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O CORPO DO PIÁ NO CCJ 
TELMA LAZARO 
INTRODUÇÃO 
Compreendendo que o entendimento do corpo e todos os fenômenos 
envolvidos no movimento são os temas centrais da vida (LABAN, 1978) e seu 
desdobramento para a sociedade são os fatos mais importantes desta. Observando 
que intervenção na vida humana acontece primariamente no corpo (FERNANDES, 
Ciane, 2006) e que, toda a expressividade desenvolvida após esta (poética, 
imagem, escrita, leitura, política, estética) são em si mesmas, maneiras de expandir 
o território do movimento. 
Este ensaio é uma observação da experiência do Programa de Iniciação 
Artística (PIÁ) com o corpo no centro da reflexão. 
Para tanto, o PIÁ, implantado no CCJ em 2014, é apresentado como um 
homúnculos (ou um pequeno corpo). 
O objetivo deste ensaio é o de subverter o pensamento organizacional 
clássico, e dar luz ao pensamento orgânico, muitas vezes citado em vários 
momentos importantes do Programa, durante o ano. 
Para que o Programa seja identificado com um organismo vivo, é importante 
retirar o corpo da lógica mecânica e biológica e coloca-lo sob a luz da atitude 
holística ou integral: 
A metáfora do corpo-organismo, é uma metáfora chave para 
compreender muitos fenômenos do mundo, tais como organismo 
social, organismo político. O organismo seria um princípio de 
conhecimento, um fundamento original que permite discutir 
fenômenos particulares manifestos nos comportamentos. Desse 
modo, funciona como um instrumento metodológico e teórico, que 
possibilita entender como certo fenômeno torna-se um fato 
identificável. Ele explica o vivo, ajuda a organizar, distinguir e 
distribuir os diversos segmentos do saber, e os direciona para uma 
ação ou objetivo. O conceito de corpo-organismo abrange 
significado de um corpo holístico, que inclui diversos aspectos, seja 
físico, emocional ou mental. Essa noção revela o corpo como um
2 
organismo complexo, que engloba desejos, emoções, 
necessidades biológicas, em que todos os dispositivos que 
participam da aprendizagem encontram-se interligado. (MORGAN, 
Gareth et al., 1996) 
SOBRE ESTE “CORPO” 
Eu poderia lhes contar dele através de seu olhar brilhante, de suas palavras 
graúdas, de seus grandes sonhos, de suas narrativas. Eu poderia falar dele até 
mesmo através de suas origens, seu lugar no mundo ou seu tempo estendido. 
Poderia, diante de tantas palavras, escolher aquelas que o definem como 
sujeito histórico e explanar sobre sua vocação. 
Mas sobre o Piá no CCJ eu escolhi falar de seu corpo. Cruamente. De seu 
sistema de vida. 
O corpo do Piá no CCJ, como o seu e como o meu corpo tem específicas 
necessidades, peculiar estrutura e determinada busca homeostática do próprio 
equilíbrio. 
Ele está sujeito a todo tipo de mudanças, à instabilidade, ao tempo e a morte. 
Assim, este ensaio pretende ser uma maneira de integrar a maior parte 
possível das informações sobre o funcionamento dinâmico-operacional dos 
encontros espaço-criança-equipe-tempo deste organismo e de sua anatomia 
autonomia no CCJ. 
Este é o primeiro ano do Piá no CCJ (Centro Cultural da Juventude). 
O trabalho realizado durante o ano foi fundamentado em narrativas, e com 
elas percorremos todo o espaço físico. As histórias foram se fundindo ao espaço 
físico do CCJ e assim, foi possível cartografar o espaço. 
CARTOGRAFIA COMO EPIDERME 
O desenvolvimento da cartografia permitiu a observação para o espaço como 
material fenomenológico e não estático na experiência dos encontros. Essa 
cartografia é uma característica da equipe e do Piá no CCJ hoje aparece desta 
maneira:
3 
Cerca viva na entrada: Portal mágico e jardim secreto 
Mesa de atividades externa: Barco da Invisibilidade 
Corredores do primeiro andar: Labirinto da Medusa 
Arena: Centro de Treinamento de heróis 
Biblioteca: Centro de Pesquisa de Aventureiros 
Brinquedoteca: sala do Piá 
Elevador: Cápsula do tempo 
Estúdio: Útero de dragões 
Área Verde: Floresta/ Bosque onde moram Curupira e Caipora 
Horta: Casa da Cuca e do Saci 
A pele é onde acontece a regulação de temperatura (SOBOTTA, Johannes., 
2000) . É o lugar onde se transpira para o corpo resfriar e, onde vive o eriçar de 
pelos diante do medo e do frio. Onde o meio interno se envolve, ganha característica 
e cor. 
A cartografia do processo revestiu esse corpo inteiro em camadas e 
sensações. Pode-se dizer que a cara desse corpo, a cor dos olhos, os cabelos, o 
formato dos dentes, as unhas, a resistência ao frio ou calor é também o fruto de uma 
genética. 
A pele é nobre porque separa nosso meio interno do restante do Universo. 
Porque nos envolve para que possamos nos desenvolver. Assim é com a cartografia 
que irá cobrir esse corpo em muitas histórias, crenças, sensações, reações. E é fato 
que, cada espaço geográfico desse organismo teve sim sua experiência tátil. Essas 
podem ser repetidas com um guia de aventuras em mãos. E serão deveras 
repetidas. 
E a cartografia não irá desgastar-se, como não se desgasta a pele diante de 
afeto, cócegas e do frio. 
E a cada aventura, a cartografia ganha aqui e ali suas marcas. Uma memória 
de pele é diferente da memória mental porque é uma memória de sensações.
4 
3. O PRÉDIO COMO ESQUELETO 
Programas arquitetônicos carregam em si a ambição de ordenar 
espacialmente atividades humanas. As atividades, por natureza 
própria, são mais ou menos demandantes de acessibilidade. Não é 
incomum que experienciemos edificações onde a lógica da 
distribuição das atividades contraria a lógica do percurso, a lógica 
de distribuição das gradações de acessibilidade. Isso pode ocorrer, 
e amiúde ocorre, tanto em edifícios comerciais quanto residenciais 
ou institucionais; edifícios bem dotados de tecnologia e estética 
mas que não funcionam adequadamente. E aí começam as 
reformas...A condição de acessibilidade ora descrita tem natureza 
eminentemente espacial; independe de função, atividade ou 
atratores. É só forma, formato topológico, configuração, modo de 
arranjo. Uma forma que não segue a função. Tudo é forma e as 
formas, no andar da carruagem, terminam ditando a natureza do 
evento. Funções ou atividades posicionadas em espaços cuja 
condição de acessibilidade seja desconforme com a natureza 
daquela função, em geral, não sobrevivem naquele 
posicionamento, seja na escala do edifício ou da cidade. A natureza 
espacial comanda a natureza comportamental, a natureza dos 
eventos, seguindo automaticamente o mecanismo topológico das 
gradações de acessibilidade. (AGUIAR, Douglas Vieira de, 
2003). 
O espaço é completamente subjetivo e sobre ele existem profundas teorias. 
Por isso vamos nos ater a situação de empilhamento dessa arquitetura (CCJ) 
e lembrar que estamos falando de um espaço com andares, unidos por escadas 
centrais, como um esqueleto está unido pela coluna vertebral. 
E, talvez as escadarias tenham aqui papel fundamental, vertebral. 
Nem todos irão para a sala, mas todos passam pelas escadas. Nem sei para 
onde irá e seu nome, mas sei que está descendo ou subindo. Talvez essa certeza 
baste para um arquiteto desenhar um lugar com uma escada assim, grande e no 
centro da entrada. O Piá fica logo abaixo dessa escadaria vertebral. De dentro da 
brinquedoteca vemos nada menos que os pés das pessoas através da claraboia e 
ouvimos quem desce e quem sobe. Com algumas semanas de encontros 
conseguimos distinguir através dos sons o descer e o subir. 
Voltando a entrada do prédio esqueleto: Ao adentrar o espaço, veremos uma 
mesa com um funcionário à esquerda da escada ( com uma série de ferramentas de
5 
informação, inscrição, escolhas). É o crânio que disfere uma reflexão bem 
interessante. Ser ou não ser? Para onde você irá agora? 
À direita desta escada ainda, tem um teatro chamuscado e à esquerda dela 
uma Arena. Duas órbitas. 
Descemos a escada e então, ao lado esquerdo dela, tem salas de vidro. 
Chamam-nas de “aquário”. A biblioteca de vidro à direita, e a brinquedoteca no meio 
do espaço, embaixo das escadas. A brinquedoteca é o lugar onde a criança pulsa. 
Essas estruturas de vidro (aquários, biblioteca), fisicamente frágil é análoga à 
caixa torácica logo abaixo do crânio, com suas finas clavículas e costelas em pares 
abaixo destas, e sua capacidade de expansão e contração. Dentro das costelas há 
um coração e um par de pulmões. É uma estrutura óssea e flexível, a caixa torácica. 
Descendo outra escada, estaremos no piso inferior. Este esqueleto terá 
assim pernas que serão seus estúdios e ateliês; E dois pés que são sua área verde, 
cheio de raízes. 
O pé direito comporta uma horta e o esquerdo um bosque. 
Esses pés irão suportar todo o peso do corpo do Piá, serão o chão das 
narrativas, terão a textura firme, intuição descalça e a vocação de correr. 
ARTICULAÇÕES 
Dentro deste organismo existe um programa de monitoria muito eficiente, 
que funciona com a contratação de jovens monitores culturais. Neste organismo, a 
monitoria aparece como articulações. 
Sobre as articulações deve-se saber que não há movimentos sem elas, que 
suportam peso, que se dobram quando precisam e que se ferem quando a carga é 
muito grande e que dão ao corpo a noção de posicionamento. 
Sobre as articulações devemos lembrar que se nutrem no movimento 
(principalmente o delicado e circular), e que, funcionam ao longo do corpo num 
sistema parecido ao de roldanas. 
Sempre que precisarmos diminuir a dificuldade de alavanca do movimento, 
ou aumentar o apoio, iremos aumentar o número de articulações envolvidas nele. 
Assim, nos deslocaremos harmoniosamente.
6 
O Piá no CCJ se articulou muito bem. Com o tempo, o deitar-se e levantar-se 
do Piá no CCJ irá utilizar um número tão grande de articulações que este 
movimento tão básico poderá acontecer em espiral, dado o número e eficiência 
dos monitores envolvidos. 
O SISTEMA LOCOMOTOR 
O sistema locomotor do piá no CCJ é a presença dos pais, seu movimento 
concêntrico (para dentro) ou excêntrico (para fora), a incapacidade de desativar 
mesmo no repouso, o tônus, o sinergismo com a Equipe e o Programa, a 
organização de força/relaxamento necessários, especializados e precisos. 
As mães sabem que para o movimento acontecer é imprescindível energia (e 
alimento que vire energia), recrutamento de força, planejamento, aquecimento, 
familiarização, especificidade e repouso (BROWN, Lee, 2003). 
PROCESSOS COMO IRRIGAÇÃO 
Os processos são como grandes artérias que atravessam todas as turmas e 
as duplas. 
Estão sob a epiderme cartográfica do CCJ e dentro de seu esqueleto azul. 
Essas artérias levam e recebem nutrientes ( ideias, jogos, propostas) de um 
lugar a outro, de um dia para outro, de uma turma para outra, em um processo 
circulatório que quando para cria uma estase. 
Como a circulação não acontece em estase. Quando os processos são 
interrompidos (como na Copa do Mundo), a própria circulação/processo o desloca 
num retorno venoso para dentro do coração, que por sua vez o bomba para os 
pulmões, (GUYTON, Arthur, 2006) que oxigena os processos com novas poéticas e 
o devolve à circulação das turmas. 
É interessante que os processos tenham de fato circulado entre as turmas e 
que conseguimos repetir, determinada experiência com outra dupla em outra turma
7 
e que, de alguma maneira, a disponibilidade das duplas tenha dado aos fenômenos 
um tempo estendido, necessário à arte. 
E. 
Silêncios. 
Necessários. 
Também é verdade que cada profissional e cada variação de linguagem tenha 
dado ao processo um valor diferente e extraído dele diferentes possibilidades. 
A Pesquisa Ação está presente quando sabemos que tipo de escolha ou 
provocação artística irá abrir as portas do imaginário e, quando nos deparamos 
novamente com esta proposta modificada após ter sido atravessada por outras 
turmas e duplas de artistas educadores. 
Essa didática confere aos encontros uma fluência direta e flexível que ira ser 
transformada e irá transformar-se para irrigar novos encontros. 
6.1 A Interlinguagem 
A importância da interlinguagem nos processos irrigadores é a de saber 
quem somos no todo. A diversidade de provocações durante os encontros sobre 
um mesmo tema, narrativa, imagem, os potencializa. 
Sobre a interlinguagem na irrigação é necessário lembrar que o sangue 
dentro do corpo sempre aumenta de pressão quando a resistência é maior e diminui 
de pressão quando a complacência é maior. 
O corpo do Piá no CCJ apresenta grande complacência e não grande 
resistência. Assim, a fluência é grande e os encontros são devidamente oxigenados. 
7. EQUIPE E RESPIRAÇÃO 
Os pulmões desempenham múltiplas funções, mas a 
principal delas é a de servir de local de encontro entre o ar fresco
8 
que é inalado e o sangue venoso misto, de modo que a quantidade 
apropriada de oxigê- nio possa deixar o ar e passar para o sangue 
e a quan- tidade apropriada de dióxido de carbono possa se des-locar 
do sangue venoso para o ar. Na intimidade dos pulmões, o 
local de encontro entre ar e sangue, a mem- brana alveolocapilar, é 
uma estrutura muito delgada (menos de 0,1 micrômetro de 
espessura) com vasta área de superfície (aproximadamente 70 m2 
no adul- to) e que permite rápida passagem dos gases. A “quan-tidade 
apropriada” de trocas gasosas (oxigênio e dió- xido de 
carbono) requer, entretanto, um sofisticado me- canismo sensorial 
que detecta a necessidade de mais ou de menos ar e envia ao 
cérebro mensagens para aumentar ou diminuir a ventilação, 
visando adequá-la às necessidades do organismo. A função última 
da troca de gases nos pulmões é tornar possível a troca de gases 
entre toda e qual- quer célula no organismo e o sangue capilar que 
che- ga próximo às células. Para que isto ocorra, as trocas gasosas 
devem incluir o transporte de oxigênio no san- gue arterial até 
chegar aos tecidos, sua liberação às células que dele necessitam e 
o transporte de dióxido de carbono através do sangue venoso que 
retoma aos pulmões pela circulação pulmonar. A circulação 
pulmonar é parte integrante dos pulmões. A magnitude do fluxo 
sangüíneo nos capila- res pulmonares e a sua distribuição têm a 
mesma im- portância da distribuição do ar inalado para os alvéo-los. 
Para que funcionem adequadamente, os pulmões necessitam 
de dois sistemas que operam em sincronia: um desses sistemas 
garante o suprimento de ar, en- quanto que o outro cuida do 
suprimento sangüíneo. O sistema respiratório possui uma bomba 
de ar que trans- fere ar do meio ambiente para as centenas de 
milhões de alvéolos, enquanto que o sistema circulatório usa uma 
bomba de sangue que propele todo o fluxo san- güíneo através de 
centenas de milhões de capilares que envolvem os alvéolos. Do 
ponto de vista da enge- nharia dos sistemas de transporte de 
fluidos, os dois sistemas têm muito em comum: são sistemas de 
resis- tências relativamente baixas e que podem aumentar 
grandemente o fluxo, quando solicitados pela demanda. ( MANÇO, 
José Carlos, 1998) 
A respiração do corpo do Piá no CCJ é a composição da equipe. A equipe 
funciona como os pulmões deste corpo: acelera a frequência de reuniões, 
aproximações, diálogos, afetos e contatos a fim de enviar oxigênio para todas as 
suas partes. Quando uma das partes deste corpo não está recebendo oxigênio 
suficiente, a equipe aumenta sua frequência. Respira rápido e breve (se precisar). 
Quando a normalidade se estabelece, a equipe volta a funcionar de maneira 
profunda e em sintonia com todas as demais partes do corpo. Afim de não aumentar 
níveis de adrenalina (que aceleram os processos), a fim de manter este corpo como 
terra fértil para a criação.
9 
A equipe, como pulmões do organismo sabe que: Seu trabalho mais 
importante é a inspiração ativa, profunda e intermitente. E enfim, que a boa 
circulação dos processos depende desta inspiração profunda. 
REFERÊNCIAS, AFERENCIAS E EFERENCIAS DE UMA 
COORDENAÇÃO DE FORMAÇÃO E PESQUISA 
A coordenação das funções acontece em etapas, respeitam demandas 
específicas e gerais e ainda criam novas rotas de acordo com novas necessidades. 
O corpo tem comando cerebral, mas diferentemente da representação que a 
cientologia oferece, esse comando acontece de maneira integrada com o organismo, 
e sua finalidade sempre será a de dividir funções de acordo com necessidades 
específicas, criar novas formas e rotas, estruturar, sinalizar, instaurar mecanismos 
de ajustes e adaptação (LUNDY-EKMAN, Laurie, 2011). 
Essa comunicação acontece em ambas as direções ao mesmo tempo. 
Enquanto uma dessas células é estimulada, outra parte dela está devolvendo 
estímulos. Elas também são responsáveis pela preservação e por formarem uma 
barreira nutritiva e protetora ao cérebro, chamada barreira hematoencefálica. 
Nota-se, neste momento, a manutenção do Programa com sua característica 
de continua formação dos AEs e AEs coordenadores, proveniente de ações e 
reflexões coletivas, assembleias, formações. 
SINAPSES E OS POTENCIAIS DE AÇÃO DE UMA 
COORDENAÇÂO REGIONAL 
Sinapse é a comunicação de um neurônio com outro e deste com outro e 
assim sucessivamente, até que aconteça uma aferência (comunicação do corpo 
para o cérebro) e uma eferência. 
Observando o Piá como organismo, podemos acrescentar que a coordenação 
regional desempenha este papel sociedade-equipamentos-sociedade-secretaria.
10 
SABER DECOR, (DE CORAÇÃO) 
Até determinado período da antiguidade, os gregos acreditavam 
que a parte central do intelecto humano se encontrava 
no coração. Por ser o órgão que responde prontamente a toda 
emoção forte, vários sentimentos foram atribuídos a ele, como 
alegria, dor, medo, ódio, ternura, etc. [4,9]. Resquícios desse 
pensamento perduram até hoje conforme o coração é citado como 
órgão dos sentimentos, porém, sempre metaforicamente. Já para o 
homem homérico, esses sentimentos eram funções próprias do 
coração. 
A própria palavra coragem deriva etimologicamente do latim cor – 
cordis/coração. (BEZAS, Georges; et al., 2012) 
O coração do nosso organismo não pode cessar evidentemente. 
Evidentemente esse organismo depende dos outros órgãos para existir. 
Pulmões que os oxigenam, sangue, informações cerebrais, músculos. 
Para a criança que pulsa no Piá do CCJ a perfeita sintonia entre as duplas, 
fluência dos processos, a integridade do espaço físico, a comunicação rápida 
com a coordenação, e a secretaria, a presença da família são os imperativos para 
sua pulsação. 
Quando o coração recebe sangue suficiente, ele fecha suas valvas 
receptoras. Assim são as crianças. Chegam abertas e pulsam até que todo o 
processo passe por elas. O processo sai modificado desta criança e passa para uma 
próxima, e depois outra, em outro dia. Assim, a criança determina quanto recebe 
em que velocidade corre, quantos músculos devem ser ativados, qual é a próxima 
pergunta para o crânio, e quais espaços deste esqueleto precisamos. 
A criança, no seu trabalho primeiro de pulsar e ser irá largar a aula tão bem 
planejada para brincar, irá chamar estranhos para o lanche, provocar crise de riso 
com uma paródia, irá ser presidente do Brasil, irá fazer poções para matar a Cuca e 
se arrepender, irá andar de trem, cantar bom dia numa quinta feira sem graça, pedir 
explicações complicadíssimas sobre a existência da realidade x verdade. A criança 
sabe de cor (de coração) quando parar. Saberá nos perguntar por que precisamos 
do governo para trabalhar, saberá distinguir-se a si e aos seus. Saberá fazer amigos 
com línguas estranhas, saberá ajudar, colher, devolver cuidar para que suas
11 
potentes mães maravilhas não percam a hora. A criança pulsante sabe de cor. E irá 
colocar suas mãos pequenas, bem no meio do tórax dos adultos e irá mostrar-lhes 
calmamente a esquerda, à direita e lá permanecerá com sua mão pequena. 
Corações não descansam. Não esperam. Não pedem limites. 
Não assuste um coração. Ele nem gosta. Nem de repousos, nem de força. 
Corações precisam de bom alimento, de calor e de calma. 
Cordialmente (do coração) as crianças recebem e devolvem 
continuadamente. Intermitentemente. 
CONCLUSÃO 
O Piá no CCJ, que, antes de ser toda sua narrativa, poética, estética, era 
apenas seu nome curto. Foi virando corpo e tomando forma e existindo. 
Não sei se viveria sem seu cérebro sofisticado criado nas escolas 
contemporâneas e sua defesa da memória. Não sei se viveria sem seu esqueleto 
azul. Não sei se seus processos fluiriam com a mesma retroalimentação sem os 
profundos respiros, diálogos e percepção das equipes. Sem a observação concreta 
da gestão do espaço. 
Certamente se essa edição do Piá no CCJ fossem experiências isoladas ele 
não apareceria na minha frente como um homúnculo vicejante. 
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
1. AGUIAR, Douglas Vieira de. Alma espacial. Arqtexto. Porto Alegre. N. 3/4 
(2003), p. 84-91, 2003 
2. BEZAS, Georges; WERNECK, Alexandre Lins. Idioma grego: análise da 
etimologia anatomocardiológica: passado e presente. Rev Bras Cir Cardiovasc, v. 
27, n. 2,, 2012. 
3. BROWN, Lee E. et al. Recomendação de procedimentos da Sociedade 
Americana de Fisiologia do Exercício (ASEP) I: avaliação precisa da força e 
potência muscular. Rev. bras. ciênc. mov, v. 11, n. 4, 2003.
12 
4. FERNANDES, Ciane. O Corpo em movimento: o sistema Laban-Bartenieff 
na formação e pesquisa em artes cênicas. Annablume, 2006. 
5. GUYTON, Arthur Clifton; HALL, John E.; GUYTON, Arthur C. Tratado de 
fisiologia médica. Elsevier Brasil, 2006. 
6. LABAN, Rudolf. Domínio do movimento; edição organizada por Lisa Ullmann. 
São Paulo: Summus, 1978. 
7. LUNDY-EKMAN, Laurie. Neurociência fundamentos para reabilitação. 
Elsevier Brasil, 2011. 
8. MANÇO, José Carlos. Fisiologia e fisiopatologia respiratórias. Medicina 
(Ribeirao Preto. Online), v. 31, n. 2, p. 177-190, 1998. 
9. Morgan, Gareth, Cecília Whitaker Bergamini, and Roberto Coda. Imagens da 
organização. São Paulo: Atlas, 1996. 
10. SOBOTTA, Johannes. Atlas de anatomia humana: tronco, vísceras e 
extremidades inferiores. Guanabara Koogan, 2000.

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O corpo do PIÁ no CCJ

  • 1. O CORPO DO PIÁ NO CCJ TELMA LAZARO INTRODUÇÃO Compreendendo que o entendimento do corpo e todos os fenômenos envolvidos no movimento são os temas centrais da vida (LABAN, 1978) e seu desdobramento para a sociedade são os fatos mais importantes desta. Observando que intervenção na vida humana acontece primariamente no corpo (FERNANDES, Ciane, 2006) e que, toda a expressividade desenvolvida após esta (poética, imagem, escrita, leitura, política, estética) são em si mesmas, maneiras de expandir o território do movimento. Este ensaio é uma observação da experiência do Programa de Iniciação Artística (PIÁ) com o corpo no centro da reflexão. Para tanto, o PIÁ, implantado no CCJ em 2014, é apresentado como um homúnculos (ou um pequeno corpo). O objetivo deste ensaio é o de subverter o pensamento organizacional clássico, e dar luz ao pensamento orgânico, muitas vezes citado em vários momentos importantes do Programa, durante o ano. Para que o Programa seja identificado com um organismo vivo, é importante retirar o corpo da lógica mecânica e biológica e coloca-lo sob a luz da atitude holística ou integral: A metáfora do corpo-organismo, é uma metáfora chave para compreender muitos fenômenos do mundo, tais como organismo social, organismo político. O organismo seria um princípio de conhecimento, um fundamento original que permite discutir fenômenos particulares manifestos nos comportamentos. Desse modo, funciona como um instrumento metodológico e teórico, que possibilita entender como certo fenômeno torna-se um fato identificável. Ele explica o vivo, ajuda a organizar, distinguir e distribuir os diversos segmentos do saber, e os direciona para uma ação ou objetivo. O conceito de corpo-organismo abrange significado de um corpo holístico, que inclui diversos aspectos, seja físico, emocional ou mental. Essa noção revela o corpo como um
  • 2. 2 organismo complexo, que engloba desejos, emoções, necessidades biológicas, em que todos os dispositivos que participam da aprendizagem encontram-se interligado. (MORGAN, Gareth et al., 1996) SOBRE ESTE “CORPO” Eu poderia lhes contar dele através de seu olhar brilhante, de suas palavras graúdas, de seus grandes sonhos, de suas narrativas. Eu poderia falar dele até mesmo através de suas origens, seu lugar no mundo ou seu tempo estendido. Poderia, diante de tantas palavras, escolher aquelas que o definem como sujeito histórico e explanar sobre sua vocação. Mas sobre o Piá no CCJ eu escolhi falar de seu corpo. Cruamente. De seu sistema de vida. O corpo do Piá no CCJ, como o seu e como o meu corpo tem específicas necessidades, peculiar estrutura e determinada busca homeostática do próprio equilíbrio. Ele está sujeito a todo tipo de mudanças, à instabilidade, ao tempo e a morte. Assim, este ensaio pretende ser uma maneira de integrar a maior parte possível das informações sobre o funcionamento dinâmico-operacional dos encontros espaço-criança-equipe-tempo deste organismo e de sua anatomia autonomia no CCJ. Este é o primeiro ano do Piá no CCJ (Centro Cultural da Juventude). O trabalho realizado durante o ano foi fundamentado em narrativas, e com elas percorremos todo o espaço físico. As histórias foram se fundindo ao espaço físico do CCJ e assim, foi possível cartografar o espaço. CARTOGRAFIA COMO EPIDERME O desenvolvimento da cartografia permitiu a observação para o espaço como material fenomenológico e não estático na experiência dos encontros. Essa cartografia é uma característica da equipe e do Piá no CCJ hoje aparece desta maneira:
  • 3. 3 Cerca viva na entrada: Portal mágico e jardim secreto Mesa de atividades externa: Barco da Invisibilidade Corredores do primeiro andar: Labirinto da Medusa Arena: Centro de Treinamento de heróis Biblioteca: Centro de Pesquisa de Aventureiros Brinquedoteca: sala do Piá Elevador: Cápsula do tempo Estúdio: Útero de dragões Área Verde: Floresta/ Bosque onde moram Curupira e Caipora Horta: Casa da Cuca e do Saci A pele é onde acontece a regulação de temperatura (SOBOTTA, Johannes., 2000) . É o lugar onde se transpira para o corpo resfriar e, onde vive o eriçar de pelos diante do medo e do frio. Onde o meio interno se envolve, ganha característica e cor. A cartografia do processo revestiu esse corpo inteiro em camadas e sensações. Pode-se dizer que a cara desse corpo, a cor dos olhos, os cabelos, o formato dos dentes, as unhas, a resistência ao frio ou calor é também o fruto de uma genética. A pele é nobre porque separa nosso meio interno do restante do Universo. Porque nos envolve para que possamos nos desenvolver. Assim é com a cartografia que irá cobrir esse corpo em muitas histórias, crenças, sensações, reações. E é fato que, cada espaço geográfico desse organismo teve sim sua experiência tátil. Essas podem ser repetidas com um guia de aventuras em mãos. E serão deveras repetidas. E a cartografia não irá desgastar-se, como não se desgasta a pele diante de afeto, cócegas e do frio. E a cada aventura, a cartografia ganha aqui e ali suas marcas. Uma memória de pele é diferente da memória mental porque é uma memória de sensações.
  • 4. 4 3. O PRÉDIO COMO ESQUELETO Programas arquitetônicos carregam em si a ambição de ordenar espacialmente atividades humanas. As atividades, por natureza própria, são mais ou menos demandantes de acessibilidade. Não é incomum que experienciemos edificações onde a lógica da distribuição das atividades contraria a lógica do percurso, a lógica de distribuição das gradações de acessibilidade. Isso pode ocorrer, e amiúde ocorre, tanto em edifícios comerciais quanto residenciais ou institucionais; edifícios bem dotados de tecnologia e estética mas que não funcionam adequadamente. E aí começam as reformas...A condição de acessibilidade ora descrita tem natureza eminentemente espacial; independe de função, atividade ou atratores. É só forma, formato topológico, configuração, modo de arranjo. Uma forma que não segue a função. Tudo é forma e as formas, no andar da carruagem, terminam ditando a natureza do evento. Funções ou atividades posicionadas em espaços cuja condição de acessibilidade seja desconforme com a natureza daquela função, em geral, não sobrevivem naquele posicionamento, seja na escala do edifício ou da cidade. A natureza espacial comanda a natureza comportamental, a natureza dos eventos, seguindo automaticamente o mecanismo topológico das gradações de acessibilidade. (AGUIAR, Douglas Vieira de, 2003). O espaço é completamente subjetivo e sobre ele existem profundas teorias. Por isso vamos nos ater a situação de empilhamento dessa arquitetura (CCJ) e lembrar que estamos falando de um espaço com andares, unidos por escadas centrais, como um esqueleto está unido pela coluna vertebral. E, talvez as escadarias tenham aqui papel fundamental, vertebral. Nem todos irão para a sala, mas todos passam pelas escadas. Nem sei para onde irá e seu nome, mas sei que está descendo ou subindo. Talvez essa certeza baste para um arquiteto desenhar um lugar com uma escada assim, grande e no centro da entrada. O Piá fica logo abaixo dessa escadaria vertebral. De dentro da brinquedoteca vemos nada menos que os pés das pessoas através da claraboia e ouvimos quem desce e quem sobe. Com algumas semanas de encontros conseguimos distinguir através dos sons o descer e o subir. Voltando a entrada do prédio esqueleto: Ao adentrar o espaço, veremos uma mesa com um funcionário à esquerda da escada ( com uma série de ferramentas de
  • 5. 5 informação, inscrição, escolhas). É o crânio que disfere uma reflexão bem interessante. Ser ou não ser? Para onde você irá agora? À direita desta escada ainda, tem um teatro chamuscado e à esquerda dela uma Arena. Duas órbitas. Descemos a escada e então, ao lado esquerdo dela, tem salas de vidro. Chamam-nas de “aquário”. A biblioteca de vidro à direita, e a brinquedoteca no meio do espaço, embaixo das escadas. A brinquedoteca é o lugar onde a criança pulsa. Essas estruturas de vidro (aquários, biblioteca), fisicamente frágil é análoga à caixa torácica logo abaixo do crânio, com suas finas clavículas e costelas em pares abaixo destas, e sua capacidade de expansão e contração. Dentro das costelas há um coração e um par de pulmões. É uma estrutura óssea e flexível, a caixa torácica. Descendo outra escada, estaremos no piso inferior. Este esqueleto terá assim pernas que serão seus estúdios e ateliês; E dois pés que são sua área verde, cheio de raízes. O pé direito comporta uma horta e o esquerdo um bosque. Esses pés irão suportar todo o peso do corpo do Piá, serão o chão das narrativas, terão a textura firme, intuição descalça e a vocação de correr. ARTICULAÇÕES Dentro deste organismo existe um programa de monitoria muito eficiente, que funciona com a contratação de jovens monitores culturais. Neste organismo, a monitoria aparece como articulações. Sobre as articulações deve-se saber que não há movimentos sem elas, que suportam peso, que se dobram quando precisam e que se ferem quando a carga é muito grande e que dão ao corpo a noção de posicionamento. Sobre as articulações devemos lembrar que se nutrem no movimento (principalmente o delicado e circular), e que, funcionam ao longo do corpo num sistema parecido ao de roldanas. Sempre que precisarmos diminuir a dificuldade de alavanca do movimento, ou aumentar o apoio, iremos aumentar o número de articulações envolvidas nele. Assim, nos deslocaremos harmoniosamente.
  • 6. 6 O Piá no CCJ se articulou muito bem. Com o tempo, o deitar-se e levantar-se do Piá no CCJ irá utilizar um número tão grande de articulações que este movimento tão básico poderá acontecer em espiral, dado o número e eficiência dos monitores envolvidos. O SISTEMA LOCOMOTOR O sistema locomotor do piá no CCJ é a presença dos pais, seu movimento concêntrico (para dentro) ou excêntrico (para fora), a incapacidade de desativar mesmo no repouso, o tônus, o sinergismo com a Equipe e o Programa, a organização de força/relaxamento necessários, especializados e precisos. As mães sabem que para o movimento acontecer é imprescindível energia (e alimento que vire energia), recrutamento de força, planejamento, aquecimento, familiarização, especificidade e repouso (BROWN, Lee, 2003). PROCESSOS COMO IRRIGAÇÃO Os processos são como grandes artérias que atravessam todas as turmas e as duplas. Estão sob a epiderme cartográfica do CCJ e dentro de seu esqueleto azul. Essas artérias levam e recebem nutrientes ( ideias, jogos, propostas) de um lugar a outro, de um dia para outro, de uma turma para outra, em um processo circulatório que quando para cria uma estase. Como a circulação não acontece em estase. Quando os processos são interrompidos (como na Copa do Mundo), a própria circulação/processo o desloca num retorno venoso para dentro do coração, que por sua vez o bomba para os pulmões, (GUYTON, Arthur, 2006) que oxigena os processos com novas poéticas e o devolve à circulação das turmas. É interessante que os processos tenham de fato circulado entre as turmas e que conseguimos repetir, determinada experiência com outra dupla em outra turma
  • 7. 7 e que, de alguma maneira, a disponibilidade das duplas tenha dado aos fenômenos um tempo estendido, necessário à arte. E. Silêncios. Necessários. Também é verdade que cada profissional e cada variação de linguagem tenha dado ao processo um valor diferente e extraído dele diferentes possibilidades. A Pesquisa Ação está presente quando sabemos que tipo de escolha ou provocação artística irá abrir as portas do imaginário e, quando nos deparamos novamente com esta proposta modificada após ter sido atravessada por outras turmas e duplas de artistas educadores. Essa didática confere aos encontros uma fluência direta e flexível que ira ser transformada e irá transformar-se para irrigar novos encontros. 6.1 A Interlinguagem A importância da interlinguagem nos processos irrigadores é a de saber quem somos no todo. A diversidade de provocações durante os encontros sobre um mesmo tema, narrativa, imagem, os potencializa. Sobre a interlinguagem na irrigação é necessário lembrar que o sangue dentro do corpo sempre aumenta de pressão quando a resistência é maior e diminui de pressão quando a complacência é maior. O corpo do Piá no CCJ apresenta grande complacência e não grande resistência. Assim, a fluência é grande e os encontros são devidamente oxigenados. 7. EQUIPE E RESPIRAÇÃO Os pulmões desempenham múltiplas funções, mas a principal delas é a de servir de local de encontro entre o ar fresco
  • 8. 8 que é inalado e o sangue venoso misto, de modo que a quantidade apropriada de oxigê- nio possa deixar o ar e passar para o sangue e a quan- tidade apropriada de dióxido de carbono possa se des-locar do sangue venoso para o ar. Na intimidade dos pulmões, o local de encontro entre ar e sangue, a mem- brana alveolocapilar, é uma estrutura muito delgada (menos de 0,1 micrômetro de espessura) com vasta área de superfície (aproximadamente 70 m2 no adul- to) e que permite rápida passagem dos gases. A “quan-tidade apropriada” de trocas gasosas (oxigênio e dió- xido de carbono) requer, entretanto, um sofisticado me- canismo sensorial que detecta a necessidade de mais ou de menos ar e envia ao cérebro mensagens para aumentar ou diminuir a ventilação, visando adequá-la às necessidades do organismo. A função última da troca de gases nos pulmões é tornar possível a troca de gases entre toda e qual- quer célula no organismo e o sangue capilar que che- ga próximo às células. Para que isto ocorra, as trocas gasosas devem incluir o transporte de oxigênio no san- gue arterial até chegar aos tecidos, sua liberação às células que dele necessitam e o transporte de dióxido de carbono através do sangue venoso que retoma aos pulmões pela circulação pulmonar. A circulação pulmonar é parte integrante dos pulmões. A magnitude do fluxo sangüíneo nos capila- res pulmonares e a sua distribuição têm a mesma im- portância da distribuição do ar inalado para os alvéo-los. Para que funcionem adequadamente, os pulmões necessitam de dois sistemas que operam em sincronia: um desses sistemas garante o suprimento de ar, en- quanto que o outro cuida do suprimento sangüíneo. O sistema respiratório possui uma bomba de ar que trans- fere ar do meio ambiente para as centenas de milhões de alvéolos, enquanto que o sistema circulatório usa uma bomba de sangue que propele todo o fluxo san- güíneo através de centenas de milhões de capilares que envolvem os alvéolos. Do ponto de vista da enge- nharia dos sistemas de transporte de fluidos, os dois sistemas têm muito em comum: são sistemas de resis- tências relativamente baixas e que podem aumentar grandemente o fluxo, quando solicitados pela demanda. ( MANÇO, José Carlos, 1998) A respiração do corpo do Piá no CCJ é a composição da equipe. A equipe funciona como os pulmões deste corpo: acelera a frequência de reuniões, aproximações, diálogos, afetos e contatos a fim de enviar oxigênio para todas as suas partes. Quando uma das partes deste corpo não está recebendo oxigênio suficiente, a equipe aumenta sua frequência. Respira rápido e breve (se precisar). Quando a normalidade se estabelece, a equipe volta a funcionar de maneira profunda e em sintonia com todas as demais partes do corpo. Afim de não aumentar níveis de adrenalina (que aceleram os processos), a fim de manter este corpo como terra fértil para a criação.
  • 9. 9 A equipe, como pulmões do organismo sabe que: Seu trabalho mais importante é a inspiração ativa, profunda e intermitente. E enfim, que a boa circulação dos processos depende desta inspiração profunda. REFERÊNCIAS, AFERENCIAS E EFERENCIAS DE UMA COORDENAÇÃO DE FORMAÇÃO E PESQUISA A coordenação das funções acontece em etapas, respeitam demandas específicas e gerais e ainda criam novas rotas de acordo com novas necessidades. O corpo tem comando cerebral, mas diferentemente da representação que a cientologia oferece, esse comando acontece de maneira integrada com o organismo, e sua finalidade sempre será a de dividir funções de acordo com necessidades específicas, criar novas formas e rotas, estruturar, sinalizar, instaurar mecanismos de ajustes e adaptação (LUNDY-EKMAN, Laurie, 2011). Essa comunicação acontece em ambas as direções ao mesmo tempo. Enquanto uma dessas células é estimulada, outra parte dela está devolvendo estímulos. Elas também são responsáveis pela preservação e por formarem uma barreira nutritiva e protetora ao cérebro, chamada barreira hematoencefálica. Nota-se, neste momento, a manutenção do Programa com sua característica de continua formação dos AEs e AEs coordenadores, proveniente de ações e reflexões coletivas, assembleias, formações. SINAPSES E OS POTENCIAIS DE AÇÃO DE UMA COORDENAÇÂO REGIONAL Sinapse é a comunicação de um neurônio com outro e deste com outro e assim sucessivamente, até que aconteça uma aferência (comunicação do corpo para o cérebro) e uma eferência. Observando o Piá como organismo, podemos acrescentar que a coordenação regional desempenha este papel sociedade-equipamentos-sociedade-secretaria.
  • 10. 10 SABER DECOR, (DE CORAÇÃO) Até determinado período da antiguidade, os gregos acreditavam que a parte central do intelecto humano se encontrava no coração. Por ser o órgão que responde prontamente a toda emoção forte, vários sentimentos foram atribuídos a ele, como alegria, dor, medo, ódio, ternura, etc. [4,9]. Resquícios desse pensamento perduram até hoje conforme o coração é citado como órgão dos sentimentos, porém, sempre metaforicamente. Já para o homem homérico, esses sentimentos eram funções próprias do coração. A própria palavra coragem deriva etimologicamente do latim cor – cordis/coração. (BEZAS, Georges; et al., 2012) O coração do nosso organismo não pode cessar evidentemente. Evidentemente esse organismo depende dos outros órgãos para existir. Pulmões que os oxigenam, sangue, informações cerebrais, músculos. Para a criança que pulsa no Piá do CCJ a perfeita sintonia entre as duplas, fluência dos processos, a integridade do espaço físico, a comunicação rápida com a coordenação, e a secretaria, a presença da família são os imperativos para sua pulsação. Quando o coração recebe sangue suficiente, ele fecha suas valvas receptoras. Assim são as crianças. Chegam abertas e pulsam até que todo o processo passe por elas. O processo sai modificado desta criança e passa para uma próxima, e depois outra, em outro dia. Assim, a criança determina quanto recebe em que velocidade corre, quantos músculos devem ser ativados, qual é a próxima pergunta para o crânio, e quais espaços deste esqueleto precisamos. A criança, no seu trabalho primeiro de pulsar e ser irá largar a aula tão bem planejada para brincar, irá chamar estranhos para o lanche, provocar crise de riso com uma paródia, irá ser presidente do Brasil, irá fazer poções para matar a Cuca e se arrepender, irá andar de trem, cantar bom dia numa quinta feira sem graça, pedir explicações complicadíssimas sobre a existência da realidade x verdade. A criança sabe de cor (de coração) quando parar. Saberá nos perguntar por que precisamos do governo para trabalhar, saberá distinguir-se a si e aos seus. Saberá fazer amigos com línguas estranhas, saberá ajudar, colher, devolver cuidar para que suas
  • 11. 11 potentes mães maravilhas não percam a hora. A criança pulsante sabe de cor. E irá colocar suas mãos pequenas, bem no meio do tórax dos adultos e irá mostrar-lhes calmamente a esquerda, à direita e lá permanecerá com sua mão pequena. Corações não descansam. Não esperam. Não pedem limites. Não assuste um coração. Ele nem gosta. Nem de repousos, nem de força. Corações precisam de bom alimento, de calor e de calma. Cordialmente (do coração) as crianças recebem e devolvem continuadamente. Intermitentemente. CONCLUSÃO O Piá no CCJ, que, antes de ser toda sua narrativa, poética, estética, era apenas seu nome curto. Foi virando corpo e tomando forma e existindo. Não sei se viveria sem seu cérebro sofisticado criado nas escolas contemporâneas e sua defesa da memória. Não sei se viveria sem seu esqueleto azul. Não sei se seus processos fluiriam com a mesma retroalimentação sem os profundos respiros, diálogos e percepção das equipes. Sem a observação concreta da gestão do espaço. Certamente se essa edição do Piá no CCJ fossem experiências isoladas ele não apareceria na minha frente como um homúnculo vicejante. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. AGUIAR, Douglas Vieira de. Alma espacial. Arqtexto. Porto Alegre. N. 3/4 (2003), p. 84-91, 2003 2. BEZAS, Georges; WERNECK, Alexandre Lins. Idioma grego: análise da etimologia anatomocardiológica: passado e presente. Rev Bras Cir Cardiovasc, v. 27, n. 2,, 2012. 3. BROWN, Lee E. et al. Recomendação de procedimentos da Sociedade Americana de Fisiologia do Exercício (ASEP) I: avaliação precisa da força e potência muscular. Rev. bras. ciênc. mov, v. 11, n. 4, 2003.
  • 12. 12 4. FERNANDES, Ciane. O Corpo em movimento: o sistema Laban-Bartenieff na formação e pesquisa em artes cênicas. Annablume, 2006. 5. GUYTON, Arthur Clifton; HALL, John E.; GUYTON, Arthur C. Tratado de fisiologia médica. Elsevier Brasil, 2006. 6. LABAN, Rudolf. Domínio do movimento; edição organizada por Lisa Ullmann. São Paulo: Summus, 1978. 7. LUNDY-EKMAN, Laurie. Neurociência fundamentos para reabilitação. Elsevier Brasil, 2011. 8. MANÇO, José Carlos. Fisiologia e fisiopatologia respiratórias. Medicina (Ribeirao Preto. Online), v. 31, n. 2, p. 177-190, 1998. 9. Morgan, Gareth, Cecília Whitaker Bergamini, and Roberto Coda. Imagens da organização. São Paulo: Atlas, 1996. 10. SOBOTTA, Johannes. Atlas de anatomia humana: tronco, vísceras e extremidades inferiores. Guanabara Koogan, 2000.