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FREUD, S. Repressão. In Obras Completas. Ed Standard Brasileira. Riode Janeiro: Imago, 1980, Vol. XIV, p. 171.Id. Ibid., p...
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CARTA DE UM ADOLESCENTE: A QUESTÃO DO SUJEITO

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Análise do recurso da produção textual de adolescente em consultório psicopedagógico, como uma das possibilidades de tratamento através do embasamento teórico da psicanálise de Freud.

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CARTA DE UM ADOLESCENTE: A QUESTÃO DO SUJEITO

  1. 1. CARTA DE UM ADOLESCENTE: A QUESTÃO DO SUJEITOSilvana BartilottiIntrodução:Um adolescente, que doravante será chamado apenas “A”, foiencaminhado para tratamento psicopedagógico por estar com baixorendimento escolar.Quando foi avaliado, percebeu-se que ele não tinha dificuldade deaprender, mas apenas não dispunha de espaço para tais conteúdos,devido ao grau de preenchimento com suas questões pessoais, tãoprofundas, vitais...Iniciando otratamento, ‘A” com seu jeito sensível, confiou suas dúvidas ecertezas à psicopedagoga. Sabia que não era mais um menino e sentiasua responsabilidade.Nesta dialética do “não ser mais X então ser” pressentia que algum dia iriasaber e vacilava se suportaria. Demonstrava grande solidão individual, e de tão lúcido, sentia-seirreal, causava a impressão de que andava perdido. Dentro dele tudo seapagava e cada noite parecia a última. Sentia-se como estivessemorrendo. Nesse vendaval, lia o social quegerava sentidos invertidos, que oestado normal do indivíduo, num mundolouco como é o nosso, é mesmo aloucura. Forma absolutamente poética e original de denunciar, da maneiramais sutil, a inversão de valores, a perversão da condição humana nummundo injusto como o de hoje. Daí começou a expressar na forma escrita, como processo de autorevelação e possibilidade de cura, sua angústia de vida, do existir, desaber-se parte deste todo, tendo dimensão do humano, cujosemelhantesjamais se entenderam. E numa tentativa de complementariedade passa aviver montando invisível.Dentre as produções de texto elaboradas durante o período trabalhadoselecionou-se um recorte, é uma carta à sua mãe para fazer análise dapresença do sujeito psíquico. Neste artigo contempla-se a pertinência da produção textual produzidopor um adolescente em consultório psicopedagógico, como uma daspossibilidades de tratamento. Para tanto, usar-se –á, como embasamentoteórico, a psicanálise freudiana.
  2. 2. Vale ressaltar cuidar-se de um trabalho de psicopedagogia clínica, oqualfocou-se não somente o sujeito aprendente, cognoscente mas,principalmente, em como esse sujeito de desejo ( inconsciente) -seconstitui e de como ele articula para construir conhecimento.Embasamento Teórico- Teoria Psicanalítica Freudiana Tomar-se-ão como princípios norteadores a: Teoria do recalque – o aparelho psíquico tem três planos: oInconsciente(ID), que são as primeiras impressões; o Pré-Consciente (Superego), formado pelo sub- consciente e o consciente; e o Consciente(Ego), externo. Na passagem do Inconsciente para o Superego forma-se a primeiracensura ( Repressão) que deixa uma cicatriz ( Recalque). A passagem quese dá dentro do Superego, ou seja entre o sub-consciente e o conscienteforma uma segunda censura (Filtro) e dá-se a fixação. Segundo Freud, o recalque seria: “uma primeira fase de repressão ( leia-se do Recalcado) queconsisteem negar entrada no consciente ao representante psíquico (ideacional) do instinto ( pulsão). Com isso, esta- belece-seuma fixação, a partir de então o representanteem questão continua inalterado e o instinto ( leia-se pulsão) permanece ligado a ele” O recalque é oriundo de uma situação de desprazer cuja essênciaconsiste em afastar determinadas representações do consciente (pensamentos, imagens e recordações); mantendo-se no insconciente. Os sintomas se explicam por um retorno do recalcado. A noção do inconsciente (ID) – essência da teoria psicanalítica, podeser considerado um sistema psíquico distinto dos demais e dotado deatividade própria. “Tudo que é reprimido deve permanecer noinconsciente; mas logo de início declaramos que o reprimido não abrangetudo que é inconsciente. O alcance do inconsciente é mais amplo, oreprimido é apenas uma parte do inconsciente”. A importância da dinâmica da transferência –Quando ou onde? Aemergência do recalcado é a própria emergência dos derivados doinconsciente, que somente através de um processo analítico ( detransferência) podem tornar-se consciente.
  3. 3. Visão panorâmica sobre o desenvolvimento infantil – Freud divide o desenvolvimento em diversas fases, divididas em estágios, a saber:Oral- Onde a zona bucal é a fonte corporal de todas as excitações pulsionais. O objeto desta etapa é oseio, ou seja, tudo que se refere ao seio materno ou seu substituto. A funçãonutritiva acham-se associadas ao ato de sugar.Sádico- anal – O ato de defecar ocupa lugar importante no desenvolvimento psicossexual da criança. O bolo fecal é um elemento concreto, herdeiro do objeto-peito da fase precedente e, por outro lado, antecessor do pênis, objeto da fase subsequente. O bolo fecal representaum valor de troca entre a criança e o meio- externo. Nesta etapa a criançadiferencia, através do controle esfincteriano, o mundo externo do interno e as fezes passam a ser vivenciadas como conteúdos que são exteriorizados. Há um aspecto dual no relacionamento objetal por não ser este ainda o triangular edípico, desde quando inexiste diferenciação sexual nesta fase.Fálico -Os órgãos sexuais serão alvo de concentração energética pulsional.Pode-se perceber que a diferença sexual não é propriamentepercebidae sim negada, pois ambos os sexos acreditam na existência do pênis, onde este não existe. A aceitação da diferença sexual acarretaria a perda da ilusão de quetodos seríamos iguais. A significação que adquire a descoberta da desigualdadeficará marcada no psiquismo e contribuirá para a construção do sujeito e de suas relações objetais. A criança começa a ter diversos questionamentos sobre a origem das diferenças, vivenciando angústias, tendo, entretanto, uma noção de sua posição no mundo, de qual é o lugar ocupado por ela dentro desta estrutura. Há a queda da onipotência narcísica da infância, relacionando este “não” estruturante à impossibilidade de construção de desejos edípicos. Genital – O último estágio. Nele se fundamenta a organização central da personalidade humana, que é o complexo de Édipo. Um conflito que envolve três personagens, pai, mãe e sujeito, pessoas que vão adquirindo papéis diversos em diferentes momentos. O aparelho psíquico apresenta sua organização entre 5 e 6 anos, quando a triangulação edipiana é maior. Este se completa na adolescência e na puberdade, quando, após já terem sido feitas as identificações com os progenitores, o sujeito parte para o exercício de sua sexualidade fora deles. Adolescência, a construção do sujeito social – A adolescência traz problemas inerentes à própria transição, como por exemplo, distinguir
  4. 4. passado, presente e futuro. A questão do tempo é uma característica doinconsciente, como Freud apresentou em A interpretação dos sonhos, e Nesta dificuldade temporal encontram-se quase todas dificuldades doadolescente para vive-las, todas vinculadas à sua identidade: quem eleserá no amanhã e que que amanhã será este, tão incerto, que não segarante mais a certeza de um diploma universitário...... A busca de identidade está intrinsecamente ligada aos lutos, queprecisa viver, entre a perda da infância, do próprio corpo, que setransforma; e que lhe é desconhecido à medida que surge. O adolescentevive uma perda de referência, sentida interna e externamente através doseu corpo que se transforma,suas glândulas sexuais começam a atuar deforma mais sensível, gerando os sentimentos de perda do corpo infantil. Oque pode esperar, senão insatisfação e desequilíbrio? São consideradas características da adolescência a saída dadependência, em busca da independência; a necessidade de transformar ocontrole externo em controle interno frente a uma sociedade que reprimea sexualidade. Há aí reversão dos impulsos lidibinosos e comoconsequênciasurgem o medo, a ansiedade, os sintomas neuróticos e aagressividade. O sujeito social vive dois momentos de nascimento : biológico e osocial. O primeiro é o acesso à condição de adulto e o outro é aparticipação cultural. O desenvolvimento psico- sexual da criança, se conduz através dasfases oral, anal e fálica. A fase fálica,que corresponde apuberdade, équando vivencia intensamente a dialética edípica, para que se dê asuperação do complexo de Édipo. É esta superação que permite aoindivíduo a entrada na cultura e até a formação de sociedades. SegundoFreud é o romper dos vínculos familiares, sair de grupos fechados e entrarem grupos maiores, o que permite ao sujeito ser social.Texto recortado: Mãe Ultimamente, venho escrevendo meus sentimentos pela família, e os escrevo nos dias em que comemoramos os mais importantes de nossa vida, o nascimento. Desta vez, faço diferente escrevo um dia após o seu aniversário, pois queria primeiro vivenciá-lo para depois
  5. 5. redigir meus pensamentos. Vocênasceu num dia muito bonito que é o dia de São Francisco de Assis. E quem não gostou da homenagem que lhe fizeram? Acho que os 15 anos ficaram na memória e acho que as homenagens que foram feitas para você nos seus 35 anos ficarão na memória de todos que ali estavam presentes. Tudo isso graças a Eduardo, pai adorado e esposo dedicado, ele sempre surpreendendo a todos nós! Tudo que foi feito foi para mostrar mais uma vez que você é amada por todos nós. Você, também, surpreendeu a todos, quando falou com palavras emocionadas o que sentia de todo aquele esforço que foi feito por você. É isso, unamos a família e que a paz esteja conosco. Que Deus a abençoe mais uma vez, que lhe dê saúde, paz interior e felicidades, você merece!Análise do texto em interação clínica:No trabalho clínico procura-se propor um “fazer”que traga prazera “A”.Percebe-se, como está dito no citado texto, o desejo de “escrever seussentimentos”, entãosugeriu-se trabalhar com produção escrita, o que foide pronto acolhido e assim foram escritas várias cartas, analisadas passoa passo. Entre elas a ora apresentada. O fato da escolha de um personagem (carta à mãe) a quem se dirigeé de primordial importância. A estrutura de personagem representa aestrutura familiar e repete o conflito edipiano vivido por “A”. “A” age com seuspersonagens, repetindo nomes que foram“amados”, “gritados”, “sussurrados”, falados” e odiados”, antes de seremcolocados na escrita. Através do ato de escrever, “A” vive os sentimentos dediscriminaçãoentre eu X mundo ( Mãe), desfazendo o sentimento de unidade familiar (simbiose). Vivenciando esta individuação, sente-se só e entra em contatocom a “falta”. Procurando fazer um rastreamento de sua história questiona sobre otempo em que ele não escrevia, mas que havia sentimento. “A” poderelembrar que vivera por volta dos 6 ou 7 anos uma época de muitossentimentos ruins ( medos, angústias, tristeza), vivenciou estessentimentos ( em transferência) e pode assim buscar possibilidades dereparação.
  6. 6. “A” demonstra que a dinâmica da transferência ocupa um lugarsignificativo e que o processo foi bem vivenciado, quando escreveu (.....primeiro vivenciá-lo para depois redigir....), endossando o sucesso do seutrabalho, mantendo um nível de comunicação com a psicopedagoga. Fala-se sobre o contraste entre “pai adorado” X “mãe amada pornós”. “A” reconhece seu amor pelo pai e entra em contato com umsofrimento enorme, amar a mãe ( como os outros familiares). Quando fala que “os 15 anos ficaram na memória”, pontua queexistem fatos que não ficam na memória e que é preciso recordar..... O que “A” conseguiu lembrar não era suficiente para esclarecer sobresua dor, marcou-se uma reunião com a mãe e pediu-se a ela que contasse“o dia mais importante da vida de “A”: o nascimento”. A mãe estava envolvida no tratamento, procurou facilitar ao máximo, econtou a “A” que ele veio num momento não esperado e ao dar a luz elasofrera um derrame facial, o que impossibilitou sua relação com “a”, queficou sob os cuidados paternos, história até então ignorada por “A”. Recuperada esta lembrança, “A” pode perceber a profundidade deseu texto, tomando consciência que os fatos sempre estiveram ali, só queeram desconhecidos. Gradativamente, pode minimizar sua angústia, omedo que o invadia, ganhando uma identidade pessoal e realizando umprocesso de separação.Conclusões: A adolescência com a natural sucessão de perdas fez emergir a pulsãode morte. A noção de não viver a própria vida, vincula-se à falta deidentidade pessoal. Para “A” foi, também, o momento de reviver o conflito edipiano, pai Xmãe X sujeito. A adolescência revela a necessidade do sujeito discriminar-se,delinear-se, buscar espaços, contornos, separações, entrar em contatocom a individualização e com a “falta” para só depois poder buscar acompletude que proporcionará ao sujeito a busca da realização através deestudos, do trabalho e da vida social. Produzir textos, criar personagens, num lugar detransferência torna-seimportante deflagrador do processo de auto-conhecimento,desvelamentos e possíveis reparações.Notas:
  7. 7. FREUD, S. Repressão. In Obras Completas. Ed Standard Brasileira. Riode Janeiro: Imago, 1980, Vol. XIV, p. 171.Id. Ibid., pág.191.Id. Dinâmica da Transferência. In Obras Completas. Vol.XI.Fonte consultada: KUSNETZOFF, J. C. In Introdução à PsicopatologiaPsicanalítica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

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