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HUBERTO ROHDEN




“QUE VOS PARECE
  DO CRISTO?”
        UNIVERSALISMO
“QUE VOS PARECE DO CRISTO?”



Este livro do filósofo e educador contemporâneo, professor HUBERTO
ROHDEN, totalmente reescrito e acrescido, é um dos mais importantes textos
na extensa bibliografia do autor. A força de seu conteúdo nos atinge como o
impacto de um pentecostes.

A obra é centrada numa das mais enigmáticas perguntas jamais feita neste
planeta Terra: “Que Vos Parece do Cristo?”, formulada por ele mesmo aos
seus discípulos.

A partir da sua formulação, há quase dois mil anos, a resposta definitiva e
universal ainda não nos fora dada.

Teólogos de diversas épocas têm tentado dar uma explicação a esta
interrogação inquietante, mas a maioria das vezes as respostas não atingem o
nível metafísico da sua verdadeira significação.

ROHDEN, conhecedor dos textos gregos – os mais próximos do original – , e
apoiado na sua imensa cultura e conhecimento dos escritos sobre a vida do
Cristo, mergulha analítica e intuitivamente na gênese da pergunta até a sua
resposta clara e definitiva.

A linguagem da obra é concentrada, una, simples, nítida e apresentada
linearmente. Ao folhearmos a última página, uma saciedade metafísica de
certeza e transbordamento nos aquieta e conforta. Sentimo-nos imensamente
enriquecidos. Agora sabemos a “saída para o futuro”.

ROHDEN alerta a seus leitores: “As páginas deste livro são dedicadas à
cristicidade individual de alguns, e não ao cristianismo social de muitos. Os
muitos condenarão este livro como heresia, e têm razão; mas é precisamente
este caráter herético a maior prova da sua autenticidade crística.

A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade da
mensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas é
uma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, como
dizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza.

É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro.

Feliz daquele que ler este livro.
E mais feliz ainda é aquele que puder viver e vivenciar esta experiência
crística.

“Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do que
estas”. Eis aí implicitamente a resposta suficiente e total. Sim, nós estamos
nele e ele está em nós. Tudo é possível.

Cristo – o Caminho, a Verdade e a Vida.
ADVERTÊNCIA



A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno
criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização
e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,
porque deturpa o pensamento.

Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a
transição de uma existência para outra existência.

O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.

Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se
aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa
mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.

Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer
convenções acadêmicas.
CRISTIANISMO – CRISTICIDADE



Antes de tudo, prevenimos o leitor que este livro não pretende justificar alguns
dos numerosos tipos de cristianismo que, há diversos séculos, existem nos
países ocidentais daquém e dalém-mar.

Damos plena razão a Nietzsche que, no princípio deste século, escreveu: “Se o
Cristo voltasse ao mundo em nossos dias, a primeira declaração que faria ao
mundo cristão seria esta: Povos cristãos, sabei que eu não sou cristão”.

Mahatma Gandhi respondia a todos os missionários cristãos que o queriam
converter: “Aceito o Cristo e seu Evangelho, não aceito o vosso cristianismo”.

Albert Schweitzer, teólogo cristão e filho de um ministro evangélico, escreveu:
“Nós injetamos nos homens o soro da nossa teologia, e quem é vacinado com
o nosso cristianismo está imunizado contra o espírito do Cristo.

Abraham Lincoln, um dos maiores presidentes dos Estados Unidos, nunca se
filiou a nenhuma das muitas igrejas cristãs que há nesse país, porque estava à
espera da igreja do Cristo.

Por que esta discrepância entre Cristo e cristianismo, da parte de pessoas
espirituais e sinceras?

Porque é impossível identificar o Cristo com alguma organização religiosa;
qualquer tentativa destas é necessariamente uma deturpação e uma falência.
Toda a organização é produto do ego, e esse ego é, por sua natureza,
egocêntrico, e por isso anti-crístico.

A única coisa que pode haver é uma experiência crística individual, mas
nunca uma organização cristã social. Diversas pessoas têm tido e têm
experiência crística; e onde há muita plenitude há necessariamente um
transbordamento. Se houvesse muitos homens individuais com genuína
experiência crística, o mundo social seria grandemente beneficiado por essa
plenitude individual.

A cristicidade de muitos produziria, por via indireta, uma espécie de
cristianismo social por indução.

Mas o que é impossível e contraproducente é que o espírito do Cristo seja
expresso por uma organização qualquer, como o ocidente tem tentado
inutilmente.
Disto sabia o Cristo quando preveniu os seus conterrâneos, dizendo: “O reino
dos céus não vem com observâncias, nem se pode dizer ei-lo aqui, ei-lo acolá!
O reino dos céus está dentro de vós”.

Existem no Brasil três tipos principais de cristianismo: católico, protestante e
espírita. Será que alguma dessas organizações certamente sinceras, pode ser
identificada com a genuína mensagem do Cristo? Teria o Cristo feito consistir a
grandiosa mensagem cósmica do seu Evangelho em confissão, comunhão e
missa? Ou em ler a Bíblia de capa a capa e crer no sangue redentor de Jesus?
Ou ainda em caridade e crença em sucessivas reencarnações? Se assim
fosse, seria Jesus um hábil codificador de preceitos e proibições, mas nunca
esse gênio cósmico que foi o Cristo Real da história.

Radha Krishnan, antigo presidente da Índia, escreveu: “A religião da
humanidade do futuro será a mística”.

A mística é uma experiência estritamente individual, que, quando organizada
socialmente, deixa de existir, assim como vida encaixotada não é vida, luz
engarrafada não é luz. É da íntima essência da experiência mística ser
individual, o que todavia não impede que essa verticalidade individual se
desdobre em horizontalidade social; mas esse desdobramento ou
transbordamento só acontece quando a experiência vertical atinge o zênite da
sua plenitude.

O nosso mundo conturbado não pode ser sanado por nenhuma nova
organização, religiosa ou civil; somente a experiência mística de muitos pode
beneficiar realmente a humanidade.

Toda a mística verdadeira e plena é irresistívelmente transbordante e difusora;
se não for isto, não passa de misticismo, mas não é uma mística dinâmica.

O Cristo nunca organizou nada, nem no âmbito religioso da Sinagoga de Israel,
nem no setor civil da política do Império Romano. A sua atuação foi
exclusivamente indireta, por espontâneo transbordamento da sua própria
plenitude, porque, como diz Paulo de Tarso, nele habitava corporalmente toda
a plenitude da Divindade.

Durante quase três séculos, do ano 33 até 313, a cristandade das catacumbas
vivia dessa cristicidade mística, sem nenhuma organização social. E foi este o
período mais glorioso do mundo cristão, o período da verticalidade mística das
catacumbas, cuja única saída era para o martírio no Coliseu.

Sabemos que no ano 33, foi Jesus entregue à morte pelo beijo de um de seus
discípulos – mas muitos ignoram que o mesmo Cristo, no ano 313, foi
assassinado pelo beijo de outro discípulo dele, o primeiro imperador cristão
Constantino Magno. O beijo de Judas matou o corpo de Jesus – o beijo de
Constantino matou o espírito do Cristo.
Judas versus Jesus.

Constantino versus Cristo.

O beijo com que Constantino Magno traiu o Cristo foi o Edito de Milão, do ano
313, que pôs termo a três séculos de perseguição – mas com este benefício de
discípulo preludiou séculos de malefícios de traidor: convidou os discípulos do
Cristo a se integrarem na organização do Império Romano; fez do cristianismo
a religião oficial do Estado, uma religião estatal, defendida mediante armas,
política e dinheiro – armas para matar os inimigos, política para enganar os
amigos, dinheiro para comprar e vender consciências.

O Edito de Milão foi o fim de três séculos de cristicidade – e o princípio de
muitos séculos de cristianismo, social, político, militar.

O cristianismo de Constantino continua até hoje no mundo oficial, das igrejas e
de alguns governos.

Paralelamente, à sombra das catacumbas do silêncio e da solidão, continua em
algumas almas a cristicidade dos místicos, cujos nomes não constam e cujas
estátuas não figuram em praças e salões.

                                      ***

As páginas deste livro são dedicadas à cristicidade individual de alguns, e não
ao cristianismo social de muitos. Os muitos condenarão este livro como
heresia, e têm razão; mas é precisamente este caráter herético a maior prova
da sua autenticidade crística.

É sabido que a Europa moderna, sobretudo França, Alemanha, Inglaterra,
abandonou praticamente o cristianismo tradicional das igrejas. Por isto os
teólogos e missionários se voltam para os povos subdesenvolvidos e semi-
analfabetos da América Latina, onde ainda é possível a aceitação do
cristianismo teológico, como no tempo do Império Romano, quando esse
cristianismo surgiu. Os países do Oriente não aceitarão jamais o nosso
cristianismo em sua forma eclesiástica, porque a cultura filosófica milenar do
Oriente é incompatível com as nossas teologias; até hoje, após séculos de
esforços missionários, não há 1% (um por cento) de cristãos nos países
asiáticos.

A verdadeira mensagem do Cristo é perfeitamente compatível com a mais alta
evolução cultural da humanidade – mas não com as nossas teologias cristãs.

A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade da
mensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas é
uma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, como
dizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza.
É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro.

                                      ***

Com isto não condenamos as organizações eclesiásticas ou religiosas que
aparecem com o nome de cristianismo. Sabemos que um grupo numeroso de
pessoas necessita de uma religião padronizada, que eles passam encampar
como norma moral. Essa religião padronizada pode ser considerada como uma
espécie de corpo, mas não como a alma do cristianismo, que é o próprio
Evangelho do Cristo.

Sendo a maioria das organizações religiosas constituídas de massas de pouca
evolução, devem os membros delas crer o que podem crer, sabendo, porém,
que a verdadeira mensagem do Cristo é algo infinitamente mais sublime,
consistindo na realização do Reino de Deus na vida diária.

Enquanto as crenças e práticas externas não impedirem a realização do Reino
de Deus, podem elas ser toleradas; mas, se alguém identificar com elas a alma
da mensagem do Cristo, constituem impedimento para a realização do Reino
de Deus sobre a face da terra.
O MISTÉRIO DA ETERNA FASCINAÇÃO DO CRISTO



Livros sem conta se têm escrito sobre o Cristo.

Amor sem medida se tem jurado ao Cristo.

E, no entanto, eternamente enigmático é o motivo dessa fascinação do Cristo.

Tentaremos desvendar cautelosamente o porquê desse fascínio.

Todo o homem é inconscientemente o que o Cristo é conscientemente – e o
que nós somos potencialmente.

A fascinação que sentimos em face do Cristo é a visão do nosso próprio Eu, se
fosse plenamente realizado.

Esse Eu do Cristo interno, sempre realizável e sempre realizando, e jamais
realizado...

Fascina-nos o próprio ego humano na visão longínqua do Eu crístico.

Fascina-nos a planta dormente na semente.

Sentimos o doloroso anseio de sermos explicitamente o que somos apenas
implicitamente.

Contemplamos o nosso “sopro divino” embrionário na adultez da “imagem e
semelhança de Deus”.

Vislumbramos o que poderíamos ser – e ainda não somos.

“Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do que
estas.”

Como nos fascinam estas palavras!

Soam como sinos a tanger em praias longínquas.

Como convites para uma solenidade transcendental.

Como enlevos de amor mesclados de dor.

Como uma alvorada de luz num ocaso de trevas.

O nosso Cristo-amor é um auto-amor em outra dimensão.
É amar o nosso Cristo interno no Cristo eterno.

Todo o auto-amor, que parece alo-amor, é um Teo-amor.

Se nunca ninguém se realizara plenamente, como poderíamos nós ansiar por
nossa auto-realização?

Agora vislumbramos em espelho e enigma o que esperamos contemplar face a
face.

Toda a fascinação do Cristo é uma auto-fascinação em ínfima potência.

É uma resposta à eterna pergunta: Que é o homem?
QUE É O CRISTO?



A pergunta que serve de título a este livro foi feita, há quase 2000 anos, por
Jesus aos chefes da Sinagoga de Israel. E eles responderam que o Cristo era
filho de David, isto é, um descendente do rei de Israel, pai de Salomão.

Jesus não aceita a resposta, porque, de fato, o Cristo não é filho de David.

Esta confusão entre Cristo e Jesus é, pois, antiquíssima, e continua até hoje.

Que é o Cristo, o Ungido, que os antigos hebreus chamavam Messias, o
Enviado?

O quarto Evangelho designa o Cristo com a palavra Logos, começando o texto
com estas palavras:

“No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”.

A palavra grega Logos é muito anterior à Era Cristã. Os filósofos antigos de
Alexandria e de Atenas, sobretudo, Heráclito de Éfeso, designavam com Logos
o espírito de Deus, manifestado no Universo. Logos seria, pois, o Deus
imanente, em oposição à Divindade transcendente, que não é objeto de nosso
conhecimento.

A Vulgata Latina traduz Logos por Verbo: “No princípio era o Verbo...”.

Logos, Verbo, Cristo são idênticos e designam a atuação da Divindade
Creadora, a manifestação individual da Divindade universal.

Neste sentido, o Cristo é Deus, mas, não é a Divindade. E neste sentido diz ele
aos HOMENS: “Vós sois deuses”; os homens são manifestações individuais da
Divindade Universal. A primeira e mais perfeita das manifestações da
Divindade Universal, no Universo, é o Cristo, o Verbo, o Logos, que Paulo de
Tarso chama acertadamente “o primogênito de todas as creaturas” do
Universo.

O Cristo é anterior à creação do mundo material. Ele é, “o Primogênito de todas
as creaturas”. O Cristo não é creatura humana, mas a mais antiga
individualidade cósmica, que, antes do princípio do mundo, emanou da
Divindade Universal.

O Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que Jesus designa com o nome Pai:
“Eu e o pai somos um, mas o Pai é maior do que eu”.
Deus, na linguagem de Jesus significa uma emanação individual da Divindade
universal.

A confusão tradicional entre Deus e Divindade tem dado ensejo a intermináveis
controvérsias entre os teólogos. Mas o texto do Evangelho é claro: O Cristo
afirmou ser Deus, mas nunca afirmou ser ele a própria Divindade.

O Gênesis de Moisés principia com as palavras: “No princípio crearam os
Elohim o céu e a terra”.

O quarto Evangelho, de João, abre com palavras semelhantes: “No princípio
era o Logos... por ele foram feitas todas as coisas”.

Parece, pois, que as Potências Creadoras (em hebráico Elohim) são idênticas
ao Logos, pelo qual foram creadas todas as coisas.

Elohim, Logos, Verbo, Cristo – são nomes vários que designam a creatura
cósmica que, antes do mundo material, emanou da Divindade transcendental.

A filosofia oriental chama a Divindade universal Brahman, e dá o nome de
Brahma à mais antiga individuação da Divindade.

Brahma seria igual a Deus, Cristo, Logos, Verbo.

Não existe em todo o Universo uma única creatura definitivamente realizada e
incapaz de se realizar ulteriormente. Toda e qualquer creatura, mesmo
Brahma, ou Cristo, são creaturas altamente realizadas, mas sempre
realizáveis; são, por assim dizer, sinfonias inacabadas. Toda e qualquer
creatura, mesmo a mais perfeita creatura cósmica, é ulteriormente evolvível ou
realizável. A vida eterna não é uma chegada, uma parada, uma meta final – é
uma incessante jornada ou evolução rumo ao Infinito, sem jamais coincidir com
o Infinito. Todo o finito, diz a matemática, em demanda do Infinito, está sempre
a uma distância infinita.

Panta rhei, tudo flui, diziam os filósofos antigos; tudo é relativo, escreve
Einstein em nosso século.

A Divindade, o Infinito, o Absoluto, não é objeto de nosso conhecimento. Tudo
que sabemos se refere ao Relativo, ao Fluídico, ao Evolvível, que está em
incessante evolução.

Referem os livros sacros que Cristo, a mais antiga creatura cósmica, se
encarnou na pessoa humana de Jesus.

Sendo que esta descida do Cristo cósmico às baixadas do planeta terra, é um
fenômeno incompreensível, têm os homens feito inúmeras conjeturas sobre o
porquê dessa encarnação do Cristo. E ele mesmo, na pessoa de Jesus, nunca
disse claramente da finalidade da sua homificação.
Entretanto, sendo o Cristo o maior dos avatares do Universo conhecido,
podemos interpretar a encarnação dele pelas normas dos outros avatares, de
que passaremos a ocupar-nos num dos capítulos deste livro.
A ANTIDROMIA PARADOXAL DOS AVATARES



A palavra sânscrita avatara quer dizer “descido”, e designa uma entidade de
elevada evolução que resolveu descer da sua altura às baixadas de regiões
inferiores.

Esta descida voluntária do avatar faz parte do drama da sua evolução
ascensional.

Esta contra-corrida, ou antidromia, representa um elo na longa cadeia da sua
auto-realização, como diríamos em termos modernos.

 Quando um avatar atinge grande nível de evolução e libertação, tem ele o
desejo de descer externamente às baixadas a fim de realizar a subida a
maiores alturas, na escala da sua incessante auto-realização.

Todos os avatares sabem, pela voz da sua consciência, que não há evolução
sem resistência, sem luta, sem sofrimento. E, como nas regiões superiores do
espírito não há suficiente resistência e sofrimento, resolve o avatar descer a
regiões inferiores da matéria em busca da necessária resistência.

Esta antidromia parece ao inexperiente uma espécie de masoquismo. Mas
para o avatar o sofrimento não é um fim, mas sim um meio para um fim mais
sublime. O avatar procura resistência e sofrimento a fim de prosseguir na linha
ascensional da sua evolução indefinida.

Este desejo de ulterior evolução parece egoísmo aos ignorantes, mas é o
imperativo duma realização superior para o avatar, que já superou todos os
estágios do egoísmo ilusório e trata exclusivamente da sua auto-realização,
que é a lei de todo o Universo. As leis cósmicas não conhecem estagnação,
nem involução; mas incessante evolução.

Auto-realização é santidade, é auto-afirmação, é amor divino na creatura
evolvível.

Quanto mais liberto se sente o avatar tanto mais desejo tem ele de se
escravizar voluntariamente por amor.

Por amor de que?

Muitos pensam que o amor do avatar vise os seres inferiores no meio dos
quais ele encarna. Mas a verdade é que o amor do avatar visa sobretudo o
próprio avatar e sua evolução superior. Como já dissemos, não há nenhum
resquício de egoísmo nesse auto-amor, que é supremo imperativo cósmico e
divino: sede perfeitos, como perfeito é vosso pai.

Entretanto, apesar de o amor do avatar ser um auto-amor, indiretamente é ele
também um alo-amor, porque redunda em benefício dos seres inferiores que
lhe causam resistência e sofrimento. Segundo leis eternas, toda a plenitude
transborda infalivelmente. Quanto mais o avatar se auto-plenifica, tanto mais a
sua plenitude transborda em beneficio de outros seres.

“Da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça,” diz o texto sacro
com referência ao maior dos avatares.

Esses seres superiores que realizam a sua própria plenitude são os benfeitores
ignotos de outros seres. Não é possível ser realmente bom sem fazer bem a
outros seres devidamente receptivos.

É esta a maravilhosa simbiose do Universo.
O QUE PAULO DE TARSO PENSAVA DO CRISTO



Paulo de Tarso tem sido acusado de ter introduzido no cristianismo um Cristo
diferente de Jesus dos Evangelhos. De fato, ele fala mais do “Cristo, Rei
imortal dos séculos” do que do Jesus, o carpinteiro de Nazaré, que ele não viu
em carne. Ele se gloria de ser apóstolo, não do “Jesus carnal”, mas do Cristo
imortal, que lhe apareceu às portas de Damasco, e o transformou totalmente.

Dizem alguns teólogos que Paulo transformou o humilde Jesus da Galiléia num
herói e redentor do mundo, à maneira dos super-homens dos escritores
gregos.

Sobretudo nas Epístolas aos Colossenses, aos Efésios e aos Filipenses, exalta
Paulo as glórias do Cristo cósmico, que bem pouca semelhança tem com o
singelo Jesus dos evangelistas. “No Cristo converge como na cabeça tudo
quanto existe no céu e na terra”. O Cristo é “superior a todos os principados,
potestades, virtudes e dominações, e que outro nome haja, não só neste
mundo, mas também no outro – ele, que de tudo enche o Universo inteiro”.

Estas palavras lembram o início da Epístola aos Filipenses, em que Paulo
canta o Cristo cósmico, que estava na glória de Deus, e não julgou dever
aferrar-se a essa divina igualdade, mas esvaziou-se dos esplendores divinos e
revestiu-se da natureza humana, tornando-se homem, servo, vítima,
crucificado. E por isto Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que
está acima de todos os nomes, de maneira que, em nome do Cristo, se dobram
todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres, e todos
confessam que ele é o Senhor.

 Nestas palavras, como já dissemos, Paulo descreve a passagem do Cristo
pré-humano para um super-Cristo pós-humano, tornando-se maior depois da
encarnação do que era antes. A Vulgata Latina diz que Deus o exaltou, mas o
original grego de Paulo diz enfaticamente que Deus o super-exaltou, ou o
exaltou soberanamente, tornando-se ele maior do que fora. Os teólogos
dogmáticos não admitem uma evolução no Cristo, porque identificam o Cristo
com a própria Divindade, em que não há evolução; mas, se o Cristo é o
“primogênito de todas as creaturas”, na expressão de Paulo, é possível uma
evolução.

 Aos colossenses, que identificavam o Cristo com os anjos superiores, escreve
Paulo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de todas as creaturas,
porque nele foram creadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e
invisíveis – tudo foi creado por ele e para ele. Ele é anterior ao Universo, e nele
o Universo subsiste. Ele ocupa a primazia em todas as coisas, e nele aprouve
residir toda a plenitude”. A plenitude (pléroma) é, para Paulo, a Divindade, em
oposição à vacuidade (kénoma). Para Paulo, o Cristo é a primeira e mais
perfeita emanação individual da Divindade Universal, anterior a qualquer outra
creatura, sendo ele a primeira de todas as creaturas cósmicas, o Alfa e
Ômega, no dizer de Teilhard de Chardin, o princípio e o fim, na linguagem do
Apocalipse.

O Cristo, é, segundo João, o “Unigênito do Pai”, a creação única da Divindade,
o único Teo-gênito, ao passo que nós e todas as outras creaturas somos
Cristo-gênitos, creados pelo Cristo, como diz o autor do quarto Evangelho:
“Por ele foram feitas todas as coisas, e nada do que foi feito foi feito sem ele”.

A confusão que certos teólogos fazem entre Deus e Divindade, tem dado azo
a controvérsias seculares e milenares. Segundo os livros sacros, sobretudo na
visão de João e de Paulo, o Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que ele
chama “Pai”, que está no Cristo e no qual o Cristo está, mas “o Pai é maior do
que eu”. Deus, à luz dos livros sacros é a mais alta emanação individual da
Divindade Universal, portanto creatura da Divindade, o “Primogênito de todas
as creaturas”.

Em face disto, compreende-se que Pedro, numa das suas epístolas previna os
cristãos daquele tempo, dizendo que, nos escritos do irmão Paulo, há certas
passagens difíceis que os ignorantes pervertem para sua própria perdição. De
fato, para Pedro e os outros pescadores galileus, deve ter sido difícil ter uma
visão exata do Cristo cósmico do erudito ex-rabino e iluminado vidente do
Cristo-Logos. Uma intuição cósmica nunca é exprimível em termos de análise
intelectual. Tanto em nossos dias como naquele tempo persiste esta mesma
dificuldade. Ainda hoje há filósofos e teólogos que consideram Paulo de Tarso
como um falsificador dos Evangelhos, como um contrabandista que tenha
introduzido no cristianismo um Cristo Cósmico ao lado do singelo Jesus
nazareno. Entretanto, o Cristo de Paulo é o mesmo Nazareno descrito pelos
Evangelistas, mas visualizado da excelsa perspectiva do Logos pré-histórico,
que também João, o místico, descreve no início do seu Evangelho: “No
princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”.

O Cristo cósmico, pré-humano, e o Jesus cosmificado pelo Cristo, pós-humano
– é esta a grandiosa síntese de Paulo de Tarso, o Alfa e Ômega da sua
vivência e de todas as suas epístolas.
O CRISTO À LUZ DO QUINTO EVANGELHO



O Quinto Evangelho, do Apóstolo Tomé, recentemente descoberto no Egito,
não é uma biografia de Jesus, como os outros Evangelhos; refere apenas 114
aforismos do Mestre.

Esses aforismos giram, quase todos, em torno da idéia central do Reino de
Deus, que está no homem e que deve manifestar-se fora dele, na sociedade e
no mundo inteiro.

 Há entre esses pequenos capítulos do Quinto Evangelho, alguns tão
profundamente místicos que não podem ser analisados intelectualmente, mas
sim intuídos espiritualmente. Os aforismos 13 e 13-A referem o seguinte:

“Disse Jesus a seus discípulos: Comparai-me e dizei-me com quem me pareço
eu.

Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo.

Disse Mateus: Tu és semelhante e um homem sábio e compreensivo.

Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu és
semelhante.

Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da fonte
borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste.

Então levou Jesus Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três
palavras. E, quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, esses lhe
perguntaram: que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se eu vos
dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me –
e das pedras romperia fogo para vos incendiar”.

O sentido profundo destas palavras não pode ser falado, mas tão-somente
calado. E é por esta razão que Tomé preferiu o silêncio, quando o Mestre lhe
pediu opinião sobre ele.

O profundo silêncio de Tomé é a mais eloquente declaração da grandeza
indizível do Cristo; abriu os canais para o influxo da intuição espiritual.

A última verdade sobre o Cristo não pode ser dita nem pensada. O que se
pode pensar, já está adulterado; e, se o pensado for falado, há uma segunda
deturpação; e se esse pensado e falado for escrito, completa-se a terceira
falsificação da verdade.

As grandes verdades só podem ser recebidas em total silêncio, mensagem da
própria alma do Universo. Por isto, Tomé preferiu calar-se duas vezes: não
deu sua opinião sobre o Cristo, nem revelou aos outros o que o Mestre lhe
disse quando o levou à parte e lhe falou a sós.

 Quem quer saber realmente o que o Cristo é, deve calar-se em tão profundo
silêncio receptivo que a cosmo-plenitude possa plenificar a sua ego-vacuidade.
Podemos apenas soletrar o abc sobre o Cristo, mas, para saber e saborear
realmente o que ele é, temos de entrar na Universalidade Cósmica do silêncio.

O que há de mais estranho nessa passagem são as palavras que Jesus disse
a Tomé: “Eu não sou teu Mestre”, porque já ultrapassaste o Jesus humano e
entraste na visão do Cristo divino; bebeste do cálice da sabedoria suprema, e
por isto preferiste calar-te.

Depois disto, o Mestre levou Tomé à parte e lhe revelou silenciosamente a
plenitude do Cristo, revelação tão transcendental que Tomé não se atreveu a
comunicá-la a seus colegas, que o teriam considerado louco e o teriam
apedrejado como blasfemador; mas das próprias pedras teria saído fogo em
testemunho da verdade.

Esta revelação anônima e inefável que o Mestre fez a Tomé é um dos pontos
culminantes do Evangelho. À pergunta “que vos parece do Cristo?” opõe Tomé
o silencio absoluto, que é a melhor resposta.
“CRISTO, O PRIMOGÊNITO DE TODAS AS CREATURAS”



Com estas palavras declara Paulo de Tarso que o Cristo cósmico, o Verbo, o
Logos, é creatura – mas não nega que ele é Deus. Ele é a primeira de todas as
creaturas – cósmicas, mão humanas – que emanaram da eterna Divindade. Ele
não é essa Divindade, tanto assim que o próprio Cristo afirma que a Divindade,
que ele chama “Pai”, é maior do que ele.

Há quase 2000 anos que filósofos e teólogos discutem se o Cristo é Deus ou
não. E não chegaram a um acordo.

Por que não?

Porque confundem Deus com Divindade.

Os concílios definiram que o Cristo é Deus e excomungaram a todos os que o
negam; mas não estabeleceram diferença nítida entre Deus e a Divindade,
tentando evitar o politeísmo mediante o recurso à “Trindade”, do qual o Cristo
seria a segunda pessoa.

O enigma não existe na realidade, e os livros sacros estabelecem
compatibilidade entre Deus e creatura. O Cristo é Deus e é creatura. Nem o
Cristo e seus discípulos afirmaram que o Cristo era a Divindade. O Cristo nega
explicitamente a sua identidade com o “Pai” (Divindade): “Eu e o Pai somos
um, o Pai está em mim, e eu estou no Pai, mas o Pai é maior do que eu”.

Se ele não tivesse dito o Pai é maior do que eu, poderíamos pensar que ele
se tivesse igualado à Divindade. Mas ele nega expressamente a sua identidade
com a Divindade, apesar de se dizer Deus.

Façamos uma comparação ilustrativa: um ser vivo pode dizer; eu estou na vida
e a vida está em mim, mas eu não sou a vida, sou apenas um vivo; a vida é
infinitamente maior do que eu.

Deus é uma emanação da Divindade, mas não é a Divindade.

A dificuldade dos teólogos nasce do fato de eles professaram o monoteísmo
mosaico, ao passo que o Cristo fala em termos de monismo cósmico. O
Evangelho é essencialmente monista, como, aliás, são todos os grandes
gênios e místicos; todos os finitos estão no Infinito, mas nenhum finito, nem
mesmo a soma total dos finitos, é o Infinito. No monismo não há cabimento
para uma Divindade pessoal, porque toda a personalidade é necessariamente
finita, ao passo que e Divindade é infinita e impessoal. Por isto, ela é
infinitamente além de qualquer personalidade. Um Deus pessoal não pode ser
a Divindade Infinita.

A lógica dos livros sacros é absoluta, ao passo que os teólogos sofrem de um
deplorável ilogismo, base de todas as confusões sobre o Cristo.

Toda a cristologia dos livros inspirados se torna compreensível, quando se faz
nítida distinção entre Deus e Divindade.

Há milênios que a sapiência da filosofia oriental faz essa distinção: Brahman é
a Divindade, ao passo que Brahma, Vishnu e Shiva são Deus, emanações
individuais da Divindade Universal.

Quando Jesus, citando uma passagem da Bíblia do Antigo Testamento, diz aos
Judeus: “Vóis sois deuses”, toma ele a palavra Deus no sentido de creatura.

O Cristo, segundo João, é o “Unigênito do Pai” (da Divindade); é o Deus-
creatura, o Deus-gênito. Segundo Paulo de Tarso, é o Cristo o Primogênito de
todas as creaturas, o primeiro Deus ou emanação oriunda da Divindade. O
Cristo-Lógos é o único “gênito”, ou filho, emanação da eterna Divindade. As
outras creaturas, inclusive os homens, são Cristo-gênitas, mas não diretamente
Teo-gênitas; o Teo-gênito é um só, os Cristo-gênitos são muitos.

O texto grego do quarto Evangelho favorece esta explicação, quando diz: “No
princípio era o Logos (Cristo, Verbo) e o Logos estava com a Divindade, e o
Logos era Deus”. Quando o grego usa “Theós” sem artigo, devemos entender,
um Deus, quando usa “ho-Theós”, com artigo definido, “devemos entender a
única Divindade”.
É O CRISTO O FILHO UNIGÊNITO DO PAI?



Toda a cristandade está habituada, há milhares de anos, a dizer e repetir que o
Cristo é o “Filho Unigênito do Pai”, como diz João.

Acima de tudo, devemos lembrar, que a palavra pai equivale a “Divindade”, que
nada tem que ver com uma pessoa, como é usado na língua tradicional.

Podemos dizer que o Cristo, o Verbo, o Logos, era “Filho” da Divindade?

A palavra “Filho”, no sentido comum, supõe um Pai e uma Mãe; ninguém é filho
só de um pai, ou só de uma mãe. A bipolaridade Universal da natureza viva só
conhece filho como produto de um pai e de uma mãe.

Mas, na Divindade não há pai nem mãe, nem doador nem receptora, nem
dativo nem receptivo, nem positivo nem negativo. A Divindade é absolutamente
neutra, embora esse neutro contenha implicitamente o pólo positivo e o pólo
negativo, o doador e o receptor.

A expressão “filho” é um termo antropomórfico derivado do costume de nós só
conhecermos filho como produto sintético de pai e mãe.

Nesse sentido, o Cristo não é filho. Na Divindade não há nem gerador nem
geradora, não há pai nem mãe.

Quando o Uno da Essência se manifesta no Verso da Existência, temos uma
emanação, um eflúvio, um efluxo, isto é, uma manifestação parcial, finita, da
Divindade total, Infinita.

Se dermos ao Uno da Divindade o nome de Essência, então o Verso da
creaturidade é uma Existência, uma ex-sistência, algo colocado para fora, ou
revelado, manifestado. Em caso algum, pode essa existência ser uma
revelação total da Essência, nem mesmo uma divisão ou desmembramento da
Essência. A Essência, como pura qualidade, se manifesta pela Existência
quantitativa, sem nada perder da sua Essência qualitativa.

 A soma total do verso emanado do Uno em nada afeta a inteireza ou
totalidade do Uno.

Quando um pensador emite pensamentos, esses não diminuem o pensador,
nem a soma total dos pensamentos emitidos é o pensador emissor – isto
suposto que o emissor seja um finito em sua essência.
Quando uma quantidade emite quantidades, ela é diminuída – assim como
uma fogueira é diminuída na razão direta das centelhas emitidas. Mas, quando
a Essência qualitativa emana ou emite existências quantitativas, ela não é
afetada por essas emanações quantitativas.

O Cristo cósmico, de que fala o quarto Evangelho, é a primeira e mais perfeita
emanação da Divindade, a mais perfeita existência emanada da Essência.

Isto, todavia, não significa que o Cristo seja infinitamente e absolutamente
perfeito, porque nenhuma existência pode ser de absoluta perfeição; se assim
fosse a existência emitida seria idêntica à Essência emissora. Uma creatura
absolutamente perfeita é um conceito intrinsecamente contraditório, como um
círculo quadrado.

Quando Paulo de Tarso diz que o Cristo é o primogênito de todas as creaturas,
supõe ele que o Cristo seja creatura e não o Creador, e toda a creatura é
evolvível, de perfeição elástica, aumentável. Nenhuma creatura pode coincidir
com o Creador.

Crear é a manifestação parcial da Essência em forma de uma existência – ao
passo que criar seria a transição de uma existência em outra existência.

De Creador à creatura só existe uma relação de crear.

De creatura à creatura existe uma relação da criação, ou seja, de evolução.

Crear é receber da Essência uma existência – a creação vem do Todo, da
Essência, ainda que do Nada da Existência. Pela creação, o Nada da
Existência passa a ser o algo da existência.

A creação não aumenta a Realidade – manifesta apenas a Realidade em
facticidades.

Por outro lado, a des-creação, ou aniquilamento da existência, não implica em
nenhuma diminuição da Realidade, que é sempre Infinita, com ou sem
facticidades.

Salomão diz que a sabedoria de Deus brinca todos os dias, brincando sobre
toda a redondeza da terra.

E a filosofia oriental afirma que Brahman, a Divindade, faz lila, ou bailado, com
maya, a natureza.

A creação é pois uma espécie de brinquedo, ou bailado, que a Essência
Infinita faz com as existências finitas. Brincar, bailar, parecem indicar leveza,
espontaneidade, serenidade. A creação é um ato livre da Divindade. Mas, na
Divindade, livre e necessário não são atos contrários, e sim complementares,
de maneira que poderíamos dizer que a Divindade crea livremente e
necessariamente as creaturas.

No infinito coincidem todas as linhas paralelas finitas num ponto indivisível. No
Infinito da Divindade há uma liberdade necessária, e uma necessidade livre.

Aqui termina toda a nossa análise mental, e começa a intuição cósmica. A
intuição cósmica vê perfeita logicidade na liberdade necessária e na
necessidade livre, como já dizia, no século XVII o exímio intuitivo Spinoza.

O Cristo é a mais perfeita emanação da Divindade – uma perfeição
indefinidamente perfectível, como faz ver Paulo de Tarso, na Epístola aos
Filipenses.

Segundo o quarto Evangelho, o mundo material é uma creação do Cristo, e
também esta creação se acha em permanente estado de evolução. A indefinida
evolvibilidade de todas as creaturas, telúricas ou cósmicas, faz lembrar o fluxo
perpétuo de Heráclito de Éfeso – ou a teoria da relatividade de Einstein. Todos
os finitos, todas as creaturas, são antes um devir do que um ser, antes um
processo do que um estado. O Uno do Ser, manifestado no Verso do dervir, é
que se chama Universo, a unidade na diversidade, o Infinito revelado como
finito.

A mais alta emanação da Divindade Infinita é o Cristo finito e evolvível.

Na Era Eletrônica e Atômica em que vivemos, é mister usar na metafísica a
mesma acribia que a ciência usa na física. A clareza do pensamento se
manifesta na exatidão das palavras.

Hoje em dia, deveríamos dizer que o Cristo é a primeira e mais perfeita
emanação da Divindade Universal em forma de creatura individual. Esta
emanação cósmica se tornou materialmente perceptível na pessoa humana de
Jesus de Nazaré.

Embora o Cristo e Jesus estejam inseparavelmente unidos para sempre, não é
lógico identificar simplesmente Jesus com o Cristo.

Quando o homem, em horas de profunda cosmo-consciência, intue a
Realidade para além de todas as facticidades, então tem ele a revelação exata,
embora impensável e indizível, do Universo, da Essência Uma revelada em
existências várias – do Cristo cósmico humanado – e do Jesus humano
cosmificado.
É O CRISTO O CREADOR DO MUNDO?



Falando do Verbo, do Cristo-Logos, diz o quarto Evangelho que “por ele foram
feitas todas as coisas, e nada do que foi feito, foi feito sem ele ”.

Com isto declara o evangelista João que o Cristo é o Creador do Universo.

Na última ceia, despede-se Jesus dos seus discípulos e se dirige ao Pai,
dizendo: “Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em ti, antes que o
mundo fosse feito”.

Com isto, ao que parece, refere-se ele à sua existência cósmica anterior à
creação do Universo material, realizada por ele. Parece, dizem alguns, que a
creação do mundo material diminuiu a glória do Creador Cristo, e ele reentra
agora no esplendor da sua glória pré-mundial.

A creação dos mundos, diz a filosofia oriental, é o “sacrifício cósmico” de
Brahman. Brahman, em sânscrito, corresponde à Divindade Universal,
absoluta, ao passo que Brahma, corresponde ao Deus individual, ao Cristo
creador. Brahman como tal é a Divindade neutra, a grande Tese, ainda não
bipolarizada nas antíteses positiva e negativa. Com a creação material principia
a bipolaridade, base de toda a evolução do Universo.

Segundo a filosofia oriental, o Creador é Brahma, Deus, mas não Brahman, a
Divindade. A Divindade é o Ser, Deus é Agir.

No Gênesis de Moisés, aparecem os Elohim, as Potências Creadoras, como
autores do Universo: “No princípio crearam os Elohim o céu e a terra”.

Brahma, Logos, Elohim, podem ser identificados, designando o princípio do
Agir, enquanto Brahman, a Divindade, Yahveh, designam o princípio do SER.
A palavra Elohim, que aparece nos primeiros capítulos do Gênesis hebraico,
em vez de Yahveh, pode ser etimologicamente identificado com Logos, palavra
grega para “Verbo” ou Cristo.

Brahma, Lógos, Elohim significam, pois, o Deus-Agir concreto, a imanência da
essência na existência, o aspecto concreto da Divindade abstrata do puro Ser.

A Divindade transcendente no seu Ser não é objeto do nosso conhecer.

O Uno da Divindade Universal abstrata como Ser revela-se pelo Deus concreto
do Agir, e assim é por nós cognoscível.
O Cristo, é, pois, o “Teo-gênito, o filho da Divindade”, ao passo que nós e o
mundo somos Cristo-gênitos, e não diretamente Teo-gênitos. Em última
análise, é claro, tudo é Teo-gênito, nascido da Divindade. Do Uno do Absoluto,
do Infinito, nasce todo o Verso dos relativos, dos finitos. O Uni-verso é o
Creador e as creaturas.

O Evangelho, depois de dizer que o Cristo-Logos é o Creador do mundo
prossegue:

“Nele estava a vida,

E a vida é a luz dos homens,

A luz brilha nas trevas,

E as trevas não a prenderam”

 Aqui, a filosofia cósmica de João atinge o clímax da estética literária, onde a
seguinte linha começa com a deixa da precedente:

................................................................................................. vida,

Vida ........................................................................................... luz.

Luz ........................................................................................ trevas,

Trevas ..............................................................................................

A quintessência do mundo creado, do Verso, é Vida, que é a fonte e base de
tudo, do mundo mineral, vegetal, animal.

Esta vida, porém, atingiu no mundo hominal a perfeição da luz, isto é, da vida
consciente. E as trevas do mundo inconsciente não prenderam a luz do
consciente; as trevas inconscientes não extinguiram a luz do consciente.

Com estas palavras sintetiza o quarto Evangelho os dois pólos de todo o
Universo creado: creação e evolução. A creação é a existência finita emanada
da Essência infinita, ao passo que a evolução é o processo ascensional de
uma existência rumo a outra existência. A Creação é, pois, o princípio das
existências finitas emanadas da Essência Infinita. O algo existente não veio do
nada, do inexistente; o algo veio do Todo. Esse algo veio, sim, do nada do
algo (do não-algo) mas veio também do Todo, do Infinito, da Essência. Todo o
Verso finito vem do Uno Infinito.

A creação não é algo separado do Infinito, assim como uma centelha que salta
da fogueira. A creação é comparável ao processo do pensamento em relação
ao pensador. O pensamento que o pensador pensa não é algo separado do
pensador, mas é o próprio pensador enquanto pensante. O pensamento é uma
manifestação parcial e imanente do próprio pensador.
Assim, a creatura está no Creador, é uma manifestação parcial e imanente no
Creador, é uma existêncialização finita da Essência infinita.

É esta a última palavra da filosofia perene: o monismo cósmico, equidistante
do monoteísmo dualista e do panteísmo ilógico. O Uno do Infinito presente em
todo o Verso dos Finitos é idêntico na Essência, mas diferente nas existências.

Para melhor compreensão, Brahman pode ser comparado com um lago
tranquilo, ao passo que Brahma é como uma torrente que flui desse lago e se
lança morro abaixo. O estado neutro do lago se manifesta em forma positiva e
negativa na torrente. No decurso da torrente, Brahma, a filosofia oriental vê
Vishnu, o continuador de Brahma, e finalmente Shiva, o consumador dos dois.
Em Vishnu ainda vemos as antíteses, ao passo que em Shiva aparece a
síntese.

O amor em Brahman é bondade; mas em Brahma essa bondade passiva se
converte em amor ativo; o ser-bom estático passa a ser um amar dinâmico; a
brasa tranquila deflagra em chama vivificante.
O CRISTO INTERNO



Até ao Concílio Vaticano II, a teologia quase só falava do Cristo externo,
identificando-o com a pessoa humana de Jesus de Nazaré.

Hoje em dia, já se fala no Cristo interno no homem. Aliás, esse Cristo interno já
aparece nos evangelhos, sobretudo na parábola da videira e seus ramos: a
mesma seiva divina que circula no tronco da videira circula também nos ramos
dela, isto é, o espírito divino, que é o Cristo em Jesus, é Idêntico ao espírito
divino que existe em todos os seres humanos. Jesus afirma que a presença de
Deus é uma realidade em todo o ser humano- “o Pai está em mim, o Pai
também está em vós” – mas a consciência e atuação do espírito divino, varia
de pessoa à pessoa. A presença de Deus é a mesma em todo o homem, mas o
que cristifica o homem é a consciência e a vivência dessa presença divina. Diz
o Mestre!

“Aquele que em mim está, mas não produzir fruto, será cortado e jogado ao
fogo e destruído; mas aquele que em mim está e produzir fruto, será podado
(purificado) para que produza fruto ainda mais abundante”.

Com estas palavras, afirma o Mestre a presença real do Cristo divino em toda a
creatura humana, ao passo que a atuação subjetiva desse Cristo interno
depende da consciência do Homem. A despeito da presença objetiva do Cristo
no homem, pode o homem perecer espiritualmente, o que acontecerá se o
homem não viver de acordo com esse espírito. Mas, se a presença objetiva do
Cristo no homem produzir uma vivência subjetiva em harmonia com esse
espírito, então esse ramo humano da videira divina será podado, ou purificado,
a fim de produzir fruto mais abundante. A poda dos ramos da videira se faz no
início da primavera, para que a seiva se concentre em pequeno espaço, e
rompa com maior força, produzindo fruto vigoroso. Essa poda equivale a uma
espécie de sofrimento da planta; a videira “chora”, diz o povo, porque do
ferimento do ramo caem pingos de seiva vital e umedecem o solo. Quem vive
de acordo com o espírito do Cristo passa por uma “sofrimento-crédito” para se
tornar ainda mais espiritual. A espiritualidade não preserva o homem do
sofrimento, como se vê pela vida do homem justo Job, e pela própria vida de
Jesus; o sofrimento-crédito acompanha a evolução espiritual do homem. No
princípio, esse sofrimento é compulsório, como mostra a vida de pessoas
espirituais; só mais tarde passa esse sofrimento a ser um sofrimento voluntário,
como aconteceu a Jesus, que aceitou espontaneamente o sofrimento causado
pelo processo da sua cristificação: “Ninguém me tira a vida; eu deponho a
minha vida quando eu quero, e retomo a minha vida quando eu quero”. Não há
evolução sem resistência. A dor, o sofrimento é uma resistência, provocada
pela atuação do Eu superior sobre o ego inferior. Até na pessoa humana de
Jesus houve um resto dessa resistência evolutiva, Jesus pede que o sofrimento
passe dele; mas ao mesmo tempo o seu Cristo aceita livremente o sofrimento
“para assim entrar em sua glória”.

Os avatares procuram espontaneamente essa resistência evolutiva do
sofrimento a fim de promover a sua espiritualização ulterior. Paulo de Tarso, na
epístola aos filipenses, atribui essa antidromia ao próprio Cristo, que, das
alturas dos esplendores divinos, desceu às dolorosas baixadas humanas, e foi,
por meio disto, “soberanamente exaltado”.

O despertamento e a vivência de acordo com o Cristo interno marcam o roteiro
da evolução ascensional, da cristificação do homem.

Também as palavras do Cristo “eu sou a luz do mundo – vós sois a luz do
mundo” exprimem a mesma identidade da luz do Cristo em Jesus e em outros
homens. Mas essa identidade da luz tem muitos graus de intensidade e
manifestação; em muitos homens, a luz está sob o velador opaco do ego, ao
passo que em Jesus estava ela no alto do candelabro da sua consciência
crística.

O evangelho do Cristo é rigorosamente monista, admitindo uma única essência
manifestada em muitas existências.
É O CRISTO A SEGUNDA PESSOA DA TRINDADE?



Em Deus não há pessoa, nem uma, nem duas, nem três pessoas.

A idéia de pessoa persona é invólucro, máscara, que compete somente às
creaturas.

No princípio do quarto século, sob os auspícios do Imperador romano
Constantino Magno, tiveram os cristãos perseguidos a permissão de sair das
catacumbas, onde viviam como adeptos de uma religião proibida. Com o
despontar da liberdade começaram os cristãos a organizar-se e a analisar
intelectualmente a sua grande experiência intuitiva.

A filosofia cristã era o neo-platonismo, com sede em Alexandria.

Mas as escolas neo-platônicas foram fechadas por ordem do Imperador,
porque esta filosofia, essencialmente intuitiva-mística, não favorecia a
constituição de uma poderosa hierarquia eclesiástica que unificasse as
dezenas de igrejas cristãs, que se digladiavam.

O platonismo intuitivo foi sucedido pelo aristotelismo analítico, que desde
então, presidiu à formação da hierarquia e deu cunho à teologia eclesiástica,
até atingir a sua culminância no século treze, pelo prestígio de Tomás de
Aquino.

Nesses séculos aristotélicos elaborou-se a idéia de um Deus uno em sua
natureza e trino nas personalidades. Tomás de Aquino, em consequência de
uma visão ou experiência mística, revogou toda a sua teologia analítica,
declarando que tudo não passava de “palha”.

Mas as doutrinas aristotélico-tomistas continuam até hoje como teologia oficial
da igreja.

Sendo a Divindade a própria Realidade ou Essência, nenhuma distinção de
personalidade tem cabimento. A teologia, porém, não admite esse monismo
impersonal, mas organizou um monoteísmo personal, dando personalidade
a Deus e distinguindo nele três pessoas.

O monoteísmo personalista é incompatível com a mensagem do Cristo – “Eu e
o Pai somos um, o Pai está em mim, e eu estou no Pai... O Pai também está
em vós e vós estais no Pai”.
A visão de Jesus é inteiramente monista, e não monoteísta; para ele, há uma
única Essência, que ele chama de Pai, a qual se manifesta em muitas
existências, ou creaturas. Depois de afirmar “Eu e o Pai somos um”, acrescenta
ele “mas o Pai é maior do que eu”, como se dissesse: Eu, o Cristo, estou na
Divindade, mas eu não sou a Divindade, a Divindade é infinitamente maior do
que eu. Ou então, em terminologia filosófica: Eu, a existência individual, sou
uma manifestação da Essência Universal, que é maior que qualquer existência;
vós também, meus discípulos, sois existências individuais,, manifestações da
Essência única da Divindade.

A manifestação individual da Divindade Universal é por ele chamada Deus.
Quando foi acusado de se dizer Deus, não o negou, e acrescentou que
também os homens eram Deus, isto é, manifestações individuais da Divindade
Universal: “Vós também sois deuses”.

Quando o Cristo se diz Deus, afirma ele que é uma manifestação individual da
Divindade, mas não faz de si uma parcela ou pessoa da Divindade, como não
faz dos homens parcelas ou pessoas da Divindade. Nenhuma creatura é
parcela ou centelha, da Divindade, como querem os poetas; se a Divindade se
parcelasse, ela se diminuiria na razão direta do seu parcelamento.

As creaturas são apenas manifestações da Divindade, ou existencializações
múltiplas da Essência una e única.

O Universo é o melhor símbolo da Essência Única (Uno) manifestado em
existências várias (verso).

Podemos simbolizar a Divindade por um pensador, e as creaturas como seus
pensamentos. O pensamento é uma manifestação parcial do pensador, mas
não pode ser considerado como uma parcela componente e destacada do
pensador.

Quando a Infinita qualidade se manifesta em quantidades finitas, a qualidade
não se parcela, não se divide, mas, continuando íntegra e imutável, manifesta
externamente a sua realidade de interna.

O Cristo não é a segunda pessoa da Trindade – assim como o Espírito Santo
não é a terceira pessoa – como constitutivos da própria Divindade, que não é
composta, mas infinitamente simples.

A doutrina de um Deus Trino, nascida no princípio da Teologia eclesiástica, é
uma prova frisante de que a Divindade não pode ser analisada, porque toda a
análise supõe decomposição de um composto. A própria palavra grega
analysis quer dizer dissolução. Quem analisa Deus é ateu.
A suprema Divindade, só pode ser conhecida por intuição, experiência ou
vivência íntima. Tudo que se pode analisar, pensar, falar, é finito. O Infinito não
é analisável, pensável, dizível.

A certeza de Deus não vem da análise, do pensamento – a certeza de Deus
acontece ao homem quando ele se torna interiormente aberto e receptivo para
receber a revelação do Infinito. “Quando o discípulo está pronto, então o
Mestre aparece”.

Desde o princípio do quarto século até o século 20 foi a igreja dominada pelo
aristotelismo analítico, sobretudo de Tomás de Aquino; ultimamente há uma
crescente prevalência do neoplatonismo intuitivo, que, como dissemos, era a
filosofia dos luminares do cristianismo nos primeiros séculos.

A filosofia oriental também admite três pessoas na Divindade suprema de
Brahman, a saber: Brahma, Vishnu e Shiva. Mas essas três pessoas não são
indivíduos, e sim funções da Divindade, que se revela como Brahma, o
Creador; como Vishnu o Continuador, e como Shiva, o Consumador.

Neste mesmo sentido monista, podem ser aceitas três pessoas como funções
da Divindade: A Essência Una se manifesta incessantemente como existência
iniciadora, continuadora e consumadora.

O monoteísmo teológico se está aproximando cada vez mais do monismo
filosófico; já admite, além da Divindade transcendente, o Deus imanente.
Monismo não é panteísmo (tudo é Deus), mas pode ser chamado Panenteísmo
(tudo em Deus). Como também admite Teilhard de Chardin: A Divindade
transcendente é incognoscível; revelada como o Deus imanente, é cognoscível.

O Cristo, segundo o Evangelho, é a primeira e mais alta emanação da
Divindade, o “Unigênito do Pai”, segundo João; o “Primogênito de todas as
creaturas”, segundo Paulo de Tarso.

O Cristo é Deus, mas não é a Divindade.
PORQUE O VERBO SE FEZ CARNE



Dentro de poucos decênios, a humanidade celebrará o ano 2000 depois do
nascimento de Jesus. A humanidade inteira, cristã e não cristã, conta a sua
cronologia pelo nascimento de um pobre carpinteiro – e até hoje não sabemos
bem porquê...

É oportuno perguntar: Por que o Cristo cósmico, o Logos, o Verbo, se tornou
pessoa humana?

A resposta que os teólogos cristãos costumam dar a esta pergunta é
conhecida: para salvar a humanidade.

Entretanto, o próprio Jesus nada sabe dessa suposta salvação; ele mesmo
nunca afirmou que viera ao mundo para este fim.

Quando, na primeira páscoa, os discípulos de Emaús lamentavam a morte do
Nazareno, perguntou-lhes ele, que incógnito os acompanhava: “Não devia
então o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?”

Nenhuma palavra sobre a suposta salvação da humanidade.

Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, escreve:

“Ele (o Cristo), que estava na glória de Deus, não julgou necessário aferrar-se
a esta divina igualdade; mas esvaziou-se dos esplendores da Divindade e se
tornou homem, servo, vítima, crucificado. Por isto, Deus o exaltou
soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, de
maneira que, em nome do Cristo, se dobram todos os joelhos, dos celestes,
dos terrestres e dos infra-terrestres, e todos confessam que ele é o Senhor”.

Nenhuma palavra sobre o intuito de salvar a humanidade. Veladamente, Paulo
faz ver que o Cristo, pela encarnação, se tornou maior do que era, que se
tornou, por assim dizer, um super-Cristo, a tal ponto que todas as creaturas do
Universo, celestes, terrestres e infra-terrestres, proclamem a sua suprema
grandeza.

E aqui voltamos à antidromia incompreensível dos avatares, de que falamos
em outro capítulo. Todo o avatar se desapega dos esplendores da sua
grandeza e desce à pequenez de mundos inferiores – para quê?

Não primeiramente, como já dissemos, para redimir os habitantes destes
mundos, mas para realizar a sua própria evolução ulterior.
Para compreender essa estranha contra-corrida dos seres superiores, é
necessário lembrar novamente que a lei suprema do Universo é evolução.
Nenhuma creatura, por mais avançada, se acha no termo final da sua
evolução. Esse termo, de fato, não existe; toda a creatura está numa
permanente jornada para o além.

Quanto mais liberto se sente um avatar, tanto maior é o seu desejo de se
escravizar, porque a voz cósmica da sua consciência lhe diz que esta
espontânea escravização é o único caminho para uma libertação ulterior.

Quanto é pouco liberto não tem desejo de se escravizar – mas quem é muito
liberto se escraviza voluntariamente.

Não se trata aqui de uma “reencarnação”, no sentido tradicional, que seria
compulsória. Trata-se de uma descida por amor, por excesso de liberdade.

O amor que impele o avatar a realizar a sua descida é um auto-amor, o amor a
uma auto-realização maior. O avatar, para “entrar em sua glória”, sai
externamente dessa glória, como Paulo diz do Cristo, e desce à inglória da
escravidão voluntária, da humilhação, do sofrimento, da morte, por ser este o
único caminho de subir a regiões superiores, conforme exigem as leis cósmicas
inexoráveis.

Os horrores que Jesus sofreu no fim da sua vida terrestre são totalmente
incompreensíveis senão à luz dessa gloriosa antidromia. Para que ele
pudesse dizer, na cruz, a sua última e mais gloriosa palavra “está consumado”,
quis ele humilhar-se até o ínfimo nadir da servidão, do vilipêndio, da infamação
voluntária. No fim da sua vida terrestre, como se estivesse com pressa, reúne
Jesus tudo que se possa imaginar de horrível e infamante. E, como se os
sofrimentos físicos não lhe fossem suficientes, acrescentou sofrimentos
metafísicos.

No alto do Calvário, os chefes da sinagoga o desafiam solenemente para que,
em prova da sua missão divina, desça da cruz: “Se tu és o Cristo, desce da
cruz, e nós teremos fé em ti”.

Provavelmente, muitos dos chefes da sinagoga receavam secretamente que
Jesus atendesse ao desafio e descesse, glorioso, da cruz, que seria a derrota
máxima da sinagoga.

Jesus, porém, não desceu da cruz, não deu esta prova suprema da sua
messianidade, tomando sobre si o opróbrio de ser um falso Messias, de
enganar o povo com três anos de imposturas e magia negra.

E, para cúmulo de humilhação, em vez de descer da cruz e assim provar a sua
missão divina, fez exatamente o contrário: bradou em alta voz: “Meu Deus,
meu Deus, por que me abandonaste?”.
Os inimigos de Jesus devem ter soltado uma gargalhada de escárnio e de
triunfo, ao ouvirem estas palavras. Ouvistes? – perguntou Caifaz, - o que ele
disse? Que foi abandonado por Deus, que é um pseudo-Cristo... Razão
tínhamos nós em dizer que ele era um falso Cristo, um aliado de satanás...
Agora, no momento supremo, confessou a verdade – Deus o abandonou...

É difícil conceber maior auto-difamação do que esta. Na sua corrida rumo ao
nadir da voluntária humilhação, Jesus não poupa nenhuma oportunidade para
arrazar a sua grandeza. Com este grito, entregou ele a seus inimigos o melhor
punhal contra si mesmo.

E seus discípulos e amigos, que ouviram este grito de abandono, que deviam
eles pensar? Sua mãe, seu discípulo amado João, sua ardente discípula
Madalena, todos eles ouviram que seu querido Mestre se confessou
abandonado por Deus... E como podiam eles continuar a amá-lo e seguí-lo se
o próprio Deus o havia abandonado?...

Esta crudelíssima decepção dos seus devotados amigos e discípulos deve ter
sido o derradeiro passo, nessa marcha acelerada rumo à auto-difamação e ao
ego-esvaziamento.

Estava terminada a corrida rumo ao nadir.

Jesus, vendo, através dum véu de sangue, sua mãe e seu discípulo, ao pé da
cruz, disse à mãe: “Eis aí teu filho”, e disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”.

Depois de se desfazer desses últimos tesouros que ainda tinha na terra, estava
ele totalmente liberto de tudo e de todos, e seu Cristo podia dizer: “Está
consumado”. E por fim: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

É este o drama tragicamente glorioso da encarnação do Verbo.
FOI JESUS UM LIBERTADOR?



Nos últimos tempos apareceram diversos livros sobre a idéia do Cristo
libertador. Alguns acham que o Nazareno era um revolucionário, um
subversivo, que tentasse libertar Israel do domínio romano.

À luz dos Evangelhos e de outras fontes históricas, é sem esperança querer
provar essa hipótese, tanto mais que ele mesmo declarou explicitamente
perante o governador romano Pilatos que o seu reino não era deste mundo.

Ultimamente, um grupo de jesuítas publicou mais um livro sobre este tema,
mostrando a inanidade dessas tendências políticas e revolucionárias de Jesus.
Mas, quando os autores deste livro chegam à pergunta positiva “de que nos
libertou Jesus?” recaem à rotina das teologias tradicionais: ele nos libertou dos
nossos pecados pelo seu sangue. Quer dizer que os piedosos autores desse
livro substituem uma pseudo-libertação por outra pseudo-libertação; substituem
uma suposta alo-libertação política por uma alo-libertação moral. Ninguém
pode ser liberto, se ele mesmo não se liberta. Ninguém pode receber de
presente uma libertação; quem confia em alo-libertação, e não realizou a sua
auto-libertação, não é realmente liberto. A liberdade verdadeira e única não nos
pode ser dada como presente de berço ou por favor alheio; a verdadeira
liberdade é a mais alta conquista da nossa consciência, ou seja, a genuína
evolução ascensional do homem; é esta a sua grande e única tarefa aqui na
terra e em qualquer outra existência extra-terrestre: libertar-se.

Todos os que atribuem a Jesus intenções de libertação política ou social
desconhecem radicalmente o caráter fundamental dele. Mesmo os teólogos
cristãos que lhe atribuem a libertação coletiva da humanidade da escravidão
dos pecados não fazem jus ao verdadeiro Cristo libertador.

Bem sabia Jesus que nenhuma libertação – seja política, social ou moral – é
possível sem a libertação individual; e ele sempre falou desta libertação, que
ele mesmo possuía no mais alto grau. Qualquer outra libertação periférica era
para ele uma pseudo-libertação, pela qual nunca se entusiasmou com grande
decepção de seus conterrâneos e discípulos. Perante o governador romano,
como já mencionamos, poucas horas antes da sua condenação à morte,
afirmou o Nazareno: “Eu sou rei, mas o meu reino não é deste mundo”.

Para os inexperientes é impossível compreender a que espécie de reino e de
realeza ele se referia.
Para Jesus a liberdade e libertação é um processo essencialmente individual.
Desde a sua origem, é o homem escravo de si mesmo, se não se liberta
individualmente dessa escravidão – e esta auto-libertação é a maior glória
existencial da sua vida. O pólo negativo da natureza humana, o chamado ego,
que o Gênesis simboliza pela serpente, oprime o pólo positivo do Eu, o
chamado sopro de Deus.

A tarefa fundamental e única da existência humana é precisamente a libertação
dessa escravidão e a declaração da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Para
este fim lhe foi dado o livre arbítrio.

Sendo que Jesus possuía em grau supremo esta liberdade, não podia ele
interessar-se por nenhuma liberdade ou libertação que não fosse a
emancipação do homem da tirania da sua velha egocracia e a proclamação da
gloriosa Cristocracia.

Neste sentido resumiu ele toda a sua política e filosofia, sobretudo nas palavras
lapidares “conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará”. Para ele, como
para todos os verdadeiros iniciados, a liberdade é o produto do conhecimento
do homem sobre si mesmo, um auto-conhecimento vivido como auto-
realização. Verdade, liberdade, felicidade – esta trilogia é o centro da sua
vivência individual e o cerne da mensagem do Cristo à humanidade.

E, por ser tão radicalmente feliz, podia Jesus permitir qualquer sofrimento,
porque nenhum sofrimento, nem a própria morte podem destruir a verdadeira
felicidade baseada no conhecimento e na vivência do Eu divino.

Jesus, o Cristo, é o maior libertador que a humanidade conhece.
É O CRISTO NOSSO REDENTOR?



É esta a idéia geral do povo e dos teólogos: o Cristo é o redentor ou salvador
da humanidade. No alto do Corcovado está a gigantesca estátua do Cristo
Redentor.

Quer dizer que o Cristo é nosso redentor?

Segundo os teólogos, quer dizer que o homem, desde o princípio, por obra de
satanás, caiu no pecado, herdado depois por todos os homens; a humanidade
toda é pecadora desde o nascimento, e cada homem se torna cada vez mais
pecador por pecados pessoais.

Quer dizer que o homem é um grande devedor, por herança e por atos
próprios, e Deus é o grande credor. E, como o devedor é totalmente
insolvente, incapaz de pagar a Deus os seus débitos, a humanidade está
radicalmente falida perante a justiça divina, isto é, vítima de eterna
condenação. Deus exige imperiosamente o pagamento da dívida que a
humanidade contraiu, Deus se sente ofendido com os pecados da humanidade
e exige satisfação. A dívida da humanidade é de infinita gravidade, como ouvi
no catecismo e no curso de teologia – mas como a humanidade, falida e
insolvente, poderia pagar a Deus um débito infinito?

Deus, porém, não é somente justo, mas também misericordioso, e, sendo
misericordioso, teve pena da humanidade e resolveu mandar à terra seu filho
unigênito para pagar o débito dos homens. O Filho de Deus, o Cristo, de fez
homem para poder, em nome dele, pagar o débito da humanidade, mas
continua a ser Deus para que o seu ato de mediador tenha um valor Infinito.

Estranhamento, o modo de pagar a Deus a dívida da humanidade foi o
sofrimento e a morte do redentor; “o seu sangue nos purifica de todo pecado”.

E assim, graças à morte de Jesus, nós somos salvos, libertos de toda a dívida
de nossos pecados, reconciliados com Deus.

É esta, mais ou menos, a ideologia que preside as nossas teologias sobre
pecado e redenção. E há quase 2000 anos, essa tradição se cristalizou em
verdade dogmática, passivamente aceita pela cristandade.

Segundo a nossa lógica humana, parece razoável essa ideologia, quando, na
realidade, é inaceitável, e até monstruosa, ao ponto de Arnold Toynbee ter
escrito: “Se o Deus da nossa teologia existe, é ele o maior monstro do
Universo”.

Antes de tudo, é absurdo supor que uma creatura finita possa cometer uma
falta de gravidade infinita.

É inaceitável supor que o Deus soberano se possa sentir ofendido, quando o
senso de ofensa e a ofendibilidade é atributo de um ego mesquinho.

É repugnante a idéia que Deus seja vingativo e não queira perdoar a suposta
ofensa de pobres creaturas.

É revoltante admitir que Deus tenha exigido do único homem inocente o
pagamento pelos delitos dos culpados.

É monstruoso pensar que Deus tenha decretado o requinte das crueldades e
uma morte atroz de seus Filho Unigênito, para se dar por quite da dívida da
humanidade pecadora.

                                        ***

Então, o Cristo não é nosso redentor?

É, sim, mas em outro sentido, nobre e digno e perfeitamente aceitável.

De que modo?

Acima de tudo, que é que se entende por pecado e por redenção?

Pecado é a vitória do nosso ego luciférico e a derrota do nosso Eu crístico,
como já vem simbolizado desde o Gênesis, que fala do sibilo da serpente
derrotando o sopro de Deus. Quando no primeiro homem a serpente do ego
derrotou o sopro divino do Eu, cometeu o homem o primeiro pecado, porque as
imutáveis leis cósmicas exigem a vitória do Eu superior sobre o ego inferior.

O pecado é, pois, uma voluntária inversão das leis eternas. Essa inversão só
se pode dar pela ilusão do ego. Mas, quando a verdade do Eu supera a ilusão
do ego, então surge a redenção do homem.

Pecado e redenção são, pois, atributos da própria natureza humana; o homem
é derrotado pelo seu ego, e é vitorioso pelo seu Eu, e, graças a seu livre
arbítrio, o homem é responsável tanto por sua derrota ou pecado, como por
sua vitória ou redenção. Tanto o lúcifer como o Logos, tanto o diabo da
perdição como o Cristo da redenção, estão dentro do homem, e compete ao
homem fazer triunfar o seu Eu Crístico sobre seu Ego luciférico. O lúcifer
interno e o Cristo interno do próprio homem são os fatores do pecado e da
redenção, e o homem é autor tanto disto como daquilo. Não há nenhum Deus
ofendido e vingativo que exija dum inocente o sofrimento pelo pecador. O ego
pecador deve sofrer pela inversão das leis divinas em sua natureza humana;
deve integrar-se voluntariamente no Eu Divino, e, como toda a integração do
ego no Eu equivale a uma desintegração do ego, não pode o homem redimir-se
sem essa morte do ego, sem esse “egocídio” – “se o grão do trigo (ego) não
morrer, ficará estéril; mas, se morrer, produzirá muito fruto (Eu)”.

Na pessoa humana de Jesus havia plena vitória do Eu crístico sobre o ego
humano – “quem de vós me arguirá de um pecado?” – nunca o seu ego
humano derrotou seu Eu divino, embora tentasse por diversas vezes, como nas
trevas do Getsêmane e nos ardores do Gólgota.

Por isto, Cristo é a realização do homem feito à imagem e semelhança de
Deus, porque “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. E ele
afirma que ele é, para nós, o Caminho, a Verdade e a Vida. Nele residia a
plenitude do homem perfeito, e como toda a plenitude transborda
necessariamente, “da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça”.

Sendo que essa integração do inferior no superior equivale a uma
desintegração daquele, e como toda a desintegração do ego é sofrimento,
mostrou Jesus, nas últimas 15 horas da sua vida terrestre, que o homem deve
estar disposto a tomar sobre si todo e qualquer sofrimento para realizar essa
integração do seu ego humano no seu Eu divino.

A Cristo-redenção, em que as teologias vêm uma alo-redenção, é uma genuína
auto-redenção, uma redenção do homem pelo Cristo interno do seu Eu divino.
Sem resistência não há evolução, e sem integração do menor no maior não há
vitória.

Todo o processo dos sofrimentos e da morte de Jesus equivale a um grandioso
símbolo e a um insistente convite para o discípulo fazer o que o Mestre fez.

O Cristo é o redentor da humanidade de um modo muito mais verdadeiro e
glorioso do que imaginam as teologias tradicionais. Redimiu plenamente o seu
Jesus humano pelo poder do seu Cristo divino – “não devia então o Cristo
sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória” – divinizou e cristificou a sua
natureza humana individual, mostrando a todos o roteiro a seguir, a redenção
da natureza humana de cada um e sua plena cristificação ou auto-realização.

 Jesus, pela sua cristificação, através do seu sofrimento voluntário e vitorioso,
mostra a todo o homem que ele pode entrar na sua glória pelo mesmo caminho
– “exemplo vos dei pra que façais o que eu fiz”.
PORQUE JESUS SOFREU E MORREU...



O nosso cristianismo tradicional acha evidente o motivo da morte de Jesus: ele
morreu para pagar os nossos pecados.

Entretanto, o cristianismo do primeiro século não achava isto tão evidente; para
os primeiros cristãos, a paixão e morte de Jesus eram um tenebroso enigma,
como Frei Leonardo Boff, faz ver no seu livro “Jesus Cristo Libertador” (Editora
Vozes). Era-lhes incompreensível porque Jesus, que, durante 33 anos,
desafiara vitoriosamente as ciladas dos seus inimigos, se entregasse, nos
últimos dias, à sanha deles, dizendo: “Esta é a vossa hora e o poder das
trevas”. E se deixou prender voluntariamente.

Mesmo Paulo de Tarso, após a sua dramática conversão às portas de
Damasco, estava perplexo em face do porquê da morte voluntária de Jesus, e,
para solver o enigma, se retirou para os desertos da Arábia, e durante três
longos anos meditou sobre esse mistério. Por fim, julgou haver encontrado uma
solução plausível: associou a morte de Jesus à ideologia milenar da Sinagoga
de Israel, que matava anualmente o “bode expiatório”, julgando que com a
morte deste animal inocente, morriam os pecados de Israel. Paulo julgou ter
descoberto que Jesus se entregou à morte para pagar com o seu sangue a
dívida da humanidade perante um Deus ofendido.

Mas, mesmo assim, não foi geralmente aceita pelo cristianismo primitivo esta
solução. O próprio Jesus, que diversas vezes predisse a sua morte e
ressureição, nunca afirmou que ia sofrer e morrer pelos pecados da
humanidade. Muitos cristãos viam na morte do Nazareno a continuação da
sorte de quase todos os profetas antigos: o justo não é tolerado pelos
pecadores, no meio dos quais vive, e sofrer morte violenta. A idéia de uma
morte expiatória não era opinião geral no primeiro século, e não deve ser
“absolutizada”, como frisa o referido livro.

A essa aceitação obstava também a idéia de que Deus se possa sentir
ofendido pelos pecados e fizesse sofrer e morrer o único homem sem pecado
para se dar por pago pelas culpas dos pecadores.

Só muitos anos depois generalizou-se a idéia de que, como diz Paulo, “o
sangue de Jesus nos purifica de todos os pecados”.

A idéia duma alo-redenção, duma morte expiatória, como se vê, teve origem no
judaísmo, e não no cristianismo. Nem Jesus nem os quatro evangelistas se
referem a essa idéia de que Jesus tivesse morrido para pagar os pecados da
humanidade – tanto mais que, segundo os teólogos cristãos, todo homem,
ainda hoje, nasce outra vez em pecado. Nem o Quinto Evangelho, do Apóstolo
Tomé, recentemente descoberto no Egito, se refere com uma só palavra à
morte de Jesus por causa dos pecadores.

Quando os discípulos de Emaús, na tarde da primeira Páscoa, se achavam
decepcionados com a morte cruel de um inocente, não lhes respondeu Jesus,
que os acompanhava incógnito, que era para pagar os pecados da
humanidade, como teria dito qualquer teólogo de nossos dias; mas disse
simplesmente: “Não devia o Cristo sofrer tudo isto para assim entrar em sua
glória?”.

Com estas palavras insinua Jesus a verdadeira pista: sofreu e morreu
voluntariamente para realizar-se a si mesmo, para entrar numa glória ainda
maior.

Esta idéia de auto-realização ulterior é incompreensível para muitos teólogos
de hoje, porque acham que um homem como Jesus não era ulteriormente
realizável. Na realidade porém ele mesmo insinuou essa realização ulterior.

Toda a creatura, por mais evolvida, pode evolver ainda mais, porque a
evolução é um processo indefinido e jamais definidamente terminado. O Cristo,
segundo João, era o “Unigênito do Pai”, e, segundo Paulo, era o “Primogênito
de todas as creaturas”; isto é, era “gênito”, creatura, e toda a creatura, mesmo
teo-gênita ou primogênita, é finita e pode realizar ulteriormente a sua evolução,
pode entrar numa glória maior. Jesus, apesar de tão altamente evolvido já ao
entrar na vida terrestre, podia evolver ulteriormente, sob os auspícios do Cristo
divino, como ele mesmo dá a entender no Gólgota. Quando diz “está
consumado” dá por terminada a sua evolução terrestre, porque entrou em sua
glória.

Jesus sofreu e morreu voluntariamente a fim de completar a sua realização
terrestre.

E, sendo que toda a plenitude transborda necessariamente – “da a plenitude
todos nós recebemos, graça e mais graça”, como escreveu o discípulo amado
– o transbordamento dessa plenitude do Cristo reverte em benefício de toda a
humanidade. Todos nós fomos beneficiados pela plenitude da auto-realização
de Jesus. Mas, repetimos, o motivo central da sua morte voluntária não foi a
redenção da humanidade, mas sim a plenitude da auto-realização do próprio
Cristo, como ele mesmo faz ver aos discípulos de Emaús.

Todo o avatar, quando altamente evolvido e liberto do seu ego, sente a
necessidade de servir voluntariamente “às creaturas inferiores”; e todo o
serviço do maior aos menores, se revela num sofrimento voluntário.
A verdadeira compreensão da natureza de Jesus torna compreensível o motivo
do seu sofrimento e da sua morte voluntária. A entrada em sua glória é a sua
evolução superior, a plenitude da sua auto-realização, da sua cristificação;
porque em Jesus, como escreve Paulo de Tarso, “habita corporalmente toda a
plenitude de Deus”, e, para realizar essa plenitude divina é que ele integrou
todo o ego humano do seu Jesus no Eu divino do seu Cristo, desintegrando o
seu corpo.

Quando compreenderá a cristandade o Cristo verdadeiro?
DE GLÓRIA EM GLÓRIA – PELA INGLÓRIA



A verdadeira vida terrestre de Jesus só pode ser devidamente compreendida
através das suas próprias palavras.

Refere o Evangelho de João que, depois da última ceia, véspera da sua morte,
levantou-se Jesus e assim falou:

“Pai, é chegada a hora. Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em
ti, antes que o mundo fosse feito”.

Poucos dias depois, no domingo da ressureição, falando com os discípulos de
Emaús, novamente se refere à sua glória:

“Não devia então o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?”

Antes da creação do mundo, e antes da encarnação do Verbo estava o Cristo
na glória divina, como escreve Paulo de Tarso: “Ele, que estava na glória de
Deus...”

Depois da sua ressureição voltou para sua glória.

Entre esses dois estados de glória, o de antes da encarnação e o depois da
ressurreição, medeia um período de cerca de 33 anos, que, humanamente
considerado, foi um período de inglória, sobretudo nos últimos dias da sua vida
mortal.

Entre a glória de ontem e a glória de amanhã jaz a inglória de hoje.

Na última ceia, pede Jesus ao Pai que lhe restitua a glória que ele tinha em
Deus; e aos discípulos de Emaús declara ele que entrou novamente em sua
glória, pela voluntária inglória do sofrimento e da morte.

Paulo de Tarso escreve aos cristãos de Filipes que o Cristo, graças a essa
voluntária inglória, foi “super-exaltado” a uma glória maior do que tivera antes.

É esta a estranha antidromia dos avatares: descer para subir, humilhar-se
para ser exaltado. O céu do avatar não é só um céu gozado, mas um céu
sofrido voluntariamente. A felicidade do avatar não é uma vida estática, mas
uma vivência dinâmica, uma sinfonia sempre inacabada, movendo-se entre o
gozo gozado e o sofrimento sofrido por amor.

Por amor de quê?
Por amor de uma evolução ainda maior, de uma glória superior à glória
anterior, através da inglória voluntária. Do zênite da glória e do gozo desce o
avatar ao nadir da inglória e do sofrimento, sob o imperativo duma auto-
realização cada vez maior. Pois, todo o finito em demanda do Infinito está
sempre a uma distância infinita. Mas o imperativo cósmico da evolução
ascensional o convida a subir a alturas cada vez maiores, indefinidamente, por
toda a eternidade.

Esse incessante subir, e subir mais, de glória em glória, de amor em amor, de
beatitude em beatitude, é que é a vida eterna do avatar.

O avatar nada sabe de estagnação passiva, tudo sabe de evolução ativa.

E, como não há evolução sem resistência, o avatar tem fome e sede de
resistência, de luta, de sofrimento. E, se na zona excelsa da sua vivência não
encontra essa resistência necessária, desce a regiões inferiores, em busca do
meio necessário para sua evolução ulterior.

Quando uma entidade de alta evolução entra num ambiente de baixa evolução,
ingressa numa zona de resistência, de oposição, de sofrimento, de crucifixão.

Entre a glória e a glória maior jaz a inglória – a gloriosa inglória dos grandes
avatares.

Neste signo de glória pela inglória decorre todo o plano Cristo-cósmico da
encarnação e da ressureição, necessários para a plenitude dele e do Universo,
na culminância do ponto ômega, como diria Teilhard de Chardin.

O carácter das leis cósmicas é nitidamente evolutivo; nada de estagnação
estática, tudo é evolução dinâmica. Entre o finito e o Infinito não existe
nenhuma chegada, impera uma incessante jornada.

Quem considera a vida de Jesus apenas à luz dos pecados da humanidade,
não faz jus à excelcitude Cristo-cósmico.
ONDE PASSOU JESUS A SUA JUVENTUDE?



Existem numerosos livros que afirmam que Jesus passou a sua juventude,
entre 12 e 30 anos, em países estrangeiros, no Egito, na Índia, no Tibet.

Entretanto, as fontes históricas do primeiro século ignoram totalmente uma
ausência de Jesus. Nem mesmo mencionam a sua presença entre os
essênios, à margem do Mar Morto, onde provavelmente esteve com João
Batista.

Os Nazarenos, seus conterrâneos, estranham quando o jovem carpinteiro, aos
trinta anos, aparece em público como profeta. Nem sequer frequentou escola,
dizem eles. Os Nazarenos o conheciam como filho do carpinteiro José, que
todos os dias trabalhava na oficina. Se Jesus tivesse estado ausente 18 anos,
não teriam os seus conterrâneos alegado essa ausência em países longínquos,
para explicar o mistério da sua grande sabedoria? Nem uma única palavra.

Além disto, os cinco historiadores do primeiro século, Mateus, Marcos, Lucas,
João e Paulo de Tarso, contemporâneos, e alguns deles conterrâneos de
Jesus, nada sabem de uma ausência dele. Nem mesmo Paulo, homem viajado
e erudito; nem Lucas, o médico grego, que diz no prefácio do seu Evangelho
que investigou cuidadosamente, desde sua origem, todos os fatos referentes à
vida de Jesus – ninguém menciona uma ausência do Nazareno. A narração da
anunciação, que somente Lucas refere, faz crer que ele tenha estado
pessoalmente com Maria, mãe de Jesus, que, entre o ano 58 e 60, ainda vivia
em Jerusalém – e não teria Lucas, o meticuloso historiador, tido notícia dessa
ausência de Jesus?

Se Jesus tivesse passado longos anos no Egito, na Índia, no Tibet - esses
países clássicos de iniciação esotérica – não teria ele, durante a sua vida
pública, iniciado os seus discípulos, segundo o costume desses países, onde
teria encontrado os seus mestres? Mas, nunca nenhum dos evangelistas
menciona que Jesus tenha iniciado um só dos seus discípulos, nem mesmo
Pedro, Tiago ou João, seus discípulos prediletos. O Mestre dá orientação a
seus discípulos, mostrando o caminho por onde eles mesmos podiam iniciar-se
nos mistérios do Reino de Deus, mas ele mesmo não os iniciou. Até ao fim da
vida terrestre de Jesus, os discípulos dele continuam tão profanos como antes:
alguns pedem licença para chamar fogo do céu para matar os samaritanos,
que lhes negaram pousada; outros, ambiciosos, querem sentar-se um à direita
e outro à esquerda do Mestre, no reino da sua glória. Todos entendiam pelo
Reino de Deus a restauração da independência nacional de Israel; e ainda no
último dia da vida terrestre do Mestre, na Ascensão, perguntam: “É agora que
vais restabelecer o reino de Israel?”

Nenhum vestígio de iniciação espiritual.

Verdade é que, na gloriosa manhã de Pentecostes, 120 pessoas, homens e
mulheres, se iniciaram nos mistérios do Reino de Deus – mas foi uma auto-
iniciação, e não uma alo-iniciação; depois de 9 dias de silêncio e meditação,
eclodiu neles a luz divina. E esse dia – provavelmente 30 de maio do ano 33 –
foi o nascimento do verdadeiro cristianismo sobre a face da terra.

Em face desse silêncio total, não podemos admitir como provável que Jesus
tenha estado no Egito, na Índia, no Tibet, ou em outro país longínquo, nem
como Mestre, nem mesmo como discípulo.

E, contudo, o Nazareno foi o maior dos iniciados; passou pela auto-iniciação.
Ele mesmo, nesses 18 anos de solidão relativa, nas montanhas da Galiléia, se
iniciou no Reino dos Céus. As suas viagens de auto-iniciação não demandaram
países alheios neste planeta terra, mas o próprio Universo, as “muitas moradas
em casa do Pai Celeste”.

Já aos 12 anos, após três dias de silêncio e interiorização, em algum recanto
de Jerusalém, revela Jesus uma sabedoria tão surpreendente que encheu de
estupefação os chefes espirituais de Israel.

Depois dessa eclosão inicial, continuou ele o itinerário espiritual durante 18
anos, até culminar, aos 30 anos, quando começou a falar ao povo, em
parábolas sobre os mistérios do Reino de Deus, que ele mesmo vivera
intensamente durante esses anos.

Lucas, o consciencioso historiador, liquida com uma única frase esses 18 anos
de auto-iniciação, dizendo: “E Jesus foi crescendo em graça e sabedoria,
perante Deus e os homens”.

Como podiam os historiadores humanos saber desses mistérios esotéricos?
Ninguém acompanhou o adolescente nas suas vastas experiências pelos
reinos ignotos do Pai.

Essas viagens cósmicas do jovem carpinteiro não foram realizadas
necessariamente pelas regiões do cosmo de fora, mas sim pelo cosmos de
dentro, porquanto “o Reino de Deus está dentro de vós”.

Por isto, os evangelistas fazem bem em silenciar totalmente o período entre 12
e os 30 anos de Jesus
O BODE EXPIATÓRIO NO JUDAÍSMO E NO CRISTIANISMO



Por espaço de cerca de 2000 anos, desde Abraão, ou, pelo menos, desde
Moisés, praticou Israel a cerimônia do bode expiatório. Cada ano reunia-se o
povo de Israel na esplanada do templo de Jerusalém. O sumo sacerdote
colocava as mãos sobre a cabeça de um cabrito, transferindo para esse animal
os pecados do povo. Depois, esse “bode expiatório” era tocado para o deserto
e precipitado por um barranco abaixo, onde morria. E com ele morriam todos
os pecados de Israel, como era crença geral. Um mensageiro voltava, agitando
uma bandeira branca e exclamando: “Deus extinguiu os pecados de seu povo,
aleluia! aleluia!” E havia grande alegria em Israel, porque todos se sentiam
como carta branca – e podiam carregar de novo o carro de lixo para o próximo
ano.

Israel não celebra mais o ritual do bode expiatório. Com a destruição do templo
de Jerusalém, no ano 70, e a dispersão dos Judeus por todos os quadrantes do
Império Romano, terminou também a cerimônia do bode expiatório. O novo
Estado de Israel, criado há poucos decênios não voltou a praticar esse
simbolismo.

Infelizmente, porém, a idéia do bode expiatório, que morreu para o judaísmo,
continua no cristianismo, com a diferença de que agora o bode expiatório não é
mais um animal inocente, que, morrendo, extinga os pecados humanos, mas
sim o único homem sem pecado que, segundo a teologia, paga com sua morte
os pecados da humanidade.

Esta ideologia se baseia em diversos equívocos. Supõe que Deus possa ser
ofendido por suas creaturas – quando até homens avançados como Mahatma
Gandhi, atingem uma completa inofendibilidade. Quem não se sente ofendido
não precisa vingar-se nem perdoar; mas, quem se sente ofendido, pode vingar-
se da ofensa, ou então perdoá-la. Deus, porém, o Deus da teologia, ofendido
pelos homens, não se vinga, nem perdoa, mas exige satisfação pela ofensa.
Mas, como o homem é pecador é insolvente, incapaz de saldar o seu débito,
Deus exige que um homem não pecador pague o débito dos devedores. E,
como o único homem sem pecado é Jesus, é ele considerado como único
pagador capaz de extinguir os pecados da humanidade. E o pagamento só
pode ser feito com sangue, com o sangue inocente do único homem sem
pecado. O bode expiatório Jesus tem de morrer, derramando o seu sangue,
para que o Divino Credor ofendido se dê por satisfeito. Tomás de Aquino,
considerando o maior teólogo cristão, diz, num dos seus poemas espirituais,
que uma única gota do sangue de Jesus seria suficiente para pagar todos os
débitos da humanidade, mas que Jesus, por excessiva bondade, quis derramar
até a última gota do seu sangue para pagar os pecados da humanidade.

Depois desse pagamento dos pecados da humanidade pelo sangue de Jesus,
era de esperar que o homem estivesse quite com a justiça divina; mas os
teólogos ensinam que todo o homem nasce de novo em estado de pecado,
vive e morre cheio de pecados – não se sabe em virtude de que lógica...

Outro equívoco dos teólogos é a idéia de que um não-pecador alheio possa
pagar os pecados de outro pecador. Na realidade, porém, cada pecador tem de
pagar por seus próprios pecados. O que alguém semeou, isto colherá.
Ninguém pode encarregar outra pessoa como procurador de agir em lugar do
culpado. Não vigora semelhante política no Reino de Deus. Ninguém pode
salvar alguém; cada um deve salvar-se a si mesmo.

Mas, como pode um pecador absolver-se dos seus pecados? Não é isto um
círculo vicioso?

Assim seria se o homem fosse apenas o seu ego pecador, insolvente; mas
todo o homem é também o seu Eu redentor; apesar de ser pecador na sua
periferia humana, continua a ser sem pecado no seu divino; a imagem e
semelhança de Deus mão se apagou com o pecado. Quem peca é o ego
periférico – quem redime é o Eu central, o “Pai em nós”, o “Cristo interno”.

Enquanto o ego pecador não conscientizar e vivenciar o seu Eu crístico,
continua ele pecador; mas, se despertar em si a consciência da sua Divindade
e viver de acordo com ela, redime-se dos seus pecados; os seus muitos
pecados lhe serão perdoados, porque muito amou; e esse “muito amou” é o
despertamento do Eu redentor.

Nenhum bode expiatório alheio me pode libertar dos meus pecados – eu
mesmo, no meu Eu divino, devo libertar-me dos pecados do meu ego humano.
Somente a consciência e vivência da minha essência divina me pode libertar
dos pecados da minha existência humana. “Conhecereis a verdade, e a
verdade vos libertará”, conhecereis a verdade sobre vós mesmos, e esta
verdade conscientizada e vivida, vos libertará do pecado, que temos, mas que
não somos. Nós somos o Eu divino, e temos o ego humano.

Toda a redenção é uma auto-redenção, mas não uma ego-redenção. O autós,
ou Eu do homem é o seu Cristo interno. Auto-conhecimento transbordando em
auto-realização é auto-redenção.

Quando o nosso cristianismo teológico culminar em cristicidade divina, então
desaparecerá esse equívoco da alo-redenção, e nascerá a verdade da auto-
redenção, da redenção pelo Cristo interno, sem nenhum bode expiatório alheio.
FUNDOU JESUS UMA IGREJA?



Sim – e não.

Depende do que se entende por igreja.

A palavra grega ekklesia, e o vocabulário no ecclesia, ocorrem repetidas
vezes nos Evangelhos.

A tradução portuguesa é igreja.

Mas o que, hoje em dia, se entende por igreja é algo totalmente diferente do
sentido primitivo desta palavra. Igreja é, para nós, uma organização social e
hierárquica, com seu chefe humano e com sua constituição jurídica. Tomás de
Aquino defende a igreja como uma sociedade perfeita, dotada de poder
executivo, poder legislativo e poder judiciário. A igreja, segundo este conceito
teológico, desenvolvido desde o quarto século, é uma organização estatal, cujo
funcionamento obedece às mesmas normas de qualquer outro governo.

Este é o aspecto jurídico-legal da igreja.

No Evangelho, porém, a palavra igreja nada tem que ver com este conceito.
Todo o Evangelho do Cristo gravita em torno do conceito central do “reino de
Deus”, ou “reino dos céus” – e esse reino coincide exatamente com o que o
Evangelho entende por igreja.

Sendo que Jesus falava constantemente do “reino”, perguntaram-lhes os
discípulos: “Mestre, onde está o reino de Deus?”. Respondeu Jesus: “O reino
de Deus não vem com observâncias, nem se pode dizer: ei-lo aqui ei-lo acolá –
o reino de Deus está dentro de vós... mas é como um tesouro oculto, como
uma luz debaixo do velador, como uma pérola no fundo do mar”.

O quinto evangelho, do apóstolo Tomé, encontrado recentemente no Egito, e já
traduzida em todas as línguas, também, em português, trata explicitamente
deste reino de Deus, no mundo e no homem, dessa igreja verdadeira, interna,
real, invisível.

O Mestre nega explicitamente que o reino de Deus possa ser descoberto por
meio de observação; que ele tenha localização geográfica, e possa apontá-lo a
dedo, dizendo: aqui está o reino, acolá está o reino.

Depois, resumindo tudo, termina ele: O reino de Deus está dentro de vós.
A tradução “está entre vós”, como se fosse um fenômeno apenas social, é
falsa; tanto o texto grego do primeiro século como o texto latino posterior dizem
“está dentro de vós”, isto é, no interior da alma humana. Com isto nega o
Mestre que se trate de uma organização social, com sua constituição, seus três
poderes: executivo, legislativo e judiciário.

Na sexta-feira santa, no pretório romano de Jerusalém, Pôncio Pilatos,
governador romano da Judéia, perguntou a Jesus se ele era rei, e o acusado
respondeu que sim, mas que o seu reino não era deste mundo.

O reino de Deus existe potencialmente em toda a creatura humana, e o homem
tem de conscientizar e desenvolver este reino.

Hoje em dia, o movimento mundial de auto-conhecimento e auto-realização
não visa outra coisa senão a conscientização do reino de Deus no homem e a
vivência de acordo com ele.

A verdadeira igreja do Cristo nada tem que ver com organização social ou
jurídico-legal.

Por que então foi fundada a igreja visível?

A igreja visível foi fundada pelos homens, pelos teólogos, e pode coexistir com
a igreja invisível, assim como o corpo é o aspecto material da alma espiritual.
Mas seria absurdo dizer que a alma tem cabeça, pernas, braços, etc.

A alma ou essência da igreja é o reino interno em cada indivíduo; o corpo ou a
existência da igreja pode ser uma sociedade visível, contanto que esta não
procure suplantar aquela, mas viva em perfeita harmonia como manifestação
visível da igreja invisível. Em caso de conflito entre o corpo da igreja e a alma
da igreja devemos abandonar o corpo e afirmar somente a alma.

A alma invisível do reino de Deus pode manifestar-se através de vários corpos
visíveis – contanto que não haja identificação entre a alma e o corpo, entre o
reino interno e a organização externa.

Sendo que o grosso da humanidade é e sempre foi infantil e espiritualmente
imaturo, apareceu a mensagem metafísica do Cristo em forma de pedagogia
infantil, como é toda a teologia. Essa interpretação pedagógica da mensagem
cósmica do Cristo é um mal necessário, porque a maior parte da humanidade
não está, nem nunca esteve, em condições de compreender e assimilar o
espírito do reino invisível – e é melhor que as massas primitivas tenham uma
disciplina pedagógica do que nada.

Já no primeiro século escrevia Paulo de Tarso aos cristãos: “Aos que, entre
vós, são infantes em Cristo, dei-lhes leite para beber – mas aos que são
adultos em Cristo, dei-lhes comida sólida”.
Vinte séculos não foram suficientes para que muitas dessas crianças se
tornassem adultas em espírito. A evolução vai com passos mínimos em
espaços máximos.

Infelizmente, muitos chefes cristãos têm interesse – social, político e financeiro
e financeiro – em manter a cristandade no seu estágio infantil de obediência
cega, porque nenhum chefe pode governar homens espiritualmente adultos. A
adultez espiritual é autônoma e auto-determinante, e não obedece servilmente
a ordens heterônomas. Se toda a cristandade estivesse espiritualmente adulta,
não haveria necessidade da existência de uma igreja visível, porque a igreja é
essencialmente invisível, o reino de Deus dentro do homem. Na razão direta
que crescer a Cristocracia, decrescerá a clerocracia. E, quando a Cristocracia
tiver atingido 100, a clerocracia descerá a 0.

Parece que João, no Apocalipse, previu esta Cristocracia triunfante, quando
escrevia: “Haverá um novo céu e uma nova terra, e o reino de Deus será
proclamado sobre a face da terra.”.

Os chefes espirituais podem e devem ser orientadores do povo, setas
indicadoras ao longo do caminho, mas não intermediários entre o homem e
Deus. Mas, para ser orientador e guia para outros, deve o homem ter realizado
em si mesmo o reino de Deus. Do contrário, será um “guia cego guiando outros
cegos”.

Não basta dizer e fazer – é necessário ser, em espírito e verdade, aquilo que
recomendamos aos outros.
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  • 1. HUBERTO ROHDEN “QUE VOS PARECE DO CRISTO?” UNIVERSALISMO
  • 2. “QUE VOS PARECE DO CRISTO?” Este livro do filósofo e educador contemporâneo, professor HUBERTO ROHDEN, totalmente reescrito e acrescido, é um dos mais importantes textos na extensa bibliografia do autor. A força de seu conteúdo nos atinge como o impacto de um pentecostes. A obra é centrada numa das mais enigmáticas perguntas jamais feita neste planeta Terra: “Que Vos Parece do Cristo?”, formulada por ele mesmo aos seus discípulos. A partir da sua formulação, há quase dois mil anos, a resposta definitiva e universal ainda não nos fora dada. Teólogos de diversas épocas têm tentado dar uma explicação a esta interrogação inquietante, mas a maioria das vezes as respostas não atingem o nível metafísico da sua verdadeira significação. ROHDEN, conhecedor dos textos gregos – os mais próximos do original – , e apoiado na sua imensa cultura e conhecimento dos escritos sobre a vida do Cristo, mergulha analítica e intuitivamente na gênese da pergunta até a sua resposta clara e definitiva. A linguagem da obra é concentrada, una, simples, nítida e apresentada linearmente. Ao folhearmos a última página, uma saciedade metafísica de certeza e transbordamento nos aquieta e conforta. Sentimo-nos imensamente enriquecidos. Agora sabemos a “saída para o futuro”. ROHDEN alerta a seus leitores: “As páginas deste livro são dedicadas à cristicidade individual de alguns, e não ao cristianismo social de muitos. Os muitos condenarão este livro como heresia, e têm razão; mas é precisamente este caráter herético a maior prova da sua autenticidade crística. A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade da mensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas é uma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, como dizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza. É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro. Feliz daquele que ler este livro.
  • 3. E mais feliz ainda é aquele que puder viver e vivenciar esta experiência crística. “Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do que estas”. Eis aí implicitamente a resposta suficiente e total. Sim, nós estamos nele e ele está em nós. Tudo é possível. Cristo – o Caminho, a Verdade e a Vida.
  • 4. ADVERTÊNCIA A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência. O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa. Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.
  • 5. CRISTIANISMO – CRISTICIDADE Antes de tudo, prevenimos o leitor que este livro não pretende justificar alguns dos numerosos tipos de cristianismo que, há diversos séculos, existem nos países ocidentais daquém e dalém-mar. Damos plena razão a Nietzsche que, no princípio deste século, escreveu: “Se o Cristo voltasse ao mundo em nossos dias, a primeira declaração que faria ao mundo cristão seria esta: Povos cristãos, sabei que eu não sou cristão”. Mahatma Gandhi respondia a todos os missionários cristãos que o queriam converter: “Aceito o Cristo e seu Evangelho, não aceito o vosso cristianismo”. Albert Schweitzer, teólogo cristão e filho de um ministro evangélico, escreveu: “Nós injetamos nos homens o soro da nossa teologia, e quem é vacinado com o nosso cristianismo está imunizado contra o espírito do Cristo. Abraham Lincoln, um dos maiores presidentes dos Estados Unidos, nunca se filiou a nenhuma das muitas igrejas cristãs que há nesse país, porque estava à espera da igreja do Cristo. Por que esta discrepância entre Cristo e cristianismo, da parte de pessoas espirituais e sinceras? Porque é impossível identificar o Cristo com alguma organização religiosa; qualquer tentativa destas é necessariamente uma deturpação e uma falência. Toda a organização é produto do ego, e esse ego é, por sua natureza, egocêntrico, e por isso anti-crístico. A única coisa que pode haver é uma experiência crística individual, mas nunca uma organização cristã social. Diversas pessoas têm tido e têm experiência crística; e onde há muita plenitude há necessariamente um transbordamento. Se houvesse muitos homens individuais com genuína experiência crística, o mundo social seria grandemente beneficiado por essa plenitude individual. A cristicidade de muitos produziria, por via indireta, uma espécie de cristianismo social por indução. Mas o que é impossível e contraproducente é que o espírito do Cristo seja expresso por uma organização qualquer, como o ocidente tem tentado inutilmente.
  • 6. Disto sabia o Cristo quando preveniu os seus conterrâneos, dizendo: “O reino dos céus não vem com observâncias, nem se pode dizer ei-lo aqui, ei-lo acolá! O reino dos céus está dentro de vós”. Existem no Brasil três tipos principais de cristianismo: católico, protestante e espírita. Será que alguma dessas organizações certamente sinceras, pode ser identificada com a genuína mensagem do Cristo? Teria o Cristo feito consistir a grandiosa mensagem cósmica do seu Evangelho em confissão, comunhão e missa? Ou em ler a Bíblia de capa a capa e crer no sangue redentor de Jesus? Ou ainda em caridade e crença em sucessivas reencarnações? Se assim fosse, seria Jesus um hábil codificador de preceitos e proibições, mas nunca esse gênio cósmico que foi o Cristo Real da história. Radha Krishnan, antigo presidente da Índia, escreveu: “A religião da humanidade do futuro será a mística”. A mística é uma experiência estritamente individual, que, quando organizada socialmente, deixa de existir, assim como vida encaixotada não é vida, luz engarrafada não é luz. É da íntima essência da experiência mística ser individual, o que todavia não impede que essa verticalidade individual se desdobre em horizontalidade social; mas esse desdobramento ou transbordamento só acontece quando a experiência vertical atinge o zênite da sua plenitude. O nosso mundo conturbado não pode ser sanado por nenhuma nova organização, religiosa ou civil; somente a experiência mística de muitos pode beneficiar realmente a humanidade. Toda a mística verdadeira e plena é irresistívelmente transbordante e difusora; se não for isto, não passa de misticismo, mas não é uma mística dinâmica. O Cristo nunca organizou nada, nem no âmbito religioso da Sinagoga de Israel, nem no setor civil da política do Império Romano. A sua atuação foi exclusivamente indireta, por espontâneo transbordamento da sua própria plenitude, porque, como diz Paulo de Tarso, nele habitava corporalmente toda a plenitude da Divindade. Durante quase três séculos, do ano 33 até 313, a cristandade das catacumbas vivia dessa cristicidade mística, sem nenhuma organização social. E foi este o período mais glorioso do mundo cristão, o período da verticalidade mística das catacumbas, cuja única saída era para o martírio no Coliseu. Sabemos que no ano 33, foi Jesus entregue à morte pelo beijo de um de seus discípulos – mas muitos ignoram que o mesmo Cristo, no ano 313, foi assassinado pelo beijo de outro discípulo dele, o primeiro imperador cristão Constantino Magno. O beijo de Judas matou o corpo de Jesus – o beijo de Constantino matou o espírito do Cristo.
  • 7. Judas versus Jesus. Constantino versus Cristo. O beijo com que Constantino Magno traiu o Cristo foi o Edito de Milão, do ano 313, que pôs termo a três séculos de perseguição – mas com este benefício de discípulo preludiou séculos de malefícios de traidor: convidou os discípulos do Cristo a se integrarem na organização do Império Romano; fez do cristianismo a religião oficial do Estado, uma religião estatal, defendida mediante armas, política e dinheiro – armas para matar os inimigos, política para enganar os amigos, dinheiro para comprar e vender consciências. O Edito de Milão foi o fim de três séculos de cristicidade – e o princípio de muitos séculos de cristianismo, social, político, militar. O cristianismo de Constantino continua até hoje no mundo oficial, das igrejas e de alguns governos. Paralelamente, à sombra das catacumbas do silêncio e da solidão, continua em algumas almas a cristicidade dos místicos, cujos nomes não constam e cujas estátuas não figuram em praças e salões. *** As páginas deste livro são dedicadas à cristicidade individual de alguns, e não ao cristianismo social de muitos. Os muitos condenarão este livro como heresia, e têm razão; mas é precisamente este caráter herético a maior prova da sua autenticidade crística. É sabido que a Europa moderna, sobretudo França, Alemanha, Inglaterra, abandonou praticamente o cristianismo tradicional das igrejas. Por isto os teólogos e missionários se voltam para os povos subdesenvolvidos e semi- analfabetos da América Latina, onde ainda é possível a aceitação do cristianismo teológico, como no tempo do Império Romano, quando esse cristianismo surgiu. Os países do Oriente não aceitarão jamais o nosso cristianismo em sua forma eclesiástica, porque a cultura filosófica milenar do Oriente é incompatível com as nossas teologias; até hoje, após séculos de esforços missionários, não há 1% (um por cento) de cristãos nos países asiáticos. A verdadeira mensagem do Cristo é perfeitamente compatível com a mais alta evolução cultural da humanidade – mas não com as nossas teologias cristãs. A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade da mensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas é uma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, como dizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza.
  • 8. É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro. *** Com isto não condenamos as organizações eclesiásticas ou religiosas que aparecem com o nome de cristianismo. Sabemos que um grupo numeroso de pessoas necessita de uma religião padronizada, que eles passam encampar como norma moral. Essa religião padronizada pode ser considerada como uma espécie de corpo, mas não como a alma do cristianismo, que é o próprio Evangelho do Cristo. Sendo a maioria das organizações religiosas constituídas de massas de pouca evolução, devem os membros delas crer o que podem crer, sabendo, porém, que a verdadeira mensagem do Cristo é algo infinitamente mais sublime, consistindo na realização do Reino de Deus na vida diária. Enquanto as crenças e práticas externas não impedirem a realização do Reino de Deus, podem elas ser toleradas; mas, se alguém identificar com elas a alma da mensagem do Cristo, constituem impedimento para a realização do Reino de Deus sobre a face da terra.
  • 9. O MISTÉRIO DA ETERNA FASCINAÇÃO DO CRISTO Livros sem conta se têm escrito sobre o Cristo. Amor sem medida se tem jurado ao Cristo. E, no entanto, eternamente enigmático é o motivo dessa fascinação do Cristo. Tentaremos desvendar cautelosamente o porquê desse fascínio. Todo o homem é inconscientemente o que o Cristo é conscientemente – e o que nós somos potencialmente. A fascinação que sentimos em face do Cristo é a visão do nosso próprio Eu, se fosse plenamente realizado. Esse Eu do Cristo interno, sempre realizável e sempre realizando, e jamais realizado... Fascina-nos o próprio ego humano na visão longínqua do Eu crístico. Fascina-nos a planta dormente na semente. Sentimos o doloroso anseio de sermos explicitamente o que somos apenas implicitamente. Contemplamos o nosso “sopro divino” embrionário na adultez da “imagem e semelhança de Deus”. Vislumbramos o que poderíamos ser – e ainda não somos. “Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do que estas.” Como nos fascinam estas palavras! Soam como sinos a tanger em praias longínquas. Como convites para uma solenidade transcendental. Como enlevos de amor mesclados de dor. Como uma alvorada de luz num ocaso de trevas. O nosso Cristo-amor é um auto-amor em outra dimensão.
  • 10. É amar o nosso Cristo interno no Cristo eterno. Todo o auto-amor, que parece alo-amor, é um Teo-amor. Se nunca ninguém se realizara plenamente, como poderíamos nós ansiar por nossa auto-realização? Agora vislumbramos em espelho e enigma o que esperamos contemplar face a face. Toda a fascinação do Cristo é uma auto-fascinação em ínfima potência. É uma resposta à eterna pergunta: Que é o homem?
  • 11. QUE É O CRISTO? A pergunta que serve de título a este livro foi feita, há quase 2000 anos, por Jesus aos chefes da Sinagoga de Israel. E eles responderam que o Cristo era filho de David, isto é, um descendente do rei de Israel, pai de Salomão. Jesus não aceita a resposta, porque, de fato, o Cristo não é filho de David. Esta confusão entre Cristo e Jesus é, pois, antiquíssima, e continua até hoje. Que é o Cristo, o Ungido, que os antigos hebreus chamavam Messias, o Enviado? O quarto Evangelho designa o Cristo com a palavra Logos, começando o texto com estas palavras: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”. A palavra grega Logos é muito anterior à Era Cristã. Os filósofos antigos de Alexandria e de Atenas, sobretudo, Heráclito de Éfeso, designavam com Logos o espírito de Deus, manifestado no Universo. Logos seria, pois, o Deus imanente, em oposição à Divindade transcendente, que não é objeto de nosso conhecimento. A Vulgata Latina traduz Logos por Verbo: “No princípio era o Verbo...”. Logos, Verbo, Cristo são idênticos e designam a atuação da Divindade Creadora, a manifestação individual da Divindade universal. Neste sentido, o Cristo é Deus, mas, não é a Divindade. E neste sentido diz ele aos HOMENS: “Vós sois deuses”; os homens são manifestações individuais da Divindade Universal. A primeira e mais perfeita das manifestações da Divindade Universal, no Universo, é o Cristo, o Verbo, o Logos, que Paulo de Tarso chama acertadamente “o primogênito de todas as creaturas” do Universo. O Cristo é anterior à creação do mundo material. Ele é, “o Primogênito de todas as creaturas”. O Cristo não é creatura humana, mas a mais antiga individualidade cósmica, que, antes do princípio do mundo, emanou da Divindade Universal. O Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que Jesus designa com o nome Pai: “Eu e o pai somos um, mas o Pai é maior do que eu”.
  • 12. Deus, na linguagem de Jesus significa uma emanação individual da Divindade universal. A confusão tradicional entre Deus e Divindade tem dado ensejo a intermináveis controvérsias entre os teólogos. Mas o texto do Evangelho é claro: O Cristo afirmou ser Deus, mas nunca afirmou ser ele a própria Divindade. O Gênesis de Moisés principia com as palavras: “No princípio crearam os Elohim o céu e a terra”. O quarto Evangelho, de João, abre com palavras semelhantes: “No princípio era o Logos... por ele foram feitas todas as coisas”. Parece, pois, que as Potências Creadoras (em hebráico Elohim) são idênticas ao Logos, pelo qual foram creadas todas as coisas. Elohim, Logos, Verbo, Cristo – são nomes vários que designam a creatura cósmica que, antes do mundo material, emanou da Divindade transcendental. A filosofia oriental chama a Divindade universal Brahman, e dá o nome de Brahma à mais antiga individuação da Divindade. Brahma seria igual a Deus, Cristo, Logos, Verbo. Não existe em todo o Universo uma única creatura definitivamente realizada e incapaz de se realizar ulteriormente. Toda e qualquer creatura, mesmo Brahma, ou Cristo, são creaturas altamente realizadas, mas sempre realizáveis; são, por assim dizer, sinfonias inacabadas. Toda e qualquer creatura, mesmo a mais perfeita creatura cósmica, é ulteriormente evolvível ou realizável. A vida eterna não é uma chegada, uma parada, uma meta final – é uma incessante jornada ou evolução rumo ao Infinito, sem jamais coincidir com o Infinito. Todo o finito, diz a matemática, em demanda do Infinito, está sempre a uma distância infinita. Panta rhei, tudo flui, diziam os filósofos antigos; tudo é relativo, escreve Einstein em nosso século. A Divindade, o Infinito, o Absoluto, não é objeto de nosso conhecimento. Tudo que sabemos se refere ao Relativo, ao Fluídico, ao Evolvível, que está em incessante evolução. Referem os livros sacros que Cristo, a mais antiga creatura cósmica, se encarnou na pessoa humana de Jesus. Sendo que esta descida do Cristo cósmico às baixadas do planeta terra, é um fenômeno incompreensível, têm os homens feito inúmeras conjeturas sobre o porquê dessa encarnação do Cristo. E ele mesmo, na pessoa de Jesus, nunca disse claramente da finalidade da sua homificação.
  • 13. Entretanto, sendo o Cristo o maior dos avatares do Universo conhecido, podemos interpretar a encarnação dele pelas normas dos outros avatares, de que passaremos a ocupar-nos num dos capítulos deste livro.
  • 14. A ANTIDROMIA PARADOXAL DOS AVATARES A palavra sânscrita avatara quer dizer “descido”, e designa uma entidade de elevada evolução que resolveu descer da sua altura às baixadas de regiões inferiores. Esta descida voluntária do avatar faz parte do drama da sua evolução ascensional. Esta contra-corrida, ou antidromia, representa um elo na longa cadeia da sua auto-realização, como diríamos em termos modernos. Quando um avatar atinge grande nível de evolução e libertação, tem ele o desejo de descer externamente às baixadas a fim de realizar a subida a maiores alturas, na escala da sua incessante auto-realização. Todos os avatares sabem, pela voz da sua consciência, que não há evolução sem resistência, sem luta, sem sofrimento. E, como nas regiões superiores do espírito não há suficiente resistência e sofrimento, resolve o avatar descer a regiões inferiores da matéria em busca da necessária resistência. Esta antidromia parece ao inexperiente uma espécie de masoquismo. Mas para o avatar o sofrimento não é um fim, mas sim um meio para um fim mais sublime. O avatar procura resistência e sofrimento a fim de prosseguir na linha ascensional da sua evolução indefinida. Este desejo de ulterior evolução parece egoísmo aos ignorantes, mas é o imperativo duma realização superior para o avatar, que já superou todos os estágios do egoísmo ilusório e trata exclusivamente da sua auto-realização, que é a lei de todo o Universo. As leis cósmicas não conhecem estagnação, nem involução; mas incessante evolução. Auto-realização é santidade, é auto-afirmação, é amor divino na creatura evolvível. Quanto mais liberto se sente o avatar tanto mais desejo tem ele de se escravizar voluntariamente por amor. Por amor de que? Muitos pensam que o amor do avatar vise os seres inferiores no meio dos quais ele encarna. Mas a verdade é que o amor do avatar visa sobretudo o próprio avatar e sua evolução superior. Como já dissemos, não há nenhum
  • 15. resquício de egoísmo nesse auto-amor, que é supremo imperativo cósmico e divino: sede perfeitos, como perfeito é vosso pai. Entretanto, apesar de o amor do avatar ser um auto-amor, indiretamente é ele também um alo-amor, porque redunda em benefício dos seres inferiores que lhe causam resistência e sofrimento. Segundo leis eternas, toda a plenitude transborda infalivelmente. Quanto mais o avatar se auto-plenifica, tanto mais a sua plenitude transborda em beneficio de outros seres. “Da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça,” diz o texto sacro com referência ao maior dos avatares. Esses seres superiores que realizam a sua própria plenitude são os benfeitores ignotos de outros seres. Não é possível ser realmente bom sem fazer bem a outros seres devidamente receptivos. É esta a maravilhosa simbiose do Universo.
  • 16. O QUE PAULO DE TARSO PENSAVA DO CRISTO Paulo de Tarso tem sido acusado de ter introduzido no cristianismo um Cristo diferente de Jesus dos Evangelhos. De fato, ele fala mais do “Cristo, Rei imortal dos séculos” do que do Jesus, o carpinteiro de Nazaré, que ele não viu em carne. Ele se gloria de ser apóstolo, não do “Jesus carnal”, mas do Cristo imortal, que lhe apareceu às portas de Damasco, e o transformou totalmente. Dizem alguns teólogos que Paulo transformou o humilde Jesus da Galiléia num herói e redentor do mundo, à maneira dos super-homens dos escritores gregos. Sobretudo nas Epístolas aos Colossenses, aos Efésios e aos Filipenses, exalta Paulo as glórias do Cristo cósmico, que bem pouca semelhança tem com o singelo Jesus dos evangelistas. “No Cristo converge como na cabeça tudo quanto existe no céu e na terra”. O Cristo é “superior a todos os principados, potestades, virtudes e dominações, e que outro nome haja, não só neste mundo, mas também no outro – ele, que de tudo enche o Universo inteiro”. Estas palavras lembram o início da Epístola aos Filipenses, em que Paulo canta o Cristo cósmico, que estava na glória de Deus, e não julgou dever aferrar-se a essa divina igualdade, mas esvaziou-se dos esplendores divinos e revestiu-se da natureza humana, tornando-se homem, servo, vítima, crucificado. E por isto Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, de maneira que, em nome do Cristo, se dobram todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres, e todos confessam que ele é o Senhor. Nestas palavras, como já dissemos, Paulo descreve a passagem do Cristo pré-humano para um super-Cristo pós-humano, tornando-se maior depois da encarnação do que era antes. A Vulgata Latina diz que Deus o exaltou, mas o original grego de Paulo diz enfaticamente que Deus o super-exaltou, ou o exaltou soberanamente, tornando-se ele maior do que fora. Os teólogos dogmáticos não admitem uma evolução no Cristo, porque identificam o Cristo com a própria Divindade, em que não há evolução; mas, se o Cristo é o “primogênito de todas as creaturas”, na expressão de Paulo, é possível uma evolução. Aos colossenses, que identificavam o Cristo com os anjos superiores, escreve Paulo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de todas as creaturas, porque nele foram creadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e
  • 17. invisíveis – tudo foi creado por ele e para ele. Ele é anterior ao Universo, e nele o Universo subsiste. Ele ocupa a primazia em todas as coisas, e nele aprouve residir toda a plenitude”. A plenitude (pléroma) é, para Paulo, a Divindade, em oposição à vacuidade (kénoma). Para Paulo, o Cristo é a primeira e mais perfeita emanação individual da Divindade Universal, anterior a qualquer outra creatura, sendo ele a primeira de todas as creaturas cósmicas, o Alfa e Ômega, no dizer de Teilhard de Chardin, o princípio e o fim, na linguagem do Apocalipse. O Cristo, é, segundo João, o “Unigênito do Pai”, a creação única da Divindade, o único Teo-gênito, ao passo que nós e todas as outras creaturas somos Cristo-gênitos, creados pelo Cristo, como diz o autor do quarto Evangelho: “Por ele foram feitas todas as coisas, e nada do que foi feito foi feito sem ele”. A confusão que certos teólogos fazem entre Deus e Divindade, tem dado azo a controvérsias seculares e milenares. Segundo os livros sacros, sobretudo na visão de João e de Paulo, o Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que ele chama “Pai”, que está no Cristo e no qual o Cristo está, mas “o Pai é maior do que eu”. Deus, à luz dos livros sacros é a mais alta emanação individual da Divindade Universal, portanto creatura da Divindade, o “Primogênito de todas as creaturas”. Em face disto, compreende-se que Pedro, numa das suas epístolas previna os cristãos daquele tempo, dizendo que, nos escritos do irmão Paulo, há certas passagens difíceis que os ignorantes pervertem para sua própria perdição. De fato, para Pedro e os outros pescadores galileus, deve ter sido difícil ter uma visão exata do Cristo cósmico do erudito ex-rabino e iluminado vidente do Cristo-Logos. Uma intuição cósmica nunca é exprimível em termos de análise intelectual. Tanto em nossos dias como naquele tempo persiste esta mesma dificuldade. Ainda hoje há filósofos e teólogos que consideram Paulo de Tarso como um falsificador dos Evangelhos, como um contrabandista que tenha introduzido no cristianismo um Cristo Cósmico ao lado do singelo Jesus nazareno. Entretanto, o Cristo de Paulo é o mesmo Nazareno descrito pelos Evangelistas, mas visualizado da excelsa perspectiva do Logos pré-histórico, que também João, o místico, descreve no início do seu Evangelho: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”. O Cristo cósmico, pré-humano, e o Jesus cosmificado pelo Cristo, pós-humano – é esta a grandiosa síntese de Paulo de Tarso, o Alfa e Ômega da sua vivência e de todas as suas epístolas.
  • 18. O CRISTO À LUZ DO QUINTO EVANGELHO O Quinto Evangelho, do Apóstolo Tomé, recentemente descoberto no Egito, não é uma biografia de Jesus, como os outros Evangelhos; refere apenas 114 aforismos do Mestre. Esses aforismos giram, quase todos, em torno da idéia central do Reino de Deus, que está no homem e que deve manifestar-se fora dele, na sociedade e no mundo inteiro. Há entre esses pequenos capítulos do Quinto Evangelho, alguns tão profundamente místicos que não podem ser analisados intelectualmente, mas sim intuídos espiritualmente. Os aforismos 13 e 13-A referem o seguinte: “Disse Jesus a seus discípulos: Comparai-me e dizei-me com quem me pareço eu. Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo. Disse Mateus: Tu és semelhante e um homem sábio e compreensivo. Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu és semelhante. Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da fonte borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste. Então levou Jesus Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três palavras. E, quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, esses lhe perguntaram: que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se eu vos dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me – e das pedras romperia fogo para vos incendiar”. O sentido profundo destas palavras não pode ser falado, mas tão-somente calado. E é por esta razão que Tomé preferiu o silêncio, quando o Mestre lhe pediu opinião sobre ele. O profundo silêncio de Tomé é a mais eloquente declaração da grandeza indizível do Cristo; abriu os canais para o influxo da intuição espiritual. A última verdade sobre o Cristo não pode ser dita nem pensada. O que se pode pensar, já está adulterado; e, se o pensado for falado, há uma segunda
  • 19. deturpação; e se esse pensado e falado for escrito, completa-se a terceira falsificação da verdade. As grandes verdades só podem ser recebidas em total silêncio, mensagem da própria alma do Universo. Por isto, Tomé preferiu calar-se duas vezes: não deu sua opinião sobre o Cristo, nem revelou aos outros o que o Mestre lhe disse quando o levou à parte e lhe falou a sós. Quem quer saber realmente o que o Cristo é, deve calar-se em tão profundo silêncio receptivo que a cosmo-plenitude possa plenificar a sua ego-vacuidade. Podemos apenas soletrar o abc sobre o Cristo, mas, para saber e saborear realmente o que ele é, temos de entrar na Universalidade Cósmica do silêncio. O que há de mais estranho nessa passagem são as palavras que Jesus disse a Tomé: “Eu não sou teu Mestre”, porque já ultrapassaste o Jesus humano e entraste na visão do Cristo divino; bebeste do cálice da sabedoria suprema, e por isto preferiste calar-te. Depois disto, o Mestre levou Tomé à parte e lhe revelou silenciosamente a plenitude do Cristo, revelação tão transcendental que Tomé não se atreveu a comunicá-la a seus colegas, que o teriam considerado louco e o teriam apedrejado como blasfemador; mas das próprias pedras teria saído fogo em testemunho da verdade. Esta revelação anônima e inefável que o Mestre fez a Tomé é um dos pontos culminantes do Evangelho. À pergunta “que vos parece do Cristo?” opõe Tomé o silencio absoluto, que é a melhor resposta.
  • 20. “CRISTO, O PRIMOGÊNITO DE TODAS AS CREATURAS” Com estas palavras declara Paulo de Tarso que o Cristo cósmico, o Verbo, o Logos, é creatura – mas não nega que ele é Deus. Ele é a primeira de todas as creaturas – cósmicas, mão humanas – que emanaram da eterna Divindade. Ele não é essa Divindade, tanto assim que o próprio Cristo afirma que a Divindade, que ele chama “Pai”, é maior do que ele. Há quase 2000 anos que filósofos e teólogos discutem se o Cristo é Deus ou não. E não chegaram a um acordo. Por que não? Porque confundem Deus com Divindade. Os concílios definiram que o Cristo é Deus e excomungaram a todos os que o negam; mas não estabeleceram diferença nítida entre Deus e a Divindade, tentando evitar o politeísmo mediante o recurso à “Trindade”, do qual o Cristo seria a segunda pessoa. O enigma não existe na realidade, e os livros sacros estabelecem compatibilidade entre Deus e creatura. O Cristo é Deus e é creatura. Nem o Cristo e seus discípulos afirmaram que o Cristo era a Divindade. O Cristo nega explicitamente a sua identidade com o “Pai” (Divindade): “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim, e eu estou no Pai, mas o Pai é maior do que eu”. Se ele não tivesse dito o Pai é maior do que eu, poderíamos pensar que ele se tivesse igualado à Divindade. Mas ele nega expressamente a sua identidade com a Divindade, apesar de se dizer Deus. Façamos uma comparação ilustrativa: um ser vivo pode dizer; eu estou na vida e a vida está em mim, mas eu não sou a vida, sou apenas um vivo; a vida é infinitamente maior do que eu. Deus é uma emanação da Divindade, mas não é a Divindade. A dificuldade dos teólogos nasce do fato de eles professaram o monoteísmo mosaico, ao passo que o Cristo fala em termos de monismo cósmico. O Evangelho é essencialmente monista, como, aliás, são todos os grandes gênios e místicos; todos os finitos estão no Infinito, mas nenhum finito, nem mesmo a soma total dos finitos, é o Infinito. No monismo não há cabimento para uma Divindade pessoal, porque toda a personalidade é necessariamente finita, ao passo que e Divindade é infinita e impessoal. Por isto, ela é
  • 21. infinitamente além de qualquer personalidade. Um Deus pessoal não pode ser a Divindade Infinita. A lógica dos livros sacros é absoluta, ao passo que os teólogos sofrem de um deplorável ilogismo, base de todas as confusões sobre o Cristo. Toda a cristologia dos livros inspirados se torna compreensível, quando se faz nítida distinção entre Deus e Divindade. Há milênios que a sapiência da filosofia oriental faz essa distinção: Brahman é a Divindade, ao passo que Brahma, Vishnu e Shiva são Deus, emanações individuais da Divindade Universal. Quando Jesus, citando uma passagem da Bíblia do Antigo Testamento, diz aos Judeus: “Vóis sois deuses”, toma ele a palavra Deus no sentido de creatura. O Cristo, segundo João, é o “Unigênito do Pai” (da Divindade); é o Deus- creatura, o Deus-gênito. Segundo Paulo de Tarso, é o Cristo o Primogênito de todas as creaturas, o primeiro Deus ou emanação oriunda da Divindade. O Cristo-Lógos é o único “gênito”, ou filho, emanação da eterna Divindade. As outras creaturas, inclusive os homens, são Cristo-gênitas, mas não diretamente Teo-gênitas; o Teo-gênito é um só, os Cristo-gênitos são muitos. O texto grego do quarto Evangelho favorece esta explicação, quando diz: “No princípio era o Logos (Cristo, Verbo) e o Logos estava com a Divindade, e o Logos era Deus”. Quando o grego usa “Theós” sem artigo, devemos entender, um Deus, quando usa “ho-Theós”, com artigo definido, “devemos entender a única Divindade”.
  • 22. É O CRISTO O FILHO UNIGÊNITO DO PAI? Toda a cristandade está habituada, há milhares de anos, a dizer e repetir que o Cristo é o “Filho Unigênito do Pai”, como diz João. Acima de tudo, devemos lembrar, que a palavra pai equivale a “Divindade”, que nada tem que ver com uma pessoa, como é usado na língua tradicional. Podemos dizer que o Cristo, o Verbo, o Logos, era “Filho” da Divindade? A palavra “Filho”, no sentido comum, supõe um Pai e uma Mãe; ninguém é filho só de um pai, ou só de uma mãe. A bipolaridade Universal da natureza viva só conhece filho como produto de um pai e de uma mãe. Mas, na Divindade não há pai nem mãe, nem doador nem receptora, nem dativo nem receptivo, nem positivo nem negativo. A Divindade é absolutamente neutra, embora esse neutro contenha implicitamente o pólo positivo e o pólo negativo, o doador e o receptor. A expressão “filho” é um termo antropomórfico derivado do costume de nós só conhecermos filho como produto sintético de pai e mãe. Nesse sentido, o Cristo não é filho. Na Divindade não há nem gerador nem geradora, não há pai nem mãe. Quando o Uno da Essência se manifesta no Verso da Existência, temos uma emanação, um eflúvio, um efluxo, isto é, uma manifestação parcial, finita, da Divindade total, Infinita. Se dermos ao Uno da Divindade o nome de Essência, então o Verso da creaturidade é uma Existência, uma ex-sistência, algo colocado para fora, ou revelado, manifestado. Em caso algum, pode essa existência ser uma revelação total da Essência, nem mesmo uma divisão ou desmembramento da Essência. A Essência, como pura qualidade, se manifesta pela Existência quantitativa, sem nada perder da sua Essência qualitativa. A soma total do verso emanado do Uno em nada afeta a inteireza ou totalidade do Uno. Quando um pensador emite pensamentos, esses não diminuem o pensador, nem a soma total dos pensamentos emitidos é o pensador emissor – isto suposto que o emissor seja um finito em sua essência.
  • 23. Quando uma quantidade emite quantidades, ela é diminuída – assim como uma fogueira é diminuída na razão direta das centelhas emitidas. Mas, quando a Essência qualitativa emana ou emite existências quantitativas, ela não é afetada por essas emanações quantitativas. O Cristo cósmico, de que fala o quarto Evangelho, é a primeira e mais perfeita emanação da Divindade, a mais perfeita existência emanada da Essência. Isto, todavia, não significa que o Cristo seja infinitamente e absolutamente perfeito, porque nenhuma existência pode ser de absoluta perfeição; se assim fosse a existência emitida seria idêntica à Essência emissora. Uma creatura absolutamente perfeita é um conceito intrinsecamente contraditório, como um círculo quadrado. Quando Paulo de Tarso diz que o Cristo é o primogênito de todas as creaturas, supõe ele que o Cristo seja creatura e não o Creador, e toda a creatura é evolvível, de perfeição elástica, aumentável. Nenhuma creatura pode coincidir com o Creador. Crear é a manifestação parcial da Essência em forma de uma existência – ao passo que criar seria a transição de uma existência em outra existência. De Creador à creatura só existe uma relação de crear. De creatura à creatura existe uma relação da criação, ou seja, de evolução. Crear é receber da Essência uma existência – a creação vem do Todo, da Essência, ainda que do Nada da Existência. Pela creação, o Nada da Existência passa a ser o algo da existência. A creação não aumenta a Realidade – manifesta apenas a Realidade em facticidades. Por outro lado, a des-creação, ou aniquilamento da existência, não implica em nenhuma diminuição da Realidade, que é sempre Infinita, com ou sem facticidades. Salomão diz que a sabedoria de Deus brinca todos os dias, brincando sobre toda a redondeza da terra. E a filosofia oriental afirma que Brahman, a Divindade, faz lila, ou bailado, com maya, a natureza. A creação é pois uma espécie de brinquedo, ou bailado, que a Essência Infinita faz com as existências finitas. Brincar, bailar, parecem indicar leveza, espontaneidade, serenidade. A creação é um ato livre da Divindade. Mas, na Divindade, livre e necessário não são atos contrários, e sim complementares,
  • 24. de maneira que poderíamos dizer que a Divindade crea livremente e necessariamente as creaturas. No infinito coincidem todas as linhas paralelas finitas num ponto indivisível. No Infinito da Divindade há uma liberdade necessária, e uma necessidade livre. Aqui termina toda a nossa análise mental, e começa a intuição cósmica. A intuição cósmica vê perfeita logicidade na liberdade necessária e na necessidade livre, como já dizia, no século XVII o exímio intuitivo Spinoza. O Cristo é a mais perfeita emanação da Divindade – uma perfeição indefinidamente perfectível, como faz ver Paulo de Tarso, na Epístola aos Filipenses. Segundo o quarto Evangelho, o mundo material é uma creação do Cristo, e também esta creação se acha em permanente estado de evolução. A indefinida evolvibilidade de todas as creaturas, telúricas ou cósmicas, faz lembrar o fluxo perpétuo de Heráclito de Éfeso – ou a teoria da relatividade de Einstein. Todos os finitos, todas as creaturas, são antes um devir do que um ser, antes um processo do que um estado. O Uno do Ser, manifestado no Verso do dervir, é que se chama Universo, a unidade na diversidade, o Infinito revelado como finito. A mais alta emanação da Divindade Infinita é o Cristo finito e evolvível. Na Era Eletrônica e Atômica em que vivemos, é mister usar na metafísica a mesma acribia que a ciência usa na física. A clareza do pensamento se manifesta na exatidão das palavras. Hoje em dia, deveríamos dizer que o Cristo é a primeira e mais perfeita emanação da Divindade Universal em forma de creatura individual. Esta emanação cósmica se tornou materialmente perceptível na pessoa humana de Jesus de Nazaré. Embora o Cristo e Jesus estejam inseparavelmente unidos para sempre, não é lógico identificar simplesmente Jesus com o Cristo. Quando o homem, em horas de profunda cosmo-consciência, intue a Realidade para além de todas as facticidades, então tem ele a revelação exata, embora impensável e indizível, do Universo, da Essência Uma revelada em existências várias – do Cristo cósmico humanado – e do Jesus humano cosmificado.
  • 25. É O CRISTO O CREADOR DO MUNDO? Falando do Verbo, do Cristo-Logos, diz o quarto Evangelho que “por ele foram feitas todas as coisas, e nada do que foi feito, foi feito sem ele ”. Com isto declara o evangelista João que o Cristo é o Creador do Universo. Na última ceia, despede-se Jesus dos seus discípulos e se dirige ao Pai, dizendo: “Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em ti, antes que o mundo fosse feito”. Com isto, ao que parece, refere-se ele à sua existência cósmica anterior à creação do Universo material, realizada por ele. Parece, dizem alguns, que a creação do mundo material diminuiu a glória do Creador Cristo, e ele reentra agora no esplendor da sua glória pré-mundial. A creação dos mundos, diz a filosofia oriental, é o “sacrifício cósmico” de Brahman. Brahman, em sânscrito, corresponde à Divindade Universal, absoluta, ao passo que Brahma, corresponde ao Deus individual, ao Cristo creador. Brahman como tal é a Divindade neutra, a grande Tese, ainda não bipolarizada nas antíteses positiva e negativa. Com a creação material principia a bipolaridade, base de toda a evolução do Universo. Segundo a filosofia oriental, o Creador é Brahma, Deus, mas não Brahman, a Divindade. A Divindade é o Ser, Deus é Agir. No Gênesis de Moisés, aparecem os Elohim, as Potências Creadoras, como autores do Universo: “No princípio crearam os Elohim o céu e a terra”. Brahma, Logos, Elohim, podem ser identificados, designando o princípio do Agir, enquanto Brahman, a Divindade, Yahveh, designam o princípio do SER. A palavra Elohim, que aparece nos primeiros capítulos do Gênesis hebraico, em vez de Yahveh, pode ser etimologicamente identificado com Logos, palavra grega para “Verbo” ou Cristo. Brahma, Lógos, Elohim significam, pois, o Deus-Agir concreto, a imanência da essência na existência, o aspecto concreto da Divindade abstrata do puro Ser. A Divindade transcendente no seu Ser não é objeto do nosso conhecer. O Uno da Divindade Universal abstrata como Ser revela-se pelo Deus concreto do Agir, e assim é por nós cognoscível.
  • 26. O Cristo, é, pois, o “Teo-gênito, o filho da Divindade”, ao passo que nós e o mundo somos Cristo-gênitos, e não diretamente Teo-gênitos. Em última análise, é claro, tudo é Teo-gênito, nascido da Divindade. Do Uno do Absoluto, do Infinito, nasce todo o Verso dos relativos, dos finitos. O Uni-verso é o Creador e as creaturas. O Evangelho, depois de dizer que o Cristo-Logos é o Creador do mundo prossegue: “Nele estava a vida, E a vida é a luz dos homens, A luz brilha nas trevas, E as trevas não a prenderam” Aqui, a filosofia cósmica de João atinge o clímax da estética literária, onde a seguinte linha começa com a deixa da precedente: ................................................................................................. vida, Vida ........................................................................................... luz. Luz ........................................................................................ trevas, Trevas .............................................................................................. A quintessência do mundo creado, do Verso, é Vida, que é a fonte e base de tudo, do mundo mineral, vegetal, animal. Esta vida, porém, atingiu no mundo hominal a perfeição da luz, isto é, da vida consciente. E as trevas do mundo inconsciente não prenderam a luz do consciente; as trevas inconscientes não extinguiram a luz do consciente. Com estas palavras sintetiza o quarto Evangelho os dois pólos de todo o Universo creado: creação e evolução. A creação é a existência finita emanada da Essência infinita, ao passo que a evolução é o processo ascensional de uma existência rumo a outra existência. A Creação é, pois, o princípio das existências finitas emanadas da Essência Infinita. O algo existente não veio do nada, do inexistente; o algo veio do Todo. Esse algo veio, sim, do nada do algo (do não-algo) mas veio também do Todo, do Infinito, da Essência. Todo o Verso finito vem do Uno Infinito. A creação não é algo separado do Infinito, assim como uma centelha que salta da fogueira. A creação é comparável ao processo do pensamento em relação ao pensador. O pensamento que o pensador pensa não é algo separado do pensador, mas é o próprio pensador enquanto pensante. O pensamento é uma manifestação parcial e imanente do próprio pensador.
  • 27. Assim, a creatura está no Creador, é uma manifestação parcial e imanente no Creador, é uma existêncialização finita da Essência infinita. É esta a última palavra da filosofia perene: o monismo cósmico, equidistante do monoteísmo dualista e do panteísmo ilógico. O Uno do Infinito presente em todo o Verso dos Finitos é idêntico na Essência, mas diferente nas existências. Para melhor compreensão, Brahman pode ser comparado com um lago tranquilo, ao passo que Brahma é como uma torrente que flui desse lago e se lança morro abaixo. O estado neutro do lago se manifesta em forma positiva e negativa na torrente. No decurso da torrente, Brahma, a filosofia oriental vê Vishnu, o continuador de Brahma, e finalmente Shiva, o consumador dos dois. Em Vishnu ainda vemos as antíteses, ao passo que em Shiva aparece a síntese. O amor em Brahman é bondade; mas em Brahma essa bondade passiva se converte em amor ativo; o ser-bom estático passa a ser um amar dinâmico; a brasa tranquila deflagra em chama vivificante.
  • 28. O CRISTO INTERNO Até ao Concílio Vaticano II, a teologia quase só falava do Cristo externo, identificando-o com a pessoa humana de Jesus de Nazaré. Hoje em dia, já se fala no Cristo interno no homem. Aliás, esse Cristo interno já aparece nos evangelhos, sobretudo na parábola da videira e seus ramos: a mesma seiva divina que circula no tronco da videira circula também nos ramos dela, isto é, o espírito divino, que é o Cristo em Jesus, é Idêntico ao espírito divino que existe em todos os seres humanos. Jesus afirma que a presença de Deus é uma realidade em todo o ser humano- “o Pai está em mim, o Pai também está em vós” – mas a consciência e atuação do espírito divino, varia de pessoa à pessoa. A presença de Deus é a mesma em todo o homem, mas o que cristifica o homem é a consciência e a vivência dessa presença divina. Diz o Mestre! “Aquele que em mim está, mas não produzir fruto, será cortado e jogado ao fogo e destruído; mas aquele que em mim está e produzir fruto, será podado (purificado) para que produza fruto ainda mais abundante”. Com estas palavras, afirma o Mestre a presença real do Cristo divino em toda a creatura humana, ao passo que a atuação subjetiva desse Cristo interno depende da consciência do Homem. A despeito da presença objetiva do Cristo no homem, pode o homem perecer espiritualmente, o que acontecerá se o homem não viver de acordo com esse espírito. Mas, se a presença objetiva do Cristo no homem produzir uma vivência subjetiva em harmonia com esse espírito, então esse ramo humano da videira divina será podado, ou purificado, a fim de produzir fruto mais abundante. A poda dos ramos da videira se faz no início da primavera, para que a seiva se concentre em pequeno espaço, e rompa com maior força, produzindo fruto vigoroso. Essa poda equivale a uma espécie de sofrimento da planta; a videira “chora”, diz o povo, porque do ferimento do ramo caem pingos de seiva vital e umedecem o solo. Quem vive de acordo com o espírito do Cristo passa por uma “sofrimento-crédito” para se tornar ainda mais espiritual. A espiritualidade não preserva o homem do sofrimento, como se vê pela vida do homem justo Job, e pela própria vida de Jesus; o sofrimento-crédito acompanha a evolução espiritual do homem. No princípio, esse sofrimento é compulsório, como mostra a vida de pessoas espirituais; só mais tarde passa esse sofrimento a ser um sofrimento voluntário, como aconteceu a Jesus, que aceitou espontaneamente o sofrimento causado pelo processo da sua cristificação: “Ninguém me tira a vida; eu deponho a
  • 29. minha vida quando eu quero, e retomo a minha vida quando eu quero”. Não há evolução sem resistência. A dor, o sofrimento é uma resistência, provocada pela atuação do Eu superior sobre o ego inferior. Até na pessoa humana de Jesus houve um resto dessa resistência evolutiva, Jesus pede que o sofrimento passe dele; mas ao mesmo tempo o seu Cristo aceita livremente o sofrimento “para assim entrar em sua glória”. Os avatares procuram espontaneamente essa resistência evolutiva do sofrimento a fim de promover a sua espiritualização ulterior. Paulo de Tarso, na epístola aos filipenses, atribui essa antidromia ao próprio Cristo, que, das alturas dos esplendores divinos, desceu às dolorosas baixadas humanas, e foi, por meio disto, “soberanamente exaltado”. O despertamento e a vivência de acordo com o Cristo interno marcam o roteiro da evolução ascensional, da cristificação do homem. Também as palavras do Cristo “eu sou a luz do mundo – vós sois a luz do mundo” exprimem a mesma identidade da luz do Cristo em Jesus e em outros homens. Mas essa identidade da luz tem muitos graus de intensidade e manifestação; em muitos homens, a luz está sob o velador opaco do ego, ao passo que em Jesus estava ela no alto do candelabro da sua consciência crística. O evangelho do Cristo é rigorosamente monista, admitindo uma única essência manifestada em muitas existências.
  • 30. É O CRISTO A SEGUNDA PESSOA DA TRINDADE? Em Deus não há pessoa, nem uma, nem duas, nem três pessoas. A idéia de pessoa persona é invólucro, máscara, que compete somente às creaturas. No princípio do quarto século, sob os auspícios do Imperador romano Constantino Magno, tiveram os cristãos perseguidos a permissão de sair das catacumbas, onde viviam como adeptos de uma religião proibida. Com o despontar da liberdade começaram os cristãos a organizar-se e a analisar intelectualmente a sua grande experiência intuitiva. A filosofia cristã era o neo-platonismo, com sede em Alexandria. Mas as escolas neo-platônicas foram fechadas por ordem do Imperador, porque esta filosofia, essencialmente intuitiva-mística, não favorecia a constituição de uma poderosa hierarquia eclesiástica que unificasse as dezenas de igrejas cristãs, que se digladiavam. O platonismo intuitivo foi sucedido pelo aristotelismo analítico, que desde então, presidiu à formação da hierarquia e deu cunho à teologia eclesiástica, até atingir a sua culminância no século treze, pelo prestígio de Tomás de Aquino. Nesses séculos aristotélicos elaborou-se a idéia de um Deus uno em sua natureza e trino nas personalidades. Tomás de Aquino, em consequência de uma visão ou experiência mística, revogou toda a sua teologia analítica, declarando que tudo não passava de “palha”. Mas as doutrinas aristotélico-tomistas continuam até hoje como teologia oficial da igreja. Sendo a Divindade a própria Realidade ou Essência, nenhuma distinção de personalidade tem cabimento. A teologia, porém, não admite esse monismo impersonal, mas organizou um monoteísmo personal, dando personalidade a Deus e distinguindo nele três pessoas. O monoteísmo personalista é incompatível com a mensagem do Cristo – “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim, e eu estou no Pai... O Pai também está em vós e vós estais no Pai”.
  • 31. A visão de Jesus é inteiramente monista, e não monoteísta; para ele, há uma única Essência, que ele chama de Pai, a qual se manifesta em muitas existências, ou creaturas. Depois de afirmar “Eu e o Pai somos um”, acrescenta ele “mas o Pai é maior do que eu”, como se dissesse: Eu, o Cristo, estou na Divindade, mas eu não sou a Divindade, a Divindade é infinitamente maior do que eu. Ou então, em terminologia filosófica: Eu, a existência individual, sou uma manifestação da Essência Universal, que é maior que qualquer existência; vós também, meus discípulos, sois existências individuais,, manifestações da Essência única da Divindade. A manifestação individual da Divindade Universal é por ele chamada Deus. Quando foi acusado de se dizer Deus, não o negou, e acrescentou que também os homens eram Deus, isto é, manifestações individuais da Divindade Universal: “Vós também sois deuses”. Quando o Cristo se diz Deus, afirma ele que é uma manifestação individual da Divindade, mas não faz de si uma parcela ou pessoa da Divindade, como não faz dos homens parcelas ou pessoas da Divindade. Nenhuma creatura é parcela ou centelha, da Divindade, como querem os poetas; se a Divindade se parcelasse, ela se diminuiria na razão direta do seu parcelamento. As creaturas são apenas manifestações da Divindade, ou existencializações múltiplas da Essência una e única. O Universo é o melhor símbolo da Essência Única (Uno) manifestado em existências várias (verso). Podemos simbolizar a Divindade por um pensador, e as creaturas como seus pensamentos. O pensamento é uma manifestação parcial do pensador, mas não pode ser considerado como uma parcela componente e destacada do pensador. Quando a Infinita qualidade se manifesta em quantidades finitas, a qualidade não se parcela, não se divide, mas, continuando íntegra e imutável, manifesta externamente a sua realidade de interna. O Cristo não é a segunda pessoa da Trindade – assim como o Espírito Santo não é a terceira pessoa – como constitutivos da própria Divindade, que não é composta, mas infinitamente simples. A doutrina de um Deus Trino, nascida no princípio da Teologia eclesiástica, é uma prova frisante de que a Divindade não pode ser analisada, porque toda a análise supõe decomposição de um composto. A própria palavra grega analysis quer dizer dissolução. Quem analisa Deus é ateu.
  • 32. A suprema Divindade, só pode ser conhecida por intuição, experiência ou vivência íntima. Tudo que se pode analisar, pensar, falar, é finito. O Infinito não é analisável, pensável, dizível. A certeza de Deus não vem da análise, do pensamento – a certeza de Deus acontece ao homem quando ele se torna interiormente aberto e receptivo para receber a revelação do Infinito. “Quando o discípulo está pronto, então o Mestre aparece”. Desde o princípio do quarto século até o século 20 foi a igreja dominada pelo aristotelismo analítico, sobretudo de Tomás de Aquino; ultimamente há uma crescente prevalência do neoplatonismo intuitivo, que, como dissemos, era a filosofia dos luminares do cristianismo nos primeiros séculos. A filosofia oriental também admite três pessoas na Divindade suprema de Brahman, a saber: Brahma, Vishnu e Shiva. Mas essas três pessoas não são indivíduos, e sim funções da Divindade, que se revela como Brahma, o Creador; como Vishnu o Continuador, e como Shiva, o Consumador. Neste mesmo sentido monista, podem ser aceitas três pessoas como funções da Divindade: A Essência Una se manifesta incessantemente como existência iniciadora, continuadora e consumadora. O monoteísmo teológico se está aproximando cada vez mais do monismo filosófico; já admite, além da Divindade transcendente, o Deus imanente. Monismo não é panteísmo (tudo é Deus), mas pode ser chamado Panenteísmo (tudo em Deus). Como também admite Teilhard de Chardin: A Divindade transcendente é incognoscível; revelada como o Deus imanente, é cognoscível. O Cristo, segundo o Evangelho, é a primeira e mais alta emanação da Divindade, o “Unigênito do Pai”, segundo João; o “Primogênito de todas as creaturas”, segundo Paulo de Tarso. O Cristo é Deus, mas não é a Divindade.
  • 33. PORQUE O VERBO SE FEZ CARNE Dentro de poucos decênios, a humanidade celebrará o ano 2000 depois do nascimento de Jesus. A humanidade inteira, cristã e não cristã, conta a sua cronologia pelo nascimento de um pobre carpinteiro – e até hoje não sabemos bem porquê... É oportuno perguntar: Por que o Cristo cósmico, o Logos, o Verbo, se tornou pessoa humana? A resposta que os teólogos cristãos costumam dar a esta pergunta é conhecida: para salvar a humanidade. Entretanto, o próprio Jesus nada sabe dessa suposta salvação; ele mesmo nunca afirmou que viera ao mundo para este fim. Quando, na primeira páscoa, os discípulos de Emaús lamentavam a morte do Nazareno, perguntou-lhes ele, que incógnito os acompanhava: “Não devia então o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?” Nenhuma palavra sobre a suposta salvação da humanidade. Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, escreve: “Ele (o Cristo), que estava na glória de Deus, não julgou necessário aferrar-se a esta divina igualdade; mas esvaziou-se dos esplendores da Divindade e se tornou homem, servo, vítima, crucificado. Por isto, Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, de maneira que, em nome do Cristo, se dobram todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres, e todos confessam que ele é o Senhor”. Nenhuma palavra sobre o intuito de salvar a humanidade. Veladamente, Paulo faz ver que o Cristo, pela encarnação, se tornou maior do que era, que se tornou, por assim dizer, um super-Cristo, a tal ponto que todas as creaturas do Universo, celestes, terrestres e infra-terrestres, proclamem a sua suprema grandeza. E aqui voltamos à antidromia incompreensível dos avatares, de que falamos em outro capítulo. Todo o avatar se desapega dos esplendores da sua grandeza e desce à pequenez de mundos inferiores – para quê? Não primeiramente, como já dissemos, para redimir os habitantes destes mundos, mas para realizar a sua própria evolução ulterior.
  • 34. Para compreender essa estranha contra-corrida dos seres superiores, é necessário lembrar novamente que a lei suprema do Universo é evolução. Nenhuma creatura, por mais avançada, se acha no termo final da sua evolução. Esse termo, de fato, não existe; toda a creatura está numa permanente jornada para o além. Quanto mais liberto se sente um avatar, tanto maior é o seu desejo de se escravizar, porque a voz cósmica da sua consciência lhe diz que esta espontânea escravização é o único caminho para uma libertação ulterior. Quanto é pouco liberto não tem desejo de se escravizar – mas quem é muito liberto se escraviza voluntariamente. Não se trata aqui de uma “reencarnação”, no sentido tradicional, que seria compulsória. Trata-se de uma descida por amor, por excesso de liberdade. O amor que impele o avatar a realizar a sua descida é um auto-amor, o amor a uma auto-realização maior. O avatar, para “entrar em sua glória”, sai externamente dessa glória, como Paulo diz do Cristo, e desce à inglória da escravidão voluntária, da humilhação, do sofrimento, da morte, por ser este o único caminho de subir a regiões superiores, conforme exigem as leis cósmicas inexoráveis. Os horrores que Jesus sofreu no fim da sua vida terrestre são totalmente incompreensíveis senão à luz dessa gloriosa antidromia. Para que ele pudesse dizer, na cruz, a sua última e mais gloriosa palavra “está consumado”, quis ele humilhar-se até o ínfimo nadir da servidão, do vilipêndio, da infamação voluntária. No fim da sua vida terrestre, como se estivesse com pressa, reúne Jesus tudo que se possa imaginar de horrível e infamante. E, como se os sofrimentos físicos não lhe fossem suficientes, acrescentou sofrimentos metafísicos. No alto do Calvário, os chefes da sinagoga o desafiam solenemente para que, em prova da sua missão divina, desça da cruz: “Se tu és o Cristo, desce da cruz, e nós teremos fé em ti”. Provavelmente, muitos dos chefes da sinagoga receavam secretamente que Jesus atendesse ao desafio e descesse, glorioso, da cruz, que seria a derrota máxima da sinagoga. Jesus, porém, não desceu da cruz, não deu esta prova suprema da sua messianidade, tomando sobre si o opróbrio de ser um falso Messias, de enganar o povo com três anos de imposturas e magia negra. E, para cúmulo de humilhação, em vez de descer da cruz e assim provar a sua missão divina, fez exatamente o contrário: bradou em alta voz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.
  • 35. Os inimigos de Jesus devem ter soltado uma gargalhada de escárnio e de triunfo, ao ouvirem estas palavras. Ouvistes? – perguntou Caifaz, - o que ele disse? Que foi abandonado por Deus, que é um pseudo-Cristo... Razão tínhamos nós em dizer que ele era um falso Cristo, um aliado de satanás... Agora, no momento supremo, confessou a verdade – Deus o abandonou... É difícil conceber maior auto-difamação do que esta. Na sua corrida rumo ao nadir da voluntária humilhação, Jesus não poupa nenhuma oportunidade para arrazar a sua grandeza. Com este grito, entregou ele a seus inimigos o melhor punhal contra si mesmo. E seus discípulos e amigos, que ouviram este grito de abandono, que deviam eles pensar? Sua mãe, seu discípulo amado João, sua ardente discípula Madalena, todos eles ouviram que seu querido Mestre se confessou abandonado por Deus... E como podiam eles continuar a amá-lo e seguí-lo se o próprio Deus o havia abandonado?... Esta crudelíssima decepção dos seus devotados amigos e discípulos deve ter sido o derradeiro passo, nessa marcha acelerada rumo à auto-difamação e ao ego-esvaziamento. Estava terminada a corrida rumo ao nadir. Jesus, vendo, através dum véu de sangue, sua mãe e seu discípulo, ao pé da cruz, disse à mãe: “Eis aí teu filho”, e disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”. Depois de se desfazer desses últimos tesouros que ainda tinha na terra, estava ele totalmente liberto de tudo e de todos, e seu Cristo podia dizer: “Está consumado”. E por fim: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. É este o drama tragicamente glorioso da encarnação do Verbo.
  • 36. FOI JESUS UM LIBERTADOR? Nos últimos tempos apareceram diversos livros sobre a idéia do Cristo libertador. Alguns acham que o Nazareno era um revolucionário, um subversivo, que tentasse libertar Israel do domínio romano. À luz dos Evangelhos e de outras fontes históricas, é sem esperança querer provar essa hipótese, tanto mais que ele mesmo declarou explicitamente perante o governador romano Pilatos que o seu reino não era deste mundo. Ultimamente, um grupo de jesuítas publicou mais um livro sobre este tema, mostrando a inanidade dessas tendências políticas e revolucionárias de Jesus. Mas, quando os autores deste livro chegam à pergunta positiva “de que nos libertou Jesus?” recaem à rotina das teologias tradicionais: ele nos libertou dos nossos pecados pelo seu sangue. Quer dizer que os piedosos autores desse livro substituem uma pseudo-libertação por outra pseudo-libertação; substituem uma suposta alo-libertação política por uma alo-libertação moral. Ninguém pode ser liberto, se ele mesmo não se liberta. Ninguém pode receber de presente uma libertação; quem confia em alo-libertação, e não realizou a sua auto-libertação, não é realmente liberto. A liberdade verdadeira e única não nos pode ser dada como presente de berço ou por favor alheio; a verdadeira liberdade é a mais alta conquista da nossa consciência, ou seja, a genuína evolução ascensional do homem; é esta a sua grande e única tarefa aqui na terra e em qualquer outra existência extra-terrestre: libertar-se. Todos os que atribuem a Jesus intenções de libertação política ou social desconhecem radicalmente o caráter fundamental dele. Mesmo os teólogos cristãos que lhe atribuem a libertação coletiva da humanidade da escravidão dos pecados não fazem jus ao verdadeiro Cristo libertador. Bem sabia Jesus que nenhuma libertação – seja política, social ou moral – é possível sem a libertação individual; e ele sempre falou desta libertação, que ele mesmo possuía no mais alto grau. Qualquer outra libertação periférica era para ele uma pseudo-libertação, pela qual nunca se entusiasmou com grande decepção de seus conterrâneos e discípulos. Perante o governador romano, como já mencionamos, poucas horas antes da sua condenação à morte, afirmou o Nazareno: “Eu sou rei, mas o meu reino não é deste mundo”. Para os inexperientes é impossível compreender a que espécie de reino e de realeza ele se referia.
  • 37. Para Jesus a liberdade e libertação é um processo essencialmente individual. Desde a sua origem, é o homem escravo de si mesmo, se não se liberta individualmente dessa escravidão – e esta auto-libertação é a maior glória existencial da sua vida. O pólo negativo da natureza humana, o chamado ego, que o Gênesis simboliza pela serpente, oprime o pólo positivo do Eu, o chamado sopro de Deus. A tarefa fundamental e única da existência humana é precisamente a libertação dessa escravidão e a declaração da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Para este fim lhe foi dado o livre arbítrio. Sendo que Jesus possuía em grau supremo esta liberdade, não podia ele interessar-se por nenhuma liberdade ou libertação que não fosse a emancipação do homem da tirania da sua velha egocracia e a proclamação da gloriosa Cristocracia. Neste sentido resumiu ele toda a sua política e filosofia, sobretudo nas palavras lapidares “conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará”. Para ele, como para todos os verdadeiros iniciados, a liberdade é o produto do conhecimento do homem sobre si mesmo, um auto-conhecimento vivido como auto- realização. Verdade, liberdade, felicidade – esta trilogia é o centro da sua vivência individual e o cerne da mensagem do Cristo à humanidade. E, por ser tão radicalmente feliz, podia Jesus permitir qualquer sofrimento, porque nenhum sofrimento, nem a própria morte podem destruir a verdadeira felicidade baseada no conhecimento e na vivência do Eu divino. Jesus, o Cristo, é o maior libertador que a humanidade conhece.
  • 38. É O CRISTO NOSSO REDENTOR? É esta a idéia geral do povo e dos teólogos: o Cristo é o redentor ou salvador da humanidade. No alto do Corcovado está a gigantesca estátua do Cristo Redentor. Quer dizer que o Cristo é nosso redentor? Segundo os teólogos, quer dizer que o homem, desde o princípio, por obra de satanás, caiu no pecado, herdado depois por todos os homens; a humanidade toda é pecadora desde o nascimento, e cada homem se torna cada vez mais pecador por pecados pessoais. Quer dizer que o homem é um grande devedor, por herança e por atos próprios, e Deus é o grande credor. E, como o devedor é totalmente insolvente, incapaz de pagar a Deus os seus débitos, a humanidade está radicalmente falida perante a justiça divina, isto é, vítima de eterna condenação. Deus exige imperiosamente o pagamento da dívida que a humanidade contraiu, Deus se sente ofendido com os pecados da humanidade e exige satisfação. A dívida da humanidade é de infinita gravidade, como ouvi no catecismo e no curso de teologia – mas como a humanidade, falida e insolvente, poderia pagar a Deus um débito infinito? Deus, porém, não é somente justo, mas também misericordioso, e, sendo misericordioso, teve pena da humanidade e resolveu mandar à terra seu filho unigênito para pagar o débito dos homens. O Filho de Deus, o Cristo, de fez homem para poder, em nome dele, pagar o débito da humanidade, mas continua a ser Deus para que o seu ato de mediador tenha um valor Infinito. Estranhamento, o modo de pagar a Deus a dívida da humanidade foi o sofrimento e a morte do redentor; “o seu sangue nos purifica de todo pecado”. E assim, graças à morte de Jesus, nós somos salvos, libertos de toda a dívida de nossos pecados, reconciliados com Deus. É esta, mais ou menos, a ideologia que preside as nossas teologias sobre pecado e redenção. E há quase 2000 anos, essa tradição se cristalizou em verdade dogmática, passivamente aceita pela cristandade. Segundo a nossa lógica humana, parece razoável essa ideologia, quando, na realidade, é inaceitável, e até monstruosa, ao ponto de Arnold Toynbee ter
  • 39. escrito: “Se o Deus da nossa teologia existe, é ele o maior monstro do Universo”. Antes de tudo, é absurdo supor que uma creatura finita possa cometer uma falta de gravidade infinita. É inaceitável supor que o Deus soberano se possa sentir ofendido, quando o senso de ofensa e a ofendibilidade é atributo de um ego mesquinho. É repugnante a idéia que Deus seja vingativo e não queira perdoar a suposta ofensa de pobres creaturas. É revoltante admitir que Deus tenha exigido do único homem inocente o pagamento pelos delitos dos culpados. É monstruoso pensar que Deus tenha decretado o requinte das crueldades e uma morte atroz de seus Filho Unigênito, para se dar por quite da dívida da humanidade pecadora. *** Então, o Cristo não é nosso redentor? É, sim, mas em outro sentido, nobre e digno e perfeitamente aceitável. De que modo? Acima de tudo, que é que se entende por pecado e por redenção? Pecado é a vitória do nosso ego luciférico e a derrota do nosso Eu crístico, como já vem simbolizado desde o Gênesis, que fala do sibilo da serpente derrotando o sopro de Deus. Quando no primeiro homem a serpente do ego derrotou o sopro divino do Eu, cometeu o homem o primeiro pecado, porque as imutáveis leis cósmicas exigem a vitória do Eu superior sobre o ego inferior. O pecado é, pois, uma voluntária inversão das leis eternas. Essa inversão só se pode dar pela ilusão do ego. Mas, quando a verdade do Eu supera a ilusão do ego, então surge a redenção do homem. Pecado e redenção são, pois, atributos da própria natureza humana; o homem é derrotado pelo seu ego, e é vitorioso pelo seu Eu, e, graças a seu livre arbítrio, o homem é responsável tanto por sua derrota ou pecado, como por sua vitória ou redenção. Tanto o lúcifer como o Logos, tanto o diabo da perdição como o Cristo da redenção, estão dentro do homem, e compete ao homem fazer triunfar o seu Eu Crístico sobre seu Ego luciférico. O lúcifer interno e o Cristo interno do próprio homem são os fatores do pecado e da redenção, e o homem é autor tanto disto como daquilo. Não há nenhum Deus ofendido e vingativo que exija dum inocente o sofrimento pelo pecador. O ego pecador deve sofrer pela inversão das leis divinas em sua natureza humana;
  • 40. deve integrar-se voluntariamente no Eu Divino, e, como toda a integração do ego no Eu equivale a uma desintegração do ego, não pode o homem redimir-se sem essa morte do ego, sem esse “egocídio” – “se o grão do trigo (ego) não morrer, ficará estéril; mas, se morrer, produzirá muito fruto (Eu)”. Na pessoa humana de Jesus havia plena vitória do Eu crístico sobre o ego humano – “quem de vós me arguirá de um pecado?” – nunca o seu ego humano derrotou seu Eu divino, embora tentasse por diversas vezes, como nas trevas do Getsêmane e nos ardores do Gólgota. Por isto, Cristo é a realização do homem feito à imagem e semelhança de Deus, porque “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. E ele afirma que ele é, para nós, o Caminho, a Verdade e a Vida. Nele residia a plenitude do homem perfeito, e como toda a plenitude transborda necessariamente, “da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça”. Sendo que essa integração do inferior no superior equivale a uma desintegração daquele, e como toda a desintegração do ego é sofrimento, mostrou Jesus, nas últimas 15 horas da sua vida terrestre, que o homem deve estar disposto a tomar sobre si todo e qualquer sofrimento para realizar essa integração do seu ego humano no seu Eu divino. A Cristo-redenção, em que as teologias vêm uma alo-redenção, é uma genuína auto-redenção, uma redenção do homem pelo Cristo interno do seu Eu divino. Sem resistência não há evolução, e sem integração do menor no maior não há vitória. Todo o processo dos sofrimentos e da morte de Jesus equivale a um grandioso símbolo e a um insistente convite para o discípulo fazer o que o Mestre fez. O Cristo é o redentor da humanidade de um modo muito mais verdadeiro e glorioso do que imaginam as teologias tradicionais. Redimiu plenamente o seu Jesus humano pelo poder do seu Cristo divino – “não devia então o Cristo sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória” – divinizou e cristificou a sua natureza humana individual, mostrando a todos o roteiro a seguir, a redenção da natureza humana de cada um e sua plena cristificação ou auto-realização. Jesus, pela sua cristificação, através do seu sofrimento voluntário e vitorioso, mostra a todo o homem que ele pode entrar na sua glória pelo mesmo caminho – “exemplo vos dei pra que façais o que eu fiz”.
  • 41. PORQUE JESUS SOFREU E MORREU... O nosso cristianismo tradicional acha evidente o motivo da morte de Jesus: ele morreu para pagar os nossos pecados. Entretanto, o cristianismo do primeiro século não achava isto tão evidente; para os primeiros cristãos, a paixão e morte de Jesus eram um tenebroso enigma, como Frei Leonardo Boff, faz ver no seu livro “Jesus Cristo Libertador” (Editora Vozes). Era-lhes incompreensível porque Jesus, que, durante 33 anos, desafiara vitoriosamente as ciladas dos seus inimigos, se entregasse, nos últimos dias, à sanha deles, dizendo: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas”. E se deixou prender voluntariamente. Mesmo Paulo de Tarso, após a sua dramática conversão às portas de Damasco, estava perplexo em face do porquê da morte voluntária de Jesus, e, para solver o enigma, se retirou para os desertos da Arábia, e durante três longos anos meditou sobre esse mistério. Por fim, julgou haver encontrado uma solução plausível: associou a morte de Jesus à ideologia milenar da Sinagoga de Israel, que matava anualmente o “bode expiatório”, julgando que com a morte deste animal inocente, morriam os pecados de Israel. Paulo julgou ter descoberto que Jesus se entregou à morte para pagar com o seu sangue a dívida da humanidade perante um Deus ofendido. Mas, mesmo assim, não foi geralmente aceita pelo cristianismo primitivo esta solução. O próprio Jesus, que diversas vezes predisse a sua morte e ressureição, nunca afirmou que ia sofrer e morrer pelos pecados da humanidade. Muitos cristãos viam na morte do Nazareno a continuação da sorte de quase todos os profetas antigos: o justo não é tolerado pelos pecadores, no meio dos quais vive, e sofrer morte violenta. A idéia de uma morte expiatória não era opinião geral no primeiro século, e não deve ser “absolutizada”, como frisa o referido livro. A essa aceitação obstava também a idéia de que Deus se possa sentir ofendido pelos pecados e fizesse sofrer e morrer o único homem sem pecado para se dar por pago pelas culpas dos pecadores. Só muitos anos depois generalizou-se a idéia de que, como diz Paulo, “o sangue de Jesus nos purifica de todos os pecados”. A idéia duma alo-redenção, duma morte expiatória, como se vê, teve origem no judaísmo, e não no cristianismo. Nem Jesus nem os quatro evangelistas se
  • 42. referem a essa idéia de que Jesus tivesse morrido para pagar os pecados da humanidade – tanto mais que, segundo os teólogos cristãos, todo homem, ainda hoje, nasce outra vez em pecado. Nem o Quinto Evangelho, do Apóstolo Tomé, recentemente descoberto no Egito, se refere com uma só palavra à morte de Jesus por causa dos pecadores. Quando os discípulos de Emaús, na tarde da primeira Páscoa, se achavam decepcionados com a morte cruel de um inocente, não lhes respondeu Jesus, que os acompanhava incógnito, que era para pagar os pecados da humanidade, como teria dito qualquer teólogo de nossos dias; mas disse simplesmente: “Não devia o Cristo sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória?”. Com estas palavras insinua Jesus a verdadeira pista: sofreu e morreu voluntariamente para realizar-se a si mesmo, para entrar numa glória ainda maior. Esta idéia de auto-realização ulterior é incompreensível para muitos teólogos de hoje, porque acham que um homem como Jesus não era ulteriormente realizável. Na realidade porém ele mesmo insinuou essa realização ulterior. Toda a creatura, por mais evolvida, pode evolver ainda mais, porque a evolução é um processo indefinido e jamais definidamente terminado. O Cristo, segundo João, era o “Unigênito do Pai”, e, segundo Paulo, era o “Primogênito de todas as creaturas”; isto é, era “gênito”, creatura, e toda a creatura, mesmo teo-gênita ou primogênita, é finita e pode realizar ulteriormente a sua evolução, pode entrar numa glória maior. Jesus, apesar de tão altamente evolvido já ao entrar na vida terrestre, podia evolver ulteriormente, sob os auspícios do Cristo divino, como ele mesmo dá a entender no Gólgota. Quando diz “está consumado” dá por terminada a sua evolução terrestre, porque entrou em sua glória. Jesus sofreu e morreu voluntariamente a fim de completar a sua realização terrestre. E, sendo que toda a plenitude transborda necessariamente – “da a plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça”, como escreveu o discípulo amado – o transbordamento dessa plenitude do Cristo reverte em benefício de toda a humanidade. Todos nós fomos beneficiados pela plenitude da auto-realização de Jesus. Mas, repetimos, o motivo central da sua morte voluntária não foi a redenção da humanidade, mas sim a plenitude da auto-realização do próprio Cristo, como ele mesmo faz ver aos discípulos de Emaús. Todo o avatar, quando altamente evolvido e liberto do seu ego, sente a necessidade de servir voluntariamente “às creaturas inferiores”; e todo o serviço do maior aos menores, se revela num sofrimento voluntário.
  • 43. A verdadeira compreensão da natureza de Jesus torna compreensível o motivo do seu sofrimento e da sua morte voluntária. A entrada em sua glória é a sua evolução superior, a plenitude da sua auto-realização, da sua cristificação; porque em Jesus, como escreve Paulo de Tarso, “habita corporalmente toda a plenitude de Deus”, e, para realizar essa plenitude divina é que ele integrou todo o ego humano do seu Jesus no Eu divino do seu Cristo, desintegrando o seu corpo. Quando compreenderá a cristandade o Cristo verdadeiro?
  • 44. DE GLÓRIA EM GLÓRIA – PELA INGLÓRIA A verdadeira vida terrestre de Jesus só pode ser devidamente compreendida através das suas próprias palavras. Refere o Evangelho de João que, depois da última ceia, véspera da sua morte, levantou-se Jesus e assim falou: “Pai, é chegada a hora. Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em ti, antes que o mundo fosse feito”. Poucos dias depois, no domingo da ressureição, falando com os discípulos de Emaús, novamente se refere à sua glória: “Não devia então o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?” Antes da creação do mundo, e antes da encarnação do Verbo estava o Cristo na glória divina, como escreve Paulo de Tarso: “Ele, que estava na glória de Deus...” Depois da sua ressureição voltou para sua glória. Entre esses dois estados de glória, o de antes da encarnação e o depois da ressurreição, medeia um período de cerca de 33 anos, que, humanamente considerado, foi um período de inglória, sobretudo nos últimos dias da sua vida mortal. Entre a glória de ontem e a glória de amanhã jaz a inglória de hoje. Na última ceia, pede Jesus ao Pai que lhe restitua a glória que ele tinha em Deus; e aos discípulos de Emaús declara ele que entrou novamente em sua glória, pela voluntária inglória do sofrimento e da morte. Paulo de Tarso escreve aos cristãos de Filipes que o Cristo, graças a essa voluntária inglória, foi “super-exaltado” a uma glória maior do que tivera antes. É esta a estranha antidromia dos avatares: descer para subir, humilhar-se para ser exaltado. O céu do avatar não é só um céu gozado, mas um céu sofrido voluntariamente. A felicidade do avatar não é uma vida estática, mas uma vivência dinâmica, uma sinfonia sempre inacabada, movendo-se entre o gozo gozado e o sofrimento sofrido por amor. Por amor de quê?
  • 45. Por amor de uma evolução ainda maior, de uma glória superior à glória anterior, através da inglória voluntária. Do zênite da glória e do gozo desce o avatar ao nadir da inglória e do sofrimento, sob o imperativo duma auto- realização cada vez maior. Pois, todo o finito em demanda do Infinito está sempre a uma distância infinita. Mas o imperativo cósmico da evolução ascensional o convida a subir a alturas cada vez maiores, indefinidamente, por toda a eternidade. Esse incessante subir, e subir mais, de glória em glória, de amor em amor, de beatitude em beatitude, é que é a vida eterna do avatar. O avatar nada sabe de estagnação passiva, tudo sabe de evolução ativa. E, como não há evolução sem resistência, o avatar tem fome e sede de resistência, de luta, de sofrimento. E, se na zona excelsa da sua vivência não encontra essa resistência necessária, desce a regiões inferiores, em busca do meio necessário para sua evolução ulterior. Quando uma entidade de alta evolução entra num ambiente de baixa evolução, ingressa numa zona de resistência, de oposição, de sofrimento, de crucifixão. Entre a glória e a glória maior jaz a inglória – a gloriosa inglória dos grandes avatares. Neste signo de glória pela inglória decorre todo o plano Cristo-cósmico da encarnação e da ressureição, necessários para a plenitude dele e do Universo, na culminância do ponto ômega, como diria Teilhard de Chardin. O carácter das leis cósmicas é nitidamente evolutivo; nada de estagnação estática, tudo é evolução dinâmica. Entre o finito e o Infinito não existe nenhuma chegada, impera uma incessante jornada. Quem considera a vida de Jesus apenas à luz dos pecados da humanidade, não faz jus à excelcitude Cristo-cósmico.
  • 46. ONDE PASSOU JESUS A SUA JUVENTUDE? Existem numerosos livros que afirmam que Jesus passou a sua juventude, entre 12 e 30 anos, em países estrangeiros, no Egito, na Índia, no Tibet. Entretanto, as fontes históricas do primeiro século ignoram totalmente uma ausência de Jesus. Nem mesmo mencionam a sua presença entre os essênios, à margem do Mar Morto, onde provavelmente esteve com João Batista. Os Nazarenos, seus conterrâneos, estranham quando o jovem carpinteiro, aos trinta anos, aparece em público como profeta. Nem sequer frequentou escola, dizem eles. Os Nazarenos o conheciam como filho do carpinteiro José, que todos os dias trabalhava na oficina. Se Jesus tivesse estado ausente 18 anos, não teriam os seus conterrâneos alegado essa ausência em países longínquos, para explicar o mistério da sua grande sabedoria? Nem uma única palavra. Além disto, os cinco historiadores do primeiro século, Mateus, Marcos, Lucas, João e Paulo de Tarso, contemporâneos, e alguns deles conterrâneos de Jesus, nada sabem de uma ausência dele. Nem mesmo Paulo, homem viajado e erudito; nem Lucas, o médico grego, que diz no prefácio do seu Evangelho que investigou cuidadosamente, desde sua origem, todos os fatos referentes à vida de Jesus – ninguém menciona uma ausência do Nazareno. A narração da anunciação, que somente Lucas refere, faz crer que ele tenha estado pessoalmente com Maria, mãe de Jesus, que, entre o ano 58 e 60, ainda vivia em Jerusalém – e não teria Lucas, o meticuloso historiador, tido notícia dessa ausência de Jesus? Se Jesus tivesse passado longos anos no Egito, na Índia, no Tibet - esses países clássicos de iniciação esotérica – não teria ele, durante a sua vida pública, iniciado os seus discípulos, segundo o costume desses países, onde teria encontrado os seus mestres? Mas, nunca nenhum dos evangelistas menciona que Jesus tenha iniciado um só dos seus discípulos, nem mesmo Pedro, Tiago ou João, seus discípulos prediletos. O Mestre dá orientação a seus discípulos, mostrando o caminho por onde eles mesmos podiam iniciar-se nos mistérios do Reino de Deus, mas ele mesmo não os iniciou. Até ao fim da vida terrestre de Jesus, os discípulos dele continuam tão profanos como antes: alguns pedem licença para chamar fogo do céu para matar os samaritanos, que lhes negaram pousada; outros, ambiciosos, querem sentar-se um à direita e outro à esquerda do Mestre, no reino da sua glória. Todos entendiam pelo Reino de Deus a restauração da independência nacional de Israel; e ainda no
  • 47. último dia da vida terrestre do Mestre, na Ascensão, perguntam: “É agora que vais restabelecer o reino de Israel?” Nenhum vestígio de iniciação espiritual. Verdade é que, na gloriosa manhã de Pentecostes, 120 pessoas, homens e mulheres, se iniciaram nos mistérios do Reino de Deus – mas foi uma auto- iniciação, e não uma alo-iniciação; depois de 9 dias de silêncio e meditação, eclodiu neles a luz divina. E esse dia – provavelmente 30 de maio do ano 33 – foi o nascimento do verdadeiro cristianismo sobre a face da terra. Em face desse silêncio total, não podemos admitir como provável que Jesus tenha estado no Egito, na Índia, no Tibet, ou em outro país longínquo, nem como Mestre, nem mesmo como discípulo. E, contudo, o Nazareno foi o maior dos iniciados; passou pela auto-iniciação. Ele mesmo, nesses 18 anos de solidão relativa, nas montanhas da Galiléia, se iniciou no Reino dos Céus. As suas viagens de auto-iniciação não demandaram países alheios neste planeta terra, mas o próprio Universo, as “muitas moradas em casa do Pai Celeste”. Já aos 12 anos, após três dias de silêncio e interiorização, em algum recanto de Jerusalém, revela Jesus uma sabedoria tão surpreendente que encheu de estupefação os chefes espirituais de Israel. Depois dessa eclosão inicial, continuou ele o itinerário espiritual durante 18 anos, até culminar, aos 30 anos, quando começou a falar ao povo, em parábolas sobre os mistérios do Reino de Deus, que ele mesmo vivera intensamente durante esses anos. Lucas, o consciencioso historiador, liquida com uma única frase esses 18 anos de auto-iniciação, dizendo: “E Jesus foi crescendo em graça e sabedoria, perante Deus e os homens”. Como podiam os historiadores humanos saber desses mistérios esotéricos? Ninguém acompanhou o adolescente nas suas vastas experiências pelos reinos ignotos do Pai. Essas viagens cósmicas do jovem carpinteiro não foram realizadas necessariamente pelas regiões do cosmo de fora, mas sim pelo cosmos de dentro, porquanto “o Reino de Deus está dentro de vós”. Por isto, os evangelistas fazem bem em silenciar totalmente o período entre 12 e os 30 anos de Jesus
  • 48. O BODE EXPIATÓRIO NO JUDAÍSMO E NO CRISTIANISMO Por espaço de cerca de 2000 anos, desde Abraão, ou, pelo menos, desde Moisés, praticou Israel a cerimônia do bode expiatório. Cada ano reunia-se o povo de Israel na esplanada do templo de Jerusalém. O sumo sacerdote colocava as mãos sobre a cabeça de um cabrito, transferindo para esse animal os pecados do povo. Depois, esse “bode expiatório” era tocado para o deserto e precipitado por um barranco abaixo, onde morria. E com ele morriam todos os pecados de Israel, como era crença geral. Um mensageiro voltava, agitando uma bandeira branca e exclamando: “Deus extinguiu os pecados de seu povo, aleluia! aleluia!” E havia grande alegria em Israel, porque todos se sentiam como carta branca – e podiam carregar de novo o carro de lixo para o próximo ano. Israel não celebra mais o ritual do bode expiatório. Com a destruição do templo de Jerusalém, no ano 70, e a dispersão dos Judeus por todos os quadrantes do Império Romano, terminou também a cerimônia do bode expiatório. O novo Estado de Israel, criado há poucos decênios não voltou a praticar esse simbolismo. Infelizmente, porém, a idéia do bode expiatório, que morreu para o judaísmo, continua no cristianismo, com a diferença de que agora o bode expiatório não é mais um animal inocente, que, morrendo, extinga os pecados humanos, mas sim o único homem sem pecado que, segundo a teologia, paga com sua morte os pecados da humanidade. Esta ideologia se baseia em diversos equívocos. Supõe que Deus possa ser ofendido por suas creaturas – quando até homens avançados como Mahatma Gandhi, atingem uma completa inofendibilidade. Quem não se sente ofendido não precisa vingar-se nem perdoar; mas, quem se sente ofendido, pode vingar- se da ofensa, ou então perdoá-la. Deus, porém, o Deus da teologia, ofendido pelos homens, não se vinga, nem perdoa, mas exige satisfação pela ofensa. Mas, como o homem é pecador é insolvente, incapaz de saldar o seu débito, Deus exige que um homem não pecador pague o débito dos devedores. E, como o único homem sem pecado é Jesus, é ele considerado como único pagador capaz de extinguir os pecados da humanidade. E o pagamento só pode ser feito com sangue, com o sangue inocente do único homem sem pecado. O bode expiatório Jesus tem de morrer, derramando o seu sangue, para que o Divino Credor ofendido se dê por satisfeito. Tomás de Aquino, considerando o maior teólogo cristão, diz, num dos seus poemas espirituais,
  • 49. que uma única gota do sangue de Jesus seria suficiente para pagar todos os débitos da humanidade, mas que Jesus, por excessiva bondade, quis derramar até a última gota do seu sangue para pagar os pecados da humanidade. Depois desse pagamento dos pecados da humanidade pelo sangue de Jesus, era de esperar que o homem estivesse quite com a justiça divina; mas os teólogos ensinam que todo o homem nasce de novo em estado de pecado, vive e morre cheio de pecados – não se sabe em virtude de que lógica... Outro equívoco dos teólogos é a idéia de que um não-pecador alheio possa pagar os pecados de outro pecador. Na realidade, porém, cada pecador tem de pagar por seus próprios pecados. O que alguém semeou, isto colherá. Ninguém pode encarregar outra pessoa como procurador de agir em lugar do culpado. Não vigora semelhante política no Reino de Deus. Ninguém pode salvar alguém; cada um deve salvar-se a si mesmo. Mas, como pode um pecador absolver-se dos seus pecados? Não é isto um círculo vicioso? Assim seria se o homem fosse apenas o seu ego pecador, insolvente; mas todo o homem é também o seu Eu redentor; apesar de ser pecador na sua periferia humana, continua a ser sem pecado no seu divino; a imagem e semelhança de Deus mão se apagou com o pecado. Quem peca é o ego periférico – quem redime é o Eu central, o “Pai em nós”, o “Cristo interno”. Enquanto o ego pecador não conscientizar e vivenciar o seu Eu crístico, continua ele pecador; mas, se despertar em si a consciência da sua Divindade e viver de acordo com ela, redime-se dos seus pecados; os seus muitos pecados lhe serão perdoados, porque muito amou; e esse “muito amou” é o despertamento do Eu redentor. Nenhum bode expiatório alheio me pode libertar dos meus pecados – eu mesmo, no meu Eu divino, devo libertar-me dos pecados do meu ego humano. Somente a consciência e vivência da minha essência divina me pode libertar dos pecados da minha existência humana. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, conhecereis a verdade sobre vós mesmos, e esta verdade conscientizada e vivida, vos libertará do pecado, que temos, mas que não somos. Nós somos o Eu divino, e temos o ego humano. Toda a redenção é uma auto-redenção, mas não uma ego-redenção. O autós, ou Eu do homem é o seu Cristo interno. Auto-conhecimento transbordando em auto-realização é auto-redenção. Quando o nosso cristianismo teológico culminar em cristicidade divina, então desaparecerá esse equívoco da alo-redenção, e nascerá a verdade da auto- redenção, da redenção pelo Cristo interno, sem nenhum bode expiatório alheio.
  • 50. FUNDOU JESUS UMA IGREJA? Sim – e não. Depende do que se entende por igreja. A palavra grega ekklesia, e o vocabulário no ecclesia, ocorrem repetidas vezes nos Evangelhos. A tradução portuguesa é igreja. Mas o que, hoje em dia, se entende por igreja é algo totalmente diferente do sentido primitivo desta palavra. Igreja é, para nós, uma organização social e hierárquica, com seu chefe humano e com sua constituição jurídica. Tomás de Aquino defende a igreja como uma sociedade perfeita, dotada de poder executivo, poder legislativo e poder judiciário. A igreja, segundo este conceito teológico, desenvolvido desde o quarto século, é uma organização estatal, cujo funcionamento obedece às mesmas normas de qualquer outro governo. Este é o aspecto jurídico-legal da igreja. No Evangelho, porém, a palavra igreja nada tem que ver com este conceito. Todo o Evangelho do Cristo gravita em torno do conceito central do “reino de Deus”, ou “reino dos céus” – e esse reino coincide exatamente com o que o Evangelho entende por igreja. Sendo que Jesus falava constantemente do “reino”, perguntaram-lhes os discípulos: “Mestre, onde está o reino de Deus?”. Respondeu Jesus: “O reino de Deus não vem com observâncias, nem se pode dizer: ei-lo aqui ei-lo acolá – o reino de Deus está dentro de vós... mas é como um tesouro oculto, como uma luz debaixo do velador, como uma pérola no fundo do mar”. O quinto evangelho, do apóstolo Tomé, encontrado recentemente no Egito, e já traduzida em todas as línguas, também, em português, trata explicitamente deste reino de Deus, no mundo e no homem, dessa igreja verdadeira, interna, real, invisível. O Mestre nega explicitamente que o reino de Deus possa ser descoberto por meio de observação; que ele tenha localização geográfica, e possa apontá-lo a dedo, dizendo: aqui está o reino, acolá está o reino. Depois, resumindo tudo, termina ele: O reino de Deus está dentro de vós.
  • 51. A tradução “está entre vós”, como se fosse um fenômeno apenas social, é falsa; tanto o texto grego do primeiro século como o texto latino posterior dizem “está dentro de vós”, isto é, no interior da alma humana. Com isto nega o Mestre que se trate de uma organização social, com sua constituição, seus três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Na sexta-feira santa, no pretório romano de Jerusalém, Pôncio Pilatos, governador romano da Judéia, perguntou a Jesus se ele era rei, e o acusado respondeu que sim, mas que o seu reino não era deste mundo. O reino de Deus existe potencialmente em toda a creatura humana, e o homem tem de conscientizar e desenvolver este reino. Hoje em dia, o movimento mundial de auto-conhecimento e auto-realização não visa outra coisa senão a conscientização do reino de Deus no homem e a vivência de acordo com ele. A verdadeira igreja do Cristo nada tem que ver com organização social ou jurídico-legal. Por que então foi fundada a igreja visível? A igreja visível foi fundada pelos homens, pelos teólogos, e pode coexistir com a igreja invisível, assim como o corpo é o aspecto material da alma espiritual. Mas seria absurdo dizer que a alma tem cabeça, pernas, braços, etc. A alma ou essência da igreja é o reino interno em cada indivíduo; o corpo ou a existência da igreja pode ser uma sociedade visível, contanto que esta não procure suplantar aquela, mas viva em perfeita harmonia como manifestação visível da igreja invisível. Em caso de conflito entre o corpo da igreja e a alma da igreja devemos abandonar o corpo e afirmar somente a alma. A alma invisível do reino de Deus pode manifestar-se através de vários corpos visíveis – contanto que não haja identificação entre a alma e o corpo, entre o reino interno e a organização externa. Sendo que o grosso da humanidade é e sempre foi infantil e espiritualmente imaturo, apareceu a mensagem metafísica do Cristo em forma de pedagogia infantil, como é toda a teologia. Essa interpretação pedagógica da mensagem cósmica do Cristo é um mal necessário, porque a maior parte da humanidade não está, nem nunca esteve, em condições de compreender e assimilar o espírito do reino invisível – e é melhor que as massas primitivas tenham uma disciplina pedagógica do que nada. Já no primeiro século escrevia Paulo de Tarso aos cristãos: “Aos que, entre vós, são infantes em Cristo, dei-lhes leite para beber – mas aos que são adultos em Cristo, dei-lhes comida sólida”.
  • 52. Vinte séculos não foram suficientes para que muitas dessas crianças se tornassem adultas em espírito. A evolução vai com passos mínimos em espaços máximos. Infelizmente, muitos chefes cristãos têm interesse – social, político e financeiro e financeiro – em manter a cristandade no seu estágio infantil de obediência cega, porque nenhum chefe pode governar homens espiritualmente adultos. A adultez espiritual é autônoma e auto-determinante, e não obedece servilmente a ordens heterônomas. Se toda a cristandade estivesse espiritualmente adulta, não haveria necessidade da existência de uma igreja visível, porque a igreja é essencialmente invisível, o reino de Deus dentro do homem. Na razão direta que crescer a Cristocracia, decrescerá a clerocracia. E, quando a Cristocracia tiver atingido 100, a clerocracia descerá a 0. Parece que João, no Apocalipse, previu esta Cristocracia triunfante, quando escrevia: “Haverá um novo céu e uma nova terra, e o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra.”. Os chefes espirituais podem e devem ser orientadores do povo, setas indicadoras ao longo do caminho, mas não intermediários entre o homem e Deus. Mas, para ser orientador e guia para outros, deve o homem ter realizado em si mesmo o reino de Deus. Do contrário, será um “guia cego guiando outros cegos”. Não basta dizer e fazer – é necessário ser, em espírito e verdade, aquilo que recomendamos aos outros.