A atualidade de Søren Kierkegaard
                 Marcio Gimenes de Paula
                 O indivíduo como ponto inicial na
                 filosofia kierkegaardiana

                 Patricia Carina Dip                                      E mais:
                 Filosofia de Kierkegaard: defesa                 >> Maria Teresa
                 pela alteridade                            Bustamante Teixeira:
314Ano IX
                 Álvaro Valls
                                                          Gestão e Saúde Coletiva

 09.11.2009
                 O avanço da pesquisa                >>Jesuítas assassinados em
ISSN 1981-8469   em Kierkegaard no Brasil            El Salvador. 20 anos depois

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A atualidade de Søren Kierkegaard


                            Nos próximos dias 12 e 13 de novembro, realiza-se, na Unisinos, a segunda parte da Jornada
                       Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard. Ela é antecedida, nos dias 9 e 10 de novembro,
                       pelo evento que acontece em Buenos Aires. A atualidade do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard
                       (1813-1855) é discutida nesta edição da IHU On-Line por especialistas que estarão tanto em Buenos
                       Aires como aqui em São Leopoldo, RS.

                          Patricia Carina Dip, pesquisadora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas
                       (CONICET), na Argentina, fala sobre a filosofia de Kierkegaard como aporte ético à alteridade. O
                       indivíduo como ponto inicial na filosofia kierkegaardiana é um dos aspectos abordados por Marcio
                       Gimenes de Paula, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Os pontos de proximidade e ruptura
                       entre as ideias de Kierkegaard e Schopenhauer são o foco de Deyve Redyson de Melo dos Santos,
                       professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Álvaro Valls, da Unisinos, faz um balanço das
                       pesquisas sobre o dinamarquês no Brasil. Luiz Rohden, também da Unisinos, fala sobre a crítica
                       de Gadamer e Kierkegaard à filosofia abstrata. Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti (Univer-
                       sidade John F. Kennedy, na Argentina) oferecem um panorama sobre os estudos sobre esse autor
                       na Argentina, e comentam aspectos sobre a filosofia pós-moderna e a força infinita do espírito
                       humano. Either/Or e o texto como arena é o tema que instiga a pesquisadora Jacqueline Ferreira
                       em sua entrevista à IHU On-Line. Comparando Kierkegaard e Tillich, Jonas Roos examina a virada
                       nos conceitos tradicionais religiosos proposta por ambos pensadores. O filósofo e psicanalista Mario
                       Fleig, da Unisinos, reflete sobre a leitura de Lacan sobre Kierkegaard.

                           A programação completa do evento pode ser conferida no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
                       – IHU, que está apoiando o evento:
                           http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_eventos&Itemid=19&task=detalhe&id=152

                          No próximo dia 16 de novembro, celebram-se os vinte anos do assassinato de seis jesuítas, to-
                       dos eles professores da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), em El Salvador.
                       Juntamente com eles, foram também assassinadas a senhora Elba Ramos e sua filha Celina, que
                       trabalhavam na residência dos jesuítas. O debate de Noam Chomsky e John Sobrino sobre o tema e
                       o evento a ser realizado na Unisinos, são temas desta edição.

                          Completam esta edição mais duas entrevistas. Uma com Julius Lipner, professor de Hinduísmo
                       na Universidade de Cambridge, e outra com a médica Maria Teresa Bustamante Teixeira, profes-
                       sora da UFJF, sobre gestão e saúde coletiva.

                            A todas e todos uma ótima leitura e uma excelente semana!




                            IHU On-Line é a revista semanal do Instituto Humanitas Unisinos – IHU – Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. ISSN 1981-8769.
               Expediente




                            Diretor da Revista IHU On-Line: Inácio Neutzling (inacio@unisinos.br). Editora executiva: Graziela Wolfart MTB 13159 (grazielaw@unisi-
                            nos.br). Redação: Márcia Junges MTB 9447 (mjunges@unisinos.br) e Patricia Fachin MTB 13062 (prfachin@unisinos.br). Revisão: Vanessa
                            Alves (vanessaam@unisinos.br). Colaboração: César Sanson, André Langer e Darli Sampaio, do Centro de Pesquisa e Apoio aos Traba-
                            lhadores – CEPAT, de Curitiba-PR. Projeto gráfico: Bistrô de Design Ltda e Patricia Fachin. Atualização diária do sítio: Inácio Neutzling,
                            Greyce Vargas (greyceellen@unisinos.br) e Juliana Spitaliere. IHU On-Line pode ser acessada às segundas-feiras, no sítio www.unisinos.
                            br/ihu. Sua versão impressa circula às terças-feiras, a partir das 8h, na Unisinos. Apoio: Comunidade dos Jesuítas - Residência Concei-
                            ção. Instituto Humanitas Unisinos - Diretor: Prof. Dr. Inácio Neutzling. Gerente Administrativo: Jacinto Schneider (jacintos@unisinos.br).
                            Endereço: Av. Unisinos, 950 – São Leopoldo, RS. CEP 93022-000 E-mail: ihuonline@unisinos.br. Fone: 51 3591.1122 – ramal 4128. E-mail
                            do IHU: humanitas@unisinos.br - ramal 4121.



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Leia nesta edição
                  PÁGINA 02 | Editorial



                  A. Tema de capa
                  » Entrevistas
                  PÁGINA 07 | Patricia Carina Dip: A filosofia de Kierkegaard como aporte ético à alteridade
                  PÁGINA 10 | Marcio Gimenes de Paula: O indivíduo como ponto inicial na filosofia kierkegaardiana
                  PÁGINA 13 | Deyve Redyson Melo dos Santos: Kierkegaard e Schopenhauer. Proximidades e rupturas
                  PÁGINA 16 | Luiz Rohden: A crítica de Gadamer e Kierkegaard à filosofia abstrata
                  PÁGINA 18 | Jonas Roos: Uma virada nos conceitos tradicionais religiosos
                  PÁGINA 20 | Mario Fleig: Que peso tem para um filho o pai em pecado? Lacan leitor de Kierkegaard
                  PÁGINA 23 | Álvaro Valls: O avanço da pesquisa em Kierkegaard no Brasil
                  PÁGINA 27 | Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti: A filosofia pós-moderna e a força infinita do espírito humano
                  PÁGINA 30 | Jacqueline Ferreira: O texto como arena



                  B. Destaques da semana
                  » Teologia Pública
                  PÁGINA 36 | Julius Lipner: Um Deus para cada contexto
                  » Entrevista da Semana
                  PÁGINA 39 | Maria Teresa Bustamante Teixeira: Gestão e saúde coletiva
                  » Memória
                  PÁGINA 43| Ana Formoso: Ignacio Ellacuría - Um pensador, negociador e cristão
                  » Coluna Cepos
                  PÁGINA 45 | Rafaela Barbosa: A nova Record: A construção do padrão tecnoestético e da liderança
                  pela via do reality show A Fazenda


                  » Destaques On-Line
                  PÁGINA 47 | Destaques On-Line



                  C. IHU em Revista
                  » Eventos »
769.
                  PÁGINA 52| Mártires em El Salvador: uma memória que continua forte 20 anos depois
nisi-
essa              » Perfil
aba-              PÁGINA 55| Faustino Teixeira
 ing,
nos.
                  » IHU Repórter
 cei-             PÁGINA 58| Lauro Antônio Lacerda d’Ávila
 br).
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                  SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                             

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SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314


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Biografia - Søren Kierkegaard
            Søren Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813, em Copenhague,
         onde faleceu em 11 de novembro de 1855. A brevidade de sua vida
         contrasta com a qualidade e a extensão de sua produção, ainda não
         classificada nos círculos acadêmicos. Se não é filósofo, nem teólogo,
         nem psicólogo, nem literato, nem místico, nem pedagogo, como é que
         sua influência está tão presente em Jaspers, Heidegger, Sartre, Ricoeur,
         Benjamin, Kafka, Buber, Chestov, Lívinas, Derrida, Rosenzweig, Janké-
         lévich, Bloch, Merleau-Ponty, Arendt, Deleuze, Canetti, Barth, Lacan,
         Bataille, Tillich, Adorno?
            Sempre contrário à Igreja Oficial da Dinamarca, luterana pietista, na
         maioria dos países a recepção das obras de Kierkegaard esteve ligada
         à igreja em função da característica dos seus escritos. Na Alemanha,
         por exemplo, foi traduzido por teólogos. Na França, a recepção se deu
         mais na área da estética. No Brasil, a recepção se dá, ao mesmo tempo,
         junto a teólogos, literatos e filósofos.




                  Bibliografia                               - Frygt og Bæven, 1843 (Temor e
                                                         tremor).
                                                                                                  ceito de angústia).
                                                                                                     V.	 - Forord, 1844 (Prefácios).
                                                             - Gjentagelsen, 1843 (A repeti-         	     - Fire opbyggelige Taler,
                  Obras de Søren Kierkegaard             ção).                                    1844 (Quatro discursos edificantes
                  Søren Kierkegaards Samlede                 - Tre opbyggelige Taler, 1843        1844).
               Værker (SV²). Editada por A. B. Dra-      (Três discursos edificantes 1843).          - Tre Taler ved Tænkte Lejlighe-
               chmann, L. Heiberg e H. O. Lange.             IV.	 - Fire Opbyggelige Taler,       der, 1845 (Três discursos em deter-
               København, Gyldendal, 1920-1936,          1843 (Quatro discursos edificantes       minadas circunstâncias).
               XV volumes; os quatorze primeiros         1843).                                      VI. 	 - Stadier paa Livets Vej,
               contém as obras, o XV contém os Ín-           - To opbyggelige Taler, 1844 (Dois   1845 (Estádios no caminho da vida).
               dices.                                    discursos edificantes 1844).                VII. 	- Afsluttende Uvidenska-
                  I. 	 - Enten-Eller (I), 1843 (A Al-        - Tre opbyggelige Taler, 1844        belig Efterskrift til de Philosophiske
               ternativa I).                             (Três discursos edificantes 1844).       Smuler,
                  II.	 - Enten-Eller (II), 1843 (A Al-       - Philosophiske Smuler eller en         1846 (Post-Scriptum definitivo e
               ternativa II).                            Smule Philosophi, 1844 (Migalhas         não científico às Migalhas filosófi-
                  III. 	 - To opbyggelige Taler, 1843    filosóficas).                            cas).
               (Dois discursos edificantes 1843).            - Begrebet Angest, 1844 (O con-         VIII. 	 En literair Anmeldelse,
                                                                                                           -


          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                 

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1846 (Uma resenha literária).             escritor).                             Miranda de, PAULA, Marcio Gimenes
                   - Opbyggelige Taler i forskjellig        XIV. 	- Bladartikler, 1854-1855     de (Orgs.) Søren Kierkegaard no Bra-
               Aand, 1847 (Discursos edificantes         (Artigos jornalísticos).               sil. João Pessoa: Idéia, 2007. [Cole-
               em diversos espíritos).                      - Øieblikket, 1855 (O instante).    tânea de textos em homenagem a
                   IX. 	 - Kjerlighedens Gjerninger,        - Hvad Christus dømmer om offi-     Alvaro L. M. Valls, com pesquisado-
               1847 (As obras do amor)                   ciel Christendom, 1855 (Como Cris-     res brasileiros e argentinos].
                   X. 	 - Christelige Taler, 1848        to julga o cristianismo oficial).          REVISTA PORTUGUESA DE FILOSO-
               (Discursos cristãos).                        - Guds Uforanderlighed. En Tale.    FIA. Horizontes existenciários da fi-
                   - Krisen og en Krise i en Skues-      1855 (A imutabilidade de Deus. Um      losofia. Tomo 64, Braga: 2008. [Edi-
               pillerindes Liv, 1848 (A crise e uma      discurso).                             tado por VILA-CHÃ, João José, reúne
               crise na vida de uma atriz).                                                     um número significativo de textos
                   XI. 	 - Lilien paa Marken og Fu-                                             em diversos idiomas e temas].
                                                         Algumas obras de Kierkega-
               glen under Himlen, 1849 (Os lírios                                                   VALLS, Alvaro L. M. Do desespero
               do campo e as aves do céu).               ard traduzidas ao português:           silencioso ao elogio do amor desin-
                   - Tvende Ethisk-religieuse Smaa-                                             teressado: aforismos, novelas e dis-
               Afhandlinger, 1849 (Dois pequenos            KIERKEGAARD, Søren A. O con-        cursos de Søren Kierkegaard. Porto
               tratados ético- religiosos).              ceito de ironia. 2. ed. Bragança       Alegre: Escritos, 2004.
                   - Sygdommen til Døden, 1849 (A        Paulista: Editora Universitária São
               doença para a morte).                     Francisco, 2005.                       Alguns estudos
                   - Ypperstepræsten-Tolderen-Syn-          ______. Migalhas filosóficas. 2
               deriden, 1849 (O sumo sacerdote - O       ed. Petrópolis: Vozes, 2008.           publicados em português
               publicano - A pecadora).                     ______. As obras do amor. 2 ed.
                   XII. 	 - Indøvelse i Christendom,     Petrópolis: Vozes; Bragança Paulis-       ALMEIDA, Jorge Miranda de. Éti-
               1850 (Escola de Cristianismo).            ta: Editora Universitária São Fran-    ca e existência em Kierkegaard e
                   - En opbyggelige Tale, 1850 (Um       cisco, 2007.                           Lévinas. Vitória da Conquista: UESB,
               discurso edificante).                        ______. In vino veritas. Lisboa:    2009.
                   - To Taler ved Altergangen om         Antígona, 2005.                           REDYSON, Deyve. A filosofia de
               Fredagen, 1851 (Dois discursos para          ______. Adquirir a sua alma na      Soren Kierkegaard. Recife: Elógica,
               a comunhão de sexta-feira).               paciência. Lisboa: Assírio  Alvim,    2004.
                   - Dømmer Selv! Til Selvprøvel-        2007.                                     GRAMMONT, Guiomar de. Don
               se, Samtiden anbefalet, 1851-1852            ______. É preciso duvidar de        Juan, Fausto e o Judeu Errante em
               (Julgai vós mesmos! Para um exame         tudo. São Paulo: Martins fontes:       Kierkegaard. Petrópolis: Catedral
               de consciência, recomendado aos           2003.                                  das Letras, 2003.
               contemporâneos).                             ______. Diário de um sedutor;          PAULA, Marcio Gimenes de. So-
                   XIII. 	- Bladartikler fra Tiden for   Temor e tremor; O desespero huma-      cratismo e cristianismo em Kierke-
               ‘Forfatterskabet’, 1834-1836 (Arti-       no. São Paulo: Abril Cultural: 1974.   gaard: o escândalo e a loucura. São
               gos jornalísticos do período anterior     (Os Pensadores)                        Paulo: Annablume: Fapesp, 2001.
               à ‘atividade literária’).                                                           ______. Indivíduo e comunidade
                   - Af en endnu Levendes Papirer,          Coletâneas de estudos e/ou tra-     na filosofia Kierkegaard. São Paulo:
               1838 (Dos papéis de um sobreviven-        duções:                                Paulus, 2009.
               te).                                         ALMEIDA, Jorge Miranda de;             GOUVÊA, Ricardo Quadros. Pai-
                   - Om Begrebet Ironi med stadigt       VALLS, Alvaro L. M. Kierkegaard. Rio   xão pelo paradoxo. 2 ed. São Paulo:
               Hensyn til Sokrates, 1841 (O concei-      de Janeiro: Jorge Zahar, 2007 (Cole-   Fonte, 2006.
               to de ironia constantemente referi-       ção passo-a-passo, 78)                    ______. A palavra e o silên-
               do a Sócrates).                              FILOSOFIA UNISINOS. v. 6, n. 3      cio. São Paulo: Alfarrábio; Custom,
                   - Bladartikler der staaer i Forhold   (setembro-dezembro) de 2005. [Nú-      2002.
               til ‘Forfatterskabet’. ����������
                                            1842-1851    mero dedicado ao pensador dina-           ROOS, Jonas. Razão e fé no pen-
               (Artigos jornalísticos que estão em       marquês, editado por Luiz Rohden e     samento de Søren Kierkegaard: o
               relação com a ‘atividade literária’).     disponível em: www.revistafilosofia.   paradoxo e suas relações. São Leo-
                   - Om min Forfatter-Virksomhed,        unisinos.br]                           poldo: Sinodal; EST, 2006.
               1851 (Sobre minha obra de escri-             REICHMANN, Ernani. Soeren              VALLS, Alvaro L. M. Entre Sócra-
               tor).                                     Kierkegaard. Curitiba: Edições Jr.,    tes e Cristo: ensaios sobre a ironia e
                   - Synspunktet for min Forfatter-      1972. [Tradução de trechos de di-      o amor em Kierkegaard. Porto Ale-
               Virksomhed, 1859 (O ponto de vista        versas obras de Kierkegaard].          gre: Edipucrs, 2000.
               explicativo de minha atividade de            REDYSON, Deyve, ALMEIDA, Jorge


                                                                                   SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314


flash.indd 6                                                                                                                       9/11/2009 18:38:09
A filosofia de Kierkegaard como aporte ético à alteridade
          Ainda que partindo do eu, filosofia do pensador dinamarquês pode fundamentar a
          defesa pela alteridade, pontua Patricia Carina Dip. Preeminência do ético sobre o
          metafísico é tributária a Levinas

          Por Márcia Junges e Jasson Martins | Tradução Jasson Martins




          M
                        esmo que o “eu” seja o ponto de partida de Kierkegaard, “sua filosofia pode ser enten-
                        dida como um aporte ético para os que desejam defender uma verdadeira alteridade,
                        e não apenas pronunciar um discurso ‘politicamente correto’ sobre a diferença e a
                        tolerância, porém ‘praticamente’ estéril”. A afirmação faz parte da entrevista a seguir,
                        concedida, por e-mail, pela filósofa argentina Patricia Carina Dip à IHU On-Line. “Acre-
          dito que em Kierkegaard aparece a preeminência do ético por sobre o metafísico, da qual é devedor
          Levinas”, completa. Analisando as contribuições do pensador dinamarquês à política atual, ela con-
          sidera que sua filosofia pode realmente inspirar a uma transformação nesse campo. “O descrédito no
          qual tem caído a participação política tradicional obedece a distintos fatores; não obstante, disso
          não se deduz a ‘morte’ do político, mas a necessidade de sua ‘ressurreição’. Neste sentido, a Amé-
          rica Latina ocupa um papel certamente privilegiado, especialmente quando muitos intelectuais do
          primeiro mundo europeu tentaram convencer-nos de que havíamos ingressado na ‘pós-modernidade
          ou no pós-marxismo’. Ao contrário, creio que ainda não saímos da ilustração”, provoca. Outro tema
          discutido por Dip é a contraposição e aproximação entre Kierkegaard e Marx. O primeiro, diz ela,
          descreve a alienação psicológica da sociedade burguesa, enquanto o segundo se refere à alienação
          social. “A diferença reside na perspectiva da análise que cada um assume”.
              Dip é doutora em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires - UBA, professora da Universidad Na-
          cional de General Sarmiento – UNGS, e pesquisadora do Conselho Nacional de Investigações Científicas
          e Técnicas - CONICET. Durante os últimos dez anos, dedicou-se a estudar, discutir e traduzir a obra de
          S. Kierkegaard. Publicou artigos em diversas revistas e participou de várias publicações conjuntas. No
          ano de 2007, publicou sua tradução (com um estudo preliminar) de S. Kierkegaard, Johannes Climacus
          o el dudar de todas las cosas (Buenos Aires: Editorial Gorla, 2007). Na Jornada Argentino-Brasileira
          de Estudos de Kierkegaard, apresentou o tema Subjetividade e Praxis: a recepção fenomenológica de
          Kierkegaard na obra de Michel Henry. Confira a entrevista.



         IHU On-Line - Na sua percepção, qual              namente na academia. Isso permitiu        um sintoma momentâneo dos estudos
         é a situação atual dos estudos de                 que se escrevessem vários trabalhos       sobre o dinamarquês. Quer dizer, que
         Kierkegaard no campo latino-ameri-                de doutorado discutindo suas ideias.      em uma primeira etapa se produzam
         cano de fala espanhola?                           Apesar de tudo isso ser muito positivo,   estudos especializados, porém que
         Patricia Carina Dip - Em minha opi-               ainda falta a tradução das obras com-     logo possamos observar a influência de
         nião, os estudos da obra de Kierkega-             pletas em espanhol.                       sua obra em escritos originais.
         ard na América Latina de fala hispâni-               Por outra parte, apesar de que o           “Compreender” corretamente um
         ca têm progredido consideravelmente               maior impacto das ideias de Kierkega-     filósofo da estatura de Kierkegaard
         nos últimos vinte anos. Tanto no Mé-              ard seja um fenômeno que pode ser         supõe abandonar seu caminho teórico
         xico como na Argentina, foram funda-              observado em escala mundial, isso não     com o objetivo de formular o próprio
         das bibliotecas e sociedades dedicadas            significa que tenha surgido interpreta-   caminho. Ainda que este tipo de for-
         exclusivamente ao estudo, tradução                ções “integrais” de sua obra ou pensa-    mulações não tenha sido realizado na
         e divulgação da obra do pensador di-              dores que pensem “com” Kierkegaard,       América Latina, confio que formarão
         namarquês. Além disso, a figura de                inclusive distantes de seus pressupos-    parte do que me atrevo a denominar
         Kierkegaard foi ingressando paulati-              tos básicos. Espero que isto seja só      “segunda etapa” na recepção do pen-

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                 

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samento do dinamarquês. Esta consis-                                                                      foi “consequente” com sua proposta.
         tiria no abandono da “letra” e a elabo-
                                                                       “‘Compreender’                              Um pensador como Hume nos induzi-
         ração de um pensar atual.                                                                                 ria a crer que este tipo de exigência
                                                                      corretamente um                              é quase “irrealizável”. Apesar de que,
         IHU On-Line - Kierkegaard nos inspi-                                                                      em certo sentido, isto seja correto,
         ra a compreender e a mudar a polí-
                                                                     filósofo da estatura                          penso que um pensamento incapaz
         tica atual? Por quê? Se sim, em que                                                                       de ser consequente com seus próprios
         aspectos?
                                                                  de Kierkegaard supõe                             pressupostos, se torna indefectivel-
         Patricia Carina Dip - É difícil respon-                                                                   mente estéril.
         der ao que nos induz Kierkegaard na
                                                                 abandonar seu caminho                                 Neste sentido, tanto Kierkegaard
         primeira pessoa do plural. Por isso                                                                       como Marx são modelos de intelectu-
         direi apenas ao que induz a mim.
                                                                 teórico com o objetivo                            ais que expressam a necessidade de vi-
         Acredito que o “subjetivismo” da fi-                                                                      ver de maneira comprometida. Pode-
         losofia kierkegaardiana, quer dizer,
                                                                  de formular o próprio                            mos inclusive pensá-los como autores
         seu acento na compreensão do ho-                                                                          complementares. Enquanto Kierkega-
         mem como uma espécie de “animal”
                                                                             caminho”                              ard nos exige um compromisso indivi-
         que “valora”, pode servir de inspira-                                                                     dual e privado, seja com o divino ou
         ção para transformar o atual funcio-                   lução socialista. Em certo sentido, me             com o demoníaco, ou para dizê-lo com
         namento da política. O descrédito                      vejo inclinada a dar-lhe razão.                    Nietzsche, que elejamos o bem ou o
         no qual tem caído a participação po-                                                                      mal, o compromisso ao qual nos pro-
         lítica tradicional obedece a distintos                 IHU On-Line - Como você analisa as                 põe Marx possui um sentido político
         fatores; não obstante, disso não se                    trajetórias pessoais de Kierkegaard e              social, ou bem nos identificamos
         deduz a “morte” do político, mas a                     Marx e os impactos que estas (a bio-              com os valores da burguesia, ou bem
         necessidade de sua “ressurreição”.                     grafia) tiveram em suas filosofias?                com os do proletariado.
         Neste sentido, a América Latina ocu-                   Patricia Carina Dip - Em termos ge-
         pa um papel certamente privilegia-                     rais sou inimiga das biografias. Es-               IHU On-Line - Pensando no aspecto
         do, especialmente quando muitos                        pecialmente do abuso em torno de                   do indivíduo, como entende a con-
         intelectuais do primeiro mundo eu-                     sua utilização de que têm sido ob-                   David Hume (1711-1776): filósofo e histo-
         ropeu tentaram convencer-nos de                        jeto os leitores de Kierkegaard. Não                riador escocês, que com Adam Smith e Tho-
         que havíamos ingressado na “pós-                       tem sentido tentar fundamentar o                    mas Reid, é uma das figuras mais importantes
         modernidade ou no pós-marxismo”.                                                                           do chamado Iluminismo escocês. É visto, por
                                                                desenvolvimento de uma filosofia                    vezes, como o terceiro e o mais radical dos
         Ao contrário, creio que ainda não                      em aspectos relativos à vida íntima                 chamados empiristas britânicos. A filosofia de
         saímos da ilustração.                                  de quem a elabora. Um trauma in-                    Hume é famosa pelo seu profundo ceticismo.
             Neste sentido, considero funda-                                                                        Entre suas obras, merece destaque o Tratado
                                                                fantil não conduz necessariamente                   da natureza humana. (Nota da IHU On-Line)
         mental recuperar um dos elementos                      à formulação de uma filosofia exis-                  Friedrich Nietzsche (1844-1900): filósofo
         essenciais da atitude ilustrada, a sa-                 tencial, assim como tampouco a po-                  alemão, conhecido por seus conceitos além-do-
         ber, o “anticonformismo”. Acredito                                                                         homem, transvaloração dos valores, niilismo,
                                                                breza à teorização sobre a revolução                vontade de poder e eterno retorno. Entre suas
         que não devemos “conformar-nos”                        social. Este tipo de abordagem me                   obras figuram como as mais importantes Assim
         nem com leituras herdadas, nem com                     parece totalmente absurdo.                          falou Zaratustra (9. ed. Rio de Janeiro: Civi-
         visões de mundo e interpretações do                                                                        lização Brasileira, 1998), O anticristo (Lisboa:
                                                                   No entanto, acredito que há um                   Guimarães, 1916) e A genealogia da moral (5.
         político que procuram aquietar as ten-                 modo muito mais rico de pensar a re-                ed. São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até
         sões sociais que podem ser observadas                  lação entre a “vida” e a “obra”. Trata-             1888, quando foi acometido por um colapso
         no seio do capitalismo global.                                                                             nervoso que nunca o abandonou, até o dia de
                                                                se de observar até que ponto o autor                sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de
             Kierkegaard pode servir de porta-                    Karl Heinrich Marx (1818-1883): filósofo,        capa da edição número 127 da IHU On-Line,
         voz da necessidade de “interessar-se”                   cientista social, economista, historiador e re-    de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: filósofo
         pela existência do atual estado de coi-                 volucionário alemão, um dos pensadores que         do martelo e do crepúsculo, disponível para
                                                                 exerceram maior influência sobre o pensamen-       download em http://www.ihuonline.unisi-
         sas, no sentido de sermos capazes de                    to social e sobre os destinos da humanidade no     nos.br/uploads/edicoes/1158266308.88pdf.
         julgar o que sucede na história com                     século XX. Marx foi estudado no Ciclo de Estu-     pdf . Sobre o filósofo alemão, conferir ain-
         nossas próprias vozes. Na Crítica de                    dos Repensando os Clássicos da Economia. A         da a entrevista exclusiva realizada pela IHU
                                                                 edição número 41 dos Cadernos IHU Ideias, de       On-Line edição 175, de 10-04-2006, com o
         la Ilustración Agnes Heller diz que a                  autoria de Leda Maria Paulani tem como título      jesuíta cubano Emilio Brito, docente na Uni-
         alternativa é hoje “ou Kierkegaard, ou                  A (anti)filosofia de Karl Marx, disponível em      versidade de Louvain-La-Neuve, intitulada
         Marx”. Ela entende esta disjunção nos                   http://www.unisinos.br/ihu/uploads/publi-          “Nietzsche e Paulo”, disponível para down-
                                                                 cacoes/edicoes/1158330314.12pdf.pdf. Tam-          load em http://www.ihuonline.unisinos.br/
         termos de ou bem elegemos o existen-                    bém sobre o autor, confira a edição número         uploads/edicoes/1158346362.52pdf.pdf. A
         cialismo individualista, ou bem a revo-                 278 da IHU On-Line, de 20-10-2008, intitulada      edição 15 dos Cadernos IHU em formação é
                                                                 A financeirização do mundo e sua crise. Uma        intitulada O pensamento de Friedrich Nietzs-
                Agnes Heller (1929): filósofa húngara. Proe-    leitura a partir de Marx, disponível para do-      che, e pode ser acessada em http://www.ihu.
               minente pensadora marxista no princípio, con-     wnload em http://www.unisinos.br/ihuon-            unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/
               verteu-se a uma posição de cunho mais liberal     line/uploads/edicoes/1224527244.6963pdf.           1184009658.17pdf.pdf. (Nota da IHU On-
               e social-democrático. (Nota da IHU On-Line)       pdf. (Nota da IHU On-Line)                         Line)

                                                                                                  SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314


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traposição de suas filosofias, de Marx                                          mento do dinamarquês, o problema
         e Kierkegaard?
                                                       “Kierkegaard pode                 da angústia, pode ser tomado como
         Patricia Carina Dip - Existe uma ten-                                           chave para entender a vigência de
         dência habitual, baseada na leitura
                                                      servir de porta-voz                suas preocupações. Assim como as
         literal das declarações do próprio                                              condições históricas que Marx tinha
         Kierkegaard, que leva a apresentá-
                                                       da necessidade de                 in mente ainda permanecem, as pro-
         lo como o filósofo cuja categoria                                               blemáticas da “psicologia da angús-
         fundamental é a noção de indivíduo.
                                                      ‘interessar-se’ pela               tia” e a “ética da decisão” também.
         Embora de um ponto de vista filo-                                               A profundidade do legado kierke-
         lógico isto seja assim, é importante
                                                       existência do atual               gaardiano reside em certo grau de
         discutir que sentido tem a individu-                                            “universalidade” que possui seu dis-
         alidade para Kierkegaard. Durante
                                                      estado de coisas, no               curso para compreender os fenôme-
         certo tempo, acreditei que se tra-                                              nos psicológicos e morais.
         tava do indivíduo apenas preocupa-
                                                    sentido de ser capazes
         do por suas circunstâncias, mesmo                                               IHU On-Line - Quais são as principais
         quando fosse apresentado sob o cor-
                                                    de julgar o que sucede               chaves de leitura que esses pensado-
         retivo do “amor ao próximo”. Hoje                                               res nos fornecem para pensarmos a
         tendo a considerar que, se a postura
                                                    na história com nossas               alteridade na sociedade pós-metafí-
         kierkegaardiana não é revolucioná-                                              sica?
         ria, tampouco coincide plenamente
                                                         próprias vozes”                 Patricia Carina Dip - Em primeiro lu-
         com um mero reformismo. Inclino-                                                gar, o qualificativo “pós-metafísico”
         me a pensar que o caráter do indiví-     mais irrecuperável entre opressores    me parece complexo devido à infi-
         duo kierkegaardiano é “psicológico”;     e oprimidos, as condições históricas   nidade de alternativas que abarca.
         e entendido em chave contemporâ-         que se faziam necessárias para Marx    Tanto Heidegger como Nietzsche e
         nea acrescentaria que o modelo que       pensar o socialismo não foram mo-      o próprio Kierkegaard, entre outros,
         o dinamarquês apresenta para evitar      dificadas. Daí segue que ainda tem     foram críticos de um certo modo de
         a recaída deste na “alienação” é a       sentido trabalhar em prol da reali-    fazer metafísica. No entanto, isso
         praxis cristã do amor ao próximo.        zação de um futuro socialista. Com     não é suficiente para incluir todos
         Neste sentido, o dinamarquês não         isto quero dizer que as polêmicas      eles em um mesmo modelo teórico. A
         está longe do jovem Marx, também         em torno do fim das ideologias e a     ontologia fundamental, o niilismo e
         preocupado por resolver o problema       construção de democracias liberais     o cristianismo não podem ser identi-
         da alienação própria da sociedade        me parecem parte de um programa        ficados, simplesmente. Em segundo
         capitalista. Em termos gerais, diria     teórico político que não comparti-     lugar, não acredito que seja possível
         que enquanto Kierkegaard descre-         lho e que denuncio como “tenden-       defender a vigência da filosofia sem
         ve a alienação “psicológica” da so-      ciosas”.                               assumir algum modo, mais ou menos
         ciedade burguesa, Marx descreve a            Neste contexto, Marx se torna      crítico, de entender a metafísica.
         alienação “social”. Ambos diagnos-       mais atual do que nunca. Em algu-      Por último, me parece importante
         ticam que o mal do mundo burguês         mas universidades latino-america-      discutir a assunção de certas modas
         é a alienação. A diferença reside na     nas, reaparece a necessidade de re-      Martin Heidegger (1889-1976): filósofo
         perspectiva da análise que cada um                                               alemão. Sua obra máxima é O ser e o tempo
                                                  pensar o legado marxista, e isso me     (1927). A problemática heideggeriana é am-
         assume. Esta diferença, não obstan-      parece muito importante, ainda que      pliada em Que é Metafísica? (1929), Cartas
         te, é fundamental, posto que dela        insuficiente. Só poderemos avaliar      sobre o humanismo (1947), Introdução à meta-
         se deduzem distintas filosofias. A fi-                                           física (1953). Sobre Heidegger, a IHU On-Line
                                                  até que ponto o marxismo se atua-       publicou na edição 139, de 2-05-2005, o artigo
         losofia kierkegaardiana que se cen-      lizou quando o modelo de produção       O pensamento jurídico-político de Heidegger e
         tra na descrição de fenômenos psi-       capitalista tiver esgotado. Este es-    Carl Schmitt. A fascinação por noções fundado-
         cológicos e a filosofia marxiana que                                             ras do nazismo, disponível para download em
                                                  gotamento não é automático, mas         http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/
         descobre um novo modo de pensar a        depende de que os sujeitos históri-     edicoes/1158268163.69pdf.pdf. Sobre Heideg-
         história.                                cos estejam dispostos a revitalizar     ger, confira as edições 185, de 19-06-2006, inti-
                                                                                          tulada O século de Heidegger, disponível para
                                                  a luta de classes. De modo que, em      download em http://www.ihuonline.unisinos.
         IHU On-Line - Qual é a atualidade da     última instância, a atualidade do       br/uploads/edicoes/1158344730.57pdf.pdf,
         crítica de Kierkegaard e Marx para o     marxismo só poderá ser determinada      e 187, de 3-07-2006, intitulada Ser e tempo.
         pensamento continental?                                                          A desconstrução da metafísica, que pode ser
                                                  pela história.                          acessado em http://www.ihuonline.unisinos.
         Patricia Carina Dip - Levando em             Pois bem, a atualidade de Marx      br/uploads/edicoes/1158344314.18pdf.pdf.
         conta que considero a “globaliza-        não exclui a de Kierkegaard. Neste      Confira, ainda, o nº 12 do Cadernos IHU Em
         ção” como o modo no qual o capita-                                               Formação intitulado Martin Heidegger. A des-
                                                  ponto me parece que a análise de        construção da metafísica, que pode ser aces-
         lismo se expressa hoje, produzindo       Agnes Heller merece ser repensada.      sado em http://www.ihu.unisinos.br/uploads/
         e justificando um fosso cada vez         Um dos temas mais caros ao pensa-       publicacoes/edicoes/1175210604.13pdf.pdf.
                                                                                          (Nota da IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                

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filosóficas que a maioria das vezes
         nos impedem de pensar.
             Dito isto, acredito que em Kierke-
         gaard aparece a preeminência do
         ético por sobre o metafísico, da qual
         é devedor Levinas.  Neste contexto,
         a ética cristã do amor ao próximo
         permite, ainda que o dinamarquês
                                                           O indivíduo como ponto inicial
         se ocupe de pensar o eu antes que
         ao outro, retirar derivações impor-               na filosofia kierkegaardiana
         tantes para quem esteja interessado
         em formular uma “filosofia da alte-               Hannah Arendt compreendeu o uso estratégico dos pseudôni-
         ridade”. Apesar de que o ponto de
         partida de Kierkegaard é o eu, sua
                                                           mos do filósofo dinamarquês, e não o considerava individualis-
         filosofia pode ser entendida como                 ta ou enclausurado, menciona Marcio Gimenes de Paula. Ela O
         um aporte ético para os que dese-                 tinha como um dos mestres da suspeita, que toma o indivíduo
         jam defender uma verdadeira alte-
         ridade, e não apenas pronunciar um
                                                           como ponto de partida
         discurso “politicamente correto”
         sobre a diferença e a tolerância,                 Por Márcia Junges e Jasson Martins
         porém “praticamente” estéril. Este




                                                           N
         aporte reside em compreender a
         singular presença do outro como um                             em individualista, nem enclausurado. Para Hannah Arendt, Kierke-
         imperativo moral. Neste sentido, o                             gaard valia-se de pseudônimos estrategicamente, e “sua posição
         dinamarquês nos obriga a atuar ain-                            de defesa do indivíduo não pode ser vista meramente como re-
         da quando não possamos formular                                acionária, mas antes como uma defesa diante da massificação,
         uma “filosofia da alteridade” pro-
                                                                        inclusive daquela operada pelos movimentos esquerdistas”. A ex-
         priamente dita.
                                                           plicação é do filósofo Marcio Gimenes de Paula na entrevista que concedeu,
             No que a elaboração de uma tal
         filosofia diz respeito, acredito que é            com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line. Ao lado de Nietzsche e Marx,
         iminente sua necessidade. Una aná-                Arendt coloca Kierkegaard, e não Freud, como um dos mestres da suspeita.
         lise clara sobre as exigências da mes-            O indivíduo em Kierkegaard deve ser compreendido como ponto inicial de sua
         ma nos conduziria a uma crítica do                filosofia, pontua Marcio. Outro tema discutido na entrevista é a questão da
         discurso pós-moderno sobre a “dife-               secularização na obra dos dois pensadores. Arendt entende-a como “momento
         rença”. Na formulação desta crítica,              onde os homens param de olhar para os céus e começam a preparar, a partir da
         o marxismo poderia ocupar um papel                sua condição dada, uma sociedade produzida por eles próprios. Nesse sentido,
         fundamental na hora de descrever o                a política é, por si só, secularizante”. Por outro lado, para Kierkegaard, “des-
         sentido ideológico do programa teó-               crente de sistemas e crítico da cristandade, a secularização é o ponto onde
         rico da filosofia da diferença. O antí-           a humanidade vai inevitavelmente desembocar, pois depois da racionalização
         doto contra a ideologia que pretende
                                                           teológica, da massificação do homem e do tempo dos sistemas, tudo será ex-
         ser inclusiva “na teoria” aceitando,
                                                           plicado e resultará em produto da mão humana”.
         não obstante, a exclusão na “práti-
         ca” ser constituída pela “filosofia da                Marcio Gimenes de Paula é graduado em Teologia pelo Seminário Teoló-
         praxis”.                                          gico Presbiteriano Independente. Cursou graduação, mestrado e doutorado
                                                           em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Atualmen-
                                                           te, é professor adjunto II do departamento de Filosofia da Universidade Fe-
                                                           deral de Sergipe - UFS, pesquisador da FAPITEC-SE, membro da Sociedade
            Emmanuel Lévinas (1906-1995): filósofo e      Brasileira de Estudos de Kierkegaard (Sobreski), da Sociedade Brasileira de
           comentador talmúdico lituano, naturaliza-       Filosofia da Religião, do Grupo de Pesquisa em Ciências da Religião da UFS,
           do francês. Foi aluno de Husserl e conheceu
           Heidegger, cuja obra Ser e tempo o influen-     do Grupo de pesquisa sobre a obra de Kierkegaard da CNPq, e da Sociedade
           ciou muito. “A ética precede a ontologia” é     Feuerbach Internacional. Suas pesquisas versam sobre Filosofia da Religião,
           uma frase que caracteriza seu pensamento.
           Escreveu, entre outros, Totalidade e Infinito   Ética, Kierkegaard e cristianismo. Publicou recentemente o livro Indivíduo
           (Lisboa: Edições 70, 2000). Sobre o filósofo,   e comunidade na filosofia de Kierkegaard (São Paulo: Paulus, 2009). Na Jor-
           conferir a edição número 277 da IHU On-Line,
           de 14-10-2008, intitulada Lévinas e a majes-    nada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard, em 12 de novembro,
           tade do Outro, disponível para download em      apresentará a comunicação “A temática da secularização: Hannah Arendt,
           http://www.unisinos.br/ihuonline/uploads/
           edicoes/1224014804.3462pdf.pdf. (Nota da
                                                           leitora de Kierkegaard”. Confira a entrevista.
           IHU On-Line).

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IHU On-Line - Quais são os pontos de                                                           um sintoma de que ninguém acredita
         contato entre o tema da seculariza-
                                                                  “Mesmo quando o                       no ato em si, mas espera a legitimação
         ção entre Arendt e Kierkegaard?                                                               do mesmo na multidão.
         Marcio Gimenes de Paula - A temática
                                                               critica, Sócrates segue
         da secularização é bastante ampla e,                                                           IHU On-Line - Como percebe os con-
         a rigor, pode ser vista desde os primór-
                                                              sendo a referência para                   ceitos de indivíduo e comunidade
         dios do cristianismo. Ora ela parece se                                                        partindo da obra desse autor?
         configurar com uma total ruptura dos
                                                             um tempo que se perdeu                     Marcio Gimenes de Paula - Kierkega-
         conteúdos da fé e, em outros momen-                                                            ard é um filósofo que possui um pro-
         tos, parece até ser um complemento
                                                              em ilusões sistemáticas                   fundo apreço por dois grandes perso-
         da fé ou um aprofundamento dos seus                                                            nagens célebres da subjetividade. O
         conteúdos. Na obra de Hannah Aren-
                                                                que parecem já tudo                     primeiro é Sócrates. O autor dinamar-
         dt, pensadora política por excelência,                                                         quês devota seus esforços a entender
         penso que o ponto central se encontra
                                                                  saber. Sócrates é o                   a filosofia socrática e sua afirmação
         exatamente na política. Em outras pa-                                                          pelo indivíduo. Mesmo quando o criti-
         lavras, para a pensadora a seculariza-
                                                                  antídoto, o médico                    ca, Sócrates segue sendo a referência
         ção é vista como o momento onde os                                                             para um tempo que se perdeu em ilu-
         homens param de olhar para os céus e
                                                              que aconselha o vômito                    sões sistemáticas que parecem já tudo
         começam a preparar, a partir da sua                                                            saber. Sócrates é o antídoto, o médico
         condição dada, uma sociedade produ-
                                                                 em meio ao excesso                     que aconselha o vômito em meio ao
         zida por eles próprios. Nesse sentido, a                                                       excesso de comilança. Por isso é que,
         política é, por si só, secularizante. Já
                                                                     de comilança”                      não fortuitamente, ele será o modelo
         para Kierkegaard, pensador do século                                                           de toda a obra do autor até mesmo na
         XIX, descrente de sistemas e crítico da             guindo a esteira agostiniana, é severo     crítica à Igreja oficial, já no final de
         cristandade, a secularização é o ponto              crítico do processo de secularização.      sua produção.
         onde a humanidade vai inevitavelmen-                Arendt parece ser sua observadora e            Já Cristo é a figura do mistério. Ele
         te desembocar, pois depois da raciona-              admiradora, mas ambos enxergam             é aquele que preferia falar com cada
         lização teológica, da massificação do               o indivíduo perdido no meio de tudo        indivíduo ao invés de ser legitimado
         homem e do tempo dos sistemas, tudo                 isso. Talvez esse seja o ponto de con-     pela massa, pela multidão. Contudo,
         será explicado e resultará em produ-                tato entre ambos os pensadores.            Kierkegaard compreende Cristo tam-
         to da mão humana. Kierkegaard, se-                                                             bém como Deus, como aquele capaz de
                                                             IHU On-Line - Qual é a atualidade da       trazer a salvação para cada indivíduo.
            Hannah Arendt (1906-1975): filósofa e soció-    secularização em Kierkegaard para
           loga alemã, de origem judaica. Foi influenciada
           por Husserl, Heidegger e Karl Jaspers. Em con-
                                                             discutirmos o indivíduo em nossos          IHU On-Line - Atualmente, o que é o
           sequência das perseguições nazistas, em 1941,     dias?                                      indivíduo numa sociedade seculari-
           partiu para os EUA, onde escreveu grande          Marcio Gimenes de Paula - Antes de         zada e pós-metafísica?
           parte das suas obras. Lecionou nas principais
           universidades deste país. Sua filosofia assenta
                                                             mais nada, parece que nunca é demais       Marcio Gimenes de Paula - Confesso
           numa crítica à sociedade de massas e à sua        lembrar que Kierkegaard sempre sepa-       que não sei muito bem o que dizemos
           tendência para atomizar os indivíduos. Preco-     rou claramente indivíduo de individu-      quando afirmamos viver numa socie-
           niza um regresso a uma concepção política se-
           parada da esfera econômica, tendo como mo-
                                                             alismo. O indivíduo, na era dos siste-     dade secularizada. É bem verdade
           delo de inspiração a antiga cidade grega. Entre   mas filosóficos e de uma cristandade       que, especialmente depois do século
           suas obras, citamos: Eichmann em Jerusalém        massificadora, como foi o tempo do         XIX, a política como produto dos ho-
           - Uma reportagem sobre a banalidade do mal
           (Lisboa: Tenacitas. 2004) e O Sistema Totali-
                                                             autor dinamarquês, parece ter sido so-     mens constrói – para o bem ou para o
           tário (Lisboa: Publicações Dom Quixote.1978).     terrado por uma avalanche promovida        mal – o mundo ao seu redor. Contudo,
           Sobre Arendt, confira as edições 168 da IHU       ora pelo Estado, ora pela Igreja e até     a secularização não deixa de ter nun-
           On-Line, de 12-12- 2005, sob o título Hannah
           Arendt, Simone Weil e Edith Stein. Três mu-
                                                             pelas universidades. Restava, seguin-      ca um pouco de religioso, e a prova
           lheres que marcaram o século XX, disponível       do a pista socrática e cristã, recuperar   disso é a situação em que vivemos no
           para download em http://www.ihuonline.uni-        este indivíduo único e indivisível, áto-   mundo todo e, em especial, no Brasil.
           sinos.br/uploads/edicoes/1158348701.54pdf.
           pdf e a edição 206, de 27-11-2006, intitulada
                                                             mo e, se quisermos pensar aqui mais        Estão aí os muitos fundamentalismos,
           O mundo moderno é o mundo sem política.           teologicamente, imago Dei. Hoje nos-       as casas legislativas cheias de sinais
           Hannah Arendt 1906-1975, disponível para          sa situação não parece tão diferente.      religiosos e os governos, como o caso
           download em http://www.ihuonline.unisinos.
           br/uploads/edicoes/1164656401.35pdf.pdf .
                                                             Temos um individualismo doentio e          do governo brasileiro, assinando acor-
           Nas Notícias do Dia de 01-12-2006 você confe-     seguimos a ter os indivíduos sufocados     dos que parecem ameaçar seriamen-
           re a entrevista Um pensamento e uma presen-       pelas mais diversas instituições e pres-   te a laicidade do Estado. Assim, pen-
           ça provocativos, concedida com exclusividade
           por Michelle-Irène Brudny em 01-12-2006, dis-
                                                             sões. Quando alguém vai até um culto
           ponível para download em http://www.ihu.          qualquer e se sente feliz por estar na       Sócrates (470 a. C. – 399 a. C. ): filósofo
           unisinos.br/index.php?option=com_noticias        companhia de milhares de pessoas no         ateniense e um dos mais importantes ícones
           Itemid=18task=detalheid=2050. (Nota da                                                      da tradição filosófica ocidental. (Nota da IHU
           IHU On-Line)
                                                             ato de louvor, isso nada mais é do que      On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                            11

flash.indd 11                                                                                                                                   9/11/2009 18:38:12
so que o indivíduo numa sociedade                  to bem que o uso que Kierkegaard                 sobre ele, escrevendo sobre ele,
         secularizada e pós-metafísica (o que               fazia dos pseudônimos era estraté-               organizando congressos, dando en-
         também me parece confuso, mesmo                    gico e que, além disso, sua posição              trevistas. Numa era massificada,
         com as explicações perspicazes do                  de defesa do indivíduo não pode ser              com instituições tão rígidas, penso
         professor Gianni Vattimo) ainda se                vista meramente como reacionária,                que é fundamental a redescoberta
         encontra em suspenso, entre a des-                 mas antes como uma defesa diante                 do indivíduo e a ironia como instân-
         crença e o pavor, entre o medo e a                 da massificação, inclusive daquela               cias significativas, lugares de onde
         desconfiança.                                      operada pelos movimentos esquer-                 a vida deveria partir. O indivíduo
                                                            distas. Arendt o coloca, em sua obra             não é o ponto fundamental na filo-
         IHU On-Line - Como Arendt, enquan-                 Entre o passado e o futuro, como                 sofia de Kierkegaard, mas é talvez o
         to filósofa política, lê Kierkegaard,              um dos mestres da suspeita, junta-               ponto inicial. Por isso, sua influên-
         um filósofo tido como individualista               mente com Nietzsche e Marx, isto é,              cia é tão significativa em pensando-
         e que escrevia recluso em um “cas-                 ela contraria a tradicional divisão e            res tão distintos como Paul Tillich,
         telo”, sob pseudônimos?                            o coloca no lugar de Freud. Não pa-              Karl Barth, Lacan, Wittgenstein,
         Marcio Gimenes de Paula - Penso                    rece pouca coisa para quem atentar                 Paul Tillich (1886-1965): teólogo alemão,
         que Arendt tinha grande apreço por                 ao detalhe.                                       que viveu quase toda a sua vida nos EUA. Foi
                                                                                                              um dos maiores teólogos protestantes do sécu-
         Kierkegaard e não o considerava um                                                                   lo XX e autor de uma importante obra. Entre
         pensador individualista ou enclausu-               IHU On-Line - Nesse sentido, como                 os livros traduzidos em português, pode ser
         rado. Segundo avalio, ela sabia mui-               você percebe a contraposição entre                consultado Coragem de Ser (6ª ed. Editora Paz
                                                                                                              e Terra, 2001) e Amor, Poder e Justiça (Edi-
            Gianni Vattimo (1936): filósofo italiano,
                                                            as filosofias de Kierkegaard e Marx?              tora Cristã Novo Século, 2004). (Nota da IHU
           internacionalmente conhecido pelo conceito       Marcio Gimenes de Paula - Creio que               On-Line)
           de “pensamento fraco”. Concedeu diversas         Karl Löwith, no seu clássico De Hegel             Karl Barth (1886-1968): teólogo cristão-pro-
           entrevistas à IHU On-Line. A primeira delas                                                        testante, pastor da Igreja Reformada, e um
           foi publicada na 88ª edição, de 15-12-2003,
                                                            a Nietzsche, aborda muito bem essa                dos líderes da teologia dialética e da neo-orto-
           disponível em http://www.ihuonline.unisinos.     questão. Para ele, Kierkegaard é um               doxia protestante. (Nota da IHU On-Line)
           br/uploads/edicoes/1161200490.17pdf.pdf, a       típico pós-hegeliano e, como tal, se               Jacques Lacan (1901-1981): psicanalista
           segunda na 128ª edição, de 20-12-2004, dis-                                                        francês. Realizou uma releitura do trabalho de
           ponível em http://www.ihuonline.unisinos.
                                                            encontra numa esteira de pensado-                 Freud, mas acabou por eliminar vários elemen-
           br/uploads/edicoes/1158266406.14pdf.pdf,         res que caminham entre a religião,                tos deste autor (descartando os impulsos sexu-
           a terceira saiu na edição 161, de 24-10-2005,    a literatura e a política. Contudo,               ais e de agressividade, por exemplo). Para La-
           quando conversou pessoalmente com a IHU On-                                                        can, o inconsciente determina a consciência,
           Line, no Hotel Intercity, em Porto Alegre, no
                                                            talvez Löwith tenha cometido um                   mas este é apenas uma estrutura vazia e sem
           dia 18 de outubro daquele ano, às vésperas de    dado exagero ao colocar Kierkegaard               conteúdo. Confira a edição 267 da Revista IHU
           proferir sua conferência no evento Metamor-      no mesmo grau de contestação de                   On-Line, de 04-08-2008, intitulada A função
           foses da cultura contemporânea. Esse material                                                      do pai, hoje. Uma leitura de Lacan, disponível
           esta disponível em http://www.ihuonline.uni-
                                                            Marx. O autor dinamarquês parece                  em http://www.unisinos.br/ihuonline/uplo-
           sinos.br/uploads/edicoes/1158347724.5pdf.        apontar claramente para um plano                  ads/edicoes/1217878435.7423pdf.pdf. Sobre
           pdf. Também contribuiu na IHU On-Line nº         transcendente e sua política parece               Lacan, confira, ainda, as seguintes edições
           187, de 03-07-2006, com a entrevista O na-                                                         da revista IHU On-Line, produzidas tendo em
           zismo e o “erro” filosófico de Heidegger, dis-
                                                            defender tal ponto o que, por si só,              vista o Colóquio Internacional A ética da psi-
           ponível em http://www.ihuonline.unisinos.        parece descaracterizar uma propos-                canálise: Lacan estaria justificado em dizer
           br/uploads/edicoes/1158344314.18pdf.pdf.         ta política, embora tenha importan-               “não cedas de teu desejo”? [ne cède pas sur
           Concedeu, também, a entrevista Liberdade.                                                          ton désir]?, realizado em 14 e 15 de agosto de
           Uma herança do cristianismo, publicada na
                                                            tes contribuições para uma ética de               2009: edição 298, de 22-06-2009, intitulada De-
           edição número 287, de 30 de março de 2009,       fundo cristão e seja também impor-                sejo e violência, disponível para download em
           disponível em http://www.ihuonline.unisinos.     tante para a alteridade. Marx parece              http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/
           br/uploads/edicoes/1238442393.0578pdf.                                                             edicoes/1245697518.4536pdf.pdf e 303, e edi-
           pdf. Dele também publicamos uma entrevis-
                                                            romper com tal coisa, e sua proposta              ção 303, de 10-08-2009, intitulada A ética da
           ta na 121ª edição, de 1º-11-2004, disponível     é claramente fundamentada no cam-                 psicanálise. Lacan estaria justificado em dizer
           em http://www.ihuonline.unisinos.br/uplo-        po da imanência, na tentativa de al-              “não cedas de teu desejo”?, disponível para
           ads/edicoes/1158265679.78pdf.pdf, um ar-                                                           download em http://www.ihuonline.unisinos.
           tigo na edição 53, de 31-03-2003, disponível
                                                            cançar a verdade pelos seus próprios              br/uploads/edicoes/1249936179.2884pdf.pdf.
           em http://www.ihuonline.unisinos.br/uplo-        esforços. Aqui penso que há uma di-               (Nota da IHU On-Line)
           ads/edicoes/1161289549.27pdf.pdf, e outro        ferença fundamental entre ambos.                   Ludwig Wittgenstein (1889-1951): filósofo
                                                                                                                                                       ���������
           no número 80, de 20-10-2003, disponível em                                                         austríaco, considerado um dos maiores do sé-
           http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/                                                          culo XX, tendo contribuido com diversas inova-
           edicoes/1161201820.79pdf.pdf. A editoria Li-     IHU On-Line - Qual é a atualidade de              ções nos campos da lógica, filosofia da lingua-
           vro da Semana, na edição 149, de 1º-08-2005,     Kierkegaard no contexto do pensa-                 gem, epistemologia, dentre outros campos. A
           abordou a obra The future of religion, escrita                                                     maior parte de seus escritos foi publicada pos-
           por Vattimo, Richard Rorty e Santiago Zabala,
                                                            mento filosófico contemporâneo?                   tumamente, mas seu primeiro livro foi publi-
           disponível em http://www.ihuonline.unisinos.     Marcio Gimenes de Paula - A atu-                  cado em vida: Tractatus Logico-Philosophicus,
           br/uploads/edicoes/1158344558.62pdf.pdf.         alidade de Kierkegaard parece se                  em 1921. Os primeiros trabalhos de Wittgens-
           De sua produção intelectual, destacamos Más                                                        tein foram marcados pelas idéias de Arthur
           allá de la interpretación. (Barcelona: Paidós,
                                                            provar, entre outras tantas coisas,               Schopenhauer, assim como pelos novos siste-
           1995); O fim da modernidade: niilismo e her-     por estarmos ainda hoje falando                   mas de lógica idealizados por Bertrand Russel
           menêutica na cultura pós-moderna (São Paulo:                                                       e Gottllob Frege. Quando o Tractatus foi publi-
           Martins Fontes, 1996); Introdução a Heidegger     0 Karl Löwith (1897-1973): filósofo alemão.     cado, influenciou profundamente o Círculo de
           (Lisboa: Instituto Piaget, 1998) e Diálogo con    Sua obra mais famosa é Von Hegel zu Nietzsche    Viena e seu positivismo lógico (ou empirismo
           Nietzsche: Ensayos 1961-2000 (Barcelona: Pai-     (Stuttgart, Kohlhammer, 1958). (Nota da IHU      lógico). Confira na edição 308 da IHU On-Line,
           dós, 2002). (Nota da IHU On-Line)                 On-Line)                                         de 14-09-2009, a entrevista O silêncio e a ex-

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Heidegger, Jaspers, Sartre,10 Levinas,
         Hannah Arendt e tantos outros. Creio
         que muito mais do que ser kierke-
         gaardiano, o desafio é pensar com
         e contra Kierkegaard quando neces-
                                                                 Kierkegaard e Schopenhauer.
         sário for. Compreendê-lo como uma
         perspectiva por onde se faz filosofia.                  Proximidades e rupturas
         Penso que isso dá muito mais alegria
         e sabor ao jogo.                                        Música e tragédia são as formas mais belas de compreensão
                                                                 até mesmo do Absoluto. Kierkegaard eleva a arte como aspi-
                                                                 ração máxima do ser, explica Deyve Redyson Melo dos Santos.
                                                                 Rupturas se apresentam ao longo de suas obras

                 Leia   mais...
                                                                 Por Márcia Junges e Jasson Martins  Tradução Jasson Martins
                                                                                                    |
                     Marcio Gimenes de Paula já concedeu




                                                                 N
                 outra entrevista à IHU On-Line. Ela está dis-
                ponível na página eletrônica do IHU (www.ihu.
                unisinos.br)                                                  atureza, arte, música são pontos que aproximam as filosofias de
                • Lutero, pai da modernidade, visto por Niet-                 Søren Kierkegaard e Arthur Schopenhauer. A distância entre os
                zsche. Entrevista publicada na edição 280 da
                Revista IHU On-Line, de 03-11-2008, disponível                pensadores se dá na maneira como veem Deus e compreendem
                no endereço http://www.ihuonline.unisinos.br/                 alguns conceitos, além da percepção da existência, explica o
                index.php?option=com_tema_capaItemid=23t
                ask=detalheid=1405.                                          teólogo e filósofo Deyve Redyson Melo dos Santos em entrevista
                                                                 por e-mail à IHU On-Line. “Quando Schopenhauer inicia sua obra O Mundo
                                                                 como vontade e como representação, afirmando que O mundo é minha re-
           periência do inefável em Wittgenstein, com            presentação, ele fundamenta o caráter objetivista de sua teoria e, de forma
           Luigi Perissinotto, disponível para download
           em http://www.ihuonline.unisinos.br/index.            uníssona, se liga a Kierkegaard quando este pensa que o universo é dotado de
           php?option=com_tema_capaItemid=23task=              grandes características, e uma delas é a vontade”, assinala. Deyve acentua
           detalheid=1810. (Nota da IHU On-Line).
            Karl Jaspers (1883-1969): filósofo existencia-      que a arte, para Schopenhauer, como a música e a tragédia, “são as mais
           lista alemão. Acreditava que a filosofia não é        belas formas de se compreender até mesmo o absoluto. Kierkegaard, em seu
           um conjunto de doutrinas, mas uma atividade
           por meio da qual cada indivíduo pode se cons-
                                                                 ensaio sobre o belo musical, também eleva a arte como a aspiração máxima
           cientizar da natureza de sua própria existência.      do ser. As rupturas estão inseridas no contexto de suas obras, a identificação
           Escreveu vários livros sobre os grandes filósofos     do ideal de arte ou da arte ideal, da beleza e de suas formas, da interpre-
           do passado. Escreveu Filosofia (1932), O alcan-
           ce perene da filosofia (1948) e O caminho para        tação do gênio e do artista e, por fim, de toda uma série de conceitos que
           a sabedoria (1949). Jaspers começou a ensinar         encontramos no conjunto de suas obras”.
           Psiquiatria na universidade de Heidelberg em
           1913 e se tornou professor de Filosofia em Hei-          Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual Vale do Aracajú (UVA-CE)
           delberg, em 1921. Em 1948, passou a ensinar           e em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), é mestre
           Filosofia na universidade de Basiléia, na Suíça.
           Sobre ele, conferir um artigo intitulado Imagi-       em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e doutor em Filosofia
           nar a paz ou sonhá-la?, publicado na IHU On-          pela Universidade de Oslo, na Noruega. Deyve é professor adjunto da Univer-
           Line 49ª edição, de 24-02-2003, disponível para
           download em http://www.ihuonline.unisinos.
                                                                 sidade Federal da Paraíba - UFPB. Pesquisa na área de Filosofia da Religião
           br/uploads/edicoes/1161289883.57pdf.pdf e             com ênfase em Schopenhauer, Feuerbach, Kierkegaard, Nietzsche, Cioran e
           uma entrevista na 50ª edição, de 10-03-2003,          Idealismo Alemão. Escreveu, entre outros, Dossiê Schopenhauer (São Paulo:
           disponível em http://www.ihuonline.unisinos.
           br/uploads/edicoes/1161289805.13pdf.pdf.              Universo dos Livros, 2009) e A Filosofia de Søren Kierkegaard (Recife: Elógica,
           (Nota da IHU On-Line)                                 2004). Membro do Grupo de Pesquisa sobre a obra de Kierkegaard (CNPq), é o
           10 Jean-Paul Sartre (1905-1980): filósofo exis-
           tencialista francês. Escreveu obras teóricas, ro-     atual presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Kierkegaard (Sobreski).
           mances, peças teatrais e contos. Seu primeiro         Confira a entrevista.
           romance foi A náusea (1938), e seu principal
           trabalho filosófico é O ser e o nada (1943). Sar-
           tre define o existencialismo em seu ensaio O
           existencialismo é um humanismo, como a dou-           IHU On-Line - Quais são os pontos de            Deyve Melo dos Santos - A vontade
           trina na qual, para o homem, “a existência pre-       contato entre liberdade e vontade               para Schopenhauer será um dos pon-
           cede a essência”. Na Crítica da razão dialética
           (1964), Sartre apresenta suas teorias políticas e     em Kierkegaard e Schopenhauer?                 tos principais de sua concepção de fi-
           sociológicas. Aplicou suas teorias psicanalíticas        Arthur Schopenhauer (1788-1860): filósofo   losofia. Para ele, a vontade é a coisa
           nas biografias Baudelaire (1947) e Saint Genet          alemão. Sua obra principal é O mundo como       introduziu o budismo e a filosofia indiana na
           (1953). As palavras (1963) é a primeira parte de        vontade e representação, embora o seu livro     metafísica alemã. Schopenhauer, entretan-
           sua autobiografia. Em 1964, foi escolhido para o        Parerga e Paraliponema (1815) seja o mais       to, ficou conhecido por seu pessimismo e
           prêmio Nobel de literatura, que recusou. (Nota          conhecido. Friedrich Nietzsche foi grande-      entendia o budismo como uma confirmação
           da IHU On-Line)                                         mente influenciado por Schopenhauer, que        dessa visão. (Nota da IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                                     13

flash.indd 13                                                                                                                                            9/11/2009 18:38:13
em si kantiana, e esta é a resposta que                                              leva a entender que este mundo é um
         nenhum pensador conseguiu alcançar. Já
                                                         “A preocupação de                    mundo de sentidos.
         a liberdade é o caminho para o encon-
         tro de si mesmo, isto é, Schopenhauer
                                                        Kierkegaard é com a                   IHU On-Line - Qual é a diferença en-
         entende a liberdade como a ação pri-                                                 tre a crítica que fazem a Hegel?
         mordial que fará do homem um ser que
                                                       instituição estatal que                Deyve Melo dos Santos - Schopenhauer
         possa interagir com o mundo, com as                                                  é acusado de fazer muitos insultos a
         coisas e com os seres. Interessante é
                                                        quer fazer toda uma                   Hegel, Schelling, Fichte. É verdade.
         pensar essas duas teorias juntamente                                                 Schopenhauer afirma que Hegel é um
         com o pensamento de Kierkegaard, que
                                                       nação cristã e luta em                 filosofastro, um charlatão e várias coi-
         tinha em Schopenhauer um exemplo de                                                  sas mais. Também podemos encontrar
         pensador, que elabora as categorias da
                                                     busca de uma verdadeira                  críticas bem formuladas com relação ao
         filosofia e se põe a respondê-las. Ainda                                             sistema da ciência de Hegel, que somen-
         existe muita coisa a ser dita sobre a re-
                                                             concepção de                     te encontra espaço no absoluto. A crítica
         lação do pensamento de Schopenhauer                                                  de Schopenhauer a Hegel está central-
         e Kierkegaard, seja sobre a natureza,
                                                              cristandade.                    mente localizada na ideia do absoluto e
         sobre a arte, sobre a música. Eles estão                                             na forma com que esse absoluto chega
         bastante próximos um do outro.
                                                      Schopenhauer condena                    no sistema hegeliano. A típica pergunta

         IHU On-Line - Não existe um antago-
                                                            toda e qualquer                     Friedrich Hegel (1770-1831): filósofo ale-
                                                                                               mão idealista. Como Aristóteles e Santo Tomás
                                                                                               de Aquino, tentou desenvolver um sistema fi-
         nismo entre liberdade e vontade?
         Deyve Melo dos Santos - Existe, e o
                                                        formulação de fé que                   losófico no qual estivessem integradas todas
                                                                                               as contribuições de seus principais predeces-
         fato deste antagonismo existir faz com                                                sores. Sua primeira obra, A fenomenologia do
         que tanto em Schopenhauer como em
                                                         seja baseada numa                     espírito, tornou-se a favorita dos hegelianos
                                                                                               da Europa continental no séc. XX. Sobre Hegel,
         Kierkegaard vejamos quais os ques-
         tionamentos que hoje podemos fazer
                                                     pretensa vida em dogmas                   confira a edição especial nº 217 de 30-04-2007,
                                                                                               intitulada Fenomenologia do espírito, de Ge-
                                                                                               org Wilhelm Friedrich Hegel (1807-2007), em
         perante os conceitos de liberdade
         e vontade, se somos livres no pen-
                                                       e obrigações para com                   comemoração aos 200 anos de lançamento
                                                                                               dessa obra. O material está disponível em
         sar, ou se nossa vontade é condição                                                   http://www.unisinos.br/ihuonline/uploads/
         de podermos ser quem somos. Penso
                                                                 o divino”                     edicoes/1177963119.41pdf.pdf. Sobre Hegel,
                                                                                               confira, ainda, a edição 261 da IHU On-Line,
         que refletir sobre liberdade e vontade                                                de 09-06-2008, Carlos Roberto Velho Cirne-
         compreende duas tarefas difíceis, mas       o caráter objetivista de sua teoria e,    Lima. Um novo modo de ler Hegel, disponível
                                                     de forma uníssona, se liga a Kierkega-    em http://www.unisinos.br/ihuonline/uploa-
         de importância fundamental à filosofia                                                ds/edicoes/1213054489.296pdf.pdf. ���������
                                                                                                                                      (Nota da
         de hoje.                                    ard quando este pensa que o universo      IHU On-Line)
                                                     é dotado de grandes características, e    � Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling
                                                     uma delas é a vontade.                    (1775-1854): filósofo alemão. ���������������
                                                                                                                                Suas primeiras
         IHU On-Line - Como podemos com-                                                       obras são geralmente vistas como um elo im-
         preender essas conexões de pensa-                                                     portante entre Kant e Fichte, de um lado, e
         mento tomando em consideração a             IHU On-Line - E com relação aos seus      Hegel, de outro. Essas obras são representa-
                                                     pontos de vista sobre a religião,         tivas do idealismo e do romantismo alemães.
         distância teórica que tem como pon-                                                   Criticou a filosofia de Hegel como “filosofia
         to de partida tais autores?                 como é possível entender a aproxi-        negativa”. Schelling tentou desenvolver uma
         Deyve Melo dos Santos - Realmente           mação entre ambos?                        “filosofia positiva”, que influenciou o existen-
                                                     Deyve Melo dos Santos - No modo de        cialismo. Entrou para o seminário teológico de
         existe uma certa distância entre nos-                                                 Tübingen aos 16 anos. (Nota da IHU On-Line)
         sos dois autores, mas essa distância        entender a religião, a fé e o próprio      Johann Gottlieb Fichte (1762-1814): filóso-
         está presente na forma de ver Deus,         conceito de Deus, Schopenhauer e          fo alemão. Exerceu forte influência sobre os
                                                     Kierkegaard caminham diferentemen-        representantes do nacionalismo alemão, assim
         na forma de compreender determina-                                                    como sobre as teorias filosóficas de Schelling,
         dos conceitos e finalmente na forma de      te. A preocupação de Kierkegaard é        Hegel e Schopenhauer. Fichte decidiu devo-
         percepção da existência. Tentar fazer       com a instituição estatal que quer fa-    tar sua vida à filosofia depois de ler as três
                                                     zer de toda uma nação cristã e luta em    Críticas de Immanuel Kant, publicadas em
         uma aproximação entre Schopenhauer                                                    1781, 1788 e 1790. Sua investigação de uma
         e Kierkegaard é uma tarefa de consta-       busca de uma verdadeira concepção         crítica de toda a revelação obteve a aprova-
         tar que a subjetividade e a objetivida-     de cristandade. Schopenhauer conde-       ção de Kant, que pediu a seu próprio editor
                                                     na toda e qualquer formulação de fé       para publicar o manuscrito. O livro surgiu em
         de são terrenos férteis quando falamos                                                1792, sem o nome e o prefácio do autor, e foi
         de natureza, de existência, de amor,        que seja baseada numa pretensa vida       saudado amplamente como uma nova obra de
         de ironia, de vontade e, principalmen-      em dogmas e obrigações para com o         Kant. Quando Kant esclareceu o equívoco, Fi-
                                                     divino. Na verdade, podemos também        chte tornou-se famoso do dia para a noite e foi
         te, do mundo como representação.                                                      convidado a lecionar na Universidade de Jena.
         Quando Schopenhauer inicia sua obra         fazer um paralelo entre estas duas        Fichte foi um conferencista popular, mas suas
         O Mundo como vontade e como repre-          formas de ver a fé, pois ver o mun-       obras teóricas são difíceis. Acusado de ateís-
                                                     do como o pior dos mundos possíveis,      mo, perdeu o emprego e mudou-se para Ber-
         sentação, afirmando que O mundo é                                                     lim. Seus Discursos à nação alemã são sua obra
         minha representação, ele fundamenta         como Schopenhauer faz, somente nos        mais conhecida. (Nota da IHU On-Line)

         14                                                                        SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314


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que para Schopenhauer, e a mais im-                   “Kierkegaard, em seu                      uma leitura legítima de Kierkegaard.
         portante é: por que, na Ciência da Ló-                                                          Com as traduções, vieram também es-
         gica, Hegel tem que começar com uma                    ensaio sobre o belo                     tudos publicados em diversas editoras
         ideia de ser que não é o ser mesmo? ou                                                          e universidades do país, livros como
         o ser que podemos entender como ser?                 musical, também eleva                      os de Alvaro Valls, Marcio Gimenes de
         Kierkegaard segue o mesmo caminho:                                                              Paula e Jonas Roos também revelam
         não aceita uma verdade absoluta, como               a arte como a aspiração                     como Kierkegaard tem ainda muito
         Hegel quer entender no seu sistema.                                                             a oferecer à filosofia de hoje. Outro
         Kierkegaard acredita que Hegel nega a                    máxima do ser. As                      grande passo que foi dado foi a forma-
         identidade de fundo irônico em Sócra-                                                           ção do grupo brasileiro de estudos de
         tes e por isso entendeu o mundo como                        rupturas estão                      Kierkegaard, a SOBRESKI, que anual-
         universal. Para Kierkegaard, esta ironia                                                        mente se encontra para discutir, com-
         como negatividade infinita absoluta é o               inseridas no contexto                     partilhar e trocar ideias e informações
         eterno, isto é, a constituição máxima do                                                        sobre o pensador dinamarquês. Cada
         real enquanto explicação dele mesmo.                      de suas obras, a                      vez mais cresce o número de pesqui-
         Interessante também é pensar o sistema                                                          sadores com mestrado e doutorado
         da ciência de Hegel e de como sua influ-              identificação do ideal                    que efetivam suas contribuições em
         ência fez com que tanto Schopenhauer e                                                          revistas especializadas em filosofia e
         Kierkegaard estivessem tão próximos um              de arte ou da arte ideal,                   apresentam comunicações em encon-
         do outro.                                                                                       tros e congressos dentro do país. Com
                                                                 da beleza e de suas                     a perspectiva de mais traduções irem
         IHU On-Line - Como você entende as                                                              aparecendo, mais estudos e a continui-
         concepções de arte em Kierkegaard                              formas, da                       dade das reuniões anuais da SOBRESKI,
         e Schopenhauer? Que aspectos apon-                                                              o pensamento de Kierkegaard somente
         tam em comum e quais são as maio-                   interpretação do gênio e                    tenderá a crescer no Brasil.
         res rupturas?
                                                                                                          ta, ensaísta, biógrafo, filósofo, advogado,
         Deyve Melo dos Santos - Em Schope-                  do artista e, por fim, de                    diplomado em direito e tradutor brasileiro, o
         nhauer, a arte e sua vinculação com a                                                            primeiro leitor e tradutor de Kierkegaard do
         estética é o belo, que ele chama de                      toda uma série de                       dinamarquês para a língua portuguesa. Tra-
                                                                                                          duziu, entre outros, Kierkegaard (Textos Se-
         metafísica do belo, que eleva a noção                                                            lecionados). Editora da Universidade do Para-
         de beleza e arte até o conhecimento                         conceitos que                        ná, 1972. De sua autoria, citamos O Instante
                                                                                                          (Curitiba: Editora da Universidade Federal do
         objetivo, isto é, um conhecimento
                                                                                                          Paraná, 1981). ��������� IHU On-Line)
                                                                                                                          (Nota da
         estético. A arte, para Schopenhauer,               encontramos no conjunto                        Álvaro Valls: filósofo brasileiro. Graduado
         juntamente com a música e a tragé-                                                               em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nos-
         dia, são as mais belas formas de se                         de suas obras”                       sa Senhora Medianeira, é mestre e doutor em
                                                                                                          Filosofia pela Universidade de Heidelberg,
         compreender até mesmo o absoluto.                                                                Alemanha, com a tese O conceito de história
         Kierkegaard, em seu ensaio sobre o                                                               nos escritos de Søren Kierkegaard. Escreveu,
         belo musical, também eleva a arte                  número de alunos de graduação e pós-          entre outros, Kierkegaard (Rio de Janeiro: Jor-
         como a aspiração máxima do ser. As                 graduação nas universidades brasilei-         ge Zahar Editor, 2007). Confira, nesta edição,
                                                                                                          concedida por Valls: O avanço da pesquisa em
         rupturas estão inseridas no contexto               ras que têm despertado interesse em           Kierkegaard no Brasil. (Nota da IHU On-Line)
         de suas obras, a identificação do ideal            estudar o pensamento de Kierkegaard.           Marcio Gimenes de Paula: filósofo brasilei-
         de arte ou da arte ideal, da beleza e              Hoje já é possível fazer uma leitura          ro, graduado em Teologia pelo Seminário Te-
                                                                                                          ológico Presbiteriano Independente. Cursou
         de suas formas, da interpretação do                aprofundada na filosofia de Kierkega-         graduação, mestrado e doutorado em Filosofia
         gênio e do artista e, por fim, de toda             ard, pois, já se encontram traduzi-           pela Universidade Estadual de Campinas (Uni-
         uma série de conceitos que encontra-               das diversas de suas obras realizadas         camp). Atualmente, é professor adjunto II do
                                                                                                          departamento de Filosofia da Universidade Fe-
         mos no conjunto de suas obras.                     diretamente do dinamarquês para o             deral de Sergipe (UFS). É autor de Indivíduo e
                                                            português. Uma das coisas que mais            comunidade na filosofia de Kierkegaard (São
         IHU On-Line - Enquanto presidente                  contribuiu para uma leitura errada de         Paulo: Paulus, 2009). Confira, nesta edição, a
                                                                                                          entrevista por ele concedida à IHU On-Line:
         da SOBRESKI, qual é a sua percepção                Kierkegaard eram as deficientes tra-          O indivíduo como ponto inicial na filosofia
         sobre os estudos de Kierkegaard no                 duções que tínhamos, que cometeram            kierkegaardiana. (Nota da IHU On-Line)
         Brasil?                                            erros grosseiros e nos levaram a inter-        Jonas Roos: filósofo brasileiro, licenciado
                                                                                                          em Filosofia pela Unisinos, mestre e doutor
         Deyve Melo dos Santos - Esta já é a X              pretações que fizeram de Kierkegaard          em Teologia pela Fauldades EST, em São Leo-
         Jornada de Estudos sobre Kierkegaard,              um simples pensador. Com as tradu-            poldo. Realizou pesquisa de pós-doutorado em
         e cada vez mais vem aumentando o                   ções de O Conceito de Ironia, Migalhas        Filosofia na Unisinos, em 2009. Atualmente, é
                                                                                                          professor no Programa de Pós-Graduação em
                                                            Filosóficas, As Obras do Amor e o ex-         Ciência da Religião da Universidade Federal de
            Ciência da Lógica: HEGEL, Georg Wilhelm        tenso volume traduzido por Ernani Rei-        Juiz de Fora (UFJF). Confira a entrevista con-
           Friedrich. Wissenschaft der Logik (2. ed. Ham-   chmann na década de 1970, é possível         cedida por Roos a esta edição da IHU On-Line:
           burg: Felix Meiner, 1969). ��������� IHU On-
                                       (Nota da                                                           Uma virada nos conceitos tradicionais religio-
           Line)                                              Ernani Reichmann (1920-1984): romancis-    sos. (Nota da IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                              15

flash.indd 15                                                                                                                                     9/11/2009 18:38:14
A crítica de Gadamer e Kierkegaard à filosofia abstrata
         Caráter abstrato, vazio e desvinculado da prática é rechaçado por ambos pensado-
         res, menciona Luiz Rohden. Outro ponto que os aproxima é a defesa e concepção
         de uma estética da vida

         Por Márcia Junges e Jasson Martins




         G
                      adamer e Kierkegaard têm alguns pontos de proximidade. Um deles, central, explica o
                      filósofo Luiz Rohden, é “a crítica ao modelo de filosofia abstrata, vazia, desvinculada da
                      prática, com caráter absolutista. Ou ainda, uma crítica contundente ao modelo de ciên-
                      cia desvinculado da trama real da vida”. Além disso, completa, “a defesa e a concepção,
                      com suas devidas distinções, estética da vida” são outras possíveis convergências. Na
         entrevista que segue, realizada por e-mail, Rohden analisa a presença de Kierkegaard na filosofia
         hermenêutica de Gadamer: mesmo não sendo tão citado quanto outros pensadores da tradição filo-
         sófica, Kierkegaard “pode ser considerado um dos pensadores que exerceu uma influência decisiva
         na construção conceitual do seu projeto hermenêutico”. Tal recepção se dá por duas vias. A primeira
         delas, indireta, acontece pela filosofia de Heidegger e Jaspers. A segunda, direta, pela interpretação
         e leitura de textos do dinamarquês, como Enter-Eller (A alternativa).
             Rohden é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais- UFMG, mestre e doutor
         em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com a tese Experi-
         ência e linguagem: princípios da hermenêutica filosófica. Cursou pós-doutorado no Boston College,
         nos Estados Unidos. De suas obras, destacamos: O poder da linguagem: a arte retórica de Aristóteles
         (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997), Entre a linguagem da experiência e a experiência da linguagem (São
         Leopoldo: Unisinos, 2005) e Interfaces da Hermenêutica: método, ética e literatura (Caxias do Sul:
         Editora UCS, 2008). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard apresenta em 12 de
         novembro a comunicação A presença de Kierkegaard na filosofia hermenêutica de H.-G. Gadamer.
         Confira a entrevista.


         IHU On-Line - Como se dá a presença               pela leitura e interpretação de textos     Ou ainda, uma crítica contundente
         de Kierkegaard na filosofia herme-                escritos pelo pensador dinamarquês,        ao modelo de ciência desvinculado
         nêutica de Gadamer?                              especialmente o Enter-Eller (A alter-      da trama real da vida. Ainda jovem,
         Luiz Rohden - Embora Kierkegaard não              nativa). Ainda com relação à pergunta      Gadamer encontrou em Kierkegaard
         seja tantas vezes citado por Gadamer,             proposta, a apropriação de Kierkega-       uma construção teórica que contri-
         explicitamente, quanto Platão, Aris-              ard por parte de Gadamer deve ser          buiu para justificar uma filosofia a
         tóteles, Hegel, Husserl e Heidegger,              compreendida no contexto da filosofia      partir do factum pelo viés do con-
         ele pode ser considerado um dos pen-              alemã no período entre as duas gran-       ceito teológico de simultaneidade
         sadores que exerceu uma influência                des guerras mundiais, ou seja, a defesa    pelo qual o pensador dinamarquês
         decisiva na construção conceitual do              e justificação do ‘mistério indecifrável   se contrapôs ao modelo de conhe-
         seu projeto hermenêutico. A recepção              da individualidade’ em contraposição       cimento pautado pelo compreender
         de Kierkegaard por parte de Gadamer               crítica à filosofia acadêmica do século    à distância. Gadamer apropriou-se
         se dá por duas vias; uma, a indireta,             XIX e à fé liberal no progresso.           deste conceito teológico e o aplicou
         principalmente pela filosofia de Hei-                                                        ao âmbito filosófico na esteira da fi-
         degger e de Jaspers, e a outra, direta,           IHU On-Line - Quais são os principais      losofia heideggeriana. Vinculado ao
            Hans-Georg Gadamer: filósofo alemão, au-      pontos de proximidade entre ambos          tema anterior, compreende-se a de-
           tor de Verdade e método (Petrópolis: Vozes,     autores?                                   fesa da filosofia de cunho “existen-
           1997), faleceu no dia 13-03-2002, aos 102
           anos. Por essa razão, dedicamos a ele a maté-
                                                           Luiz Rohden - Um dos pontos cen-           cial”, patrocinada por Kierkegaard e
           ria de capa da IHU On-Line número 9, de 18-     trais que aproxima os dois pensado-        assimilada por Gadamer na metade
           03- 2002, Nosso adeus a Hans-Georg Gadamer,     res é a crítica ao modelo de filoso-       do século XIX. Tanto a fé quanto a
           disponível em http://www.unisinos.br/ihuon-
           line/uploads/edicoes/1161374080.18pdf.pdf.
                                                           fia abstrata, vazia, desvinculada da       filosofia já não deveriam mais ser
           (Nota da IHU On-Line)                           prática, com caráter absolutista.          vistas desvinculadas da existência
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humana em sua finitude, múltiplas       porque ele é apenas uma direção [de
         possibilidades de ação, historicida-    sentido] seja porque a leitura é sem-
         de etc. Outro ponto que os aproxima     pre uma espécie de recriação do ori-
         é a defesa e a concepção, com suas      ginal. Este espécie de simultaneidade
         devidas distinções, estética da vida.   gadameriana se efetiva no modelo es-
         Comungam da concepção segundo a         trutural do diálogo.
         qual, a fé para um e a hermenêutica
         para o outro, se efetivam enquanto      IHU On-Line - A obra mais importan-
         uma experiência de vida, uma pos-       te de Gadamer, Verdade e método,
         tura em relação ao real, muito mais     está centrada na possibilidade de




                                                                                           Leia as Notícias do Dia
         que uma opção teórica. Atrelado aos     transmissão da verdade, através do
         aspectos anteriores, podemos men-       diálogo. Não temos aqui uma oposi-




                                                                                            www.ihu.unisinos.br
         cionar ainda que ambos concebem         ção, à medida que a verdade para
         um saber nos moldes da filosofia prá-   Kierkegaard é idêntica à verdade da
         tica de Aristóteles. Kierkegaard con-   fé, e por isso a dificuldade em trans-
         cebe o conhecimento e o ser cristão     miti-la?
         enquanto uma tarefa, uma prática        Luiz Rohden - Eu não diria que a
         diária onde temporalidade e eter-       obra mencionada está preocupada
         nidade se entrelaçam e convivem         pela “possibilidade de transmissão
         dialeticamente; Gadamer justifica       da verdade via diálogo”, mas que o
         um modo de conhecer que costura         diálogo, ou seja, a dialética dialógi-
         unidade com multiplicidade, o dito      ca gadameriana – espelhando-se nos
         com o não-dito [ainda] enquanto um      diálogos platônicos – por um lado,
         movimento inesgotável, próprio dos      critica o modelo de verdade identi-
         amantes do saber.                       ficado com o ideal de certeza vei-
                                                 culado pelas ciências modernas, e,
         IHU On-Line - Quais seriam as simul-    por outro lado, justifica e sustenta
         taneidades kierkegaardianas em Ga-      que a verdade é sempre um acon-
         damer?                                  tecimento, que não se esgota num
         Luiz Rohden – Em primeiro lugar, de     conceito e muito menos se congela
         acordo com Gadamer, na esteira de       no tempo e no espaço. Em Gadamer,
         Kierkegaard, simultâneo ‘não quer       ela se mostra no processo de uma
         dizer ser-ao-mesmo-tempo, mas for-      procura incessante, séria e compro-
         mula a tarefa, que é proposta aos       metida com o real, cujos corolários
         crentes de intermediar entre si aqui-   coerentes revelam-se sob diferentes
         lo que não é ao-mesmo-tempo, como       âmbitos: ecológicos, éticos, existen-
         a própria presença e a salvação de      ciais.
         Cristo’. Ora, o acontecer da simulta-
         neidade se efetiva enquanto herme-      IHU On-Line - Na sua opinião, é pos-
         nêutica, compreensão, enquanto um       sível conhecer o pensamento de au-
         movimento entre eterno e temporal,      tores como Kierkegaard e Gadamer
         deuses e humanos efetivado pelo deus    sem um prévio conhecimento da tra-
         Hermes. Além disso, considerando o      dição cristã, sobretudo os escritos
         que já foi respondido na pergunta an-   paulinos?
         terior, diríamos que a fé para um e a   Luiz Rohden - Tanto um como outro
         compreensão para outro são aconte-      construíram modos de explicitação e
         cimentos espelhados na metáfora da      de compreensão apropriando-se da
         simultaneidade, ou seja, toda vez que   tradição cristã e, em minha opinião,
         lemos um texto, estamos efetivando      sem se delimitarem aos escritos pau-
         uma simultaneidade entre sua letra e    linos. Gadamer, um protestante des-
         seu espírito, entre um tempo passado    comprometido com dogmas religiosos,
         e o presente do intérprete, entre o     defendeu uma espécie de fé estética,
         mundo de sentidos possíveis e a ins-    o diálogo entre religiões, ao passo que
         tauração de sentido que acontece no     Kierkegaard realizou uma contribuição
         ato de leitura. Nesse sentido, ocorre   fundamental para o próprio cristianis-
         uma espécie de repetição que jamais     mo. Contudo, sua contribuição não se
         será literal do que está contido num    esgota para o âmbito da fé, como to-
         texto, mas será sempre criativa, seja   dos sabemos.

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                             17

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Uma virada nos conceitos tradicionais religiosos
         Método semelhante de Kierkegaard e Tillich para trabalhar tais conceitos inspira
         o pensamento de uma religiosidade que fale com a cultura de seu tempo, pontua
         Jonas Roos

         Por Márcia Junges e Jasson Martins




         K
                     ierkegaard e Tillich trabalham de forma semelhante ao reelaborar e re-significar conceitos
                     tradicionais religiosos. Ambos “são figuras inspiradoras para se pensar uma religiosidade
                     que dialogue com a cultura de seu tempo e com as suas perguntas. Nesse diálogo é funda-
                     mental que se limpe os conceitos e se traduza fórmulas que já não comunicam mais muita
                     coisa”. A análise é do filósofo Jonas Roos, com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line.
         “Merece destaque nesses dois autores o método similar com o qual trabalham as questões existenciais
         e religiosas”, disse. É inconteste a influência de Kierkegaard sobre Tillich, mas deve ser mencionada,
         igualmente, a importância de Hegel, Schelling e Nietzsche para a composição de seu pensamento.
         Outro ponto interessante é que Tillich orientou Theodor Adorno, em 1933, em sua tese sobre o di-
         namarquês, frisa Roos. A tese intitulou-se A construção do estético, e está em fase de tradução pelo
         Prof. Dr. Álvaro Valls pela Editora Unesp.
            Licenciado em Filosofia pela Unisinos, mestre e doutor em Teologia pela Fauldades EST, em São
         Leopoldo, Roos realizou pesquisa de pós-doutorado em Filosofia na Unisinos, em 2009. Atualmente, é
         professor no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de
         Fora - UFJF. Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard apresenta em 13 de novembro
         a comunicação Kierkegaard e Tillich: pensadores de correlação. Confira a entrevista.



         IHU On-Line - Qual é o principal ponto     método similar com o qual trabalham          elaboração de questões religiosas parte
         de convergência entre o pensamento         as questões existenciais e religiosas.       de perguntas existenciais presentes em
         de Kierkegaard e o de Tillich?                 Sabe-se que Kierkegaard desenvol-        situações culturais determinadas.
         Jonas Roos - Paul Tillich nasceu em        veu toda uma estratégia de comunica-
         Starzeddel, no leste da Alemanha           ção, muitas vezes usando a linguagem         IHU On-Line - Há, nesses autores,
         (atualmente parte da Polônia). Em seu      viva de seu tempo para colocar as per-       uma busca de esclarecimento da re-
         país, tornou-se pastor luterano e pro-     guntas existenciais a partir de situações    lação entre religião e cultura?
         fessor de Teologia Sistemática e Filo-     concretas imaginadas em seu próprio          Jonas Roos - Em Tillich esta relação
         sofia da Religião. Devido a sua filiação   contexto. Do interior dessas situações,      está mais explícita. Um dos pontos fun-
         ao partido socialista religioso e oposi-   surgem questões que são relacionadas         damentais de seu pensamento é o que
         ção ao nazismo foi forçado a emigrar       a seu pensamento religioso. Ou seja, o       chama de Teologia da Cultura. Tillich
         para os Estados Unidos em 1933, onde       religioso não é simplesmente apresenta-      entende as relações entre religião e
         continuou publicando e exercendo a         do em linguagem hermética e de modo          cultura não como pólos opostos, mas
         docência. Em seu pensamento, Tillich       distanciado, mas como algo que se rela-      como se esclarecendo mutuamente.
         foi influenciado pela leitura de Kierke-   ciona às situações concretas e perguntas     No seu entendimento, a religião, em
         gaard, mas também pelo pensamento          elaboradas a partir de situações vividas.    termos amplos, dá substância e senti-
         de Hegel, Schelling e Nietzsche, só        Tillich parece ter aprendido com Kierke-     do à cultura, e a cultura, por sua vez,
         para citar alguns dos nomes mais im-       gaard esse modo de abordar as questões       engloba a totalidade das formas pelas
         portantes. Importante dizer também         religiosas. O autor alemão desenvolve o      quais a preocupação fundamental da
         que Tillich foi orientador de Adorno em    que denomina “método de correlação”,         religião pode se exprimir. A religião,
         sua tese sobre Kierkegaard. Há várias      onde, enquanto teólogo, procura elabo-       por um lado, mesmo em suas formas
         semelhanças entre os pensamentos           rar as perguntas existenciais presentes na   mais secularizadas, e a cultura, por
         de Kierkegaard e Tillich, assim como       cultura e relacioná-las à mensagem cris-     outro, estariam em uma relação de in-
         há diferenças importantes. Penso que       tã, interpretando esta para o contexto       terdependência.
         merece destaque nesses dois autores o      onde é recebida. Em ambos os autores, a          Kierkegaard é mais facilmente visto
         18                                                                          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314


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“Em ambos os autores, a elaboração de
                questões religiosas parte de perguntas existenciais
                 presentes em situações culturais determinadas”




                                                                                                      Informações em www.ihu.unisinos.br
                                                                                                       IHU Ideias. Todas as quintas-feiras.
         como crítico da cultura de seu tempo,         IHU On-Line - Este trabalho com con-
         principalmente em função de sua polê-         ceitos religiosos envolve um processo
         mica com a igreja dinamarquesa do séc.        filosófico?
         XIX. Entretanto, não se pode esquecer         Jonas Roos - Tillich entende que qualquer
         que a crítica já pressupõe uma relação.       texto religioso lida com conceitos filosófi-
         Kierkegaard tem toda uma preocupação          cos como espaço, tempo, história, dever,
         com o modo como escreve seus textos           liberdade, necessidade, etc. e que traba-
         e faz uso de uma comunicação indireta         lhar com tais conceitos é tarefa filosófica,
         para tornar o seu leitor atento a cer-        ainda que dentro da teologia ou da ciên-
         tas questões. Nesse sentido, ele insere       cia da religião. Elaborar as perguntas exis-
         a sua comunicação na moldura cultural         tenciais presentes na cultura é trabalho
         de seu tempo. Tal estratégia pressupõe        filosófico. De semelhante modo, a articu-
         um amplo conhecimento da própria              lação da resposta envolve, muitas vezes,
         cultura, pressupõe um conhecimento            uma tradução de conceitos religiosos para
         das questões existenciais-religiosas que      uma linguagem mais adequada a determi-
         trabalha e, além disso, o entendimento        nado contexto.
         do modo de relacionar esses dois pólos,           Tillich elabora a pergunta filosofica-
         sem confundi-los, mas também sem eli-         mente. Kierkegaard é mais socrático,
         minar a relação.                              elabora também a pergunta filosofi-
                                                       camente, mas realiza um processo de
         IHU On-Line - Nessa perspectiva de re-        desconstrução das falsas respostas,
         lação com a cultura, os conceitos reli-       colocando o ser humano diante de seu
         giosos tradicionais seriam abolidos?          próprio vazio existencial. Kierkegaard
         Jonas Roos - Seria mais correto dizer que     parece consumir o falso conteúdo a
         eles são reelaborados e ressignificados.      partir de dentro, deixando a pessoa só
         Nesse sentido, Kierkegaard e Tillich tra-     com a casca, como fazia Sócrates. Mas,
         balham de modo muito semelhante. Tilli-       para Kierkegaard, a ironia não é a úl-
         ch escreveu um pequeno livro intitulado       tima palavra, é método que deve ser
         Dinâmica da fé (3ª ed. São Leopoldo:          compreendido dentro da moldura de
         Sinodal, 1985) – e que, sem dúvida, me-       sua obra como um todo, o que, aliás,
         rece ser lido por quem se interessa por       já se percebe com uma leitura atenta
         tais questões – onde inicia dizendo que       de sua tese sobre a ironia socrática.
         fé é um desses termos que primeiro pre-
         cisam ser curados antes de poder curar        IHU On-Line – Qual é a importância
         pessoas. Ou seja, há o reconhecimento         desta relação entre Kierkegaard e
         de que existem grandes mal-entendidos         Tillich para os dias de hoje?
         com relação a termos religiosos e que o       Jonas Roos - O alcance de obras de gran-
         terreno precisa ser limpo antes de se po-     des pensadores é sempre amplo e difícil
         der trabalhar adequadamente nele. Há          de estabelecer. Na relação específica que
         que se fazer uma limpeza de conceitos         aqui proponho, entendo que tanto Kierke-
         e procurar ressignificá-los e reinterpretá-   gaard quanto Tillich são figuras inspirado-
         los. Isso não significa, necessariamente,     ras para se pensar uma religiosidade que
         abolir. A respeito de seu trabalho, Kierke-   dialogue com a cultura de seu tempo e
         gaard disse que estaria escavando os con-     com as suas perguntas. Nesse diálogo, é
         ceitos cristãos, como que os limpando         fundamental que se limpe os conceitos e
         depois de séculos, tentando redescobrir       se traduza fórmulas que já não comuni-
         suas formas originais. Ou seja, trata-        cam mais muita coisa. Este procedimen-
         se de um trabalho conceitual que tanto        to é o que Tillich chamou de método de
         Kierkegaard quanto Tillich realizam com       correlação e que, de certa forma, já es-
         habilidade.                                   tava presente em Kierkegaard.

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                          19

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Que peso tem para um filho o pai em pecado?
         Lacan leitor de Kierkegaard
         Mario Fleig examina a influência do pensador dinamarquês na obra lacaniana.
         Apesar dos elementos da melancolia presentes em sua filosofia, Lacan não o tomou
         como caso clínico

         Por Márcia Junges e Jasson Martins




         “A
                              referência ao nome de Kierkegaard na obra e no ensino de Lacan é marcante e
                              decisiva”. A afirmação é do filósofo e psicanalista Mário Fleig, na entrevista que
                              concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. “Vemos que Lacan busca no filósofo dina-
                              marquês pontos de apoio bem determinados para poder realizar o que denominou
                              de ‘retorno a Freud’: a repetição, a angústia, a existência e o instante”. Entre-
         tanto, aponta Fleig, mesmo como um leitor atento de Kierkegaard, Lacan nunca o “tomou como um
         caso clínico, apesar de todos os elementos de sua melancolia estarem tão disponíveis”.
            Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Laca-
         niana Internacional. Graduado em Psicologia pela Unisinos, e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia
         Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia pela UFRGS, doutor em Filosofia pela Pontifícia Uni-
         versidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, e pós-doutor em Ética e Psicanálise pela Université
         de Paris XIII (Paris-Nord), França. Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard, apre-
         senta em 12 de novembro a comunicação Lacan leitor de Kierkegaard: que peso tem para um filho o
         pai em pecado? Confira a entrevista.



         IHU On-Line - Quais são as principais     ções no discurso e induz o analisante a   eu denunciei como convergente com a
         influências de Kierkegaard na obra        “atuar” sua angústia. É nesta perspec-    experiência que bem mais tarde apa-
         de Lacan?                                 tiva que Kierkegaard fornece noções       receu com um Freud, e sua promoção
         Mario Fleig - A referência ao nome de     indispensáveis que valorizam o resto,     da ek-sistência como tal. Há algo, me
         Kierkegaard na obra e no ensino de La-    o detalhe, a falha, enfim, o paradoxo     parece, que não se possa dizer ou não
         can é marcante e decisiva. Encontra-      que não se deixa resolver em qualquer     se possa encontrar no próprio Kierke-
         mos o primeiro registro em uma dis-       síntese redentora.                        gaard testemunho que é não apenas
         cussão em maio de 1946, na qual Lacan        A última referência ao solitário de    da promoção da repetição como algo
         convoca Kierkegaard para demarcar         Copenhague ocorre no seminário R.S.I,     de mais fundamental na experiência
         que o humor é uma forma de espiri-        em 18 de fevereiro de 1975, e creio       que a resolução dita tese, antítese,
         tuosidade muito superior e que se ma-     que seja importante lermos esta pas-      síntese sobre a qual um Hegel trama-
         nifesta particularmente no adulto e,      sagem, pois reúne as indicações da        va a História, mas a valorização dessa
         portanto, bem diferente do humor na       presença do dinamarquês no ensino do      repetição como de uma função funda-
         criança. Assim, vemos que Lacan bus-      psicanalista.                             mental, cuja medida se encontra no
         ca no filósofo dinamarquês pontos de         “É certo que essas categorias [real,   gozo e cuja relações (as relações vi-
         apoio bem determinados para poder         imaginário e simbólico] não são ma-       vidas por Kierkegaard são aquelas de
         realizar o que denominou de “retorno      nejáveis facilmente. No entanto, elas     um nó, sem dúvida, jamais confessa-
         a Freud”: a repetição, a angústia, a      deixam para si mesmas alguns vestígios    do, mas que é aquele de seu pai com
         existência e o instante. Este retorno     na história, a saber, que afinal é por    a falta”.
         se contrapõe às concepções que ten-       uma extenuação filosófica tradicional,       Eu gostaria de destacar nesta cita-
         diam a introduzir na clínica psicana-     cujo cume é dado por Hegel, que algu-     ção, de modo breve, cinco pontos que
         lítica as vias diretas de tratamento,     ma coisa que brilhou sob um nome de       evidenciam o impacto do dinamarquês
         assim como o pensamento de síntese,       um assim denominado Kierkegaard, a        na obra de Lacan. De saída, sobressai
         que inevitavelmente produz cristaliza-    respeito do qual vocês sabem o quanto     a contraposição à filosofia da síntese.

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Em seguida, Lacan propõe uma filiação            “A relação de um                    temática possui alguma fundamenta-
         de Freud ao dinamarquês por meio da                                                  ção na filosofia kierkegaardiana? Em
         noção de ek-sistência. Em terceiro lu-            psicanalista com                   que aspecto?
         gar, o conceito de repetição, em con-                                                Mario Fleig - A angústia como mani-
         traposição à noção platônica de remi-            Kierkegaard e seu                   festação de um estado inconciliável
         niscência, se constitui no ponto nodal                                               e insuportável já fora descrita por
         da leitura que Lacan faz do filósofo,          pensamento poderia                    Freud, que desenvolve duas ou talvez
         elucidando assim os emaranhados da                                                   três formulações para tentar dar con-
         confusão feita pelos leitores apres-         se inscrever no que foi                 ta dela. Contudo, Lacan, sem deixar
         sados de Freud entre transferência e                                                 de lado o legado freudiano sobre a
         repetição. A medida desta repetição,              denominado de                      angústia como sinal da iminência do
         em quarto lugar, se revela na noção de                                               impossível, encontra em Kierkegaard o
         gozo. E, por último, a indicação clínica       psicanálise aplicada,                 suporte para propor uma especificida-
         que indica o ponto nodal na existência                                               de na vivência de angústia: é frente ao
         do filósofo: a relação com o pecado do       mas não entendida de                    desejo do Outro que a angústia emer-
         pai. A partir deste ponto, na medida                                                 ge, e em sua dimensão temporal, ou
         em que forem explorados, nos mostra-       modo equivocado como a                    seja, o instante em que se precipita a
         rá o quanto Lacan lê Kierkegaard como                                                iminência do desamparo radical.
         o antecessor direto de Freud.               aplicação de seu saber e
                                                                                              IHU On-Line - É possível fazer uma
         IHU On-Line - Como a questão do pai        de seu método a objetos                   leitura psicanalítica da obra de
         em pecado aparece nos escritos do                                                    Kierkegaard? Quais obras poderiam
         autor dinamarquês?                                   exteriores a                    ser lidas, com proveito dessa chave
         Mario Fleig - Em sua obra Ponto de                                                   de leitura?
         vista explicativo da minha obra como        especificidade da clínica                Mario Fleig - Lacan, atento leitor de
         escritor, publicado postumamente,                                                    Kierkegaard, jamais o tomou como um
         Kierkegaard se refere à influência          psicanalítica, tais como                 caso clínico, apesar de todos os ele-
         que produziu nele, desde a infância,                                                 mentos de sua melancolia estarem tão
         o velho melancólico que foi seu pai.          as obras literárias ou                 disponíveis. Bem pelo contrário, sua
         Entretanto, é em suas notas pessoais                                                 atitude sempre foi a de alguém que
         de 1838 que encontramos o relato           artísticas, as religiões, as              buscava apreender aquilo que ele te-
         do famoso episódio que denomina de                                                   ria a ensinar. E Kierkegaard tem muito
         “tremor de terra” que produz terrível               instituições e                   a nos ensinar. Os quatro pilares que
         perturbação que o leva a uma nova in-                                                Lacan extrai de sua obra é uma pis-
         terpretação de tudo o que se passa.             outras disciplinas”                  ta notável: a repetição, a angústia, a
         “Uma falta devia pesar sobre a família                                               existência e o instante. Além disso, a
         inteira, um castigo de Deus planava                                                  sutileza de sua escrita tem muito para
         sobre ela”. O pai pecara pelo menos                                                  ensinar o psicanalista em seu ofício:
         duas vezes: em excesso de sofrimen-        com o outro”.                             “não, uma ilusão nunca é dissipada
         to, em sua atividade como pastor de            Lacan, evitando o erro banal de       diretamente, só se destrói radical-
         ovelhas, ele havia blasfemado contra       enveredar por uma psicologização do       mente de uma maneira indireta”, afir-
         Deus; e o pai desposara apressada-         personagem, localiza como central a       ma em Ponto de vista explicativo da
         mente a mãe de Kierkegaard, antiga         paixão pelo pai e certamente não é        minha obra como escritor. O método
         doméstica da casa, e tiveram um filho      um mero acaso que o solitário dina-       indireto, a via oblíqua de se tocar na
         antes de nove meses do falecimento         marquês tenha se tornado um multi-        verdade insuportável de ser enuncia-
         da precedente. A longevidade do pai        plicador do pseudônimo, de tal modo       da, o equívoco da boa interpretação
         não era uma benção, mas uma maldi-         que viesse a subverter o patronímio.      que toca no real paradoxal, evitando
         ção, que já se mostrara nas catástrofes    Lacan, no final de seu ensino, introdu-   o risco de produzir objetivação catas-
         que se abatiam sobre a família: além       zirá a pluralização do nome-do-pai e      trófica, isso tudo o psicanalista pode
         dos desastres econômicos que atingia       essa formulação não deixa de ter rela-    aprender em cada fragmento da obra
         a todos, houve a perda de sua segunda      ção com os efeitos da falta paterna no    do solitário dinamarquês.
         mulher e de cincos filhos. O nó jamais     roteiro fantasmático do filho, impon-         Assim, a relação de um psicana-
         confessado com seu pai se lê em seu        do-lhe uma série sem fim de disfarces     lista com Kierkegaard e seu pensa-
         Diário: “O próprio pai se tomava por       do nome próprio.                          mento poderia se inscrever no que
         culpado da melancolia de seu filho e o                                               foi denominado de psicanálise apli-
         filho por aquela do pai, e era isso que    IHU On-Line - O Seminário X, A angús-     cada, mas não entendida de modo
         os impedia sempre de se abrirem um         tia, de Lacan, é dedicado à angústia.     equivocado como a aplicação de seu
                                                    O tratamento que Lacan dá a essa

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                           21

flash.indd 21                                                                                                                  9/11/2009 18:38:16
“Kierkegaard é um pensador que não cessa de nos                                               a outra disciplina, ilustrar ou exem-
                                                                                                              plificar a teoria, por meio, então, de
                confrontar com o incontornável, expresso em seus                                              um saber que interroga outro saber.
                                                                                                              Ora, Kierkegaard é um pensador que
                      paradoxos e na radicalidade do instante                                                 não cessa de nos confrontar com o
                                                                                                              incontornável, expresso em seus pa-
                   extraordinário que presentifica a alteridade                                               radoxos e na radicalidade do instan-
                                                                                                              te extraordinário que presentifica a
                                              última, Deus”                                                   alteridade última, Deus.


         saber e de seu método a objetos ex-                 ca vantagem que um psicanalista tem
         teriores a especificidade da clínica                o direito de tirar de sua posição, se
         psicanalítica, tais como as obras li-               esta lhe for reconhecida como tal, é                Leia   mais...
         terárias ou artísticas, as religiões,               de se lembrar com Freud que, na sua                    Mario Fleig já concedeu outra entrevista
         as instituições, e outras disciplinas.              matéria, o artista sempre o precede,               à IHU On-Line. Elas estão disponíveis na página
                                                                                                                eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br)
         Trata-se antes de evitar o que seja                 logo, que não deve brincar de psicó-
         uma aplicação redutora de um saber                  logo onde o artista lhe abre a via.               * As modificações da estrutura familiar clássica
         totalmente pronto sobre um objeto                      Assim, a psicanálise se aplica, em              não significam o fim da família. IHU On-Line nú-
                                                                                                                mero 150, O pai desautorizado: desafios da pa-
         passivo, sem nenhum reconhecimen-                   sentido estrito, somente como tra-                 ternidade contemporânea, de 08-08-2005, dispo-
         to da formulação original na obra                   tamento, na situação em que um su-                 nível para download em http://www.ihuonline.
         considerada. Esta não parece ter                    jeito fala para um outro que o ouve.               unisinos.br/uploads/edicoes/1158344547.83pdf.
                                                                                                                pdf
         sido a posição de Freud, que reco-                  Deste modo, o interesse de um psi-                 * Freud e a descoberta do mal-estar do sujeito na
         nhece o valor próprio de uma obra,                  canalista por uma obra não visaria                 civilização. IHU On-Line número 179, Sigmund
         como afirma em seu ensaio sobre a                   entender a obra como um sintoma,                   Freud. Mestre da suspeita, de 08-05-2006, dispo-
                                                                                                                nível para download em http://www.ihuonline.
         Gradiva de Jensen.                                 e nem mesmo se trataria de com-                    unisinos.br/uploads/edicoes/1158345628.45pdf.
            Entretanto, os poetas são aliados                preender ou de relacionar o discurso               pdf
         de sumo valor e seu testemunho é al-                do escritor com um saber constitu-                 * O declínio da responsabilidade. IHU On-Line
                                                                                                                número 185, O século de Heidegger, de 19-06-
         tamente apreciado, pois costumam sa-                ído, mas de confiar no escritor, no                2006, disponível para download em
         ber de uma multidão de coisas entre o               trabalho da escrita e na coerência                 http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/
         céu e a terra com cuja existência nem               interna da obra, em seu desenvolvi-                edicoes/1158344730.57pdf.pdf
                                                                                                                * O delírio de autonomia e a dissolução dos fun-
         sonha nossa sabedoria acadêmica. E,                 mento lógico. E, longe da ideia de                 damentos da moral. IHU On-Line número 220, O
         no conhecimento da alma, eles toma-                 um discurso aparente, ocultando um                 futuro da autonomia. Uma sociedade de indiví-
         ram a nossa dianteira, nós homens vul-              sentido profundo, trata-se de operar               duos?, de 21-05-2007, disponível para download
                                                                                                                em       http://www.ihuonline.unisinos.br/index.
         gares, pois eles se abeberam em fon-                uma decifração dos significantes em                php?option=com_tema_capaItemid=23task=d
         tes que ainda não tornamos acessíveis               ação, ou seja, tomar o texto à le-                 etalheid=407
         à ciência.                                         tra.                                               * “Querer fazer o mal parece algo inerente à
                                                                                                                condição humana”. IHU On-Line número 265,
                                                                De modo frequente, o interesse                  Nazismo: a legitimação da irracionalidade e da
         Confronto com o incontornável                       de um psicanalista por uma obra, na                barbárie, de 21-07-2008, disponível para down-
                                                             prática da psicanálise dita aplicada,              load em
                                                                                                                http://www.ihuonline.unisinos.br/index.
             Essa perspectiva freudiana foi rati-            começa por um questionamento que                   php?option=com_tema_capaItemid=23task=d
         ficada por Lacan em seu comentário à                emerge no encontro com uma obra.                   etalheid=1174
         obra de Marguerite Duras:                          O acontecimento que marca esse                     * Não cedas do teu desejo: é preciso sustentar-
                                                                                                                mos o que falamos com voz própria. IHU On-Line
             Haveria, ele [Freud] diz, grosseria             encontro entre o psicanalista e a                  número 295, Ecoeconomia. Uma resposta à crise
         em atribuir a técnica admitida de um                obra seria o modo como a obra atin-                ambiental?, de 01-06-2009, disponível para do-
         autor a alguma neurose. [...] a úni-                ge um mesmo ponto de impossível,                   wnload em
                                                                                                                http://www.ihuonline.unisinos.br/index.
            Gradiva de Jensen: do latim, “aquela que        que Lacan denominou de um efeito                   php?option=com_destaques_semanaItemid=24
           avança”, feminização de Gradivus, um dos          de real, com a lógica dos instrumen-               task=detalhesidnot=1645idedit=7
           epítetos do deus romano Marte, Mars Gradi-
           vus, isto é, “Marte que avança”, é um roman-      tos que lhe são próprios. Este pon-                * O direito ao gozo e à violência. IHU On-Line
                                                                                                                número 298, Desejo e violência, de 22-06-2009,
           ce publicado em 1903 pelo escritor alemão         to incontornável na obra tenderia a                disponível para download em
           Wilhelm Jensen, que teve grande influência na     produzir efeitos no psicanalista e na              http://www.ihuonline.unisinos.br/index.
           cultura européia, sobretudo entre os surrealis-
           tas. ��������� IHU On-Line)
                (Nota da                                     sua prática, ou seja, o psicanalista               php?option=com_tema_capaItemid=23task=d
                                                                                                                etalheid=1675
           ����������� Der Wahn und die Träume in W.
             FREUD, S.                                       reconheceria aquilo que a obra lhe                 * IHU Repórter. IHU On-Line número 303, A ética
           Jensens ‘Gradiva’. Frankfurt am Main: S.          ensinou. E isso, às vezes, permite à               da psicanálise. Lacan estaria justificado em dizer
           Fischer, 1982, Stuienausgabe, v. X, p. 14.
           (Nota do entrevistado)                            psicanálise aplicada a uma obra, ou                “não cedas de teu desejo”?, de 10-08-2009, dis-
                                                                                                                ponível para download em
            Marguerite Donnadieu (1914-1996): também
                                                                                                                http://www.ihuonline.unisinos.br/index.
           conhecida como Marguerite Duras, escritora e       ����������� Shakespeare, Duras, Wedekink,
                                                                LACAN, J.
                                                                                                                php?option=com_ihu_reporterItemid=30
           diretora de filmes nascida na Indochina Fran-      Joyce. Lisboa: Assírio  Alvim, 1989, p. 125.
           cesa, hoje Vietnã. ��������� IHU On-Line)
                               (Nota da                       (Nota do entrevistado)

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flash.indd 22                                                                                                                                                9/11/2009 18:38:17
O avanço da pesquisa em Kierkegaard no Brasil
          Kierkegaard é tema de dezenas de pesquisas na pós-graduação brasileira. Tradução
          de O conceito de angústia, ainda no prelo, servirá como novo elemento e estímulo
          à discussão das ideias do dinamarquês, acentua Álvaro Valls

          Por Márcia Junges e Jasson Martins




          “H
                                  oje já não se pode dizer que, no Brasil, não se leu Kierkegaard. Há vinte anos,
                                  foi possível ironizar dizendo que aqui não se lera, só se escrevera sobre Kierke-
                                  gaard. Agora não!” A afirmação é do Prof. Dr. Álvaro Valls, na entrevista a se-
                                  guir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Tradutor de O conceito de angústia,
                                  ainda no prelo, Valls disse que agora a obra poderá ser lida em uma tradução
          fiel e filosófica, investigada em “seus aspectos dialéticos, platônicos, agostinianos, schellinguianos,
          hegelianos”. De acordo com ele, atualmente, existem inúmeros trabalhos de pós-graduação sobre
          Kierkegaard em nosso país. A respeito da recepção da filosofia desse pensador em nossa terra, Valls
          assinala que esta difere da alemã, francesa e japonesa. Ele explica: “Trata-se de uma recepção bem
          humorada, competente, mais divertida, sem perder tempo com polêmicas rancorosas”.
              Valls é doutor em Filosofia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha). Professor titular do PPG-
          Filosofia da Unisinos, é pesquisador do CNPq, presidente do Grupo de Estudos sobre as obras de
          Kierkegaard nesta instituição e um dos fundadores da Sociedade Kierkegaard do Brasil (Sobreski).
          Traduziu algumas obras desse filósofo direto do dinamarquês, publicadas na coleção Pensamento
          Humano, pela Editora Vozes, e está finalizando a tradução de uma obra de Theodor Adorno para a
          Editora UNESP. De sua produção bibliográfica, citamos Entre Sócrates e Cristo (Porto Alegre: Edipu-
          crs, 2000) e O que é Ética? (São Paulo: Brasiliense, 1983). Com Jorge Miranda de Almeida, escreveu
          Kierkegaard (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de
          Kierkegaard, apresenta em 13 de novembro a comunicação Três leituras que Adorno fez de Kierkega-
          ard. Confira a entrevista.


         IHU On-Line - Em seu livro Entre Só-               to angústia), apropriou-se da ironia da             semântico da proposição. Numa socie-
         crates e Cristo, o senhor faz a se-                maiêutica socrática, porém conside-                 dade saturada de certezas, a comuni-
         guinte afirmação: “Ora, se a ironia é              rou necessário colocá-la a serviço de               cação deve esforçar-se por provocar
         uma atitude diante da vida, é tam-                 uma ideia mais alta. Argumentou que,                curiosidade mais do que por fornecer
         bém uma forma de comunicação”. O                   depois do ensinamento de Jesus Cris-                novas certezas. A ironia representa,
         que significa isso?                                to, a ironia não tinha mais o direito de            na vida humana autêntica, um papel
         Álvaro Valls - A ironia, na tradição               ficar com a última palavra: essa foi sua            semelhante ao da dúvida na filosofia
         socrática, é uma atitude relacionada               crítica, p. ex., à chamada ironia ro-               moderna: há que começar por elas.
         ao nada (ver: “só sei que nada sei”) e             mântica. Mas a ironia poderia ser utili-
         mais radical que o niilismo, o cinismo             zada, na comunicação, como arma ou                  IHU On-Line - Há alguns anos, o se-
         e o ceticismo. Embora Hegel, na sua                instrumento, pela elasticidade que ela              nhor, invocando um personagem de
         História da Filosofia, a reduza a “uma             proporciona aos enunciados, devido à                Lima Barreto, se autodefiniu como
         maneira de conversar”, ela é bem                   distância entre a intenção do falante               uma ave rara, um dos poucos brasi-
         mais do que isso, é uma atitude dian-              (o que este “quer dizer”, relacionado               leiros que lia Kierkegaard em Dina-
         te da vida, que desafia o dogmatismo               à dimensão pragmática) e o significado              marquês. De lá para cá, mudou algu-
         dos donos da verdade e questiona os                 bém filósofo Søren Kierkegaard, seu aluno. Foi     ma coisa?
         que abstraem de sua própria subjeti-                professor de filosofia na Universidade de Co-      Álvaro Valls - Mudou muita coisa! Antes
         vidade. Kierkegaard, que penetrou no                penhague durante grande parte da sua vida.           Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-
                                                             Møller foi autor do romance Aventuras de um         1922): mais conhecido como Lima Barreto, foi
         mundo grego orientado por Poul Mar-                 estudante dinamarquês, que nunca foi acaba-         um jornalista e um dos mais importantes es-
         tin Møller (a quem dedicou O concei-               do. Este trabalho foi o livro favorito do físico    critores libertários brasileiros. É autor de, en-
            Poul Martin Møller (1794-1838): filósofo di-    e pensador dinamarquês Niels Bohr. (Nota da         tre outros, Triste Fim de Policarpo Quaresma.
           namarquês. Foi a principal influência do tam-     IHU On-Line)                                        (Nota da IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                                       23

flash.indd 23                                                                                                                                              9/11/2009 18:38:17
dos trabalhos pioneiros de Ernani Rei-
         chmann, em Curitiba, nos anos 1960 e
                                                                 “Kierkegaard começa                          tada em sua teatralidade maiêutica: “a
                                                                                                              caráter”) além do material dos Papirer,
         1970, talvez só Alceu de Amoroso Lima
         (dos nomes mais conhecidos no Brasil)
                                                                 a ser lido e discutido,                      ou seja, a sugestão de que queremos
                                                                                                              ler a obra de Kierkegaard sem nos satis-
         tenha conseguido penetrar com alguma
         profundidade na obra do então chamado
                                                                 a ser compreendido e                         fazermos com aspectos anedóticos de
                                                                                                              sua biografia e uns poucos textos pseu-
         “pai do existencialismo”. E era uma apro-
         ximação no mínimo cautelosa, como se
                                                                 relacionado dentro da                        dônimos. E se Kierkegaard foi chamado
                                                                                                              “o Sócrates nórdico” é por haver muita
         depreende do título da obra de Alceu: O
         existencialismo e outros mitos de nosso
                                                                história do pensamento                        ironia até em suas obras aparentemente
                                                                                                              mais sérias e de feição mais acadêmica,
         tempo. Mesmo quando um bom escritor
         e poeta português, como Adolfo Casais
                                                                           filosófico”                        como no Conceito angústia, por exem-
                                                                                                              plo. “Ironicamente correto” lembrava
         Monteiro, traduzia um livro de Kierke-                                                              também que fizemos oito Jornadas de
         gaard, como aquele sobre as formas do                já desfrutaram das ótimas condições de          Estudos sem solicitar verbas das agên-
         desespero, não sentia a necessidade de               pesquisa da Kierkegaard Library, de Min-        cias financiadoras. E nos reunimos por
         ler o texto original. Assim, para mim, os            nesota. Jonas Roos investigou por mais          oito anos numa Sociedade sem nenhuma
         anos 1980, após meu doutorado em Hei-                de um ano no Centro de Pesquisa de SK,          burocracia (e claro que sem dinheiro).
         delberg com Michael Theunissen, foram               em Copenhague. As traduções novas que           Outra ironia foi quando, numa das nossas
         anos de deserto, só aliviados, por algum             vão aparecendo têm sido feitas sempre           primeiras Jornadas, a única participante
         tempo, pela amizade do conterrâneo                   a partir do original. O Conceito de ironia      que não era patrícia nossa era Patrícia
         Ernani Reichmann e do francês Henri-                 já chegou à terceira edição, As obras do        Dip, da Argentina.
         Bernard Vergote, que me deram como                  amor em pouco tempo alcançou a se-
         uma missão (ou um desafio) fazer tais                gunda edição. Quem estará comprando             IHU On-Line - Pela primeira vez esta
         traduções. Reichmann me apelidava de                 e lendo esses livros? Kierkegaard começa        Jornada de Estudos de Kierkegaard é
         “kierkegaardiano de escola”, consciente              a ser lido e discutido, a ser compreendi-       promovida pela Sobreski em parce-
         do oxímoro que isso representava. Hoje,              do e relacionado dentro da história do          ria com a Biblioteca Kierkegaard, de
         porém, já temos em andamento no Bra-                 pensamento filosófico.                          Buenos Aires. O que o senhor espera
         sil dezenas de trabalhos de pós-gradua-                                                              dessa parceria com os pesquisadores
         ção sobre Kierkegaard. Há cerca de uma               IHU On-Line - A Sociedade Brasilei-             argentinos?
         dúzia de professores e estudiosos com                ra de Estudos de Kierkegaard (So-               Álvaro Valls - O mundo de idioma es-
         doutorado sobre ele (seja em São Paulo               breski), da qual o senhor é um dos              panhol dispõe de traduções melhores a
         ou Campinas, seja na Itália ou na Norue-             fundadores, possui o seguinte lema              mais tempo do que nós. E nossos cole-
         ga). Fizemos nove Jornadas de estudos                “Uma sociedade ironicamente cor-                gas argentinos vêm discutindo a obra de
         nos últimos nove anos, pelo Brasil afora.            reta”. O senhor concorda que esse               Kierkegaard com grande seriedade há
         Colegas nossos já publicaram vários livros           lema resume, de certa forma, a re-              vários anos. Darío González, por exem-
         de boa qualidade, como recentemente                  cepção brasileira do pensamento de              plo, trabalhou no Centro de Copenha-
         Marcio Gimenes de Paula e Jorge Miranda              Kierkegaard e tornou-se o leitmotiv             gue por muito tempo. Andrés Albertsen
         de Almeida. Vários doutores brasileiros             dos estudiosos brasileiros?                     lidera a Igreja Dinamarquesa de Buenos
                                                              Álvaro Valls - Parece que sim. “Ironica-        Aires. Em metade de nossas Jornadas,
            Alceu Amoroso de Lima (1893-1983): crítico
           literário, professor, pensador, escritor e líder
                                                              mente correto” é uma expressão que              tivemos a sorte de contar com colegas
           católico brasileiro. (Nota da IHU On-Line)         ocorre na Dissertação de 1841. A re-            argentinas como Patrícia Dip e Maria
            Adolfo Casais Monteiro (1908-1972): escri-       cepção brasileira difere da alemã, da
           tor português. Exilou-se em 1954 no Brasil, por
                                                                                                              José Binetti, que alguns de nós também
           motivos políticos e por lhe ser proibida a do-
                                                              francesa e da japonesa. Trata-se de uma         encontraram na Kierkegaard Library do
           cência em Portugal. (Nota da IHU On-Line)          recepção bem humorada, competente,              St. Olaf College, em Northfield, MN, nos
            Michael Theunissen (1932): filósofo alemão.      mais divertida, sem perder tempo com
           Autor de, entre outros, Der Begriff Verzweif-
                                                                                                              Estados Unidos. Os contatos se multipli-
           lung: Korrekturen an Kierkegaard (Frankfurt
                                                              polêmicas rancorosas. Este lema (in-            caram, aqui e nas Jornadas Argentinas,
           am Main: Suhrkamp 1993). (Nota da IHU On-          ventado por brincadeira, numa ironia            da Biblioteca Kierkegaard, no ISEDET de
           Line)                                              redobrada) aponta para nossa tese da
            Henri-Bernard Vergote: filósofo francês au-
                                                                                                              Buenos Aires, e daí surgiu naturalmente
           tor de, entre outros, Sens et Répétition: Essais
                                                              leitura (tal como o propunha o grande           a ideia de que, a partir de nossa décima
           sur l’ironie kierkegaardienne (Paris : Le Cerf,    pesquisador Henri-Bernard Vergote em              Patrícia Dip: filósofa argentina, doutora em
           1982). (Nota da IHU On-Line)                       Sens et Répétition: Essais sur l’ironie          Filosofia pela Universidade de Buenos Aires -
            Jorge Miranda de Almeida: filósofo brasi-                                                         UBA, professora da Universidad Nacional de
           leiro, graduado e mestre em Filosofia pela
                                                              kierkegaardienne (Paris: Le Cerf, 1982)�         General Sarmiento – UNGS, e pesquisadora do
           Pontifícia Universidade Católica do Rio de Ja-     da obra como um todo, desde a Disser-            Conselho Nacional de Investigações Científicas
           neiro (PUC-Rio), doutorado em Filosofia pela       tação de 1841 até a polêmica final com           e Técnicas - CONICET. Publicou sua tradução
           Universidade Gregoriana de Roma (PUG) com                                                           de S. Kierkegaard, Johannes Climacus o el du-
           a tese Ética e Sentido: Projeto de uma Ética
                                                              a Igreja oficial dinamarquesa (interpre-         dar de todas las cosas (Buenos Aires: Editorial
           Existencial a partir da superação da Ontologia      Sudoeste da Bahia (UESB), escreveu Ética e      Gorla, 2007). Confira nesta edição da IHU On-
           como Filosofia primeira, partindo da análise        existência em Kierkegaard e Lévinas (Vitória    Line a entrevista concedida por Dip: A filosofia
           do conceito de ética na Filosofia de Kierke-        da Conquista: Edições UESB, 2009). (Nota da     de Kierkegaard como aporte ético à alterida-
           gaard. Docente na Universidade Estadual do          IHU On-Line)                                    de. (Nota da IHU On-Line)

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flash.indd 24                                                                                                                                           9/11/2009 18:38:18
Jornada, deveríamos somar os esforços.                                                                  mais bem formados (agora professor de
         Dois dias lá, com alguns de nós, e dois
                                                                        “Kierkegaard                             Filosofia da Religião na Universidade Fe-
         dias aqui, com alguns deles. E que isso se                                                              deral de Juiz de Fora, MG), está fazen-
         mantenha nas próximas Jornadas, como
                                                               apropriou-se da ironia                            do. Torcemos para que seja publicada
         uma boa tradição de integração. A par-                                                                  em 2010, e aí os dois passos seguintes
         te brasileira dessas Jornadas, este ano,
                                                              da maiêutica socrática,                            teriam de ser passar ao nosso idioma
         conta com apoio do Instituto Humanitas                                                                  o Postscriptum final não científico e a
         Unisinos - IHU, e até da CAPES. Teremos,
                                                                   porém considerou                              Escola (ou Prática) do Cristianismo. Há
         lá e aqui, mais alguns participantes ilus-                                                              planos em nosso grupo de traduzir a po-
         tres de outros países, como o português
                                                                necessário colocá-la a                           lêmica de O instante e outros textos. É
         João Vila-Chã SJ, atualmente na Univer-                                                                possível prever, pois, para os próximos
         sidade Gregoriana, em Roma.
                                                                 serviço de uma ideia                            dez anos, uma década de discussões
                                                                                                                 competentes, a partir de textos bons em
         IHU On-Line - O senhor é reconhe-
                                                               mais alta. Argumentou                             nosso idioma, e de produção de textos
         cido como o tradutor das obras de                                                                       de qualidade que modificarão completa-
         Kierkegaard ao vernáculo, e essa ta-
                                                                      que, depois do                             mente nosso panorama. Em 2010, deve-
         refa até agora cumpriu a sua função                                                                     rá ser publicada também a tradução que
         de fornecer boa tradução aos leito-
                                                               ensinamento de Jesus                              estou terminando da famosa livre do-
         res brasileiros. Nesse sentido, o que                                                                   cência de Adorno,11 orientada por Tilli-
         espera da publicação da tradução de
                                                             Cristo, a ironia não tinha                          ch, Kierkegaard - Construção do Estético
         O conceito de angústia, traduzida di-                                                                   pela UNESP Jasson Martins,12 Jonas Roos,
                                                                                                                             .
         retamente do original, e que está no
                                                                mais o direito de ficar                          Sílvia Saviano Sampaio13 e Ilana Amaral14
         prelo, para as pesquisas no Brasil?                                                                     já têm livros escritos que podem ser lan-
         Álvaro Valls - O conceito de angústia
                                                               com a última palavra”                             çados em pouco tempo. E há uma cole-
         é um livro muito rico, profundo e difí-                                                                 tânea, indo para o prelo, bem adianta-
         cil, além de fascinante. As traduções               do autor. A leitura desta tradução, que             da, sobre O conceito de angústia. Antes
         de que dispúnhamos até agora depen-                 deve aparecer pela Vozes em fins de                 disso aparecerão, por certo, os melhores
         diam de traduções de outras línguas e               janeiro de 2010, não será fácil, estou              trabalhos dessas Jornadas de 2009.
         não eram muito exatas. A nossa procu-               convencido disso, mas se tornará mais                11 Theodor Wiesengrund Adorno (1903-
                                                                                                                  1969): sociólogo, filósofo, musicólogo e com-
         rou levar em conta aspectos filosóficos             produtiva. Por outro lado, se nossas                 positor, definiu o perfil do pensamento alemão
         que estavam obscurecidos e, ajuda-                  traduções têm algum valor, está ligado               das últimas décadas. Adorno ficou conhecido
         dos, como de costume, por Else Hage-                ao esforço de fidelidade, de manter                  no mundo intelectual, em todos os países, em
                                                                                                                  especial pelo seu clássico Dialética do Ilumi-
         lund,10 a manter a fidelidade à língua              o pensamento filosófico no seu nível                 nismo, escrito junto com Max Horkheimer, pri-
            João Vila-Chã SJ: filósofo português, licen-    e no esforço de usar uma linguagem                   meiro diretor do Instituto de Pesquisa Social,
           ciado em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia   nossa tal como Kierkegaard a usaria,                 que deu origem ao movimento de idéias em fi-
           de Braga da Universidade Católica Portuguesa                                                           losofia e sociologia que conhecemos hoje como
           (UCP), obteve o Diplom-Hauptprüfung (Katho-       pelo que conhecemos dele. A partir de                Escola de Frankfurt. (Nota da IHU On-Line)
           lischer Theologie), na Philosophisch-Theologis-   uma tradução fiel e filosófica, o livro              12 Jasson da Silva Martins: filósofo brasileiro,
           che Hochschule Sankt Georgen em Frankfurt         poderá ser investigado em seus aspec-                graduado em Filosofia pelo Centro Universitá-
           am Main, Alemanha, com a tese Theologie und                                                            rio La Salle (Unilasalle), mestre e doutorando
           Kirche: Erik Petersons Program ‘konkreter         tos dialéticos, platônicos, agostinia-               em Filosofia pela Unisinos, com a tese Angús-
           Theologie’. É doutor em Filosofia, pelo Boston    nos, schellinguianos, hegelianos etc.,               tia e solidão: o problema da subjetividade em
           College, com a tese Amor intellectualis? Leo-     além de ser alvo de estudos de toda a                Kierkegaard e Heidegger. É um dos organiza-
           ne Ebreo (Judah Abravanel) and the intelligi-                                                          dores da obra Ética, direito e política: infle-
           bility of love. É diretor da Revista Portuguesa   chamada área Psi.                                    xões filosóficas (São Leopoldo: Nova Harmonia,
           de Filosofia desde 2000, e leciona Filosofia da                                                        2008). Na presente edição colaborou na elabo-
           Religião e História do Pensamento Contempo-       IHU On-Line - Quais são os seus pro-                 ração de questões e na tradução de algumas
           râneo na UCP, na Faculdade de Filosofia. En-                                                           das entrevistas. (Nota da IHU On-Line)
           tre inúmeras outras atividades, foi diretor do    jetos para os próximos anos à frente                 13 Sílvia Saviano Sampaio: filósofa brasileira,
           Centro de Estudos Filosóficos dessa Faculdade     do Grupo de pesquisa sobre a obra                    graduada em Filosofia e mestre em Educação
           (2001-2007), e é, atualmente, o diretor do        de Kierkegaard (CNPq) da qual é o                    pela Pontifícia Universidade Católica de São
           Programa Integrado de Mestrado e Doutorado                                                             Paulo (PUC-SP). Cursou doutorado em Filosofia
           em Filosofia da Religião na UCP. Participa da     presidente?                                          pela Universidade de São Paulo (USP) com a
           Jornada Argentino-Brasileira de Estudo de         Álvaro Valls - A situação do livro sobre a           tese A subjetividade da existência em Kierke-
           Kierkegaard com a conferência O significado       angústia é similar à da obra de 1849, A              gaard. É docente na PUC-SP. (Nota da IHU On-
           de crise em dialética: a recepção crítica de S.                                                        Line)
           Kierkegaard no pensamento de Erik Peterson.       doença para a morte, conhecida entre                 14 Ilana Amaral: filósofa brasileira, graduada
           Confira, na edição 245 da Revista IHU On-Line,    nós em três ou quatro traduções indire-              em Ciências Sociais pela Universidade Fede-
           de 26-11-2007, a entrevista A fúria do ateís-     tas, e, cada vez mais inexatas, e por te-            ral do Ceará (UFC), mestre em Filosofia pela
           mo contemporâneo tem cariz quase religioso,                                                            Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e dou-
           disponível para download em http://www.           mos grande a esperança no trabalho que               tora em Filosofia pela Pontifícia Universidade
           ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_       o Dr. Jonas Roos, um de nossos quadros               Católica de São Paulo (PUC-SP) com a tese O
           tema_capaItemid=23task=detalheid=836.                                                               “conceito” de paradoxo (constantemente re-
           (Nota da IHU On-Line)                              textos traduzidos pelo Prof. Dr. Álvaro Valls do    ferido a Hegel). Fé, história e linguagem em
           10 Else Hagelund: dinamarquesa, vive no            dinamarquês para o português. (Nota da IHU          S. Kierkegaard. É docente na UFC. (Nota da
           Brasil há alguns anos. Atua como revisora dos      On-Line)                                            IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                                       25

flash.indd 25                                                                                                                                              9/11/2009 18:38:18
e escritores como Thomas Mann17 e Max              suas ideias que até parece que Kierke-
         IHU On-Line - Qual é a atualidade de                 Frisch,18 que se apropriaram tanto dele,           gaard os teria lido. E os teria lido, de
         Kierkegaard no contexto do pensa-                    de forma tão produtiva? Quantas de suas            fato, se tivesse podido, tal como lera
         mento filosófico contemporâneo?                      provocações levaram Lacan e Derrida19 a            Feuerbach21 e leu muito Schopenhauer
         Álvaro Valls - Nos anos 1980, escrevi um             ter novas ideias? E nem falemos da Her-            nos seus últimos cinco anos. Por isso se
         artigo para o Folhetim da Folha de São               menêutica do sujeito e do Cuidado de               pode até lamentar que Nietzsche tivesse
         Paulo, com esse título: A atualidade de              si, de Foucault,20 livros tão próximos de          prometido “ocupar-se com o fenômeno
         Kierkegaard. O editor do Folhetim pre-                edicoes/1158264514.33pdf.pdf. (Nota da IHU        Kierkegaard” apenas em 1889. Foi tarde
         feriu usar como título uma frase de meu               On-Line)                                          demais para ele, mas para nós ainda há
                                                               17 Thomas Mann (1875 - 1955): romancista
         texto: “E não se leu Kierkegaard”. Foi                alemão, considerado como um dos maiores           um bom tempo.
         graças a esse artigo que conheci Vergote,             do século XX. Recebeu o prêmio Nobel da Li-
         que logo apresentei a Reichmann, então                teratura em 1929. Foi o irmão mais novo do
                                                               romancista Heinrich. Ganhou repercussão in-
         a ave rara das boas traduções de Kierke-              ternacional, aos 26 anos, com sua primeira           Leia   mais...
         gaard no Brasil. Vergote congratulava-                obra, Os Buddenbrooks, romance que conta a
                                                                                                                         Álvaro Valls já concedeu outras entre-
         se com os franceses porque agora, com                 história de uma família protestante de comer-
                                                                                                                    vistas à IHU On-Line. Confira o material na nos-
                                                               ciantes de cereais de Lübeck ao longo de três
         as Œuvres Complètes, das Éditions de                  gerações. (Nota da IHU On-Line)                     sa página eletrônica www.ihu.unisinos.br
         l’Orante, traduzidas por Paul-Henri Tis-              18 Max Frisch (1911-1991): arquiteto e escri-
                                                                                                                   Entrevistas:
         seau,15 já podiam ler a obra desse autor.             tor suíço do pós-guerra inlfuenciado pelo exis-
                                                                                                                   * Paulo e Kierkegaard. Edição 175, Paulo de Tarso
                                                               tencialismo e por Brecht. Em suas obras teve
         Hoje já não se pode dizer que, no Brasil,             como tema os efeitos da sociedade moderna           e a contemporaneidade, de 10-04-2006, disponí-
                                                                                                                   vel para download em
         não se leu Kierkegaard. Há vinte anos, foi            sobre o indivíduo ao tratar das crises intelec-
                                                                                                                   http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/
         possível ironizar dizendo que aqui não se             tual, moral e social da contemporaneidade.
                                                                                                                   edicoes/1158346362.52pdf.pdf
                                                               (Nota da IHU On-Line)
         lera, só se escrevera sobre Kierkegaard.              19 Jacques Derrida (1930-2004): filósofo fran-      * “Uma Filosofia brasileira surgirá com tempo e
                                                                                                                   muito trabalho”. Entrevista concedida para as
         Agora não! Os recentes livros de Marcio               cês, criador do método chamado desconstru-
                                                                                                                   Notícias do Dia do sítio do IHU, de 16-11-2006,
         Gimenes de Paula e Jorge Miranda de Al-               ção. Seu trabalho é associado, com freqüência,
                                                                                                                   disponível para download em http://www.ihu.
                                                               ao pós-estruturalismo e ao pós-modernismo.
         meida (que já publicou comigo uma in-                 Entre as principais influências de Derrida en-      unisinos.br/index.php?option=com_noticiasIte
                                                                                                                   mid=18task=detalheid=1673
         trodução, na Zahar) demonstram já ha-                 contram-se Sigmund Freud e Martin Heidegger.
                                                                                                                   * “O que Dawkins vem fazendo atualmente não
         ver bastante consciência da contribuição              Entre sua extensa produção, figuram os livros
                                                                                                                   é ciência, mas sim uma pregação de suposições
                                                               Gramatologia (São Paulo: Perspectiva, 1973),
         desse pensador para as nossas questões.               A farmácia de Platão (São Paulo: Iluminu-           filosóficas indemonstráveis”. Edição 245, O novo
                                                                                                                   ateísmo em discussão, de 26-11-2007, disponível
         Na sociedade de massas, o indivíduo,                  ras, 1994), O animal que logo sou (São Pau-
                                                                                                                   para download em http://www.ihuonline.unisi-
         no sentido enfático, ainda é a categoria              lo: UNESP, 2002), Papel-máquina (São Paulo:
                                                                                                                   nos.br/index.php?option=com_tema_capaItemi
                                                               Estação Liberdade, 2004) e Força de lei (São
         crítica fundamental. Na globalização e                Paulo: WMF Martins Fontes, 2007). Dedicamos         d=23task=detalheid=838
                                                                                                                   * Carlos Roberto Velho Cirne-Lima. Depoimento
         no pensamento da identidade, a defesa                 a Derrida a editoria Memória da IHU On-Line
                                                                                                                   concedido à Edição 261, Carlos Roberto Velho Cir-
         adorniana do não-idêntico provém dire-                edição 119, de 18-10-2004, disponível para
                                                                                                                   ne-Lima. Um novo modo de ler Hegel, de 09-06-
                                                               download em http://www.ihuonline.unisinos.
         tamente de sua tese sobre nosso pen-                  br/uploads/edicoes/1158265374.73pdf.pdf.            2008, disponível para download em http://www.
                                                                                                                   ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_
         sador. O pensamento ético de um Witt-                 (Nota da IHU On-Line)
                                                                                                                   tema_capaItemid=23task=detalheid=1100
         genstein costuma ser relacionado quase                20 Michel Foucault (1926-1984): filósofo fran-
                                                               cês. Suas obras, desde a História da Loucu-
         que exclusivamente a Schopenhauer,                    ra até a História da sexualidade (a qual não
         mas suas leituras de Kierkegaard eram                 pôde completar devido a sua morte) situam-         dade e saber, constituindo verdades, práti-
         de grande seriedade. E o que dizer de                 se dentro de uma filosofia do conhecimento.        cas e subjetividades. Em duas edições a IHU
                                                               Suas teorias sobre o saber, o poder e o sujeito    On-Line dedicou matéria de capa a Foucault:
         pensadores como Heidegger, Lévinas, te-               romperam com as concepções modernas des-           edição 119, de 18-10-2004, disponível para
         ólogos como Barth, Tillich e Bultmann,16              tes termos, motivo pelo qual é considerado         download em http://www.ihuonline.unisinos.
                                                               por certos autores, contrariando a sua própria     br/uploads/edicoes/1158265374.73pdf.pdf e
           15 Paul-Henri Tisseau (1894-1964): tradutor         opinião de si mesmo, um pós-moderno. Seus          a edição 203, de 06-11-2006, disponível em
           das Obras Completas de Søren Kierkegaard.           primeiros trabalhos (História da Loucura, O        http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/
           (Nota da IHU On-Line)                               Nascimento da Clínica, As Palavras e as Coi-       edicoes/1162842466.39pdf.pdf. Além disso, o
           16 Rudolf Karl Bultmann (1884-1976): teólo-         sas, A Arqueologia do Saber) seguem uma li-        IHU organizou, durante o ano de 2004, o even-
           go luterano alemão nascido em Wiefelstede,          nha estruturalista, o que não impede que seja      to Ciclo de Estudos sobre Michel Foucault, que
           Oldenburg, que propôs uma interpretação do          considerado geralmente como um pós-estrutu-        também foi tema da edição número 13 dos Ca-
           Novo Testamento da Bíblia apoiada em con-           ralista devido a obras posteriores como Vigiar     dernos IHU em Formação, disponível para do-
           ceitos de uma filosofia existencialista. Iniciou    e Punir e A História da Sexualidade. Foucault      wnload em http://www.ihu.unisinos.br/uplo-
           como professor sobre sua especialidade, o           trata principalmente do tema do poder, rom-        ads/publicacoes/edicoes/1184009500.55pdf.
           Novo Testamento (1916), em Breslau, Giessen         pendo com as concepções clássicas deste ter-       pdf sob o título Michel Foucault. Sua contri-
           e Marburg. Nessa cidade tomou contato com           mo. Para ele, o poder não pode ser localizado      buição para a educação, a política e a ética.
           Martin Heidegger e a filosofia existencialista,     em uma instituição ou no Estado, o que torna-      (Nota da IHU On-Line)
           que influenciou seu pensamento posterior.           ria impossível a “tomada de poder” proposta        21 Ludwig Feuerbach (1804-1872): filósofo
           Morreu em Marburg, então Alemanha Ociden-           pelos marxistas. O poder não é considerado         alemão, reconhecido pela influência que seu
                                                                                                                            ������������������������������������
           tal. Seu primeiro livro foi Jesus (1926) e e sua    como algo que o indivíduo cede a um sobe-          pensamento exerce sobre Karl Marx. Abando-
           mais famosa obra foi Das Evangelium des Jo-         rano (concepção contratual jurídico-política),     na os estudos de Teologia para tornar-se aluno
           hannes (1941). Na edição 114, de 06-09-2004,        mas sim como uma relação de forças. Ao ser         de Hegel, durante dois anos, em Berlim. De
           publicamos na editoria Teologia Pública um          relação, o poder está em todas as partes, uma      acordo com sua filosofia, a religião é uma for-
           debate sobre a obra Teologia do Novo Testa-         pessoa está atravessada por relações de po-        ma de alienação que projeta os conceitos do
           mento, com a participação de Nélio Schneider        der, não pode ser considerada independente         ideal humano em um ser supremo. É ���������
                                                                                                                                                         autor de
           e Johan Konings, disponível para download em        delas. Para Foucault, o poder não somente          A essência do cristianismo (2ª. ed. São Paulo:
           http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/           reprime, mas também produz efeitos de ver-         Papirus, 1997). (Nota da IHU On-Line)

         26                                                                                         SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314


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A filosofia pós-moderna e a força infinita do espírito humano
         Exortações “tu deves crer” e “tu deves amar” são caminho alternativo ao relativis-
         mo modernista, observam Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti. Espírito huma-
         no dotado de força infinita, em contraposição ao niilismo, é que tem a ver com a
         filosofia pós-moderna

         Por Márcia Junges e Jasson Martins | Tradução Jasson Martins




         O
                       s estudos sobre Kierkegaard na Argentina avançaram muito, mas ainda não o bastante,
                       analisam Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti na entrevista que concederam, em
                       conjunto, por e-mail, à IHU On-Line. Para diversos pesquisadores, dizem elas, a oposição
                       entre a filosofia do dinamarquês e a de Friedrich Hegel, não tem mais sentido. Utilizando-
                       se de uma expressão hegeliana, Fioravanti e Binetti afirmam que os que lutam se abra-
         çam. “Partindo desse ponto de vista, é inegável que Kierkegaard é devedor do pensamento do filósofo
         alemão, à medida que boa parte de sua obra é uma discussão, por vezes até violenta, com Hegel”. E
         complementam: “O problema essencial, cremos, é que a utilização de certos conceitos idênticos distrai
         do como devem ser entendidos”. È o caso dos termos angústia, desejo, temor, finito, infinito, absoluto,
         verdade, singularidade e espécie, familiares para os leitores de Kierkegaard, e que já “tinham sido
         tratados anteriormente por Hegel”. Para elas, a filosofia pós-moderna “não tem a ver com um niilismo
         relativista, mas sim com a força infinita do espírito humano, tal como Kierkegaard o concebeu”. À onda
         de “direitos de todo tipo e cor que desencadeou o modernismo, ele opôs como único caminho, inclusive
         para alcançar esses mesmos direitos, o ‘tu deves crer’ e o ‘tu deves amar’”.
             Ana María Fioravanti é professora particular e tradutora. Membro fundadora da Biblioteca Kierkegaard
         Buenos Aires e responsável pelos projetos desenvolvidos atualmente por esta Instituição, traduziu ao es-
         panhol (a partir da tradução italiana) alguns textos de Kierkegaard e colaborou com a tradução da obra El
         instante (Madrid: Trotta, 2006). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard da parte Argen-
         tina, apresenta a comunicação De Vassallo a Kierkegaard: finitude e transcendência.
             Maria Jose Binetti é licenciada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica Argentina Santa
         María de los Buenos (UCA). Doutora em Filosofia pela Universidade de Navarra, Espanha, é pesquisa-
         dora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet). Leciona na Universidade
         John F. Kennedy, na Argentina. Além de artigos em revistas nacionais e internacionais, publicou os
         seguintes livros: El poder de la libertad. Introducción a Kierkegaard (Buenos Aires: Ciafic, 2006), La
         posibilidad necesaria de la libertad. Un análisis del pensamiento de Søren Kierkegaard (Universidad
         de Navarra: Pamplona, 2005). Colaborou com a tradução de El instante (Madrid: Trotta, 2006). Na
         Jornada Argentino-Brasileira, apresentou o tema O impacto de Kierkegaard na emergência do sujeito
         contemporâneo. Confira a entrevista.


         IHU On-Line - Como surgiu a Biblio-               se dirigiram à Igreja Dinamarquesa        de Kierkegaard e os escritos de outros
         teca Kierkegaard e quais são seus                 em Buenos Aires, onde depois de um        autores sobre Kierkegaard. Porém, na
         objetivos?                                        tempo e com a ajuda inestimável do        realidade, o nosso principal objetivo,
         Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi-             pastor Andrés Albertsen formaram um       desde o princípio, foi não só estudar
         netti - Essa ideia nasceu de um fato              grupo de estudos, ao qual concorriam      e difundir o pensamento do “Gran-
         realmente fortuito. Um professor de               pessoas de diversas características       de Dinamarquês”, como o chamamos
         filosofia, Oscar Cuervo, e um licen-              e ocupações, como estudantes, pro-        um pouco de brincadeira e um tanto
         ciado em psicologia, Héctor Fenoglio,             fessores, artistas, e outros. Dois anos   sério, mas trabalhar especialmente
         decidiram, por volta do ano 2000, es-             mais tarde, em dezembro de 2002,          com os grandes equívocos, confusões
         tudar dinamarquês para ler Kierkega-              tivemos a ideia de organizar uma bi-      e tergiversações em torno aos concei-
         ard em seu idioma original e para isso            blioteca que reunisse todas as obras      tos-chave, a maioria decorrentes da
          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                 27

flash.indd 27                                                                                                                        9/11/2009 18:38:20
falta de clareza para distinguir entre    de, singularidade e espécie etc., tão     ta-se do estado de direito, onde não
         os escritos de Kierkegaard assinados      familiares para os leitores de Kierke-    basta um reconhecimento formal mas
         com pseudônimos, e os que assinava        gaard, também tinham sido tratados        uma apropriação igualitária do poder,
         com seu próprio nome. Creio que este      anteriormente por Hegel. No entanto,      a riqueza e a informação que, como
         é o propósito que eu assinalaria como     o modo em que se põe a relação entre      diz o professor Cullen, um especia-
         o mais importante, se tivesse que es-     ambos os autores é muito diferente.       lista em Hegel, são respectivamente
         colher um, para caracterizar o maior      Para Hegel, o que singulariza o ho-       a homenagem de Hegel à Revolução
         empenho da Biblioteca Kierkegaard         mem é o desejo, porém esse desejo se      Francesa, à economia de mercado e à
         Argentina: tratar de pouco a pouco co-    torna infinito e então aparece a ação     Ilustração. Porém a Revolução France-
         locar alguma caridade sobre o históri-    enquanto luta pelo reconhecimento         sa pode desembocar no terror, a eco-
         co e grave mal-entendido que consiste     do outro como desejo, que é uma luta      nomia de mercado na alienação, da
         em confundir indiscriminadamente o        até a morte, porque o eu que dese-        riqueza e a Ilustração em uma relação
         que dizem os escritos chamados pseu-      ja o deseja todo. Só a transformação      satisfeita com o presente, e a fé, uma
         dônimos ou estéticos e os chamados        da vida em cultura, a ação que, como      fuga do mundo.
         religiosos ou edificantes. Quer dizer,                                                  Portanto, o reconhecimento do outro
         o mal-entendido de não saber escutar                                                só se dá naquilo que Hegel chama o sim
         e reconhecer as vozes que falam em           “A pós-modernidade                     do perdão, fundado na solidariedade e
         cada caso.                                                                          na fraternidade. Pois bem, Kierkegaard
                                                         hermenêutica e                      não fala de solidariedade e fraternidade
         IHU On-Line – O que ocorreu com a                                                   nem de superação através do Espírito ab-
         recepção do pensamento de Kierke-                 desconstrução                     soluto. Suas categorias não são teológi-
         gaard, sobretudo a comentada opo-                                                   cas, nem filosóficas, nem estéticas. Toda
         sição a Hegel, para que ficasse tão       assumem de Kierkegaard                    sua vida se concentrou em um só propó-
         marcada na história da filosofia do                                                 sito: como tornar-se cristão e em escla-
         século XIX? Esse é um problema atu-       os conceitos de diferença                 recer como a pregação deveria consistir
         al, ou hoje em dia não faz sentido                                                  em que um indivíduo singular (Enkelte,
         essa oposição?                             e repetição, paradoxo,                   em dinamarquês, que significa alguém
         Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi-                                               singular, único) falasse como indivíduo
         netti - Sobre este tema, as opiniões       possibilidade, instante,                 singular a outro indivíduo singular. Esse
         estão muito, muito divididas. Atual-                                                falar consiste propriamente, e sobretu-
         mente, há inúmeros pesquisadores que         inter-esse ou ser-no-                  do, em um convite a ouvir a palavra re-
         pensam que o antagonismo entre He-                                                  veladora que é a pessoa de Cristo, e que
         gel e Kierkegaard já não tem sentido      meio-de, e inclusive sua                  não é nenhum Espírito absoluto que vai
         e existe uma tendência a assimilá-los                                               se desenvolvendo na história.
         mais que a opô-los. Creio que era He-       consistência religiosa,                     Aqui não tem nada que ver a histó-
         gel que dizia que os que lutam se abra-                                             ria, porque todo cristão, em qualquer
         çam. E partindo desse ponto de vista,     fundada na decisão da fé                  época e lugar, tem que ser contempo-
         é inegável que Kierkegaard é devedor                                                râneo de Cristo. Ele não ensina a ver-
         do pensamento do filósofo alemão, à       e estabelecida para além                  dade. Ele é a verdade que torna mani-
         medida que boa parte de sua obra é                                                  festo o único amor que não pode surgir
         uma discussão, por vezes até violenta,    de toda igreja instituída”                do coração de nenhum homem: o amor
         com Hegel. De modo que é necessário                                                 ao próximo, que inclui o amado, o ami-
         conhecer bem Hegel para compreen-                                                   go e ainda o inimigo. Gostaríamos de
         der melhor Kierkegaard. No entanto,       diz Hegel, produz um eu que é um nós      reforçar que em um de seus livros fun-
         esse antagonismo ainda segue vigente      e um nós que é um eu, pode superar        damentais, As obras do amor, repete
         e quase nos atreveríamos a dizer que,     de algum modo essa luta. O que ele        uma e outra vez que esse amor não
         mais que do nunca. Sabemos que esta       chama o sim do perdão, o salto que        surge do coração de nenhum homem.
         afirmação que, por outro lado, é com-     superaria o mal radical, só é possível    E, portanto, frente a esse amor, só se
         partilhada pela maioria dos integran-     pela presença do espírito que vive en-    pode crer ou não crer.
         tes da Biblioteca Kierkegaard Argen-      tre nós através da arte, a religião e,        A exposição, ao menos para nós, é
         tina, provoca sempre os debates mais      acima desse espírito, a filosofia, quer   muito diferente. Na encruzilhada de
         inflamados e apaixonados. O problema      dizer o saber absoluto.
                                                                                               Essa obra foi publicada originalmente em
         essencial, cremos, é que a utilização                                                1847. Em 2005, foi publicada a primeira edi-
         de certos conceitos idênticos distrai     O sim do perdão                            ção em língua portuguesa, com tradução do
         do como devem ser entendidos. Con-                                                   professor Alvaro L. M. Valls: As obras do amor.
                                                                                              Algumas considerações cristãs em forma de
         ceitos tais como angústia, desejo, te-       Trata-se de uma questão ética e         discursos (Bragança Paulista/Petrópolis: Edito-
         mor, finito, infinito, absoluto, verda-   política, trata-se de um saber. Tra-       ra Universitária São Francisco/Editora Vozes,
                                                                                              2005). (Nota da IHU On-Line)

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cada caminho singular está proposto o        ças entre o espírito nórdico e o espírito
         convite. Um convite que se oferece a         latino não são poucas. A soma de ambos
         cada um e a todos, e que não se pode         os fatores é o que me parece ter atra-
         aceitar sem escândalo nem paradoxo.          sado o ingresso de Kierkegaard em nos-




                                                                                                                                         Informações em www.ihu.unisinos.br
         Creio que entre um e outro não existe        sos países, ou ao menos ter feito com
         reconciliação possível, e que a oposição     que ele fosse conhecido por intermédio
         Hegel-Kierkegaard continua sendo deci-       de terceiros pensadores, tais como Mi-
         siva também em nossos dias e nos dias        guel de Unamuno. Não obstante, e em
         que virão. É lógico, em uma época em         pé de igualdade com o resto do mun-
         que o liberalismo tem triunfado em todas     do, seus estudos começam atualmente
         suas formas, cada qual pode interpretar      um caminho de crescimento e amadu-
         o que quiser e como quiser. E é possí-       recimento também na América Latina,
         vel que isso mesmo contribua à tarefa        cujo reflexo vemos nas instituições tais




                                                                                                         Espaço de Espiritualidade II:
         esclarecedora da qual falávamos no iní-      como a Sociedade Iberoamericana de




                                                                                                          “Encontro com a Palavra”.
         cio. Porém, não estamos tão seguras. A       Estudos Kierkegaardianos (México), a
         luta de Kierkegaard consistiu em querer      Sobreski (Brasil) e a Biblioteca Kierke-
         tirar o engano, a confusão e a ilusão de     gaard Argentina.
         qualquer paraíso imaginário, social, po-
         lítico, cultural ou individual. Parece-nos   IHU On-Line - Qual é a atualidade de
         que à torrente de direitos de todo tipo      Kierkegaard no contexto do pensa-
         e cor que desencadeou o modernismo,          mento filosófico contemporâneo?
         ele opôs como único caminho, inclusive       Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi-
         para alcançar esses mesmos direitos, o       netti - A atualidade de Kierkegaard é
         “tu deves crer” e o “tu deves amar”.         muito grande, ao ponto de animar-nos
                                                      a dizer que a constituição da subjetivi-
         IHU On-Line – Por que Soren Kierke-          dade contemporânea proposta - entre
         gaard não é um autor popular na              outros - por J. Derrida, G. Deleuze, J.-L.
         América Latina?                              Nancy, J. Caputo o M. Taylor conserva as
         Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi-        determinações fundamentais da subje-
         netti - Em primeiro lugar, porque a fi-      tividade kierkegaardiana. A pós-moder-
         losofia enquanto ciência não pode ser        nidade hermenêutica e a desconstrução
         popular. Em segundo lugar, e vendo o         assumem de Kierkegaard os conceitos de
         caso particular de Kierkegaard, por-         diferença e repetição, paradoxo, possi-
         que ele não foi popular nem sequer           bilidade, instante, inter-esse ou ser-no-
         em seu próprio país. Sabemos que sua         meio-de, e inclusive sua consistência
         obra começou a ser conhecida na Eu-          religiosa, fundada na decisão da fé e es-
         ropa apenas depois da Segunda Guerra         tabelecida para além de toda igreja ins-
         Mundial, e recém hoje podemos dizer          tituída. O sujeito contemporâneo possui
         que seus estudos gozam de um flores-         a validade absoluta do singular kierkega-
         cimento internacional, sustentado em         ardiano, e é precisamente sua elevação
         grande parte pelo apoio institucional        a uma infinitude possível a que questio-
         do Centro de Estudos de Copenhague           na e problematiza a finitude temporal
         e da Hong Kierkegaard Library, assim         da existência, ao mesmo tempo em que
         como também pelas sociedades kierke-         supera os limites fixos e abstratos do en-
         gaardianas espalhadas pelo mundo             tendimento formal. No lugar da destitui-
         inteiro. No caso da América Latina, o        ção e do ocaso do sujeito, o que parece
         que tem dificultado ainda mais a tarefa      haver hoje em dia é uma convalidação
         de recepção e difusão de sua obra é,         de sua força absoluta, a respeito da qual
         na minha opinião, e antes de tudo, a         o pensamento de Kierkegaard se mostra
         barreira idiomática que nos separa do        como a maior influência. Neste sentido,
         dinamarquês, muito menos acessível e         entendemos que a filosofia pós-moderna
         motivador que, por exemplo, o idioma         não tem a ver com um niilismo relati-
         alemão. Em consonância com esta eu           vista, mas sim com a força infinita do
         considero que existe também uma es-          espírito humano, tal como Kierkegaard
         pécie de barreira cultural. A Dinamarca      o concebeu.
         é um país isolado, inclusive no que diz        Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1936): es-
         respeito à própria Europa, e as diferen-      critor, poeta e filósofo espanhol. (Nota da IHU
                                                       On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                                                          29

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O texto como arena
         Livro do pensador dinamarquês não pode ser classificado facilmente, e sinaliza ques-
         tões só discutidas na segunda metade do século XX. Além disso, menciona Jacqueline
         Ferreira, é palco de confronto entre ações e pontos de vista

         Por Márcia Junges e Jasson Martins




         U
                       ma obra de difícil classificação. Seria um gênero ficcional? Filosófico? Literário? Romance?
                       Tratado estético? Na opinião de Jacqueline Ferreira, em entrevista concedida por e-mail
                       à IHU On-Line, a leitura de Either/Or (A alternativa), obra de Kierkegaard de 1843,
                       “aponta aporias que escapam a própria teoria da literatura, antecipando, no século XIX,
                       questões abordadas pela crítica somente na segunda metade do século XX, tais como: au-
         toria, autobiografia, sujeito da escrita, pseudonímia, heteronímia”. Esse livro “joga com o movimen-
         to da própria escrita, joga com sua própria autorrepresentação, ou seja, joga com aquilo que o texto
         mostra no seu processo contínuo, ininterrupto de significações”. É um texto como arena, explica a
         pesquisadora, “lugar de confronto entre ações e pontos de vista”.
             Graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em Belo Horizonte (FAFI), Ja-
         cqueline possui mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, e
         doutorado em Literatura Comparada pela mesma Universidade. Sua dissertação focou os aspectos lite-
         rários da obra O diário do sedutor, e em sua tese fez uma análise literária do prefácio do livro Either/Or
         no que diz respeito à autoria, pseudonímia, memória, texto, escrita e leitor. Na Jornada Argentino-Bra-
         sileira de Estudos de Kierkegaard, apresenta a comunicação O prefácio ficcional de “Either/Or” - espaço
         de jogo, jogo constante de escrita, reescrita e leitura, em 13 de novembro. Confira a entrevista.


         IHU On-Line - Como você define o           As concepções sobre estética, ética         critor com sua própria escrita e coloca
         espaço de jogo na obra Either/Or de        e religião são desenvolvidas de acor-       em jogo não só o papel do autor como
         Kierkegaard?                               do com o perfil e ação representados        leitor (e vice-versa), autor-leitor seres
         Jacqueline Ferreira - Primeiramen-         pelo personagem específico, embora          ficcionais, mas do próprio texto como
         te, como leitora de Either/Or, não         nenhum posicionamento seja fechado          arena, lugar de confronto entre ações
         me prendo à consciência estética ou        ou concluído dentro de um único ponto       e pontos de vista. Então, por essa
         à natureza do jogo em si, mas à ex-        de vista para o leitor. O próprio título    mesma ideia de perda da origem e de
         periência provocada pela leitura do        – Either/Or –, comprova que a narrati-      infinitude passa, metaforicamente, a
         texto, pela escrita de Kierkegaard,        va reverbera no seu próprio interior, e     questão autoral, vale lembrar que os
         por seu jogo pseudonímico. Então, se       seu conteúdo filosófico adquire maior       autores estão incrustados uns nos ou-
         o sentido do texto não se esgota na        sentido quando a obra é lida no todo,       tros como “caixinhas chinesas” – pro-
         subjetividade do autor e muito menos       quando Kierkegaard traz à cena o seu        cedimento escritural que invoca não só
         na objetividade do dado representa-        “Either” ou “Or” da decisão. Além dis-      a marca de ficção do texto, mas tam-
         do, Either/Or joga com o movimento         so, a ficção ficcionaliza o real e o fic-   bém que recorre ao modelo clássico de
         da própria escrita, joga com sua pró-      cional através do jogo irônico em que       ironia romântica. Se nos apropriarmos
         pria autorrepresentação, ou seja, joga     o texto joga com sua própria ironia.        da imagem de um dado, cujas seis fa-
         com aquilo que o texto mostra no seu       Se Victor Eremita, então pseudônimo,        ces sempre determinam, sem qualquer
         processo contínuo, ininterrupto de sig-    carrega em si a função de autor de for-     previsibilidade, o lance de movimento
         nificações. A ficção é, sem dúvida, o      ma indireta e nega sua implicação au-       do jogo para o jogador, observaremos
         lugar privilegiado do jogo, do jogo dis-   toral, efetiva-se o movimento de jogo       que, analogamente, Kierkegaard, em
         posto no campo da representação no         que não se relaciona à ação negada,         Either/Or, redimensiona o jogo entre
         qual se articulam as operações textu-      mas à negação do próprio pseudôni-          palavra e ideia, poética e ironia. Além
         ais, promovendo a inter-relação entre      mo, que procura romper com a ideia          do mais, não se limita a jogar com a
         autor-texto-leitor. Por outro lado, “Ei-   de ilusão. Victor Eremita, pois, pseu-      escritura e o leitor, mas transforma o
         ther/Or” é obra dialética, os escritos     dônimo de Kierkegaard, dissolve-se no       próprio jogo autoral em instrumento
         de A e B estão em constante diálogo.       texto, resultando na distância do es-       de rebeldia, processo de libertação,
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de afirmação perante os seus questio-         pensamento. Para muitos críticos, os       IHU On-Line - A sua formação é na
         namentos de ser no mundo.                     pseudônimos constituem, sobretudo, a       área de literatura comparada. Tendo
                                                       expressão formal da estratégia adequa-     isso em mente, poderia indicar al-
         IHU On-Line - Na sua percepção, exis-         da à manifestação da subjetividade, da     gumas “inovações” ou “tendências”
         te alguma relação de semelhança en-           comunicação indireta, em oposição cla-     de estilo ou forma na composição
         tre o estilo literário de Kierkegaard         ra à linguagem disseminada pelo pensa-     kierkegaardiana?
         e a pseudonímia por ele criada? Se            mento filosófico da época. Kierkegaard     Jacqueline Ferreira - As inquietações
         sim, qual é esta relação?                     jamais quis indicar caminhos certeiros     filosóficas e, sobretudo, as provoca-
         Jacqueline Ferreira - Interessante, tal-      ou estruturas sistemáticas definidas       ções literárias advindas dos escritos
         vez, seja perceber que a concepção de         ao seu leitor. Através da pseudonímia,     de Kierkegaard demarcam meu olhar e
         ironia em Kierkegaard é a base para o         procurou conduzi-lo ao movimento           lugar de leitora, e também a tentativa
         estudo da dialética do jogo em Either/        articulado das relações entre o seu        de interpretá-lo à luz das teorias em
         Or, obra que ecoa no jogo de reflexão e       projeto de escritor existencialista e      torno do autor, do leitor e do próprio
         de ironia do próprio autor. Além disso, a                                                texto, com a ousadia de ir além de sim-
         ironia é que recorta a “comunicação in-                                                  ples revisão da fortuna crítica do au-
         direta”, ou seja, o jogo dos pseudônimos         “As concepções sobre                    tor. Principalmente, através da leitura
         no domínio do texto, sendo, pois, o eixo                                                 de Either/Or, acredito ser possível re-
         que articula e orienta as discussões e         estética, ética e religião                colocar alguns conceitos inerentes ao
         pontos de vista da filosofia existencial de                                              próprio discurso crítico para repesar-
         Kierkegaard, principalmente no tocante           são desenvolvidas de                    mos os lugares da autoria e da recep-
         aos três estádios da existência que, na                                                  ção não como demarcações estanques
         verdade, são determinações subjetivas            acordo com o perfil e                   ou fechadas em si mesmas, mas como
         do indivíduo em particular. A ironia para                                                jogo dinâmico do revés de uma mesma
         Kierkegaard é o mal-entendido, a duali-        ação representados pelo                   moeda. Contudo, perguntas aparente-
         dade entre o fenômeno e o conceito, o                                                    mente simples são difíceis de ser res-
         início da ironia manifesta-se em Sócra-        personagem específico,                    pondidas, por exemplo: a que gênero
         tes, pelo silêncio da pergunta sem res-                                                  pertence a obra Either/Or? Kierkega-
         posta. Para Kierkegaard, a ironia consis-            embora nenhum                       ard cria um texto filosófico? Ficcional?
         te em dizer, em tom sério, o que não é                                                   Literário? Um romance? Ou um tratado
         pensado seriamente, embora, de forma              posicionamento seja                    estético? A leitura de Either/Or aponta
         mais rara, possamos lançar mão da retó-                                                  aporias que escapam a própria teoria
         rica irônica ao dizer algo sério em tom          fechado ou concluído                    da literatura, antecipando, no século
         de brincadeira. De ambas as maneiras, a                                                  XIX, questões abordadas pela crítica
         ironia é arte sedutora, encerrando algo           dentro de um único                     somente na segunda metade do século
         de enigmático, paradoxalmente, revela-                                                   XX, tais como: autoria, autobiografia,
         dor. Curioso é que Kierkegaard, ao lançar          ponto de vista para                   sujeito da escrita, pseudonímia, hete-
         mão das estratégias da ironia romântica                                                  ronímia (esta última tratada por Fer-
         na escrita de Either/Or, contrapõe-na                      o leitor”                     nando Pessoa através dos seus textos
         fervorosamente à ironia socrática. Em                                                    máscaras). Borges é outro a ficciona-
         sua opinião, a ironia preconizada pelos                                                  lizar, ao extremo, o eu, se inventando
         românticos representava apenas a brin-        o mundo representado pelos pseudô-         como personae em seus textos. Ei-
         cadeira descomprometida com a realida-        nimos, impulsionando-o a indagar sua       ther/Or apresenta caráter ficiconal e
         de dada, a ilusão que, simultaneamente,       própria existência. Nesse sentido, os        Fernando Pessoa (1888-1935): escritor por-
         rompia com o espírito de seriedade das        leitores e estudiosos desse autor não       tuguês, considerado um dos maiores poetas de
         obras literárias e assegurava a manifes-      devem investigar e descrever somente        língua portuguesa. (Nota da IHU On-Line)
                                                                                                    Jorge Luiz Borges (1899-1986): escritor,
         tação do autor por trás dos personagens       o que Kierkegaard disse, mas, sobretu-      poeta e ensaísta argentino, mundialmente co-
         criados e da própria narrativa.               do, considerar como ele disse. Assim        nhecido por seus contos. Sua obra se destaca
             A ironia socrática, diferentemente,       sendo, importa reconhecer os recursos       por abordar temáticas como filosofia (e seus
                                                                                                   desdobramentos matemáticos), metafísica,
         preocupava-se em promover no indi-            estéticos de sua escrita, assimilando os    mitologia e teologia, em narrativas fantásticas
         víduo mudanças comportamentais em             seus significados, mas tais significados    onde figuram os “delírios do racional” (Bioy
         relação à existência, partindo de inte-       não são facilmente recuperados pela         Casares), expressos em labirintos lógicos e
                                                                                                   jogos de espelhos. Ao mesmo tempo, Borges
         riorização de reflexões filosóficas, em-      leitura por não se apresentarem de for-     também abordou a cultura dos Pampas argen-
         bora, se assim podemos dizer, fazendo         ma simples. Na verdade, Kierkegaard,        tinos, em contos como A morte, O homem da
         uso do adereço estético. Com efeito, o        embora criticasse o romantismo, recor-      esquina rosada e O sul. Sobre Borges, confira a
                                                                                                   edição 193 da IHU On-Line, de 28-08-2006, in-
         emprego sistemático da pseudonímia            re aos artifícios da escola romântica,      titulada Jorge Luiz Borges. A virtude da ironia
         é considerado na exegese da obra de           deslocando e reinventando os sentidos       na sala de espera do mistério, disponível para
         Kierkegaard, variável facilmente re-          dos seus textos, invertendo a comuni-       download em http://www.ihuonline.unisinos.
                                                                                                   br/uploads/edicoes/1158343116.57pdf.pdf.
         missível aos aspectos teóricos de seu         cação com o leitor.                         (Nota da IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                       31

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teórico ao mesmo tempo, sendo, pois,       e, por incrível que pareça, se aplica       reveste sua arte de signos e rituais,
         gênero literário misto, deslizando nas     muito bem à sua pergunta. Ouvi di-          artifícios reconhecidos como truques,
         próprias armadilhas literárias.            zer que escrever é um ato de liberta-       como magia que tentam destruir, atra-
                                                    ção, gesto que deve ser realizado sem       vés do encantamento, a ordem de to-
         IHU On-Line - O espaço da ficção lite-     medo, deixando-se, apenas, seduzir          das as verdades. Ao filósofo Platão,
         rária é o espaço do imaginário subje-      pelas palavras, pelo texto que se ins-      associa-se a ideia de erotismo como
         tivo? Como você percebe isso?              creve na folha em branco, enfim, pelo       impulso vital que ascende ao bem su-
         Jacqueline Ferreira - Primeiramente,       eu da escrita, pelo outro eu dentro do      premo, purificando a alma à medida
         gostaria de lembrar que essa questão       texto. Nesse sentido, vejo que, assim,      que esta se distancia da sexualidade,
         entre o fictício e o imaginário foi mui-   são os textos de Kierkegaard. Eles nos      simplesmente, animal. Contudo, na
         to bem analisada por Wolfgang Iser. A      seduzem, nos enlaçam, nos fisgam com        própria história primitiva da sexuali-
         literatura faz com que o texto ficcio-     os seus jogos de leitura e escrita: com     dade humana, algumas posturas mora-
         nal se desagregue de todas as moldu-       suas chaves de leitura complexas que        listas e “antieróticas” foram descarac-
         ras da realidade, pois a ficção não se     pluralizam a enunciação e os horizon-       terizando o lado sagrado do erotismo,
         compromete com o real, apenas abre-        tes de expectativa da recepção. Con-        acentuando pontos que o colocaram
         se em lacunas, em fendas, em brechas       tudo, se posso reportar-me a uma ima-       em oposição radical à religião, tornan-
         para poder representá-lo através da        gem, vem à tona o Pequeno Príncipe,         do-o algo imundo, sujo, repulsivo. Por
         presença do imaginário em seu fazer        de Saint-Exupéry. Lembro-me muito           outro lado, obsceno, profano ou não,
         ficcional de comunicação com o leitor      da tradução da principal frase do livro     a questão do amor, juntamente com os
         e o próprio texto. Por outro lado, em      “apprivoise-moi” que o tradutor ver-        seus enigmas – a sedução, o erotismo,
         “Either/Or”, por exemplo, Kierkega-        teu por “cativa-me”, e que, igualmen-       o desejo e o sexo –, tornou-se lugar co-
         ard apresenta várias narrativas em         te, poderia ser traduzido por “prenda-      mum na literatura, levando muitos po-
         constantes confrontos e vazios, cuja       me”, “domestica-me”, “amansa-me”,           etas a uma reflexão sobre o tema. Se,
         importância reside justamente no es-       acredito que os textos de Kierkegaard       para Paz, o poema não aspira a dizer,
         tado suspensivo do mundo aberto à          e, aqui, muito particularmente, re-         e sim a ser, a literatura, a poesia, não
         decifração do leitor. O que não foi,       corro ao Diário de um Sedutor, é uma        vislumbra somente a comunicação,
         explicitamente, escrito por Kierkega-      obra que nos prende em suas amarras         como o erotismo nunca vislumbraria
         ard, no texto, é justamente o eixo que     literárias, discursivas através da histó-   a reprodução, ou seja, podemos en-
         estimula a ação criativa e imaginativa     ria erótica entre o esteta sedutor Jo-      tender que a relação entre erotismo
         do leitor, ou seja, o oculto atua como     hannes e a jovem Cordélia.                  e literatura (e poesia) é que a primei-
         projeção do não-dito na própria cons-                                                  ra configura como poética corporal e
         trução textual. A ficção que se cons-      IHU On-Line - É fato que alguns pseu-       a segunda como poética verbal. Nessa
         trói desse modo, instaura condições        dônimos de Kierkegaard personifi-           rede metafórica de significados, tanto
         de comunicação e suscita o jogo de         cam o “momento estético” da sua             o fazer erótico quanto o fazer poético,
         respostas decorrentes dos efeitos es-      obra. Para você, literariamente fa-         estético, atos que reinventam o cor-
         téticos produzidos na mente do leitor.     lando, qual a relação entre sedução         po e a palavra, encontram-se, para-
         Se isso pode ser dito, lato sensu, sobre   e literatura?                               doxalmente, numa mesma “oposição
         qualquer obra ficcional, no caso da es-    Jacqueline Ferreira - Para responder        complementar”: a literatura, a poe-
         crita de Kierkegaard, essa suspensão       essa pergunta, trarei à cena algumas        sia, desvia a linguagem de sua função
         se dá como projeto escritural que vai      palavras do escritor Octavio Paz, em        primeira e imediata, a comunicação;
         sendo explicitado simultaneamente ao       seu livro A dupla chama – amor e ero-       o erotismo, através do jogo de repre-
         seu processo de construção, de jogo        tismo. Como sabemos, a sedução é um         sentações, desvia o corpo de sua fina-
         levado a extremos labirínticos através     vocábulo de origem latina que signifi-      lidade essencial, a reprodução. Daí ser
         das sobreposições de eus escriturais.      ca atração, encantamento e fascínio,        a literatura, a poesia, uma erotização
                                                    além de ser o artifício impulsionador       da linguagem, e o erotismo, sexualida-
         IHU On-Line - É sabido que o estilo        do fenômeno erótico através da re-          de transfigurada em metáfora. Junta-
         dos escritos kierkegaardinos é apai-       criação e reinvenção do próprio corpo.      mente, com a imaginação, literatura,
         xonante e, por isso mesmo, exercem         No momento de sedução, os sentidos          poesia e erotismo são elementos que
         um fascínio nas pessoas que o leem.        não mais demarcam os limites e as           potencializam o desejo da constante
         A que se deve esse fenômeno?               confluências do certo, errado ou proi-      “sede de outridade”.
         Jacqueline Ferreira - Como foi dito,       bido; ao contrário, sem perder seus
         a minha formação é na área de Lite-        poderes, convertem-se em servidores         IHU On-Line - Para você, qual é a atu-
         ratura Comparada, e minha paixão por       da imaginação, libertando os fantas-        alidade do pensamento de Kierkega-
         Kierkegaard perpassa (e muito) por         mas mais secretos do desejo, a fim de       ard no contexto atual?
         seus escritos estéticos, por sua esté-     proporcionarem maior intensidade à          Jacqueline Ferreira - Após mais de um
         tica do artifício, os seus personagens-    pouca duração do gozo. Ao entrelaçar        século e meio de certa incompreensão
         pseudônimos tão sedutores. Certa vez,      no exercício poético da imaginação          e desapreço, os textos do pensador
         ouvi algo apaixonante sobre a escrita      erotismo e sensualidade, o sedutor          dinamarquês parecem ganhar lugar
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de destaque não só nas bibliotecas e
         livrarias da Dinamarca, mas no mundo
         inteiro. O interesse pelas obras desse
         polêmico autor não se circunscreve
         apenas à área dos pesquisadores ou
         críticos escandinavos, embora o alcan-
         ce e a diversidade de seu pensamento
         também não facilitem a tarefa de ana-
         lisar os múltiplos aspectos de sua escri-
         ta filosófica e literária. Aliás, muito do
         que já se escreveu sobre Kierkegaard
         é considerado, quase sempre, estudo
                                                      Peça para Lula
         apenas introdutório, mas que se impõe
         sempre a investigações amplas tanto
         para o pesquisador da filosofia, da li-
         teratura e das mais variadas áreas do
                                                      defender o clima
         conhecimento.
             Mais especificamente, na literatura,
         a pseudonímia de Kierkegaard traz à
         cena personae contrastantes que per-
         turbam a possibilidade de unificação
         em torno de um nome, obrigando-nos a
         refletir sobre os diversos eus kierkega-
         ardianos. Jogo constante não somente
         do autor consigo mesmo, mas, sobretu-
                                                      Campanha
                                                      tic tac
         do, ludicamente, com o leitor. Kierke-
         gaard suscita questões teóricas atuais
         em torno do fenômeno estético e dos
         indícios de sua recepção, ou seja, a




                                                          tic tac.
         apreensão das relações de leitura en-
         cenadas por seus textos.
             A Literatura Comparada é atividade
         crítica que não exclui o fator histórico,
         e sim lida amplamente com os dados li-
         terários e os extraliterários, fornecendo
         à historiografia e teorias literárias base
         fundamental de pesquisa. Nesse sen-
         tido, muito embora não seja nenhuma
         novidade, é importante dizer que estu-
         dar Kierkegaard na contemporaneidade
         demanda uma discussão crítica capaz de
         rastrear o autor no propósito de re-sig-
         nificar respostas e reformular questões,
         propiciar e ampliar o universo de expec-
                                                      Contribua com o futuro do
         tativas do leitor contemporâneo.
             Além disso, também na perspectiva
         da Literatura Comparada, o processo de
                                                      planeta e registre seu nome
         escritura de Kierkegaard deixa lacunas
         em sua interpretação, abrindo possibi-
         lidades para estudos atuais. Nessa dire-     no link http://www.avaaz.
         ção, poderíamos analisar como oscila-
         ção – e até mesmo como reverberações
         complexas – a coletividade, a autono-
         mia e disseminação da voz dos pseudô-
                                                      org/po/peticao_tictac_lula/
         nimos, principalmente no estádio esté-
         tico; a singularidade, reafirmação do eu
         autor em Ponto de vista explicativo da
         minha obra como escritor.
          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                33

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Siga                         o

                                                              do   IHU




                    http://twitter.com/_ihu
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Teologia Pública
         Um Deus para cada contexto
          Na opinião de Julius Lipner, todos os sistemas religiosos vitais precisam
          adaptar-se para sobreviver

          Por Patricia Fachin | Tradução Lucas Schlupp




          C
                     ontinuando o debate sobre as religiões chinesas, indianas e africanas, tema de capa da
                     edição número 309, de 28-09-2009, recebemos a contribuição de Julius Lipner, professor
                     de Hinduísmo da University of Cambridge. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele
                     explica as manifestações de Deus na cultura hinduísta e diz que, diferente das tradições
                     monoteístas, o divino se apresenta de diversas maneiras e possui formas e nomes distintos
          para que possa relacionar-se com diferentes seres humanos. “Cada um de nós é diferente e achará
          mais fácil se relacionar com Deus de acordo com nossos contextos e circunstâncias”. Segundo ele,
          deuses e deusas hindus não são competitivos e dispõem igualmente de poder e misericórdia, além de
          estarem interessados no bem-estar da humanidade.
             O pesquisador também falou à IHU On-Line sobre o projeto de ética mundial proposto pelo teólo-
          go alemão Hans Küng. Embora concorde com as ideias expostas, ele enfatiza que é preciso “analisar
          cuidadosamente circunstâncias individuais para implementar estes princípios corretamente. Cada
          tradição do mundo poderia muito bem dar diferentes ênfases ao aplicar estes princípios”.
             Lipner também é professor em Oxford, onde ministra aulas sobre Hinduísmo e pensamento india-
          no. É membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Hindus da mesma universidade. Confira
          a entrevista.


         IHU On-Line - Qual é a origem da                com algumas crenças e práticas que         Então, o hinduísmo não possui um só
         religião hindu? Em que sentido ela              encontraram entre os nativos, forma-       credo como, por exemplo, cristianis-
         molda os costumes e define o pensa-             ram uma visão de mundo “policêntri-        mo e islamismo procuram ter. Assim,
         mento indiano?                                  ca”. Isto significa que certas crenças e   você pode ser um hindu religioso e
         Julius Lipner - A religião hindu é única        práticas, como, por exemplo, a crença      crer em um só Deus pessoal (a maio-
         porque, diferentemente do budismo,              em um ser transcendente, ganharam          ria dos hindus tem essa crença), ou
         islamismo ou cristianismo, por exem-            diferentes formas e expressões “cen-       em um impessoal, ou simplesmente
         plo, não tem fundador. Isto porque o            trais”. Assim, acreditavam em uma re-      em um universo determinado moral-
         que chamamos de “hinduísmo” é um                alidade suprema, mas também acredi-        mente. Como a maioria dos hindus
         conjunto de muitas crenças similares            tavam que essa realidade suprema se        acredita haver apenas um Deus, dei-
         que carregam uma semelhança fa-                 expressava de formas diferentes, não       xe-me explicar o que distingue essa
         miliar entre si, no que diz respeito à          apenas de uma forma, como é o caso         crença. Um cristão, por exemplo,
         crença, à prática, porém, mais impor-           das crenças abraâmicas.                    tende a crer que há apenas um Deus,
         tante, no que tange à atitude para com                                                     que se revelou claramente com um
         a humanidade. Entretanto, as raízes             IHU On-Line - Eles acreditam em um         Nome na Bíblia, e que desceu à Terra
         do hinduísmo são de aproximadamen-              Ser superior e ao mesmo tempo ve-          apenas uma vez, na forma de Jesus
         te 2000 a.C. na Índia. A partir daque-          neram vários deuses? Qual é o senti-       Cristo. Mas a crença hindu em ape-
         le período, começou a desenvolver-se            do desta prática?                          nas um Deus não é assim – é poli-
         uma postura diferente diante da rea-            Julius Lipner - Não há um único sis-       cêntrica. Então, o hindu poderia
         lidade, num grupo de imigrantes que             tema de crenças no hinduísmo, pois         crer que a essência do ser supremo
         foram para o subcontinente indiano              o hinduísmo não é uma religião, mas        é pessoal e sem forma, e que este
         chamado “indo-arianos”. Combinando              uma família de diferentes religiões.       ser possui um nome preferido, por
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exemplo, Shiva, ou Vishnu, ou Devi a      derna?                                    acreditava que havia apenas um ser
         Deusa, mas que este Deus mostra-se        Julius Lipner – Entre os hindus, há       supremo (“Deus”) que era de nature-
         para os humanos em muitas formas          crenças diferentes na família de cren-    za espiritual, pessoal, misericordioso,
         diferentes, tanto em forma mascu-         ças hindus, e muitas destas possuem       todo-poderoso e onisciente que, com
         lina quanto feminina, até mesmo           diferentes textos como escrituras.        frequência, descia à Terra em diferen-
         como Cristo. Para o hindu, as mani-       Este é outro exemplo de “policentris-     tes formas para o bem-estar e salva-
         festações de Deus não são limitadas       mo” – a multiplicidade de escrituras      ção da humanidade. O preferido – mas
         a uma forma e um nome, mas são            dentre as diferentes tradições hindus,    não o único – nome deste Deus é Vish-
         muitas, para que possam relacionar-       as quais compartilham determinadas        nu-Narayana. Ramanuja pensava que o
         se com diferentes circunstâncias cul-     semelhanças entre si. Entretanto, há      mundo era o corpo de Deus, não exa-
         turais etc. dos seres humanos. Cada       uma escritura – o Veda – a qual muitas    tamente no mesmo sentido que nós
         um de nós é diferente e achará mais       tradições hindus aceitam ou utilizam      termos corpos, mas no sentido espe-
         fácil se relacionar com Deus de acor-     como um ponto de referência para          cial de que Deus mantém a existência
         do com nossos diferentes contextos        articular seus sistemas de crenças. O     do mundo, controla-o com moral e leis
         e circunstâncias. Esta é a explicação     Veda é uma escritura muito extensa e      físicas e existe de modo que possamos
         para os assim chamados muitos deu-        complexa, que muitas tradições acre-      glorificá-lo (isto, para Ramanuja, é o
         ses e deusas dos hindus.                                                            sentido real de “corpo”).
            Estes “deuses” e “deusas” não são
         competitivos; mais exatamente, são            “Um dos princípios                    IHU On-Line - Quais são as diferenças
         diferentes centros da crença e prática                                              entre Vedanta tradicional e moderno?
         para conciliar uma grande variedade       éticos mais importantes                   Julius Lipner - Todos os sistemas reli-
         de circunstâncias humanas. Este é um                                                giosos vitais precisam adaptar-se para
         exemplo do “policentrismo” em con-           das tradições hindus                   sobreviver. O Vedanta continua sendo
         traste com o monocentrismo do juda-                                                 um sistema religioso relevante e con-
         ísmo, islamismo e cristianismo. Pois a     – que é ensinado numa                    temporâneo para os hindus, e adap-
         grande maioria dos deuses e deusas                                                  tou-se para isso. Tradicionalmente,
         hindus é todo-poderosa, misericordio-       escritura hindu muito                   uma característica importante para
         sa, e interessada no bem-estar da hu-                                               o Vedanta foi de considerar o renun-
         manidade. A manifestação em diferen-         popular, o Bhagavad                    ciante – a pessoa (do gênero mascu-
         tes formas ajuda a alcançar isso.                                                   lino) que abandona o mundo e as re-
                                                       Gita (por volta dos                   lações humanas terrenas pela prática
         IHU On-Line - Na Índia, muitos mor-                                                 do celibato e penitência – como ideal
         tos são cremados. Sob o aspecto re-            século I e II d.C.) –                espiritual. Mas desde o início do sécu-
         ligioso, qual o sentido da cremação                                                 lo XIX, ocorreu uma mudança de para-
         para os seguidores do hinduísmo?             é a prática altruísta,                 digma numa parte significativa desta
         Julius Lipner - Na Índia, o corpo da                                                tradição. O chefe de família casado,
         maioria dos mortos é cremado, não to-         ou seja, de não ser                   que colocasse sua fé em Deus, e ten-
         dos. Isto se dá porque, desde os tem-                                               tasse fazer Sua vontade na e através
         pos antigos, o fogo era considerado um     egoísta, ação por amor                   da família e local de trabalho, tornou-
         agente purificador; então, na morte, a                                              se outro ideal. Isso possibilitou estar
         cremação purificava tanto fisicamente            a Deus e toda a                    no mundo e viver uma vida espiritual
         (para que não houvesse transmissão                                                  que trouxesse salvação, sem neces-
         dos germes do corpo em decomposi-                 humanidade”                       sariamente ser carnal e materialis-
         ção) quanto espiritualmente, na pre-                                                ta. Desta forma, a vida de casado e
         paração para o mundo vindouro. Os         ditam ter sido simplificada para pesso-   trabalhar, como qualquer pessoa no
         corpos de crianças muito jovens (que      as comuns nas e através das suas pró-     mundo, vieram a ser um caminho para
         não têm pecados, portanto não neces-      prias escrituras, que eles chamam de      redenção espiritual. Esta foi uma das
         sitam purificação ritual ou espiritual)   um Veda alternativo ou tratam como        mudanças mais importantes no Vedan-
         e de homens e mulheres santos (que        um Veda substituto. Aqui há um exem-      ta moderno.
         supostamente também não necessi-          plo de policentrismo novamente.
         tam purificação ritual ou espiritual)                                               IHU On-Line - Quais os princípios éti-
         não são cremados. São enterrados ou       IHU On-Line – O senhor poderia nos        cos que regem o hinduísmo? Destes,
         postos em água corrente.                  dizer algo sobre o sentido e a meta-      qual pode contribuir para a constru-
                                                   física da teologia Vedanta de Rama-       ção da paz mundial? Por quê?
         IHU On-Line - O que as Escrituras         nuja?                                     Julius Lipner - Um dos princípios éti-
         revelam sobre a teologia, filosofia e     Julius Lipner - Ramanuja (séc. XI) foi    cos mais importantes das tradições
         mitologia hindu? Que autoridade es-       um teólogo indiano que era o líder        hindus – que é ensinado numa escri-
         tes textos representam na Índia mo-       da tradição hindu Sri Vaishnava. Ele      tura hindu muito popular, o Bhagavad
          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                          37

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Gita (por volta dos séc. I e II d.C.) – é           ética global com princípios básicos.
         a prática altruísta, ou seja, de não ser             Podem as religiões contribuir para a
         egoísta, ação por amor a Deus e toda                 proposta de uma ética global? Que
         a humanidade. O Gita ensina que se                   tipo de ética é possível e desejável?
         deve cumprir com os deveres não bus-                 Julius Lipner - Em princípio, eu con-
         cando o fruto de suas ações, mas pelo                cordo com Küng. A maioria das re-
         amor a Deus e ao próximo. Mesmo que                  ligiões no mundo prega o amor ao
         este dever seja doloroso em grande                   próximo e compaixão pelos outros.
         ou pequena medida, deve ser reali-                   Entretanto, precisamos analisar cui-




                                                                                                                           As redes e a construção de espaços sociais na digitalização
         zado sem medo ou favor a ninguém.                    dadosamente circunstâncias individu-
         É bom enquanto for o dharma (dever)                  ais para implementar estes princípios
         de alguém e enquanto for a vontade                   corretamente. Cada tradição do mun-




                                                                                                                                                                                                                    Informações no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br)
         de Deus, independente das consequ-                   do poderia muito bem dar diferentes
         ências. Este princípio ético influen-                ênfases ao aplicar estes princípios:
         ciou profundamente as ações pessoais                 assim, os hindus talvez enfatizem a
         e políticas de Mahatma Gandhi.                      não-violência e pureza de intenção
                                                              ao aplicar estas regras, os budistas,
         IHU On-Line - O teólogo alemão Hans                  a compaixão por toda criatura cons-
         Küng diz que é possível criar uma                   ciente, os cristãos talvez enfatizem o
            Bagavadguitá, também conhecido pela grafia       amor ao próximo e a Deus, muçulma-
           Bhagavad-Gita (“Canção de Deus”) é um texto
           religioso hindu. Faz parte do épico Maabárata,     nos talvez enfatizem a obediência e a




                                                                                                                                                                                         IHU Ideias de 12-11-2009
           embora seja de composição mais recente que         submissão à vontade de Deus, e assim
           o todo deste livro. Na versão que o inclui, o      por diante. Cada uma destas ênfases
           Maabárata é datado no século IV a.C.. O texto,
           escrito em sânscrito, relata o diálogo de Críxe-   dará um caráter diferente à prática
           na (uma das encarnações de Vixnu) com Arjuna       da crença, uma sensação e um resul-
           (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de        tado diferente, mas se estas práticas
           batalha. (Nota da IHU On-Line)
            Mohandas Karamchand Gandhi, mais co-             forem realizadas pela boa vontade,
           nhecido popularmente por Mahatma Gandhi            funcionarão com diferentes pessoas e
           (“Mahatma”, do sânscrito “A Grande Alma”)          culturas em prol da harmonização da
           (1869-1948) foi um dos idealizadores e fun-
           dadores do moderno estado indiano e um in-         paz no mundo.
           fluente defensor do Satyagraha (princípio da
           não-agressão, forma não-violenta de protesto)
           como um meio de revolução. O princípio do
           satyagraha, frequentemente traduzido como
           “o caminho da verdade” ou “a busca da ver-
           dade”, também inspirou gerações de ativistas
           democráticos e anti-racismo, incluindo Martin
           Luther King e Nelson Mandela. Frequentemen-           Leia   mais...
           te Gandhi afirmava a simplicidade de seus
           valores, derivados da crença tradicional hin-            Sobre hinduísmo leia também:
           du: verdade (satya) e não-violência (ahimsa).
           (Nota da IHU On-Line)                                * Revista IHU On-Line número 309, de 28-09-
            Hans Küng (1928): teólogo suíço, padre ca-         2009, intitulada Sabedoria, mística e tradição:
           tólico desde 1954. Foi professor na Univer-          religiões chinesas, indianas e africanas e disponí-
           sidade de Tübingen, onde também dirigiu o            vel no link http://www.ihuonline.unisinos.br/in-
           Instituto de Pesquisa Ecumênica. Foi consultor       dex.php?option=com_tema_capaItemid=23;
           teológico do Concílio Vaticano II. Destacou-se
           por ter questionado as doutrinas tradicionais        * Hinduísmo. A relação entre o indivíduo e a
           e a infabilidade do Papa. O Vaticano proibiu-o       Verdade fundamental do cosmos. Entrevista
           de atuar como teólogo em 1979. Nessa época,          com Cybelle Shattuck, publicada na IHU On-
           foi nomeado para a cadeira de Teologia Ecu-          Line número 312, de 26-10-2009, disponível no
           mênica. Atualmente, mantém boas relações             link   http://www.ihuonline.unisinos.br/index.
           com a Igreja e é presidente da Fundação de           php?option=com_tema_capaItemid=23task=d
           Ética Mundial, em Tübingen. Um escritório da         etalheid=1871id_edicao=340.
           Fundação de Ética Mundial funciona dentro do
           Instituto Humanitas Unisinos desde o segun-
           do semestre do ano passado. Küng dedica-se,
           atualmente, ao estudo das grandes ‘religiões,       sidade Católica de Brasília, na Universidade
           sendo autor de obras, como A Igreja Católi-         Cândido Mendes do Rio de Janeiro e na Uni-
           ca, publicada pela editora Objetiva e Religi-       versidade Federal de Juiz de Fora – UFMG. Um
           ões do Mundo: em Busca dos Pontos Comuns,           dos objetivos do evento foi difundir no Brasil
           pela editora Verus. De 21 a 26 de outubro de        a proposta e atuais resultados do “Projeto de
           2007 aconteceu o Ciclo de Conferências com          ética mundial”. Confira no site do IHU, www.
           Hans Küng - Ciência e fé – por uma ética mun-       unisinos.br/ihu, a edição 240 da revista IHU
           dial, com a presença de Hans Küng, realizado        On-Line, de 22-10-2007, intitulada “Projeto
           no campus da Unisinos e da UFPR, bem como           de Ética Mundial. Um debate”. (Nota da IHU
           no Goethe-Institut Porto Alegre, na Univer-         On-Line)

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flash.indd 38                                                                                                                                                                                                                                                           9/11/2009 18:38:28
Entrevista da Semana
         Gestão e saúde coletiva
          Para Maria Teresa Bustamante Teixeira, a união entre saúde coletiva e gestão de
          serviços pode melhorar a saúde pública

          Por Patricia Fachin




          A
                      lém de formar profissionais atentos à integralidade do ser humano, uma das premissas da
                      saúde coletiva, é fundamental formar gestores para os serviços de saúde, alerta a profes-
                      sora Maria Teresa Bustamante Teixeira, na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line.
                      “Precisamos aprimorar a questão da gestão e nisso também dar atenção à formação para
                      a gestão do serviço, porque muitas vezes os profissionais não se pensam como gestores.
          Mas, em algum momento eles vão atuar nesta área”. Continuando o raciocínio, ela diz que a saúde
          coletiva também precisa desenvolver pesquisas que possam auxiliar a tomada de decisões e melhorar
          os serviços de saúde. Ela destacou ainda a importância da humanização na formação de novos profis-
          sionais. “Trabalhar na área da saúde é trabalhar com todos os elementos da vida das pessoas, por isso
          é fundamental uma base humanista”, assegura.
              A professora visitou a Unisinos por ocasião do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa so-
          ciedade pós-metafísica. Possibilidade e impossibilidades, após retornar de um congresso sobre saúde,
          em Luxemburgo. Com mais de 30 anos de experiência em saúde pública, Maria Teresa diz que percebe
          uma busca de soluções imediatistas em relação à saúde. “Essa questão de causa e efeito revela que
          as pessoas querem encontrar alternativas imediatas para resolver o sofrimento”, constata. Segundo
          ela, as pessoas estão investindo em exames complexos “e deixando de conhecer seu próprio corpo,
          de interagir e criar uma vida com hábitos saudáveis do ponto de vista mais integral, tanto da saúde
          física quanto mental”.
              Maria Teresa Bustamante Teixeira possui graduação em Medicina, pela Escola de Ciências Médicas
          de Volta Redonda, mestrado e doutorado em Saúde Coletiva, pela Universidade do Estado do Rio de
          Janeiro – UERJ. Atualmente, é professora da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e coordena-
          dora do Núcleo de Assessoria, Treinamento e Estudos em Saúde – NATES (www.nates.ufjf.br), núcleo
          acadêmico da UFJF, que visa institucionalizar um espaço integrando as unidades acadêmicas da UFJF
          e as instituições prestadoras de serviço na área de abrangência da UFJF. Também coordena o Progra-
          ma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Confira a entrevista.


         IHU On-Line – Como iniciou sua tra-       Illich, Carlos Gentile de Mello, entre           no curso, também percebi que a clínica
         jetória na área de saúde coletiva? De     outros. À medida em que fui avançando               feita de uma forma mais individual não
         onde surgiu esse interesse de traba-        Ivan ILLICH. A expropriação da saúde. Nême-      daria as respostas que eu buscava. Por
         lhar com alternativas à saúde?             sis da medicina (Rio de Janeiro: Nova Frontei-     isso, fiz minha residência em saúde pú-
         Maria Teresa Bustamante Teixeira - Es-     ra, 1975). (Nota da entrevistada)                  blica, na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio
                                                     Sobre Ivan Illich, leia a revista IHU On-Line
         tudei medicina motivada pela questão       número 46, de 09-12-2002, intitulada “Ivan         de Janeiro. Desde então, venho traba-
         do cuidado; isso sempre me mobilizou       Illich, pensador radical e inovador”, disponível   lhando nessa área. Atuei inicialmente na
         muito. Conclui a faculdade em 1978, e      para download no link http://www.unisinos.br/      área do planejamento, mas frequente-
                                                    ihuonline/uploads/edicoes/1161290142.3pdf.
         vivi justo a época em que se denunciava    pdf (Nota da IHU On-Line)                          mente me decepcionava porque as pro-
         muito a medicalização. Na ocasião ha-       Carlos Gentile de MELLO. Saúde e Assis-          postas desenvolvidas dificilmente eram
         via muitos debates em torno dessa te-      tência Médica no Brasil (São Paulo: Cebes          incorporadas pelos gestores. Depois, tive
                                                    - Hucitec; 1977); O Sistema de Saúde em
         mática, discutida em autores como Ivan     Crise (São Paulo: Cebes - Hucitec; 1981).          a oportunidade de conhecer um grupo
                                                    (Nota da entrevistada)                             que trabalhava com uma epidemiologia
          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                      39

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voltada para a aplicação. Fiz meu mes-      ços de discussão, troca de experiên-      pesquisas e discuti-las a fim de propor-
         trado e doutorado nesta área com a pre-     cias, de construção e sistematização      cionar melhorias e fundamentar o de-
         ocupação de entender os determinantes       de conhecimentos.                         senvolvimento do SUS no Brasil.
         do processo de saúde e doença para, de                                                    Apresentamos três trabalhos nes-
         alguma forma, gerar intervenções mais       IHU On-Line – Recentemente a se-          se evento, todos ligados à questão da
         efetivas. Trabalhei no Instituto Nacio-     nhora participou do XII Congres-          avaliação em saúde utilizando o siste-
         nal de Câncer, onde tive a possibilidade    so da Associação Latino Americana         ma de informação de saúde brasileiro,
         de conviver em um ambiente bastante         para análises de sistemas de saúde        do qual podemos nos orgulhar porque,
         diversificado que envolvia desde a uti-     (ALASS), em Luxemburgo. Quais fo-         de alguma forma, um dos princípios do
         lização de tecnologias voltadas para o      ram as novidades desse encontro no        SUS é o controle social e para que isso
         tratamento dos pacientes, como do es-       que se refere ao campo da saúde?          ocorra é importante ter informações
         tudo da ocorrência dos tumores, seus        Maria Teresa Bustamante Teixeira -        que possam estar disponíveis a todos.
         determinantes e sua evolução. Aprendi       Esse foi um congresso da ALASS, uma       O nosso DATASUS é um exemplo disso.
         ali o valor da informação de qualidade      associação que propõe reunir os países    Essa base de dados mostra quantas
         para a gestão, tanto do cuidado individu-   de língua latina, que tem como inte-      pessoas morreram, quantas se inter-
         al, quanto para o serviço e a importân-     resse comum contribuir para a solução     naram e até os recursos que chegaram
         cia dos processos avaliativos. Hoje, atuo   dos numerosos problemas dos siste-        aos municípios. Isso promove a trans-
         como professora do Departamento de                                                    parência. Como esses são sistemas nos
         Saúde Coletiva e no Núcleo de Assesso-                                                quais se investiu muito, é importante
         ria, Treinamento em Estudos e em Saúde          “Apresentamos em                      integrá-los. Hoje, eles recebem críti-
         – NATES, da Universidade Federal de Juiz                                              cas justamente porque não “falam en-
         de Fora, o qual tem uma preocupação               Luxemburgo um                       tre si”, ou seja, não estão conectados,
         muito grande em apoiar e resgatar o mo-                                               pois foram construídos em épocas dis-
         delo da atenção primaria à saúde como        trabalho que se propõe                   tintas. Nesse sentido, nossa proposta
         um eixo que pode reorganizar o sistema                                                é justamente fazer esse uso integra-
         de saúde. O NATES é parceiro do Minis-       a analisar a mortalidade                 do dessas bases de dados. Apresenta-
         tério da Saúde e da Secretaria Estadual                                               mos em Luxemburgo um trabalho que
         e Municipal de Saúde no desenvolvimen-       e a morbidade materna                    se propõe a analisar a mortalidade e
         to de programas de capacitação para os                                                a morbidade materna através da in-
         profissionais de saúde inseridos na rede       através da integração                  tegração dos sistemas de internação
         de serviço.                                                                           hospitalares (SIH-SUS), mortalidade
              Coordeno também o programa de                 dos sistemas de                    (SIM) e do sistema de nascidos vivos
         pós-graduação em saúde coletiva na                                                    (SINASC). Pretendemos com isso, mais
         Universidade Federal de Juiz de Fora,        internação hospitalares                  do que analisar o banco de dados do
         com um curso de mestrado acadêmico                                                    município de Juiz de Fora, MG, cons-
         iniciado em 2007, fruto de um traba-                   (SIH-SUS),                     truir um algoritmo que permita que
         lho coletivo que mobilizou vários de-                                                 esse programa seja utilizado para ana-
         partamentos e unidades acadêmicas               mortalidade (SIM) e                   lisar a morbidade materna em outras
         da UFJF. Percebo que nossa universi-                                                  localidades e circunstâncias. A morta-
         dade, tem como uma de suas marcas             do sistema de nascidos                  lidade materna vem decrescendo, mas
         sua inserção regional, o que nos de-                                                  a morbidade é grave e difícil de ser
         safia a uma atuação comprometida                   vivos (SINASC)”                    estudada.
         com o sistema de saúde, atuando na                                                        O outro trabalho, na área de ava-
         formação, fomentando a discussão e          mas de saúde dos países de língua la-     liação da atenção básica, utilizou um
         a construção de conhecimentos que           tina. Participam profissionais da Fran-   indicador de internação por condições
         permitam o aprimoramento deste se-          ça, Canadá, Romênia, Itália, Espanha,     sensíveis à atenção ambulatorial. Ou
         tor. Algumas vezes, obviamente, nos         México, Portugal, Brasil – atualmente     seja, se propôs a averiguar as interna-
         sentimos frustrados porque nem tudo         a presidente é uma brasileira: Ana        ções pagas pelo SUS e ver aquelas que
         se modifica com a mesma rapidez que         Maria Malik, da Fundação Getúlio Var-     poderiam ter sido evitadas caso tives-
         gostaríamos. De qualquer modo, con-         gas. Esse é um encontro interessante      se uma atenção básica que funcionasse
         tinuamos atuando na formação conti-         porque não envolve apenas acadêmi-        bem. Por exemplo: uma criança com
         nuada e permanente de profissionais         cos, mas também pessoas que atuam         pneumonia que poderia ter sido trata-
         de saúde, apoiando a estratégia de          diretamente na prestação e gestão de      da ambulatorialmente e não precisaria
         saúde da família (desenvolvemos, por        serviços de saúde. Encontramos nesse      ter evoluído para uma internação hos-
         exemplo, a Residência em Saúde da           nicho um lugar de discussão bastante      pitalar. Trabalhamos com esse indica-
         Família em parceira com o município),       rico porque a nossa proposta enquanto     dor visando avaliar o sistema. Também
         formando pessoas, promovendo espa-          universidade pública é contribuir com     utilizamos para o estudo, os dados

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do município de Juiz de Fora, com a       sária a internação para que as crianças    IHU On-Line – Em Luxemburgo, vo-
         perspectiva de avaliar localmente e       não corressem o risco de morrer.           cês também avaliaram o sistema de
         também de construir uma metodolo-            A saúde coletiva também precisa         saúde de outros países? Comparado
         gia que permita essa avaliação para       desenvolver pesquisas avaliativas que      com eles, qual é a sua avaliação em
         outros municípios brasileiros.            forneçam conhecimento para que os          relação ao SUS?
             O terceiro estudo focou na área da    gestores possam melhorar os serviços.      Maria Teresa Bustamante Teixeira -
         mortalidade. Temos no programa de         Então, a proposta do nosso núcleo é        Esse congresso foi interessante porque
         pós-graduação em Saúde Coletiva da        desenvolver pesquisa de modo que ela       ele abriu com essa perspectiva de dis-
         UFJF, uma linha de pesquisa em epi-       possa auxiliar na tomada de decisões       cutir os diferentes modelos de atenção
         demiologia do câncer, e apresentamos      que resultem em melhorias no servi-        à saúde, confrontando experiências e
         um estudo sobre a tendência da mor-       ços de saúde. Isso às vezes não é fácil,   refletindo sobre elas. O tema central
         talidade por câncer no Brasil, no perí-   especialmente porque as gestões não        “O futuro dos sistemas sanitários: o
         odo de 1980 a 2006.                       têm continuidade. Então, por mais          impacto das pesquisas e das inovações
                                                                                              sobre a saúde” possibilitou essa discus-
         IHU On-Line – Como a saúde coletiva            “A saúde coletiva                     são. Um dos palestrantes desse even-
         se insere nesses projetos?                                                           to foi o professor da Universidade de
         Maria Teresa Bustamante Teixeira -               também precisa                      Montreal, Canadá, André-Pierre Con-
         Essas são linhas mais ligadas à avalia-                                              tandriopoulos, um grande estudioso
         ção de serviços e a uma das áreas da        desenvolver pesquisas                    dos sistemas de saúde e que se desta-
         saúde coletiva que é a epidemiologia.                                                ca na área da avaliação em saúde. Ele
         Tais estudos geraram questões que                 avaliativas que                    apresentou uma visão mais pessimista
         motivaram o desenvolvimento de pes-                                                  por conta da discussão do público e do
         quisa qualitativa. Um exemplo: nessa                  forneçam                       privado, pois diz que estamos viven-
         questão das internações hospitalares                                                 do uma inflexão e apostando mais nas
         por condições sensíveis à atenção am-         conhecimento para                      iniciativas privadas do que na busca
         bulatorial, nós avaliamos áreas que                                                  dos sistemas universais. Outros con-
         tinham programa de saúde da família        que os gestores possam                    ferencistas, como o suíço Gianfranco
         comparando com áreas de Juiz de Fora                                                 Domenighetti, abordou o tema des-
         que não adotavam essa estratégia.           melhorar os serviços.                    tacando a questão da medicalização.
         Percebemos que os adultos atendidos                                                  Segundo ele, não há sistema de saúde
         pela estratégia da saúde da família se       Então, a proposta do                    que suporte que se medicalize tudo e
         internavam menos do que os pacientes                                                 analisou o impacto de tal fenômeno
         que não dispunham deste atendimen-                nosso núcleo é                     sobre a saúde individual e coletiva. Ti-
         to, mas no caso das crianças isso não                                                vemos a oportunidade de ouvir muitas
         acontecia. Esse foi um caso inusitado      desenvolver a pesquisa                    experiências de pessoas de outros pa-
         porque esperávamos que também as                                                     íses e de divulgar o sistema de saúde
         crianças internassem menos, porque         de modo que ela possa                     brasileiro. Claro que nosso sistema de
         teriam acompanhamento melhor. Tal                                                    saúde precisa ser aprimorado, recebe
         constatação motivou uma pesquisa de         auxiliar na tomada de                    muitas críticas, mas quando compa-
         caráter qualitativo visando identificar                                              rado a outros países, especialmente
         essas crianças e entender porque elas      decisões que resultem                     da América Latina, percebemos que
         foram internadas. Verificamos duas                                                   estamos na direção certa, embora ne-
         hipóteses: muitas vezes o horário do           em melhorias nos                      cessitemos agir com mais afinco para a
         atendimento não era adequado para                                                    reorientação do modelo e a implemen-
         as mães que chegavam em casa do               serviços de saúde”                     tação dos princípios do SUS. Focando
         trabalho, encontravam o filho com fe-                                                especialmente na questão da atenção
         bre e, como a unidade de atendimento                                                 básica.
         já estava fechada, o levavam direta-      que se tenha essa proposta, infeliz-
         mente ao serviço de urgência, onde        mente há uma grande rotatividade           IHU On-Line – Como a saúde coleti-
         era internado; a outra hipótese é que     dos gestores na área da saúde. Mesmo       va é recebida pela subjetividade hu-
         justo por ter uma ligação maior com       assim, nossa preocupação enquanto          mana? Ainda estamos muito ligados
         as crianças, a equipe de atendimento      programa de pós-graduação em saúde         a medicalização, a relação de causa
         viabilizava internações porque conhe-     coletiva é desenvolver pesquisas que       efeito? É difícil para o paciente acei-
         ciam as famílias e sabiam das dificul-    sejam voltadas para também dar res-        tar questões de cuidado?
         dades delas adquirirem e administra-      postas e ajudar na tomada de decisões      Maria Teresa Bustamante Teixeira -
         rem os medicamentos. Como forma de        que impliquem numa atenção melhor          Há uma busca de soluções imediatis-
         proteção, a equipe julgava ser neces-     à população.                               tas. Essa questão de causa e efeito re-

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                            41

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vela que as pessoas querem encontrar      Saiu recentemente um excelente livro            onipotência e inapetência para viver,
         alternativas imediatas para resolver o    de Maria Rita Kehl abordando a questão          antes de pensar em “estabilizar o hu-
         sofrimento. Isso é real se pensarmos      das depressões. A autora assinala que          mor” com base em procedimentos me-
         numa psiquiatria cosmética no senti-      em nossa sociedade estamos passando             dicamentosos.
         do de que as pessoas não querem en-       “do direito à saúde e à alegria” para a
         frentar alguns sofrimentos que fazem      “obrigação de ser felizes”. Trata-se de         IHU On-Line – Essa resistência dos
         parte da vida do ser humano. Então,       uma problemática “patologização da              pacientes de tentar entender a inte-
         os indivíduos já se previnem de um        tristeza”, que acaba provocando uma             gralidade da saúde dificulta a ação da
         possível sofrimento, ou quando viven-     perda do poder interpretativo da dor            saúde coletiva?
         ciam uma perda, não querem passar         dos viventes. Segundo Kehl, aos que             Maria Teresa Bustamante Teixeira
         por esta situação. Como sabem que         sofreram o abalo de uma morte im-               - Penso que sim, porque o paciente
         existe medicação, tentam amenizar o       portante, uma doença ou um acidente             também delega muito ao outro, ou
         sofrimento do momento. Mas, a lon-        grave, “a medicalização da tristeza ou          seja, ao médico, e não compreende
         go prazo e pensando na realização das     do luto rouba ao sujeito o tempo ne-            que parte do processo é responsabili-
         pessoas, o que isso traz? É uma coisa     cessário para superar o abalo e cons-           dade dele próprio.
         complexa. Essa é uma questão que te-      truir novas referências, e até mesmo
         mos de enfrentar.                         outras normas de vida, mais compatí-            IHU On-Line – Quais os avanços e de-
             Na área da saúde, as pessoas estão    veis com a perda ou com a eventual              safios da saúde coletiva no país?
         cada vez mais apostando em exames         incapacitação”. Não há dúvida sobre             Maria Teresa Bustamante Teixeira
         complexos e deixando de conhecer          o interesse da indústria farmacêutica,          - Há tantos desafios na área da saú-
         seu próprio corpo, de interagir e criar   com suas criativas estratégias de ven-          de coletiva. Alguns vêm desde a cons-
         uma vida com hábitos saudáveis do         da, nessa “patologização generaliza-            trução do SUS. A questão do público
         ponto de vista mais integral tanto da     da da vida subjetiva”. E importantes            e privado ainda deve ser explorada.
         saúde física quanto mental. Se a pes-     pesquisas, assinaladas por Maria Rita           Também precisamos implementar a
         soa fizer uma caminhada, uma medita-      Kehl, demonstram que os processos               reforma sanitária, aprimorar a gestão
         ção – como sugeriu a Monja Coen – ela     em curso de medicalizar todas as for-           e ai incluir uma gestão mais comparti-
         melhora sua saúde integralmente. Mas      mas de inquietação, inadaptação e so-           lhada, que envolva o controle social.
         muitos preferem focar em questões         frimento – que fazem parte da dinâmi-           Para isso precisamos trabalhar muito,
         que muitas vezes, cientificamente,        ca natural da vida -, acaba produzindo          porque o próprio controle social mui-
         não tem embasamento. Por exemplo:         um efeito contrário, ou seja, “vidas            tas vezes não representa realmente as
         às vezes as pessoas realizam exames       vazias de sentido, de criatividade e de         necessidades daquela população. São
         que irão prevenir determinadas doen-      valor”. No primeiro capítulo de seu li-         temas complexos que precisamos tra-
         ças, mas depois se percebe que apenas     vro, que trata o tema da “atualidade            balhar para responder a essas neces-
         se antecipou um diagnostico, mas não      das depressões”, a autora menciona              sidades.
         mudou o impacto disso na mortalidade.     estudos específicos que indicam que
         O câncer de próstata é um exemplo.        a ampliação da oferta de tratamentos            IHU On-Line – Como a saúde coletiva
         Muitas vezes é feito um rastreamen-       medicamentosos contra as depressões             se aplica no SUS hoje?
         to, um diagnóstico antecipado, mas        não diminuiu o mal-estar das pesso-             Maria Teresa Bustamante Teixeira - A
         isso não muda a perspectiva de sobre-     as, a ponto da Organização Mundial              saúde coletiva se caracteriza pela in-
         vida daquelas pessoas. Será que isso      da Saúde indicar que até 2020 a de-             terdisciplinaridade e o que está envol-
         vale nesse sentido? São perguntas que     pressão vai se tornar a segunda causa           vido nessa perspectiva é justo de uma
         não justificam alguns procedimentos.      principal de morbidade nas sociedades           concepção de uma saúde pública inse-
         Mas se alguém impedir que haja um         industrializadas. A questão torna-se            rida num contexto e que percebe todas
         programa de rastreamento, se criará       ainda mais problemática com respeito            essas nuances. Nesse sentido, ela tem
         uma celeuma enorme. Talvez o exame        ao recurso de tratamento farmacológi-           que estar cada vez mais implicada em
         não seja uma prioridade quando não        co dos “distúrbios” das crianças e dos          buscar as respostas adequadas para o
         se tem muito como intervir. Mas são       adolescentes. Segundo o psiquiatra              mundo e especialmente para o nos-
         questões muito complexas e acho que       Mark Olfson, do Instituto Psiquiátrico          so país. Ela precisa desenvolver suas
         estamos vivendo um período de tran-       do Estado de Nova York, antes de se             pesquisas e estar preocupada para que
         sição: é preciso chamar atenção para      decidirem por medicar seus filhos, os           estes conhecimentos estejam voltados
         determinados aspectos da vida e refle-    pais deveriam assumir seu fundamen-             para melhorar as condições de vida de
         tir mais sobre o que queremos; há um      tal papel de educadores, ajudando               nossa população e o nosso sistema de
         mito do não sofrimento.                   os filhos a “atravessar as crises e os          saúde. Sabemos hoje que a desigual-
                                                   conflitos da vida, com seus inevitáveis         dade social é um fator determinante
         IHU On-Line – Qual é a alternativa à      altos e baixos de fúria e desânimo,             para a saúde da população e este é,
         medicalização?                             0 Maria Rita KEHL. O tempo e o cão. A atu-
                                                                                                   certamente, um problema que nós
         Maria Teresa Bustamante Teixeira -         alidade das depressões. São Paulo: Boitempo,   brasileiros temos que enfrentar.
                                                    2009.

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flash.indd 42                                                                                                                       9/11/2009 18:38:29
IHU On-Line – Quais são as lacunas
         que existem entre o SUS que existe
         hoje e o que desejamos?
         Maria Teresa Bustamante Teixeira -
         São tantas. Passa pela questão da ges-                                                                  Memória
         tão. Precisamos aprimorar e dar maior
         atenção a gestão do serviço, porque
         muitas vezes os profissionais não se
         pensam como gestores. Mas, em algum
         momento eles vão atuar nesta área.
                                                    Ignacio Ellacuría
         Por isso, é importante que as pessoas
         tenham essa formação. Também é pre-        Um pensador, negociador e
         ciso ir além: trabalhar na área da saú-
         de é trabalhar com todos os elementos
         da vida das pessoas, por isso é funda-     cristão - 9 de novembro de
         mental uma base humanista.
                                                    1930 - 16 de novembro de 1989
         IHU On-Line – Como pesquisadora,
         que caminhos a senhora percebe que
                                                    Por Ana Formoso*
         estão sendo propostos para a forma-
         ção de profissionais na área de saúde
         coletiva?                                      No meio acadêmico, um impor-                 a buscar sempre a relação que há
         Maria Teresa Bustamante Teixeira -         tante filósofo e teólogo, na socieda-            entre a inteligência e a fé. A ques-
         Temos feito um esforço enorme de for-      de civil, um negociador para pôr fim             tão em Zubiri não consiste tan-
         mar os profissionais de saúde nas suas     à guerra, tudo isto por um homem                 to em saber se nosso pensamento
         diferentes áreas com a perspectiva da      que buscou a justiça junto com seu               encontra algo que possa designar
         saúde coletiva. Essa é uma premissa        povo e sua comunidade acadêmica.                 por Deus, mas em qual via concre-
         muito importante. Em que sentido se            Ignacio Ellacuría, um homem que               2004, celebramos seu centenário de nasci-
         faz isso? Desenvolvendo a formação         soube contribuir com as ciências,                 mento. A Unisinos dedicou à sua memória o
         desses profissionais num contexto em                                                         Simpósio Internacional O Lugar da Teologia
                                                    especialmente a filosofia e teologia,             na Universidade do século XXI, realizado de
         que possam perceber a saúde em seu         e, com lucidez, buscou junto à co-                24 a 27 de maio daquele ano. A IHU On-Line
         conceito ampliado e identifiquem a         munidade dar respostas aos desafios               nº. 90, de 1º-03-2004, publicou um artigo de
         complexidade de seus determinantes.                                                          Rosino Gibellini sobre Rahner, disponível em
                                                    sociais de El Salvador. Não temos                 http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/
         Formar propiciando o conhecimen-           pessoas sozinhas, temos um grupo                  edicoes/1161093842.09pdf.pdf, e a edição
         to de como vive nossa população, na        de pessoas que dedicaram tempo,                   94, de 2-03-2004, publicou uma entrevista
         identificação de suas necessidades e                                                         de J. Moltmann, analisando o pensamento
                                                    estudo, reflexão, oração e escuta às              de Rahner, disponível para download em
         problemas e conhecendo o sistema de        pessoas mais injustiçadas. Como rei-              http://www.ihuonline.unisinos.br/uploa-
         saúde com suas fortalezas e fragilida-     tor, buscou conduzir a universidade               ds/edicoes/1161093143.69pdf.pdf. No dia
         des. Desenvolvendo suas habilidades                                                          28-04-2004, no evento Abrindo o Livro, Éri-
                                                    com pesquisa, reflexão e, sobretudo,              co Hammes, teólogo e professor da PUCRS,
         para lidar com as tecnologias incluin-     colaborar para resolver os problemas              apresentou o livro Curso Fundamental da
         do as duras, leve-duras e leves. Espe-     sociais.                                          Fé, uma das principais obras de Karl Rah-
         cialmente as tecnologias leves, que se                                                       ner. A entrevista com o prof. Érico Hammes
                                                        Não se pode entender Ellacuría                pode ser conferida na IHU On-Line n.º 98,
         traduzem na capacidade de uma rela-        sem Xavier Zubiri e sem Karl Rah-                de 26-04-2004, disponível para download em
         ção transformadora que envolve uma         ner. A filosofia de Zubiri ajudou                http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/
         escuta qualificada de um ser humano                                                          edicoes/1158260659.15pdf.pdf. Ainda sobre
                                                      Xavier Zubiri (1898-1983) foi um filósofo      Rahner, publicamos uma entrevista com H.
         compreendido em sua integralidade.          espanhol cuja pesquisa e reflexão se con-        Vorgrimler no IHU On-Line n.º 97, de 19-
         Que envolve ainda a habilidade de tra-      centrou, fundamentalmente, nos campos da         04-2004, sob o título Karl Rahner: teólogo
         balhar em equipe desenvolvendo um           Teoria do Conhecimento, da Ontologia e da        do Concílio Vaticano nascido há 100 anos,
                                                     Gnoseologia. (Nota da IHU On-Line)               disponível em http://www.ihuonline.unisi-
         trabalho interdisciplinar. Vejo que no       Karl Rahner (1904-2004): importante te-        nos.br/uploads/edicoes/1158260371.36pdf.
         Brasil está ocorrendo essa grande pro-      ólogo católico do século XX, ingressou na        pdf. A edição número 102 da IHU On-Line,
         posta de reformulação curricular, de        Companhia de Jesus em 1922. Doutorou-se          de 24-05-2004, dedicou a matéria de capa
                                                     em Filosofia e em Teologia. Foi perito do        à memória do centenário de nascimento de
         pensar o trabalho integrado para que        Concílio Vaticano II e professor na Universi-    Karl Rahner. Os Cadernos Teologia Públi-
         tenhamos profissionais mais atuantes.       dade de Münster. A sua obra teológica com-       ca publicaram o artigo Conceito e Missão
         Essa não é uma tarefa simples, porque       põe-se de mais de 4 mil títulos. Suas obras      da Teologia em Karl Rahner, de autoria do
                                                     principais são: Geist in Welt (O Espírito no     Prof. Dr. Érico João Hammes. Confira esse
         isso implica em mudança de comporta-        mundo), 1939, Hörer des Wortes (Ouvinte          material em http://www.ihuonline.unisinos.
         mento, mas temos conseguido cumprir         da Palavra), 1941, Schrifften zur Theologie      br/uploads/edicoes/1158261608.85pdf.pdf
         essa agenda e há cada vez mais pesso-       (Escritos de Teologia), 16 volumes escritos      A edição 297, de 15-06-2009, intitula-se Karl
                                                     entre 1954 e 1984, e Grundkurs des Glau-         Rahner e a ruptura do Vaticano II. (Nota da
         as envolvidas nessa busca.                  bens (Curso Fundamental da Fé), 1976. Em         IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                        43

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ta se coloca seu acesso e qual é               crucificado. Este conceito tem um
         o problema a que corresponde.                  vigor conceitual hoje perdido na
         As provas clássicas da existência
         de Deus se moviam em esquemas
         puramente objetivistas. Por isso,
                                                        descrição da realidade, e, muitas
                                                        vezes, banalizado. “Crucificado”,
                                                        na realidade, tem a conotação de:
                                                                                                                    Acesse outras
         Zubiri sentiu a necessidade de                 a) conceitualmente morte, não
         uma nova fundamentação para
         o tema de Deus. Não é o espa-
                                                        simples dano, limitação ou carên-
                                                        cia; b) “provocar a morte” – não
                                                                                                                         edições da
         ço para um desenvolvimento do                  morte natural; c) uma “morte in-
         pensamento de Zubiri, mas com-
         preender como este autor mar-
                                                        fame e injusta”; d) afinidade com
                                                        Jesus e seu destino, importante a                           IHU On-Line.
         cou o pensamento de Ellacuría.                 partir da perspectiva da fé, como
         Para ele, o problema de Deus já                o que se eleva à realidade última-
         está dado na realidade pessoal                 teológica – a realidade de grande
         do homem. O homem descobre                     parte da humanidade.
         Deus a partir desta realidade e                    A realidade dos povos crucifica-
         como meio de realização de seu                 dos nos interpela? A natureza que
         viver. Desenvolve uma nova “via                está sendo crucificada nos inter-
         de religação”, da qual vislum-                 pela? Assim podemos seguir fazen-
         bramos as verdadeiras consequ-                 do-nos perguntas. O pensamento
         ências. Zubiri opõe-se a qual-                 de Ellacuría nos interpela a olhar
         quer concepção de Deus como                    a realidade com honestidade inte-
         algo alheio ao mundo. Deus se                  lectual e social.
         manifesta no mundo, fundamen-                      Termino com as palavras de Ig-
         tando a realidade última das coi-              nacio Ellacuría que usou com preci-
         sas, e, ainda que racionalmente,               são conceitual ao falar do que deve
         é preciso estabelecer seu cará-                ser e fazer uma universidade:
         ter transcendente. Trata-se de                     “A universidade deve encar-
         uma transcendência na realida-                 nar-se entre os pobres intelectu-
         de – nunca fora dela.                          almente para ser ciência dos que
             Karl Rahner (1904-1984) é con-            não têm voz, o respaldo intelectu-
         siderado um dos maiores teólogos               al dos que, na sua própria realida-
         católicos do século XX. Seu pensa-             de, têm a verdade e a razão, em-
         mento se caracteriza pela serie-               bora, às vezes, seja à maneira de
         dade do pensar, preocupou-se com               despojo, mas que não contam com
         definições de abertura ecumênica               as razões acadêmicas que justifi-
         e diálogo inter-religioso. Os escri-           quem e legitimem sua verdade e
         tos de Ellacuría, de Sobrino e de              sua razão”.
         Rahner refletem uma pergunta
         que tem que continuar sendo fei-               * Ana Formoso, doutoranda em
         ta: O que é ser cristão/a e como               Teologia, trabalha no Instituto Hu-
         se pode realizar esse estilo de vida           manitas Unisinos – IHU e é autora dos
         com honestidade intelectual?                   Cadernos Teologia Pública número
             Zubiri, uma transcendência na              29, com o título Na fragilidade de
                                                        Deus a esperança das vítimas. Um
         realidade, Rahner escreveu um ar-
                                                        estudo da cristologia de Jon Sobrino,

                                                                                                                     Elas estão
         tigo memorável que “a realidade                disponível em http://www.ihu.
         quer tomar a palavra”. Na expres-              unisinos.br/uploads/publicacoes/
         são de Sobrino, se me permitem                 edicoes/1187719877.9pdf.pdf.
         um jogo de palavras, se “a palavra
         se fez realidade (carne, sarx), a                                                                        disponíveis na
         realidade quer fazer-se palavra”                 Ellacuría, I, Sobrino J.”Los pueblos
         (Sobrino, p.76, 2007). Ellacuría in-
         sistiu que há sempre um sinal dos
                                                         crucificados, actual siervo sufriente de
                                                         Yahvé”. Concilium, n.232, p.497-508,
                                                                                                              página eletrônica
                                                                                                          www.ihu.unisinos.br
                                                         1989.
         tempos que é principal: o povo                   Discurso de formatura na Universidade
            Nasceu na região da Suévia, no sudoes-      de Santa Clara, 12 de junho de 1982!.
           te da Alemanha. Sua presença no Concílio      Carta a las Iglesias, 22p, p.11-15, 1982.
           Vaticano II foi marcante. Insere-se no que    SOBRINO, J. Onde está Deus? Ed. Sinodal:
           foi classificado como “a virada antropoló-    São Leopoldo, 2007, p.78.
           gica” da Teologia.

         44                                                                                          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314


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A nova Record: A construção do
                                                     padrão tecnoestético e da liderança
                                                      pela via do reality show A Fazenda
                                                                                                                             Por Rafaela Barbosa*



                                                     A retomada da Record no mercado              pela mídia. Conforme quadro1.
                                                  generalista ocorreu a partir do ano de
                                                  1997, esta emissora projetou-se com                             Reality Show
                                                  um planejamento estratégico, em
                                                  busca do segundo lugar para, em se-                     Conceito            ano de exibição
                                                  guida, disputar a liderança. O fortale-
                                                  cimento na produção de conteúdo da                     Sem Saída                 2004
                                                  Record ocorreu por meio de investi-                    O   aprendiz              2004
                                                  mentos em jornalismo, novela e show                 Mudando    de   Vida         2007
                                                  de variedade, estes gêneros compre-
                                                                                                             Ídolos                2008
                                                  endem a estratégia de construção
                                                  da programação para a conquista do                     A Fazenda                 2009
                                                  prime time (horário nobre) e para
                                                  disputar o primeiro lugar com a Rede               Tendo em conta estes aspectos,
                                                  Globo no mercado das audiências de              aqui será discutido o reality show A
                                                  tevê aberta.                                    Fazenda, como estratégia audiovi-
                                                     Na atualidade, um tipo específi-             sual para a conquista da mercadoria
                                                  co de programa vem sendo relevan-               audiência na Record. A Fazenda teve
                                                  te para alavancar audiência, o reali-           sua estreia respaldada por uma cam-
                                                  ty show, um formato atraente para               panha publicitária tanto na progra-
                                                  os exibidores, por representar baixo            mação da Record como em veículos
                                                  custo de produção, em comparação                impressos e eletrônicos na grande
                                                  com a teleficção, e por apresentar              mídia. Sob esta perspectiva, A Fa-
                                                  capacidade de ampliar a audiência.              zenda foi lançada pela Record em
                                                  A grade de programação da Record                maio de 2009, tendo três meses de
                                                  volta-se, depois do ano de 2004, para           duração. O formato é uma criação
                                                  este conceito mundializado de produ-            da empresa sueca Strix, desenvolvi-
                                                  ção audiovisual que foca a realidade            da em parceria com a produtora ho-
                                                  de anônimos em cotidianos simulados             landesa Endemol, que já lançou no

                                                  * Mestranda no PPG Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade
                                                  do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, bolsista da Ford Foundation e membro do Grupo de Pesquisa
                                                  Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS). E-mail: byrafaela_barbosa@hotmail.com

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                      45

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país outros realities shows e games.       ficava ameaçada quando três peões             audiência ocorreram somente na gran-
         Nesse sentindo, The Farm é o nome          eram indicados para a roça, situação          de São Paulo. Durante o período de
         original da atração, que já teve edi-      que caracterizava uma ameaça de               exibição de A Fazenda, a média total
         ções na Espanha, Inglaterra e França,      eliminação. O primeiro é sempre o             “registrou quase 13 horas em primeiro
         dentre outros países.                      que perde o desafio semanal. O se-            lugar, com 15 pontos de média e share
             A versão brasileira teve direção ge-   gundo é por indicação dos demais              de 23%” .
         ral de Rodrigo Carelli (o mesmo diretor    participantes, e o terceiro é o fazen-            Em síntese, este formato propor-
         do extinto reality show, Casa dos Ar-      deiro da semana quem indica. Assim,           cionou impactos consideráveis no
         tistas, criado pelo SBT) com apresen-      acontecia a formação do tá na roça            mercado das audiências na tevê para a
         tação do jornalista Britto Jr. O reality   onde o público escolhia quem per-             Record produzir outras temporadas de
         show teve a participação de 14 perso-      maneceria na Fazenda por meio do              A Fazenda. Inclusive, a emissora está
         nalidades que foram vigiadas 24 horas      sítio da Record, SMS ou porteira de           anunciando a segunda versão do reali-
         por 41 câmeras.                            voz, meio telefônico utilizado pelo           ty show para novembro de 2009.
             A Fazenda constitui-se em um ce-       telespectador para indicar algum                  O reality show não projetou so-
         nário rural no interior de São Paulo,      peão a colocar o pé na estrada.              mente os novos programas da Re-
         assessorada por uma equipe de profis-          Os produtos desta emissora também         cord, o jornalismo bem como o show
         sionais como zootecnista, veterinários     tiveram destaque em A Fazenda, onde           de variedades, explorou amplamente
         e um caseiro que prestava informações      foi anunciada a estreia de diversas pro-      pautas com a temática de A Fazen-
         para os confinados desempenharem           duções como a novela Bela A feia; Pro-        da. No jornalismo, o Câmera Record
         suas atividades diárias. No programa,      grama do Gugu; Geraldo Brasil; Ídolos;        do dia 21 de agosto de 2009 exibiu
         o desafio imposto aos peões (nomen-        Campanha beneficente da Associação            um programa exclusivamente pau-
         clatura dada aos participantes) foi de     Pestallozi. Nessa perspectiva, a deci-        tado na trajetória de vida de cada
         desempenhar tarefas vividas no cam-        são de A Fazenda contou com a partici-        um dos participantes. Nos programas
         po, supervisionadas pelo fazendeiro        pação do apresentador Augusto Libera-         de variedades, como Hoje em Dia,
         (participante escolhido pela produção      to (na época estava prestes a estrear o       Melhor do Brasil, Tudo é Possível e
         do programa para ficar isento durante      Programa do Gugu) que entregou o en-          Geraldo Brasil, a projeção foi mais
         uma semana da votação) e por profis-       velope que anunciava o ganhador para          intensa, visto que os eliminados par-
         sionais da área rural.                     o jornalista Britto Jr.                       ticipavam de entrevistas, desafios,
             Durante a semana, os peões cum-            Na final do reality show, a Record        gravação de quadros, dentre outras
         priam a agenda semanal do programa         “foi primeiro lugar absoluto, regis-          situações.
         como parte das obrigações para se          trando 21 pontos de média, com pico
         manterem no jogo e disputarem a pre-       de 31” . Sendo que estes índices de
         miação. O prêmio para o vencedor foi                                                      audiência. Disponível em: http://blogdafa-
                                                     http://diversao.terra.com.br/afazen-         zenda.blog.terra.com.br/2009/08/25/com-
         de R$ 1.000.000.                            da/interna/0,,OI3801555-EI13962,00-           pico-de-31-pontos-a-fazenda-liderou-audien-
             Portanto, a permanência no jogo         Saiba+como+votar.html                         cia/. Acesso em: 25 de agosto de 2009.
                                                      Com pico de 31 pontos, A Fazenda liderou     Ibidem.




                               IV Seminário de Pesquisa Cepos                                                            Patrocínio:

                                          04 de dezembro (sexta-feira)            das 08:30 às 18:00                          Capes
                                           Mini-auditório Pedro Pinto - Centro 3 - Unisinos                                  Fapergs
                                       Evento aberto e gratuito - vale horas complementares                                Fundação
                                        Mais Informações: www.grupocepos.net                                                 Ford

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Destaques On-Line
                                                Essa editoria veicula entrevistas que foram destaques nas Notícias do Dia do sítio do IHU.
                                          Apresentamos um resumo delas, que podem ser conferidas, na íntegra, na data correspondente.




         Entrevistas especiais feitas pela IHU On-Line e disponí-        “Um desserviço à causa ecumênica’’
         veis nas Notícias do Dia do sítio do IHU (www.ihu.unisi-        Entrevista especial com Zwinglio Mota Dias
         nos.br) de 02-10-2009 a 07-10-2009.                             Confira nas Notícias do Dia de 05-11-2009
                                                                         “A iniciativa do Papa Bento XVI (de acolher os anglicanos dis-
         Quem são os demônios da Igreja Universal?                       sidentes) significou um desserviço à causa do Ecumenismo. Um
         Entrevista com Ronaldo de Almeida                               ‘não’ ao diálogo ecumênico honesto e sincero entre cristãos
         Confira nas Notícias do Dia de 02-11-2009                       que se acolhem como iguais, apesar de suas diferenças históri-
         “A Igreja Universal do Reino de Deus tem toda uma di-           cas, e um profundo desrespeito à Comunhão Anglicana mun-
         mensão simbólica de um jeito de se comportar e se con-          dial”, afirma o professor e pastor da Igreja Presbiteriana Unida
         duzir na vida material e econômica” que a distingue das         do Brasil.
         outras religiões, constata o pesquisador.
                                                                         Eco-Economia. Uma mudança de paradigma
         A web semântica e suas possibilidades                           Entrevista com Hugo Penteado
         Entrevista com Karin Breitman                                   Confira nas Notícias do Dia de 06-11-2009
         Confira nas Notícias do Dia de 03-11-2009                       “Hoje os economistas têm uma visão de que o planeta gira em
         “Avançamos muito em termos de mecanismo de busca, mas           torno da economia e que ela é o centro do universo. Na verdade,
         não temos um mecanismo de seleção e interpretação. A            o planeta é o sistema maior, ele que dita as regras. Não temos a
         web semântica auxiliará na construção de máquinas que           menor condição de interferir nas regras planetárias, temos apenas
         nos ajudem a fazer isso”, explica a engenheira eletrônica.      que negociar e dialogar bem com elas”, afirma o economista.

         Marighella. 40 anos depois.                                     Ignacio Ellacuría, um reitor assassinado. Vinte
         Entrevista com Denise Rollemberg                                anos depois.
         Confira nas Notícias do Dia de 04-11-2009                       Entrevista com Francisco das Chagas
         “O grande acerto de Marighella foi lutar pela revolução,        Confira nas Notícias do Dia de 07-11-2009
         pela transformação da sociedade, contra um conformismo          “Ellacuría, como os outros cinco jesuítas que foram assassina-
         e a ditadura. Não só resistir à ditadura, mas ir além desta     dos em El Salvador, deixa para a América Latina um exemplo e
         luta” afirma a historiadora.                                    um testemunho de vida eclesial e de luta pela justiça”, disse
                                                                         o teólogo.




                            Leia as Notícias do Dia em

                              www.ihu.unisinos.br
          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                47

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Confira as publicações do
                Instituto Humanitas Unisinos - IHU




                 Elas estão disponíveis na página eletrônica
                            www.ihu.unisinos.br


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Agenda da Semana
                                                                               Confira os eventos dessa semana realizados pelo IHU.
                                                               A programação completa dos eventos pode ser conferida no sítio do IHU
                                                                                                             (www.ihu.unisinos.br).



                                                                                                                 Dia 12-11-2009
                                                                                                                    IHU ideias
                                                                   As redes e a construção de espaços sociais na digitalização
                                                                  Mestranda Ana Maria Oliveira Rosa - Unisinos e Grupo CEPOS
                                                                                              Horário: 17h30min. Sala 1G 119
                                                                                                 Dia 12-11-2009 e 13-11-2009
                                                      Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard - Parte Brasileira
                                                                                 Horário/local: Das 10h às 12h, das 14h às 18h
                                                                                   Sala 1A 202 (Unidade de Ciências Humanas)
                                                                                                          Das 19h30min às 22h
                                                                      Auditório Maurício Berni (Unidade de Ciências Jurídicas)




                                   Participe dos eventos
                                           do IHU

                              A programação completa está
                            disponível no endereço eletrônico

                              www.ihu.unisinos.br


          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                          51

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Mártires em El Salvador: uma memória
         que continua forte 20 anos depois
         Evento no IHU irá rememorar o brutal assassinato de seis jesuítas, a funcionária de
         sua residência e sua filha de 15 anos, com exibição de debate entre Jon Sobrino,
         Noam Chomsky e o jesuíta J. Donald Monan

         Por Moisés Sbardelotto


             Vinte anos não foram suficientes                 no campus da UCA.                                 dezembro, Dia Internacional dos Di-
         para apagar da memória o terrível                        Paramilitares do Exército salvado-            reitos Humanos, em um evento que
         assassinato de seis padres jesuítas,                 renho invadiram a residência dos je-              está sendo especialmente preparado
         a funcionária de sua residência e sua                suítas deliberadamente para matar                 para lembrar o aniversário do martí-
         filha de 15 anos, no dia 16 de novem-                àqueles que incomodavam a ditadura,               rio dos jesuítas de El Salvador. Nes-
         bro de 1989, no jardim da comunidade                 no rastro do assassinato de outro je-             sa data, como homenagem póstuma
         jesuíta da Universidade Centro-Ameri-                suíta, Pe. Rutilio Grande, amigo pró-             da Unisinos, a atual sala de eventos
         cana José Simeón Cañas (UCA), em El                  ximo de Dom Óscar Arnulfo Romero,                do IHU – 1G119 – será reinaugurada
         Salvador.                                            arcebispo da capital, San Salvador,               como Sala Ignacio Ellacuría e Com-
             Na madrugada daquela quinta-fei-                 que também foi fuzilado enquanto ce-              panheiros.
         ra, Ignacio Ellacuría, reitor da UCA;               lebrava a missa.                                     O debate do Boston College irá re-
         o vice-reitor, Ignacio Martín-Baró; o                   Para reforçar essa lembrança e                memorar o significado do martírio dos
         diretor do Instituto de Direitos Huma-               celebrar a importância desse martí-               jesuítas da UCA não apenas em pala-
         nos da UCA, Segundo Montes; o diretor                rio para o contexto latino-america-               vras, mas também por meio do históri-
         da biblioteca de teologia, Juan Ramón                no, o Instituto Humanitas Unisinos                co, da trajetória e da relação de cada
         Moreno; o professor de teologia Aman-                - IHU irá exibir o debate “Memory                 um dos convidados com os fatos ocor-
         do López; o fundador da universidade,                and Its Strength: The Martyrs of El               ridos em El Salvador.
         Joaquín López y López, todos jesuítas;               Salvador” [A memória e sua força:                    Nas palavras do próprio Jon Sobri-
         a funcionária Elba Ramos e sua filha                 Os mártires de El Salvador], que                  no, em artigo publicado pelo sítio do
         Celina foram fuzilados a sangue frio                irá ocorrer no Boston College, nos                IHU, “o que me interessa recordar e
                                                              Estados Unidos, no dia 30 de no-                  reforçar é que, em El Salvador, exis-
            O sítio do IHU já publicou um vasto mate-
           rial sobre Ignacio Ellacuría. Confira, entre ou-   vembro. Nesse encontro, o filósofo                tiu uma tradição magnífica: a entre-
           tros artigos, Ignacio Ellacuría, um reitor as-     norte-americano Noam Chomsky e                    ga e o amor aos pobres, o enfrenta-
           sassinado. Vinte anos depois. Entrevista com       o jesuíta, teólogo e co-fundador da               mento aos opressores, a firmeza no
           Francisco das Chagas, publicada nas Notícias
           do Dia do sítio do IHU em 07-11-2009, disponí-     UCA, Jon Sobrino – que, no dia do                 conflito, a esperança e a utopia que
           vel no link http://www.ihu.unisinos.br/index.      massacre, estava fora de El Salvador              passavam de mão em mão”. Nessa
           php?option=com_noticiasItemid=18task=d           –, irão debater sobre a importância               tradição, segundo o teólogo, “res-
           etalheid=27288 e Inteligência, compaixão e
           serviço. Celebrando o martírio de Ignacio Ella-    dessa memória, mediados pelo jesu-                plandecia o Jesus do evangelho e o
           curía e companheiros. Entrevista com Héctor        íta e reitor emérito do Boston Colle-             mistério de seu Deus”. “Não pode-
           Samour publicada nas Notícias do Dia do sítio      ge, J. Donald Monan.                              mos dilapidar essa herança e deve-
           do IHU em 16-11-2007 e disponível em http://
           www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_              A exibição no IHU, traduzida ao               mos fazer com que ela chegue aos
           noticiasItemid=18task=detalheid=10728           português, irá ocorrer no dia 10 de               jovens”, afirma Sobrino.
           (Nota da IHU On-Line)
            Sobre Ignacio Martín-Baró leia o artigo Ho-       php?option=com_noticiasItemid=18task=de
           menagem a Ignacio Martín Baró, jesuíta as-          talheid=26991 (Nota da IHU On-Line)             Os debatedores
           sassinado, publicado no sítio do IHU em 06-          O sítio do IHU já publicou um vasto mate-
           11-2009, disponível no link http://www.ihu.         rial sobre Dom Óscar Romero. Confira, entre         Jon Sobrino é padre jesuíta e mo-
           unisinos.br/index.php?option=com_noticias          outros artigos, El Salvador reconhece respon-
           Itemid=18task=detalheid=27232 (Nota da            sabilidade no assassinato de Dom Romero, pu-     rava na mesma residência dos seis
           IHU On-Line)                                        blicado nas Notícias do Dia do sítio do IHU em
            Sobre Elba e sua filha leia “Dom Romero e         09-11-2009, disponível no link http://www.         Leia a íntegra do texto em http://www.ihu.
           tu”: Carta de Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría       ihu.unisinos.br/index.php?option=com_notici       unisinos.br/index.php?option=com_noticias
           publicada no sítio do IHU em 28-10-2009, aces-      asItemid=18task=detalheid=27353 (Nota          Itemid=18task=detalheid=26991 (Nota da
           sível em http://www.ihu.unisinos.br/index.          da IHU On-Line)                                   IHU On-Line)

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jesuítas assassinados. Por coincidên-                                               te nos EUA, após a descoberta de que
         cia ou providência, ele estava fora
                                                        “O julgamento dos                    alguns dos soldados envolvidos haviam
         do país naquele 16 de novembro. So-                                                 sido treinados pela Escola das Améri-
         brino é um dos grandes teólogos da
                                                    assassinos, ocorrido em                  cas, um centro de treinamento militar
         Teologia da Libertação, doutor em                                                   para tropas latino-americanas em Fort
         teologia pela Hochschule Sankt Ge-
                                                    1990, condenou apenas                    Benning, Georgia.
         orgen de Frankfurt, Alemanha, tendo                                                    O julgamento dos assassinos, ocor-
         recebido sua formação teológica no
                                                      dois dos 14 militares                  rido em 1990, condenou apenas dois
         contexto do espírito do Concílio Va-                                                dos 14 militares culpados. Segundo
         ticano II e da II Conferência Geral do
                                                        culpados. Segundo                    o jornal El País, o restante continua
         Conselho Episcopal Latino-America-                                                  em liberdade, e são hoje empresá-
         no, em Medellín, em 1968. É doutor
                                                        o jornal El País, o                  rios ou aposentados que desfrutam
         honoris causa pela Universidade de                                                  aposentadorias e cargos nos gabine-
         Louvain, na Bélgica, e pela Univer-
                                                     restante continua em                    tes governamentais. O jornal espa-
         sidade de Santa Clara, na Califórnia.                                               nhol indica ainda que, entre 1980 e
         Atualmente, divide seu tempo como
                                                      liberdade, e são hoje                  1992, a repressão militar assassinou
         professor de Teologia da Universida-                                                75 mil pessoas em El Salvador, dei-
         de Centro-Americana, responsável
                                                          empresários ou                     xando sete mil desaparecidos e cen-
         pelo Centro de Pastoral Dom Oscar                                                   tenas de milhares de órfãos, viúvas
         Romero, diretor da Revista Latino-
                                                         aposentados que                     ou desabrigados.
         americana de Teologia, além de ser                                                     “Os mártires da UCA estavam
         membro do comitê editorial da Re-
                                                              desfrutam                      comprometidos com a libertação
         vista Internacional de Teologia Con-                                                e com uma universidade orientada
         cilium. É autor de “Jesus Cristo li-
                                                         aposentadorias e                    para a mudança social. A docência, a
         bertador: Leitura histórica-teológica                                               pesquisa e a projeção social da uni-
         de Jesus de Nazaré” (Vozes, 1994) e
                                                      cargos nos gabinetes                   versidade deveriam estar orientadas
         “A fé em Jesus Cristo. Ensaio desde                                                 para conhecer rigorosamente e com
         as vítimas” (Vozes, 2001).
                                                         governamentais”                     profundidade a realidade nacional e
             Noam Chomsky é conhecido como                                                   internacional, com a finalidade de
         um dos pais da linguística moderna. É      antes, havia sido reitor da mesma        construir um saber crítico e criati-
         professor emérito de linguística e filo-   universidade durante 24 anos, des-       vo que incidisse na marcha histórica
         sofia do Massachusetts Institute of Te-    de 1972, a mais longa presidência da     dos nossos países num sentido liber-
         chnology (MIT), nos EUA. Paralelamen-      história da instituição. É doutor em     tador”, afirma Héctor Samour, coor-
         te à pesquisa acadêmica, tornou-se         filosofia pela Universidade de Lou-      denador do doutorado em filosofia
         ativista político de grande popularida-    vain, na Bélgica, e ex-presidente da     ibero-americana da UCA, em entre-
         de em todo o mundo por suas posições       Associação Nacional de Faculdades        vista ao sítio do IHU.
         de esquerda e suas críticas à política     e Universidades Independentes dos           Para Samour, a totalidade da vida
         externa dos EUA. É membro da Acade-        EUA. Também atuou como diretor           e do pensamento dos jesuítas assas-
         mia Americana de Artes e Ciências e        do Bank of Boston (1976-96) e como       sinados havia adquirido uma tríplice
         da Academia Nacional de Ciência dos        presidente interino da Association       característica de inteligência, com-
         EUA. Publicou mais de 70 obras, entre      of Jesuit Colleges and Universities      paixão e serviço. “Neles, a liberta-
         elas: “Estados fracassados” (Bertrand      (1996-97). É membro da Associação        ção não foi um mero tema externo
         Brasil, 2009), “11 de setembro” (Ber-      Filosófica Jesuíta e da Sociedade de     ao seu trabalho intelectual, ao re-
         trand Brasil, 2003) e “Poder e terroris-   Fenomenologia e Filosofia Existen-       dor do qual construíam argumentos
         mo” (Record, 2005).                        cial, ambas dos EUA.                     para fundamentar sua necessidade e
             Já o moderador do debate, o pa-                                                 sua bondade, mas ela se constituía
         dre jesuíta J. Donald Monan, era           Memória                                  em algo que tinha muito a ver com
         reitor do Boston College em 1989,                                                   a própria vida deles como intelectu-
         o ano do martírio, e fazia parte do           No dia 16 de novembro de 1989, seis   ais; foi algo que assumiram como um
         grupo de jesuítas que visitou o lo-        jesuítas, a funcionária da residência    princípio constitutivo da sua própria
         cal logo após as mortes terem ocor-        e sua filha adolescente foram mortos     existência”.
         rido. Ele trabalhou incansavelmente        por soldados do batalhão paramilitar        Libertação, nas palavras do pró-
         para formar uma rede de jesuítas           Atlacatl, que deixaram as paredes pin-   prio Ellacuría, um dos jesuítas as-
         para impulsionar as investigações, e       tadas para atribuir os crimes à Fren-    sassinados e então reitor da UCA,
         para que o Congresso dos EUA pres-         te Farabundo Martí para a Libertação     daquilo que pode ser considerado
         sionasse o governo salvadorenho a                                                     Leia a íntegra da entrevista em http://www.
                                                    Nacional (FMLN). O crime gerou uma        ihu.unisinos.br/index.php?option=com_notici
         julgar os assassinos. Desde 1996, é        grande onda de revolta, especialmen-      asItemid=18task=detalheid=10728 (Nota
         reitor emérito do Boston College e,                                                  da IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                              53

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“como opressão injusta da plenitude                        “O governo                        nilo Miranda Baires, professor do Insti-
         e da dignidade humana, libertação de                                                         tuto Centro-Americano de Ciências da
         toda forma de injustiça, libertação da               salvadorenho, após                      Saúde, da UCA.
         fome, da doença, da ignorância, do                                                               E, no dia 28, encerrando a progra-
         desamparo, libertação das necessida-              muitos anos de silêncio                    mação, o jesuíta e companheiro dos
         des falsas, impostas por uma socieda-                                                        mártires Jon Sobrino irá ministrar a
         de de consumo”.                                         e dissimulação,                      grande conferência “O que os mártires
             Por isso, eles optaram por viver                                                         nos pedem hoje”, na capela da UCA.
         em um mundo de oprimidos e se loca-                  decidiu somar-se às                         O governo salvadorenho, após
         lizaram conscientemente no lugar da                                                          muitos anos de silêncio e dissimu-
         realidade histórica onde havia opres-             homenagens do mundo                        lação, decidiu somar-se às homena-
         são, no lugar das vítimas despojadas                                                         gens do mundo inteiro. No dia 03 de
         de toda figura humana. “E foi aí onde               inteiro. No dia 03 de                    novembro, o presidente de El Salva-
         entregaram sua vida que lhes foi vio-                                                        dor, Mauricio Funes, afirmou que irá
         lentamente arrebatada”, afirma o fi-             novembro, o presidente                      conceder o mais alto grau de honra
         lósofo.                                                                                      do país aos seis jesuítas assassinados
                                                          de El Salvador, Mauricio                    pelo exército salvadorenho em 1989.
         Homenagens                                                                                   Apesar de não incluir as duas mulhe-
                                                           Funes, afirmou que irá                     res assassinadas, Funes afirmou que
             Com a exibição do debate, o IHU                                                          a entrega da Ordem Nacional José
         soma-se a uma ampla agenda de ho-                   conceder o mais alto                     Matias Delgado será um “ato público
         menagens aos mártires salvadorenhos                                                          de desagravo” pelos erros dos gover-
         em todo o mundo. Na própria UCA, em                grau de honra do país                     nos passados. A homenagem será fei-
         El Salvador, um grande calendário de                                                         ta, segundo a presidência, em razão
         atividades está sendo realizado neste                   aos seis jesuítas                    dos “serviços extraordinários presta-
         mês de novembro. São 16 dias de pro-                                                         dos pelos jesuítas ao país, nas áreas
         gramação especialmente dedicada aos                   assassinados pelo                      de educação, direitos humanos, sua
         mártires.                                                                                    contribuição ao combate à pobreza,
             Os eventos começaram ainda no dia             exército salvadorenho                      exclusão social, iniquidade, e suas
         03 de novembro, com uma homenagem                                                            contribuições à paz e à construção
         a Ignacio Martín-Baró, pela passagem                        em 1989”                        da democracia” em El Salvador.
         do seu 68º aniversário de vida. O jesu-                                                          Há algumas semanas, a Câmara
         íta também será lembrado no dia 12               re uma vigília com procissão de velas       de Representantes dos EUA também
         de novembro, no “Fórum Internacio-               pela cidade.                                aprovou uma resolução para honrar a
         nal Ignacio Martín-Baró: Psicologia da              No domingo, dia 15, será celebrada       vida dos mártires da UCA. Segundo o
         libertação, 20 anos depois”.                     uma grande missa na catedral de San         jornal El País, a resolução, apresen-
             Já no dia 10 de novembro, ocorre o           Salvador em comemoração aos márti-          tada pelo deputado democrata James
         “XXIV Fórum da Realidade Sócio-Políti-           res, diante do túmulo de Dom Óscar          McGovern e outros 33 parlamentares,
         ca ‘Segundo Montes’: Pensar as migra-            Arnulfo Romero, arcebispo da capital        “recorda e comemora as vidas e o tra-
         ções hoje, uma homenagem a Segundo               assassinado em 1980. No dia 16, será        balho” dos mártires, e reconhece que
         Montes e seu legado”.                            celebrada outra missa com a comuni-         “as pessoas assassinadas dedicaram a
             As questões judiciais envolvendo o           dade acadêmica, no campus da UCA.           sua vida para atender e aliviar as de-
         caso dos jesuítas também serão lem-                 No dia 18, a conferência “O papel        sigualdades sociais e econômicas de El
         bradas no sábado, 14 de novembro,                dos mártires da UCA na transição de-        Salvador”.
         com a conferência de Almudena Ber-               mocrática salvadorenha e as debilida-         Sobre o tema leia a matéria Congresso norte-
         nabeu, a advogada que apresentou o               des das democracias centro-america-          americano aprova resolução que homenageia
         caso na Espanha. No mesmo dia, ocor-                                                          jesuítas assassinados há 20 anos, publicada
                                                          nas” irá reunir Gilles Bataillon, diretor    no sítio do IHU em 31-10-2009 e disponível
            Leia acessando http://www.ihu.unisinos.br/   de estudos da Escola de Altos Estudos        no link http://www.ihu.unisinos.br/index.
           index.php?option=com_noticiasItemid=18t      em Ciências Sociais, da França, e Da-        php?option=com_noticiasItemid=18task=de
           ask=detalheid=27232 (Nota da IHU On-Line)                                                  talheid=27077 (Nota da IHU On-Line)




                Informações em www.ihu.unisinos.br
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Perfil
         Faustino Teixeira
          Por Graziela Wolfart | Fotos Arquivo Pessoal




          U
                       m ser apaixonado pelo que faz e que vibra com a vida. Este é Faus-
                       tino Teixeira, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciência
                       da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Dudu,
                       como é conhecido entre amigos, concedeu a entrevista que segue
                       pessoalmente à IHU On-Line, quando esteve na Unisinos no último
          mês de setembro participando do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus
          numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. Ao contar
          sua história de vida, Faustino considera que a razão de ser da felicidade está
          em fazer o que se gosta. E aponta a sensibilidade como o elemento que marca
          sua vida. “As coisas me tocam muito fortemente e me transformam profunda-
          mente”. A questão da religiosidade e a sintonia com o mistério, um mistério
          sempre maior, é outro ponto que igualmente caracteriza sua vida atual. Conhe-
          ça um pouco mais deste teólogo que é o pai de Pedro, João, Tiago, e Daniel.



             Faustino Teixeira nasceu em Juiz            nhamentos dos filhos para a formação.      cursava paralelamente, Dudu recebeu o
         de Fora, Minas Gerais, em julho de              Um traço forte destacado por Teixeira      incentivo do padre João Batista Libânio,
         1954, em uma família bem numerosa               de seus pais é a preocupação com a         amigo e orientador de estudos, para fa-
         e muito religiosa. Seus pais tiveram 15         dinâmica familiar e a formação. Seu        zer o mestrado em Teologia na PUC-Rio.
         filhos, sendo que atualmente são 13 vi-         pai faleceu há alguns anos, mas a mãe      “Nessa época, a PUC-Rio era muito flo-
         vos. São dez homens e cinco mulheres            continua no controle dos filhos, hoje      rescente, todos os jesuítas estavam lá.
         e Faustino é o oitavo filho. Seu pai era        com 92 anos.                               Era talvez um dos momentos mais fortes
         médico, “daqueles que tratam com fé,                Faustino começou sua formação no       da formação teológica do Brasil, com um
         esperança e cafuné”, define. Além dis-          Instituto Santíssima Trindade e sem-       influxo muito forte da Teologia da Li-
         so, durante muito tempo, foi ministro           pre estudou em instituições católicas.     bertação. Minha formação teológica foi
         da Eucaristia e tinha uma formação              Depois, do primeiro ano primário até       muito privilegiada em função desse rico
         filosófica e teológica muito rica. Era          o final do segundo grau estudou com        período da PUC-Rio, do qual nasceram
         professor de deontologia médica na              os jesuítas de Juiz de Fora. Então, fez    muitos teólogos leigos”, lembra. A atu-
         Universidade Federal de Juiz de Fora            a graduação em Filosofia e Ciência da      ação acadêmica de Faustino começou
         e sempre teve a tradição da medicina            Religião na Universidade Federal de        na PUC-Rio, durante o período do mes-
         humanizada muito acentuada. Na casa             Juiz de Fora - UFJF de 1974 a 1978.        trado. “Nessa época eu era professor de
         da família três cômodos foram desti-            Depois, continuou com os jesuítas na       Teologia na PUC-Rio e na Universidade
         nados à biblioteca, pois o pai de Faus-         PUC-Rio (mestrado em Teologia) e de        Santa Úrsula. Aliás, as irmãs ursulinas
         tino sempre comprou muitos livros. E            lá seguiu com eles na Gregoriana, em       também tiveram um papel muito impor-
         mais do que obras na área da medicina           Roma, para o doutorado e o pós-dou-        tante no apoio à minha formação pro-
         ele comprava na área de literatura, fi-         torado em Teologia. “A formação jesu-      fissional. Lembro que eu dava 28 aulas
         losofia e teologia, sua grande paixão.          íta foi muito forte na minha vida. Mas     por semana, sete matérias diferentes e
             Dudu lembra que seu pai veio da             apesar de estudar com eles, minha in-      fazendo mestrado ao mesmo tempo. Só
         tradição escolástica da filosofia, ini-         fluência mais marcante em termos de        que naquele tempo o mestrado durava
         cialmente muito marcado pelo tomis-             formação foi com os redentoristas e        três anos. E eu ainda era recém casado”,
         mo, e essa influência aparece na vida           com os dominicanos”, conta.                recorda, ao contar que se casou em 1978
         familiar, no contato com os filhos, nos             Quando terminou a graduação em         e logo foi para a PUC-Rio. Em 1982 bateu
         ensinamentos e também nos encami-               Filosofia e em Ciências da Religião, que   na sua porta a oportunidade de fazer o

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                  55

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Faustino   com a esposa,   Maria Teresa. Na   foto ao lado, com a família



         doutorado em Roma. Lá, foi orientado                      Marco Lucchesi e Maria Clara Bingemer,           montaram um núcleo de mística compa-
         pelo professor Felix Pastor.                                                                                 rada que se reúne em Juiz de Fora desde
             Concluído o doutorado, Teixeira vol-                   135ª edição, de 4 de abril de 2005, outro arti-   2001, com encontros anuais que acolhem
                                                                    go publicado na 150ª edição, de 8 de agosto de
         ta para a PUC-Rio e leciona no curso                       2005, e uma entrevista a nós concedida inti-      professores e orientandos do núcleo. “É
         de Teologia. “Aos poucos fui me apro-                      tulada A fé deve ajudar a superarmos a ilusão     um espaço onde me sinto mais à vonta-
         ximando da área da teologia das reli-                      da razão política como razão que entende o        de, considerando o difícil momento que a
                                                                    drama humano e publicada no sítio do IHU em
         giões”, conta. Em 1989, ele fez um                         31-01-2008 (Nota da IHU On-Line)                  academia vive no Brasil, de fechamento
         concurso para a UFJF na área de ecle-                       A IHU On-Line entrevistou Marco Lucche-         pragmático de produtividade. Ali temos
         siologia e conseguiu entrar. Então, com                    si nas edições número 242, de 05-11-2007, e       um clima mais livre, para trabalhar re-
                                                                    222, de 04-06-2007, sobre o poeta Rûmî. Ele
         a ajuda dos professores Pedro Assis Ri-                    também foi o destaque da editoria Invenção,       flexões mais interessantes. Nosso núcleo
         beiro de Oliveira e Luiz Bernardo Araú-                    na edição número 258, de 19-05-2008. (Nota        já produziu dois livros e outro já a cami-
         jo, começou a montar o Programa de                         da IHU On-Line)                                   nho. Os laços de amizade que se criaram
                                                                     Maria Clara Bingemer já participou de ou-
         Pós-Graduação em Ciência da Religião                       tras edições da IHU On-Line: Nem homem nem        também são muito importantes”.
         da universidade. “Criamos a especiali-                     mulher: Paulo misógino? - Artigo publicado
         zação em 1991, o mestrado em 1993 e                        nas Notícias do Dia em 27-9-2008 e disponível     Casamento e família
                                                                    no link    http://www.ihu.unisinos.br/index.
         o doutorado em 2001. E eu fiquei como                      php?option=com_noticiasItemid=18task=
         coordenador do programa este perío-                        detalheid=16981; “O documento não tem o              Faustino conheceu sua esposa, Maria
         do todo, dez anos”. Atualmente, ele                        profetismo e o sopro libertador que caracte-      Teresa Bustamante, que todos conhe-
                                                                    rizou Medellín e Puebla”. Edição número 224,
         continua como professor no PPG e con-                      de 20-6-2007, intitulada Os rumos da Igreja       cem por Teita, num grupo universitário
         centra seu trabalho como pesquisador                       na América Latina a partir de Aparecida. Uma      chamado “Tropa Maldita”, liderado pelo
         e docente. “A minha transição se deu                       análise do Documento Final da V Conferência.      padre João Batista Libânio. “Ali nasceu
                                                                    Disponível em http://www.ihuonline.unisinos.
         da eclesiologia para a antropologia te-                    br/index.php?option=com_tema_capaItemid          uma grande amizade, que depois se
         ológica, depois para a teologia das re-                    =23task=detalheid=485; “Igreja que dese-        aprofundou”. O casal tem quatro filhos:
         ligiões e então para o diálogo inter-re-                   ja ser ouvida numa cultura pós-cristã precisa     Pedro, 28 anos, que faz mestrado em
                                                                    ter um testemunho forte, crível e consisten-
         ligioso. No fim do processo, começou a                     te que acompanhe o discurso”. Edição 220,         Literatura; João, 27 anos, que é músico
         abertura para o interesse pela mística                     de 21-5-2007, intitulada O futuro da auto-        violoncelista da Orquestra Filarmônica
         inter-religiosa, onde atualmente estou                     nomia, uma sociedade de indivíduos? Acesse        de Manaus; Tiago, 21 anos, que faz Ge-
                                                                    em http://www.ihuonline.unisinos.br/index.
         concentrado”, explica.                                     php?option=com_destaques_semanaItemid=           ografia na UFJF; e Daniel, 19 anos, que
             Para Faustino, a mística o fascina por                 24task=listaidedit=10; Os jesuítas e a ex-      faz Ciências Sociais na UFRJ.
         ser o campo onde encontrou mais aber-                      pansão da cultura moderna. Edição número              Dudu tem também o talento musi-
                                                                    183, de 5-6-2006, intitulada Floresta de Arau-
         tura para o diálogo. “É um campo de                        cária: uma teia ecológica complexa. Disponível    cal correndo nas veias. Sua família é
         liberdade acadêmica, espiritual, de tra-                   em http://www.ihuonline.unisinos.br//uploa-       muito musical, tem dois irmãos que
         balho com prazer”, define. Ele e alguns                    ds/edicoes/1158354193.6word.doc; Simone           são músicos profissionais e ele foi can-
                                                                    Weil. A vida em busca da verdade. Edição nú-
         companheiros, como Luis Felipe Pondé,                     mero 313, de 03-11-2009, intitulada Filosofia,    tor durante um tempo num grupo de
            Luiz Felipe Pondé: dele publicamos, entre              mística e espiritualidade. Simone Weil, cem       música popular brasileira, chamado “A
           outros, uma entrevista na 133ª edição, de 21             anos. Disponível em http://www.ihuonline.
           de março de 2005, especialmente concedida                unisinos.br/index.php?id_edicao=341 (Nota da        Confira uma entrevista com ela nesta edição.
           para a IHU On-Line, um artigo publicado na               IHU On-Line)                                       (Nota da IHU On-Line)

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Pá”, que atuou na década de 70 em          do “Ofício das Comunidades”, enrique-          com sua preciosa colaboração, como
         Juiz de Fora. “A presença musical é        cido com orações inter-religiosas e sin-       Pierre Sanchis, Otávio Velho, Antônio
         muito forte na minha vida”, confessa.      gulares momentos de silêncio. É um es-         Flávio Pierucci, Ronaldo de Almeida, Ivo
             O sonho atual de Faustino Teixeira     paço onde exerce sua atividade musical,        Lesbaupin, Cecília Mariz, Carlos Alberto
         é que exista um maior entendimento         regando os salmos com violão e o canto.        Steil e outros. E outra obra encontra-se
         entre as tradições religiosas, o respei-   “Talvez em função da vinculação muito          a caminho, fruto de uma longa pesquisa
         to à diversidade de culturas e de re-      forte com a mística religiosa, com a li-       de Faustino sobre os “buscadores de di-
         ligiões. “Sonho com a quebra de uma        berdade e criatividade que a envolvem,         álogo”. Trata-se de uma pesquisa finan-
         certa arrogância que marca as iden-        tenho certa dificuldade com a dinâmica         ciada pelo CNPQ que visa traçar o itine-
         tidades religiosas, numa perspectiva       atual da religiosidade no mundo católi-        rário de alguns importantes buscadores
         de reconhecer o valor da diversidade.      co: o formalismo das missas, a fixação         cristãos que viveram a experiência da
         Minha grande luta atual é em favor do      nas rubricas, os sermões e seu distancia-      liminaridade, de aproximação profunda
         que chamo de pluralismo de princípio:      mento do tempo etc. Falta um pouco de          com outra tradição religiosa. Dentre os
         reconhecer que o pluralismo é um va-       mundo interior nessa dinâmica do catoli-       autores trabalhados estão: Louis Mas-
         lor fundamental, que a diversidade         cismo hoje”, critica.                          signon, Henri le Saux, Raimon Panikkar,
         é um dom, e que o aprendizado e o              Para Faustino Teixeira a política é        Thomas Merton, Simone Weil e Ernesto
         encontro com o outro é um horizonte        o espaço da santidade. “A política é o         Cardenal.
         importantíssimo para o nosso tempo”.       lugar onde podemos lutar para fazer              Sobre Thomas Merton, leia a entrevista com
             Perguntado sobre o que teme hoje,      acontecer nossos sonhos. Vejo-a como            Getulio Bertelli: Thomas Merton e Ernesto
         Dudu considera que vivemos em uma so-      um espaço fundamental do exercício              Cardenal: dois precursores da espiritualida-
                                                                                                    de da libertação latino-americana, publicada
         ciedade marcada por medos. “A busca        da cidadania”.                                  na IHU On-Line número 285, de 08-12-2008,
         de sentido é sempre feita num ambiente         Vale ainda ressaltar que, em parceria       disponível no link http://www.ihuonline.unisi-
         marcado pelas ameaças. Vivemos movi-       com Renata Menezes, Faustino Teixeira           nos.br/index.php?option=com_destaques_sem
                                                                                                    anaItemid=24task=detalhesidnot=1499i
         mentos de enrijecimento em todos os        organizou uma obra que acaba de ser             dedit=10 (Nota da IHU On-Line)
         campos. Tenho medo que os grandes va-      lançada pela editora Vozes, intitulada           Sobre Simone Weil a IHU On-Line dedicou
         lores possam ser abafados pela dinâmica    Catolicismo plural: dinâmicas contem-           três edições. Confira no sítio do IHU (www.
                                                                                                    ihu.unisinos.br). Simone Weil. Palavra viva.
         do mercado, caracterizada pela indife-     porâneas. É uma obra que nasceu sob            Edição número 84, de 17-11-2003. O material
         rença. Meu maior medo é que a indife-      o incentivo da ONG ISER-Assessoria, fru-        está disponível no endereço http://www.
         rença se torne a linguagem comum”.         to de um seminário sobre o tema, que            ihuonline.unisinos.br//uploads/edicoes/
                                                                                                    1161201356.89word.doc; Hannah Arendt, Si-
             A relação de Dudu com Deus, com o      aconteceu em Juiz de Fora em abril de           mone Weil e Edith Stein. Três mulheres que
         transcendente, é muito forte. “Tenho       2005. O livro reúne 11 artigos que bus-         marcaram o século XX. Edição número 168,
         uma relação pessoal, mais do que exclu-    cam traçar o quadro plural do catolicis-        de 12-12-2005. O material está disponível no
                                                                                                    link http://www.ihuonline.unisinos.br//uplo-
         sivamente sacramental. Tenho um ritmo      mo hoje no Brasil. Nomes importantes            ads/edicoes/1158350658.23word.doc; e Filo-
         pessoal de oração muito acentuado há       das ciências sociais enriquecem a obra          sofia, mística e espiritualidade. Simone Weil,
         muitos anos”. Ele, sua mãe e sua esposa                                                    cem anos. Edição número 313, de 03-11-2009,
                                                      Sobre a obra, leia a nota publicada no       disponível em http://www.ihuonline.unisinos.
         participam de um grupo de oração em         blog do IHU em http://unisinos.br/blog/        br/uploads/edicoes/1257272797.865pdf.pdf
         Juiz de Fora. O grupo segue a dinâmica      ihu/2009/11/04/catolicismo-plural/ (Nota da    (Nota da IHU On-Line)
                                                     IHU On-Line)

          SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314                                                                                       57

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IHU Repórter
         Lauro Antônio Lacerda d’Ávila
         Por Graziela Wolfart | Fotos Arquivo Pessoal




         O
                      professor Lauro d’Avila, da Unidade de Ciências da Comunicação da
                      Unisinos, é quem conta sua trajetória de vida na edição desta semana
                      da IHU On-Line. Formado em Administração e em Comunicação Social
                      - Habilitação Relações Públicas, Lauro é uma pessoa que já passou por
                      diversas experiências de vida, como perdas familiares muito marcan-
         tes e difíceis. Mas, em todos os momentos, ele sempre tem procurado se manter
         o mesmo. Por onde passa nunca deixa inimigos, desejando sempre conviver bem
         com todos e respeitar diferenças. Suas características são a calma e a timidez. No
         entanto, paradoxalmente, como ele mesmo reconhece, fala bastante e gosta de
         se expressar, se comunicar. Conheça um pouco mais deste colega da comunidade
         acadêmica da Unisinos:



             Origens e família – Nasci em Cara-         lores que deles herdei posso resumir     perdia muitas aulas e provas. O quar-
         zinho, Rio Grande do Sul. Minha mãe            em três palavras: amor, fé e integri-    tel onde servi por quase sete anos,
         era de Vacaria e meu pai de Lagoa              dade.                                    entre o tempo de aluno e de oficial
         Vermelha. Eles tiveram uma primeira                                                     foi o 19º BITMz. Mesmo com as difi-
         filha – Maria Aparecida, que faleceu               Formação – Estudei no Grupo Es-      culdades de administração do tempo
         no parto. Minha mãe recebeu, então,            colar Visconde de São Leopoldo, no       entre minhas atividades profissionais
         o diagnóstico de que não poderia mais          centro de nossa cidade. Depois, fui      e meus estudos, perseverei e con-
         ter filhos. Depois de consultar um es-         para o colégio dos irmãos maristas, o    clui a graduação em Administração.
         pecialista em Porto Alegre, meus pais          São Luís, onde fiz o ginásio. Em se-     Depois, cursei também Comunicação
         descobriram que podiam ter outros fi-          guida, cursei o científico no Colégio    Social Habilitação Relações Públicas,
         lhos e foi daí que eu nasci num cená-          Estadual Pedro Schneider, ainda na       na Unisinos. E fiz igualmente aqui o
         rio de muita expectativa. Meu nome             sua sede antiga. Então, fiz vestibu-     Mestrado em Administração, com pro-
         foi dado em homenagem ao meu avô               lar na Universidade Federal do Rio       fessores da PUC Rio. Tenho planos de
         Lauro d’Avila, notário em Alfredo              Grande do Sul para a Faculdade de        fazer um doutorado na área de Comu-
         Chaves, hoje Veranópolis. O Antônio            Arquitetura, mas não passei. Tentei      nicação Organizacional.
         foi escolhido por minha mãe em razão           na Unisinos e consegui o ingresso no
         de sua devoção por Santo Antônio de            curso superior. Cursei as disciplinas        Vida profissional – Quando saí do
         Lisboa. Meu pai era bancário e minha           do antigo “básico”, num semestre.        Exército, passei três meses traba-
         mãe professora. Quando eu tinha um             Desejava o Curso de Arquitetura, mas     lhando na Prefeitura de Campo Bom,
         ano de idade nossa família mudou-se,           não pude freqüentar as aulas, porque     numa assessoria técnica. Então, rece-
         em função de uma transferência do              as de desenho artístico necessitavam     bi uma proposta de emprego em uma
         meu pai, para São Leopoldo, onde me            de luz natural (o mesmo desenho ar-      empresa de grande porte, localizada
         criei. Minha infância foi muito feliz e        tístico que me reprovou no vestibular    na cidade de Guaíba, onde eu havia
         dela tenho ótimas lembranças. Éra-             não unificado da UFRGS), e eu estava     deixado currículo: a Aracruz, que na
         mos quatro: meu pai, minha mãe, eu             no Exército e não disponibilizava de     época chamava-se Riocell e hoje se
         e meu irmão. Todos já deixaram esta            tempo durante o dia. Desisti da Arqui-   denomina Fibria. Lá trabalhei por mais
         vida em razão de cânceres irreversí-           tetura e parti Administração de Em-      de 18 anos. Foi uma experiência pro-
         veis. Minha mãe faleceu aos 46 anos.           presas, sem saber exatamente do que      fissional muito importante na minha
         Depois meu irmão, igualmente, aos              se tratava. Levei dez anos para con-     história de vida. Ela, na sua origem,
         46 anos. E, posteriormente, já com             cluir o curso, pois como oficial R/2,    era uma multinacional norueguesa
         mais idade, faleceu meu pai. Os va-            convocado pelo Exército Brasileiro,      que gerou um grande problema de
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Grécia e uma região no sul da
                                                                                     Alemanha,em        Baden-Würten-
                                                                                     berg onde fica a cidade medie-
                                                                                     val de Calw, local de nascimento
                                                                                     do escritor Hermann Hesse. Um
                                                                                     sonho importante que eu tinha
                                                                                     e já realizei foi conhecer Liver-
                                                                                     pool - o berço dos Beatles, com
                                                                                     minha esposa Jane. Lá conhe-
         opinião pública, uma celeuma         pois de um longo trabalho com          cemos lugares e lembranças de
         muito grande à época. Tal expe-      engenheiros, meus interlocu-           todo aquele tempo sempre pre-
         riência teve a ver com a minha       tores agora eram médicos. Não          sente em nossas vidas beatlema-
         escolha profissional pela Comu-      permaneci por tanto tempo, mas         níacas.
         nicação Organizacional. Entrei       aprendi muito, principalmente
         na empresa como assessor de          sobre ações comunicacionais de            Unisinos – É parte integrante
         planejamento, em uma área de         accountability e de relaciona-         da minha vida. É um local aonde
         Relações Públicas. Com muito         mento estratégico, com públicos        as pessoas chegam e saem com
         trabalho - e oportunidades - ga-     essenciais.                            muita pressa. Eu não gosto des-
         nhei espaço e fui me direcio-                                               se ritmo ansioso, pois a Unisinos
         nando para assumir a área, mas          Casamento e filhas – Casei e        tem tantas ofertas, lugares e
         faltava a formação em Relações       tive duas filhas. A Gabriela, que se   serviços que passam despercebi-
         Públicas. Iniciei o curso na UFR-    formou em Direito na Unisinos e        dos por quem tem tanta pressa.
         GS e lá permaneci por três se-       tem 29 anos. E a Luísa, 22 anos,       Enquanto instituição ela formou
         mestres, mas pedi transferência      que cursa Ciências Sociais na UFR-     e tem formado pessoas que ocu-
         para a Unisinos porque a Fede-       GS e deseja ser arqueóloga. Atual-     pam lugares transformadores na
         ral entrou em greve e eu queria      mente resido em Novo Hamburgo.         sociedade. Recebo notícias de
         me formar rápido. Já formado e                                              muitos ex-alunos com trajetó-
         com reconhecimento na área re-           Autores – Hermann Hesse e          rias profissionais gratificantes
         cebi um convite para trabalhar       Fritjof Capra.                         para quem por algum tempo lhes
         na Unisinos, como professor.                                                ajudou a construir o seu proje-
         Eu já trabalhava na Ulbra como          Livro – O Lobo da Estepe, de        to de vida profissional. É assim
         docente no Curso de Adminis-         Hermann Hesse, e o Despertar dos       que encaro a minha atividade de
         tração. Por um tempo conciliei       Mágicos, de Louis Pauwels e Jac-       professor.
         aulas nas duas universidades e       ques Bergier.
         o trabalho na empresa. Foi um                                                  IHU – Vejo o IHU com o me-
         período bem conturbado. Muitos           Filme – O Homem de La Man-         lhor dos olhares. Sempre que
         deslocamentos e dificuldade de       cha, baseado em um musical da          posso participo dos eventos
         conciliar o profissional e o fami-   Broadway, escrito por Dale Was-        promovidos pelo Instituto. Gos-
         liar. Então, optei pela Unisinos,    serman e dirigido por Arthur Hil-      to também das publicações. O
         onde estou trabalhando e apren-      ler, sobre Miguel de Cervantes.        IHU é o traço humanístico da
         dendo até hoje. Após a minha                                                Unisinos. Dos espaços oferta-
         atividade executiva na Riocell          Lazer – Ler, escutar música e até   dos pela Unisinos é o que eu
         trabalhei no Hospital de Clínicas    tocar música de vez em quando.         mais freqüento, junto com a
         de Porto Alegre, na Assessoria                                              Biblioteca. Neles me sinto mui-
         de Administração Central. De-           Um    sonho    –   Conhecer    a    to bem.




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Destaques                                                            Fórum Social Mundial na
                                                                        Unisinos
                                                                        O IHU, em parceria com o Curso de
                                                                        Serviço Social, está preparando o IV
           Peça para Lula defender o clima                              Seminário de Políticas Públicas, que
           A preocupação com o futuro ambiental do planeta e a          acontecerá em 27-01-2010, no An-
           exigência de que Convenção do Clima em Copenhague            fiteatro Padre Werner, na Unisinos.
           assuma metas ambiciosas de redução de gases de efeito        A quarta edição do evento compõe
           estufa deram origem à petição Tck Tck Tck, lançada em        um conjunto de atividades autoges-
           todo o mundo e divulgada através da internet. No Brasil,     tionárias do Fórum Social Mundial
           a campanha ficou conhecida como tic tac tic tac.             2010. O Fórum está de volta a Porto
                                                                        Alegre na edição em que comemora
           Nos próximos dias o presidente Lula deve divulgar o Plano    seus 10 anos e será realizado de 25 a
           Climático do Brasil que será apresentado em Copenhague.      29 de janeiro de 2010. Pela manhã,
           O país é um personagem importante na conferência e, sem      as atividades acontecerão na capital
           seu compromisso com metas fortes, as negociações do cli-     gaúcha e à tarde nas cidades da região
           ma correm o risco de permanecerem estagnadas. Para que       metropolitana. Cada uma das cidades
           o Brasil assuma uma postura eficiente, nesta segunda-fei-    está sendo referência em uma grande
           ra, 09-11-2009, será entregue uma petição ao presidente      temática. São Leopoldo acolherá os
           Lula, sinalizando que os brasileiros se importam com as      participantes do Fórum para, entre
           mudanças climáticas. A campanha precisa de um número         outros temas, debaterem o papel pú-
           massivo de assinaturas para mostrar ao governo que é hora    blico das políticas sociais na garantia
           de agir. Contribua com o futuro do planeta e registre seu    dos direitos. Essa discussão acontece
           nome no link http://www.avaaz.org/po/peticao_tictac_         no dia 27-01-2010, no Anfiteatro Pa-
           lula/.                                                       dre Werner, na Unisinos. Também
                                                                        no dia 26 de janeiro de 2010, o IHU
           Iniciativas do IHU                                           participará do Fórum Mundial de Te-
           Além de suscitar o debate sobre as mudanças climáticas       ologia da Libertação que se realizará
           e a Convenção do Clima em Copenhague nas Notícias do         na Escola Superior de Teologia – EST.
           Dia do sítio do IHU e na IHU On-Line (A convenção do cli-    O Instituto é uma das Institutições que
           ma em Copenhague. Um debate. Edição número 311, de           integra o Conselho Permanente do FMTL
           19-10-2009), o Instituto Humanitas Unisinos – IHU aderiu     e apóia a atividade do FMTL no FSM - 10
           a campanha tic tac tic tac. Na entrada do IHU você pode      anos, com a temática: Libertação e Teo-
           assinar o abaixo-assinado que será entregue ao presidente.   logia. Direito e justiça. Encontraram-se
           Nesta mesma perspectiva, o IHU também organizou um           a graça e a verdade, a justiça e a paz se
           IHU Ideias especial sobre O futuro em Copenhague? Mu-        beijaram (Sl 85,10).
           danças e mudanças, ministrado pelo Prof. Dr. Paulo Brack,
           do Instituto de Biociências do Departamento de Botânica                                           Apoio:

           da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.




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A atualidade de søren kierkegaard

  • 1.
    A atualidade deSøren Kierkegaard Marcio Gimenes de Paula O indivíduo como ponto inicial na filosofia kierkegaardiana Patricia Carina Dip E mais: Filosofia de Kierkegaard: defesa >> Maria Teresa pela alteridade Bustamante Teixeira: 314Ano IX Álvaro Valls Gestão e Saúde Coletiva 09.11.2009 O avanço da pesquisa >>Jesuítas assassinados em ISSN 1981-8469 em Kierkegaard no Brasil El Salvador. 20 anos depois flash.indd 1 9/11/2009 18:38:04
  • 2.
    A atualidade deSøren Kierkegaard Nos próximos dias 12 e 13 de novembro, realiza-se, na Unisinos, a segunda parte da Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard. Ela é antecedida, nos dias 9 e 10 de novembro, pelo evento que acontece em Buenos Aires. A atualidade do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) é discutida nesta edição da IHU On-Line por especialistas que estarão tanto em Buenos Aires como aqui em São Leopoldo, RS. Patricia Carina Dip, pesquisadora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), na Argentina, fala sobre a filosofia de Kierkegaard como aporte ético à alteridade. O indivíduo como ponto inicial na filosofia kierkegaardiana é um dos aspectos abordados por Marcio Gimenes de Paula, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Os pontos de proximidade e ruptura entre as ideias de Kierkegaard e Schopenhauer são o foco de Deyve Redyson de Melo dos Santos, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Álvaro Valls, da Unisinos, faz um balanço das pesquisas sobre o dinamarquês no Brasil. Luiz Rohden, também da Unisinos, fala sobre a crítica de Gadamer e Kierkegaard à filosofia abstrata. Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti (Univer- sidade John F. Kennedy, na Argentina) oferecem um panorama sobre os estudos sobre esse autor na Argentina, e comentam aspectos sobre a filosofia pós-moderna e a força infinita do espírito humano. Either/Or e o texto como arena é o tema que instiga a pesquisadora Jacqueline Ferreira em sua entrevista à IHU On-Line. Comparando Kierkegaard e Tillich, Jonas Roos examina a virada nos conceitos tradicionais religiosos proposta por ambos pensadores. O filósofo e psicanalista Mario Fleig, da Unisinos, reflete sobre a leitura de Lacan sobre Kierkegaard. A programação completa do evento pode ser conferida no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, que está apoiando o evento: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_eventos&Itemid=19&task=detalhe&id=152 No próximo dia 16 de novembro, celebram-se os vinte anos do assassinato de seis jesuítas, to- dos eles professores da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), em El Salvador. Juntamente com eles, foram também assassinadas a senhora Elba Ramos e sua filha Celina, que trabalhavam na residência dos jesuítas. O debate de Noam Chomsky e John Sobrino sobre o tema e o evento a ser realizado na Unisinos, são temas desta edição. Completam esta edição mais duas entrevistas. Uma com Julius Lipner, professor de Hinduísmo na Universidade de Cambridge, e outra com a médica Maria Teresa Bustamante Teixeira, profes- sora da UFJF, sobre gestão e saúde coletiva. A todas e todos uma ótima leitura e uma excelente semana! IHU On-Line é a revista semanal do Instituto Humanitas Unisinos – IHU – Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. ISSN 1981-8769. Expediente Diretor da Revista IHU On-Line: Inácio Neutzling (inacio@unisinos.br). Editora executiva: Graziela Wolfart MTB 13159 (grazielaw@unisi- nos.br). Redação: Márcia Junges MTB 9447 (mjunges@unisinos.br) e Patricia Fachin MTB 13062 (prfachin@unisinos.br). Revisão: Vanessa Alves (vanessaam@unisinos.br). Colaboração: César Sanson, André Langer e Darli Sampaio, do Centro de Pesquisa e Apoio aos Traba- lhadores – CEPAT, de Curitiba-PR. Projeto gráfico: Bistrô de Design Ltda e Patricia Fachin. Atualização diária do sítio: Inácio Neutzling, Greyce Vargas (greyceellen@unisinos.br) e Juliana Spitaliere. IHU On-Line pode ser acessada às segundas-feiras, no sítio www.unisinos. br/ihu. Sua versão impressa circula às terças-feiras, a partir das 8h, na Unisinos. Apoio: Comunidade dos Jesuítas - Residência Concei- ção. Instituto Humanitas Unisinos - Diretor: Prof. Dr. Inácio Neutzling. Gerente Administrativo: Jacinto Schneider (jacintos@unisinos.br). Endereço: Av. Unisinos, 950 – São Leopoldo, RS. CEP 93022-000 E-mail: ihuonline@unisinos.br. Fone: 51 3591.1122 – ramal 4128. E-mail do IHU: humanitas@unisinos.br - ramal 4121. flash.indd 2 9/11/2009 18:38:04
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    Leia nesta edição PÁGINA 02 | Editorial A. Tema de capa » Entrevistas PÁGINA 07 | Patricia Carina Dip: A filosofia de Kierkegaard como aporte ético à alteridade PÁGINA 10 | Marcio Gimenes de Paula: O indivíduo como ponto inicial na filosofia kierkegaardiana PÁGINA 13 | Deyve Redyson Melo dos Santos: Kierkegaard e Schopenhauer. Proximidades e rupturas PÁGINA 16 | Luiz Rohden: A crítica de Gadamer e Kierkegaard à filosofia abstrata PÁGINA 18 | Jonas Roos: Uma virada nos conceitos tradicionais religiosos PÁGINA 20 | Mario Fleig: Que peso tem para um filho o pai em pecado? Lacan leitor de Kierkegaard PÁGINA 23 | Álvaro Valls: O avanço da pesquisa em Kierkegaard no Brasil PÁGINA 27 | Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti: A filosofia pós-moderna e a força infinita do espírito humano PÁGINA 30 | Jacqueline Ferreira: O texto como arena B. Destaques da semana » Teologia Pública PÁGINA 36 | Julius Lipner: Um Deus para cada contexto » Entrevista da Semana PÁGINA 39 | Maria Teresa Bustamante Teixeira: Gestão e saúde coletiva » Memória PÁGINA 43| Ana Formoso: Ignacio Ellacuría - Um pensador, negociador e cristão » Coluna Cepos PÁGINA 45 | Rafaela Barbosa: A nova Record: A construção do padrão tecnoestético e da liderança pela via do reality show A Fazenda » Destaques On-Line PÁGINA 47 | Destaques On-Line C. IHU em Revista » Eventos » 769. PÁGINA 52| Mártires em El Salvador: uma memória que continua forte 20 anos depois nisi- essa » Perfil aba- PÁGINA 55| Faustino Teixeira ing, nos. » IHU Repórter cei- PÁGINA 58| Lauro Antônio Lacerda d’Ávila br). mail SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 3 9/11/2009 18:38:05
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    Biografia - SørenKierkegaard Søren Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813, em Copenhague, onde faleceu em 11 de novembro de 1855. A brevidade de sua vida contrasta com a qualidade e a extensão de sua produção, ainda não classificada nos círculos acadêmicos. Se não é filósofo, nem teólogo, nem psicólogo, nem literato, nem místico, nem pedagogo, como é que sua influência está tão presente em Jaspers, Heidegger, Sartre, Ricoeur, Benjamin, Kafka, Buber, Chestov, Lívinas, Derrida, Rosenzweig, Janké- lévich, Bloch, Merleau-Ponty, Arendt, Deleuze, Canetti, Barth, Lacan, Bataille, Tillich, Adorno? Sempre contrário à Igreja Oficial da Dinamarca, luterana pietista, na maioria dos países a recepção das obras de Kierkegaard esteve ligada à igreja em função da característica dos seus escritos. Na Alemanha, por exemplo, foi traduzido por teólogos. Na França, a recepção se deu mais na área da estética. No Brasil, a recepção se dá, ao mesmo tempo, junto a teólogos, literatos e filósofos. Bibliografia - Frygt og Bæven, 1843 (Temor e tremor). ceito de angústia). V. - Forord, 1844 (Prefácios). - Gjentagelsen, 1843 (A repeti- - Fire opbyggelige Taler, Obras de Søren Kierkegaard ção). 1844 (Quatro discursos edificantes Søren Kierkegaards Samlede - Tre opbyggelige Taler, 1843 1844). Værker (SV²). Editada por A. B. Dra- (Três discursos edificantes 1843). - Tre Taler ved Tænkte Lejlighe- chmann, L. Heiberg e H. O. Lange. IV. - Fire Opbyggelige Taler, der, 1845 (Três discursos em deter- København, Gyldendal, 1920-1936, 1843 (Quatro discursos edificantes minadas circunstâncias). XV volumes; os quatorze primeiros 1843). VI. - Stadier paa Livets Vej, contém as obras, o XV contém os Ín- - To opbyggelige Taler, 1844 (Dois 1845 (Estádios no caminho da vida). dices. discursos edificantes 1844). VII. - Afsluttende Uvidenska- I. - Enten-Eller (I), 1843 (A Al- - Tre opbyggelige Taler, 1844 belig Efterskrift til de Philosophiske ternativa I). (Três discursos edificantes 1844). Smuler, II. - Enten-Eller (II), 1843 (A Al- - Philosophiske Smuler eller en 1846 (Post-Scriptum definitivo e ternativa II). Smule Philosophi, 1844 (Migalhas não científico às Migalhas filosófi- III. - To opbyggelige Taler, 1843 filosóficas). cas). (Dois discursos edificantes 1843). - Begrebet Angest, 1844 (O con- VIII. En literair Anmeldelse, - SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 5 9/11/2009 18:38:08
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    1846 (Uma resenhaliterária). escritor). Miranda de, PAULA, Marcio Gimenes - Opbyggelige Taler i forskjellig XIV. - Bladartikler, 1854-1855 de (Orgs.) Søren Kierkegaard no Bra- Aand, 1847 (Discursos edificantes (Artigos jornalísticos). sil. João Pessoa: Idéia, 2007. [Cole- em diversos espíritos). - Øieblikket, 1855 (O instante). tânea de textos em homenagem a IX. - Kjerlighedens Gjerninger, - Hvad Christus dømmer om offi- Alvaro L. M. Valls, com pesquisado- 1847 (As obras do amor) ciel Christendom, 1855 (Como Cris- res brasileiros e argentinos]. X. - Christelige Taler, 1848 to julga o cristianismo oficial). REVISTA PORTUGUESA DE FILOSO- (Discursos cristãos). - Guds Uforanderlighed. En Tale. FIA. Horizontes existenciários da fi- - Krisen og en Krise i en Skues- 1855 (A imutabilidade de Deus. Um losofia. Tomo 64, Braga: 2008. [Edi- pillerindes Liv, 1848 (A crise e uma discurso). tado por VILA-CHÃ, João José, reúne crise na vida de uma atriz). um número significativo de textos XI. - Lilien paa Marken og Fu- em diversos idiomas e temas]. Algumas obras de Kierkega- glen under Himlen, 1849 (Os lírios VALLS, Alvaro L. M. Do desespero do campo e as aves do céu). ard traduzidas ao português: silencioso ao elogio do amor desin- - Tvende Ethisk-religieuse Smaa- teressado: aforismos, novelas e dis- Afhandlinger, 1849 (Dois pequenos KIERKEGAARD, Søren A. O con- cursos de Søren Kierkegaard. Porto tratados ético- religiosos). ceito de ironia. 2. ed. Bragança Alegre: Escritos, 2004. - Sygdommen til Døden, 1849 (A Paulista: Editora Universitária São doença para a morte). Francisco, 2005. Alguns estudos - Ypperstepræsten-Tolderen-Syn- ______. Migalhas filosóficas. 2 deriden, 1849 (O sumo sacerdote - O ed. Petrópolis: Vozes, 2008. publicados em português publicano - A pecadora). ______. As obras do amor. 2 ed. XII. - Indøvelse i Christendom, Petrópolis: Vozes; Bragança Paulis- ALMEIDA, Jorge Miranda de. Éti- 1850 (Escola de Cristianismo). ta: Editora Universitária São Fran- ca e existência em Kierkegaard e - En opbyggelige Tale, 1850 (Um cisco, 2007. Lévinas. Vitória da Conquista: UESB, discurso edificante). ______. In vino veritas. Lisboa: 2009. - To Taler ved Altergangen om Antígona, 2005. REDYSON, Deyve. A filosofia de Fredagen, 1851 (Dois discursos para ______. Adquirir a sua alma na Soren Kierkegaard. Recife: Elógica, a comunhão de sexta-feira). paciência. Lisboa: Assírio Alvim, 2004. - Dømmer Selv! Til Selvprøvel- 2007. GRAMMONT, Guiomar de. Don se, Samtiden anbefalet, 1851-1852 ______. É preciso duvidar de Juan, Fausto e o Judeu Errante em (Julgai vós mesmos! Para um exame tudo. São Paulo: Martins fontes: Kierkegaard. Petrópolis: Catedral de consciência, recomendado aos 2003. das Letras, 2003. contemporâneos). ______. Diário de um sedutor; PAULA, Marcio Gimenes de. So- XIII. - Bladartikler fra Tiden for Temor e tremor; O desespero huma- cratismo e cristianismo em Kierke- ‘Forfatterskabet’, 1834-1836 (Arti- no. São Paulo: Abril Cultural: 1974. gaard: o escândalo e a loucura. São gos jornalísticos do período anterior (Os Pensadores) Paulo: Annablume: Fapesp, 2001. à ‘atividade literária’). ______. Indivíduo e comunidade - Af en endnu Levendes Papirer, Coletâneas de estudos e/ou tra- na filosofia Kierkegaard. São Paulo: 1838 (Dos papéis de um sobreviven- duções: Paulus, 2009. te). ALMEIDA, Jorge Miranda de; GOUVÊA, Ricardo Quadros. Pai- - Om Begrebet Ironi med stadigt VALLS, Alvaro L. M. Kierkegaard. Rio xão pelo paradoxo. 2 ed. São Paulo: Hensyn til Sokrates, 1841 (O concei- de Janeiro: Jorge Zahar, 2007 (Cole- Fonte, 2006. to de ironia constantemente referi- ção passo-a-passo, 78) ______. A palavra e o silên- do a Sócrates). FILOSOFIA UNISINOS. v. 6, n. 3 cio. São Paulo: Alfarrábio; Custom, - Bladartikler der staaer i Forhold (setembro-dezembro) de 2005. [Nú- 2002. til ‘Forfatterskabet’. ���������� 1842-1851 mero dedicado ao pensador dina- ROOS, Jonas. Razão e fé no pen- (Artigos jornalísticos que estão em marquês, editado por Luiz Rohden e samento de Søren Kierkegaard: o relação com a ‘atividade literária’). disponível em: www.revistafilosofia. paradoxo e suas relações. São Leo- - Om min Forfatter-Virksomhed, unisinos.br] poldo: Sinodal; EST, 2006. 1851 (Sobre minha obra de escri- REICHMANN, Ernani. Soeren VALLS, Alvaro L. M. Entre Sócra- tor). Kierkegaard. Curitiba: Edições Jr., tes e Cristo: ensaios sobre a ironia e - Synspunktet for min Forfatter- 1972. [Tradução de trechos de di- o amor em Kierkegaard. Porto Ale- Virksomhed, 1859 (O ponto de vista versas obras de Kierkegaard]. gre: Edipucrs, 2000. explicativo de minha atividade de REDYSON, Deyve, ALMEIDA, Jorge SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 6 9/11/2009 18:38:09
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    A filosofia deKierkegaard como aporte ético à alteridade Ainda que partindo do eu, filosofia do pensador dinamarquês pode fundamentar a defesa pela alteridade, pontua Patricia Carina Dip. Preeminência do ético sobre o metafísico é tributária a Levinas Por Márcia Junges e Jasson Martins | Tradução Jasson Martins M esmo que o “eu” seja o ponto de partida de Kierkegaard, “sua filosofia pode ser enten- dida como um aporte ético para os que desejam defender uma verdadeira alteridade, e não apenas pronunciar um discurso ‘politicamente correto’ sobre a diferença e a tolerância, porém ‘praticamente’ estéril”. A afirmação faz parte da entrevista a seguir, concedida, por e-mail, pela filósofa argentina Patricia Carina Dip à IHU On-Line. “Acre- dito que em Kierkegaard aparece a preeminência do ético por sobre o metafísico, da qual é devedor Levinas”, completa. Analisando as contribuições do pensador dinamarquês à política atual, ela con- sidera que sua filosofia pode realmente inspirar a uma transformação nesse campo. “O descrédito no qual tem caído a participação política tradicional obedece a distintos fatores; não obstante, disso não se deduz a ‘morte’ do político, mas a necessidade de sua ‘ressurreição’. Neste sentido, a Amé- rica Latina ocupa um papel certamente privilegiado, especialmente quando muitos intelectuais do primeiro mundo europeu tentaram convencer-nos de que havíamos ingressado na ‘pós-modernidade ou no pós-marxismo’. Ao contrário, creio que ainda não saímos da ilustração”, provoca. Outro tema discutido por Dip é a contraposição e aproximação entre Kierkegaard e Marx. O primeiro, diz ela, descreve a alienação psicológica da sociedade burguesa, enquanto o segundo se refere à alienação social. “A diferença reside na perspectiva da análise que cada um assume”. Dip é doutora em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires - UBA, professora da Universidad Na- cional de General Sarmiento – UNGS, e pesquisadora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas - CONICET. Durante os últimos dez anos, dedicou-se a estudar, discutir e traduzir a obra de S. Kierkegaard. Publicou artigos em diversas revistas e participou de várias publicações conjuntas. No ano de 2007, publicou sua tradução (com um estudo preliminar) de S. Kierkegaard, Johannes Climacus o el dudar de todas las cosas (Buenos Aires: Editorial Gorla, 2007). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard, apresentou o tema Subjetividade e Praxis: a recepção fenomenológica de Kierkegaard na obra de Michel Henry. Confira a entrevista. IHU On-Line - Na sua percepção, qual namente na academia. Isso permitiu um sintoma momentâneo dos estudos é a situação atual dos estudos de que se escrevessem vários trabalhos sobre o dinamarquês. Quer dizer, que Kierkegaard no campo latino-ameri- de doutorado discutindo suas ideias. em uma primeira etapa se produzam cano de fala espanhola? Apesar de tudo isso ser muito positivo, estudos especializados, porém que Patricia Carina Dip - Em minha opi- ainda falta a tradução das obras com- logo possamos observar a influência de nião, os estudos da obra de Kierkega- pletas em espanhol. sua obra em escritos originais. ard na América Latina de fala hispâni- Por outra parte, apesar de que o “Compreender” corretamente um ca têm progredido consideravelmente maior impacto das ideias de Kierkega- filósofo da estatura de Kierkegaard nos últimos vinte anos. Tanto no Mé- ard seja um fenômeno que pode ser supõe abandonar seu caminho teórico xico como na Argentina, foram funda- observado em escala mundial, isso não com o objetivo de formular o próprio das bibliotecas e sociedades dedicadas significa que tenha surgido interpreta- caminho. Ainda que este tipo de for- exclusivamente ao estudo, tradução ções “integrais” de sua obra ou pensa- mulações não tenha sido realizado na e divulgação da obra do pensador di- dores que pensem “com” Kierkegaard, América Latina, confio que formarão namarquês. Além disso, a figura de inclusive distantes de seus pressupos- parte do que me atrevo a denominar Kierkegaard foi ingressando paulati- tos básicos. Espero que isto seja só “segunda etapa” na recepção do pen- SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 7 9/11/2009 18:38:09
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    samento do dinamarquês.Esta consis- foi “consequente” com sua proposta. tiria no abandono da “letra” e a elabo- “‘Compreender’ Um pensador como Hume nos induzi- ração de um pensar atual. ria a crer que este tipo de exigência corretamente um é quase “irrealizável”. Apesar de que, IHU On-Line - Kierkegaard nos inspi- em certo sentido, isto seja correto, ra a compreender e a mudar a polí- filósofo da estatura penso que um pensamento incapaz tica atual? Por quê? Se sim, em que de ser consequente com seus próprios aspectos? de Kierkegaard supõe pressupostos, se torna indefectivel- Patricia Carina Dip - É difícil respon- mente estéril. der ao que nos induz Kierkegaard na abandonar seu caminho Neste sentido, tanto Kierkegaard primeira pessoa do plural. Por isso como Marx são modelos de intelectu- direi apenas ao que induz a mim. teórico com o objetivo ais que expressam a necessidade de vi- Acredito que o “subjetivismo” da fi- ver de maneira comprometida. Pode- losofia kierkegaardiana, quer dizer, de formular o próprio mos inclusive pensá-los como autores seu acento na compreensão do ho- complementares. Enquanto Kierkega- mem como uma espécie de “animal” caminho” ard nos exige um compromisso indivi- que “valora”, pode servir de inspira- dual e privado, seja com o divino ou ção para transformar o atual funcio- lução socialista. Em certo sentido, me com o demoníaco, ou para dizê-lo com namento da política. O descrédito vejo inclinada a dar-lhe razão. Nietzsche, que elejamos o bem ou o no qual tem caído a participação po- mal, o compromisso ao qual nos pro- lítica tradicional obedece a distintos IHU On-Line - Como você analisa as põe Marx possui um sentido político fatores; não obstante, disso não se trajetórias pessoais de Kierkegaard e social, ou bem nos identificamos deduz a “morte” do político, mas a Marx e os impactos que estas (a bio- com os valores da burguesia, ou bem necessidade de sua “ressurreição”. grafia) tiveram em suas filosofias? com os do proletariado. Neste sentido, a América Latina ocu- Patricia Carina Dip - Em termos ge- pa um papel certamente privilegia- rais sou inimiga das biografias. Es- IHU On-Line - Pensando no aspecto do, especialmente quando muitos pecialmente do abuso em torno de do indivíduo, como entende a con- intelectuais do primeiro mundo eu- sua utilização de que têm sido ob- David Hume (1711-1776): filósofo e histo- ropeu tentaram convencer-nos de jeto os leitores de Kierkegaard. Não riador escocês, que com Adam Smith e Tho- que havíamos ingressado na “pós- tem sentido tentar fundamentar o mas Reid, é uma das figuras mais importantes modernidade ou no pós-marxismo”. do chamado Iluminismo escocês. É visto, por desenvolvimento de uma filosofia vezes, como o terceiro e o mais radical dos Ao contrário, creio que ainda não em aspectos relativos à vida íntima chamados empiristas britânicos. A filosofia de saímos da ilustração. de quem a elabora. Um trauma in- Hume é famosa pelo seu profundo ceticismo. Neste sentido, considero funda- Entre suas obras, merece destaque o Tratado fantil não conduz necessariamente da natureza humana. (Nota da IHU On-Line) mental recuperar um dos elementos à formulação de uma filosofia exis- Friedrich Nietzsche (1844-1900): filósofo essenciais da atitude ilustrada, a sa- tencial, assim como tampouco a po- alemão, conhecido por seus conceitos além-do- ber, o “anticonformismo”. Acredito homem, transvaloração dos valores, niilismo, breza à teorização sobre a revolução vontade de poder e eterno retorno. Entre suas que não devemos “conformar-nos” social. Este tipo de abordagem me obras figuram como as mais importantes Assim nem com leituras herdadas, nem com parece totalmente absurdo. falou Zaratustra (9. ed. Rio de Janeiro: Civi- visões de mundo e interpretações do lização Brasileira, 1998), O anticristo (Lisboa: No entanto, acredito que há um Guimarães, 1916) e A genealogia da moral (5. político que procuram aquietar as ten- modo muito mais rico de pensar a re- ed. São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até sões sociais que podem ser observadas lação entre a “vida” e a “obra”. Trata- 1888, quando foi acometido por um colapso no seio do capitalismo global. nervoso que nunca o abandonou, até o dia de se de observar até que ponto o autor sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de Kierkegaard pode servir de porta- Karl Heinrich Marx (1818-1883): filósofo, capa da edição número 127 da IHU On-Line, voz da necessidade de “interessar-se” cientista social, economista, historiador e re- de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: filósofo pela existência do atual estado de coi- volucionário alemão, um dos pensadores que do martelo e do crepúsculo, disponível para exerceram maior influência sobre o pensamen- download em http://www.ihuonline.unisi- sas, no sentido de sermos capazes de to social e sobre os destinos da humanidade no nos.br/uploads/edicoes/1158266308.88pdf. julgar o que sucede na história com século XX. Marx foi estudado no Ciclo de Estu- pdf . Sobre o filósofo alemão, conferir ain- nossas próprias vozes. Na Crítica de dos Repensando os Clássicos da Economia. A da a entrevista exclusiva realizada pela IHU edição número 41 dos Cadernos IHU Ideias, de On-Line edição 175, de 10-04-2006, com o la Ilustración Agnes Heller diz que a autoria de Leda Maria Paulani tem como título jesuíta cubano Emilio Brito, docente na Uni- alternativa é hoje “ou Kierkegaard, ou A (anti)filosofia de Karl Marx, disponível em versidade de Louvain-La-Neuve, intitulada Marx”. Ela entende esta disjunção nos http://www.unisinos.br/ihu/uploads/publi- “Nietzsche e Paulo”, disponível para down- cacoes/edicoes/1158330314.12pdf.pdf. Tam- load em http://www.ihuonline.unisinos.br/ termos de ou bem elegemos o existen- bém sobre o autor, confira a edição número uploads/edicoes/1158346362.52pdf.pdf. A cialismo individualista, ou bem a revo- 278 da IHU On-Line, de 20-10-2008, intitulada edição 15 dos Cadernos IHU em formação é A financeirização do mundo e sua crise. Uma intitulada O pensamento de Friedrich Nietzs- Agnes Heller (1929): filósofa húngara. Proe- leitura a partir de Marx, disponível para do- che, e pode ser acessada em http://www.ihu. minente pensadora marxista no princípio, con- wnload em http://www.unisinos.br/ihuon- unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/ verteu-se a uma posição de cunho mais liberal line/uploads/edicoes/1224527244.6963pdf. 1184009658.17pdf.pdf. (Nota da IHU On- e social-democrático. (Nota da IHU On-Line) pdf. (Nota da IHU On-Line) Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 8 9/11/2009 18:38:10
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    traposição de suasfilosofias, de Marx mento do dinamarquês, o problema e Kierkegaard? “Kierkegaard pode da angústia, pode ser tomado como Patricia Carina Dip - Existe uma ten- chave para entender a vigência de dência habitual, baseada na leitura servir de porta-voz suas preocupações. Assim como as literal das declarações do próprio condições históricas que Marx tinha Kierkegaard, que leva a apresentá- da necessidade de in mente ainda permanecem, as pro- lo como o filósofo cuja categoria blemáticas da “psicologia da angús- fundamental é a noção de indivíduo. ‘interessar-se’ pela tia” e a “ética da decisão” também. Embora de um ponto de vista filo- A profundidade do legado kierke- lógico isto seja assim, é importante existência do atual gaardiano reside em certo grau de discutir que sentido tem a individu- “universalidade” que possui seu dis- alidade para Kierkegaard. Durante estado de coisas, no curso para compreender os fenôme- certo tempo, acreditei que se tra- nos psicológicos e morais. tava do indivíduo apenas preocupa- sentido de ser capazes do por suas circunstâncias, mesmo IHU On-Line - Quais são as principais quando fosse apresentado sob o cor- de julgar o que sucede chaves de leitura que esses pensado- retivo do “amor ao próximo”. Hoje res nos fornecem para pensarmos a tendo a considerar que, se a postura na história com nossas alteridade na sociedade pós-metafí- kierkegaardiana não é revolucioná- sica? ria, tampouco coincide plenamente próprias vozes” Patricia Carina Dip - Em primeiro lu- com um mero reformismo. Inclino- gar, o qualificativo “pós-metafísico” me a pensar que o caráter do indiví- mais irrecuperável entre opressores me parece complexo devido à infi- duo kierkegaardiano é “psicológico”; e oprimidos, as condições históricas nidade de alternativas que abarca. e entendido em chave contemporâ- que se faziam necessárias para Marx Tanto Heidegger como Nietzsche e nea acrescentaria que o modelo que pensar o socialismo não foram mo- o próprio Kierkegaard, entre outros, o dinamarquês apresenta para evitar dificadas. Daí segue que ainda tem foram críticos de um certo modo de a recaída deste na “alienação” é a sentido trabalhar em prol da reali- fazer metafísica. No entanto, isso praxis cristã do amor ao próximo. zação de um futuro socialista. Com não é suficiente para incluir todos Neste sentido, o dinamarquês não isto quero dizer que as polêmicas eles em um mesmo modelo teórico. A está longe do jovem Marx, também em torno do fim das ideologias e a ontologia fundamental, o niilismo e preocupado por resolver o problema construção de democracias liberais o cristianismo não podem ser identi- da alienação própria da sociedade me parecem parte de um programa ficados, simplesmente. Em segundo capitalista. Em termos gerais, diria teórico político que não comparti- lugar, não acredito que seja possível que enquanto Kierkegaard descre- lho e que denuncio como “tenden- defender a vigência da filosofia sem ve a alienação “psicológica” da so- ciosas”. assumir algum modo, mais ou menos ciedade burguesa, Marx descreve a Neste contexto, Marx se torna crítico, de entender a metafísica. alienação “social”. Ambos diagnos- mais atual do que nunca. Em algu- Por último, me parece importante ticam que o mal do mundo burguês mas universidades latino-america- discutir a assunção de certas modas é a alienação. A diferença reside na nas, reaparece a necessidade de re- Martin Heidegger (1889-1976): filósofo perspectiva da análise que cada um alemão. Sua obra máxima é O ser e o tempo pensar o legado marxista, e isso me (1927). A problemática heideggeriana é am- assume. Esta diferença, não obstan- parece muito importante, ainda que pliada em Que é Metafísica? (1929), Cartas te, é fundamental, posto que dela insuficiente. Só poderemos avaliar sobre o humanismo (1947), Introdução à meta- se deduzem distintas filosofias. A fi- física (1953). Sobre Heidegger, a IHU On-Line até que ponto o marxismo se atua- publicou na edição 139, de 2-05-2005, o artigo losofia kierkegaardiana que se cen- lizou quando o modelo de produção O pensamento jurídico-político de Heidegger e tra na descrição de fenômenos psi- capitalista tiver esgotado. Este es- Carl Schmitt. A fascinação por noções fundado- cológicos e a filosofia marxiana que ras do nazismo, disponível para download em gotamento não é automático, mas http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ descobre um novo modo de pensar a depende de que os sujeitos históri- edicoes/1158268163.69pdf.pdf. Sobre Heideg- história. cos estejam dispostos a revitalizar ger, confira as edições 185, de 19-06-2006, inti- tulada O século de Heidegger, disponível para a luta de classes. De modo que, em download em http://www.ihuonline.unisinos. IHU On-Line - Qual é a atualidade da última instância, a atualidade do br/uploads/edicoes/1158344730.57pdf.pdf, crítica de Kierkegaard e Marx para o marxismo só poderá ser determinada e 187, de 3-07-2006, intitulada Ser e tempo. pensamento continental? A desconstrução da metafísica, que pode ser pela história. acessado em http://www.ihuonline.unisinos. Patricia Carina Dip - Levando em Pois bem, a atualidade de Marx br/uploads/edicoes/1158344314.18pdf.pdf. conta que considero a “globaliza- não exclui a de Kierkegaard. Neste Confira, ainda, o nº 12 do Cadernos IHU Em ção” como o modo no qual o capita- Formação intitulado Martin Heidegger. A des- ponto me parece que a análise de construção da metafísica, que pode ser aces- lismo se expressa hoje, produzindo Agnes Heller merece ser repensada. sado em http://www.ihu.unisinos.br/uploads/ e justificando um fosso cada vez Um dos temas mais caros ao pensa- publicacoes/edicoes/1175210604.13pdf.pdf. (Nota da IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 9 9/11/2009 18:38:10
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    filosóficas que amaioria das vezes nos impedem de pensar. Dito isto, acredito que em Kierke- gaard aparece a preeminência do ético por sobre o metafísico, da qual é devedor Levinas. Neste contexto, a ética cristã do amor ao próximo permite, ainda que o dinamarquês O indivíduo como ponto inicial se ocupe de pensar o eu antes que ao outro, retirar derivações impor- na filosofia kierkegaardiana tantes para quem esteja interessado em formular uma “filosofia da alte- Hannah Arendt compreendeu o uso estratégico dos pseudôni- ridade”. Apesar de que o ponto de partida de Kierkegaard é o eu, sua mos do filósofo dinamarquês, e não o considerava individualis- filosofia pode ser entendida como ta ou enclausurado, menciona Marcio Gimenes de Paula. Ela O um aporte ético para os que dese- tinha como um dos mestres da suspeita, que toma o indivíduo jam defender uma verdadeira alte- ridade, e não apenas pronunciar um como ponto de partida discurso “politicamente correto” sobre a diferença e a tolerância, Por Márcia Junges e Jasson Martins porém “praticamente” estéril. Este N aporte reside em compreender a singular presença do outro como um em individualista, nem enclausurado. Para Hannah Arendt, Kierke- imperativo moral. Neste sentido, o gaard valia-se de pseudônimos estrategicamente, e “sua posição dinamarquês nos obriga a atuar ain- de defesa do indivíduo não pode ser vista meramente como re- da quando não possamos formular acionária, mas antes como uma defesa diante da massificação, uma “filosofia da alteridade” pro- inclusive daquela operada pelos movimentos esquerdistas”. A ex- priamente dita. plicação é do filósofo Marcio Gimenes de Paula na entrevista que concedeu, No que a elaboração de uma tal filosofia diz respeito, acredito que é com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line. Ao lado de Nietzsche e Marx, iminente sua necessidade. Una aná- Arendt coloca Kierkegaard, e não Freud, como um dos mestres da suspeita. lise clara sobre as exigências da mes- O indivíduo em Kierkegaard deve ser compreendido como ponto inicial de sua ma nos conduziria a uma crítica do filosofia, pontua Marcio. Outro tema discutido na entrevista é a questão da discurso pós-moderno sobre a “dife- secularização na obra dos dois pensadores. Arendt entende-a como “momento rença”. Na formulação desta crítica, onde os homens param de olhar para os céus e começam a preparar, a partir da o marxismo poderia ocupar um papel sua condição dada, uma sociedade produzida por eles próprios. Nesse sentido, fundamental na hora de descrever o a política é, por si só, secularizante”. Por outro lado, para Kierkegaard, “des- sentido ideológico do programa teó- crente de sistemas e crítico da cristandade, a secularização é o ponto onde rico da filosofia da diferença. O antí- a humanidade vai inevitavelmente desembocar, pois depois da racionalização doto contra a ideologia que pretende teológica, da massificação do homem e do tempo dos sistemas, tudo será ex- ser inclusiva “na teoria” aceitando, plicado e resultará em produto da mão humana”. não obstante, a exclusão na “práti- ca” ser constituída pela “filosofia da Marcio Gimenes de Paula é graduado em Teologia pelo Seminário Teoló- praxis”. gico Presbiteriano Independente. Cursou graduação, mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Atualmen- te, é professor adjunto II do departamento de Filosofia da Universidade Fe- deral de Sergipe - UFS, pesquisador da FAPITEC-SE, membro da Sociedade Emmanuel Lévinas (1906-1995): filósofo e Brasileira de Estudos de Kierkegaard (Sobreski), da Sociedade Brasileira de comentador talmúdico lituano, naturaliza- Filosofia da Religião, do Grupo de Pesquisa em Ciências da Religião da UFS, do francês. Foi aluno de Husserl e conheceu Heidegger, cuja obra Ser e tempo o influen- do Grupo de pesquisa sobre a obra de Kierkegaard da CNPq, e da Sociedade ciou muito. “A ética precede a ontologia” é Feuerbach Internacional. Suas pesquisas versam sobre Filosofia da Religião, uma frase que caracteriza seu pensamento. Escreveu, entre outros, Totalidade e Infinito Ética, Kierkegaard e cristianismo. Publicou recentemente o livro Indivíduo (Lisboa: Edições 70, 2000). Sobre o filósofo, e comunidade na filosofia de Kierkegaard (São Paulo: Paulus, 2009). Na Jor- conferir a edição número 277 da IHU On-Line, de 14-10-2008, intitulada Lévinas e a majes- nada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard, em 12 de novembro, tade do Outro, disponível para download em apresentará a comunicação “A temática da secularização: Hannah Arendt, http://www.unisinos.br/ihuonline/uploads/ edicoes/1224014804.3462pdf.pdf. (Nota da leitora de Kierkegaard”. Confira a entrevista. IHU On-Line). 10 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 10 9/11/2009 18:38:11
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    IHU On-Line -Quais são os pontos de um sintoma de que ninguém acredita contato entre o tema da seculariza- “Mesmo quando o no ato em si, mas espera a legitimação ção entre Arendt e Kierkegaard? do mesmo na multidão. Marcio Gimenes de Paula - A temática critica, Sócrates segue da secularização é bastante ampla e, IHU On-Line - Como percebe os con- a rigor, pode ser vista desde os primór- sendo a referência para ceitos de indivíduo e comunidade dios do cristianismo. Ora ela parece se partindo da obra desse autor? configurar com uma total ruptura dos um tempo que se perdeu Marcio Gimenes de Paula - Kierkega- conteúdos da fé e, em outros momen- ard é um filósofo que possui um pro- tos, parece até ser um complemento em ilusões sistemáticas fundo apreço por dois grandes perso- da fé ou um aprofundamento dos seus nagens célebres da subjetividade. O conteúdos. Na obra de Hannah Aren- que parecem já tudo primeiro é Sócrates. O autor dinamar- dt, pensadora política por excelência, quês devota seus esforços a entender penso que o ponto central se encontra saber. Sócrates é o a filosofia socrática e sua afirmação exatamente na política. Em outras pa- pelo indivíduo. Mesmo quando o criti- lavras, para a pensadora a seculariza- antídoto, o médico ca, Sócrates segue sendo a referência ção é vista como o momento onde os para um tempo que se perdeu em ilu- homens param de olhar para os céus e que aconselha o vômito sões sistemáticas que parecem já tudo começam a preparar, a partir da sua saber. Sócrates é o antídoto, o médico condição dada, uma sociedade produ- em meio ao excesso que aconselha o vômito em meio ao zida por eles próprios. Nesse sentido, a excesso de comilança. Por isso é que, política é, por si só, secularizante. Já de comilança” não fortuitamente, ele será o modelo para Kierkegaard, pensador do século de toda a obra do autor até mesmo na XIX, descrente de sistemas e crítico da guindo a esteira agostiniana, é severo crítica à Igreja oficial, já no final de cristandade, a secularização é o ponto crítico do processo de secularização. sua produção. onde a humanidade vai inevitavelmen- Arendt parece ser sua observadora e Já Cristo é a figura do mistério. Ele te desembocar, pois depois da raciona- admiradora, mas ambos enxergam é aquele que preferia falar com cada lização teológica, da massificação do o indivíduo perdido no meio de tudo indivíduo ao invés de ser legitimado homem e do tempo dos sistemas, tudo isso. Talvez esse seja o ponto de con- pela massa, pela multidão. Contudo, será explicado e resultará em produ- tato entre ambos os pensadores. Kierkegaard compreende Cristo tam- to da mão humana. Kierkegaard, se- bém como Deus, como aquele capaz de IHU On-Line - Qual é a atualidade da trazer a salvação para cada indivíduo. Hannah Arendt (1906-1975): filósofa e soció- secularização em Kierkegaard para loga alemã, de origem judaica. Foi influenciada por Husserl, Heidegger e Karl Jaspers. Em con- discutirmos o indivíduo em nossos IHU On-Line - Atualmente, o que é o sequência das perseguições nazistas, em 1941, dias? indivíduo numa sociedade seculari- partiu para os EUA, onde escreveu grande Marcio Gimenes de Paula - Antes de zada e pós-metafísica? parte das suas obras. Lecionou nas principais universidades deste país. Sua filosofia assenta mais nada, parece que nunca é demais Marcio Gimenes de Paula - Confesso numa crítica à sociedade de massas e à sua lembrar que Kierkegaard sempre sepa- que não sei muito bem o que dizemos tendência para atomizar os indivíduos. Preco- rou claramente indivíduo de individu- quando afirmamos viver numa socie- niza um regresso a uma concepção política se- parada da esfera econômica, tendo como mo- alismo. O indivíduo, na era dos siste- dade secularizada. É bem verdade delo de inspiração a antiga cidade grega. Entre mas filosóficos e de uma cristandade que, especialmente depois do século suas obras, citamos: Eichmann em Jerusalém massificadora, como foi o tempo do XIX, a política como produto dos ho- - Uma reportagem sobre a banalidade do mal (Lisboa: Tenacitas. 2004) e O Sistema Totali- autor dinamarquês, parece ter sido so- mens constrói – para o bem ou para o tário (Lisboa: Publicações Dom Quixote.1978). terrado por uma avalanche promovida mal – o mundo ao seu redor. Contudo, Sobre Arendt, confira as edições 168 da IHU ora pelo Estado, ora pela Igreja e até a secularização não deixa de ter nun- On-Line, de 12-12- 2005, sob o título Hannah Arendt, Simone Weil e Edith Stein. Três mu- pelas universidades. Restava, seguin- ca um pouco de religioso, e a prova lheres que marcaram o século XX, disponível do a pista socrática e cristã, recuperar disso é a situação em que vivemos no para download em http://www.ihuonline.uni- este indivíduo único e indivisível, áto- mundo todo e, em especial, no Brasil. sinos.br/uploads/edicoes/1158348701.54pdf. pdf e a edição 206, de 27-11-2006, intitulada mo e, se quisermos pensar aqui mais Estão aí os muitos fundamentalismos, O mundo moderno é o mundo sem política. teologicamente, imago Dei. Hoje nos- as casas legislativas cheias de sinais Hannah Arendt 1906-1975, disponível para sa situação não parece tão diferente. religiosos e os governos, como o caso download em http://www.ihuonline.unisinos. br/uploads/edicoes/1164656401.35pdf.pdf . Temos um individualismo doentio e do governo brasileiro, assinando acor- Nas Notícias do Dia de 01-12-2006 você confe- seguimos a ter os indivíduos sufocados dos que parecem ameaçar seriamen- re a entrevista Um pensamento e uma presen- pelas mais diversas instituições e pres- te a laicidade do Estado. Assim, pen- ça provocativos, concedida com exclusividade por Michelle-Irène Brudny em 01-12-2006, dis- sões. Quando alguém vai até um culto ponível para download em http://www.ihu. qualquer e se sente feliz por estar na Sócrates (470 a. C. – 399 a. C. ): filósofo unisinos.br/index.php?option=com_noticias companhia de milhares de pessoas no ateniense e um dos mais importantes ícones Itemid=18task=detalheid=2050. (Nota da da tradição filosófica ocidental. (Nota da IHU IHU On-Line) ato de louvor, isso nada mais é do que On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 11 flash.indd 11 9/11/2009 18:38:12
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    so que oindivíduo numa sociedade to bem que o uso que Kierkegaard sobre ele, escrevendo sobre ele, secularizada e pós-metafísica (o que fazia dos pseudônimos era estraté- organizando congressos, dando en- também me parece confuso, mesmo gico e que, além disso, sua posição trevistas. Numa era massificada, com as explicações perspicazes do de defesa do indivíduo não pode ser com instituições tão rígidas, penso professor Gianni Vattimo) ainda se vista meramente como reacionária, que é fundamental a redescoberta encontra em suspenso, entre a des- mas antes como uma defesa diante do indivíduo e a ironia como instân- crença e o pavor, entre o medo e a da massificação, inclusive daquela cias significativas, lugares de onde desconfiança. operada pelos movimentos esquer- a vida deveria partir. O indivíduo distas. Arendt o coloca, em sua obra não é o ponto fundamental na filo- IHU On-Line - Como Arendt, enquan- Entre o passado e o futuro, como sofia de Kierkegaard, mas é talvez o to filósofa política, lê Kierkegaard, um dos mestres da suspeita, junta- ponto inicial. Por isso, sua influên- um filósofo tido como individualista mente com Nietzsche e Marx, isto é, cia é tão significativa em pensando- e que escrevia recluso em um “cas- ela contraria a tradicional divisão e res tão distintos como Paul Tillich, telo”, sob pseudônimos? o coloca no lugar de Freud. Não pa- Karl Barth, Lacan, Wittgenstein, Marcio Gimenes de Paula - Penso rece pouca coisa para quem atentar Paul Tillich (1886-1965): teólogo alemão, que Arendt tinha grande apreço por ao detalhe. que viveu quase toda a sua vida nos EUA. Foi um dos maiores teólogos protestantes do sécu- Kierkegaard e não o considerava um lo XX e autor de uma importante obra. Entre pensador individualista ou enclausu- IHU On-Line - Nesse sentido, como os livros traduzidos em português, pode ser rado. Segundo avalio, ela sabia mui- você percebe a contraposição entre consultado Coragem de Ser (6ª ed. Editora Paz e Terra, 2001) e Amor, Poder e Justiça (Edi- Gianni Vattimo (1936): filósofo italiano, as filosofias de Kierkegaard e Marx? tora Cristã Novo Século, 2004). (Nota da IHU internacionalmente conhecido pelo conceito Marcio Gimenes de Paula - Creio que On-Line) de “pensamento fraco”. Concedeu diversas Karl Löwith, no seu clássico De Hegel Karl Barth (1886-1968): teólogo cristão-pro- entrevistas à IHU On-Line. A primeira delas testante, pastor da Igreja Reformada, e um foi publicada na 88ª edição, de 15-12-2003, a Nietzsche, aborda muito bem essa dos líderes da teologia dialética e da neo-orto- disponível em http://www.ihuonline.unisinos. questão. Para ele, Kierkegaard é um doxia protestante. (Nota da IHU On-Line) br/uploads/edicoes/1161200490.17pdf.pdf, a típico pós-hegeliano e, como tal, se Jacques Lacan (1901-1981): psicanalista segunda na 128ª edição, de 20-12-2004, dis- francês. Realizou uma releitura do trabalho de ponível em http://www.ihuonline.unisinos. encontra numa esteira de pensado- Freud, mas acabou por eliminar vários elemen- br/uploads/edicoes/1158266406.14pdf.pdf, res que caminham entre a religião, tos deste autor (descartando os impulsos sexu- a terceira saiu na edição 161, de 24-10-2005, a literatura e a política. Contudo, ais e de agressividade, por exemplo). Para La- quando conversou pessoalmente com a IHU On- can, o inconsciente determina a consciência, Line, no Hotel Intercity, em Porto Alegre, no talvez Löwith tenha cometido um mas este é apenas uma estrutura vazia e sem dia 18 de outubro daquele ano, às vésperas de dado exagero ao colocar Kierkegaard conteúdo. Confira a edição 267 da Revista IHU proferir sua conferência no evento Metamor- no mesmo grau de contestação de On-Line, de 04-08-2008, intitulada A função foses da cultura contemporânea. Esse material do pai, hoje. Uma leitura de Lacan, disponível esta disponível em http://www.ihuonline.uni- Marx. O autor dinamarquês parece em http://www.unisinos.br/ihuonline/uplo- sinos.br/uploads/edicoes/1158347724.5pdf. apontar claramente para um plano ads/edicoes/1217878435.7423pdf.pdf. Sobre pdf. Também contribuiu na IHU On-Line nº transcendente e sua política parece Lacan, confira, ainda, as seguintes edições 187, de 03-07-2006, com a entrevista O na- da revista IHU On-Line, produzidas tendo em zismo e o “erro” filosófico de Heidegger, dis- defender tal ponto o que, por si só, vista o Colóquio Internacional A ética da psi- ponível em http://www.ihuonline.unisinos. parece descaracterizar uma propos- canálise: Lacan estaria justificado em dizer br/uploads/edicoes/1158344314.18pdf.pdf. ta política, embora tenha importan- “não cedas de teu desejo”? [ne cède pas sur Concedeu, também, a entrevista Liberdade. ton désir]?, realizado em 14 e 15 de agosto de Uma herança do cristianismo, publicada na tes contribuições para uma ética de 2009: edição 298, de 22-06-2009, intitulada De- edição número 287, de 30 de março de 2009, fundo cristão e seja também impor- sejo e violência, disponível para download em disponível em http://www.ihuonline.unisinos. tante para a alteridade. Marx parece http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ br/uploads/edicoes/1238442393.0578pdf. edicoes/1245697518.4536pdf.pdf e 303, e edi- pdf. Dele também publicamos uma entrevis- romper com tal coisa, e sua proposta ção 303, de 10-08-2009, intitulada A ética da ta na 121ª edição, de 1º-11-2004, disponível é claramente fundamentada no cam- psicanálise. Lacan estaria justificado em dizer em http://www.ihuonline.unisinos.br/uplo- po da imanência, na tentativa de al- “não cedas de teu desejo”?, disponível para ads/edicoes/1158265679.78pdf.pdf, um ar- download em http://www.ihuonline.unisinos. tigo na edição 53, de 31-03-2003, disponível cançar a verdade pelos seus próprios br/uploads/edicoes/1249936179.2884pdf.pdf. em http://www.ihuonline.unisinos.br/uplo- esforços. Aqui penso que há uma di- (Nota da IHU On-Line) ads/edicoes/1161289549.27pdf.pdf, e outro ferença fundamental entre ambos. Ludwig Wittgenstein (1889-1951): filósofo ��������� no número 80, de 20-10-2003, disponível em austríaco, considerado um dos maiores do sé- http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ culo XX, tendo contribuido com diversas inova- edicoes/1161201820.79pdf.pdf. A editoria Li- IHU On-Line - Qual é a atualidade de ções nos campos da lógica, filosofia da lingua- vro da Semana, na edição 149, de 1º-08-2005, Kierkegaard no contexto do pensa- gem, epistemologia, dentre outros campos. A abordou a obra The future of religion, escrita maior parte de seus escritos foi publicada pos- por Vattimo, Richard Rorty e Santiago Zabala, mento filosófico contemporâneo? tumamente, mas seu primeiro livro foi publi- disponível em http://www.ihuonline.unisinos. Marcio Gimenes de Paula - A atu- cado em vida: Tractatus Logico-Philosophicus, br/uploads/edicoes/1158344558.62pdf.pdf. alidade de Kierkegaard parece se em 1921. Os primeiros trabalhos de Wittgens- De sua produção intelectual, destacamos Más tein foram marcados pelas idéias de Arthur allá de la interpretación. (Barcelona: Paidós, provar, entre outras tantas coisas, Schopenhauer, assim como pelos novos siste- 1995); O fim da modernidade: niilismo e her- por estarmos ainda hoje falando mas de lógica idealizados por Bertrand Russel menêutica na cultura pós-moderna (São Paulo: e Gottllob Frege. Quando o Tractatus foi publi- Martins Fontes, 1996); Introdução a Heidegger 0 Karl Löwith (1897-1973): filósofo alemão. cado, influenciou profundamente o Círculo de (Lisboa: Instituto Piaget, 1998) e Diálogo con Sua obra mais famosa é Von Hegel zu Nietzsche Viena e seu positivismo lógico (ou empirismo Nietzsche: Ensayos 1961-2000 (Barcelona: Pai- (Stuttgart, Kohlhammer, 1958). (Nota da IHU lógico). Confira na edição 308 da IHU On-Line, dós, 2002). (Nota da IHU On-Line) On-Line) de 14-09-2009, a entrevista O silêncio e a ex- 12 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 12 9/11/2009 18:38:13
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    Heidegger, Jaspers, Sartre,10Levinas, Hannah Arendt e tantos outros. Creio que muito mais do que ser kierke- gaardiano, o desafio é pensar com e contra Kierkegaard quando neces- Kierkegaard e Schopenhauer. sário for. Compreendê-lo como uma perspectiva por onde se faz filosofia. Proximidades e rupturas Penso que isso dá muito mais alegria e sabor ao jogo. Música e tragédia são as formas mais belas de compreensão até mesmo do Absoluto. Kierkegaard eleva a arte como aspi- ração máxima do ser, explica Deyve Redyson Melo dos Santos. Rupturas se apresentam ao longo de suas obras Leia mais... Por Márcia Junges e Jasson Martins Tradução Jasson Martins | Marcio Gimenes de Paula já concedeu N outra entrevista à IHU On-Line. Ela está dis- ponível na página eletrônica do IHU (www.ihu. unisinos.br) atureza, arte, música são pontos que aproximam as filosofias de • Lutero, pai da modernidade, visto por Niet- Søren Kierkegaard e Arthur Schopenhauer. A distância entre os zsche. Entrevista publicada na edição 280 da Revista IHU On-Line, de 03-11-2008, disponível pensadores se dá na maneira como veem Deus e compreendem no endereço http://www.ihuonline.unisinos.br/ alguns conceitos, além da percepção da existência, explica o index.php?option=com_tema_capaItemid=23t ask=detalheid=1405. teólogo e filósofo Deyve Redyson Melo dos Santos em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Quando Schopenhauer inicia sua obra O Mundo como vontade e como representação, afirmando que O mundo é minha re- periência do inefável em Wittgenstein, com presentação, ele fundamenta o caráter objetivista de sua teoria e, de forma Luigi Perissinotto, disponível para download em http://www.ihuonline.unisinos.br/index. uníssona, se liga a Kierkegaard quando este pensa que o universo é dotado de php?option=com_tema_capaItemid=23task= grandes características, e uma delas é a vontade”, assinala. Deyve acentua detalheid=1810. (Nota da IHU On-Line). Karl Jaspers (1883-1969): filósofo existencia- que a arte, para Schopenhauer, como a música e a tragédia, “são as mais lista alemão. Acreditava que a filosofia não é belas formas de se compreender até mesmo o absoluto. Kierkegaard, em seu um conjunto de doutrinas, mas uma atividade por meio da qual cada indivíduo pode se cons- ensaio sobre o belo musical, também eleva a arte como a aspiração máxima cientizar da natureza de sua própria existência. do ser. As rupturas estão inseridas no contexto de suas obras, a identificação Escreveu vários livros sobre os grandes filósofos do ideal de arte ou da arte ideal, da beleza e de suas formas, da interpre- do passado. Escreveu Filosofia (1932), O alcan- ce perene da filosofia (1948) e O caminho para tação do gênio e do artista e, por fim, de toda uma série de conceitos que a sabedoria (1949). Jaspers começou a ensinar encontramos no conjunto de suas obras”. Psiquiatria na universidade de Heidelberg em 1913 e se tornou professor de Filosofia em Hei- Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual Vale do Aracajú (UVA-CE) delberg, em 1921. Em 1948, passou a ensinar e em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), é mestre Filosofia na universidade de Basiléia, na Suíça. Sobre ele, conferir um artigo intitulado Imagi- em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e doutor em Filosofia nar a paz ou sonhá-la?, publicado na IHU On- pela Universidade de Oslo, na Noruega. Deyve é professor adjunto da Univer- Line 49ª edição, de 24-02-2003, disponível para download em http://www.ihuonline.unisinos. sidade Federal da Paraíba - UFPB. Pesquisa na área de Filosofia da Religião br/uploads/edicoes/1161289883.57pdf.pdf e com ênfase em Schopenhauer, Feuerbach, Kierkegaard, Nietzsche, Cioran e uma entrevista na 50ª edição, de 10-03-2003, Idealismo Alemão. Escreveu, entre outros, Dossiê Schopenhauer (São Paulo: disponível em http://www.ihuonline.unisinos. br/uploads/edicoes/1161289805.13pdf.pdf. Universo dos Livros, 2009) e A Filosofia de Søren Kierkegaard (Recife: Elógica, (Nota da IHU On-Line) 2004). Membro do Grupo de Pesquisa sobre a obra de Kierkegaard (CNPq), é o 10 Jean-Paul Sartre (1905-1980): filósofo exis- tencialista francês. Escreveu obras teóricas, ro- atual presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Kierkegaard (Sobreski). mances, peças teatrais e contos. Seu primeiro Confira a entrevista. romance foi A náusea (1938), e seu principal trabalho filosófico é O ser e o nada (1943). Sar- tre define o existencialismo em seu ensaio O existencialismo é um humanismo, como a dou- IHU On-Line - Quais são os pontos de Deyve Melo dos Santos - A vontade trina na qual, para o homem, “a existência pre- contato entre liberdade e vontade para Schopenhauer será um dos pon- cede a essência”. Na Crítica da razão dialética (1964), Sartre apresenta suas teorias políticas e em Kierkegaard e Schopenhauer? tos principais de sua concepção de fi- sociológicas. Aplicou suas teorias psicanalíticas Arthur Schopenhauer (1788-1860): filósofo losofia. Para ele, a vontade é a coisa nas biografias Baudelaire (1947) e Saint Genet alemão. Sua obra principal é O mundo como introduziu o budismo e a filosofia indiana na (1953). As palavras (1963) é a primeira parte de vontade e representação, embora o seu livro metafísica alemã. Schopenhauer, entretan- sua autobiografia. Em 1964, foi escolhido para o Parerga e Paraliponema (1815) seja o mais to, ficou conhecido por seu pessimismo e prêmio Nobel de literatura, que recusou. (Nota conhecido. Friedrich Nietzsche foi grande- entendia o budismo como uma confirmação da IHU On-Line) mente influenciado por Schopenhauer, que dessa visão. (Nota da IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 13 flash.indd 13 9/11/2009 18:38:13
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    em si kantiana,e esta é a resposta que leva a entender que este mundo é um nenhum pensador conseguiu alcançar. Já “A preocupação de mundo de sentidos. a liberdade é o caminho para o encon- tro de si mesmo, isto é, Schopenhauer Kierkegaard é com a IHU On-Line - Qual é a diferença en- entende a liberdade como a ação pri- tre a crítica que fazem a Hegel? mordial que fará do homem um ser que instituição estatal que Deyve Melo dos Santos - Schopenhauer possa interagir com o mundo, com as é acusado de fazer muitos insultos a coisas e com os seres. Interessante é quer fazer toda uma Hegel, Schelling, Fichte. É verdade. pensar essas duas teorias juntamente Schopenhauer afirma que Hegel é um com o pensamento de Kierkegaard, que nação cristã e luta em filosofastro, um charlatão e várias coi- tinha em Schopenhauer um exemplo de sas mais. Também podemos encontrar pensador, que elabora as categorias da busca de uma verdadeira críticas bem formuladas com relação ao filosofia e se põe a respondê-las. Ainda sistema da ciência de Hegel, que somen- existe muita coisa a ser dita sobre a re- concepção de te encontra espaço no absoluto. A crítica lação do pensamento de Schopenhauer de Schopenhauer a Hegel está central- e Kierkegaard, seja sobre a natureza, cristandade. mente localizada na ideia do absoluto e sobre a arte, sobre a música. Eles estão na forma com que esse absoluto chega bastante próximos um do outro. Schopenhauer condena no sistema hegeliano. A típica pergunta IHU On-Line - Não existe um antago- toda e qualquer Friedrich Hegel (1770-1831): filósofo ale- mão idealista. Como Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, tentou desenvolver um sistema fi- nismo entre liberdade e vontade? Deyve Melo dos Santos - Existe, e o formulação de fé que losófico no qual estivessem integradas todas as contribuições de seus principais predeces- fato deste antagonismo existir faz com sores. Sua primeira obra, A fenomenologia do que tanto em Schopenhauer como em seja baseada numa espírito, tornou-se a favorita dos hegelianos da Europa continental no séc. XX. Sobre Hegel, Kierkegaard vejamos quais os ques- tionamentos que hoje podemos fazer pretensa vida em dogmas confira a edição especial nº 217 de 30-04-2007, intitulada Fenomenologia do espírito, de Ge- org Wilhelm Friedrich Hegel (1807-2007), em perante os conceitos de liberdade e vontade, se somos livres no pen- e obrigações para com comemoração aos 200 anos de lançamento dessa obra. O material está disponível em sar, ou se nossa vontade é condição http://www.unisinos.br/ihuonline/uploads/ de podermos ser quem somos. Penso o divino” edicoes/1177963119.41pdf.pdf. Sobre Hegel, confira, ainda, a edição 261 da IHU On-Line, que refletir sobre liberdade e vontade de 09-06-2008, Carlos Roberto Velho Cirne- compreende duas tarefas difíceis, mas o caráter objetivista de sua teoria e, Lima. Um novo modo de ler Hegel, disponível de forma uníssona, se liga a Kierkega- em http://www.unisinos.br/ihuonline/uploa- de importância fundamental à filosofia ds/edicoes/1213054489.296pdf.pdf. ��������� (Nota da de hoje. ard quando este pensa que o universo IHU On-Line) é dotado de grandes características, e � Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling uma delas é a vontade. (1775-1854): filósofo alemão. ��������������� Suas primeiras IHU On-Line - Como podemos com- obras são geralmente vistas como um elo im- preender essas conexões de pensa- portante entre Kant e Fichte, de um lado, e mento tomando em consideração a IHU On-Line - E com relação aos seus Hegel, de outro. Essas obras são representa- pontos de vista sobre a religião, tivas do idealismo e do romantismo alemães. distância teórica que tem como pon- Criticou a filosofia de Hegel como “filosofia to de partida tais autores? como é possível entender a aproxi- negativa”. Schelling tentou desenvolver uma Deyve Melo dos Santos - Realmente mação entre ambos? “filosofia positiva”, que influenciou o existen- Deyve Melo dos Santos - No modo de cialismo. Entrou para o seminário teológico de existe uma certa distância entre nos- Tübingen aos 16 anos. (Nota da IHU On-Line) sos dois autores, mas essa distância entender a religião, a fé e o próprio Johann Gottlieb Fichte (1762-1814): filóso- está presente na forma de ver Deus, conceito de Deus, Schopenhauer e fo alemão. Exerceu forte influência sobre os Kierkegaard caminham diferentemen- representantes do nacionalismo alemão, assim na forma de compreender determina- como sobre as teorias filosóficas de Schelling, dos conceitos e finalmente na forma de te. A preocupação de Kierkegaard é Hegel e Schopenhauer. Fichte decidiu devo- percepção da existência. Tentar fazer com a instituição estatal que quer fa- tar sua vida à filosofia depois de ler as três zer de toda uma nação cristã e luta em Críticas de Immanuel Kant, publicadas em uma aproximação entre Schopenhauer 1781, 1788 e 1790. Sua investigação de uma e Kierkegaard é uma tarefa de consta- busca de uma verdadeira concepção crítica de toda a revelação obteve a aprova- tar que a subjetividade e a objetivida- de cristandade. Schopenhauer conde- ção de Kant, que pediu a seu próprio editor na toda e qualquer formulação de fé para publicar o manuscrito. O livro surgiu em de são terrenos férteis quando falamos 1792, sem o nome e o prefácio do autor, e foi de natureza, de existência, de amor, que seja baseada numa pretensa vida saudado amplamente como uma nova obra de de ironia, de vontade e, principalmen- em dogmas e obrigações para com o Kant. Quando Kant esclareceu o equívoco, Fi- divino. Na verdade, podemos também chte tornou-se famoso do dia para a noite e foi te, do mundo como representação. convidado a lecionar na Universidade de Jena. Quando Schopenhauer inicia sua obra fazer um paralelo entre estas duas Fichte foi um conferencista popular, mas suas O Mundo como vontade e como repre- formas de ver a fé, pois ver o mun- obras teóricas são difíceis. Acusado de ateís- do como o pior dos mundos possíveis, mo, perdeu o emprego e mudou-se para Ber- sentação, afirmando que O mundo é lim. Seus Discursos à nação alemã são sua obra minha representação, ele fundamenta como Schopenhauer faz, somente nos mais conhecida. (Nota da IHU On-Line) 14 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 14 9/11/2009 18:38:13
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    que para Schopenhauer,e a mais im- “Kierkegaard, em seu uma leitura legítima de Kierkegaard. portante é: por que, na Ciência da Ló- Com as traduções, vieram também es- gica, Hegel tem que começar com uma ensaio sobre o belo tudos publicados em diversas editoras ideia de ser que não é o ser mesmo? ou e universidades do país, livros como o ser que podemos entender como ser? musical, também eleva os de Alvaro Valls, Marcio Gimenes de Kierkegaard segue o mesmo caminho: Paula e Jonas Roos também revelam não aceita uma verdade absoluta, como a arte como a aspiração como Kierkegaard tem ainda muito Hegel quer entender no seu sistema. a oferecer à filosofia de hoje. Outro Kierkegaard acredita que Hegel nega a máxima do ser. As grande passo que foi dado foi a forma- identidade de fundo irônico em Sócra- ção do grupo brasileiro de estudos de tes e por isso entendeu o mundo como rupturas estão Kierkegaard, a SOBRESKI, que anual- universal. Para Kierkegaard, esta ironia mente se encontra para discutir, com- como negatividade infinita absoluta é o inseridas no contexto partilhar e trocar ideias e informações eterno, isto é, a constituição máxima do sobre o pensador dinamarquês. Cada real enquanto explicação dele mesmo. de suas obras, a vez mais cresce o número de pesqui- Interessante também é pensar o sistema sadores com mestrado e doutorado da ciência de Hegel e de como sua influ- identificação do ideal que efetivam suas contribuições em ência fez com que tanto Schopenhauer e revistas especializadas em filosofia e Kierkegaard estivessem tão próximos um de arte ou da arte ideal, apresentam comunicações em encon- do outro. tros e congressos dentro do país. Com da beleza e de suas a perspectiva de mais traduções irem IHU On-Line - Como você entende as aparecendo, mais estudos e a continui- concepções de arte em Kierkegaard formas, da dade das reuniões anuais da SOBRESKI, e Schopenhauer? Que aspectos apon- o pensamento de Kierkegaard somente tam em comum e quais são as maio- interpretação do gênio e tenderá a crescer no Brasil. res rupturas? ta, ensaísta, biógrafo, filósofo, advogado, Deyve Melo dos Santos - Em Schope- do artista e, por fim, de diplomado em direito e tradutor brasileiro, o nhauer, a arte e sua vinculação com a primeiro leitor e tradutor de Kierkegaard do estética é o belo, que ele chama de toda uma série de dinamarquês para a língua portuguesa. Tra- duziu, entre outros, Kierkegaard (Textos Se- metafísica do belo, que eleva a noção lecionados). Editora da Universidade do Para- de beleza e arte até o conhecimento conceitos que ná, 1972. De sua autoria, citamos O Instante (Curitiba: Editora da Universidade Federal do objetivo, isto é, um conhecimento Paraná, 1981). ��������� IHU On-Line) (Nota da estético. A arte, para Schopenhauer, encontramos no conjunto Álvaro Valls: filósofo brasileiro. Graduado juntamente com a música e a tragé- em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nos- dia, são as mais belas formas de se de suas obras” sa Senhora Medianeira, é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de Heidelberg, compreender até mesmo o absoluto. Alemanha, com a tese O conceito de história Kierkegaard, em seu ensaio sobre o nos escritos de Søren Kierkegaard. Escreveu, belo musical, também eleva a arte número de alunos de graduação e pós- entre outros, Kierkegaard (Rio de Janeiro: Jor- como a aspiração máxima do ser. As graduação nas universidades brasilei- ge Zahar Editor, 2007). Confira, nesta edição, concedida por Valls: O avanço da pesquisa em rupturas estão inseridas no contexto ras que têm despertado interesse em Kierkegaard no Brasil. (Nota da IHU On-Line) de suas obras, a identificação do ideal estudar o pensamento de Kierkegaard. Marcio Gimenes de Paula: filósofo brasilei- de arte ou da arte ideal, da beleza e Hoje já é possível fazer uma leitura ro, graduado em Teologia pelo Seminário Te- ológico Presbiteriano Independente. Cursou de suas formas, da interpretação do aprofundada na filosofia de Kierkega- graduação, mestrado e doutorado em Filosofia gênio e do artista e, por fim, de toda ard, pois, já se encontram traduzi- pela Universidade Estadual de Campinas (Uni- uma série de conceitos que encontra- das diversas de suas obras realizadas camp). Atualmente, é professor adjunto II do departamento de Filosofia da Universidade Fe- mos no conjunto de suas obras. diretamente do dinamarquês para o deral de Sergipe (UFS). É autor de Indivíduo e português. Uma das coisas que mais comunidade na filosofia de Kierkegaard (São IHU On-Line - Enquanto presidente contribuiu para uma leitura errada de Paulo: Paulus, 2009). Confira, nesta edição, a entrevista por ele concedida à IHU On-Line: da SOBRESKI, qual é a sua percepção Kierkegaard eram as deficientes tra- O indivíduo como ponto inicial na filosofia sobre os estudos de Kierkegaard no duções que tínhamos, que cometeram kierkegaardiana. (Nota da IHU On-Line) Brasil? erros grosseiros e nos levaram a inter- Jonas Roos: filósofo brasileiro, licenciado em Filosofia pela Unisinos, mestre e doutor Deyve Melo dos Santos - Esta já é a X pretações que fizeram de Kierkegaard em Teologia pela Fauldades EST, em São Leo- Jornada de Estudos sobre Kierkegaard, um simples pensador. Com as tradu- poldo. Realizou pesquisa de pós-doutorado em e cada vez mais vem aumentando o ções de O Conceito de Ironia, Migalhas Filosofia na Unisinos, em 2009. Atualmente, é professor no Programa de Pós-Graduação em Filosóficas, As Obras do Amor e o ex- Ciência da Religião da Universidade Federal de Ciência da Lógica: HEGEL, Georg Wilhelm tenso volume traduzido por Ernani Rei- Juiz de Fora (UFJF). Confira a entrevista con- Friedrich. Wissenschaft der Logik (2. ed. Ham- chmann na década de 1970, é possível cedida por Roos a esta edição da IHU On-Line: burg: Felix Meiner, 1969). ��������� IHU On- (Nota da Uma virada nos conceitos tradicionais religio- Line) Ernani Reichmann (1920-1984): romancis- sos. (Nota da IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 15 flash.indd 15 9/11/2009 18:38:14
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    A crítica deGadamer e Kierkegaard à filosofia abstrata Caráter abstrato, vazio e desvinculado da prática é rechaçado por ambos pensado- res, menciona Luiz Rohden. Outro ponto que os aproxima é a defesa e concepção de uma estética da vida Por Márcia Junges e Jasson Martins G adamer e Kierkegaard têm alguns pontos de proximidade. Um deles, central, explica o filósofo Luiz Rohden, é “a crítica ao modelo de filosofia abstrata, vazia, desvinculada da prática, com caráter absolutista. Ou ainda, uma crítica contundente ao modelo de ciên- cia desvinculado da trama real da vida”. Além disso, completa, “a defesa e a concepção, com suas devidas distinções, estética da vida” são outras possíveis convergências. Na entrevista que segue, realizada por e-mail, Rohden analisa a presença de Kierkegaard na filosofia hermenêutica de Gadamer: mesmo não sendo tão citado quanto outros pensadores da tradição filo- sófica, Kierkegaard “pode ser considerado um dos pensadores que exerceu uma influência decisiva na construção conceitual do seu projeto hermenêutico”. Tal recepção se dá por duas vias. A primeira delas, indireta, acontece pela filosofia de Heidegger e Jaspers. A segunda, direta, pela interpretação e leitura de textos do dinamarquês, como Enter-Eller (A alternativa). Rohden é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais- UFMG, mestre e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com a tese Experi- ência e linguagem: princípios da hermenêutica filosófica. Cursou pós-doutorado no Boston College, nos Estados Unidos. De suas obras, destacamos: O poder da linguagem: a arte retórica de Aristóteles (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997), Entre a linguagem da experiência e a experiência da linguagem (São Leopoldo: Unisinos, 2005) e Interfaces da Hermenêutica: método, ética e literatura (Caxias do Sul: Editora UCS, 2008). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard apresenta em 12 de novembro a comunicação A presença de Kierkegaard na filosofia hermenêutica de H.-G. Gadamer. Confira a entrevista. IHU On-Line - Como se dá a presença pela leitura e interpretação de textos Ou ainda, uma crítica contundente de Kierkegaard na filosofia herme- escritos pelo pensador dinamarquês, ao modelo de ciência desvinculado nêutica de Gadamer? especialmente o Enter-Eller (A alter- da trama real da vida. Ainda jovem, Luiz Rohden - Embora Kierkegaard não nativa). Ainda com relação à pergunta Gadamer encontrou em Kierkegaard seja tantas vezes citado por Gadamer, proposta, a apropriação de Kierkega- uma construção teórica que contri- explicitamente, quanto Platão, Aris- ard por parte de Gadamer deve ser buiu para justificar uma filosofia a tóteles, Hegel, Husserl e Heidegger, compreendida no contexto da filosofia partir do factum pelo viés do con- ele pode ser considerado um dos pen- alemã no período entre as duas gran- ceito teológico de simultaneidade sadores que exerceu uma influência des guerras mundiais, ou seja, a defesa pelo qual o pensador dinamarquês decisiva na construção conceitual do e justificação do ‘mistério indecifrável se contrapôs ao modelo de conhe- seu projeto hermenêutico. A recepção da individualidade’ em contraposição cimento pautado pelo compreender de Kierkegaard por parte de Gadamer crítica à filosofia acadêmica do século à distância. Gadamer apropriou-se se dá por duas vias; uma, a indireta, XIX e à fé liberal no progresso. deste conceito teológico e o aplicou principalmente pela filosofia de Hei- ao âmbito filosófico na esteira da fi- degger e de Jaspers, e a outra, direta, IHU On-Line - Quais são os principais losofia heideggeriana. Vinculado ao Hans-Georg Gadamer: filósofo alemão, au- pontos de proximidade entre ambos tema anterior, compreende-se a de- tor de Verdade e método (Petrópolis: Vozes, autores? fesa da filosofia de cunho “existen- 1997), faleceu no dia 13-03-2002, aos 102 anos. Por essa razão, dedicamos a ele a maté- Luiz Rohden - Um dos pontos cen- cial”, patrocinada por Kierkegaard e ria de capa da IHU On-Line número 9, de 18- trais que aproxima os dois pensado- assimilada por Gadamer na metade 03- 2002, Nosso adeus a Hans-Georg Gadamer, res é a crítica ao modelo de filoso- do século XIX. Tanto a fé quanto a disponível em http://www.unisinos.br/ihuon- line/uploads/edicoes/1161374080.18pdf.pdf. fia abstrata, vazia, desvinculada da filosofia já não deveriam mais ser (Nota da IHU On-Line) prática, com caráter absolutista. vistas desvinculadas da existência 16 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 16 9/11/2009 18:38:14
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    humana em suafinitude, múltiplas porque ele é apenas uma direção [de possibilidades de ação, historicida- sentido] seja porque a leitura é sem- de etc. Outro ponto que os aproxima pre uma espécie de recriação do ori- é a defesa e a concepção, com suas ginal. Este espécie de simultaneidade devidas distinções, estética da vida. gadameriana se efetiva no modelo es- Comungam da concepção segundo a trutural do diálogo. qual, a fé para um e a hermenêutica para o outro, se efetivam enquanto IHU On-Line - A obra mais importan- uma experiência de vida, uma pos- te de Gadamer, Verdade e método, tura em relação ao real, muito mais está centrada na possibilidade de Leia as Notícias do Dia que uma opção teórica. Atrelado aos transmissão da verdade, através do aspectos anteriores, podemos men- diálogo. Não temos aqui uma oposi- www.ihu.unisinos.br cionar ainda que ambos concebem ção, à medida que a verdade para um saber nos moldes da filosofia prá- Kierkegaard é idêntica à verdade da tica de Aristóteles. Kierkegaard con- fé, e por isso a dificuldade em trans- cebe o conhecimento e o ser cristão miti-la? enquanto uma tarefa, uma prática Luiz Rohden - Eu não diria que a diária onde temporalidade e eter- obra mencionada está preocupada nidade se entrelaçam e convivem pela “possibilidade de transmissão dialeticamente; Gadamer justifica da verdade via diálogo”, mas que o um modo de conhecer que costura diálogo, ou seja, a dialética dialógi- unidade com multiplicidade, o dito ca gadameriana – espelhando-se nos com o não-dito [ainda] enquanto um diálogos platônicos – por um lado, movimento inesgotável, próprio dos critica o modelo de verdade identi- amantes do saber. ficado com o ideal de certeza vei- culado pelas ciências modernas, e, IHU On-Line - Quais seriam as simul- por outro lado, justifica e sustenta taneidades kierkegaardianas em Ga- que a verdade é sempre um acon- damer? tecimento, que não se esgota num Luiz Rohden – Em primeiro lugar, de conceito e muito menos se congela acordo com Gadamer, na esteira de no tempo e no espaço. Em Gadamer, Kierkegaard, simultâneo ‘não quer ela se mostra no processo de uma dizer ser-ao-mesmo-tempo, mas for- procura incessante, séria e compro- mula a tarefa, que é proposta aos metida com o real, cujos corolários crentes de intermediar entre si aqui- coerentes revelam-se sob diferentes lo que não é ao-mesmo-tempo, como âmbitos: ecológicos, éticos, existen- a própria presença e a salvação de ciais. Cristo’. Ora, o acontecer da simulta- neidade se efetiva enquanto herme- IHU On-Line - Na sua opinião, é pos- nêutica, compreensão, enquanto um sível conhecer o pensamento de au- movimento entre eterno e temporal, tores como Kierkegaard e Gadamer deuses e humanos efetivado pelo deus sem um prévio conhecimento da tra- Hermes. Além disso, considerando o dição cristã, sobretudo os escritos que já foi respondido na pergunta an- paulinos? terior, diríamos que a fé para um e a Luiz Rohden - Tanto um como outro compreensão para outro são aconte- construíram modos de explicitação e cimentos espelhados na metáfora da de compreensão apropriando-se da simultaneidade, ou seja, toda vez que tradição cristã e, em minha opinião, lemos um texto, estamos efetivando sem se delimitarem aos escritos pau- uma simultaneidade entre sua letra e linos. Gadamer, um protestante des- seu espírito, entre um tempo passado comprometido com dogmas religiosos, e o presente do intérprete, entre o defendeu uma espécie de fé estética, mundo de sentidos possíveis e a ins- o diálogo entre religiões, ao passo que tauração de sentido que acontece no Kierkegaard realizou uma contribuição ato de leitura. Nesse sentido, ocorre fundamental para o próprio cristianis- uma espécie de repetição que jamais mo. Contudo, sua contribuição não se será literal do que está contido num esgota para o âmbito da fé, como to- texto, mas será sempre criativa, seja dos sabemos. SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 17 flash.indd 17 9/11/2009 18:38:15
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    Uma virada nosconceitos tradicionais religiosos Método semelhante de Kierkegaard e Tillich para trabalhar tais conceitos inspira o pensamento de uma religiosidade que fale com a cultura de seu tempo, pontua Jonas Roos Por Márcia Junges e Jasson Martins K ierkegaard e Tillich trabalham de forma semelhante ao reelaborar e re-significar conceitos tradicionais religiosos. Ambos “são figuras inspiradoras para se pensar uma religiosidade que dialogue com a cultura de seu tempo e com as suas perguntas. Nesse diálogo é funda- mental que se limpe os conceitos e se traduza fórmulas que já não comunicam mais muita coisa”. A análise é do filósofo Jonas Roos, com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line. “Merece destaque nesses dois autores o método similar com o qual trabalham as questões existenciais e religiosas”, disse. É inconteste a influência de Kierkegaard sobre Tillich, mas deve ser mencionada, igualmente, a importância de Hegel, Schelling e Nietzsche para a composição de seu pensamento. Outro ponto interessante é que Tillich orientou Theodor Adorno, em 1933, em sua tese sobre o di- namarquês, frisa Roos. A tese intitulou-se A construção do estético, e está em fase de tradução pelo Prof. Dr. Álvaro Valls pela Editora Unesp. Licenciado em Filosofia pela Unisinos, mestre e doutor em Teologia pela Fauldades EST, em São Leopoldo, Roos realizou pesquisa de pós-doutorado em Filosofia na Unisinos, em 2009. Atualmente, é professor no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard apresenta em 13 de novembro a comunicação Kierkegaard e Tillich: pensadores de correlação. Confira a entrevista. IHU On-Line - Qual é o principal ponto método similar com o qual trabalham elaboração de questões religiosas parte de convergência entre o pensamento as questões existenciais e religiosas. de perguntas existenciais presentes em de Kierkegaard e o de Tillich? Sabe-se que Kierkegaard desenvol- situações culturais determinadas. Jonas Roos - Paul Tillich nasceu em veu toda uma estratégia de comunica- Starzeddel, no leste da Alemanha ção, muitas vezes usando a linguagem IHU On-Line - Há, nesses autores, (atualmente parte da Polônia). Em seu viva de seu tempo para colocar as per- uma busca de esclarecimento da re- país, tornou-se pastor luterano e pro- guntas existenciais a partir de situações lação entre religião e cultura? fessor de Teologia Sistemática e Filo- concretas imaginadas em seu próprio Jonas Roos - Em Tillich esta relação sofia da Religião. Devido a sua filiação contexto. Do interior dessas situações, está mais explícita. Um dos pontos fun- ao partido socialista religioso e oposi- surgem questões que são relacionadas damentais de seu pensamento é o que ção ao nazismo foi forçado a emigrar a seu pensamento religioso. Ou seja, o chama de Teologia da Cultura. Tillich para os Estados Unidos em 1933, onde religioso não é simplesmente apresenta- entende as relações entre religião e continuou publicando e exercendo a do em linguagem hermética e de modo cultura não como pólos opostos, mas docência. Em seu pensamento, Tillich distanciado, mas como algo que se rela- como se esclarecendo mutuamente. foi influenciado pela leitura de Kierke- ciona às situações concretas e perguntas No seu entendimento, a religião, em gaard, mas também pelo pensamento elaboradas a partir de situações vividas. termos amplos, dá substância e senti- de Hegel, Schelling e Nietzsche, só Tillich parece ter aprendido com Kierke- do à cultura, e a cultura, por sua vez, para citar alguns dos nomes mais im- gaard esse modo de abordar as questões engloba a totalidade das formas pelas portantes. Importante dizer também religiosas. O autor alemão desenvolve o quais a preocupação fundamental da que Tillich foi orientador de Adorno em que denomina “método de correlação”, religião pode se exprimir. A religião, sua tese sobre Kierkegaard. Há várias onde, enquanto teólogo, procura elabo- por um lado, mesmo em suas formas semelhanças entre os pensamentos rar as perguntas existenciais presentes na mais secularizadas, e a cultura, por de Kierkegaard e Tillich, assim como cultura e relacioná-las à mensagem cris- outro, estariam em uma relação de in- há diferenças importantes. Penso que tã, interpretando esta para o contexto terdependência. merece destaque nesses dois autores o onde é recebida. Em ambos os autores, a Kierkegaard é mais facilmente visto 18 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 18 9/11/2009 18:38:15
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    “Em ambos osautores, a elaboração de questões religiosas parte de perguntas existenciais presentes em situações culturais determinadas” Informações em www.ihu.unisinos.br IHU Ideias. Todas as quintas-feiras. como crítico da cultura de seu tempo, IHU On-Line - Este trabalho com con- principalmente em função de sua polê- ceitos religiosos envolve um processo mica com a igreja dinamarquesa do séc. filosófico? XIX. Entretanto, não se pode esquecer Jonas Roos - Tillich entende que qualquer que a crítica já pressupõe uma relação. texto religioso lida com conceitos filosófi- Kierkegaard tem toda uma preocupação cos como espaço, tempo, história, dever, com o modo como escreve seus textos liberdade, necessidade, etc. e que traba- e faz uso de uma comunicação indireta lhar com tais conceitos é tarefa filosófica, para tornar o seu leitor atento a cer- ainda que dentro da teologia ou da ciên- tas questões. Nesse sentido, ele insere cia da religião. Elaborar as perguntas exis- a sua comunicação na moldura cultural tenciais presentes na cultura é trabalho de seu tempo. Tal estratégia pressupõe filosófico. De semelhante modo, a articu- um amplo conhecimento da própria lação da resposta envolve, muitas vezes, cultura, pressupõe um conhecimento uma tradução de conceitos religiosos para das questões existenciais-religiosas que uma linguagem mais adequada a determi- trabalha e, além disso, o entendimento nado contexto. do modo de relacionar esses dois pólos, Tillich elabora a pergunta filosofica- sem confundi-los, mas também sem eli- mente. Kierkegaard é mais socrático, minar a relação. elabora também a pergunta filosofi- camente, mas realiza um processo de IHU On-Line - Nessa perspectiva de re- desconstrução das falsas respostas, lação com a cultura, os conceitos reli- colocando o ser humano diante de seu giosos tradicionais seriam abolidos? próprio vazio existencial. Kierkegaard Jonas Roos - Seria mais correto dizer que parece consumir o falso conteúdo a eles são reelaborados e ressignificados. partir de dentro, deixando a pessoa só Nesse sentido, Kierkegaard e Tillich tra- com a casca, como fazia Sócrates. Mas, balham de modo muito semelhante. Tilli- para Kierkegaard, a ironia não é a úl- ch escreveu um pequeno livro intitulado tima palavra, é método que deve ser Dinâmica da fé (3ª ed. São Leopoldo: compreendido dentro da moldura de Sinodal, 1985) – e que, sem dúvida, me- sua obra como um todo, o que, aliás, rece ser lido por quem se interessa por já se percebe com uma leitura atenta tais questões – onde inicia dizendo que de sua tese sobre a ironia socrática. fé é um desses termos que primeiro pre- cisam ser curados antes de poder curar IHU On-Line – Qual é a importância pessoas. Ou seja, há o reconhecimento desta relação entre Kierkegaard e de que existem grandes mal-entendidos Tillich para os dias de hoje? com relação a termos religiosos e que o Jonas Roos - O alcance de obras de gran- terreno precisa ser limpo antes de se po- des pensadores é sempre amplo e difícil der trabalhar adequadamente nele. Há de estabelecer. Na relação específica que que se fazer uma limpeza de conceitos aqui proponho, entendo que tanto Kierke- e procurar ressignificá-los e reinterpretá- gaard quanto Tillich são figuras inspirado- los. Isso não significa, necessariamente, ras para se pensar uma religiosidade que abolir. A respeito de seu trabalho, Kierke- dialogue com a cultura de seu tempo e gaard disse que estaria escavando os con- com as suas perguntas. Nesse diálogo, é ceitos cristãos, como que os limpando fundamental que se limpe os conceitos e depois de séculos, tentando redescobrir se traduza fórmulas que já não comuni- suas formas originais. Ou seja, trata- cam mais muita coisa. Este procedimen- se de um trabalho conceitual que tanto to é o que Tillich chamou de método de Kierkegaard quanto Tillich realizam com correlação e que, de certa forma, já es- habilidade. tava presente em Kierkegaard. SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 19 flash.indd 19 9/11/2009 18:38:16
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    Que peso tempara um filho o pai em pecado? Lacan leitor de Kierkegaard Mario Fleig examina a influência do pensador dinamarquês na obra lacaniana. Apesar dos elementos da melancolia presentes em sua filosofia, Lacan não o tomou como caso clínico Por Márcia Junges e Jasson Martins “A referência ao nome de Kierkegaard na obra e no ensino de Lacan é marcante e decisiva”. A afirmação é do filósofo e psicanalista Mário Fleig, na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. “Vemos que Lacan busca no filósofo dina- marquês pontos de apoio bem determinados para poder realizar o que denominou de ‘retorno a Freud’: a repetição, a angústia, a existência e o instante”. Entre- tanto, aponta Fleig, mesmo como um leitor atento de Kierkegaard, Lacan nunca o “tomou como um caso clínico, apesar de todos os elementos de sua melancolia estarem tão disponíveis”. Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Laca- niana Internacional. Graduado em Psicologia pela Unisinos, e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia pela UFRGS, doutor em Filosofia pela Pontifícia Uni- versidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, e pós-doutor em Ética e Psicanálise pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França. Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard, apre- senta em 12 de novembro a comunicação Lacan leitor de Kierkegaard: que peso tem para um filho o pai em pecado? Confira a entrevista. IHU On-Line - Quais são as principais ções no discurso e induz o analisante a eu denunciei como convergente com a influências de Kierkegaard na obra “atuar” sua angústia. É nesta perspec- experiência que bem mais tarde apa- de Lacan? tiva que Kierkegaard fornece noções receu com um Freud, e sua promoção Mario Fleig - A referência ao nome de indispensáveis que valorizam o resto, da ek-sistência como tal. Há algo, me Kierkegaard na obra e no ensino de La- o detalhe, a falha, enfim, o paradoxo parece, que não se possa dizer ou não can é marcante e decisiva. Encontra- que não se deixa resolver em qualquer se possa encontrar no próprio Kierke- mos o primeiro registro em uma dis- síntese redentora. gaard testemunho que é não apenas cussão em maio de 1946, na qual Lacan A última referência ao solitário de da promoção da repetição como algo convoca Kierkegaard para demarcar Copenhague ocorre no seminário R.S.I, de mais fundamental na experiência que o humor é uma forma de espiri- em 18 de fevereiro de 1975, e creio que a resolução dita tese, antítese, tuosidade muito superior e que se ma- que seja importante lermos esta pas- síntese sobre a qual um Hegel trama- nifesta particularmente no adulto e, sagem, pois reúne as indicações da va a História, mas a valorização dessa portanto, bem diferente do humor na presença do dinamarquês no ensino do repetição como de uma função funda- criança. Assim, vemos que Lacan bus- psicanalista. mental, cuja medida se encontra no ca no filósofo dinamarquês pontos de “É certo que essas categorias [real, gozo e cuja relações (as relações vi- apoio bem determinados para poder imaginário e simbólico] não são ma- vidas por Kierkegaard são aquelas de realizar o que denominou de “retorno nejáveis facilmente. No entanto, elas um nó, sem dúvida, jamais confessa- a Freud”: a repetição, a angústia, a deixam para si mesmas alguns vestígios do, mas que é aquele de seu pai com existência e o instante. Este retorno na história, a saber, que afinal é por a falta”. se contrapõe às concepções que ten- uma extenuação filosófica tradicional, Eu gostaria de destacar nesta cita- diam a introduzir na clínica psicana- cujo cume é dado por Hegel, que algu- ção, de modo breve, cinco pontos que lítica as vias diretas de tratamento, ma coisa que brilhou sob um nome de evidenciam o impacto do dinamarquês assim como o pensamento de síntese, um assim denominado Kierkegaard, a na obra de Lacan. De saída, sobressai que inevitavelmente produz cristaliza- respeito do qual vocês sabem o quanto a contraposição à filosofia da síntese. 20 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 20 9/11/2009 18:38:16
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    Em seguida, Lacanpropõe uma filiação “A relação de um temática possui alguma fundamenta- de Freud ao dinamarquês por meio da ção na filosofia kierkegaardiana? Em noção de ek-sistência. Em terceiro lu- psicanalista com que aspecto? gar, o conceito de repetição, em con- Mario Fleig - A angústia como mani- traposição à noção platônica de remi- Kierkegaard e seu festação de um estado inconciliável niscência, se constitui no ponto nodal e insuportável já fora descrita por da leitura que Lacan faz do filósofo, pensamento poderia Freud, que desenvolve duas ou talvez elucidando assim os emaranhados da três formulações para tentar dar con- confusão feita pelos leitores apres- se inscrever no que foi ta dela. Contudo, Lacan, sem deixar sados de Freud entre transferência e de lado o legado freudiano sobre a repetição. A medida desta repetição, denominado de angústia como sinal da iminência do em quarto lugar, se revela na noção de impossível, encontra em Kierkegaard o gozo. E, por último, a indicação clínica psicanálise aplicada, suporte para propor uma especificida- que indica o ponto nodal na existência de na vivência de angústia: é frente ao do filósofo: a relação com o pecado do mas não entendida de desejo do Outro que a angústia emer- pai. A partir deste ponto, na medida ge, e em sua dimensão temporal, ou em que forem explorados, nos mostra- modo equivocado como a seja, o instante em que se precipita a rá o quanto Lacan lê Kierkegaard como iminência do desamparo radical. o antecessor direto de Freud. aplicação de seu saber e IHU On-Line - É possível fazer uma IHU On-Line - Como a questão do pai de seu método a objetos leitura psicanalítica da obra de em pecado aparece nos escritos do Kierkegaard? Quais obras poderiam autor dinamarquês? exteriores a ser lidas, com proveito dessa chave Mario Fleig - Em sua obra Ponto de de leitura? vista explicativo da minha obra como especificidade da clínica Mario Fleig - Lacan, atento leitor de escritor, publicado postumamente, Kierkegaard, jamais o tomou como um Kierkegaard se refere à influência psicanalítica, tais como caso clínico, apesar de todos os ele- que produziu nele, desde a infância, mentos de sua melancolia estarem tão o velho melancólico que foi seu pai. as obras literárias ou disponíveis. Bem pelo contrário, sua Entretanto, é em suas notas pessoais atitude sempre foi a de alguém que de 1838 que encontramos o relato artísticas, as religiões, as buscava apreender aquilo que ele te- do famoso episódio que denomina de ria a ensinar. E Kierkegaard tem muito “tremor de terra” que produz terrível instituições e a nos ensinar. Os quatro pilares que perturbação que o leva a uma nova in- Lacan extrai de sua obra é uma pis- terpretação de tudo o que se passa. outras disciplinas” ta notável: a repetição, a angústia, a “Uma falta devia pesar sobre a família existência e o instante. Além disso, a inteira, um castigo de Deus planava sutileza de sua escrita tem muito para sobre ela”. O pai pecara pelo menos ensinar o psicanalista em seu ofício: duas vezes: em excesso de sofrimen- com o outro”. “não, uma ilusão nunca é dissipada to, em sua atividade como pastor de Lacan, evitando o erro banal de diretamente, só se destrói radical- ovelhas, ele havia blasfemado contra enveredar por uma psicologização do mente de uma maneira indireta”, afir- Deus; e o pai desposara apressada- personagem, localiza como central a ma em Ponto de vista explicativo da mente a mãe de Kierkegaard, antiga paixão pelo pai e certamente não é minha obra como escritor. O método doméstica da casa, e tiveram um filho um mero acaso que o solitário dina- indireto, a via oblíqua de se tocar na antes de nove meses do falecimento marquês tenha se tornado um multi- verdade insuportável de ser enuncia- da precedente. A longevidade do pai plicador do pseudônimo, de tal modo da, o equívoco da boa interpretação não era uma benção, mas uma maldi- que viesse a subverter o patronímio. que toca no real paradoxal, evitando ção, que já se mostrara nas catástrofes Lacan, no final de seu ensino, introdu- o risco de produzir objetivação catas- que se abatiam sobre a família: além zirá a pluralização do nome-do-pai e trófica, isso tudo o psicanalista pode dos desastres econômicos que atingia essa formulação não deixa de ter rela- aprender em cada fragmento da obra a todos, houve a perda de sua segunda ção com os efeitos da falta paterna no do solitário dinamarquês. mulher e de cincos filhos. O nó jamais roteiro fantasmático do filho, impon- Assim, a relação de um psicana- confessado com seu pai se lê em seu do-lhe uma série sem fim de disfarces lista com Kierkegaard e seu pensa- Diário: “O próprio pai se tomava por do nome próprio. mento poderia se inscrever no que culpado da melancolia de seu filho e o foi denominado de psicanálise apli- filho por aquela do pai, e era isso que IHU On-Line - O Seminário X, A angús- cada, mas não entendida de modo os impedia sempre de se abrirem um tia, de Lacan, é dedicado à angústia. equivocado como a aplicação de seu O tratamento que Lacan dá a essa SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 21 flash.indd 21 9/11/2009 18:38:16
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    “Kierkegaard é umpensador que não cessa de nos a outra disciplina, ilustrar ou exem- plificar a teoria, por meio, então, de confrontar com o incontornável, expresso em seus um saber que interroga outro saber. Ora, Kierkegaard é um pensador que paradoxos e na radicalidade do instante não cessa de nos confrontar com o incontornável, expresso em seus pa- extraordinário que presentifica a alteridade radoxos e na radicalidade do instan- te extraordinário que presentifica a última, Deus” alteridade última, Deus. saber e de seu método a objetos ex- ca vantagem que um psicanalista tem teriores a especificidade da clínica o direito de tirar de sua posição, se psicanalítica, tais como as obras li- esta lhe for reconhecida como tal, é Leia mais... terárias ou artísticas, as religiões, de se lembrar com Freud que, na sua Mario Fleig já concedeu outra entrevista as instituições, e outras disciplinas. matéria, o artista sempre o precede, à IHU On-Line. Elas estão disponíveis na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br) Trata-se antes de evitar o que seja logo, que não deve brincar de psicó- uma aplicação redutora de um saber logo onde o artista lhe abre a via. * As modificações da estrutura familiar clássica totalmente pronto sobre um objeto Assim, a psicanálise se aplica, em não significam o fim da família. IHU On-Line nú- mero 150, O pai desautorizado: desafios da pa- passivo, sem nenhum reconhecimen- sentido estrito, somente como tra- ternidade contemporânea, de 08-08-2005, dispo- to da formulação original na obra tamento, na situação em que um su- nível para download em http://www.ihuonline. considerada. Esta não parece ter jeito fala para um outro que o ouve. unisinos.br/uploads/edicoes/1158344547.83pdf. pdf sido a posição de Freud, que reco- Deste modo, o interesse de um psi- * Freud e a descoberta do mal-estar do sujeito na nhece o valor próprio de uma obra, canalista por uma obra não visaria civilização. IHU On-Line número 179, Sigmund como afirma em seu ensaio sobre a entender a obra como um sintoma, Freud. Mestre da suspeita, de 08-05-2006, dispo- nível para download em http://www.ihuonline. Gradiva de Jensen. e nem mesmo se trataria de com- unisinos.br/uploads/edicoes/1158345628.45pdf. Entretanto, os poetas são aliados preender ou de relacionar o discurso pdf de sumo valor e seu testemunho é al- do escritor com um saber constitu- * O declínio da responsabilidade. IHU On-Line número 185, O século de Heidegger, de 19-06- tamente apreciado, pois costumam sa- ído, mas de confiar no escritor, no 2006, disponível para download em ber de uma multidão de coisas entre o trabalho da escrita e na coerência http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ céu e a terra com cuja existência nem interna da obra, em seu desenvolvi- edicoes/1158344730.57pdf.pdf * O delírio de autonomia e a dissolução dos fun- sonha nossa sabedoria acadêmica. E, mento lógico. E, longe da ideia de damentos da moral. IHU On-Line número 220, O no conhecimento da alma, eles toma- um discurso aparente, ocultando um futuro da autonomia. Uma sociedade de indiví- ram a nossa dianteira, nós homens vul- sentido profundo, trata-se de operar duos?, de 21-05-2007, disponível para download em http://www.ihuonline.unisinos.br/index. gares, pois eles se abeberam em fon- uma decifração dos significantes em php?option=com_tema_capaItemid=23task=d tes que ainda não tornamos acessíveis ação, ou seja, tomar o texto à le- etalheid=407 à ciência. tra. * “Querer fazer o mal parece algo inerente à condição humana”. IHU On-Line número 265, De modo frequente, o interesse Nazismo: a legitimação da irracionalidade e da Confronto com o incontornável de um psicanalista por uma obra, na barbárie, de 21-07-2008, disponível para down- prática da psicanálise dita aplicada, load em http://www.ihuonline.unisinos.br/index. Essa perspectiva freudiana foi rati- começa por um questionamento que php?option=com_tema_capaItemid=23task=d ficada por Lacan em seu comentário à emerge no encontro com uma obra. etalheid=1174 obra de Marguerite Duras: O acontecimento que marca esse * Não cedas do teu desejo: é preciso sustentar- mos o que falamos com voz própria. IHU On-Line Haveria, ele [Freud] diz, grosseria encontro entre o psicanalista e a número 295, Ecoeconomia. Uma resposta à crise em atribuir a técnica admitida de um obra seria o modo como a obra atin- ambiental?, de 01-06-2009, disponível para do- autor a alguma neurose. [...] a úni- ge um mesmo ponto de impossível, wnload em http://www.ihuonline.unisinos.br/index. Gradiva de Jensen: do latim, “aquela que que Lacan denominou de um efeito php?option=com_destaques_semanaItemid=24 avança”, feminização de Gradivus, um dos de real, com a lógica dos instrumen- task=detalhesidnot=1645idedit=7 epítetos do deus romano Marte, Mars Gradi- vus, isto é, “Marte que avança”, é um roman- tos que lhe são próprios. Este pon- * O direito ao gozo e à violência. IHU On-Line número 298, Desejo e violência, de 22-06-2009, ce publicado em 1903 pelo escritor alemão to incontornável na obra tenderia a disponível para download em Wilhelm Jensen, que teve grande influência na produzir efeitos no psicanalista e na http://www.ihuonline.unisinos.br/index. cultura européia, sobretudo entre os surrealis- tas. ��������� IHU On-Line) (Nota da sua prática, ou seja, o psicanalista php?option=com_tema_capaItemid=23task=d etalheid=1675 ����������� Der Wahn und die Träume in W. FREUD, S. reconheceria aquilo que a obra lhe * IHU Repórter. IHU On-Line número 303, A ética Jensens ‘Gradiva’. Frankfurt am Main: S. ensinou. E isso, às vezes, permite à da psicanálise. Lacan estaria justificado em dizer Fischer, 1982, Stuienausgabe, v. X, p. 14. (Nota do entrevistado) psicanálise aplicada a uma obra, ou “não cedas de teu desejo”?, de 10-08-2009, dis- ponível para download em Marguerite Donnadieu (1914-1996): também http://www.ihuonline.unisinos.br/index. conhecida como Marguerite Duras, escritora e ����������� Shakespeare, Duras, Wedekink, LACAN, J. php?option=com_ihu_reporterItemid=30 diretora de filmes nascida na Indochina Fran- Joyce. Lisboa: Assírio Alvim, 1989, p. 125. cesa, hoje Vietnã. ��������� IHU On-Line) (Nota da (Nota do entrevistado) 22 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 22 9/11/2009 18:38:17
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    O avanço dapesquisa em Kierkegaard no Brasil Kierkegaard é tema de dezenas de pesquisas na pós-graduação brasileira. Tradução de O conceito de angústia, ainda no prelo, servirá como novo elemento e estímulo à discussão das ideias do dinamarquês, acentua Álvaro Valls Por Márcia Junges e Jasson Martins “H oje já não se pode dizer que, no Brasil, não se leu Kierkegaard. Há vinte anos, foi possível ironizar dizendo que aqui não se lera, só se escrevera sobre Kierke- gaard. Agora não!” A afirmação é do Prof. Dr. Álvaro Valls, na entrevista a se- guir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Tradutor de O conceito de angústia, ainda no prelo, Valls disse que agora a obra poderá ser lida em uma tradução fiel e filosófica, investigada em “seus aspectos dialéticos, platônicos, agostinianos, schellinguianos, hegelianos”. De acordo com ele, atualmente, existem inúmeros trabalhos de pós-graduação sobre Kierkegaard em nosso país. A respeito da recepção da filosofia desse pensador em nossa terra, Valls assinala que esta difere da alemã, francesa e japonesa. Ele explica: “Trata-se de uma recepção bem humorada, competente, mais divertida, sem perder tempo com polêmicas rancorosas”. Valls é doutor em Filosofia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha). Professor titular do PPG- Filosofia da Unisinos, é pesquisador do CNPq, presidente do Grupo de Estudos sobre as obras de Kierkegaard nesta instituição e um dos fundadores da Sociedade Kierkegaard do Brasil (Sobreski). Traduziu algumas obras desse filósofo direto do dinamarquês, publicadas na coleção Pensamento Humano, pela Editora Vozes, e está finalizando a tradução de uma obra de Theodor Adorno para a Editora UNESP. De sua produção bibliográfica, citamos Entre Sócrates e Cristo (Porto Alegre: Edipu- crs, 2000) e O que é Ética? (São Paulo: Brasiliense, 1983). Com Jorge Miranda de Almeida, escreveu Kierkegaard (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard, apresenta em 13 de novembro a comunicação Três leituras que Adorno fez de Kierkega- ard. Confira a entrevista. IHU On-Line - Em seu livro Entre Só- to angústia), apropriou-se da ironia da semântico da proposição. Numa socie- crates e Cristo, o senhor faz a se- maiêutica socrática, porém conside- dade saturada de certezas, a comuni- guinte afirmação: “Ora, se a ironia é rou necessário colocá-la a serviço de cação deve esforçar-se por provocar uma atitude diante da vida, é tam- uma ideia mais alta. Argumentou que, curiosidade mais do que por fornecer bém uma forma de comunicação”. O depois do ensinamento de Jesus Cris- novas certezas. A ironia representa, que significa isso? to, a ironia não tinha mais o direito de na vida humana autêntica, um papel Álvaro Valls - A ironia, na tradição ficar com a última palavra: essa foi sua semelhante ao da dúvida na filosofia socrática, é uma atitude relacionada crítica, p. ex., à chamada ironia ro- moderna: há que começar por elas. ao nada (ver: “só sei que nada sei”) e mântica. Mas a ironia poderia ser utili- mais radical que o niilismo, o cinismo zada, na comunicação, como arma ou IHU On-Line - Há alguns anos, o se- e o ceticismo. Embora Hegel, na sua instrumento, pela elasticidade que ela nhor, invocando um personagem de História da Filosofia, a reduza a “uma proporciona aos enunciados, devido à Lima Barreto, se autodefiniu como maneira de conversar”, ela é bem distância entre a intenção do falante uma ave rara, um dos poucos brasi- mais do que isso, é uma atitude dian- (o que este “quer dizer”, relacionado leiros que lia Kierkegaard em Dina- te da vida, que desafia o dogmatismo à dimensão pragmática) e o significado marquês. De lá para cá, mudou algu- dos donos da verdade e questiona os bém filósofo Søren Kierkegaard, seu aluno. Foi ma coisa? que abstraem de sua própria subjeti- professor de filosofia na Universidade de Co- Álvaro Valls - Mudou muita coisa! Antes vidade. Kierkegaard, que penetrou no penhague durante grande parte da sua vida. Afonso Henriques de Lima Barreto (1881- Møller foi autor do romance Aventuras de um 1922): mais conhecido como Lima Barreto, foi mundo grego orientado por Poul Mar- estudante dinamarquês, que nunca foi acaba- um jornalista e um dos mais importantes es- tin Møller (a quem dedicou O concei- do. Este trabalho foi o livro favorito do físico critores libertários brasileiros. É autor de, en- Poul Martin Møller (1794-1838): filósofo di- e pensador dinamarquês Niels Bohr. (Nota da tre outros, Triste Fim de Policarpo Quaresma. namarquês. Foi a principal influência do tam- IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 23 flash.indd 23 9/11/2009 18:38:17
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    dos trabalhos pioneirosde Ernani Rei- chmann, em Curitiba, nos anos 1960 e “Kierkegaard começa tada em sua teatralidade maiêutica: “a caráter”) além do material dos Papirer, 1970, talvez só Alceu de Amoroso Lima (dos nomes mais conhecidos no Brasil) a ser lido e discutido, ou seja, a sugestão de que queremos ler a obra de Kierkegaard sem nos satis- tenha conseguido penetrar com alguma profundidade na obra do então chamado a ser compreendido e fazermos com aspectos anedóticos de sua biografia e uns poucos textos pseu- “pai do existencialismo”. E era uma apro- ximação no mínimo cautelosa, como se relacionado dentro da dônimos. E se Kierkegaard foi chamado “o Sócrates nórdico” é por haver muita depreende do título da obra de Alceu: O existencialismo e outros mitos de nosso história do pensamento ironia até em suas obras aparentemente mais sérias e de feição mais acadêmica, tempo. Mesmo quando um bom escritor e poeta português, como Adolfo Casais filosófico” como no Conceito angústia, por exem- plo. “Ironicamente correto” lembrava Monteiro, traduzia um livro de Kierke- também que fizemos oito Jornadas de gaard, como aquele sobre as formas do já desfrutaram das ótimas condições de Estudos sem solicitar verbas das agên- desespero, não sentia a necessidade de pesquisa da Kierkegaard Library, de Min- cias financiadoras. E nos reunimos por ler o texto original. Assim, para mim, os nesota. Jonas Roos investigou por mais oito anos numa Sociedade sem nenhuma anos 1980, após meu doutorado em Hei- de um ano no Centro de Pesquisa de SK, burocracia (e claro que sem dinheiro). delberg com Michael Theunissen, foram em Copenhague. As traduções novas que Outra ironia foi quando, numa das nossas anos de deserto, só aliviados, por algum vão aparecendo têm sido feitas sempre primeiras Jornadas, a única participante tempo, pela amizade do conterrâneo a partir do original. O Conceito de ironia que não era patrícia nossa era Patrícia Ernani Reichmann e do francês Henri- já chegou à terceira edição, As obras do Dip, da Argentina. Bernard Vergote, que me deram como amor em pouco tempo alcançou a se- uma missão (ou um desafio) fazer tais gunda edição. Quem estará comprando IHU On-Line - Pela primeira vez esta traduções. Reichmann me apelidava de e lendo esses livros? Kierkegaard começa Jornada de Estudos de Kierkegaard é “kierkegaardiano de escola”, consciente a ser lido e discutido, a ser compreendi- promovida pela Sobreski em parce- do oxímoro que isso representava. Hoje, do e relacionado dentro da história do ria com a Biblioteca Kierkegaard, de porém, já temos em andamento no Bra- pensamento filosófico. Buenos Aires. O que o senhor espera sil dezenas de trabalhos de pós-gradua- dessa parceria com os pesquisadores ção sobre Kierkegaard. Há cerca de uma IHU On-Line - A Sociedade Brasilei- argentinos? dúzia de professores e estudiosos com ra de Estudos de Kierkegaard (So- Álvaro Valls - O mundo de idioma es- doutorado sobre ele (seja em São Paulo breski), da qual o senhor é um dos panhol dispõe de traduções melhores a ou Campinas, seja na Itália ou na Norue- fundadores, possui o seguinte lema mais tempo do que nós. E nossos cole- ga). Fizemos nove Jornadas de estudos “Uma sociedade ironicamente cor- gas argentinos vêm discutindo a obra de nos últimos nove anos, pelo Brasil afora. reta”. O senhor concorda que esse Kierkegaard com grande seriedade há Colegas nossos já publicaram vários livros lema resume, de certa forma, a re- vários anos. Darío González, por exem- de boa qualidade, como recentemente cepção brasileira do pensamento de plo, trabalhou no Centro de Copenha- Marcio Gimenes de Paula e Jorge Miranda Kierkegaard e tornou-se o leitmotiv gue por muito tempo. Andrés Albertsen de Almeida. Vários doutores brasileiros dos estudiosos brasileiros? lidera a Igreja Dinamarquesa de Buenos Álvaro Valls - Parece que sim. “Ironica- Aires. Em metade de nossas Jornadas, Alceu Amoroso de Lima (1893-1983): crítico literário, professor, pensador, escritor e líder mente correto” é uma expressão que tivemos a sorte de contar com colegas católico brasileiro. (Nota da IHU On-Line) ocorre na Dissertação de 1841. A re- argentinas como Patrícia Dip e Maria Adolfo Casais Monteiro (1908-1972): escri- cepção brasileira difere da alemã, da tor português. Exilou-se em 1954 no Brasil, por José Binetti, que alguns de nós também motivos políticos e por lhe ser proibida a do- francesa e da japonesa. Trata-se de uma encontraram na Kierkegaard Library do cência em Portugal. (Nota da IHU On-Line) recepção bem humorada, competente, St. Olaf College, em Northfield, MN, nos Michael Theunissen (1932): filósofo alemão. mais divertida, sem perder tempo com Autor de, entre outros, Der Begriff Verzweif- Estados Unidos. Os contatos se multipli- lung: Korrekturen an Kierkegaard (Frankfurt polêmicas rancorosas. Este lema (in- caram, aqui e nas Jornadas Argentinas, am Main: Suhrkamp 1993). (Nota da IHU On- ventado por brincadeira, numa ironia da Biblioteca Kierkegaard, no ISEDET de Line) redobrada) aponta para nossa tese da Henri-Bernard Vergote: filósofo francês au- Buenos Aires, e daí surgiu naturalmente tor de, entre outros, Sens et Répétition: Essais leitura (tal como o propunha o grande a ideia de que, a partir de nossa décima sur l’ironie kierkegaardienne (Paris : Le Cerf, pesquisador Henri-Bernard Vergote em Patrícia Dip: filósofa argentina, doutora em 1982). (Nota da IHU On-Line) Sens et Répétition: Essais sur l’ironie Filosofia pela Universidade de Buenos Aires - Jorge Miranda de Almeida: filósofo brasi- UBA, professora da Universidad Nacional de leiro, graduado e mestre em Filosofia pela kierkegaardienne (Paris: Le Cerf, 1982)� General Sarmiento – UNGS, e pesquisadora do Pontifícia Universidade Católica do Rio de Ja- da obra como um todo, desde a Disser- Conselho Nacional de Investigações Científicas neiro (PUC-Rio), doutorado em Filosofia pela tação de 1841 até a polêmica final com e Técnicas - CONICET. Publicou sua tradução Universidade Gregoriana de Roma (PUG) com de S. Kierkegaard, Johannes Climacus o el du- a tese Ética e Sentido: Projeto de uma Ética a Igreja oficial dinamarquesa (interpre- dar de todas las cosas (Buenos Aires: Editorial Existencial a partir da superação da Ontologia Sudoeste da Bahia (UESB), escreveu Ética e Gorla, 2007). Confira nesta edição da IHU On- como Filosofia primeira, partindo da análise existência em Kierkegaard e Lévinas (Vitória Line a entrevista concedida por Dip: A filosofia do conceito de ética na Filosofia de Kierke- da Conquista: Edições UESB, 2009). (Nota da de Kierkegaard como aporte ético à alterida- gaard. Docente na Universidade Estadual do IHU On-Line) de. (Nota da IHU On-Line) 24 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 24 9/11/2009 18:38:18
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    Jornada, deveríamos somaros esforços. mais bem formados (agora professor de Dois dias lá, com alguns de nós, e dois “Kierkegaard Filosofia da Religião na Universidade Fe- dias aqui, com alguns deles. E que isso se deral de Juiz de Fora, MG), está fazen- mantenha nas próximas Jornadas, como apropriou-se da ironia do. Torcemos para que seja publicada uma boa tradição de integração. A par- em 2010, e aí os dois passos seguintes te brasileira dessas Jornadas, este ano, da maiêutica socrática, teriam de ser passar ao nosso idioma conta com apoio do Instituto Humanitas o Postscriptum final não científico e a Unisinos - IHU, e até da CAPES. Teremos, porém considerou Escola (ou Prática) do Cristianismo. Há lá e aqui, mais alguns participantes ilus- planos em nosso grupo de traduzir a po- tres de outros países, como o português necessário colocá-la a lêmica de O instante e outros textos. É João Vila-Chã SJ, atualmente na Univer- possível prever, pois, para os próximos sidade Gregoriana, em Roma. serviço de uma ideia dez anos, uma década de discussões competentes, a partir de textos bons em IHU On-Line - O senhor é reconhe- mais alta. Argumentou nosso idioma, e de produção de textos cido como o tradutor das obras de de qualidade que modificarão completa- Kierkegaard ao vernáculo, e essa ta- que, depois do mente nosso panorama. Em 2010, deve- refa até agora cumpriu a sua função rá ser publicada também a tradução que de fornecer boa tradução aos leito- ensinamento de Jesus estou terminando da famosa livre do- res brasileiros. Nesse sentido, o que cência de Adorno,11 orientada por Tilli- espera da publicação da tradução de Cristo, a ironia não tinha ch, Kierkegaard - Construção do Estético O conceito de angústia, traduzida di- pela UNESP Jasson Martins,12 Jonas Roos, . retamente do original, e que está no mais o direito de ficar Sílvia Saviano Sampaio13 e Ilana Amaral14 prelo, para as pesquisas no Brasil? já têm livros escritos que podem ser lan- Álvaro Valls - O conceito de angústia com a última palavra” çados em pouco tempo. E há uma cole- é um livro muito rico, profundo e difí- tânea, indo para o prelo, bem adianta- cil, além de fascinante. As traduções do autor. A leitura desta tradução, que da, sobre O conceito de angústia. Antes de que dispúnhamos até agora depen- deve aparecer pela Vozes em fins de disso aparecerão, por certo, os melhores diam de traduções de outras línguas e janeiro de 2010, não será fácil, estou trabalhos dessas Jornadas de 2009. não eram muito exatas. A nossa procu- convencido disso, mas se tornará mais 11 Theodor Wiesengrund Adorno (1903- 1969): sociólogo, filósofo, musicólogo e com- rou levar em conta aspectos filosóficos produtiva. Por outro lado, se nossas positor, definiu o perfil do pensamento alemão que estavam obscurecidos e, ajuda- traduções têm algum valor, está ligado das últimas décadas. Adorno ficou conhecido dos, como de costume, por Else Hage- ao esforço de fidelidade, de manter no mundo intelectual, em todos os países, em especial pelo seu clássico Dialética do Ilumi- lund,10 a manter a fidelidade à língua o pensamento filosófico no seu nível nismo, escrito junto com Max Horkheimer, pri- João Vila-Chã SJ: filósofo português, licen- e no esforço de usar uma linguagem meiro diretor do Instituto de Pesquisa Social, ciado em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia nossa tal como Kierkegaard a usaria, que deu origem ao movimento de idéias em fi- de Braga da Universidade Católica Portuguesa losofia e sociologia que conhecemos hoje como (UCP), obteve o Diplom-Hauptprüfung (Katho- pelo que conhecemos dele. A partir de Escola de Frankfurt. (Nota da IHU On-Line) lischer Theologie), na Philosophisch-Theologis- uma tradução fiel e filosófica, o livro 12 Jasson da Silva Martins: filósofo brasileiro, che Hochschule Sankt Georgen em Frankfurt poderá ser investigado em seus aspec- graduado em Filosofia pelo Centro Universitá- am Main, Alemanha, com a tese Theologie und rio La Salle (Unilasalle), mestre e doutorando Kirche: Erik Petersons Program ‘konkreter tos dialéticos, platônicos, agostinia- em Filosofia pela Unisinos, com a tese Angús- Theologie’. É doutor em Filosofia, pelo Boston nos, schellinguianos, hegelianos etc., tia e solidão: o problema da subjetividade em College, com a tese Amor intellectualis? Leo- além de ser alvo de estudos de toda a Kierkegaard e Heidegger. É um dos organiza- ne Ebreo (Judah Abravanel) and the intelligi- dores da obra Ética, direito e política: infle- bility of love. É diretor da Revista Portuguesa chamada área Psi. xões filosóficas (São Leopoldo: Nova Harmonia, de Filosofia desde 2000, e leciona Filosofia da 2008). Na presente edição colaborou na elabo- Religião e História do Pensamento Contempo- IHU On-Line - Quais são os seus pro- ração de questões e na tradução de algumas râneo na UCP, na Faculdade de Filosofia. En- das entrevistas. (Nota da IHU On-Line) tre inúmeras outras atividades, foi diretor do jetos para os próximos anos à frente 13 Sílvia Saviano Sampaio: filósofa brasileira, Centro de Estudos Filosóficos dessa Faculdade do Grupo de pesquisa sobre a obra graduada em Filosofia e mestre em Educação (2001-2007), e é, atualmente, o diretor do de Kierkegaard (CNPq) da qual é o pela Pontifícia Universidade Católica de São Programa Integrado de Mestrado e Doutorado Paulo (PUC-SP). Cursou doutorado em Filosofia em Filosofia da Religião na UCP. Participa da presidente? pela Universidade de São Paulo (USP) com a Jornada Argentino-Brasileira de Estudo de Álvaro Valls - A situação do livro sobre a tese A subjetividade da existência em Kierke- Kierkegaard com a conferência O significado angústia é similar à da obra de 1849, A gaard. É docente na PUC-SP. (Nota da IHU On- de crise em dialética: a recepção crítica de S. Line) Kierkegaard no pensamento de Erik Peterson. doença para a morte, conhecida entre 14 Ilana Amaral: filósofa brasileira, graduada Confira, na edição 245 da Revista IHU On-Line, nós em três ou quatro traduções indire- em Ciências Sociais pela Universidade Fede- de 26-11-2007, a entrevista A fúria do ateís- tas, e, cada vez mais inexatas, e por te- ral do Ceará (UFC), mestre em Filosofia pela mo contemporâneo tem cariz quase religioso, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e dou- disponível para download em http://www. mos grande a esperança no trabalho que tora em Filosofia pela Pontifícia Universidade ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_ o Dr. Jonas Roos, um de nossos quadros Católica de São Paulo (PUC-SP) com a tese O tema_capaItemid=23task=detalheid=836. “conceito” de paradoxo (constantemente re- (Nota da IHU On-Line) textos traduzidos pelo Prof. Dr. Álvaro Valls do ferido a Hegel). Fé, história e linguagem em 10 Else Hagelund: dinamarquesa, vive no dinamarquês para o português. (Nota da IHU S. Kierkegaard. É docente na UFC. (Nota da Brasil há alguns anos. Atua como revisora dos On-Line) IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 25 flash.indd 25 9/11/2009 18:38:18
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    e escritores comoThomas Mann17 e Max suas ideias que até parece que Kierke- IHU On-Line - Qual é a atualidade de Frisch,18 que se apropriaram tanto dele, gaard os teria lido. E os teria lido, de Kierkegaard no contexto do pensa- de forma tão produtiva? Quantas de suas fato, se tivesse podido, tal como lera mento filosófico contemporâneo? provocações levaram Lacan e Derrida19 a Feuerbach21 e leu muito Schopenhauer Álvaro Valls - Nos anos 1980, escrevi um ter novas ideias? E nem falemos da Her- nos seus últimos cinco anos. Por isso se artigo para o Folhetim da Folha de São menêutica do sujeito e do Cuidado de pode até lamentar que Nietzsche tivesse Paulo, com esse título: A atualidade de si, de Foucault,20 livros tão próximos de prometido “ocupar-se com o fenômeno Kierkegaard. O editor do Folhetim pre- edicoes/1158264514.33pdf.pdf. (Nota da IHU Kierkegaard” apenas em 1889. Foi tarde feriu usar como título uma frase de meu On-Line) demais para ele, mas para nós ainda há 17 Thomas Mann (1875 - 1955): romancista texto: “E não se leu Kierkegaard”. Foi alemão, considerado como um dos maiores um bom tempo. graças a esse artigo que conheci Vergote, do século XX. Recebeu o prêmio Nobel da Li- que logo apresentei a Reichmann, então teratura em 1929. Foi o irmão mais novo do romancista Heinrich. Ganhou repercussão in- a ave rara das boas traduções de Kierke- ternacional, aos 26 anos, com sua primeira Leia mais... gaard no Brasil. Vergote congratulava- obra, Os Buddenbrooks, romance que conta a Álvaro Valls já concedeu outras entre- se com os franceses porque agora, com história de uma família protestante de comer- vistas à IHU On-Line. Confira o material na nos- ciantes de cereais de Lübeck ao longo de três as Œuvres Complètes, das Éditions de gerações. (Nota da IHU On-Line) sa página eletrônica www.ihu.unisinos.br l’Orante, traduzidas por Paul-Henri Tis- 18 Max Frisch (1911-1991): arquiteto e escri- Entrevistas: seau,15 já podiam ler a obra desse autor. tor suíço do pós-guerra inlfuenciado pelo exis- * Paulo e Kierkegaard. Edição 175, Paulo de Tarso tencialismo e por Brecht. Em suas obras teve Hoje já não se pode dizer que, no Brasil, como tema os efeitos da sociedade moderna e a contemporaneidade, de 10-04-2006, disponí- vel para download em não se leu Kierkegaard. Há vinte anos, foi sobre o indivíduo ao tratar das crises intelec- http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ possível ironizar dizendo que aqui não se tual, moral e social da contemporaneidade. edicoes/1158346362.52pdf.pdf (Nota da IHU On-Line) lera, só se escrevera sobre Kierkegaard. 19 Jacques Derrida (1930-2004): filósofo fran- * “Uma Filosofia brasileira surgirá com tempo e muito trabalho”. Entrevista concedida para as Agora não! Os recentes livros de Marcio cês, criador do método chamado desconstru- Notícias do Dia do sítio do IHU, de 16-11-2006, Gimenes de Paula e Jorge Miranda de Al- ção. Seu trabalho é associado, com freqüência, disponível para download em http://www.ihu. ao pós-estruturalismo e ao pós-modernismo. meida (que já publicou comigo uma in- Entre as principais influências de Derrida en- unisinos.br/index.php?option=com_noticiasIte mid=18task=detalheid=1673 trodução, na Zahar) demonstram já ha- contram-se Sigmund Freud e Martin Heidegger. * “O que Dawkins vem fazendo atualmente não ver bastante consciência da contribuição Entre sua extensa produção, figuram os livros é ciência, mas sim uma pregação de suposições Gramatologia (São Paulo: Perspectiva, 1973), desse pensador para as nossas questões. A farmácia de Platão (São Paulo: Iluminu- filosóficas indemonstráveis”. Edição 245, O novo ateísmo em discussão, de 26-11-2007, disponível Na sociedade de massas, o indivíduo, ras, 1994), O animal que logo sou (São Pau- para download em http://www.ihuonline.unisi- no sentido enfático, ainda é a categoria lo: UNESP, 2002), Papel-máquina (São Paulo: nos.br/index.php?option=com_tema_capaItemi Estação Liberdade, 2004) e Força de lei (São crítica fundamental. Na globalização e Paulo: WMF Martins Fontes, 2007). Dedicamos d=23task=detalheid=838 * Carlos Roberto Velho Cirne-Lima. Depoimento no pensamento da identidade, a defesa a Derrida a editoria Memória da IHU On-Line concedido à Edição 261, Carlos Roberto Velho Cir- adorniana do não-idêntico provém dire- edição 119, de 18-10-2004, disponível para ne-Lima. Um novo modo de ler Hegel, de 09-06- download em http://www.ihuonline.unisinos. tamente de sua tese sobre nosso pen- br/uploads/edicoes/1158265374.73pdf.pdf. 2008, disponível para download em http://www. ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_ sador. O pensamento ético de um Witt- (Nota da IHU On-Line) tema_capaItemid=23task=detalheid=1100 genstein costuma ser relacionado quase 20 Michel Foucault (1926-1984): filósofo fran- cês. Suas obras, desde a História da Loucu- que exclusivamente a Schopenhauer, ra até a História da sexualidade (a qual não mas suas leituras de Kierkegaard eram pôde completar devido a sua morte) situam- dade e saber, constituindo verdades, práti- de grande seriedade. E o que dizer de se dentro de uma filosofia do conhecimento. cas e subjetividades. Em duas edições a IHU Suas teorias sobre o saber, o poder e o sujeito On-Line dedicou matéria de capa a Foucault: pensadores como Heidegger, Lévinas, te- romperam com as concepções modernas des- edição 119, de 18-10-2004, disponível para ólogos como Barth, Tillich e Bultmann,16 tes termos, motivo pelo qual é considerado download em http://www.ihuonline.unisinos. por certos autores, contrariando a sua própria br/uploads/edicoes/1158265374.73pdf.pdf e 15 Paul-Henri Tisseau (1894-1964): tradutor opinião de si mesmo, um pós-moderno. Seus a edição 203, de 06-11-2006, disponível em das Obras Completas de Søren Kierkegaard. primeiros trabalhos (História da Loucura, O http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ (Nota da IHU On-Line) Nascimento da Clínica, As Palavras e as Coi- edicoes/1162842466.39pdf.pdf. Além disso, o 16 Rudolf Karl Bultmann (1884-1976): teólo- sas, A Arqueologia do Saber) seguem uma li- IHU organizou, durante o ano de 2004, o even- go luterano alemão nascido em Wiefelstede, nha estruturalista, o que não impede que seja to Ciclo de Estudos sobre Michel Foucault, que Oldenburg, que propôs uma interpretação do considerado geralmente como um pós-estrutu- também foi tema da edição número 13 dos Ca- Novo Testamento da Bíblia apoiada em con- ralista devido a obras posteriores como Vigiar dernos IHU em Formação, disponível para do- ceitos de uma filosofia existencialista. Iniciou e Punir e A História da Sexualidade. Foucault wnload em http://www.ihu.unisinos.br/uplo- como professor sobre sua especialidade, o trata principalmente do tema do poder, rom- ads/publicacoes/edicoes/1184009500.55pdf. Novo Testamento (1916), em Breslau, Giessen pendo com as concepções clássicas deste ter- pdf sob o título Michel Foucault. Sua contri- e Marburg. Nessa cidade tomou contato com mo. Para ele, o poder não pode ser localizado buição para a educação, a política e a ética. Martin Heidegger e a filosofia existencialista, em uma instituição ou no Estado, o que torna- (Nota da IHU On-Line) que influenciou seu pensamento posterior. ria impossível a “tomada de poder” proposta 21 Ludwig Feuerbach (1804-1872): filósofo Morreu em Marburg, então Alemanha Ociden- pelos marxistas. O poder não é considerado alemão, reconhecido pela influência que seu ������������������������������������ tal. Seu primeiro livro foi Jesus (1926) e e sua como algo que o indivíduo cede a um sobe- pensamento exerce sobre Karl Marx. Abando- mais famosa obra foi Das Evangelium des Jo- rano (concepção contratual jurídico-política), na os estudos de Teologia para tornar-se aluno hannes (1941). Na edição 114, de 06-09-2004, mas sim como uma relação de forças. Ao ser de Hegel, durante dois anos, em Berlim. De publicamos na editoria Teologia Pública um relação, o poder está em todas as partes, uma acordo com sua filosofia, a religião é uma for- debate sobre a obra Teologia do Novo Testa- pessoa está atravessada por relações de po- ma de alienação que projeta os conceitos do mento, com a participação de Nélio Schneider der, não pode ser considerada independente ideal humano em um ser supremo. É ��������� autor de e Johan Konings, disponível para download em delas. Para Foucault, o poder não somente A essência do cristianismo (2ª. ed. São Paulo: http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ reprime, mas também produz efeitos de ver- Papirus, 1997). (Nota da IHU On-Line) 26 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 26 9/11/2009 18:38:19
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    A filosofia pós-modernae a força infinita do espírito humano Exortações “tu deves crer” e “tu deves amar” são caminho alternativo ao relativis- mo modernista, observam Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti. Espírito huma- no dotado de força infinita, em contraposição ao niilismo, é que tem a ver com a filosofia pós-moderna Por Márcia Junges e Jasson Martins | Tradução Jasson Martins O s estudos sobre Kierkegaard na Argentina avançaram muito, mas ainda não o bastante, analisam Ana María Fioravanti e Maria Jose Binetti na entrevista que concederam, em conjunto, por e-mail, à IHU On-Line. Para diversos pesquisadores, dizem elas, a oposição entre a filosofia do dinamarquês e a de Friedrich Hegel, não tem mais sentido. Utilizando- se de uma expressão hegeliana, Fioravanti e Binetti afirmam que os que lutam se abra- çam. “Partindo desse ponto de vista, é inegável que Kierkegaard é devedor do pensamento do filósofo alemão, à medida que boa parte de sua obra é uma discussão, por vezes até violenta, com Hegel”. E complementam: “O problema essencial, cremos, é que a utilização de certos conceitos idênticos distrai do como devem ser entendidos”. È o caso dos termos angústia, desejo, temor, finito, infinito, absoluto, verdade, singularidade e espécie, familiares para os leitores de Kierkegaard, e que já “tinham sido tratados anteriormente por Hegel”. Para elas, a filosofia pós-moderna “não tem a ver com um niilismo relativista, mas sim com a força infinita do espírito humano, tal como Kierkegaard o concebeu”. À onda de “direitos de todo tipo e cor que desencadeou o modernismo, ele opôs como único caminho, inclusive para alcançar esses mesmos direitos, o ‘tu deves crer’ e o ‘tu deves amar’”. Ana María Fioravanti é professora particular e tradutora. Membro fundadora da Biblioteca Kierkegaard Buenos Aires e responsável pelos projetos desenvolvidos atualmente por esta Instituição, traduziu ao es- panhol (a partir da tradução italiana) alguns textos de Kierkegaard e colaborou com a tradução da obra El instante (Madrid: Trotta, 2006). Na Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard da parte Argen- tina, apresenta a comunicação De Vassallo a Kierkegaard: finitude e transcendência. Maria Jose Binetti é licenciada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica Argentina Santa María de los Buenos (UCA). Doutora em Filosofia pela Universidade de Navarra, Espanha, é pesquisa- dora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet). Leciona na Universidade John F. Kennedy, na Argentina. Além de artigos em revistas nacionais e internacionais, publicou os seguintes livros: El poder de la libertad. Introducción a Kierkegaard (Buenos Aires: Ciafic, 2006), La posibilidad necesaria de la libertad. Un análisis del pensamiento de Søren Kierkegaard (Universidad de Navarra: Pamplona, 2005). Colaborou com a tradução de El instante (Madrid: Trotta, 2006). Na Jornada Argentino-Brasileira, apresentou o tema O impacto de Kierkegaard na emergência do sujeito contemporâneo. Confira a entrevista. IHU On-Line - Como surgiu a Biblio- se dirigiram à Igreja Dinamarquesa de Kierkegaard e os escritos de outros teca Kierkegaard e quais são seus em Buenos Aires, onde depois de um autores sobre Kierkegaard. Porém, na objetivos? tempo e com a ajuda inestimável do realidade, o nosso principal objetivo, Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi- pastor Andrés Albertsen formaram um desde o princípio, foi não só estudar netti - Essa ideia nasceu de um fato grupo de estudos, ao qual concorriam e difundir o pensamento do “Gran- realmente fortuito. Um professor de pessoas de diversas características de Dinamarquês”, como o chamamos filosofia, Oscar Cuervo, e um licen- e ocupações, como estudantes, pro- um pouco de brincadeira e um tanto ciado em psicologia, Héctor Fenoglio, fessores, artistas, e outros. Dois anos sério, mas trabalhar especialmente decidiram, por volta do ano 2000, es- mais tarde, em dezembro de 2002, com os grandes equívocos, confusões tudar dinamarquês para ler Kierkega- tivemos a ideia de organizar uma bi- e tergiversações em torno aos concei- ard em seu idioma original e para isso blioteca que reunisse todas as obras tos-chave, a maioria decorrentes da SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 27 flash.indd 27 9/11/2009 18:38:20
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    falta de clarezapara distinguir entre de, singularidade e espécie etc., tão ta-se do estado de direito, onde não os escritos de Kierkegaard assinados familiares para os leitores de Kierke- basta um reconhecimento formal mas com pseudônimos, e os que assinava gaard, também tinham sido tratados uma apropriação igualitária do poder, com seu próprio nome. Creio que este anteriormente por Hegel. No entanto, a riqueza e a informação que, como é o propósito que eu assinalaria como o modo em que se põe a relação entre diz o professor Cullen, um especia- o mais importante, se tivesse que es- ambos os autores é muito diferente. lista em Hegel, são respectivamente colher um, para caracterizar o maior Para Hegel, o que singulariza o ho- a homenagem de Hegel à Revolução empenho da Biblioteca Kierkegaard mem é o desejo, porém esse desejo se Francesa, à economia de mercado e à Argentina: tratar de pouco a pouco co- torna infinito e então aparece a ação Ilustração. Porém a Revolução France- locar alguma caridade sobre o históri- enquanto luta pelo reconhecimento sa pode desembocar no terror, a eco- co e grave mal-entendido que consiste do outro como desejo, que é uma luta nomia de mercado na alienação, da em confundir indiscriminadamente o até a morte, porque o eu que dese- riqueza e a Ilustração em uma relação que dizem os escritos chamados pseu- ja o deseja todo. Só a transformação satisfeita com o presente, e a fé, uma dônimos ou estéticos e os chamados da vida em cultura, a ação que, como fuga do mundo. religiosos ou edificantes. Quer dizer, Portanto, o reconhecimento do outro o mal-entendido de não saber escutar só se dá naquilo que Hegel chama o sim e reconhecer as vozes que falam em “A pós-modernidade do perdão, fundado na solidariedade e cada caso. na fraternidade. Pois bem, Kierkegaard hermenêutica e não fala de solidariedade e fraternidade IHU On-Line – O que ocorreu com a nem de superação através do Espírito ab- recepção do pensamento de Kierke- desconstrução soluto. Suas categorias não são teológi- gaard, sobretudo a comentada opo- cas, nem filosóficas, nem estéticas. Toda sição a Hegel, para que ficasse tão assumem de Kierkegaard sua vida se concentrou em um só propó- marcada na história da filosofia do sito: como tornar-se cristão e em escla- século XIX? Esse é um problema atu- os conceitos de diferença recer como a pregação deveria consistir al, ou hoje em dia não faz sentido em que um indivíduo singular (Enkelte, essa oposição? e repetição, paradoxo, em dinamarquês, que significa alguém Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi- singular, único) falasse como indivíduo netti - Sobre este tema, as opiniões possibilidade, instante, singular a outro indivíduo singular. Esse estão muito, muito divididas. Atual- falar consiste propriamente, e sobretu- mente, há inúmeros pesquisadores que inter-esse ou ser-no- do, em um convite a ouvir a palavra re- pensam que o antagonismo entre He- veladora que é a pessoa de Cristo, e que gel e Kierkegaard já não tem sentido meio-de, e inclusive sua não é nenhum Espírito absoluto que vai e existe uma tendência a assimilá-los se desenvolvendo na história. mais que a opô-los. Creio que era He- consistência religiosa, Aqui não tem nada que ver a histó- gel que dizia que os que lutam se abra- ria, porque todo cristão, em qualquer çam. E partindo desse ponto de vista, fundada na decisão da fé época e lugar, tem que ser contempo- é inegável que Kierkegaard é devedor râneo de Cristo. Ele não ensina a ver- do pensamento do filósofo alemão, à e estabelecida para além dade. Ele é a verdade que torna mani- medida que boa parte de sua obra é festo o único amor que não pode surgir uma discussão, por vezes até violenta, de toda igreja instituída” do coração de nenhum homem: o amor com Hegel. De modo que é necessário ao próximo, que inclui o amado, o ami- conhecer bem Hegel para compreen- go e ainda o inimigo. Gostaríamos de der melhor Kierkegaard. No entanto, diz Hegel, produz um eu que é um nós reforçar que em um de seus livros fun- esse antagonismo ainda segue vigente e um nós que é um eu, pode superar damentais, As obras do amor, repete e quase nos atreveríamos a dizer que, de algum modo essa luta. O que ele uma e outra vez que esse amor não mais que do nunca. Sabemos que esta chama o sim do perdão, o salto que surge do coração de nenhum homem. afirmação que, por outro lado, é com- superaria o mal radical, só é possível E, portanto, frente a esse amor, só se partilhada pela maioria dos integran- pela presença do espírito que vive en- pode crer ou não crer. tes da Biblioteca Kierkegaard Argen- tre nós através da arte, a religião e, A exposição, ao menos para nós, é tina, provoca sempre os debates mais acima desse espírito, a filosofia, quer muito diferente. Na encruzilhada de inflamados e apaixonados. O problema dizer o saber absoluto. Essa obra foi publicada originalmente em essencial, cremos, é que a utilização 1847. Em 2005, foi publicada a primeira edi- de certos conceitos idênticos distrai O sim do perdão ção em língua portuguesa, com tradução do do como devem ser entendidos. Con- professor Alvaro L. M. Valls: As obras do amor. Algumas considerações cristãs em forma de ceitos tais como angústia, desejo, te- Trata-se de uma questão ética e discursos (Bragança Paulista/Petrópolis: Edito- mor, finito, infinito, absoluto, verda- política, trata-se de um saber. Tra- ra Universitária São Francisco/Editora Vozes, 2005). (Nota da IHU On-Line) 28 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 28 9/11/2009 18:38:20
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    cada caminho singularestá proposto o ças entre o espírito nórdico e o espírito convite. Um convite que se oferece a latino não são poucas. A soma de ambos cada um e a todos, e que não se pode os fatores é o que me parece ter atra- aceitar sem escândalo nem paradoxo. sado o ingresso de Kierkegaard em nos- Informações em www.ihu.unisinos.br Creio que entre um e outro não existe sos países, ou ao menos ter feito com reconciliação possível, e que a oposição que ele fosse conhecido por intermédio Hegel-Kierkegaard continua sendo deci- de terceiros pensadores, tais como Mi- siva também em nossos dias e nos dias guel de Unamuno. Não obstante, e em que virão. É lógico, em uma época em pé de igualdade com o resto do mun- que o liberalismo tem triunfado em todas do, seus estudos começam atualmente suas formas, cada qual pode interpretar um caminho de crescimento e amadu- o que quiser e como quiser. E é possí- recimento também na América Latina, vel que isso mesmo contribua à tarefa cujo reflexo vemos nas instituições tais Espaço de Espiritualidade II: esclarecedora da qual falávamos no iní- como a Sociedade Iberoamericana de “Encontro com a Palavra”. cio. Porém, não estamos tão seguras. A Estudos Kierkegaardianos (México), a luta de Kierkegaard consistiu em querer Sobreski (Brasil) e a Biblioteca Kierke- tirar o engano, a confusão e a ilusão de gaard Argentina. qualquer paraíso imaginário, social, po- lítico, cultural ou individual. Parece-nos IHU On-Line - Qual é a atualidade de que à torrente de direitos de todo tipo Kierkegaard no contexto do pensa- e cor que desencadeou o modernismo, mento filosófico contemporâneo? ele opôs como único caminho, inclusive Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi- para alcançar esses mesmos direitos, o netti - A atualidade de Kierkegaard é “tu deves crer” e o “tu deves amar”. muito grande, ao ponto de animar-nos a dizer que a constituição da subjetivi- IHU On-Line – Por que Soren Kierke- dade contemporânea proposta - entre gaard não é um autor popular na outros - por J. Derrida, G. Deleuze, J.-L. América Latina? Nancy, J. Caputo o M. Taylor conserva as Ana María Fioravanti e Maria Jose Bi- determinações fundamentais da subje- netti - Em primeiro lugar, porque a fi- tividade kierkegaardiana. A pós-moder- losofia enquanto ciência não pode ser nidade hermenêutica e a desconstrução popular. Em segundo lugar, e vendo o assumem de Kierkegaard os conceitos de caso particular de Kierkegaard, por- diferença e repetição, paradoxo, possi- que ele não foi popular nem sequer bilidade, instante, inter-esse ou ser-no- em seu próprio país. Sabemos que sua meio-de, e inclusive sua consistência obra começou a ser conhecida na Eu- religiosa, fundada na decisão da fé e es- ropa apenas depois da Segunda Guerra tabelecida para além de toda igreja ins- Mundial, e recém hoje podemos dizer tituída. O sujeito contemporâneo possui que seus estudos gozam de um flores- a validade absoluta do singular kierkega- cimento internacional, sustentado em ardiano, e é precisamente sua elevação grande parte pelo apoio institucional a uma infinitude possível a que questio- do Centro de Estudos de Copenhague na e problematiza a finitude temporal e da Hong Kierkegaard Library, assim da existência, ao mesmo tempo em que como também pelas sociedades kierke- supera os limites fixos e abstratos do en- gaardianas espalhadas pelo mundo tendimento formal. No lugar da destitui- inteiro. No caso da América Latina, o ção e do ocaso do sujeito, o que parece que tem dificultado ainda mais a tarefa haver hoje em dia é uma convalidação de recepção e difusão de sua obra é, de sua força absoluta, a respeito da qual na minha opinião, e antes de tudo, a o pensamento de Kierkegaard se mostra barreira idiomática que nos separa do como a maior influência. Neste sentido, dinamarquês, muito menos acessível e entendemos que a filosofia pós-moderna motivador que, por exemplo, o idioma não tem a ver com um niilismo relati- alemão. Em consonância com esta eu vista, mas sim com a força infinita do considero que existe também uma es- espírito humano, tal como Kierkegaard pécie de barreira cultural. A Dinamarca o concebeu. é um país isolado, inclusive no que diz Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1936): es- respeito à própria Europa, e as diferen- critor, poeta e filósofo espanhol. (Nota da IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 29 flash.indd 29 9/11/2009 18:38:21
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    O texto comoarena Livro do pensador dinamarquês não pode ser classificado facilmente, e sinaliza ques- tões só discutidas na segunda metade do século XX. Além disso, menciona Jacqueline Ferreira, é palco de confronto entre ações e pontos de vista Por Márcia Junges e Jasson Martins U ma obra de difícil classificação. Seria um gênero ficcional? Filosófico? Literário? Romance? Tratado estético? Na opinião de Jacqueline Ferreira, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a leitura de Either/Or (A alternativa), obra de Kierkegaard de 1843, “aponta aporias que escapam a própria teoria da literatura, antecipando, no século XIX, questões abordadas pela crítica somente na segunda metade do século XX, tais como: au- toria, autobiografia, sujeito da escrita, pseudonímia, heteronímia”. Esse livro “joga com o movimen- to da própria escrita, joga com sua própria autorrepresentação, ou seja, joga com aquilo que o texto mostra no seu processo contínuo, ininterrupto de significações”. É um texto como arena, explica a pesquisadora, “lugar de confronto entre ações e pontos de vista”. Graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em Belo Horizonte (FAFI), Ja- cqueline possui mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, e doutorado em Literatura Comparada pela mesma Universidade. Sua dissertação focou os aspectos lite- rários da obra O diário do sedutor, e em sua tese fez uma análise literária do prefácio do livro Either/Or no que diz respeito à autoria, pseudonímia, memória, texto, escrita e leitor. Na Jornada Argentino-Bra- sileira de Estudos de Kierkegaard, apresenta a comunicação O prefácio ficcional de “Either/Or” - espaço de jogo, jogo constante de escrita, reescrita e leitura, em 13 de novembro. Confira a entrevista. IHU On-Line - Como você define o As concepções sobre estética, ética critor com sua própria escrita e coloca espaço de jogo na obra Either/Or de e religião são desenvolvidas de acor- em jogo não só o papel do autor como Kierkegaard? do com o perfil e ação representados leitor (e vice-versa), autor-leitor seres Jacqueline Ferreira - Primeiramen- pelo personagem específico, embora ficcionais, mas do próprio texto como te, como leitora de Either/Or, não nenhum posicionamento seja fechado arena, lugar de confronto entre ações me prendo à consciência estética ou ou concluído dentro de um único ponto e pontos de vista. Então, por essa à natureza do jogo em si, mas à ex- de vista para o leitor. O próprio título mesma ideia de perda da origem e de periência provocada pela leitura do – Either/Or –, comprova que a narrati- infinitude passa, metaforicamente, a texto, pela escrita de Kierkegaard, va reverbera no seu próprio interior, e questão autoral, vale lembrar que os por seu jogo pseudonímico. Então, se seu conteúdo filosófico adquire maior autores estão incrustados uns nos ou- o sentido do texto não se esgota na sentido quando a obra é lida no todo, tros como “caixinhas chinesas” – pro- subjetividade do autor e muito menos quando Kierkegaard traz à cena o seu cedimento escritural que invoca não só na objetividade do dado representa- “Either” ou “Or” da decisão. Além dis- a marca de ficção do texto, mas tam- do, Either/Or joga com o movimento so, a ficção ficcionaliza o real e o fic- bém que recorre ao modelo clássico de da própria escrita, joga com sua pró- cional através do jogo irônico em que ironia romântica. Se nos apropriarmos pria autorrepresentação, ou seja, joga o texto joga com sua própria ironia. da imagem de um dado, cujas seis fa- com aquilo que o texto mostra no seu Se Victor Eremita, então pseudônimo, ces sempre determinam, sem qualquer processo contínuo, ininterrupto de sig- carrega em si a função de autor de for- previsibilidade, o lance de movimento nificações. A ficção é, sem dúvida, o ma indireta e nega sua implicação au- do jogo para o jogador, observaremos lugar privilegiado do jogo, do jogo dis- toral, efetiva-se o movimento de jogo que, analogamente, Kierkegaard, em posto no campo da representação no que não se relaciona à ação negada, Either/Or, redimensiona o jogo entre qual se articulam as operações textu- mas à negação do próprio pseudôni- palavra e ideia, poética e ironia. Além ais, promovendo a inter-relação entre mo, que procura romper com a ideia do mais, não se limita a jogar com a autor-texto-leitor. Por outro lado, “Ei- de ilusão. Victor Eremita, pois, pseu- escritura e o leitor, mas transforma o ther/Or” é obra dialética, os escritos dônimo de Kierkegaard, dissolve-se no próprio jogo autoral em instrumento de A e B estão em constante diálogo. texto, resultando na distância do es- de rebeldia, processo de libertação, 30 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 30 9/11/2009 18:38:21
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    de afirmação peranteos seus questio- pensamento. Para muitos críticos, os IHU On-Line - A sua formação é na namentos de ser no mundo. pseudônimos constituem, sobretudo, a área de literatura comparada. Tendo expressão formal da estratégia adequa- isso em mente, poderia indicar al- IHU On-Line - Na sua percepção, exis- da à manifestação da subjetividade, da gumas “inovações” ou “tendências” te alguma relação de semelhança en- comunicação indireta, em oposição cla- de estilo ou forma na composição tre o estilo literário de Kierkegaard ra à linguagem disseminada pelo pensa- kierkegaardiana? e a pseudonímia por ele criada? Se mento filosófico da época. Kierkegaard Jacqueline Ferreira - As inquietações sim, qual é esta relação? jamais quis indicar caminhos certeiros filosóficas e, sobretudo, as provoca- Jacqueline Ferreira - Interessante, tal- ou estruturas sistemáticas definidas ções literárias advindas dos escritos vez, seja perceber que a concepção de ao seu leitor. Através da pseudonímia, de Kierkegaard demarcam meu olhar e ironia em Kierkegaard é a base para o procurou conduzi-lo ao movimento lugar de leitora, e também a tentativa estudo da dialética do jogo em Either/ articulado das relações entre o seu de interpretá-lo à luz das teorias em Or, obra que ecoa no jogo de reflexão e projeto de escritor existencialista e torno do autor, do leitor e do próprio de ironia do próprio autor. Além disso, a texto, com a ousadia de ir além de sim- ironia é que recorta a “comunicação in- ples revisão da fortuna crítica do au- direta”, ou seja, o jogo dos pseudônimos “As concepções sobre tor. Principalmente, através da leitura no domínio do texto, sendo, pois, o eixo de Either/Or, acredito ser possível re- que articula e orienta as discussões e estética, ética e religião colocar alguns conceitos inerentes ao pontos de vista da filosofia existencial de próprio discurso crítico para repesar- Kierkegaard, principalmente no tocante são desenvolvidas de mos os lugares da autoria e da recep- aos três estádios da existência que, na ção não como demarcações estanques verdade, são determinações subjetivas acordo com o perfil e ou fechadas em si mesmas, mas como do indivíduo em particular. A ironia para jogo dinâmico do revés de uma mesma Kierkegaard é o mal-entendido, a duali- ação representados pelo moeda. Contudo, perguntas aparente- dade entre o fenômeno e o conceito, o mente simples são difíceis de ser res- início da ironia manifesta-se em Sócra- personagem específico, pondidas, por exemplo: a que gênero tes, pelo silêncio da pergunta sem res- pertence a obra Either/Or? Kierkega- posta. Para Kierkegaard, a ironia consis- embora nenhum ard cria um texto filosófico? Ficcional? te em dizer, em tom sério, o que não é Literário? Um romance? Ou um tratado pensado seriamente, embora, de forma posicionamento seja estético? A leitura de Either/Or aponta mais rara, possamos lançar mão da retó- aporias que escapam a própria teoria rica irônica ao dizer algo sério em tom fechado ou concluído da literatura, antecipando, no século de brincadeira. De ambas as maneiras, a XIX, questões abordadas pela crítica ironia é arte sedutora, encerrando algo dentro de um único somente na segunda metade do século de enigmático, paradoxalmente, revela- XX, tais como: autoria, autobiografia, dor. Curioso é que Kierkegaard, ao lançar ponto de vista para sujeito da escrita, pseudonímia, hete- mão das estratégias da ironia romântica ronímia (esta última tratada por Fer- na escrita de Either/Or, contrapõe-na o leitor” nando Pessoa através dos seus textos fervorosamente à ironia socrática. Em máscaras). Borges é outro a ficciona- sua opinião, a ironia preconizada pelos lizar, ao extremo, o eu, se inventando românticos representava apenas a brin- o mundo representado pelos pseudô- como personae em seus textos. Ei- cadeira descomprometida com a realida- nimos, impulsionando-o a indagar sua ther/Or apresenta caráter ficiconal e de dada, a ilusão que, simultaneamente, própria existência. Nesse sentido, os Fernando Pessoa (1888-1935): escritor por- rompia com o espírito de seriedade das leitores e estudiosos desse autor não tuguês, considerado um dos maiores poetas de obras literárias e assegurava a manifes- devem investigar e descrever somente língua portuguesa. (Nota da IHU On-Line) Jorge Luiz Borges (1899-1986): escritor, tação do autor por trás dos personagens o que Kierkegaard disse, mas, sobretu- poeta e ensaísta argentino, mundialmente co- criados e da própria narrativa. do, considerar como ele disse. Assim nhecido por seus contos. Sua obra se destaca A ironia socrática, diferentemente, sendo, importa reconhecer os recursos por abordar temáticas como filosofia (e seus desdobramentos matemáticos), metafísica, preocupava-se em promover no indi- estéticos de sua escrita, assimilando os mitologia e teologia, em narrativas fantásticas víduo mudanças comportamentais em seus significados, mas tais significados onde figuram os “delírios do racional” (Bioy relação à existência, partindo de inte- não são facilmente recuperados pela Casares), expressos em labirintos lógicos e jogos de espelhos. Ao mesmo tempo, Borges riorização de reflexões filosóficas, em- leitura por não se apresentarem de for- também abordou a cultura dos Pampas argen- bora, se assim podemos dizer, fazendo ma simples. Na verdade, Kierkegaard, tinos, em contos como A morte, O homem da uso do adereço estético. Com efeito, o embora criticasse o romantismo, recor- esquina rosada e O sul. Sobre Borges, confira a edição 193 da IHU On-Line, de 28-08-2006, in- emprego sistemático da pseudonímia re aos artifícios da escola romântica, titulada Jorge Luiz Borges. A virtude da ironia é considerado na exegese da obra de deslocando e reinventando os sentidos na sala de espera do mistério, disponível para Kierkegaard, variável facilmente re- dos seus textos, invertendo a comuni- download em http://www.ihuonline.unisinos. br/uploads/edicoes/1158343116.57pdf.pdf. missível aos aspectos teóricos de seu cação com o leitor. 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    teórico ao mesmotempo, sendo, pois, e, por incrível que pareça, se aplica reveste sua arte de signos e rituais, gênero literário misto, deslizando nas muito bem à sua pergunta. Ouvi di- artifícios reconhecidos como truques, próprias armadilhas literárias. zer que escrever é um ato de liberta- como magia que tentam destruir, atra- ção, gesto que deve ser realizado sem vés do encantamento, a ordem de to- IHU On-Line - O espaço da ficção lite- medo, deixando-se, apenas, seduzir das as verdades. Ao filósofo Platão, rária é o espaço do imaginário subje- pelas palavras, pelo texto que se ins- associa-se a ideia de erotismo como tivo? Como você percebe isso? creve na folha em branco, enfim, pelo impulso vital que ascende ao bem su- Jacqueline Ferreira - Primeiramente, eu da escrita, pelo outro eu dentro do premo, purificando a alma à medida gostaria de lembrar que essa questão texto. Nesse sentido, vejo que, assim, que esta se distancia da sexualidade, entre o fictício e o imaginário foi mui- são os textos de Kierkegaard. Eles nos simplesmente, animal. Contudo, na to bem analisada por Wolfgang Iser. A seduzem, nos enlaçam, nos fisgam com própria história primitiva da sexuali- literatura faz com que o texto ficcio- os seus jogos de leitura e escrita: com dade humana, algumas posturas mora- nal se desagregue de todas as moldu- suas chaves de leitura complexas que listas e “antieróticas” foram descarac- ras da realidade, pois a ficção não se pluralizam a enunciação e os horizon- terizando o lado sagrado do erotismo, compromete com o real, apenas abre- tes de expectativa da recepção. Con- acentuando pontos que o colocaram se em lacunas, em fendas, em brechas tudo, se posso reportar-me a uma ima- em oposição radical à religião, tornan- para poder representá-lo através da gem, vem à tona o Pequeno Príncipe, do-o algo imundo, sujo, repulsivo. Por presença do imaginário em seu fazer de Saint-Exupéry. Lembro-me muito outro lado, obsceno, profano ou não, ficcional de comunicação com o leitor da tradução da principal frase do livro a questão do amor, juntamente com os e o próprio texto. Por outro lado, em “apprivoise-moi” que o tradutor ver- seus enigmas – a sedução, o erotismo, “Either/Or”, por exemplo, Kierkega- teu por “cativa-me”, e que, igualmen- o desejo e o sexo –, tornou-se lugar co- ard apresenta várias narrativas em te, poderia ser traduzido por “prenda- mum na literatura, levando muitos po- constantes confrontos e vazios, cuja me”, “domestica-me”, “amansa-me”, etas a uma reflexão sobre o tema. Se, importância reside justamente no es- acredito que os textos de Kierkegaard para Paz, o poema não aspira a dizer, tado suspensivo do mundo aberto à e, aqui, muito particularmente, re- e sim a ser, a literatura, a poesia, não decifração do leitor. O que não foi, corro ao Diário de um Sedutor, é uma vislumbra somente a comunicação, explicitamente, escrito por Kierkega- obra que nos prende em suas amarras como o erotismo nunca vislumbraria ard, no texto, é justamente o eixo que literárias, discursivas através da histó- a reprodução, ou seja, podemos en- estimula a ação criativa e imaginativa ria erótica entre o esteta sedutor Jo- tender que a relação entre erotismo do leitor, ou seja, o oculto atua como hannes e a jovem Cordélia. e literatura (e poesia) é que a primei- projeção do não-dito na própria cons- ra configura como poética corporal e trução textual. A ficção que se cons- IHU On-Line - É fato que alguns pseu- a segunda como poética verbal. Nessa trói desse modo, instaura condições dônimos de Kierkegaard personifi- rede metafórica de significados, tanto de comunicação e suscita o jogo de cam o “momento estético” da sua o fazer erótico quanto o fazer poético, respostas decorrentes dos efeitos es- obra. Para você, literariamente fa- estético, atos que reinventam o cor- téticos produzidos na mente do leitor. lando, qual a relação entre sedução po e a palavra, encontram-se, para- Se isso pode ser dito, lato sensu, sobre e literatura? doxalmente, numa mesma “oposição qualquer obra ficcional, no caso da es- Jacqueline Ferreira - Para responder complementar”: a literatura, a poe- crita de Kierkegaard, essa suspensão essa pergunta, trarei à cena algumas sia, desvia a linguagem de sua função se dá como projeto escritural que vai palavras do escritor Octavio Paz, em primeira e imediata, a comunicação; sendo explicitado simultaneamente ao seu livro A dupla chama – amor e ero- o erotismo, através do jogo de repre- seu processo de construção, de jogo tismo. Como sabemos, a sedução é um sentações, desvia o corpo de sua fina- levado a extremos labirínticos através vocábulo de origem latina que signifi- lidade essencial, a reprodução. Daí ser das sobreposições de eus escriturais. ca atração, encantamento e fascínio, a literatura, a poesia, uma erotização além de ser o artifício impulsionador da linguagem, e o erotismo, sexualida- IHU On-Line - É sabido que o estilo do fenômeno erótico através da re- de transfigurada em metáfora. Junta- dos escritos kierkegaardinos é apai- criação e reinvenção do próprio corpo. mente, com a imaginação, literatura, xonante e, por isso mesmo, exercem No momento de sedução, os sentidos poesia e erotismo são elementos que um fascínio nas pessoas que o leem. não mais demarcam os limites e as potencializam o desejo da constante A que se deve esse fenômeno? confluências do certo, errado ou proi- “sede de outridade”. Jacqueline Ferreira - Como foi dito, bido; ao contrário, sem perder seus a minha formação é na área de Lite- poderes, convertem-se em servidores IHU On-Line - Para você, qual é a atu- ratura Comparada, e minha paixão por da imaginação, libertando os fantas- alidade do pensamento de Kierkega- Kierkegaard perpassa (e muito) por mas mais secretos do desejo, a fim de ard no contexto atual? seus escritos estéticos, por sua esté- proporcionarem maior intensidade à Jacqueline Ferreira - Após mais de um tica do artifício, os seus personagens- pouca duração do gozo. Ao entrelaçar século e meio de certa incompreensão pseudônimos tão sedutores. Certa vez, no exercício poético da imaginação e desapreço, os textos do pensador ouvi algo apaixonante sobre a escrita erotismo e sensualidade, o sedutor dinamarquês parecem ganhar lugar 32 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 32 9/11/2009 18:38:22
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    de destaque nãosó nas bibliotecas e livrarias da Dinamarca, mas no mundo inteiro. O interesse pelas obras desse polêmico autor não se circunscreve apenas à área dos pesquisadores ou críticos escandinavos, embora o alcan- ce e a diversidade de seu pensamento também não facilitem a tarefa de ana- lisar os múltiplos aspectos de sua escri- ta filosófica e literária. Aliás, muito do que já se escreveu sobre Kierkegaard é considerado, quase sempre, estudo Peça para Lula apenas introdutório, mas que se impõe sempre a investigações amplas tanto para o pesquisador da filosofia, da li- teratura e das mais variadas áreas do defender o clima conhecimento. Mais especificamente, na literatura, a pseudonímia de Kierkegaard traz à cena personae contrastantes que per- turbam a possibilidade de unificação em torno de um nome, obrigando-nos a refletir sobre os diversos eus kierkega- ardianos. Jogo constante não somente do autor consigo mesmo, mas, sobretu- Campanha tic tac do, ludicamente, com o leitor. Kierke- gaard suscita questões teóricas atuais em torno do fenômeno estético e dos indícios de sua recepção, ou seja, a tic tac. apreensão das relações de leitura en- cenadas por seus textos. A Literatura Comparada é atividade crítica que não exclui o fator histórico, e sim lida amplamente com os dados li- terários e os extraliterários, fornecendo à historiografia e teorias literárias base fundamental de pesquisa. Nesse sen- tido, muito embora não seja nenhuma novidade, é importante dizer que estu- dar Kierkegaard na contemporaneidade demanda uma discussão crítica capaz de rastrear o autor no propósito de re-sig- nificar respostas e reformular questões, propiciar e ampliar o universo de expec- Contribua com o futuro do tativas do leitor contemporâneo. Além disso, também na perspectiva da Literatura Comparada, o processo de planeta e registre seu nome escritura de Kierkegaard deixa lacunas em sua interpretação, abrindo possibi- lidades para estudos atuais. Nessa dire- no link http://www.avaaz. ção, poderíamos analisar como oscila- ção – e até mesmo como reverberações complexas – a coletividade, a autono- mia e disseminação da voz dos pseudô- org/po/peticao_tictac_lula/ nimos, principalmente no estádio esté- tico; a singularidade, reafirmação do eu autor em Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 33 flash.indd 33 9/11/2009 18:38:22
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    Siga o do IHU http://twitter.com/_ihu SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 35 flash.indd 35 9/11/2009 18:38:25
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    Teologia Pública Um Deus para cada contexto Na opinião de Julius Lipner, todos os sistemas religiosos vitais precisam adaptar-se para sobreviver Por Patricia Fachin | Tradução Lucas Schlupp C ontinuando o debate sobre as religiões chinesas, indianas e africanas, tema de capa da edição número 309, de 28-09-2009, recebemos a contribuição de Julius Lipner, professor de Hinduísmo da University of Cambridge. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele explica as manifestações de Deus na cultura hinduísta e diz que, diferente das tradições monoteístas, o divino se apresenta de diversas maneiras e possui formas e nomes distintos para que possa relacionar-se com diferentes seres humanos. “Cada um de nós é diferente e achará mais fácil se relacionar com Deus de acordo com nossos contextos e circunstâncias”. Segundo ele, deuses e deusas hindus não são competitivos e dispõem igualmente de poder e misericórdia, além de estarem interessados no bem-estar da humanidade. O pesquisador também falou à IHU On-Line sobre o projeto de ética mundial proposto pelo teólo- go alemão Hans Küng. Embora concorde com as ideias expostas, ele enfatiza que é preciso “analisar cuidadosamente circunstâncias individuais para implementar estes princípios corretamente. Cada tradição do mundo poderia muito bem dar diferentes ênfases ao aplicar estes princípios”. Lipner também é professor em Oxford, onde ministra aulas sobre Hinduísmo e pensamento india- no. É membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Hindus da mesma universidade. Confira a entrevista. IHU On-Line - Qual é a origem da com algumas crenças e práticas que Então, o hinduísmo não possui um só religião hindu? Em que sentido ela encontraram entre os nativos, forma- credo como, por exemplo, cristianis- molda os costumes e define o pensa- ram uma visão de mundo “policêntri- mo e islamismo procuram ter. Assim, mento indiano? ca”. Isto significa que certas crenças e você pode ser um hindu religioso e Julius Lipner - A religião hindu é única práticas, como, por exemplo, a crença crer em um só Deus pessoal (a maio- porque, diferentemente do budismo, em um ser transcendente, ganharam ria dos hindus tem essa crença), ou islamismo ou cristianismo, por exem- diferentes formas e expressões “cen- em um impessoal, ou simplesmente plo, não tem fundador. Isto porque o trais”. Assim, acreditavam em uma re- em um universo determinado moral- que chamamos de “hinduísmo” é um alidade suprema, mas também acredi- mente. Como a maioria dos hindus conjunto de muitas crenças similares tavam que essa realidade suprema se acredita haver apenas um Deus, dei- que carregam uma semelhança fa- expressava de formas diferentes, não xe-me explicar o que distingue essa miliar entre si, no que diz respeito à apenas de uma forma, como é o caso crença. Um cristão, por exemplo, crença, à prática, porém, mais impor- das crenças abraâmicas. tende a crer que há apenas um Deus, tante, no que tange à atitude para com que se revelou claramente com um a humanidade. Entretanto, as raízes IHU On-Line - Eles acreditam em um Nome na Bíblia, e que desceu à Terra do hinduísmo são de aproximadamen- Ser superior e ao mesmo tempo ve- apenas uma vez, na forma de Jesus te 2000 a.C. na Índia. A partir daque- neram vários deuses? Qual é o senti- Cristo. Mas a crença hindu em ape- le período, começou a desenvolver-se do desta prática? nas um Deus não é assim – é poli- uma postura diferente diante da rea- Julius Lipner - Não há um único sis- cêntrica. Então, o hindu poderia lidade, num grupo de imigrantes que tema de crenças no hinduísmo, pois crer que a essência do ser supremo foram para o subcontinente indiano o hinduísmo não é uma religião, mas é pessoal e sem forma, e que este chamado “indo-arianos”. Combinando uma família de diferentes religiões. ser possui um nome preferido, por 36 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 36 9/11/2009 18:38:26
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    exemplo, Shiva, ouVishnu, ou Devi a derna? acreditava que havia apenas um ser Deusa, mas que este Deus mostra-se Julius Lipner – Entre os hindus, há supremo (“Deus”) que era de nature- para os humanos em muitas formas crenças diferentes na família de cren- za espiritual, pessoal, misericordioso, diferentes, tanto em forma mascu- ças hindus, e muitas destas possuem todo-poderoso e onisciente que, com lina quanto feminina, até mesmo diferentes textos como escrituras. frequência, descia à Terra em diferen- como Cristo. Para o hindu, as mani- Este é outro exemplo de “policentris- tes formas para o bem-estar e salva- festações de Deus não são limitadas mo” – a multiplicidade de escrituras ção da humanidade. O preferido – mas a uma forma e um nome, mas são dentre as diferentes tradições hindus, não o único – nome deste Deus é Vish- muitas, para que possam relacionar- as quais compartilham determinadas nu-Narayana. Ramanuja pensava que o se com diferentes circunstâncias cul- semelhanças entre si. Entretanto, há mundo era o corpo de Deus, não exa- turais etc. dos seres humanos. Cada uma escritura – o Veda – a qual muitas tamente no mesmo sentido que nós um de nós é diferente e achará mais tradições hindus aceitam ou utilizam termos corpos, mas no sentido espe- fácil se relacionar com Deus de acor- como um ponto de referência para cial de que Deus mantém a existência do com nossos diferentes contextos articular seus sistemas de crenças. O do mundo, controla-o com moral e leis e circunstâncias. Esta é a explicação Veda é uma escritura muito extensa e físicas e existe de modo que possamos para os assim chamados muitos deu- complexa, que muitas tradições acre- glorificá-lo (isto, para Ramanuja, é o ses e deusas dos hindus. sentido real de “corpo”). Estes “deuses” e “deusas” não são competitivos; mais exatamente, são “Um dos princípios IHU On-Line - Quais são as diferenças diferentes centros da crença e prática entre Vedanta tradicional e moderno? para conciliar uma grande variedade éticos mais importantes Julius Lipner - Todos os sistemas reli- de circunstâncias humanas. Este é um giosos vitais precisam adaptar-se para exemplo do “policentrismo” em con- das tradições hindus sobreviver. O Vedanta continua sendo traste com o monocentrismo do juda- um sistema religioso relevante e con- ísmo, islamismo e cristianismo. Pois a – que é ensinado numa temporâneo para os hindus, e adap- grande maioria dos deuses e deusas tou-se para isso. Tradicionalmente, hindus é todo-poderosa, misericordio- escritura hindu muito uma característica importante para sa, e interessada no bem-estar da hu- o Vedanta foi de considerar o renun- manidade. A manifestação em diferen- popular, o Bhagavad ciante – a pessoa (do gênero mascu- tes formas ajuda a alcançar isso. lino) que abandona o mundo e as re- Gita (por volta dos lações humanas terrenas pela prática IHU On-Line - Na Índia, muitos mor- do celibato e penitência – como ideal tos são cremados. Sob o aspecto re- século I e II d.C.) – espiritual. Mas desde o início do sécu- ligioso, qual o sentido da cremação lo XIX, ocorreu uma mudança de para- para os seguidores do hinduísmo? é a prática altruísta, digma numa parte significativa desta Julius Lipner - Na Índia, o corpo da tradição. O chefe de família casado, maioria dos mortos é cremado, não to- ou seja, de não ser que colocasse sua fé em Deus, e ten- dos. Isto se dá porque, desde os tem- tasse fazer Sua vontade na e através pos antigos, o fogo era considerado um egoísta, ação por amor da família e local de trabalho, tornou- agente purificador; então, na morte, a se outro ideal. Isso possibilitou estar cremação purificava tanto fisicamente a Deus e toda a no mundo e viver uma vida espiritual (para que não houvesse transmissão que trouxesse salvação, sem neces- dos germes do corpo em decomposi- humanidade” sariamente ser carnal e materialis- ção) quanto espiritualmente, na pre- ta. Desta forma, a vida de casado e paração para o mundo vindouro. Os ditam ter sido simplificada para pesso- trabalhar, como qualquer pessoa no corpos de crianças muito jovens (que as comuns nas e através das suas pró- mundo, vieram a ser um caminho para não têm pecados, portanto não neces- prias escrituras, que eles chamam de redenção espiritual. Esta foi uma das sitam purificação ritual ou espiritual) um Veda alternativo ou tratam como mudanças mais importantes no Vedan- e de homens e mulheres santos (que um Veda substituto. Aqui há um exem- ta moderno. supostamente também não necessi- plo de policentrismo novamente. tam purificação ritual ou espiritual) IHU On-Line - Quais os princípios éti- não são cremados. São enterrados ou IHU On-Line – O senhor poderia nos cos que regem o hinduísmo? Destes, postos em água corrente. dizer algo sobre o sentido e a meta- qual pode contribuir para a constru- física da teologia Vedanta de Rama- ção da paz mundial? Por quê? IHU On-Line - O que as Escrituras nuja? Julius Lipner - Um dos princípios éti- revelam sobre a teologia, filosofia e Julius Lipner - Ramanuja (séc. XI) foi cos mais importantes das tradições mitologia hindu? Que autoridade es- um teólogo indiano que era o líder hindus – que é ensinado numa escri- tes textos representam na Índia mo- da tradição hindu Sri Vaishnava. Ele tura hindu muito popular, o Bhagavad SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 37 flash.indd 37 9/11/2009 18:38:27
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    Gita (por voltados séc. I e II d.C.) – é ética global com princípios básicos. a prática altruísta, ou seja, de não ser Podem as religiões contribuir para a egoísta, ação por amor a Deus e toda proposta de uma ética global? Que a humanidade. O Gita ensina que se tipo de ética é possível e desejável? deve cumprir com os deveres não bus- Julius Lipner - Em princípio, eu con- cando o fruto de suas ações, mas pelo cordo com Küng. A maioria das re- amor a Deus e ao próximo. Mesmo que ligiões no mundo prega o amor ao este dever seja doloroso em grande próximo e compaixão pelos outros. ou pequena medida, deve ser reali- Entretanto, precisamos analisar cui- As redes e a construção de espaços sociais na digitalização zado sem medo ou favor a ninguém. dadosamente circunstâncias individu- É bom enquanto for o dharma (dever) ais para implementar estes princípios de alguém e enquanto for a vontade corretamente. Cada tradição do mun- Informações no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br) de Deus, independente das consequ- do poderia muito bem dar diferentes ências. Este princípio ético influen- ênfases ao aplicar estes princípios: ciou profundamente as ações pessoais assim, os hindus talvez enfatizem a e políticas de Mahatma Gandhi. não-violência e pureza de intenção ao aplicar estas regras, os budistas, IHU On-Line - O teólogo alemão Hans a compaixão por toda criatura cons- Küng diz que é possível criar uma ciente, os cristãos talvez enfatizem o Bagavadguitá, também conhecido pela grafia amor ao próximo e a Deus, muçulma- Bhagavad-Gita (“Canção de Deus”) é um texto religioso hindu. Faz parte do épico Maabárata, nos talvez enfatizem a obediência e a IHU Ideias de 12-11-2009 embora seja de composição mais recente que submissão à vontade de Deus, e assim o todo deste livro. Na versão que o inclui, o por diante. Cada uma destas ênfases Maabárata é datado no século IV a.C.. O texto, escrito em sânscrito, relata o diálogo de Críxe- dará um caráter diferente à prática na (uma das encarnações de Vixnu) com Arjuna da crença, uma sensação e um resul- (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de tado diferente, mas se estas práticas batalha. (Nota da IHU On-Line) Mohandas Karamchand Gandhi, mais co- forem realizadas pela boa vontade, nhecido popularmente por Mahatma Gandhi funcionarão com diferentes pessoas e (“Mahatma”, do sânscrito “A Grande Alma”) culturas em prol da harmonização da (1869-1948) foi um dos idealizadores e fun- dadores do moderno estado indiano e um in- paz no mundo. fluente defensor do Satyagraha (princípio da não-agressão, forma não-violenta de protesto) como um meio de revolução. O princípio do satyagraha, frequentemente traduzido como “o caminho da verdade” ou “a busca da ver- dade”, também inspirou gerações de ativistas democráticos e anti-racismo, incluindo Martin Luther King e Nelson Mandela. Frequentemen- Leia mais... te Gandhi afirmava a simplicidade de seus valores, derivados da crença tradicional hin- Sobre hinduísmo leia também: du: verdade (satya) e não-violência (ahimsa). (Nota da IHU On-Line) * Revista IHU On-Line número 309, de 28-09- Hans Küng (1928): teólogo suíço, padre ca- 2009, intitulada Sabedoria, mística e tradição: tólico desde 1954. Foi professor na Univer- religiões chinesas, indianas e africanas e disponí- sidade de Tübingen, onde também dirigiu o vel no link http://www.ihuonline.unisinos.br/in- Instituto de Pesquisa Ecumênica. Foi consultor dex.php?option=com_tema_capaItemid=23; teológico do Concílio Vaticano II. Destacou-se por ter questionado as doutrinas tradicionais * Hinduísmo. A relação entre o indivíduo e a e a infabilidade do Papa. O Vaticano proibiu-o Verdade fundamental do cosmos. Entrevista de atuar como teólogo em 1979. Nessa época, com Cybelle Shattuck, publicada na IHU On- foi nomeado para a cadeira de Teologia Ecu- Line número 312, de 26-10-2009, disponível no mênica. Atualmente, mantém boas relações link http://www.ihuonline.unisinos.br/index. com a Igreja e é presidente da Fundação de php?option=com_tema_capaItemid=23task=d Ética Mundial, em Tübingen. Um escritório da etalheid=1871id_edicao=340. Fundação de Ética Mundial funciona dentro do Instituto Humanitas Unisinos desde o segun- do semestre do ano passado. Küng dedica-se, atualmente, ao estudo das grandes ‘religiões, sidade Católica de Brasília, na Universidade sendo autor de obras, como A Igreja Católi- Cândido Mendes do Rio de Janeiro e na Uni- ca, publicada pela editora Objetiva e Religi- versidade Federal de Juiz de Fora – UFMG. Um ões do Mundo: em Busca dos Pontos Comuns, dos objetivos do evento foi difundir no Brasil pela editora Verus. De 21 a 26 de outubro de a proposta e atuais resultados do “Projeto de 2007 aconteceu o Ciclo de Conferências com ética mundial”. Confira no site do IHU, www. Hans Küng - Ciência e fé – por uma ética mun- unisinos.br/ihu, a edição 240 da revista IHU dial, com a presença de Hans Küng, realizado On-Line, de 22-10-2007, intitulada “Projeto no campus da Unisinos e da UFPR, bem como de Ética Mundial. Um debate”. (Nota da IHU no Goethe-Institut Porto Alegre, na Univer- On-Line) 38 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 38 9/11/2009 18:38:28
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    Entrevista da Semana Gestão e saúde coletiva Para Maria Teresa Bustamante Teixeira, a união entre saúde coletiva e gestão de serviços pode melhorar a saúde pública Por Patricia Fachin A lém de formar profissionais atentos à integralidade do ser humano, uma das premissas da saúde coletiva, é fundamental formar gestores para os serviços de saúde, alerta a profes- sora Maria Teresa Bustamante Teixeira, na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line. “Precisamos aprimorar a questão da gestão e nisso também dar atenção à formação para a gestão do serviço, porque muitas vezes os profissionais não se pensam como gestores. Mas, em algum momento eles vão atuar nesta área”. Continuando o raciocínio, ela diz que a saúde coletiva também precisa desenvolver pesquisas que possam auxiliar a tomada de decisões e melhorar os serviços de saúde. Ela destacou ainda a importância da humanização na formação de novos profis- sionais. “Trabalhar na área da saúde é trabalhar com todos os elementos da vida das pessoas, por isso é fundamental uma base humanista”, assegura. A professora visitou a Unisinos por ocasião do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa so- ciedade pós-metafísica. Possibilidade e impossibilidades, após retornar de um congresso sobre saúde, em Luxemburgo. Com mais de 30 anos de experiência em saúde pública, Maria Teresa diz que percebe uma busca de soluções imediatistas em relação à saúde. “Essa questão de causa e efeito revela que as pessoas querem encontrar alternativas imediatas para resolver o sofrimento”, constata. Segundo ela, as pessoas estão investindo em exames complexos “e deixando de conhecer seu próprio corpo, de interagir e criar uma vida com hábitos saudáveis do ponto de vista mais integral, tanto da saúde física quanto mental”. Maria Teresa Bustamante Teixeira possui graduação em Medicina, pela Escola de Ciências Médicas de Volta Redonda, mestrado e doutorado em Saúde Coletiva, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Atualmente, é professora da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e coordena- dora do Núcleo de Assessoria, Treinamento e Estudos em Saúde – NATES (www.nates.ufjf.br), núcleo acadêmico da UFJF, que visa institucionalizar um espaço integrando as unidades acadêmicas da UFJF e as instituições prestadoras de serviço na área de abrangência da UFJF. Também coordena o Progra- ma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Confira a entrevista. IHU On-Line – Como iniciou sua tra- Illich, Carlos Gentile de Mello, entre no curso, também percebi que a clínica jetória na área de saúde coletiva? De outros. À medida em que fui avançando feita de uma forma mais individual não onde surgiu esse interesse de traba- Ivan ILLICH. A expropriação da saúde. Nême- daria as respostas que eu buscava. Por lhar com alternativas à saúde? sis da medicina (Rio de Janeiro: Nova Frontei- isso, fiz minha residência em saúde pú- Maria Teresa Bustamante Teixeira - Es- ra, 1975). (Nota da entrevistada) blica, na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio Sobre Ivan Illich, leia a revista IHU On-Line tudei medicina motivada pela questão número 46, de 09-12-2002, intitulada “Ivan de Janeiro. Desde então, venho traba- do cuidado; isso sempre me mobilizou Illich, pensador radical e inovador”, disponível lhando nessa área. Atuei inicialmente na muito. Conclui a faculdade em 1978, e para download no link http://www.unisinos.br/ área do planejamento, mas frequente- ihuonline/uploads/edicoes/1161290142.3pdf. vivi justo a época em que se denunciava pdf (Nota da IHU On-Line) mente me decepcionava porque as pro- muito a medicalização. Na ocasião ha- Carlos Gentile de MELLO. Saúde e Assis- postas desenvolvidas dificilmente eram via muitos debates em torno dessa te- tência Médica no Brasil (São Paulo: Cebes incorporadas pelos gestores. Depois, tive - Hucitec; 1977); O Sistema de Saúde em mática, discutida em autores como Ivan Crise (São Paulo: Cebes - Hucitec; 1981). a oportunidade de conhecer um grupo (Nota da entrevistada) que trabalhava com uma epidemiologia SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 39 flash.indd 39 9/11/2009 18:38:28
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    voltada para aaplicação. Fiz meu mes- ços de discussão, troca de experiên- pesquisas e discuti-las a fim de propor- trado e doutorado nesta área com a pre- cias, de construção e sistematização cionar melhorias e fundamentar o de- ocupação de entender os determinantes de conhecimentos. senvolvimento do SUS no Brasil. do processo de saúde e doença para, de Apresentamos três trabalhos nes- alguma forma, gerar intervenções mais IHU On-Line – Recentemente a se- se evento, todos ligados à questão da efetivas. Trabalhei no Instituto Nacio- nhora participou do XII Congres- avaliação em saúde utilizando o siste- nal de Câncer, onde tive a possibilidade so da Associação Latino Americana ma de informação de saúde brasileiro, de conviver em um ambiente bastante para análises de sistemas de saúde do qual podemos nos orgulhar porque, diversificado que envolvia desde a uti- (ALASS), em Luxemburgo. Quais fo- de alguma forma, um dos princípios do lização de tecnologias voltadas para o ram as novidades desse encontro no SUS é o controle social e para que isso tratamento dos pacientes, como do es- que se refere ao campo da saúde? ocorra é importante ter informações tudo da ocorrência dos tumores, seus Maria Teresa Bustamante Teixeira - que possam estar disponíveis a todos. determinantes e sua evolução. Aprendi Esse foi um congresso da ALASS, uma O nosso DATASUS é um exemplo disso. ali o valor da informação de qualidade associação que propõe reunir os países Essa base de dados mostra quantas para a gestão, tanto do cuidado individu- de língua latina, que tem como inte- pessoas morreram, quantas se inter- al, quanto para o serviço e a importân- resse comum contribuir para a solução naram e até os recursos que chegaram cia dos processos avaliativos. Hoje, atuo dos numerosos problemas dos siste- aos municípios. Isso promove a trans- como professora do Departamento de parência. Como esses são sistemas nos Saúde Coletiva e no Núcleo de Assesso- quais se investiu muito, é importante ria, Treinamento em Estudos e em Saúde “Apresentamos em integrá-los. Hoje, eles recebem críti- – NATES, da Universidade Federal de Juiz cas justamente porque não “falam en- de Fora, o qual tem uma preocupação Luxemburgo um tre si”, ou seja, não estão conectados, muito grande em apoiar e resgatar o mo- pois foram construídos em épocas dis- delo da atenção primaria à saúde como trabalho que se propõe tintas. Nesse sentido, nossa proposta um eixo que pode reorganizar o sistema é justamente fazer esse uso integra- de saúde. O NATES é parceiro do Minis- a analisar a mortalidade do dessas bases de dados. Apresenta- tério da Saúde e da Secretaria Estadual mos em Luxemburgo um trabalho que e Municipal de Saúde no desenvolvimen- e a morbidade materna se propõe a analisar a mortalidade e to de programas de capacitação para os a morbidade materna através da in- profissionais de saúde inseridos na rede através da integração tegração dos sistemas de internação de serviço. hospitalares (SIH-SUS), mortalidade Coordeno também o programa de dos sistemas de (SIM) e do sistema de nascidos vivos pós-graduação em saúde coletiva na (SINASC). Pretendemos com isso, mais Universidade Federal de Juiz de Fora, internação hospitalares do que analisar o banco de dados do com um curso de mestrado acadêmico município de Juiz de Fora, MG, cons- iniciado em 2007, fruto de um traba- (SIH-SUS), truir um algoritmo que permita que lho coletivo que mobilizou vários de- esse programa seja utilizado para ana- partamentos e unidades acadêmicas mortalidade (SIM) e lisar a morbidade materna em outras da UFJF. Percebo que nossa universi- localidades e circunstâncias. A morta- dade, tem como uma de suas marcas do sistema de nascidos lidade materna vem decrescendo, mas sua inserção regional, o que nos de- a morbidade é grave e difícil de ser safia a uma atuação comprometida vivos (SINASC)” estudada. com o sistema de saúde, atuando na O outro trabalho, na área de ava- formação, fomentando a discussão e mas de saúde dos países de língua la- liação da atenção básica, utilizou um a construção de conhecimentos que tina. Participam profissionais da Fran- indicador de internação por condições permitam o aprimoramento deste se- ça, Canadá, Romênia, Itália, Espanha, sensíveis à atenção ambulatorial. Ou tor. Algumas vezes, obviamente, nos México, Portugal, Brasil – atualmente seja, se propôs a averiguar as interna- sentimos frustrados porque nem tudo a presidente é uma brasileira: Ana ções pagas pelo SUS e ver aquelas que se modifica com a mesma rapidez que Maria Malik, da Fundação Getúlio Var- poderiam ter sido evitadas caso tives- gostaríamos. De qualquer modo, con- gas. Esse é um encontro interessante se uma atenção básica que funcionasse tinuamos atuando na formação conti- porque não envolve apenas acadêmi- bem. Por exemplo: uma criança com nuada e permanente de profissionais cos, mas também pessoas que atuam pneumonia que poderia ter sido trata- de saúde, apoiando a estratégia de diretamente na prestação e gestão de da ambulatorialmente e não precisaria saúde da família (desenvolvemos, por serviços de saúde. Encontramos nesse ter evoluído para uma internação hos- exemplo, a Residência em Saúde da nicho um lugar de discussão bastante pitalar. Trabalhamos com esse indica- Família em parceira com o município), rico porque a nossa proposta enquanto dor visando avaliar o sistema. Também formando pessoas, promovendo espa- universidade pública é contribuir com utilizamos para o estudo, os dados 40 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 40 9/11/2009 18:38:28
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    do município deJuiz de Fora, com a sária a internação para que as crianças IHU On-Line – Em Luxemburgo, vo- perspectiva de avaliar localmente e não corressem o risco de morrer. cês também avaliaram o sistema de também de construir uma metodolo- A saúde coletiva também precisa saúde de outros países? Comparado gia que permita essa avaliação para desenvolver pesquisas avaliativas que com eles, qual é a sua avaliação em outros municípios brasileiros. forneçam conhecimento para que os relação ao SUS? O terceiro estudo focou na área da gestores possam melhorar os serviços. Maria Teresa Bustamante Teixeira - mortalidade. Temos no programa de Então, a proposta do nosso núcleo é Esse congresso foi interessante porque pós-graduação em Saúde Coletiva da desenvolver pesquisa de modo que ela ele abriu com essa perspectiva de dis- UFJF, uma linha de pesquisa em epi- possa auxiliar na tomada de decisões cutir os diferentes modelos de atenção demiologia do câncer, e apresentamos que resultem em melhorias no servi- à saúde, confrontando experiências e um estudo sobre a tendência da mor- ços de saúde. Isso às vezes não é fácil, refletindo sobre elas. O tema central talidade por câncer no Brasil, no perí- especialmente porque as gestões não “O futuro dos sistemas sanitários: o odo de 1980 a 2006. têm continuidade. Então, por mais impacto das pesquisas e das inovações sobre a saúde” possibilitou essa discus- IHU On-Line – Como a saúde coletiva “A saúde coletiva são. Um dos palestrantes desse even- se insere nesses projetos? to foi o professor da Universidade de Maria Teresa Bustamante Teixeira - também precisa Montreal, Canadá, André-Pierre Con- Essas são linhas mais ligadas à avalia- tandriopoulos, um grande estudioso ção de serviços e a uma das áreas da desenvolver pesquisas dos sistemas de saúde e que se desta- saúde coletiva que é a epidemiologia. ca na área da avaliação em saúde. Ele Tais estudos geraram questões que avaliativas que apresentou uma visão mais pessimista motivaram o desenvolvimento de pes- por conta da discussão do público e do quisa qualitativa. Um exemplo: nessa forneçam privado, pois diz que estamos viven- questão das internações hospitalares do uma inflexão e apostando mais nas por condições sensíveis à atenção am- conhecimento para iniciativas privadas do que na busca bulatorial, nós avaliamos áreas que dos sistemas universais. Outros con- tinham programa de saúde da família que os gestores possam ferencistas, como o suíço Gianfranco comparando com áreas de Juiz de Fora Domenighetti, abordou o tema des- que não adotavam essa estratégia. melhorar os serviços. tacando a questão da medicalização. Percebemos que os adultos atendidos Segundo ele, não há sistema de saúde pela estratégia da saúde da família se Então, a proposta do que suporte que se medicalize tudo e internavam menos do que os pacientes analisou o impacto de tal fenômeno que não dispunham deste atendimen- nosso núcleo é sobre a saúde individual e coletiva. Ti- to, mas no caso das crianças isso não vemos a oportunidade de ouvir muitas acontecia. Esse foi um caso inusitado desenvolver a pesquisa experiências de pessoas de outros pa- porque esperávamos que também as íses e de divulgar o sistema de saúde crianças internassem menos, porque de modo que ela possa brasileiro. Claro que nosso sistema de teriam acompanhamento melhor. Tal saúde precisa ser aprimorado, recebe constatação motivou uma pesquisa de auxiliar na tomada de muitas críticas, mas quando compa- caráter qualitativo visando identificar rado a outros países, especialmente essas crianças e entender porque elas decisões que resultem da América Latina, percebemos que foram internadas. Verificamos duas estamos na direção certa, embora ne- hipóteses: muitas vezes o horário do em melhorias nos cessitemos agir com mais afinco para a atendimento não era adequado para reorientação do modelo e a implemen- as mães que chegavam em casa do serviços de saúde” tação dos princípios do SUS. Focando trabalho, encontravam o filho com fe- especialmente na questão da atenção bre e, como a unidade de atendimento básica. já estava fechada, o levavam direta- que se tenha essa proposta, infeliz- mente ao serviço de urgência, onde mente há uma grande rotatividade IHU On-Line – Como a saúde coleti- era internado; a outra hipótese é que dos gestores na área da saúde. Mesmo va é recebida pela subjetividade hu- justo por ter uma ligação maior com assim, nossa preocupação enquanto mana? Ainda estamos muito ligados as crianças, a equipe de atendimento programa de pós-graduação em saúde a medicalização, a relação de causa viabilizava internações porque conhe- coletiva é desenvolver pesquisas que efeito? É difícil para o paciente acei- ciam as famílias e sabiam das dificul- sejam voltadas para também dar res- tar questões de cuidado? dades delas adquirirem e administra- postas e ajudar na tomada de decisões Maria Teresa Bustamante Teixeira - rem os medicamentos. Como forma de que impliquem numa atenção melhor Há uma busca de soluções imediatis- proteção, a equipe julgava ser neces- à população. tas. Essa questão de causa e efeito re- SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 41 flash.indd 41 9/11/2009 18:38:29
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    vela que aspessoas querem encontrar Saiu recentemente um excelente livro onipotência e inapetência para viver, alternativas imediatas para resolver o de Maria Rita Kehl abordando a questão antes de pensar em “estabilizar o hu- sofrimento. Isso é real se pensarmos das depressões. A autora assinala que mor” com base em procedimentos me- numa psiquiatria cosmética no senti- em nossa sociedade estamos passando dicamentosos. do de que as pessoas não querem en- “do direito à saúde e à alegria” para a frentar alguns sofrimentos que fazem “obrigação de ser felizes”. Trata-se de IHU On-Line – Essa resistência dos parte da vida do ser humano. Então, uma problemática “patologização da pacientes de tentar entender a inte- os indivíduos já se previnem de um tristeza”, que acaba provocando uma gralidade da saúde dificulta a ação da possível sofrimento, ou quando viven- perda do poder interpretativo da dor saúde coletiva? ciam uma perda, não querem passar dos viventes. Segundo Kehl, aos que Maria Teresa Bustamante Teixeira por esta situação. Como sabem que sofreram o abalo de uma morte im- - Penso que sim, porque o paciente existe medicação, tentam amenizar o portante, uma doença ou um acidente também delega muito ao outro, ou sofrimento do momento. Mas, a lon- grave, “a medicalização da tristeza ou seja, ao médico, e não compreende go prazo e pensando na realização das do luto rouba ao sujeito o tempo ne- que parte do processo é responsabili- pessoas, o que isso traz? É uma coisa cessário para superar o abalo e cons- dade dele próprio. complexa. Essa é uma questão que te- truir novas referências, e até mesmo mos de enfrentar. outras normas de vida, mais compatí- IHU On-Line – Quais os avanços e de- Na área da saúde, as pessoas estão veis com a perda ou com a eventual safios da saúde coletiva no país? cada vez mais apostando em exames incapacitação”. Não há dúvida sobre Maria Teresa Bustamante Teixeira complexos e deixando de conhecer o interesse da indústria farmacêutica, - Há tantos desafios na área da saú- seu próprio corpo, de interagir e criar com suas criativas estratégias de ven- de coletiva. Alguns vêm desde a cons- uma vida com hábitos saudáveis do da, nessa “patologização generaliza- trução do SUS. A questão do público ponto de vista mais integral tanto da da da vida subjetiva”. E importantes e privado ainda deve ser explorada. saúde física quanto mental. Se a pes- pesquisas, assinaladas por Maria Rita Também precisamos implementar a soa fizer uma caminhada, uma medita- Kehl, demonstram que os processos reforma sanitária, aprimorar a gestão ção – como sugeriu a Monja Coen – ela em curso de medicalizar todas as for- e ai incluir uma gestão mais comparti- melhora sua saúde integralmente. Mas mas de inquietação, inadaptação e so- lhada, que envolva o controle social. muitos preferem focar em questões frimento – que fazem parte da dinâmi- Para isso precisamos trabalhar muito, que muitas vezes, cientificamente, ca natural da vida -, acaba produzindo porque o próprio controle social mui- não tem embasamento. Por exemplo: um efeito contrário, ou seja, “vidas tas vezes não representa realmente as às vezes as pessoas realizam exames vazias de sentido, de criatividade e de necessidades daquela população. São que irão prevenir determinadas doen- valor”. No primeiro capítulo de seu li- temas complexos que precisamos tra- ças, mas depois se percebe que apenas vro, que trata o tema da “atualidade balhar para responder a essas neces- se antecipou um diagnostico, mas não das depressões”, a autora menciona sidades. mudou o impacto disso na mortalidade. estudos específicos que indicam que O câncer de próstata é um exemplo. a ampliação da oferta de tratamentos IHU On-Line – Como a saúde coletiva Muitas vezes é feito um rastreamen- medicamentosos contra as depressões se aplica no SUS hoje? to, um diagnóstico antecipado, mas não diminuiu o mal-estar das pesso- Maria Teresa Bustamante Teixeira - A isso não muda a perspectiva de sobre- as, a ponto da Organização Mundial saúde coletiva se caracteriza pela in- vida daquelas pessoas. Será que isso da Saúde indicar que até 2020 a de- terdisciplinaridade e o que está envol- vale nesse sentido? São perguntas que pressão vai se tornar a segunda causa vido nessa perspectiva é justo de uma não justificam alguns procedimentos. principal de morbidade nas sociedades concepção de uma saúde pública inse- Mas se alguém impedir que haja um industrializadas. A questão torna-se rida num contexto e que percebe todas programa de rastreamento, se criará ainda mais problemática com respeito essas nuances. Nesse sentido, ela tem uma celeuma enorme. Talvez o exame ao recurso de tratamento farmacológi- que estar cada vez mais implicada em não seja uma prioridade quando não co dos “distúrbios” das crianças e dos buscar as respostas adequadas para o se tem muito como intervir. Mas são adolescentes. Segundo o psiquiatra mundo e especialmente para o nos- questões muito complexas e acho que Mark Olfson, do Instituto Psiquiátrico so país. Ela precisa desenvolver suas estamos vivendo um período de tran- do Estado de Nova York, antes de se pesquisas e estar preocupada para que sição: é preciso chamar atenção para decidirem por medicar seus filhos, os estes conhecimentos estejam voltados determinados aspectos da vida e refle- pais deveriam assumir seu fundamen- para melhorar as condições de vida de tir mais sobre o que queremos; há um tal papel de educadores, ajudando nossa população e o nosso sistema de mito do não sofrimento. os filhos a “atravessar as crises e os saúde. Sabemos hoje que a desigual- conflitos da vida, com seus inevitáveis dade social é um fator determinante IHU On-Line – Qual é a alternativa à altos e baixos de fúria e desânimo, para a saúde da população e este é, medicalização? 0 Maria Rita KEHL. O tempo e o cão. A atu- certamente, um problema que nós Maria Teresa Bustamante Teixeira - alidade das depressões. São Paulo: Boitempo, brasileiros temos que enfrentar. 2009. 42 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 42 9/11/2009 18:38:29
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    IHU On-Line –Quais são as lacunas que existem entre o SUS que existe hoje e o que desejamos? Maria Teresa Bustamante Teixeira - São tantas. Passa pela questão da ges- Memória tão. Precisamos aprimorar e dar maior atenção a gestão do serviço, porque muitas vezes os profissionais não se pensam como gestores. Mas, em algum momento eles vão atuar nesta área. Ignacio Ellacuría Por isso, é importante que as pessoas tenham essa formação. Também é pre- Um pensador, negociador e ciso ir além: trabalhar na área da saú- de é trabalhar com todos os elementos da vida das pessoas, por isso é funda- cristão - 9 de novembro de mental uma base humanista. 1930 - 16 de novembro de 1989 IHU On-Line – Como pesquisadora, que caminhos a senhora percebe que Por Ana Formoso* estão sendo propostos para a forma- ção de profissionais na área de saúde coletiva? No meio acadêmico, um impor- a buscar sempre a relação que há Maria Teresa Bustamante Teixeira - tante filósofo e teólogo, na socieda- entre a inteligência e a fé. A ques- Temos feito um esforço enorme de for- de civil, um negociador para pôr fim tão em Zubiri não consiste tan- mar os profissionais de saúde nas suas à guerra, tudo isto por um homem to em saber se nosso pensamento diferentes áreas com a perspectiva da que buscou a justiça junto com seu encontra algo que possa designar saúde coletiva. Essa é uma premissa povo e sua comunidade acadêmica. por Deus, mas em qual via concre- muito importante. Em que sentido se Ignacio Ellacuría, um homem que 2004, celebramos seu centenário de nasci- faz isso? Desenvolvendo a formação soube contribuir com as ciências, mento. A Unisinos dedicou à sua memória o desses profissionais num contexto em Simpósio Internacional O Lugar da Teologia especialmente a filosofia e teologia, na Universidade do século XXI, realizado de que possam perceber a saúde em seu e, com lucidez, buscou junto à co- 24 a 27 de maio daquele ano. A IHU On-Line conceito ampliado e identifiquem a munidade dar respostas aos desafios nº. 90, de 1º-03-2004, publicou um artigo de complexidade de seus determinantes. Rosino Gibellini sobre Rahner, disponível em sociais de El Salvador. Não temos http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ Formar propiciando o conhecimen- pessoas sozinhas, temos um grupo edicoes/1161093842.09pdf.pdf, e a edição to de como vive nossa população, na de pessoas que dedicaram tempo, 94, de 2-03-2004, publicou uma entrevista identificação de suas necessidades e de J. Moltmann, analisando o pensamento estudo, reflexão, oração e escuta às de Rahner, disponível para download em problemas e conhecendo o sistema de pessoas mais injustiçadas. Como rei- http://www.ihuonline.unisinos.br/uploa- saúde com suas fortalezas e fragilida- tor, buscou conduzir a universidade ds/edicoes/1161093143.69pdf.pdf. No dia des. Desenvolvendo suas habilidades 28-04-2004, no evento Abrindo o Livro, Éri- com pesquisa, reflexão e, sobretudo, co Hammes, teólogo e professor da PUCRS, para lidar com as tecnologias incluin- colaborar para resolver os problemas apresentou o livro Curso Fundamental da do as duras, leve-duras e leves. Espe- sociais. Fé, uma das principais obras de Karl Rah- cialmente as tecnologias leves, que se ner. A entrevista com o prof. Érico Hammes Não se pode entender Ellacuría pode ser conferida na IHU On-Line n.º 98, traduzem na capacidade de uma rela- sem Xavier Zubiri e sem Karl Rah- de 26-04-2004, disponível para download em ção transformadora que envolve uma ner. A filosofia de Zubiri ajudou http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ escuta qualificada de um ser humano edicoes/1158260659.15pdf.pdf. Ainda sobre Xavier Zubiri (1898-1983) foi um filósofo Rahner, publicamos uma entrevista com H. compreendido em sua integralidade. espanhol cuja pesquisa e reflexão se con- Vorgrimler no IHU On-Line n.º 97, de 19- Que envolve ainda a habilidade de tra- centrou, fundamentalmente, nos campos da 04-2004, sob o título Karl Rahner: teólogo balhar em equipe desenvolvendo um Teoria do Conhecimento, da Ontologia e da do Concílio Vaticano nascido há 100 anos, Gnoseologia. (Nota da IHU On-Line) disponível em http://www.ihuonline.unisi- trabalho interdisciplinar. Vejo que no Karl Rahner (1904-2004): importante te- nos.br/uploads/edicoes/1158260371.36pdf. Brasil está ocorrendo essa grande pro- ólogo católico do século XX, ingressou na pdf. A edição número 102 da IHU On-Line, posta de reformulação curricular, de Companhia de Jesus em 1922. Doutorou-se de 24-05-2004, dedicou a matéria de capa em Filosofia e em Teologia. Foi perito do à memória do centenário de nascimento de pensar o trabalho integrado para que Concílio Vaticano II e professor na Universi- Karl Rahner. Os Cadernos Teologia Públi- tenhamos profissionais mais atuantes. dade de Münster. A sua obra teológica com- ca publicaram o artigo Conceito e Missão Essa não é uma tarefa simples, porque põe-se de mais de 4 mil títulos. Suas obras da Teologia em Karl Rahner, de autoria do principais são: Geist in Welt (O Espírito no Prof. Dr. Érico João Hammes. Confira esse isso implica em mudança de comporta- mundo), 1939, Hörer des Wortes (Ouvinte material em http://www.ihuonline.unisinos. mento, mas temos conseguido cumprir da Palavra), 1941, Schrifften zur Theologie br/uploads/edicoes/1158261608.85pdf.pdf essa agenda e há cada vez mais pesso- (Escritos de Teologia), 16 volumes escritos A edição 297, de 15-06-2009, intitula-se Karl entre 1954 e 1984, e Grundkurs des Glau- Rahner e a ruptura do Vaticano II. (Nota da as envolvidas nessa busca. bens (Curso Fundamental da Fé), 1976. Em IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 43 flash.indd 43 9/11/2009 18:38:30
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    ta se colocaseu acesso e qual é crucificado. Este conceito tem um o problema a que corresponde. vigor conceitual hoje perdido na As provas clássicas da existência de Deus se moviam em esquemas puramente objetivistas. Por isso, descrição da realidade, e, muitas vezes, banalizado. “Crucificado”, na realidade, tem a conotação de: Acesse outras Zubiri sentiu a necessidade de a) conceitualmente morte, não uma nova fundamentação para o tema de Deus. Não é o espa- simples dano, limitação ou carên- cia; b) “provocar a morte” – não edições da ço para um desenvolvimento do morte natural; c) uma “morte in- pensamento de Zubiri, mas com- preender como este autor mar- fame e injusta”; d) afinidade com Jesus e seu destino, importante a IHU On-Line. cou o pensamento de Ellacuría. partir da perspectiva da fé, como Para ele, o problema de Deus já o que se eleva à realidade última- está dado na realidade pessoal teológica – a realidade de grande do homem. O homem descobre parte da humanidade. Deus a partir desta realidade e A realidade dos povos crucifica- como meio de realização de seu dos nos interpela? A natureza que viver. Desenvolve uma nova “via está sendo crucificada nos inter- de religação”, da qual vislum- pela? Assim podemos seguir fazen- bramos as verdadeiras consequ- do-nos perguntas. O pensamento ências. Zubiri opõe-se a qual- de Ellacuría nos interpela a olhar quer concepção de Deus como a realidade com honestidade inte- algo alheio ao mundo. Deus se lectual e social. manifesta no mundo, fundamen- Termino com as palavras de Ig- tando a realidade última das coi- nacio Ellacuría que usou com preci- sas, e, ainda que racionalmente, são conceitual ao falar do que deve é preciso estabelecer seu cará- ser e fazer uma universidade: ter transcendente. Trata-se de “A universidade deve encar- uma transcendência na realida- nar-se entre os pobres intelectu- de – nunca fora dela. almente para ser ciência dos que Karl Rahner (1904-1984) é con- não têm voz, o respaldo intelectu- siderado um dos maiores teólogos al dos que, na sua própria realida- católicos do século XX. Seu pensa- de, têm a verdade e a razão, em- mento se caracteriza pela serie- bora, às vezes, seja à maneira de dade do pensar, preocupou-se com despojo, mas que não contam com definições de abertura ecumênica as razões acadêmicas que justifi- e diálogo inter-religioso. Os escri- quem e legitimem sua verdade e tos de Ellacuría, de Sobrino e de sua razão”. Rahner refletem uma pergunta que tem que continuar sendo fei- * Ana Formoso, doutoranda em ta: O que é ser cristão/a e como Teologia, trabalha no Instituto Hu- se pode realizar esse estilo de vida manitas Unisinos – IHU e é autora dos com honestidade intelectual? Cadernos Teologia Pública número Zubiri, uma transcendência na 29, com o título Na fragilidade de Deus a esperança das vítimas. Um realidade, Rahner escreveu um ar- estudo da cristologia de Jon Sobrino, Elas estão tigo memorável que “a realidade disponível em http://www.ihu. quer tomar a palavra”. Na expres- unisinos.br/uploads/publicacoes/ são de Sobrino, se me permitem edicoes/1187719877.9pdf.pdf. um jogo de palavras, se “a palavra se fez realidade (carne, sarx), a disponíveis na realidade quer fazer-se palavra” Ellacuría, I, Sobrino J.”Los pueblos (Sobrino, p.76, 2007). Ellacuría in- sistiu que há sempre um sinal dos crucificados, actual siervo sufriente de Yahvé”. Concilium, n.232, p.497-508, página eletrônica www.ihu.unisinos.br 1989. tempos que é principal: o povo Discurso de formatura na Universidade Nasceu na região da Suévia, no sudoes- de Santa Clara, 12 de junho de 1982!. te da Alemanha. Sua presença no Concílio Carta a las Iglesias, 22p, p.11-15, 1982. Vaticano II foi marcante. Insere-se no que SOBRINO, J. Onde está Deus? Ed. Sinodal: foi classificado como “a virada antropoló- São Leopoldo, 2007, p.78. gica” da Teologia. 44 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 44 9/11/2009 18:38:30
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    A nova Record:A construção do padrão tecnoestético e da liderança pela via do reality show A Fazenda Por Rafaela Barbosa* A retomada da Record no mercado pela mídia. Conforme quadro1. generalista ocorreu a partir do ano de 1997, esta emissora projetou-se com Reality Show um planejamento estratégico, em busca do segundo lugar para, em se- Conceito ano de exibição guida, disputar a liderança. O fortale- cimento na produção de conteúdo da Sem Saída 2004 Record ocorreu por meio de investi- O aprendiz 2004 mentos em jornalismo, novela e show Mudando de Vida 2007 de variedade, estes gêneros compre- Ídolos 2008 endem a estratégia de construção da programação para a conquista do A Fazenda 2009 prime time (horário nobre) e para disputar o primeiro lugar com a Rede Tendo em conta estes aspectos, Globo no mercado das audiências de aqui será discutido o reality show A tevê aberta. Fazenda, como estratégia audiovi- Na atualidade, um tipo específi- sual para a conquista da mercadoria co de programa vem sendo relevan- audiência na Record. A Fazenda teve te para alavancar audiência, o reali- sua estreia respaldada por uma cam- ty show, um formato atraente para panha publicitária tanto na progra- os exibidores, por representar baixo mação da Record como em veículos custo de produção, em comparação impressos e eletrônicos na grande com a teleficção, e por apresentar mídia. Sob esta perspectiva, A Fa- capacidade de ampliar a audiência. zenda foi lançada pela Record em A grade de programação da Record maio de 2009, tendo três meses de volta-se, depois do ano de 2004, para duração. O formato é uma criação este conceito mundializado de produ- da empresa sueca Strix, desenvolvi- ção audiovisual que foca a realidade da em parceria com a produtora ho- de anônimos em cotidianos simulados landesa Endemol, que já lançou no * Mestranda no PPG Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, bolsista da Ford Foundation e membro do Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS). E-mail: byrafaela_barbosa@hotmail.com SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 45 flash.indd 45 9/11/2009 18:38:31
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    país outros realitiesshows e games. ficava ameaçada quando três peões audiência ocorreram somente na gran- Nesse sentindo, The Farm é o nome eram indicados para a roça, situação de São Paulo. Durante o período de original da atração, que já teve edi- que caracterizava uma ameaça de exibição de A Fazenda, a média total ções na Espanha, Inglaterra e França, eliminação. O primeiro é sempre o “registrou quase 13 horas em primeiro dentre outros países. que perde o desafio semanal. O se- lugar, com 15 pontos de média e share A versão brasileira teve direção ge- gundo é por indicação dos demais de 23%” . ral de Rodrigo Carelli (o mesmo diretor participantes, e o terceiro é o fazen- Em síntese, este formato propor- do extinto reality show, Casa dos Ar- deiro da semana quem indica. Assim, cionou impactos consideráveis no tistas, criado pelo SBT) com apresen- acontecia a formação do tá na roça mercado das audiências na tevê para a tação do jornalista Britto Jr. O reality onde o público escolhia quem per- Record produzir outras temporadas de show teve a participação de 14 perso- maneceria na Fazenda por meio do A Fazenda. Inclusive, a emissora está nalidades que foram vigiadas 24 horas sítio da Record, SMS ou porteira de anunciando a segunda versão do reali- por 41 câmeras. voz, meio telefônico utilizado pelo ty show para novembro de 2009. A Fazenda constitui-se em um ce- telespectador para indicar algum O reality show não projetou so- nário rural no interior de São Paulo, peão a colocar o pé na estrada. mente os novos programas da Re- assessorada por uma equipe de profis- Os produtos desta emissora também cord, o jornalismo bem como o show sionais como zootecnista, veterinários tiveram destaque em A Fazenda, onde de variedades, explorou amplamente e um caseiro que prestava informações foi anunciada a estreia de diversas pro- pautas com a temática de A Fazen- para os confinados desempenharem duções como a novela Bela A feia; Pro- da. No jornalismo, o Câmera Record suas atividades diárias. No programa, grama do Gugu; Geraldo Brasil; Ídolos; do dia 21 de agosto de 2009 exibiu o desafio imposto aos peões (nomen- Campanha beneficente da Associação um programa exclusivamente pau- clatura dada aos participantes) foi de Pestallozi. Nessa perspectiva, a deci- tado na trajetória de vida de cada desempenhar tarefas vividas no cam- são de A Fazenda contou com a partici- um dos participantes. Nos programas po, supervisionadas pelo fazendeiro pação do apresentador Augusto Libera- de variedades, como Hoje em Dia, (participante escolhido pela produção to (na época estava prestes a estrear o Melhor do Brasil, Tudo é Possível e do programa para ficar isento durante Programa do Gugu) que entregou o en- Geraldo Brasil, a projeção foi mais uma semana da votação) e por profis- velope que anunciava o ganhador para intensa, visto que os eliminados par- sionais da área rural. o jornalista Britto Jr. ticipavam de entrevistas, desafios, Durante a semana, os peões cum- Na final do reality show, a Record gravação de quadros, dentre outras priam a agenda semanal do programa “foi primeiro lugar absoluto, regis- situações. como parte das obrigações para se trando 21 pontos de média, com pico manterem no jogo e disputarem a pre- de 31” . Sendo que estes índices de miação. O prêmio para o vencedor foi audiência. Disponível em: http://blogdafa- http://diversao.terra.com.br/afazen- zenda.blog.terra.com.br/2009/08/25/com- de R$ 1.000.000. da/interna/0,,OI3801555-EI13962,00- pico-de-31-pontos-a-fazenda-liderou-audien- Portanto, a permanência no jogo Saiba+como+votar.html cia/. Acesso em: 25 de agosto de 2009. Com pico de 31 pontos, A Fazenda liderou Ibidem. IV Seminário de Pesquisa Cepos Patrocínio: 04 de dezembro (sexta-feira) das 08:30 às 18:00 Capes Mini-auditório Pedro Pinto - Centro 3 - Unisinos Fapergs Evento aberto e gratuito - vale horas complementares Fundação Mais Informações: www.grupocepos.net Ford 46 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 46 9/11/2009 18:38:31
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    Destaques On-Line Essa editoria veicula entrevistas que foram destaques nas Notícias do Dia do sítio do IHU. Apresentamos um resumo delas, que podem ser conferidas, na íntegra, na data correspondente. Entrevistas especiais feitas pela IHU On-Line e disponí- “Um desserviço à causa ecumênica’’ veis nas Notícias do Dia do sítio do IHU (www.ihu.unisi- Entrevista especial com Zwinglio Mota Dias nos.br) de 02-10-2009 a 07-10-2009. Confira nas Notícias do Dia de 05-11-2009 “A iniciativa do Papa Bento XVI (de acolher os anglicanos dis- Quem são os demônios da Igreja Universal? sidentes) significou um desserviço à causa do Ecumenismo. Um Entrevista com Ronaldo de Almeida ‘não’ ao diálogo ecumênico honesto e sincero entre cristãos Confira nas Notícias do Dia de 02-11-2009 que se acolhem como iguais, apesar de suas diferenças históri- “A Igreja Universal do Reino de Deus tem toda uma di- cas, e um profundo desrespeito à Comunhão Anglicana mun- mensão simbólica de um jeito de se comportar e se con- dial”, afirma o professor e pastor da Igreja Presbiteriana Unida duzir na vida material e econômica” que a distingue das do Brasil. outras religiões, constata o pesquisador. Eco-Economia. Uma mudança de paradigma A web semântica e suas possibilidades Entrevista com Hugo Penteado Entrevista com Karin Breitman Confira nas Notícias do Dia de 06-11-2009 Confira nas Notícias do Dia de 03-11-2009 “Hoje os economistas têm uma visão de que o planeta gira em “Avançamos muito em termos de mecanismo de busca, mas torno da economia e que ela é o centro do universo. Na verdade, não temos um mecanismo de seleção e interpretação. A o planeta é o sistema maior, ele que dita as regras. Não temos a web semântica auxiliará na construção de máquinas que menor condição de interferir nas regras planetárias, temos apenas nos ajudem a fazer isso”, explica a engenheira eletrônica. que negociar e dialogar bem com elas”, afirma o economista. Marighella. 40 anos depois. Ignacio Ellacuría, um reitor assassinado. Vinte Entrevista com Denise Rollemberg anos depois. Confira nas Notícias do Dia de 04-11-2009 Entrevista com Francisco das Chagas “O grande acerto de Marighella foi lutar pela revolução, Confira nas Notícias do Dia de 07-11-2009 pela transformação da sociedade, contra um conformismo “Ellacuría, como os outros cinco jesuítas que foram assassina- e a ditadura. Não só resistir à ditadura, mas ir além desta dos em El Salvador, deixa para a América Latina um exemplo e luta” afirma a historiadora. um testemunho de vida eclesial e de luta pela justiça”, disse o teólogo. Leia as Notícias do Dia em www.ihu.unisinos.br SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 47 flash.indd 47 9/11/2009 18:38:32
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    Confira as publicaçõesdo Instituto Humanitas Unisinos - IHU Elas estão disponíveis na página eletrônica www.ihu.unisinos.br 50 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 50 9/11/2009 18:38:41
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    Agenda da Semana Confira os eventos dessa semana realizados pelo IHU. A programação completa dos eventos pode ser conferida no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br). Dia 12-11-2009 IHU ideias As redes e a construção de espaços sociais na digitalização Mestranda Ana Maria Oliveira Rosa - Unisinos e Grupo CEPOS Horário: 17h30min. Sala 1G 119 Dia 12-11-2009 e 13-11-2009 Jornada Argentino-Brasileira de Estudos de Kierkegaard - Parte Brasileira Horário/local: Das 10h às 12h, das 14h às 18h Sala 1A 202 (Unidade de Ciências Humanas) Das 19h30min às 22h Auditório Maurício Berni (Unidade de Ciências Jurídicas) Participe dos eventos do IHU A programação completa está disponível no endereço eletrônico www.ihu.unisinos.br SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 51 flash.indd 51 9/11/2009 18:38:41
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    Mártires em ElSalvador: uma memória que continua forte 20 anos depois Evento no IHU irá rememorar o brutal assassinato de seis jesuítas, a funcionária de sua residência e sua filha de 15 anos, com exibição de debate entre Jon Sobrino, Noam Chomsky e o jesuíta J. Donald Monan Por Moisés Sbardelotto Vinte anos não foram suficientes no campus da UCA. dezembro, Dia Internacional dos Di- para apagar da memória o terrível Paramilitares do Exército salvado- reitos Humanos, em um evento que assassinato de seis padres jesuítas, renho invadiram a residência dos je- está sendo especialmente preparado a funcionária de sua residência e sua suítas deliberadamente para matar para lembrar o aniversário do martí- filha de 15 anos, no dia 16 de novem- àqueles que incomodavam a ditadura, rio dos jesuítas de El Salvador. Nes- bro de 1989, no jardim da comunidade no rastro do assassinato de outro je- sa data, como homenagem póstuma jesuíta da Universidade Centro-Ameri- suíta, Pe. Rutilio Grande, amigo pró- da Unisinos, a atual sala de eventos cana José Simeón Cañas (UCA), em El ximo de Dom Óscar Arnulfo Romero, do IHU – 1G119 – será reinaugurada Salvador. arcebispo da capital, San Salvador, como Sala Ignacio Ellacuría e Com- Na madrugada daquela quinta-fei- que também foi fuzilado enquanto ce- panheiros. ra, Ignacio Ellacuría, reitor da UCA; lebrava a missa. O debate do Boston College irá re- o vice-reitor, Ignacio Martín-Baró; o Para reforçar essa lembrança e memorar o significado do martírio dos diretor do Instituto de Direitos Huma- celebrar a importância desse martí- jesuítas da UCA não apenas em pala- nos da UCA, Segundo Montes; o diretor rio para o contexto latino-america- vras, mas também por meio do históri- da biblioteca de teologia, Juan Ramón no, o Instituto Humanitas Unisinos co, da trajetória e da relação de cada Moreno; o professor de teologia Aman- - IHU irá exibir o debate “Memory um dos convidados com os fatos ocor- do López; o fundador da universidade, and Its Strength: The Martyrs of El ridos em El Salvador. Joaquín López y López, todos jesuítas; Salvador” [A memória e sua força: Nas palavras do próprio Jon Sobri- a funcionária Elba Ramos e sua filha Os mártires de El Salvador], que no, em artigo publicado pelo sítio do Celina foram fuzilados a sangue frio irá ocorrer no Boston College, nos IHU, “o que me interessa recordar e Estados Unidos, no dia 30 de no- reforçar é que, em El Salvador, exis- O sítio do IHU já publicou um vasto mate- rial sobre Ignacio Ellacuría. Confira, entre ou- vembro. Nesse encontro, o filósofo tiu uma tradição magnífica: a entre- tros artigos, Ignacio Ellacuría, um reitor as- norte-americano Noam Chomsky e ga e o amor aos pobres, o enfrenta- sassinado. Vinte anos depois. Entrevista com o jesuíta, teólogo e co-fundador da mento aos opressores, a firmeza no Francisco das Chagas, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 07-11-2009, disponí- UCA, Jon Sobrino – que, no dia do conflito, a esperança e a utopia que vel no link http://www.ihu.unisinos.br/index. massacre, estava fora de El Salvador passavam de mão em mão”. Nessa php?option=com_noticiasItemid=18task=d –, irão debater sobre a importância tradição, segundo o teólogo, “res- etalheid=27288 e Inteligência, compaixão e serviço. Celebrando o martírio de Ignacio Ella- dessa memória, mediados pelo jesu- plandecia o Jesus do evangelho e o curía e companheiros. Entrevista com Héctor íta e reitor emérito do Boston Colle- mistério de seu Deus”. “Não pode- Samour publicada nas Notícias do Dia do sítio ge, J. Donald Monan. mos dilapidar essa herança e deve- do IHU em 16-11-2007 e disponível em http:// www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_ A exibição no IHU, traduzida ao mos fazer com que ela chegue aos noticiasItemid=18task=detalheid=10728 português, irá ocorrer no dia 10 de jovens”, afirma Sobrino. (Nota da IHU On-Line) Sobre Ignacio Martín-Baró leia o artigo Ho- php?option=com_noticiasItemid=18task=de menagem a Ignacio Martín Baró, jesuíta as- talheid=26991 (Nota da IHU On-Line) Os debatedores sassinado, publicado no sítio do IHU em 06- O sítio do IHU já publicou um vasto mate- 11-2009, disponível no link http://www.ihu. rial sobre Dom Óscar Romero. Confira, entre Jon Sobrino é padre jesuíta e mo- unisinos.br/index.php?option=com_noticias outros artigos, El Salvador reconhece respon- Itemid=18task=detalheid=27232 (Nota da sabilidade no assassinato de Dom Romero, pu- rava na mesma residência dos seis IHU On-Line) blicado nas Notícias do Dia do sítio do IHU em Sobre Elba e sua filha leia “Dom Romero e 09-11-2009, disponível no link http://www. Leia a íntegra do texto em http://www.ihu. tu”: Carta de Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría ihu.unisinos.br/index.php?option=com_notici unisinos.br/index.php?option=com_noticias publicada no sítio do IHU em 28-10-2009, aces- asItemid=18task=detalheid=27353 (Nota Itemid=18task=detalheid=26991 (Nota da sível em http://www.ihu.unisinos.br/index. da IHU On-Line) IHU On-Line) 52 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 52 9/11/2009 18:38:41
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    jesuítas assassinados. Porcoincidên- te nos EUA, após a descoberta de que cia ou providência, ele estava fora “O julgamento dos alguns dos soldados envolvidos haviam do país naquele 16 de novembro. So- sido treinados pela Escola das Améri- brino é um dos grandes teólogos da assassinos, ocorrido em cas, um centro de treinamento militar Teologia da Libertação, doutor em para tropas latino-americanas em Fort teologia pela Hochschule Sankt Ge- 1990, condenou apenas Benning, Georgia. orgen de Frankfurt, Alemanha, tendo O julgamento dos assassinos, ocor- recebido sua formação teológica no dois dos 14 militares rido em 1990, condenou apenas dois contexto do espírito do Concílio Va- dos 14 militares culpados. Segundo ticano II e da II Conferência Geral do culpados. Segundo o jornal El País, o restante continua Conselho Episcopal Latino-America- em liberdade, e são hoje empresá- no, em Medellín, em 1968. É doutor o jornal El País, o rios ou aposentados que desfrutam honoris causa pela Universidade de aposentadorias e cargos nos gabine- Louvain, na Bélgica, e pela Univer- restante continua em tes governamentais. O jornal espa- sidade de Santa Clara, na Califórnia. nhol indica ainda que, entre 1980 e Atualmente, divide seu tempo como liberdade, e são hoje 1992, a repressão militar assassinou professor de Teologia da Universida- 75 mil pessoas em El Salvador, dei- de Centro-Americana, responsável empresários ou xando sete mil desaparecidos e cen- pelo Centro de Pastoral Dom Oscar tenas de milhares de órfãos, viúvas Romero, diretor da Revista Latino- aposentados que ou desabrigados. americana de Teologia, além de ser “Os mártires da UCA estavam membro do comitê editorial da Re- desfrutam comprometidos com a libertação vista Internacional de Teologia Con- e com uma universidade orientada cilium. É autor de “Jesus Cristo li- aposentadorias e para a mudança social. A docência, a bertador: Leitura histórica-teológica pesquisa e a projeção social da uni- de Jesus de Nazaré” (Vozes, 1994) e cargos nos gabinetes versidade deveriam estar orientadas “A fé em Jesus Cristo. Ensaio desde para conhecer rigorosamente e com as vítimas” (Vozes, 2001). governamentais” profundidade a realidade nacional e Noam Chomsky é conhecido como internacional, com a finalidade de um dos pais da linguística moderna. É antes, havia sido reitor da mesma construir um saber crítico e criati- professor emérito de linguística e filo- universidade durante 24 anos, des- vo que incidisse na marcha histórica sofia do Massachusetts Institute of Te- de 1972, a mais longa presidência da dos nossos países num sentido liber- chnology (MIT), nos EUA. Paralelamen- história da instituição. É doutor em tador”, afirma Héctor Samour, coor- te à pesquisa acadêmica, tornou-se filosofia pela Universidade de Lou- denador do doutorado em filosofia ativista político de grande popularida- vain, na Bélgica, e ex-presidente da ibero-americana da UCA, em entre- de em todo o mundo por suas posições Associação Nacional de Faculdades vista ao sítio do IHU. de esquerda e suas críticas à política e Universidades Independentes dos Para Samour, a totalidade da vida externa dos EUA. É membro da Acade- EUA. Também atuou como diretor e do pensamento dos jesuítas assas- mia Americana de Artes e Ciências e do Bank of Boston (1976-96) e como sinados havia adquirido uma tríplice da Academia Nacional de Ciência dos presidente interino da Association característica de inteligência, com- EUA. Publicou mais de 70 obras, entre of Jesuit Colleges and Universities paixão e serviço. “Neles, a liberta- elas: “Estados fracassados” (Bertrand (1996-97). É membro da Associação ção não foi um mero tema externo Brasil, 2009), “11 de setembro” (Ber- Filosófica Jesuíta e da Sociedade de ao seu trabalho intelectual, ao re- trand Brasil, 2003) e “Poder e terroris- Fenomenologia e Filosofia Existen- dor do qual construíam argumentos mo” (Record, 2005). cial, ambas dos EUA. para fundamentar sua necessidade e Já o moderador do debate, o pa- sua bondade, mas ela se constituía dre jesuíta J. Donald Monan, era Memória em algo que tinha muito a ver com reitor do Boston College em 1989, a própria vida deles como intelectu- o ano do martírio, e fazia parte do No dia 16 de novembro de 1989, seis ais; foi algo que assumiram como um grupo de jesuítas que visitou o lo- jesuítas, a funcionária da residência princípio constitutivo da sua própria cal logo após as mortes terem ocor- e sua filha adolescente foram mortos existência”. rido. Ele trabalhou incansavelmente por soldados do batalhão paramilitar Libertação, nas palavras do pró- para formar uma rede de jesuítas Atlacatl, que deixaram as paredes pin- prio Ellacuría, um dos jesuítas as- para impulsionar as investigações, e tadas para atribuir os crimes à Fren- sassinados e então reitor da UCA, para que o Congresso dos EUA pres- te Farabundo Martí para a Libertação daquilo que pode ser considerado sionasse o governo salvadorenho a Leia a íntegra da entrevista em http://www. Nacional (FMLN). O crime gerou uma ihu.unisinos.br/index.php?option=com_notici julgar os assassinos. Desde 1996, é grande onda de revolta, especialmen- asItemid=18task=detalheid=10728 (Nota reitor emérito do Boston College e, da IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 53 flash.indd 53 9/11/2009 18:38:42
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    “como opressão injustada plenitude “O governo nilo Miranda Baires, professor do Insti- e da dignidade humana, libertação de tuto Centro-Americano de Ciências da toda forma de injustiça, libertação da salvadorenho, após Saúde, da UCA. fome, da doença, da ignorância, do E, no dia 28, encerrando a progra- desamparo, libertação das necessida- muitos anos de silêncio mação, o jesuíta e companheiro dos des falsas, impostas por uma socieda- mártires Jon Sobrino irá ministrar a de de consumo”. e dissimulação, grande conferência “O que os mártires Por isso, eles optaram por viver nos pedem hoje”, na capela da UCA. em um mundo de oprimidos e se loca- decidiu somar-se às O governo salvadorenho, após lizaram conscientemente no lugar da muitos anos de silêncio e dissimu- realidade histórica onde havia opres- homenagens do mundo lação, decidiu somar-se às homena- são, no lugar das vítimas despojadas gens do mundo inteiro. No dia 03 de de toda figura humana. “E foi aí onde inteiro. No dia 03 de novembro, o presidente de El Salva- entregaram sua vida que lhes foi vio- dor, Mauricio Funes, afirmou que irá lentamente arrebatada”, afirma o fi- novembro, o presidente conceder o mais alto grau de honra lósofo. do país aos seis jesuítas assassinados de El Salvador, Mauricio pelo exército salvadorenho em 1989. Homenagens Apesar de não incluir as duas mulhe- Funes, afirmou que irá res assassinadas, Funes afirmou que Com a exibição do debate, o IHU a entrega da Ordem Nacional José soma-se a uma ampla agenda de ho- conceder o mais alto Matias Delgado será um “ato público menagens aos mártires salvadorenhos de desagravo” pelos erros dos gover- em todo o mundo. Na própria UCA, em grau de honra do país nos passados. A homenagem será fei- El Salvador, um grande calendário de ta, segundo a presidência, em razão atividades está sendo realizado neste aos seis jesuítas dos “serviços extraordinários presta- mês de novembro. São 16 dias de pro- dos pelos jesuítas ao país, nas áreas gramação especialmente dedicada aos assassinados pelo de educação, direitos humanos, sua mártires. contribuição ao combate à pobreza, Os eventos começaram ainda no dia exército salvadorenho exclusão social, iniquidade, e suas 03 de novembro, com uma homenagem contribuições à paz e à construção a Ignacio Martín-Baró, pela passagem em 1989” da democracia” em El Salvador. do seu 68º aniversário de vida. O jesu- Há algumas semanas, a Câmara íta também será lembrado no dia 12 re uma vigília com procissão de velas de Representantes dos EUA também de novembro, no “Fórum Internacio- pela cidade. aprovou uma resolução para honrar a nal Ignacio Martín-Baró: Psicologia da No domingo, dia 15, será celebrada vida dos mártires da UCA. Segundo o libertação, 20 anos depois”. uma grande missa na catedral de San jornal El País, a resolução, apresen- Já no dia 10 de novembro, ocorre o Salvador em comemoração aos márti- tada pelo deputado democrata James “XXIV Fórum da Realidade Sócio-Políti- res, diante do túmulo de Dom Óscar McGovern e outros 33 parlamentares, ca ‘Segundo Montes’: Pensar as migra- Arnulfo Romero, arcebispo da capital “recorda e comemora as vidas e o tra- ções hoje, uma homenagem a Segundo assassinado em 1980. No dia 16, será balho” dos mártires, e reconhece que Montes e seu legado”. celebrada outra missa com a comuni- “as pessoas assassinadas dedicaram a As questões judiciais envolvendo o dade acadêmica, no campus da UCA. sua vida para atender e aliviar as de- caso dos jesuítas também serão lem- No dia 18, a conferência “O papel sigualdades sociais e econômicas de El bradas no sábado, 14 de novembro, dos mártires da UCA na transição de- Salvador”. com a conferência de Almudena Ber- mocrática salvadorenha e as debilida- Sobre o tema leia a matéria Congresso norte- nabeu, a advogada que apresentou o des das democracias centro-america- americano aprova resolução que homenageia caso na Espanha. No mesmo dia, ocor- jesuítas assassinados há 20 anos, publicada nas” irá reunir Gilles Bataillon, diretor no sítio do IHU em 31-10-2009 e disponível Leia acessando http://www.ihu.unisinos.br/ de estudos da Escola de Altos Estudos no link http://www.ihu.unisinos.br/index. index.php?option=com_noticiasItemid=18t em Ciências Sociais, da França, e Da- php?option=com_noticiasItemid=18task=de ask=detalheid=27232 (Nota da IHU On-Line) talheid=27077 (Nota da IHU On-Line) Informações em www.ihu.unisinos.br 54 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 54 9/11/2009 18:38:42
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    Perfil Faustino Teixeira Por Graziela Wolfart | Fotos Arquivo Pessoal U m ser apaixonado pelo que faz e que vibra com a vida. Este é Faus- tino Teixeira, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Dudu, como é conhecido entre amigos, concedeu a entrevista que segue pessoalmente à IHU On-Line, quando esteve na Unisinos no último mês de setembro participando do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. Ao contar sua história de vida, Faustino considera que a razão de ser da felicidade está em fazer o que se gosta. E aponta a sensibilidade como o elemento que marca sua vida. “As coisas me tocam muito fortemente e me transformam profunda- mente”. A questão da religiosidade e a sintonia com o mistério, um mistério sempre maior, é outro ponto que igualmente caracteriza sua vida atual. Conhe- ça um pouco mais deste teólogo que é o pai de Pedro, João, Tiago, e Daniel. Faustino Teixeira nasceu em Juiz nhamentos dos filhos para a formação. cursava paralelamente, Dudu recebeu o de Fora, Minas Gerais, em julho de Um traço forte destacado por Teixeira incentivo do padre João Batista Libânio, 1954, em uma família bem numerosa de seus pais é a preocupação com a amigo e orientador de estudos, para fa- e muito religiosa. Seus pais tiveram 15 dinâmica familiar e a formação. Seu zer o mestrado em Teologia na PUC-Rio. filhos, sendo que atualmente são 13 vi- pai faleceu há alguns anos, mas a mãe “Nessa época, a PUC-Rio era muito flo- vos. São dez homens e cinco mulheres continua no controle dos filhos, hoje rescente, todos os jesuítas estavam lá. e Faustino é o oitavo filho. Seu pai era com 92 anos. Era talvez um dos momentos mais fortes médico, “daqueles que tratam com fé, Faustino começou sua formação no da formação teológica do Brasil, com um esperança e cafuné”, define. Além dis- Instituto Santíssima Trindade e sem- influxo muito forte da Teologia da Li- so, durante muito tempo, foi ministro pre estudou em instituições católicas. bertação. Minha formação teológica foi da Eucaristia e tinha uma formação Depois, do primeiro ano primário até muito privilegiada em função desse rico filosófica e teológica muito rica. Era o final do segundo grau estudou com período da PUC-Rio, do qual nasceram professor de deontologia médica na os jesuítas de Juiz de Fora. Então, fez muitos teólogos leigos”, lembra. A atu- Universidade Federal de Juiz de Fora a graduação em Filosofia e Ciência da ação acadêmica de Faustino começou e sempre teve a tradição da medicina Religião na Universidade Federal de na PUC-Rio, durante o período do mes- humanizada muito acentuada. Na casa Juiz de Fora - UFJF de 1974 a 1978. trado. “Nessa época eu era professor de da família três cômodos foram desti- Depois, continuou com os jesuítas na Teologia na PUC-Rio e na Universidade nados à biblioteca, pois o pai de Faus- PUC-Rio (mestrado em Teologia) e de Santa Úrsula. Aliás, as irmãs ursulinas tino sempre comprou muitos livros. E lá seguiu com eles na Gregoriana, em também tiveram um papel muito impor- mais do que obras na área da medicina Roma, para o doutorado e o pós-dou- tante no apoio à minha formação pro- ele comprava na área de literatura, fi- torado em Teologia. “A formação jesu- fissional. Lembro que eu dava 28 aulas losofia e teologia, sua grande paixão. íta foi muito forte na minha vida. Mas por semana, sete matérias diferentes e Dudu lembra que seu pai veio da apesar de estudar com eles, minha in- fazendo mestrado ao mesmo tempo. Só tradição escolástica da filosofia, ini- fluência mais marcante em termos de que naquele tempo o mestrado durava cialmente muito marcado pelo tomis- formação foi com os redentoristas e três anos. E eu ainda era recém casado”, mo, e essa influência aparece na vida com os dominicanos”, conta. recorda, ao contar que se casou em 1978 familiar, no contato com os filhos, nos Quando terminou a graduação em e logo foi para a PUC-Rio. Em 1982 bateu ensinamentos e também nos encami- Filosofia e em Ciências da Religião, que na sua porta a oportunidade de fazer o SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 55 flash.indd 55 9/11/2009 18:38:43
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    Faustino com a esposa, Maria Teresa. Na foto ao lado, com a família doutorado em Roma. Lá, foi orientado Marco Lucchesi e Maria Clara Bingemer, montaram um núcleo de mística compa- pelo professor Felix Pastor. rada que se reúne em Juiz de Fora desde Concluído o doutorado, Teixeira vol- 135ª edição, de 4 de abril de 2005, outro arti- 2001, com encontros anuais que acolhem go publicado na 150ª edição, de 8 de agosto de ta para a PUC-Rio e leciona no curso 2005, e uma entrevista a nós concedida inti- professores e orientandos do núcleo. “É de Teologia. “Aos poucos fui me apro- tulada A fé deve ajudar a superarmos a ilusão um espaço onde me sinto mais à vonta- ximando da área da teologia das reli- da razão política como razão que entende o de, considerando o difícil momento que a drama humano e publicada no sítio do IHU em giões”, conta. Em 1989, ele fez um 31-01-2008 (Nota da IHU On-Line) academia vive no Brasil, de fechamento concurso para a UFJF na área de ecle- A IHU On-Line entrevistou Marco Lucche- pragmático de produtividade. Ali temos siologia e conseguiu entrar. Então, com si nas edições número 242, de 05-11-2007, e um clima mais livre, para trabalhar re- 222, de 04-06-2007, sobre o poeta Rûmî. Ele a ajuda dos professores Pedro Assis Ri- também foi o destaque da editoria Invenção, flexões mais interessantes. Nosso núcleo beiro de Oliveira e Luiz Bernardo Araú- na edição número 258, de 19-05-2008. (Nota já produziu dois livros e outro já a cami- jo, começou a montar o Programa de da IHU On-Line) nho. Os laços de amizade que se criaram Maria Clara Bingemer já participou de ou- Pós-Graduação em Ciência da Religião tras edições da IHU On-Line: Nem homem nem também são muito importantes”. da universidade. “Criamos a especiali- mulher: Paulo misógino? - Artigo publicado zação em 1991, o mestrado em 1993 e nas Notícias do Dia em 27-9-2008 e disponível Casamento e família no link http://www.ihu.unisinos.br/index. o doutorado em 2001. E eu fiquei como php?option=com_noticiasItemid=18task= coordenador do programa este perío- detalheid=16981; “O documento não tem o Faustino conheceu sua esposa, Maria do todo, dez anos”. Atualmente, ele profetismo e o sopro libertador que caracte- Teresa Bustamante, que todos conhe- rizou Medellín e Puebla”. Edição número 224, continua como professor no PPG e con- de 20-6-2007, intitulada Os rumos da Igreja cem por Teita, num grupo universitário centra seu trabalho como pesquisador na América Latina a partir de Aparecida. Uma chamado “Tropa Maldita”, liderado pelo e docente. “A minha transição se deu análise do Documento Final da V Conferência. padre João Batista Libânio. “Ali nasceu Disponível em http://www.ihuonline.unisinos. da eclesiologia para a antropologia te- br/index.php?option=com_tema_capaItemid uma grande amizade, que depois se ológica, depois para a teologia das re- =23task=detalheid=485; “Igreja que dese- aprofundou”. O casal tem quatro filhos: ligiões e então para o diálogo inter-re- ja ser ouvida numa cultura pós-cristã precisa Pedro, 28 anos, que faz mestrado em ter um testemunho forte, crível e consisten- ligioso. No fim do processo, começou a te que acompanhe o discurso”. Edição 220, Literatura; João, 27 anos, que é músico abertura para o interesse pela mística de 21-5-2007, intitulada O futuro da auto- violoncelista da Orquestra Filarmônica inter-religiosa, onde atualmente estou nomia, uma sociedade de indivíduos? Acesse de Manaus; Tiago, 21 anos, que faz Ge- em http://www.ihuonline.unisinos.br/index. concentrado”, explica. php?option=com_destaques_semanaItemid= ografia na UFJF; e Daniel, 19 anos, que Para Faustino, a mística o fascina por 24task=listaidedit=10; Os jesuítas e a ex- faz Ciências Sociais na UFRJ. ser o campo onde encontrou mais aber- pansão da cultura moderna. Edição número Dudu tem também o talento musi- 183, de 5-6-2006, intitulada Floresta de Arau- tura para o diálogo. “É um campo de cária: uma teia ecológica complexa. Disponível cal correndo nas veias. Sua família é liberdade acadêmica, espiritual, de tra- em http://www.ihuonline.unisinos.br//uploa- muito musical, tem dois irmãos que balho com prazer”, define. Ele e alguns ds/edicoes/1158354193.6word.doc; Simone são músicos profissionais e ele foi can- Weil. A vida em busca da verdade. Edição nú- companheiros, como Luis Felipe Pondé, mero 313, de 03-11-2009, intitulada Filosofia, tor durante um tempo num grupo de Luiz Felipe Pondé: dele publicamos, entre mística e espiritualidade. Simone Weil, cem música popular brasileira, chamado “A outros, uma entrevista na 133ª edição, de 21 anos. Disponível em http://www.ihuonline. de março de 2005, especialmente concedida unisinos.br/index.php?id_edicao=341 (Nota da Confira uma entrevista com ela nesta edição. para a IHU On-Line, um artigo publicado na IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) 56 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 56 9/11/2009 18:38:43
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    Pá”, que atuouna década de 70 em do “Ofício das Comunidades”, enrique- com sua preciosa colaboração, como Juiz de Fora. “A presença musical é cido com orações inter-religiosas e sin- Pierre Sanchis, Otávio Velho, Antônio muito forte na minha vida”, confessa. gulares momentos de silêncio. É um es- Flávio Pierucci, Ronaldo de Almeida, Ivo O sonho atual de Faustino Teixeira paço onde exerce sua atividade musical, Lesbaupin, Cecília Mariz, Carlos Alberto é que exista um maior entendimento regando os salmos com violão e o canto. Steil e outros. E outra obra encontra-se entre as tradições religiosas, o respei- “Talvez em função da vinculação muito a caminho, fruto de uma longa pesquisa to à diversidade de culturas e de re- forte com a mística religiosa, com a li- de Faustino sobre os “buscadores de di- ligiões. “Sonho com a quebra de uma berdade e criatividade que a envolvem, álogo”. Trata-se de uma pesquisa finan- certa arrogância que marca as iden- tenho certa dificuldade com a dinâmica ciada pelo CNPQ que visa traçar o itine- tidades religiosas, numa perspectiva atual da religiosidade no mundo católi- rário de alguns importantes buscadores de reconhecer o valor da diversidade. co: o formalismo das missas, a fixação cristãos que viveram a experiência da Minha grande luta atual é em favor do nas rubricas, os sermões e seu distancia- liminaridade, de aproximação profunda que chamo de pluralismo de princípio: mento do tempo etc. Falta um pouco de com outra tradição religiosa. Dentre os reconhecer que o pluralismo é um va- mundo interior nessa dinâmica do catoli- autores trabalhados estão: Louis Mas- lor fundamental, que a diversidade cismo hoje”, critica. signon, Henri le Saux, Raimon Panikkar, é um dom, e que o aprendizado e o Para Faustino Teixeira a política é Thomas Merton, Simone Weil e Ernesto encontro com o outro é um horizonte o espaço da santidade. “A política é o Cardenal. importantíssimo para o nosso tempo”. lugar onde podemos lutar para fazer Sobre Thomas Merton, leia a entrevista com Perguntado sobre o que teme hoje, acontecer nossos sonhos. Vejo-a como Getulio Bertelli: Thomas Merton e Ernesto Dudu considera que vivemos em uma so- um espaço fundamental do exercício Cardenal: dois precursores da espiritualida- de da libertação latino-americana, publicada ciedade marcada por medos. “A busca da cidadania”. na IHU On-Line número 285, de 08-12-2008, de sentido é sempre feita num ambiente Vale ainda ressaltar que, em parceria disponível no link http://www.ihuonline.unisi- marcado pelas ameaças. Vivemos movi- com Renata Menezes, Faustino Teixeira nos.br/index.php?option=com_destaques_sem anaItemid=24task=detalhesidnot=1499i mentos de enrijecimento em todos os organizou uma obra que acaba de ser dedit=10 (Nota da IHU On-Line) campos. Tenho medo que os grandes va- lançada pela editora Vozes, intitulada Sobre Simone Weil a IHU On-Line dedicou lores possam ser abafados pela dinâmica Catolicismo plural: dinâmicas contem- três edições. Confira no sítio do IHU (www. ihu.unisinos.br). Simone Weil. Palavra viva. do mercado, caracterizada pela indife- porâneas. É uma obra que nasceu sob Edição número 84, de 17-11-2003. O material rença. Meu maior medo é que a indife- o incentivo da ONG ISER-Assessoria, fru- está disponível no endereço http://www. rença se torne a linguagem comum”. to de um seminário sobre o tema, que ihuonline.unisinos.br//uploads/edicoes/ 1161201356.89word.doc; Hannah Arendt, Si- A relação de Dudu com Deus, com o aconteceu em Juiz de Fora em abril de mone Weil e Edith Stein. Três mulheres que transcendente, é muito forte. “Tenho 2005. O livro reúne 11 artigos que bus- marcaram o século XX. Edição número 168, uma relação pessoal, mais do que exclu- cam traçar o quadro plural do catolicis- de 12-12-2005. O material está disponível no link http://www.ihuonline.unisinos.br//uplo- sivamente sacramental. Tenho um ritmo mo hoje no Brasil. Nomes importantes ads/edicoes/1158350658.23word.doc; e Filo- pessoal de oração muito acentuado há das ciências sociais enriquecem a obra sofia, mística e espiritualidade. Simone Weil, muitos anos”. Ele, sua mãe e sua esposa cem anos. Edição número 313, de 03-11-2009, Sobre a obra, leia a nota publicada no disponível em http://www.ihuonline.unisinos. participam de um grupo de oração em blog do IHU em http://unisinos.br/blog/ br/uploads/edicoes/1257272797.865pdf.pdf Juiz de Fora. O grupo segue a dinâmica ihu/2009/11/04/catolicismo-plural/ (Nota da (Nota da IHU On-Line) IHU On-Line) SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 57 flash.indd 57 9/11/2009 18:38:44
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    IHU Repórter Lauro Antônio Lacerda d’Ávila Por Graziela Wolfart | Fotos Arquivo Pessoal O professor Lauro d’Avila, da Unidade de Ciências da Comunicação da Unisinos, é quem conta sua trajetória de vida na edição desta semana da IHU On-Line. Formado em Administração e em Comunicação Social - Habilitação Relações Públicas, Lauro é uma pessoa que já passou por diversas experiências de vida, como perdas familiares muito marcan- tes e difíceis. Mas, em todos os momentos, ele sempre tem procurado se manter o mesmo. Por onde passa nunca deixa inimigos, desejando sempre conviver bem com todos e respeitar diferenças. Suas características são a calma e a timidez. No entanto, paradoxalmente, como ele mesmo reconhece, fala bastante e gosta de se expressar, se comunicar. Conheça um pouco mais deste colega da comunidade acadêmica da Unisinos: Origens e família – Nasci em Cara- lores que deles herdei posso resumir perdia muitas aulas e provas. O quar- zinho, Rio Grande do Sul. Minha mãe em três palavras: amor, fé e integri- tel onde servi por quase sete anos, era de Vacaria e meu pai de Lagoa dade. entre o tempo de aluno e de oficial Vermelha. Eles tiveram uma primeira foi o 19º BITMz. Mesmo com as difi- filha – Maria Aparecida, que faleceu Formação – Estudei no Grupo Es- culdades de administração do tempo no parto. Minha mãe recebeu, então, colar Visconde de São Leopoldo, no entre minhas atividades profissionais o diagnóstico de que não poderia mais centro de nossa cidade. Depois, fui e meus estudos, perseverei e con- ter filhos. Depois de consultar um es- para o colégio dos irmãos maristas, o clui a graduação em Administração. pecialista em Porto Alegre, meus pais São Luís, onde fiz o ginásio. Em se- Depois, cursei também Comunicação descobriram que podiam ter outros fi- guida, cursei o científico no Colégio Social Habilitação Relações Públicas, lhos e foi daí que eu nasci num cená- Estadual Pedro Schneider, ainda na na Unisinos. E fiz igualmente aqui o rio de muita expectativa. Meu nome sua sede antiga. Então, fiz vestibu- Mestrado em Administração, com pro- foi dado em homenagem ao meu avô lar na Universidade Federal do Rio fessores da PUC Rio. Tenho planos de Lauro d’Avila, notário em Alfredo Grande do Sul para a Faculdade de fazer um doutorado na área de Comu- Chaves, hoje Veranópolis. O Antônio Arquitetura, mas não passei. Tentei nicação Organizacional. foi escolhido por minha mãe em razão na Unisinos e consegui o ingresso no de sua devoção por Santo Antônio de curso superior. Cursei as disciplinas Vida profissional – Quando saí do Lisboa. Meu pai era bancário e minha do antigo “básico”, num semestre. Exército, passei três meses traba- mãe professora. Quando eu tinha um Desejava o Curso de Arquitetura, mas lhando na Prefeitura de Campo Bom, ano de idade nossa família mudou-se, não pude freqüentar as aulas, porque numa assessoria técnica. Então, rece- em função de uma transferência do as de desenho artístico necessitavam bi uma proposta de emprego em uma meu pai, para São Leopoldo, onde me de luz natural (o mesmo desenho ar- empresa de grande porte, localizada criei. Minha infância foi muito feliz e tístico que me reprovou no vestibular na cidade de Guaíba, onde eu havia dela tenho ótimas lembranças. Éra- não unificado da UFRGS), e eu estava deixado currículo: a Aracruz, que na mos quatro: meu pai, minha mãe, eu no Exército e não disponibilizava de época chamava-se Riocell e hoje se e meu irmão. Todos já deixaram esta tempo durante o dia. Desisti da Arqui- denomina Fibria. Lá trabalhei por mais vida em razão de cânceres irreversí- tetura e parti Administração de Em- de 18 anos. Foi uma experiência pro- veis. Minha mãe faleceu aos 46 anos. presas, sem saber exatamente do que fissional muito importante na minha Depois meu irmão, igualmente, aos se tratava. Levei dez anos para con- história de vida. Ela, na sua origem, 46 anos. E, posteriormente, já com cluir o curso, pois como oficial R/2, era uma multinacional norueguesa mais idade, faleceu meu pai. Os va- convocado pelo Exército Brasileiro, que gerou um grande problema de 58 SÃO LEOPOLDO, 09 DE NOVEMBRO DE 2009 | EDIÇÃO 314 flash.indd 58 9/11/2009 18:38:45
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    Grécia e umaregião no sul da Alemanha,em Baden-Würten- berg onde fica a cidade medie- val de Calw, local de nascimento do escritor Hermann Hesse. Um sonho importante que eu tinha e já realizei foi conhecer Liver- pool - o berço dos Beatles, com minha esposa Jane. Lá conhe- opinião pública, uma celeuma pois de um longo trabalho com cemos lugares e lembranças de muito grande à época. Tal expe- engenheiros, meus interlocu- todo aquele tempo sempre pre- riência teve a ver com a minha tores agora eram médicos. Não sente em nossas vidas beatlema- escolha profissional pela Comu- permaneci por tanto tempo, mas níacas. nicação Organizacional. Entrei aprendi muito, principalmente na empresa como assessor de sobre ações comunicacionais de Unisinos – É parte integrante planejamento, em uma área de accountability e de relaciona- da minha vida. É um local aonde Relações Públicas. Com muito mento estratégico, com públicos as pessoas chegam e saem com trabalho - e oportunidades - ga- essenciais. muita pressa. Eu não gosto des- nhei espaço e fui me direcio- se ritmo ansioso, pois a Unisinos nando para assumir a área, mas Casamento e filhas – Casei e tem tantas ofertas, lugares e faltava a formação em Relações tive duas filhas. A Gabriela, que se serviços que passam despercebi- Públicas. Iniciei o curso na UFR- formou em Direito na Unisinos e dos por quem tem tanta pressa. GS e lá permaneci por três se- tem 29 anos. E a Luísa, 22 anos, Enquanto instituição ela formou mestres, mas pedi transferência que cursa Ciências Sociais na UFR- e tem formado pessoas que ocu- para a Unisinos porque a Fede- GS e deseja ser arqueóloga. Atual- pam lugares transformadores na ral entrou em greve e eu queria mente resido em Novo Hamburgo. sociedade. Recebo notícias de me formar rápido. Já formado e muitos ex-alunos com trajetó- com reconhecimento na área re- Autores – Hermann Hesse e rias profissionais gratificantes cebi um convite para trabalhar Fritjof Capra. para quem por algum tempo lhes na Unisinos, como professor. ajudou a construir o seu proje- Eu já trabalhava na Ulbra como Livro – O Lobo da Estepe, de to de vida profissional. É assim docente no Curso de Adminis- Hermann Hesse, e o Despertar dos que encaro a minha atividade de tração. Por um tempo conciliei Mágicos, de Louis Pauwels e Jac- professor. aulas nas duas universidades e ques Bergier. o trabalho na empresa. Foi um IHU – Vejo o IHU com o me- período bem conturbado. Muitos Filme – O Homem de La Man- lhor dos olhares. Sempre que deslocamentos e dificuldade de cha, baseado em um musical da posso participo dos eventos conciliar o profissional e o fami- Broadway, escrito por Dale Was- promovidos pelo Instituto. Gos- liar. Então, optei pela Unisinos, serman e dirigido por Arthur Hil- to também das publicações. O onde estou trabalhando e apren- ler, sobre Miguel de Cervantes. IHU é o traço humanístico da dendo até hoje. Após a minha Unisinos. Dos espaços oferta- atividade executiva na Riocell Lazer – Ler, escutar música e até dos pela Unisinos é o que eu trabalhei no Hospital de Clínicas tocar música de vez em quando. mais freqüento, junto com a de Porto Alegre, na Assessoria Biblioteca. Neles me sinto mui- de Administração Central. De- Um sonho – Conhecer a to bem. flash.indd 59 9/11/2009 18:38:48
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    Destaques Fórum Social Mundial na Unisinos O IHU, em parceria com o Curso de Serviço Social, está preparando o IV Peça para Lula defender o clima Seminário de Políticas Públicas, que A preocupação com o futuro ambiental do planeta e a acontecerá em 27-01-2010, no An- exigência de que Convenção do Clima em Copenhague fiteatro Padre Werner, na Unisinos. assuma metas ambiciosas de redução de gases de efeito A quarta edição do evento compõe estufa deram origem à petição Tck Tck Tck, lançada em um conjunto de atividades autoges- todo o mundo e divulgada através da internet. No Brasil, tionárias do Fórum Social Mundial a campanha ficou conhecida como tic tac tic tac. 2010. O Fórum está de volta a Porto Alegre na edição em que comemora Nos próximos dias o presidente Lula deve divulgar o Plano seus 10 anos e será realizado de 25 a Climático do Brasil que será apresentado em Copenhague. 29 de janeiro de 2010. Pela manhã, O país é um personagem importante na conferência e, sem as atividades acontecerão na capital seu compromisso com metas fortes, as negociações do cli- gaúcha e à tarde nas cidades da região ma correm o risco de permanecerem estagnadas. Para que metropolitana. Cada uma das cidades o Brasil assuma uma postura eficiente, nesta segunda-fei- está sendo referência em uma grande ra, 09-11-2009, será entregue uma petição ao presidente temática. São Leopoldo acolherá os Lula, sinalizando que os brasileiros se importam com as participantes do Fórum para, entre mudanças climáticas. A campanha precisa de um número outros temas, debaterem o papel pú- massivo de assinaturas para mostrar ao governo que é hora blico das políticas sociais na garantia de agir. Contribua com o futuro do planeta e registre seu dos direitos. Essa discussão acontece nome no link http://www.avaaz.org/po/peticao_tictac_ no dia 27-01-2010, no Anfiteatro Pa- lula/. dre Werner, na Unisinos. Também no dia 26 de janeiro de 2010, o IHU Iniciativas do IHU participará do Fórum Mundial de Te- Além de suscitar o debate sobre as mudanças climáticas ologia da Libertação que se realizará e a Convenção do Clima em Copenhague nas Notícias do na Escola Superior de Teologia – EST. Dia do sítio do IHU e na IHU On-Line (A convenção do cli- O Instituto é uma das Institutições que ma em Copenhague. Um debate. Edição número 311, de integra o Conselho Permanente do FMTL 19-10-2009), o Instituto Humanitas Unisinos – IHU aderiu e apóia a atividade do FMTL no FSM - 10 a campanha tic tac tic tac. Na entrada do IHU você pode anos, com a temática: Libertação e Teo- assinar o abaixo-assinado que será entregue ao presidente. logia. Direito e justiça. Encontraram-se Nesta mesma perspectiva, o IHU também organizou um a graça e a verdade, a justiça e a paz se IHU Ideias especial sobre O futuro em Copenhague? Mu- beijaram (Sl 85,10). danças e mudanças, ministrado pelo Prof. Dr. Paulo Brack, do Instituto de Biociências do Departamento de Botânica Apoio: da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. flash.indd 60 9/11/2009 18:38:50