Glossolalia, símbolo de poder na igreja de Corinto

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Glossolalia, símbolo de poder na igreja de Corinto

  1. 1. Mitologia e Literatura Sagrada 165GLOSSOLALIA, SÍMBOLO DE PODER NA IGREJA DE CORINTOIsrael Serique dos Santos1 Desde o surgimento das ciências sociais as lentes pelas quais ohomem via o mundo deixaram de ser aquelas da ingênua leitura da harmoniasocial, e passou-se para a percepção de esquemas de poder, dominação,alienação e relações conflituosas entre classes sócias, gêneros, etnias, etc. E noavançar desta nova percepção surge o modelo conflitual de análise dos textossagrados cristãos. Entre os acadêmicos que tem se utilizado desta ferramentapara melhor elucidar os textos da religião cristã temos Joel Antônio Ferreira que,em sua obra “Paulo, Jesus e os marginalizados – Leitura conflitual do NovoTestamento”, afirma: Este modelo olha a sociedade não tanto como unidade estrutural estável mas como estrutura em tensão. A sociedade esta, na realidade, composta por uma pluralidade de grupos, cada um dos quais tende a conseguir seus próprios objetivos, protegendo os interesses específicos e de seus membros ... O modelo conflitual parte de uma visão dinâmica da sociedade. Ao contemplar os interesses das pessoas e dos grupos, este modelo leva a reconhecer a mudança e o conflito como fatores permanentes da sociedade. (FERREIRA, 2009, p. 49) Por esta perspectiva busca-se encontrar elementos que tragam àtona a real situação histórica no qual o cristianismo originário estava envolvido, afim de que – pela análise das tramas de poder, dominação e alienação – ospobres, as mulheres, os estrangeiros, os escravos, e toda sorte de classes depessoas, sejam evidenciados e os esquemas de exploração e inviabilizaçãosocial sejam denunciados, a partir dos exemplos bíblicos. Nossa pesquisa, portanto, fundamenta-se nestes pressupostos evisa analisar a glossolalia, na comunidade cristã de Corinto, como símbolo depoder e exclusão social; bem como evidenciar a proposta paulina como soluçãopara tal problema.1 Teólogo e mestrando em Ciências da religião pela PUC-GO.Goiânia, v.1, n.1, p. 165-171,2010.
  2. 2. 166 Anais do III Congresso Internacional em Ciências da Religião da PUC Goiás2. A pessoa do Apóstolo Paulo O apóstolo Paulo era um homem de seu tempo. Judeu pordescendência e romano por nascimento, visto ter nascido na cidade romana deTarso; carregava consigo um cabedal eclético de conhecimento que faziaintersecção entre a cultura judaica, grega e romana. Como judeu estudou na escola rabínica de Jerusalém aos pés deGamaliel, um dos mais importantes rabinos de sua época, e aprendeu toda atradição da lei mosaica em suas mais diferentes vertentes de interpretação eespecialmente pelas lentes do farisaísmo. Entretanto, como pessoa, cujo corpoe mente estavam abertos para o mundo greco-romano, tal apóstolo estavafamiliarizado tanto com as escolas de pensamentos filosóficos de seu tempo- como é o caso do estoicismo, como com as mais variadas expressõesreligiosas e seus respectivos mitos (como era o caso dos oráculos proferidos pormeio de glossolalia pelas pitonizas de Delfos). Neste contexto, portanto, Paulo, ao se corresponder com acomunidade cristã de Corinto, para tratar sobre a questão da glossolalia, tinhaconsigo duas ferramentas que poderia muito bem usar com o fim de dirimir asdúvidas existentes naquela igreja e ajustar sua vida comunitária. A primeiraferramenta era o seu conhecimento e simpatia para com a filosofia estóica, aqual pregava a igualdade entre os homens, uma vez serem estes membros doUno2 -, e a segunda era sua ciência sobre as práticas glossolálicas existentesem outras expressões religiosas de seu tempo, o que, possivelmente,possibilitou-o a fazer análises e comparações com aquilo que estava presentena comunidade corintiana.3. A igreja de Corinto A comunidade cristã de Corinto, nos seus primeiros anos deformação, passou por grandes desafios que militaram contra sua unidadeorgânica e espiritual. A linguagem na qual Paulo formata sua epístola mostranão poucos pontos de tensão existente e que mereciam a devida atenção daparte deste apóstolo.2 O problema do Uno e do Múltiplo não é tema exclusivo das obras paulinas, das Teologias oureligiões, mas foi inaugurado por Platão e percorreu os debates entre universalistas enominalistas na história da filosofia ocodental. Pode-se verificar esses embates entre Platão eSofistas, Agostinho e os nominalistas de sua época, Descartes e Hume, analíticos ehegelianos contemporâneos. Goiânia, v. 1, n.1, p.165-171, 2010.
  3. 3. Mitologia e Literatura Sagrada 167 Em sua epístola ele faz citação às divisões (BÍLBIA SAGRADA,1Co1,10, 1993) existentes no seio da comunidade; ao partidarismo (BÍLBIASAGRADA, 1Co 1,12; 3,3-6, 1993); à super valorização de atos miraculosos(BÍLBIA SAGRADA, 1Co 1,22, 1993) e da filosofia (BÍLBIA SAGRADA, 1Co1,22, 1993), em detrimento da mensagem da cruz (BÍLBIA SAGRADA, 1Co1,23-24); às dissensões entre os irmãos – ao ponto de alguns levarem outrosdiante do tribunal secular (BÍLBIA SAGRADA, 1Co 6,1-8, 1993) –; e váriaspráticas consideradas não apropriadas aqueles que professavam a nova fé emCristo (BÍLBIA SAGRADA, 1Co 5,6; 6,9-11, 1993).34. A Questão Glossolálica Entretanto, além destas questões muito sérias, o apóstolo dosgentios faz referências claras e enfáticas à glossolalia como sendo fomentadorade dificuldades na comunidade ao ponto de ser necessário, aos olhos doapóstolo, uma formatação litúrgica nos termos daquilo que ele mesmo orientouem 1 Co 14:26-28. 26 Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. 27 No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. 28 Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. Fenômeno semelhante já se fazia presente na religião greco-romana,na qual, por meio de suas mitologias, atribuía-se a determinadas mulheres,poderes de proferirem profecias através de sons desarticulados, sob ainspiração do deus Apolo. Tais mulheres eram denominadas de pitonizas e suaspalavras eram tomadas como autoritativas, pois eram consideradas como vindasdo próprio deus Apolo aquele que viera à Delfos para pedir orientação.3 Deve-se observar que em I Co 6:9 a expressão “não vos enganeis”, no texto grego, estávazada em uma estrutura gramatical (partícula negativa + verbo no tempo presente doimperativo) cujo sentido do texto deve ser melhor entendido como sendo uma ordem para separar um ação em progresso, ou seja, “parem de se enganar”.Goiânia, v. 1, n.1, p.165-171, 2010
  4. 4. 168 Anais do III Congresso Internacional em Ciências da Religião da PUC GoiásNo cristianismo primitivo a glossolalia terá sua própria caminhada.Primeiramente aparece como sendo símbolo da universal graça divina (BÍBLIASAGRADA, At 2,1-11); porém, num segundo momento, no escrito paulino de ICoríntios, como um símbolo de poder que impunha a vontade e a personalidadede uma classe seleta sobre os demais cristãos que não podiam arrogar-se comosendo possuidores de tal carisma divino. Ora, essa polissemia que se encontrana glossolalia faz parte da própria natureza do símbolo, tal como afirma Croatto: O símbolo é, então, um elemento desse mundo fenomênico (desde uma coisa até uma pessoa ou um acontecimento [grifo nosso]) que foi “transfigurado”, enquanto significa algo além de seu próprio sentido primário. (CROATTO, 2001 p.87) Essa possibilidade de pluralidade de significados no símbolo édecorrente da realidade que o homo religiosus interage com o mundofenomênico e atribui a seus seres aqueles significados que melhor se harmonizacom os seus propósitos. Noutras palavras, o valor e o significado do símbolo nãotêm sua origem em si mesmo, mas no homem4 que, como ser que faz cultura,constrói um cosmos que lhe seja plausível e lhe ofereça significado. Como símbolo, também, a glossolalia cumpria uma função relacional(CROATO, 2001, p. 107) visto que por meio dele certas pessoas sesolidarizavam e reconheciam-se como iniciadas em algo que os fazia distintosdo restantes das pessoas comuns com as quais interagiam cotidianamente.Nisto, então, como símbolo de poder, a glossolalia, em Corinto, positivamentedestacava um certo grupo concedendo aos seus partícipes o status de maiorespiritualidade, maior proximidade e comunhão com o deus cristão. Em segundolugar, ela negativamente – com quanto não se4 Cabe ressaltar que a questão do homem como primeiro princípio do significado das coisasfoi introduzida por Protágoras, inaugurando o período sofístico e socrático da culturaocidental. Para Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”. Esta mesma tese é,resguardando as devidas proporções histórico-filosóficas, retomada pelos filósofos modernos:René descartes (1596-1650), David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant (1724-1804). Noaspecto teórico da modernidade, o critério do Eu – anteriormente definido por Protágorascomo homem – está na base de qualquer conhecimento e, portanto, é quem estabelece,mediante símbolos, o significado de todas as coisas. Goiânia, v. 1, n.1, p.165-171, 2010.
  5. 5. Mitologia e Literatura Sagrada 169manifestava em outro grupo – desqualificava aqueles que não manifestavam talexperiência mística. Noutras palavras, a superioridade de determinadas pessoase o poder que elas exerciam sobre a comunidade corintiana era viabilizada elegitimada pela glossolalia; esta era o sinal que validava e justificava qualqueringerência de terminadas pessoas nas questões eclesiásticas em Corinto e até,possivelmente, como ainda hoje ocorre, na vida privada daqueles quepertencem à mesma comunidade religiosa. Evidência desta relação entre glossolalia e poder podemos identificarno texto de I Co 12:12-31 (Cf. BÍBLIA SAGRADA, 1993) quando Paulo citadeterminadas expressões como: “não podem os olhos dizer às mãos: nãoprecisamos de ti...” (BÍBLIA SAGRADA, 1Co 12,21, 1993), “... os membros docorpo que parecem mais fracos” (BÍBLIA SAGRADA, 1Co 12, 1993) e “... e osque nos parecem menos dignos” (BÍBLIA SAGRADA, 1Co 12,23, 1993). Porestas três expressões percebemos, em linhas gerais, os sentimentos deautosuficiência e superioridade que residia naqueles que se consideravam maisespirituais por possuírem determinados tipos de dons; e entre eles, a glossolalia(BÍBLIA SAGRADA, 1Co 12,30, 1993).5. A PROPOSTA DE PAULO Diante do quadro supracitado, Paulo expõe aos cristãos de Corintouma proposta de solução aquele sistema de coisas, que muito se assemelhavaao pensamento do estóico Sêneca nos seguintes pontos:5 a. Primeiramente pelo uso, por analogia, da igreja como sendo o “corpo de Cristo” e o corpo humano como sendo um organismo harmônico cujas partes, em suas mais variadas funções, completam- se e, em equilíbrio, trabalham em uma relação vital no qual todos são beneficiados (I Co 12). b. Em segundo lugar, como conseqüência do primeiro enunciado, a dignidade e igualdade entre os homens, visto que todos procediam da razão (logos) divina (BÍBLIA SAGRADA, I Co 12, 1993; ZANELA, 2009).5 10 E embora não haver registro histórico de um encontro entre o estóico Sêneca e o cristãoPaulo, fica evidente, pelos escritos paulinos que, possivelmente, houve uma relativa influênciado primeiro sobre o segundo, uma vez que encontramos nos escritos deste apóstolo preceitosque muito bem se harmonizam com o estoicismo.Goiânia, v. 1, n.1, p.165-171, 2010.
  6. 6. 170 Anais do III Congresso Internacional em CiÊncias da Religião da PUC Goiás c. E, em terceiro lugar, na ênfase ao amor como virtude a ser cultivada e lei pela qual as ações humanas devam ser conduzidas (BÍBLIA SAGRADA, 1Co 13, 2009). No primeiro elemento, Paulo afirma as diferenças e mostra suautilidade dentro do contexto de um “corpo” que possui as mais variadasnecessidade a serem supridas. Neste contexto, o ensino apostólico caminhapela via das diferenças que proporcionam o bem-estar de todos. Ou seja, haviaa necessidade do EU e do TU com vistas a uma mútua cooperação na qualtodos seriam supridos e o corpo seria são. No segundo, o apóstolo apela à comunidade corintiana queconsiderasse atentamente para o fato de que a sabedoria divina havia dispostocada membro em seu devido lugar, e que, portanto, ninguém deveria pensar desi além do que convinha e nem prejulgar o seu próximo como sendo de poucoou de nenhum valor por não estar na mesma posição ou possuir a mesmafunção na comunidade eclesiástica. Ora, se todos haviam sido alocados porDeus, então, certamente, todos eram igualmente úteis à causa do Evangelho e acomunidade, visto que todas as ações divinas são acompanhadas pelasabedoria. Por fim, no terceiro, o pensamento paulino se organiza rumo aoápice de todo seu pensamento teológico e ético; ou seja, rumo ao amor (agape),no qual todas as coisas que realmente tem valor permanente e são virtuosas semantêm. Pelo agape todas as querelas poderiam ser resolvidas visto ser ele odom supremo que possibilitava o bom uso dos demais carismas e uma vidacomunitária mais harmoniosa. Nas palavras de Paulo em 1Co 13:408: “...O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, 5 não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; 6 não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; 7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 8 O amor jamais acaba...” (BÍBLIA SAGRADA, 1993).REFERÊNCIASBÍBLIA SAGRADA: Antigo e Novo Testamento. Traduzida em português porJoão Ferreira de Almeida. 2. ed. Ver. Atual. São Paulo: Sociedade Bíblica doBrasil, 1993. Goiânia, v. 1, n.1, p.165-171, 2010.
  7. 7. Mitologia e Literatura Sagrada 171CHAVE LINGUÍSTICA DO NOVO TESTAMENTO. São Paulo: Vida nova, 1995.DICIONÁRIO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO. 2ed. São Paulo: Vida Nova,2.O NOVO TESTAMENTO EM GREGO ANALÍTICO. 1. ed. em português. SãoPaulo: Vida Nova, 1987.O NOVO TESTAMENTO INTERLINEAR. São Paulo: Sociedade bíblica doBrasil, 2004.CHAMPLIN, Norman. O NOVO TESTAMENTO INTERPRETADO VERSÍCULOPOR VERSÍCULO. São Paulo: A voz bíblica. Guaratinguetá, V. IVCROATO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: umaintrodução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2001.FERREIRA, Joel Antônio. Paulo, Jesus e os marginalizados: Leitura conflitual doNovo Testamento. Goiânia: UCG, 2009.MIRANDA, Marcos Vinícius Fernandes; OLIVEIRA Terezinha, O pórtico e a cruz:uma análise do diálogo entre o estoicismo romano e o cristianismo. Disponívelem: http://cj.uenp.edu.br/ch/anpuh/textos/091.pdf. Acessado em 08/11/09.TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. Trad. Jaci Maraschin. 3. ed. SãoPaulo: ASTE, 2004.ZANELA, Diego Carlos. O cosmopolitismo estóico. Disponível em:http://www.pucrs.br/edipucrs/IVmostra/IV_MOSTRA_PDF/Filosofia/71646-DIEGO_CARLOS_ZANELLA.pdf. Acessado em 08/11/09.Texto não presente na obraResumo: A comunidade cristã corintiana, por volta do ano 55 a.D., estava passando por umacrise orgânica sem precedentes, uma vez que havia em seu seio questões relacionadas àética, moral, liderança comunitária, partidos eclesiásticos, usos e costumes que careciam deuma orientação apostólica equilibrada e fomentadora de concórdia, tolerância e amor. Nestaconjuntura, há no texto paulino, a citação da glossolalia como mais uma das tantas questõesconflituais existentes na igreja de Corinto e que evidencia um processo de anomia coletivo eindividual que estava se estabelecendo naquele cristianismo originário. Neste contexto, então,Paulo propõe o ágape como meio condutor através do qual o carismata glossolálico poder serconduzido para aquele fim primeiro idealizado pelo Deus cristão, ou seja, a mútua edificaçãodo corpo congregacional.Palavras-chave: Glossolalia; Ágape; Carismata; Conflitos; CorpoGoiânia, v. 1, n.1, p.165-171, 2010.

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