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1
Introdução
Que desgraça ser mulher! Entretanto, a
pior desgraça quando se é mulher é, no
fundo, não compreender que sê-lo é uma
desgraça.1
Não é fácil entender por que nos aproximamos de certos temas e livros. O
historiador Evaldo Cabral de Mello afirma que as escolhas são, muitas vezes, obra
do acaso e, portanto, dificilmente encontramos justificativas racionais e plausíveis
para elas. O que, segundo o historiador, pode “explicar” a nossa formação
acadêmico-ideológica é que há “um anjo da guarda da leitura”2
que faz com que
as obras, os livros e os discursos de que gostamos nos encontrem, contribuindo
quase magicamente para ampliar o nosso campo do saber. Assim, posso afirmar
que o encontro observado nessa dissertação se deu pela mistura do acaso com o
desejo.
Para esse encontro contribuíram diferentes leituras, mas especialmente a
leitura efetuada por minha mestra e orientadora Izabel Margato, não apenas
durante uma disciplina que ministrou durante o curso mestrado, em 2007, sobre
Eça de Queirós e o Realismo Português, como, também, a de seu artigo, O
Intelectual e o Poder, apresentado durante o XV Seminário Internacional da
Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses, O Intelectual e o Espaço
Público. Neste texto, a professora aborda a importância das idéias defendidas pelo
intelectual através de suas diferentes tribunas, mas em especial através dos
romances que nos legou.
Desse modo, em uma perspectiva anticartesiana, aberta e inconclusa,
pretendemos analisar o romance O primo Basílio, procurando resgatá-lo de uma
1
Søren Aabye Kierkegaard In: Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Rio de Janeiro: Ed. Nova
Fronteira. 1980. P. 76.
2
MORAES, J.G.V. Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2002. P.148.
9
possível desvalorização por parte da crítica canônica, que tenta diminuir o valor
da obra, por acreditar que ela seja uma espécie de cópia temática e de enredo de
Madame Bovary.
O plágio, a acusação de plágio ronda o final do século XIX e especialmente o
nosso romancista, que desde O Crime do Padre Amaro se viu condenado no
Brasil e em Portugal por plagiar Zola e La Faute de l'Abbé Mouret 3
.
Na análise que propomos para o romance, traremos à discussão questões
como: a tese do adultério, a deficiência na educação das jovens da baixa burguesia
lisboeta, a mulher como cidadã, Portugal no cenário europeu do século XIX e a
contribuição de Eça, como intelectual, influenciando a opinião pública da época
através de sua maior arma - a escrita.
Neste início de século, muitas questões de ordem política, econômica,
social e moral se colocam à humanidade com uma velocidade crescente.
Acabamos inevitavelmente por nos interrogarmos acerca da evolução das
sociedades humanas, sobre a nossa própria contribuição para o desenvolvimento
dessas sociedades nas quais nos inserimos, agindo, sob tal perspectiva, como
sujeitos ativos desencadeadores de muitas possibilidades de mudanças.
Num desses momentos, questionamo-nos sobre qual seria o papel
reservado à mulher e ao intelectual neste novo século. Se por um lado nos
congratulamos por viver em uma época em que as suas capacidades começam
finalmente a ser reconhecidas e apreciadas, depressa compreendemos também que
um longo caminho resta ainda percorrer para que se atinja uma verdadeira
igualdade entre homens e mulheres, apesar dos esforços aplicados a essa questão.
Buscaremos focalizar os questionamentos acerca da contribuição dos intelectuais
na implementação de mudanças, e, em especial, o intelectual das Letras, como
atuante formador de opinião, onde, a despeito de opiniões contrárias, se efetiva a
sua participação nesse processo.
Em relação à figura feminina, poderemos podemos chamar a atenção para
o fato de que, embora hoje em dia ela desempenhe funções e ocupe cargos para os
quais se encontra altamente qualificada, é inegável que o esforço que tem de
despedir para conquistá-los é bastante superior ao de um homem em idênticas
3
SANTAGO, Silviano. Eça o verdadeiro autor de Madame Bauvarie. In: Uma literatura nos
trópicos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978. Pp. 49-45.
10
condições, continuando a existir, apesar de nos encontrarmos já no século XXI,
uma acentuada distinção entre papéis tradicionalmente considerados femininos,
como zelar pelo bem estar do marido, cuidar do lar e da educação dos filhos, e os
masculinos, como mantenedor da estrutura familiar.
Contudo, graças à sua forte tenacidade, a mulher, hoje, mais do que esposa
e mãe, ou de uma peça decorativa do mobiliário, tem demonstrado suas reais
capacidades intelectuais e físicas nas mais diversas áreas, contribuindo
igualitariamente para os mais diversos avanços sociais e tecnológicos. Este fato
sintomático da profunda revolução operada nas mentalidades não nos impede,
todavia, de verificar que a mulher continua a ser vista por muitos homens como
um ser inferior, a quem não se confere o direito de lutar por uma carreira, de
forma a dignificar a sua imagem pessoal e socialmente. Parece-nos, portanto, que
o nascimento de um novo milênio seria o momento ideal para colocar à parte este
tipo de preconceito e aceitar naturalmente as semelhanças e as diferenças
inerentes a cada sexo, criando uma sociedade fundamentada num clima de partilha
e conjunção de interesses.
Desse modo, não podemos deixar de felicitar a mulher do século XIX, por
ter sido ela a primeira a iniciar a dura caminhada que, provocando importantes
mudanças estruturais na sociedade da época, conduziria à conquista da sua
autonomia como indivíduo. No entanto, apesar de considerarmos o século XIX
como um ponto de virada para as perspectivas femininas, as amarras que, durante
séculos, as mantiveram sob o poder masculino, não se quebraram de súbito.
Assistimos, no final do século XIX, a uma prática feminina de submissão a regras
sociais muito codificadas, que obrigam a mulher a viver à sombra do homem,
dependente e subjugada ou, por outro lado, a buscar a conquista dos seus direitos,
perseguindo os seus sonhos e paixões pela questão vital de manter viva a chama
de sua honra. A França aparece neste cenário oitocentista como um terreno fértil à
emergência do socialismo e das idéias igualitárias, como também ao surgimento
de pensamentos e práticas libertárias, dando ao mundo expoentes como Flora
Tristan (1803-1844), que lutaram pelas conquistas femininas, marcaram a gênese
do movimento operário e a defesa do direito da mulher - direito ao trabalho, ao
saber e ao prazer.
Será a partir da leitura de O primo Basílio que se buscará analisar a
importância da figura da mulher na sociedade portuguesa daquela época e,
11
principalmente, a força da opinião fomentada pelo intelectual Eça de Queirós, ao
abordar uma temática particularmente delicada, como a do adultério, e discutir as
deficiências e os equívocos pedagógicos como possíveis responsáveis pelos
“desvios de conduta” destas mulheres, chamando a atenção da sociedade
portuguesa em pleno século XIX para este problema. Ao situar essas questões,
tentaremos mapear as transformações das cidades européias em função da
modernização e, principalmente, buscaremos retratar Lisboa através da vida e dos
costumes de uma parcela de sua população – a baixa burguesia.
Como a modernização das cidades européias, naquela época, já se
encontrava em fase avançada e, segundo Eça, a pacata Lisboa ainda se encontrava
num estado de “letargia”, buscaremos trabalhar comparativamente esses dois
momentos de modernização, identificando a comparação tensa entre a pouca
modernidade portuguesa versus a modernidade européia.
No romance O primo Basílio, Eça focaliza a pequena burguesia lisboeta,
seus costumes, valores e ranços morais. A partir da análise desses elementos,
buscaremos localizar a questão do adultério relacionando-o à estrutura do lar
burguês onde sua importância pode ser analisada sob diferentes óticas, tais como,
moral, legal, sociológica, econômica, religiosa e pedagógica. Assim, além de
analisar as opiniões defendidas por Eça, no que se refere às leituras românticas e
seus efeitos na formação do caráter da mulher, analisaremos, prioritariamente,
fatos da enunciação e do discurso, procurando obter uma compreensão da
imagem feminina que circulava socialmente através dos discursos e dos
imperativos de conduta "aconselhados" às mulheres. Além disso, privilegiaremos,
neste texto, as estratégias de reconstrução do “real”, levada a cabo pelo narrador,
através das quais busca dar sentido tanto a sua tese de responsabilidade pelos
desvios morais, quanto à trama engendrada para justificar seus argumentos.
Num terceiro momento, será focalizada a ação do escritor como intelectual
comprometido com os assuntos do seu tempo, através da análise de artigos em que
o escritor busca empreender mudanças que possibilitem conduzir Portugal à
modernidade já conquistada pelos principais centros europeus. Também serão
analisados, como mais um eixo dessa ação, os tópicos construídos por Eça no
romance O primo Basílio para demonstrar a fragilidade das bases que compunham
a família pequeno burguesa, reforçando sua crítica à educação feminina que
12
possibilitaria, segundo ele, os desvios morais, responsáveis pela dissolução da
estrutura familiar, a base da sociedade de então.
Como teremos oportunidade de demonstrar, as personagens femininas em
O primo Basílio rompem até certo ponto com as convenções sociais, que
conferem às mulheres os cuidados com a casa e com a família. Luisa, personagem
central da trama de O primo Basílio foi concebida para evidenciar um tipo
feminino de personalidade frágil e indiferente aos riscos que poderiam envolver o
ato de afastar-se do código de conduta oitocentista. Esses códigos ditavam o
comportamento feminino da burguesia no que se refere à conduta moral esperada.
O afastamento de Luisa desses códigos, de alguma forma, irá contribuir para as
mudanças que presenciamos nos dias de hoje, no que diz respeito a essa temática.
Isso, sem dúvida, por si só já demonstra a força e a importância do intelectual que
aborda tais temas, colocando-os em debate na sociedade. Luisa funcionará como
exemplo de mulher frágil, fadada a sucumbir pelo atraso de sua educação. A
criação deste personagem servirá de contraponto à cidade de Lisboa que,
estagnada social e culturalmente, jamais irá atingir os índices de modernidade
alcançados pelo resto da Europa.
Neste romance que Eça subintitulou “episódios domésticos”, vimos serem
abordados tanto os aspectos econômicos, como os valores morais, psicológicos e
educativos4
, abordados como traços que o autor considerava como responsáveis
pelos “desvios” cometidos pelas mulheres e, mais particularmente, como
responsáveis pelo adultério cometido por Luisa. Com isso, analisando a situação
social das mulheres-personagem, o intelectual Eça de Queiros irá denunciar,
questionar e responsabilizar os princípios da educação vigente em Portugal e, em
especial, a leitura de romances românticos, como responsável pelos “desvios”
praticados pelas mulheres, ou pela “má educação” a elas destinada. Ou seja, a má
formação intelectual da mulher é apreendida como a responsável pela
impossibilidade de traçar o seu próprio destino.
Se compararmos a conduta de Luisa à de Maria Monforte, do romance Os
Maias, verificaremos que a educação e os valores cultivados e cultuados em
classes sociais diferentes irão condenar ou absolver, além de diagnosticar como
fado ou como escolha a história vivida por essas mulheres.
4
SARAIVA, António José e LOPES, Oscar. Eça de Queirós. História da literatura portuguesa. 12ª.
edição. Porto: Porto Editora, 1982. P.563.
13
O adultério, na obra O primo Basílio, demonstra como os diferentes
suportes de informação podem constituir-se em importante fonte de representação
da realidade. No decorrer desta dissertação, pretendemos verificar os possíveis
significados do adultério para, a partir daí, dar continuidade à linha de raciocínio
que pretendemos empreender. Outro ponto importante a ser observado diz
respeito aos diferentes olhares sobre o adultério, quando esse é praticado por um
homem ou por uma mulher. Finalmente, refletiremos sobre o papel do intelectual
Eça de Queirós que, em pleno século XIX, usa seu poder como formador de
opinião para trazer à tona um tema polêmico e proibitivo, como o adultério. Na
leitura contemporânea, Eric Hobsbawm, no livro A era dos impérios, oferece-nos
a seguinte reflexão:
O adultério, muito provavelmente a mais difundida forma de sexo extraconjugal
para as mulheres da classe média, pode ou não ter aumentado com o aumento da
autoconfiança feminina. Existe grande diferença entre o adultério, como uma
forma utópica de sonho de libertação de uma vida conjugal restrita, tal como na
versão padronizada de Madame Bovary dos romances do século XIX, e a
liberdade relativa entre maridos e mulheres, da classe média francesa, de terem
amantes desde que mantidas as convenções, conforme apresentam as peças de
teatro dos boulevards, no século XIX. Todavia, o adultério do século XIX, bem
como a maioria do sexo então praticado, resiste à quantificação. Tudo o que se
pode dizer com alguma certeza é que essa forma de comportamento era mais
comum em círculos aristocráticos e círculos da moda, sendo que nas grandes
cidades as aparências podiam ser mantidas com maior facilidade. 5
2
Portugal no processo de modernização na Europa do
século XIX e em Eça de Queirós
5
HOBSBAWM, Eric J. A era dos Impérios. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1998. P.290.
14
A primeira tentativa de caracterização da modernidade no século XIX
pode ser descrita como uma mudança de estilo, de costume de vida ou da própria
organização social. Essa modernidade surge na Europa, já a partir do século XVII
e sua influência veio a se tornar uma espécie de movimento mundial.
Circunscrita no tempo, a modernidade pode ser associada a um período
histórico e como tal, difícil de ser analisado, por ser ao mesmo tempo, passado e
presente (mesmo considerando a dificuldade de se distanciar do que se pretende
analisar, reflexivamente, os rumos do hoje e do porvir, esse movimento é
extremamente importante para que possamos compreender os fenômenos sociais
do nosso tempo).
Profundas transformações sociais, econômicas e políticas começam a
ocorrer a partir do início do século XIX. Essas mudanças formavam um lado
luminoso, principalmente pelos que estavam, de certa forma, excluídos destas
novidades. É a esta parcela excluída dos movimentos de mudança que Eça irá
dedicar sua produção intelectual, seja através de seus romances, seja através de
artigos, em que denunciou uma série de questões à sociedade portuguesa.
Assim sendo, a modernidade se apresenta carregada de ambigüidades, pois
ao mesmo tempo em que oferece segurança, também oferece perigo; ao mesmo
tempo em que oferece confiança, oferece risco. Fomos e somos acometidos por
um ritmo vertiginoso de mudanças, em que os avanços da intercomunicação nos
puseram e nos põe em conexão com diferentes partes do globo sem que, no
entanto, o desenvolvimento das forças de produção tenha trazido uma melhora
significativa na qualidade de vida dos homens. Pelo contrário, eles viviam um
grande dilema em relação aos contrastes daquela época: seja na produção aflitiva
da violência; seja nos surpreendentes avanços tecnológicos, em contraste com a
miséria e com o analfabetismo de grande parte da população; seja na crise dos
paradigmas que, durante tanto tempo, foram tomados como verdade e que não
respondiam satisfatoriamente às indagações do presente; seja no desafio de
15
conviver com o diferente, com a multiplicidade de versões e na ambigüidade
constante entre o que passou a ser considerado velho e ultrapassado e o novo,
muitas vezes difícil de ser identificado, ou capaz de trazer dentro dele parte do
velho.
Se de um lado o século XIX expunha um desenvolvimento tecnológico
inglês ou um avanço nos costumes culturais e sociais da sociedade francesa,
podemos perceber na obra de Eça de Queirós o relato de uma estagnação nos dois
campos, o que distanciava cada vez mais Portugal do restante da Europa. Pode-se
dizer que a sociedade portuguesa do século XIX é o verdadeiro objeto da
observação eciana, o pretexto para o qual se volta e, a partir do qual, se
desenvolve toda a obra do escritor. A minúcia e o rigor, bem como o humor e a
paródia são atributos que caracterizam a forma como nos é apresentada a
sociedade, retrato de uma época que o autor pretendeu moralizar, através da
descrição e da representação próprias do realismo. Assim, Eça afirma sem rodeios
que “os costumes estão dissolvidos e os carateres corrompidos”6
. E é essa
dissolução que Eça pretende denunciar, utilizando o instrumento que maneja com
maior destreza, a sua escrita.
O adultério na obra O primo Basílio, foco dessa pesquisa, é qualificado
pelo autor como um “ato fatal da moral moderna”7
, decorrente, decerto de uma
série de fatores como a educação recebida pelas jovens da baixa burguesia
portuguesa. A justificativa apontada é o fato de a mulher ser “educada
exclusivamente para o amor”8
e não ser preparada para o mundo real.
As descrições das classes que compõem o espectro social oitocentista são
tesouros de minúcia, verdadeiros “documentos históricos” que, levam em conta
liberdades literárias e pontos de vista pessoais, bem como o toque de humor tão
característico do autor. Através de seus escritos, o autor pretender esmiuçar,
ironizar, criticar e diagnosticar as causas das mazelas que assolam Portugal, em
especial Lisboa e seu corpo social. Seu alvo principal é a burguesia, para a qual
sua pena e sua luneta estarão sempre apontadas e focando de modo implacável.
No século XIX, a burguesia continua em plena ascensão, afirmando-se
como classe dominante no comércio, nas letras e na política. Não é, pois, de
6
As Farpas, 1871. P.178.
7
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d.Volume II,
Capítulo XXXIII: O problema do adultério P. 180.
8
Ibidem. P. 196.
16
estranhar que este seja o grupo social mais atingido pela descrição e crítica eciana.
Relatam-se também as suas relações com os outros grupos sociais, como se
depreende do trecho abaixo:
A classe média (…) abate-se na inércia (...) O povo está na miséria (...) A
burguesia proprietária de casas explora o aluguel. (...) E é sobre o operário,
sobre o trabalhador, sobre o soldado, sobre o pobre que pesa a espoliação!
Os srs. capitalistas tiveram o cuidado delicado de não fazer pagar nem
mais 5 réis diários a quem ganha ou tem por mês de l00$000 réis para
cima: e por isso fazem pagar mais 10 réis diários a quem tem por dia de
240 réis para baixo! Isto alegra-nos profundamente. E tanto que, fundados
na nossa argumentação, não deixaremos de pedir que a cidadãos tão
prestantes como os ilustres fabricantes, se dê a honra de se lhes oferecer
um banco na Boa Hora, com o modo mais risonho! Com o que temos o
prazer de desejar as maiores prosperidades a SS. S.as , senhores do nosso
respeito e espoliadores do nosso tabaco! 9
.
As classes sociais desfilam sob os olhos atentos dos leitores dos romances
de Eça de Queirós. Do Conselheiro à empregada, ninguém escapa a esta análise
perscrutadora. Mais do que uma simples descrição das classes propriamente ditas,
o autor mostra-nos os chamados tipos sociais.
A segunda metade do século XIX é atingida por inúmeras transformações
em nível social, no que diz respeito à mentalidade da burguesia, classe que tem
neste período o seu tempo. Assim, adquirem-se novos hábitos que mostram bem
esse desenvolvimento das classes médias, hábitos estes que Eça de Queirós
procura ilustrar em sua obra. É o caso das idas à praia, designadas como "idas aos
banhos", que começam a ser chiques na época, tendo sido até então
menosprezadas e consideradas como próprias das classes mais baixas.
Encontramos referência a este fenômeno no romance A capital, onde são
mencionadas as idas à Ericeira e também no O crime do Padre Amaro, onde os
importantes de Leiria se encontram periodicamente na praia da Vieira para passar
a estação. Não é uma novidade introduzida nos hábitos da sociedade na segunda
metade do século, mas reveste-se, na época, de uma importância considerável. É
quase um rito e, como tal, não foi esquecido pelo romancista, que coloca inúmeras
vezes os personagens neste cenário.
Em outras palavras, Eça procura localizar personagens e acontecimentos
dentro de um espaço geográfico marcado por circunstâncias que não deixam
9
Ibidem. P. 199.
17
margem para a objetividade de seus relatos. Por isso, a alusão aos serões como
reuniões periódicas, normalmente semanais, em casa de pessoas ilustres são
mencionadas em grande parte de sua obra. São ocasiões para se travar
conhecimentos desejados e para se exibir dotes musicais ou literários. Os serões
podem, então, passar-se à volta do piano, onde alguém mostra o seu talento, como
acontece em Alves & Cª., em A tragédia da Rua das Flores, no O primo Basílio
(onde encontramos muitas vezes Luiza a protagonizar estes serões), em O crime
do Padre Amaro e também em Os Maias.
Além disso, são feitas referências às caminhadas ao Passeio Público, local
que atualmente corresponde a uma parte dos Restauradores, o que constitui outra
atividade social típica do século XIX. É lá que ocorrem determinados privilégios
sociais, sendo local privilegiado de encontro da burguesia. O domingo, no
entanto, é o dia em que todos têm acesso ao Passeio, local de ostentação, como
comprova a criada Juliana em O primo Basílio: “A sua alegria era ir ao Domingo
para o Passeio Público, (…) a mostrar, a expor o pé”10
. E Eça acrescenta, em jeito
irônico, numa descrição que pode nos remeter ao que realmente se passava na
altura, “toda a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio”11
.
Apesar da muita afluência, o escritor nota um clima geral de “abatimento e
pasmaceira”12
. O Passeio Público, portanto, parece ser o local aonde se vai, na
Lisboa do século XIX, para se ser visto: “(…) para tapar as bocas do mundo,
foram os três para o Passeio Público”.13
O final de Os Maias, por exemplo, situa-
se, estrategicamente, no que deixou de ser o "Passeio Público" para ser avenida
dos Restauradores, com a inauguração do obelisco.
Além dos serões e das caminhadas no Passeio Público, outra referência
cultural é o teatro. A burguesia liberal atribui grande importância social ao teatro,
empreendendo, por isso, esforços no sentido de dotar o país com as infra-
estruturas necessárias para seu desenvolvimento e manutenção. O teatro é, então,
considerado como um dos “elementos mais poderosos da civilização atual”14
,
segundo Eça. O mais importante palco nacional é o Teatro de S. Carlos, bastante
mencionado por Eça de Queirós. Os historiadores afirmam, no entanto, que o seu
10
QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 221.
11
Ibidem. P. 226.
12
Ibidem. P. 226.
13
Ibidem. P. 321.
14
Ibidem. P. 328.
18
público permanecia mais ou menos fixo, constituído pela elite das elites dos
titulares, altos funcionários, burgueses, todos os que dispunham de lugar na
fidalguia, na política, no dinheiro, nas artes e letras. É esta a realidade que vemos
espelhada na obra eciana. Não se vai ao teatro por causa do espetáculo, mas por
causa do convívio social, está-se atento a tudo menos ao que se passa no palco.
Desta forma, Eça diz que o teatro “perdeu a sua idéia, a sua significação; perdeu
até o seu fim. Vai-se ao teatro passar um bocado da noite, ver uma mulher que nos
interessa, combinar um juro com o agiota, acompanhar uma senhora (…)”15
.
O teatro em Portugal vai acabando e as causas apontadas desta decadência
são o fato de a literatura teatral se reduzir ao Frei Luís de Sousa, o próprio
público (pelos motivos já referidos) e os atores que “não pertencem a uma arte,
pertencem a um ofício” e à pobreza geral gerada pela falta de subsídios. Isso fica
muito bem esclarecido quando Ernestinho, o autor da peça Honra e Paixão no
romance O primo Basílio, vê-se obrigado a mudar o grand final de sua peça em
função das pressões dos seus patrocinadores. Encontramos referências, nos
romances, a representações que se realizaram de fato, como O Profeta, O
Trapeiro de Paris, no D. Maria, entre outras, descritas no romance Os Maias.
Do mesmo modo que o teatro, a música atravessa as obras ecianas, ou
melhor, as músicas que recuperam os ecos do gosto popular ou nacional, ou
sucessos que passam em Portugal, vindos de França ou de Itália. A música
assume-se como uma instituição social, afirmando a sua onipresença no Portugal
do século XIX. Este é também um tema realista que não escapa à visão crítica de
Eça de Queirós, que utiliza as peças musicas como narrativas paralelas, ilustrando
e dando relevo aos fatos representados em seus romances. Em Portugal, cantava-
se o fado. As alusões à canção nacional são constantes. Parece poder traçar-se a
equação realista, segundo a qual, o fado seria igual à preguiça, à lentidão e ao
desmazelo. O fado marca também o tempo da espera amorosa e a alegria,
culturalmente identificado com o vulgar, com o banal. Mas também se dança a
valsa, onde alguns exemplos concretos são o "Souvenir d'Andalousie”, as obras de
Strauss ou a "valsa do beijo”.
A música é um código social, uma linguagem, um meio de comunicação.
A sociedade burguesa, representada nas obras de Eça, pretende mostrar-se
15
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume I,
Cap.I. P.278.
19
instruída musicalmente, freqüenta as representações das obras de Meyerbeer, mas
revela-se profundamente ignorante, quando, por exemplo, troca o nome da Sonata
Patética, interpretada por Cruges no sarau do Trindade, n’Os Maias, por “Sonata
Pateta”.
O vestuário da época é também evidenciado nas páginas ecianas, sempre
investido de um caráter de significado sociológico. Deste modo, os grupos sociais
são caracterizados também com base na sua indumentária, o que ajuda à
visualização e inserção no contexto oitocentista, bem como espelha um “tom de
realidade” para o leitor. Nesse processo Eça utiliza não só a descrição das roupas,
incluindo a matéria prima empregada nas peças, mas também toda a gama de
acessórios que contribuem para a caracterização social dos personagens. Assim, o
chapéu alto, o fraque, as luvas, os leques e o monóculo (imprescindível ao
aristocrata, cuja personificação é Gonçalo Mendes Ramires ou Afonso da Maia)
são sinônimos de prestígio social, sinais exteriores de riqueza.
O modo de vestir da burguesia é o mais ilustrado no romance - as senhoras
usam sedas (cujo “ruge-ruge” se ouve ao longo de toda a obra de Eça), veludos,
rendas e vidrilhos, enquanto os homens se distinguem pelas sobrecasacas de
alpaca e jaquetões. Salienta-se o cuidado na descrição do vestuário de alguns
grupos como os arrivistas, que ostentam a sua posição através de jóias, decotes,
sombrinhas e folhos, sendo freqüentadores de casa de alta costura, ou modistas em
voga, como Laferrière ou Madame Levaillant. Os políticos também se distinguem
pelo seu aspecto pomposo, “encerado”, pleno de coquetterie (exemplificado no
Conselheiro Acácio e nos Gouvarinhos).
Embora, suas principais preocupações estejam relacionadas ao estado da
instrução em Portugal, em nível institucional, e ao tipo de formação individual
ministrada em casa, desde o berço: “A valia de uma geração depende da
educação que recebeu das mães”16
, para Eça de Queirós, que se assume como um
pedagogo genuíno, conhecer os costumes da sociedade de seu tempo é uma
questão que merece destaque.
A preocupação com o insuficiente número de escolas é exprimida através
de personagens como Sebastião, de O primo Basílio. A criação do Ministério da
Instrução Pública, em 1870, suscita alguns comentários pouco abonatórios por
16
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,
Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P. 848.
20
parte de Eça de Queirós. Naquele século existiam somente 2300 escolas em
Portugal, o que significava que quase metade das crianças estava fora da escola.
Além disso, nas escolas que existiam, as condições de ensino não eram as
melhores. O escritor define o estado da instrução pública em Portugal de forma
taxativa: “A instrução em Portugal é uma canalhice pública”17
. Um símbolo desta
degradação na instrução pública que começa nos altos dignitários é Sousa Neto,
um oficial superior em Os Maias, que quis saber se em Inglaterra havia literatura.
Um dos pontos que pode ser destacado diz respeito aos valores que
norteiam a sociedade. Eça não pretendia uma modernização no projeto urbanístico
de Lisboa a exemplo do que ocorreu em Paris. O cerne que pretendia atingir dizia
respeito aos frágeis valores que conduziam a sociedade portuguesa da época,
principalmente aqueles relativos à educação
A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães. O homem é
"profundamente filho da mulher", disse Michelet. Sobretudo pela educação. Na
criança, como num mármore branco, a mãe grava; - mais tarde os livros, os
costumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podem
apagar-se, não se alteram as palavras gravadas. A educação dos primeiros anos, a
mais dominante e a que mais penetra, é feita pela mãe: os grandes princípios,
religião, amor do trabalho, amor do dever, obediência, honestidade, bondade, é
ela que lhos deposita na alma. [...]A criança está assim entre as mãos da mãe
como uma matéria transformável de que se pode fazer - um herói ou um pulha.
sentir puro.18
A educação é tema recorrente na obra literária de Eça de Queirós, o que
demonstra a sua preocupação com este eixo da formação da sociedade moderna. É
notória a forma como os personagens dos seus romances são marcadas pela
educação que recebem na infância. Normalmente, a uma educação mal orientada,
17
Ibidem. P. 848
18
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,
Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea P. 232.
Uma Campanha Alegre é um conjunto de crônicas mensais de autoria de Eça de Queirós e
Ramalho Ortigão, publicadas mensalmente na revista As Farpas. As Farpas são, assim, uma
admirável caricatura da sociedade da época, que foi compilada por Eça numa coletânia que
intitulou de Uma campanha alegre. Contudo, a opinião de Eça acerca deste seu trabalho não é
muito positiva: "São uma colecção de pilhérias envelhecidas que não valem o papel em que estão
impressas" e descreve-as como "unicamente um riso imenso, trotando, como as tubas de Josué, em
torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, por que as vejo ainda, direitas, mais
altas, da dor torpedo lodo, estirando por cima de nós a sua sombra mimosa". E escreverá ainda
"todo este livro é um riso que peleja".
*In carta a Ramalho Ortigão de 24 Outubro de 1890.
21
corresponde uma personagem com uma personalidade débil, como é o caso de
Eusebiozinho, em Os Maias, e, sobretudo Pedro, cuja fraqueza de espírito parece
justificada pela educação que recebeu quando criança, marcada “pelos braços da
mãe que o amoleciam, aquela cartilha mortal do padre Vasques”19
– crítica ao
romantismo e à educação a cargo dos representantes da Igreja. Em suma, a
educação, conjuntamente com a influência do meio social, marcam decisivamente
as características individuais dos personagens que representam os diferentes
segmentos da sociedade Lisboeta da época.
A crítica mais ácida de Eça, no que se refere à educação, diz respeito à
importância excessiva que é dada a fatores como a moda ou a religião: as pessoas
são “educadas no receio do Céu e nas preocupações da Moda”20
. Com efeito,
várias são as personagens cuja educação vaga em torno da religiosidade ou do
supérfluo.
Outro aspecto importante no que toca à educação é a oposição que Eça
enfatiza entre aqueles que são educados na cidade e os que são educados no
campo. Esta questão é abordada em Uma Campanha Alegre, nas cartas de Eça de
Queirós a seus filhos e também nos romances do Autor. (basta lembrar a
preparação de Carlos da Maia em contraposição com a de Eusebiozinho).
Não só no século XIX, mas desde a época das navegações que a emigração
é uma constante na história de Portugal. O escritor não se furta a essa realidade,
afirmando que “a emigração, entre nós, é decerto um mal.”, provocada pela
“miséria, que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa.”21
. A
partir de 1855 verifica-se um aumento do fluxo emigratório, nomeadamente para
o Brasil. O escritor não é alheio a este fato e caracteriza finamente aquele que vai
a busca de fortuna e volta efetivamente rico, mas que é mal recebido em Portugal,
transformando-se no “grande fornecedor do nosso riso”22
. Basílio é um dos que,
vendo-se falido em Portugal, partiu para o Brasil, de onde volta um autêntico
janota. Outros personagens emigram nos romances ecianos - Gonçalo Mendes
Ramires, que parte no início da ação de A Capital para Macheque, na Zambézia, e
um emigrante desconhecido.
19
QUEIRÓS, Eça. Os Maias. Editora Nova Alexandria. São Paulo, 2000. P. 218
20
QUEIRÓS, Eça. O crime do padre Amaro. Neolivros. Lisboa, 2006. P.98.
21
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Vol. I , Cap.
LI: O governo e a emigração. Lisboa, 1890. P. 154.
22
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Vol. II, Cap.
XXI: O brasileiro. Lisboa, 1872. P. 274.
22
Outro tipo de viagem muito comum no século XIX são as viagens de
exploração, numa época em que o exotismo representava um valor fundamental
devido ao mal du siècle, o spleen, o tédio. Encontramos várias personagens (além
do próprio Eça, que relata a sua jornada ao Oriente em O Egito e em muitas notas
soltas), nessa situação: Teodorico, em A Relíquia, que empreende uma viagem
pela Terra Santa, Basílio, de O primo Basílio, que conta à sua prima como esteve
em Constantinopla, na Terra Santa, e em Roma, e também André Cavaleiro, o
cacique em A Ilustre Casa de Ramires, que parte para “Constantinopla, à Ásia
Menor”. Encontramos também muitas referências acerca de viagens a Paris, o que
faz supor um desenvolvimento considerável nos transportes e certo bem-estar
social de algumas camadas da população. “Vai-se a Paris, beber do fausto, do
luxo”, destino privilegiado de viagens lúdicas de muitas personagens ecianas.
A literatura é um tema presente em grande parte dos romances de Eça de
Queirós. Por um lado, o autor nos oferece uma imagem, muito matizada pela sua
ideologia, daquilo que se vai escrevendo em Portugal, e acaba por revelar um
debate aceso na sociedade portuguesa do seu tempo acerca da oposição entre
romantismo e realismo. Por outro lado, inserindo as suas personagens no seu
ambiente sócio-cultural, dá-nos conta do que se lê no Portugal oitocentista e das
relações das leituras com as mentalidades das classes sociais.
Eça de Queirós afirma peremptoriamente que “a literatura em Portugal está
a agonizar: morre burguesmente e insipidamente(…)”23
. Desde logo se nota uma
crítica cáustica a um certo gênero literário, mais conotado com uma sub-literatura.
A sua descrição do tipo de escritor responsável por este gênero literário é bastante
explícita: “poeta delambido, acordas as musas e adormeces a humanidade com
rimas chochas e idéias estafadas, e moral do baixo império”24
. Além disso, não
poupa sua crítica à literatura que era feita em Portugal: “a literatura - poesia e
romance - sem idéia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsa, não
exprime nada. (…) nenhum movimento real se reflete, nenhuma ação original se
espelha”25
.
23
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Globo Editora, Rio de Janeiro, 2006. P. 78. O personagem Artur
Corvelo, no romance A Capital, representa o poeta, classificado como portador de uma “anemia
intelectual” e de um “lirismo galopante”
24
Ibidem. P. 84.
25
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. In: Volume I,
Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871. P. 306.
23
A propósito do romance romântico escrito no país, Eça diz que se trata da
“apoteose do adultério”26
, um autêntico “drama de lupanar”, sobre o qual “as
mulheres estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade”27
. O leitor do
romance O primo Basílio pode deliciar-se com uma paródia do que se escreve em
Portugal, com a obra de autoria de Ernestinho Ledesma, que se ocupa de uma
peça em cinco atos intitulada Honra e Paixão.
O referido debate entre romantismo e realismo está presente na própria
obra de Eça de Queirós. Sendo um autor que denuncia o romantismo decadente,
sobretudo com o debate provocado pela Geração de 70, ele sente-se, entretanto,
seduzido pelo romantismo humanitário de Antero de Quental. Este debate está
inteiramente anotado no célebre episódio do jantar no Hotel Central (em Os
Maias) em que se confrontam o personagem Ega, partidário intransigente do
realismo naturalista, e Tomás de Alencar, personificação do romantismo
sentimentalista (que acaba por ser o que mais dura, o mais coerente, fiel a si
próprio e aos seus princípios). Nesse debate intervêm também Carlos da Maia e
Craft, defensores do idealismo, da "arte pela arte", como manifestação artística
suprema.
O registro das obras lidas em Portugal na época é bastante elucidativo. Nos
círculos considerados intelectuais de vanguarda, como é o caso do Clube
Republicano, lê-se Proudhon, Juvenal, Comte, Byron, Vigny, Darwin, e
considera-se Feliciano de Castilho como um autor menor por ter se destacado no
estilo romântico. Contra ele se rebelou Antero de Quental (entre outros jovens
estudantes coimbrões) na célebre polêmica do Bom-Senso e Bom-Gosto,
vulgarmente chamada de Questão Coimbrã, que opôs os jovens representantes do
realismo e do naturalismo aos vetustos defensores do ultra-romantismo. Este
registro denota uma mentalidade que faz apologia a idéias como o positivismo,
evolucionismo, ideais laicos e republicanos, com tendências socializantes.
Castilho, juntamente com Figuier e Bastiat, são, no entanto, autores lidos por uma
classe média instalada, representada por personagens como Jorge em O primo
Basílio. A mulher burguesa também tem um tipo de leitura típica, e que por vezes
conduz a comportamentos tidos como “ilícitos”. Luísa, personagem de O primo
26
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume I,
Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871. P. 234.
27
Ibidem. P. 243.
24
Basílio, suspirou na juventude com as aventuras escocesas de Walter Scott e
vibra, como mulher adulta, com as venturas e desventuras de A Dama das
Camélias, de Alexandre Dumas Filho, autor muitas vezes atacado por Eça em
seus artigos publicados n’As Farpas.
2.1
A representação da mulher portuguesa na obra de Eça
Acerca da condição da mulher, o autor português, Lopes Praça escreveu
uma obra que percorre os diversos domínios da condição da mulher em Portugal -
"A Mulher e a Vida ou A Mulher considerada debaixo dos seus principaes
aspétos".28
Em função disto, buscaremos apoiar nossas observações acerca da
mulher portuguesa na sociedade oitocentista na análise minuciosa efetuada pelo
autor, sem deixar de apoiar nossas considerações nos apontamentos de Eça de
Queirós, uma vez que, será a partir da visão desse autor que a figura feminina irá
“ganhar vida” nos romances que magistralmente escreveu.
Autores como Alexandre Herculano ou Oliveira Marreca29
deram-nos da
mulher uma visão muito parcial e carregada de preconceitos, sem grande inovação
no seu discurso, tendo em conta a sociedade que visavam criticar. Eça, porém,
deu-nos a oportunidade de ver a mulher de uma forma diversa, muito mais
próxima da realidade em que vivia – um ser de terceira classe, cujos direitos não
eram respeitados.
No decorrer da história, a figura feminina cultivou o silêncio e a
submissão ao sistema tradicional vigente, sob o comando masculino. As
justificativas para tal comportamento são variadas, e as análises partem das
diversas influências presentes nessa relação tão complexa entre homem e mulher,
construída com base em aspectos culturais, comportamentais, econômicos ou,
28
PRAÇA, José Joaquim Lopes. A mulher e a vida ou a mulher considerada debaixo dos seus
principaes aspetos. Livraria Portugueza e Estrangeira do Editor Manuel de Almeida Cabral,
Coimbra, 1872.
29
António de Oliveira Marreca foi emigrado liberal, economista de renome, escritor, professor e
político português. Fez parte do primeiro diretório republicano português.
25
ainda ideológicos.
Em Portugal, durante o século XIX, a mulher ainda se mantinha
subordinada à tutela de um sistema patriarcal dominante, situação dominante no
país ao longo de todo o século. Segundo a socióloga Suzana Stein, a família,
formada por um núcleo central (patriarca, mulher e filhos) e outro periférico
(composto por agregados e empregados), tinha como autoridade maior o homem,
que dirigia não só os familiares, mas também as pessoas que exerciam atividades
produtivas subordinadas a ele. Este dado é apontado no romance O primo Basílio
inúmeras vezes, principalmente quando Luisa se queixa dos maus serviços
prestados por Juliana e de seu desejo de dispensar os seus serviços. Jorge,
desmerecendo a opinião da esposa, dá a última palavra e mantém a serviçal em
função dos “bons serviços” que prestara a sua tia.
A organização familiar vigente nessa época contribuiu muito para a
formação social do país, pois “desempenhou valioso papel regularizador e
disciplinador”30
. No entanto, esse modo de viver influenciou fortemente o
desempenho dos papéis sociais dos agentes masculino e feminino, marcando a
posição da mulher como ser inferior ao homem.
Nesse ínterim, alguns fatores foram decisivos para que a mulher ocupasse,
ao longo dos tempos, uma posição social subalterna, entre eles destacam-se o
contexto educacional, as leis vigentes, as regras religiosas, a moral sexual e a
própria necessidade de auto-afirmação. Além disso, aliado à influência do
catolicismo, um fator primordial permeava as ações de um modo geral,
determinando esta visão sobre a mulher e contribuindo para a manutenção do
patriarcalismo: a influência de pensadores cujas obras alcançaram notoriedade no
decorrer do século XIX, como Auguste Comte e Jules Michelet. De acordo com
Maria Lucia Rocha-Coutinho,
os comportamentos de subordinação femininos ficam, então, emaranhados no
cotidiano destas mulheres como forma 'natural' de organização de suas vidas
diárias, sem que muitas delas tomem consciência deste fato31
.
Nesse contexto, uma forte corrente ideológica foi defendida pelo
30
STEIN, Suzana Albornoz. Por uma Educação Libertadora. Editora Vozes,
Petrópolis. 1985. P.22.
31
ROCHA COUTINHO, Maria Lucia. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira Nas
relações familiares. Editora Rocco, Rio de Janeiro. 1994. P.94
26
Positivismo, no século XIX, na figura de Auguste Comte que, sintonizado com o
pensamento da época, enfatiza normas de comportamento para a mulher
oitocentista, preceitos que logo se difundem em vários países. Originalmente,
“enquanto doutrina sobre o conhecimento (...), o Positivismo incorporou-se a
outras correntes análogas, que procuraram valorizar as ciências naturais e suas
aplicações práticas”.32
Desse modo, partindo do princípio de que seu destino
consistia em disciplinar as forças humanas, baseado na relação contínua entre o
sentimento e a razão como reguladora das atividades, a situação da mulher
também foi abordada pela teoria positivista. Comte, mesmo valorizando o papel
desempenhado pela “digna” mulher na sociedade e ressaltando o seu valor, não
deixou de definir qual seria o comportamento ideal para essa mulher, assinalando
alguns aspectos primordiais para sua conduta:
[...] o culto positivo erige o sexo afetivo como providência moral de nossa
espécie. Cada digna mulher ministra habitualmente a esse culto a melhor
representação do verdadeiro Grande Ser. Sistematizando a família, como base
normal da sociedade, o regime correspondente faz dignamente prevalecer naquela
a influência feminina, transformada, enfim, em supremo árbitro privado da
educação universal. Por todos estes títulos, a verdadeira religião será plenamente
apreciada pelas mulheres, logo que elas reconhecerem suficientemente os
principais caracteres que a distinguem. Aquelas mesmo que a princípio
deplorarem a perda de esperanças quiméricas não tardarão em sentir a
superioridade moral de nossa imortalidade subjetiva, cuja natureza é
profundamente altruísta, sobre a antiga imortalidade objetiva, que não podia
deixar de ser radicalmente egoísta.33
Dessa maneira, Comte foi enfático ao tratar de algumas questões
relevantes sobre o comportamento feminino frente à sociedade da época. De
acordo com os preceitos positivistas, é fundamental preservar-se e manter-se a
mulher submissa ao homem, subordinando os instintos pessoais ao seu destino
social, dedicando-se integralmente à família.
Por fim, a pouca instrução, a função restrita ao ambiente doméstico-
familiar e a constante dedicação ao marido e aos filhos, ditada pela Teoria
Positivista, mantêm a mulher excluída da sociedade, levando-a a pensar que toda
a base comportamental indicada por Comte se constituiria “em motivos honrosos
32
COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva (trad. de José Arthur Giannotti e Miguel
Lemos). São Paulo, Editora Nova Cultural. 1993. P. 184.
33
Ibidem. P.130.
27
para as mulheres”34
, como forma de adaptação “ao serviço real da Humanidade, à
qual pertencemos inteiramente”35
.
Nessa direção, o romance O primo Basílio retoma parte dessa teoria da
posição subalterna feminina, com enfoque na sociedade lisboeta do século XIX.
Às mulheres era reservado o espaço doméstico fechado e a administração do lar, o
que, segundo Eça, as dotava de um ar doentio,
[...] as raparigas não têm saúde. Magrinhas, enfezadas, sem sangue, sem
carne, sem força vital - umas padecem de nervos, outras de estômago,
outras do peito, e todas da clorose que ataca os seres privados do sol. Em
primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de um
sofá, com as janelas fechadas; - ou percorrendo num passinho derreado a
Baixa e a sua poeira. Portanto, falta de ar puro, são, restaurador. O ar da
Baixa corrompe o sangue; e o ar das salas, resguardadas por cortinas ou
alumiadas a gás, não tem oxigénio e portanto não alimenta. Depois, não
fazem exercício. Uma inglesa tem por dever moral, como a oração, o
passeio - o largo passeio, bem marchado durante duas horas.36
Essa “fragilidade doentia” também é evidenciada em O primo Basílio, na
fala de Jorge ao se referir à Luisa: “Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona.
É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: - Alto lá, isso não pode ser!”.37
Portanto, a função social da mulher restringia-se à família e à casa, a fim
de que o poder representado pela figura masculina permanecesse em sua
hegemonia histórica, embora, esse posicionamento não encontrasse
correspondência nos estudos realizados, no século XIX, por filósofos de renome,
como Marx e Engels.
Estes pensadores foram os que mais contribuíram para o desvendamento
das verdadeiras origens da opressão da mulher e, com isso, criaram as condições
para que fossem construídos os caminhos que conduziriam à sua libertação. Um
dos marcos deste processo foi a publicação, em 1884, do livro A Origem da
Família da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels.
Em meados do século XIX a “ciência da família” estava dando os seus
primeiros passos quando os dois pensadores socialistas alemães se interessaram
34
Ibidem. P. 184.
35
Ibidem, P.269.
36
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,
Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. . Lisboa,
1890. P. 257.
37
QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo. Rio de Janeiro, 1997. P. 50.
28
por ela. A obra pioneira neste campo havia sido O direito Materno de Bachofen,
publicada em 1861. Nela o autor expõe, pela primeira vez e para escândalo geral,
a tese de que nas sociedades primitivas, em certo período, teria predominado o
matriarcado – ou seja, havia predominado a ascendência social e política das
mulheres sobre os homens.
O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foi
a constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinha
conhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas.
Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, como
diziam as religiões e os movimentos racistas e sexistas da época.
A monogamia teria sido “fundada sob a dominação do homem com o fim
expresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, e essa paternidade é
exigida porque essas crianças devem, na qualidade de herdeiros diretos, entrar um
dia na posse da fortuna paterna”38
. Nesse contexto, segundo Engels, “somente o
homem pode romper esse laço (matrimonial)”, “o direito da infidelidade conjugal
fica-lhe (...) garantido pelo menos pelos costumes”. Ainda segundo esse mesmo
autor, a mulher que, no século XIX conquistar sua liberdade sexual será “punida
mais severamente do que em qualquer outra época precedente”39
. Nesta forma de
casamento e de família, “aquilo que para a mulher é um crime de graves
conseqüências legais e sociais, para o homem é algo considerado honroso, ou,
quando muito, uma leve mancha moral que se carrega com satisfação”40
.
Desnecessário seria apresentar qualquer coisa que se assemelhe a um
resumo da obra de Engels aqui tomada como pré-texto, esclarecendo que
tomamos “pré-texto” no sentido do texto que precede, aquilo que vem antes e
serve de “mote”, de “deixa” para que uma outra narrativa possa tomar corpo e
ganhar vida. O cerne da questão focalizada por Eça está na educação das jovens
portuguesas da baixa burguesia, no que diz respeito, principalmente, à escolha dos
livros românticos para a leitura. Além deste tópicos, o autor recupera outras
questões culturais da sociedade da época como determinantes da educação
feminina. Servindo-se desse pré-texto, Eça de Queirós constrói a sua leitura sobre
38
ENGELS, Friedrich. A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, Editorial
Presença, Lisboa, 1974. P. 81.
39
Ibidem. P. 81
40
Ibidem. P. 81
29
um dos principais fatores do atraso da sociedade portuguesa. Ao analisar O Primo
Basílio, que por sua vez serve-nos de pré-texto para a elaboração desta
dissertação, tentamos ler a questão do adultério evidenciando as suas ligações com
texto eciano na defesa de sua tese.
Na segunda metade do século XIX, temos oportunidade de assistir a um
dos mais interessantes fenômenos literários, com o desenvolvimento, por toda
Europa, de um surto de romances sobre o adultério, tornado-se alguns deles
verdadeiras obras-primas da literatura mundial, o que se explica, pelo fato de o
romance de adultério no século XIX se tornar um tipo privilegiado de romance de
época e de crítica social. Madame Bovary e O primo Basílio são apenas alguns
exemplos do êxito que este tipo de romance obteve junto ao público leitor na
segunda metade de oitocentos.
Com efeito, no século XIX e especialmente na segunda metade, a temática do
adultério feminino é uma obsessão na literatura européia. Tony Tanner explica
esta ocorrência pelo fato de que nessa época se desestruturam os sistemas
políticos tradicionais, desacreditam-se os valores burgueses e levantam-se
dúvidas sobre a santidade do matrimônio e sobre a impermeabilidade das classes
sociais. Diferentemente do enfoque predominantemente psicanalista, de acordo
com as teorias de Freud, Lacan e Derrida, que Tony Tanner dá à sua análise do
adultério, Biruté Ciplijauskaité utiliza uma abordagem sociológica no seu estudo
sobre o adultério, seguindo o princípio de Lucien Goldmann e de Lukács do
tempo da escrita. Assim, a autora aponta, na segunda metade do século XIX, a
coincidência da narrativa de adultério com os movimentos feministas que então
se desenvolviam na Europa e na América, assinalando algumas influências que
estes tiveram na situação legal das mulheres, na sua educação, nas idéias
filosóficas e na prática literária.41
No entanto, este enfoque do adultério feminino pelo romance naturalista-
realista pode ser compreendido se integrado numa problematização mais vasta: a
da situação da mulher numa época de profundas transformações sociais, nos
níveis político, econômico, e cultural, onde a imagem da mulher se altera, e
começa a assumir novos papéis que vão pôr em causa as normas que definiam e
regulamentavam a sua função apenas como esposa e como mãe. Com efeito, a
inserção social da mulher foi um importante ponto de interesse do Realismo e do
Naturalismo. Opondo-se à idealização romântica e a narrativa realista-naturalista
veio revelar aspectos da intimidade da mulher que até então não tinham lugar na
41
JESUS, Maria Saraiva de. A representação da mulher na narrativa realista-naturalista, Editora
da Fundação João Jacinto de Magalhães. Aveiro, 1997. P.p.141-142.
30
literatura. Os temas que despertaram o interesse dos autores realistas-naturalistas
mantêm estreita relação com a mulher: o amor, o casamento, o adultério, a
maternidade, a educação, a vida familiar e a vida sexual. Estes temas, contudo,
não interessam apenas aos escritores, eles são motivo de reflexão de outros
intelectuais e são debatidos nos diversos círculos: médico, jurídico, eclesiástico e
político, para mencionar apenas alguns, resultando em longos tratados sobre a
fisiologia da mulher, a contracepção, a gravidez, a psicologia e o caráter
femininos, os direitos da mulher; tratados esses que hoje nos fariam rir se não
fossem, na sua maior parte, tão chocantes.
A questão feminina será um motivo central na obra de Eça de Queirós, não
só na sua obra romanesca, como nos seus textos de caráter não ficcional, seja nos
folhetins da Gazeta de Portugal ou nas crônicas do Distrito de Évora, seja em As
Farpas, onde teoriza sobre a educação da mulher, debruçando-se sobre temas
como a educação das raparigas, a sua preparação para o casamento e para a vida,
ou mesmo sobre o adultério42
. Entretanto, o próprio autor, reconhece não ser
muito benévolo: “Que elas nos perdoem, essas gentis meninas, se a nossa pena
nem sempre for glorificadora como soneto de Petrarca: mas a tinta moderna sai do
poço da Verdade”.43
É precisamente em As Farpas que Eça elabora a descrição típica da mulher
de 1872, como “um ser magrito, pálido, metido dentro de um vestido de grande
puff, com um penteado laborioso e espesso e movendo os passos numa tal fadiga
que mal se compreende como poderá jamais chegar ao alto do Chiado e da
vida”.44
E continua:
42
MACEDO, Jorge Borges. “As mulheres em Eça de Queirós”. In: Dicionário de Eça de Queirós,
A. Campos Matos (org), 2ª ed, Lisboa, Caminho, 1988. p. 626: “[...] como se entende este debate
acerca da mulher, ao longo de toda a obra queirosiana? Em primeiro lugar, à consciência da
importância do desenvolvimento do papel da mulher na civilização moderna que, melhor do que
ninguém, no seu tempo, em Portugal, E. Q. conheceu. A crescente responsabilidade da mulher na
sociedade sua contemporânea e da necessidade de lhe encontrar um termo de equilíbrio surge
claramente nos seus textos não literários, nos seus comentários ensaísticos. [...] A sua ficção
reflecte, de algum modo, a insuficiência das soluções propostas pela sociedade em si mesma. Em
segundo lugar, podemos ver aí, também, a influência do seu nascimento e da sua infância sobre a
pessoa e sensibilidade de E. Q., de algum modo, soturna e muito mal conhecida. O
reconhecimento ou legitimação da sua filiação maternal só foi levado a efeito em 1885, quando
tinha quarenta anos, a três meses do seu próprio casamento e ao cabo de muitas tensões e
turbulências: durante muitos anos conheceu sua mãe sem ser legitimado.”
43
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,
Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P. 323.
44
Ibdem, p. 323.
31
“a palidez, as olheiras, o peito deprimido, o ar murcho – revelam um ser
devastado por apetites e sensibilidades mórbidas. Ora entre nós as raparigas não
têm saúde. Magrinhas, enfezadas, sem sangue, sem carne, sem força vital – umas
padecem de nervos, outras do peito, e todas da clorose que ataca os seres privados
do sol”45
.
Para Eça, portanto, as raparigas não cumprem o dever, para ele
fundamental, parafraseando Taine, que é o de ter saúde, já que
[...] em primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de um
sofá, com as janelas fechadas – ou percorrendo num passinho derreado a Baixa e
a sua poeira. Portanto, falta de ar puro, são restaurador [...].
Depois, não fazem exercícios [...]. Aqui as que andam a pé, depois de ir a uma
loja na Rua do Ouro a uma igreja no Loreto, arquejam e recolhem à pressa no
ônibus. Algumas mesmo não sabem andar: escorregam, saltitam, oscilam.
Depois não comem: é raro ver uma menina alimentar-se racionalmente de peixe,
carne e vinho. Comem doce e alface. Jantam as sobremesas. A gulodice do
açúcar, dos bolos, das natas, é uma perpétua desnutrição.46
Há ainda um agravante, que é a moda que, segundo Eça de Queirós,
“destrói a beleza e destrói o espírito”47
, uma vez que
[...] não é ela que é feita para o corpo – mas o corpo que tem de ser modificado
para se ajeitar nela. [...]. De modo que para sustentar o chapéu deforma-se a
cabeça; para obedecer ao puff torce-se a espinha; para satisfazer às botinas Luiz
XV desconjunta-se o pé: para seguir o chique das cintas baixas destrói-se o
busto.48
Eça encontra ainda nas meninas de Lisboa oitocentista outros males para
além da fraqueza do corpo: “ Depois da anemia do corpo, o que nas nossas
raparigas mais impressiona – é a fraqueza moral que revelam os modos e os
hábitos”49
, o que se verifica no “andar de uma menina portuguesa, arrastado,
incerto, hesitante, mórbido: sente-se aí logo a indecisão, a timidez, a
incoerência.”50
. Em suma são preguiçosas, medrosas, sem decisão, sem iniciativa,
sem nenhuma ação, o que faz delas péssimas companheiras para o homem
moderno que, não sendo “um trovador ou um contemplativo, nem um sultão para
45
Ibdem. P. 324.
46
Ibdem. p. 324-325.
47
Ibdem. P.327.
48
Ibdem. P. 326.
49
Ibdem. P.326.
50
Ibdem. P.328.
32
ter aninhadas, em fofas almofadas, huris51
perfumadas; mas um trabalhador que
precisa ganhar o pão, arcar com todas as durezas da vida”52
, necessita de uma
mulher forte, ativa e decidida. Mas Eça não atribui a culpa às pobres raparigas,
antes à educação, aos hábitos e costumes, à forma como se lhes dão a conhecer a
religião e os deveres morais e humanos, o que o leva a condenar, a família, a
sociedade e até a vida nos meios urbanos, defendendo a educação no mundo rural,
onde, desde a mais tenra idade, a criança, em contato com a natureza e com os
fatos da vida “habitua-se a estar sobre si, perder o medo, sabe defender-se, tem
acção, decide-se”.53
Esta “farpa” sobre a educação feminina, datada de Março de 1872, vem na
seqüência de uma outra datada de Junho de 1871 sobre o poder político, na qual
Eça havia já inserido algumas considerações muito contundentes sobre as
mulheres. Criticando a decadência do Estado e das instituições, dos costumes e a
corrupção dos princípios, atribui a falta de caráter feminino a essa decadência em
que se encontra a nação portuguesa em todas as suas vertentes: “As mulheres
vivem nas conseqüências desta decadência”.54
. No entanto, o autor português
reconhece que
[...] no fim de tudo, as mulheres virtuosas, as mulheres dignas formam ainda na
sociedade portuguesa, uma maioria inviolável! Se alguma coisa podemos dizer
profundamente verdadeira é – que elas valem muito mais do que nós.55
.
Esse airoso remate não lhe impede, cerca de, um ano mais tarde, tecer
ferozes críticas à condição feminina dessa geração, nem de nos apresentar na sua
obra ficcional uma galeria de personagens femininas tão pouco dignificante para a
imagem da mulher contemporânea, pois, exceto Joaninha, de A cidade e as serras,
todas elas manifestam uma grande inclinação para infringir as normas sociais,
diluindo a solidez do lar e da família e a conseqüente estabilidade social. Apesar
de ser nossa convicção de que a mulher e o seu papel na família e na sociedade
constituem uma temática cara a Eça de Queirós, na opinião de Beatriz Berrini,
51
“Cada uma das virgens extremamente belas que, segundo o Alcorão, hão de desposar, no
Paraíso, os fiéis mulçumanos”. In: Dicionário Eletrônico Aurélio Século XXI.
52
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa. Livros do Brasil, s/d. Volume II, Capítulo
XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P.329.
53
Ibdem. P. 336.
54
Ibidem. Volume I, Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em
1871. P.28.
55
Ibidem. P.28.
33
[...] salvo n’O Primo Basílio, não tem as mulheres a mesma importância que os
homens na ficção de E.Q. Eça pôs em cena poucas personagens femininas, quase
sempre as apresentou a partir de uma visão negativa exterior, e delas fez, acima
de tudo, índices ilustrativos de aspectos da sociedade da sua época56
.
Desejávamos poder contestar com firmeza esta posição da estudiosa
eciana, contudo, verificamos na obra de Eça não só uma predominância minuciosa
representação de personagens masculinas, o que pode ser explicado pela própria
estrutura social da época. Porém, não há como negar a existência de um trabalho
mais cuidado no que diz respeito à sua caracterização física e psicológica, o que
não significa, para nós, que não sejam estas personagens masculinas também
índices ilustrativos da sociedade da sua época ou que Eça não os apresente
também negativamente.
Todavia, sendo geralmente aceite que Eça de Queirós, sarcástico com
todos os tipos sociais que representam na sua visão crítica sobre a sociedade
portuguesa da época, é inegável que foi especialmente crítico quando fez a
representação das mulheres, a avaliar pelo universo feminino de sua obra.
A produção literária e ensaística de Eça constituem, essencialmente, a
exemplificação das doutrinas dominantes no século XIX. Aquilo que a muitos se
afigura uma imoralidade – aceitando mesmo que a arte pura pode, algumas vezes,
ser imoral – pode não ser mais do que uma surpreendente lição em prol dos “bons
costumes”. O crime do padre Amaro, interpretado como um ataque à Igreja é, no
fundo, a exaltação do sacerdócio puro. O primo Basílio, tema de nosso estudo,
considerado por muitos como um ataque à família é, em boa verdade, a
condenação do adultério ou, melhor dizendo, a condenação da influência dos
ideais românticos no alicerce da família portuguesa. O romance Os Maias,
reputado como a representação de um caso patológico pode ser, em última análise,
uma sátira profunda contra certos meios postiçamente aristocráticos. O que em
primeiro momento pode afigurar-se uma deprimente exibição de situações
culposas, destinadas a excitar a doentia curiosidade dos seus leitores, pode
constituir, por antítese, a apologia do Amor ou da Paixão no seu caráter mais puro
e verdadeiro. Eça converte suas “heroínas” em inquietantes símbolos amorosos,
não lhes dando justamente, um destino venturoso. Todas elas sofrem, com maior
ou menor violência, as penas do seu amor fatal. Amélia e Luísa morrem. Maria
56
BERRINI, Beatriz. “Personagens Femininas”. In: Dicionário de Eça de Queiroz, op. cit., p. 704-
708.
34
Eduarda parte triste, coberta de negro, para uma vida longínqua e desconhecida.
Outras envelhecem de desilusão, em pleno outono sentimental. Nenhuma delas
conhece a suprema ventura do verdadeiro amor. Talvez Joaninha, de As cidade e
as serras – se esse laço cor de rosa que a uniu a Jacinto foi alguma coisa mais do
que uma longa estima delicada e respeitosa. “L’estime, la bonté, lês sentiments de
theatre qui s’eclipsent d´s que lê desir, heros superbe e meprisant, fai son entrée”
– escreveu Etienne Rey57
. Eça de Queirós pode ter se aproximado desse
pensamento ao representar suas personagens.
2.2
Educação e literatura
O século do romance, como ficou conhecido o século XIX, não foi muito
benevolente com as mulheres, pelo menos entre alguns dos seus principais
representantes. Seja Honoré de Balzac (1779-1850), Gustave Flaubert (1821-
1880), Émile Zola (1840-1902), Leon Tolstoi (1828-1910), Machado de Assis
(1839-1908) ou Eça de Queirós (1845-1900), todas as mulheres foram penalizadas
por tentar romper com uma concepção ideologicamente marcada do seu lugar na
sociedade, em contradição com a ascensão dos valores do mundo masculino e
burguês. Quando se conquistava um aspecto da vida social, outro se impunha
como uma emergência sufocante.
Cada grande autor tratou de fazer a representação daquilo que lhe
interessava, dentro dos seus planos estéticos ou ideológicos, mas nas obras dos
autores citados, fica patente certa dose de um realismo sombrio ao focalizar o
universo feminino. Nesse universo de valores conservadores, a morte se torna a
solução para os crimes contra a honra. A mulher, neste sentido, carrega o peso de
ser um dos tesouros mais facilmente representável ao olhar analítico de um
criador de ficção que, avidamente, quer debruçar-se sobre o único objeto que ele
acredita conhecer ou que julga ser o centro da atenção feminina – a paixão. Não é
57
Dramaturgo e crítico literário francês, nasceu em 1879. Trecho do texto escrito por Etienne no
prefácio do livro de Stendhal, publicado em 1853, intitulado De l’amour, no
qual relata sua decepção amorosa.
35
obra do acaso o grande número de romances românticos produzidos naquele
período e o número cada vez mais crescente de leitoras ávidas por esse gênero
literário.
Roger Chartier58
lembra que a representação da mulher leitora, na pintura
antiga, estava ligada à força da mensagem sagrada. Diversas são as imagens de
Santa Ana ensinando a Virgem a ler. Assim, outro tipo de leitura, que não fosse a
religiosa era mal vista. Apesar disso, as mulheres encontraram formas de burlar a
vigilância a que eram submetidas e desobedeciam aos preceitos doutrinários a elas
direcionados, lendo o que não lhes era permitido, de forma clandestina59
.
Em O primo Basílio, Eça de Queirós introduz também a questão da mulher
no labiríntico mundo da sexualidade. Nesse universo, ela deixa de ser uma peça
decorativa para adquirir sua forma mais humana e, por isso mesmo, muito mais
próxima dos erros decorrentes de suas decisões e em contraste com a inércia
social sugerida pelos romances românticos publicados até então. Assim, com a
chegada do realismo a mulher sai da redoma em que a mantiveram os autores
românticos e vive a paixão, no sentido de via sacra, cheia de dor.
Em Os usos sociais da leitura, Mauger faz uma análise sobre as práticas de
leitura na França apoiando-se numa enquete feita com 24 entrevistados, entre eles
12 mulheres. Apesar da pesquisa se situar no século XX, ela ratifica que ainda
existe uma pedagogia do romanesco ligada à descoberta do corpo pela leitura,
“mais precisamente, a enquete mostra também que a sexualidade foi,
seguidamente, descoberta pela leitura de textos (explicitamente, ou não,
erótica)”.·60
A representação da leitora no século XIX se baseia numa pedagogia de
leitura para o público feminino que submete a leitora ao crivo da moral religiosa.
Não é concedida à leitora, na maioria das vezes, uma autonomia, uma liberdade de
escolha das suas leituras. A mulher-leitora era constantemente tutelada pelo
elemento masculino, voz autorizada, único capaz de discernir entre a boa e a má
leitura. Quando isso não acontecia, e a mulher conseguia burlar o código do veto,
ou quando era educada de forma “inadequada” pelos pais, inevitavelmente
58
CHQARTIER, Roger. A Aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora da
UNESP, 1999, p. 85-86.
59
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitora no banco dos réus. São Paulo: Ática, 2003.
P. 123.
60
MAUGER POLIAK, Claude. Os usos sociais da leitura. Editora Nathan, Paris, 1999. P.67.
36
sofreria conseqüências maléficas à sua saúde, provocaria desajustes sociais e,
finalmente, seria punida. Dentro de um ponto de vista de que seria preciso limitar
o universo de leitura da mulher para que ela pudesse corresponder às expectativas
exigidas pelo projeto nacional, as possibilidades de leituras apresentadas para as
personagens eram aquelas que estavam inscritas na ordem moral e social
estabelecidas. Esses escritores-pedagogo sustentam seus argumentos na
fragilidade das personagens e na preservação de sua inocência. Na verdade,
temiam o crescimento intelectual feminino, pois, a leitura poderia conduzi-las à
tão desejada libertação intelectual, cultural e política.
A leitura nunca foi uma prática encorajada, pelo menos de forma
generalizada, entre as classes e, muito menos, entre os gêneros. Os efeitos
considerados “perniciosos” provocados pela leitura foram, durante o século XIX,
os grandes responsáveis pela falta de popularização dessa prática e em grande
parte, objeto de crítica, por parte dos autores, como indutores de conceitos
fantasiosos e, ao mesmo tempo, responsáveis por ações reprováveis no âmbito
social e moral por serem fragmentadores do núcleo familiar.
Contudo, não há como negar que os romances femininos eram um sucesso
de vendas no século XIX. Os folhetins publicados nos jornais da época eram
consumidos como poucos “produtos”. Isto se devia, em parte, à identificação das
leitoras com o conteúdo desses romances. No que se refere à leitura feminina, de
acordo com Marisa Lajolo e Regina Zilberman, no livro A leitora no banco dos
réus, a ordem do dia era desconfiança, proibição e controles de pais e maridos que
tentavam separar o joio do trigo, liberando as leituras boas, úteis, saudáveis e
proibindo as más, frívolas e suscetíveis de desviar a leitora do bom caminho e da
salvação espiritual. Ainda segundo as autoras, será nesse mesmo século,
entretanto, que as mulheres começam a representar na Europa uma parcela
substancial e crescente do público leitor de romances. No livro A leitora no banco
dos réus, a prevalência da imaginação sobre a razão era o problema e o grande
perigo para a família burguesa. Pais e maridos se apavoravam com a possibilidade
latente de verem suas filhas e mulheres excitadas por conta de leitura de livros que
provocavam paixões romanescas. Pensamentos eróticos ameaçavam a castidade e
a ordem burguesa. O tema do adultério feminino torna-se, nessa época, o
arquétipo da transgressão social na literatura. Emma Bovary e Luisa, personagens
de Flaubert e Eça, respectivamente, são os principais estereótipos dessa temática.
37
Se palidez, olheiras, insônia e palpitações são suspeitíssimos efeitos de
leitura para a castidade de uma donzela, leituras e sintomas se multiplicam e se
agravam em O primo Basílio, que já se inicia em meio a uma cena de leitura:
Jorge lê Luís Figuier e Luísa passa os olhos pelo Diário de Notícias. O narrador
cuidadoso informa, logo depois, que Jorge preferia Luís Figuier61
, Bastiat62
a
Musset63
e Dumas Filho64
, definindo-se, assim, o marido de Luísa, pela adesão a
um cânone não romântico e bastante verossímil na estante de um engenheiro. Na
ausência de Jorge, Luísa, pauta suas leituras pelo acervo rejeitado pelo marido: lê
A dama das camélias, descrito como livro um pouco enxovalhado, que ela apanha
por detrás de uma compoteira. À medida que o romance se desenrola, o enxovalho
do volume respinga em sua leitora, não obstante as mãos de Luísa também
empunhassem a impoluta Ilustração Francesa e a elegante Revista dos Dois
Mundos.
Esta apresentação bastante detalhada dos livros, por entre os quais se
movem as personagens ecianas, faz com que a leitura desempenhe papel
importante na organização do romance, além de ser peça fundamental na
caracterização das personagens. A força da leitura na composição da personagem
é tal que somos informados, logo no começo da história, que Luisa lia muitos
romances e mantinha uma assinatura mensal na Baixa. E mais: o narrador indicia,
através de mudança nas preferências literárias de Luisa, as alterações em seus
valores e comportamentos.
Confirmando o papel central que a leitura desempenha na caracterização
de Luísa, é ainda a ela que o narrador recorre, em discurso indireto livre, para
caracterizar diferentes estados de espírito da protagonista: numa Luisa casada,
adúltera e já nas malhas da chantagem de Juliana, sobrevive a antiga leitora de W.
Scott, que tem saudades da leitora romântica já que:
[...] diferente sua vida teria sido - desta agora tão alvoroçada de cólera e tão
carregada de pecado! (...) Onde estaria? Longe, nalgum mosteiro antigo, entre
arvoredos escuros, num vale solitário e contemplativo; na Escócia, talvez, país
61
Luís Figuier ( 1819-1894) foi cientista e escritor francês.
62
Frédéric Bastiat (1801-1850) foi economista e jornalista francês.
63
Alfred de Musset (1810-1857) foi poeta, novelista e dramaturgo francês.
64
Alexandre Dumas Filho (1824-1895) poeta e escritor francês tornou-se célebre com o romance
A Dama das Camélias (1848).
38
que ela sempre amara desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verdes
terras de Lamermoor ou de Glencoe65
.
2.3
A questão da sexualidade e a função do intelectual no século
XIX
A função do intelectual na segunda metade do século XIX é, entre outras,
a de intervenção crítica, analisando os conceitos e preconceitos da sociedade. A
partir dessa concepção, procuraremos investigar o papel de Eça de Queirós,
escritor português que integrou a Geração de 70, no projeto de modernização de
Portugal e identificar os procedimentos de escrita que caracterizam sua proposta
de transformação da situação de atraso social, cultural e pedagógico apontados por
ele em diversos escritos. Juntamente com a análise da crítica de Eça à sociedade
portuguesa, apresentaremos um breve panorama do cenário social e cultural
europeu oitocentista, com o objetivo de discutir a “defasagem” de Portugal frente
às grandes capitais da Europa.
O ponto de partida desta investigação continua tendo como base o
romance, O primo Basílio, publicado em 1878. Na obra, a crítica irônica de Eça
de Queirós se destina à pequena burguesia lisboeta que era definida
primordialmente pela hipocrisia e pelo desejo de ascensão social. O presente
estudo parte de um recorte da sociedade representada no romance, associado a
outras obras de Eça, especialmente seus artigos e cartas, e também os textos e
relatos de alguns escritores, que fornecerão suporte histórico, teórico e crítico à
confecção desta dissertação.
Ao falarmos da atuação intelectual de Eça de Queirós não podemos
esquecer sua identificação com a proposta conceitual do Realismo, definido por
ele da tribuna na Conferência do Casino da seguinte forma:
65
QUEIRÓS. Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 237
39
uma base filosófica para todas as concepções de espírito - uma lei, uma carta de
guia, um roteiro do pensamento humano, na eterna região do belo, do bom e do
justo, (...) é a crítica do Homem, (...) para condenar o que houver de mau na nossa
sociedade. (...) É não simplesmente o expor (o real) minudente, trivial,
fotográfico, (...), mas sim partir dele para a análise do Homem e sociedade.66
Inscrever o tema da sexualidade em Portugal na esfera da vida privada
afigura-se uma empreitada sobremodo difícil se nos ativermos ao prefácio de
Georges Duby67
ao primeiro volume da História da Vida Privada. Diz-se ali que o
território específico da vida privada é o da familiaridade, doméstica, íntima, e que
no privado encontra-se o que possuímos de mais precioso, que pertence somente a
nós mesmos, que não diz respeito a mais ninguém, que não deve ser divulgado,
exposto.68
Impossível aplicar ao pé da letra semelhante definição de vida privada ao
universo social do século XIX. Construída a partir do modelo burguês de família,
a noção de vida privada veiculada por Duby guarda estreitas relações com a
modernidade do século XIX, com o aflorar do individualismo, da urbanização, da
casa enquanto refúgio do indivíduo em contraposição ao mundo público.
Diversos pesquisadores, que participam desta obra organizada por Duby,
entre os quais destacamos Paul Veyne, responsável pela elaboração do volume I;
Philippe Contamine, elaborador do volume III e Danielle Régnier-Bohler, que elaborou o
volume II, demonstraram, com efeito, que não foi desprezível a importância
quantitativa de domicílios conjugais e até de domicílios chefiados por mulheres,
quer em áreas periféricas, quer em regiões diretamente vinculadas à economia
exportadora. Demonstrou-se, também, que no seio da população o poder exercido
pelo clero tornou viável a constituição de famílias à moda cristã.
Faz-se necessário, portanto, divorciar a noção de privacidade da noção de
domesticidade. As casas, fossem grandes ou pequenas, estavam abertas aos
olhares e ouvidos alheios, e os assuntos particulares eram ou podiam ser, com
frequência, assuntos de conhecimento geral. Não resta dúvida de que o território
da sexualidade era bem menos privado do que se poderia supor, distanciando-se
largamente dos padrões supostamente vigentes nos dias de hoje.
66
SALGADO JUNIOR, António, História das Conferências do Casino. Lisboa: Tipografia da
Cooperativa Militar, 1930, p. 76.
67
Georges Duby é historiador francês que tem dedicado seu trabalho a pesquisa da condição da
mulher na história da humanidade. Organiza a obra História da vida privada em 5 volumes.
68
DUBY, Georges. História da vida privada Vol. 2. Companhia das Letras, 10ª edição, 1990.
40
Não por acaso, vale frisar, as principais fontes que permitem conhecer,
com alguma sistemática, o universo das intimidades sexuais naquele período da
história de um Portugal ainda rural são as fontes produzidas pelo poder,
especialmente pela justiça eclesiástica ou inquisitorial, sem falar na
correspondência jesuítica, tratados de religiosos e sermões. Refiro-me, aqui, às
visitas diocesanas e aos processos do Santo Ofício, tribunal que além de cuidar
dos “erros de fé” propriamente ditos, imiscuiu-se também no campo sexual,
assimilando o que considerava “fora da norma” às heresias.
As fontes da Igreja e da Inquisição mostram-se riquíssimas para aproximar
o historiador das intimidades vividas no passado. Possuem, é certo, algumas fortes
limitações, a exemplo da linguagem escolástica que lhes dá forma, dos filtros e
cifras antepostos pelos juízes inquiridores, e da própria situação constrangedora
que envolvia os depoimentos, seja os dos que delatavam por exigência das
autoridades, seja os dos que confessavam seus desvios por temerem os castigos do
Céu e da Terra.
Se já não é fácil dimensionar a vida privada numa remota fase rural
portuguesa, mais difícil é decifrar os aspectos específicos da sexualidade na esfera
estrita da privacidade, da intimidade dos casais e amantes. A contrariar ou mesmo
distorcer essa atitude quase voyeurista do pesquisador, se assim podemos chamá-
la, coloca-se a distância temporal e, consequentemente, as enormes diferenças
existentes entre a cultura material e os estilos sexuais vigentes nos séculos XVI,
XVII ou XIX e aqueles dos tempos atuais. Pois se é certo que o encontro sexual
de corpos pode guardar algumas constantes que chegam a ser a-históricas, muitas
atitudes do passado, atualmente consideradas extravagantes ou mesmo aberrantes,
podiam ser corriqueiras naquele tempo, ao passo que outras, pueris ou simplórias
aos olhos de hoje, podiam conter boa dose de erotismo e de erro fatal, como no
caso do adultério de Luisa, ou no embate entre Honra e Paixão.
Dir-se-ia hoje que o sexo é algo que diz respeito ao indivíduo, a seus
sentimentos e inclinações, assunto de foro íntimo e absolutamente privado. É
quase pueril dizer que, neste sentido - e exceto pelas posições das Igrejas e seitas
religiosas -, a vida sexual não depende de Deus, símbolo da honra, ou do Diabo,
símbolo da paixão, nem precisam os amantes comunicar-se com o Além a
propósito de suas relações sexuais. Nos séculos que vão até o XIX, o assunto era
vivenciado de forma muito distinta. A Igreja considerava a sexualidade matéria de
41
sua alçada, elevando à categoria do sagrado o sexo conjugal voltado para
procriação e lançando tudo o mais ligado ao desejo e à paixão no domínio
diabólico ou mesmo herético.
Usemos como exemplo o caso de um homem italiano, que matara sua
mulher por adultério. Fora denunciado não pelo assassinato da esposa, coisa que
os Tribunais autorizavam (aos maridos traídos), e disso não cuidava o Santo
Ofício, apesar de dar seu “santo aval” à punição imposta à esposa infiel,
indiferente aos Mandamentos da Igreja Católica – Não matarás69
. A esse
propósito, o intelectual Eça de Queirós escreve um artigo, em 1872, publicado em
Uma campanha alegre, no qual comenta a condenação de um homem acusado de
ter assassinado a mulher em função do adultério.
De acordo com o artigo, um jornalista francês, chamado Mr. d'Ideville,
pede a opinião de Alexandre Dumas Filho a respeito do texto que escreveu para
publicação. Sobre este episódio, Eça escreve:
Provocar a pena indiscreta e aparada em bisturi do Sr. Dumas, é acordar o
escândalo que dorme. Sobretudo em questões femininas: porque aí o Sr. Dumas
supõe-se uma espécie de Santo Padre do amor, julga possuir a plena
compreensão da mulher, saber desde as leis até às pantoufles toda a fisiologia do
casamento, e ser no tempo presente um S. Tomás de alcova. De sorte que sempre
que se trata de um caso sentimental, o Sr. Dumas filho entorna sobre o boulevard,
como um barril de lixo, o seu depósito de observações: porque o Sr. Dumas é
observador como outros são trapeiros. E de noite, com uma lanterna e um
gancho, cosido com os muros conjugais, apanhando e fisgando em segredo tudo
o que cai da alcova, cravos, panos revolvidos, cuias velhas, farrapos reveladores -
que ele vai coligindo a sua ciência. Sabe pelo que esgaravata no lixo. E doutor -
em roupa suja. (...)E o amor, o casamento, a virgindade, a maternidade, o pudor,
o adultério, a mulher, saias e consciências, tudo foi sacudido, revolvido,
remexido, voltado ao sol, e exposto à vil publicidade como um guarda-roupa na
tristeza de um leilão. Ora a conclusão da questão era estranha: tratava-se de
decidir, a sangue-frio, com argumentos e boa gramática - se os maridos deviam
matar suas mulheres. O Sr. Dumas tinha dito com o charuto na boca, folheando a
Bíblia - mata-a! Outros, fechando a navalha no bolso, diziam generosamente: não
a mates. Alguns vaudevillistas ensinavam entre um bock e uma pilhéria -vai-a
matando sempre! E outros acrescentavam, expondo que era necessário estudar
mais a questão e consultar dicionários: por ora não a mates! E no entanto, de faca
na mão, os maridos esperam. 70
.
69
Os Dez Mandamentos ou o Decálogo é o nome dado ao conjunto de leis que segundo a Bíblia,
teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. A
sexta lei dita: Não matarás.
70
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,
Cap.XXXIII: O problema do adultério, Outubro de 1872. P.361.
42
Em 1878, não por acaso, Eça publica O primo Basílio, que traz à discussão
justamente a questão de o marido traído ter o direito de lavar a própria honra com
o sangue da esposa adúltera. Para tanto, cria um intertexto com a peça teatral
Honra e Paixão, que logo no início do romance levanta a questão do direito do
marido traído matar a esposa.
Em princípio, um leitor desavisado pode ser levado a acreditar que Eça
defendia a idéia de que a honra devesse ser lavada com sangue. Mas, ao
observarmos o recorte do artigo publicado seis anos antes, veremos que a real
intenção de Eça era outra. Ou seja, a de discutir principalmente o que levava uma
mulher a cometer o adultério e, com isso, implementar mudanças para que casos
como o ocorrido em Paris, que gerou a morte brutal de uma mulher, fossem
tratados mais seriamente, com punições à altura do crime cometido e não com
uma pena de apenas cinco anos de prisão, como foi o caso.
Paralelamente, empolgados pela experiência da Comuna de Paris, os
membros do Cenáculo português concebem as Conferências Democráticas do
Casino Lisbonense, com o intuito de despertar a elite portuguesa do que
entendiam ser a sua total letargia em relação ao que se passava no restante da
Europa. As conferências só duraram os meses de maio e junho de 1871, proibidas, então, pelos
órgãos oficiais. Nelas, Eça apresenta “A nova literatura: o realismo como nova expressão da arte”, cujo texto
original desapareceu, tendo sido posteriormente reconstituído a partir dos comentários saídos na imprensa. É
a primeira vez que Eça pronuncia-se de forma explícita em favor do que ficou conhecido como estética
realista, ou naturalista, oriunda do meio literário francês.
Após a publicação da primeira versão em livro de O crime do padre
Amaro (1876), Eça, inspirado em empreitadas de grande envergadura, como a
“Comédia Humana”, de Honoré de Balzac, ou “Rougon-Macquart”, de Émile
Zola, concebeu suas “Cenas da vida portuguesa”, que visavam retratar a
sociedade portuguesa proveniente da Monarquia Constitucional, estabelecida após
1834, quando toma o poder D. Pedro IV de Portugal, ou D. Pedro I do Brasil.
Para tanto, concebeu o plano de realização das seguintes obras: A Capital,
O milagre do vale de Reriz, A linda Augusta, O rabecaz, O bom Salomão, A casa
n.16, O gorjão, Primeira dama, A ilustre família Estarreja, A assembléia da Foz,
O conspirador Matias, A história de um grande homem, Os Maias. Uma
passagem de olhos por sua obra, no entanto, é suficiente para constatar que os
textos que Eça escreveu não correspondem, em sua maioria, àqueles inicialmente
programados. O primeiro romance que publicou, como já observado, foi O crime
43
do padre Amaro, publicado em 1875, na Revista Ocidental, depois em forma de
livro em 1876 e finalmente em 1880, com a revisão definitiva. Em meio à
complicada gênese desse texto, escreveu e publicou O primo Basílio (1878). A
este se seguiram O mandarim (1880), A relíquia (1887), Os Maias (1888), A
correspondência de Fradique Mendes (1890), A ilustre casa de Ramires (1901) e
A cidade e as serras (1901), sendo que estes dois últimos não chegaram a ser publicados integralmente
em vida.
Como se constata, as “Cenas da vida portuguesa” não saíram como tinham sido planejadas.
Importa, entretanto, que o essencial do projeto de fato se concretizou. Se tomarmos apenas os romances
publicados por Eça, veremos ali um retrato do liberalismo político e econômico que caracterizou a monarquia
constitucional estabelecida em Portugal.
A versão definitiva do romance O crime do padre Amaro, de 1880, traz como subtítulo
“Cenas da vida devota” e faz o retrato crítico do forte poder que a Igreja ainda tinha em Portugal,
demonstrando a distância que existia entre o discurso liberal e anticlerical, propalado pela imprensa de Leiria,
e o efetivo apoio que esta, no decorrer da trama, acaba dando à corrupta dominação do clero.
Em O primo Basílio, que tem por subtítulo “Episódio doméstico”, vemos
retratada a pequena burguesia lisboeta, com todas as suas veleidades, ora
deslumbrada pelo glamour das grandes metrópoles européias, como Paris ou
Londres, ao modo de Luíza, ora embebida de um nacionalismo estreito e tacanho,
ao modo do Conselheiro Acácio. É uma classe que não tem valores bem
definidos, sendo a condição feminina um lugar privilegiado para se constatar sua falta de referências. Daí
o fim a um só tempo trágico e melancólico da protagonista Luísa, pois o discurso liberal em torno da
condição feminina não tem nem entendimento claro, nem lastro na realidade.
Já Os Maias, subtitulado “Episódios da vida romântica”, retrata a vida de uma família aristocrática
de Portugal que, apesar da mais velha e da mais nova gerações serem bem formadas nos valores liberais, não
chegam a concretizar os seus projetos, gerando um descompasso entre o que se pensa e o que se faz. A
fatalidade presente no incesto entre os irmãos Carlos e Maria Eduarda transforma o que era tragédia, no
mundo clássico, em acaso e comportamento cultural, no tempo histórico do romance, demonstrando que o
liberalismo serviu, junto às elites portuguesas, para derrubar tabus sem colocar nada no lugar.
Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelo realismo foi a de resolver a
relação conflituosa e ao mesmo tempo ambígua entre a verossimilhança dos fatos
e a verdade dos personagens que os vivenciam.
O romance O primo Basílio é exemplo do realismo de escola em língua
portuguesa. Um realismo programático (fechado em moldes rígidos), no qual o
drama do adultério cometido por Luisa e sofrido por Jorge é encenado como
centro da estrutura narrativa.
Nesse romance, a crítica de Eça é de cunho social e moral, e até certo
ponto do modelo educacional sofrido pelas jovens da pequena burguesia, como já
44
havia feito nos artigos publicados nas Farpas e compilados mais tarde em Uma
Campanha Alegre. Como podemos observar, a tarefa dos intelectuais portugueses
e, em particular, a de Eça de Queirós, foi a de transformar um país, sob os mais
diversos pontos, atrasado, tendo como base o modelo francês de modernidade. Foi
nesse sentido que Eça empunhou sua pena, ora como um intelectual militante e
liberal, ora como um autor que usava a arte para defender suas teses.
Mas, sua produção irá sofrer influências conservadoras Proudhon, que de
forma radical aborda a temática de gênero. Em 1858, ao falar sobre o "sexo
macho", o autor francês afirma solenemente que "o sexo masculino é o produto
final da elaboração embrionária para uma destinação superior"71
, restando à
mulher uma posição secundária e opaca.
No desenho de sociedade libertária proposta pelo autor francês, que ficou
famoso ao escrever um ensaio intitulado O que é a propriedade, em 1840, no qual
afirma de forma categórica que “a propriedade é um roubo”, não se pode ofuscar
em nome do citado "contexto da época" – figuras como Michelet e Zola, cujo
desprezo pelas mulheres ocupava um espaço privilegiado em suas produções,
minando muitas vezes a criação genial ou a vontade de generosidade de autores
seus contemporâneos – a posição reacionária de Proudhon no que se refere a uma
posição inferior das mulheres, comparando-a a uma propriedade do homem.
Uma grande contradição existe entre a sociedade libertária proposta pelo
autor e o discurso apologético da organização hierarquizada da família. No
sistema associativo proudhoniano, o indivíduo encontra a mestria do processo de
trabalho, renunciando ao projeto culpabilizador de dominar seu próximo. Mas o
reconhecimento da ilegitimidade encontra seus limites logo que se trata de
organizar a família. A família proudhoniana é monogâmica e o marido, como um
pai, tem o mesmo poder do "pater familias", à maneira antiga. Assim, explicando
os casos nos quais o marido poderá matar sua esposa, segundo o rigor da lei
paternal. O autor aponta seis situações justificáveis: " o adultério; a impudicícia; a
traição; a bebedeira e leviandade; a dilapidação e roubo, e a insubmissão
obstinada, imperiosa, com desprezo"72
.
71
PROUDHON, Joseph. La pornocratie ou les femmes dans les temps modernes. Paris, Lacroix.
1976. P. 163.
72
MAUGUE, Annelise. L’identité masculine en crise. Paris, Rivages/Histoire. 1987. P. 131.
45
3
O adultério em O primo Basílio e em Honra e Paixão
Apesar da polêmica à ortodoxia naturalista de O primo Basílio, o romance,
publicado em Fevereiro de 1878, entre a segunda e a terceira versões de O crime
do padre Amaro, apresenta algumas características da narrativa de tese naturalista,
sobretudo no que foi considerado a sua primeira intriga73
.
Machado de Assis, criticando a inanidade do caráter de Luisa e o aspecto
fortuito da descoberta e da chantagem feita por Juliana, observou:
Se o autor, visto que o Realismo também inculca vocação ou demonstra com ele
alguma tese, força é confessar que não conseguiu, a menos de supor que a tese ou
ensinamento seja isto: - a boa escolha dos fâmulos (serviçais) é uma condição de
paz no adultério74
.
73
Carlos Reis divide a ação em duas intrigas: a do adultério (até à partida de Basílio) e a da
chantagem que Juliana exerce sobre Luísa, analisando, na primeira, os fatores causalidade que
nascem de uma visão naturalista-determinista e explicando que a segunda intriga já não depende
desse ponto de vista pela “necessidade de morigeração pela morte de uma personagem (Luísa)
que o adultério só por si não destruíra” (A temática do adultério n’O primo Basílio, Coimbra,
INIC, Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, 1982, pp. 125-126). Nestas
duas intrigas temos, no adultério e nos sonhos românticos de Luísa, a representação da paixão, e,
no calvário a que foi submetida e que culminou com sua morte, temos a representação da honra,
lavada não propriamente com o sangue da adúltera, mas com o seu brutal arrependimento, com a
vitimização de seu corpo doente que acaba por não resistir aos ataques a que foi submetido. Além
disso a honra também foi lavada, nesse romance ,com a tortura de Juliana e a queima das cartas.
74
MACHADO DE ASSIS, José Maria, “Eça de Queirós: O primo Basílio”. In: Construção da
Leitura, apud Alberto Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado?: Um estudo sobre Eça de
Queirós, 2ª. Edição revista, Lisboa, Editora Presença  Martins Fontes, 1979, p 160-161.
46
No entanto, Ramalho Ortigão tinha razão quando mostrou que a moral do
livro não estava no que hoje se considera a sua segunda intriga, mas na primeira:
O ser Luísa [...] castigada por meio de uma morte aflitiva é um fato acessório,
que não conteria senão esta moral negativa, se dele quisesse extrair uma moral:
que para evitar a morte por desgosto se deve atender no adultério a que se
queimem as cartas.
A moral deste livro não está em que a prima de Basílio morre depois da queda:
está em que ela – não podia deixar de cair75
.
Para Ramalho, o romance é “um fenômeno artístico revestindo um caso
patológico” que documenta a “dissolução dos costumes burgueses”, de que o mais
característico sintoma é a “falsa educação”. Uma educação, segundo Ramalho,
voltada para o culto das aparências, orientada com a leitura de jornais noticiosos,
revistas de modas e romances românticos, sem noções úteis à vida doméstica, sem
verdadeiros fundamentos religiosos ou morais que, segundo o autor, fazem com
que a mulher casada, sem conseguir “realizar os seus sonhos de leitora de
romances e de freqüentadora dos dramas do Teatro D. Maria, seja uma vítima
fatal do dandy moderno”.
Em grande parte das obras naturalistas, a educação deficiente é apontada
como a principal causa de uma “fraca formação moral” e pela criação de
expectativas romanescas, provocadas por leituras ultra-românticas que, segundo
Eça de Queirós, levam as heroínas a tentar representar na vida as situações de
amores ilegítimos e exacerbadamente idealistas que vêem romanticamente
descritas nos romances lidos.
Nos artigos: “As meninas da geração nova em Lisboa e a educação
contemporânea” e “O problema do adultério”, publicados em As Farpas, que
apresentam estreitas semelhanças com a educação recebida por Luisa, Eça
enfatiza :
Educa-se-lhe primeiro o corpo para a sedução. Não pela ginástica - isso agora
apenas começa vagamente, como uma imitação inglesa -mas pela toilette: ensina-
se-lhe a vestir, estar, andar, sentar-se, encostar-se com todas as graças para
sensibilizar, dominar as atenções, ser espectáculo, vencer o noivo. Ensina-se-lhe
a arte sentimental e inútil de bordar flores e pássaros; o bordado é a mais
perniciosa excitação da fantasia: sentada, imóvel, curvada, picando
delicadamente a talagarça, o voo inquieto das imaginações e dos desejos palpita-
lhe em roda, como um enxame de abelhas: e é isto o que perde as rosas, como diz
75
ORTIGÃO, Ramalho e Queirós, Eça, As Farpas, ed. Cit., 3 série, tomo II. Fevereiro a Maio de
1878. P.63.
47
um velho poeta ascético: é porque a rosa não pode fugir, andar, sacudir o enxame,
que é ela sempre ferida no cálice.76
No tocante ao romance O primo Basílio, Eça deixa claro, na resposta à
crítica de Teófilo Braga, que não pretendera atacar a instituição da família lisboeta
tal como ela se organizava e vivia:
[...] eu não ataco a família – ataco a família lisboeta produto do namoro, reunião
desagradável de egoísmo que se contradizem, e, mais tarde ou mais cedo, centro
de bambochata. O primo Basílio apresenta, sobretudo, um pequeno quadro
doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa: a
senhora sentimental, mal-educada, nem espiritual (porque, Cristianismo, já o não
tem; sanção moral da justiça, não sabe o que isso é) arrasada de romance, lírica,
sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento
peninsular, que é ordinariamente a luxuria nervosa pela falta de exercício e
disciplina moral, etc. – enfim, a burguesinha da Baixa77
.
Estes vetores são veiculados logo no primeiro capítulo da obra, que faz a
apresentação do quadro doméstico que se vai desestabilizar por efeito do
adultério, juntamente com as principais causas da queda de Luisa. Na estruturação
da ação, a analepse sobre o passado da protagonista é um importante veículo para
identificar as causas que determinarão o adultério, sobretudo com referência às
leituras românticas e às expectativas por elas criadas.
Era “A Dama das Camélias”. Lia muitos romances [...]. Em solteira, aos dezoito
anos, entusiasmara-se por Walter Scott e pela Escócia; desejara então viver num
daqueles castelos escoceses [...] ; e amara Ervandalo, Morton e Ivanhoé [...]. Mas
agora era o moderno que a cativava: Paris, as suas mobilias, as suas
sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltara-se por Mr. De Camors e os
homens ideais apareciam-lhe de gravata branca, nas umbreiras das salas de baile,
com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes.
Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier; o seu amor infeliz
dava-lhe uma melancolia enevoada: via-a alta e magra, [...] os olhos negros
cheios da avidez da paixão e dos ardores da tísica; nos nomes mesmo do livro [...]
achava o sabor poético de uma vida intensamente amorosa e todo aquele destino
se agitava, como numa música triste, com ceias, noites delirantes, aflições de
dinheiro, e dias de melancolia no fundo de um coupé [p.18].78
Esta citação representa bem a imaginação sentimental de Luísa. O fato de
se apaixonar pelas personagens dos romances que lê e de transpor para a realidade
as figuras e situações romanescas é uma das marcas desse tipo de imaginação.
76
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. P. 377.
77
Carta a Teófilo Braga datada de 12 de março de 1878, in Eça de Queirós, Correspondência, ed.
Cit., vol.I. P. 134.
78
QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P.18.
48
Retirada dos romances, a sua imagem do homem ideal encontrará correspondência
no magnético olhar de Basílio e nas palavras sublimes com que também ele se
confessará “devorado de paixão”. Nos seus braços procurará “uma vida
intensamente amorosa” e com amores ilegítimos, como aqueles vividos por
Margarida Gautier.
A precariedade da vida79
, com a desestabilização da sua própria existência,
parecer-lhe-á poética, tal como “as noites delirantes, aflições de dinheiro, e dias de
melancolia” da Dama das Camélias. A sua própria vida também será determinada
Mais tarde, quando Basílio arranja o “ninho”, “aquele ‘Paraíso’ secreto,
como num romance, lhe dava a esperança de felicidade excepcionais”80
.
Deslocando-se para o primeiro encontro no local secreto, a imaginação romanesca
de Luísa fará com que ela imagine um espaço de luxo e bom gosto que contrasta
com o “Paraíso” que de fato é oferecido a ela:
Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, múltipla, impelia-a, com uma
estremecimentozinho de prazer, lá, enfim, ter ela própria aquela aventura que lera
tantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que ia
experimentar sensações excepcionais! Havia tudo – a casinha misteriosa, o
segredo ilegítimo, todas as palpitações do perigo! Porque o aparato
impressionava-a mais que o sentimento e a casa em si interessava-a, atraia-a
mais que Basílio! Como seria? (...) lembrava-lhe um romance de Paulo Féval em
que o herói, poeta e duque, forra de cetins e tapeçaria o interior de uma choça (...)
! Conhecia o gosto de Basílio – e o “paraíso” decerto era como no romance de
Paul Féval.81
Desde os tempos medievais, casos de adultério podiam assumir proporções
perturbadoras, particularmente nas camadas menos privilegiadas. Se, por um lado,
esses casos eram marcados pela ética cavalheiresca, por outro, eram determinados
pela mão de ferro da religião, em cujo sistema de alianças matrimoniais a mulher
e sua fidelidade possuíam um valor de primeira ordem. E em alguns momentos, a
79
No artigo “As meninas da geração nova de Lisboa e a educação contemporânea”, Eça diz: “Há
muita gente ingênua que supõe que uma grande consideração para a mulher” – é o terror da
catástrofe. Pueril ingenuidade. Nada tem um encanto tão profundamente atraente como a
catástrofe. Ela satisfaz o desejo mais violento da alma – palpitar fortemente” – Uma Campanha
Alegre, ed. Cit., p.341.
80
QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 190.
81
Ibidem. P. 195.
OBS.: No artigo “O problema do adultério”, Eça enumera os elementos do “aparato” que, para a
generalidade das mulheres, significa “ter um amante”, em que se inclui um pormenor que agrada a
Luísa em A Dama das Camélias: “a felicidade de andar melancólica no fundo de um cupê”. Em
conclusão, afirma Eça: “O homem, amam-no pela quantidade de mistério, de interesse, de
ocupação romanesca que ele dá à sua existência. De resto, amam o amor. (Uma Campanha Alegre,
ed. Cit, pp 393-394).
49
literatura cortês e a poesia trovadoresca chegaram a estetizar uma determinada
forma de amor que, por vezes, combinava a paixão abstrata ao amor adúltero de
um trovador por sua Dama, que era casada e inatingível. Essa situação misturava
tanto a honra da família, quanto a paixão-amor de uma mulher versus paixão-
moral do homem traído. Colocar em cheque a honra de uma mulher casada e,
sobretudo, do seu marido, era perturbar gravemente a ordem cavalheiresca, seja
no seu aspecto moral, seja no seu aspecto prático.
O cavalheiro medieval vivia em um mundo onde a sua imagem deveria ser
cultivada zelosamente, particularmente nos aspectos que envolviam questões de
honra, e deste zelo pela imagem cavalheiresca dependia não apenas o equilíbrio
das relações horizontais do cavalheiro com outros nobres e cavalheiros, mas
também as relações verticais relativas aos seus subordinados e dependentes. Em
vista disto, a literatura medieval também está repleta de exemplos que impõem
aos seus leitores a valorização da fidelidade e a brutal depreciação das práticas
adulterinas. Dos romances de cavalaria às crônicas e às fontes literárias a partir de
então, é farto o material narrativo que tematiza o adultério como um fator
perturbador da ordem social.
É sabido que a temática de uma obra só pode ser compreendida
plenamente quando tomada em seu contexto. Ao se proceder a uma análise
temática, é preciso, antes de tudo, perceber a forma de abordagem e o que pode
ser observado nos subtemas, isto é, nos detalhes que compõem a visão geral do
tema sobre o qual a obra se baseia. São, pois, essas minúcias que, aos poucos, vão
justificando a idéia e o argumento principal do texto de Eça de Queirós em O
primo Basílio.
Assim, nesse romance, o tema do adultério feminino é explorado: Luisa,
mulher jovem e bela, na ausência do marido que viaja para o interior de Portugal a
trabalho, envolve-se com Basílio, seu primo e ex-noivo que partira para o Brasil
logo após a falência de sua família, rompendo seu compromisso por carta. De
fato, a obra estampa uma realidade em que a independência feminina não é
reconhecida; basta observar como a personagem Leopoldina era vista, ou como as
saídas de Luisa recebiam comentários maldosos dos vizinhos. A mulher, nesse
contexto, devia ser um exemplo de virtude, verificável em sua fidelidade e
submissão ao homem, dedicação à família, cuidados com a casa e recato, como se
observa na seguinte passagem:
50
Mas Luisa, a Luisinha, saiu muito boa dona da casa: tinha cuidados muito
simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como um
passarinho amigo do ninho e das carícias do macho; e aquele serzinho louro e
meigo veio dar a sua casa um encanto sério.
- É um anjinho cheio de dignidade! – dizia então Sebastião, o bom Sebastião,
com a sua voz profunda de basso.82
Este retrato da mulher de família, em oposição às atitudes tomadas por
Luisa a partir de seu reencontro com Basílio, é qualificado pelo autor como um
“acto fatal da moral moderna”83
decorrente de uma série de fatores entre os quais
se destaca a educação recebida, como podemos ver no capítulo dedicado a
educação da mulher no século XIX. A justificativa apontada, pelo intelectual e
autor, é o fato de a mulher ser “educada exclusivamente para o amor”84
.
Para mostrar o papel da mulher nas relações familiares no contexto da
obra, Eça lança mão do adultério como tema, para mostrar o ponto de vista
(frustração e insatisfação) de uma criatura que não precisa ser real, mas está
ambientada num contexto verdadeiro e tendo reações verossímeis e coerentes com
o contexto. Os motivos se engendram compondo não apenas um tema, mas o tema
que irá gerenciar uma determinada linha de pensamento, já desenvolvida pelo
intelectual Eça de Queirós em artigos publicados anteriormente em As Farpas.
O mundo de O primo Basílio corresponde às idéias acima elencadas. Há
uma convergência de situações que se articulam até o momento do adultério
feminino. A casa e o mundo de Luisa em Lisboa ficam isolados do mundo,
mantendo, literalmente, um microcosmo onde tudo começa a girar a partir de
regras próprias e rotineiras, no qual os personagens nos são apresentados como
desinteressantes como a própria vida de Luisa. Interessante era a vida turbulenta
de Leopoldina aos olhos de Luisa, e a novidade da chegada de Basílio constrói
uma espécie de força centrífuga que faz abalar as estruturas sólidas da casa
construída pelos pais de Jorge. O lar e a família pequeno-burguesa necessitavam
dessa solidez para tentar se perpetuar. Se fizermos um paralelo entre essa estrutura
física com a estrutura moral imposta pelo casamento veremos que a proposta de
liberdade, sugerida pela possibilidade da quebra desta rotina enfadonha, irá abalar
82
QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 14.
83
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II,
Capítulo XXXIII : O problema do adultério. P.344.
84
Ibidem. P.346.
51
a frágil estrutura da personalidade de nossa heroína romântica e, muito mais, irá
abalar a frágil estrutura da moral pequeno-burguesa da época.
Nas páginas do livro O primo Basílio, o adultério, elemento básico, do que
Eça critica como “literatura romântica”, das anedotas divertidas e de óperas
famosas, é tratado de forma singular, ou seja, como uma espécie de desajuste a
que as mulheres da baixa burguesia estariam sujeitas em função de uma educação
desajustada e incorreta. Tratava-se, pois, de criar um romance onde se pretendia,
primordialmente, denunciar a educação portuguesa como fator determinante do
comportamento das mulheres.
As referências ao primeiro, embora breves, não deixam que a questão da
educação de Luisa permaneça no escuro, uma vez que dão ao leitor as indicações
necessárias ao relacionamento com a formação escolar deficitária e trivial que era
costumeiramente e facultada às mulheres da sua época e condição, e que Eça e
Ramalho haviam criticado em As Farpas. Denunciava-se nas crônicas,
igualmente, o âmbito de exaltação sentimental que se vivia nos colégios, tanto em
conseqüência da formação de orientação predominantemente artística e de pendor
ultra-romântico como pela cuidadosa segregação sexista que fomentava nas
educadas um interesse obsessivo por questões amorosas. 85
Neste romance, que nos conta a história do clássico triangulo amoroso, um
ingrediente cruel é adicionado, o engano. Não só o engano como elemento do
próprio adultério, mas o engano vinculado a uma falsa idéia de amor, apreendida
nos folhetins dos chamados romances femininos, de meados do século XIX.
Eça, porém, de forma genial, acrescenta mais um atributo ao engano, o de
punição, que é desenvolvido quando Luiza desperta para a realidade do não-amor,
que de fato sentia por Basílio, o D.Juan desfrutador,86
e se vê fadada ao
arrependimento e à culpa, que a levam à morte, bem como a uma série de
punições impostas por Juliana.
Ainda que se pretenda ter uma neutralidade absoluta, como num
dicionário, livre de qualquer escolha ou ideologia, os termos que definem o
adultério esclarecem seu campo semântico e desenham seu território de
problematização. Em Aurélio Buarque de Holanda, por exemplo, é a partir da
85
OLIVEIRA, Maria Teresa Martins de. A mulher e o adultério nos romances O primo Basílio de
Eça de Queirós e Effi Briest de Theodor Fontane. Livraria Minerva. Coimbra, 2000. P.137.
86
SARAIVA, António José. História da Literatura Portuguesa. Publicações Europa América.
Lisboa. 1949. P.67.
52
idéia de adulteração, de falsificação ou deformação, que poderíamos ler a
experiência da infidelidade.87
Se situarmos a relação amorosa no campo do contrato, e assim colocando-
a de maneira concreta no domínio das regras sociais, verificaremos que a quebra
desse “contrato” irá acarretar sanções, sejam elas extremas, como a sugerida por
Jorge, quando indagado sobre o adultério de Honra e Paixão – a morte; sejam elas
penalidades psicológicas, como as impostas por Jorge à Luisa, quando, através de
uma “não-atitude” punitiva, faz com que ela adoeça e morra. Luísa foi construída
para ser vitima de um duplo remorso, causado pelo engano em relação ao marido,
a quem de fato amava, e pela assimilação de seus sonhos românticos, o que a leva
a julgar amar Basílio.
O personagem Ernestinho Ledesma se esgueira por todo o romance na
medida em que o adultério e seus desdobramentos avançam, concretizando sua
peça Honra e Paixão, finalmente encenada, na qual o último ato, inicialmente
trágico, é alterado. Numa clara alusão ao que, naquele momento, estava ocorrendo
entre Jorge e Luísa, Ernestinho, que é construído como um personagem
romântico, leva o seu personagem a perdoar a esposa traidora.
Silviano Santiago, num texto de 1970, bastante elogioso a essa obra de Eça
de Queirós, parte da criação desse personagem e, portanto, da existência de uma
narrativa paralela dentro da central para fazer suas considerações:
O círculo que se estabelece em torno dos personagens de ‘O primo Basílio’ e da
peça ‘Honra e paixão’ vai se estreitando cada vez mais, organizando quase que
por completo a vida imaginária de Luísa. Daquela espécie de desdobramento pelo
reflexo, passamos a uma forma de simbiose, onde os personagens do romance
perdem a sua identidade e se perdem nas máscaras dos personagens da peça de
Ernestinho, atores que são (...)88
Como sabemos, O primo Basílio se inicia com uma cena de leitura
doméstica, como que oferecendo uma pista de que haveria, ao longo do texto, uma
quantidade significativa de referências à leitura e à literatura. A Luísa de Eça foi,
inclusive, muitas vezes comparada a Emma de Flaubert, colocadas, ambas, como
vítimas de um tipo de leitura excessivamente sentimental e capaz de gerar um
permanente e incurável sentimento de frustração diante da realidade tão menos
87
BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio. Dicionário Eletrônico do século XXI.
88
SANTIAGO, Silviano. “Eça, autor de Madame Bovary”. In: Uma Literatura nos Trópicos. São
Paulo: Editora Perspectiva, 1978. P. 61.
53
arriscada que a ficção. Com certeza há indícios para essa comparação, embora as
referências à leitura não se restrinjam a essa personagem. Um deles se revela já no
título do texto de Silviano Santiago, pois, ao chamá-lo de “Eça autor de Madame
Bovary”, o professor aponta para o rumo de suas reflexões: a apropriação de uma
obra já existente para, a partir dela, rediscutir noções como a de originalidade e de
liberdade de criação. Para isso, o ponto de partida é o conto de Jorge Luis Borges,
Pierre Menard, autor do Quixote. Nessa obra, Borges, ao colocar seu personagem
escrevendo um texto rigorosamente igual ao de Cervantes, cuja única diferença
seria externa a ele, ou seja, apenas o nome do autor estabeleceria a existência de
um novo significado, aproxima sua construção de um ensaio teórico.
Em outras palavras, Borges atualiza, primeiramente, a mais antiga das
discussões no âmbito dos estudos literários: o que é literatura? A partir dessa,
outras questões vão sendo colocadas de forma muito sutil, na esteira das quais
Silviano Santiago chega a O primo Basílio para concluir que a obra de Eça
[...] deixa clara, não sua dívida para com Flaubert, mas o enriquecimento
suplementar que ele trouxe para o romance de Emma Bovary; se não o
enriquecimento, pelo menos como ‘Madame Bovary’ se apresenta mais pobre
diante da variedade de ‘O primo Basílio.’ 89
Para o crítico, interessado nas relações entre culturas dominantes e
dominadas, Eça se utiliza do modelo para subvertê-lo de um modo muito criativo,
e este é um argumento mais do que suficiente para afirmar a sua independência.
Eça constrói seu texto tendo como pano de fundo não apenas a obra de
Flaubert, mas estrategicamente integra ao próprio texto um processo utilizado na
confecção de escudos: a reprodução, em miniatura, do conjunto do escudo em um
ponto central. Velásquez usou essa estratégia na pintura, assim como Shakespeare,
em Hamlet. Ou seja, O primo Basílio comprova o argumento central de Silviano
Santiago de que as chamadas culturas dependentes conseguem estabelecer um
diálogo produtivo e subversivo com aquelas que tentam dominá-las90
.
89
Ibidem. P. 52.
90
Gustave Flaubert escreveu em 1837, quando tinha, portanto, dezesseis anos, uma novela
intitulada Passion et vertu (Paixão e Virtude), considerada uma espécie de germe de Madame
Bovary. No texto do jovem Flaubert, igualmente temos uma senhora casada seduzida por uma
espécie de D. Juan que lhe empresta romances, leva-a ao teatro, enfim, mostra uma vida diferente,
com atividades até então desconhecidas daquelas tediosas a que ela estivera acostumada, o que o
torna também uma pessoa muito diversa daquelas com as quais ela já se acostumara. Como se vê,
há muitas semelhanças, mais uma vez, entre também essa obra de Flaubert e a de Eça e refiro-me
agora não apenas a O primo Basílio, mas também ao drama de Ernestinho. Além da semelhança do
54
Esse aspecto não é nosso foco neste estudo, assim como não estamos
diretamente interessados no mapeamento das cenas em que o exercício da leitura,
com todas as suas implicações, é mostrado no romance. Até porque esse
levantamento já foi apontado por outros e rigorosamente feito pela professora
Maria do Rosário Cunha, de modo que não há como negar o quanto Eça esteve
interessado em figurar, através dos hábitos de seus personagens, as mudanças no
modo de produzir e de consumir literatura.
Estamos mais interessados no fato de que se a criação do personagem
Ernestinho sustenta a grande transgressão de Eça em relação ao modelo francês,
como apontou Silviano Santiago, há um outro aspecto que envolve esse
personagem não diretamente analisado no texto “Eça, autor de Madame Bovary”,
para o qual dirigimos nossa atenção. Para o crítico brasileiro, Eça optou por
revelar os impactos da experiência com o adultério na exterioridade da peça, as
reações dos personagens em Honra e paixão substituem, em boa parte, a
exploração do mundo interior dos envolvidos. Para além disso, e aponto para o
centro de meus interesses, há um grande investimento de Eça em figurar, através
de Ernestinho, os bastidores da escrita. Os limites impostos aos desejos criativos
desse escritor são representados por meio da vontade do produtor da peça, mas
também das reações daqueles para quem o texto é lido em primeira mão.
Relembremos Viagens na minha terra, de Almeida Garrett e o Vinte horas
de liteira, de Camilo Castelo Branco. Em especial o capítulo cinco da primeira
obra e, mais genericamente, as conversas de Antonio Joaquim com seu amigo
escritor, no segundo romance: temos aí explanações didáticas e também divertidas
sobre a escrita e seus mistérios. Esses autores não apenas narram acontecimentos,
experiências vividas por seus personagens, mas também exercitam a auto-reflexão
de que nos fala Compagnon91
, inserem os tais manuais de instrução em seus textos
título, o protagonista de Passion et vertu chama-se Ernesto. O fato é que é impossível saber se Eça
leu esse texto de Flaubert, embora essa informação não seja de modo algum preponderante numa
abordagem como a que realizamos aqui. Acrescentamos esse dado apenas para ressaltar que, no
nosso entender, embora o estudo das fontes seja importante e necessário, há o risco de não se
chegar a lugar nenhum ou, ao contrário, de se chegar a tantos e diferentes lugares que já não
saberemos mais onde nos encontramos. Só para apimentar a questão, é preciso lembrar que o
enredo de O primo Basílio de certa forma anuncia o que estará presente no conto No moinho,
publicado em 1880, dois anos depois, portanto, de a narrativa de Luísa, Basílio e Jorge ter sido
revelada. Há informações mais detalhadas sobre a relação entre Eça e Flaubert no Suplemento ao
Dicionário de Eça de Queiroz, nas páginas 175-179.
91
COMPAGNON, Antoine. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG,
1990.
55
de forma bastante explícita. Assim como em O mistério da estrada de Sintra e nas
outras obras sobre as quais não nos deteremos, Eça, em O primo Basílio, também
enxerta um manual de instrução.
É claro que o faz de modo bem menos explícito que os outros dois autores
aqui citados, o que revela uma opção diferenciada. Apenas o leitor um pouco mais
atento que a média daquele que Eça chamou de “uma multidão azafamada e tosca
que se chama ‘o Público’” 92
compreenderia a importância de Honra e paixão. Em
outras palavras, o terrorismo teórico, espécie de febre da qual não foi possível
escapar, gerou reações um pouco diferentes nos, digamos assim, acometidos da
doença. Nenhuma delas, adversa. Pelo contrário, Eça, por exemplo, apresenta
reações consistentes e ao mesmo tempo engraçadas. Mas, antes de refletir um
pouco mais sobre Ernestinho, é preciso lembrar que há outros escritores em O
primo Basílio. No capítulo quatro, temos um poeta, de maneira quase
imperceptível, em meio a uma minuciosa descrição dos personagens presentes no
local em que Luísa propositadamente encontra Basílio, num passeio com D.
Felicidade. O modo como é descrita essa galeria de tipos estabelece de imediato
um contraste produtivo entre eles e o poeta:
E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças cor de flor de
alecrim, fumando cerimoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com
a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabelo riçado, de
movimentos gingados que lhes desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda
do vestido atabalhoado; um eclesiástico cor de cidra, o ar mole, o cigarro na boca,
e lunetas defumadas; uma espanhola com dous metros de saia branca muito rija,
fazendo rugeruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e
bengalão de chapéu na nuca, o olho avinhado (...)93
.
Se, por um lado, a adjetivação destinada ao poeta é exígua, por outro, ele é
o único nomeado entre os vários, devidamente acompanhado de um artigo
definido, dados que lhe conferem o que os outros não possuem: individualidade.
A cena, se vista isoladamente, poderia até ter sua importância questionada,
mas em conjunto com outras, ganha significado e relevância diferenciados. No
capítulo seguinte, durante uma conversa íntima entre Leopoldina e Luisa, ficamos
sabendo que o atual amante da primeira é também um poeta:
92
QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d.. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 2000. Vol. III. P.1791.
93
QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. 1997. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 51.
56
Leopoldina esteve um momento calada; mas o ‘champagne’, a meia obscuridade
deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciazinhas. Estirou-se
mais no divã, numa atitude toda abandonada; pôs-se a falar ‘dele’. Era ainda o
Fernando, o poeta94
.
Aqui temos uma diferença em relação ao poeta do capítulo anteriormente
citado. Trata-se agora de uma designação particular, feita apenas pela
personagem, e não de caráter público, efetuada pelo narrador, como a do
personagem Xavier, de modo que pode ser apenas uma forma de Leopoldina
caracterizar um possível sedutor bem falante e não necessariamente um escritor.
Mesmo que assim fosse, já que não podemos ter certeza, permanece a
importância, pois se evidencia o papel social ocupado pelo homem de letras,
mesmo que apenas de fachada; fica reforçada a necessidade vivida pelos escritores
da afirmação da literatura como uma nova instituição.
Como observou Carlos Reis, “O tempo cultural em que Eça viveu e
escreveu romances, em que projectou uma certa imagem do escritor, testemunhou
o avanço e a (difícil) imposição deste conceito”95
. Assim, Xavier e Fernando se
somam a muitos outros, em muitas outras obras, para quem a escrita cumpre
funções muito práticas, como é o caso, ainda em O primo Basílio, de outro
escritor citado. Trata-se do conselheiro Acácio, autor de guias como Descrição
pitoresca das principais cidades de Portugal e seus mais famosos
estabelecimentos, volumes que lhe valem muita fama e prestígio.
Todavia, é no segundo capítulo que temos a primeira aparição de
Ernestinho, que também se intitula escritor e, como já dito, exerce em O primo
Basílio uma função muito mais relevante que Xavier, Fernando e o conselheiro
Acácio, autores apenas de circunstância, embora realize esse ofício de forma
bastante distinta dos exemplos já aqui citados, presentes em outras obras.
Diferentemente de Artur Corvelo, de Tomás de Alencar e de Fradique Mendes,
Ernestinho possui outra profissão: é funcionário da alfândega e, apenas nas horas
vagas, escreve. Artur, na verdade, alterna períodos em que trabalha na farmácia de
Oliveira de Azeméis e outros em que, por conta de pequenas heranças, pode
dedicar-se exclusivamente à escrita. A respeito de Alencar, o romance não oferece
informações sobre a fonte de seus rendimentos. Já as posses de Fradique, frutos
94
Ibidem. P. 95.
95
REIS, Carlos. “A temática do adultério n'O Primo Basílio”. In: Construção da leitura. Ensaios
de metodologia e de crítica literária, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica /
Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, 1982. P.19.
57
também de heranças, permitem-lhe uma existência em que a palavra trabalho
pouco significa.
Ernestinho é primo de Jorge, o dono da casa em que acontecem muitas
reuniões. Num desses encontros Ernestinho nos é apresentado:
Ultimamente trazia em ensaios nas ‘Variedades’ uma obra considerável, um
drama em cinco atos, a ‘Honra e paixão’. Era a sua estréia séria. (...) Escrevia
todavia por paixão entranhada pela Arte – porque era empregado na alfândega,
com bom vencimento(...).
Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo: era uma mulher casada. Em
Sintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de Monte-Redondo. O
marido arruinado devia cem contos de réis ao jogo! Estava desonrado, ia ser
preso. A mulher, louca, corre a umas ruínas acasteladas, onde habita o conde,
deixa cair o véu, conta-lhe a catástrofe. O conde lança o seu manto aos ombros,
parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem. – É uma cena
comovente, dizia, é de noite, ao luar! – O conde desembuça-se, atira uma bolsa
de ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: saciai-vos, abutres!...(...)
Enfim – acrescentou Ernesto, resumindo – aqui há um enredo complicado: o
conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se; o marido descobre, arremessa
todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a mulher96
.
A entrada de Ernestinho na trama falando aos freqüentadores da casa de
Jorge sobre sua peça serve de texto paralelo aos acontecimentos que o narrador de
O primo Basílio teria que desenvolver e, de certa forma, discutir com os demais
personagens e os leitores.
Eça realiza aqui uma espécie de figuração do público a que se referirá mais
tarde no prefácio à obra do Conde de Arnoso, pois metonimicamente as pessoas
que freqüentam a casa de Luísa e de Jorge representam o que o dramaturgo teria
de enfrentar lá fora. O fato de serem personagens tão diferentes também confere
amplitude à cena, inclusive no que diz respeito à advertência do autor de que
“aqui há um enredo complicado”, como se fosse preciso prepará-los para uma
possível complexidade, fosse ela em termos de estratégias textuais, fosse ela em
termos morais.
Lá está o médico pobre Julião Zuzarte, que se julga muito inteligente,
muito acima de todos os outros e justamente por isso ressente-se da vida
miserável que leva, quando em comparação ao conforto dos outros, considerados
por ele medíocres. Entre os que Julião despreza está o Conselheiro Acácio,
pródigo em citações e dono de um empolado vocabulário.
96
QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. 1997. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 24.
58
Também freqüentador dos animados serões, embora nos seja apresentado
apenas depois da primeira referência a Ernestinho e a sua peça, temos Sebastião,
amigo íntimo de Jorge, incumbido de cuidar de Luísa durante a ausência do
marido, período em que se dará praticamente toda a trama. Sebastião é o
personagem com quem o narrador é mais condescendente. Para ele, só há elogios,
o oposto do que ocorre com os outros freqüentadores. Representante do público
feminino, D. Felicidade de Noronha, robusta senhora que fora amiga da mãe de
Luísa, há cinco anos freqüentava a casa porque ama o Conselheiro Acácio e
espera, pacientemente, que ele perceba seus interesses amorosos e tome alguma
atitude.
À exceção de Jorge, todos os presentes nessa primeira aparição de
Ernestinho reagem negativamente à idéia de que o marido deveria assassinar a
esposa traidora, concordando com o desejo do produtor da peça que pedira a
alteração do final. O conselheiro não apenas concorda como também se justifica:
“A falar a verdade – disse o conselheiro – a falar a verdade, senhor Ledesma, o
nosso público não é geralmente afeto a cenas de sangue”97
. A expressão do
personagem não apenas sintetiza a nova configuração que o discurso literário
vinha gradativamente assumindo, a de obedecer ao gosto do público, como
também anuncia ao leitor atento o desfecho do romance.
Depois de os leitores serem apresentados à peça, ainda em forma de
rascunho, toda a trama do adultério de Luísa e suas implicações serão
devidamente acompanhadas com presença de Ernestinho e pela mudança que se
processa no interior de Luísa. O personagem ressurgirá rapidamente no capítulo
sete, quando encontra Luísa a caminho do Paraíso: “Ia a afastar-se, atarefado,
mas voltando-se rapidamente, correu atrás dela. – Ah! Esquecia-me de dizer-lhe,
sabe que lhe perdoei? Luísa abriu muito os olhos”98
. O espanto da personagem
revela a ambigüidade da cena, reforçada pela repetição do pronome “lhe”.
O espanto revelado pelo olhar de Luísa diante da possibilidade ou do
desejo de ser perdoada aumenta de tal forma que, no capítulo nove, atormentada
pela chantagem de Juliana, ela tem um sonho em que atua, juntamente com
Basílio e Jorge, na peça de Ernestinho, todos representando a si mesmos, inclusive
com seus próprios nomes:
97
Ibidem. P. 26
98
Ibidem. P. 121.
59
Luísa achava-se nos braços de Basílio que a enlaçavam, a queimavam; toda
desfalecida, sentia-se perder, fundir-se num elemento quente como o sol e doce
como o mel; gozava prodigiosamente; mas, por entre os seus soluços, sentia-se
envergonhada porque Basílio repetia no palco, sem pudor, os delírios libertinos
do Paraíso! (...) Subitamente, porém, todo o teatro teve um ah! de espanto.(...) Ela
voltou-se também como magnetizada, e viu Jorge (...) que se adiantava, vestido
de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão.99
.
Assim como em O mistério da estrada de Sintra, em O primo Basílio, e a
cena desse sonho é exemplar nesse sentido, Eça discute diante de seus leitores os
tênues limites entre a realidade e a ficção. No primeiro caso, a participação do
personagem Z que ora reclama por ter sido enganado, pois acreditara estar diante
de eventos ficcionais e se vira indiretamente envolvido em crime real, ora conclui
estar mesmo diante de uma narrativa ficcional. Em O primo Basílio, Eça oferece,
nas reações de Luísa, a mesma confusão. A personagem, tão ansiosa por viver as
aventuras dos heróis e heroínas que tantas vezes acompanhara em suas leituras, se
perdia entre os eventos da sua própria vida e os das criaturas do escritor
Ernestinho.
Mais uma vez, o manual teórico estava inserido no texto, já que o sonho de
Luísa pode ser lido como uma metonímia dessa incipiente relação entre o escritor
e, nas palavras de Eça, “uma multidão azafamada e tosca que se chama ‘o
Público’”100
.
Na última vez em que Ernestinho aparece em cena, no capítulo quatorze,
através do discurso do personagem Julião, somos informados das reações à estréia
de Honra e paixão:
E o que me dizem da novidade? – exclamou. – A peça do Ernesto teve um
triunfo!... Assim tinham lido nos jornais. O ‘Diário de Notícias’ dizia mesmo que
o ‘autor chamado ao proscênio, no meio do mais vivo entusiasmo, recebera
uma formosa coroa de louros’. (...)
E quase imediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se
na sala: ergueram-se com ruído, abraçaram-no(...). Contou então largamente o
triunfo (...). Houve uma ceia. E tinham-lhe dado uma coroa (...). – Sabes que lhe
perdoei, primo Jorge? Perdoei à esposa... (...) O Jorge é que queria que eu desse
cabo dela – disse Ernestinho, rindo tolamente. – Não se lembra, naquela noite...
– Sim, sim – fez Jorge, rindo também, nervosamente.
– O nosso Jorge – disse com solenidade o conselheiro – não podia conservar
idéias tão extremas. E de certo a reflexão, a experiência da vida...
99
Ibidem. P. 166.
100
QUEIRÓS, Eça de. Obra completa. Organização geral, introdução, fixação dos textos
autógrafos e notas introdutórias Beatriz Berrini. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000, v.3/4. P.
1791.
60
– Mudei, conselheiro, mudei – interrompeu Jorge. 101
.
O leitor é convidado a associar essa cena ao fato de que fora nesse mesmo
capítulo, um pouco antes dessa cena, que Jorge lera a carta de Basílio a Luisa e
tivera, portanto, a prova de que fora traído. Não restam dúvidas de que o leitor é
informado, através do discurso da peça de Ernestinho, do modo como seria
construído o romance que estava sendo lido. A confissão de Jorge, que mudara de
opinião, reflete, mais uma vez em forma de metonímia, a posição daquele que
deixara de ser mero apreciador e passara à condição de consumidor.
Ao inserir, portanto, a peça Honra e paixão e atribuir-lhe um grande êxito
junto ao público num romance construído em torno do mesmo tema, Eça oferece
duas possibilidades de realização. Embora não tenhamos a peça toda, é possível
deduzir do resumo que dela Ernestinho nos oferece, assim como do trecho que ele
lê para os amigos no capítulo dois, que se trata de um daqueles arremedos de arte,
sobre os quais Eça tanto falou.102
Antes mesmo de publicar O primo Basílio, Eça
já escrevera muito a respeito da relação entre literatura e consumo. Sobre essa
qualidade do autor, nos fala Maria do Rosário Cunha:
Foi um leitor atento, e nessa qualidade fundamentou as apreciações críticas que
constantemente exerceu e registrou em textos de natureza programática ou em
crônicas como, por exemplo, as que nos seus primeiros anos de Inglaterra
enviava para ‘A Actualidade’, constando de cada uma dessas crónicas uma
secção particularmente destinada à resenha das ‘novidades literárias’. Desta
forma, leu com os olhos do escritor que pondera sobre o fenómeno de que é
parte activa, avaliando a beleza ou a eficácia de formas e estratégias, e leu com os
olhos do crítico, especialmente atento à relação entre a quantidade e a qualidade
dos produtos103
.
Em 1878, Eça publicou O primo Basílio, romance em que esse olhar
crítico, capaz de reconhecer a diferença de qualidade entre os textos, se revelou na
prática. Dirigindo-se a um público específico, consumidor de literatura e não
apenas do texto de caráter jornalístico (embora muitas vezes o veículo fosse o
101
QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P.223.
102
Alguns bons exemplos dessa preocupação são os textos “O Natal – ‘a literatura de Natal’ para
crianças”, “Acerca de livros”, “O ‘Salon”, “Ainda o anarquismo. O sr. Brunetière e a imprensa”,
“Um génio que era um santo”. À exceção do último, todos os outros foram publicados na Gazeta
de Notícias (jornal brasileiro do qual Eça foi colaborador entre 1880 e 1897).
103
CUNHA, Maria do Rosário. A inscrição do livro e da leitura na ficção de Eça de Queirós.
Coimbra: Almedina, 2004. P. 96-97.
61
mesmo), o criador da trama que envolve Luísa, Basílio e Jorge, ao criar também
Ernestinho, colocou diante desse público um dos sintomas do mal-estar.
A cena em que o autor de Honra e paixão conta que foi coroado, após a
estréia da peça, contrasta vivamente com o silêncio de Fradique que, segundo ele
mesmo, jamais publicou. Lembremos que Fradique só teria autorizado que
viessem a público os poemas das Lapidárias acompanhados de um pseudônimo,
cuja escolha ficara a cargo do primo Vidigal. Desejo que não se realizou, pois:
“[n]a redação, porém, ao rever as provas, só lhe acudiram pseudônimos decrépitos
e safados, o ‘Independente’, o ‘Amigo da Verdade’, o ‘Observador’ – nenhum
bastante novo para dignamente firmar poesia tão nova”104
e Fradique acabou
aparecendo como autor de poesia tão nova. Como se vê, a atitude de autorizar a
publicação dos poemas não se coaduna com as várias afirmações de que ele não
teria nada a dizer. E, embora Eça não tenha se dado ao trabalho de reescrevê-lo, o
narrador de Memórias nos informa que Fradique escreveu e publicou, por
vontade própria, um outro poema. Assim, tantas justificativas para a recusa à
escrita parecem merecer nossa desconfiança.
Quanto às cartas, reitero que a estratégia de Eça foi criar um narrador que,
em primeira pessoa, nos conta a vida de Fradique, na condição de testemunha,
com vagas e rápidas participações na biografia do amigo. É este narrador não
nomeado quem se responsabiliza pela seleção e publicação das cartas, fato para o
qual encontra várias justificativas. Entre elas:
Escolho apenas algumas, soltas, de entre as que mostram traços de caráter e
relances da existência ativa; de entre as que deixam entrever algum instrutivo
episódio da sua vida de coração; de entre as que, revolvendo noções gerais sobre
a literatura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterizam o feitio do seu
pensamento; e, ainda, pelo interesse especial que as realça, de entre as que se
referem a coisas de Portugal (...).
Mas, assim ligeira e dispersa, ela (a correspondência) mostra, todavia, em
excelente relevo, a imagem deste homem tão superiormente interessante em todas
as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de ação105
.
Assim, se Fradique parece não procurar deliberadamente a fama e a coroa
de louros que Ernestinho tanto deseja, também não é possível falar em negação
absoluta da escrita, embora, segundo o narrador, ele afirme “Eu não sei escrever!
104
QUEIROZ, Eça de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, v.1/2. P. 18-19.
105
Ibidem. P. 108-109.
62
Ninguém sabe escrever!”106
. Até porque, essa afirmação se revela ambígua,
quando somos informados da opinião de Fradique sobre a moda de se publicar a
correspondência de algumas figuras ilustres:
Leio todas as coleções de Correspondências (...). Eis aí uma maneira de perpetuar
as idéias de um homem que eu afoitamente aprovo – publicar-lhe a
Correspondência! Há desde logo esta imensa vantagem: que o valor das idéias (e
portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que as
concebeu, mas por um grupo de amigos e de críticos (...). Temos depois que as
cartas de um homem, sendo o produto quente vibrante de sua vida, contêm mais
ensino que a sua filosofia – que é apenas a criação impessoal do seu espírito. (...);
uma vida que se confessa constitui o estudo de uma realidade humana, que, posta
ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do homem, único
objetivo acessível ao esforço intelectual. E finalmente como cartas são palestras
escritas (assim afirma não sei que clássico), elas dispensam o revestimento
sacramental da tal prosa como não há... Mas este ponto precisava ser mais
desembrulhado – e eu sinto parar à porta o cavalo em que vou trepar ao pico de
Bigorre!107
.
106
QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 101.
107
QUEIROZ, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. Porto Alegre: L&PM Pocket,
1997, 2 v. P.p. 105-106.
63
4
Conclusão
Chegar a esta página implica em colocar-se diante de uma das perenes
ambigüidades do desejo humano. Referimo-nos àqueles muitos momentos em que
finalmente se dá por encerrado algo que se quis muito terminar. Por outro lado,
em outras ocasiões (que não são exatamente outras porque não se distinguem
muito claramente do que deveria ser a impressão anterior), nós mesmos criamos
empecilhos para chegar ao ponto final: é a tentação do inacabável. Tentadora, a
idéia de fim é também dolorosa. Se encerrar, revisar, imprimir e entregar é bom, é
igualmente bom poder encarar o trabalho como um processo, como uma espécie
de - “é quase isso, mas ainda vai melhorar”. Melhor ainda é acreditar que um dia
será possível atender às próprias expectativas. Como não há nenhuma
possibilidade de que esse dia chegue, resta um misto de alegria, tolerância e
frustração.
Tal sensação, acreditamos e especulamos, deve ter sentido o escritor e
intelectual Eça de Queirós, que como pudemos ver, participou ativamente do
processo de desenvolvimento e modernização de Portugal numa área árdua, –
como a da educação ou da cultura – lutando contra os preconceitos, a má
formação das jovens portuguesas e o atraso generalizado que impedia o país de
inserir-se na Europa moderna do século XIX.
A luta de Eça, como pudemos observar no decorrer desta dissertação,
inicialmente esteve presente nas Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.
Lá encontramos dois longos ensaios em que a questão da instrução está presente,
ambos datados de março de 1872. No primeiro deles, como esclarece já no início,
tecerá as suas reflexões sobre a instrução pública em Portugal partindo de algumas
cifras. Já no segundo, faz um balanço da educação feminina, buscando traçar um
retrato sociológico da jovem portuguesa.
64
No primeiro artigo, o autor de O primo Basílio começa lamentando o fato
de a instrução em Portugal estar a cargo do governo pelo descaso que o Estado
tem com o ensino primário. Lamenta também o fato de a iniciativa privada não
estar, como ocorre nas mais importantes nações européias, comprometida com a
instrução em seu país.
Como exemplo desse descaso do Estado, relembra um decreto da lei de 20
de setembro de 1844, que autorizava as câmaras municipais, a suas expensas, a
criarem escolas primárias. Ironicamente, revela que se tal medida faria supor um
anseio das câmaras na construção de escolas, apenas uma fora fundada nos quase
trinta anos de criação da lei.
Como antecipa de início, todo o artigo está pautado na análise de cifras
referentes ao estado do ensino em Portugal. Comparando as estatísticas sobre o
número de crianças em idade escolar, número de escolas, porcentagem de
aproveitamento do ensino, as conclusões a que chega são alarmantes, a ponto de
equiparar a situação portuguesa aos confins africanos ver um paralelo com a
situação dos cafres – “de nossos irmãos os cafres”, como tristemente Eça de
Queirós lamenta:
Existindo no nosso país, segundo as últimas estatísticas, 700.000 crianças, e não
sendo justo que se apertem na estreiteza abafada de uma escola mais de 50 alunos
(...), segue-se que deveríamos ter 14.000 escolas...
Temos 2.300!
(...) Das 700.000 crianças que existem em Portugal o Estado, nessas 2.300
escolas - ensina 97.000. Isto é, de 700.000 crianças estão fora da escola mais de
600.000!
Destas 97.000 crianças que freqüentam as escolas, sabeis, amigos, quantas se
apuram prontas, por ano? Segundo as últimas inspeções - em cada 50 alunos
apura-se 1 aluno!
Portanto Portugal, de 97.000 crianças que traz nas suas escolas - tira por ano,
sabendo os rudimentos, 1940!
Mordei-vos de ciúmes, oh cafres!108
O tom de indignidade está presente em toda a argumentação desenvolvida
por Eça. Mas ele não se restringe a levantar a questão. Apresenta também
propostas que, no seu ponto de vista, poderiam contribuir para solucionar o
problema. Ponderando, por exemplo, sobre a evasão escolar na zona rural,
acredita que a solução é a criação e o fomento de escolas noturnas.
108
QUEIRÓS, Eça. Obra Completa. V.3. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. P.844.
65
Entre outros aspectos que analisa está a situação do professor: o
desestímulo provocado pela baixa remuneração e falta de um plano de carreira; a
formação deficiente causada pela ausência de escolas normais que preparem o
profissional para o ofício, fatores esses que contribuem para a má formação do
professorado. No balanço final que faz, apostrofa:
Eis aqui o estado da instrução pública em Portugal, nos fins do século XIX. A
instrução em Portugal é uma canalhice pública! Que o atual governo volte os seus
olhos, um momento, para este grande desastre da civilização!109
Já no ensaio sobre a educação feminina, Eça de Queirós parte de um
aforismo: “A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães”.
Por esse motivo, passa a analisar “estas gentis raparigas de 15 a 20 anos de quem
nascerá, para bem ou para mal, a geração portuguesa de 1893”110
. Da falta de
atividade física, alimentação inadequada, sujeição à moda - perniciosa, a seu ver,
por prescrever modos de vestir e pentear prejudiciais à saúde feminina -, passando
pelo automatismo da educação religiosa e os equívocos da formação moral, o
autor de O primo Basílio não poupa nenhum dos aspectos que considera contribuir
para a deficiente formação da jovem portuguesa, sobretudo a da capital do país.
Alguns desses aspectos, aliás, ajudarão a compor algumas das personagens
femininas de sua obra ficcional, como já foi visto.
Portugal não ficou indiferente a esta cruzada regeneradora e, nesta
campanha, se empenharam, no séc. XIX, médicos, pedagogos e agentes de ensino.
Contudo, a tarefa de mudar as mentalidades dos responsáveis pela educação,
quanto à necessidade das raparigas fazerem exercício físico, por exemplo, não era
fácil. Muito mais árduo, foi comprovar que a leitura de romances românticos
pudessem prejudicar a formação moral das jovens e, em função disto, retirá-los do
programa. Algumas mudanças foram ocorrendo gradativamente, mas nem todas
foram ao encontro da totalidade das idéias defendidas apaixonadamente por Eça,
em sua tribuna ou em seus romances.
Cabe-nos ainda ressaltar que a estética realista defendida por Eça em
oposição à romântica está presente na dualidade do título da peça de Ernestinho –
Honra e Paixão. Honra como um fator mais próximo do pensamento realista e
109
Ibidem. P. 848.
110
Ibidem. 848-849.
66
Paixão ao ideário romântico. Honra como uma força masculina e Paixão como
um sentimento feminino, ligado à dor. Por outro lado, não há porque negar a
influência, mesmo que indireta, de Gustave Flaubert na produção literária de O
primo Basílio. Emma e Luisa são personagens muito próximas – mulheres, ambas
jovens e recém casadas, inclusas em uma sociedade machista e indiferente ao
verdadeiro papel da mulher na sociedade. Papel este que deveria ir muito além do
famoso “anjo do lar” que a ideologia burguesa lhe destinara. Mas as similaridades
param por aí, como muito bem observou o crítico literário, Silviano Santiago. Eça
vai muito além. Ousa alcançar uma outra perspectiva, utilizando-se do mote da
influência maléfica da literatura romântica, ele tentará influenciar a opinião
pública e as autoridades de seu país no sentido de fomentar mudanças na educação
portuguesa. Segundo o autor, a modernidade não está restrita ao olhar
arquitetônico ou econômico de um país, mas intimamente ligada à educação do
seu povo.
Para o comum leitor talvez a obra de Eça de Queirós seja apenas
importante, mas não para quem olha a literatura como um imenso oceano. Um
oceano onde, por vezes, as águas se tornam ondas agitadas. E o caso do projeto
que orientou o romance O primo Basílio: levar Portugal à modernidade, por
acreditar que o país permanecia em águas excessivamente paradas. Ao atirar uma
pedra nessas águas calmas, de imediato se cria uma onda circular a partir da
pedra, junto ao ponto de impacto. Então, esta onda começa a espalhar-se,
atingindo as margens mais longínquas. É preciso, no entanto, que se atire a
primeira pedra. Pois é certo que, quando ocorre o descobrimento, se consolida o
nosso legado cultural.
Parece-nos, enfim, que isso sucede com o romance O primo Basílio. Eça
lança mão do universo feminino para denunciar o atraso de seu país e as causas
desse atraso – a tacanha moral burguesa. O mote do adultério estará ligado à
traição, traição cometida por uma ideologia romântica em detrimento do avanço
da cultura de um país.
67
5
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Honra versus Paixão o adultério na visão de Eça de Queiros

  • 1.
    8 1 Introdução Que desgraça sermulher! Entretanto, a pior desgraça quando se é mulher é, no fundo, não compreender que sê-lo é uma desgraça.1 Não é fácil entender por que nos aproximamos de certos temas e livros. O historiador Evaldo Cabral de Mello afirma que as escolhas são, muitas vezes, obra do acaso e, portanto, dificilmente encontramos justificativas racionais e plausíveis para elas. O que, segundo o historiador, pode “explicar” a nossa formação acadêmico-ideológica é que há “um anjo da guarda da leitura”2 que faz com que as obras, os livros e os discursos de que gostamos nos encontrem, contribuindo quase magicamente para ampliar o nosso campo do saber. Assim, posso afirmar que o encontro observado nessa dissertação se deu pela mistura do acaso com o desejo. Para esse encontro contribuíram diferentes leituras, mas especialmente a leitura efetuada por minha mestra e orientadora Izabel Margato, não apenas durante uma disciplina que ministrou durante o curso mestrado, em 2007, sobre Eça de Queirós e o Realismo Português, como, também, a de seu artigo, O Intelectual e o Poder, apresentado durante o XV Seminário Internacional da Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses, O Intelectual e o Espaço Público. Neste texto, a professora aborda a importância das idéias defendidas pelo intelectual através de suas diferentes tribunas, mas em especial através dos romances que nos legou. Desse modo, em uma perspectiva anticartesiana, aberta e inconclusa, pretendemos analisar o romance O primo Basílio, procurando resgatá-lo de uma 1 Søren Aabye Kierkegaard In: Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira. 1980. P. 76. 2 MORAES, J.G.V. Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2002. P.148.
  • 2.
    9 possível desvalorização porparte da crítica canônica, que tenta diminuir o valor da obra, por acreditar que ela seja uma espécie de cópia temática e de enredo de Madame Bovary. O plágio, a acusação de plágio ronda o final do século XIX e especialmente o nosso romancista, que desde O Crime do Padre Amaro se viu condenado no Brasil e em Portugal por plagiar Zola e La Faute de l'Abbé Mouret 3 . Na análise que propomos para o romance, traremos à discussão questões como: a tese do adultério, a deficiência na educação das jovens da baixa burguesia lisboeta, a mulher como cidadã, Portugal no cenário europeu do século XIX e a contribuição de Eça, como intelectual, influenciando a opinião pública da época através de sua maior arma - a escrita. Neste início de século, muitas questões de ordem política, econômica, social e moral se colocam à humanidade com uma velocidade crescente. Acabamos inevitavelmente por nos interrogarmos acerca da evolução das sociedades humanas, sobre a nossa própria contribuição para o desenvolvimento dessas sociedades nas quais nos inserimos, agindo, sob tal perspectiva, como sujeitos ativos desencadeadores de muitas possibilidades de mudanças. Num desses momentos, questionamo-nos sobre qual seria o papel reservado à mulher e ao intelectual neste novo século. Se por um lado nos congratulamos por viver em uma época em que as suas capacidades começam finalmente a ser reconhecidas e apreciadas, depressa compreendemos também que um longo caminho resta ainda percorrer para que se atinja uma verdadeira igualdade entre homens e mulheres, apesar dos esforços aplicados a essa questão. Buscaremos focalizar os questionamentos acerca da contribuição dos intelectuais na implementação de mudanças, e, em especial, o intelectual das Letras, como atuante formador de opinião, onde, a despeito de opiniões contrárias, se efetiva a sua participação nesse processo. Em relação à figura feminina, poderemos podemos chamar a atenção para o fato de que, embora hoje em dia ela desempenhe funções e ocupe cargos para os quais se encontra altamente qualificada, é inegável que o esforço que tem de despedir para conquistá-los é bastante superior ao de um homem em idênticas 3 SANTAGO, Silviano. Eça o verdadeiro autor de Madame Bauvarie. In: Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978. Pp. 49-45.
  • 3.
    10 condições, continuando aexistir, apesar de nos encontrarmos já no século XXI, uma acentuada distinção entre papéis tradicionalmente considerados femininos, como zelar pelo bem estar do marido, cuidar do lar e da educação dos filhos, e os masculinos, como mantenedor da estrutura familiar. Contudo, graças à sua forte tenacidade, a mulher, hoje, mais do que esposa e mãe, ou de uma peça decorativa do mobiliário, tem demonstrado suas reais capacidades intelectuais e físicas nas mais diversas áreas, contribuindo igualitariamente para os mais diversos avanços sociais e tecnológicos. Este fato sintomático da profunda revolução operada nas mentalidades não nos impede, todavia, de verificar que a mulher continua a ser vista por muitos homens como um ser inferior, a quem não se confere o direito de lutar por uma carreira, de forma a dignificar a sua imagem pessoal e socialmente. Parece-nos, portanto, que o nascimento de um novo milênio seria o momento ideal para colocar à parte este tipo de preconceito e aceitar naturalmente as semelhanças e as diferenças inerentes a cada sexo, criando uma sociedade fundamentada num clima de partilha e conjunção de interesses. Desse modo, não podemos deixar de felicitar a mulher do século XIX, por ter sido ela a primeira a iniciar a dura caminhada que, provocando importantes mudanças estruturais na sociedade da época, conduziria à conquista da sua autonomia como indivíduo. No entanto, apesar de considerarmos o século XIX como um ponto de virada para as perspectivas femininas, as amarras que, durante séculos, as mantiveram sob o poder masculino, não se quebraram de súbito. Assistimos, no final do século XIX, a uma prática feminina de submissão a regras sociais muito codificadas, que obrigam a mulher a viver à sombra do homem, dependente e subjugada ou, por outro lado, a buscar a conquista dos seus direitos, perseguindo os seus sonhos e paixões pela questão vital de manter viva a chama de sua honra. A França aparece neste cenário oitocentista como um terreno fértil à emergência do socialismo e das idéias igualitárias, como também ao surgimento de pensamentos e práticas libertárias, dando ao mundo expoentes como Flora Tristan (1803-1844), que lutaram pelas conquistas femininas, marcaram a gênese do movimento operário e a defesa do direito da mulher - direito ao trabalho, ao saber e ao prazer. Será a partir da leitura de O primo Basílio que se buscará analisar a importância da figura da mulher na sociedade portuguesa daquela época e,
  • 4.
    11 principalmente, a forçada opinião fomentada pelo intelectual Eça de Queirós, ao abordar uma temática particularmente delicada, como a do adultério, e discutir as deficiências e os equívocos pedagógicos como possíveis responsáveis pelos “desvios de conduta” destas mulheres, chamando a atenção da sociedade portuguesa em pleno século XIX para este problema. Ao situar essas questões, tentaremos mapear as transformações das cidades européias em função da modernização e, principalmente, buscaremos retratar Lisboa através da vida e dos costumes de uma parcela de sua população – a baixa burguesia. Como a modernização das cidades européias, naquela época, já se encontrava em fase avançada e, segundo Eça, a pacata Lisboa ainda se encontrava num estado de “letargia”, buscaremos trabalhar comparativamente esses dois momentos de modernização, identificando a comparação tensa entre a pouca modernidade portuguesa versus a modernidade européia. No romance O primo Basílio, Eça focaliza a pequena burguesia lisboeta, seus costumes, valores e ranços morais. A partir da análise desses elementos, buscaremos localizar a questão do adultério relacionando-o à estrutura do lar burguês onde sua importância pode ser analisada sob diferentes óticas, tais como, moral, legal, sociológica, econômica, religiosa e pedagógica. Assim, além de analisar as opiniões defendidas por Eça, no que se refere às leituras românticas e seus efeitos na formação do caráter da mulher, analisaremos, prioritariamente, fatos da enunciação e do discurso, procurando obter uma compreensão da imagem feminina que circulava socialmente através dos discursos e dos imperativos de conduta "aconselhados" às mulheres. Além disso, privilegiaremos, neste texto, as estratégias de reconstrução do “real”, levada a cabo pelo narrador, através das quais busca dar sentido tanto a sua tese de responsabilidade pelos desvios morais, quanto à trama engendrada para justificar seus argumentos. Num terceiro momento, será focalizada a ação do escritor como intelectual comprometido com os assuntos do seu tempo, através da análise de artigos em que o escritor busca empreender mudanças que possibilitem conduzir Portugal à modernidade já conquistada pelos principais centros europeus. Também serão analisados, como mais um eixo dessa ação, os tópicos construídos por Eça no romance O primo Basílio para demonstrar a fragilidade das bases que compunham a família pequeno burguesa, reforçando sua crítica à educação feminina que
  • 5.
    12 possibilitaria, segundo ele,os desvios morais, responsáveis pela dissolução da estrutura familiar, a base da sociedade de então. Como teremos oportunidade de demonstrar, as personagens femininas em O primo Basílio rompem até certo ponto com as convenções sociais, que conferem às mulheres os cuidados com a casa e com a família. Luisa, personagem central da trama de O primo Basílio foi concebida para evidenciar um tipo feminino de personalidade frágil e indiferente aos riscos que poderiam envolver o ato de afastar-se do código de conduta oitocentista. Esses códigos ditavam o comportamento feminino da burguesia no que se refere à conduta moral esperada. O afastamento de Luisa desses códigos, de alguma forma, irá contribuir para as mudanças que presenciamos nos dias de hoje, no que diz respeito a essa temática. Isso, sem dúvida, por si só já demonstra a força e a importância do intelectual que aborda tais temas, colocando-os em debate na sociedade. Luisa funcionará como exemplo de mulher frágil, fadada a sucumbir pelo atraso de sua educação. A criação deste personagem servirá de contraponto à cidade de Lisboa que, estagnada social e culturalmente, jamais irá atingir os índices de modernidade alcançados pelo resto da Europa. Neste romance que Eça subintitulou “episódios domésticos”, vimos serem abordados tanto os aspectos econômicos, como os valores morais, psicológicos e educativos4 , abordados como traços que o autor considerava como responsáveis pelos “desvios” cometidos pelas mulheres e, mais particularmente, como responsáveis pelo adultério cometido por Luisa. Com isso, analisando a situação social das mulheres-personagem, o intelectual Eça de Queiros irá denunciar, questionar e responsabilizar os princípios da educação vigente em Portugal e, em especial, a leitura de romances românticos, como responsável pelos “desvios” praticados pelas mulheres, ou pela “má educação” a elas destinada. Ou seja, a má formação intelectual da mulher é apreendida como a responsável pela impossibilidade de traçar o seu próprio destino. Se compararmos a conduta de Luisa à de Maria Monforte, do romance Os Maias, verificaremos que a educação e os valores cultivados e cultuados em classes sociais diferentes irão condenar ou absolver, além de diagnosticar como fado ou como escolha a história vivida por essas mulheres. 4 SARAIVA, António José e LOPES, Oscar. Eça de Queirós. História da literatura portuguesa. 12ª. edição. Porto: Porto Editora, 1982. P.563.
  • 6.
    13 O adultério, naobra O primo Basílio, demonstra como os diferentes suportes de informação podem constituir-se em importante fonte de representação da realidade. No decorrer desta dissertação, pretendemos verificar os possíveis significados do adultério para, a partir daí, dar continuidade à linha de raciocínio que pretendemos empreender. Outro ponto importante a ser observado diz respeito aos diferentes olhares sobre o adultério, quando esse é praticado por um homem ou por uma mulher. Finalmente, refletiremos sobre o papel do intelectual Eça de Queirós que, em pleno século XIX, usa seu poder como formador de opinião para trazer à tona um tema polêmico e proibitivo, como o adultério. Na leitura contemporânea, Eric Hobsbawm, no livro A era dos impérios, oferece-nos a seguinte reflexão: O adultério, muito provavelmente a mais difundida forma de sexo extraconjugal para as mulheres da classe média, pode ou não ter aumentado com o aumento da autoconfiança feminina. Existe grande diferença entre o adultério, como uma forma utópica de sonho de libertação de uma vida conjugal restrita, tal como na versão padronizada de Madame Bovary dos romances do século XIX, e a liberdade relativa entre maridos e mulheres, da classe média francesa, de terem amantes desde que mantidas as convenções, conforme apresentam as peças de teatro dos boulevards, no século XIX. Todavia, o adultério do século XIX, bem como a maioria do sexo então praticado, resiste à quantificação. Tudo o que se pode dizer com alguma certeza é que essa forma de comportamento era mais comum em círculos aristocráticos e círculos da moda, sendo que nas grandes cidades as aparências podiam ser mantidas com maior facilidade. 5 2 Portugal no processo de modernização na Europa do século XIX e em Eça de Queirós 5 HOBSBAWM, Eric J. A era dos Impérios. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1998. P.290.
  • 7.
    14 A primeira tentativade caracterização da modernidade no século XIX pode ser descrita como uma mudança de estilo, de costume de vida ou da própria organização social. Essa modernidade surge na Europa, já a partir do século XVII e sua influência veio a se tornar uma espécie de movimento mundial. Circunscrita no tempo, a modernidade pode ser associada a um período histórico e como tal, difícil de ser analisado, por ser ao mesmo tempo, passado e presente (mesmo considerando a dificuldade de se distanciar do que se pretende analisar, reflexivamente, os rumos do hoje e do porvir, esse movimento é extremamente importante para que possamos compreender os fenômenos sociais do nosso tempo). Profundas transformações sociais, econômicas e políticas começam a ocorrer a partir do início do século XIX. Essas mudanças formavam um lado luminoso, principalmente pelos que estavam, de certa forma, excluídos destas novidades. É a esta parcela excluída dos movimentos de mudança que Eça irá dedicar sua produção intelectual, seja através de seus romances, seja através de artigos, em que denunciou uma série de questões à sociedade portuguesa. Assim sendo, a modernidade se apresenta carregada de ambigüidades, pois ao mesmo tempo em que oferece segurança, também oferece perigo; ao mesmo tempo em que oferece confiança, oferece risco. Fomos e somos acometidos por um ritmo vertiginoso de mudanças, em que os avanços da intercomunicação nos puseram e nos põe em conexão com diferentes partes do globo sem que, no entanto, o desenvolvimento das forças de produção tenha trazido uma melhora significativa na qualidade de vida dos homens. Pelo contrário, eles viviam um grande dilema em relação aos contrastes daquela época: seja na produção aflitiva da violência; seja nos surpreendentes avanços tecnológicos, em contraste com a miséria e com o analfabetismo de grande parte da população; seja na crise dos paradigmas que, durante tanto tempo, foram tomados como verdade e que não respondiam satisfatoriamente às indagações do presente; seja no desafio de
  • 8.
    15 conviver com odiferente, com a multiplicidade de versões e na ambigüidade constante entre o que passou a ser considerado velho e ultrapassado e o novo, muitas vezes difícil de ser identificado, ou capaz de trazer dentro dele parte do velho. Se de um lado o século XIX expunha um desenvolvimento tecnológico inglês ou um avanço nos costumes culturais e sociais da sociedade francesa, podemos perceber na obra de Eça de Queirós o relato de uma estagnação nos dois campos, o que distanciava cada vez mais Portugal do restante da Europa. Pode-se dizer que a sociedade portuguesa do século XIX é o verdadeiro objeto da observação eciana, o pretexto para o qual se volta e, a partir do qual, se desenvolve toda a obra do escritor. A minúcia e o rigor, bem como o humor e a paródia são atributos que caracterizam a forma como nos é apresentada a sociedade, retrato de uma época que o autor pretendeu moralizar, através da descrição e da representação próprias do realismo. Assim, Eça afirma sem rodeios que “os costumes estão dissolvidos e os carateres corrompidos”6 . E é essa dissolução que Eça pretende denunciar, utilizando o instrumento que maneja com maior destreza, a sua escrita. O adultério na obra O primo Basílio, foco dessa pesquisa, é qualificado pelo autor como um “ato fatal da moral moderna”7 , decorrente, decerto de uma série de fatores como a educação recebida pelas jovens da baixa burguesia portuguesa. A justificativa apontada é o fato de a mulher ser “educada exclusivamente para o amor”8 e não ser preparada para o mundo real. As descrições das classes que compõem o espectro social oitocentista são tesouros de minúcia, verdadeiros “documentos históricos” que, levam em conta liberdades literárias e pontos de vista pessoais, bem como o toque de humor tão característico do autor. Através de seus escritos, o autor pretender esmiuçar, ironizar, criticar e diagnosticar as causas das mazelas que assolam Portugal, em especial Lisboa e seu corpo social. Seu alvo principal é a burguesia, para a qual sua pena e sua luneta estarão sempre apontadas e focando de modo implacável. No século XIX, a burguesia continua em plena ascensão, afirmando-se como classe dominante no comércio, nas letras e na política. Não é, pois, de 6 As Farpas, 1871. P.178. 7 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d.Volume II, Capítulo XXXIII: O problema do adultério P. 180. 8 Ibidem. P. 196.
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    16 estranhar que esteseja o grupo social mais atingido pela descrição e crítica eciana. Relatam-se também as suas relações com os outros grupos sociais, como se depreende do trecho abaixo: A classe média (…) abate-se na inércia (...) O povo está na miséria (...) A burguesia proprietária de casas explora o aluguel. (...) E é sobre o operário, sobre o trabalhador, sobre o soldado, sobre o pobre que pesa a espoliação! Os srs. capitalistas tiveram o cuidado delicado de não fazer pagar nem mais 5 réis diários a quem ganha ou tem por mês de l00$000 réis para cima: e por isso fazem pagar mais 10 réis diários a quem tem por dia de 240 réis para baixo! Isto alegra-nos profundamente. E tanto que, fundados na nossa argumentação, não deixaremos de pedir que a cidadãos tão prestantes como os ilustres fabricantes, se dê a honra de se lhes oferecer um banco na Boa Hora, com o modo mais risonho! Com o que temos o prazer de desejar as maiores prosperidades a SS. S.as , senhores do nosso respeito e espoliadores do nosso tabaco! 9 . As classes sociais desfilam sob os olhos atentos dos leitores dos romances de Eça de Queirós. Do Conselheiro à empregada, ninguém escapa a esta análise perscrutadora. Mais do que uma simples descrição das classes propriamente ditas, o autor mostra-nos os chamados tipos sociais. A segunda metade do século XIX é atingida por inúmeras transformações em nível social, no que diz respeito à mentalidade da burguesia, classe que tem neste período o seu tempo. Assim, adquirem-se novos hábitos que mostram bem esse desenvolvimento das classes médias, hábitos estes que Eça de Queirós procura ilustrar em sua obra. É o caso das idas à praia, designadas como "idas aos banhos", que começam a ser chiques na época, tendo sido até então menosprezadas e consideradas como próprias das classes mais baixas. Encontramos referência a este fenômeno no romance A capital, onde são mencionadas as idas à Ericeira e também no O crime do Padre Amaro, onde os importantes de Leiria se encontram periodicamente na praia da Vieira para passar a estação. Não é uma novidade introduzida nos hábitos da sociedade na segunda metade do século, mas reveste-se, na época, de uma importância considerável. É quase um rito e, como tal, não foi esquecido pelo romancista, que coloca inúmeras vezes os personagens neste cenário. Em outras palavras, Eça procura localizar personagens e acontecimentos dentro de um espaço geográfico marcado por circunstâncias que não deixam 9 Ibidem. P. 199.
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    17 margem para aobjetividade de seus relatos. Por isso, a alusão aos serões como reuniões periódicas, normalmente semanais, em casa de pessoas ilustres são mencionadas em grande parte de sua obra. São ocasiões para se travar conhecimentos desejados e para se exibir dotes musicais ou literários. Os serões podem, então, passar-se à volta do piano, onde alguém mostra o seu talento, como acontece em Alves & Cª., em A tragédia da Rua das Flores, no O primo Basílio (onde encontramos muitas vezes Luiza a protagonizar estes serões), em O crime do Padre Amaro e também em Os Maias. Além disso, são feitas referências às caminhadas ao Passeio Público, local que atualmente corresponde a uma parte dos Restauradores, o que constitui outra atividade social típica do século XIX. É lá que ocorrem determinados privilégios sociais, sendo local privilegiado de encontro da burguesia. O domingo, no entanto, é o dia em que todos têm acesso ao Passeio, local de ostentação, como comprova a criada Juliana em O primo Basílio: “A sua alegria era ir ao Domingo para o Passeio Público, (…) a mostrar, a expor o pé”10 . E Eça acrescenta, em jeito irônico, numa descrição que pode nos remeter ao que realmente se passava na altura, “toda a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio”11 . Apesar da muita afluência, o escritor nota um clima geral de “abatimento e pasmaceira”12 . O Passeio Público, portanto, parece ser o local aonde se vai, na Lisboa do século XIX, para se ser visto: “(…) para tapar as bocas do mundo, foram os três para o Passeio Público”.13 O final de Os Maias, por exemplo, situa- se, estrategicamente, no que deixou de ser o "Passeio Público" para ser avenida dos Restauradores, com a inauguração do obelisco. Além dos serões e das caminhadas no Passeio Público, outra referência cultural é o teatro. A burguesia liberal atribui grande importância social ao teatro, empreendendo, por isso, esforços no sentido de dotar o país com as infra- estruturas necessárias para seu desenvolvimento e manutenção. O teatro é, então, considerado como um dos “elementos mais poderosos da civilização atual”14 , segundo Eça. O mais importante palco nacional é o Teatro de S. Carlos, bastante mencionado por Eça de Queirós. Os historiadores afirmam, no entanto, que o seu 10 QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 221. 11 Ibidem. P. 226. 12 Ibidem. P. 226. 13 Ibidem. P. 321. 14 Ibidem. P. 328.
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    18 público permanecia maisou menos fixo, constituído pela elite das elites dos titulares, altos funcionários, burgueses, todos os que dispunham de lugar na fidalguia, na política, no dinheiro, nas artes e letras. É esta a realidade que vemos espelhada na obra eciana. Não se vai ao teatro por causa do espetáculo, mas por causa do convívio social, está-se atento a tudo menos ao que se passa no palco. Desta forma, Eça diz que o teatro “perdeu a sua idéia, a sua significação; perdeu até o seu fim. Vai-se ao teatro passar um bocado da noite, ver uma mulher que nos interessa, combinar um juro com o agiota, acompanhar uma senhora (…)”15 . O teatro em Portugal vai acabando e as causas apontadas desta decadência são o fato de a literatura teatral se reduzir ao Frei Luís de Sousa, o próprio público (pelos motivos já referidos) e os atores que “não pertencem a uma arte, pertencem a um ofício” e à pobreza geral gerada pela falta de subsídios. Isso fica muito bem esclarecido quando Ernestinho, o autor da peça Honra e Paixão no romance O primo Basílio, vê-se obrigado a mudar o grand final de sua peça em função das pressões dos seus patrocinadores. Encontramos referências, nos romances, a representações que se realizaram de fato, como O Profeta, O Trapeiro de Paris, no D. Maria, entre outras, descritas no romance Os Maias. Do mesmo modo que o teatro, a música atravessa as obras ecianas, ou melhor, as músicas que recuperam os ecos do gosto popular ou nacional, ou sucessos que passam em Portugal, vindos de França ou de Itália. A música assume-se como uma instituição social, afirmando a sua onipresença no Portugal do século XIX. Este é também um tema realista que não escapa à visão crítica de Eça de Queirós, que utiliza as peças musicas como narrativas paralelas, ilustrando e dando relevo aos fatos representados em seus romances. Em Portugal, cantava- se o fado. As alusões à canção nacional são constantes. Parece poder traçar-se a equação realista, segundo a qual, o fado seria igual à preguiça, à lentidão e ao desmazelo. O fado marca também o tempo da espera amorosa e a alegria, culturalmente identificado com o vulgar, com o banal. Mas também se dança a valsa, onde alguns exemplos concretos são o "Souvenir d'Andalousie”, as obras de Strauss ou a "valsa do beijo”. A música é um código social, uma linguagem, um meio de comunicação. A sociedade burguesa, representada nas obras de Eça, pretende mostrar-se 15 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume I, Cap.I. P.278.
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    19 instruída musicalmente, freqüentaas representações das obras de Meyerbeer, mas revela-se profundamente ignorante, quando, por exemplo, troca o nome da Sonata Patética, interpretada por Cruges no sarau do Trindade, n’Os Maias, por “Sonata Pateta”. O vestuário da época é também evidenciado nas páginas ecianas, sempre investido de um caráter de significado sociológico. Deste modo, os grupos sociais são caracterizados também com base na sua indumentária, o que ajuda à visualização e inserção no contexto oitocentista, bem como espelha um “tom de realidade” para o leitor. Nesse processo Eça utiliza não só a descrição das roupas, incluindo a matéria prima empregada nas peças, mas também toda a gama de acessórios que contribuem para a caracterização social dos personagens. Assim, o chapéu alto, o fraque, as luvas, os leques e o monóculo (imprescindível ao aristocrata, cuja personificação é Gonçalo Mendes Ramires ou Afonso da Maia) são sinônimos de prestígio social, sinais exteriores de riqueza. O modo de vestir da burguesia é o mais ilustrado no romance - as senhoras usam sedas (cujo “ruge-ruge” se ouve ao longo de toda a obra de Eça), veludos, rendas e vidrilhos, enquanto os homens se distinguem pelas sobrecasacas de alpaca e jaquetões. Salienta-se o cuidado na descrição do vestuário de alguns grupos como os arrivistas, que ostentam a sua posição através de jóias, decotes, sombrinhas e folhos, sendo freqüentadores de casa de alta costura, ou modistas em voga, como Laferrière ou Madame Levaillant. Os políticos também se distinguem pelo seu aspecto pomposo, “encerado”, pleno de coquetterie (exemplificado no Conselheiro Acácio e nos Gouvarinhos). Embora, suas principais preocupações estejam relacionadas ao estado da instrução em Portugal, em nível institucional, e ao tipo de formação individual ministrada em casa, desde o berço: “A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães”16 , para Eça de Queirós, que se assume como um pedagogo genuíno, conhecer os costumes da sociedade de seu tempo é uma questão que merece destaque. A preocupação com o insuficiente número de escolas é exprimida através de personagens como Sebastião, de O primo Basílio. A criação do Ministério da Instrução Pública, em 1870, suscita alguns comentários pouco abonatórios por 16 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II, Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P. 848.
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    20 parte de Eçade Queirós. Naquele século existiam somente 2300 escolas em Portugal, o que significava que quase metade das crianças estava fora da escola. Além disso, nas escolas que existiam, as condições de ensino não eram as melhores. O escritor define o estado da instrução pública em Portugal de forma taxativa: “A instrução em Portugal é uma canalhice pública”17 . Um símbolo desta degradação na instrução pública que começa nos altos dignitários é Sousa Neto, um oficial superior em Os Maias, que quis saber se em Inglaterra havia literatura. Um dos pontos que pode ser destacado diz respeito aos valores que norteiam a sociedade. Eça não pretendia uma modernização no projeto urbanístico de Lisboa a exemplo do que ocorreu em Paris. O cerne que pretendia atingir dizia respeito aos frágeis valores que conduziam a sociedade portuguesa da época, principalmente aqueles relativos à educação A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães. O homem é "profundamente filho da mulher", disse Michelet. Sobretudo pela educação. Na criança, como num mármore branco, a mãe grava; - mais tarde os livros, os costumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podem apagar-se, não se alteram as palavras gravadas. A educação dos primeiros anos, a mais dominante e a que mais penetra, é feita pela mãe: os grandes princípios, religião, amor do trabalho, amor do dever, obediência, honestidade, bondade, é ela que lhos deposita na alma. [...]A criança está assim entre as mãos da mãe como uma matéria transformável de que se pode fazer - um herói ou um pulha. sentir puro.18 A educação é tema recorrente na obra literária de Eça de Queirós, o que demonstra a sua preocupação com este eixo da formação da sociedade moderna. É notória a forma como os personagens dos seus romances são marcadas pela educação que recebem na infância. Normalmente, a uma educação mal orientada, 17 Ibidem. P. 848 18 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II, Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea P. 232. Uma Campanha Alegre é um conjunto de crônicas mensais de autoria de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, publicadas mensalmente na revista As Farpas. As Farpas são, assim, uma admirável caricatura da sociedade da época, que foi compilada por Eça numa coletânia que intitulou de Uma campanha alegre. Contudo, a opinião de Eça acerca deste seu trabalho não é muito positiva: "São uma colecção de pilhérias envelhecidas que não valem o papel em que estão impressas" e descreve-as como "unicamente um riso imenso, trotando, como as tubas de Josué, em torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, por que as vejo ainda, direitas, mais altas, da dor torpedo lodo, estirando por cima de nós a sua sombra mimosa". E escreverá ainda "todo este livro é um riso que peleja". *In carta a Ramalho Ortigão de 24 Outubro de 1890.
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    21 corresponde uma personagemcom uma personalidade débil, como é o caso de Eusebiozinho, em Os Maias, e, sobretudo Pedro, cuja fraqueza de espírito parece justificada pela educação que recebeu quando criança, marcada “pelos braços da mãe que o amoleciam, aquela cartilha mortal do padre Vasques”19 – crítica ao romantismo e à educação a cargo dos representantes da Igreja. Em suma, a educação, conjuntamente com a influência do meio social, marcam decisivamente as características individuais dos personagens que representam os diferentes segmentos da sociedade Lisboeta da época. A crítica mais ácida de Eça, no que se refere à educação, diz respeito à importância excessiva que é dada a fatores como a moda ou a religião: as pessoas são “educadas no receio do Céu e nas preocupações da Moda”20 . Com efeito, várias são as personagens cuja educação vaga em torno da religiosidade ou do supérfluo. Outro aspecto importante no que toca à educação é a oposição que Eça enfatiza entre aqueles que são educados na cidade e os que são educados no campo. Esta questão é abordada em Uma Campanha Alegre, nas cartas de Eça de Queirós a seus filhos e também nos romances do Autor. (basta lembrar a preparação de Carlos da Maia em contraposição com a de Eusebiozinho). Não só no século XIX, mas desde a época das navegações que a emigração é uma constante na história de Portugal. O escritor não se furta a essa realidade, afirmando que “a emigração, entre nós, é decerto um mal.”, provocada pela “miséria, que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa.”21 . A partir de 1855 verifica-se um aumento do fluxo emigratório, nomeadamente para o Brasil. O escritor não é alheio a este fato e caracteriza finamente aquele que vai a busca de fortuna e volta efetivamente rico, mas que é mal recebido em Portugal, transformando-se no “grande fornecedor do nosso riso”22 . Basílio é um dos que, vendo-se falido em Portugal, partiu para o Brasil, de onde volta um autêntico janota. Outros personagens emigram nos romances ecianos - Gonçalo Mendes Ramires, que parte no início da ação de A Capital para Macheque, na Zambézia, e um emigrante desconhecido. 19 QUEIRÓS, Eça. Os Maias. Editora Nova Alexandria. São Paulo, 2000. P. 218 20 QUEIRÓS, Eça. O crime do padre Amaro. Neolivros. Lisboa, 2006. P.98. 21 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Vol. I , Cap. LI: O governo e a emigração. Lisboa, 1890. P. 154. 22 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Vol. II, Cap. XXI: O brasileiro. Lisboa, 1872. P. 274.
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    22 Outro tipo deviagem muito comum no século XIX são as viagens de exploração, numa época em que o exotismo representava um valor fundamental devido ao mal du siècle, o spleen, o tédio. Encontramos várias personagens (além do próprio Eça, que relata a sua jornada ao Oriente em O Egito e em muitas notas soltas), nessa situação: Teodorico, em A Relíquia, que empreende uma viagem pela Terra Santa, Basílio, de O primo Basílio, que conta à sua prima como esteve em Constantinopla, na Terra Santa, e em Roma, e também André Cavaleiro, o cacique em A Ilustre Casa de Ramires, que parte para “Constantinopla, à Ásia Menor”. Encontramos também muitas referências acerca de viagens a Paris, o que faz supor um desenvolvimento considerável nos transportes e certo bem-estar social de algumas camadas da população. “Vai-se a Paris, beber do fausto, do luxo”, destino privilegiado de viagens lúdicas de muitas personagens ecianas. A literatura é um tema presente em grande parte dos romances de Eça de Queirós. Por um lado, o autor nos oferece uma imagem, muito matizada pela sua ideologia, daquilo que se vai escrevendo em Portugal, e acaba por revelar um debate aceso na sociedade portuguesa do seu tempo acerca da oposição entre romantismo e realismo. Por outro lado, inserindo as suas personagens no seu ambiente sócio-cultural, dá-nos conta do que se lê no Portugal oitocentista e das relações das leituras com as mentalidades das classes sociais. Eça de Queirós afirma peremptoriamente que “a literatura em Portugal está a agonizar: morre burguesmente e insipidamente(…)”23 . Desde logo se nota uma crítica cáustica a um certo gênero literário, mais conotado com uma sub-literatura. A sua descrição do tipo de escritor responsável por este gênero literário é bastante explícita: “poeta delambido, acordas as musas e adormeces a humanidade com rimas chochas e idéias estafadas, e moral do baixo império”24 . Além disso, não poupa sua crítica à literatura que era feita em Portugal: “a literatura - poesia e romance - sem idéia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsa, não exprime nada. (…) nenhum movimento real se reflete, nenhuma ação original se espelha”25 . 23 QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Globo Editora, Rio de Janeiro, 2006. P. 78. O personagem Artur Corvelo, no romance A Capital, representa o poeta, classificado como portador de uma “anemia intelectual” e de um “lirismo galopante” 24 Ibidem. P. 84. 25 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. In: Volume I, Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871. P. 306.
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    23 A propósito doromance romântico escrito no país, Eça diz que se trata da “apoteose do adultério”26 , um autêntico “drama de lupanar”, sobre o qual “as mulheres estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade”27 . O leitor do romance O primo Basílio pode deliciar-se com uma paródia do que se escreve em Portugal, com a obra de autoria de Ernestinho Ledesma, que se ocupa de uma peça em cinco atos intitulada Honra e Paixão. O referido debate entre romantismo e realismo está presente na própria obra de Eça de Queirós. Sendo um autor que denuncia o romantismo decadente, sobretudo com o debate provocado pela Geração de 70, ele sente-se, entretanto, seduzido pelo romantismo humanitário de Antero de Quental. Este debate está inteiramente anotado no célebre episódio do jantar no Hotel Central (em Os Maias) em que se confrontam o personagem Ega, partidário intransigente do realismo naturalista, e Tomás de Alencar, personificação do romantismo sentimentalista (que acaba por ser o que mais dura, o mais coerente, fiel a si próprio e aos seus princípios). Nesse debate intervêm também Carlos da Maia e Craft, defensores do idealismo, da "arte pela arte", como manifestação artística suprema. O registro das obras lidas em Portugal na época é bastante elucidativo. Nos círculos considerados intelectuais de vanguarda, como é o caso do Clube Republicano, lê-se Proudhon, Juvenal, Comte, Byron, Vigny, Darwin, e considera-se Feliciano de Castilho como um autor menor por ter se destacado no estilo romântico. Contra ele se rebelou Antero de Quental (entre outros jovens estudantes coimbrões) na célebre polêmica do Bom-Senso e Bom-Gosto, vulgarmente chamada de Questão Coimbrã, que opôs os jovens representantes do realismo e do naturalismo aos vetustos defensores do ultra-romantismo. Este registro denota uma mentalidade que faz apologia a idéias como o positivismo, evolucionismo, ideais laicos e republicanos, com tendências socializantes. Castilho, juntamente com Figuier e Bastiat, são, no entanto, autores lidos por uma classe média instalada, representada por personagens como Jorge em O primo Basílio. A mulher burguesa também tem um tipo de leitura típica, e que por vezes conduz a comportamentos tidos como “ilícitos”. Luísa, personagem de O primo 26 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume I, Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871. P. 234. 27 Ibidem. P. 243.
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    24 Basílio, suspirou najuventude com as aventuras escocesas de Walter Scott e vibra, como mulher adulta, com as venturas e desventuras de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, autor muitas vezes atacado por Eça em seus artigos publicados n’As Farpas. 2.1 A representação da mulher portuguesa na obra de Eça Acerca da condição da mulher, o autor português, Lopes Praça escreveu uma obra que percorre os diversos domínios da condição da mulher em Portugal - "A Mulher e a Vida ou A Mulher considerada debaixo dos seus principaes aspétos".28 Em função disto, buscaremos apoiar nossas observações acerca da mulher portuguesa na sociedade oitocentista na análise minuciosa efetuada pelo autor, sem deixar de apoiar nossas considerações nos apontamentos de Eça de Queirós, uma vez que, será a partir da visão desse autor que a figura feminina irá “ganhar vida” nos romances que magistralmente escreveu. Autores como Alexandre Herculano ou Oliveira Marreca29 deram-nos da mulher uma visão muito parcial e carregada de preconceitos, sem grande inovação no seu discurso, tendo em conta a sociedade que visavam criticar. Eça, porém, deu-nos a oportunidade de ver a mulher de uma forma diversa, muito mais próxima da realidade em que vivia – um ser de terceira classe, cujos direitos não eram respeitados. No decorrer da história, a figura feminina cultivou o silêncio e a submissão ao sistema tradicional vigente, sob o comando masculino. As justificativas para tal comportamento são variadas, e as análises partem das diversas influências presentes nessa relação tão complexa entre homem e mulher, construída com base em aspectos culturais, comportamentais, econômicos ou, 28 PRAÇA, José Joaquim Lopes. A mulher e a vida ou a mulher considerada debaixo dos seus principaes aspetos. Livraria Portugueza e Estrangeira do Editor Manuel de Almeida Cabral, Coimbra, 1872. 29 António de Oliveira Marreca foi emigrado liberal, economista de renome, escritor, professor e político português. Fez parte do primeiro diretório republicano português.
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    25 ainda ideológicos. Em Portugal,durante o século XIX, a mulher ainda se mantinha subordinada à tutela de um sistema patriarcal dominante, situação dominante no país ao longo de todo o século. Segundo a socióloga Suzana Stein, a família, formada por um núcleo central (patriarca, mulher e filhos) e outro periférico (composto por agregados e empregados), tinha como autoridade maior o homem, que dirigia não só os familiares, mas também as pessoas que exerciam atividades produtivas subordinadas a ele. Este dado é apontado no romance O primo Basílio inúmeras vezes, principalmente quando Luisa se queixa dos maus serviços prestados por Juliana e de seu desejo de dispensar os seus serviços. Jorge, desmerecendo a opinião da esposa, dá a última palavra e mantém a serviçal em função dos “bons serviços” que prestara a sua tia. A organização familiar vigente nessa época contribuiu muito para a formação social do país, pois “desempenhou valioso papel regularizador e disciplinador”30 . No entanto, esse modo de viver influenciou fortemente o desempenho dos papéis sociais dos agentes masculino e feminino, marcando a posição da mulher como ser inferior ao homem. Nesse ínterim, alguns fatores foram decisivos para que a mulher ocupasse, ao longo dos tempos, uma posição social subalterna, entre eles destacam-se o contexto educacional, as leis vigentes, as regras religiosas, a moral sexual e a própria necessidade de auto-afirmação. Além disso, aliado à influência do catolicismo, um fator primordial permeava as ações de um modo geral, determinando esta visão sobre a mulher e contribuindo para a manutenção do patriarcalismo: a influência de pensadores cujas obras alcançaram notoriedade no decorrer do século XIX, como Auguste Comte e Jules Michelet. De acordo com Maria Lucia Rocha-Coutinho, os comportamentos de subordinação femininos ficam, então, emaranhados no cotidiano destas mulheres como forma 'natural' de organização de suas vidas diárias, sem que muitas delas tomem consciência deste fato31 . Nesse contexto, uma forte corrente ideológica foi defendida pelo 30 STEIN, Suzana Albornoz. Por uma Educação Libertadora. Editora Vozes, Petrópolis. 1985. P.22. 31 ROCHA COUTINHO, Maria Lucia. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira Nas relações familiares. Editora Rocco, Rio de Janeiro. 1994. P.94
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    26 Positivismo, no séculoXIX, na figura de Auguste Comte que, sintonizado com o pensamento da época, enfatiza normas de comportamento para a mulher oitocentista, preceitos que logo se difundem em vários países. Originalmente, “enquanto doutrina sobre o conhecimento (...), o Positivismo incorporou-se a outras correntes análogas, que procuraram valorizar as ciências naturais e suas aplicações práticas”.32 Desse modo, partindo do princípio de que seu destino consistia em disciplinar as forças humanas, baseado na relação contínua entre o sentimento e a razão como reguladora das atividades, a situação da mulher também foi abordada pela teoria positivista. Comte, mesmo valorizando o papel desempenhado pela “digna” mulher na sociedade e ressaltando o seu valor, não deixou de definir qual seria o comportamento ideal para essa mulher, assinalando alguns aspectos primordiais para sua conduta: [...] o culto positivo erige o sexo afetivo como providência moral de nossa espécie. Cada digna mulher ministra habitualmente a esse culto a melhor representação do verdadeiro Grande Ser. Sistematizando a família, como base normal da sociedade, o regime correspondente faz dignamente prevalecer naquela a influência feminina, transformada, enfim, em supremo árbitro privado da educação universal. Por todos estes títulos, a verdadeira religião será plenamente apreciada pelas mulheres, logo que elas reconhecerem suficientemente os principais caracteres que a distinguem. Aquelas mesmo que a princípio deplorarem a perda de esperanças quiméricas não tardarão em sentir a superioridade moral de nossa imortalidade subjetiva, cuja natureza é profundamente altruísta, sobre a antiga imortalidade objetiva, que não podia deixar de ser radicalmente egoísta.33 Dessa maneira, Comte foi enfático ao tratar de algumas questões relevantes sobre o comportamento feminino frente à sociedade da época. De acordo com os preceitos positivistas, é fundamental preservar-se e manter-se a mulher submissa ao homem, subordinando os instintos pessoais ao seu destino social, dedicando-se integralmente à família. Por fim, a pouca instrução, a função restrita ao ambiente doméstico- familiar e a constante dedicação ao marido e aos filhos, ditada pela Teoria Positivista, mantêm a mulher excluída da sociedade, levando-a a pensar que toda a base comportamental indicada por Comte se constituiria “em motivos honrosos 32 COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva (trad. de José Arthur Giannotti e Miguel Lemos). São Paulo, Editora Nova Cultural. 1993. P. 184. 33 Ibidem. P.130.
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    27 para as mulheres”34 ,como forma de adaptação “ao serviço real da Humanidade, à qual pertencemos inteiramente”35 . Nessa direção, o romance O primo Basílio retoma parte dessa teoria da posição subalterna feminina, com enfoque na sociedade lisboeta do século XIX. Às mulheres era reservado o espaço doméstico fechado e a administração do lar, o que, segundo Eça, as dotava de um ar doentio, [...] as raparigas não têm saúde. Magrinhas, enfezadas, sem sangue, sem carne, sem força vital - umas padecem de nervos, outras de estômago, outras do peito, e todas da clorose que ataca os seres privados do sol. Em primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de um sofá, com as janelas fechadas; - ou percorrendo num passinho derreado a Baixa e a sua poeira. Portanto, falta de ar puro, são, restaurador. O ar da Baixa corrompe o sangue; e o ar das salas, resguardadas por cortinas ou alumiadas a gás, não tem oxigénio e portanto não alimenta. Depois, não fazem exercício. Uma inglesa tem por dever moral, como a oração, o passeio - o largo passeio, bem marchado durante duas horas.36 Essa “fragilidade doentia” também é evidenciada em O primo Basílio, na fala de Jorge ao se referir à Luisa: “Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona. É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: - Alto lá, isso não pode ser!”.37 Portanto, a função social da mulher restringia-se à família e à casa, a fim de que o poder representado pela figura masculina permanecesse em sua hegemonia histórica, embora, esse posicionamento não encontrasse correspondência nos estudos realizados, no século XIX, por filósofos de renome, como Marx e Engels. Estes pensadores foram os que mais contribuíram para o desvendamento das verdadeiras origens da opressão da mulher e, com isso, criaram as condições para que fossem construídos os caminhos que conduziriam à sua libertação. Um dos marcos deste processo foi a publicação, em 1884, do livro A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels. Em meados do século XIX a “ciência da família” estava dando os seus primeiros passos quando os dois pensadores socialistas alemães se interessaram 34 Ibidem. P. 184. 35 Ibidem, P.269. 36 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II, Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. . Lisboa, 1890. P. 257. 37 QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo. Rio de Janeiro, 1997. P. 50.
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    28 por ela. Aobra pioneira neste campo havia sido O direito Materno de Bachofen, publicada em 1861. Nela o autor expõe, pela primeira vez e para escândalo geral, a tese de que nas sociedades primitivas, em certo período, teria predominado o matriarcado – ou seja, havia predominado a ascendência social e política das mulheres sobre os homens. O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foi a constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinha conhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas. Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, como diziam as religiões e os movimentos racistas e sexistas da época. A monogamia teria sido “fundada sob a dominação do homem com o fim expresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, e essa paternidade é exigida porque essas crianças devem, na qualidade de herdeiros diretos, entrar um dia na posse da fortuna paterna”38 . Nesse contexto, segundo Engels, “somente o homem pode romper esse laço (matrimonial)”, “o direito da infidelidade conjugal fica-lhe (...) garantido pelo menos pelos costumes”. Ainda segundo esse mesmo autor, a mulher que, no século XIX conquistar sua liberdade sexual será “punida mais severamente do que em qualquer outra época precedente”39 . Nesta forma de casamento e de família, “aquilo que para a mulher é um crime de graves conseqüências legais e sociais, para o homem é algo considerado honroso, ou, quando muito, uma leve mancha moral que se carrega com satisfação”40 . Desnecessário seria apresentar qualquer coisa que se assemelhe a um resumo da obra de Engels aqui tomada como pré-texto, esclarecendo que tomamos “pré-texto” no sentido do texto que precede, aquilo que vem antes e serve de “mote”, de “deixa” para que uma outra narrativa possa tomar corpo e ganhar vida. O cerne da questão focalizada por Eça está na educação das jovens portuguesas da baixa burguesia, no que diz respeito, principalmente, à escolha dos livros românticos para a leitura. Além deste tópicos, o autor recupera outras questões culturais da sociedade da época como determinantes da educação feminina. Servindo-se desse pré-texto, Eça de Queirós constrói a sua leitura sobre 38 ENGELS, Friedrich. A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, Editorial Presença, Lisboa, 1974. P. 81. 39 Ibidem. P. 81 40 Ibidem. P. 81
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    29 um dos principaisfatores do atraso da sociedade portuguesa. Ao analisar O Primo Basílio, que por sua vez serve-nos de pré-texto para a elaboração desta dissertação, tentamos ler a questão do adultério evidenciando as suas ligações com texto eciano na defesa de sua tese. Na segunda metade do século XIX, temos oportunidade de assistir a um dos mais interessantes fenômenos literários, com o desenvolvimento, por toda Europa, de um surto de romances sobre o adultério, tornado-se alguns deles verdadeiras obras-primas da literatura mundial, o que se explica, pelo fato de o romance de adultério no século XIX se tornar um tipo privilegiado de romance de época e de crítica social. Madame Bovary e O primo Basílio são apenas alguns exemplos do êxito que este tipo de romance obteve junto ao público leitor na segunda metade de oitocentos. Com efeito, no século XIX e especialmente na segunda metade, a temática do adultério feminino é uma obsessão na literatura européia. Tony Tanner explica esta ocorrência pelo fato de que nessa época se desestruturam os sistemas políticos tradicionais, desacreditam-se os valores burgueses e levantam-se dúvidas sobre a santidade do matrimônio e sobre a impermeabilidade das classes sociais. Diferentemente do enfoque predominantemente psicanalista, de acordo com as teorias de Freud, Lacan e Derrida, que Tony Tanner dá à sua análise do adultério, Biruté Ciplijauskaité utiliza uma abordagem sociológica no seu estudo sobre o adultério, seguindo o princípio de Lucien Goldmann e de Lukács do tempo da escrita. Assim, a autora aponta, na segunda metade do século XIX, a coincidência da narrativa de adultério com os movimentos feministas que então se desenvolviam na Europa e na América, assinalando algumas influências que estes tiveram na situação legal das mulheres, na sua educação, nas idéias filosóficas e na prática literária.41 No entanto, este enfoque do adultério feminino pelo romance naturalista- realista pode ser compreendido se integrado numa problematização mais vasta: a da situação da mulher numa época de profundas transformações sociais, nos níveis político, econômico, e cultural, onde a imagem da mulher se altera, e começa a assumir novos papéis que vão pôr em causa as normas que definiam e regulamentavam a sua função apenas como esposa e como mãe. Com efeito, a inserção social da mulher foi um importante ponto de interesse do Realismo e do Naturalismo. Opondo-se à idealização romântica e a narrativa realista-naturalista veio revelar aspectos da intimidade da mulher que até então não tinham lugar na 41 JESUS, Maria Saraiva de. A representação da mulher na narrativa realista-naturalista, Editora da Fundação João Jacinto de Magalhães. Aveiro, 1997. P.p.141-142.
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    30 literatura. Os temasque despertaram o interesse dos autores realistas-naturalistas mantêm estreita relação com a mulher: o amor, o casamento, o adultério, a maternidade, a educação, a vida familiar e a vida sexual. Estes temas, contudo, não interessam apenas aos escritores, eles são motivo de reflexão de outros intelectuais e são debatidos nos diversos círculos: médico, jurídico, eclesiástico e político, para mencionar apenas alguns, resultando em longos tratados sobre a fisiologia da mulher, a contracepção, a gravidez, a psicologia e o caráter femininos, os direitos da mulher; tratados esses que hoje nos fariam rir se não fossem, na sua maior parte, tão chocantes. A questão feminina será um motivo central na obra de Eça de Queirós, não só na sua obra romanesca, como nos seus textos de caráter não ficcional, seja nos folhetins da Gazeta de Portugal ou nas crônicas do Distrito de Évora, seja em As Farpas, onde teoriza sobre a educação da mulher, debruçando-se sobre temas como a educação das raparigas, a sua preparação para o casamento e para a vida, ou mesmo sobre o adultério42 . Entretanto, o próprio autor, reconhece não ser muito benévolo: “Que elas nos perdoem, essas gentis meninas, se a nossa pena nem sempre for glorificadora como soneto de Petrarca: mas a tinta moderna sai do poço da Verdade”.43 É precisamente em As Farpas que Eça elabora a descrição típica da mulher de 1872, como “um ser magrito, pálido, metido dentro de um vestido de grande puff, com um penteado laborioso e espesso e movendo os passos numa tal fadiga que mal se compreende como poderá jamais chegar ao alto do Chiado e da vida”.44 E continua: 42 MACEDO, Jorge Borges. “As mulheres em Eça de Queirós”. In: Dicionário de Eça de Queirós, A. Campos Matos (org), 2ª ed, Lisboa, Caminho, 1988. p. 626: “[...] como se entende este debate acerca da mulher, ao longo de toda a obra queirosiana? Em primeiro lugar, à consciência da importância do desenvolvimento do papel da mulher na civilização moderna que, melhor do que ninguém, no seu tempo, em Portugal, E. Q. conheceu. A crescente responsabilidade da mulher na sociedade sua contemporânea e da necessidade de lhe encontrar um termo de equilíbrio surge claramente nos seus textos não literários, nos seus comentários ensaísticos. [...] A sua ficção reflecte, de algum modo, a insuficiência das soluções propostas pela sociedade em si mesma. Em segundo lugar, podemos ver aí, também, a influência do seu nascimento e da sua infância sobre a pessoa e sensibilidade de E. Q., de algum modo, soturna e muito mal conhecida. O reconhecimento ou legitimação da sua filiação maternal só foi levado a efeito em 1885, quando tinha quarenta anos, a três meses do seu próprio casamento e ao cabo de muitas tensões e turbulências: durante muitos anos conheceu sua mãe sem ser legitimado.” 43 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II, Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P. 323. 44 Ibdem, p. 323.
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    31 “a palidez, asolheiras, o peito deprimido, o ar murcho – revelam um ser devastado por apetites e sensibilidades mórbidas. Ora entre nós as raparigas não têm saúde. Magrinhas, enfezadas, sem sangue, sem carne, sem força vital – umas padecem de nervos, outras do peito, e todas da clorose que ataca os seres privados do sol”45 . Para Eça, portanto, as raparigas não cumprem o dever, para ele fundamental, parafraseando Taine, que é o de ter saúde, já que [...] em primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de um sofá, com as janelas fechadas – ou percorrendo num passinho derreado a Baixa e a sua poeira. Portanto, falta de ar puro, são restaurador [...]. Depois, não fazem exercícios [...]. Aqui as que andam a pé, depois de ir a uma loja na Rua do Ouro a uma igreja no Loreto, arquejam e recolhem à pressa no ônibus. Algumas mesmo não sabem andar: escorregam, saltitam, oscilam. Depois não comem: é raro ver uma menina alimentar-se racionalmente de peixe, carne e vinho. Comem doce e alface. Jantam as sobremesas. A gulodice do açúcar, dos bolos, das natas, é uma perpétua desnutrição.46 Há ainda um agravante, que é a moda que, segundo Eça de Queirós, “destrói a beleza e destrói o espírito”47 , uma vez que [...] não é ela que é feita para o corpo – mas o corpo que tem de ser modificado para se ajeitar nela. [...]. De modo que para sustentar o chapéu deforma-se a cabeça; para obedecer ao puff torce-se a espinha; para satisfazer às botinas Luiz XV desconjunta-se o pé: para seguir o chique das cintas baixas destrói-se o busto.48 Eça encontra ainda nas meninas de Lisboa oitocentista outros males para além da fraqueza do corpo: “ Depois da anemia do corpo, o que nas nossas raparigas mais impressiona – é a fraqueza moral que revelam os modos e os hábitos”49 , o que se verifica no “andar de uma menina portuguesa, arrastado, incerto, hesitante, mórbido: sente-se aí logo a indecisão, a timidez, a incoerência.”50 . Em suma são preguiçosas, medrosas, sem decisão, sem iniciativa, sem nenhuma ação, o que faz delas péssimas companheiras para o homem moderno que, não sendo “um trovador ou um contemplativo, nem um sultão para 45 Ibdem. P. 324. 46 Ibdem. p. 324-325. 47 Ibdem. P.327. 48 Ibdem. P. 326. 49 Ibdem. P.326. 50 Ibdem. P.328.
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    32 ter aninhadas, emfofas almofadas, huris51 perfumadas; mas um trabalhador que precisa ganhar o pão, arcar com todas as durezas da vida”52 , necessita de uma mulher forte, ativa e decidida. Mas Eça não atribui a culpa às pobres raparigas, antes à educação, aos hábitos e costumes, à forma como se lhes dão a conhecer a religião e os deveres morais e humanos, o que o leva a condenar, a família, a sociedade e até a vida nos meios urbanos, defendendo a educação no mundo rural, onde, desde a mais tenra idade, a criança, em contato com a natureza e com os fatos da vida “habitua-se a estar sobre si, perder o medo, sabe defender-se, tem acção, decide-se”.53 Esta “farpa” sobre a educação feminina, datada de Março de 1872, vem na seqüência de uma outra datada de Junho de 1871 sobre o poder político, na qual Eça havia já inserido algumas considerações muito contundentes sobre as mulheres. Criticando a decadência do Estado e das instituições, dos costumes e a corrupção dos princípios, atribui a falta de caráter feminino a essa decadência em que se encontra a nação portuguesa em todas as suas vertentes: “As mulheres vivem nas conseqüências desta decadência”.54 . No entanto, o autor português reconhece que [...] no fim de tudo, as mulheres virtuosas, as mulheres dignas formam ainda na sociedade portuguesa, uma maioria inviolável! Se alguma coisa podemos dizer profundamente verdadeira é – que elas valem muito mais do que nós.55 . Esse airoso remate não lhe impede, cerca de, um ano mais tarde, tecer ferozes críticas à condição feminina dessa geração, nem de nos apresentar na sua obra ficcional uma galeria de personagens femininas tão pouco dignificante para a imagem da mulher contemporânea, pois, exceto Joaninha, de A cidade e as serras, todas elas manifestam uma grande inclinação para infringir as normas sociais, diluindo a solidez do lar e da família e a conseqüente estabilidade social. Apesar de ser nossa convicção de que a mulher e o seu papel na família e na sociedade constituem uma temática cara a Eça de Queirós, na opinião de Beatriz Berrini, 51 “Cada uma das virgens extremamente belas que, segundo o Alcorão, hão de desposar, no Paraíso, os fiéis mulçumanos”. In: Dicionário Eletrônico Aurélio Século XXI. 52 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa. Livros do Brasil, s/d. Volume II, Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea. P.329. 53 Ibdem. P. 336. 54 Ibidem. Volume I, Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871. P.28. 55 Ibidem. P.28.
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    33 [...] salvo n’OPrimo Basílio, não tem as mulheres a mesma importância que os homens na ficção de E.Q. Eça pôs em cena poucas personagens femininas, quase sempre as apresentou a partir de uma visão negativa exterior, e delas fez, acima de tudo, índices ilustrativos de aspectos da sociedade da sua época56 . Desejávamos poder contestar com firmeza esta posição da estudiosa eciana, contudo, verificamos na obra de Eça não só uma predominância minuciosa representação de personagens masculinas, o que pode ser explicado pela própria estrutura social da época. Porém, não há como negar a existência de um trabalho mais cuidado no que diz respeito à sua caracterização física e psicológica, o que não significa, para nós, que não sejam estas personagens masculinas também índices ilustrativos da sociedade da sua época ou que Eça não os apresente também negativamente. Todavia, sendo geralmente aceite que Eça de Queirós, sarcástico com todos os tipos sociais que representam na sua visão crítica sobre a sociedade portuguesa da época, é inegável que foi especialmente crítico quando fez a representação das mulheres, a avaliar pelo universo feminino de sua obra. A produção literária e ensaística de Eça constituem, essencialmente, a exemplificação das doutrinas dominantes no século XIX. Aquilo que a muitos se afigura uma imoralidade – aceitando mesmo que a arte pura pode, algumas vezes, ser imoral – pode não ser mais do que uma surpreendente lição em prol dos “bons costumes”. O crime do padre Amaro, interpretado como um ataque à Igreja é, no fundo, a exaltação do sacerdócio puro. O primo Basílio, tema de nosso estudo, considerado por muitos como um ataque à família é, em boa verdade, a condenação do adultério ou, melhor dizendo, a condenação da influência dos ideais românticos no alicerce da família portuguesa. O romance Os Maias, reputado como a representação de um caso patológico pode ser, em última análise, uma sátira profunda contra certos meios postiçamente aristocráticos. O que em primeiro momento pode afigurar-se uma deprimente exibição de situações culposas, destinadas a excitar a doentia curiosidade dos seus leitores, pode constituir, por antítese, a apologia do Amor ou da Paixão no seu caráter mais puro e verdadeiro. Eça converte suas “heroínas” em inquietantes símbolos amorosos, não lhes dando justamente, um destino venturoso. Todas elas sofrem, com maior ou menor violência, as penas do seu amor fatal. Amélia e Luísa morrem. Maria 56 BERRINI, Beatriz. “Personagens Femininas”. In: Dicionário de Eça de Queiroz, op. cit., p. 704- 708.
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    34 Eduarda parte triste,coberta de negro, para uma vida longínqua e desconhecida. Outras envelhecem de desilusão, em pleno outono sentimental. Nenhuma delas conhece a suprema ventura do verdadeiro amor. Talvez Joaninha, de As cidade e as serras – se esse laço cor de rosa que a uniu a Jacinto foi alguma coisa mais do que uma longa estima delicada e respeitosa. “L’estime, la bonté, lês sentiments de theatre qui s’eclipsent d´s que lê desir, heros superbe e meprisant, fai son entrée” – escreveu Etienne Rey57 . Eça de Queirós pode ter se aproximado desse pensamento ao representar suas personagens. 2.2 Educação e literatura O século do romance, como ficou conhecido o século XIX, não foi muito benevolente com as mulheres, pelo menos entre alguns dos seus principais representantes. Seja Honoré de Balzac (1779-1850), Gustave Flaubert (1821- 1880), Émile Zola (1840-1902), Leon Tolstoi (1828-1910), Machado de Assis (1839-1908) ou Eça de Queirós (1845-1900), todas as mulheres foram penalizadas por tentar romper com uma concepção ideologicamente marcada do seu lugar na sociedade, em contradição com a ascensão dos valores do mundo masculino e burguês. Quando se conquistava um aspecto da vida social, outro se impunha como uma emergência sufocante. Cada grande autor tratou de fazer a representação daquilo que lhe interessava, dentro dos seus planos estéticos ou ideológicos, mas nas obras dos autores citados, fica patente certa dose de um realismo sombrio ao focalizar o universo feminino. Nesse universo de valores conservadores, a morte se torna a solução para os crimes contra a honra. A mulher, neste sentido, carrega o peso de ser um dos tesouros mais facilmente representável ao olhar analítico de um criador de ficção que, avidamente, quer debruçar-se sobre o único objeto que ele acredita conhecer ou que julga ser o centro da atenção feminina – a paixão. Não é 57 Dramaturgo e crítico literário francês, nasceu em 1879. Trecho do texto escrito por Etienne no prefácio do livro de Stendhal, publicado em 1853, intitulado De l’amour, no qual relata sua decepção amorosa.
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    35 obra do acasoo grande número de romances românticos produzidos naquele período e o número cada vez mais crescente de leitoras ávidas por esse gênero literário. Roger Chartier58 lembra que a representação da mulher leitora, na pintura antiga, estava ligada à força da mensagem sagrada. Diversas são as imagens de Santa Ana ensinando a Virgem a ler. Assim, outro tipo de leitura, que não fosse a religiosa era mal vista. Apesar disso, as mulheres encontraram formas de burlar a vigilância a que eram submetidas e desobedeciam aos preceitos doutrinários a elas direcionados, lendo o que não lhes era permitido, de forma clandestina59 . Em O primo Basílio, Eça de Queirós introduz também a questão da mulher no labiríntico mundo da sexualidade. Nesse universo, ela deixa de ser uma peça decorativa para adquirir sua forma mais humana e, por isso mesmo, muito mais próxima dos erros decorrentes de suas decisões e em contraste com a inércia social sugerida pelos romances românticos publicados até então. Assim, com a chegada do realismo a mulher sai da redoma em que a mantiveram os autores românticos e vive a paixão, no sentido de via sacra, cheia de dor. Em Os usos sociais da leitura, Mauger faz uma análise sobre as práticas de leitura na França apoiando-se numa enquete feita com 24 entrevistados, entre eles 12 mulheres. Apesar da pesquisa se situar no século XX, ela ratifica que ainda existe uma pedagogia do romanesco ligada à descoberta do corpo pela leitura, “mais precisamente, a enquete mostra também que a sexualidade foi, seguidamente, descoberta pela leitura de textos (explicitamente, ou não, erótica)”.·60 A representação da leitora no século XIX se baseia numa pedagogia de leitura para o público feminino que submete a leitora ao crivo da moral religiosa. Não é concedida à leitora, na maioria das vezes, uma autonomia, uma liberdade de escolha das suas leituras. A mulher-leitora era constantemente tutelada pelo elemento masculino, voz autorizada, único capaz de discernir entre a boa e a má leitura. Quando isso não acontecia, e a mulher conseguia burlar o código do veto, ou quando era educada de forma “inadequada” pelos pais, inevitavelmente 58 CHQARTIER, Roger. A Aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora da UNESP, 1999, p. 85-86. 59 LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitora no banco dos réus. São Paulo: Ática, 2003. P. 123. 60 MAUGER POLIAK, Claude. Os usos sociais da leitura. Editora Nathan, Paris, 1999. P.67.
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    36 sofreria conseqüências maléficasà sua saúde, provocaria desajustes sociais e, finalmente, seria punida. Dentro de um ponto de vista de que seria preciso limitar o universo de leitura da mulher para que ela pudesse corresponder às expectativas exigidas pelo projeto nacional, as possibilidades de leituras apresentadas para as personagens eram aquelas que estavam inscritas na ordem moral e social estabelecidas. Esses escritores-pedagogo sustentam seus argumentos na fragilidade das personagens e na preservação de sua inocência. Na verdade, temiam o crescimento intelectual feminino, pois, a leitura poderia conduzi-las à tão desejada libertação intelectual, cultural e política. A leitura nunca foi uma prática encorajada, pelo menos de forma generalizada, entre as classes e, muito menos, entre os gêneros. Os efeitos considerados “perniciosos” provocados pela leitura foram, durante o século XIX, os grandes responsáveis pela falta de popularização dessa prática e em grande parte, objeto de crítica, por parte dos autores, como indutores de conceitos fantasiosos e, ao mesmo tempo, responsáveis por ações reprováveis no âmbito social e moral por serem fragmentadores do núcleo familiar. Contudo, não há como negar que os romances femininos eram um sucesso de vendas no século XIX. Os folhetins publicados nos jornais da época eram consumidos como poucos “produtos”. Isto se devia, em parte, à identificação das leitoras com o conteúdo desses romances. No que se refere à leitura feminina, de acordo com Marisa Lajolo e Regina Zilberman, no livro A leitora no banco dos réus, a ordem do dia era desconfiança, proibição e controles de pais e maridos que tentavam separar o joio do trigo, liberando as leituras boas, úteis, saudáveis e proibindo as más, frívolas e suscetíveis de desviar a leitora do bom caminho e da salvação espiritual. Ainda segundo as autoras, será nesse mesmo século, entretanto, que as mulheres começam a representar na Europa uma parcela substancial e crescente do público leitor de romances. No livro A leitora no banco dos réus, a prevalência da imaginação sobre a razão era o problema e o grande perigo para a família burguesa. Pais e maridos se apavoravam com a possibilidade latente de verem suas filhas e mulheres excitadas por conta de leitura de livros que provocavam paixões romanescas. Pensamentos eróticos ameaçavam a castidade e a ordem burguesa. O tema do adultério feminino torna-se, nessa época, o arquétipo da transgressão social na literatura. Emma Bovary e Luisa, personagens de Flaubert e Eça, respectivamente, são os principais estereótipos dessa temática.
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    37 Se palidez, olheiras,insônia e palpitações são suspeitíssimos efeitos de leitura para a castidade de uma donzela, leituras e sintomas se multiplicam e se agravam em O primo Basílio, que já se inicia em meio a uma cena de leitura: Jorge lê Luís Figuier e Luísa passa os olhos pelo Diário de Notícias. O narrador cuidadoso informa, logo depois, que Jorge preferia Luís Figuier61 , Bastiat62 a Musset63 e Dumas Filho64 , definindo-se, assim, o marido de Luísa, pela adesão a um cânone não romântico e bastante verossímil na estante de um engenheiro. Na ausência de Jorge, Luísa, pauta suas leituras pelo acervo rejeitado pelo marido: lê A dama das camélias, descrito como livro um pouco enxovalhado, que ela apanha por detrás de uma compoteira. À medida que o romance se desenrola, o enxovalho do volume respinga em sua leitora, não obstante as mãos de Luísa também empunhassem a impoluta Ilustração Francesa e a elegante Revista dos Dois Mundos. Esta apresentação bastante detalhada dos livros, por entre os quais se movem as personagens ecianas, faz com que a leitura desempenhe papel importante na organização do romance, além de ser peça fundamental na caracterização das personagens. A força da leitura na composição da personagem é tal que somos informados, logo no começo da história, que Luisa lia muitos romances e mantinha uma assinatura mensal na Baixa. E mais: o narrador indicia, através de mudança nas preferências literárias de Luisa, as alterações em seus valores e comportamentos. Confirmando o papel central que a leitura desempenha na caracterização de Luísa, é ainda a ela que o narrador recorre, em discurso indireto livre, para caracterizar diferentes estados de espírito da protagonista: numa Luisa casada, adúltera e já nas malhas da chantagem de Juliana, sobrevive a antiga leitora de W. Scott, que tem saudades da leitora romântica já que: [...] diferente sua vida teria sido - desta agora tão alvoroçada de cólera e tão carregada de pecado! (...) Onde estaria? Longe, nalgum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, num vale solitário e contemplativo; na Escócia, talvez, país 61 Luís Figuier ( 1819-1894) foi cientista e escritor francês. 62 Frédéric Bastiat (1801-1850) foi economista e jornalista francês. 63 Alfred de Musset (1810-1857) foi poeta, novelista e dramaturgo francês. 64 Alexandre Dumas Filho (1824-1895) poeta e escritor francês tornou-se célebre com o romance A Dama das Camélias (1848).
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    38 que ela sempreamara desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verdes terras de Lamermoor ou de Glencoe65 . 2.3 A questão da sexualidade e a função do intelectual no século XIX A função do intelectual na segunda metade do século XIX é, entre outras, a de intervenção crítica, analisando os conceitos e preconceitos da sociedade. A partir dessa concepção, procuraremos investigar o papel de Eça de Queirós, escritor português que integrou a Geração de 70, no projeto de modernização de Portugal e identificar os procedimentos de escrita que caracterizam sua proposta de transformação da situação de atraso social, cultural e pedagógico apontados por ele em diversos escritos. Juntamente com a análise da crítica de Eça à sociedade portuguesa, apresentaremos um breve panorama do cenário social e cultural europeu oitocentista, com o objetivo de discutir a “defasagem” de Portugal frente às grandes capitais da Europa. O ponto de partida desta investigação continua tendo como base o romance, O primo Basílio, publicado em 1878. Na obra, a crítica irônica de Eça de Queirós se destina à pequena burguesia lisboeta que era definida primordialmente pela hipocrisia e pelo desejo de ascensão social. O presente estudo parte de um recorte da sociedade representada no romance, associado a outras obras de Eça, especialmente seus artigos e cartas, e também os textos e relatos de alguns escritores, que fornecerão suporte histórico, teórico e crítico à confecção desta dissertação. Ao falarmos da atuação intelectual de Eça de Queirós não podemos esquecer sua identificação com a proposta conceitual do Realismo, definido por ele da tribuna na Conferência do Casino da seguinte forma: 65 QUEIRÓS. Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 237
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    39 uma base filosóficapara todas as concepções de espírito - uma lei, uma carta de guia, um roteiro do pensamento humano, na eterna região do belo, do bom e do justo, (...) é a crítica do Homem, (...) para condenar o que houver de mau na nossa sociedade. (...) É não simplesmente o expor (o real) minudente, trivial, fotográfico, (...), mas sim partir dele para a análise do Homem e sociedade.66 Inscrever o tema da sexualidade em Portugal na esfera da vida privada afigura-se uma empreitada sobremodo difícil se nos ativermos ao prefácio de Georges Duby67 ao primeiro volume da História da Vida Privada. Diz-se ali que o território específico da vida privada é o da familiaridade, doméstica, íntima, e que no privado encontra-se o que possuímos de mais precioso, que pertence somente a nós mesmos, que não diz respeito a mais ninguém, que não deve ser divulgado, exposto.68 Impossível aplicar ao pé da letra semelhante definição de vida privada ao universo social do século XIX. Construída a partir do modelo burguês de família, a noção de vida privada veiculada por Duby guarda estreitas relações com a modernidade do século XIX, com o aflorar do individualismo, da urbanização, da casa enquanto refúgio do indivíduo em contraposição ao mundo público. Diversos pesquisadores, que participam desta obra organizada por Duby, entre os quais destacamos Paul Veyne, responsável pela elaboração do volume I; Philippe Contamine, elaborador do volume III e Danielle Régnier-Bohler, que elaborou o volume II, demonstraram, com efeito, que não foi desprezível a importância quantitativa de domicílios conjugais e até de domicílios chefiados por mulheres, quer em áreas periféricas, quer em regiões diretamente vinculadas à economia exportadora. Demonstrou-se, também, que no seio da população o poder exercido pelo clero tornou viável a constituição de famílias à moda cristã. Faz-se necessário, portanto, divorciar a noção de privacidade da noção de domesticidade. As casas, fossem grandes ou pequenas, estavam abertas aos olhares e ouvidos alheios, e os assuntos particulares eram ou podiam ser, com frequência, assuntos de conhecimento geral. Não resta dúvida de que o território da sexualidade era bem menos privado do que se poderia supor, distanciando-se largamente dos padrões supostamente vigentes nos dias de hoje. 66 SALGADO JUNIOR, António, História das Conferências do Casino. Lisboa: Tipografia da Cooperativa Militar, 1930, p. 76. 67 Georges Duby é historiador francês que tem dedicado seu trabalho a pesquisa da condição da mulher na história da humanidade. Organiza a obra História da vida privada em 5 volumes. 68 DUBY, Georges. História da vida privada Vol. 2. Companhia das Letras, 10ª edição, 1990.
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    40 Não por acaso,vale frisar, as principais fontes que permitem conhecer, com alguma sistemática, o universo das intimidades sexuais naquele período da história de um Portugal ainda rural são as fontes produzidas pelo poder, especialmente pela justiça eclesiástica ou inquisitorial, sem falar na correspondência jesuítica, tratados de religiosos e sermões. Refiro-me, aqui, às visitas diocesanas e aos processos do Santo Ofício, tribunal que além de cuidar dos “erros de fé” propriamente ditos, imiscuiu-se também no campo sexual, assimilando o que considerava “fora da norma” às heresias. As fontes da Igreja e da Inquisição mostram-se riquíssimas para aproximar o historiador das intimidades vividas no passado. Possuem, é certo, algumas fortes limitações, a exemplo da linguagem escolástica que lhes dá forma, dos filtros e cifras antepostos pelos juízes inquiridores, e da própria situação constrangedora que envolvia os depoimentos, seja os dos que delatavam por exigência das autoridades, seja os dos que confessavam seus desvios por temerem os castigos do Céu e da Terra. Se já não é fácil dimensionar a vida privada numa remota fase rural portuguesa, mais difícil é decifrar os aspectos específicos da sexualidade na esfera estrita da privacidade, da intimidade dos casais e amantes. A contrariar ou mesmo distorcer essa atitude quase voyeurista do pesquisador, se assim podemos chamá- la, coloca-se a distância temporal e, consequentemente, as enormes diferenças existentes entre a cultura material e os estilos sexuais vigentes nos séculos XVI, XVII ou XIX e aqueles dos tempos atuais. Pois se é certo que o encontro sexual de corpos pode guardar algumas constantes que chegam a ser a-históricas, muitas atitudes do passado, atualmente consideradas extravagantes ou mesmo aberrantes, podiam ser corriqueiras naquele tempo, ao passo que outras, pueris ou simplórias aos olhos de hoje, podiam conter boa dose de erotismo e de erro fatal, como no caso do adultério de Luisa, ou no embate entre Honra e Paixão. Dir-se-ia hoje que o sexo é algo que diz respeito ao indivíduo, a seus sentimentos e inclinações, assunto de foro íntimo e absolutamente privado. É quase pueril dizer que, neste sentido - e exceto pelas posições das Igrejas e seitas religiosas -, a vida sexual não depende de Deus, símbolo da honra, ou do Diabo, símbolo da paixão, nem precisam os amantes comunicar-se com o Além a propósito de suas relações sexuais. Nos séculos que vão até o XIX, o assunto era vivenciado de forma muito distinta. A Igreja considerava a sexualidade matéria de
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    41 sua alçada, elevandoà categoria do sagrado o sexo conjugal voltado para procriação e lançando tudo o mais ligado ao desejo e à paixão no domínio diabólico ou mesmo herético. Usemos como exemplo o caso de um homem italiano, que matara sua mulher por adultério. Fora denunciado não pelo assassinato da esposa, coisa que os Tribunais autorizavam (aos maridos traídos), e disso não cuidava o Santo Ofício, apesar de dar seu “santo aval” à punição imposta à esposa infiel, indiferente aos Mandamentos da Igreja Católica – Não matarás69 . A esse propósito, o intelectual Eça de Queirós escreve um artigo, em 1872, publicado em Uma campanha alegre, no qual comenta a condenação de um homem acusado de ter assassinado a mulher em função do adultério. De acordo com o artigo, um jornalista francês, chamado Mr. d'Ideville, pede a opinião de Alexandre Dumas Filho a respeito do texto que escreveu para publicação. Sobre este episódio, Eça escreve: Provocar a pena indiscreta e aparada em bisturi do Sr. Dumas, é acordar o escândalo que dorme. Sobretudo em questões femininas: porque aí o Sr. Dumas supõe-se uma espécie de Santo Padre do amor, julga possuir a plena compreensão da mulher, saber desde as leis até às pantoufles toda a fisiologia do casamento, e ser no tempo presente um S. Tomás de alcova. De sorte que sempre que se trata de um caso sentimental, o Sr. Dumas filho entorna sobre o boulevard, como um barril de lixo, o seu depósito de observações: porque o Sr. Dumas é observador como outros são trapeiros. E de noite, com uma lanterna e um gancho, cosido com os muros conjugais, apanhando e fisgando em segredo tudo o que cai da alcova, cravos, panos revolvidos, cuias velhas, farrapos reveladores - que ele vai coligindo a sua ciência. Sabe pelo que esgaravata no lixo. E doutor - em roupa suja. (...)E o amor, o casamento, a virgindade, a maternidade, o pudor, o adultério, a mulher, saias e consciências, tudo foi sacudido, revolvido, remexido, voltado ao sol, e exposto à vil publicidade como um guarda-roupa na tristeza de um leilão. Ora a conclusão da questão era estranha: tratava-se de decidir, a sangue-frio, com argumentos e boa gramática - se os maridos deviam matar suas mulheres. O Sr. Dumas tinha dito com o charuto na boca, folheando a Bíblia - mata-a! Outros, fechando a navalha no bolso, diziam generosamente: não a mates. Alguns vaudevillistas ensinavam entre um bock e uma pilhéria -vai-a matando sempre! E outros acrescentavam, expondo que era necessário estudar mais a questão e consultar dicionários: por ora não a mates! E no entanto, de faca na mão, os maridos esperam. 70 . 69 Os Dez Mandamentos ou o Decálogo é o nome dado ao conjunto de leis que segundo a Bíblia, teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. A sexta lei dita: Não matarás. 70 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II, Cap.XXXIII: O problema do adultério, Outubro de 1872. P.361.
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    42 Em 1878, nãopor acaso, Eça publica O primo Basílio, que traz à discussão justamente a questão de o marido traído ter o direito de lavar a própria honra com o sangue da esposa adúltera. Para tanto, cria um intertexto com a peça teatral Honra e Paixão, que logo no início do romance levanta a questão do direito do marido traído matar a esposa. Em princípio, um leitor desavisado pode ser levado a acreditar que Eça defendia a idéia de que a honra devesse ser lavada com sangue. Mas, ao observarmos o recorte do artigo publicado seis anos antes, veremos que a real intenção de Eça era outra. Ou seja, a de discutir principalmente o que levava uma mulher a cometer o adultério e, com isso, implementar mudanças para que casos como o ocorrido em Paris, que gerou a morte brutal de uma mulher, fossem tratados mais seriamente, com punições à altura do crime cometido e não com uma pena de apenas cinco anos de prisão, como foi o caso. Paralelamente, empolgados pela experiência da Comuna de Paris, os membros do Cenáculo português concebem as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com o intuito de despertar a elite portuguesa do que entendiam ser a sua total letargia em relação ao que se passava no restante da Europa. As conferências só duraram os meses de maio e junho de 1871, proibidas, então, pelos órgãos oficiais. Nelas, Eça apresenta “A nova literatura: o realismo como nova expressão da arte”, cujo texto original desapareceu, tendo sido posteriormente reconstituído a partir dos comentários saídos na imprensa. É a primeira vez que Eça pronuncia-se de forma explícita em favor do que ficou conhecido como estética realista, ou naturalista, oriunda do meio literário francês. Após a publicação da primeira versão em livro de O crime do padre Amaro (1876), Eça, inspirado em empreitadas de grande envergadura, como a “Comédia Humana”, de Honoré de Balzac, ou “Rougon-Macquart”, de Émile Zola, concebeu suas “Cenas da vida portuguesa”, que visavam retratar a sociedade portuguesa proveniente da Monarquia Constitucional, estabelecida após 1834, quando toma o poder D. Pedro IV de Portugal, ou D. Pedro I do Brasil. Para tanto, concebeu o plano de realização das seguintes obras: A Capital, O milagre do vale de Reriz, A linda Augusta, O rabecaz, O bom Salomão, A casa n.16, O gorjão, Primeira dama, A ilustre família Estarreja, A assembléia da Foz, O conspirador Matias, A história de um grande homem, Os Maias. Uma passagem de olhos por sua obra, no entanto, é suficiente para constatar que os textos que Eça escreveu não correspondem, em sua maioria, àqueles inicialmente programados. O primeiro romance que publicou, como já observado, foi O crime
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    43 do padre Amaro,publicado em 1875, na Revista Ocidental, depois em forma de livro em 1876 e finalmente em 1880, com a revisão definitiva. Em meio à complicada gênese desse texto, escreveu e publicou O primo Basílio (1878). A este se seguiram O mandarim (1880), A relíquia (1887), Os Maias (1888), A correspondência de Fradique Mendes (1890), A ilustre casa de Ramires (1901) e A cidade e as serras (1901), sendo que estes dois últimos não chegaram a ser publicados integralmente em vida. Como se constata, as “Cenas da vida portuguesa” não saíram como tinham sido planejadas. Importa, entretanto, que o essencial do projeto de fato se concretizou. Se tomarmos apenas os romances publicados por Eça, veremos ali um retrato do liberalismo político e econômico que caracterizou a monarquia constitucional estabelecida em Portugal. A versão definitiva do romance O crime do padre Amaro, de 1880, traz como subtítulo “Cenas da vida devota” e faz o retrato crítico do forte poder que a Igreja ainda tinha em Portugal, demonstrando a distância que existia entre o discurso liberal e anticlerical, propalado pela imprensa de Leiria, e o efetivo apoio que esta, no decorrer da trama, acaba dando à corrupta dominação do clero. Em O primo Basílio, que tem por subtítulo “Episódio doméstico”, vemos retratada a pequena burguesia lisboeta, com todas as suas veleidades, ora deslumbrada pelo glamour das grandes metrópoles européias, como Paris ou Londres, ao modo de Luíza, ora embebida de um nacionalismo estreito e tacanho, ao modo do Conselheiro Acácio. É uma classe que não tem valores bem definidos, sendo a condição feminina um lugar privilegiado para se constatar sua falta de referências. Daí o fim a um só tempo trágico e melancólico da protagonista Luísa, pois o discurso liberal em torno da condição feminina não tem nem entendimento claro, nem lastro na realidade. Já Os Maias, subtitulado “Episódios da vida romântica”, retrata a vida de uma família aristocrática de Portugal que, apesar da mais velha e da mais nova gerações serem bem formadas nos valores liberais, não chegam a concretizar os seus projetos, gerando um descompasso entre o que se pensa e o que se faz. A fatalidade presente no incesto entre os irmãos Carlos e Maria Eduarda transforma o que era tragédia, no mundo clássico, em acaso e comportamento cultural, no tempo histórico do romance, demonstrando que o liberalismo serviu, junto às elites portuguesas, para derrubar tabus sem colocar nada no lugar. Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelo realismo foi a de resolver a relação conflituosa e ao mesmo tempo ambígua entre a verossimilhança dos fatos e a verdade dos personagens que os vivenciam. O romance O primo Basílio é exemplo do realismo de escola em língua portuguesa. Um realismo programático (fechado em moldes rígidos), no qual o drama do adultério cometido por Luisa e sofrido por Jorge é encenado como centro da estrutura narrativa. Nesse romance, a crítica de Eça é de cunho social e moral, e até certo ponto do modelo educacional sofrido pelas jovens da pequena burguesia, como já
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    44 havia feito nosartigos publicados nas Farpas e compilados mais tarde em Uma Campanha Alegre. Como podemos observar, a tarefa dos intelectuais portugueses e, em particular, a de Eça de Queirós, foi a de transformar um país, sob os mais diversos pontos, atrasado, tendo como base o modelo francês de modernidade. Foi nesse sentido que Eça empunhou sua pena, ora como um intelectual militante e liberal, ora como um autor que usava a arte para defender suas teses. Mas, sua produção irá sofrer influências conservadoras Proudhon, que de forma radical aborda a temática de gênero. Em 1858, ao falar sobre o "sexo macho", o autor francês afirma solenemente que "o sexo masculino é o produto final da elaboração embrionária para uma destinação superior"71 , restando à mulher uma posição secundária e opaca. No desenho de sociedade libertária proposta pelo autor francês, que ficou famoso ao escrever um ensaio intitulado O que é a propriedade, em 1840, no qual afirma de forma categórica que “a propriedade é um roubo”, não se pode ofuscar em nome do citado "contexto da época" – figuras como Michelet e Zola, cujo desprezo pelas mulheres ocupava um espaço privilegiado em suas produções, minando muitas vezes a criação genial ou a vontade de generosidade de autores seus contemporâneos – a posição reacionária de Proudhon no que se refere a uma posição inferior das mulheres, comparando-a a uma propriedade do homem. Uma grande contradição existe entre a sociedade libertária proposta pelo autor e o discurso apologético da organização hierarquizada da família. No sistema associativo proudhoniano, o indivíduo encontra a mestria do processo de trabalho, renunciando ao projeto culpabilizador de dominar seu próximo. Mas o reconhecimento da ilegitimidade encontra seus limites logo que se trata de organizar a família. A família proudhoniana é monogâmica e o marido, como um pai, tem o mesmo poder do "pater familias", à maneira antiga. Assim, explicando os casos nos quais o marido poderá matar sua esposa, segundo o rigor da lei paternal. O autor aponta seis situações justificáveis: " o adultério; a impudicícia; a traição; a bebedeira e leviandade; a dilapidação e roubo, e a insubmissão obstinada, imperiosa, com desprezo"72 . 71 PROUDHON, Joseph. La pornocratie ou les femmes dans les temps modernes. Paris, Lacroix. 1976. P. 163. 72 MAUGUE, Annelise. L’identité masculine en crise. Paris, Rivages/Histoire. 1987. P. 131.
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    45 3 O adultério emO primo Basílio e em Honra e Paixão Apesar da polêmica à ortodoxia naturalista de O primo Basílio, o romance, publicado em Fevereiro de 1878, entre a segunda e a terceira versões de O crime do padre Amaro, apresenta algumas características da narrativa de tese naturalista, sobretudo no que foi considerado a sua primeira intriga73 . Machado de Assis, criticando a inanidade do caráter de Luisa e o aspecto fortuito da descoberta e da chantagem feita por Juliana, observou: Se o autor, visto que o Realismo também inculca vocação ou demonstra com ele alguma tese, força é confessar que não conseguiu, a menos de supor que a tese ou ensinamento seja isto: - a boa escolha dos fâmulos (serviçais) é uma condição de paz no adultério74 . 73 Carlos Reis divide a ação em duas intrigas: a do adultério (até à partida de Basílio) e a da chantagem que Juliana exerce sobre Luísa, analisando, na primeira, os fatores causalidade que nascem de uma visão naturalista-determinista e explicando que a segunda intriga já não depende desse ponto de vista pela “necessidade de morigeração pela morte de uma personagem (Luísa) que o adultério só por si não destruíra” (A temática do adultério n’O primo Basílio, Coimbra, INIC, Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, 1982, pp. 125-126). Nestas duas intrigas temos, no adultério e nos sonhos românticos de Luísa, a representação da paixão, e, no calvário a que foi submetida e que culminou com sua morte, temos a representação da honra, lavada não propriamente com o sangue da adúltera, mas com o seu brutal arrependimento, com a vitimização de seu corpo doente que acaba por não resistir aos ataques a que foi submetido. Além disso a honra também foi lavada, nesse romance ,com a tortura de Juliana e a queima das cartas. 74 MACHADO DE ASSIS, José Maria, “Eça de Queirós: O primo Basílio”. In: Construção da Leitura, apud Alberto Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado?: Um estudo sobre Eça de Queirós, 2ª. Edição revista, Lisboa, Editora Presença Martins Fontes, 1979, p 160-161.
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    46 No entanto, RamalhoOrtigão tinha razão quando mostrou que a moral do livro não estava no que hoje se considera a sua segunda intriga, mas na primeira: O ser Luísa [...] castigada por meio de uma morte aflitiva é um fato acessório, que não conteria senão esta moral negativa, se dele quisesse extrair uma moral: que para evitar a morte por desgosto se deve atender no adultério a que se queimem as cartas. A moral deste livro não está em que a prima de Basílio morre depois da queda: está em que ela – não podia deixar de cair75 . Para Ramalho, o romance é “um fenômeno artístico revestindo um caso patológico” que documenta a “dissolução dos costumes burgueses”, de que o mais característico sintoma é a “falsa educação”. Uma educação, segundo Ramalho, voltada para o culto das aparências, orientada com a leitura de jornais noticiosos, revistas de modas e romances românticos, sem noções úteis à vida doméstica, sem verdadeiros fundamentos religiosos ou morais que, segundo o autor, fazem com que a mulher casada, sem conseguir “realizar os seus sonhos de leitora de romances e de freqüentadora dos dramas do Teatro D. Maria, seja uma vítima fatal do dandy moderno”. Em grande parte das obras naturalistas, a educação deficiente é apontada como a principal causa de uma “fraca formação moral” e pela criação de expectativas romanescas, provocadas por leituras ultra-românticas que, segundo Eça de Queirós, levam as heroínas a tentar representar na vida as situações de amores ilegítimos e exacerbadamente idealistas que vêem romanticamente descritas nos romances lidos. Nos artigos: “As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea” e “O problema do adultério”, publicados em As Farpas, que apresentam estreitas semelhanças com a educação recebida por Luisa, Eça enfatiza : Educa-se-lhe primeiro o corpo para a sedução. Não pela ginástica - isso agora apenas começa vagamente, como uma imitação inglesa -mas pela toilette: ensina- se-lhe a vestir, estar, andar, sentar-se, encostar-se com todas as graças para sensibilizar, dominar as atenções, ser espectáculo, vencer o noivo. Ensina-se-lhe a arte sentimental e inútil de bordar flores e pássaros; o bordado é a mais perniciosa excitação da fantasia: sentada, imóvel, curvada, picando delicadamente a talagarça, o voo inquieto das imaginações e dos desejos palpita- lhe em roda, como um enxame de abelhas: e é isto o que perde as rosas, como diz 75 ORTIGÃO, Ramalho e Queirós, Eça, As Farpas, ed. Cit., 3 série, tomo II. Fevereiro a Maio de 1878. P.63.
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    47 um velho poetaascético: é porque a rosa não pode fugir, andar, sacudir o enxame, que é ela sempre ferida no cálice.76 No tocante ao romance O primo Basílio, Eça deixa claro, na resposta à crítica de Teófilo Braga, que não pretendera atacar a instituição da família lisboeta tal como ela se organizava e vivia: [...] eu não ataco a família – ataco a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmo que se contradizem, e, mais tarde ou mais cedo, centro de bambochata. O primo Basílio apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa: a senhora sentimental, mal-educada, nem espiritual (porque, Cristianismo, já o não tem; sanção moral da justiça, não sabe o que isso é) arrasada de romance, lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular, que é ordinariamente a luxuria nervosa pela falta de exercício e disciplina moral, etc. – enfim, a burguesinha da Baixa77 . Estes vetores são veiculados logo no primeiro capítulo da obra, que faz a apresentação do quadro doméstico que se vai desestabilizar por efeito do adultério, juntamente com as principais causas da queda de Luisa. Na estruturação da ação, a analepse sobre o passado da protagonista é um importante veículo para identificar as causas que determinarão o adultério, sobretudo com referência às leituras românticas e às expectativas por elas criadas. Era “A Dama das Camélias”. Lia muitos romances [...]. Em solteira, aos dezoito anos, entusiasmara-se por Walter Scott e pela Escócia; desejara então viver num daqueles castelos escoceses [...] ; e amara Ervandalo, Morton e Ivanhoé [...]. Mas agora era o moderno que a cativava: Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltara-se por Mr. De Camors e os homens ideais apareciam-lhe de gravata branca, nas umbreiras das salas de baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier; o seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia enevoada: via-a alta e magra, [...] os olhos negros cheios da avidez da paixão e dos ardores da tísica; nos nomes mesmo do livro [...] achava o sabor poético de uma vida intensamente amorosa e todo aquele destino se agitava, como numa música triste, com ceias, noites delirantes, aflições de dinheiro, e dias de melancolia no fundo de um coupé [p.18].78 Esta citação representa bem a imaginação sentimental de Luísa. O fato de se apaixonar pelas personagens dos romances que lê e de transpor para a realidade as figuras e situações romanescas é uma das marcas desse tipo de imaginação. 76 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. P. 377. 77 Carta a Teófilo Braga datada de 12 de março de 1878, in Eça de Queirós, Correspondência, ed. Cit., vol.I. P. 134. 78 QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P.18.
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    48 Retirada dos romances,a sua imagem do homem ideal encontrará correspondência no magnético olhar de Basílio e nas palavras sublimes com que também ele se confessará “devorado de paixão”. Nos seus braços procurará “uma vida intensamente amorosa” e com amores ilegítimos, como aqueles vividos por Margarida Gautier. A precariedade da vida79 , com a desestabilização da sua própria existência, parecer-lhe-á poética, tal como “as noites delirantes, aflições de dinheiro, e dias de melancolia” da Dama das Camélias. A sua própria vida também será determinada Mais tarde, quando Basílio arranja o “ninho”, “aquele ‘Paraíso’ secreto, como num romance, lhe dava a esperança de felicidade excepcionais”80 . Deslocando-se para o primeiro encontro no local secreto, a imaginação romanesca de Luísa fará com que ela imagine um espaço de luxo e bom gosto que contrasta com o “Paraíso” que de fato é oferecido a ela: Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, múltipla, impelia-a, com uma estremecimentozinho de prazer, lá, enfim, ter ela própria aquela aventura que lera tantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que ia experimentar sensações excepcionais! Havia tudo – a casinha misteriosa, o segredo ilegítimo, todas as palpitações do perigo! Porque o aparato impressionava-a mais que o sentimento e a casa em si interessava-a, atraia-a mais que Basílio! Como seria? (...) lembrava-lhe um romance de Paulo Féval em que o herói, poeta e duque, forra de cetins e tapeçaria o interior de uma choça (...) ! Conhecia o gosto de Basílio – e o “paraíso” decerto era como no romance de Paul Féval.81 Desde os tempos medievais, casos de adultério podiam assumir proporções perturbadoras, particularmente nas camadas menos privilegiadas. Se, por um lado, esses casos eram marcados pela ética cavalheiresca, por outro, eram determinados pela mão de ferro da religião, em cujo sistema de alianças matrimoniais a mulher e sua fidelidade possuíam um valor de primeira ordem. E em alguns momentos, a 79 No artigo “As meninas da geração nova de Lisboa e a educação contemporânea”, Eça diz: “Há muita gente ingênua que supõe que uma grande consideração para a mulher” – é o terror da catástrofe. Pueril ingenuidade. Nada tem um encanto tão profundamente atraente como a catástrofe. Ela satisfaz o desejo mais violento da alma – palpitar fortemente” – Uma Campanha Alegre, ed. Cit., p.341. 80 QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 190. 81 Ibidem. P. 195. OBS.: No artigo “O problema do adultério”, Eça enumera os elementos do “aparato” que, para a generalidade das mulheres, significa “ter um amante”, em que se inclui um pormenor que agrada a Luísa em A Dama das Camélias: “a felicidade de andar melancólica no fundo de um cupê”. Em conclusão, afirma Eça: “O homem, amam-no pela quantidade de mistério, de interesse, de ocupação romanesca que ele dá à sua existência. De resto, amam o amor. (Uma Campanha Alegre, ed. Cit, pp 393-394).
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    49 literatura cortês ea poesia trovadoresca chegaram a estetizar uma determinada forma de amor que, por vezes, combinava a paixão abstrata ao amor adúltero de um trovador por sua Dama, que era casada e inatingível. Essa situação misturava tanto a honra da família, quanto a paixão-amor de uma mulher versus paixão- moral do homem traído. Colocar em cheque a honra de uma mulher casada e, sobretudo, do seu marido, era perturbar gravemente a ordem cavalheiresca, seja no seu aspecto moral, seja no seu aspecto prático. O cavalheiro medieval vivia em um mundo onde a sua imagem deveria ser cultivada zelosamente, particularmente nos aspectos que envolviam questões de honra, e deste zelo pela imagem cavalheiresca dependia não apenas o equilíbrio das relações horizontais do cavalheiro com outros nobres e cavalheiros, mas também as relações verticais relativas aos seus subordinados e dependentes. Em vista disto, a literatura medieval também está repleta de exemplos que impõem aos seus leitores a valorização da fidelidade e a brutal depreciação das práticas adulterinas. Dos romances de cavalaria às crônicas e às fontes literárias a partir de então, é farto o material narrativo que tematiza o adultério como um fator perturbador da ordem social. É sabido que a temática de uma obra só pode ser compreendida plenamente quando tomada em seu contexto. Ao se proceder a uma análise temática, é preciso, antes de tudo, perceber a forma de abordagem e o que pode ser observado nos subtemas, isto é, nos detalhes que compõem a visão geral do tema sobre o qual a obra se baseia. São, pois, essas minúcias que, aos poucos, vão justificando a idéia e o argumento principal do texto de Eça de Queirós em O primo Basílio. Assim, nesse romance, o tema do adultério feminino é explorado: Luisa, mulher jovem e bela, na ausência do marido que viaja para o interior de Portugal a trabalho, envolve-se com Basílio, seu primo e ex-noivo que partira para o Brasil logo após a falência de sua família, rompendo seu compromisso por carta. De fato, a obra estampa uma realidade em que a independência feminina não é reconhecida; basta observar como a personagem Leopoldina era vista, ou como as saídas de Luisa recebiam comentários maldosos dos vizinhos. A mulher, nesse contexto, devia ser um exemplo de virtude, verificável em sua fidelidade e submissão ao homem, dedicação à família, cuidados com a casa e recato, como se observa na seguinte passagem:
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    50 Mas Luisa, aLuisinha, saiu muito boa dona da casa: tinha cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como um passarinho amigo do ninho e das carícias do macho; e aquele serzinho louro e meigo veio dar a sua casa um encanto sério. - É um anjinho cheio de dignidade! – dizia então Sebastião, o bom Sebastião, com a sua voz profunda de basso.82 Este retrato da mulher de família, em oposição às atitudes tomadas por Luisa a partir de seu reencontro com Basílio, é qualificado pelo autor como um “acto fatal da moral moderna”83 decorrente de uma série de fatores entre os quais se destaca a educação recebida, como podemos ver no capítulo dedicado a educação da mulher no século XIX. A justificativa apontada, pelo intelectual e autor, é o fato de a mulher ser “educada exclusivamente para o amor”84 . Para mostrar o papel da mulher nas relações familiares no contexto da obra, Eça lança mão do adultério como tema, para mostrar o ponto de vista (frustração e insatisfação) de uma criatura que não precisa ser real, mas está ambientada num contexto verdadeiro e tendo reações verossímeis e coerentes com o contexto. Os motivos se engendram compondo não apenas um tema, mas o tema que irá gerenciar uma determinada linha de pensamento, já desenvolvida pelo intelectual Eça de Queirós em artigos publicados anteriormente em As Farpas. O mundo de O primo Basílio corresponde às idéias acima elencadas. Há uma convergência de situações que se articulam até o momento do adultério feminino. A casa e o mundo de Luisa em Lisboa ficam isolados do mundo, mantendo, literalmente, um microcosmo onde tudo começa a girar a partir de regras próprias e rotineiras, no qual os personagens nos são apresentados como desinteressantes como a própria vida de Luisa. Interessante era a vida turbulenta de Leopoldina aos olhos de Luisa, e a novidade da chegada de Basílio constrói uma espécie de força centrífuga que faz abalar as estruturas sólidas da casa construída pelos pais de Jorge. O lar e a família pequeno-burguesa necessitavam dessa solidez para tentar se perpetuar. Se fizermos um paralelo entre essa estrutura física com a estrutura moral imposta pelo casamento veremos que a proposta de liberdade, sugerida pela possibilidade da quebra desta rotina enfadonha, irá abalar 82 QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 14. 83 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d. Volume II, Capítulo XXXIII : O problema do adultério. P.344. 84 Ibidem. P.346.
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    51 a frágil estruturada personalidade de nossa heroína romântica e, muito mais, irá abalar a frágil estrutura da moral pequeno-burguesa da época. Nas páginas do livro O primo Basílio, o adultério, elemento básico, do que Eça critica como “literatura romântica”, das anedotas divertidas e de óperas famosas, é tratado de forma singular, ou seja, como uma espécie de desajuste a que as mulheres da baixa burguesia estariam sujeitas em função de uma educação desajustada e incorreta. Tratava-se, pois, de criar um romance onde se pretendia, primordialmente, denunciar a educação portuguesa como fator determinante do comportamento das mulheres. As referências ao primeiro, embora breves, não deixam que a questão da educação de Luisa permaneça no escuro, uma vez que dão ao leitor as indicações necessárias ao relacionamento com a formação escolar deficitária e trivial que era costumeiramente e facultada às mulheres da sua época e condição, e que Eça e Ramalho haviam criticado em As Farpas. Denunciava-se nas crônicas, igualmente, o âmbito de exaltação sentimental que se vivia nos colégios, tanto em conseqüência da formação de orientação predominantemente artística e de pendor ultra-romântico como pela cuidadosa segregação sexista que fomentava nas educadas um interesse obsessivo por questões amorosas. 85 Neste romance, que nos conta a história do clássico triangulo amoroso, um ingrediente cruel é adicionado, o engano. Não só o engano como elemento do próprio adultério, mas o engano vinculado a uma falsa idéia de amor, apreendida nos folhetins dos chamados romances femininos, de meados do século XIX. Eça, porém, de forma genial, acrescenta mais um atributo ao engano, o de punição, que é desenvolvido quando Luiza desperta para a realidade do não-amor, que de fato sentia por Basílio, o D.Juan desfrutador,86 e se vê fadada ao arrependimento e à culpa, que a levam à morte, bem como a uma série de punições impostas por Juliana. Ainda que se pretenda ter uma neutralidade absoluta, como num dicionário, livre de qualquer escolha ou ideologia, os termos que definem o adultério esclarecem seu campo semântico e desenham seu território de problematização. Em Aurélio Buarque de Holanda, por exemplo, é a partir da 85 OLIVEIRA, Maria Teresa Martins de. A mulher e o adultério nos romances O primo Basílio de Eça de Queirós e Effi Briest de Theodor Fontane. Livraria Minerva. Coimbra, 2000. P.137. 86 SARAIVA, António José. História da Literatura Portuguesa. Publicações Europa América. Lisboa. 1949. P.67.
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    52 idéia de adulteração,de falsificação ou deformação, que poderíamos ler a experiência da infidelidade.87 Se situarmos a relação amorosa no campo do contrato, e assim colocando- a de maneira concreta no domínio das regras sociais, verificaremos que a quebra desse “contrato” irá acarretar sanções, sejam elas extremas, como a sugerida por Jorge, quando indagado sobre o adultério de Honra e Paixão – a morte; sejam elas penalidades psicológicas, como as impostas por Jorge à Luisa, quando, através de uma “não-atitude” punitiva, faz com que ela adoeça e morra. Luísa foi construída para ser vitima de um duplo remorso, causado pelo engano em relação ao marido, a quem de fato amava, e pela assimilação de seus sonhos românticos, o que a leva a julgar amar Basílio. O personagem Ernestinho Ledesma se esgueira por todo o romance na medida em que o adultério e seus desdobramentos avançam, concretizando sua peça Honra e Paixão, finalmente encenada, na qual o último ato, inicialmente trágico, é alterado. Numa clara alusão ao que, naquele momento, estava ocorrendo entre Jorge e Luísa, Ernestinho, que é construído como um personagem romântico, leva o seu personagem a perdoar a esposa traidora. Silviano Santiago, num texto de 1970, bastante elogioso a essa obra de Eça de Queirós, parte da criação desse personagem e, portanto, da existência de uma narrativa paralela dentro da central para fazer suas considerações: O círculo que se estabelece em torno dos personagens de ‘O primo Basílio’ e da peça ‘Honra e paixão’ vai se estreitando cada vez mais, organizando quase que por completo a vida imaginária de Luísa. Daquela espécie de desdobramento pelo reflexo, passamos a uma forma de simbiose, onde os personagens do romance perdem a sua identidade e se perdem nas máscaras dos personagens da peça de Ernestinho, atores que são (...)88 Como sabemos, O primo Basílio se inicia com uma cena de leitura doméstica, como que oferecendo uma pista de que haveria, ao longo do texto, uma quantidade significativa de referências à leitura e à literatura. A Luísa de Eça foi, inclusive, muitas vezes comparada a Emma de Flaubert, colocadas, ambas, como vítimas de um tipo de leitura excessivamente sentimental e capaz de gerar um permanente e incurável sentimento de frustração diante da realidade tão menos 87 BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio. Dicionário Eletrônico do século XXI. 88 SANTIAGO, Silviano. “Eça, autor de Madame Bovary”. In: Uma Literatura nos Trópicos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978. P. 61.
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    53 arriscada que aficção. Com certeza há indícios para essa comparação, embora as referências à leitura não se restrinjam a essa personagem. Um deles se revela já no título do texto de Silviano Santiago, pois, ao chamá-lo de “Eça autor de Madame Bovary”, o professor aponta para o rumo de suas reflexões: a apropriação de uma obra já existente para, a partir dela, rediscutir noções como a de originalidade e de liberdade de criação. Para isso, o ponto de partida é o conto de Jorge Luis Borges, Pierre Menard, autor do Quixote. Nessa obra, Borges, ao colocar seu personagem escrevendo um texto rigorosamente igual ao de Cervantes, cuja única diferença seria externa a ele, ou seja, apenas o nome do autor estabeleceria a existência de um novo significado, aproxima sua construção de um ensaio teórico. Em outras palavras, Borges atualiza, primeiramente, a mais antiga das discussões no âmbito dos estudos literários: o que é literatura? A partir dessa, outras questões vão sendo colocadas de forma muito sutil, na esteira das quais Silviano Santiago chega a O primo Basílio para concluir que a obra de Eça [...] deixa clara, não sua dívida para com Flaubert, mas o enriquecimento suplementar que ele trouxe para o romance de Emma Bovary; se não o enriquecimento, pelo menos como ‘Madame Bovary’ se apresenta mais pobre diante da variedade de ‘O primo Basílio.’ 89 Para o crítico, interessado nas relações entre culturas dominantes e dominadas, Eça se utiliza do modelo para subvertê-lo de um modo muito criativo, e este é um argumento mais do que suficiente para afirmar a sua independência. Eça constrói seu texto tendo como pano de fundo não apenas a obra de Flaubert, mas estrategicamente integra ao próprio texto um processo utilizado na confecção de escudos: a reprodução, em miniatura, do conjunto do escudo em um ponto central. Velásquez usou essa estratégia na pintura, assim como Shakespeare, em Hamlet. Ou seja, O primo Basílio comprova o argumento central de Silviano Santiago de que as chamadas culturas dependentes conseguem estabelecer um diálogo produtivo e subversivo com aquelas que tentam dominá-las90 . 89 Ibidem. P. 52. 90 Gustave Flaubert escreveu em 1837, quando tinha, portanto, dezesseis anos, uma novela intitulada Passion et vertu (Paixão e Virtude), considerada uma espécie de germe de Madame Bovary. No texto do jovem Flaubert, igualmente temos uma senhora casada seduzida por uma espécie de D. Juan que lhe empresta romances, leva-a ao teatro, enfim, mostra uma vida diferente, com atividades até então desconhecidas daquelas tediosas a que ela estivera acostumada, o que o torna também uma pessoa muito diversa daquelas com as quais ela já se acostumara. Como se vê, há muitas semelhanças, mais uma vez, entre também essa obra de Flaubert e a de Eça e refiro-me agora não apenas a O primo Basílio, mas também ao drama de Ernestinho. Além da semelhança do
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    54 Esse aspecto nãoé nosso foco neste estudo, assim como não estamos diretamente interessados no mapeamento das cenas em que o exercício da leitura, com todas as suas implicações, é mostrado no romance. Até porque esse levantamento já foi apontado por outros e rigorosamente feito pela professora Maria do Rosário Cunha, de modo que não há como negar o quanto Eça esteve interessado em figurar, através dos hábitos de seus personagens, as mudanças no modo de produzir e de consumir literatura. Estamos mais interessados no fato de que se a criação do personagem Ernestinho sustenta a grande transgressão de Eça em relação ao modelo francês, como apontou Silviano Santiago, há um outro aspecto que envolve esse personagem não diretamente analisado no texto “Eça, autor de Madame Bovary”, para o qual dirigimos nossa atenção. Para o crítico brasileiro, Eça optou por revelar os impactos da experiência com o adultério na exterioridade da peça, as reações dos personagens em Honra e paixão substituem, em boa parte, a exploração do mundo interior dos envolvidos. Para além disso, e aponto para o centro de meus interesses, há um grande investimento de Eça em figurar, através de Ernestinho, os bastidores da escrita. Os limites impostos aos desejos criativos desse escritor são representados por meio da vontade do produtor da peça, mas também das reações daqueles para quem o texto é lido em primeira mão. Relembremos Viagens na minha terra, de Almeida Garrett e o Vinte horas de liteira, de Camilo Castelo Branco. Em especial o capítulo cinco da primeira obra e, mais genericamente, as conversas de Antonio Joaquim com seu amigo escritor, no segundo romance: temos aí explanações didáticas e também divertidas sobre a escrita e seus mistérios. Esses autores não apenas narram acontecimentos, experiências vividas por seus personagens, mas também exercitam a auto-reflexão de que nos fala Compagnon91 , inserem os tais manuais de instrução em seus textos título, o protagonista de Passion et vertu chama-se Ernesto. O fato é que é impossível saber se Eça leu esse texto de Flaubert, embora essa informação não seja de modo algum preponderante numa abordagem como a que realizamos aqui. Acrescentamos esse dado apenas para ressaltar que, no nosso entender, embora o estudo das fontes seja importante e necessário, há o risco de não se chegar a lugar nenhum ou, ao contrário, de se chegar a tantos e diferentes lugares que já não saberemos mais onde nos encontramos. Só para apimentar a questão, é preciso lembrar que o enredo de O primo Basílio de certa forma anuncia o que estará presente no conto No moinho, publicado em 1880, dois anos depois, portanto, de a narrativa de Luísa, Basílio e Jorge ter sido revelada. Há informações mais detalhadas sobre a relação entre Eça e Flaubert no Suplemento ao Dicionário de Eça de Queiroz, nas páginas 175-179. 91 COMPAGNON, Antoine. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1990.
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    55 de forma bastanteexplícita. Assim como em O mistério da estrada de Sintra e nas outras obras sobre as quais não nos deteremos, Eça, em O primo Basílio, também enxerta um manual de instrução. É claro que o faz de modo bem menos explícito que os outros dois autores aqui citados, o que revela uma opção diferenciada. Apenas o leitor um pouco mais atento que a média daquele que Eça chamou de “uma multidão azafamada e tosca que se chama ‘o Público’” 92 compreenderia a importância de Honra e paixão. Em outras palavras, o terrorismo teórico, espécie de febre da qual não foi possível escapar, gerou reações um pouco diferentes nos, digamos assim, acometidos da doença. Nenhuma delas, adversa. Pelo contrário, Eça, por exemplo, apresenta reações consistentes e ao mesmo tempo engraçadas. Mas, antes de refletir um pouco mais sobre Ernestinho, é preciso lembrar que há outros escritores em O primo Basílio. No capítulo quatro, temos um poeta, de maneira quase imperceptível, em meio a uma minuciosa descrição dos personagens presentes no local em que Luísa propositadamente encontra Basílio, num passeio com D. Felicidade. O modo como é descrita essa galeria de tipos estabelece de imediato um contraste produtivo entre eles e o poeta: E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças cor de flor de alecrim, fumando cerimoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabelo riçado, de movimentos gingados que lhes desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um eclesiástico cor de cidra, o ar mole, o cigarro na boca, e lunetas defumadas; uma espanhola com dous metros de saia branca muito rija, fazendo rugeruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão de chapéu na nuca, o olho avinhado (...)93 . Se, por um lado, a adjetivação destinada ao poeta é exígua, por outro, ele é o único nomeado entre os vários, devidamente acompanhado de um artigo definido, dados que lhe conferem o que os outros não possuem: individualidade. A cena, se vista isoladamente, poderia até ter sua importância questionada, mas em conjunto com outras, ganha significado e relevância diferenciados. No capítulo seguinte, durante uma conversa íntima entre Leopoldina e Luisa, ficamos sabendo que o atual amante da primeira é também um poeta: 92 QUEIROS, Eça de. Uma Campanha Alegre. Lisboa, edição Livros do Brasil, s/d.. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. Vol. III. P.1791. 93 QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. 1997. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 51.
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    56 Leopoldina esteve ummomento calada; mas o ‘champagne’, a meia obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciazinhas. Estirou-se mais no divã, numa atitude toda abandonada; pôs-se a falar ‘dele’. Era ainda o Fernando, o poeta94 . Aqui temos uma diferença em relação ao poeta do capítulo anteriormente citado. Trata-se agora de uma designação particular, feita apenas pela personagem, e não de caráter público, efetuada pelo narrador, como a do personagem Xavier, de modo que pode ser apenas uma forma de Leopoldina caracterizar um possível sedutor bem falante e não necessariamente um escritor. Mesmo que assim fosse, já que não podemos ter certeza, permanece a importância, pois se evidencia o papel social ocupado pelo homem de letras, mesmo que apenas de fachada; fica reforçada a necessidade vivida pelos escritores da afirmação da literatura como uma nova instituição. Como observou Carlos Reis, “O tempo cultural em que Eça viveu e escreveu romances, em que projectou uma certa imagem do escritor, testemunhou o avanço e a (difícil) imposição deste conceito”95 . Assim, Xavier e Fernando se somam a muitos outros, em muitas outras obras, para quem a escrita cumpre funções muito práticas, como é o caso, ainda em O primo Basílio, de outro escritor citado. Trata-se do conselheiro Acácio, autor de guias como Descrição pitoresca das principais cidades de Portugal e seus mais famosos estabelecimentos, volumes que lhe valem muita fama e prestígio. Todavia, é no segundo capítulo que temos a primeira aparição de Ernestinho, que também se intitula escritor e, como já dito, exerce em O primo Basílio uma função muito mais relevante que Xavier, Fernando e o conselheiro Acácio, autores apenas de circunstância, embora realize esse ofício de forma bastante distinta dos exemplos já aqui citados, presentes em outras obras. Diferentemente de Artur Corvelo, de Tomás de Alencar e de Fradique Mendes, Ernestinho possui outra profissão: é funcionário da alfândega e, apenas nas horas vagas, escreve. Artur, na verdade, alterna períodos em que trabalha na farmácia de Oliveira de Azeméis e outros em que, por conta de pequenas heranças, pode dedicar-se exclusivamente à escrita. A respeito de Alencar, o romance não oferece informações sobre a fonte de seus rendimentos. Já as posses de Fradique, frutos 94 Ibidem. P. 95. 95 REIS, Carlos. “A temática do adultério n'O Primo Basílio”. In: Construção da leitura. Ensaios de metodologia e de crítica literária, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica / Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, 1982. P.19.
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    57 também de heranças,permitem-lhe uma existência em que a palavra trabalho pouco significa. Ernestinho é primo de Jorge, o dono da casa em que acontecem muitas reuniões. Num desses encontros Ernestinho nos é apresentado: Ultimamente trazia em ensaios nas ‘Variedades’ uma obra considerável, um drama em cinco atos, a ‘Honra e paixão’. Era a sua estréia séria. (...) Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte – porque era empregado na alfândega, com bom vencimento(...). Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo: era uma mulher casada. Em Sintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de Monte-Redondo. O marido arruinado devia cem contos de réis ao jogo! Estava desonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruínas acasteladas, onde habita o conde, deixa cair o véu, conta-lhe a catástrofe. O conde lança o seu manto aos ombros, parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem. – É uma cena comovente, dizia, é de noite, ao luar! – O conde desembuça-se, atira uma bolsa de ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: saciai-vos, abutres!...(...) Enfim – acrescentou Ernesto, resumindo – aqui há um enredo complicado: o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se; o marido descobre, arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a mulher96 . A entrada de Ernestinho na trama falando aos freqüentadores da casa de Jorge sobre sua peça serve de texto paralelo aos acontecimentos que o narrador de O primo Basílio teria que desenvolver e, de certa forma, discutir com os demais personagens e os leitores. Eça realiza aqui uma espécie de figuração do público a que se referirá mais tarde no prefácio à obra do Conde de Arnoso, pois metonimicamente as pessoas que freqüentam a casa de Luísa e de Jorge representam o que o dramaturgo teria de enfrentar lá fora. O fato de serem personagens tão diferentes também confere amplitude à cena, inclusive no que diz respeito à advertência do autor de que “aqui há um enredo complicado”, como se fosse preciso prepará-los para uma possível complexidade, fosse ela em termos de estratégias textuais, fosse ela em termos morais. Lá está o médico pobre Julião Zuzarte, que se julga muito inteligente, muito acima de todos os outros e justamente por isso ressente-se da vida miserável que leva, quando em comparação ao conforto dos outros, considerados por ele medíocres. Entre os que Julião despreza está o Conselheiro Acácio, pródigo em citações e dono de um empolado vocabulário. 96 QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. 1997. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 24.
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    58 Também freqüentador dosanimados serões, embora nos seja apresentado apenas depois da primeira referência a Ernestinho e a sua peça, temos Sebastião, amigo íntimo de Jorge, incumbido de cuidar de Luísa durante a ausência do marido, período em que se dará praticamente toda a trama. Sebastião é o personagem com quem o narrador é mais condescendente. Para ele, só há elogios, o oposto do que ocorre com os outros freqüentadores. Representante do público feminino, D. Felicidade de Noronha, robusta senhora que fora amiga da mãe de Luísa, há cinco anos freqüentava a casa porque ama o Conselheiro Acácio e espera, pacientemente, que ele perceba seus interesses amorosos e tome alguma atitude. À exceção de Jorge, todos os presentes nessa primeira aparição de Ernestinho reagem negativamente à idéia de que o marido deveria assassinar a esposa traidora, concordando com o desejo do produtor da peça que pedira a alteração do final. O conselheiro não apenas concorda como também se justifica: “A falar a verdade – disse o conselheiro – a falar a verdade, senhor Ledesma, o nosso público não é geralmente afeto a cenas de sangue”97 . A expressão do personagem não apenas sintetiza a nova configuração que o discurso literário vinha gradativamente assumindo, a de obedecer ao gosto do público, como também anuncia ao leitor atento o desfecho do romance. Depois de os leitores serem apresentados à peça, ainda em forma de rascunho, toda a trama do adultério de Luísa e suas implicações serão devidamente acompanhadas com presença de Ernestinho e pela mudança que se processa no interior de Luísa. O personagem ressurgirá rapidamente no capítulo sete, quando encontra Luísa a caminho do Paraíso: “Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atrás dela. – Ah! Esquecia-me de dizer-lhe, sabe que lhe perdoei? Luísa abriu muito os olhos”98 . O espanto da personagem revela a ambigüidade da cena, reforçada pela repetição do pronome “lhe”. O espanto revelado pelo olhar de Luísa diante da possibilidade ou do desejo de ser perdoada aumenta de tal forma que, no capítulo nove, atormentada pela chantagem de Juliana, ela tem um sonho em que atua, juntamente com Basílio e Jorge, na peça de Ernestinho, todos representando a si mesmos, inclusive com seus próprios nomes: 97 Ibidem. P. 26 98 Ibidem. P. 121.
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    59 Luísa achava-se nosbraços de Basílio que a enlaçavam, a queimavam; toda desfalecida, sentia-se perder, fundir-se num elemento quente como o sol e doce como o mel; gozava prodigiosamente; mas, por entre os seus soluços, sentia-se envergonhada porque Basílio repetia no palco, sem pudor, os delírios libertinos do Paraíso! (...) Subitamente, porém, todo o teatro teve um ah! de espanto.(...) Ela voltou-se também como magnetizada, e viu Jorge (...) que se adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão.99 . Assim como em O mistério da estrada de Sintra, em O primo Basílio, e a cena desse sonho é exemplar nesse sentido, Eça discute diante de seus leitores os tênues limites entre a realidade e a ficção. No primeiro caso, a participação do personagem Z que ora reclama por ter sido enganado, pois acreditara estar diante de eventos ficcionais e se vira indiretamente envolvido em crime real, ora conclui estar mesmo diante de uma narrativa ficcional. Em O primo Basílio, Eça oferece, nas reações de Luísa, a mesma confusão. A personagem, tão ansiosa por viver as aventuras dos heróis e heroínas que tantas vezes acompanhara em suas leituras, se perdia entre os eventos da sua própria vida e os das criaturas do escritor Ernestinho. Mais uma vez, o manual teórico estava inserido no texto, já que o sonho de Luísa pode ser lido como uma metonímia dessa incipiente relação entre o escritor e, nas palavras de Eça, “uma multidão azafamada e tosca que se chama ‘o Público’”100 . Na última vez em que Ernestinho aparece em cena, no capítulo quatorze, através do discurso do personagem Julião, somos informados das reações à estréia de Honra e paixão: E o que me dizem da novidade? – exclamou. – A peça do Ernesto teve um triunfo!... Assim tinham lido nos jornais. O ‘Diário de Notícias’ dizia mesmo que o ‘autor chamado ao proscênio, no meio do mais vivo entusiasmo, recebera uma formosa coroa de louros’. (...) E quase imediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se na sala: ergueram-se com ruído, abraçaram-no(...). Contou então largamente o triunfo (...). Houve uma ceia. E tinham-lhe dado uma coroa (...). – Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei à esposa... (...) O Jorge é que queria que eu desse cabo dela – disse Ernestinho, rindo tolamente. – Não se lembra, naquela noite... – Sim, sim – fez Jorge, rindo também, nervosamente. – O nosso Jorge – disse com solenidade o conselheiro – não podia conservar idéias tão extremas. E de certo a reflexão, a experiência da vida... 99 Ibidem. P. 166. 100 QUEIRÓS, Eça de. Obra completa. Organização geral, introdução, fixação dos textos autógrafos e notas introdutórias Beatriz Berrini. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000, v.3/4. P. 1791.
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    60 – Mudei, conselheiro,mudei – interrompeu Jorge. 101 . O leitor é convidado a associar essa cena ao fato de que fora nesse mesmo capítulo, um pouco antes dessa cena, que Jorge lera a carta de Basílio a Luisa e tivera, portanto, a prova de que fora traído. Não restam dúvidas de que o leitor é informado, através do discurso da peça de Ernestinho, do modo como seria construído o romance que estava sendo lido. A confissão de Jorge, que mudara de opinião, reflete, mais uma vez em forma de metonímia, a posição daquele que deixara de ser mero apreciador e passara à condição de consumidor. Ao inserir, portanto, a peça Honra e paixão e atribuir-lhe um grande êxito junto ao público num romance construído em torno do mesmo tema, Eça oferece duas possibilidades de realização. Embora não tenhamos a peça toda, é possível deduzir do resumo que dela Ernestinho nos oferece, assim como do trecho que ele lê para os amigos no capítulo dois, que se trata de um daqueles arremedos de arte, sobre os quais Eça tanto falou.102 Antes mesmo de publicar O primo Basílio, Eça já escrevera muito a respeito da relação entre literatura e consumo. Sobre essa qualidade do autor, nos fala Maria do Rosário Cunha: Foi um leitor atento, e nessa qualidade fundamentou as apreciações críticas que constantemente exerceu e registrou em textos de natureza programática ou em crônicas como, por exemplo, as que nos seus primeiros anos de Inglaterra enviava para ‘A Actualidade’, constando de cada uma dessas crónicas uma secção particularmente destinada à resenha das ‘novidades literárias’. Desta forma, leu com os olhos do escritor que pondera sobre o fenómeno de que é parte activa, avaliando a beleza ou a eficácia de formas e estratégias, e leu com os olhos do crítico, especialmente atento à relação entre a quantidade e a qualidade dos produtos103 . Em 1878, Eça publicou O primo Basílio, romance em que esse olhar crítico, capaz de reconhecer a diferença de qualidade entre os textos, se revelou na prática. Dirigindo-se a um público específico, consumidor de literatura e não apenas do texto de caráter jornalístico (embora muitas vezes o veículo fosse o 101 QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P.223. 102 Alguns bons exemplos dessa preocupação são os textos “O Natal – ‘a literatura de Natal’ para crianças”, “Acerca de livros”, “O ‘Salon”, “Ainda o anarquismo. O sr. Brunetière e a imprensa”, “Um génio que era um santo”. À exceção do último, todos os outros foram publicados na Gazeta de Notícias (jornal brasileiro do qual Eça foi colaborador entre 1880 e 1897). 103 CUNHA, Maria do Rosário. A inscrição do livro e da leitura na ficção de Eça de Queirós. Coimbra: Almedina, 2004. P. 96-97.
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    61 mesmo), o criadorda trama que envolve Luísa, Basílio e Jorge, ao criar também Ernestinho, colocou diante desse público um dos sintomas do mal-estar. A cena em que o autor de Honra e paixão conta que foi coroado, após a estréia da peça, contrasta vivamente com o silêncio de Fradique que, segundo ele mesmo, jamais publicou. Lembremos que Fradique só teria autorizado que viessem a público os poemas das Lapidárias acompanhados de um pseudônimo, cuja escolha ficara a cargo do primo Vidigal. Desejo que não se realizou, pois: “[n]a redação, porém, ao rever as provas, só lhe acudiram pseudônimos decrépitos e safados, o ‘Independente’, o ‘Amigo da Verdade’, o ‘Observador’ – nenhum bastante novo para dignamente firmar poesia tão nova”104 e Fradique acabou aparecendo como autor de poesia tão nova. Como se vê, a atitude de autorizar a publicação dos poemas não se coaduna com as várias afirmações de que ele não teria nada a dizer. E, embora Eça não tenha se dado ao trabalho de reescrevê-lo, o narrador de Memórias nos informa que Fradique escreveu e publicou, por vontade própria, um outro poema. Assim, tantas justificativas para a recusa à escrita parecem merecer nossa desconfiança. Quanto às cartas, reitero que a estratégia de Eça foi criar um narrador que, em primeira pessoa, nos conta a vida de Fradique, na condição de testemunha, com vagas e rápidas participações na biografia do amigo. É este narrador não nomeado quem se responsabiliza pela seleção e publicação das cartas, fato para o qual encontra várias justificativas. Entre elas: Escolho apenas algumas, soltas, de entre as que mostram traços de caráter e relances da existência ativa; de entre as que deixam entrever algum instrutivo episódio da sua vida de coração; de entre as que, revolvendo noções gerais sobre a literatura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterizam o feitio do seu pensamento; e, ainda, pelo interesse especial que as realça, de entre as que se referem a coisas de Portugal (...). Mas, assim ligeira e dispersa, ela (a correspondência) mostra, todavia, em excelente relevo, a imagem deste homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de ação105 . Assim, se Fradique parece não procurar deliberadamente a fama e a coroa de louros que Ernestinho tanto deseja, também não é possível falar em negação absoluta da escrita, embora, segundo o narrador, ele afirme “Eu não sei escrever! 104 QUEIROZ, Eça de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, v.1/2. P. 18-19. 105 Ibidem. P. 108-109.
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    62 Ninguém sabe escrever!”106 .Até porque, essa afirmação se revela ambígua, quando somos informados da opinião de Fradique sobre a moda de se publicar a correspondência de algumas figuras ilustres: Leio todas as coleções de Correspondências (...). Eis aí uma maneira de perpetuar as idéias de um homem que eu afoitamente aprovo – publicar-lhe a Correspondência! Há desde logo esta imensa vantagem: que o valor das idéias (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de críticos (...). Temos depois que as cartas de um homem, sendo o produto quente vibrante de sua vida, contêm mais ensino que a sua filosofia – que é apenas a criação impessoal do seu espírito. (...); uma vida que se confessa constitui o estudo de uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do homem, único objetivo acessível ao esforço intelectual. E finalmente como cartas são palestras escritas (assim afirma não sei que clássico), elas dispensam o revestimento sacramental da tal prosa como não há... Mas este ponto precisava ser mais desembrulhado – e eu sinto parar à porta o cavalo em que vou trepar ao pico de Bigorre!107 . 106 QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Editora O Globo, Rio de Janeiro. 1997. P. 101. 107 QUEIROZ, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997, 2 v. P.p. 105-106.
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    63 4 Conclusão Chegar a estapágina implica em colocar-se diante de uma das perenes ambigüidades do desejo humano. Referimo-nos àqueles muitos momentos em que finalmente se dá por encerrado algo que se quis muito terminar. Por outro lado, em outras ocasiões (que não são exatamente outras porque não se distinguem muito claramente do que deveria ser a impressão anterior), nós mesmos criamos empecilhos para chegar ao ponto final: é a tentação do inacabável. Tentadora, a idéia de fim é também dolorosa. Se encerrar, revisar, imprimir e entregar é bom, é igualmente bom poder encarar o trabalho como um processo, como uma espécie de - “é quase isso, mas ainda vai melhorar”. Melhor ainda é acreditar que um dia será possível atender às próprias expectativas. Como não há nenhuma possibilidade de que esse dia chegue, resta um misto de alegria, tolerância e frustração. Tal sensação, acreditamos e especulamos, deve ter sentido o escritor e intelectual Eça de Queirós, que como pudemos ver, participou ativamente do processo de desenvolvimento e modernização de Portugal numa área árdua, – como a da educação ou da cultura – lutando contra os preconceitos, a má formação das jovens portuguesas e o atraso generalizado que impedia o país de inserir-se na Europa moderna do século XIX. A luta de Eça, como pudemos observar no decorrer desta dissertação, inicialmente esteve presente nas Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Lá encontramos dois longos ensaios em que a questão da instrução está presente, ambos datados de março de 1872. No primeiro deles, como esclarece já no início, tecerá as suas reflexões sobre a instrução pública em Portugal partindo de algumas cifras. Já no segundo, faz um balanço da educação feminina, buscando traçar um retrato sociológico da jovem portuguesa.
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    64 No primeiro artigo,o autor de O primo Basílio começa lamentando o fato de a instrução em Portugal estar a cargo do governo pelo descaso que o Estado tem com o ensino primário. Lamenta também o fato de a iniciativa privada não estar, como ocorre nas mais importantes nações européias, comprometida com a instrução em seu país. Como exemplo desse descaso do Estado, relembra um decreto da lei de 20 de setembro de 1844, que autorizava as câmaras municipais, a suas expensas, a criarem escolas primárias. Ironicamente, revela que se tal medida faria supor um anseio das câmaras na construção de escolas, apenas uma fora fundada nos quase trinta anos de criação da lei. Como antecipa de início, todo o artigo está pautado na análise de cifras referentes ao estado do ensino em Portugal. Comparando as estatísticas sobre o número de crianças em idade escolar, número de escolas, porcentagem de aproveitamento do ensino, as conclusões a que chega são alarmantes, a ponto de equiparar a situação portuguesa aos confins africanos ver um paralelo com a situação dos cafres – “de nossos irmãos os cafres”, como tristemente Eça de Queirós lamenta: Existindo no nosso país, segundo as últimas estatísticas, 700.000 crianças, e não sendo justo que se apertem na estreiteza abafada de uma escola mais de 50 alunos (...), segue-se que deveríamos ter 14.000 escolas... Temos 2.300! (...) Das 700.000 crianças que existem em Portugal o Estado, nessas 2.300 escolas - ensina 97.000. Isto é, de 700.000 crianças estão fora da escola mais de 600.000! Destas 97.000 crianças que freqüentam as escolas, sabeis, amigos, quantas se apuram prontas, por ano? Segundo as últimas inspeções - em cada 50 alunos apura-se 1 aluno! Portanto Portugal, de 97.000 crianças que traz nas suas escolas - tira por ano, sabendo os rudimentos, 1940! Mordei-vos de ciúmes, oh cafres!108 O tom de indignidade está presente em toda a argumentação desenvolvida por Eça. Mas ele não se restringe a levantar a questão. Apresenta também propostas que, no seu ponto de vista, poderiam contribuir para solucionar o problema. Ponderando, por exemplo, sobre a evasão escolar na zona rural, acredita que a solução é a criação e o fomento de escolas noturnas. 108 QUEIRÓS, Eça. Obra Completa. V.3. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. P.844.
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    65 Entre outros aspectosque analisa está a situação do professor: o desestímulo provocado pela baixa remuneração e falta de um plano de carreira; a formação deficiente causada pela ausência de escolas normais que preparem o profissional para o ofício, fatores esses que contribuem para a má formação do professorado. No balanço final que faz, apostrofa: Eis aqui o estado da instrução pública em Portugal, nos fins do século XIX. A instrução em Portugal é uma canalhice pública! Que o atual governo volte os seus olhos, um momento, para este grande desastre da civilização!109 Já no ensaio sobre a educação feminina, Eça de Queirós parte de um aforismo: “A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães”. Por esse motivo, passa a analisar “estas gentis raparigas de 15 a 20 anos de quem nascerá, para bem ou para mal, a geração portuguesa de 1893”110 . Da falta de atividade física, alimentação inadequada, sujeição à moda - perniciosa, a seu ver, por prescrever modos de vestir e pentear prejudiciais à saúde feminina -, passando pelo automatismo da educação religiosa e os equívocos da formação moral, o autor de O primo Basílio não poupa nenhum dos aspectos que considera contribuir para a deficiente formação da jovem portuguesa, sobretudo a da capital do país. Alguns desses aspectos, aliás, ajudarão a compor algumas das personagens femininas de sua obra ficcional, como já foi visto. Portugal não ficou indiferente a esta cruzada regeneradora e, nesta campanha, se empenharam, no séc. XIX, médicos, pedagogos e agentes de ensino. Contudo, a tarefa de mudar as mentalidades dos responsáveis pela educação, quanto à necessidade das raparigas fazerem exercício físico, por exemplo, não era fácil. Muito mais árduo, foi comprovar que a leitura de romances românticos pudessem prejudicar a formação moral das jovens e, em função disto, retirá-los do programa. Algumas mudanças foram ocorrendo gradativamente, mas nem todas foram ao encontro da totalidade das idéias defendidas apaixonadamente por Eça, em sua tribuna ou em seus romances. Cabe-nos ainda ressaltar que a estética realista defendida por Eça em oposição à romântica está presente na dualidade do título da peça de Ernestinho – Honra e Paixão. Honra como um fator mais próximo do pensamento realista e 109 Ibidem. P. 848. 110 Ibidem. 848-849.
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    66 Paixão ao ideárioromântico. Honra como uma força masculina e Paixão como um sentimento feminino, ligado à dor. Por outro lado, não há porque negar a influência, mesmo que indireta, de Gustave Flaubert na produção literária de O primo Basílio. Emma e Luisa são personagens muito próximas – mulheres, ambas jovens e recém casadas, inclusas em uma sociedade machista e indiferente ao verdadeiro papel da mulher na sociedade. Papel este que deveria ir muito além do famoso “anjo do lar” que a ideologia burguesa lhe destinara. Mas as similaridades param por aí, como muito bem observou o crítico literário, Silviano Santiago. Eça vai muito além. Ousa alcançar uma outra perspectiva, utilizando-se do mote da influência maléfica da literatura romântica, ele tentará influenciar a opinião pública e as autoridades de seu país no sentido de fomentar mudanças na educação portuguesa. Segundo o autor, a modernidade não está restrita ao olhar arquitetônico ou econômico de um país, mas intimamente ligada à educação do seu povo. Para o comum leitor talvez a obra de Eça de Queirós seja apenas importante, mas não para quem olha a literatura como um imenso oceano. Um oceano onde, por vezes, as águas se tornam ondas agitadas. E o caso do projeto que orientou o romance O primo Basílio: levar Portugal à modernidade, por acreditar que o país permanecia em águas excessivamente paradas. Ao atirar uma pedra nessas águas calmas, de imediato se cria uma onda circular a partir da pedra, junto ao ponto de impacto. Então, esta onda começa a espalhar-se, atingindo as margens mais longínquas. É preciso, no entanto, que se atire a primeira pedra. Pois é certo que, quando ocorre o descobrimento, se consolida o nosso legado cultural. Parece-nos, enfim, que isso sucede com o romance O primo Basílio. Eça lança mão do universo feminino para denunciar o atraso de seu país e as causas desse atraso – a tacanha moral burguesa. O mote do adultério estará ligado à traição, traição cometida por uma ideologia romântica em detrimento do avanço da cultura de um país.
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