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A DESCENDÊNCIA DO ÒRÌSÀ
E SUA SOBREVIVÊNCIA NA INICIAÇÃO NO BATUQUE DO RS
Rudinei Borba
& Erick Wolff
Pesquisadores independentes e
Autodidatas
Novembro / 2012
RESUMO
O propósito deste texto é analisarmos a descendência do Òrìsà, e sua
sobrevivência no rito de iniciação do Batuque do R.S., mostrando a possibilidade de tais
ritos terem sido fundados por descendentes reais da linhagem dos Òrìsà, utilizando
como base para o estudo as informações fornecidas pelo bàbáláwo Chief Aikulola
Fawehinmi, sacerdote reconhecido no culto tradicional yorùbá, tanto em Osogbo quanto
em Òyó.
PALAVRAS CHAVES: òrìsà, ancestralidade africana, religiões africanas, religiões
afro-brasileiras, Batuque.
ABSTRACT
The purpose of this paper is to analyze the progeny of Orisha, and their survival
in the initiation rite of Batuque R.S., showing the possibility of such rites have been
founded for descendants of royal lineage of Orisha, using as a basis for studying the
information provided by Babalawó Aikulola Chief Fawehinmi, priest recognized in
traditional Yoruba worship, both in Osogbo as in Oyo.
KEYWORDS: orisha, african ancestry, african religions, african-brazilian religions,
batuque.
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
2
INTRODUÇÃO
Dentro da cultura tradicional yorùbá não aculturada existe a crença onde a
reencarnação está presente dentro do mesmo âmbito familiar e que a forma que
diferencia uma reencarnação de um personagem importante no culto e descendência do
Òrìsà (ìran-òrìsà, ìran-òòsà) se dá apenas pelo fato do mesmo ter ou não sangue real,
ou seja, descender de uma linhagem nobre da família real de um rei yorùbá. Este fato
não é muito difícil de entendermos, partindo do entendimento de um sistema
monárquico onde impera o rei e ou a rainha e que vem sido cultuado pelos povos
yorùbá através dos séculos, tendo sua origem através de Odùduwà, o progenitor da
nação yorùbá.
Segundo Abímbólá (1997, pg. 69) “para um Òrìsà receber seu status como
“divindade”, eles tiveram que vir ao mundo em forma humana para após completar
sua etapa terrestre, ser lembrado como personagens importantes dentro da cultura
religiosa yorùbá” (a tradução é nossa).
Através da fala de Abímbólá, pensamos que, após a morte de um personagem
importante yorùbá, que não tem sangue real, ele passa integrar o culto Egúngún, culto
aos ancestrais, e poderá através dos séculos se tornar um “caminho de Òrìsà”, pois tem
sangue real e descendem diretamente de uma linhagem que liga um ancestral Real
direto, como nos casos de Sàngó em Òyó, Obatàlá em Ifè, Òsóòsí em Kétu, etc.
Podemos citar outro exemplo: no culto de Òsun, não se rende homenagem
apenas ao rio que leva seu nome, em Osogbo, mas a mulher que um dia, transformou-se
em Òrìsà devido a sua importância na sociedade da qual vivia. Cultuar Sàngó não se
resume apenas em invocar e venerar o raio ou o trovão, e sim em honrá-lo pelo homem
que fora, capaz de empregar esses recursos naturais, por ter sido o grande àlàáfin de
Òyó e um grande monarca que é lembrado até os dias de hoje.
A associação de alguns Òrìsà com elementos da natureza, não é porque o crente
venere essa energia, mas antes, a memória deles enquanto homens que viveram no ayé
(terra) em tempos remotos. O fato de um yorùbá olhar um raio e saudar o imortal rei
Sàngó, faz apenas com que nunca se esqueça do mesmo.
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
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Abímbólá (1997, pg. 69) também relata que “após a morte dos Oba (reis)
yorùbá, eles passam da etapa de Éégún para Òrìsà, [...] nem todos os reis são
recordados, mas teoricamente tiveram oportunidade de transformar-se em um Òrìsà e
de serem lembrados pelos seus atos[...] nos dias atuais existem pessoas canonizadas
que se converteram em Òrìsà em Ilé-Ifè”. Assim ocorreu com Sàngó, Aganjú, Kori,
Oya, etc., como veremos adiante.
Entendemos que é dever de um rei (Oba) tentar ficar conhecido após seu
desempenho positivo em seu reinado. Acreditamos que assim ocorrerá com o atual Oni
de Ilé-Ifè, a excelência Oba Okunadé Sijuwàdéi, que é o descendente direto de
Odùduwà na terra.
Novamente Abímbóla1
(1971, pg. 03-04) nos fornece claramente essa noção de
Òrìsà e Éégún, como segue:
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1. Wándé Abimbólá recebeu da maioria dos Bàbáláwo o título Àwíse Àgbàiyé – Porta voz mundial da
cultura yorùbá no mundo.
2. São os Ajogun: Òfò – Prejuízos, Ègbà – Paralisia, Èjò – Problemas, Èpè – Maldição, Èwòn – Prisão,
Èse – qualquer outro malefício que possa afetar os seres humanos, entre outras energias maléficas.
(Nota dos autores)
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
4
3#
A DESCENDÊNCIA
Lendo Abímbólá compreendemos o papel importante de um ancestral para sua
família religiosa, bem como, na forma cultuada dos mesmos, presente junto ao culto dos
Òrìsà, ajudando os homens e os conduzindo, dando assistências nas suas vidas no
mundo visível e que nos dá o entendimento de um Éégún importante possa vir a ser uma
divindade para seu povo. Percebemos também que o mesmo menciona a vinda dos
Òrìsà na terra, como também acreditamos ao escrever este ensaio. Talvez seja pelo
costume buscar-se na natureza a pedra de assentamento (ota) que o afrodescendente
acredita que o Òrìsà seja apenas uma energia da natureza.
Marins (2010, p. 66) nos mostra um antigo costume yorùbá chamado Didota que
era feito para eternizar em pedra uma pessoa poderosa:
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A partir desse antigo costume de imortalizar um personagem importante através
de uma pedra, acreditamos ter originado o culto através do ota como assentamento da
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
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divindade, mas não o caracteriza como sendo uma energia da natureza apenas, e sim um
ancestral que após longos anos de vida tornou-se uma pedra.
Chief Aikulola Fawehinmi3
publicou importante texto4
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importância para nosso entendimento sobre a descendência de Òrìsà, como segue:
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Lendo o relato do Bàbáláwo, ficou evidente a crença na descendência de Òrìsà
dentro da cultura yorùbá, ao relatar que em diferentes momentos de existência, Obatàlá
teve algumas de suas descendências em diferentes lugares e povos. Entendemos também
que esse fato é fácil de observar, uma vez que os descendentes diretos de Obatàlá foram
se tornando reis em locais conquistados.
Outro bàbáláwo, Ifáyemí Elébuìbon (1989, pg. 07) atual Arabá de Osogbo
confirma nosso pensamento quando escreve que “[...] galinhas brancas são as
oferendas favoritas de Obàtálá, e dos outros Òrìsà que são seus descendentes, como
Ogiyan, Òrìsàirowu, Òrìsà Oluofin, Òrìsà Popo… etc.” (a tradução é nossa)
Da mesma maneira fez Odùduwà em épocas remotas ao colocar seus
descendentes em locais diferentes como reis yorùbá, conforme Aulo Barretti descreve
de forma clara e objetiva:
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3. Chefe Aikulola Fawehinmi Nathan Lugo é um sacerdote de Ifá, Obatàlá e sacerdote do culto
Egúngún, sendo seu mestre, o sacerdote chefe Fakayode Faniyi. Ele é o Awo Gbawoniyi de Osogbo,
um título de grande prestígio em Ifá. Membro do templo Idinleke Ifá de Osogbo e também da
sociedade Obatàlá de Òyó.
4. Disponível em:< www.gbawoniyi.com >
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6
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Para entendermos melhor esse assunto de reencarnações, temos primeiro ter em
mente que a cultura yorùbá é toda baseada na reencarnação e se tem a crença que esse
fato ocorre dentro do mesmo âmbito familiar, o que difere do pensamento kardecista
atual, onde a reencarnação pode ocorrer em qualquer família no mundo. Assim como as
pessoas yorùbá reencarnam no mesmo âmbito familiar, os grandes monarcas também
tinham que ter filhos para herdar o trono, e assim ocorreu também durante o reinado de
Aganjú em Òyó, onde sucedeu o trono de Àjaká, como relata Johnson (1921-1960, pg.
155) a seguir:
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5. Disponível em: < http://aulobarretti.wordpress.com/revista-ebano-ile-ife/ile-ife/ >
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< 4 (A tradução é nossa).
O relato de Johnson nos mostra que, somente após longo tempo um descendente
poderia assumir o trono de seu reino, diferente das mitologias empregadas na cultura
Afro-brasileira, as quais afirmam que os Òrìsà possuem “caminhos” e ou “qualidades”
como caso de Aganjú e Agodo, que seriam qualidades Sàngó, entre outros.
Outra parte interessante é a questão que Kori seria um descendente sanguíneo de
Aganjú, ou seja, sua reencarnação novamente na terra, pois seria como se Aganjú
retornasse dentro do mesmo âmbito familiar através de seu neto. Entendemos também
que ao rezarem diante sua tumba, nos faz entender que Aganjú foi um homem que
viveu, mostrou seu poder, e ficou conhecido, isentando o que muito se escuta na cultura
afrodescendente aculturada que Òrìsà é uma centelha de luz ou uma energia da
natureza.
Não seria possível acreditar que uma energia da natureza ou uma faixa de luz
manifestasse em uma pessoa, pois seria o mesmo que personificar um elemento que não
possui consciência e acreditar que pudesse baixar em um ser humano, contradizendo
toda a estrutura religiosa que se baseia na ancestralidade e personificação das
divindades cultuadas, assim como acreditar na manifestação do próprio Ifá.
CAMINHOS DE ÒRÌSÀ DENTRO DA CULTURAAFRO-BRASILEIRA
Acreditamos que houve uma grande perda de conceitos tradicionais dentro da
cultura afro-brasileira, devido a não sobrevivência da mitologia tradicional. Materiais
escritos por pessoas pouco conhecedoras da cultura yorùbá tradicional acumularam
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
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mitologias através de gerações, causando até mesmo um desprestígio. Um destes mitos
é o que Aganjú teria até se casado com sua mãe Yemoja, desacreditando totalmente a
religião dos Òrìsà. É importante comentarmos esse fato mesmo não sendo o foco do
nosso trabalho, para que possamos ter um melhor entendimento do tema.
Altair T’Ògún (in memorian), quando ainda em vida, manteve em seu site6
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relevantes informações, um deles, o problema de “qualidades”:
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6. Disponível em: < http://www.altair.togun.nom.br/arquivo/cultura01.htm >
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Percebemos que não somos os primeiros a não concordar com a expressão
“qualidades” que foram empregadas na nossa cultura para explicar os diversos
caminhos ou descendências dos Òrìsà.
Acreditamos que a palavra “caminho” seria melhor empregada no tema
proposto, pois ficar mais evidente e de fácil entendimento, pois se traçarmos uma linha
na nossa frente, por exemplo, enchergamos o que? Um caminho! Certo? Se pensarmos
em uma linha a frente dos pés do grande imperador Sàngó, o que veremos? Acreditamos
que vemos suas “encarnações”, ou seja, sua descendência tanto real quanto seus
“caminhos de Òrìsà”, pois ele é o progenitor.
Quando falamos em seus “caminhos reais”, fica evidente que estaríamos falando
de pessoas ligadas a sua descendência sanguinea, como caso de Aganjú, Kori, seguindo
até o atual Aláàfin de Òyó, que por terem sangue real poderão se tornar um Òrìsà para
seu povo, podendo ser lembrados com passar dos tempos ou não.
Quando falamos em “caminhos de Òrìsà” muda um pouco, pois estaríamos nos
referindo a um Éégún ancestral que em vida foi iniciado no culto de Sàngó como
exemplo, e que após tempos de prestígios poderia vir manifestado em algum iniciado
como caminho de Sàngó, fato este sendo visível na tradição não aculturada yorùbá,
onde são efetuadas roupas para o Éégún nas cores e emplementos do Òrìsà ao qual
ancestral pertencia.
Usando um exemplo prático da tradição do Batuque, onde temos nomes dos
Òrìsà, como segue:
Sàngó Èdùnbadéyí: se analisarmos a expressão Sàngó, seria o imperador e Òrìsà
que veio ao mundo mostrar seu poder.
Èdùnbadéyí seria o ancestral que foi iniciado no culto de Sàngó e que após ser
cultuado como Éégún ganhou a dádiva de poder vir ajudar usando um caminho de
Sàngó. E assim sucessivamente com os demais Òrìsà do culto. Entendemos também
que para esse ancestral tornar-se um “caminho” de seu Òrìsà, levaria muitos anos e até
séculos de culto, e que talvez seja por isso que não temos tantos “caminhos” de algumas
divindades.
Analisando outro exemplo, percebemos que o culto dos Òrìsà Funfun dentro do
Batuque, é cultuado Òòsàálá como o Òrìsà, e a exemplo, Óbokún e Jóbokún seriam
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
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seus caminhos, ou seja, o culto de Óbokún e Jóbokún dentro do de Òòsàálá, onde talvez
explicasse o porquê se sacrifica galinhas para Òòsàálá no Batuque, e em alguns casos,
galos para Óbokún na tradição do Candomblé. Daria também o entendimento de quando
é mencionado que o iniciado é filho de Òòsàálá Óbokún e não como o próprio Òrìsà
Óbokún, sendo um caminho do mesmo. Aikulola ainda menciona:
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Na fala do Bàbáláwo, entendemos que as descendências do Òrìsà podem ser
tanto masculinas, quanto femininas. Chief Aikulola Fawehinmi relata:
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Nota-se claramente que o Bàbáláwo fala sobre os demais descendentes de
Obatàlá serem filhos dos mesmos e viverem em outras regiões, e que na religião
afrodescendente acredita-se que, por exemplo, Oke é uma qualidade de Obatàlá, assim
como outros Òrìsà Funfun sendo cultuados como “Caminho” de Obatàlá e descreve
que: “[...] Alguns caminhos de Obatàlá em terras Yorùbá: Òòsà Olufon, Òòsà Oluofin,
Òòsà Popo, Òòsà Ogiyan, Òòsà Rowu, Òòsà Alajo, Òòsà Ikire, Òòsà Irele, Òòsà
Ajagemo, Òòsà Ajaguna, Òòsà Ojuna, Òòsà Obanimoro, Òòsà Obaso [...]”
Se acreditarmos na descendência do Òrìsà, bem como em seus “caminhos”,
entendemos por que no culto do Batuque se oferece galinhas para os “caminhos” de
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Òòsàálá e também talvez possamos entender os demais nomes dos diferentes caminhos
das demais divindades, como: Bikín, Birín, Lajiki, Bikúyìí, Funmilayo, Bí-Omi, Deyìí,
Nikè, Bòmáaté, Olóbomi, Elefón, Odomaìyá, entre tantos outros cultuados no Batuque
Afro-Sul.
Verger (1997, pg. 18) também registrou a ancestralidade divinizada do Òrìsà,
onde efetuaremos comentários das partes retiradas de seu trabalho:
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Verger nos faz entender que, ressalvadas as diferenças ritualísticas, existe uma
semelhança filosófica no culto de Òrìsà e de Eégún quando praticados dentro do mesmo
âmbito familiar, podendo futuramente ganhar uma expansão de culto ou não, pois
mostraram seu poder quando em suas vidas terrenas. Em outro parágrafo (pg. 19)
informa:
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O autor novamente menciona que o Òrìsà “retorna” a terra para saudar e receber
honras de seus “descendentes”. Em seguida, informando sobre o culto de uma divindade
cultuada numa família em uma aldeia, conforme relata:
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V F
O autor menciona uma homenagem feita a um “caminho” de Sapatá que era
cultuado pela sua própria família, da qual o descendia, numa aldeia em Tètèpa.
Acreditamos que o “caminho” familiar do Sapatá mencionado por Verger seria
“Megban”, conforme relatou no texto e que explicaria nosso propósito de estudo.
Finalizamos a análise deste texto de Verger (pg. 19) comparando-o com outra
parte de seu relato já anteriormente citado. Não efetuaremos comentários, e deixaremos
como reflexão apenas.
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A INICIAÇÃO NO BATUQUE
Ao abordarmos o assunto sobre “caminhos” dos Òrìsà e suas descendências,
preparamos a fala para o tema proposto, que é iniciação no Batuque do R.S., pelo fato
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
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dela diferenciar-se profundamente de outros segmentos religiosos afrodescendentes.
Assim, faremos um relato resumido das duas iniciações realizadas dentro do culto, para
que possamos dar sequencia no nosso estudo.
Na iniciação no Batuque não é praticado o ato da raspagem dos cabelos do novo
adepto e também não pratica o ritual do adósù7
realizado por outras religiões afro-
brasileiras. O primeiro ato iniciático se resume em lavar a cabeça do noviço com banho
de folhas8
seguido pelo oríbibo9
ou eborí10
.
Pensamos que apesar do iniciado ter passado pelo ritual de eborí, não o faz
iniciado ainda no culto de Òrìsà. Para os yorùbá, a oferenda de um quadrúpede ao Orí,
não tem nenhuma relação com a iniciação em Òrìsà. São ritos completamente
separados.
Para a segunda parte ritual, ou seja, a iniciação do adepto ao culto do Òrìsà, o
sacerdote já fez uma consulta prévia ao oráculo dos búzios na presença do mesmo,
sabendo assim, qual o dia apropriado para consagração das feituras, bem como, quais
serão os Òrìsà responsáveis pelo auxílio do cumprimento de seu destino.
Não havendo a necessidade de se raspar os cabelos, o corpo é marcado com
manteiga vegetal (òrí) no alto da cabeça, e em algumas partes vitais, sobre os quais
serão efetuados os sacrifícios prescritos.
Após ter a resposta afirmativa de quais os Òrìsà que regerão sua vida, são
escolhidos na natureza os ota (pedras) que carregam aparência ou tem alguma
particularidade ligada ao Òrìsà, caso seja necessária a sua utilização, pois nem todos são
cultuados em ota, podendo ser utilizados ou não. Dependendo da raiz religiosa praticada
dentro do Batuque, o Òrìsà também pode ser feito apenas em uma estatueta, esta
7. Um amalgama de vários elementos de origem vegetal, mineral e animal que são colocados na cabeça
do neófito durante a iniciação, sacralizando-o ao Òrìsà.
8. Estes banhos podem ser: omièrò (apaziguador; no batuque feito com folhas cheirosas.), ou omiàse
(composto com vários tipos de fôlhas). O sacerdote saberá utilizar as folhas adequadas a cada caso.
9. Ato de reverenciar Orí através de oferendas, seguido de um ritual que é composto do sacrifício de
dois pombos, o èjè deve cair apena na cabeça, sem necessidade de colocar quartinha ou qualquer
outro utensílio sagrado.
10. Ato de reverenciar Orí através de oferendas. Neste momento pode ser montada (ou não) a cremeira, e
os búzios que simbolizarão a cabeça devem ser colocados sobre a mesma, para receber o èjè.
Algumas casas montam a cremeira com os búzios, mantendo tudo vasilha, no chão, ato totalmente
desprovido de significado, pois se Orí é tudo que está acima, como poder ser montado no chão?
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
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conhecida por “vulto”, e em alguns casos é utilizado apenas implementos
confeccionados em ferro, como no caso do Òrìsà Ògún. Em outros lados religiosos
também são usados o ota na companhia também do vulto.
Após ter a disposição dos objetos de culto do Òrìsà, é feito uma segunda
consulta oracular para saber qual o “caminho” dos Òrìsà que serão consagrados para o
iniciado, assim sabendo suas particularidades de culto e também suas quizilas.
Acreditamos que os caminhos11
dos Òrìsà em questão, devem ser informados ao noviço
no momento dessa consulta e nunca algum tempo depois, como vem ocorrendo
atualmente no quadro do Batuque, entregando-se os nomes dos caminhos dos mesmos
somente quando o religioso passa a sua categoria de sacerdócio.
Tendo a posse de todos os materiais que serão utilizados na feitura do Òrìsà no
novo adepto, estes objetos recebem do sacerdote um banho purificatório com as ervas
específicas, em seguida o iniciado é preparado para o momento do sacrifício dos
animais, estando já devidamente limpo através de banhos rituais, ebós e etc.
O mesmo é colocado sentado no chão de frente para o quarto de santo, tendo em
seu colo a vasilha que contem os materiais pertinentes ao culto do Òrìsà em questão,
bem como, sua moringa (quartinha). O sacerdote efetua o ato propiciatório, deixando
cair o èjè12
sobre os objetos de culto, que estão no colo do adepto, carregando-o até o
alto da cabeça do mesmo, sem a necessidade da mesma estar raspada para a ocasião
ritual, nem ter sido utilizado o adósù.
Entendemos que o fato do èjè consagrar “primeiro” os objetos que servirão de
culto do Òrìsà, e posteriormente levados à cabeça do adepto, é para despertar seu
ancestral mais “remoto”, o Òrìsà em questão, dando assim a explicação que o adepto
seria a descendência do Òrìsà, por estar recebendo esta ligação.
O àse do èjè é fixado onde cai à primeira gota (òsòòrò èkíní), assim, são os
objetos de adoração que a recebem primeiro, durante o ato de feitura do Òrìsà na
pessoa. Este é o processo inverso do primeiro ato, o do eborí, onde é a cabeça que
recebe a primeira gota e posteriormente o objeto de culto, a cremeira13
pessoal, trazendo
11. Ver exemplo de “caminhos” na (pg. 09).
12. Sangue.
13. Uma manteigueira que contém os elementos que formam o objeto de adoração de Orí.
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
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assim Orí para os objetos de culto. Já na segunda parte ritualística, a do Òrìsà, é seu àse
que é levado e consagrado na pessoa. Ao final o iniciado é recolhido ao ilé14
por tempo
determinado pela divindade através do oráculo, permanecendo isolado e deitado no
chão.
Queremos enfatizar que o culto do Batuque em momento algum utilizou ota no
assentamento de orí, não raspou a cabeça e não efetua o ritual de adósù no noviço do
culto, tal qual tradicionalmente fazem os descendentes de Òrìsà na Iorubalandia, como
veremos na fala do Awo Aikulola, na entrevista a seguir:
ENTREVISTA15
:
O O BO O BO O BO O B GGGG
4 N
B # O O B %5 , Q > (
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- " 6 &3, " # . 4
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6 &3, " # . "
14. Casa.
15. A entrevista completa pode ser verificada na Biblioteca Orixás
<http://culturayoruba.wordpress.com/biblioteca-orixas/> pasta geral. Para o propósito deste texto foi
utilizado um resumo.
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
16
E 3 .F Q # # . C # ?" 3 3# ?
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? 3 $,
6 &3, 3# N *
7 " 3
# W
J* 0 T N * (3 N 6 N % 3
Conforme podemos claramente perceber na fala do Awo Aikulola, os
descendentes de Òrìsà, por possuírem geneticamente o hereditário ìpìn sagrado em seus
corpos, não tem, segundo o bàbáláwo, a necessidade de rasparem a cabeça, nem passar
pelo ritual do adósù.
Esta informação do bàbáláwo, conforme coletada pelo entrevistador, motivou-
nos a trabalhar neste texto a hipótese de que o Batuque, até mesmo antes do Príncipe
Custódio, tenha sido fundamentado por descendentes reais não registrados
etnograficamente, que naturalmente, ao aplicarem em si mesmos o costume tradicional
de sua terra natal yorùbá, isto é, de não raspar e não usar o adósù por serem
descendentes do Òrìsà, teria instituídos em terras afro-gaúchas um costume que deveria
pertencer apenas à família real descendente da divindade, mas que por circunstâncias
várias, estendeu-se a todos, talvez como forma de sobrevivência.
Em seu site, o bàbáláwo Aikulola reafirma que, para aqueles considerados
descendentes do Òrìsà, não há não necessidade de raspar e adoxar:
E4 , %6 %3 # *
$ # * .
. % $ % # * B 3 ?
3# # ? "
R 3 " S
%3 [ " " 5
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
17
" % F K^ (a tradução é nossa)
Assim, de acordo com o exposto, não podemos descartar essa hipótese do
Batuque ter seus fundamentos originados por um ou mais descendentes diretos do
Òrìsà, pertencente à nobreza tradicional yorùbá, como veremos a seguir.
A NOBREZA YORÙBÁ NA FORMAÇÃO DO BATUQUE DO R.S.
Pierre Verger (1985, pg. 153-154), corroborando nossa hipótese, documentou
sobre a Na Agontimé17
que foi reconhecida pela Unesco por pertencer à família real do
Dahomey (atual Rep. Pop. do Benin), fundando a Casas das Minas, no Maranhão.
Isto abre margem para um estudo nessa direção, de que o Batuque também pode
ter sido introduzido no Rio Grande do Sul por membros de famílias reais dos yorùbá,
que não tinham em suas iniciações religiosas a necessidade de raspar os cabelos, nem
usar o adósù, por serem, como disse Aikulola, descendentes do Òrìsà.
Nesse sentido, conforme texto de Eduardo Cezimbra (Pai Tita de Xangô) há relatos
da passagem de pessoas vindas da realeza de Òyó18
:
@, " %6 "
* 4 . 1$ B" 4 . %6, 4 .
16. Disponível em: <http://www.gbawoniyi.com/Articles.html>
17. Verger documentou que a mãe do Imperador Daomeano Guezo e esposa do Rei Agonglo, foi enviada
por Adandozan como escrava para São Luis do Maranhão no Brasil, antes de seu filho Guezo assumir
o trono em 1818. Acreditando que a mesma teria recebido o nome de Andressa, passando a fundar a
casa dos Vodúns por cultuar um Vodún que somente era cultuado pela família real que permanecia
ainda no Dahomey (atual Rep. Pop. do Benin).
18. Internet. Disponível em < http://www.xangosol.com/nacoes.htm >
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
18
3 Z  @ 7 V
* %5 # " * 3 " ?
$ 7 7 * $1 B" 4 .
K]IM 5 , *
Ao analisarmos as partes extraídas do texto escrito por Eduardo Cezimbra, nota-
se que tivemos uma sacerdotisa que descendia de uma família nobre na áfrica. O autor
informa que seu nome seria Emília Fontes de Araújo, a qual teria introduzido os rituais
de raiz Òyó no nosso Estado, e que esta era iniciada no Òrìsà Oya, e que o seu caminho
seria Lájà19
. É informado também no relato que havia nativos africanos convivendo
juntamente com pessoas desse lado religioso no Batuque.
Pai Carlos de Aganjú registra também em seu texto intitulado20
“História do
Batuque / Nação” a possível nobreza de Mãe Emília, quando relata que ela era uma
princesa, como segue:
E%6 ` B" 4 . %6, O $, 7 9 2 $, B"
( 5 " B" D7 D %3, B" T ? 7 *
%5 C a [ B" B %5 B a [ a [ < *
a [ < % F
Segundo Jean de Yemoja21
, “Ìyá Cezária ti Sàngó - Oba Leri era irmã de Mãe
Emília de Oya. Informando-nos que a Nação Òyó no Rio Grande do Sul teve suas
origens nas cidades de Rio Grande e Pelotas (RS) e que Ìyá Cezária ti Sàngó - Oba Leri
é tida como a matriarca do povo de Òyó vindo de Pelotas. Jean diz que os seguidores
da nação Òyó presentes em Porto Alegre (pouquíssimos em tempos atuais), tem sua
matriarca a pessoa de Mãe Emília de Oya - Oya Lájà e que segundo relatos orais, as
duas eram irmãs de santo, iniciadas pela mesma Ìyálòrìsà, a Senhora Bibica de Ògún.
Jean informa também que muito escutou dos antigos que ambas seriam vindas de Òyó e
que as sacerdotisas teriam algum tipo de nobreza sanguínea”. (informação pessoal)
Acreditamos que assim como ocorreu com caso de Na Agontimé registrado por
19. Ler: Ládja, podendo ser “aquela que vence a guerra”.
20. Disponível em Internet:<http://www.iledeaganju.com/HIST%C3%93RICO.php>
21. Descende do Òyó herdado de Mãe Emília de Oya, onde atualmente mora e trabalha como professor
de história em Curitiba (PR).
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
19
Verger, poderiam também ter vindo para o Rio Grande do Sul, nativos yorùbá de
descendência real, mantendo em solo afro-gaúcho o culto que aprendera ainda em solo
africano.
Se trabalharmos com a hipótese de Mãe Emília de Oya Lájà ter descendência
real africana, os fundadores do Batuque carregariam o ìpìn do Òrìsà em seus corpos, tal
como descreve o Bàbáláwo Aikulola, mantendo assim no culto do Batuque um costume
tradicional da realeza iorubá. Isto explicaria por que no Batuque, por herança cultural
dos fundamentos religiosos implantados e outorgados pelos descendentes diretos do
Òrìsà, o iniciado não tem a necessidade de raspar a cabeça, nem utilizar o adósù, tal
qual ocorre em outros segmentos religiosos afrodescendentes.
O OTA E O IGBÁ-ORÍ (Cremeira)
Este tema nada tem a ver com o objetivo deste texto, e já recebeu a devida
atenção em outro trabalho, mas como está citado na entrevista, faremos um breve
comentário. Caso o leitor deseje, poderá encontrá-lo melhor desenvolvido nos endereços
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
20
que constam na nota de rodapé. 22
Conforme a entrevista citada, o entrevistador pergunta ao Bàbáláwo Aikulola
sobre o uso do ota (pedra) no assentamento de orí (cabeça). A pergunta tem sua razão de
ser, porque na internet circulam alguns textos falando que o assentamento de Orí tem
ota.
O Ilé-Orí ou Igbá-Orí, chamada no Batuque de “cremeira ou manteigueira”,
além de simbolizar a cabeça, está indiretamente ligado à ancestralidade, que é
simbolizada pelo uso, no Batuque, da moringa, elemento constituído de barro, sempre
cheia de água. Ela não é “símbolo da cabeça”, como pensam alguns, apenas por que tem
forma esférica. Todo o conjunto da cremeira é um elemento transitório, que deixa de
existir quando seu possuidor volta ao òrun, diferente de alguns Òrìsà que podem ser
herdados e continuarem a ser cultuados mesmo após o desenlace do iniciado.
De acordo com a fala do bàbáláwo, o Ilé-Orí tradicional yorùbá não usa ota, e
no Batuque tradicional conservou-se também este fundamento de não utilizar ota no
assentamento de Orí.
Conforme vimos, o antigo costume yorùbá de “Didota” tem a finalidade de
“eternizar” alguém em um busto de pedra (ota), pois dentro do conceito de “Noção de
Pessoa” a pedra simboliza eternidade, láilái em yorùbá.
Assim compreendido, não faz nenhum sentido o uso do ota em assentamentos de
Orí, pois, para que se utilizaria de um símbolo de eternidade como base para algo que é
transitório e finito?
Entretanto, esta nossa fala refere-se ao Batuque, e não tem a intenção de
conflitar com outros segmentos religiosos afro-brasileiros. Por exemplo, é sabido que o
segmento do candomblé reafricanizado “resgatou” o uso do Igbá-Orí que o candomblé
tradicional perdeu, e nesse trabalho de reafricanização, convencionou-se o uso de uma
pedra.
Conforme os informantes consultados, o uso desta pedra no Igbá-Orí do
22. Internet, ver in: Revista Olorun <http://www.olorun.com.br> e Cultura Iorubá,
<http://culturayoruba.wordpress.com/o-ile-ori-e-a-cremeira-a-nocao-de-pessoa-no-batuque-do-r-
s/>
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
21
candomblé reafricanizado não tem a finalidade de ser um “ota” de assentamento de Orí,
mas sim, apenas “um dos elementos” que formarão o jogo de búzios do futuro
sacerdote, não tendo nenhuma conotação de assentamento. 23
Assim, a resposta do bàbáláwo Aikulola atendeu perfeitamente à finalidade da
pergunta.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tivemos grande prazer ao abordarmos os temas de descendência e caminhos de
Òrìsà dentro do nosso culto afrodescendente, o qual muito aculturado ao longo dos
tempos, e que podemos através deste ensaio visualizar outros ângulos de raciocínios e
de pontos de vista.
Entendemos que o Batuque conseguiu preservar costumes tradicionais dos
yorùbá, surgindo uma grande possibilidade de, a partir da informação da entrevista do
Bàbáláwo Aikulola, compreendemos que o Batuque, ao conservar no seu rito religioso
de iniciação o costume de não raspar os cabelos e não usar adosù culminou por
preservar um costume da nobreza yorùbá, colocando-o assim muito próximo das raízes
tradicionais dos yorùbá.
Assim, a formação, fundamentação e a forma de iniciação do Batuque no Estado
do Rio Grande do Sul deixa em evidência a herança cultural de descendentes reais do
Òrìsà em África, que sobreviveram no nosso Estado.
Outro rito conservado seria a cremeira, que não usa ota, tal qual o Igbá-Orí dos
yorùbá, novamente segundo Aikulola.
Não tivemos em nenhum momento a intenção de darmos à famosa “verdade
absoluta” dos fatos, uma vez que podemos sim entender “todos juntos” um pouco mais
de nossas tradições religiosas.
Convidamos o povo de santo do Batuque a analisar com carinho o objeto deste
estudo.
23. Informação pessoal de Luiz L. Marins, conforme ouviu do Babalorixá Aulo Barretti, de Òsóòsí, no
candomblé kêtu reafricanizado.
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba & Erick Wolff
22
Fontes Bibliográficas
ABIMBOLÁ, Wande. Ifá will mend our broken world – Thoughts on Yorùbá Religion
and Culture in Africa and the Diaspora, Ifé, Iroko Academic Publishers, 1997.
___________, “A concepção ioruba da personalidade humana”, Paris, 1981. In:
INTERNET, Cultura Iorubá, <http://culturayoruba.wordpress.com>.
___________, “The concept of good character in Ifá Literary Corpus”, In: Yoruba Oral
Tradition, selections from the papers present at the seminar on Yoruba oral tradition:
poetry in music, dance and drama, Wande Abímbolá (Org.) Departament of African
languages and Literatures, University of Ife, Ile-Ife, Nigeria, 1975.
ABRAHAM, R. C. Dictionary of Yoruba Modern, London, *QFFGT 5VQWIVJQP =?.
ADESOJI, Michael Adémola. Nigéria, História – Costumes, cultura do povo Ioruba e a
origem dos seus Orixás, 1990, edição do Autor.
BARRETTI FILHO, Aulo. Dos Yorùbá ao Candomblé Kétu, Edusp, São Paulo, 2010.
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http://culturayoruba.wordpress.com/concepcaoiorubadaalma/
BOWEN, Rev. T. J. Grammar and Dictionary of the Yoruba Language, 1856. In:
INTERNET, Cultura Iorubá, http://culturayoruba.wordpress.com/dicionarios-de-
yoruba/.
COURLANDER, Harold. Tales of Yoruba gods  heroes, Original Publications, New
York, 1973.
DREWAL, Margaret Thompson. Yoruba Ritual (Performers, Play, Agency), Indiana
University Press, Indiana, 1992.
ELBEIN DOS SANTOS, Juana. Os Nagô e a Morte, Petrópolis, Vozes, 1993 [1986].
FAKINLEDE, Kayode J. Modern Practical Dictionary English-Yoruba  Yoruba-
English, Hippocrene Books, Inc, New York, 2008
FAMULE, Olawole F. Art And Spirituality: The Ijumu Northeastern-Yoruba Egúngún,
Phd. Dissertation, University of Arizona, 2005.
A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS
Rudinei Borba  Erick Wolff
23
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Egungun, African Arts Journal, XI, 3, UCLA, African Studies Center, University of
California, 1978.
JONHSON, Rev. Samuel. The History of the Yorubas - From the Earliest Times to the
Beginning of the British Protectorate, Lagos, Routledge  Kegan Paul, 1921 [1973].
SANTOS, Juana Elbein dos e Deoscoredes M. Dos Santos. Ìpòrí. In: INTERNET,
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____________, “Noção de Pessoa e Linhagem Familiar entre os Iorubás.” In,
INTERNET: Cultura Iorubá http://culturayoruba.wordpress.com/nocao-de-pessoa-e-
linhagem-familiar-entre-os-iorubas/
____________, INTERNET, Fundação Pierre Verger, http://www.pierreverger.org/
WOLFF, Erick. A Entronação do Aláààfin e sua conservação: a nação Kanbina, no
Batuque Nàgó do Rio Grande do Sul, São Paulo, 2011. In, INTERNET, Revista Olorun,
n. 05, Outubro de 2011, http://www.olorun.com.br

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  • 1. A DESCENDÊNCIA DO ÒRÌSÀ E SUA SOBREVIVÊNCIA NA INICIAÇÃO NO BATUQUE DO RS Rudinei Borba & Erick Wolff Pesquisadores independentes e Autodidatas Novembro / 2012 RESUMO O propósito deste texto é analisarmos a descendência do Òrìsà, e sua sobrevivência no rito de iniciação do Batuque do R.S., mostrando a possibilidade de tais ritos terem sido fundados por descendentes reais da linhagem dos Òrìsà, utilizando como base para o estudo as informações fornecidas pelo bàbáláwo Chief Aikulola Fawehinmi, sacerdote reconhecido no culto tradicional yorùbá, tanto em Osogbo quanto em Òyó. PALAVRAS CHAVES: òrìsà, ancestralidade africana, religiões africanas, religiões afro-brasileiras, Batuque. ABSTRACT The purpose of this paper is to analyze the progeny of Orisha, and their survival in the initiation rite of Batuque R.S., showing the possibility of such rites have been founded for descendants of royal lineage of Orisha, using as a basis for studying the information provided by Babalawó Aikulola Chief Fawehinmi, priest recognized in traditional Yoruba worship, both in Osogbo as in Oyo. KEYWORDS: orisha, african ancestry, african religions, african-brazilian religions, batuque.
  • 2. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 2 INTRODUÇÃO Dentro da cultura tradicional yorùbá não aculturada existe a crença onde a reencarnação está presente dentro do mesmo âmbito familiar e que a forma que diferencia uma reencarnação de um personagem importante no culto e descendência do Òrìsà (ìran-òrìsà, ìran-òòsà) se dá apenas pelo fato do mesmo ter ou não sangue real, ou seja, descender de uma linhagem nobre da família real de um rei yorùbá. Este fato não é muito difícil de entendermos, partindo do entendimento de um sistema monárquico onde impera o rei e ou a rainha e que vem sido cultuado pelos povos yorùbá através dos séculos, tendo sua origem através de Odùduwà, o progenitor da nação yorùbá. Segundo Abímbólá (1997, pg. 69) “para um Òrìsà receber seu status como “divindade”, eles tiveram que vir ao mundo em forma humana para após completar sua etapa terrestre, ser lembrado como personagens importantes dentro da cultura religiosa yorùbá” (a tradução é nossa). Através da fala de Abímbólá, pensamos que, após a morte de um personagem importante yorùbá, que não tem sangue real, ele passa integrar o culto Egúngún, culto aos ancestrais, e poderá através dos séculos se tornar um “caminho de Òrìsà”, pois tem sangue real e descendem diretamente de uma linhagem que liga um ancestral Real direto, como nos casos de Sàngó em Òyó, Obatàlá em Ifè, Òsóòsí em Kétu, etc. Podemos citar outro exemplo: no culto de Òsun, não se rende homenagem apenas ao rio que leva seu nome, em Osogbo, mas a mulher que um dia, transformou-se em Òrìsà devido a sua importância na sociedade da qual vivia. Cultuar Sàngó não se resume apenas em invocar e venerar o raio ou o trovão, e sim em honrá-lo pelo homem que fora, capaz de empregar esses recursos naturais, por ter sido o grande àlàáfin de Òyó e um grande monarca que é lembrado até os dias de hoje. A associação de alguns Òrìsà com elementos da natureza, não é porque o crente venere essa energia, mas antes, a memória deles enquanto homens que viveram no ayé (terra) em tempos remotos. O fato de um yorùbá olhar um raio e saudar o imortal rei Sàngó, faz apenas com que nunca se esqueça do mesmo.
  • 3. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 3 Abímbólá (1997, pg. 69) também relata que “após a morte dos Oba (reis) yorùbá, eles passam da etapa de Éégún para Òrìsà, [...] nem todos os reis são recordados, mas teoricamente tiveram oportunidade de transformar-se em um Òrìsà e de serem lembrados pelos seus atos[...] nos dias atuais existem pessoas canonizadas que se converteram em Òrìsà em Ilé-Ifè”. Assim ocorreu com Sàngó, Aganjú, Kori, Oya, etc., como veremos adiante. Entendemos que é dever de um rei (Oba) tentar ficar conhecido após seu desempenho positivo em seu reinado. Acreditamos que assim ocorrerá com o atual Oni de Ilé-Ifè, a excelência Oba Okunadé Sijuwàdéi, que é o descendente direto de Odùduwà na terra. Novamente Abímbóla1 (1971, pg. 03-04) nos fornece claramente essa noção de Òrìsà e Éégún, como segue: ! " # $ % & ' ( ) $ * * $ + * " , * % & # % " * $ * - " * . / & % * !01 ! 2 &3, 3# " ! 4 2 &3, ! # " * . 5 ) 6# . 5 ) ! - * . 5 ) ! . * 7 2 &3, 8 " . 3 % " * 4 $ * " * # . . 3# * * * . 1. Wándé Abimbólá recebeu da maioria dos Bàbáláwo o título Àwíse Àgbàiyé – Porta voz mundial da cultura yorùbá no mundo. 2. São os Ajogun: Òfò – Prejuízos, Ègbà – Paralisia, Èjò – Problemas, Èpè – Maldição, Èwòn – Prisão, Èse – qualquer outro malefício que possa afetar os seres humanos, entre outras energias maléficas. (Nota dos autores)
  • 4. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 4 3# A DESCENDÊNCIA Lendo Abímbólá compreendemos o papel importante de um ancestral para sua família religiosa, bem como, na forma cultuada dos mesmos, presente junto ao culto dos Òrìsà, ajudando os homens e os conduzindo, dando assistências nas suas vidas no mundo visível e que nos dá o entendimento de um Éégún importante possa vir a ser uma divindade para seu povo. Percebemos também que o mesmo menciona a vinda dos Òrìsà na terra, como também acreditamos ao escrever este ensaio. Talvez seja pelo costume buscar-se na natureza a pedra de assentamento (ota) que o afrodescendente acredita que o Òrìsà seja apenas uma energia da natureza. Marins (2010, p. 66) nos mostra um antigo costume yorùbá chamado Didota que era feito para eternizar em pedra uma pessoa poderosa: 9:9;%< = ><4 9% ?4> @AB C% ?4> <%>C > 749> 5 . " * # % " 3 * @ $ 3 # # , 3 3 D D : * * - * , 4 * E ; F % 3 5 " # E F G 3 # E% F E 01 F E9H F E F C * * 7 E9 H F * . 4 # * G E% 3 3 % F " * II EB 1 3 # " * F 9 , # J KLM A partir desse antigo costume de imortalizar um personagem importante através de uma pedra, acreditamos ter originado o culto através do ota como assentamento da
  • 5. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 5 divindade, mas não o caracteriza como sendo uma energia da natureza apenas, e sim um ancestral que após longos anos de vida tornou-se uma pedra. Chief Aikulola Fawehinmi3 publicou importante texto4 , que será de suma importância para nosso entendimento sobre a descendência de Òrìsà, como segue: %3 , # 5 " " %3 , , . %3 , " : $ : : $ %0 : 4$ 3 :0 %N 4 D D %3 , , A 5 % 6 % % 6 % 6 . 4$ 3 " %3 , 7 % 6 $, " # . %3 , % % %3 , : (a tradução é nossa). Lendo o relato do Bàbáláwo, ficou evidente a crença na descendência de Òrìsà dentro da cultura yorùbá, ao relatar que em diferentes momentos de existência, Obatàlá teve algumas de suas descendências em diferentes lugares e povos. Entendemos também que esse fato é fácil de observar, uma vez que os descendentes diretos de Obatàlá foram se tornando reis em locais conquistados. Outro bàbáláwo, Ifáyemí Elébuìbon (1989, pg. 07) atual Arabá de Osogbo confirma nosso pensamento quando escreve que “[...] galinhas brancas são as oferendas favoritas de Obàtálá, e dos outros Òrìsà que são seus descendentes, como Ogiyan, Òrìsàirowu, Òrìsà Oluofin, Òrìsà Popo… etc.” (a tradução é nossa) Da mesma maneira fez Odùduwà em épocas remotas ao colocar seus descendentes em locais diferentes como reis yorùbá, conforme Aulo Barretti descreve de forma clara e objetiva: EJ O 0 $ % & N $, * * 1 * * %3 2 &3, " 6 &3, % * 3 3. Chefe Aikulola Fawehinmi Nathan Lugo é um sacerdote de Ifá, Obatàlá e sacerdote do culto Egúngún, sendo seu mestre, o sacerdote chefe Fakayode Faniyi. Ele é o Awo Gbawoniyi de Osogbo, um título de grande prestígio em Ifá. Membro do templo Idinleke Ifá de Osogbo e também da sociedade Obatàlá de Òyó. 4. Disponível em:< www.gbawoniyi.com >
  • 6. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 6 % & N 8 * 3 " 6 &3, % % & N P$ 6# # E% 7 2 &3,E 5 Para entendermos melhor esse assunto de reencarnações, temos primeiro ter em mente que a cultura yorùbá é toda baseada na reencarnação e se tem a crença que esse fato ocorre dentro do mesmo âmbito familiar, o que difere do pensamento kardecista atual, onde a reencarnação pode ocorrer em qualquer família no mundo. Assim como as pessoas yorùbá reencarnam no mesmo âmbito familiar, os grandes monarcas também tinham que ter filhos para herdar o trono, e assim ocorreu também durante o reinado de Aganjú em Òyó, onde sucedeu o trono de Àjaká, como relata Johnson (1921-1960, pg. 155) a seguir: O 9 P$ 0, 6 $, ? " ) 5 < . # $1 * P$ 0, 6 5 6 P$ 0, * % $1 4 * 7 , 9 * $1 # 4 3 , 3 , " 3 $1 * $ G $1 % 3 " * :6 61 C % . 3 ) G % % 3! . % 3 ? 1 * O 3' 3 . " :6 6 " * $ $1 # * # % * C" 5 * * * * % Q Q $ * 3 4 0 3 9 ) 4 0 3 1 * :6 6 R $1S * 6 T 5. Disponível em: < http://aulobarretti.wordpress.com/revista-ebano-ile-ife/ile-ife/ >
  • 7. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 7 . 3 3 $1 , ) :6 6 * * * " 3 - :6 6 , * $1 3 " . :6 6 5 % * $ , % * U 9 V U :6 6 > * # U :6 6 4$ 3 : 0 % : 0 . * # * T < 4 (A tradução é nossa). O relato de Johnson nos mostra que, somente após longo tempo um descendente poderia assumir o trono de seu reino, diferente das mitologias empregadas na cultura Afro-brasileira, as quais afirmam que os Òrìsà possuem “caminhos” e ou “qualidades” como caso de Aganjú e Agodo, que seriam qualidades Sàngó, entre outros. Outra parte interessante é a questão que Kori seria um descendente sanguíneo de Aganjú, ou seja, sua reencarnação novamente na terra, pois seria como se Aganjú retornasse dentro do mesmo âmbito familiar através de seu neto. Entendemos também que ao rezarem diante sua tumba, nos faz entender que Aganjú foi um homem que viveu, mostrou seu poder, e ficou conhecido, isentando o que muito se escuta na cultura afrodescendente aculturada que Òrìsà é uma centelha de luz ou uma energia da natureza. Não seria possível acreditar que uma energia da natureza ou uma faixa de luz manifestasse em uma pessoa, pois seria o mesmo que personificar um elemento que não possui consciência e acreditar que pudesse baixar em um ser humano, contradizendo toda a estrutura religiosa que se baseia na ancestralidade e personificação das divindades cultuadas, assim como acreditar na manifestação do próprio Ifá. CAMINHOS DE ÒRÌSÀ DENTRO DA CULTURAAFRO-BRASILEIRA Acreditamos que houve uma grande perda de conceitos tradicionais dentro da cultura afro-brasileira, devido a não sobrevivência da mitologia tradicional. Materiais escritos por pessoas pouco conhecedoras da cultura yorùbá tradicional acumularam
  • 8. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 8 mitologias através de gerações, causando até mesmo um desprestígio. Um destes mitos é o que Aganjú teria até se casado com sua mãe Yemoja, desacreditando totalmente a religião dos Òrìsà. É importante comentarmos esse fato mesmo não sendo o foco do nosso trabalho, para que possamos ter um melhor entendimento do tema. Altair T’Ògún (in memorian), quando ainda em vida, manteve em seu site6 , relevantes informações, um deles, o problema de “qualidades”: C" $ # " " E- ! F R WXS * 1 3 4 $, 3 J* * G E4 " 5 F R 3 S ? 2 &3, # " 5 " * E F Q O, < * 1 Y ?! ! 4 " " * %$ 3 C" 5 3, 7 3, , 3, 1 3, $ 3 " " " , 1 * " $ 4 " " # 3 , * 4 * 1 Y * * Q 5 4 " 4 # * " # G . B" " " ) * . 4 $ # . E F $ E F V 3 " Y # * J G , " # ? Y " # 2 $ Y " # 1 Y 4 " # ! Y ?! 0' " # 1 Y (3, ' % . " " %6 Y * * " 3 % # .0 # * * . 2 &3, 3 E F 6. Disponível em: < http://www.altair.togun.nom.br/arquivo/cultura01.htm >
  • 9. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 9 Percebemos que não somos os primeiros a não concordar com a expressão “qualidades” que foram empregadas na nossa cultura para explicar os diversos caminhos ou descendências dos Òrìsà. Acreditamos que a palavra “caminho” seria melhor empregada no tema proposto, pois ficar mais evidente e de fácil entendimento, pois se traçarmos uma linha na nossa frente, por exemplo, enchergamos o que? Um caminho! Certo? Se pensarmos em uma linha a frente dos pés do grande imperador Sàngó, o que veremos? Acreditamos que vemos suas “encarnações”, ou seja, sua descendência tanto real quanto seus “caminhos de Òrìsà”, pois ele é o progenitor. Quando falamos em seus “caminhos reais”, fica evidente que estaríamos falando de pessoas ligadas a sua descendência sanguinea, como caso de Aganjú, Kori, seguindo até o atual Aláàfin de Òyó, que por terem sangue real poderão se tornar um Òrìsà para seu povo, podendo ser lembrados com passar dos tempos ou não. Quando falamos em “caminhos de Òrìsà” muda um pouco, pois estaríamos nos referindo a um Éégún ancestral que em vida foi iniciado no culto de Sàngó como exemplo, e que após tempos de prestígios poderia vir manifestado em algum iniciado como caminho de Sàngó, fato este sendo visível na tradição não aculturada yorùbá, onde são efetuadas roupas para o Éégún nas cores e emplementos do Òrìsà ao qual ancestral pertencia. Usando um exemplo prático da tradição do Batuque, onde temos nomes dos Òrìsà, como segue: Sàngó Èdùnbadéyí: se analisarmos a expressão Sàngó, seria o imperador e Òrìsà que veio ao mundo mostrar seu poder. Èdùnbadéyí seria o ancestral que foi iniciado no culto de Sàngó e que após ser cultuado como Éégún ganhou a dádiva de poder vir ajudar usando um caminho de Sàngó. E assim sucessivamente com os demais Òrìsà do culto. Entendemos também que para esse ancestral tornar-se um “caminho” de seu Òrìsà, levaria muitos anos e até séculos de culto, e que talvez seja por isso que não temos tantos “caminhos” de algumas divindades. Analisando outro exemplo, percebemos que o culto dos Òrìsà Funfun dentro do Batuque, é cultuado Òòsàálá como o Òrìsà, e a exemplo, Óbokún e Jóbokún seriam
  • 10. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 10 seus caminhos, ou seja, o culto de Óbokún e Jóbokún dentro do de Òòsàálá, onde talvez explicasse o porquê se sacrifica galinhas para Òòsàálá no Batuque, e em alguns casos, galos para Óbokún na tradição do Candomblé. Daria também o entendimento de quando é mencionado que o iniciado é filho de Òòsàálá Óbokún e não como o próprio Òrìsà Óbokún, sendo um caminho do mesmo. Aikulola ainda menciona: E ! , , # %3 , ) F C * ! , , # # %3 , " Z % 4 3# %3 , # * < 3# " :6 Na fala do Bàbáláwo, entendemos que as descendências do Òrìsà podem ser tanto masculinas, quanto femininas. Chief Aikulola Fawehinmi relata: %3 , # . " " 6 &3, % * T 3 3 < ) , %3 , * T G %0 * * EB % F 3 0 E%0 F 6 E%0 :3 F :3 (a tradução é nossa). Nota-se claramente que o Bàbáláwo fala sobre os demais descendentes de Obatàlá serem filhos dos mesmos e viverem em outras regiões, e que na religião afrodescendente acredita-se que, por exemplo, Oke é uma qualidade de Obatàlá, assim como outros Òrìsà Funfun sendo cultuados como “Caminho” de Obatàlá e descreve que: “[...] Alguns caminhos de Obatàlá em terras Yorùbá: Òòsà Olufon, Òòsà Oluofin, Òòsà Popo, Òòsà Ogiyan, Òòsà Rowu, Òòsà Alajo, Òòsà Ikire, Òòsà Irele, Òòsà Ajagemo, Òòsà Ajaguna, Òòsà Ojuna, Òòsà Obanimoro, Òòsà Obaso [...]” Se acreditarmos na descendência do Òrìsà, bem como em seus “caminhos”, entendemos por que no culto do Batuque se oferece galinhas para os “caminhos” de
  • 11. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 11 Òòsàálá e também talvez possamos entender os demais nomes dos diferentes caminhos das demais divindades, como: Bikín, Birín, Lajiki, Bikúyìí, Funmilayo, Bí-Omi, Deyìí, Nikè, Bòmáaté, Olóbomi, Elefón, Odomaìyá, entre tantos outros cultuados no Batuque Afro-Sul. Verger (1997, pg. 18) também registrou a ancestralidade divinizada do Òrìsà, onde efetuaremos comentários das partes retiradas de seu trabalho: " 5, , " . . , 3 % 5, . 3 . * 3 " , " * 3 5 3 * * " % 5, [ " " 5, 5 5" $ 3 Verger nos faz entender que, ressalvadas as diferenças ritualísticas, existe uma semelhança filosófica no culto de Òrìsà e de Eégún quando praticados dentro do mesmo âmbito familiar, podendo futuramente ganhar uma expansão de culto ou não, pois mostraram seu poder quando em suas vidas terrenas. Em outro parágrafo (pg. 19) informa: E% 5, # . * 4 * 5, # * # & # E F & < . 5, 3 F O autor novamente menciona que o Òrìsà “retorna” a terra para saudar e receber honras de seus “descendentes”. Em seguida, informando sobre o culto de uma divindade cultuada numa família em uma aldeia, conforme relata: E [ " 5, 3
  • 12. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 12 5 * " # 1 % " , 3 ) % # , A 5 [ 3 Z 3 < [ ? * E * < F [ ? ! , 3, # %3 1 6# 3# E? * F 4 , " . # 3, , : # " 0 ) % " * [ , " T 3 K]^] 3 6 * <' ' ) * . 3 *, * 3 [ 1 3 5 , 3 * 4 3 . 5 * B * [ ? , B 3 . V F O autor menciona uma homenagem feita a um “caminho” de Sapatá que era cultuado pela sua própria família, da qual o descendia, numa aldeia em Tètèpa. Acreditamos que o “caminho” familiar do Sapatá mencionado por Verger seria “Megban”, conforme relatou no texto e que explicaria nosso propósito de estudo. Finalizamos a análise deste texto de Verger (pg. 19) comparando-o com outra parte de seu relato já anteriormente citado. Não efetuaremos comentários, e deixaremos como reflexão apenas. E% 5, # 3 . * % * . 3 ' 3 5, , " $ # & " . 5, V F A INICIAÇÃO NO BATUQUE Ao abordarmos o assunto sobre “caminhos” dos Òrìsà e suas descendências, preparamos a fala para o tema proposto, que é iniciação no Batuque do R.S., pelo fato
  • 13. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 13 dela diferenciar-se profundamente de outros segmentos religiosos afrodescendentes. Assim, faremos um relato resumido das duas iniciações realizadas dentro do culto, para que possamos dar sequencia no nosso estudo. Na iniciação no Batuque não é praticado o ato da raspagem dos cabelos do novo adepto e também não pratica o ritual do adósù7 realizado por outras religiões afro- brasileiras. O primeiro ato iniciático se resume em lavar a cabeça do noviço com banho de folhas8 seguido pelo oríbibo9 ou eborí10 . Pensamos que apesar do iniciado ter passado pelo ritual de eborí, não o faz iniciado ainda no culto de Òrìsà. Para os yorùbá, a oferenda de um quadrúpede ao Orí, não tem nenhuma relação com a iniciação em Òrìsà. São ritos completamente separados. Para a segunda parte ritual, ou seja, a iniciação do adepto ao culto do Òrìsà, o sacerdote já fez uma consulta prévia ao oráculo dos búzios na presença do mesmo, sabendo assim, qual o dia apropriado para consagração das feituras, bem como, quais serão os Òrìsà responsáveis pelo auxílio do cumprimento de seu destino. Não havendo a necessidade de se raspar os cabelos, o corpo é marcado com manteiga vegetal (òrí) no alto da cabeça, e em algumas partes vitais, sobre os quais serão efetuados os sacrifícios prescritos. Após ter a resposta afirmativa de quais os Òrìsà que regerão sua vida, são escolhidos na natureza os ota (pedras) que carregam aparência ou tem alguma particularidade ligada ao Òrìsà, caso seja necessária a sua utilização, pois nem todos são cultuados em ota, podendo ser utilizados ou não. Dependendo da raiz religiosa praticada dentro do Batuque, o Òrìsà também pode ser feito apenas em uma estatueta, esta 7. Um amalgama de vários elementos de origem vegetal, mineral e animal que são colocados na cabeça do neófito durante a iniciação, sacralizando-o ao Òrìsà. 8. Estes banhos podem ser: omièrò (apaziguador; no batuque feito com folhas cheirosas.), ou omiàse (composto com vários tipos de fôlhas). O sacerdote saberá utilizar as folhas adequadas a cada caso. 9. Ato de reverenciar Orí através de oferendas, seguido de um ritual que é composto do sacrifício de dois pombos, o èjè deve cair apena na cabeça, sem necessidade de colocar quartinha ou qualquer outro utensílio sagrado. 10. Ato de reverenciar Orí através de oferendas. Neste momento pode ser montada (ou não) a cremeira, e os búzios que simbolizarão a cabeça devem ser colocados sobre a mesma, para receber o èjè. Algumas casas montam a cremeira com os búzios, mantendo tudo vasilha, no chão, ato totalmente desprovido de significado, pois se Orí é tudo que está acima, como poder ser montado no chão?
  • 14. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 14 conhecida por “vulto”, e em alguns casos é utilizado apenas implementos confeccionados em ferro, como no caso do Òrìsà Ògún. Em outros lados religiosos também são usados o ota na companhia também do vulto. Após ter a disposição dos objetos de culto do Òrìsà, é feito uma segunda consulta oracular para saber qual o “caminho” dos Òrìsà que serão consagrados para o iniciado, assim sabendo suas particularidades de culto e também suas quizilas. Acreditamos que os caminhos11 dos Òrìsà em questão, devem ser informados ao noviço no momento dessa consulta e nunca algum tempo depois, como vem ocorrendo atualmente no quadro do Batuque, entregando-se os nomes dos caminhos dos mesmos somente quando o religioso passa a sua categoria de sacerdócio. Tendo a posse de todos os materiais que serão utilizados na feitura do Òrìsà no novo adepto, estes objetos recebem do sacerdote um banho purificatório com as ervas específicas, em seguida o iniciado é preparado para o momento do sacrifício dos animais, estando já devidamente limpo através de banhos rituais, ebós e etc. O mesmo é colocado sentado no chão de frente para o quarto de santo, tendo em seu colo a vasilha que contem os materiais pertinentes ao culto do Òrìsà em questão, bem como, sua moringa (quartinha). O sacerdote efetua o ato propiciatório, deixando cair o èjè12 sobre os objetos de culto, que estão no colo do adepto, carregando-o até o alto da cabeça do mesmo, sem a necessidade da mesma estar raspada para a ocasião ritual, nem ter sido utilizado o adósù. Entendemos que o fato do èjè consagrar “primeiro” os objetos que servirão de culto do Òrìsà, e posteriormente levados à cabeça do adepto, é para despertar seu ancestral mais “remoto”, o Òrìsà em questão, dando assim a explicação que o adepto seria a descendência do Òrìsà, por estar recebendo esta ligação. O àse do èjè é fixado onde cai à primeira gota (òsòòrò èkíní), assim, são os objetos de adoração que a recebem primeiro, durante o ato de feitura do Òrìsà na pessoa. Este é o processo inverso do primeiro ato, o do eborí, onde é a cabeça que recebe a primeira gota e posteriormente o objeto de culto, a cremeira13 pessoal, trazendo 11. Ver exemplo de “caminhos” na (pg. 09). 12. Sangue. 13. Uma manteigueira que contém os elementos que formam o objeto de adoração de Orí.
  • 15. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 15 assim Orí para os objetos de culto. Já na segunda parte ritualística, a do Òrìsà, é seu àse que é levado e consagrado na pessoa. Ao final o iniciado é recolhido ao ilé14 por tempo determinado pela divindade através do oráculo, permanecendo isolado e deitado no chão. Queremos enfatizar que o culto do Batuque em momento algum utilizou ota no assentamento de orí, não raspou a cabeça e não efetua o ritual de adósù no noviço do culto, tal qual tradicionalmente fazem os descendentes de Òrìsà na Iorubalandia, como veremos na fala do Awo Aikulola, na entrevista a seguir: ENTREVISTA15 : O O BO O BO O BO O B GGGG 4 N B # O O B %5 , Q > ( ? Q C" # J 3 # 3 4 * 3 " 2 &3, ) 3 " 1 Q K_ 4 2 &3, & 5 X C 3 " & 3 " +_ C " 6 &3, : # % . X C Q : # % . " 3 # " # . # " 6 &3, P W T ) W B 1 : W 0 T N * G0 T N * G0 T N * G0 T N * G % , O 3 7 ) - " 6 &3, " # . 4 " 4 6 &3, " # . " 14. Casa. 15. A entrevista completa pode ser verificada na Biblioteca Orixás <http://culturayoruba.wordpress.com/biblioteca-orixas/> pasta geral. Para o propósito deste texto foi utilizado um resumo.
  • 16. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 16 E 3 .F Q # # . C # ?" 3 3# ? E 3 .F Q " # , @, " 7 " G 4# 1 1 $ . 2 B # 3 3 : , % $1 % 0 % 6 4 " " Z % # " & ? E F . E " F & * 7 [ " . B & ? 3 $, 6 &3, 3# N * 7 " 3 # W J* 0 T N * (3 N 6 N % 3 Conforme podemos claramente perceber na fala do Awo Aikulola, os descendentes de Òrìsà, por possuírem geneticamente o hereditário ìpìn sagrado em seus corpos, não tem, segundo o bàbáláwo, a necessidade de rasparem a cabeça, nem passar pelo ritual do adósù. Esta informação do bàbáláwo, conforme coletada pelo entrevistador, motivou- nos a trabalhar neste texto a hipótese de que o Batuque, até mesmo antes do Príncipe Custódio, tenha sido fundamentado por descendentes reais não registrados etnograficamente, que naturalmente, ao aplicarem em si mesmos o costume tradicional de sua terra natal yorùbá, isto é, de não raspar e não usar o adósù por serem descendentes do Òrìsà, teria instituídos em terras afro-gaúchas um costume que deveria pertencer apenas à família real descendente da divindade, mas que por circunstâncias várias, estendeu-se a todos, talvez como forma de sobrevivência. Em seu site, o bàbáláwo Aikulola reafirma que, para aqueles considerados descendentes do Òrìsà, não há não necessidade de raspar e adoxar: E4 , %6 %3 # * $ # * . . % $ % # * B 3 ? 3# # ? " R 3 " S %3 [ " " 5
  • 17. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 17 " % F K^ (a tradução é nossa) Assim, de acordo com o exposto, não podemos descartar essa hipótese do Batuque ter seus fundamentos originados por um ou mais descendentes diretos do Òrìsà, pertencente à nobreza tradicional yorùbá, como veremos a seguir. A NOBREZA YORÙBÁ NA FORMAÇÃO DO BATUQUE DO R.S. Pierre Verger (1985, pg. 153-154), corroborando nossa hipótese, documentou sobre a Na Agontimé17 que foi reconhecida pela Unesco por pertencer à família real do Dahomey (atual Rep. Pop. do Benin), fundando a Casas das Minas, no Maranhão. Isto abre margem para um estudo nessa direção, de que o Batuque também pode ter sido introduzido no Rio Grande do Sul por membros de famílias reais dos yorùbá, que não tinham em suas iniciações religiosas a necessidade de raspar os cabelos, nem usar o adósù, por serem, como disse Aikulola, descendentes do Òrìsà. Nesse sentido, conforme texto de Eduardo Cezimbra (Pai Tita de Xangô) há relatos da passagem de pessoas vindas da realeza de Òyó18 : @, " %6 " * 4 . 1$ B" 4 . %6, 4 . 16. Disponível em: <http://www.gbawoniyi.com/Articles.html> 17. Verger documentou que a mãe do Imperador Daomeano Guezo e esposa do Rei Agonglo, foi enviada por Adandozan como escrava para São Luis do Maranhão no Brasil, antes de seu filho Guezo assumir o trono em 1818. Acreditando que a mesma teria recebido o nome de Andressa, passando a fundar a casa dos Vodúns por cultuar um Vodún que somente era cultuado pela família real que permanecia ainda no Dahomey (atual Rep. Pop. do Benin). 18. Internet. Disponível em < http://www.xangosol.com/nacoes.htm >
  • 18. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 18 3 Z @ 7 V * %5 # " * 3 " ? $ 7 7 * $1 B" 4 . K]IM 5 , * Ao analisarmos as partes extraídas do texto escrito por Eduardo Cezimbra, nota- se que tivemos uma sacerdotisa que descendia de uma família nobre na áfrica. O autor informa que seu nome seria Emília Fontes de Araújo, a qual teria introduzido os rituais de raiz Òyó no nosso Estado, e que esta era iniciada no Òrìsà Oya, e que o seu caminho seria Lájà19 . É informado também no relato que havia nativos africanos convivendo juntamente com pessoas desse lado religioso no Batuque. Pai Carlos de Aganjú registra também em seu texto intitulado20 “História do Batuque / Nação” a possível nobreza de Mãe Emília, quando relata que ela era uma princesa, como segue: E%6 ` B" 4 . %6, O $, 7 9 2 $, B" ( 5 " B" D7 D %3, B" T ? 7 * %5 C a [ B" B %5 B a [ a [ < * a [ < % F Segundo Jean de Yemoja21 , “Ìyá Cezária ti Sàngó - Oba Leri era irmã de Mãe Emília de Oya. Informando-nos que a Nação Òyó no Rio Grande do Sul teve suas origens nas cidades de Rio Grande e Pelotas (RS) e que Ìyá Cezária ti Sàngó - Oba Leri é tida como a matriarca do povo de Òyó vindo de Pelotas. Jean diz que os seguidores da nação Òyó presentes em Porto Alegre (pouquíssimos em tempos atuais), tem sua matriarca a pessoa de Mãe Emília de Oya - Oya Lájà e que segundo relatos orais, as duas eram irmãs de santo, iniciadas pela mesma Ìyálòrìsà, a Senhora Bibica de Ògún. Jean informa também que muito escutou dos antigos que ambas seriam vindas de Òyó e que as sacerdotisas teriam algum tipo de nobreza sanguínea”. (informação pessoal) Acreditamos que assim como ocorreu com caso de Na Agontimé registrado por 19. Ler: Ládja, podendo ser “aquela que vence a guerra”. 20. Disponível em Internet:<http://www.iledeaganju.com/HIST%C3%93RICO.php> 21. Descende do Òyó herdado de Mãe Emília de Oya, onde atualmente mora e trabalha como professor de história em Curitiba (PR).
  • 19. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 19 Verger, poderiam também ter vindo para o Rio Grande do Sul, nativos yorùbá de descendência real, mantendo em solo afro-gaúcho o culto que aprendera ainda em solo africano. Se trabalharmos com a hipótese de Mãe Emília de Oya Lájà ter descendência real africana, os fundadores do Batuque carregariam o ìpìn do Òrìsà em seus corpos, tal como descreve o Bàbáláwo Aikulola, mantendo assim no culto do Batuque um costume tradicional da realeza iorubá. Isto explicaria por que no Batuque, por herança cultural dos fundamentos religiosos implantados e outorgados pelos descendentes diretos do Òrìsà, o iniciado não tem a necessidade de raspar a cabeça, nem utilizar o adósù, tal qual ocorre em outros segmentos religiosos afrodescendentes. O OTA E O IGBÁ-ORÍ (Cremeira) Este tema nada tem a ver com o objetivo deste texto, e já recebeu a devida atenção em outro trabalho, mas como está citado na entrevista, faremos um breve comentário. Caso o leitor deseje, poderá encontrá-lo melhor desenvolvido nos endereços
  • 20. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 20 que constam na nota de rodapé. 22 Conforme a entrevista citada, o entrevistador pergunta ao Bàbáláwo Aikulola sobre o uso do ota (pedra) no assentamento de orí (cabeça). A pergunta tem sua razão de ser, porque na internet circulam alguns textos falando que o assentamento de Orí tem ota. O Ilé-Orí ou Igbá-Orí, chamada no Batuque de “cremeira ou manteigueira”, além de simbolizar a cabeça, está indiretamente ligado à ancestralidade, que é simbolizada pelo uso, no Batuque, da moringa, elemento constituído de barro, sempre cheia de água. Ela não é “símbolo da cabeça”, como pensam alguns, apenas por que tem forma esférica. Todo o conjunto da cremeira é um elemento transitório, que deixa de existir quando seu possuidor volta ao òrun, diferente de alguns Òrìsà que podem ser herdados e continuarem a ser cultuados mesmo após o desenlace do iniciado. De acordo com a fala do bàbáláwo, o Ilé-Orí tradicional yorùbá não usa ota, e no Batuque tradicional conservou-se também este fundamento de não utilizar ota no assentamento de Orí. Conforme vimos, o antigo costume yorùbá de “Didota” tem a finalidade de “eternizar” alguém em um busto de pedra (ota), pois dentro do conceito de “Noção de Pessoa” a pedra simboliza eternidade, láilái em yorùbá. Assim compreendido, não faz nenhum sentido o uso do ota em assentamentos de Orí, pois, para que se utilizaria de um símbolo de eternidade como base para algo que é transitório e finito? Entretanto, esta nossa fala refere-se ao Batuque, e não tem a intenção de conflitar com outros segmentos religiosos afro-brasileiros. Por exemplo, é sabido que o segmento do candomblé reafricanizado “resgatou” o uso do Igbá-Orí que o candomblé tradicional perdeu, e nesse trabalho de reafricanização, convencionou-se o uso de uma pedra. Conforme os informantes consultados, o uso desta pedra no Igbá-Orí do 22. Internet, ver in: Revista Olorun <http://www.olorun.com.br> e Cultura Iorubá, <http://culturayoruba.wordpress.com/o-ile-ori-e-a-cremeira-a-nocao-de-pessoa-no-batuque-do-r- s/>
  • 21. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 21 candomblé reafricanizado não tem a finalidade de ser um “ota” de assentamento de Orí, mas sim, apenas “um dos elementos” que formarão o jogo de búzios do futuro sacerdote, não tendo nenhuma conotação de assentamento. 23 Assim, a resposta do bàbáláwo Aikulola atendeu perfeitamente à finalidade da pergunta. CONSIDERAÇÕES FINAIS Tivemos grande prazer ao abordarmos os temas de descendência e caminhos de Òrìsà dentro do nosso culto afrodescendente, o qual muito aculturado ao longo dos tempos, e que podemos através deste ensaio visualizar outros ângulos de raciocínios e de pontos de vista. Entendemos que o Batuque conseguiu preservar costumes tradicionais dos yorùbá, surgindo uma grande possibilidade de, a partir da informação da entrevista do Bàbáláwo Aikulola, compreendemos que o Batuque, ao conservar no seu rito religioso de iniciação o costume de não raspar os cabelos e não usar adosù culminou por preservar um costume da nobreza yorùbá, colocando-o assim muito próximo das raízes tradicionais dos yorùbá. Assim, a formação, fundamentação e a forma de iniciação do Batuque no Estado do Rio Grande do Sul deixa em evidência a herança cultural de descendentes reais do Òrìsà em África, que sobreviveram no nosso Estado. Outro rito conservado seria a cremeira, que não usa ota, tal qual o Igbá-Orí dos yorùbá, novamente segundo Aikulola. Não tivemos em nenhum momento a intenção de darmos à famosa “verdade absoluta” dos fatos, uma vez que podemos sim entender “todos juntos” um pouco mais de nossas tradições religiosas. Convidamos o povo de santo do Batuque a analisar com carinho o objeto deste estudo. 23. Informação pessoal de Luiz L. Marins, conforme ouviu do Babalorixá Aulo Barretti, de Òsóòsí, no candomblé kêtu reafricanizado.
  • 22. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba & Erick Wolff 22 Fontes Bibliográficas ABIMBOLÁ, Wande. Ifá will mend our broken world – Thoughts on Yorùbá Religion and Culture in Africa and the Diaspora, Ifé, Iroko Academic Publishers, 1997. ___________, “A concepção ioruba da personalidade humana”, Paris, 1981. In: INTERNET, Cultura Iorubá, <http://culturayoruba.wordpress.com>. ___________, “The concept of good character in Ifá Literary Corpus”, In: Yoruba Oral Tradition, selections from the papers present at the seminar on Yoruba oral tradition: poetry in music, dance and drama, Wande Abímbolá (Org.) Departament of African languages and Literatures, University of Ife, Ile-Ife, Nigeria, 1975. ABRAHAM, R. C. Dictionary of Yoruba Modern, London, *QFFGT 5VQWIVJQP =?. ADESOJI, Michael Adémola. Nigéria, História – Costumes, cultura do povo Ioruba e a origem dos seus Orixás, 1990, edição do Autor. BARRETTI FILHO, Aulo. Dos Yorùbá ao Candomblé Kétu, Edusp, São Paulo, 2010. BASCOM, William. Yoruba concept of the Soul. In: INTERNET: Cultura Iorubá, http://culturayoruba.wordpress.com/concepcaoiorubadaalma/ BOWEN, Rev. T. J. Grammar and Dictionary of the Yoruba Language, 1856. In: INTERNET, Cultura Iorubá, http://culturayoruba.wordpress.com/dicionarios-de- yoruba/. COURLANDER, Harold. Tales of Yoruba gods heroes, Original Publications, New York, 1973. DREWAL, Margaret Thompson. Yoruba Ritual (Performers, Play, Agency), Indiana University Press, Indiana, 1992. ELBEIN DOS SANTOS, Juana. Os Nagô e a Morte, Petrópolis, Vozes, 1993 [1986]. FAKINLEDE, Kayode J. Modern Practical Dictionary English-Yoruba Yoruba- English, Hippocrene Books, Inc, New York, 2008 FAMULE, Olawole F. Art And Spirituality: The Ijumu Northeastern-Yoruba Egúngún, Phd. Dissertation, University of Arizona, 2005.
  • 23. A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RS Rudinei Borba Erick Wolff 23 HOULBERG, Marilyn H. “Egungun Masquerades of the Remo Yoruba”. In: Special Egungun, African Arts Journal, XI, 3, UCLA, African Studies Center, University of California, 1978. JONHSON, Rev. Samuel. The History of the Yorubas - From the Earliest Times to the Beginning of the British Protectorate, Lagos, Routledge Kegan Paul, 1921 [1973]. SANTOS, Juana Elbein dos e Deoscoredes M. Dos Santos. Ìpòrí. In: INTERNET, Cultura Iorubá http://culturayoruba.wordpress.com/ipori/ ___________, Juana Elbein. Os Nagô e a Morte, Petrópolis, Vozes, 1993 [1986]. VERGER, Pierre. Orixás (Deuses Iorubás na África e no novo mundo), Editora Corrupio, São Paulo, 1997. ____________, Uma rainha africana, mãe de santo em São Luis. In: Revista USP, n. 6, 1990, p. 151-8. ____________, “Noção de Pessoa e Linhagem Familiar entre os Iorubás.” In, INTERNET: Cultura Iorubá http://culturayoruba.wordpress.com/nocao-de-pessoa-e- linhagem-familiar-entre-os-iorubas/ ____________, INTERNET, Fundação Pierre Verger, http://www.pierreverger.org/ WOLFF, Erick. A Entronação do Aláààfin e sua conservação: a nação Kanbina, no Batuque Nàgó do Rio Grande do Sul, São Paulo, 2011. In, INTERNET, Revista Olorun, n. 05, Outubro de 2011, http://www.olorun.com.br