Carandiru: 25 anos de impunidade
Dois de outubro de 1992. Sábado, véspera de eleições
municipais. Uma rebelião explode após uma briga entre presos
no pavilhão nove da Casa de Detenção de São Paulo,
conhecida como Carandiru. O complexo abriga 7.500 presos,
mais que o dobro da capacidade.
Duas horas após o início da rebelião, 362 homens de
diferentes tropas da Polícia Militar paulista, sem nenhuma
experiência em presídios, invadem o pavilhão armados com
revólveres, submetralhadoras alemãs, escopetas, fuzis M-16 e
cães. "O ataque foi desfechado com precisão militar: rápido e
letal. A violência da ação não deu chance para defesa",
escreveu o médico Drauzio Varella, que trabalhava na prisão.
Drauzio Varella escritor do
livro Estação Carandiru
(1999)
Pavilhão por pavilhão, cela por cela, os PMs disparam
contra os presos. A ação se estende por meia hora.
Quando as armas silenciam, os sobreviventes são
escoltados para fora e agredidos com cassetetes e
mordidas de cachorros em um corredor polonês.
Dentro do pavilhão, 111 presos perdem a vida. Do lado
da polícia, nenhum morto. O governo estadual evita
num primeiro momento divulgar a escala do massacre.
A contagem oficial naquele sábado indica apenas oito
mortos. O total só é conhecido no domingo, meia hora
antes do fim da eleição municipal. O então governador
do estado, Luiz Antônio Fleury, é acusado de segurar
a contagem para não prejudicar os candidatos
apoiados pelo governo.
Impunidade
Passaram-se quase dez anos até o primeiro júri do caso. O primeiro a ser
condenado foi o coronel Ubiratan Guimarães, comandante da operação.
Sua sentença em 2001 chegou a 623 anos de prisão. Entre 2013 e 2014,
foi a vez do grosso da tropa. Cinco diferentes júris resultaram na
condenação de 74 PMs. Somadas, as penas passaram de 21 mil anos de
prisão. Mas nenhum deles chegou a passar um dia sequer na prisão.
Ubiratan foi o primeiro a se livrar. E com isso podemos chegar a uma
terceira década antes de um julgamento final.
Situação carcerária
Além de acender o debate sobre os casos de abuso
policial e violência o Estado, o massacre evidenciou a
superlotação das cadeias brasileiras. No período a
Casa de Detenção de São Paulo era o maior complexo
penitenciário da América Latina. Formado por sete
pavilhões, o Carandiru abrigava 7.500 detentos, porém
tinha capacidade apenas para 3.300. Só no pavilhão 9,
viviam mais de 2mil, onde estavam os réus primários,
aqueles que cometeram qualquer tipo de crime pela
primeira vez. Em 2002, dez anos após a chacina, a
Casa de Detenção de São Paulo foi desativada e
demolida para dar lugar ao Parque da Juventude.

Infográfico Carandirú

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    Carandiru: 25 anosde impunidade Dois de outubro de 1992. Sábado, véspera de eleições municipais. Uma rebelião explode após uma briga entre presos no pavilhão nove da Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru. O complexo abriga 7.500 presos, mais que o dobro da capacidade. Duas horas após o início da rebelião, 362 homens de diferentes tropas da Polícia Militar paulista, sem nenhuma experiência em presídios, invadem o pavilhão armados com revólveres, submetralhadoras alemãs, escopetas, fuzis M-16 e cães. "O ataque foi desfechado com precisão militar: rápido e letal. A violência da ação não deu chance para defesa", escreveu o médico Drauzio Varella, que trabalhava na prisão. Drauzio Varella escritor do livro Estação Carandiru (1999) Pavilhão por pavilhão, cela por cela, os PMs disparam contra os presos. A ação se estende por meia hora. Quando as armas silenciam, os sobreviventes são escoltados para fora e agredidos com cassetetes e mordidas de cachorros em um corredor polonês. Dentro do pavilhão, 111 presos perdem a vida. Do lado da polícia, nenhum morto. O governo estadual evita num primeiro momento divulgar a escala do massacre. A contagem oficial naquele sábado indica apenas oito mortos. O total só é conhecido no domingo, meia hora antes do fim da eleição municipal. O então governador do estado, Luiz Antônio Fleury, é acusado de segurar a contagem para não prejudicar os candidatos apoiados pelo governo. Impunidade Passaram-se quase dez anos até o primeiro júri do caso. O primeiro a ser condenado foi o coronel Ubiratan Guimarães, comandante da operação. Sua sentença em 2001 chegou a 623 anos de prisão. Entre 2013 e 2014, foi a vez do grosso da tropa. Cinco diferentes júris resultaram na condenação de 74 PMs. Somadas, as penas passaram de 21 mil anos de prisão. Mas nenhum deles chegou a passar um dia sequer na prisão. Ubiratan foi o primeiro a se livrar. E com isso podemos chegar a uma terceira década antes de um julgamento final. Situação carcerária Além de acender o debate sobre os casos de abuso policial e violência o Estado, o massacre evidenciou a superlotação das cadeias brasileiras. No período a Casa de Detenção de São Paulo era o maior complexo penitenciário da América Latina. Formado por sete pavilhões, o Carandiru abrigava 7.500 detentos, porém tinha capacidade apenas para 3.300. Só no pavilhão 9, viviam mais de 2mil, onde estavam os réus primários, aqueles que cometeram qualquer tipo de crime pela primeira vez. Em 2002, dez anos após a chacina, a Casa de Detenção de São Paulo foi desativada e demolida para dar lugar ao Parque da Juventude.