aLeR+ a Mãe
A MÃE NA POESIA
A MÃE NA POESIA
A mãe
tem mais força que o vento:
carrega sacos e sacos
do supermercado
e ainda me carrega a mim.
A mãe
conhece o bem e o mal.
Diz que é bom partir pinhões
e partir copos é mal.
Eu acho tudo igual.
A mãe
é uma árvore
e eu uma flor.
A mãe
tem olhos altos como estrelas.
Os seus cabelos brilham
como o sol.
A mãe
faz coisas mágicas:
transforma farinha e ovos
em bolos,
linhas em camisolas,
trabalho em dinheiro.
A MÃE NA POESIA
A mãe
podia ser só minha.
Mas tenho que a emprestar
a tanta gente...
A mãe
à noite descasca batatas.
Eu desenho caras nelas
e a cara mais linda
é da minha mãe.
Luísa Ducla Soares
A mãe
sabe para onde vão
todos os autocarros,
descobre as histórias que contam
as letras dos livros.
A mãe
tem na barriga um ninho.
É lá que guarda
o meu irmãozinho.
A MÃE NA POESIA
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade
Para Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
A MÃE NA POESIA
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que
não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a
fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando
estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre
fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de
fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de
fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e
tu sabes.
José Luís Peixoto
Palavras para a Minha Mãe
mãe, tenho pena. esperei sempre que
entendesses
as palavras que nunca disse e os
gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e
esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos
gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer,
quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir
desculpa não é suficiente.
A MÃE NA POESIA
Tenho saudades dos caminhos quando
me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto tão alto quando calculo os corpos
celestes
Ó infinita ó infinita mãe
Daniel Faria
Tenho Saudades do Calor ó Mãe
Tenho saudades do calor ó mãe que
me penteias
Ó mãe que me cortas o cabelo — o
meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os
anéis
Dá-me um pouco do teu corpo como
herança
Uma porção do teu corpo glorioso —
não o que já tenho —
O que em ti já contempla o que os
santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto
A MÃE NA POESIA
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue!
verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de
cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a
contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei,
escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser
qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio
que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros
A MÃE NA POESIA
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe
Fernando Pessoa
O Menino de sua Mãe
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»
A MÃE NA POESIA
Quando eu nasci,
Não houve nada de novo
Senão eu.
As nuvens não se espantaram,
Não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme,
Bastava
Toda a ternura que olhava
Nos olhos de minha Mãe...
Sebastião da Gama
Quando eu nasci
Quando eu nasci,
Ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
Nem o Sol escureceu,
Nem houve Estrelas a mais...
Somente,
Esquecida das dores,
A minha Mãe sorriu e agradeceu.
A MÃE NA POESIA
Minha Mãe
Minha mãe tem flores
nos olhos.
Sóis de estrelas
nas mãos, nos braços.
Luas brancas são
seus seios de seda.
E é grande como o Mundo
e eu chamo-lhe: Mãe!
Matilde Rosa Araújo
A MÃE NA POESIA
Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te
digo são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de
pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas
cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é
enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a
beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de
mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
A MÃE NA POESIA
A MÃE NA POESIA
Mãe, conta-me histórias de encantar,
Dos anjos que no azul do céu voavam,
Dos lagos onde cisnes passeavam,
E que eu revia à luz do teu olhar.
Conta-me histórias como em pequenino
Me contavas e tudo me sorria.
Histórias lindas que eu atento ouvia...
Oh que saudades, mãe, de ser menino.
Emanuel Félix
Fantasia
Oh mãe, conta-me histórias de encantar
Daquelas em que há príncipes e fadas,
Dragões que guardam torres
encantadas,
E que contavas para me embalar.
Conta-me histórias, mãe! Lendas
infindas
De castelos erguidos nas colinas,
Onde habitavam fadas e meninas,
Brancas e loiras, sempre muito lindas.
A MÃE NA POESIA
Tigelinhas brancas
doces como querias
Minha mãe quantas
saudades eu tenho
João Apolinário
Mãe 2
Tigelinhas brancas
compotas macias
Minha mãe quantas
tigelinhas enchias
Tigelinhas brancas
para todos os dias
Minha mãe quantas
tigelinhas vazias
A MÃE NA POESIA
sobrevivente das madrugadas
da memória
trocaram-me os dias
e as ruas de ancas
verticais
e nas minhas mãos incompletas
trouxe-te
um naufrágio de flores
cansadas
e o único jardim d'amor
que cultivei
de navios ancorados
ao espaço
Maria Teresa Horta
Mãe
mãe,
terminou o tempo
de sorrir
desculpa-me a morte
das plantas
tatuei a tua antiga
imagem loura
em todos os pulsos
que anjos inclinam
de existires
perdi-me noite na planície
branca
A MÃE NA POESIA
Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.
Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais
[bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.
José Jorge Letria
Quando Eu For Pequeno
Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo
medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o
empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.
Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.
A MÃE NA POESIA
porque não há retratos do meu pai
comigo ao colo, como os dos meus
irmãos que ele trazia sempre junto
ao peito e tu depois dividiste pela
casa para ele poder saber que ainda
te lembravas; ou então debruçado
no meu berço – que tu escondeste
no sótão ainda eu era pequena e te
sentavas a embalar vazio quando ele
não entendia porque estavas tão
triste. Mãe, eram tão azuis os olhos
Mãe, agora que guardaste na arca
as blusas pretas e os teus olhos
voltaram a ser azuis; que os meus
irmãos dormem no seu quarto um
sono de poderem ser felizes, que
já conseguimos dizer uma à outra
o nome dele no meio de um sorriso
porque a morte, afinal, é uma coisa
tão longe – deixa-me perguntar-te
A MÃE NA POESIA
azuis os teus olhos com essas roupas
claras, e eu ainda tenho o nome do
meu pai entre as minhas lágrimas, mas
agora, que os meus irmãos descansam
no seu quarto, que já todos podemos
dizer o nome dele sem nos cortar os
lábios, diz-me a verdade: esse homem
que chorámos era mesmo meu pai?
Maria do Rosário Pedreira
do meu pai no dia em que levou os
meus irmãos à escola e tinham tanto
medo do que pudesse acontecer-lhes;
são tão azuis também os olhos deles
debaixo do seu sono, e os meus tão
negros de dúvidas – porque foste
sempre tu que me levaste sozinha
para as coisas difíceis da minha vida,
que o meu pai nem nunca quis saber
que coisas eram. Mãe, estão hoje tão
A MÃE NA POESIA
o padre celebrando a missa, celebrando
os mortos. A mãe vê
a serenidade completa da paz
atravessar-lhe o corpo e deitar-se
sob o mármore, sob as lápides, sob as
flores e o ar que as esvoaça.
A mãe vê os advérbios passar, levando-
lhe a paz. E uma vez
mais o padre, na igreja, dizendo: Senhor,
dai-nos a paz.
Jorge Reis-Sá
Mãe está sentada no alpendre
à minha mãe, advérbio de estar
A mãe está sentada no alpendre a ver os
advérbios passar:
serenamente, completamente, em paz.
Como se a paz fosse
um advérbio de modo de estar, um
orgulho. A mãe está sentada
no alpendre olhando em frente o
campo, o cemitério, a igreja,
A MÃE NA POESIA
Eu não quero o teu anel
Mãe, não quero o teu anel,
Nem os teus brincos,
Nem o teu colar de pérolas,
Nem a tua pulseira de ouro.
Quero o teu colo para encosto,
Um beijo no meu rosto,
O teu abraço enorme,
E estas palavras doces:
“Dorme, filho, dorme.”
Campos de Figueiredo

A mãe na poesia

  • 1.
    aLeR+ a Mãe AMÃE NA POESIA
  • 2.
    A MÃE NAPOESIA A mãe tem mais força que o vento: carrega sacos e sacos do supermercado e ainda me carrega a mim. A mãe conhece o bem e o mal. Diz que é bom partir pinhões e partir copos é mal. Eu acho tudo igual. A mãe é uma árvore e eu uma flor. A mãe tem olhos altos como estrelas. Os seus cabelos brilham como o sol. A mãe faz coisas mágicas: transforma farinha e ovos em bolos, linhas em camisolas, trabalho em dinheiro.
  • 3.
    A MÃE NAPOESIA A mãe podia ser só minha. Mas tenho que a emprestar a tanta gente... A mãe à noite descasca batatas. Eu desenho caras nelas e a cara mais linda é da minha mãe. Luísa Ducla Soares A mãe sabe para onde vão todos os autocarros, descobre as histórias que contam as letras dos livros. A mãe tem na barriga um ninho. É lá que guarda o meu irmãozinho.
  • 4.
    A MÃE NAPOESIA Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho. Carlos Drummond de Andrade Para Sempre Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
  • 5.
    A MÃE NAPOESIA às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz. lê isto: mãe, amo-te. eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes. José Luís Peixoto Palavras para a Minha Mãe mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente. pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
  • 6.
    A MÃE NAPOESIA Tenho saudades dos caminhos quando me deixas Em casa. Padeço tanto Penso tanto Canto tão alto quando calculo os corpos celestes Ó infinita ó infinita mãe Daniel Faria Tenho Saudades do Calor ó Mãe Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo Adorna-te muito mais do que os anéis Dá-me um pouco do teu corpo como herança Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho — O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus Dá-me o pão do céu porque morro Faminto, morro à míngua do alto
  • 7.
    A MÃE NAPOESIA Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei. Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado! Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade! Almada Negreiros
  • 8.
    A MÃE NAPOESIA Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira E boa a cigarreira. Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço… deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: “Que volte cedo, e bem!” (Malhas que o Império tece!) Jaz morto e apodrece O menino da sua mãe Fernando Pessoa O Menino de sua Mãe No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas trespassado- Duas, de lado a lado-, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue. De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! Que jovem era! (agora que idade tem?) Filho unico, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino de sua mãe.»
  • 9.
    A MÃE NAPOESIA Quando eu nasci, Não houve nada de novo Senão eu. As nuvens não se espantaram, Não enlouqueceu ninguém... P'ra que o dia fosse enorme, Bastava Toda a ternura que olhava Nos olhos de minha Mãe... Sebastião da Gama Quando eu nasci Quando eu nasci, Ficou tudo como estava. Nem homens cortaram veias, Nem o Sol escureceu, Nem houve Estrelas a mais... Somente, Esquecida das dores, A minha Mãe sorriu e agradeceu.
  • 10.
    A MÃE NAPOESIA Minha Mãe Minha mãe tem flores nos olhos. Sóis de estrelas nas mãos, nos braços. Luas brancas são seus seios de seda. E é grande como o Mundo e eu chamo-lhe: Mãe! Matilde Rosa Araújo
  • 11.
    A MÃE NAPOESIA Poema à Mãe No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe. Tudo porque já não sou o menino adormecido no fundo dos teus olhos. Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais. Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz. Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura. Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos.
  • 12.
    Mas tu esquecestemuita coisa; esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe! Olha - queres ouvir-me? - às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos; ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura; ainda oiço a tua voz: Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal... Mas - tu sabes - a noite é enorme, e todo o meu corpo cresceu. Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber. Não me esqueci de nada, mãe. Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas. Boa noite. Eu vou com as aves. Eugénio de Andrade A MÃE NA POESIA
  • 13.
    A MÃE NAPOESIA Mãe, conta-me histórias de encantar, Dos anjos que no azul do céu voavam, Dos lagos onde cisnes passeavam, E que eu revia à luz do teu olhar. Conta-me histórias como em pequenino Me contavas e tudo me sorria. Histórias lindas que eu atento ouvia... Oh que saudades, mãe, de ser menino. Emanuel Félix Fantasia Oh mãe, conta-me histórias de encantar Daquelas em que há príncipes e fadas, Dragões que guardam torres encantadas, E que contavas para me embalar. Conta-me histórias, mãe! Lendas infindas De castelos erguidos nas colinas, Onde habitavam fadas e meninas, Brancas e loiras, sempre muito lindas.
  • 14.
    A MÃE NAPOESIA Tigelinhas brancas doces como querias Minha mãe quantas saudades eu tenho João Apolinário Mãe 2 Tigelinhas brancas compotas macias Minha mãe quantas tigelinhas enchias Tigelinhas brancas para todos os dias Minha mãe quantas tigelinhas vazias
  • 15.
    A MÃE NAPOESIA sobrevivente das madrugadas da memória trocaram-me os dias e as ruas de ancas verticais e nas minhas mãos incompletas trouxe-te um naufrágio de flores cansadas e o único jardim d'amor que cultivei de navios ancorados ao espaço Maria Teresa Horta Mãe mãe, terminou o tempo de sorrir desculpa-me a morte das plantas tatuei a tua antiga imagem loura em todos os pulsos que anjos inclinam de existires perdi-me noite na planície branca
  • 16.
    A MÃE NAPOESIA Quando eu for pequeno, mãe, nenhum de nós falará da morte, a não ser para confirmarmos que ela só vem quando a chamamos e que os animais fazem um círculo para sabermos de antemão que vai chegar. Quando eu for pequeno, mãe, trarei as papoilas e os búzios para a tua mesa de tricotar encontros, e então ficaremos debaixo de um alpendre a ouvir uma banda a tocar enquanto o pai ao longe nos acena, lenço branco na mão com as iniciais [bordadas, anunciando que vai voltar porque eu sou [pequeno e a orfandade até nos olhos deixa marcas. José Jorge Letria Quando Eu For Pequeno Quando eu for pequeno, mãe, quero ouvir de novo a tua voz na campânula de som dos meus dias inquietos, apressados, fustigados pelo medo. Subirás comigo as ruas íngremes com a certeza dócil de que só o empedrado e o cansaço da subida me entregarão ao sossego do sono. Quando eu for pequeno, mãe, os teus olhos voltarão a ver nem que seja o fio do destino desenhado por uma estrela cadente no cetim azul das tardes sobre a baía dos veleiros imaginados.
  • 17.
    A MÃE NAPOESIA porque não há retratos do meu pai comigo ao colo, como os dos meus irmãos que ele trazia sempre junto ao peito e tu depois dividiste pela casa para ele poder saber que ainda te lembravas; ou então debruçado no meu berço – que tu escondeste no sótão ainda eu era pequena e te sentavas a embalar vazio quando ele não entendia porque estavas tão triste. Mãe, eram tão azuis os olhos Mãe, agora que guardaste na arca as blusas pretas e os teus olhos voltaram a ser azuis; que os meus irmãos dormem no seu quarto um sono de poderem ser felizes, que já conseguimos dizer uma à outra o nome dele no meio de um sorriso porque a morte, afinal, é uma coisa tão longe – deixa-me perguntar-te
  • 18.
    A MÃE NAPOESIA azuis os teus olhos com essas roupas claras, e eu ainda tenho o nome do meu pai entre as minhas lágrimas, mas agora, que os meus irmãos descansam no seu quarto, que já todos podemos dizer o nome dele sem nos cortar os lábios, diz-me a verdade: esse homem que chorámos era mesmo meu pai? Maria do Rosário Pedreira do meu pai no dia em que levou os meus irmãos à escola e tinham tanto medo do que pudesse acontecer-lhes; são tão azuis também os olhos deles debaixo do seu sono, e os meus tão negros de dúvidas – porque foste sempre tu que me levaste sozinha para as coisas difíceis da minha vida, que o meu pai nem nunca quis saber que coisas eram. Mãe, estão hoje tão
  • 19.
    A MÃE NAPOESIA o padre celebrando a missa, celebrando os mortos. A mãe vê a serenidade completa da paz atravessar-lhe o corpo e deitar-se sob o mármore, sob as lápides, sob as flores e o ar que as esvoaça. A mãe vê os advérbios passar, levando- lhe a paz. E uma vez mais o padre, na igreja, dizendo: Senhor, dai-nos a paz. Jorge Reis-Sá Mãe está sentada no alpendre à minha mãe, advérbio de estar A mãe está sentada no alpendre a ver os advérbios passar: serenamente, completamente, em paz. Como se a paz fosse um advérbio de modo de estar, um orgulho. A mãe está sentada no alpendre olhando em frente o campo, o cemitério, a igreja,
  • 20.
    A MÃE NAPOESIA Eu não quero o teu anel Mãe, não quero o teu anel, Nem os teus brincos, Nem o teu colar de pérolas, Nem a tua pulseira de ouro. Quero o teu colo para encosto, Um beijo no meu rosto, O teu abraço enorme, E estas palavras doces: “Dorme, filho, dorme.” Campos de Figueiredo