga e critica, devido ao processo de interiorização. Assim, esta instância é quem censura os impulsos que a sociedade proíbe ao id, impedindo, desta forma, a plena satisfação dos instintos e desejos.
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    68 “O Superego deuma criança é, com efeito, construído segundo o modelo não de seus pais, mas do Superego de seus pais; os conteúdos que ele encerra são os mesmos e se torna veículo da tradição e de todos os duradouros julgamentos de valores que, dessa forma, se transmitiram de geração em geração.” (FREUD, 1933, livro 28, p.87. Ed. Bras.) Se inicialmente o superego é demonstrado pela autoridade parental, somente quando a criança renuncia à satisfação edipiana é que as proibições externas são internalizadas e o superego é formado. Segundo Fadiman e Fragner (1986), Freud descreveu as funções do superego em três formas: • Consciência: age para restringir, proibir ou julgar as atividades conscientes ou inconscientemente como forma de compulsão ou proibição, e que faz o sujeito comportar-se, dominado por um sentimento de culpa do qual ele não sabe de nada; • Auto-observação: desenvolvida pela capacidade do superego de avaliar atividades independentemente das pulsões do id e do ego; • Formação de ideias: ligada ao desenvolvimento do próprio superego. A meta fundamental da psique é manter – ou recuperar, quando perdido – um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximiza o prazer e minimiza o desprazer. A energia que é usada para acionar o sistema nasce no id, que, conforme falamos, é de natureza primitiva e instintiva. É nossa missão, como terapeutas, o fortalecimento do ego, tornando-o, à medida do possível, independente do superego, ao possibilitar a ampliação do seu campo de percepção e da expansão de sua organização, de forma que possa assenhorar-se de novas partes do id.
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    69 Podemos perceber quea segunda tópica atrai uma vantagem extraordinária em relação à primeira. A teoria estrutural autoriza uma abordagem dinâmica do psiquismo, nos fazendo entender os mecanismos do nosso desenvolvimento, sem que estejamos forçados a um único princípio regido unicamente pelos desejos sexuais. Esta nova compreensão permite a utilização de justificativas além do recalcamento e nos autoriza escolhas baseadas nos interesses do eu, e, sobretudo, permite a visão de um comportamento patológico de origem em traumas. 2.4 – Resistências Chegar tarde aos atendimentos ou esquecer a hora da consulta, estes e outros comportamentos, Freud, já em 1892, chamava de resistência, separando-as em conscientes e inconscientes. A primeira nos fala sobre o desejo de causar uma boa impressão ou mesmo sobre o medo de ser rejeitado. A segunda, mais significativa e de difícil resolução, é causada pelas mesmas forças que produzem o recalque. De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), o conceito de resistência, introduzido ainda cedo por Freud, nos fala de todos os mecanismos que impedem o acesso ao inconsciente. Assim, “chama-se de resistência a tudo o que, nos atos e palavras do analisando, durante o tratamento psicanalítico, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente.” (p. 458) A resistência, em resumo, nos fala de uma força conservadora que se esforça para manter um status quo (estado atual). Por conta disso, ela é vista como condição inerente ao tratamento psicanalítico.
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    70 Transferência e contratransferência Transferênciaé um conceito utilizado pela primeira vez em 1895, quando Freud percebeu que em qualquer tratamento analítico se estabelecia, sem que houvesse um controle médico, uma intensa relação sentimental do paciente para com o analista. Inexplicável por nenhuma circunstância real, este termo demonstrava um obstáculo à análise, sendo entendido, primeiramente, como uma forma de resistência ao processo analítico. Santos (1994) nos lembra que, ainda que o analista não saiba de início para onde está sendo levado na série psíquica do seu paciente, ele sabe que é preciso ser incluído em um determinado arranjo, para que seja possível colocar as exigências do paciente em movimento e vinculá-las às reivindicações e às metas próprias ao tratamento analítico. Apesar disso, o paciente, passa a se interessar por eventos relacionados à figura do terapeuta, impondo a isso, por vezes, maior importância do que é a demonstrada em próprias questões, neste momento, estamos diante de uma relação transferencial, onde o paciente parece desviar sua atenção de suas próprias questões. O mesmo autor (1994) ainda salienta que, via de regra, no início do tratamento, temos um vínculo sustentado pela supervalorização das qualidades do terapeuta. É a transferência positiva que facilita o processo analítico, tornando o paciente mais suscetível à influência do analista ao alimentar por tal figura, sentimentos como admiração e empatia, capazes de baixar as resistências que por ventura existam. Porém, dificuldades no tratamento, tornam o paciente resistente e caso a situação não seja esclarecida, o processo analítico pode entrar em risco. Percebemos então que esta relação, que pode ser positiva ou negativa (embora quase sempre com o predomínio de uma delas), constitui o verdadeiro motor do trabalho analítico. É ainda Santos (1994) que voltando a Freud, nos lembra que, para ele, a transferência negativa é a mais ameaçadora, pois, este tipo de vinculação reflete, de forma direta, a resistência ao trabalho analítico. A diferença da transferência positiva à negativa reflete o deslocamento de impulsos agressivos em vez de libidinais. Vale
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    71 dizer que ossentimentos afetuosos se escondem atrás da hostilidade, visto que, tanto quanto os sentimentos afetuosos, os hostis sugerem a presença de um vínculo afetivo, ainda que com um sinal de menos. De qualquer forma, esses sentimentos, precisam ser considerados como sendo transferenciais, uma vez que também não podem ser creditados à situação analítica. Ressaltemos que é a situação e não o analista que é a fonte do sentimento por parte do seu paciente. “Assim, de acordo com Freud, a transferência não diz respeito ao tratamento, mas ao processo de neurose, visto que a necessidade de amor, não podendo ser satisfeita plenamente na realidade, faz com que futuras aproximações sejam feitas visando à busca de amor e aprovação.” (BARTOLOMEI, 2008) O conceito da neurose de transferência, postulado por Freud, nos conta como que os relacionamentos prévios, componentes da própria neurose, influenciam os sentimentos do paciente em relação ao terapeuta. O que acontece é que o paciente repete o material reprimido como uma vivência atual devido à compulsão e à repetição, não entendendo esse fato como algo do seu passado. Repetindo Isolan (2005), Freud argumentou que, ainda sem recordar, o paciente é capaz de expressar o fato pela atuação, reproduzindo não como uma lembrança, mas como uma ação repetitiva e inconsciente. De acordo com Santos (1994), a doença do paciente converge para o ponto da relação com o analista e este passa a ocupar um lugar dentro das séries psíquicas do paciente. Por isso, ele afirma que não se trata mais da neurose anterior do paciente, que serviu de matéria prima, mas de uma neurose recente, criada na e pela situação analítica, e que assumiu o lugar da antiga doença. Acontece que, nesta nova edição, o analista desempenha papel fundamental, já que se encontra no centro da situação, mesmo que esse seja um ponto não desejado e não provocado intencionalmente. Dessa forma, podemos perceber que a relação com o analista compõe-se, assim, de suma importância, por ter se convertido em alvo maciço dos investimentos libidinais do paciente. Por sua vez, segundo Sterba (1929), ao analista
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    72 cabe uma difícilcondição por se transformar no destinatário, ou seja, no objeto da reprodução emocional que o paciente cria, justamente para impedir as lembranças. De acordo com Freud (1912), o impasse desta relação, originada com a transferência, demarcava impasses na terapia, de modo que a sua solução era o ponto chave para o sucesso terapêutico. Percebemos, agora, uma mudança no seu pensamento: se antes a transferência servia exclusivamente à resistência e funcionava somente como uma ameaça à continuidade do tratamento, Freud passa a vê-la como sendo o melhor instrumento terapêutico. Assim, o paradoxo da transferência é que, ela, ao mesmo tempo em que é condição para que o tratamento ocorra, também é a maior defesa que se pode perceber no tratamento. Apesar de, não raras vezes, trazer dificuldades no seu manejo, trata-se de uma manifestação que, se adequadamente percebida e trabalhada, pode se transformar em uma ferramenta útil para o processo terapêutico. Assim, seu aproveitamento e manejo constituem, de todos os modos, a parte mais importante da técnica analítica. Por sua vez, a contratransferência é o resultado da ação do paciente sob os sentimentos inconscientes do terapeuta. Dito de outra forma, enquanto transferência são as projeções emocionais do paciente dirigidas à figura do analista, a contratransferência nos conta das sensações e dos sentimentos que surgem no terapeuta, como resposta às manifestações do paciente e o efeito que tais percepções provocam no profissional. Ainda nas palavras de Laplanche e Pontalis (1996), contratransferência é o conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste. Por muitas vezes, os sentimentos despertados pelo terapeuta, durante a análise do seu paciente, são consequências da sua experiência clínica e da sua própria análise. Contudo, fica claro perceber também a necessidade da contratransferência ser superada para que o analista possa trabalhar em condições adequadas. Segundo Laplanche e Pontalis (1996) é de vital importância que se reduza o máximo possível as manifestações contratransferênciais conquistada através da análise pessoal. Desta
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    73 maneira, a situaçãoanalítica pode ser estruturada como uma superfície projetiva, apenas pela transferência do paciente. Por sua vez, Freud, ainda que tenha declarado a sua existência e a necessidade de ser controlada, não nos deixou nenhum estudo sobre a contratransferência. Apesar disso, podemos dizer que ela é uma reação inevitável, causada no analista. Porém, quanto mais analisado for o terapeuta, menos sucumbirá aos seus efeitos. “São raras as passagens que Freud alude àquilo que chamou de contratransferência. Porém, ele percebeu tal termo como o resultado da influencia do doente sobre os sentimentos inconscientes do médico. Porém, os mesmos autores destacaram que, do ponto de vista da delimitação do conceito, inúmeras variações são encontradas, visto que certos autores percebem por contratransferência tudo aquilo que é da personalidade do analista e pode interferir no tratamento. Enquanto isso, outros, por sua vez, limitam a contratransferência aos processos inconscientes que a transferência do analisando provoca no analista” (LAPLANCHE e PONTALIS, 1996, p.102) Mecanismos de defesa Quando certos eventos ou pensamentos são conflitantes com as ideias do consciente, entram em ação os mecanismos de defesa do ego. Eles têm a função de auxiliar o indivíduo a se resguardar da ansiedade provocada por algum conflito, impedindo que componentes dos conteúdos mentais indesejáveis cheguem à consciência de forma disfarçada. Tais processos psíquicos inconscientes têm a função de suavizar o ego do estado de tensão psíquica oriunda do id, do superego e das pressões
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    74 que surgem darealidade externa. Vale dizer que essa é uma tentativa inconsciente do ego de se adaptar e amortecer o impacto dos desejos inaceitáveis, para que possam ser expressos de forma melhor aceita. De acordo com Laplanche e Pontalis (1996): “Mecanismos de defesa são diferentes tipos de operações em que a defesa pode ser especificada. Os mecanismos predominantes diferem segundo o tipo de afecção considerando, a etapa genética, o grau de elaboração do conflito defensivo etc.” (p. 277) Podemos destacar diversos deles, uns mais eficientes do que outros e cada um com uma forma específica de funcionamento. Existem vários tipos conhecidos e explicados, mas os principais mecanismos de defesa que serão descritos aqui são: negação, projeção, fixação, racionalização, sublimação, deslocamento, repressão, formação reativa, recalque e introjecão. A negação é um mecanismo pouco eficiente, que pode ser traduzido pela recusa consciente em compreender fatos perturbadores, isto é, uma tentativa de não aceitar como real um fato que perturba o ego, ocorrendo, assim, o bloqueio do reconhecimento de uma verdade incontestável. Acontece que, ao negar as sensações de desprazer, o indivíduo perde, não só a percepção necessária, como a capacidade de sobrevivência adequada. Para Laplanche e Pontalis (1996), a negação é o processo onde, ao formular os desejos, pensamentos ou sentimentos até então recalcado, o sujeito defende-se dele, negando que lhe pertença. Por sua vez, a projeção ocorre quando os aspectos da personalidade de um indivíduo são deslocados para o meio externo. Com isso, sentimentos indesejáveis ou impulsos próprios inaceitáveis são dirigidos a outras pessoas, atribuindo a eles um desejo falso. Vale dizer que os conteúdos são desconhecidos pela pessoa que projeta, justamente pelo fato de terem sido negados como uma forma de evitar o confronto com tal conteúdo. Para Laplanche e Pontalis (1996), estamos de frente com tal mecanismo de defesa quando o indivíduo expulsa de si e localiza no outro, seja uma pessoa ou uma coisa, qualidades e sentimentos que desconhece como sendo seus.
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    75 A fixação éuma atividade defensiva regressiva, que consiste na cessação do desdobramento psicossexual em determinado ponto do processo de desenvolvimento da personalidade em uma etapa, sem que a independência seja completa ou madura. Esse mecanismo de defesa mostra-nos que o indivíduo não podendo se satisfazer normalmente, no tempo certo, suas necessidades, permanece então procurando por essa satisfação. Como a racionalização é a substituição de algo assustador por uma explicação razoável e segura, podemos dizer que esse mecanismo nos conta sobre um processo de achar motivos aceitáveis para pensamentos ou ações que são inaceitáveis, ao fazer com que o sujeito apresente uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral. Podemos dizer que racionalizamos para justificar comportamentos, quando nossas razões não são recomendáveis. De acordo com Fadiman e Fragner (1986), a racionalização é um modo de aceitar a pressão do superego, disfarçando os motivos e tornando nossas ações moralmente aceitáveis. A sublimação ocorre quando parte da energia dos impulsos sexuais é direcionada para a execução de tarefas socialmente aceitáveis. Porém, para ser caracterizado como sublimação, o desvio e a descarga precisam nos contar sobre a substituição de um impulso inoportuno para uma atividade socialmente aceita que não deve causar ressentimento ou sofrimento. Para Freud, encontramos exemplos de sublimação em algumas carreiras como a de lutador, de cirurgião ou de artista, por exemplo. O deslocamento é um mecanismo de defesa que está ligado a uma troca, onde a representação muda de lugar, passando a ser reproduzida por outra, ou seja, ele ocorre quando um sentimento ou impulso é transferido de uma parte para um todo e vice-versa. De acordo com Laplanche e Pontalis (1996), “o deslocamento ocorre quando a importância, o interesse ou a intensidade de uma representação é suscetível de se destacar dela, passando para outras representações originariamente pouco intensas e ligadas à primeira por uma cadeia associativa. O livre deslocamento desta energia é uma das principais características do modo como o processo primário rege o funcionamento do sistema inconsciente.” (p.116)
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    76 A repressão ocorrequando existe a retirada de ideias, afetos ou desejos da consciência, vistos, como perturbadores, inoportunos ou desagradáveis. Esse mecanismo, de acordo com Barros (2004), tem como objetivo proteger o ego da ansiedade excessiva que é produzida pelo contato com a experiência que não pode ser assimilada. Porém, o afastamento da consciência da fonte ansiogênica acaba por impedir qualquer solução possível, visto que, ao eliminar os conteúdos mentais da consciência, acabam por interferir no acesso à realidade, ou seja, não significa sua aniquilação, pois, ao ser impedido de se revelar claramente, ele vai procurar por outras formas de manifestação em atos substitutivos, produzindo efeitos diversos. De acordo com Freud, este fenômeno se dá pela existência no psiquismo de uma instância chamada de censura, cujo papel é o de classificar o que pode e o que não pode permanecer na consciência. Ela também determina a que nível o evento deverá ser reprimido. De forma geral, quanto maior o nível da ansiedade gerado, mais profundo o evento será guardado. A formação reativa é uma forma de substituir comportamentos e sentimentos que são opostos ao desejo real em uma inversão clara e, em geral, inconsciente do desejo. Dito de outra forma é quando ocorre a fixação de uma ideia, desejo ou afeto na consciência que são opostos ao impulso temido, isto é, caracteriza-se pelo pensamento contrário, e, por tal motivo, pela adoção de um comportamento exatamente oposto àquele impulso original que foi recalcado e que se manteve como conteúdo inconsciente. Para Fadiman e Fragner (1986), é possível evidenciar tal mecanismo de defesa em qualquer comportamento que seja excessivo. Já o recalque é um mecanismo de defesa, universal e necessário, visto que é através dele que se estabelece o inconsciente como sistema separado do restante do psiquismo. Conceito surgido pela observação do fenômeno da resistência, o recalque nos conta sobre o afastamento de elementos do campo da consciência o que, como já vimos, não impede que o representante pulsional continue a existir. Porém, por não
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    77 condizerem aos nossosideais, tais elementos tentam descarregar a energia vinculada a eles através de esquecimentos, sonhos ou sintomas neuróticos. Nosso último mecanismo de defesa a estudar é a introjeção, nome do processo pelo qual a criança incorpora valores dos pais e da sociedade de modo geral e os transforma em seus. Percebemos, então, que o mecanismo de introjeção, nesse momento de vida, tem um importante papel na formação do superego. Laplanche e Pontalis (1996) afirmam que a introjeção está intimamente ligada ao processo de identificação. Para os autores, este mecanismo de defesa ocorre quando: “o sujeito faz passar, de um modo fantasístico, de ‘fora’ para ‘dentro’, objetos e qualidades inerentes a esses objetos.” (p.248) Os mecanismos de defesa... ... quando falham, podem ocorrer transformações importantes no comportamento do indivíduo (psicose). ...utilizados de forma excessiva podem gerar consequências sérias no ajustamento funcional à vida. ... dependem da natureza da situação somada às características pessoais. pessoas diferentes fazem uso de diferentes mecanismos de defesa em igual situação. ... mais eficazes tendem a ser utilizados com maior frequência. ... não são escolhidos pela consciência. ... bem-sucedidos diminuem a ansiedade e os ineficazes, além de não reduzirem a ansiedade ou o medo, constroem um ciclo de repetições. ... ao serem desvendados, intensificam- se o conflito. ...fazem parte de todos os indivíduos, só se tornando maléficos com o seu excesso. ... são as manifestações do ego diante das exigências das outras instâncias psíquicas (id e superego).
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    78 ... são açõespsicológicas que buscam reduzir as manifestações iminentemente perigosas ao Ego. ... ao controlar as tensões, permite que nenhum sintoma se desenvolva, apesar de limitar das potencialidades do ego. 2.5 – A psicanálise e os sonhos Considerados na antiguidade clássica como profecia, a ciência moderna não sabia nada deles, sendo abandonados à superstição. Até Freud, era impossível admitir que um trabalho científico pudesse usar o sonho como ferramenta. Porém, as numerosas ocorrências de sujeitos que tinham sonhado nos levaram ao conhecimento de um produto mental que não podia mais ser qualificado de absurdo e, assim, além de demonstrar que os sonhos possuíam um sentido capaz de ser adivinhado, Freud defendeu a ideia de que o sonho é uma atividade psíquica organizada com suas próprias leis de funcionamento. Segundo o pai da psicanálise, do ponto de vista biológico, a função dos sonhos é a de permitir que o sono não seja perturbado. Além disso, sonhar é uma forma de canalizar os desejos que não foram realizados através da consciência, sem que o corpo seja despertado. Para Freud, cada sonho apresenta a mistura de dois tipos de conteúdos: manifesto e latente. O conteúdo manifesto é aquilo que aparece propriamente nos sonhos, são as lembranças que temos dele ou ainda o seu relato descritivo. Dito de outra
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    79 maneira, o conteúdomanifesto é a reprodução dos desejos inconscientes utilizando outra forma de expressão e, por isso, passíveis de serem recordadas. Enquanto isso, os resíduos diurnos responsáveis pela formação dos conteúdos manifestos do sonho, servem como estrutura do conteúdo latente ou dos desejos disfarçados. Assim, por sua vez, o conteúdo latente é um conteúdo oculto, que só conseguimos descobrir por meio da sua análise. Entretanto, o conteúdo latente é a estrutura recalcada que tenta emergir, ou seja, é o desejo oculto do sonho. Como ressaltado por Laplanche e Pontalis (1996), o conteúdo manifesto é o produto do trabalho no sonho e o conteúdo latente o do trabalho inverso, o da interpretação. Mas, vale lembrar que, um sonho não acontece simplesmente, o seu desenvolvimento visa atingir necessidades específicas, ainda que não sejam descritas de maneira clara pelo seu conteúdo manifesto. Freud demonstrou que a elaboração onírica é um processo de seleção, distorção, transformação, inversão, deslocamento e outras modificações de um desejo original. Tais transformações ocorrem como uma condição do desejo expresso através dele se tornar aceitável ao ego. “Quase todo sonho pode ser compreendido como a realização de um desejo. O sonho é um caminho alternativo para satisfazer os desejos do id. Quando em estado de vigília, o ego esforça-se para proporcionar prazer e reduzir o desprazer. Durante o sono, necessidades não satisfeitas são escolhidas, combinadas e arranjadas de modo que as sequências do sonho permitam uma satisfação adicional ou redução de tensão. Para o id, não é importante o fato de a satisfação ocorrer na realidade físico-sensorial ou na imaginada realidade interna do
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    80 sonho. Em ambosos casos, energias acumuladas são descarregadas.” (FADIMAN e FRAGNER, 1986, p. 17) “(...) o sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado.)” (FREUD, 1900, Vol. 1, p. 193). Este pode não ser reconhecido de forma imediata, por conta da influência da censura a qual foram submetidos no processo de sua elaboração. “De um modo geral, os desejos que não realizamos durante o dia, porque são contrários aos nossos princípios, costumam-se, aproveitando do sono, para se manifestarem. À noite, enquanto estamos dormindo, os guardas da Censura deixam de trabalhar com a mesma vigilância que os caracteriza durante o dia. Os desejos, então, se aproveitam do fato de que os guardas estão semi-adormecidos e tentam passar sorrateiramente para o outro lado da fronteira.” (ESTEVAN, s.d, p. 63) Para Freud, o sonho é a nossa porta para o inconsciente, visto que, durante o sono, ocorre esse afrouxamento da censura e, assim, o desejo recalcado tenta se aproveitar desta ocasião para se manifestar. Apesar disso, o pré-consciente reconhece o desejo e, em uma tentativa de proteger o sono, disfarça o seu conteúdo. A esta situação, Freud deu o nome de deslocamento, isto é, a substituição de um representante psíquico por outro, de menor valor, mas que reporta ao primeiro. Estevan (s.d) nos garante que o deslocamento é o artifício pelo qual a carga afetiva, que é desprendida durante o sonho, não recai, como seria natural, sobre o seu verdadeiro objeto: a carga afetiva afasta sua direção e vai incidir sobre um objeto secundário, aparentemente, insignificante.
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    81 Existem outros mecanismospelo qual o conteúdo latente do sonho se transforma em conteúdo manifesto. Além do deslocamento, encontramos a condensação que nada mais é do que a síntese do desejo. “O sonho costuma ser curto, pobre e lacônico, ao passo que as causas que provocam o sonho são muito mais ricas, profundas e complexas. Podemos dizer, assim, que aquilo que aparece nos sonhos é quase sempre uma abreviação, um pequeno resumo, de uma grande série de processos psíquicos que estão se desenrolando no inconsciente durante o sonho.” (ESTEVAN, s.d, p. 71) Para que se consiga revelar os desejos inconscientes, escondidos pelos sonhos, é necessário incentivar a associação livre de quem sonhou com os próprios elementos do sonho. 2.6 – O setting analítico Podemos entender o setting analítico como a soma dos procedimentos que buscam organizar e normatizar o ambiente psicanalítico, como uma forma de possibilitar o processo. Esse grupo de orientações e atitudes, que dizem respeito ao contrato analítico, tem como objetivo criar uma atmosfera de confiabilidade e estabilidade, funcionando, assim, como um importante fator terapêutico.
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    82 É importante queo profissional respeite e valorize o espaço do seu paciente. Pretendemos dizer, com isso, que é importante que ele evite atrasos, desmarcações, atender ligações ou mesmo comer enquanto ouve o que o paciente está trazendo à sessão. É preciso esclarecer com o paciente, por outro lado, quanto tempo durará cada sessão, pagamentos, férias (tanto a dele quanto a do terapeuta), faltas e desmarcações ou necessidades relativas às mudanças de horário. Assim, é objetivo do setting introduzir e delimitar os contornos da relação, determinando o conjunto de aspectos plurais da análise. Claro que, apesar do que foi acordado e, dependendo da flexibilidade do analista, o setting pode sofrer alterações daquelas originalmente estabelecidas, mas sempre mantendo a confiança e o vínculo construídos durante os atendimentos. De acordo com D’Abreu (2012), além das características pessoais do analista e do seu referencial teórico, existem alguns limites, como horário, duração dos atendimentos ou honorários, que funcionam a favor do trabalho analítico. Existem também, aqueles que, menos fechados, se estabelecem sem que tenham sido evidenciados, ficando à mercê de características próprias da dupla analista/paciente. Por sua vez, um bom resumo de setting terapêutico foi proposto por Santos (1994), como sendo a derivação da posição interna do analista que dá consistência ao tratamento. Muitos acreditam que o espaço planejado para a psicanálise deve conservar-se em um lugar fechado. São aqueles que argumentam que, fora do ambiente do setting terapêutico, não é possível a neutralidade analítica ideal, complicando o desenvolvimento da transferência. Assim, para eles é o setting que permite a criação de um espaço onde aconteça o despejo dos aspectos infantis no vínculo transferêncial. De acordo com D’Abreu (2012), é através da segurança desse espaço que o paciente pode levar sua intimidade, permitir a regressão dos seus aspectos infantis e o afloramento da neurose de transferência.
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    83 Pensemos e esclareçamos,ao mesmo tempo, que, por vezes, é disso que o analisando precisa: de um espaço não só, para si próprio, mas para descarregar suas angústias. Seria exigir demasiadamente do analisando que ele se coloque em qualquer outro espaço que não o conhecido e neutro, oferecido pela estrutura psicanalítica. Mais ainda, fazer isso seria fugir do acordo da psicanálise. Apesar desta visão, outros psicanalistas afirmam que tal fato se dá pela insegurança do terapeuta de não conseguir estar em uma posição de confiança fora do seu espaço seguro. Esse grupo, por sua vez, diz que o setting móvel é uma possibilidade de atingir aqueles que não suportariam o setting fechado, permitindo que esses também possam tirar proveito do mesmo benefício das intervenções psicanalíticas. E o que falar do, uma figura tão conhecida e reconhecida como personagem necessário à psicanálise? Este interlocutor da dinâmica psicanalítica se tornou tão fortemente o símbolo da psicanálise tão quanto nós é o próprio Freud. Assim, o que seria a figura do divã sem a figura do Freud? O divã para a psicanálise deixou de ser uma mobília, mas uma peça irremovível do cenário psicanalítico. 2.7 – A alta em psicanálise Quando o paciente deve receber alta de um processo psicoanalítico? Esta é uma pergunta que envolve muita polêmica e controvérsia. Afinal, quando se encerra um trabalho terapêutico?
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    84 Para o próprioFreud, liberar um paciente dos seus sintomas é uma tarefa que consome tempo. Assim, para uma intervenção de curto prazo, que visa acabar com os sintomas focais de determinada doença, é mais fácil falar de alta ou cura. Por outro lado, para a psicanálise, basear os atendimentos psicoterapêuticos em um tempo cronológico beira a irrealidade, pois esse tempo não tem como ser demarcado, caso contrário não estaríamos considerando as particularidades de cada indivíduo. Se anteriormente, foi possível dizer que se é condição para o desenvolvimento da análise o estabelecimento da transferência, para o final da análise precisamos que ocorra o término da transferência. Assim, a alta deve ser pensada quando o paciente deixa de ser sujeito da posição alienada para uma posição de analisante, isto é, quando ele sai do discurso alienante para o discurso do analista. O final da análise, por assim dizer, pode ser entendido como o momento em que o paciente está apto a trabalhar em benefício próprio. Assim, é mais do que claro que, na ocasião em que o paciente deixa de sofrer com os seus sintomas, superando as ansiedades, é possível pensar na alta terapêutica. É certo que o sujeito sempre terá alguma questão, mas essa não é a ideia da alta em psicanálise. O objeto da análise é aprender a lidar melhor com suas demandas, não fazer com que o analisando saia do processo sem questões. Porém, mais importante do que o tempo dedicado ao tratamento é saber quais os benefícios que a relação com o terapeuta traz ao paciente. E como se faz isso? Pensando no progresso do paciente, na vontade que ele tem de mudar, confiando na figura do terapeuta e nas propostas do processo. Assim, outra boa forma de se pensar em alta terapêutica é aquela quando o paciente e o terapeuta percebem que não há mais progressos na relação.
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    85 Conclusão do MóduloI Olá, aluno(a)! Você está quase chegando ao fim da primeira etapa do nosso curso de Psicanálise, oferecido pelos Cursos 24 Horas. Para passar para o próximo módulo, você deverá realizar uma avaliação referente a este módulo já estudado. A avaliação encontra-se em sua sala virtual. Fique tranquilo(a) e faça sua avaliação quando se sentir preparado! Desejamos um bom estudo, boa sorte e uma boa avaliação! Até logo!