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CRISTO E EU [MENSAGEM DE CHARLES SPURGEON]
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 2 ]
FINALIDADE DESTA OBRA
Este livro como os demais por mim publicados tem
o intuito de levar os homens a se tornarem melhores, a
amar a Deus acima de tudo e ao próximo com a si mesmo.
Minhas obras não têm a finalidade de entretenimento, mas
de provocar a reflexão sobre a nossa existência. Em Deus
há resposta para tudo, mas a caminhada para o
conhecimento é gradual e não alcançaremos respostas
para tudo, porque nossa mente não tem espaço livre
suficiente para suportar. Mas neste livro você encontrará
algumas respostas para alguns dos dilemas de nossa
existência.
EDITOR: Central de Ensinos Bíblicos [Escriba de Cristo] é
licenciado em Ciências Biológicas e História pela Universidade
Metropolitana de Santos; possui curso superior em Gestão de
Empresas pela UNIMONTE de Santos; é Bacharel em Teologia pela
Faculdade das Assembléias de Deus de Santos; tem formação Técnica
em Polícia Judiciária pela USP e dois diplomas de Harvard University
dos EUA sobre Epístolas Paulinas e Manuscritos da Idade Média.
Radialista profissional pelo SENAC de Santos, reconhecido pelo
Ministério do Trabalho. Nasceu em Itabaiana/SE, em 1969. Em 1990
fundou o Centro de Evangelismo Universal; hoje se dedica a escrever
livros e ao ministério de intercessão. Não tendo interesse em dar
palestras ou participar de eventos, evitando convívio social.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 3 ]
CONTATO:
Whatsapp Central de Ensinos Bíblicos com áudios,
palestras e textos do Escriba de Cristo
55 13 996220766 com o Escriba de Cristo
https://youtube.com/@escribadecristo
https://www.tiktok.com/@escribadecristo
Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP)
M543 Charles Spurgeon, Central de Ensinos Bíblicos
1969 –
Cristo e eu de C. Spurgeon
Londres – Inglaterra , Livrorama, clubedeautores
Bibliomundi, Amazon.com, 2023, 120 p. ; 21 cm
ISBN: 9798862727050 Edição 1°
1. Sermões 2. Bíblia 3. Evangelização
4. Protestantismo 5. Jesus salvador
CDD 280
CDU 283
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 4 ]
CONTRIBUIÇÃO PARA ESTA MISSÃO
Esta versão do meu livro está disponível gratuitamente na
internet. Se você a leu, gostou e lhe edificou, peço que faça uma
doação ao meu ministério fazendo um pix, nem que seja de
um dólar [ou cinco reais BR],
assim continuaremos produzindo livros que edifiquem:
PIX
Valdemir Mota de Menezes,
Banco do Brasil
CPF 069 925 388 88
Este material literário do autor não tem fins lucrativos, nem
lhe gera quaisquer tipos de receita. Sua satisfação consiste em
contribuir para o bem da educação uma melhor qualidade de vida
para todos os homens e seres vivos, e para glorificar o único Deus
Todo-Poderoso.
OBRIGADO PELA COLABORAÇÃO!
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 5 ]
Sumário
INTRODUÇÃO......................................................................8
A RELIGIÃO CRISTÃ.......................................................... 10
NEBULOSAS........................................................................ 12
ATANÁSIO ........................................................................... 16
BATISMO ............................................................................. 19
CRENTE PARASITA...........................................................20
MISSÃO PESSOAL............................................................... 21
TODO INGLÊS É CRISTÃO?.............................................23
MONARCA PAGÃO.............................................................25
TRADIÇÃO DOS PAIS ........................................................26
A VIDA É SOLITÁRIA.........................................................27
UM COM CRISTO ...............................................................30
MORTO NA CRUZ..............................................................33
SENTENÇA JÁ EXECUTADA ...........................................35
NOVA VIDA .........................................................................37
A JORNADA DO CRISTÃO ................................................ 41
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 6 ]
CRISTO ME AMOU.............................................................46
ESTOU MORTO PARA O MUNDO ..................................48
DUAS NATUREZAS............................................................54
MINISTÉRIO CHARLES SPURGEON.............................59
PERGUNTAS E RESPOSTAS DESDE A CRUZ ...............63
A AGONIA DE CRISTO......................................................64
DEUS DISTANTE?..............................................................69
DEUS NÃO ESCUTA?......................................................... 71
CRISTO TINHA QUE ESTAR SÓ .....................................73
DEUS NÃO AJUDOU O CRISTO.......................................75
DEUS NÃO ESCUTOU A CRISTO....................................76
APELO PARA ACEITAR JESUS.........................................77
Boas Vindas para Todos que Vem a Cristo ..........................83
SEGURANDO A VELA........................................................87
ORANDO POR COISAS PEQUENAS................................88
ZÉ NINGUÉM VEM A CRISTO ........................................90
VENHA COM SEUS PECADOS.........................................93
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 7 ]
VENHA COMO ESTÁS!......................................................97
JESUS NÃO MENTE..........................................................101
JESUS REJEITAR ALGUÉM QUE O BUSCA SERIA
ESCÂNDALO..................................................................... 104
BIOGRAFIA DE CHARLES SPURGEON....................... 107
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 8 ]
INTRODUÇÃO
Este livro contém três sermões de Charles
Spurgeon que viveu no século XIX e é considerado um dos
heróis do cristianismo, também chamado pelos seus
admiradores em todo o mundo de PRÍNCIPE DOS
PREGADORES ou O ULTIMO DOS PURITANOS. A vida
de Charles Spurgeon é um exemplo de vida cristã e sua
missão como pregador Batista fez com que seu nome
fosse respeitado por todas as linhas de pensamento do
cristianismo. Jesus Cristo é o nosso Salvador. Este é o
tema central das pregações de Spurgeon. Nesta obra
contém três sermões, são eles:
1 – Cristo e eu
2 – Perguntas e respostas desde a Cruz
3 – Boas vindas para todos que vem a Cristo
Estes sermões foram proferidos a cerca de 150
anos e quando você lê estas mensagens antigas, parece
que você esta sentado em um banco, em uma igreja na
Inglaterra e está ouvindo o Espírito Santo falando com
você. Em CRISTO E EU vemos a necessidade de
salvação, em PERGUNTAS E RESPOSTAS DESDE A
CRUZ iremos entender porque Deus deixou Jesus sofrer
na cruz. BOAS VINDA PARA TODOS QUE VEM A
CRISTO é uma exposição clara que só podemos ser salvos
por Jesus, esqueça outros deuses, santos, Maria, praticas
de rituais ou boas obras. Seja sensato e venha a Cristo se
quiser ser salvo.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 9 ]
CRISTO
E
EU
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 10 ]
Cristo e Eu
“Christus Et Ego”
N° 781
Sermão pregado na manhã de Domingo,
17 de Novembro de 1867
Por Charles Haddon Spurgeon
No Tabernáculo Metropolitano, Newington,
Londres.
A RELIGIÃO CRISTÃ
“Com Cristo estou juntamente crucificado, e já não
vivo eu, mas vive Cristo em mim; e o que agora vivo na
carne, vivo na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se
entregou a si mesmo por mim”. Gálatas 2:20.
Nas grandes cadeias de montanhas, há elevados
picos que tocam as nuvens, mas, por outro lado, há, aqui
e ali, partes mais baixas da cordilheira que podem ser
trafegadas pelos viajantes e que se convertem em estradas
nacionais que propiciam o intercâmbio comercial entre as
diversas terras. Meu texto se ergue ante minha
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 11 ]
contemplação como uma majestosa cadeia de montanhas,
como uma verdadeira Cordilheira dos Andes por sua altura.
Esta manhã não vou tentar escalar os cumes de sua
magnificência; não temos o tempo e tememos que não
tenhamos a habilidade para uma obra dessa natureza,
mas, até onde minha capacidade permitir, irei guiá-los
através de uma ou duas verdades práticas que poderiam
ser úteis para nós esta manhã e poderiam nos introduzir
aos ensolarados campos da contemplação.
I. Mãos à obra agora. Peço que observem com
muito cuidado, em primeiro lugar, A PERSONALIDADE DA
RELIGIÃO CRISTÃ tal como é exibida no texto que vamos
analisar.
Quantos pronomes pessoais da primeira pessoa
há neste versículo? Acaso não são oito? Há uma copiosa
presença de “eus” e “meus”. O texto não contém nenhum
plural; não menciona ninguém mais, nem uma terceira
pessoa situada longe, mas que o apóstolo trata acerca de
si mesmo, de sua própria vida interior, de sua própria morte
espiritual, do amor de Cristo por ele e do grande sacrifício
que Cristo realizou por ele. “O qual me amou e se entregou
por mim”.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 12 ]
Isso é introdutivo, pois um sinal distintivo da
religião cristã é que faz ressaltar a individualidade da
pessoa. Não nos faz egoístas, pelo contrário, cura-nos
desse mal, mas com tudo isso, manifesta em nós uma
identidade mediante a qual nos tornamos conscientes, de
maneira eminente, de nossa individualidade pessoal.
NEBULOSAS
Nos céus noturnos se tinha observado há muito
tempo brilhantes massas de luz; os astrônomos as
chamaram de “nebulosas”; supunham que eram depósitos
de matéria caótica disforme, até que o telescópio de
Herschell1 as identificou como distintas estrelas. O que fez
o telescópio com as estrelas, a religião de Cristo faz com
os homens, quando a recebem em seus corações. Os
homens se consideram como fundidos com a raça, ou
submersos na comunidade, ou absorvidos pela
humanidade universal; têm uma ideia muito confusa acerca
de suas obrigações independentes para com Deus e de
suas relações pessoais para com seu governo, mas o
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 13 ]
Evangelho, como telescópio, isola o homem frente a si
mesmo, faz com que se veja como uma existência
separada, e o obriga a meditar sobre seu próprio pecado,
sobre sua própria salvação e sua própria condenação
pessoal, a menos que seja salvo pela graça. No caminho
espaçoso há tantos viajantes, que se vocês lançarem um
olhar sobre ele como voo de pássaro, parecerá estar cheio
de uma vasta multidão de homens que avança em
desordem; mas no caminho estreito que conduz à vida
eterna, cada viajante é único; atrai sua atenção; é um
homem devidamente identificado.
Tendo que ir contra a corrente geral dos tempos, o
crente é um indivíduo sobre o qual se pousam olhos
observantes. É um indivíduo distinto tanto para ele mesmo
quanto para o resto dos de sua classe.
Verá muito facilmente como a religião de Jesus
Cristo faz com que se destaque a individualidade de um
homem desde seu alvorecer; revela-lhe seu próprio pecado
pessoal e o consequente perigo.
1 John Herschel. Filho do astrônomo William
Herschel. Herschel originou o uso do sistema juliano na
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 14 ]
astronomia. Nomeou sete luas de Saturno e quatro luas de
Urano.
Imagem de nebulosa
Você não sabe nada sobre a conversão se crê
meramente na depravação humana e na ruína humana,
mas nunca sentiu que você é depravado, e que você
mesmo está arruinado. Por cima de todas as calamidades
gerais da raça, haverá um infortúnio particular que é de sua
propriedade. Se é que o Espírito Santo lhe convenceu do
pecado; você clamará igual àquele profeta de Jerusalém
de voz suplicante nos dias do sítio: “Ai de mim!”; sentirá
como se as flechas de Deus estivessem apontando
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 15 ]
principalmente para você, e como se as maldições da lei
fossem cair seguramente sobre você se não caírem sobre
ninguém mais.
Certamente, querido ouvinte, você não sabe nada
sobre a salvação a menos que tenha olhado pessoalmente,
com seus próprios olhos, para Jesus Cristo. Você tem que
receber pessoalmente o Senhor Jesus Cristo, nos braços
de sua fé e no peito do seu amor; e, se você não tem
confiado no Crucificado, enquanto tem ficado só em
contemplação aos pés da cruz, então você não tem crido
para a vida eterna.
Logo, como consequência de uma fé pessoal e
individual, o crente goza de uma paz pessoal; ele sente que
se toda terra estivesse pegando em armas, ele ainda
encontraria repouso em Cristo, e esse repouso é
peculiarmente seu, independentemente de seus
companheiros. Você pode falar dessa paz em outros, mas
não pode comunicá-la; outros não podem dá-la, nem
podem tirá-la. Onde quer que a religião cristã esteja
verdadeiramente na alma, logo conduz a uma consagração
pessoal a Deus. O homem se aproxima do altar de Cristo
e exclama; “eis-me aqui; Oh, Senhor supremamente
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 16 ]
glorioso, eu sinto que meu culto racional é dar-Te espírito,
alma e corpo. Que outros façam o que quiserem, mas eu e
minha casa serviremos ao SENHOR Javé”.
ATANÁSIO
O homem regenerado sente que a obra de outros
não o exonera do serviço, e a fraqueza geral da igreja cristã
não pode ser uma desculpa para sua própria indiferença.
Ele se destaca na luta contra o erro inclusive como um
protestante solitário, se fosse necessário, como Atanásio,
que clamava:
“Eu, Atanásio, contra o mundo inteiro”; ou trabalha
para Deus na edificação de Jerusalém, como Neemias,
contentando-se com trabalhar só se outros não querem
ajudá-lo.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 17 ]
Descobriu que estava pessoalmente perdido, e
que foi salvo pessoalmente, e agora sua oração é: “Senhor,
mostra-me o que queres que eu faça; aqui estou eu, envia-
me”. Eu creio que na medida em que nossa piedade esteja
definitivamente na primeira pessoa do singular será forte e
vigorosa.
Ademais, creio que na medida em que
compreendamos plenamente nossa responsabilidade
pessoal para com Deus, será mais provável que a
cumpramos; mas se não a temos entendido realmente, é
muito provável que sonhemos em trabalhar para Deus
mediante uma autoridade, em pagar ao sacerdote ou ao
ministro para que nos sejam úteis, e que atuemos como se
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 18 ]
pudéssemos transladar a responsabilidade de nossos
próprios ombros às costas de uma sociedade ou de uma
igreja. Desde seu alvorecer até sua glória do meio-dia, a
personalidade da verdadeira piedade é sumamente
observável. Todo o ensinamento de nossa santa fé leva
para essa direção. Nós pregamos a eleição pessoal, o
chamado pessoal, a regeneração pessoal, a perseverança
pessoal, a santidade pessoal, e não conhecemos nenhuma
obra da graça que não seja pessoal para aquele que a
professa.
Não há nenhuma doutrina na Escritura que ensine
que o homem pode ser salvo pela piedade de outro. Eu não
pude descobrir nada parecido à salvação por patrocínio,
exceto no único caso do patrocínio do Senhor Jesus Cristo.
Não encontro nenhum ser humano colocado no lugar de
outro para ser capaz de tomar a carga de pecado do outro,
ou realizar o dever de alguém mais. Eu encontro, na
verdade, que devemos levar as cargas uns dos outros com
respeito à simpatia, mas não no sentido da substituição.
Cada ser humano tem de levar sua própria carga, e tem de
dar conta de si mesmo ante Deus.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 19 ]
BATISMO
Ademais, as ordenanças da religião cristã nos
dizem o mesmo. Quando o homem é sepultado com Cristo,
por exemplo, pelo ato público do batismo, não pode estar
morto por outro ou ser sepultado por outro, nem pode
ressuscitar no lugar de outro. Dá-se o ato pessoal de
imersão para manifestar nossa morte pessoal para o
mundo, nosso pessoal enterro com Cristo e nossa
ressurreição pessoal com Ele. Assim também, na Ceia do
Senhor, o ato individual de cada pessoa que come e bebe
por si mesma, declara de maneira muito manifesta que nos
apresentamos como indivíduos diante do Senhor, nosso
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 20 ]
Deus, em nosso vínculo com o Senhor Jesus Cristo.
Agora, eu creio sinceramente que nada deve destruir,
jamais, o efeito dessa verdade em nossas mentes. É uma
verdade tão simples que, quando a enuncio, vocês se
perguntarão, talvez, porque a repito com tanta frequência;
mas, simples como é, está sendo esquecida
frequentemente.
CRENTE PARASITA
Quantos membros da igreja se escondem atrás da
vigorosa ação da comunidade inteira! A igreja vai
crescendo, a igreja abre escolas, a igreja edifica novas
casas de oração, e então o membro da igreja se sente
lisonjeado porque ele está fazendo algo, quando na
realidade esse mesmo indivíduo poderia não ter feito
absolutamente nada mediante suas contribuições ou suas
orações ou seus ensinamentos pessoais. Oh, ocioso
membro da igreja, eu lhe suplico, sacuda-se do seu pó; não
seja tão infame para apropriar-se dos trabalhos de outras
pessoas. Diante do seu próprio Senhor, você se sustentará
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 21 ]
ou cairá sobre seu próprio serviço individual ou sua
negligência individual, e se você não produzir nenhum fruto
por si mesmo, todo o fruto dos outros ramos não lhe servirá
de nada. “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e
jogado no fogo”. “Todo galho que em mim não produz fruto
será tirado”.
MISSÃO PESSOAL
É muito comum, também, que as pessoas se
escondam por trás de uma sociedade. Uma pequena
contribuição anual tem sido, com frequência, um manto
para uma indiferença crassa com respeito ao santo
esforço. A alguém mais se paga para que seja um
missionário e desempenhe seu trabalho de missão; é esse
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 22 ]
o caminho do Senhor? É essa a senda da obediência?
Acaso o Senhor não me diz: “Como me enviou o Pai, assim
também eu os envio?” Agora notem, o Pai não enviou
Cristo para que procurasse um delegado e fosse um
Redentor nominal, mas que Jesus se entregou a si mesmo
por nós em um serviço e um sacrifício pessoal; de igual
maneira, Jesus nos envia para que soframos e sirvamos.
Está bem apoiar o ministro; está bom pagar ao
missionário local para que possa dedicar seu tempo a essa
obra necessária, está bem ajudar à mulher que distribui
Bíblias para que possa ir de casa em casa, mas, lembrem-
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 23 ]
se de que quando todas as sociedades tenham feito tudo
o que é possível, vocês não podem se exonerar do seu
chamado pessoal, e sem importar quão grandes puderam
ser suas contribuições para ajudar a outros a servir o
Senhor, não podem se liberar, em seu nome, de uma só
partícula do que você deve pessoalmente ao seu Senhor.
Permitam lhes suplicar, irmãos e irmãs, que se vocês
alguma vez se esconderam atrás do trabalho de outros,
compareçam em seu próprio caráter, e lembrem que diante
de Deus tem de ser avaliados pelo que vocês sentem, pelo
que vocês conhecem, pelo que vocês têm aprendido e pelo
o que vocês têm feito.
TODO INGLÊS É CRISTÃO?
A pior forma deste mal é quando as pessoas, às
vezes, imaginam que a piedade familiar e a religião
nacional podem estar disponíveis no lugar do
arrependimento e da fé individual. Absurdo como poderia
parecer, é algo muito comum que as pessoas digam: “Oh,
sim, todos nós somos cristãos. É evidente que todos
somos cristãos; todo inglês é cristão. Nós não pertencemos
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 24 ]
aos brâmanes ou aos muçulmanos; todos somos cristãos”.
Que mentira mais absurda que um homem pode inventar?
É cristão um homem por viver na Inglaterra? Acaso uma
ratazana é um cavalo porque vive em um estábulo? Esse
é um raciocínio tão bom quanto.
Um indivíduo deve nascer de novo, ou não é um
filho de Deus. Um indivíduo deve ter uma fé viva no Senhor
Jesus Cristo, ou do contrário não é nenhum cristão, e nada
faz senão escarnecer do nome de cristão quando o
assume sem ter parte nem sorte nesse assunto.
Outros dizem: “minha mãe e meu pai professaram
sempre essa religião, e portanto, eu estou obrigado a fazer
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 25 ]
o mesmo”. É um glorioso raciocínio apropriado,
certamente, para os idiotas!
MONARCA PAGÃO
Vocês nunca ouviram acerca daquele antigo
monarca pagão que professava a conversão, e que estava
a ponto de entrar na fonte batismal, quando, voltando-se
para onde estava o bispo, perguntou: “Para onde foi meu
pai quando morreu, antes da sua religião chegar aqui, e
onde foi seu pai e todos os reis que foram antes de mim
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 26 ]
que adoraram a Odin e a Thor? Para onde foram quando
morreram?
Diga-me imediatamente”! O bispo balançou a
cabeça, pareceu muito triste e disse que temia que eles
tivessem ido para um lugar muito tenebroso. “Ah, então” –
disse ele – “eu não quero ficar separado deles”. Voltou e
seguiu sendo um pagão sem o batismo. Vocês supõem
que esta loucura acabou na era do obscurantismo?
Sobrevive e prolifera no presente. Conhecemos pessoas
que se impressionaram com o Evangelho, que, não
obstante, apegaram-se às falsas esperanças da
superstição ou do mérito humano, e se têm desculpado
dizendo: “Olha, eu fui educado desta maneira”.
TRADIÇÃO DOS PAIS
Pensa um homem que porque sua mãe foi pobre,
ou seu pai foi um indigente, que ele mesmo tem que seguir
sendo um mendigo? Se meu progenitor foi um cego, estou
obrigado a jogar meus próprios olhos fora para ser como
ele? Não, mas se contemplei a luz da verdade de Jesus
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 27 ]
Cristo, devo segui-la e não hei de ser desorientado pela
ideia de que a superstição hereditária é menos perigosa ou
errônea, porque uma dúzia de gerações foram enganadas
por ela. Você tem que se apresentar diante de Deus, meu
querido amigo, com seus próprios pés, e nem mãe nem pai
podem tomar o seu lugar, portanto, julgue por si mesmo;
busque a vida eterna; levante seus olhos para a cruz de
Cristo pessoalmente, e que seja seu sério empenho que
você mesmo seja capaz de dizer:
“Ele me amou e se entregou por mim”.
A VIDA É SOLITÁRIA
Todos nascemos sozinhos; viemos a esse mundo
como tristes peregrinos para percorrer uma trilha que
unicamente nossos próprios pés podem percorrer. Em
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 28 ]
grande medida, vamos sozinhos pelo mundo, pois todos os
nossos companheiros são apenas barcos que navegam ao
nosso lado, barcos diferentes que levam, cada um deles,
sua própria bandeira.
Ninguém pode mergulhar na profundidade de
nossos corações. Há armários na alcova da alma que
ninguém pode abrir senão a própria pessoa. Temos que
morrer sós; os amigos podem rodear o leito, mas o espírito
que parte tem de alçar voo sozinho. Não vamos ouvir as
pisadas de milhares conforme desçamos ao negro rio;
seremos viajantes solitários ao nos adentrar na terra
ignota. Esperamos nos apresentar diante do tribunal em
meio a uma grande assembleia, mas ainda para ser
julgados como se ninguém mais estivesse ali. Se toda essa
multidão é condenada, e nós estamos em Cristo, seremos
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 29 ]
salvos, e se todos eles forem salvos, e nós encontrados em
falta, seremos descartados.
Cada um de nós será colocado só nas balanças.
Há um cadinho para cada lingote de ouro, um forno para
cada barra de prata. Na ressurreição, cada semente
receberá seu próprio corpo. Haverá uma individualidade no
corpo do ressuscitado naquele dia de prodígios, uma
individualidade extremamente marcada e manifesta. Se eu
sou condenado ao final, ninguém pode ser condenado pelo
meu espírito; nenhuma alma pode entrar nas câmaras de
fogo em meu nome para suportar por mim a indizível
angústia. E, bendita esperança, se sou salvo, serei eu
quem verá o Rei em sua formosura; meus olhos o verão, e
não outro em meu lugar. Os gozos do céu não serão gozos
através de um substituto, mas os desfrutes pessoais
daqueles que tiveram uma união pessoal com Cristo.
Todos vocês sabem disso, e portanto, eu lhes rogo que
permitam que essa importante verdade permaneça com
vocês. Nenhum homem sensato pensa que outro pode
comer por ele ou beber por ele, ou se vestir por ele, dormir
por ele ou acordar por ele. Ninguém está contente hoje em
dia com o fato de que alguém mais possua dinheiro por ele,
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 30 ]
ou que possua uma propriedade por ele; os homens
anseiam possuir eles mesmos as riquezas; desejam ser
felizes pessoalmente, ser reconhecidos pessoalmente; não
lhes importa que as boas coisas desta vida sejam só
nominalmente deles, enquanto outros homens se
aproveitam das coisas reais; eles desejam ter um domínio
real e um controle de todos os bens temporais. Oh, não
façamos papel de tolos com as coisas eternas, mas
desejemos ter um interesse pessoal por Cristo, e logo
aspiraremos dar a Ele, que merece tanto, nosso serviço
pessoal, entregando espírito, alma e corpo à Sua causa.
UM COM CRISTO
II. Em segundo lugar, nosso texto de forma muito
clara,
NOS ENSINA O ENTRELAÇAMENTO DE NOSSA
PRÓPRIA PERSONALIDADE COM A DE JESUS CRISTO.
Leiam o texto de novo: “Com Cristo estou
juntamente crucificado, e já não vivo eu, mas Cristo que
vive em mim; e o que agora vivo na carne, vivo na fé do
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 31 ]
Filho de Deus, aquele que me amou e se entregou por
mim”. Aí está o homem, mas aí está o Filho de Deus de
maneira conspícua, e as duas personalidades estão
singularmente entrelaçadas.
Parece que vejo duas árvores à minha frente. São
plantas individuais que crescem uma junto à outra, mas ao
analisar sua parte inferior, observo que as raízes estão tão
entrelaçadas e entrecruzadas que ninguém pode separar
as árvores individualmente e atribuir os membros de cada
uma a sua própria unidade. Assim são Cristo e o crente.
Parece que vejo diante de mim uma videira. Para lá está
um ramo, único e perfeito como um galho; não há de ser
confundido com nenhum outro; é um galho – um galho
inteiro e perfeito – e, sem dúvida, quão perfeitamente unido
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 32 ]
está ao tronco, e quão completamente fundida à videira da
qual é um membro!
Agora notem, o mesmo sucede ao crente em
Cristo.
Houve um progenitor que lançou sua sombra
através de nossa senda, e de cuja influência não podemos
escapar nunca. De todos os demais homens poderíamos
escapar e declarar estarmos separados, mas este homem
em particular era parte de nós mesmos, e nós parte dele:
se trata do primeiro Adão, em seu estado caído; estamos
caídos nele, e estamos desfeitos em sua ruína. E agora,
glória seja a Deus, como a sombra do primeiro homem tem
sido suprimida em nós, aparece um segundo homem, o
Senhor do céu; e através de nossa senda se derrama a luz
de Sua glória e de Sua excelência, da qual também,
bendito seja Deus, nós, os que cremos Nele, não podemos
escapar; na luz deste homem – o segundo Adão, a cabeça
federal celestial de todo Seu povo – em Sua luz nos
regozijamos. Entrelaçadas com nossa história e
personalidade estão a história e a personalidade do
homem Jesus Cristo, e nós somos um com Ele para
sempre.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 33 ]
MORTO NA CRUZ
Observem os pontos de contato. Primeiro Paulo
diz: “Com Cristo estou juntamente crucificado”; o que
pretende dizer?
Pretende dizer muitíssimas coisas mais do que
poderia mencionar esta manhã; mas, brevemente,
pretendo dizer isto: que ele acreditava na representação de
Cristo na cruz; mantinha que, quando Jesus Cristo foi
cravado na cruz, não pendeu de lá como uma pessoa
privada, mas como o representante de Seu povo escolhido.
Assim como o representante de um distrito na Câmara dos
Comuns não vota só por si mesmo, mas em nome do
distrito que o enviou ao Parlamento, assim o Senhor Jesus
Cristo, no que fez, atuou como o grande representante
público, e a morte de Jesus Cristo na cruz foi a morte virtual
de todo o Seu povo. Então, todos os seus santos
restituíram à justiça o que era devido e fizeram uma
expiação por todos os seus pecados ante a vingança
divina. “Com Cristo estou juntamente crucificado”.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 34 ]
O apóstolo dos gentios se deleitava pensando que
como um membro do povo escolhido de Cristo, ele morreu
na cruz em Cristo. Fez algo mais que crer nisso
doutrinalmente, pois o aceitou confiadamente, depositando
sua esperança nisso.
Acreditava que em virtude da morte em Cristo, ele
mesmo havia pago à lei o que devia, que havia satisfeito à
justiça divina, e que havia encontrado a reconciliação com
Deus.
Amados, quão bendito é quando a alma pode, por
dizer assim, estender-se sobre a cruz de Cristo e sentir:
“estou morto; a lei me matou, maldisse-me, imolou-me e,
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 35 ]
portanto, sou livre do seu poder porque em minha Fiança
levei a maldição, e na pessoa de meu Substituto foi
executado contra mim tudo o que a lei podia fazer como
condenação, pois estou crucificado com Cristo”.
Oh! Quão bendito é quando a cruz de Cristo é
posta sobre nós: como nos ressuscita! Assim como o
ancião profeta subiu e se estendeu sobre o menino morto,
pondo sua boca sobre a boca dele, e suas mãos sobre as
mãos suas, e seus pés sobre os pés do menino, e logo o
menino ressuscitou, do mesmo modo quando a cruz é
posta sobre minha alma, infunde-me vida, poder, calor e
consolo. A união com o Salvador sangrento e sofredor e a
fé no mérito do Redentor, são coisas que reanimam a alma.
Oh! Que tivéssemos mais gozo dessas coisas!
SENTENÇA JÁ EXECUTADA
Paulo quis dizer, ainda, algo mais que isso. Não
somente acreditava na morte de Cristo e confiava nela,
mas que efetivamente sentia em sua pessoa o seu poder,
o qual gerava a crucificação de sua velha natureza
corrupta. Se você se concebe como um homem executado,
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 36 ]
de imediato percebe que sendo executado pela lei, a lei
não tem nenhuma reclamação adicional sobre você; você
resolve, ademais, que tendo provado uma vez a maldição
do pecado pela sentença ditada sobre você, não cairá
novamente nessa mesma ofensa, mas a partir de agora,
sendo liberado milagrosamente da morte à que a lei lhe
levou, viverá em vida nova.
Deve sentir isso se sente devidamente. Assim
Paulo se via como um criminoso sobre o qual a sentença
da lei já havia sido cumprida. Quando via os prazeres do
pecado, dizia: “não posso desfrutá-los; estou morto para
eles. Uma vez tive uma vida na qual os pecados eram
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 37 ]
doces para mim, mas essa vida foi crucificada com Cristo;
por conseguinte, como um morto não pode ter nenhum
deleite nos gozos que uma vez foram deleites para ele,
tampouco posso ter eu”. Quando Paulo olhava as coisas
carnais do mundo, dizia: “antes eu permitia que essas
coisas reinassem sobre mim. ‘Que comerei? Que beberei?
E com o que me vestirei?’ Essas coisas constituíam uma
trindade de perguntas de suprema importância; agora não
têm nenhuma importância, porque estou morto para essas
coisas; eu deixo para Deus as preocupações com respeito
a elas; não são minha vida; estou crucificado para elas”.
Seja qual for a paixão, o motivo, o desígnio que possam vir
à nossa mente, que não seja a cruz de Cristo, deveríamos
exclamar: “Longe está de mim gloriar-me em alguma
dessas coisas; eu sou um homem morto. Vamos, mundo,
com toda a sua bruxaria; vamos, prazer, com todos os seus
encantos; vamos, riqueza, com todas as suas tentações;
vamos, todos vocês, tentadores que têm seduzido a tantos;
que podem fazer com um homem crucificado?
NOVA VIDA
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 38 ]
Como podem tentar a um que está morto para
vocês?”.
Agora, é um bendito estado mental quando um
homem pode sentir que por haver recebido a Cristo ele é
como alguém que está completamente morto para este
mundo. Nem entrega sua fortaleza aos seus propósitos,
nem sua alma aos seus costumes, nem seu juízo às suas
máximas, nem seu coração aos seus afetos, pois é um
homem crucificado através de Jesus Cristo; o mundo foi
crucificado para ele, e ele para o mundo.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 39 ]
Isso foi o que quis dizer o apóstolo.
Notem, em continuação, outro ponto de contato.
Paulo disse: “Contudo vivo”, mas logo corrige a si mesmo:
“e já não vivo eu, mas Cristo que vive em mim”. Vejam
vocês o estado morto de um crente: está surdo, mudo,
cego e sem sentimento quanto ao mundo pecador, e não
obstante, acrescenta: “Contudo vivo”. Explica qual é a sua
vida: sua vida é produzida nele em virtude de que Cristo
está nele e ele está em Cristo. Jesus é a fonte da vida do
cristão. A “alma” da videira vive inclusive nos minúsculos
raminhos.
Não importa quão diminuto possa ser o nervo, o
especialista na anatomia dirá que a vida cerebral palpita na
extremidade mais distante. O mesmo acontece em cada
cristão; ainda que o cristão possa ser insignificante, e
possua pouca graça, contudo, se é verdadeiramente um
crente, Jesus vive nele. A vida que mantém em existência
sua fé, sua esperança e seu amor, provêm de Jesus Cristo
e unicamente Dele.
Nós cessaríamos de ser santos viventes se não
recebêssemos diariamente uma graça proveniente de
nossa Cabeça da Aliança. Como a força da nossa vida vem
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 40 ]
do Filho de Deus, então Ele é o governador e o poder
matriz em nosso interior. Como pode ser cristão alguém
que é governado por qualquer coisa que não seja Cristo?
Se chama Cristo “Mestre e Senhor”, você tem que ser Seu
servo; tampouco podes render obediência a nenhum poder
rival, pois ninguém pode servir a dois senhores. Tem que
haver um espírito orientador no coração, e a menos que
Jesus Cristo seja para nós esse espírito que orienta, não
somos salvos de todo. A vida do cristão é uma vida que
brota de Cristo, e é controlada por sua vontade.
Amados, sabem algo a respeito disso? Temo que
é uma conversa insossa para vocês a menos que a sintam.
Tem sido sua vida assim durante a semana passada? Tem
sido a vida que vocês viveram de Cristo vivendo em vocês?
Tem sido essa vida como um livro impresso com letras
claras, no qual os homens poderiam ler uma nova edição
da vida de Jesus Cristo? Um cristão deveria ser uma
fotografia vivente do Senhor Jesus Cristo, ser uma
impactante semelhança do seu Senhor. Quando os
homens o olham deveriam ver não só o que é o cristão,
mas o que é o Senhor do cristão, pois deveria ser como
seu Senhor. Você tem visto alguma vez ou tem sabido que
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 41 ]
no interior da sua alma Cristo olha por seus olhos para os
pobres pecadores e considera como poderia ajudá-los; que
Cristo palpita em seu coração, sentindo pelos que
perecem, tremendo por aqueles que não querem tremer
por eles mesmos? Vocês sentem alguma vez que Cristo
abre as suas mãos em generosa caridade para ajudar os
que não podem ajudar a si mesmos? Sentiram alguma vez
que algo diferente de você mesmo estava em você, um
espírito que algumas vezes luta consigo mesmo, e o agarra
pela garganta e ameaça destruir seu egoísmo pecaminoso;
um espírito nobre que põe seu pé sobre o peito da
ganância, um espírito valente que leva ao solo o seu
orgulho, um espírito ativo e fervente que queima sua
ociosidade? Você nunca sentiu isso? Certamente nós que
vivemos para Deus sentimos a vida de Deus em nosso
interior e desejamos ser submetidos cada vez mais ao
espírito dominante de Cristo, para que nossa humanidade
possa ser um palácio para o Bem Amado.
Isso é outro ponto de contato.
A JORNADA DO CRISTÃO
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 42 ]
Prosseguindo, o apóstolo diz, e eu espero que
mantenham abertas suas Bíblias para ler o texto: “E o que
agora vivo na carne, vivo na fé do Filho de Deus”. A vida
do cristão deve ser em cada momento uma vida de fé.
Cometemos um erro quando procuramos caminhar
guiados pelo sentimento ou pela vista. Sonhei outra noite,
enquanto meditava na vida do crente, que ia percorrendo
um caminho que um chamado divino me havia indicado. A
trilha estabelecida que eu estava sendo chamado a
percorrer se estendia em meio a uma densa escuridão e
estava desprovida por completo de algum raio de luz.
Quando me encontrava submerso na espantosa escuridão,
incapaz de perceber nem uma só polegada diante de mim,
ouvi uma voz que me dizia: “segue caminhando.
Não temas, antes, avança no nome de Deus”.
Assim, prossegui meu caminho, apoiando temerosamente
primeiro um pé e logo o outro. Depois de um breve lapso a
trilha perdida na escuridão tornou-se fácil e clara, pelo uso
e experiência; foi então que percebi que a trilha se retorcia;
não tinha escolha, e me esforçava para proceder como
havia feito antes; o caminho era agora tortuoso e a senda
áspera e pedregosa; mas eu lembrei o que havia sido dito
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 43 ]
a mim, que precisava avançar como pudesse, assim, segui
adiante.
Então, veio outro desvio, e logo outro, e outro, e
outro, e eu me perguntava por que, até que entendi que se
a trama do caminho continuasse sendo a mesma
constantemente, acostumar-me-ia a ela, e então
caminharia guiado pelo sentimento; e aprendi que a
totalidade do caminho seria sempre de tal maneira como
para forçar-me a depender da voz condutora e a exercer a
fé no Invisível que me havia chamado. Logo me pareceu
como se não houvesse nada debaixo do meu pé quando o
firmei; contudo, adiantei-o na escuridão, em um confiante
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 44 ]
atrevimento, e aqui, consegui dar um passo firme, e outro,
e outro, enquanto descia por uma escada que baixava
cada vez mais verticalmente. Prossegui, sem poder ver
nem uma polegada diante de mim, mas crendo que tudo
estava bem, ainda que eu pudesse ouvir ao meu redor a
estrepitosa queda de homens e mulheres que andavam
guiados pela luz de suas próprias lanternas, e que haviam
perdido pé. Ouvi os gritos e os alaridos de homens no
momento de cair dessa horrenda escada; mas eu tinha
ordens de seguir adiante, e segui diretamente até adiante,
resoluto a ser obediente ainda se o caminho descesse até
o mais profundo inferno.
Logo, a horrenda escada chegou ao fim, e
encontrei uma sólida rocha debaixo de meus pés, e
caminhei de frente sobre uma calçada elevada com uma
balaustrada em ambos os lados. Entendi que isso era a
experiência que havia acumulado, que agora podia me
guiar e me ajudar, e eu apoiei-me sobre essa balaustrada
e segui caminhando, confiantemente, até que, em um
instante, minha calçada elevada acabou e meus pés se
afundaram na lama, e quanto aos meus outros consolos,
buscava-os tateando, mas haviam desaparecido, pois
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 45 ]
ainda devia saber que tinha que seguir dependendo do
meu invisível Amigo, e o caminho seria sempre de tal
maneira que nenhuma experiência poderia substituir minha
dependência de Deus. Seguindo adiante, sumi no lodo e
em uma imundície com um humo sufocante e um odor
como de umidade de morte, pois era o caminho, e se me
havia ordenado que o percorresse. Novamente a senda
mudou, ainda que meia noite; a senda subia, e seguia
subindo, e subindo, e subindo, sem nada nela onde
pudesse me apoiar; ascendi desfalecente inumeráveis
escadas, nenhuma das quais era visível, ainda que o
simples pensamento de sua altura pudesse fazer com que
o cérebro vacilasse. Imediatamente, irrompeu a luz –
quando despertei do meu sonho – e vendo-o desde o alto,
vi que tudo era seguro, mas que era um caminho tal que
se eu o tivesse visto, não teria podido percorrê-lo jamais.
Só na escuridão eu teria podido realizar minha misteriosa
travessia; só com uma confiança infantil no Senhor. O
Senhor nos guia se estamos dispostos a fazer
simplesmente o que Ele nos pedir. Apoiem-se Nele, então.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 46 ]
Pintei um pobre quadro, mas ainda assim é um
que, se vocês se derem conta, é grandioso para ser
contemplado.
Caminhar em frente, crendo em Cristo a cada
instante, crendo que os pecados de vocês são perdoados
ainda quando sua negrura, crendo que estão seguros,
mesmo quando parecer que estão no maior perigo, crendo
que estão glorificados com Cristo, quando sentem como se
fossem encontrados fora da presença de Deus, esta é a
vida da fé.
CRISTO ME AMOU
Ademais, Paulo nota outros pontos de unidade. “O
qual me amou”. Bendito seja Deus porque antes que os
montes alçassem seus picos coroados de neve até as
nuvens, Cristo havia posto Seu coração em nós. Suas
“delícias eram com os filhos dos homens”. Em Seu “livro
estavam escritas todas aquelas coisas que foram
formadas, sem faltar uma delas”.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 47 ]
Crente, sujeite-se à preciosa verdade que Cristo o
amou eternamente; o todo glorioso Filho de Deus o
escolheu, e o desposou, para que pudesse ser sua esposa
por toda a eternidade.
Temos aqui uma bendita união em verdade.
Observem o que segue: “e entregou a si mesmo
por mim”; não só deu tudo o que tinha, mas entregou a si
mesmo; não deixou simplesmente de lado Sua glória, Seu
esplendor e Sua vida, mas entregou Sua própria pessoa.
Oh, herdeiro do céu, Jesus é seu neste momento. Havendo
se entregado uma vez por você sobre o madeiro para quitar
seu pecado, entrega-se a você neste momento para ser
sua vida, sua coroa, seu gozo, sua porção, seu todo em
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 48 ]
tudo. Você descobriu que é uma personalidade única, e
uma individualidade, mas essa personalidade está ligada
com a pessoa de Cristo Jesus de maneira que você está
em Cristo e Cristo está em você por uma bendita união
indissolúvel, vocês estão entrelaçados pelos séculos dos
séculos.
III. Por último, o texto descreve A VIDA
RESULTANTE DESTA PERSONALIDADE
AMALGAMADA.
ESTOU MORTO PARA O MUNDO
Se tiverem paciência comigo, serei tão breve
quanto puder enquanto reviso o texto de novo, palavra por
palavra. Irmãos, quando um homem descobre e se
reconhece ligado a Cristo, sua vida é completamente uma
nova vida. Eu deduzo isso da expressão: “com Cristo estou
juntamente crucificado, e já não vivo eu, é Cristo que vive
em mim”.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 49 ]
Crucificado, então morto; crucificado, então a velha
vida é eliminada; qualquer vida que um crucificado tem
deve ser uma nova vida. O mesmo acontece com você.
Crente, sobre sua velha vida foi pronunciada a sentença de
morte. A mente carnal, que é inimizade contra Deus, está
condenada à morte. Você pode dizer: “morro diariamente”.
Oxalá que a velha natureza estivesse completamente
morta. Mas a vida que você tem não lhe foi dada senão até
que entrasse em união com Cristo.
É algo novo, tão novo como se houvesse morto
realmente e houvesse apodrecido na tumba e logo tivesse
levantado ao soar da trombeta para viver de novo. Você
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 50 ]
recebeu uma vida do alto, uma vida que o Espírito Santo
operou em você na regeneração. O que é nascido da
carne, carne é, mas sua vida de graça não provém de você
mesmo; você nasceu de novo do alto.
Sua vida é extremamente estranha: “Fui
crucificado, no entanto, vivo”. Que contradição! A vida do
cristão é um enigma sem par. Nenhum mundano pode
compreendê-la; inclusive o próprio crente não pode
entendê-la. Ele a conhece, mas sente que resolver todos
os seus enigmas é uma tarefa impossível. Morto, mas vivo;
crucificado com Cristo, e não obstante, ao mesmo tempo
ressuscitado com Cristo em uma vida nova! Não espere
que o mundo o entenda, cristão, pois não entendeu o seu
Senhor. Quando suas ações são tergiversadas e seus
motivos ridicularizados, não se surpreenda.
“Se fosses deste mundo, o mundo amaria o que é
seu; mas porque não é deste mundo, antes eu os escolhi
do mundo, por isso o mundo os aborrece”. Se pertencesse
à aldeia, os cachorros não latiriam para você. Se os
homens pudessem ler você, não se surpreenderiam; é
devido a você estar escrito numa língua celestial que os
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 51 ]
homens não lhe podem compreender e pensam que você
não vale nada. Sua vida é nova; sua vida é diferente.
Esta vida maravilhosa, resultante na mescla da
personalidade do Filho de Deus e do crente, é uma vida
verdadeira.
Isto é expresso no texto, “No entanto, vivo”, sim,
vivo como nunca antes vivi. Quando o apóstolo se declara
morto para o mundo, não queria que imaginássemos que
estava morto no sentido mais elevado ou melhor; não, vivia
com uma nova força e vigor vitais. Irmãos, quando abri os
olhos ao conhecimento de Cristo, parecia-me que eu era
como uma crisálida recém saída do casulo, eu então
comecei realmente a viver. Quando uma alma se
sobressalta com os trovões da convicção e depois recebe
o perdão em Cristo, começa a viver.
O mundano diz que quer ver a vida, e portanto, se
afunda no pecado! Néscio como é, junta-se ao sepulcro
para descobrir a imortalidade. O homem que vive
verdadeiramente é o crente. Hei de me tornar menos ativo
por ser cristão?
Nunca tal coisa aconteça! Serei menos diligente e
encontrarei menos oportunidades para manifestações de
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 52 ]
minhas energias naturais e espirituais. Nunca tal coisa
suceda! Se alguma vez um varão deve ser como uma
espada demasiado afiada para a bainha com um fio que
não pode ser embotado, deveria ser o cristão; ele deveria
ser como chamas de fogo que queimam a seu passo.
Vivam enquanto viverem.
Não há que desperdiçar nem gastar mal o tempo.
Vivam de tal maneira que demonstrem que vocês possuem
a mais nobre forma de vida.
É claro também, que a nova vida que Cristo nos
traz é uma vida de abnegação, pois agrega “e vivo, já não
eu”. A humildade mental é parte e porção da piedade.
Aquele que pode receber o reconhecimento para si mesmo
não conhece o espírito de nossa santa fé. Quando o crente
ora melhor, diz: “Sem dúvida, não eu, mas o Espírito de
Deus intercedeu em mim”. Se ganhou almas para Cristo,
diz: “Não eu; foi o Evangelho; o Senhor Jesus operou
poderosamente em mim”. “Não a nós, SENHOR Javé, não
a nós, mas a seu nome a glória”. A humilhação de si
mesmo é o espírito inato do filho de Deus verdadeiramente
nascido de novo.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 53 ]
Ademais, a vida que Cristo gera em nós é uma vida
de uma ideia. Está alma do crente governada por duas
coisas? Não, não conhece senão uma. Cristo vive em mim.
Há dois residentes na alcova de minha alma? Não, a um
Deus e Senhor sirvo. “Cristo vive em mim”. Um antigo
teólogo desejava poder comer, beber e dormir vida eterna.
Viva você assim!
Ai! Eu lamento viver demasiado na velha vida, e
que Jesus vive muito pouco em mim; mas se o cristão há
de alcançar alguma vez a perfeição – e que Deus nos
conceda que cada um de nós possa chegar tão perto como
for possível disso ainda agora – descobrirá que o antigo:
“eu vivo”, é reprimido, e a nova vida à semelhança de Cristo
reina suprema.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 54 ]
Cristo tem que ser o único pensamento, a única
ideia, o único pensamento condutor na alma do crente.
Quando se desperta na manhã, o crente saudável se
pergunta: “Que posso fazer por Cristo?” Quando está
realizando seu trabalho se pergunta: “Como servirei ao
meu Senhor em todas as minhas ações?” Quando ganha
dinheiro, se pergunta: “Como posso usar meus talentos em
favor de Cristo?” Se adquire educação, a pergunta é:
“Como posso inverter meu conhecimento em favor de
Cristo?”.
DUAS NATUREZAS
Resumindo, o muito no pouco, o filho de Deus tem
em seu interior a vida de Cristo; mas como descreverei
isso? A vida de Cristo na terra foi o divino fundido com o
humano; assim é a vida do cristão; há algo divino nela; é
uma semente viva e incorruptível, que permanece para
sempre. Somos feitos partícipes da natureza divina,
havendo escapado da corrupção que está no mundo
graças à lascívia; sem dúvida, nossa vida é uma vida
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 55 ]
plenamente humana. O cristão é um homem entre os
homens; em tudo o que exige valentia ele se esforça para
se sobressair, no entanto, não é como os outros homens,
pois tem uma natureza oculta que nenhum simples
mundano entende. Visualizem a vida de Cristo na terra,
amados, e isso é o que a vida de Deus em nós deveria ser,
e o será na medida em que estejamos sujeitos ao poder do
Espírito Santo.
Duas naturezas em nós.
Notem ainda, apegando-nos ao texto, que a vida
que Deus opera em nós é ainda a vida de um ser humano.
“O que agora vivo na carne”, diz o apóstolo. Estes monges
e monjas que fogem do mundo por medo de que suas
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 56 ]
tentações os vençam, deveriam vencê-las, e os que ficam
reclusos para buscar uma maior santidade são tão
excelentes soldados como aqueles que se retiram para o
acampamento por medo de serem derrotados. Que serviço
podem prestar esses soldados na batalha ou essas
pessoas na guerra da vida? Cristo não veio para que nos
fizéssemos monges; Ele veio para que nos fizéssemos
homens; Ele se propôs para que aprendêssemos como
viver na carne. Não devemos renunciar ao trabalho nem à
sociedade, nem renunciar à vida em nenhum reto sentido.
“O que agora vivo na carne”, diz o apóstolo. Olhem
para ele ocupado fazendo tendas. Como! Um apóstolo
fazendo tendas? O que diriam vocês, irmãos, se o
Arcebispo de Canterbury costurasse para ganhar seu
sustento? É um ofício muito humilde para um bispo do
Estado, certamente, mas não demasiadamente humilde
para Paulo. Não creio que o Apóstolo tenha sido jamais
mais apostólico que quando recolhia ramas secas. Quando
Paulo e seus acompanhantes naufragaram em Melita, o
apóstolo era de maior serviço que todo o sínodo pan-
anglicano com suas batinas de seda, pois ele se pôs a
trabalhar como as outras pessoas para recolher
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 57 ]
combustível para o fogo, pois queria se esquentar como os
demais, e então assumiu sua parte da tarefa. Da mesma
maneira, vocês e eu deveríamos tomar nosso turno na
roda. Não devemos pensar em nos manter afastados de
nossos semelhantes como se nos degradássemos ao nos
misturar com eles. O sal da terra deve ser bem misturado
aos alimentos, e de igual maneira o cristão deve se
misturar aos seus semelhantes, buscando seu bem para a
edificação.
Somos homens e fazemos tudo o que os homens
podem fazer legitimamente; onde quer que eles forem, nós
podemos ir.
Nossa religião não nos faz nem mais nem menos
humanos, ainda que nos coloque na família de Deus.
Contudo, a vida cristã é uma vida de fé. “O que agora vivo
na carne, vivo na fé do Filho de Deus”. A fé não é uma peça
de decoração que deve ser colocada sobre as mesinhas
da sala, ou um vestido que deve ser usado nos domingos;
é um princípio de trabalho, que deve ser usado no estábulo
e no campo, na oficina e na casa de cambio; é uma graça
para a ama da casa e o servo; e para a Câmara dos
Comuns e para a oficina mais pobre. “O que agora vivo na
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 58 ]
carne, vivo na fé”. Eu gostaria que o sapateiro crente
remendasse sapatos religiosamente, e que o alfaiate
confeccionasse trajes por fé, e eu gostaria que todo cristão
vendesse e comprasse por fé. Qualquer ofício que for, a fé
deve ser incorporada em seus chamados cotidianos, e
essa é unicamente a fé viva e verdadeira que passará na
prova prática.
Não devem se deter na porta da oficina, tirar seu
casaco e dizer: “Até logo ao Cristianismo, até que feche o
negócio de novo”. Isso é hipocrisia; mas a vida genuína de
um cristão é a vida que vivemos na carne pela fé no filho
de Deus.
Para concluir: a vida que provém da personalidade
enraizada de Cristo e o crente é uma vida de perfeito amor.
“Ele se entregou por mim”. Portanto, minha pergunta é: o
que posso fazer por Ele? A nova vida é uma vida de santa
segurança, pois, se Cristo me amou, quem poderia me
destruir? É uma vida de santa riqueza, pois, se Cristo
entregou Sua infinita pessoa por mim, de que posso
precisar? É uma vida de santo gozo, pois, se Cristo é meu,
tenho um poço de santo gozo dentro de minha alma. É a
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 59 ]
vida do céu, pois, se tenho a Cristo, tenho o que é a
essência e a alma do céu.
Referi-me a mistérios dos quais alguns de vocês
não entenderam sequer uma frase. Que Deus lhes dê
entendimento para que possam conhecer a verdade. Mas
se não a entenderam, deixem que este fato os convença:
vocês não sabem a verdade porque não têm o Espírito de
Deus, pois só a mente espiritual entende as coisas
espirituais. Quando falamos da vida interior, parecemos,
aos que não nos entendem, como os que dormem e
sonham. Mas se me entendeu, crente, vá para casa e viva
da verdade, pratique o que for praticável, alimente-se do
que está cheio de sabor, regozije-se em Cristo Jesus,
porque você é um com Ele, e então, em sua própria
pessoa, ande e sirva ao seu Senhor com todo o esforço
que lhe for possível e que o Senhor lhe envie Sua
abundante bênção. Amém e amém.
MINISTÉRIO CHARLES SPURGEON
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 60 ]
ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE
SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO
DE PECADORES.
Sermão nº 781
Volume 13 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,
Tradução: Rachel Gondim
Revisão: Cibele Cardozo
Projeto Spurgeon
Proclamando a Cristo crucificado.
Projeto de tradução de sermões, devocionais e
livros do pregador batista reformado Charles Haddon
Spurgeon (1834-1892) para glória de Deus em Cristo
Jesus, pelo poder do Espírito Santo, para edificação da
Igreja e salvação e conversão de incrédulos de seus
pecados.
Charles Haddon Spurgeon, comumente referido
como C. H. Spurgeon (Kelvedon, Essex, 19 de junho de
1834 — Menton, 31 de janeiro de 1892), foi um pregador
batista reformado britânico.
Converteu-se ao cristianismo em 6 de janeiro de
1850, aos quinze anos de idade. Aos dezesseis, pregou
seu primeiro sermão; no ano seguinte tornou-se pastor de
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 61 ]
uma igreja batista em Waterbeach, Condado de
Cambridgeshire (Inglaterra).
Em 1854, Spurgeon, então com vinte anos, foi
chamado para ser pastor na capela de New Park Street,
Londres, que mais tarde viria a chamar-se Tabernáculo
Metropolitano, transferindo-se para novo prédio.
Desde o início do ministério, seu talento para a
exposição dos textos bíblicos foi considerado
extraordinário. E sua excelência na pregação nas
Escrituras Bíblicas lhe deram o título de O Príncipe dos
Pregadores e O Último dos Puritanos.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 62 ]
PERGUNTAS
E
RESPOSTAS
DESDE
A
CRUZ
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 63 ]
PERGUNTAS E RESPOSTAS DESDE A CRUZ
Nº 2562
Sermão pregado na noite de Domingo de 2 de
Novembro de 1856.
Por Charles Haddon Spurgeon
Na Capela de New Park Street, Southwark,
Londres.
E lido no Domingo, 27 de Março de 1898.
NOTA
Esse foi o primeiro sermão noturno pregado por
Spurgeon depois da fatal calamidade ocorrida em Surrey
Garden Music Hall, quinze dias antes. Ao começar sua
pregação, disse: “As observações que tenho que fazer são
muito breves, tomando conta que depois iremos participar
da Ceia do Senhor. Não vou fazer nenhuma alusão a
recente catástrofe, que foi tema de meus pensamentos
cotidianos e de meus sonhos noturnos desde que ocorreu.
Contudo, espero usar esse evento em algum período
futuro”. Spurgeon fez isso em muitos memoráveis
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 64 ]
comentários que foram incluídos no volume II de sua
autobiografia.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu
bramido?” Salmo 22: 1
“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz,
dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus
meu, por que me desamparaste?” Mateus 27:46
A AGONIA DE CRISTO
Contemplamos aqui ao Salvador submerso nas
profundezas de Suas agonias e dores. Nenhum outro lugar
como o Calvário mostra melhor as angústias de Cristo, e
nenhum outro momento do Calvário está tão saturado de
agonia como quando esse clamor rasga o ar: ―Deus meu,
Deus meu, por que me desamparaste?”. A debilidade física
que lhe sobreveio naquele momento pelo jejum e pelos
açoites se somou à aguda tortura mental que experimentou
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 65 ]
por causa da vergonha e da ignomínia que teve que
suportar. Como culminante da dor, sofreu uma agonia
espiritual inexprimível devido ao desamparo do qual foi
objeto por parte de Seu Pai. Essa foi a negridão e a
escuridão de Seu horror. Foi então quando penetrou nas
profundezas das cavernas do sofrimento.
― Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?”. Nessas palavras de nosso Salvador
existe algo que tem sempre o propósito de nos beneficiar.
A contemplação dos sofrimentos dos homens nos afligem
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 66 ]
e nos horroriza, mas os sofrimentos de nosso Salvador,
ainda que nos movam ao pesar, estão revestidos de algo
doce e cheio de consolação. Aqui, inclusive aqui, nesse
negro local de dor, enquanto contemplamos a cruz,
encontramos nosso céu.
Esse espetáculo que poderia ser considerado
horroroso, torna ao cristão alegre e feliz. Se bem lamenta
a causa, se alegra devido às consequências.
I. Primeiro, em nosso texto, existem TRÊS
PERGUNTAS para as quais peço sua atenção.
A primeira é: ―Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste? por essas palavras devemos entender que,
nesse momento, nosso bendito Senhor e Salvador se
encontrava desamparado por Deus de uma maneira que
nunca antes havia estado. Ele tinha combatido com o
inimigo no deserto e três vezes o venceu e o derrubou em
terra. Tinha lutado contra esse inimigo durante toda Sua
vida, e inclusive no jardim lutou com ele até sentir que sua
alma estava ―muito triste. Não é senão até esse momento
que experimenta uma profundidade de dor que não tinha
jamais sentido antes.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 67 ]
Era necessário que Ele sofresse, no lugar dos
pecadores, justo o que os pecadores deveriam ter sofrido.
Seria difícil conceber o castigo pelo pecado se prescindisse
da face franzida da Deidade. Sempre associamos o crime
com a ira, de tal forma que quando Cristo morreu, ―o justo
pelos injustos, para nos levar a Deus, quando nosso
bendito Salvador se converteu em nosso Substituto, pelo
momento se tornou em vítima da justa ira de Seu Pai, já
que lhe foram imputados nossos pecados para que Sua
justiça pudesse nos ser imputada a nós. Foi necessário
que experimentasse a perda do sorriso de Seu Pai, pois os
condenados no inferno devem ter provado essa amargura;
e, portanto, o Pai fechou os olhos de Seu amor, pois a mão
da justiça diante do sorriso de Seu rosto, e deixou que Seu
Filho clamasse:
―Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?”.
Não existe nenhum ser vivente que pudesse
explicar o pleno significado dessas palavras; ninguém
poderia fazê-lo nem o céu nem a terra, e quase
acrescentaria que nem o inferno; não existe ninguém que
poderia captar essas palavras em toda a profundeza de
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 68 ]
sua aflição. Alguns pensam, às vezes, que nós poderíamos
clamar: ―Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?”. Existem estações quando o brilho do
sorriso de nosso Pai se vê eclipsado pelas nuvens e a
escuridão. Porém, temos de lembrar que Deus realmente
não nos desampara nunca. Quanto a nós é só um aparente
desamparo real. Só Deus sabe quanto nós lamentamos
algumas vezes por causa de uma pequena retirada do
amor de nosso Pai; mas quando Deus aparta realmente
Seu rosto de Seu Filho, quem poderia calcular quão
profunda foi a agonia que isso lhe provocou quando
clamou: ―Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?”.
Em nosso caso, esse é o clamor da incredulidade;
em Seu caso, foi a expressão de um fato, pois Deus tinha
se apartado realmente Dele por um tempo. Oh, você, pobre
criatura perturbada, que uma vez viveu sob o brilho do sol
do rosto de Deus, mas agora está em trevas; anda agora
no vale da sombra da morte, ouve ruídos e tem medo; sua
alma está sobressaltada dentro de você, e você está
sobrecarregado de terror ao pensar que Deus lhe
desamparou! Recorde que Ele não te desamparou
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 69 ]
realmente pois – “Os montes quando estão envoltos na
escuridão, São tão reais como no dia”
O Deus coberto pelas nuvens é tão Deus nosso
como quando Ele brilha com todo o lustre de Sua
benevolência, mas posto que só pensamento de que tenha
nos desamparado provoca agonia, qual haveria sido então
a agonia do Salvador quando clamou: ―Deus meu, Deus
meu, por que me desamparaste?”.
DEUS DISTANTE?
A seguinte pergunta é: ―Por que te alongas do
meu auxílio? Deus ajudou a Seu Filho até aqui, mas agora
Ele tem que pisar sozinho o lagar e nem sequer Seu próprio
Pai pode estar com Ele. Você não sentiu, algumas vezes,
que Deus o conduziu a realizar algum dever, mas que, não
obstante, aparentemente não lhe deu a força para realizá-
lo? Não sentiram nunca essa tristeza de coração que os
induz a clamar: ―Por que te alongas do meu auxílio? Mas
se Deus tem o propósito de que realizem algo, vocês
podem fazê-lo, pois Ele lhes dará o poder. Talvez seu
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 70 ]
cérebro vacile, mas Deus ordenou que tem de fazê-lo e
vocês o farão.
Não sentiram como se tivessem que continuar
inclusive quando a cada passo que vocês davam sentiam
medo de colocar o outro pé por temor de não ter um firme
apoio? Se tiveram qualquer experiência das coisas divinas,
tem de ter acontecido isso com vocês. Dificilmente
poderíamos adivinhar o que foi que nosso Salvador sentiu
quando disse: ―Por que te alongas do meu auxílio? A Sua
obra é uma obra que ninguém senão uma Pessoa Divina
poderia realizar, e, no entanto, os olhos de Seu Pai
olhavam para outro lado, mas não para Ele! Com algo mais
que os trabalhos hercúleos a Sua frente, mas sem que
nada do poder do Pai lhe houvesse sido dado, qual não
terá sido a tensão que se cingia sobre Ele!
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 71 ]
Certamente, como disse Hart –
“Suportou tudo o que o Deus encarnado podia
suportar, Com a força suficiente, e nada que poupar”.
DEUS NÃO ESCUTA?
A terceira pergunta é: ―Por que te alongas das
palavras do meu bramido?
A palavra traduzida aqui como ―bramido quer
dizer, no idioma hebreu original, esse profundo e solene
gemido que é provocado por alguma séria enfermidade, e
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 72 ]
que é expresso por homens que sofrem muito. Cristo
compara Suas orações com esses gemidos, e se queixa
que Deus está tão longe Dele que não lhe ouve.
Amados, muitos de nós podemos nos identificar
aqui com Cristo. Quantas vezes lhe temos pedido algum
favor a Deus de joelhos, e pensávamos que pedíamos com
fé, mas não houve nenhuma resposta! Voltamos a nos
colocar de joelhos. Houve algo que deteve a resposta; e
com lágrimas em nossos olhos, lutamos de novo com Deus
e suplicamos por meio de Jesus, porém os céus pareciam
de bronze. Na amargura de nosso espírito clamamos: ―é
possível que haja um Deus?. E temos dado a volta dizendo:
― Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste? Por que te alongas das palavras do meu
bramido? Assim tu eres? Desdenhas alguma vez o
pecador? Acaso não disseste: ―Clames e os abrirá? Estás
resistente a ser amável? Reténs Tua promessa? e quando
temos estado a ponto de nos render tendo aparentemente
tudo contra nós, acaso não temos gemido, e não temos
dito:
―Por que te alongas das palavras do meu
bramido? ainda que saibamos algo, não é muito o que
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 73 ]
podemos entender verdadeiramente a respeito dessas
terríveis dores e agonias que nosso bendito Senhor
suportou quando fez essas três perguntas: ―Deus meu,
Deus meu, por que me desamparaste?
Por que te alongas do meu auxílio e das palavras
do meu bramido?
II. Em segundo lugar, agora vamos RESPONDER
A ESSAS TRÊS PERGUNTAS.
CRISTO TINHA QUE ESTAR SÓ
Já respondi antes à primeira pergunta. Parece-me
que ouço ao Pai dizer a Cristo: ―Meu Filho, te desamparei
porque Tu estás em lugar do pecador. Como Tu és santo,
justo e verdadeiro, Eu nunca te desampararia a Ti, nunca
me apartaria de Ti, pois inclusive como homem, Tu tens
sido santo, sincero, sem mancha e apartado dos
pecadores; porém sobre Tua cabeça descansa a culpa de
cada penitente transferida dele a Ti, e Tu tens que expiá-la
com Teu sangue. Devido a que Tu estás no lugar do
pecador, não irei olhar-te até que tenhas suportado todo o
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 74 ]
peso de minha vingança. Então te exaltarei no alto, muito
acima de todos os principados e potestades.
Oh cristão, faça uma pausa aqui e reflita! Cristo foi
castigado dessa forma por você! Oh, olhe para esse rosto
tão tenso de horror e entenda que esses horrores se juntam
ali por você! Talvez, em sua própria estima, você seja o
mais indigno da família; certamente, o mais insignificante;
porém, a mais trivial ovelha do rebanho de Cristo foi
comprada de igual maneira que qualquer outra. Sim,
quando essa negra escuridão se condensou em torno da
Sua fronte, e quando clamou; ―Eloí, Eloí, nas palavras de
nosso texto, pedindo que o Senhor Onipotente o ajudasse;
quando gritou esse grito terrivelmente solene, foi porque
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 75 ]
lhe amava, porque se entregou por você, para que você
pudesse ser santificado aqui, e pudesse morar com Ele no
mais além. Portanto, Deus o desamparou, primeiro, por ser
o Substituo do pecador.
DEUS NÃO AJUDOU O CRISTO
A resposta para a segunda pergunta é: ―porque
quero que Tu recebas toda a honra para Ti; portanto, não
lhe vou ajudar, não vá ser que tenha de compartilhar o
motim contigo. O Senhor Jesus Cristo viveu para glorificar
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 76 ]
a Seu Pai, e morreu para glorificar-se a Si mesmo na
redenção de Seu povo escolhido. Deus disse: ―Não, meu
Filho, Tu o farás sozinho, pois Tu deves levar sozinho a
coroa e em Tua pessoa se encontrarão todos os reais
distintivos de Tua soberania. Eu Te darei todo o louvor, e,
portanto, Tu cumprirás com todo o trabalho. Devia pisar
sozinho o lagar, e alcançar a vitória e obter unicamente
para Si mesmo a glória.
DEUS NÃO ESCUTOU A CRISTO
A resposta para a terceira pergunta é
essencialmente a mesma que a reposta para a primeira.
Ter escutado as orações de Cristo naquele momento teria
sido inapropriado. O fato de que o Pai divino não tenha
escutado a oração de Seu Filho foi algo de acordo com Sua
condição; por ser a Fiança do pecador, Sua oração não
devia ser ouvida; como Fiança do pecador, podia dizer;
―Agora que estou aqui, morrendo no lugar do
pecador, Tu selas Teus ouvidos para que não penetre
minha oração. Deus não escutou a Seu Filho porque sabia
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 77 ]
que Seu Filho estava morrendo para nos aproximar de
Deus, e, portanto, o Filho clamou: ―Deus meu, Deus meu,
por que me desamparaste?
III. Para concluir, irei oferecer-lhes UMA PALAVRA
DE ADMOESTAÇÃO E DE AFETUOSA ADVERTÊNCIA.
APELO PARA ACEITAR JESUS
Não comove a alguns de vocês que Jesus tivesse
de morrer? Ouvem a história do Calvário, mas, ai, não
brotam lágrimas de seus olhos! Não choram nunca por
isso. Acaso não é nada a morte de Jesus para vocês? Ai,
parece que isso é válido para muitas pessoas. Seus
corações jamais bateram em sintonia com Ele. Oh amigos,
quantos de vocês podem olhar para Cristo, agonizando e
gemendo assim, e dizer: ―ele é meu Resgate, meu
Redentor?
Poderiam dizer com Cristo: ―Deus meu? Ou
acaso Ele é Deus de alguém mais e não de vocês? Oh, se
vocês estão sem Cristo, ouçam-me porque irei dizer-lhes
uma palavra. É uma palavra de advertência! Recordem que
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 78 ]
estar sem Cristo é estar sem esperança. Se morrerem sem
ser aspergidos por Seu sangue, estão perdidos.
E que é estar perdido? Não tentarei explicar-lhes o
significado dessa palavra terrível: ―perdido. Alguns de
vocês poderiam conhecê-lo antes que o sol saia outra vez
no céu. Que Deus nos conceda que não sejam vocês!
Desejam saber como podem ser salvos? Escutem.
―Porque de tal maneira Deus amou ao mundo, que deu
seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não
pereça, mas tenha a vida eterna. ―O que crer e for
batizado será salvo. Ser batizado é ser enterrado na água
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Vocês
creram em Cristo? Professaram a fé em Cristo: a fé é a
graça que confia unicamente em Cristo. Todo aquele que
quiser ser salvo, antes de mais nada precisa sentir-se
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 79 ]
perdido, reconhecer-se um pecador arruinado, e logo
precisa crer nisso: ―Palavra fiel é digna de toda aceitação,
que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar aos
pecadores, inclusive ao primeiro deles. Não precisam de
nenhum mediador entre vocês e Cristo. Vocês podem vir a
Cristo tal como estão: culpados, malvados, pobres e, tal
como estão, Cristo os receberá. Não há necessidade de
lavar-se de antemão. Não precisam de riquezas. Nele
possuem tudo o que vocês requerem e, não obstante,
insistem em acrescenta algo ao ―tudo? Não precisam de
vestidos, pois Cristo tem uma túnica sem costura que
bastará para cobrir com folga inclusive ao maior pecador
da terra, e também ao menor.
Então, venham a Jesus imediatamente. Por acaso
vocês dizem que não sabem como vir? Venham tal como
estão. Não esperem para fazer algo primeiro. O que vocês
precisam fazer é deixar de fazer e deixar que Cristo
faça tudo por vocês. O que desejariam fazer se Ele
já fez tudo? Todo o labor de suas mãos seria incapaz de
cumprir o que Deus manda. Cristo morreu pelos
pecadores, e vocês tem de dizer: ―Seja que me afunde ou
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 80 ]
nade, não irei ter nenhum outro Salvador exceto Cristo.
Confiem plenamente Nele –
“E quando teu olho da fé perder a intensidade,
segue confiando em Jesus, seja que nade ou afunde;
Segue inclinando-se humildemente diante Seu
escabelo, Oh pecador! Pecador, Prostre-se agora!”
Ele é capaz de perdoar-lhe nesse instante. Existem
algumas pessoas aqui que sabem que são culpados e
gemem a consequência disso. Pecador, por que se
demora? ―Vem, e seja bem vindo!, é a mensagem de meu
Senhor para você. Se vocês sentem que estão perdidos e
arruinados, então não existe nenhuma barreira entre o céu
e você; Cristo a derrubou. Se vocês conhecem seu próprio
estado perdido, Cristo morreu por você; crê e vem!
Venha e seja bem vindo, pecador, venha! Oh
pecador, venha, vem, vem!
Jesus te pede que venhas e, como Seu
embaixador diante de você, eu lhe peço que venha. Como
alguém que morreria para salvar suas almas se fosse
necessário, como alguém que sabe como gemer por
vocês, e chorar por vocês, e que os ama como se ama a si
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 81 ]
mesmo, eu como Seu ministro, lhes digo, em nome de
Deus, e em lugar de Cristo: ―Reconciliem-se com Deus‖.
O que vocês dizem? Deus lhes deu essa vontade?
Então, se alegrem!
Regozije, pois não te foi dada a vontade sem dar-
lhe o poder de fazer aquilo que te foi dado querer fazer.
Vem! Vem! Se você confia plenamente em Cristo e não tem
nenhuma outra coisa que alimente a confiança de sua
alma, exceto Jesus, nesse instante pode estar certo do céu
como se já estivesse lá. Amém.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 82 ]
BOAS
VINDAS PARA
TODOS QUE VEM
A CRISTO
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 83 ]
Boas Vindas para Todos que Vem a Cristo
No. 2349
Sermão pregado na noite de Domingo, 17 de
Novembro de 1889
Por Charles Haddon Spurgeon.
No Tabernáculo Metropolitano, Newington,
Londres
“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem
a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” (João 6:37)
Cristo não morreu em vão. Seu Pai lhe deu certo
número que constituiria a recompensa da aflição de Sua
alma, e há de receber a cada um deles, tal como disse:
―Todo o que o Pai me dá, virá a mim. A graça toda
poderosa constrangerá docemente a todos eles a virem.
Meu pai me deu recentemente algumas cartas que
eu lhe escrevi quando começava a pregar. São epístolas
quase pueris, porém, ao lê-las novamente, notei em uma
delas essa expressão: ―Como anseio ver a salvação de
milhares de seres; porém, meu grande consolo é que
alguns serão salvos, tem que ser salvos e haverão de ser
salvos, pois está escrito:
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 84 ]
Todo o que o Pai me dá, virá a mim.
A pergunta que cada um de vocês deve fazer é:
―Eu pertenço a esse número Irei pregar para vocês com
o propósito de os ajudar a descobrir se pertencem a esse
―todo que o Pai deu a Cristo, o todo que virá a Ele. A
segunda parte do versículo pode ajudar-nos a entender a
primeira parte.
―E o que vem a mim, não lhe lanço fora, nos
servirá para explicar as palavras prévias de nosso
Salvador:
―Todo o que o Pai me dá, virá a mim. Não me
resta tempo para entender-me no prefácio. Devo entrar de
imediato no tema e tratar de expor tudo em uma forma
condensada.
Tenham a bondade de prestar atenção à Palavra,
pensar nela e orar por ela; e que Deus Espírito Santo a
aplique em todos seus corações!
I. Primeiro, notem no texto A NECESSIDADE DA
PERSONAGEM:
―e o que vem a mim. Se você quer ser salvo, tem
que vir a Cristo. Não há outro caminho de salvação sob o
céu exceto vir a Cristo. Acuda ao lugar que queira, porém,
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 85 ]
se achará desiludido e perdido; é somente vindo
exclusivamente a Jesus que você tem a única possibilidade
de obter a vida eterna.
O que é vir a Cristo? Bem, implica em abandonar
todas as outras confianças. Vir à alguém é deixar a todos
os demais. Vir a Cristo é deixar qualquer outra coisa, é
abandonar qualquer outra esperança, qualquer outra
confiança. Confia em suas próprias obras? Confia em um
sacerdote? Confia nos méritos da Virgem Maria, ou dos
santos, ou dos anjos do céu? Confia em qualquer outra
coisa que não seja o Senhor Jesus Cristo? Se for assim,
abandona essa confiança e termine com isso. Aparte-se de
qualquer outra segurança e confia em Cristo crucificado,
pois esse é o único caminho de salvação, tal como Pedro
disse aos governantes e aos anciãos de Israel: ― E em
nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu
nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual
devamos ser salvos‖ (Atos 4:12)
“A Jesus vertendo sangue no madeiro
Volte teus olhos e teu coração”
E apele a Ele imediatamente, e sua alma viverá
para sempre.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 86 ]
Vir a Jesus quer dizer, brevemente, confiar Nele.
Ele é um Salvador; esse é Seu ofício; portanto, venha a
Ele, e confie em que Ele o salvará. Se você pudesse salvar-
se a si mesmo não precisaria de um Salvador, e já que
Cristo resolveu ser um Salvador, deixe que Ele cumpra
esse oficio. Ele o fará. Vem, e deposite todas as suas
necessidades a Seus pés, e confia Nele. Resolva que, se
você se perdesse, estaria perdido depois de ter confiado
unicamente em Jesus, e isso não pode jamais acontecer.
Amarre todas suas esperanças em um embrulho, e
coloque esse embrulho sobre Cristo.
Deixa que Ele seja toda sua salvação, todo seu
desejo, e então você será salvo com certeza.
Eu tratei de lhes explicar algumas vezes ao que se
assemelha a vida de fé: é muito semelhante a um homem
que caminha sobre uma corda bamba. Ao crente é dito que
não cairá e ele confia em Deus que não cairá; mas, de vez
em quando, diz: ―Quanta distância existe embaixo, se eu
caísse! Com frequência tive essa experiência: subia por
uma escada invisível e não podia ver o degrau seguinte, e
quando pisava meu pé sobre ele, parecia como que se
afundasse num abismo; no entanto, prosseguia firmemente
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 87 ]
em minha subida, um passo cada vez, sem ser capaz de
ver nada nessa absoluta escuridão, segundo aparentava,
no entanto, sempre contava com uma luz justo aonde
necessitava dela.
SEGURANDO A VELA
Eu sempre segurava uma vela para meu pai, à
noite, quando serrava madeira no pátio, e ele costumava
me falar: ―garoto, por favor, segure a vela onde estou
serrando e não olhe para o lado. E frequentemente
experimentei – quando quis ver antecipadamente algo que
teria seu lugar a metade da semana seguinte, ou do ano
seguinte – que o Senhor parecia dizer-me justamente:
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 88 ]
―Sustenta a vela para que ilumine a parte da obra
que tem que fazer hoje, e se pode ver isso, fique satisfeito,
pois essa é toda luz que necessita exatamente agora.
Suponha que pudesse adentrar-se em visão no interior da
seguinte semana; constituiria uma grande misericórdia que
perdesse sua visão por um tempo, pois um olhar ao longo
alcance que perceba antecipadamente as preocupações e
os problemas, não é um beneficio. ―Basta a cada dia seu
próprio mal, assim como basta a cada dia seu próprio bem.
Porém, o Senhor educa efetivamente Seu povo para os
céus e o faz provando a fé dele no assunto de Seu cuidado
cotidiano deles. Com frequência, a confiança de um
homem em Deus para satisfação de suas necessidades
terrenais demonstra que confiou no Senhor para os
assuntos de maior peso relacionados com a salvação de
sua alma.
Não pinte uma raia entre o temporal e o espiritual
dizendo: ―Deus chega unicamente até aqui, portanto, não
levarei tal e tal assunto a Ele em oração.
ORANDO POR COISAS PEQUENAS
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 89 ]
Recordo ter ouvido sobre certo individuo de quem
alguém comentava: ―Bem, é um homem muito raro: outro
dia estava orando por uma chave por que não se poderia
orar por uma chave? Por que não se poderia orar por um
pino? Algumas vezes poderia ser tão importante orar por
um alfinete como orar por um reino. As pequenas coisas
são frequentemente as peças chaves dos grandes
eventos. Preocupem-se por trazer tudo a Deus em fé e em
oração.
―Por nada estejais ansiosos, mas sim sejam
conhecidas vossas petições diante de Deus em toda
oração e súplica, com ação de graças”.
Desviei-me de meu tema por uns instantes, mas
refletiremos agora de novo sobre o assunto de vir a Cristo.
Vir a Jesus não só implica em abandonar todas as demais
confianças e confiar em Cristo, mas também significa
seguir a Ele. Se você confia Nele, tem que obedecer-Lhe.
Se você coloca sua alma em Suas mãos, tem que aceitá-
lo como seu Mestre e como seu Senhor, assim também
como seu Salvador.
Cristo veio para salvar-lhe do pecado, não no
pecado. Portanto, Ele o ajudará a abandonar seu pecado
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 90 ]
sem importar qual seja. Ele lhe dará a vitória sobre o
pecado. Ele o fará santo. Ele o ajudará em tudo que tenha
que fazer aos olhos de Deus. Ele pode salvar
perpetuamente aos que por Ele se acercam a Deus, porém
precisam vir a Ele, se querem ser salvos por Ele.
Resumindo tudo o que eu disse, você deve
renunciar a qualquer outra esperança; tem que aceitar
Jesus como sua única confiança, e logo, tem que ser
obediente a Seu mandato e aceitá-lo para que seja seu
Mestre e Seu Senhor. Você está disposto a fazê-lo? Se não
o está, não tenho nada a dizer-lhe exceto isso: ―todo
aquele que não creia Nele perecerá sem esperança”. Se
não quer aceitar o remédio de Deus para o mal de sua alma
– o único remédio disponível – não resta nada para você
exceto escuridão e sombrias trevas pelos séculos dos
séculos.
ZÉ NINGUÉM VEM A CRISTO
II. Porém, agora, em segundo lugar, ciente que
existe essa necessidade de uma personagem, notem
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 91 ]
também A UNIVERSALIDADE DAS PESSOAS: ―e o que
vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.
É um fato que tudo o que se precisa é vir a Cristo.
Alguém diz:
― amigo, eu sou uma pessoa muito obscura;
ninguém me conhece; meu nome não esteve jamais nos
periódicos, nem estará jamais; eu sou um Zé Ninguém
Bem, se o Sr. ―Zé Ninguém vem a Cristo, Ele não o
lançará fora. Vem, você, pessoa desconhecida; você,
indivíduo anônimo; você, a quem todo o mundo, exceto
Cristo, tem no esquecimento! Ainda mesmo se você viesse
a Jesus, Ele não lhe lançaria fora.
Outro diz: ―eu sou muito singular. Não fale muito
a respeito disso, pois eu também sou muito raro; porém,
querido amigo, sem importar quão singulares sejamos,
ainda que somos considerados muito excêntricos e alguns
inclusive pensem que estamos um pouco lesados da
cabeça, contudo, Jesus disse: ―o que vem a mim de
maneira nenhuma o lançarei fora‖. Vem, Sr. Raridade! Não
estará perdido por falta de cérebro nem tampouco por ter
cérebro em demasia (ainda que esse não seja um
infortúnio muito comum). Se você vem a Cristo, ainda que
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 92 ]
não tenha talento, ainda que seja muito pobre e não
prospere muito no mundo, Jesus te diz: ―o que vem a mim
de maneira nenhuma o lançarei fora”.
―Ah, diz um terceiro amigo, ―a mim não me
importa ser obscuro, ou ser excêntrico, porém, a gravidade
de meu pecado é o que me impede de ir a Cristo. Leiamos
o texto de novo: ―o que vem a mim de maneira nenhuma
o lançarei fora”. Ainda que tivesse sido culpado de pecados
impossíveis, contudo, se viesse a Cristo, fixe-se, se viera a
Cristo, a promessa de Jesus seria cumprida inclusive no
seu caso:
― o que vem a mim de maneira nenhuma o
lançarei fora.
―Porém – diz outro – ―estou completamente
desgastado, sou bom para nada. Passei todos meus dias
e anos em pecado. Cheguei ao próprio fim do capítulo; não
valho a pena para nada. Apresse-se em vir, você,
remanescente de vida! Jesus disse: ―o que vem a mim de
maneira nenhuma o lançarei fora”. Você tem que caminhar
com muletas, não é certo? Não se preocupe, vem para
Jesus. Você está tão fraco que até mesmo lhe assombra
estar com vida em sua idade avançada. Meu Senhor o
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 93 ]
receberá ainda que tenha cem anos de idade; têm
acontecido diversos casos de pessoas que foram tragas a
Cristo inclusive depois dessa idade. Existem uns quantos
exemplos muito notáveis registrados desse fato. Cristo
disse ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei
fora”. Se for tão velho como Matusalém, bastaria que
viesse a Cristo, e não seria lançado fora.
―Ai – alguém diz – ―meu caso é ainda pior que o
desse ancião amigo, pois ademais de ser velho, resisti ao
Espírito de Deus. Minha consciência remordeu-me por
muitos anos, porém, tratei de encobrir tudo. Afoguei todo
pensamento piedoso. Sim, sim, e é também algo muito
triste, porém, apesar de tudo isso, se você vem a Cristo, se
pudesse correr a toda velocidade para alcançar a salvação
e vir a Jesus, Ele não poderia lhe lançar fora.
VENHA COM SEUS PECADOS
Um amigo talvez diga: ―Temo que cometi o
pecado imperdoável. Se você vem a Cristo, não o teria
cometido, isso o sei; pois todo aquele que venha a Ele,
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 94 ]
Jesus não o lançará fora. Portanto, não poderia ter
cometido o pecado imperdoável. Apresse-se em vir, amigo,
se é mais negro que todo o resto dos pecadores do mundo,
pois muito mais gloriosa será a graça de Deus quando
tenha demonstrado seu poder lavando-lhe no precioso
sangue de Jesus e o tornando mais alvo que a neve.
―Ah! – diz alguém – ―você não me conhece,
amigo não, meu querido amigo, não lhe conheço; porém,
talvez, num dias desses poderei ter esse prazer. ―Não
seria nenhum prazer para você, amigo, pois sou um
apóstata. Eu era um professante da religião, mas renunciei
a tudo isso e regressei ao mundo, fazendo intencional e
perversamente todo tipo de coisas más. Ah, bem, com só
que viesse a Cristo, ainda que houvesse em você sete
apostasias empilhadas umas sobre as outras, Sua
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 95 ]
promessa segue sendo válida: ―o que vem a mim de
maneira nenhuma o lançarei fora. Oh rebelde, sem
importar o que tivera sido seu passado e sem importar o
que seja seu presente, retorne a Cristo, pois Ele se apega
a Sua palavra empenhada, e meu texto não menciona
nenhuma exceção: ―o que vem a mim de maneira
nenhuma o lançarei fora.
―Bem, amigo – outro clama – ―eu gostaria de vir
a Cristo, mas não me sinto apto a vir. Então, vem ainda
estando desqualificado, tal como está. Jesus disse: ―o
que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Se
me despertassem a meia noite com o grito de ―Fogo!
FOGO, e eu percebesse que alguém estava junto da janela
que dá para a escada de emergência, não creio que eu
ficaria em minha cama dizendo: ―Não tenho posta minha
cinta de etiqueta, ou ―não coloquei meu melhor jaleco.
Não falaria jamais dessa maneira.
Sairia pela janela tão rápido como pudesse, e
desceria pelas escadas de emergência.
Por que você fala de idoneidade, idoneidade,
idoneidade? Fiquei sabendo de um partidário de Carlos I
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 96 ]
que perdeu sua vida porque se deteve para encrespar seus
cabelos enquanto era perseguido.
1 Carlos I de Inglaterra (1600 –1649) foi rei da
Inglaterra de 1625 até 1649; se envolveu na guerra civil
inglesa contra o Parlamento, e sendo derrotado, foi julgado
e condenado a morte pelo governo republicano puritano de
Oliver Cromwell; os partidários do rei eram conhecidos
como Realistas pelos soldados de Cromwell
2. Alguns de vocês poderiam rir dessa insensatez
desse cavaleiro; porém é isso exatamente o mesmo que
teu falatório sobre a idoneidade. Que é toda sua
idoneidade senão encrespar seus cabelos quando este em
iminente perigo de perder sua alma? Sua idoneidade não
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 97 ]
é nada para Cristo. Lembrem o que cantamos no começo
do serviço:
“Não permitas que a consciência te detenha;
Nem sonhes tercamente com a idoneidade;
Toda a idoneidade que Ele requer
É que sintas sua necessidade Dele
Isso lhe o dá Ele;
És a base de apoio do Espírito.”
VENHA COMO ESTÁS!
Vem a Cristo tal como é, sujo, vil, descuidado,
ímpio e sem Cristo.
Vem agora, agora mesmo, pois Jesus disse: ―o
que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.
Por acaso existe uma gloriosa amplitude em meu
texto ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei
fora‖? Quem é o ―Aquele”, ou o
―O, o sujeito? É ―que vem Qual? ―o que vem a
mim? qualquer um que venha de qualquer parte do mundo.
Se vem a Cristo, não será lançado fora. Um homem
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 98 ]
vermelho, negro, branco, amarelo ou cobre, sem importar
quem seja, se vem a Jesus, não será lançado fora.
Quando queira descrever algo amplamente,
sempre é melhor que o declare e o deixe assim. Não entre
em detalhes; o Salvador não o faz.
Alguns anos atrás, um homem, um esposo amável
e amoroso, desejava deixar para sua esposa todas suas
propriedades. Queria que sua esposa recebesse tudo o
que possuía, como devia ser, de tal forma que estabeleceu
no seu testamento: ―Relego a minha esposa, Elizabeth,
tudo o que possuo.” Isso estava muito bem. Logo,
prosseguiu a descrever em detalhes tudo o que estava
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 99 ]
deixando, todos os bens sobre os quais tinha domínio
absoluto, em vez de declará-la ―herdeira universal. Dava
a casualidade que a maior parte de suas propriedades
estavam arrendadas, e não figuravam na relação dos bens
em domínio absoluto, de tal forma que a esposa não
recebeu nada dessa parte porque seu esposo tinha optado
por dar uma descrição detalhada em vez de declarar ela
como herdeira universal; por culpa do detalhe da herança
a herança se escapou da boa mulher.
2 Oliver Cromwell (1599 —1658) foi um militar e
político britânico, conhecido como um dos líderes da
Guerra Civil Inglesa, movimento que derrubou Carlos I e
levou à instauração de uma república puritana na Grã-
Bretanha.
Agora, aqui não há detalhe, em absoluto: ―o que
a mim vem. Isso quer dizer que qualquer homem, qualquer
mulher e qualquer menino sob os amplos céus, que
simplesmente venham e confie em Cristo, não serão
lançados fora de nenhuma forma. Dou graças a Deus
porque não existe nenhuma alusão a nenhuma identidade
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 100 ]
especial, como que se fosse dito especialmente: ―As
pessoas de tal e tal identidade serão recebidas, pois então
os caracteres que não são mencionados poderiam supor a
si excluídos; porém, o texto quer dizer claramente que toda
alma que venha a Cristo será recebida por Ele.
III. O voo do tempo me apressa, portanto, lhes
suplico que escutem com atenção enquanto lhes falo, em
terceiro lugar, sobre a QUALIDADE INEQUIVOCA DA
PROMESSA: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o
lançarei fora, isso é, por nenhuma razão, sob nenhuma
circunstância, em nenhum momento, sobre nenhuma
condição de nenhum tipo, ―lhes lanço fora; o quão quer
dizer, bem interpretado: ―Irei recebê-los, ire salvá-los, irei
abençoá-los.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 101 ]
JESUS NÃO MENTE
Então, meu querido amigo, se viesse a Cristo,
como Ele poderia lançar-lhe fora? Como poderia fazê-lo
em consistência com Sua veracidade? Imaginem a meu
Senhor Jesus fazendo essa declaração e a entregando
como uma Escritura inspirada: ―o que vem a mim de
maneira nenhuma o lançarei fora, no entanto, lançando
alguém para fora, a esse alguém desconhecido que está
parado na esquina.
Vamos, seria uma mentira; seria uma mentira
qualificada! Suplico-lhes que não blasfemem de meu
Senhor, o Cristo veraz, ao suporem que pudera ser
culpado de uma conduta como essa. Ele poderia ter feito o
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 102 ]
que quisesse quanto a quem receberia até o momento de
fazer a promessa; porém, depois de comprometer Sua
palavra, se obrigou a guardá-la pela veracidade de Sua
natureza; e entanto que Cristo seja o Cristo verdadeiro, Ele
tem que receber a toda alma que venha a Ele.
Porém, deixe-me perguntar-lhe: suponha que
viesse a Cristo e que Ele o lançasse fora: com que mãos
Ele poderia fazer isso? Você responde: ―Com suas
próprias mãos. Como! Cristo dá um passo adiante para
lançar fora a um pecador que veio a Ele? Pergunto de
novo: com que mãos Ele poderia fazê-lo? Acaso o faria
com essas mãos traspassadas que ainda mostram os
sinais dos cravos? Acaso o Crucificado rejeitaria a um
pecador? Ah, não! Ele não tem nenhuma mão com a que
faria uma cruel obra como essa, pois entregou ambas
mãos para que fossem cravadas ao madeiro pelos homens
culpados.
Não tem mãos nem pés nem coração com que
pudesse rejeitar aos pecadores, pois todos esses membros
foram perfurados em Sua morte pelos pecadores; portanto,
não poderia lançá-los fora se viessem a Ele.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 103 ]
Deixe-me fazer outra pergunta: Que benefício seria
para Cristo se Ele efetivamente o lançasse fora? Se meu
amado Senhor, o da coroa de espinhos e do lado
traspassado e das mãos perfuradas lhe fora lançar longe,
que glória isso Lhe aportaria? Se o lançasse ao inferno, a
você que veio a Ele, que felicidade daria isso para Ele? Se
o lançasse fora, a você que buscou Seu rosto, a você que
confiou em Seu amor e em Seu sangue, por qual método
concebível esse ato o faria mais feliz ou grande? Não pode
ser.
Que implicaria essa suposição? Imagine por um
momento que Jesus efetivamente lançasse fora a alguém
que viesse a Ele; se fosse comprovado que uma alma veio
a Cristo e, contudo, Ele a lançou fora, que sucederia? Bem,
haveria milhares de nós que não pregaríamos nunca mais!
Logo eu acabaria com meu ofício. Se meu Senhor lançasse
fora a um pecador que viera a Ele, eu não poderia com uma
consciência limpa, ir pregar baseando-me em Suas
palavras: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o
lançarei fora. Além disso, sentiria que se Ele falhou em uma
promessa, poderia falhar em outras. Eu não poderia sair e
pregar um Evangelho possível, porém duvidoso. Eu devo
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 104 ]
ter os ―farei‖ e os ―assim será provenientes do trono
eterno de Deus; se não fosse assim, nossa pregação seria
vã e nossa fé também seria vã.
Vejam quais seriam as consequências se uma
alma viesse a Cristo e Cristo a lançasse fora. Todos os
santos perderiam sua confiança Nele.
Se um homem quebranta sua promessa uma vez,
não tem o caso que diga: ―bem, eu geralmente sou
verdadeiro. Comprovou que não cumpriu sua palavra uma
vez, e não confiaria nele de novo, não é certo? Não; e se
nosso amado Senhor, de quem todas Suas palavras são
verdadeiras e verazes, poderia cumprir uma de Suas
promessas uma só vez, perderia a confiança de Seu povo
por completo e Sua Igreja perderia a fé que é sua vida
mesma.
JESUS REJEITAR ALGUÉM QUE O BUSCA SERIA ESCÂNDALO
Ah Deus meu, e logo saberiam disso no céu, e uma
alma que viesse a Cristo e fosse deixada fora deteria a
musica das harpas do céu, borraria o lustre da terra da
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 105 ]
glória, e suprimiria seu gozo, pois os glorificados
sussurrariam entre si: ―Jesus quebrou Sua promessa.
Lançou fora uma alma que orava e cria; então Ele
poderia quebrar a promessa que nos fez, e poderia nos
lançar fora do céu. Quando começassem a louvá-Lo, esse
ato solitário seu colocaria um nó em suas gargantas e não
seriam capazes de cantar. Elas estariam pensando nessa
pobre alma que confiou Nele, mas que foi lançada fora;
assim que, como poderiam cantar: ―Ao que nos amou, e
nos lavou de nossos pecados com seu sangue, se
tivessem que acrescentar: “porém não lavou a todos que
vieram a Ele, ainda que tenha prometido que o faria?
Não gosto sequer de falar de tudo o que essa
suposição implicaria; é algo muito terrível para mim, pois
no inferno iriam ficar sabendo disso, e seria transmitido de
uns para outros, e um terrível regozijo se apoderaria dos
diabólicos corações do demônio e de seus companheiros,
que diriam: ―O Cristo não cumpre Sua palavra; o
alardeado Salvador rejeitou a um que veio a Ele. Sempre
recebia pecadores, inclusive as rameiras, e até permitiu
que uma delas lavasse Seus pés com suas lágrimas; os
publicanos e os pecadores vinham e se juntavam a sua
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 106 ]
volta, e Ele lhes falava em tons de amor; porém aqui está
um... bom, ele era demasiadamente vil para que o Salvador
o abençoasse; era tão extremamente desviado que Jesus
não pode restaurá-lo. Cristo não pode limpá-lo. Ele pode
salvar a pecadores menores, porém não aos maiores;
podia salvar à mil e oitocentos anos. Oh, fez ostentação da
salvação deles, porém Seu poder extinguiu-se agora e já
não pode salvar pecadores. Oh, nos salões do Hades, que
piadas e zombarias seriam lançadas contra esse amado
nome, e quase diria, justamente‘, se Cristo lançasse fora
a um que viesse a Ele! Porém, amados, isso não pode
jamais acontecer; é tão certo como o juramento de Deus,
tão certo como o ser do SENHOR, que o que vem a Cristo
não será lançado fora. Eu alegremente dou meu próprio
testemunho diante dessa multidão reunida que:
―Eu vim a Jesus tal como estava
Cansado, desgastado e triste;
Encontrei Nele um lugar de repouso,
E Ele me alegrou.
Venham, cada um de vocês, e comprovem por
experiência própria que o texto é verdadeiro, por nosso
Senhor Jesus Cristo. Amém.
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 107 ]
BIOGRAFIA DE CHARLES SPURGEON
Charles Haddon Spurgeon nasceu em 19 de Junho
de 1834 como o primogênito de 16 irmãos, de John
Spurgeon e sua esposa Eliza Jarvis, em Keveldon,
Inglaterra e foi batizado em 3 de agosto desse ano por seu
avô, o pastor congregacional James Spurgeon. Recebeu o
nome de 'Charles' de um tio de sua mãe. 'Haddon', devido
a um antigo amigo da família de Spurgeon que os ajudou
em hora de necessidade. Em agosto de 1835, seus pais
mudaram para Colchester, e entregaram Charles aos
cuidados de seu avô, com quem viveu até os 5 anos.
Durante esse tempo, leu muitos livros, entre os principais
"O Peregrino" de John Bunyan, obra que marcaria o resto
de sua vida. Também leu muitas obras de Puritanos, como
Richard Baxter e John Owen. Aos seis anos, voltou a morar
com os pais, já devidamente instalados em Colchester.
Converteu-se ao cristianismo em 6 de janeiro de
1850, aos quinze anos de idade. Aos dezesseis, pregou
seu primeiro sermão no ano seguinte tornou-se pastor de
uma igreja batista em Waterbeach, Condado de
Cambridgeshire (Inglaterra). Em 1854, Spurgeon, então
com vinte anos, foi chamado para ser pastor da capela
batista de New Park Street, Londres, que mais tarde viria a
chamar-se Tabernáculo Metropolitano, transferindo-se
para novo prédio.
Desde o início do ministério, seu talento para a
exposição dos textos bíblicos foi considerado
extraordinário. Sua excelência na pregação das Escrituras
Cristo e eu – C. Spurgeon
[ 108 ]
Bíblicas lhe renderam o título de O Príncipe dos
Pregadores e O Último dos Puritanos.
A família de Spurgeon, escapando da perseguição
contra os protestantes perpetrada por Filipe II, fugiu da
Holanda para Inglaterra, por volta de 1570, estabelecendo
na região de East Anglia. No século XVII, os Spurgeons
sofreram dura perseguição incitada por Carlos II contra os
não-conformistas (dissidentes da Igreja Anglicana que não
aceitavam o Ato de Uniformidade de 1662). Anos mais
tarde, os Spurgeons estabeleceram em Stambourne.
Aos 10 anos, um pastor itinerante chamado
Richard Knill impressionou muito ao jovem Charles ao
declarar que "esse menino pregaria o Evangelho a grandes
multidões". Esse fato marcou profundamente a mente da
jovem criança. Spurgeon cursou seus estudos em
Colchester até 1848, indo depois para Newmarket, para
estudar numa escola localizada na área de
Cambridgeshire.
De 1848 a 1850, Charles Spurgeon teve um
período de muitas dúvidas e amarguras. Esteve sob
grande convicção de pecado. Ficou convicto que não era
um cristão de fato, mesmo sendo criado em todo o
ambiente religioso de sua família e região, e sob forte
influência puritana e não-conformista. Em janeiro de 1850,
tendo como objetivo ir a uma reunião matutina em uma
igreja congregacional em Colchester, para buscar paz em
sua perturbada alma, se deteve numa capela de
metodistas primitivos em Artilley Stree, mais em
consequência da forte nevasca que por vontade própria.
CRISTO E EU [MENSAGEM DE CHARLES SPURGEON]
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CRISTO E EU [MENSAGEM DE CHARLES SPURGEON]

  • 2. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 2 ] FINALIDADE DESTA OBRA Este livro como os demais por mim publicados tem o intuito de levar os homens a se tornarem melhores, a amar a Deus acima de tudo e ao próximo com a si mesmo. Minhas obras não têm a finalidade de entretenimento, mas de provocar a reflexão sobre a nossa existência. Em Deus há resposta para tudo, mas a caminhada para o conhecimento é gradual e não alcançaremos respostas para tudo, porque nossa mente não tem espaço livre suficiente para suportar. Mas neste livro você encontrará algumas respostas para alguns dos dilemas de nossa existência. EDITOR: Central de Ensinos Bíblicos [Escriba de Cristo] é licenciado em Ciências Biológicas e História pela Universidade Metropolitana de Santos; possui curso superior em Gestão de Empresas pela UNIMONTE de Santos; é Bacharel em Teologia pela Faculdade das Assembléias de Deus de Santos; tem formação Técnica em Polícia Judiciária pela USP e dois diplomas de Harvard University dos EUA sobre Epístolas Paulinas e Manuscritos da Idade Média. Radialista profissional pelo SENAC de Santos, reconhecido pelo Ministério do Trabalho. Nasceu em Itabaiana/SE, em 1969. Em 1990 fundou o Centro de Evangelismo Universal; hoje se dedica a escrever livros e ao ministério de intercessão. Não tendo interesse em dar palestras ou participar de eventos, evitando convívio social.
  • 3. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 3 ] CONTATO: Whatsapp Central de Ensinos Bíblicos com áudios, palestras e textos do Escriba de Cristo 55 13 996220766 com o Escriba de Cristo https://youtube.com/@escribadecristo https://www.tiktok.com/@escribadecristo Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP) M543 Charles Spurgeon, Central de Ensinos Bíblicos 1969 – Cristo e eu de C. Spurgeon Londres – Inglaterra , Livrorama, clubedeautores Bibliomundi, Amazon.com, 2023, 120 p. ; 21 cm ISBN: 9798862727050 Edição 1° 1. Sermões 2. Bíblia 3. Evangelização 4. Protestantismo 5. Jesus salvador CDD 280 CDU 283
  • 4. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 4 ] CONTRIBUIÇÃO PARA ESTA MISSÃO Esta versão do meu livro está disponível gratuitamente na internet. Se você a leu, gostou e lhe edificou, peço que faça uma doação ao meu ministério fazendo um pix, nem que seja de um dólar [ou cinco reais BR], assim continuaremos produzindo livros que edifiquem: PIX Valdemir Mota de Menezes, Banco do Brasil CPF 069 925 388 88 Este material literário do autor não tem fins lucrativos, nem lhe gera quaisquer tipos de receita. Sua satisfação consiste em contribuir para o bem da educação uma melhor qualidade de vida para todos os homens e seres vivos, e para glorificar o único Deus Todo-Poderoso. OBRIGADO PELA COLABORAÇÃO!
  • 5. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 5 ] Sumário INTRODUÇÃO......................................................................8 A RELIGIÃO CRISTÃ.......................................................... 10 NEBULOSAS........................................................................ 12 ATANÁSIO ........................................................................... 16 BATISMO ............................................................................. 19 CRENTE PARASITA...........................................................20 MISSÃO PESSOAL............................................................... 21 TODO INGLÊS É CRISTÃO?.............................................23 MONARCA PAGÃO.............................................................25 TRADIÇÃO DOS PAIS ........................................................26 A VIDA É SOLITÁRIA.........................................................27 UM COM CRISTO ...............................................................30 MORTO NA CRUZ..............................................................33 SENTENÇA JÁ EXECUTADA ...........................................35 NOVA VIDA .........................................................................37 A JORNADA DO CRISTÃO ................................................ 41
  • 6. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 6 ] CRISTO ME AMOU.............................................................46 ESTOU MORTO PARA O MUNDO ..................................48 DUAS NATUREZAS............................................................54 MINISTÉRIO CHARLES SPURGEON.............................59 PERGUNTAS E RESPOSTAS DESDE A CRUZ ...............63 A AGONIA DE CRISTO......................................................64 DEUS DISTANTE?..............................................................69 DEUS NÃO ESCUTA?......................................................... 71 CRISTO TINHA QUE ESTAR SÓ .....................................73 DEUS NÃO AJUDOU O CRISTO.......................................75 DEUS NÃO ESCUTOU A CRISTO....................................76 APELO PARA ACEITAR JESUS.........................................77 Boas Vindas para Todos que Vem a Cristo ..........................83 SEGURANDO A VELA........................................................87 ORANDO POR COISAS PEQUENAS................................88 ZÉ NINGUÉM VEM A CRISTO ........................................90 VENHA COM SEUS PECADOS.........................................93
  • 7. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 7 ] VENHA COMO ESTÁS!......................................................97 JESUS NÃO MENTE..........................................................101 JESUS REJEITAR ALGUÉM QUE O BUSCA SERIA ESCÂNDALO..................................................................... 104 BIOGRAFIA DE CHARLES SPURGEON....................... 107
  • 8. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 8 ] INTRODUÇÃO Este livro contém três sermões de Charles Spurgeon que viveu no século XIX e é considerado um dos heróis do cristianismo, também chamado pelos seus admiradores em todo o mundo de PRÍNCIPE DOS PREGADORES ou O ULTIMO DOS PURITANOS. A vida de Charles Spurgeon é um exemplo de vida cristã e sua missão como pregador Batista fez com que seu nome fosse respeitado por todas as linhas de pensamento do cristianismo. Jesus Cristo é o nosso Salvador. Este é o tema central das pregações de Spurgeon. Nesta obra contém três sermões, são eles: 1 – Cristo e eu 2 – Perguntas e respostas desde a Cruz 3 – Boas vindas para todos que vem a Cristo Estes sermões foram proferidos a cerca de 150 anos e quando você lê estas mensagens antigas, parece que você esta sentado em um banco, em uma igreja na Inglaterra e está ouvindo o Espírito Santo falando com você. Em CRISTO E EU vemos a necessidade de salvação, em PERGUNTAS E RESPOSTAS DESDE A CRUZ iremos entender porque Deus deixou Jesus sofrer na cruz. BOAS VINDA PARA TODOS QUE VEM A CRISTO é uma exposição clara que só podemos ser salvos por Jesus, esqueça outros deuses, santos, Maria, praticas de rituais ou boas obras. Seja sensato e venha a Cristo se quiser ser salvo.
  • 9. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 9 ] CRISTO E EU
  • 10. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 10 ] Cristo e Eu “Christus Et Ego” N° 781 Sermão pregado na manhã de Domingo, 17 de Novembro de 1867 Por Charles Haddon Spurgeon No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres. A RELIGIÃO CRISTÃ “Com Cristo estou juntamente crucificado, e já não vivo eu, mas vive Cristo em mim; e o que agora vivo na carne, vivo na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”. Gálatas 2:20. Nas grandes cadeias de montanhas, há elevados picos que tocam as nuvens, mas, por outro lado, há, aqui e ali, partes mais baixas da cordilheira que podem ser trafegadas pelos viajantes e que se convertem em estradas nacionais que propiciam o intercâmbio comercial entre as diversas terras. Meu texto se ergue ante minha
  • 11. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 11 ] contemplação como uma majestosa cadeia de montanhas, como uma verdadeira Cordilheira dos Andes por sua altura. Esta manhã não vou tentar escalar os cumes de sua magnificência; não temos o tempo e tememos que não tenhamos a habilidade para uma obra dessa natureza, mas, até onde minha capacidade permitir, irei guiá-los através de uma ou duas verdades práticas que poderiam ser úteis para nós esta manhã e poderiam nos introduzir aos ensolarados campos da contemplação. I. Mãos à obra agora. Peço que observem com muito cuidado, em primeiro lugar, A PERSONALIDADE DA RELIGIÃO CRISTÃ tal como é exibida no texto que vamos analisar. Quantos pronomes pessoais da primeira pessoa há neste versículo? Acaso não são oito? Há uma copiosa presença de “eus” e “meus”. O texto não contém nenhum plural; não menciona ninguém mais, nem uma terceira pessoa situada longe, mas que o apóstolo trata acerca de si mesmo, de sua própria vida interior, de sua própria morte espiritual, do amor de Cristo por ele e do grande sacrifício que Cristo realizou por ele. “O qual me amou e se entregou por mim”.
  • 12. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 12 ] Isso é introdutivo, pois um sinal distintivo da religião cristã é que faz ressaltar a individualidade da pessoa. Não nos faz egoístas, pelo contrário, cura-nos desse mal, mas com tudo isso, manifesta em nós uma identidade mediante a qual nos tornamos conscientes, de maneira eminente, de nossa individualidade pessoal. NEBULOSAS Nos céus noturnos se tinha observado há muito tempo brilhantes massas de luz; os astrônomos as chamaram de “nebulosas”; supunham que eram depósitos de matéria caótica disforme, até que o telescópio de Herschell1 as identificou como distintas estrelas. O que fez o telescópio com as estrelas, a religião de Cristo faz com os homens, quando a recebem em seus corações. Os homens se consideram como fundidos com a raça, ou submersos na comunidade, ou absorvidos pela humanidade universal; têm uma ideia muito confusa acerca de suas obrigações independentes para com Deus e de suas relações pessoais para com seu governo, mas o
  • 13. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 13 ] Evangelho, como telescópio, isola o homem frente a si mesmo, faz com que se veja como uma existência separada, e o obriga a meditar sobre seu próprio pecado, sobre sua própria salvação e sua própria condenação pessoal, a menos que seja salvo pela graça. No caminho espaçoso há tantos viajantes, que se vocês lançarem um olhar sobre ele como voo de pássaro, parecerá estar cheio de uma vasta multidão de homens que avança em desordem; mas no caminho estreito que conduz à vida eterna, cada viajante é único; atrai sua atenção; é um homem devidamente identificado. Tendo que ir contra a corrente geral dos tempos, o crente é um indivíduo sobre o qual se pousam olhos observantes. É um indivíduo distinto tanto para ele mesmo quanto para o resto dos de sua classe. Verá muito facilmente como a religião de Jesus Cristo faz com que se destaque a individualidade de um homem desde seu alvorecer; revela-lhe seu próprio pecado pessoal e o consequente perigo. 1 John Herschel. Filho do astrônomo William Herschel. Herschel originou o uso do sistema juliano na
  • 14. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 14 ] astronomia. Nomeou sete luas de Saturno e quatro luas de Urano. Imagem de nebulosa Você não sabe nada sobre a conversão se crê meramente na depravação humana e na ruína humana, mas nunca sentiu que você é depravado, e que você mesmo está arruinado. Por cima de todas as calamidades gerais da raça, haverá um infortúnio particular que é de sua propriedade. Se é que o Espírito Santo lhe convenceu do pecado; você clamará igual àquele profeta de Jerusalém de voz suplicante nos dias do sítio: “Ai de mim!”; sentirá como se as flechas de Deus estivessem apontando
  • 15. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 15 ] principalmente para você, e como se as maldições da lei fossem cair seguramente sobre você se não caírem sobre ninguém mais. Certamente, querido ouvinte, você não sabe nada sobre a salvação a menos que tenha olhado pessoalmente, com seus próprios olhos, para Jesus Cristo. Você tem que receber pessoalmente o Senhor Jesus Cristo, nos braços de sua fé e no peito do seu amor; e, se você não tem confiado no Crucificado, enquanto tem ficado só em contemplação aos pés da cruz, então você não tem crido para a vida eterna. Logo, como consequência de uma fé pessoal e individual, o crente goza de uma paz pessoal; ele sente que se toda terra estivesse pegando em armas, ele ainda encontraria repouso em Cristo, e esse repouso é peculiarmente seu, independentemente de seus companheiros. Você pode falar dessa paz em outros, mas não pode comunicá-la; outros não podem dá-la, nem podem tirá-la. Onde quer que a religião cristã esteja verdadeiramente na alma, logo conduz a uma consagração pessoal a Deus. O homem se aproxima do altar de Cristo e exclama; “eis-me aqui; Oh, Senhor supremamente
  • 16. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 16 ] glorioso, eu sinto que meu culto racional é dar-Te espírito, alma e corpo. Que outros façam o que quiserem, mas eu e minha casa serviremos ao SENHOR Javé”. ATANÁSIO O homem regenerado sente que a obra de outros não o exonera do serviço, e a fraqueza geral da igreja cristã não pode ser uma desculpa para sua própria indiferença. Ele se destaca na luta contra o erro inclusive como um protestante solitário, se fosse necessário, como Atanásio, que clamava: “Eu, Atanásio, contra o mundo inteiro”; ou trabalha para Deus na edificação de Jerusalém, como Neemias, contentando-se com trabalhar só se outros não querem ajudá-lo.
  • 17. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 17 ] Descobriu que estava pessoalmente perdido, e que foi salvo pessoalmente, e agora sua oração é: “Senhor, mostra-me o que queres que eu faça; aqui estou eu, envia- me”. Eu creio que na medida em que nossa piedade esteja definitivamente na primeira pessoa do singular será forte e vigorosa. Ademais, creio que na medida em que compreendamos plenamente nossa responsabilidade pessoal para com Deus, será mais provável que a cumpramos; mas se não a temos entendido realmente, é muito provável que sonhemos em trabalhar para Deus mediante uma autoridade, em pagar ao sacerdote ou ao ministro para que nos sejam úteis, e que atuemos como se
  • 18. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 18 ] pudéssemos transladar a responsabilidade de nossos próprios ombros às costas de uma sociedade ou de uma igreja. Desde seu alvorecer até sua glória do meio-dia, a personalidade da verdadeira piedade é sumamente observável. Todo o ensinamento de nossa santa fé leva para essa direção. Nós pregamos a eleição pessoal, o chamado pessoal, a regeneração pessoal, a perseverança pessoal, a santidade pessoal, e não conhecemos nenhuma obra da graça que não seja pessoal para aquele que a professa. Não há nenhuma doutrina na Escritura que ensine que o homem pode ser salvo pela piedade de outro. Eu não pude descobrir nada parecido à salvação por patrocínio, exceto no único caso do patrocínio do Senhor Jesus Cristo. Não encontro nenhum ser humano colocado no lugar de outro para ser capaz de tomar a carga de pecado do outro, ou realizar o dever de alguém mais. Eu encontro, na verdade, que devemos levar as cargas uns dos outros com respeito à simpatia, mas não no sentido da substituição. Cada ser humano tem de levar sua própria carga, e tem de dar conta de si mesmo ante Deus.
  • 19. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 19 ] BATISMO Ademais, as ordenanças da religião cristã nos dizem o mesmo. Quando o homem é sepultado com Cristo, por exemplo, pelo ato público do batismo, não pode estar morto por outro ou ser sepultado por outro, nem pode ressuscitar no lugar de outro. Dá-se o ato pessoal de imersão para manifestar nossa morte pessoal para o mundo, nosso pessoal enterro com Cristo e nossa ressurreição pessoal com Ele. Assim também, na Ceia do Senhor, o ato individual de cada pessoa que come e bebe por si mesma, declara de maneira muito manifesta que nos apresentamos como indivíduos diante do Senhor, nosso
  • 20. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 20 ] Deus, em nosso vínculo com o Senhor Jesus Cristo. Agora, eu creio sinceramente que nada deve destruir, jamais, o efeito dessa verdade em nossas mentes. É uma verdade tão simples que, quando a enuncio, vocês se perguntarão, talvez, porque a repito com tanta frequência; mas, simples como é, está sendo esquecida frequentemente. CRENTE PARASITA Quantos membros da igreja se escondem atrás da vigorosa ação da comunidade inteira! A igreja vai crescendo, a igreja abre escolas, a igreja edifica novas casas de oração, e então o membro da igreja se sente lisonjeado porque ele está fazendo algo, quando na realidade esse mesmo indivíduo poderia não ter feito absolutamente nada mediante suas contribuições ou suas orações ou seus ensinamentos pessoais. Oh, ocioso membro da igreja, eu lhe suplico, sacuda-se do seu pó; não seja tão infame para apropriar-se dos trabalhos de outras pessoas. Diante do seu próprio Senhor, você se sustentará
  • 21. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 21 ] ou cairá sobre seu próprio serviço individual ou sua negligência individual, e se você não produzir nenhum fruto por si mesmo, todo o fruto dos outros ramos não lhe servirá de nada. “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e jogado no fogo”. “Todo galho que em mim não produz fruto será tirado”. MISSÃO PESSOAL É muito comum, também, que as pessoas se escondam por trás de uma sociedade. Uma pequena contribuição anual tem sido, com frequência, um manto para uma indiferença crassa com respeito ao santo esforço. A alguém mais se paga para que seja um missionário e desempenhe seu trabalho de missão; é esse
  • 22. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 22 ] o caminho do Senhor? É essa a senda da obediência? Acaso o Senhor não me diz: “Como me enviou o Pai, assim também eu os envio?” Agora notem, o Pai não enviou Cristo para que procurasse um delegado e fosse um Redentor nominal, mas que Jesus se entregou a si mesmo por nós em um serviço e um sacrifício pessoal; de igual maneira, Jesus nos envia para que soframos e sirvamos. Está bem apoiar o ministro; está bom pagar ao missionário local para que possa dedicar seu tempo a essa obra necessária, está bem ajudar à mulher que distribui Bíblias para que possa ir de casa em casa, mas, lembrem-
  • 23. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 23 ] se de que quando todas as sociedades tenham feito tudo o que é possível, vocês não podem se exonerar do seu chamado pessoal, e sem importar quão grandes puderam ser suas contribuições para ajudar a outros a servir o Senhor, não podem se liberar, em seu nome, de uma só partícula do que você deve pessoalmente ao seu Senhor. Permitam lhes suplicar, irmãos e irmãs, que se vocês alguma vez se esconderam atrás do trabalho de outros, compareçam em seu próprio caráter, e lembrem que diante de Deus tem de ser avaliados pelo que vocês sentem, pelo que vocês conhecem, pelo que vocês têm aprendido e pelo o que vocês têm feito. TODO INGLÊS É CRISTÃO? A pior forma deste mal é quando as pessoas, às vezes, imaginam que a piedade familiar e a religião nacional podem estar disponíveis no lugar do arrependimento e da fé individual. Absurdo como poderia parecer, é algo muito comum que as pessoas digam: “Oh, sim, todos nós somos cristãos. É evidente que todos somos cristãos; todo inglês é cristão. Nós não pertencemos
  • 24. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 24 ] aos brâmanes ou aos muçulmanos; todos somos cristãos”. Que mentira mais absurda que um homem pode inventar? É cristão um homem por viver na Inglaterra? Acaso uma ratazana é um cavalo porque vive em um estábulo? Esse é um raciocínio tão bom quanto. Um indivíduo deve nascer de novo, ou não é um filho de Deus. Um indivíduo deve ter uma fé viva no Senhor Jesus Cristo, ou do contrário não é nenhum cristão, e nada faz senão escarnecer do nome de cristão quando o assume sem ter parte nem sorte nesse assunto. Outros dizem: “minha mãe e meu pai professaram sempre essa religião, e portanto, eu estou obrigado a fazer
  • 25. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 25 ] o mesmo”. É um glorioso raciocínio apropriado, certamente, para os idiotas! MONARCA PAGÃO Vocês nunca ouviram acerca daquele antigo monarca pagão que professava a conversão, e que estava a ponto de entrar na fonte batismal, quando, voltando-se para onde estava o bispo, perguntou: “Para onde foi meu pai quando morreu, antes da sua religião chegar aqui, e onde foi seu pai e todos os reis que foram antes de mim
  • 26. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 26 ] que adoraram a Odin e a Thor? Para onde foram quando morreram? Diga-me imediatamente”! O bispo balançou a cabeça, pareceu muito triste e disse que temia que eles tivessem ido para um lugar muito tenebroso. “Ah, então” – disse ele – “eu não quero ficar separado deles”. Voltou e seguiu sendo um pagão sem o batismo. Vocês supõem que esta loucura acabou na era do obscurantismo? Sobrevive e prolifera no presente. Conhecemos pessoas que se impressionaram com o Evangelho, que, não obstante, apegaram-se às falsas esperanças da superstição ou do mérito humano, e se têm desculpado dizendo: “Olha, eu fui educado desta maneira”. TRADIÇÃO DOS PAIS Pensa um homem que porque sua mãe foi pobre, ou seu pai foi um indigente, que ele mesmo tem que seguir sendo um mendigo? Se meu progenitor foi um cego, estou obrigado a jogar meus próprios olhos fora para ser como ele? Não, mas se contemplei a luz da verdade de Jesus
  • 27. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 27 ] Cristo, devo segui-la e não hei de ser desorientado pela ideia de que a superstição hereditária é menos perigosa ou errônea, porque uma dúzia de gerações foram enganadas por ela. Você tem que se apresentar diante de Deus, meu querido amigo, com seus próprios pés, e nem mãe nem pai podem tomar o seu lugar, portanto, julgue por si mesmo; busque a vida eterna; levante seus olhos para a cruz de Cristo pessoalmente, e que seja seu sério empenho que você mesmo seja capaz de dizer: “Ele me amou e se entregou por mim”. A VIDA É SOLITÁRIA Todos nascemos sozinhos; viemos a esse mundo como tristes peregrinos para percorrer uma trilha que unicamente nossos próprios pés podem percorrer. Em
  • 28. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 28 ] grande medida, vamos sozinhos pelo mundo, pois todos os nossos companheiros são apenas barcos que navegam ao nosso lado, barcos diferentes que levam, cada um deles, sua própria bandeira. Ninguém pode mergulhar na profundidade de nossos corações. Há armários na alcova da alma que ninguém pode abrir senão a própria pessoa. Temos que morrer sós; os amigos podem rodear o leito, mas o espírito que parte tem de alçar voo sozinho. Não vamos ouvir as pisadas de milhares conforme desçamos ao negro rio; seremos viajantes solitários ao nos adentrar na terra ignota. Esperamos nos apresentar diante do tribunal em meio a uma grande assembleia, mas ainda para ser julgados como se ninguém mais estivesse ali. Se toda essa multidão é condenada, e nós estamos em Cristo, seremos
  • 29. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 29 ] salvos, e se todos eles forem salvos, e nós encontrados em falta, seremos descartados. Cada um de nós será colocado só nas balanças. Há um cadinho para cada lingote de ouro, um forno para cada barra de prata. Na ressurreição, cada semente receberá seu próprio corpo. Haverá uma individualidade no corpo do ressuscitado naquele dia de prodígios, uma individualidade extremamente marcada e manifesta. Se eu sou condenado ao final, ninguém pode ser condenado pelo meu espírito; nenhuma alma pode entrar nas câmaras de fogo em meu nome para suportar por mim a indizível angústia. E, bendita esperança, se sou salvo, serei eu quem verá o Rei em sua formosura; meus olhos o verão, e não outro em meu lugar. Os gozos do céu não serão gozos através de um substituto, mas os desfrutes pessoais daqueles que tiveram uma união pessoal com Cristo. Todos vocês sabem disso, e portanto, eu lhes rogo que permitam que essa importante verdade permaneça com vocês. Nenhum homem sensato pensa que outro pode comer por ele ou beber por ele, ou se vestir por ele, dormir por ele ou acordar por ele. Ninguém está contente hoje em dia com o fato de que alguém mais possua dinheiro por ele,
  • 30. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 30 ] ou que possua uma propriedade por ele; os homens anseiam possuir eles mesmos as riquezas; desejam ser felizes pessoalmente, ser reconhecidos pessoalmente; não lhes importa que as boas coisas desta vida sejam só nominalmente deles, enquanto outros homens se aproveitam das coisas reais; eles desejam ter um domínio real e um controle de todos os bens temporais. Oh, não façamos papel de tolos com as coisas eternas, mas desejemos ter um interesse pessoal por Cristo, e logo aspiraremos dar a Ele, que merece tanto, nosso serviço pessoal, entregando espírito, alma e corpo à Sua causa. UM COM CRISTO II. Em segundo lugar, nosso texto de forma muito clara, NOS ENSINA O ENTRELAÇAMENTO DE NOSSA PRÓPRIA PERSONALIDADE COM A DE JESUS CRISTO. Leiam o texto de novo: “Com Cristo estou juntamente crucificado, e já não vivo eu, mas Cristo que vive em mim; e o que agora vivo na carne, vivo na fé do
  • 31. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 31 ] Filho de Deus, aquele que me amou e se entregou por mim”. Aí está o homem, mas aí está o Filho de Deus de maneira conspícua, e as duas personalidades estão singularmente entrelaçadas. Parece que vejo duas árvores à minha frente. São plantas individuais que crescem uma junto à outra, mas ao analisar sua parte inferior, observo que as raízes estão tão entrelaçadas e entrecruzadas que ninguém pode separar as árvores individualmente e atribuir os membros de cada uma a sua própria unidade. Assim são Cristo e o crente. Parece que vejo diante de mim uma videira. Para lá está um ramo, único e perfeito como um galho; não há de ser confundido com nenhum outro; é um galho – um galho inteiro e perfeito – e, sem dúvida, quão perfeitamente unido
  • 32. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 32 ] está ao tronco, e quão completamente fundida à videira da qual é um membro! Agora notem, o mesmo sucede ao crente em Cristo. Houve um progenitor que lançou sua sombra através de nossa senda, e de cuja influência não podemos escapar nunca. De todos os demais homens poderíamos escapar e declarar estarmos separados, mas este homem em particular era parte de nós mesmos, e nós parte dele: se trata do primeiro Adão, em seu estado caído; estamos caídos nele, e estamos desfeitos em sua ruína. E agora, glória seja a Deus, como a sombra do primeiro homem tem sido suprimida em nós, aparece um segundo homem, o Senhor do céu; e através de nossa senda se derrama a luz de Sua glória e de Sua excelência, da qual também, bendito seja Deus, nós, os que cremos Nele, não podemos escapar; na luz deste homem – o segundo Adão, a cabeça federal celestial de todo Seu povo – em Sua luz nos regozijamos. Entrelaçadas com nossa história e personalidade estão a história e a personalidade do homem Jesus Cristo, e nós somos um com Ele para sempre.
  • 33. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 33 ] MORTO NA CRUZ Observem os pontos de contato. Primeiro Paulo diz: “Com Cristo estou juntamente crucificado”; o que pretende dizer? Pretende dizer muitíssimas coisas mais do que poderia mencionar esta manhã; mas, brevemente, pretendo dizer isto: que ele acreditava na representação de Cristo na cruz; mantinha que, quando Jesus Cristo foi cravado na cruz, não pendeu de lá como uma pessoa privada, mas como o representante de Seu povo escolhido. Assim como o representante de um distrito na Câmara dos Comuns não vota só por si mesmo, mas em nome do distrito que o enviou ao Parlamento, assim o Senhor Jesus Cristo, no que fez, atuou como o grande representante público, e a morte de Jesus Cristo na cruz foi a morte virtual de todo o Seu povo. Então, todos os seus santos restituíram à justiça o que era devido e fizeram uma expiação por todos os seus pecados ante a vingança divina. “Com Cristo estou juntamente crucificado”.
  • 34. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 34 ] O apóstolo dos gentios se deleitava pensando que como um membro do povo escolhido de Cristo, ele morreu na cruz em Cristo. Fez algo mais que crer nisso doutrinalmente, pois o aceitou confiadamente, depositando sua esperança nisso. Acreditava que em virtude da morte em Cristo, ele mesmo havia pago à lei o que devia, que havia satisfeito à justiça divina, e que havia encontrado a reconciliação com Deus. Amados, quão bendito é quando a alma pode, por dizer assim, estender-se sobre a cruz de Cristo e sentir: “estou morto; a lei me matou, maldisse-me, imolou-me e,
  • 35. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 35 ] portanto, sou livre do seu poder porque em minha Fiança levei a maldição, e na pessoa de meu Substituto foi executado contra mim tudo o que a lei podia fazer como condenação, pois estou crucificado com Cristo”. Oh! Quão bendito é quando a cruz de Cristo é posta sobre nós: como nos ressuscita! Assim como o ancião profeta subiu e se estendeu sobre o menino morto, pondo sua boca sobre a boca dele, e suas mãos sobre as mãos suas, e seus pés sobre os pés do menino, e logo o menino ressuscitou, do mesmo modo quando a cruz é posta sobre minha alma, infunde-me vida, poder, calor e consolo. A união com o Salvador sangrento e sofredor e a fé no mérito do Redentor, são coisas que reanimam a alma. Oh! Que tivéssemos mais gozo dessas coisas! SENTENÇA JÁ EXECUTADA Paulo quis dizer, ainda, algo mais que isso. Não somente acreditava na morte de Cristo e confiava nela, mas que efetivamente sentia em sua pessoa o seu poder, o qual gerava a crucificação de sua velha natureza corrupta. Se você se concebe como um homem executado,
  • 36. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 36 ] de imediato percebe que sendo executado pela lei, a lei não tem nenhuma reclamação adicional sobre você; você resolve, ademais, que tendo provado uma vez a maldição do pecado pela sentença ditada sobre você, não cairá novamente nessa mesma ofensa, mas a partir de agora, sendo liberado milagrosamente da morte à que a lei lhe levou, viverá em vida nova. Deve sentir isso se sente devidamente. Assim Paulo se via como um criminoso sobre o qual a sentença da lei já havia sido cumprida. Quando via os prazeres do pecado, dizia: “não posso desfrutá-los; estou morto para eles. Uma vez tive uma vida na qual os pecados eram
  • 37. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 37 ] doces para mim, mas essa vida foi crucificada com Cristo; por conseguinte, como um morto não pode ter nenhum deleite nos gozos que uma vez foram deleites para ele, tampouco posso ter eu”. Quando Paulo olhava as coisas carnais do mundo, dizia: “antes eu permitia que essas coisas reinassem sobre mim. ‘Que comerei? Que beberei? E com o que me vestirei?’ Essas coisas constituíam uma trindade de perguntas de suprema importância; agora não têm nenhuma importância, porque estou morto para essas coisas; eu deixo para Deus as preocupações com respeito a elas; não são minha vida; estou crucificado para elas”. Seja qual for a paixão, o motivo, o desígnio que possam vir à nossa mente, que não seja a cruz de Cristo, deveríamos exclamar: “Longe está de mim gloriar-me em alguma dessas coisas; eu sou um homem morto. Vamos, mundo, com toda a sua bruxaria; vamos, prazer, com todos os seus encantos; vamos, riqueza, com todas as suas tentações; vamos, todos vocês, tentadores que têm seduzido a tantos; que podem fazer com um homem crucificado? NOVA VIDA
  • 38. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 38 ] Como podem tentar a um que está morto para vocês?”. Agora, é um bendito estado mental quando um homem pode sentir que por haver recebido a Cristo ele é como alguém que está completamente morto para este mundo. Nem entrega sua fortaleza aos seus propósitos, nem sua alma aos seus costumes, nem seu juízo às suas máximas, nem seu coração aos seus afetos, pois é um homem crucificado através de Jesus Cristo; o mundo foi crucificado para ele, e ele para o mundo.
  • 39. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 39 ] Isso foi o que quis dizer o apóstolo. Notem, em continuação, outro ponto de contato. Paulo disse: “Contudo vivo”, mas logo corrige a si mesmo: “e já não vivo eu, mas Cristo que vive em mim”. Vejam vocês o estado morto de um crente: está surdo, mudo, cego e sem sentimento quanto ao mundo pecador, e não obstante, acrescenta: “Contudo vivo”. Explica qual é a sua vida: sua vida é produzida nele em virtude de que Cristo está nele e ele está em Cristo. Jesus é a fonte da vida do cristão. A “alma” da videira vive inclusive nos minúsculos raminhos. Não importa quão diminuto possa ser o nervo, o especialista na anatomia dirá que a vida cerebral palpita na extremidade mais distante. O mesmo acontece em cada cristão; ainda que o cristão possa ser insignificante, e possua pouca graça, contudo, se é verdadeiramente um crente, Jesus vive nele. A vida que mantém em existência sua fé, sua esperança e seu amor, provêm de Jesus Cristo e unicamente Dele. Nós cessaríamos de ser santos viventes se não recebêssemos diariamente uma graça proveniente de nossa Cabeça da Aliança. Como a força da nossa vida vem
  • 40. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 40 ] do Filho de Deus, então Ele é o governador e o poder matriz em nosso interior. Como pode ser cristão alguém que é governado por qualquer coisa que não seja Cristo? Se chama Cristo “Mestre e Senhor”, você tem que ser Seu servo; tampouco podes render obediência a nenhum poder rival, pois ninguém pode servir a dois senhores. Tem que haver um espírito orientador no coração, e a menos que Jesus Cristo seja para nós esse espírito que orienta, não somos salvos de todo. A vida do cristão é uma vida que brota de Cristo, e é controlada por sua vontade. Amados, sabem algo a respeito disso? Temo que é uma conversa insossa para vocês a menos que a sintam. Tem sido sua vida assim durante a semana passada? Tem sido a vida que vocês viveram de Cristo vivendo em vocês? Tem sido essa vida como um livro impresso com letras claras, no qual os homens poderiam ler uma nova edição da vida de Jesus Cristo? Um cristão deveria ser uma fotografia vivente do Senhor Jesus Cristo, ser uma impactante semelhança do seu Senhor. Quando os homens o olham deveriam ver não só o que é o cristão, mas o que é o Senhor do cristão, pois deveria ser como seu Senhor. Você tem visto alguma vez ou tem sabido que
  • 41. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 41 ] no interior da sua alma Cristo olha por seus olhos para os pobres pecadores e considera como poderia ajudá-los; que Cristo palpita em seu coração, sentindo pelos que perecem, tremendo por aqueles que não querem tremer por eles mesmos? Vocês sentem alguma vez que Cristo abre as suas mãos em generosa caridade para ajudar os que não podem ajudar a si mesmos? Sentiram alguma vez que algo diferente de você mesmo estava em você, um espírito que algumas vezes luta consigo mesmo, e o agarra pela garganta e ameaça destruir seu egoísmo pecaminoso; um espírito nobre que põe seu pé sobre o peito da ganância, um espírito valente que leva ao solo o seu orgulho, um espírito ativo e fervente que queima sua ociosidade? Você nunca sentiu isso? Certamente nós que vivemos para Deus sentimos a vida de Deus em nosso interior e desejamos ser submetidos cada vez mais ao espírito dominante de Cristo, para que nossa humanidade possa ser um palácio para o Bem Amado. Isso é outro ponto de contato. A JORNADA DO CRISTÃO
  • 42. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 42 ] Prosseguindo, o apóstolo diz, e eu espero que mantenham abertas suas Bíblias para ler o texto: “E o que agora vivo na carne, vivo na fé do Filho de Deus”. A vida do cristão deve ser em cada momento uma vida de fé. Cometemos um erro quando procuramos caminhar guiados pelo sentimento ou pela vista. Sonhei outra noite, enquanto meditava na vida do crente, que ia percorrendo um caminho que um chamado divino me havia indicado. A trilha estabelecida que eu estava sendo chamado a percorrer se estendia em meio a uma densa escuridão e estava desprovida por completo de algum raio de luz. Quando me encontrava submerso na espantosa escuridão, incapaz de perceber nem uma só polegada diante de mim, ouvi uma voz que me dizia: “segue caminhando. Não temas, antes, avança no nome de Deus”. Assim, prossegui meu caminho, apoiando temerosamente primeiro um pé e logo o outro. Depois de um breve lapso a trilha perdida na escuridão tornou-se fácil e clara, pelo uso e experiência; foi então que percebi que a trilha se retorcia; não tinha escolha, e me esforçava para proceder como havia feito antes; o caminho era agora tortuoso e a senda áspera e pedregosa; mas eu lembrei o que havia sido dito
  • 43. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 43 ] a mim, que precisava avançar como pudesse, assim, segui adiante. Então, veio outro desvio, e logo outro, e outro, e outro, e eu me perguntava por que, até que entendi que se a trama do caminho continuasse sendo a mesma constantemente, acostumar-me-ia a ela, e então caminharia guiado pelo sentimento; e aprendi que a totalidade do caminho seria sempre de tal maneira como para forçar-me a depender da voz condutora e a exercer a fé no Invisível que me havia chamado. Logo me pareceu como se não houvesse nada debaixo do meu pé quando o firmei; contudo, adiantei-o na escuridão, em um confiante
  • 44. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 44 ] atrevimento, e aqui, consegui dar um passo firme, e outro, e outro, enquanto descia por uma escada que baixava cada vez mais verticalmente. Prossegui, sem poder ver nem uma polegada diante de mim, mas crendo que tudo estava bem, ainda que eu pudesse ouvir ao meu redor a estrepitosa queda de homens e mulheres que andavam guiados pela luz de suas próprias lanternas, e que haviam perdido pé. Ouvi os gritos e os alaridos de homens no momento de cair dessa horrenda escada; mas eu tinha ordens de seguir adiante, e segui diretamente até adiante, resoluto a ser obediente ainda se o caminho descesse até o mais profundo inferno. Logo, a horrenda escada chegou ao fim, e encontrei uma sólida rocha debaixo de meus pés, e caminhei de frente sobre uma calçada elevada com uma balaustrada em ambos os lados. Entendi que isso era a experiência que havia acumulado, que agora podia me guiar e me ajudar, e eu apoiei-me sobre essa balaustrada e segui caminhando, confiantemente, até que, em um instante, minha calçada elevada acabou e meus pés se afundaram na lama, e quanto aos meus outros consolos, buscava-os tateando, mas haviam desaparecido, pois
  • 45. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 45 ] ainda devia saber que tinha que seguir dependendo do meu invisível Amigo, e o caminho seria sempre de tal maneira que nenhuma experiência poderia substituir minha dependência de Deus. Seguindo adiante, sumi no lodo e em uma imundície com um humo sufocante e um odor como de umidade de morte, pois era o caminho, e se me havia ordenado que o percorresse. Novamente a senda mudou, ainda que meia noite; a senda subia, e seguia subindo, e subindo, e subindo, sem nada nela onde pudesse me apoiar; ascendi desfalecente inumeráveis escadas, nenhuma das quais era visível, ainda que o simples pensamento de sua altura pudesse fazer com que o cérebro vacilasse. Imediatamente, irrompeu a luz – quando despertei do meu sonho – e vendo-o desde o alto, vi que tudo era seguro, mas que era um caminho tal que se eu o tivesse visto, não teria podido percorrê-lo jamais. Só na escuridão eu teria podido realizar minha misteriosa travessia; só com uma confiança infantil no Senhor. O Senhor nos guia se estamos dispostos a fazer simplesmente o que Ele nos pedir. Apoiem-se Nele, então.
  • 46. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 46 ] Pintei um pobre quadro, mas ainda assim é um que, se vocês se derem conta, é grandioso para ser contemplado. Caminhar em frente, crendo em Cristo a cada instante, crendo que os pecados de vocês são perdoados ainda quando sua negrura, crendo que estão seguros, mesmo quando parecer que estão no maior perigo, crendo que estão glorificados com Cristo, quando sentem como se fossem encontrados fora da presença de Deus, esta é a vida da fé. CRISTO ME AMOU Ademais, Paulo nota outros pontos de unidade. “O qual me amou”. Bendito seja Deus porque antes que os montes alçassem seus picos coroados de neve até as nuvens, Cristo havia posto Seu coração em nós. Suas “delícias eram com os filhos dos homens”. Em Seu “livro estavam escritas todas aquelas coisas que foram formadas, sem faltar uma delas”.
  • 47. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 47 ] Crente, sujeite-se à preciosa verdade que Cristo o amou eternamente; o todo glorioso Filho de Deus o escolheu, e o desposou, para que pudesse ser sua esposa por toda a eternidade. Temos aqui uma bendita união em verdade. Observem o que segue: “e entregou a si mesmo por mim”; não só deu tudo o que tinha, mas entregou a si mesmo; não deixou simplesmente de lado Sua glória, Seu esplendor e Sua vida, mas entregou Sua própria pessoa. Oh, herdeiro do céu, Jesus é seu neste momento. Havendo se entregado uma vez por você sobre o madeiro para quitar seu pecado, entrega-se a você neste momento para ser sua vida, sua coroa, seu gozo, sua porção, seu todo em
  • 48. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 48 ] tudo. Você descobriu que é uma personalidade única, e uma individualidade, mas essa personalidade está ligada com a pessoa de Cristo Jesus de maneira que você está em Cristo e Cristo está em você por uma bendita união indissolúvel, vocês estão entrelaçados pelos séculos dos séculos. III. Por último, o texto descreve A VIDA RESULTANTE DESTA PERSONALIDADE AMALGAMADA. ESTOU MORTO PARA O MUNDO Se tiverem paciência comigo, serei tão breve quanto puder enquanto reviso o texto de novo, palavra por palavra. Irmãos, quando um homem descobre e se reconhece ligado a Cristo, sua vida é completamente uma nova vida. Eu deduzo isso da expressão: “com Cristo estou juntamente crucificado, e já não vivo eu, é Cristo que vive em mim”.
  • 49. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 49 ] Crucificado, então morto; crucificado, então a velha vida é eliminada; qualquer vida que um crucificado tem deve ser uma nova vida. O mesmo acontece com você. Crente, sobre sua velha vida foi pronunciada a sentença de morte. A mente carnal, que é inimizade contra Deus, está condenada à morte. Você pode dizer: “morro diariamente”. Oxalá que a velha natureza estivesse completamente morta. Mas a vida que você tem não lhe foi dada senão até que entrasse em união com Cristo. É algo novo, tão novo como se houvesse morto realmente e houvesse apodrecido na tumba e logo tivesse levantado ao soar da trombeta para viver de novo. Você
  • 50. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 50 ] recebeu uma vida do alto, uma vida que o Espírito Santo operou em você na regeneração. O que é nascido da carne, carne é, mas sua vida de graça não provém de você mesmo; você nasceu de novo do alto. Sua vida é extremamente estranha: “Fui crucificado, no entanto, vivo”. Que contradição! A vida do cristão é um enigma sem par. Nenhum mundano pode compreendê-la; inclusive o próprio crente não pode entendê-la. Ele a conhece, mas sente que resolver todos os seus enigmas é uma tarefa impossível. Morto, mas vivo; crucificado com Cristo, e não obstante, ao mesmo tempo ressuscitado com Cristo em uma vida nova! Não espere que o mundo o entenda, cristão, pois não entendeu o seu Senhor. Quando suas ações são tergiversadas e seus motivos ridicularizados, não se surpreenda. “Se fosses deste mundo, o mundo amaria o que é seu; mas porque não é deste mundo, antes eu os escolhi do mundo, por isso o mundo os aborrece”. Se pertencesse à aldeia, os cachorros não latiriam para você. Se os homens pudessem ler você, não se surpreenderiam; é devido a você estar escrito numa língua celestial que os
  • 51. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 51 ] homens não lhe podem compreender e pensam que você não vale nada. Sua vida é nova; sua vida é diferente. Esta vida maravilhosa, resultante na mescla da personalidade do Filho de Deus e do crente, é uma vida verdadeira. Isto é expresso no texto, “No entanto, vivo”, sim, vivo como nunca antes vivi. Quando o apóstolo se declara morto para o mundo, não queria que imaginássemos que estava morto no sentido mais elevado ou melhor; não, vivia com uma nova força e vigor vitais. Irmãos, quando abri os olhos ao conhecimento de Cristo, parecia-me que eu era como uma crisálida recém saída do casulo, eu então comecei realmente a viver. Quando uma alma se sobressalta com os trovões da convicção e depois recebe o perdão em Cristo, começa a viver. O mundano diz que quer ver a vida, e portanto, se afunda no pecado! Néscio como é, junta-se ao sepulcro para descobrir a imortalidade. O homem que vive verdadeiramente é o crente. Hei de me tornar menos ativo por ser cristão? Nunca tal coisa aconteça! Serei menos diligente e encontrarei menos oportunidades para manifestações de
  • 52. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 52 ] minhas energias naturais e espirituais. Nunca tal coisa suceda! Se alguma vez um varão deve ser como uma espada demasiado afiada para a bainha com um fio que não pode ser embotado, deveria ser o cristão; ele deveria ser como chamas de fogo que queimam a seu passo. Vivam enquanto viverem. Não há que desperdiçar nem gastar mal o tempo. Vivam de tal maneira que demonstrem que vocês possuem a mais nobre forma de vida. É claro também, que a nova vida que Cristo nos traz é uma vida de abnegação, pois agrega “e vivo, já não eu”. A humildade mental é parte e porção da piedade. Aquele que pode receber o reconhecimento para si mesmo não conhece o espírito de nossa santa fé. Quando o crente ora melhor, diz: “Sem dúvida, não eu, mas o Espírito de Deus intercedeu em mim”. Se ganhou almas para Cristo, diz: “Não eu; foi o Evangelho; o Senhor Jesus operou poderosamente em mim”. “Não a nós, SENHOR Javé, não a nós, mas a seu nome a glória”. A humilhação de si mesmo é o espírito inato do filho de Deus verdadeiramente nascido de novo.
  • 53. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 53 ] Ademais, a vida que Cristo gera em nós é uma vida de uma ideia. Está alma do crente governada por duas coisas? Não, não conhece senão uma. Cristo vive em mim. Há dois residentes na alcova de minha alma? Não, a um Deus e Senhor sirvo. “Cristo vive em mim”. Um antigo teólogo desejava poder comer, beber e dormir vida eterna. Viva você assim! Ai! Eu lamento viver demasiado na velha vida, e que Jesus vive muito pouco em mim; mas se o cristão há de alcançar alguma vez a perfeição – e que Deus nos conceda que cada um de nós possa chegar tão perto como for possível disso ainda agora – descobrirá que o antigo: “eu vivo”, é reprimido, e a nova vida à semelhança de Cristo reina suprema.
  • 54. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 54 ] Cristo tem que ser o único pensamento, a única ideia, o único pensamento condutor na alma do crente. Quando se desperta na manhã, o crente saudável se pergunta: “Que posso fazer por Cristo?” Quando está realizando seu trabalho se pergunta: “Como servirei ao meu Senhor em todas as minhas ações?” Quando ganha dinheiro, se pergunta: “Como posso usar meus talentos em favor de Cristo?” Se adquire educação, a pergunta é: “Como posso inverter meu conhecimento em favor de Cristo?”. DUAS NATUREZAS Resumindo, o muito no pouco, o filho de Deus tem em seu interior a vida de Cristo; mas como descreverei isso? A vida de Cristo na terra foi o divino fundido com o humano; assim é a vida do cristão; há algo divino nela; é uma semente viva e incorruptível, que permanece para sempre. Somos feitos partícipes da natureza divina, havendo escapado da corrupção que está no mundo graças à lascívia; sem dúvida, nossa vida é uma vida
  • 55. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 55 ] plenamente humana. O cristão é um homem entre os homens; em tudo o que exige valentia ele se esforça para se sobressair, no entanto, não é como os outros homens, pois tem uma natureza oculta que nenhum simples mundano entende. Visualizem a vida de Cristo na terra, amados, e isso é o que a vida de Deus em nós deveria ser, e o será na medida em que estejamos sujeitos ao poder do Espírito Santo. Duas naturezas em nós. Notem ainda, apegando-nos ao texto, que a vida que Deus opera em nós é ainda a vida de um ser humano. “O que agora vivo na carne”, diz o apóstolo. Estes monges e monjas que fogem do mundo por medo de que suas
  • 56. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 56 ] tentações os vençam, deveriam vencê-las, e os que ficam reclusos para buscar uma maior santidade são tão excelentes soldados como aqueles que se retiram para o acampamento por medo de serem derrotados. Que serviço podem prestar esses soldados na batalha ou essas pessoas na guerra da vida? Cristo não veio para que nos fizéssemos monges; Ele veio para que nos fizéssemos homens; Ele se propôs para que aprendêssemos como viver na carne. Não devemos renunciar ao trabalho nem à sociedade, nem renunciar à vida em nenhum reto sentido. “O que agora vivo na carne”, diz o apóstolo. Olhem para ele ocupado fazendo tendas. Como! Um apóstolo fazendo tendas? O que diriam vocês, irmãos, se o Arcebispo de Canterbury costurasse para ganhar seu sustento? É um ofício muito humilde para um bispo do Estado, certamente, mas não demasiadamente humilde para Paulo. Não creio que o Apóstolo tenha sido jamais mais apostólico que quando recolhia ramas secas. Quando Paulo e seus acompanhantes naufragaram em Melita, o apóstolo era de maior serviço que todo o sínodo pan- anglicano com suas batinas de seda, pois ele se pôs a trabalhar como as outras pessoas para recolher
  • 57. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 57 ] combustível para o fogo, pois queria se esquentar como os demais, e então assumiu sua parte da tarefa. Da mesma maneira, vocês e eu deveríamos tomar nosso turno na roda. Não devemos pensar em nos manter afastados de nossos semelhantes como se nos degradássemos ao nos misturar com eles. O sal da terra deve ser bem misturado aos alimentos, e de igual maneira o cristão deve se misturar aos seus semelhantes, buscando seu bem para a edificação. Somos homens e fazemos tudo o que os homens podem fazer legitimamente; onde quer que eles forem, nós podemos ir. Nossa religião não nos faz nem mais nem menos humanos, ainda que nos coloque na família de Deus. Contudo, a vida cristã é uma vida de fé. “O que agora vivo na carne, vivo na fé do Filho de Deus”. A fé não é uma peça de decoração que deve ser colocada sobre as mesinhas da sala, ou um vestido que deve ser usado nos domingos; é um princípio de trabalho, que deve ser usado no estábulo e no campo, na oficina e na casa de cambio; é uma graça para a ama da casa e o servo; e para a Câmara dos Comuns e para a oficina mais pobre. “O que agora vivo na
  • 58. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 58 ] carne, vivo na fé”. Eu gostaria que o sapateiro crente remendasse sapatos religiosamente, e que o alfaiate confeccionasse trajes por fé, e eu gostaria que todo cristão vendesse e comprasse por fé. Qualquer ofício que for, a fé deve ser incorporada em seus chamados cotidianos, e essa é unicamente a fé viva e verdadeira que passará na prova prática. Não devem se deter na porta da oficina, tirar seu casaco e dizer: “Até logo ao Cristianismo, até que feche o negócio de novo”. Isso é hipocrisia; mas a vida genuína de um cristão é a vida que vivemos na carne pela fé no filho de Deus. Para concluir: a vida que provém da personalidade enraizada de Cristo e o crente é uma vida de perfeito amor. “Ele se entregou por mim”. Portanto, minha pergunta é: o que posso fazer por Ele? A nova vida é uma vida de santa segurança, pois, se Cristo me amou, quem poderia me destruir? É uma vida de santa riqueza, pois, se Cristo entregou Sua infinita pessoa por mim, de que posso precisar? É uma vida de santo gozo, pois, se Cristo é meu, tenho um poço de santo gozo dentro de minha alma. É a
  • 59. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 59 ] vida do céu, pois, se tenho a Cristo, tenho o que é a essência e a alma do céu. Referi-me a mistérios dos quais alguns de vocês não entenderam sequer uma frase. Que Deus lhes dê entendimento para que possam conhecer a verdade. Mas se não a entenderam, deixem que este fato os convença: vocês não sabem a verdade porque não têm o Espírito de Deus, pois só a mente espiritual entende as coisas espirituais. Quando falamos da vida interior, parecemos, aos que não nos entendem, como os que dormem e sonham. Mas se me entendeu, crente, vá para casa e viva da verdade, pratique o que for praticável, alimente-se do que está cheio de sabor, regozije-se em Cristo Jesus, porque você é um com Ele, e então, em sua própria pessoa, ande e sirva ao seu Senhor com todo o esforço que lhe for possível e que o Senhor lhe envie Sua abundante bênção. Amém e amém. MINISTÉRIO CHARLES SPURGEON
  • 60. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 60 ] ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES. Sermão nº 781 Volume 13 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit, Tradução: Rachel Gondim Revisão: Cibele Cardozo Projeto Spurgeon Proclamando a Cristo crucificado. Projeto de tradução de sermões, devocionais e livros do pregador batista reformado Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) para glória de Deus em Cristo Jesus, pelo poder do Espírito Santo, para edificação da Igreja e salvação e conversão de incrédulos de seus pecados. Charles Haddon Spurgeon, comumente referido como C. H. Spurgeon (Kelvedon, Essex, 19 de junho de 1834 — Menton, 31 de janeiro de 1892), foi um pregador batista reformado britânico. Converteu-se ao cristianismo em 6 de janeiro de 1850, aos quinze anos de idade. Aos dezesseis, pregou seu primeiro sermão; no ano seguinte tornou-se pastor de
  • 61. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 61 ] uma igreja batista em Waterbeach, Condado de Cambridgeshire (Inglaterra). Em 1854, Spurgeon, então com vinte anos, foi chamado para ser pastor na capela de New Park Street, Londres, que mais tarde viria a chamar-se Tabernáculo Metropolitano, transferindo-se para novo prédio. Desde o início do ministério, seu talento para a exposição dos textos bíblicos foi considerado extraordinário. E sua excelência na pregação nas Escrituras Bíblicas lhe deram o título de O Príncipe dos Pregadores e O Último dos Puritanos.
  • 62. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 62 ] PERGUNTAS E RESPOSTAS DESDE A CRUZ
  • 63. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 63 ] PERGUNTAS E RESPOSTAS DESDE A CRUZ Nº 2562 Sermão pregado na noite de Domingo de 2 de Novembro de 1856. Por Charles Haddon Spurgeon Na Capela de New Park Street, Southwark, Londres. E lido no Domingo, 27 de Março de 1898. NOTA Esse foi o primeiro sermão noturno pregado por Spurgeon depois da fatal calamidade ocorrida em Surrey Garden Music Hall, quinze dias antes. Ao começar sua pregação, disse: “As observações que tenho que fazer são muito breves, tomando conta que depois iremos participar da Ceia do Senhor. Não vou fazer nenhuma alusão a recente catástrofe, que foi tema de meus pensamentos cotidianos e de meus sonhos noturnos desde que ocorreu. Contudo, espero usar esse evento em algum período futuro”. Spurgeon fez isso em muitos memoráveis
  • 64. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 64 ] comentários que foram incluídos no volume II de sua autobiografia. “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?” Salmo 22: 1 “E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Mateus 27:46 A AGONIA DE CRISTO Contemplamos aqui ao Salvador submerso nas profundezas de Suas agonias e dores. Nenhum outro lugar como o Calvário mostra melhor as angústias de Cristo, e nenhum outro momento do Calvário está tão saturado de agonia como quando esse clamor rasga o ar: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. A debilidade física que lhe sobreveio naquele momento pelo jejum e pelos açoites se somou à aguda tortura mental que experimentou
  • 65. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 65 ] por causa da vergonha e da ignomínia que teve que suportar. Como culminante da dor, sofreu uma agonia espiritual inexprimível devido ao desamparo do qual foi objeto por parte de Seu Pai. Essa foi a negridão e a escuridão de Seu horror. Foi então quando penetrou nas profundezas das cavernas do sofrimento. ― Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Nessas palavras de nosso Salvador existe algo que tem sempre o propósito de nos beneficiar. A contemplação dos sofrimentos dos homens nos afligem
  • 66. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 66 ] e nos horroriza, mas os sofrimentos de nosso Salvador, ainda que nos movam ao pesar, estão revestidos de algo doce e cheio de consolação. Aqui, inclusive aqui, nesse negro local de dor, enquanto contemplamos a cruz, encontramos nosso céu. Esse espetáculo que poderia ser considerado horroroso, torna ao cristão alegre e feliz. Se bem lamenta a causa, se alegra devido às consequências. I. Primeiro, em nosso texto, existem TRÊS PERGUNTAS para as quais peço sua atenção. A primeira é: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? por essas palavras devemos entender que, nesse momento, nosso bendito Senhor e Salvador se encontrava desamparado por Deus de uma maneira que nunca antes havia estado. Ele tinha combatido com o inimigo no deserto e três vezes o venceu e o derrubou em terra. Tinha lutado contra esse inimigo durante toda Sua vida, e inclusive no jardim lutou com ele até sentir que sua alma estava ―muito triste. Não é senão até esse momento que experimenta uma profundidade de dor que não tinha jamais sentido antes.
  • 67. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 67 ] Era necessário que Ele sofresse, no lugar dos pecadores, justo o que os pecadores deveriam ter sofrido. Seria difícil conceber o castigo pelo pecado se prescindisse da face franzida da Deidade. Sempre associamos o crime com a ira, de tal forma que quando Cristo morreu, ―o justo pelos injustos, para nos levar a Deus, quando nosso bendito Salvador se converteu em nosso Substituto, pelo momento se tornou em vítima da justa ira de Seu Pai, já que lhe foram imputados nossos pecados para que Sua justiça pudesse nos ser imputada a nós. Foi necessário que experimentasse a perda do sorriso de Seu Pai, pois os condenados no inferno devem ter provado essa amargura; e, portanto, o Pai fechou os olhos de Seu amor, pois a mão da justiça diante do sorriso de Seu rosto, e deixou que Seu Filho clamasse: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Não existe nenhum ser vivente que pudesse explicar o pleno significado dessas palavras; ninguém poderia fazê-lo nem o céu nem a terra, e quase acrescentaria que nem o inferno; não existe ninguém que poderia captar essas palavras em toda a profundeza de
  • 68. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 68 ] sua aflição. Alguns pensam, às vezes, que nós poderíamos clamar: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Existem estações quando o brilho do sorriso de nosso Pai se vê eclipsado pelas nuvens e a escuridão. Porém, temos de lembrar que Deus realmente não nos desampara nunca. Quanto a nós é só um aparente desamparo real. Só Deus sabe quanto nós lamentamos algumas vezes por causa de uma pequena retirada do amor de nosso Pai; mas quando Deus aparta realmente Seu rosto de Seu Filho, quem poderia calcular quão profunda foi a agonia que isso lhe provocou quando clamou: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Em nosso caso, esse é o clamor da incredulidade; em Seu caso, foi a expressão de um fato, pois Deus tinha se apartado realmente Dele por um tempo. Oh, você, pobre criatura perturbada, que uma vez viveu sob o brilho do sol do rosto de Deus, mas agora está em trevas; anda agora no vale da sombra da morte, ouve ruídos e tem medo; sua alma está sobressaltada dentro de você, e você está sobrecarregado de terror ao pensar que Deus lhe desamparou! Recorde que Ele não te desamparou
  • 69. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 69 ] realmente pois – “Os montes quando estão envoltos na escuridão, São tão reais como no dia” O Deus coberto pelas nuvens é tão Deus nosso como quando Ele brilha com todo o lustre de Sua benevolência, mas posto que só pensamento de que tenha nos desamparado provoca agonia, qual haveria sido então a agonia do Salvador quando clamou: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. DEUS DISTANTE? A seguinte pergunta é: ―Por que te alongas do meu auxílio? Deus ajudou a Seu Filho até aqui, mas agora Ele tem que pisar sozinho o lagar e nem sequer Seu próprio Pai pode estar com Ele. Você não sentiu, algumas vezes, que Deus o conduziu a realizar algum dever, mas que, não obstante, aparentemente não lhe deu a força para realizá- lo? Não sentiram nunca essa tristeza de coração que os induz a clamar: ―Por que te alongas do meu auxílio? Mas se Deus tem o propósito de que realizem algo, vocês podem fazê-lo, pois Ele lhes dará o poder. Talvez seu
  • 70. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 70 ] cérebro vacile, mas Deus ordenou que tem de fazê-lo e vocês o farão. Não sentiram como se tivessem que continuar inclusive quando a cada passo que vocês davam sentiam medo de colocar o outro pé por temor de não ter um firme apoio? Se tiveram qualquer experiência das coisas divinas, tem de ter acontecido isso com vocês. Dificilmente poderíamos adivinhar o que foi que nosso Salvador sentiu quando disse: ―Por que te alongas do meu auxílio? A Sua obra é uma obra que ninguém senão uma Pessoa Divina poderia realizar, e, no entanto, os olhos de Seu Pai olhavam para outro lado, mas não para Ele! Com algo mais que os trabalhos hercúleos a Sua frente, mas sem que nada do poder do Pai lhe houvesse sido dado, qual não terá sido a tensão que se cingia sobre Ele!
  • 71. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 71 ] Certamente, como disse Hart – “Suportou tudo o que o Deus encarnado podia suportar, Com a força suficiente, e nada que poupar”. DEUS NÃO ESCUTA? A terceira pergunta é: ―Por que te alongas das palavras do meu bramido? A palavra traduzida aqui como ―bramido quer dizer, no idioma hebreu original, esse profundo e solene gemido que é provocado por alguma séria enfermidade, e
  • 72. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 72 ] que é expresso por homens que sofrem muito. Cristo compara Suas orações com esses gemidos, e se queixa que Deus está tão longe Dele que não lhe ouve. Amados, muitos de nós podemos nos identificar aqui com Cristo. Quantas vezes lhe temos pedido algum favor a Deus de joelhos, e pensávamos que pedíamos com fé, mas não houve nenhuma resposta! Voltamos a nos colocar de joelhos. Houve algo que deteve a resposta; e com lágrimas em nossos olhos, lutamos de novo com Deus e suplicamos por meio de Jesus, porém os céus pareciam de bronze. Na amargura de nosso espírito clamamos: ―é possível que haja um Deus?. E temos dado a volta dizendo: ― Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas das palavras do meu bramido? Assim tu eres? Desdenhas alguma vez o pecador? Acaso não disseste: ―Clames e os abrirá? Estás resistente a ser amável? Reténs Tua promessa? e quando temos estado a ponto de nos render tendo aparentemente tudo contra nós, acaso não temos gemido, e não temos dito: ―Por que te alongas das palavras do meu bramido? ainda que saibamos algo, não é muito o que
  • 73. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 73 ] podemos entender verdadeiramente a respeito dessas terríveis dores e agonias que nosso bendito Senhor suportou quando fez essas três perguntas: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido? II. Em segundo lugar, agora vamos RESPONDER A ESSAS TRÊS PERGUNTAS. CRISTO TINHA QUE ESTAR SÓ Já respondi antes à primeira pergunta. Parece-me que ouço ao Pai dizer a Cristo: ―Meu Filho, te desamparei porque Tu estás em lugar do pecador. Como Tu és santo, justo e verdadeiro, Eu nunca te desampararia a Ti, nunca me apartaria de Ti, pois inclusive como homem, Tu tens sido santo, sincero, sem mancha e apartado dos pecadores; porém sobre Tua cabeça descansa a culpa de cada penitente transferida dele a Ti, e Tu tens que expiá-la com Teu sangue. Devido a que Tu estás no lugar do pecador, não irei olhar-te até que tenhas suportado todo o
  • 74. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 74 ] peso de minha vingança. Então te exaltarei no alto, muito acima de todos os principados e potestades. Oh cristão, faça uma pausa aqui e reflita! Cristo foi castigado dessa forma por você! Oh, olhe para esse rosto tão tenso de horror e entenda que esses horrores se juntam ali por você! Talvez, em sua própria estima, você seja o mais indigno da família; certamente, o mais insignificante; porém, a mais trivial ovelha do rebanho de Cristo foi comprada de igual maneira que qualquer outra. Sim, quando essa negra escuridão se condensou em torno da Sua fronte, e quando clamou; ―Eloí, Eloí, nas palavras de nosso texto, pedindo que o Senhor Onipotente o ajudasse; quando gritou esse grito terrivelmente solene, foi porque
  • 75. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 75 ] lhe amava, porque se entregou por você, para que você pudesse ser santificado aqui, e pudesse morar com Ele no mais além. Portanto, Deus o desamparou, primeiro, por ser o Substituo do pecador. DEUS NÃO AJUDOU O CRISTO A resposta para a segunda pergunta é: ―porque quero que Tu recebas toda a honra para Ti; portanto, não lhe vou ajudar, não vá ser que tenha de compartilhar o motim contigo. O Senhor Jesus Cristo viveu para glorificar
  • 76. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 76 ] a Seu Pai, e morreu para glorificar-se a Si mesmo na redenção de Seu povo escolhido. Deus disse: ―Não, meu Filho, Tu o farás sozinho, pois Tu deves levar sozinho a coroa e em Tua pessoa se encontrarão todos os reais distintivos de Tua soberania. Eu Te darei todo o louvor, e, portanto, Tu cumprirás com todo o trabalho. Devia pisar sozinho o lagar, e alcançar a vitória e obter unicamente para Si mesmo a glória. DEUS NÃO ESCUTOU A CRISTO A resposta para a terceira pergunta é essencialmente a mesma que a reposta para a primeira. Ter escutado as orações de Cristo naquele momento teria sido inapropriado. O fato de que o Pai divino não tenha escutado a oração de Seu Filho foi algo de acordo com Sua condição; por ser a Fiança do pecador, Sua oração não devia ser ouvida; como Fiança do pecador, podia dizer; ―Agora que estou aqui, morrendo no lugar do pecador, Tu selas Teus ouvidos para que não penetre minha oração. Deus não escutou a Seu Filho porque sabia
  • 77. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 77 ] que Seu Filho estava morrendo para nos aproximar de Deus, e, portanto, o Filho clamou: ―Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? III. Para concluir, irei oferecer-lhes UMA PALAVRA DE ADMOESTAÇÃO E DE AFETUOSA ADVERTÊNCIA. APELO PARA ACEITAR JESUS Não comove a alguns de vocês que Jesus tivesse de morrer? Ouvem a história do Calvário, mas, ai, não brotam lágrimas de seus olhos! Não choram nunca por isso. Acaso não é nada a morte de Jesus para vocês? Ai, parece que isso é válido para muitas pessoas. Seus corações jamais bateram em sintonia com Ele. Oh amigos, quantos de vocês podem olhar para Cristo, agonizando e gemendo assim, e dizer: ―ele é meu Resgate, meu Redentor? Poderiam dizer com Cristo: ―Deus meu? Ou acaso Ele é Deus de alguém mais e não de vocês? Oh, se vocês estão sem Cristo, ouçam-me porque irei dizer-lhes uma palavra. É uma palavra de advertência! Recordem que
  • 78. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 78 ] estar sem Cristo é estar sem esperança. Se morrerem sem ser aspergidos por Seu sangue, estão perdidos. E que é estar perdido? Não tentarei explicar-lhes o significado dessa palavra terrível: ―perdido. Alguns de vocês poderiam conhecê-lo antes que o sol saia outra vez no céu. Que Deus nos conceda que não sejam vocês! Desejam saber como podem ser salvos? Escutem. ―Porque de tal maneira Deus amou ao mundo, que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. ―O que crer e for batizado será salvo. Ser batizado é ser enterrado na água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Vocês creram em Cristo? Professaram a fé em Cristo: a fé é a graça que confia unicamente em Cristo. Todo aquele que quiser ser salvo, antes de mais nada precisa sentir-se
  • 79. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 79 ] perdido, reconhecer-se um pecador arruinado, e logo precisa crer nisso: ―Palavra fiel é digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar aos pecadores, inclusive ao primeiro deles. Não precisam de nenhum mediador entre vocês e Cristo. Vocês podem vir a Cristo tal como estão: culpados, malvados, pobres e, tal como estão, Cristo os receberá. Não há necessidade de lavar-se de antemão. Não precisam de riquezas. Nele possuem tudo o que vocês requerem e, não obstante, insistem em acrescenta algo ao ―tudo? Não precisam de vestidos, pois Cristo tem uma túnica sem costura que bastará para cobrir com folga inclusive ao maior pecador da terra, e também ao menor. Então, venham a Jesus imediatamente. Por acaso vocês dizem que não sabem como vir? Venham tal como estão. Não esperem para fazer algo primeiro. O que vocês precisam fazer é deixar de fazer e deixar que Cristo faça tudo por vocês. O que desejariam fazer se Ele já fez tudo? Todo o labor de suas mãos seria incapaz de cumprir o que Deus manda. Cristo morreu pelos pecadores, e vocês tem de dizer: ―Seja que me afunde ou
  • 80. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 80 ] nade, não irei ter nenhum outro Salvador exceto Cristo. Confiem plenamente Nele – “E quando teu olho da fé perder a intensidade, segue confiando em Jesus, seja que nade ou afunde; Segue inclinando-se humildemente diante Seu escabelo, Oh pecador! Pecador, Prostre-se agora!” Ele é capaz de perdoar-lhe nesse instante. Existem algumas pessoas aqui que sabem que são culpados e gemem a consequência disso. Pecador, por que se demora? ―Vem, e seja bem vindo!, é a mensagem de meu Senhor para você. Se vocês sentem que estão perdidos e arruinados, então não existe nenhuma barreira entre o céu e você; Cristo a derrubou. Se vocês conhecem seu próprio estado perdido, Cristo morreu por você; crê e vem! Venha e seja bem vindo, pecador, venha! Oh pecador, venha, vem, vem! Jesus te pede que venhas e, como Seu embaixador diante de você, eu lhe peço que venha. Como alguém que morreria para salvar suas almas se fosse necessário, como alguém que sabe como gemer por vocês, e chorar por vocês, e que os ama como se ama a si
  • 81. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 81 ] mesmo, eu como Seu ministro, lhes digo, em nome de Deus, e em lugar de Cristo: ―Reconciliem-se com Deus‖. O que vocês dizem? Deus lhes deu essa vontade? Então, se alegrem! Regozije, pois não te foi dada a vontade sem dar- lhe o poder de fazer aquilo que te foi dado querer fazer. Vem! Vem! Se você confia plenamente em Cristo e não tem nenhuma outra coisa que alimente a confiança de sua alma, exceto Jesus, nesse instante pode estar certo do céu como se já estivesse lá. Amém.
  • 82. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 82 ] BOAS VINDAS PARA TODOS QUE VEM A CRISTO
  • 83. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 83 ] Boas Vindas para Todos que Vem a Cristo No. 2349 Sermão pregado na noite de Domingo, 17 de Novembro de 1889 Por Charles Haddon Spurgeon. No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” (João 6:37) Cristo não morreu em vão. Seu Pai lhe deu certo número que constituiria a recompensa da aflição de Sua alma, e há de receber a cada um deles, tal como disse: ―Todo o que o Pai me dá, virá a mim. A graça toda poderosa constrangerá docemente a todos eles a virem. Meu pai me deu recentemente algumas cartas que eu lhe escrevi quando começava a pregar. São epístolas quase pueris, porém, ao lê-las novamente, notei em uma delas essa expressão: ―Como anseio ver a salvação de milhares de seres; porém, meu grande consolo é que alguns serão salvos, tem que ser salvos e haverão de ser salvos, pois está escrito:
  • 84. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 84 ] Todo o que o Pai me dá, virá a mim. A pergunta que cada um de vocês deve fazer é: ―Eu pertenço a esse número Irei pregar para vocês com o propósito de os ajudar a descobrir se pertencem a esse ―todo que o Pai deu a Cristo, o todo que virá a Ele. A segunda parte do versículo pode ajudar-nos a entender a primeira parte. ―E o que vem a mim, não lhe lanço fora, nos servirá para explicar as palavras prévias de nosso Salvador: ―Todo o que o Pai me dá, virá a mim. Não me resta tempo para entender-me no prefácio. Devo entrar de imediato no tema e tratar de expor tudo em uma forma condensada. Tenham a bondade de prestar atenção à Palavra, pensar nela e orar por ela; e que Deus Espírito Santo a aplique em todos seus corações! I. Primeiro, notem no texto A NECESSIDADE DA PERSONAGEM: ―e o que vem a mim. Se você quer ser salvo, tem que vir a Cristo. Não há outro caminho de salvação sob o céu exceto vir a Cristo. Acuda ao lugar que queira, porém,
  • 85. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 85 ] se achará desiludido e perdido; é somente vindo exclusivamente a Jesus que você tem a única possibilidade de obter a vida eterna. O que é vir a Cristo? Bem, implica em abandonar todas as outras confianças. Vir à alguém é deixar a todos os demais. Vir a Cristo é deixar qualquer outra coisa, é abandonar qualquer outra esperança, qualquer outra confiança. Confia em suas próprias obras? Confia em um sacerdote? Confia nos méritos da Virgem Maria, ou dos santos, ou dos anjos do céu? Confia em qualquer outra coisa que não seja o Senhor Jesus Cristo? Se for assim, abandona essa confiança e termine com isso. Aparte-se de qualquer outra segurança e confia em Cristo crucificado, pois esse é o único caminho de salvação, tal como Pedro disse aos governantes e aos anciãos de Israel: ― E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos‖ (Atos 4:12) “A Jesus vertendo sangue no madeiro Volte teus olhos e teu coração” E apele a Ele imediatamente, e sua alma viverá para sempre.
  • 86. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 86 ] Vir a Jesus quer dizer, brevemente, confiar Nele. Ele é um Salvador; esse é Seu ofício; portanto, venha a Ele, e confie em que Ele o salvará. Se você pudesse salvar- se a si mesmo não precisaria de um Salvador, e já que Cristo resolveu ser um Salvador, deixe que Ele cumpra esse oficio. Ele o fará. Vem, e deposite todas as suas necessidades a Seus pés, e confia Nele. Resolva que, se você se perdesse, estaria perdido depois de ter confiado unicamente em Jesus, e isso não pode jamais acontecer. Amarre todas suas esperanças em um embrulho, e coloque esse embrulho sobre Cristo. Deixa que Ele seja toda sua salvação, todo seu desejo, e então você será salvo com certeza. Eu tratei de lhes explicar algumas vezes ao que se assemelha a vida de fé: é muito semelhante a um homem que caminha sobre uma corda bamba. Ao crente é dito que não cairá e ele confia em Deus que não cairá; mas, de vez em quando, diz: ―Quanta distância existe embaixo, se eu caísse! Com frequência tive essa experiência: subia por uma escada invisível e não podia ver o degrau seguinte, e quando pisava meu pé sobre ele, parecia como que se afundasse num abismo; no entanto, prosseguia firmemente
  • 87. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 87 ] em minha subida, um passo cada vez, sem ser capaz de ver nada nessa absoluta escuridão, segundo aparentava, no entanto, sempre contava com uma luz justo aonde necessitava dela. SEGURANDO A VELA Eu sempre segurava uma vela para meu pai, à noite, quando serrava madeira no pátio, e ele costumava me falar: ―garoto, por favor, segure a vela onde estou serrando e não olhe para o lado. E frequentemente experimentei – quando quis ver antecipadamente algo que teria seu lugar a metade da semana seguinte, ou do ano seguinte – que o Senhor parecia dizer-me justamente:
  • 88. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 88 ] ―Sustenta a vela para que ilumine a parte da obra que tem que fazer hoje, e se pode ver isso, fique satisfeito, pois essa é toda luz que necessita exatamente agora. Suponha que pudesse adentrar-se em visão no interior da seguinte semana; constituiria uma grande misericórdia que perdesse sua visão por um tempo, pois um olhar ao longo alcance que perceba antecipadamente as preocupações e os problemas, não é um beneficio. ―Basta a cada dia seu próprio mal, assim como basta a cada dia seu próprio bem. Porém, o Senhor educa efetivamente Seu povo para os céus e o faz provando a fé dele no assunto de Seu cuidado cotidiano deles. Com frequência, a confiança de um homem em Deus para satisfação de suas necessidades terrenais demonstra que confiou no Senhor para os assuntos de maior peso relacionados com a salvação de sua alma. Não pinte uma raia entre o temporal e o espiritual dizendo: ―Deus chega unicamente até aqui, portanto, não levarei tal e tal assunto a Ele em oração. ORANDO POR COISAS PEQUENAS
  • 89. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 89 ] Recordo ter ouvido sobre certo individuo de quem alguém comentava: ―Bem, é um homem muito raro: outro dia estava orando por uma chave por que não se poderia orar por uma chave? Por que não se poderia orar por um pino? Algumas vezes poderia ser tão importante orar por um alfinete como orar por um reino. As pequenas coisas são frequentemente as peças chaves dos grandes eventos. Preocupem-se por trazer tudo a Deus em fé e em oração. ―Por nada estejais ansiosos, mas sim sejam conhecidas vossas petições diante de Deus em toda oração e súplica, com ação de graças”. Desviei-me de meu tema por uns instantes, mas refletiremos agora de novo sobre o assunto de vir a Cristo. Vir a Jesus não só implica em abandonar todas as demais confianças e confiar em Cristo, mas também significa seguir a Ele. Se você confia Nele, tem que obedecer-Lhe. Se você coloca sua alma em Suas mãos, tem que aceitá- lo como seu Mestre e como seu Senhor, assim também como seu Salvador. Cristo veio para salvar-lhe do pecado, não no pecado. Portanto, Ele o ajudará a abandonar seu pecado
  • 90. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 90 ] sem importar qual seja. Ele lhe dará a vitória sobre o pecado. Ele o fará santo. Ele o ajudará em tudo que tenha que fazer aos olhos de Deus. Ele pode salvar perpetuamente aos que por Ele se acercam a Deus, porém precisam vir a Ele, se querem ser salvos por Ele. Resumindo tudo o que eu disse, você deve renunciar a qualquer outra esperança; tem que aceitar Jesus como sua única confiança, e logo, tem que ser obediente a Seu mandato e aceitá-lo para que seja seu Mestre e Seu Senhor. Você está disposto a fazê-lo? Se não o está, não tenho nada a dizer-lhe exceto isso: ―todo aquele que não creia Nele perecerá sem esperança”. Se não quer aceitar o remédio de Deus para o mal de sua alma – o único remédio disponível – não resta nada para você exceto escuridão e sombrias trevas pelos séculos dos séculos. ZÉ NINGUÉM VEM A CRISTO II. Porém, agora, em segundo lugar, ciente que existe essa necessidade de uma personagem, notem
  • 91. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 91 ] também A UNIVERSALIDADE DAS PESSOAS: ―e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. É um fato que tudo o que se precisa é vir a Cristo. Alguém diz: ― amigo, eu sou uma pessoa muito obscura; ninguém me conhece; meu nome não esteve jamais nos periódicos, nem estará jamais; eu sou um Zé Ninguém Bem, se o Sr. ―Zé Ninguém vem a Cristo, Ele não o lançará fora. Vem, você, pessoa desconhecida; você, indivíduo anônimo; você, a quem todo o mundo, exceto Cristo, tem no esquecimento! Ainda mesmo se você viesse a Jesus, Ele não lhe lançaria fora. Outro diz: ―eu sou muito singular. Não fale muito a respeito disso, pois eu também sou muito raro; porém, querido amigo, sem importar quão singulares sejamos, ainda que somos considerados muito excêntricos e alguns inclusive pensem que estamos um pouco lesados da cabeça, contudo, Jesus disse: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora‖. Vem, Sr. Raridade! Não estará perdido por falta de cérebro nem tampouco por ter cérebro em demasia (ainda que esse não seja um infortúnio muito comum). Se você vem a Cristo, ainda que
  • 92. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 92 ] não tenha talento, ainda que seja muito pobre e não prospere muito no mundo, Jesus te diz: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. ―Ah, diz um terceiro amigo, ―a mim não me importa ser obscuro, ou ser excêntrico, porém, a gravidade de meu pecado é o que me impede de ir a Cristo. Leiamos o texto de novo: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. Ainda que tivesse sido culpado de pecados impossíveis, contudo, se viesse a Cristo, fixe-se, se viera a Cristo, a promessa de Jesus seria cumprida inclusive no seu caso: ― o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. ―Porém – diz outro – ―estou completamente desgastado, sou bom para nada. Passei todos meus dias e anos em pecado. Cheguei ao próprio fim do capítulo; não valho a pena para nada. Apresse-se em vir, você, remanescente de vida! Jesus disse: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. Você tem que caminhar com muletas, não é certo? Não se preocupe, vem para Jesus. Você está tão fraco que até mesmo lhe assombra estar com vida em sua idade avançada. Meu Senhor o
  • 93. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 93 ] receberá ainda que tenha cem anos de idade; têm acontecido diversos casos de pessoas que foram tragas a Cristo inclusive depois dessa idade. Existem uns quantos exemplos muito notáveis registrados desse fato. Cristo disse ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. Se for tão velho como Matusalém, bastaria que viesse a Cristo, e não seria lançado fora. ―Ai – alguém diz – ―meu caso é ainda pior que o desse ancião amigo, pois ademais de ser velho, resisti ao Espírito de Deus. Minha consciência remordeu-me por muitos anos, porém, tratei de encobrir tudo. Afoguei todo pensamento piedoso. Sim, sim, e é também algo muito triste, porém, apesar de tudo isso, se você vem a Cristo, se pudesse correr a toda velocidade para alcançar a salvação e vir a Jesus, Ele não poderia lhe lançar fora. VENHA COM SEUS PECADOS Um amigo talvez diga: ―Temo que cometi o pecado imperdoável. Se você vem a Cristo, não o teria cometido, isso o sei; pois todo aquele que venha a Ele,
  • 94. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 94 ] Jesus não o lançará fora. Portanto, não poderia ter cometido o pecado imperdoável. Apresse-se em vir, amigo, se é mais negro que todo o resto dos pecadores do mundo, pois muito mais gloriosa será a graça de Deus quando tenha demonstrado seu poder lavando-lhe no precioso sangue de Jesus e o tornando mais alvo que a neve. ―Ah! – diz alguém – ―você não me conhece, amigo não, meu querido amigo, não lhe conheço; porém, talvez, num dias desses poderei ter esse prazer. ―Não seria nenhum prazer para você, amigo, pois sou um apóstata. Eu era um professante da religião, mas renunciei a tudo isso e regressei ao mundo, fazendo intencional e perversamente todo tipo de coisas más. Ah, bem, com só que viesse a Cristo, ainda que houvesse em você sete apostasias empilhadas umas sobre as outras, Sua
  • 95. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 95 ] promessa segue sendo válida: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Oh rebelde, sem importar o que tivera sido seu passado e sem importar o que seja seu presente, retorne a Cristo, pois Ele se apega a Sua palavra empenhada, e meu texto não menciona nenhuma exceção: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. ―Bem, amigo – outro clama – ―eu gostaria de vir a Cristo, mas não me sinto apto a vir. Então, vem ainda estando desqualificado, tal como está. Jesus disse: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Se me despertassem a meia noite com o grito de ―Fogo! FOGO, e eu percebesse que alguém estava junto da janela que dá para a escada de emergência, não creio que eu ficaria em minha cama dizendo: ―Não tenho posta minha cinta de etiqueta, ou ―não coloquei meu melhor jaleco. Não falaria jamais dessa maneira. Sairia pela janela tão rápido como pudesse, e desceria pelas escadas de emergência. Por que você fala de idoneidade, idoneidade, idoneidade? Fiquei sabendo de um partidário de Carlos I
  • 96. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 96 ] que perdeu sua vida porque se deteve para encrespar seus cabelos enquanto era perseguido. 1 Carlos I de Inglaterra (1600 –1649) foi rei da Inglaterra de 1625 até 1649; se envolveu na guerra civil inglesa contra o Parlamento, e sendo derrotado, foi julgado e condenado a morte pelo governo republicano puritano de Oliver Cromwell; os partidários do rei eram conhecidos como Realistas pelos soldados de Cromwell 2. Alguns de vocês poderiam rir dessa insensatez desse cavaleiro; porém é isso exatamente o mesmo que teu falatório sobre a idoneidade. Que é toda sua idoneidade senão encrespar seus cabelos quando este em iminente perigo de perder sua alma? Sua idoneidade não
  • 97. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 97 ] é nada para Cristo. Lembrem o que cantamos no começo do serviço: “Não permitas que a consciência te detenha; Nem sonhes tercamente com a idoneidade; Toda a idoneidade que Ele requer É que sintas sua necessidade Dele Isso lhe o dá Ele; És a base de apoio do Espírito.” VENHA COMO ESTÁS! Vem a Cristo tal como é, sujo, vil, descuidado, ímpio e sem Cristo. Vem agora, agora mesmo, pois Jesus disse: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Por acaso existe uma gloriosa amplitude em meu texto ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora‖? Quem é o ―Aquele”, ou o ―O, o sujeito? É ―que vem Qual? ―o que vem a mim? qualquer um que venha de qualquer parte do mundo. Se vem a Cristo, não será lançado fora. Um homem
  • 98. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 98 ] vermelho, negro, branco, amarelo ou cobre, sem importar quem seja, se vem a Jesus, não será lançado fora. Quando queira descrever algo amplamente, sempre é melhor que o declare e o deixe assim. Não entre em detalhes; o Salvador não o faz. Alguns anos atrás, um homem, um esposo amável e amoroso, desejava deixar para sua esposa todas suas propriedades. Queria que sua esposa recebesse tudo o que possuía, como devia ser, de tal forma que estabeleceu no seu testamento: ―Relego a minha esposa, Elizabeth, tudo o que possuo.” Isso estava muito bem. Logo, prosseguiu a descrever em detalhes tudo o que estava
  • 99. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 99 ] deixando, todos os bens sobre os quais tinha domínio absoluto, em vez de declará-la ―herdeira universal. Dava a casualidade que a maior parte de suas propriedades estavam arrendadas, e não figuravam na relação dos bens em domínio absoluto, de tal forma que a esposa não recebeu nada dessa parte porque seu esposo tinha optado por dar uma descrição detalhada em vez de declarar ela como herdeira universal; por culpa do detalhe da herança a herança se escapou da boa mulher. 2 Oliver Cromwell (1599 —1658) foi um militar e político britânico, conhecido como um dos líderes da Guerra Civil Inglesa, movimento que derrubou Carlos I e levou à instauração de uma república puritana na Grã- Bretanha. Agora, aqui não há detalhe, em absoluto: ―o que a mim vem. Isso quer dizer que qualquer homem, qualquer mulher e qualquer menino sob os amplos céus, que simplesmente venham e confie em Cristo, não serão lançados fora de nenhuma forma. Dou graças a Deus porque não existe nenhuma alusão a nenhuma identidade
  • 100. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 100 ] especial, como que se fosse dito especialmente: ―As pessoas de tal e tal identidade serão recebidas, pois então os caracteres que não são mencionados poderiam supor a si excluídos; porém, o texto quer dizer claramente que toda alma que venha a Cristo será recebida por Ele. III. O voo do tempo me apressa, portanto, lhes suplico que escutem com atenção enquanto lhes falo, em terceiro lugar, sobre a QUALIDADE INEQUIVOCA DA PROMESSA: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora, isso é, por nenhuma razão, sob nenhuma circunstância, em nenhum momento, sobre nenhuma condição de nenhum tipo, ―lhes lanço fora; o quão quer dizer, bem interpretado: ―Irei recebê-los, ire salvá-los, irei abençoá-los.
  • 101. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 101 ] JESUS NÃO MENTE Então, meu querido amigo, se viesse a Cristo, como Ele poderia lançar-lhe fora? Como poderia fazê-lo em consistência com Sua veracidade? Imaginem a meu Senhor Jesus fazendo essa declaração e a entregando como uma Escritura inspirada: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora, no entanto, lançando alguém para fora, a esse alguém desconhecido que está parado na esquina. Vamos, seria uma mentira; seria uma mentira qualificada! Suplico-lhes que não blasfemem de meu Senhor, o Cristo veraz, ao suporem que pudera ser culpado de uma conduta como essa. Ele poderia ter feito o
  • 102. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 102 ] que quisesse quanto a quem receberia até o momento de fazer a promessa; porém, depois de comprometer Sua palavra, se obrigou a guardá-la pela veracidade de Sua natureza; e entanto que Cristo seja o Cristo verdadeiro, Ele tem que receber a toda alma que venha a Ele. Porém, deixe-me perguntar-lhe: suponha que viesse a Cristo e que Ele o lançasse fora: com que mãos Ele poderia fazer isso? Você responde: ―Com suas próprias mãos. Como! Cristo dá um passo adiante para lançar fora a um pecador que veio a Ele? Pergunto de novo: com que mãos Ele poderia fazê-lo? Acaso o faria com essas mãos traspassadas que ainda mostram os sinais dos cravos? Acaso o Crucificado rejeitaria a um pecador? Ah, não! Ele não tem nenhuma mão com a que faria uma cruel obra como essa, pois entregou ambas mãos para que fossem cravadas ao madeiro pelos homens culpados. Não tem mãos nem pés nem coração com que pudesse rejeitar aos pecadores, pois todos esses membros foram perfurados em Sua morte pelos pecadores; portanto, não poderia lançá-los fora se viessem a Ele.
  • 103. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 103 ] Deixe-me fazer outra pergunta: Que benefício seria para Cristo se Ele efetivamente o lançasse fora? Se meu amado Senhor, o da coroa de espinhos e do lado traspassado e das mãos perfuradas lhe fora lançar longe, que glória isso Lhe aportaria? Se o lançasse ao inferno, a você que veio a Ele, que felicidade daria isso para Ele? Se o lançasse fora, a você que buscou Seu rosto, a você que confiou em Seu amor e em Seu sangue, por qual método concebível esse ato o faria mais feliz ou grande? Não pode ser. Que implicaria essa suposição? Imagine por um momento que Jesus efetivamente lançasse fora a alguém que viesse a Ele; se fosse comprovado que uma alma veio a Cristo e, contudo, Ele a lançou fora, que sucederia? Bem, haveria milhares de nós que não pregaríamos nunca mais! Logo eu acabaria com meu ofício. Se meu Senhor lançasse fora a um pecador que viera a Ele, eu não poderia com uma consciência limpa, ir pregar baseando-me em Suas palavras: ―o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Além disso, sentiria que se Ele falhou em uma promessa, poderia falhar em outras. Eu não poderia sair e pregar um Evangelho possível, porém duvidoso. Eu devo
  • 104. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 104 ] ter os ―farei‖ e os ―assim será provenientes do trono eterno de Deus; se não fosse assim, nossa pregação seria vã e nossa fé também seria vã. Vejam quais seriam as consequências se uma alma viesse a Cristo e Cristo a lançasse fora. Todos os santos perderiam sua confiança Nele. Se um homem quebranta sua promessa uma vez, não tem o caso que diga: ―bem, eu geralmente sou verdadeiro. Comprovou que não cumpriu sua palavra uma vez, e não confiaria nele de novo, não é certo? Não; e se nosso amado Senhor, de quem todas Suas palavras são verdadeiras e verazes, poderia cumprir uma de Suas promessas uma só vez, perderia a confiança de Seu povo por completo e Sua Igreja perderia a fé que é sua vida mesma. JESUS REJEITAR ALGUÉM QUE O BUSCA SERIA ESCÂNDALO Ah Deus meu, e logo saberiam disso no céu, e uma alma que viesse a Cristo e fosse deixada fora deteria a musica das harpas do céu, borraria o lustre da terra da
  • 105. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 105 ] glória, e suprimiria seu gozo, pois os glorificados sussurrariam entre si: ―Jesus quebrou Sua promessa. Lançou fora uma alma que orava e cria; então Ele poderia quebrar a promessa que nos fez, e poderia nos lançar fora do céu. Quando começassem a louvá-Lo, esse ato solitário seu colocaria um nó em suas gargantas e não seriam capazes de cantar. Elas estariam pensando nessa pobre alma que confiou Nele, mas que foi lançada fora; assim que, como poderiam cantar: ―Ao que nos amou, e nos lavou de nossos pecados com seu sangue, se tivessem que acrescentar: “porém não lavou a todos que vieram a Ele, ainda que tenha prometido que o faria? Não gosto sequer de falar de tudo o que essa suposição implicaria; é algo muito terrível para mim, pois no inferno iriam ficar sabendo disso, e seria transmitido de uns para outros, e um terrível regozijo se apoderaria dos diabólicos corações do demônio e de seus companheiros, que diriam: ―O Cristo não cumpre Sua palavra; o alardeado Salvador rejeitou a um que veio a Ele. Sempre recebia pecadores, inclusive as rameiras, e até permitiu que uma delas lavasse Seus pés com suas lágrimas; os publicanos e os pecadores vinham e se juntavam a sua
  • 106. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 106 ] volta, e Ele lhes falava em tons de amor; porém aqui está um... bom, ele era demasiadamente vil para que o Salvador o abençoasse; era tão extremamente desviado que Jesus não pode restaurá-lo. Cristo não pode limpá-lo. Ele pode salvar a pecadores menores, porém não aos maiores; podia salvar à mil e oitocentos anos. Oh, fez ostentação da salvação deles, porém Seu poder extinguiu-se agora e já não pode salvar pecadores. Oh, nos salões do Hades, que piadas e zombarias seriam lançadas contra esse amado nome, e quase diria, justamente‘, se Cristo lançasse fora a um que viesse a Ele! Porém, amados, isso não pode jamais acontecer; é tão certo como o juramento de Deus, tão certo como o ser do SENHOR, que o que vem a Cristo não será lançado fora. Eu alegremente dou meu próprio testemunho diante dessa multidão reunida que: ―Eu vim a Jesus tal como estava Cansado, desgastado e triste; Encontrei Nele um lugar de repouso, E Ele me alegrou. Venham, cada um de vocês, e comprovem por experiência própria que o texto é verdadeiro, por nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
  • 107. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 107 ] BIOGRAFIA DE CHARLES SPURGEON Charles Haddon Spurgeon nasceu em 19 de Junho de 1834 como o primogênito de 16 irmãos, de John Spurgeon e sua esposa Eliza Jarvis, em Keveldon, Inglaterra e foi batizado em 3 de agosto desse ano por seu avô, o pastor congregacional James Spurgeon. Recebeu o nome de 'Charles' de um tio de sua mãe. 'Haddon', devido a um antigo amigo da família de Spurgeon que os ajudou em hora de necessidade. Em agosto de 1835, seus pais mudaram para Colchester, e entregaram Charles aos cuidados de seu avô, com quem viveu até os 5 anos. Durante esse tempo, leu muitos livros, entre os principais "O Peregrino" de John Bunyan, obra que marcaria o resto de sua vida. Também leu muitas obras de Puritanos, como Richard Baxter e John Owen. Aos seis anos, voltou a morar com os pais, já devidamente instalados em Colchester. Converteu-se ao cristianismo em 6 de janeiro de 1850, aos quinze anos de idade. Aos dezesseis, pregou seu primeiro sermão no ano seguinte tornou-se pastor de uma igreja batista em Waterbeach, Condado de Cambridgeshire (Inglaterra). Em 1854, Spurgeon, então com vinte anos, foi chamado para ser pastor da capela batista de New Park Street, Londres, que mais tarde viria a chamar-se Tabernáculo Metropolitano, transferindo-se para novo prédio. Desde o início do ministério, seu talento para a exposição dos textos bíblicos foi considerado extraordinário. Sua excelência na pregação das Escrituras
  • 108. Cristo e eu – C. Spurgeon [ 108 ] Bíblicas lhe renderam o título de O Príncipe dos Pregadores e O Último dos Puritanos. A família de Spurgeon, escapando da perseguição contra os protestantes perpetrada por Filipe II, fugiu da Holanda para Inglaterra, por volta de 1570, estabelecendo na região de East Anglia. No século XVII, os Spurgeons sofreram dura perseguição incitada por Carlos II contra os não-conformistas (dissidentes da Igreja Anglicana que não aceitavam o Ato de Uniformidade de 1662). Anos mais tarde, os Spurgeons estabeleceram em Stambourne. Aos 10 anos, um pastor itinerante chamado Richard Knill impressionou muito ao jovem Charles ao declarar que "esse menino pregaria o Evangelho a grandes multidões". Esse fato marcou profundamente a mente da jovem criança. Spurgeon cursou seus estudos em Colchester até 1848, indo depois para Newmarket, para estudar numa escola localizada na área de Cambridgeshire. De 1848 a 1850, Charles Spurgeon teve um período de muitas dúvidas e amarguras. Esteve sob grande convicção de pecado. Ficou convicto que não era um cristão de fato, mesmo sendo criado em todo o ambiente religioso de sua família e região, e sob forte influência puritana e não-conformista. Em janeiro de 1850, tendo como objetivo ir a uma reunião matutina em uma igreja congregacional em Colchester, para buscar paz em sua perturbada alma, se deteve numa capela de metodistas primitivos em Artilley Stree, mais em consequência da forte nevasca que por vontade própria.